E-book "O Baixo São Francisco: características ambientais e sociais", vol II

E-book resultante da IV Expedição Científica do Baixo São Francisco, realizada em 2021. Organizadores: Emerson Carlos Soares, José Vieira Silva e Themis Jesus Silva. Maceió, AL: EDUFAL; 2022. ISBN: 978-65-5624-107-4.

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                    Emerson Carlos Soares l José Vieira Silva l Themis Jesus Silva
(Org.)

Volume II

Emerson Carlos Soares
José Vieira Silva
Themis Jesus Silva
(Org.)

O BAIXO SÃO FRANCISCO:
CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E
SOCIAIS
VOLUME II

MACEIÓ-AL
2022

AGRADECIMENTOS
A Equipe das Expedições Científicas do São Francisco agradece:
A Ufal, CBHSF, MCTI, Codevasf, Semarh-AL e Fapeal, pelo investimento em
ciência e pesquisas no Rio São Francisco;
Ao Grande Rafa Navas, querido “Rafinha”, um dos organizadores das expedições
que nos deixou tão precocemente, nosso carinho especial a este grande ser humano, que nos
fez acreditar ser possível transformar a vida das pessoas, nosso muito obrigado.
Ao atual presidente e ao ex-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica de São
Francisco, José Maciel Nunes de Oliveira e Anivaldo Miranda.
Aos pescadores Rodrigo, Márcio e Victor;
Aos cozinheiros Antônio e Jairo;
Aos tripulantes das barcas Maravilhosa e Magnífica;
Ao Marcos, piloto da lancha da Codevasf;
A Antônio Fon e à Equipe de Fotografia, pelos ajustes fotográficos dos peixes;
A Mozart Bispo, Vanildo Oliveira, Maraísa Feitosa e Hanna Francyelle, pela ajuda
nas imagens dos peixes e na preparação da estrutura para a recepção dos exemplares;
A Sérgio Marinho, da Codevasf, imagens de peixes cedidas;
A Pedreira Triunfo (Marcos), Arigool e Tanto Expresso (Paulo), além da Agência
Peixe Vivo (Manoel, Rubia, Thiago, Berenice e Célia Fróes) e à Fundepes (Lailla e Taciana),
pela organização, pelo apoio às ações e pela confecção da marca de nosso trabalho;
Agradecimento especial à Equipe da Reitoria (nossos reitores Josealdo Tonholo e
Eliane Cavalcanti); à Proginst ( Jarman); ao DCF (Cléo) e ao Ceca (Karina), todos da Ufal;
Agradecimentos especiais às doutoras Joana Girard e Sônia Costa e ao Giordano,
do MCTI;
Ao ex-secretário interino de Meio Ambiente de Alagoas, Pedro Brito, e ao exsuperintendente de Recursos Hídricos Aberonaldo, ambos da Semarh-AL;
Ao Mestre do Rio, Antônio Jackson Borges Lima, por conceder-nos o privilégio de
utilizar o Comendador do Rio para nossas pesquisas, bem como pelo apoio de sua tripulação;
Ao Sr. Everaldo Fernandes da Silva, por suas informações sobre embarcações naufragadas;
À Universidade Federal de Sergipe (UFS) e ao seu Laboratório de Topografia Aplicada
(Labtop), pelo apoio no processamento das imagens do capítulo sobre geoprocessamento;
A todos/as os/as coordenadores/as de Saúde Bucal, funcionários das escolas e gestores
dos municípios por onde a Expedição fez passagem, gratidão por todo o acolhimento e
dedicação para a realização deste trabalho;
À equipe da TV Gazeta, nas pessoas de Amorim Neto e Aldo Corrêa;
Aos prefeitos de: Piranhas – Tiago Freitas; Pão de Açúcar – Jorge Dantas; Traipu
– Lucas Santos; São Brás – Klinger Quirino; Propriá – Valberto Lima; Igreja Nova – Vera
Dantas; e Penedo – Ronaldo Lopes
Agradecimento especial aos secretários Jorge Mcfly e Eduardo Clemente, e Patrícia
Brasil e André Leal, todos de Piranhas;
A todos/as os/as que fazem parte das instituições participantes da Expedição Científica
do Baixo São Francisco, pela experiência incrível e pela confiança.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
Reitor

Josealdo Tonholo

Vice-reitora

Eliane Aparecida Holanda Cavalcanti

Diretor da Edufal

José Ivamilson Silva Barbalho

Conselho Editorial Edufal

José Ivamilson Silva Barbalho (Presidente)
Fernanda Lins de Lima (Secretária)
Amaro Hélio Leite da Silva
Anderson de Alencar Menezes
Bruno César Cavalcanti
Cícero Péricles de Oliveira Carvalho
Cristiane Cyrino Estevão
Flávio Augusto de Aguiar Moraes
Janayna da Silva Ávila
Juliana Roberta Theodoro de Lima
Marcos Paulo de Oliveira Sobral
Mário Jorge Jucá
Murilo Cavalcante Alves
Rachel Rocha de Almeida Barros
Victor Sarmento Souto
Walter Matias Lima

Coordenação editorial
Fernanda Lins
Projeto gráfico: Janielly Almeida
Diagramação: Janielly Almeida
Revisão ortográfica e Normalização (ABNT): Carol Almeida Ribeiro
Imagem da Capa: Eduardo Lúcio dos Santos e Emilly Valentim
Montagem da Capa: Mariana Lessa e Janielly Almeida
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecário: Marcelino de Carvalho Freitas Neto – CRB-4 - 1767

			
B164
O Baixo São Francisco [recurso eletrônico] : características ambientais
e sociais / Emerson Carlos Soares, José Vieira Silva, Themis
Jesus Silva, organizadores. – Maceió, AL: EDUFAL; 2022.
v.2 (483 p.) : il.
E-book.
Inclui bibliografias.
ISBN: 978-65-5624-107-4
Expedição Científica Baixo São Francisco
1. São Francisco, Rio. 2. Meio ambiente. 3. Expedições científicas.
I. Soares, Emerson Carlos. II. Silva, José Vieira. III. Silva, Themis
Jesus.

							CDU: 910.4
Direitos desta edição reservados à
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SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO: O programa das expedições científicas do São Francisco .................07
PREFÁCIO.................................................................................................................09
PREFÁCIO.................................................................................................................11
CAPÍTULO 1 - Ictiofauna do Baixo São Francisco.......................................................12
CAPÍTULO 2 - Avaliação do Estado de Saúde de Peixes do Baixo São Francisco: Um Estudo
Histopatológico................................................................................................................46
CAPÍTULO 3 - Monitoramento dos Aspectos Reprodutivos dos Peixes do Rio São
Francisco.........................................................................................................................68
CAPÍTULO 4 - Distribuição de Mercúrio em Peixes de Diferentes Níveis Tróficos do Baixo
São Francisco..................................................................................................................84
CAPÍTULO 5 - Biomonitoramento Ambiental Utilizando Peixes Coletados nas III e IV
Expedições Científicas do São Francisco............................................................................99
CAPÍTULO 6 - Avaliação Microbiológica de Pescados Comercializados em Feiras Livres de
Oito Municípios do Baixo São Francisco, Alagoas, Brasil................................................122
CAPÍTULO 7 - Monitoramento Acústico Passivo (Map) do Rio São Francisco............136
CAPÍTULO 8 - Atividade Pesqueira no Baixo São Francisco: III e IV Expedições........ 153
CAPÍTULO 9 - Estrutura da Comunidade Fitoplanctônica do Baixo São Francisco (Alagoas
e Sergipe).......................................................................................................................179
CAPÍTULO 10 - Monitoramento de Pesticidas no Baixo São Francisco.........................198
CAPÍTULO 11 - Avaliação do Teor de Óleos e Graxas no Baixo São Francisco..............221
CAPÍTULO 12 - A Salinidade da Água no Baixo São Francisco................................... 235

CAPÍTULO 13 - Estrutura Fitossociológica e Densidade Populacional do Caranguejo-Uçá
no Bosque de Mangue da Foz do Rio São Francisco..........................................................249
CAPÍTULO 14 - A Carta Arqueológica Subaquática do Baixo São Francisco: Contribuições da
Arqueologia de Ambientes Aquáticos às Expedições Científicas do Rio São Francisco.................265
CAPÍTULO 15 - Áreas Ciliares do Baixo São Francisco: Fragmentos Florestais e Fauna
Associada........................................................................................................................291
CAPÍTULO 16 - Diagnóstico do Aspecto Cênico da Paisagem com Ênfase nos Recursos
Naturais na Região do Baixo São Francisco a partir de Imagens Obtidas por Veículo Aéreo Não
Tripulado (Vant)............................................................................................................314
CAPÍTULO 17 - Perfil Mineralógico e da Fertilidade dos Solos da Região do Baixo São
Francisco: Análise Preliminar..........................................................................................341
CAPÍTULO 18 - Uso e Ocupação dos Solos da Bacia e Caracterização Hidroambiental........355
CAPÍTULO 19 - Testagens em RT-qPCR para Rastreamento da Covid-19 em Municípios
Ribeirinhos Localizados no Baixo São Francisco...............................................................373
CAPÍTULO 20 - Perfil e Ações de Promoção de Saúde Bucal nas Comunidades Ribeirinhas
da Região do Baixo São Francisco....................................................................................393
CAPÍTULO 21 - Indicações Geográficas na Região do Baixo São Francisco: Prospecção de
Campo para Avaliação do Potencial para Novos Reconhecimentos, com Destaque para a Ilha do
Ferro.............................................................................................................................415
CAPÍTULO 22 - Fossas Agroecológicas para o Tratamento de Efluentes Sanitários em Escolas
Municipais do Baixo São Francisco.................................................................................434
CAPÍTULO 23 - Ações de Comunicação na 4ª Expedição: Estratégias e Resultados........447
SOBRE OS AUTORES............................................................................................471

APRESENTAÇÃO
O Programa das Expedições Científicas do São Francisco
O Programa surgiu com o objetivo de bioprospectar, conhecer e divulgar a situação
do Baixo São Francisco quanto aos aspectos sociais de comunidades ribeirinhas, comunidades
de pescadores, situação da pesca, identificar os impactos e a qualidade da água do rio, a
ictiofauna, problemas ocasionados pelo represamento, assoreamento, desmatamento, avaliar
os poluentes presentes no ambiente aquático e o uso de agrotóxicos e os efeitos da cunha
salina sobre as comunidades ribeirinhas e o ambiente, para propor ações mitigadoras por
meio de programas de educação ambiental e ações prático-científicas.
O intuito do projeto é alavancar, na região, uma nova atividade participativa, por
intermédio do conhecimento, através do monitoramento dos principais indicadores sociais e
econômicos e dos impactos ambientais, assegurando a qualidade e a segurança alimentar. Tem
também o enfoque de chamar a atenção para a situação do rio e seus problemas e divulgá-los
para os principais órgãos de fomento e governantes, propondo ações para reduzir os impactos
e a degradação da qualidade ambiental.
Avaliando a necessidade de gerar políticas públicas embasadas em dados científicos,
as expedições científicas propõem a elaboração de grande diagnóstico e a definição de
políticas públicas de modo participativo e multidisciplinar sobre a situação econômica, social
e ambiental da região do Baixo São Francisco, observando os impactos da pesca, poluição
aquática, desmatamento e assoreamento, patologias e parasitologia de peixes e crustáceos,
índices de metais pesados e pesticidas e sua influência na qualidade do pescado e da água,
determinando o perfil socioeconômico, qualificando a situação da saúde das populações
ribeirinhas, adotando medidas de educação ambiental efetivas e caracterizando o manejo de
diversas culturas intensivas sobre a qualidade da água para, com isso, efetivar um programa de
biomonitoramento ambiental da calha principal do Rio São Francisco, utilizando tecnologias
de ponta para a determinação de um padrão ambiental, com o intuito de propor ações
mitigadores para os ecossistemas existentes na região em estudo.
As Expedições Científicas no Baixo São Francisco tiveram início em 2018, quando,
durante cinco dias, cerca de 40 pesquisadores trabalharam em várias temáticas, como:
educação ambiental, pesca, socioeconomia, ictiofauna, análise de água e de metais pesados,
assoreamento, dentre outras, em cinco municípios do Baixo São Francisco (Traipu, Porto Real
do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu), culminando na publicação de um diagnóstico
referente a 2018, e, em junho de 2019, a publicação de um artigo científico sobre os dados
dessa primeira edição.
Em 2019, foi realizada a II Expedição Científica, com 50 pesquisadores e técnicos
de 16 instituições que, durante 10 dias, trabalharam nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio-Propriá, Igreja Nova, Penedo-Neópolis, Piaçabuçu
e na foz do São Francisco. Esta expedição teve por objetivo principal estudar todo o Baixo
São Francisco, coletando informações e dados para, de posse dos resultados, propor ações
para reduzir os problemas no rio.
Em 2020, mesmo diante da pandemia da Covid-19, o trabalho foi realizado com
53 pesquisadores, em 30 áreas. O projeto e as pesquisas desenvolvidas consolidaram de vez
as expedições e mostraram que é possível fazer ciência sem que nenhum pesquisador ou
tripulante adoeça, tornando-se o Programa das Expedições Científicas do São Francisco,
como consequência, o maior evento prático científico do Brasil.

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Em 2021, a exemplo dos anos anteriores, a Expedição Científica fez um trabalho em
35 linhas de pesquisa, com cerca de 66 pesquisadores, contemplando: Saúde bucal, oncologia,
parasitoses e fisioterapia, qualidade de água e contaminantes; Pesca, ictiofauna, biodiversidade,
tecnologia do pescado, reprodução de peixes; Tecnologias sociais e ambientais (certificação
orgânica, manejo do solo, educação ambiental, doação de kits e jogos escolares às escolas
rurais, doação de minitratores para associações, doação de notebooks e datashows para ações de
educação ambiental, doação de PEV para coleta seletiva); Geoprocessamento, assoreamento,
mata, Propriedade Intelectual, turismo de base comunitária, extração de produtos de plantas
nativas da Caatinga, arqueologia subaquática e topologia do rio. Os municípios contemplados
em 2021 foram: Piranhas-AL, Pão de Açúcar-AL, Traipu-AL, São Brás-AL, Propriá-SE,
Igreja Nova-AL, Penedo-AL, Piaçabuçu-AL e Brejo Grande-SE. Além de seu caráter
científico, a iniciativa ampliou as ações sociais com comunidades.
As pesquisas são realizadas in loco e nos diversos laboratórios, oriundas de esforços,
fomento, apoio e ações de instituições como Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Comitê
de Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de Alagoas (Fapeal), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
Tabuleiros Costeiros, Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do
Parnaíba (Codevasf )-5SR, Universidade Federal de Sergipe (UFS), Instituto de Inovação
para o Desenvolvimento Rural Sustentável de Alagoas (Emater), Universidade Federal da
Paraíba (UFPB), Universidade Federal de Rondônia (Unir), Secretaria de Meio Ambiente
e Recursos Hídricos de Alagoas (Semarh-AL), Universidade Federal Rural de Pernambuco
(UFRPE), Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), TV Gazeta de Alagoas,
Pedreira Triunfo, Agência Peixe Vivo, Fundação Universitária de Desenvolvimento de
Extensão e Pesquisa (Fundepes).

Os Organizadores

8

PREFÁCIO
Palavra do Reitor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal)
Expedição – segundo o dicionário, este substantivo feminino traduz o “ato ou efeito
de expedir, de enviar, de fazer com que algo chegue a seu destino; despacho, remessa”. Ou
seja, fazer algo chegar aonde tem que estar. Mas, via de regra, o termo também é usado para
atingir locais longínquos, que dificilmente são acessados ou cujo caminho é extenuante ou
difícil... Mas o mesmo dicionário traz, ainda, uma segunda definição: “presteza de execução;
diligência, prontidão”, que caracteriza a capacidade de dedicação e entrega do ator envolvido
numa missão.
Perdoe-me o dicionário, mas eu prefiro usar uma definição que envolve o conceito
misto das duas acima expostas, que vai muito além da compilação que contém as palavras de
uma língua, apresentando seu significado, sua utilização, etimologia, sinônimos, antônimos
ou tradução. Prefiro a definição expressa por aqueles que tiveram uma experiência realmente
experimentada e vivida. Assim, atrevo-me a atribuir um significado específico para as
Expedições Científicas do Rio São Francisco: “a capacidade de fazer chegar a cada rincão
ribeirinho o especial olhar da ciência e do conhecimento, através de olhos e mentes generosos
e dedicados”. Talvez não seja a melhor definição, até porque meus olhos viram apenas uma
pequena parte da generosidade do time da Expedição em ação e da alegria dos ribeirinhos
de receberem a Universidade.
A Expedição é complexa por si, pois tenta entender o que já foi um dia, o que é hoje
e o que vai ser o amanhã de uma das bacias hidrográficas mais importantes do mundo. Para
tal, tem que mobilizar conhecimento multidisciplinar e de alta qualidade; tem que mobilizar
infraestrutura; tem que sensibilizar gente.
Falamos, aqui, de generosidade, dos cientistas e de avidez pela ciência raramente
apresentada àquela gente. Falamos, aqui, da importância de conhecer e reconhecer o território.
Falamos, aqui, da necessidade de preservação do que sobrou e da recomposição de um ambiente
que foi duramente castigado pelo uso indiscriminado. Falamos, aqui, de água de beber e água
para irrigar. Falamos, aqui, de comida boa, de cultura, de flora e de fauna. Falamos, aqui, de
desenvolvimento e de dignidade humana.
A Expedição cuida de conhecer, mas cuida também de propor e atuar no hoje.
Iniciativa inédita e inovadora, ousada e focada. Cientistas interagindo com as águas, com a
terra, com os ares e com a gente. População e pesquisadores de mãos dadas nos barcos e em
terra. Juntos, conhecendo e agindo para tentar devolver um pouco da dignidade àquele Rio
que leva o nome do Santo do Desapego.
A Universidade Federal de Alagoas tem, nas Expedições, uma atividade
institucionalizada e prioritária, que agrega equipes multi e interdisciplinares, resultando em
pesquisa de qualidade, atividades de extensão impactantes e uma interação com o território
jamais vista. Se o Rio São Francisco é de todo o país, é aqui – na divisa entre Alagoas e
Sergipe – que o Velho Chico ganha o mundo. Cabe à Ufal, às Universidades e Instituições
parceiras conhecê-lo mais.
Os relatos que vamos encontrar neste livro vão muito além da questão ambiental.
Passam pela Saúde, pela Cultura e pela Geopolítica. Passam pelos hábitos de nossa gente,
passam pela comida e pela produção da agricultura familiar, passam pela pesca e pelo cultivo,

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

passam pela religiosidade e pela arquitetura. Passam por tanta gente e por tantos lugares como
só o Rio da Integração Nacional poderia fazer... Conhecer e respeitar o Rio São Francisco
é mais que ato de generosidade. É cidadania.
Vivas à Expedição!
Vivas aos nossos Expedicionários!

JosealdoTonholo
Reitor da Universidade Federal de Alagoas

10

PREFÁCIO
Palavra do Presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica do São Francisco
(CBHSF)
Não há como buscar soluções para os problemas que assolam o Velho Chico sem
o conhecimento científico. É a ciência a única ferramenta capaz de, através de uma série
de pesquisas e experimentos, comprovar teorias, suposições e hipóteses. O São Francisco
passa por um processo avançado de degradação, o que nós, leigos, conseguimos ver a olho
nu. E, quando dizemos isso, referimo-nos não apenas ao meio ambiente, mas às populações
que vivem às suas margens e que dele tiram o seu sustento, diretamente atingidas, seja por
problemas de salinização das águas, seja por poluentes lançados no rio que afetam os peixes,
alimento dessas comunidades, dentre outros fatores.
Mas o que fazer para frear esse processo?
A Universidade Federal de Alagoas promove, desde 2018, a Expedição Científica
do Baixo São Francisco. O intuito do projeto é alavancar, na região, uma nova atividade
participativa por intermédio do conhecimento e do monitoramento dos principais indicadores
sociais e econômicos e dos impactos ambientais, assegurando a qualidade e a segurança
alimentar. O grande foco é chamar a atenção para a situação do rio e seus problemas e
divulgá-los para os principais órgãos de fomento e governantes, propondo ações para mitigar
os impactos e a degradação da qualidade ambiental.
Da mesma forma, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF)
tem como meta implantar e desenvolver uma gestão capaz de assegurar, de forma racional e
justa, os usos múltiplos, a preservação do ecossistema e o bem-estar do povo que mora no vale.
Então, nada mais justo do que unir as duas causas. Enquanto a Academia busca,
em suas pesquisas, as causas e consequências de tamanha destruição, o Comitê, abastecido
dessas informações, constrói planos, executa obras e promove educação ambiental, buscando
a mitigação para as adversidades que atingem o nosso Rio da Integração Nacional.
De certa forma, ao acompanharmos os acontecimentos mais relevantes ligados ao
Rio São Francisco, podemos elaborar um quadro da própria evolução histórica, econômica
e social do Brasil. Esta obra traduz-se em uma verdadeira contribuição científica e cultural,
autêntica fonte de consultas sobre o assunto. Por meio de um texto leve, informativo, ricamente
ilustrado com gravuras, mapas e fotografias, o livro delineia um amplo panorama da situação
do Rio São Francisco, em seu baixo curso, nos dias de hoje.
A Expedição do Baixo São Francisco é um grande orgulho para nós; iniciou-se com
o apoio do CBHSF e, hoje, tem vários outros apoiadores e parceiros. Como diz o Mestre
do Rio, nosso querido membro do Comitê e expedicionário: “é que o Velho Chico ganhou
filhos dedicados e preocupados com sua saúde”.
Avante, Expedicionários! O Velho Chico e o seu povo contam com vocês.

José Maciel Nunes de Oliveira
Presidente do Comitê de Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF)

CAPÍTULO 1 - ICTIOFAUNA DO BAIXO SÃO
FRANCISCO
Emerson Carlos Soares1
José Milton Barbosa2

Vinícius Augusto Dias-Filho3
Resumo: O Baixo São Francisco, nos últimos anos (2013 a 2018), passou por eventos severos
de estiagem e de diminuição de vazões, em particular na Hidroéletrica de Xingó, com efeitos
bastante impactantes na região. A diminuição do volume de água prejudicou o abastecimento
das lagoas marginais, com retenção de sedimentos e baixa turbidez da água, responsável por
diminuir a acuracidade visual por espécies predadoras. Adicionalmente, ocorreu impacto
sobre as migrações reprodutivas realizadas pelas espécies reofílicas nativas e, como efeito
adicional, acúmulo de poluentes, assoreamento, desmatamento, uso de métodos de pesca não
permitidos e competição com espécies exóticas, contribuindo para a depleção dos estoques
pesqueiros. Objetivando caracterizar a fauna de peixes no baixo curso do rio, foram realizados
levantamentos durante as quatro Expedições Científicas do São Francisco, de 2018 a 2021,
com destaque para os anos 2019 e 2020. As coletas foram feitas por malhadeiras e tarrafas
de malha 30 a 50 mm e redes de arrasto de praias de malha 10 a 20 mm (entre nós opostos),
nos municípios alagoanos de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Igreja Nova, Penedo
e Piaçabuçu, e dos sergipanos Propriá, Neópolis e Brejo Grande. Foram capturados cerca
de 400 exemplares, classificados em nível taxonômico, englobando ordem, gênero e espécie,
quando possível. A ictiofauna foi estabelecida através dos critérios de frequência de captura,
importância e relatos de pescadores e devidamente reportada em documentos ou reportagens
na mídia. Foram identificadas cerca de 49 espécies, pertencentes a 11 ordens e 25 famílias,
com predomínio dos Characiformes, seguidos dos Cichliformes, Siluriformes e Perciformes,
correspondendo a 76% dos indivíduos amostrados.
Palavras-chave: Baixo São Francisco. Vazão. Peixes.

Introdução: o Baixo São Francisco, a prática das vazões na Hidrelétrica de Xingó
e os impactos no ecossistema
O Baixo São Francisco localiza-se em ambiente árido, onde a água é a principal força
motriz das comunidades rurais. Os municípios localizados no entorno do Baixo São Francisco
produzem, principalmente, de cana-de-açúcar (34.000 ha) e arroz (1.590 ha) (IBGE, 2014).
Por outro lado, Nascimento e Oliveira (2016) observaram que as áreas dedicadas às pastagens
predominam, com cerca de 58,37% do total, enquanto a classe agrícola ocupa 15,77%.
A vegetação nativa corresponde a 10,96%, sendo dispersa por toda a área, em pequenos
fragmentos. Sabe-se que parte destas culturas utilizam pesticidas como base para o manejo;
entretanto, não existem informações a respeito dos principais princípios ativos utilizados e
dos impactos na qualidade da água e suas consequências para a vida aquática.
1 Professor associado IV, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (Laqua), Campus de Engenharias e
Ciências Agrárias (Ceca), Universidade Federal de Alagoas (Ufal). emerson.soares@ceca.ufal.br.
2 Professor adjunto, Campus São Cristovão, Universidade Federal de Sergipe (UFS). jmiltonb11@gmail.com
3 Chefe do Centro Integrado de Recursos Pesqueiros e Aquicultura de Itiúba, Codevasf/5SR.

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

O regime de vazões do Rio São Francisco, nessa região, é regido pelos reservatórios
localizados nas partes mais altas da bacia, como as barragens de Três Marias, Sobradinho e
Itaparica. Desta forma, a U. H. de Xingó, cujas defluências foram reduzidas nos últimos anos,
impactou severamente o baixo curso do Velho Chico (CHESF, 2017). A menor capacidade
depurativa do rio, resultado de vazões mais baixas ao longo de períodos mais longos, contribuiu
significativamente para a manutenção de poluentes em concentrações prejudiciais à biota,
consumo e irrigação de culturas (MEDEIROS et al., 2016). Para se ter uma ideia, a vazão
do Rio São Francisco, a partir de Xingó, foi reduzida drasticamente nos últimos 12 anos
(2010 a 2021): 1.800±214 m³/s em 2010 e 1991±221 m³/s em 2011, declinando para 637±37
m³/s e 601±29 m³/s em 2017 e 2018, anos mais críticos para o baixo curso do rio (Figura 1).
Depois destes episódios problemáticos na climatologia em torno da bacia, ocorreram
negociações sobre a política de vazões e houve certa flexibilização com a criação da Resolução
ANA nº 2.081/2017, que, de alguma forma, veio aumentar as facilidades para a redução do
volume de água praticado pelo ONS no Baixo São Francisco.
Após graves períodos de estiagem (2013 a 2018), houve uma pequena recuperação na
bacia, com incremento das vazões a partir de 2020, atingindo 1.441±444 m3/s, e em 2022, onde
foram praticados valores médios de 4.000 m3/s nos meses de janeiro a março. Certamente,
estas pequenas melhoras no fluxo de água após a U. H. de Xingó deverão contribuir para
a reprodução da ictiofauna nativa nos próximos anos, com efeito imediato na diminuição
da salinidade e da intrusão salina no município de Piaçabuçu que, nos anos 2018 e 2019,
atingiu 16 km a partir do estuário em direção ao continente, com valores acima de 5 ppm, o
que, de certa forma, possibilitou o avanço de espécies marinhas e eurialinas nos municípios
de Piaçabuçu, Brejo Grande, Penedo, Neópolis e Igreja Nova.
Figura 1 - Boxplot (quartis, mediana e limites inferior e superior, com linha de tendência)
sobre as vazões defluentes médias na Usina Hidrelétrica de Xingó, onde os valores do Eixo
X são relacionados aos anos 2010 a 2021.

Fonte: SOARES (2022).

13

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O avanço da cunha salina sobre o rio trouxe impactos significativos para os ecossistemas
e para a população local, com provável aumento da concentração de poluentes, interferência
negativa em atividades econômicas, como a pesca e a rizicultura, e pode inviabilizar, em último
caso, a utilização das águas para fins de abastecimento humano. Possivelmente, os efeitos
desta salinização estão promovendo alterações na biota local, com aumento da competição
entre espécies, diminuição dos estoques pesqueiros, desaparecimento de algumas espécies
de peixes e crustáceos e o surgimento de outros afeitos a ambientes salinizados (SOARES
et al., 2011; MEDEIROS et al., 2016; BARBOSA et al., 2017; RODRIGUEZ et al., 2018;
SOARES et al., 2020a; 2020b; CRUZ et al., 2020).
Como observado, esse cenário com sinais de piora nos últimos anos arrefeceu entre
2020 e 2021 e, em 2022, devido ao fenômeno mais acentuado da La Niña, nos meses de
janeiro a abril, grandes volumes de chuvas em pelo menos 15 grandes afluentes proporcionaram
aumento das vazões na calha principal do Rio São Francisco, localizada na região do Alto
São Francisco, com médias próximas de 10.000 m3/s.
Contudo, mesmo com a melhora do quadro pluviométrico em 2020, as vazões
praticadas na Hidrelétrica de Xingó mantiveram-se estáveis e até com diminuição do fluxo
de água em 2021, somente melhorando com as cheias provocadas nos primeiros meses de
2022 e com as garantias que os reservatórios de Três Marias e Sobradinho estariam com
100% de seu volume, o que veio a ocorrer no mês de abril de 2022.
Entretanto, o quadro climático e as incertezas dos modelos devido às mudanças do
clima em nível global certamente perpassarão por políticas públicas que priorizem uma gestão
da água mais bem distribuída e eficiente para todos os usuários. No caso dos que não têm
voz, como a biota aquática e o ecossistema, medidas que visem à recomposição, ao manejo e
à gestão dos estoques de peixes nativos reofílicos e que dependem do aumento do volume de
água dependerão da sensibilidade dos tomadores de decisão e da qualidade dos dados para
nortear as escolhas em fóruns e reuniões dos usuários da água do “Velho Chico”.
Por outro lado, a acelerada exploração de recursos naturais, com a remoção de mata
ciliar em rios tributários, o aumento do uso de agroquímicos e o baixo nível de tratamento de
esgoto urbano nos municípios da região, com impactos agravados pela ocorrência de longos
períodos de seca, contribuem para o aumento dos processos erosivos no solo, acelerando a
depleção dos estoques pesqueiros e de espécies nativas, prejudicando os indicadores de preservação
ambiental regional (MORAIS FILHO, 2014; APARECIDO et al., 2016).

A ictiofauna do Baixo São Francisco
A ictiofauna na região do baixo curso do Rio São Francisco é influenciada por uma
série de fatores. Dentre estes, destacam-se o ritmo das vazões da Hidrelétrica de Xingó, cada
vez mais artificiais e de menor volume, com interferência das políticas de flexibilizações, por
intermédio de portarias e instruções normativas que visam à geração de energia elétrica, à
transposição e à irrigação.
Adicionalmente, a supressão da vegetação ciliar, a vulnerabilidade do solo e as
alterações dos parâmetros físico-químicos da água e, juntamente com o assoreamento,
mudanças hidrológicas (sistema lótico para lêntico), aumento de poluentes, pressão pesqueira
e disputa de territórios proporcionada pelas espécies exóticas e marinhas e de hábito alimentar
carnívoro, bem como a ausência de planejamento urbano nas margens do rio, com a especulação
imobiliária, trazem danos irreparáveis para as espécies nativas (SOARES et al., 2020a;
FIGUEIREDO et al., 2020).

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Essas mudanças que atingem as lagoas marginais (berçários naturais de espécies
nativas) e as regiões mais próximas à foz, com o aumento da cunha salina, modificam a paisagem
e alteram os nichos tróficos, transformando o habitat e o tipo de água e tendo consequências
diretas no ecossistema, por meio de mudanças na velocidade do fluxo, na produtividade e na
disponibilidade de habitats, que tendem a selecionar espécies mais adaptadas às mudanças
ambientais, podendo acelerar os processos de extinção local (FIGUEIREDO et al., 2020;
CRUZ et al., 2020).
Quanto à diversidade ictiofaunística no baixo curso do rio, apesar das limitações
de estudos sobre a ictiofauna, Marques (1995) trabalhou na região da várzea da Marituba,
observando cerca de 21 espécies, com destaque para alguns indivíduos, como curimatã-pacu
(Prochilodus argenteus), piau (Megaleporinus obtusidens), pirambeba (Serrassalmus brandtii),
piranha (Pygocentrus piraya), traíra (Hoplias sp.), robalo (Centropomus parallelus) e surubim
(Pseudoplatystoma corruscans).
Costa et al. (2003), em seus estudos, delimitaram a ocorrência de 33 espécies nos
municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco, com destaque para os piaus (Megaleporinus
sp. e Schizodon sp.) e as carapebas (Eugerres brasilianus).
Soares et al. (2011), estudando a microrregião de Penedo-AL (Baixo São Francisco),
observaram a ocorrência de 22 espécies em 2007, 18 espécies em 2008 e 17 espécies em 2009,
das quais cerca de cinco representaram, em média, 80% da biomassa do pescado desembarcado,
com destaque para a família Prochilodontidae, representada pela xira ou curimatã-pacu
(Prochilodus argenteus), espécie endêmica da bacia, com percentual médio de 40,0%, seguida
da família Anostomidae, tendo os piaus (Megaleporinus reinhardt e Megaleporinus obtusidens),
com 22,0%, alternando-se entre um representante da família Engraulidae, a pilombeta
(Anchoviella vaillanti), com 7% em 2007 e 18% em 2008, e dois representantes da família
Centropomidae, o robalo (Centropomus undecimalis e C. parallelus), com média de 10% para
os três anos analisados, sendo a segunda espécie a mais comum.
Sampaio et al. (2015), analisando a região estuarina do Rio São Francisco, afirmaram
que a ictiofauna era composta, predominantemente, por indivíduos em ecofase jovem, de
espécies migrantes. Nestes estudos, foram determinados 44 Famílias e 117 táxons: 113 na
categoria espécie e quatro na categoria gênero, sendo 44% marinhas-estuarinas (M-E), 41%
dulciaquícolas (D) e 15% marinhas (M).
Nos estudos de Soares et al. (2020a), na planície fluviomarinha do Rio São Francisco
(microrregião de Penedo e foz), foram coletados, aproximadamente, 3.700 indivíduos
pertencentes a 82 táxons, estando 80 classificados em nível de espécie, sendo descritos 54
novos registros (NR) de espécies para a Bacia do Rio São Francisco, todas associadas aos
estuários ou de origem marinha. Nestes mesmos estudos, trabalhando em 8 municípios do
Baixo São Francisco, foi relatado o empobrecimento de exemplares nativos na composição
das capturas, com 17 espécies coletadas, constatando o desaparecimento das curimatãs-pacus
(P. argenteus) e pilombetas (Anchoviella sp.).
Já Figueiredo et al. (2020) registraram 37 espécies, 7 ordens e 15 famílias, sendo 20
espécies nativas de água doce, 7 introduzidas e 10 marinhas, e a ordem Characiformes a
mais representativa.
Dados do início da década de 2010 indicavam a curimatã-pacu Prochilodus argenteus
(Characiformes, Prochilodontidae) e o piau Megaleporinus obtusidens (Anostomidae,

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Characiformes) como espécies mais abundantes (BARBOSA; SOARES, 2009; SOARES et
al., 2011); entretanto, relatos de pescadores locais sugerem que, desde 2015, estas populações
vêm declinando e estes indivíduos que, juntos, chegaram a representar cerca de 55% das capturas
na microrregião de Penedo, possivelmente não estejam entre as cinco principais espécies
comercializadas (SOARES et al., 2011; BARBOSA et al., 2017; SOARES et al., 2020a).

Desenvolvimento
Os peixes foram capturados por dois pescadores em duas embarcações com motor
de 5 Hp, com o uso de malhadeiras com 100 metros e tarrafas de 6 metros, ambas de malha
30 a 50 mm entre nós opostos e redes de arrasto de 10 metros com malha de 10 a 20 mm
entre nós opostos, com faina diária de 6 horas. Os exemplares foram coletados sob licença
Sisbio (MMA/ICMBio, nº. 75591-2).
Os peixes capturados foram identificados, quando possível, em nível de ordem, família,
gênero e espécie e, posteriormente, fixados em formol a 10% e após 48 horas fixados em álcool
70%. A identificação das espécies não realizadas no barco-laboratório e a confirmação das
demais foram feitas no Laboratório de Aquicultura e Análise de Águas (Laqua/Ufal) e no
Laboratório de Ictiologia (LI/UFS), com auxílio de bibliografia especializada.
Foi possível capturar e identificar cerca de 49 espécies de peixes pertencentes a 25
famílias, com predomínio de 11 ordens, entre as quais os Characiformes representaram
30%, seguidos dos Cichliformes, com 20%; Siluriformes, com 16%; Perciformes, com 10%,
e o restante divididos entre Clupeiformes, Mugiliformes, Carangiformes, Gobiiformes,
Pleuronectiformes, Gymnotiformes e Atheriniformes.
O panorama, em que seis espécies representam cerca de 70% das capturas, não mudou
com relação aos estudos de Soares et al. (2011; 2020a; 2020b), com destaque para: pirambeba
(Serrasalmus brandtii), pacu (Metynnis maculatus), piau-branco ou piau-de-vara (Schizodon
knerii), piau-três-pintas (Megaleporinus obtusidens) e tucunarés (Cichla sp.).
Nos estudos de 2020 e 2021, foram catalogados menos exemplares eurialinos e
marinhos na planície fluviomarinha do São Francisco, localizada na microrregião de Penedo e
Piaçabuçu, em Alagoas, e Neópolis e Brejo Grande, em Sergipe, possivelmente pelo aumento
das vazões ao longo do ano, em relação aos dois anos anteriores, o que proporcionou uma
diminuição da cunha salina.
Prevalecem volumes de capturas maiores de espécies carnívoras, sendo algumas
destas não nativas da bacia. As espécies catalogadas abaixo foram caracterizadas de acordo
com a frequência de aparecimento, de pelo menos duas vezes nas capturas dos apetrechos
de pesca utilizados na expedição científica, ou citadas em capturas ocasionais de pescadores
e documentadas. Possivelmente, temos cerca de quatro espécies novas ainda não descritas
pela ciência e/ou citadas em outras bacias, e não no Baixo São Francisco.

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1- Nome comum na região: arenque; manjubinha; manjuba
Ordem: Clupeiformes
Família: Engraulidae
Nome científico: Lycengraulis grossidens (SPIX; AGASSIZ, 1829)
Distribuição: Atlântico Oeste, Amazonas, Paraná e pequenos rios
Hábitos alimentares: pequenos peixes, copépodas, larvas de insetos e crustáceos
Habitat: marinho, água doce, estuarino e anádromo
Importância na região: mediana
Incidência na região: alta

Fonte: BARBOSA et al., 2022.

2- Nome comum na região: pilombeta-branca; anchova
Ordem: Clupeiformes
Família: Engraulidae
Nome científico: Anchoviella lepidentostole (FOWLER, 1911)
Distribuição: Atlântico Oeste, Amazonas, Paraná e pequenos rios
Hábitos alimentares: pequenos crustáceos e invertebrados
Habitat: marinho, água doce, estuarina e anádromo
Importância na região: alta
Incidência na região: estoques em declínio; menos de 10 indivíduos capturados nas campanhas
científicas de 2018 a 2021

Fonte: BARBOSA et al., 2022.

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3- Nome comum na região: pilombeta-pau
Ordem: Clupeiformes
Família: Engraulidae
Nome científico: Anchoviella sanfranciscana (BARBOSA; GOMES DA SILVA; DA
ROCHA; ARAÚJO; CARVALHO, 2017)
Distribuição: América do Sul, estuário do São Francisco
Hábitos alimentares: pequenos crustáceos e invertebrados
Habitat: água doce, estuarina e pelágico
Importância na região: mediana
Incidência na região: estoques em declínio; menos de 10 indivíduos capturados nas campanhas
científicas de 2018 a 2021.

Fonte: BARBOSA et al., 2022.

4- Nome comum na região: piaba-do-rabo-vermelho
Ordem: Characiformes
Família: Characidae
Nome científico: Astyanax cf. lacustris (LÜTKEN, 1875)
Distribuição: água doce, América do Sul
Hábitos alimentares: pequenos crustáceos e invertebrados
Habitat: água doce, bentopelágico tropical
Importância na região: baixa
Incidência na região: estoques em observação; foram capturados menos de 20 exemplares
nas campanhas científicas de 2018 a 2021

Fonte: SOARES; OLIVEIRA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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5- Nome comum na região: piaba-do-rabo-amarelo
Ordem: Characiformes
Família: Characidae
Nome científico: Astyanax cf. bimaculatus (LINNAEUS, 1758)
Distribuição: água doce, América do Sul, Amazonas, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: pequenos crustáceos e invertebrados
Habitat: água doce, bentopelágico subtropical
Importância na região: baixa
Incidência na região: estoques em observação; foram capturados menos de 20 exemplares
nas campanhas científicas de 2018 a 2021

Fonte: SOARES; OLIVEIRA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

6- Nome comum na região: piaba
Ordem: Characiformes
Família: Characidae
Nome científico: Serrapinnus piaba (LÜTKEN, 1875)
Distribuição: água doce, América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: onívoros, pequenos invertebrados com tendência à herbivoria
Habitat: água doce, bentopelágico
Importância na região: baixa
Incidência na região: presença constante nas capturas

Fonte: SOARES; OLIVEIRA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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7- Nome comum na região: piaba
Ordem: Characiformes
Família: Characidae
Nome científico: Moenkhausia costae (STEINDACHNER, 1907)
Distribuição: água doce, América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: onívoro
Habitat: água doce, bentopelágico subtropical
Importância na região: baixa
Incidência na região: presença constante nas capturas.

Fonte: SOARES; OLIVEIRA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

8- Nome comum na região: piaba; curimba; aragu
Ordem: Characiformes
Família: Curimatidae
Nome científico: Curimatella cf. lepidura (EIGENMANN; EIGENMANN, 1889)
Distribuição: água doce, América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: detritívoro-iliófago
Habitat: água doce, bentopelágico; preferência por ambientes lênticos, como lagoas
Importância na região: baixa
Incidência na região: presença constante nas capturas

Fonte: SOARES; OLIVEIRA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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9- Nome comum na região: peixe-cachorro; lambiá
Ordem: Characiformes
Família: Acestrorhynchidae
Nome científico: Acestrorhynchus lacustris (LÜTKEN, 1875)
Distribuição: água doce, tropical, América do Sul, Bacia do São Francisco e Paraná
Hábitos alimentares: carnívoro, piscívoro
Habitat: água doce; preferência por ambientes lênticos
Importância na região: baixa
Incidência na região: não foi comum seu aparecimento nas capturas

Fonte: SOARES; OLIVEIRA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

10- Nome comum na região: traíra
Ordem: Characiformes
Família: Erythrinidae
Nome científico: Hoplias microcephalus (AGASSIZ, 1829)
Distribuição: América do Sul, Bacia do São Francisco, região tropical
Hábitos alimentares: carnívoro, piscívoro
Habitat: água doce, bentopelágico, preferência por ambientes lênticos
Importância na região: alta
Incidência na região: comum nas capturas

Fonte: SOARES; OLIVEIRA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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11- Nome comum na região: matrinxã; matrinchã
Ordem: Characiformes
Família: Bryconidae
Nome científico:Brycon gouldingi (LIMA, 2004)
Distribuição: América do Sul, Bacia do Tocantins, região tropical
Hábitos alimentares: onívoro, alimenta-se de frutas e insetos
Habitat: água doce, bentopelágico
Importância na região: baixa
Incidência na região: não muito comum nas capturas; contudo, em 2021, foram capturados
acima de 30 exemplares juvenis

Fonte: SOARES; OLIVEIRA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

12- Nome comum na região: piau; piapara
Ordem: Characiformes
Família: Anostomidae
Nome científico: Megaleporinus reinhardt (LÜTKEN, 1835)
Distribuição: América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: onívoro
Habitat: água doce, bentopelágico subtropical, médio migrador
Importância na região: alta
Incidência na região: muito comum nas capturas

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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13- Nome comum na região: piau-branco
Ordem: Characiformes
Família: Anostomidae
Nome científico: Schizodon knerii (STEINDACHNER, 1875)
Distribuição: América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: onívoro
Habitat: água doce; distribui-se em locais com abundância de vegetação aquática; médio
migrador
Importância na região: alta
Incidência na região: muito comum nas capturas

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

14- Nome comum na região: curimatã-pacu; xira; bambá
Ordem: Characiformes
Família: Prochilodontidae
Nome científico:Prochilodus argenteus (SPIX; AGASSIZ, 1829)
Distribuição: América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: detrítivora
Habitat: água doce; distribui-se em locais com abundância de vegetação aquática; médio
migrador
Importância na região: alta
Incidência na região: espécie altamente afetada pela mudanças das vazões; nas últimas
campanhas, foram encontrados menos de 10 exemplares

Fonte: SOARES; MARINHO; DIAS-FILHO, 2022. Base de Itiúba-Codevasf.

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15- Nome comum na região: pacu-disco
Ordem: Characiformes
Família: Serrasalmidae
Nome científico: Metynnis maculatus (KNER, 1858)
Distribuição: América do Sul, Bacia do Amazonas, Paraguai e São Francisco
Hábitos alimentares: onívoro; alimenta-se de frutas, sementes, algas e pequenos crustáceos
Habitat: água doce, pelágico tropical, migrador
Importância na região: alta
Incidência na região: espécie comum em desembarques pesqueiros e capturas

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

16- Nome comum na região: piranha-preta; piranha
Ordem: Characiformes
Família: Serrasalmidae
Nome científico: Pygocentrus piraya (CUVIER, 1819)
Distribuição: América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: carnívoro, piscívoro
Habitat: água doce, pelágico tropical
Importância na região: alta
Incidência na região: espécie comum em desembarques pesqueiros e capturas

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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17- Nome comum na região: pirambeba; piranha-branca
Ordem: Characiformes
Família: Serrasalmidae
Nome científico: Serrasalmus brandtii (LÜTKEN, 1875)
Distribuição: América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: carnívoro, piscívoro
Habitat: água doce, bentopelágico tropical
Importância na região: mediana
Incidência na região: espécie comum em desembarques pesqueiros e capturas; responsável
pelos ataques a banhistas no Baixo São Francisco

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

18- Nome comum na região: sarapó
Ordem: Gymnotiformes
Família: Sternopygidae
Nome científico: Eigenmannia trilineata (LÓPEZ; CASTELLO, 1966)
Distribuição: América do Sul, Bacia do Paraguai-Paraná
Hábitos alimentares: onívoro, com tendência a carnívoro, alimentando-se de microcrustáceos
e insetos
Habitat: água doce, bentopelágico subtropical; encontrados desde em pequenos córregos a
grandes rios
Importância na região: baixa
Incidência na região: começou a aparecer nas capturas a partir de 2020 e, após algumas
análises e identificações, chegou-se à espécie. Mais estudos serão realizados para efeitos de
confirmação. É o primeiro registro da espécie no São Francisco (baixo curso do rio)

Fonte: SOARES, 2020; 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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19- Nome comum na região: pirá; pirá-tamanduá
Ordem: Siluriformes
Família: Pimelodidae
Nome científico: Conorhynchos conirostris (VALENCIENNES, 1840)
Distribuição: América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: piscívoro, moluscos, vermes, larvas de insetos e outros invertebrados
Habitat: água doce, demersal, tropical
Importância na região: alta
Incidência na região: alguns exemplares foram capturados por pescadores após peixamentos
feitos pela Codevasf; entretanto, a espécie está extinta no baixo curso do rio e não foi
encontrada pelas expedições científicas

Fonte: SOARES; MARINHO; DIAS-FILHO, 2022. Base de Itiúba-Codevasf.

20- Nome comum na região: pacamon; pacamão
Ordem: Siluriformes
Família: Pseudopimelodidae
Nome científico: Lophiosilus alexandri (STEINDACHNER, 1876)
Distribuição: América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: piscívoro
Habitat: água doce, demersal, tropical
Importância na região: alta
Incidência na região: não muito frequente nas capturas na região; menos de 15 exemplares
foram capturados nas quatro campanhas (2018-2021)

Fonte: SOARES; MARINHO; DIAS-FILHO, 2022. Base de Itiúba-Codevasf.

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21- Nome comum na região: mandi; mandi-amarelo; mandin
Ordem: Siluriformes
Família: Pimelodidae
Nome científico: Pimelodus maculatus (LACEPÈDE, 1803)
Distribuição: América do Sul, Bacias do São Francisco e Paraná
Hábitos alimentares: onívoro, invertebrados terrestres e aquáticos, larvas de insetos e
caramujos
Habitat: água doce, ambientes lóticos e lênticos, subtropical
Importância na região: mediana
Incidência na região: não muito frequente nas capturas; menos de 10 exemplares. Através
dos peixamentos da Codevasf, a espécie vem sendo mais presente nas capturas

Fonte: SOARES; MARINHO; DIAS-FILHO, 2022. Base de Itiúba-Codevasf. Região dorsal do
mandi.

Fonte: SOARES; MARINHO; DIAS-FILHO, 2022. Base de Itiúba-Codevasf. Região dorsal do
mandi.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

22- Nome comum na região: surubim; pintado
Ordem: Siluriformes
Família: Pimelodidae
Nome científico: Pseudoplatystoma corruscans (SPIX; AGASSIZ, 1829)
Distribuição: América do Sul, Bacias do São Francisco e Paraná
Hábitos alimentares: carnívoro, piscívoro
Habitat: água doce, demersal, subtropical, grande migrador
Importância na região: alta
Incidência na região: extinto no Baixo São Francisco; nunca foram encontrados exemplares
nas expedições científicas. Houve somente algum relato de pescador que encontrou um ou
outro indivíduo

Fonte: SOARES; MARINHO; DIAS-FILHO, 2022. Base de Itiúba-Codevasf. Região dorsal
do surubim.

23- Nome comum na região: cascudo; cari; acari; chupa-pedra
Ordem: Siluriformes
Família: Loricariidae
Nome científico: Hypostomus sp. (LACEPÈDE, 1803)
Distribuição: América do Sul
Hábitos alimentares: iliófago com dieta bem diversificada, composta por algas, detritos,
larvas de insetos, microcrustáceos, restos de matéria animal e vegetal
Habitat: água doce, lótico ou lêntico, bentônico
Importância na região: baixa
Incidência na região: 2 exemplares capturados; possivelmente, trata-se de uma espécie nova,
que se encontra em análises através de estudos ictiológicos para caracterização

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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Região dorsal

24- Nome comum na região: cascudo; cari; acari; chupa-pedra
Ordem: Siluriformes
Família: Loricariidae
Nome científico: Hypostomus sp. (LACEPÈDE, 1803)
Distribuição: América do Sul
Hábitos alimentares: iliófago com dieta bem diversificada, composta por algas, detritos,
larvas de insetos, microcrustáceos, restos de matéria animal e vegetal
Habitat: água doce, lótico ou lêntico, bentônico
Importância na região: baixa
Incidência na região: 3 exemplares capturados; possivelmente, trata-se de uma espécie nova,
que se encontra em análises através de estudos ictiológicos para caracterização

Fonte: SOARES; OLIVEIRA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Região dorsal

25- Nome comum na região: cascudo; cari; acari; chupa-pedra
Ordem: Siluriformes
Família: Loricariidae
Nome científico: Pterygoplichthys etentaculatus(SPIX; AGASSIZ, 1829)
Distribuição: América do Sul, bacia do São Francisco.
Hábitos alimentares: iliófago, com dieta bem diversificada, composta por algas, detritos,
larvas de insetos, microcrustáceos, restos de matéria animal e vegetal
Habitat: água doce, lótico ou lêntico, demersal
Importância na região: baixa
Incidência na região: constante nas capturas

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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26- Nome comum na região: caboje
Ordem: Siluriformes
Família: Callichthyidae
Nome científico: Callichthys callichthys (LINNAEUS, 1758)
Distribuição: América do Sul até o Norte da Argentina; Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: de hábito noturno, alimenta-se de peixes, restos de matéria vegetal,
larvas de insetos e microcrustáceos
Habitat: água doce, lótico ou lêntico, de ambiente com pouca oxigenação
Importância na região: baixa
Incidência na região: Não são constantes nas capturas da região

Fonte: SOARES; OLIVEIRA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

27- Nome comum na região: camurupim, camurim, tarpão
Ordem: Elopiformes
Família: Megalopidae
Nome científico: Megalops atlanticus (VALENCIENNES, 1847)
Distribuição: Oceano Atlântico, Bermudas, Açores, Sul da França e Atlântico Sul, do Norte
a Sul do Brasil; Bacia do São Francisco, subtropical
Hábitos alimentares: de hábito noturno, alimenta-se de peixes, restos de matéria vegetal,
larvas de insetos e microcrustáceos
Habitat: água doce, marinha, estuarina e regiões costeiras de 0 a 40 metros de profundidade
Importância na região: mediana e para pesca esportiva
Incidência na região: não são comuns nas capturas, mas sempre citados pela mídia, por
chamar atenção devido ao seu porte

Fonte: SOARES; BISPO, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

28- Nome comum na região: peixe-rei
Ordem: Atheriniformes
Família: Atherinopsidae
Nome científico: Atherinella brasiliensis (QUOY; GAIMARD, 1825)
Distribuição: Oceano Atlântico Central; Norte e Nordeste do Brasil
Hábitos alimentares: matéria vegetal, pequenos peixes e invertebrados bentônicos e crustáceos
Habitat: marinho, estuarino, bentopelágico tropical
Importância na região: mediana
Incidência na região: aparecem nas capturas da região fluviomarinha de Penedo e Piaçabuçu
(Alagoas); Neópolis e Brejo Grande (Sergipe)

Fonte: SOARES; FEITOSA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

29- Nome comum na região: xaréu
Ordem: Carangiformes
Família: Carangidae
Nome científico: Caranx latus (AGASSIZ, 1831)
Distribuição: Oceano Atlântico; das Bermudas, Golfo do México a São Paulo (Brasil)
Hábitos alimentares: peixes, camarões e invertebrados
Habitat: marinho, estuarino, eurialino, água doce, costeiro, subtropical
Importância na região: mediana
Incidência na região: aparecem nas capturas da região fluviomarinha entre Penedo e
Piaçabuçu (Alagoas) e Neópolis e Brejo Grande (Sergipe)

Fonte: SOARES; FEITOSA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

30- Nome comum na região: xaréu
Ordem: Carangiformes
Família: Carangidae
Nome científico: Caranx cf. crysos (MITCHILL, 1815)
Distribuição: Oceano Atlântico; das Bermudas, Golfo do México a São Paulo (Brasil)
Hábitos alimentares: peixes, camarões e invertebrados
Habitat: marinho, estuarino, eurialino, água doce, costeiro, subtropical
Importância na região: baixa
Incidência na região: aparecem nas capturas da região fluviomarinha entre Penedo e
Piaçabuçu

Fonte: SOARES; FEITOSA, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

31- Nome comum na região: acará
Ordem: Cichliformes
Família: Cichlidae
Nome científico: Geophagus brasiliensis (QUOY; GAIMARD, 1824)
Distribuição: América do Sul, do Norte ao Sul do Brasil
Hábitos alimentares: onívoro, insetos, gastrópodes e microcrustáceos
Habitat: água doce, estuarino, bentopelágico, tropical, realiza migrações
Importância na região: baixa
Incidência na região: não muito constante nas capturas, mas nas coletas de 2020 e 2021
foram encontrados mais de 10 exemplares

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

33

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

32- Nome comum na região: acará
Ordem: Cichliformes
Família: Cichlidae
Nome científico: Cichlasoma cf. sanctifranciscense (KULLANDER, 1983)
Distribuição: América do Sul, do Nordeste ao Sul do Brasil, Bacia do Rio Paraná e São Francisco
Hábitos alimentares: oportunista, onívoro com tendências carnívoras; alimenta-se de matéria
vegetal, pequenos peixes e microcrustáceos
Habitat: água doce, ambientes lóticos e lênticos, subtropical
Importância na região: baixa
Incidência na região: não muito constante nas capturas; três exemplares encontrados em
2020 e 2021

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

33- Nome comum na região: acará; cará
Ordem: Cichliformes
Família: Cichlidae
Nome científico: Australoheros mattosi (OTTONI, 2012)
Distribuição: América do Sul, Rio São Francisco, Rio Paraopeba
Hábitos alimentares: generalistas e oportunistas, preferindo artrópodes aquáticos, larvas de
dípteros e gastrópodas
Habitat: água doce, pelágico, tropical.
Importância na região: baixa
Incidência na região: não muito constante nas capturas; quatro exemplares encontrados
em 2020 e 2021

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

34

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

34- Nome comum na região: acará; cará-boi; apaiarí; oscar
Ordem: Cichliformes
Família: Cichlidae
Nome científico: Astronotus ocellatus (AGASSIZ, 1831)
Distribuição: América do Sul, Rio Amazonas, Rio São Francisco, açudes do Nordeste
Hábitos alimentares: carnívoro, alimentando-se de pequenos peixes, vermes, insetos, camarões
Habitat: água doce, bentopelágico, tropical
Importância na região: mediana, espécie exótica à Bacia do São Francisco.
Incidência na região: constante nas capturas

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

35- Nome comum na região: tilápia; tilápia-do-nilo
Ordem: Cichliformes
Família: Cichlidae
Nome científico: Oreochromis niloticus (LINNAEUS, 1758)
Distribuição: Africa, Américas, Ásia; disseminada em todo o mundo
Hábitos alimentares: juvenis, alimentam-se de fitoplâncton e algas bênticas; amplia seu
espectro com hábito onívoro, alimentando-se de larvas de insetos e detritos
Habitat: água doce, suporta ambientes estuarinos, bentopelágico; efetua migrações; subtropical
Importância na região: alta, exótica à Bacia do São Francisco
Incidência na região: comum nas capturas

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

35

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

36- Nome comum na região: tucunaré
Ordem: Cichliformes
Família: Cichlidae
Nome científico: Cichla monoculus (AGASSIZ, 1831)
Distribuição: América do Sul, Rio Solimões-Amazonas, Rio Negro, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: piscívoro, peixes, camarões
Habitat: água doce, bentopelágico, tropical
Importância na região: alta, espécie exótica à Bacia do São Francisco
Incidência na região: muito comum nas capturas

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco

37- Nome comum na região: tucunaré
Ordem: Cichliformes
Família: Cichlidae
Nome científico: Cichla kelberi (KULLANDER; FERREIRA, 2006)
Distribuição: América do Sul; Brasil; Rio Solimões-Amazonas
Hábitos alimentares: piscívoro; peixes, camarões
Habitat: água doce, bentopelágico, tropical
Importância na região: baixa; espécie exótica à Bacia do São Francisco
Incidência na região: não muito comum nas capturas; apenas dois exemplares capturados

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

36

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

38- Nome comum na região: tucunaré
Ordem: Cichliformes
Família: Cichlidae
Nome científico: Cichla sp.
Distribuição: América do Sul; Brasil; Rio Solimões-Amazonas
Hábitos alimentares: piscívoro; peixes, camarões
Habitat: água doce, bentopelágico, tropical
Importância na região: baixa, espécie exótica à Bacia do São Francisco
Incidência na região: em observação; apenas um exemplar capturado. Assemelha-se ao C.
monoculus e ao C. nigro maculata

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

39- Nome comum na região: jacundá
Ordem: Cichliformes
Família: Cichlidae
Nome científico: Crenicichla lepidota (HECKEL, 1840)
Distribuição: América do Sul; Rio Paraná; Rio Paraguai; Guaporé
Hábitos alimentares: insetos, peixes e crustáceos
Habitat: água doce, bentopelágico
Importância na região: baixa; espécie exótica à Bacia do São Francisco
Incidência na região: mais de 15 exemplares capturados em 2020 e 2021

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

37

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

40- Nome comum na região: carapeba
Ordem: Perciformes
Família: Gerreidae
Nome científico: Eugerres brasilianus (CUVIER, 1830)
Distribuição: Atlântico Centro-Oeste, América do Norte (EUA) e América do Sul – Brasil,
regiões estuarinas e costeiras
Hábitos alimentares: generalista, oportunista, alimenta-se de anfípodas, poliquetas, vermes,
detritos, material animal e vegetal
Habitat: águas estuarinas, água marinhas, água doce, migrador eurialino
Importância na região: alta
Incidência na região: mais de 10 exemplares capturados em 2020 e 2021

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

41- Nome comum na região: carapeba; carapicu
Ordem: Perciformes
Família: Gerreidae
Nome científico: Eucinostomus melanopterus (BLEEKER, 1863)
Distribuição: Costa da África, Atlântico Oeste (EUA) e América do Sul – Brasil, regiões
estuarinas e costeiras
Hábitos alimentares: alimenta-se de anfípodas, poliquetas, vermes, detritos, material animal e vegetal
Habitat: águas estuarinas, demersal, água marinhas, água doce, migrador eurialino (anfídromo)
Importância na região: baixa
Incidência na região: não muito comum; sete exemplares capturados em 2020 e 2021

Fonte: BARBOSA et al., 2022.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

42- Nome comum na região: carapeba; tinga
Ordem: Perciformes
Família: Gerreidae
Nome científico: Diapterus auratus (RANZANI, 1842)
Distribuição: Atlântico Oeste (EUA) (Golfo do México e Flórida) e América do Sul – Brasil,
regiões estuarinas e costeiras
Hábitos alimentares: alimenta-se de invertebrados no fundo, vermes, detritos, material
animal e vegetal
Habitat: águas estuarinas e costeiras, encontrado em água doce eventualmente
Importância na região: alta
Incidência na região: não muito comum; 10 exemplares capturados em 2020 e 202

Fonte: BARBOSA et al., 2022.

43- Nome comum na região: robalo; camurim
Ordem: Perciformes
Família: Centropomidae
Nome científico: Centropomus undecimalis (BLOCH, 1792)
Distribuição: Atlântico Oeste (EUA) (Golfo do México e Flórida), Caribe e América do
Sul – Brasil, regiões estuarinas e costeiras
Hábitos alimentares: alimenta-se de peixes e crustáceos
Habitat: águas estuarinas e costeiras, água doce, migrador eurialino (anfídromo)
Importância na região: alta
Incidência na região: comum no estuário do São Francisco

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

39

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

44- Nome comum na região: robalo-peba; camurim
Ordem: Perciformes
Família: Centropomidae
Nome científico: Centropomus paralellus (POEY, 1860)
Distribuição: Atlântico Oeste (EUA) (Golfo do México e Flórida), Caribe e América do
Sul – Brasil, regiões estuarinas e costeiras
Hábitos alimentares: alimenta-se de peixes e crustáceos
Habitat: águas estuarinas e costeiras, água doce, migrador eurialino (anfídromo)
Importância na região: alta
Incidência na região: comum no estuário do São Francisco

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

45- Nome comum na região: tainha
Ordem: Mugiliformes
Família: Mugilidae
Nome científico: Mugil curema (VALENCIENNES, 1836)
Distribuição: Atlântico Leste e Oeste, Pacífico Oeste – Brasil, regiões estuarinas e costeiras
Hábitos alimentares: alimenta-se de organismos planctônicos e filamentos de algas
Habitat: águas estuarinas e costeiras, água doce (não muito comum)
Importância na região: mediana
Incidência na região: comum no estuário do São Francisco

Fonte: BARBOSA et al., 2022.

40

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

46- Nome comum na região: amoré; gobi-de-rio
Ordem: Gobiiformes
Família: Gobiidae
Nome científico: Awaous tajasica (LICHTENSTEIN, 1822)
Distribuição: América do Sul – Brasil: Nordeste, Sudeste e Sul
Hábitos alimentares: onívoro, com tendência à herbivoria
Habitat: água doce e estuarina, demersal
Importância na região: baixa
Incidência na região: apenas dois exemplares capturados em 2 anos, com um dos exemplares
capturado a 95 km do estuário

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

Região dorsal.

41

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

47- Nome comum na região: amoreia
Ordem: Gobiiformes
Família: Eleotridae
Nome científico: Guavina guavina (VALENCIENNES, 1837)
Distribuição: Atlântico Oeste, dos Estados Unidos ao Brasil
Hábitos alimentares: onívoro, com tendência à herbivoria
Habitat: água doce, marinha, costeira e estuarina, demersal, migrador
Importância na região: baixa
Incidência na região: apenas três exemplares capturados em 2 anos

Fonte: BARBOSA et al., 2022.

48- Nome comum na região: solha
Ordem: Pleuronectiformes
Família: Cyclopsettidae
Nome científico: Syacium papillosum (LINNAEUS, 1758)
Distribuição: Atlântico Oeste, dos Estados Unidos ao Brasil
Hábitos alimentares: alimenta-se de pequenos peixes e invertebrados
Habitat: marinho e estuarino
Importância na região: baixa
Incidência na região: apenas cinco exemplares capturados em 2 anos

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

49- Nome comum na região: piau-três-pintas
Ordem: Characiformes
Família: Anostomidae
Nome científico: Megaleporinus obtusidens (VALENCIENNES, 1837)
Distribuição: América do Sul, Bacia do São Francisco
Hábitos alimentares: onívoro
Habitat: água doce, bentopelágico subtropical, médio migrador
Importância na região: alta
Incidência na região: muito comum nas capturas

Fonte: ATLAS DA MACROFAUNA DE SERGIPE, 2022.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 O pirá e o surubim são duas espécies extintas no Baixo São Francisco, apesar
de terem sido citadas neste capítulo;
 Encontram-se em processo de extinção ou depleção de seus estoques, as
espécies: pacamão, curimatã-pacu e pilombeta;
 Três espécies de peixes (Hypostomus sp.e Cichla sp.) estão sendo avaliadas e
indicam ser espécies novas;
 A criação das áreas de proteção e conservação, como as lagoas marginais

(unidade-modelo), regida por acordos de pesca (isenta, em certo período, por atividades
ligadas à pesca) e com a colaboração dos agentes ambientais voluntários (da própria
comunidade) e a fiscalização ambiental (órgão do poder público, MPF, Oemas, Ibama, etc.)
sendo reforçadas pelo monitoramento da qualidade da água e dos peixes (universidades e
institutos de pesquisas), além destes ambientes serem isentos de esgotos (prefeitura municipal)
e agroquímicos (restrição de uso nas margens destes ambientes), pode ser uma alternativa para
os peixamentos de espécies nativas (Codevasf ), a fim de repovoar o Baixo São Francisco. Para
isso, os pulsos de inundação previstos em legislação devem ser articulados com os usuários
da água e, principalmente, com o Órgão Nacional do Sistema Elétrico (ONS), tornando-se
medida efetiva para a preservação da biota aquática.

43

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

REFERÊNCIAS
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44

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

SAMPAIO, C.L.S.; PAIVA, A.C.P.; SOARES, E.C. Peixes, pesca e pescadores do Baixo São
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2020a. p.129-152.

45

CAPÍTULO 2 - AVALIAÇÃO DO ESTADO DE SAÚDE
DE PEIXES DO BAIXO SÃO FRANCISCO: UM
ESTUDO HISTOPATOLÓGICO
Priscylla Costa Dantas1

Lucas de Oliveira Arruda2
Lívia Almeida de Souza3

Resumo: O Baixo São Francisco é uma mesorregião da bacia hidrográfica de mesmo nome
que compreende os Estados de Alagoas e Sergipe, onde residem 1,5 milhão de habitantes,
dos quais cerca de 440 mil fazem parte da população ribeirinha. As áreas agrícolas extensas
e o lançamento de efluentes domésticos e industriais sem tratamento diretamente no corpo
d’água contribuem para a degradação da qualidade hídrica do Baixo. Apesar disso, das águas
do Baixo São Francisco provêm espécies de grande importância na alimentação humana e alvo
de pesca intensiva. A contaminação originada das atividades antrópicas pode liberar nas águas
diversos compostos químicos com potencial citotóxico que causam eutrofização e intoxicação
para a comunidade aquática. O efeito destes poluentes nos peixes vem sendo estudado, no
Baixo São Francisco, através de análises histopatológicas do fígado e das brânquias, pois
investigações sobre esses órgãos-alvo são indispensáveis para a compreensão de intoxicações
celulares nas espécies que habitam a região. Foram analisadas histologicamente amostras
de tecidos de Cichla monoculus (tucunaré), Metynnis maculatus (pacu), Serrasalmus brandtii
(pirambeba), Astronotus ocellatus (oscar), Pygocentruspiraya (piranha-vermelha) e Schizodon
knerii (piau-branco) coletadas em oito municípios da região do Baixo São Francisco durante
as Expedições de 2020 e 2021. O diagnóstico histopatológico mostrou que, em 100% das
amostras analisadas, os peixes possuíam algum tipo de alteração patológica, seja no fígado
ou nas brânquias. Foram encontradas várias categorias de inflamação aguda e crônica e
alterações degenerativas, como necrose, hemorragia e infiltração de leucócitos, além de
respostas proliferativas, como hiperplasia e hipertrofia celular e aneurismas. Apesar das
análises realizadas nos dois anos demonstrarem a presença de variadas lesões no fígado e nas
brânquias dos peixes, os resultados mais severos foram apresentados nos espécimes coletados
em 2020 – o que pode ser atribuído à maior da vazão do rio, durante a Expedição de 2021,
que influencia na diluição dos diversos agentes químicos estressantes presentes na água. As
alterações encontradas nas espécies coletadas no Baixo São Francisco são semelhantes às
evidenciadas em peixes submetidos à água antropizada; já substâncias potencialmente tóxicas
podem acumular-se nos organismos aquáticos, levando à ocorrência de patologias nos órgãos.
Os municípios com maiores índices de patologias em 2020 foram Piaçabuçu, Traipu e Porto
Real do Colégio; em 2021, Pão de Açúcar, Piranhas e São Brás, respectivamente. Dentre todas
as espécies estudadas, o tucunaré e a pirambeba foram as mais acometidas por patologias nos
órgãos analisados, demonstrando o potencial dessas espécies como bioindicadores.
Palavras-chave: Histopatologia. Alteração Celular. Órgãos-Alvo. Contaminação.
1 Professora, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (Laqua), Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (Ceca), Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
2 Graduando em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (Laqua), Campus de Engenharias
e Ciências Agrárias (Ceca), Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
3 Graduanda em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (Laqua), Campus de Engenharias
e Ciências Agrárias (Ceca), Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

INTRODUÇÃO
A expansão demográfica e populacional, aliada ao crescente desenvolvimento industrial
ocorrido nas últimas décadas, ocasionou impactos ambientais de diversos níveis nos ambientes
aquáticos (INSTITUTO NACIONAL DO SEMIÁRIDO, 2012). Os rios localizados em
áreas com alta urbanização estão entre os ecossistemas mais atingidos pela contaminação
resultante das ações antrópicas (PAUL; MEYER, 2001). O impacto no meio aquático advém
de diversas fontes poluidoras, como efluentes agrícolas, industriais e domésticos (LIEBEL;
TOMOTAKE; OLIVEIRA RIBEIRO, 2013).
A Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco possui 2.700 km de extensão, representando
cerca de 8% do território brasileiro, sendo habitada por mais de 18 milhões de pessoas e
dividida em Alto, Médio, Submédio e Baixo (CBHSF, 2014). O Baixo São Francisco é uma
região que possui cerca de 214 km de extensão, percorrendo 86 municípios, tendo seu início
no município de Paulo Afonso (BA), passando por Alagoas e Sergipe até a foz, onde deságua
entre os municípios de Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE) (IBAMA, 2006).
Com uma área de aproximadamente 25.500km2, o Baixo São Francisco é uma
mesorregião da bacia hidrográfica de mesmo nome que compreende os Estados de Alagoas
e Sergipe, onde residem 1,5 milhão de habitantes, dos quais cerca de 440 mil fazem parte
da população ribeirinha (SOARES; VIEIRA; NAVAS, 2020).
Por se localizar no Semiárido nordestino, região de constantes conflitos, em especial
sobre o uso da terra, muitas comunidades têm no rio sua principal fonte de subsistência. A
região do Baixo apresenta grande importância ambiental e econômica, possuindo uma alta
atividade agrícola, pesqueira e turística (BARBOSA; SOARES, 2009).
De acordo com Silva, Galvíncio e Almeida (2010), dentre as principais ações que
contribuem para a degradação da qualidade hídrica do Baixo São Francisco estão a extensão
de áreas agrícolas e ocupações irregulares situadas às margens do rio, assentamentos humanos,
destruição de matas ciliares, especulação imobiliária e o não cumprimento de leis ambientais,
demonstrando o total desrespeito do homem com a sustentabilidade dos recursos naturais.
Este cenário é agravado pelo uso descontrolado de agrotóxicos nas culturas existentes
no entorno do rio (principalmente cana-de-açúcar e arroz), fertilizantes químicos que
podem ser lixiviados e pelo lançamento de efluentes domésticos e industriais sem tratamento
diretamente no corpo d’água. Mesmo com a exploração do rio para as mais diversas finalidades,
o baixo curso ainda é utilizado como meio de subsistência para as comunidades locais que
sobrevivem da pesca.
Apesar da pesca ainda estar entre as atividades de subsistência mais importantes,
segundo os dados de Soares (2020a), foi observado empobrecimento de algumas espécies
nativas durante as coletas pelo baixo curso, sendo constatada a diminuição de curimatãs-pacus
e pilombetas. Este fato pode ser explicado pelo lançamento de efluentes sem tratamento nos
corpos d’água, causando a poluição hídrica da bacia (ANA, 2019).
Barbosa et al. (2017) afirmam que, ainda assim, das águas do Baixo São Francisco
provêm espécies de grande importância para a alimentação humana e alvo de pesca
intensiva. Dentre as espécies que se destacam, Soares et al. (2020b) citaram que as endêmicas
pirambeba (Serrasalmus brandtii) (Characiforme, Serrasalmidae) e pacu-prata (Myleus
micans) (Characiforme, Serrasalmidae) e a nativa piau-branco (Leporinussp.) (Characiforme,
Anostomidae), além da introduzida tucunaré (Cichla sp.) (Perciforme, Cichlidae), estavam entre
as mais capturadas durante a Expedição Científica de 2020, aparecendo, representativamente,
em aproximadamente 70% dos peixes coletados.

47

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

A contaminação originada das atividades antrópicas próximas às margens do rio,
como a que ocorre no Baixo São Francisco, pode liberar, nas águas, dezenas de milhares de
compostos químicos com potencial citotóxico que atingem os corpos límnicos através de
escoamento superficial, irrigação ou percolação no solo, causando eutrofização e intoxicação
da comunidade aquática (MANRIQUE; FIGUEIREDO; MACHADO-NETO, 2013).
O efeito destes poluentes na cadeia trófica, mais especificamente nos peixes, vem sendo
estudado por Dantas et al. (2020; 2021) na região do Baixo São Francisco, através de
análises histopatológicas.
A histopatologia possibilita o estudo de alterações celulares dos tecidos, sendo
uma ótima ferramenta para identificar problemas em órgãos-alvo específicos, incluindo as
brânquias e o fígado, que são responsáveis por funções vitais, como respiração, o acúmulo e a
biotransformação de xenobióticos nos peixes (GERNHOFER et al., 2001; DE LA TORRE;
FERRARI; SALIBAN, 2005). Estas análises são consideradas técnicas abrangentes de
biomonitoramento para avaliar a saúde do peixe e sua sobrevivência em ecossistemas aquáticos
poluídos (DEORE; WAGH, 2012).
Biomarcadores histopatológicos vêm sendo utilizados, em estudos de campo, para
avaliar o efeito tóxico dos poluentes no ambiente aquático e têm a capacidade de diferenciar
lesões nos órgãos, induzidas por doenças e outros fatores do meio ambiente, daquelas
provocadas pela exposição aos poluentes (SCHWAIGER et al., 1997; COOMBS et al., 2011).
As investigações histopatológicas estão entre as principais áreas com foco em
pesquisas para a validação de marcadores de efeitos tóxicos de poluentes aquáticos em
campo. Através desses estudos, é possível caracterizar os impactos de produtos químicos
advindos da contaminação dos recursos hídricos nos tecidos (SCHWAIGER et al., 1997;
DANTAS et al., 2021).
Com auxílio da histopatologia, é possível fornecer uma melhor avaliação tanto da
saúde dos peixes, quanto dos efeitos da poluição, isso porque as mudanças histopatológicas
integram o impacto de uma variedade de estressores (patógenos, compostos tóxicos e condições
nutricionais e ambientais desfavoráveis). Além disso, biomarcadores histopatológicos são
considerados marcadores confiáveis, pois incorporam fatores bióticos e da qualidade da água
em uma visão holística sobre o status dos peixes e o estresse ambiental a que estão expostos
(ZIMMERLI et al., 2007; POLEKSIC et al., 2010; DANTAS et al., 2021).
Diante dos impactos causados pelas ações antropogênicas na região do Baixo São
Francisco, onde organismos aquáticos estão expostos a contaminantes, esta pesquisa visou
avaliar, através de análises histopatológicas das brânquias e do fígado, a relação direta entre
a contaminação e os efeitos celulares e teciduais provocados por eles e, desta forma, fornecer
subsídios para diagnósticos de impactos ambientais e quantificação dos danos causados nos
peixes, além de levantar informações que possam gerar ações que reduzam os efeitos da
atividade humana sobre a sanidade desses animais.

Processamento de tecidos para análises microscópicas

Durante as coletas realizadas na IV Expedição Científica do São Francisco, em
2021, amostras de órgãos de peixes foram separadas para análises histopatológicas. No
critério de escolha das espécies, tiveram prioridade as nativas de importância econômica para
região e as exóticas que haviam sido capturadas e analisadas na III Expedição Científica do
São Francisco, em 2020. Portanto, as análises presentes no trabalho são referentes às duas

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Expedições (2020 e 2021), para que, desta forma, os resultados pudessem ser comparados e
fosse possível identificar alguma alteração no intervalo de um ano.
Após a captura e a identificação, os peixes foram dissecados e os fígados e brânquias,
fixados em formol a 10%; depois de 24 horas fixados em álcool 70%, seguiram para o
Laboratório Aquicultura e Análise de Águas (Laqua) do Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (Ceca/Ufal), onde os estudos histológicos foram desenvolvidos. Posteriormente, as
amostras foram desidratadas em série alcoólica crescente a 80%, 90% e 99% e, em seguida,
submetidas à resina de embebição (Leica Historesin – Embedding Kit), por 24 horas, em
geladeira. O material foi transferido para moldes de polietileno (histomold) contendo resina
de inclusão e mantido em temperatura ambiente até a polimerização. Os blocos foram
cortados em secções de 5 μm de espessura, com auxílio de micrótomo rotativo com navalhas
de aço inox. Os cortes foram corados com hematoxilina de Harris e eosina, e realizada a
montagem das lâminas. Em seguida, o material foi fotografado em microscópio de luz com
câmera digital e as fotomicrografias, analisadas.
Na Expedição realizada em 2020, foram coletadas amostras de 39 indivíduos de
cinco espécies, em seis pontos da região do Baixo São Francisco. Na escolha das espécies a
serem estudadas, foram incluídas a Cichla monoculus (tucunaré), Metynnis maculatus (pacu),
Serrasalmus brandtii (pirambeba), Astronotus ocellatus (oscar) e Pygocentrus piraya (piranhavermelha) coletadas nos municípios de Piranhas, Pão de açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio,
Penedo e Piaçabuçu (Figura 1).
Em 2021, foram coletadas amostras de 80 indivíduos de quatros espécies, em sete
pontos situados em municípios do Baixo São Francisco. As espécies escolhidas foram: Cichla
monoculus (tucunaré), Metynnis maculatus (pacu), Serrasalmus brandtii (pirambeba) e Schizodon
knerii (piau-branco) (Figura 2), coletadas nos municípios de Piranhas, Pão de açúcar, Traipu,
São Brás, Propriá, Penedo e Piaçabuçu.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 1 - Espécies escolhidas para a realização da análise histopatológica da III
Expedição (2020): A) tucunaré; B) piau-três-pintas; C) pacu; D) pirambeba; E) oscar; F)
piranha-vermelha

Fonte: SOARES, 2020. Expedições Científicas do São Francisco.

Figura 2 - Espécies escolhidas para a realização das análises histopatológicas da IV
Expedição (2021): A) tucunaré; B) pacu; C) pirambeba; D) piau-branco

Fonte: SOARES, 2021. Expedições Científicas do São Francisco.

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Interpretação dos resultados

Na pesquisa com as amostras coletadas em 2020, foram analisadas três lâminas com
cinco secções de 5μm de cada peixe, para cada espécie. Desta forma, foi analisado um total
de 117 lâminas e 585 cortes histológicos.
Em 2021, foram analisadas quatro lâminas com quatro secções de 5μm de cada
peixe, para cada espécie, resultando num total de 80 lâminas e 320 cortes histológicos.
Para a descrição das alterações histopatológicas, foi utilizado o protocolo para avaliação de
poluição aquática proposto e padronizado por Bernet et al. (1999). Segundo os autores, as
lesões patológicas de cada órgão são classificadas de acordo com cinco padrões de reação:
distúrbios circulatórios (padrão de reação 1), alterações regressivas (padrão de reação 2),
alterações progressivas (padrão de reação 3), inflamação (padrão de reação 4) e neoplasma
(padrão de reação 5).
Um fato de importância (w) variando de 1 (alteração mínima) a 3 (máxima
importância) é atribuído a cada alteração, apontando sua importância patológica e sua
relevância, que depende da forma como afeta a função do órgão e o grau de reversibilidade.
Segundo o protocolo, os fatores são distribuídos como: 1- a alteração é facilmente reversível
ao fim da exposição à substância tóxica. Possui importância patológica mínima; 2- a alteração
é potencialmente reversível se a exposição ao agente causador for interrompida. Possui
importância patológica moderada; 3- a lesão é grave, geralmente irreversível, levando à perda
parcial ou total da função do órgão. Possui importância patológica acentuada.
Além disso, é utilizado o parâmetro pontuação (α), em que, a cada amostra, é atribuído
um valor, que varia de 0 a 6, de acordo com a extensão ou ocorrência de cada alteração. O
score (pontuação) sugerido pelos autores é: (0) sem alteração; (1-2) ocorrência leve; (3-4)
ocorrência moderada; (5-6) ocorrência severa. A partir desses valores, foi possível obter o
índice de alterações histopatológicas (IH) de cada amostra, através da multiplicação de w
por α para cada alteração, bem como a soma do total de alterações para cada amostra.
Quando a análise foi realizada em apenas um órgão, foi utilizado o seguinte índice:
Índice do órgão (I org) – representa o grau de dano a um órgão. Um alto índice indica um
alto grau de dano.

I org = ∑pr ∑alt (a org pr alt x w org pr alt)
Onde: org = órgão (constante); pr = padrão de reação; alt = alteração; a = pontuação; w =
fator de importância.
Quando vários órgãos foram examinados, outro índice pôde ser calculado:
Índice total (Tot-I) – representa uma medida geral do estado de saúde, baseada nas
alterações histológicas.

Tot-I = ∑ ∑ ∑ (a org pr alt x w org pr alt)
org pr alt

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Após essa interpretação, foi desenvolvida uma tabela de trabalho própria para este
estudo, com as principais alterações encontradas nos fígados e brânquias dos peixes, a partir
da qual procedeu-se a análise dos órgãos. Com a quantificação das lesões, foi possível aplicar
análises estatísticas para comparar os índices entre as diferentes espécies.
Foram calculados os índices individuais por órgão e o índice total de patologias
por espécie. Para a avaliação destes resultados, os dados foram analisados estatisticamente,
através do teste T com o auxílio do programa estatístico SigmaPlot 12.0, nos municípios
que possuíam apenas duas espécies de peixes. Para os demais municípios, índices de lesões
histopatológicas de fígado e brânquias foram comparados utilizando o teste Kruskal-Wallis
com o auxílio do programa estatístico Assistat 7.7.

Análise histopatológica dos órgãos-alvo de peixes coletados no Baixo São
Francisco e estrutura morfológica padrão do fígado e das brânquias dos
peixes analisados

Em geral, a arquitetura do tecido hepático encontrado nos peixes analisados é
semelhante ao das espécies de teleósteos, que possuem como característica cordões de
hepatócitos com formato poligonal, núcleos centrais apresentando nucléolos proeminentes,
dispostos em fileiras entre capilares sinusoides e vasos sanguíneos distribuídos irregularmente
entre os hepatócitos, além de células de tecido pancreático exócrino, que apresentam
arranjo acinar, caracterizando o hepatopâncreas, comum entre esses animais (GENTEN;
TERWINGHE; DANGUY, 2009) (Figura 3A).
O padrão normal da arquitetura das brânquias está mostrado na Figura 3B. Observase o modelo descrito por Fanta et al. (2003), com arcos branquiais contendo o filamento
primário, dispostos paralelamente, cada um composto por lamelas respiratórias (secundárias)
alinhadas em ambos os lados, que representam a superfície de troca gasosa, como é comum
nos teleósteos.
Figura 3 - Fotomicrografias da arquitetura com padrão normal dos tecidos dos peixes.
A) tecido hepático (H) do pacu, com cordões de hepatócitos com aspecto normal, células
poligonais com núcleo arredondado central (ponta de seta) e vasos sinusoides distinguíveis
(seta vermelha); B) brânquias de pacu com lamelas primárias (LP) sem alterações, contendo
lamelas secundárias (LS) dispostas em ambos os lados do filamento primário [Obj. 40x, HE]

Fonte: DANTAS, 2020.

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Análise histopatológica da III Expedição Científica (2020)

Os estudos histopatológicos revelaram diferenças nos tipos e na gravidade das lesões
dos órgãos entre os peixes coletados nos seis municípios do Baixo São Francisco em 2020.
Foi observado que, em 100% das amostras analisadas, os peixes possuíam algum tipo de
alteração patológica, seja no fígado ou nas brânquias. O grau de severidade e a ocorrência das
lesões totais nos órgãos foram mais pronunciados na pirambeba de Penedo (Figura 4A), no
tucunaré coletado em Piranhas (Figuras 4B e 4C), na pirambeba (Figura 4D) e no tucunaré
(Figura 4E) de Porto Real do Colégio, respectivamente, conforme evidenciado no Índice
Total de Patologias (BERNET et al., 1999) mostrado no Gráfico 1.
Alterações significativas comuns a várias espécies foram encontradas, como
vacuolização e degeneração do citoplasma dos hepatócitos, infiltração de leucócitos no
tecido pancreático, fusão lamelar, deslocamento do epitélio lamelar, necrose, entre outras.
Estas alterações morfológicas podem ser induzidas pela presença de poluentes na água e
acarretar prejuízos à habilidade dos peixes de realizar suas funções fisiológicas quando expostos
a períodos curtos, levando à morte de indivíduos se houver longos períodos de exposição
( JOBLING, 1995; MELETTI et al., 2003).
O Baixo São Francisco é uma região bastante impactada pela poluição causada pelas
descargas de esgotos domésticos das cidades que o margeiam. Além disso, sofre de problemas
relacionados ao uso de agrotóxicos em lavouras ao longo das margens dos rios e ao descarte
de efluentes de atividades industriais na água (SOARES et al., 2020b).
Segundo Yamamoto et al. (2016), resíduos industriais podem liberar metais pesados
e hidrocarbonetos aromáticos nos rios. Estas substâncias, potencialmente tóxicas, podem
acumular-se nos organismos aquáticos, levando à ocorrência de patologias nos órgãos.
Gráfico 1 - Comparação das alterações patológicas totais (fígado + brânquias) entre as
espécies e os pontos de coleta, de acordo com o índice de patologias proposto por Bernet et
al. (1999). Teste de Kruskal- Wallis com múltiplas comparações p< 0,05

Fonte: Priscylla Dantas (2020).

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Dantas, Soares e Silva (2020) observaram que, na Expedição Científica de 2019, 93%
dos peixes apresentaram lesões no fígado, dentre eles o tucunaré coletado em Piranhas e Traipu,
a pirambeba coletada em Pão de Açúcar e o oscar coletado em Traipu; entretanto, a maioria
de grau leve. Entre as alterações, houve predominância de vacuolização dos hepatócitos e
infiltrado leucocitário. A necrose foi observada somente na espécie de oscar.
Em 2020, foi observado um aumento na ocorrência e na severidade de patologias
por espécies analisadas em relação ao ano anterior: nas amostras coletadas, todos os peixes
apresentaram lesões hepáticas, sendo identificada a necrose, tipo de lesão mais severa e
irreversível, no tucunaré e no pacu de Piranhas, no tucunaré de Pão de Açúcar, Porto Real
do Colégio e Piaçabuçu e na pirambeba de Penedo.
Nos tecidos hepáticos de peixes com início de necrose, os citoplasmas apresentamse vacuolizados, com coloração pálida e núcleo deslocado da região central (PINHEIRO
et al., 2017). Este tipo de alteração celular é considerada reversível, pois as células agredidas
mantêm-se vivas, apesar de sofrerem alterações funcionais e morfológicas, recuperando-se
quando o estímulo agressor cessa (KUMAR; ABBAS; FAUSTO, 2015).
Banee et al. (2013) observaram vacuolização citoplasmática e degeneração dos
hepatócitos em truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss) exposta a 0,2mL/L do inseticida
organofosforado diazinon por 28 dias. Segundo Saraiva et al. (2015) e Vreys et al. (2019),
as alterações histológicas mais encontradas em fígado de peixes expostos a pesticidas são
degeneração vacuolar, perda do limite da célula, alteração da arquitetura do tecido e necrose.
Todas essas hepatodristrofias foram evidenciadas nas análises dos peixes coletados no Baixo
São Francisco.
Dentre todas as espécies analisadas, o tucunaré foi a que apresentou mais pontos de
necrose severa em seu tecido (Figuras 4B, 4C e 4E), seguida da pirambeba (Figuras 4A e
4D), além de desarranjo da estrutura cordonal, demonstrando alteração na arquitetura do
tecido hepático. Nesses peixes, puderam ser observados deformação e clareamento nuclear,
degeneração do citoplasma, perda do limite celular, em geral associada à infiltração de
leucócitos, demonstrando sinal de inflamação. Essas alterações morfológicas em conjunto
caracterizam a necrose.
A análise microscópica do tecido hepático dos peixes revelou que todos os espécimes
apresentaram mais de um sinal de alteração celular no órgão. Dentre as amostras analisadas, a
severidade e a frequência das lesões no fígado foi maior na pirambeba coletada no município
de Penedo, seguida do oscar de Penedo, do tucunaré coletado em Piranhas e também em
Porto Real do Colégio. As principais alterações histopatológicas encontradas no fígado dos
peixes estão resumidas na Tabela 1.
Em relação às alterações nas brânquias, também houve aumento na ocorrência
dentre as espécies analisadas. Em 2019, 53% das espécies apresentaram alguma modificação
branquial, prevalecendo a hiperplasia (DANTAS; SOARES; SILVA, 2020). Nos dados
de 2020, dentre as cinco espécies analisadas, de todos os pontos, somente o pacu não
apresentou alteração branquial severa. Apesar das alterações terem sido observadas em todas
as amostras hepáticas e na maioria das amostras branquiais, e muitas espécies possuírem
o índice total maior (Gráfico 1), muitas delas não diferiram estatisticamente entre si em
relação ao índice dos órgãos.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 1 - Principais alterações observadas no fígado dos peixes amostrados e seus
correspondentes fatores de importância (w) (BERNET et al., 1999)
Característica examinada

Fator de importância (w)

Perda do contorno celular

1

Núcleo na periferia da célula

2

Deformação nuclear

2

Vacuolização citoplasmática

1

Degeneração do citoplasma

1

Rompimento celular

1

Infiltração leucocitária

2

Dilatação dos sinusoides

1

Necrose

3

Hiperemia

1

Fonte: Priscylla Dantas (2020).

Nas brânquias analisadas, as principais alterações observadas consistiram,
principalmente, em hiperplasia das células epiteliais, com proliferação desordenada de
células no espaço interlamelar que, em muitas espécies, ocasionou fusão lamelar completa
ou incompleta das lamelas secundárias. As espécies mais afetadas por essas lesões foram
o tucunaré coletado no município de Piranhas, a pirambeba coletada em Porto Real do
Colégio, a piranha-vermelha coletada em Traipu (Figura 4F) e o tucunaré de Porto Real
do Colégio. As principais alterações histopatológicas encontradas nas brânquias dos peixes
estão resumidas na Tabela 2.
Tabela 2 - Principais alterações observadas nas brânquias dos peixes e seus correspondentes
fatores de importância (w) (Bernet et al., 1999)
Característica examinada

Fator de importância (w)

Hipertrofia

1

Hiperplasia

2

Desarranjo lamelar

2

Fusão lamelar completa

2

Fusão lamelar incompleta

2

Deslocamento epitelial

1

Espessamento de tecido proliferativo

2

Aneurisma

1

Fonte: Priscylla Dantas (2020).

O deslocamento do tecido epitelial das lamelas secundárias (Figuras 4B e 4F)
foi observado de forma severa nas espécies analisadas. Somente o pacu não apresentou
patologia braquial (Figura 3B) ou esta foi observada apenas em grau leve. A alteração
possui fator de importância (w) = 1, portanto, facilmente reversível no estágio em que foi
observada nessa espécie.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O levantamento do epitélio lamelar observado nos peixes analisados neste trabalho
é considerado, por Thophon et al. (2003), como o primeiro sinal de patologia branquial e
caracteriza-se pela elevação de uma lâmina contínua do epitélio de revestimento das lamelas
para longe do sistema de células pilares, aumentando, assim, a distância entre o meio externo
e o sangue, comprometendo a função respiratória do órgão.
As alterações nas brânquias das espécies coletadas no Baixo São Francisco foram
comumente encontradas em peixes submetidos à água antropizada (PEREIRA et al., 2020;
SHAHID et al., 2020; LASSEN, 2021). Vários autores propuseram diferentes funções às
lesões, como Mallat (1985), que atribui um caráter protetor à fusão lamelar, uma vez que essa
modificação diminui a superfície branquial. Porém, também pode diminuir a capacidade do
órgão em realizar as trocas gasosas.
Mazon, Cerqueira e Fernandes (2002) afirmam que as alterações são respostas de
defesa do tecido branquial que ajudam a barrar a entrada de substâncias tóxicas e podem
auxiliar na prevenção dos danos causados pela exposição direta.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 4 - Alterações patológicas encontradas nos peixes coletados no Baixo São Francisco
(2020). A) pirambeba coletada em Penedo, apresentando dilatação dos vasos sinusoides
(círculos), necrose multifocal (setas pretas) e hepatócitos com citoplasma mais claro e
núcleo pálido (seta vermelha); B) tucunaré coletado em Piranhas com deslocamento do
epitélio lamelar (setas vermelhas) e início de fusão no ápice das lamelas secundárias (cabeça
de seta); C) tucunaré de Piranhas com alta vacuolização hepática (seta vermelha), congestão
vascular (Cg) e núcleos na periferia da célula (cabeça de seta); D) pirambeba de Porto Real
do Colégio com hiperplasia severa (HP) e fusão completa das lamelas (seta); E) tucunaré de
Porto Real do Colégio com degeneração citoplasmática e perda do limite celular (círculos),
núcleos na periferia da célula (cabeça de seta), vacuolização (seta) e infiltrado leucocitário
(IF); F) piranha-vermelha de Traipu com deslocamento epitelial (seta) e fusão inicial das
lamelas secundárias (Fi) [Obj. 40x: A, B, C, E, F; Obj. 10x: D, HE]

Fonte: DANTAS, 2020.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Análise histopatológica da IV Expedição Científica (2021)

As análises histopatológicas da IV Expedição Científica demonstraram a presença
de variadas lesões no fígado e nas brânquias dos peixes. Contudo, os resultados foram menos
severos que os apresentados em 2020. No diagnóstico de alterações, foram encontradas várias
categorias de inflamação aguda e crônica e alterações degenerativas, como necrose, hemorragia
e infiltração de leucócitos, além de respostas proliferativas, como hiperplasia e hipertrofia
celular e aneurismas. Os tipos de alterações e fator de importância encontrados em 2021
foram semelhantes aos da Expedição Científica de 2020 e estão dispostos nas Tabelas 1 e 2.
Considerando as amostras de todos os peixes examinados, o tucunaré coletado em Pão
de Açúcar, a pirambeba e o pacu coletados no município de Piranhas obtiveram os índices mais
altos de patologia nos órgãos. Os espécimes de tucunaré coletados em Traipu e em Piaçabuçu
também apresentaram lesões patológicas importantes, como degeneração citoplasmática,
necrose hepática e pancreática e infiltração leucocitária. O Gráfico 2 apresenta as espécies
que obtiveram índices de patologias mais altos entre as amostras analisadas em 2021.
Gráfico 2 - Comparação das alterações patológicas totais (fígado + brânquias) entre as
espécies e os pontos de coleta, de acordo com o índice de patologias proposto por Bernet et
al. (1999). Teste de Kruskal-Wallis com múltiplas comparações p< 0,05

Fonte: Priscylla Dantas (2021).

As análises da IV Expedição Científica evidenciaram que o tucunaré foi o peixe
que demonstrou mais hepatodistrofias entre as espécies analisadas: os coletados em Pão de
Açúcar apresentaram tecido pancreático com intensa vacuolização (Figura 5A); os espécimes
coletados em Traipu demonstraram extensa área com necrose e desorganização estrutural
dos hepatócitos (Figura 5C) e os coletados em Piaçabuçu possuíam infiltração de leucócitos
no fígado (Figura 5E). Resultados semelhantes foram encontrados por Velma e Tchounwou
(2010) no peixe dourado (Carassiusauratus) exposto a cromo.
Os autores relatam que peixes expostos a substâncias tóxicas apresentam vacuolização
por conta do acúmulo excessivo de gordura no citoplasma e que a ocorrência de degeneração

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no fígado e no tecido pancreático e a necrose podem ser devidas ao acúmulo de leucócitos.
A congestão dos vasos sanguíneos pode ocorrer devido à pressão do sangue exercida por
substâncias tóxicas, resultando em hemorragia. As alterações encontradas nos peixes coletados
no Baixo São Francisco também podem estar relacionadas à exposição a metais pesados, pois
Soares et al. (2020b) demonstraram valores de arsênio e cromo acima do Limite Máximo
Tolerado (LMT) em peixes capturados na região.
A degeneração vacuolar (ou esteatose) encontrada nos tucunarés (Figura 5A)
caracterizou-se por clareamento citoplasmático, manutenção do núcleo para a periferia da
célula e distorção arquitetural dos cordões de hepatócitos. De acordo com Kumar, Abbas e
Fausto (2015), essa alteração é a primeira manifestação de quase todas as formas de dano
celular e, em fase inicial, é considerada reversível e não letal. Contudo, em grau mais intenso,
conduz à morte celular.
Em trabalho recente, Savassi et al. (2020) registraram alterações hepáticas, como
vacuolização nos hepatócitos e hipertrofia nuclear em peixes coletados no Rio Paraopeba
(MG), região que sofre pela contaminação por resíduos das indústrias de aço, da agricultura,
de curtumes e esgoto (doméstico e industrial). Da mesma forma, Peixoto (2020) observou
alterações histológicas em amostras de fígado de Heptapterusmustelinus que habitavam riachos
situados em região de alto impacto agrícola (com intenso uso de agrotóxicos) que corroboram
às apresentadas pelos peixes do Baixo São Francisco.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 5 - Alterações patológicas encontradas nos órgãos dos peixes coletados no Baixo São
Francisco (2021). A) tucunaré coletado em Pão de Açúcar apresentando fígado com alta
degeneração vacuolar (setas); B) brânquias do tucunaré de Pão de Açúcar com hiperplasia
severa (HP), fusão lamelar completa (F) e hemorragia no seio venoso central (seta); C)
tucunaré de Traipu apresentando hepatócitos com degeneração citoplasmática (setas) e
extensa área necrosada (N); D) pirambeba de Piranhas com proliferação celular (setas) e
fusão lamelar completa (F) nas brânquias; E) tucunaré coletado em Piaçabuçu com evidente
infiltração leucocitária (setas pretas) e necrose focal no tecido pancreático (setas vermelhas);
F) hiperplasia (HP) severa nas lamelas branquiais do pacu coletado em Piranhas e fusão
lamelar completa (F) [HE, Obj. 40x]

Fonte: DANTAS, 2021.

As lesões patológicas apresentadas neste estudo são semelhantes às encontradas por
Haque et al. (2017) no fígado de três peixes teleósteos que habitavam tanques com presença de

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Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPA) advindos da descarga de efluentes industriais
contendo óleo diesel. Os autores afirmam que essas patologias são alguns dos principais sinais
de toxicidade ocasionada pelo HPA. Diante disso, os resultados encontrados nas espécies do
Baixo São Francisco indicam que os peixes da região estão expostos a estressores químicos
e poluentes tóxicos que provocam alterações patológicas graves.
A hiperplasia foi observada majoritariamente nas brânquias, de forma severa, nas
espécies analisadas (Figuras 5B, 5D e 5F). De acordo com Erkem e Kolankaya (2000), a
hiperplasia possui função de defesa ao aumentar a distância que as substâncias presentes
na água têm que percorrer para alcançar a corrente sanguínea. É importante ressaltar que
o processo hiperplásico observado nos peixes aqui analisados, causado pela proliferação
descontrolada de células no espaço interlamelar (Figura 5D), pode levar as brânquias
à fusão parcial ou completa, que compromete a passagem de água entre as lamelas e
prejudica a respiração.
Nas brânquias do tucunaré coletado em Pão de Açúcar (Figura 5B), da pirambeba
(Figura 5D) e do pacu (Figura 5F) capturados em Piranhas foi evidenciado processo
hiperplásico severo, ocasionando fusão lamelar completa e alta proliferação celular por todo
o filamento primário, semelhante às alterações encontradas nas espécies analisadas na III
Expedição Científica, características que, segundo Velmurugan et al. (2020), são uma indicação
marcante que mostra alterações inflamatórias e pré-inflamatórias induzidas por produtos
químicos nos animais aquáticos. Já o descolamento do tecido epitelial e a hipertrofia foram
lesões observadas em menor frequência nas amostras de 2021.
Dentre todas as espécies estudadas, o tucunaré e a pirambeba foram as mais acometidas
por patologias nos órgãos analisados. Por serem espécies predadoras, seus hábitos alimentares
permitem acumular valores de concentrações mais elevados que os encontrados nos indivíduos
de que se alimentam, podendo reter todo o percentual de contaminantes acumulados ao longo
da cadeia pelos peixes (MIRANDA, 2006; TAO et al., 2012). Além disso, devido aos processos
de bioacumulação a que estão submetidos, os efeitos dos compostos podem ser detectados
dias ou semanas após os resíduos dos agrotóxicos terem desaparecido da água (STURM et
al., 1999), demonstrando o potencial dessas espécies como bioindicadores.
As espécies predadoras vêm sendo utilizadas como bioindicadores por diversos autores,
como Silva et al. (2013), com o tucunaré (Cichla ocellaris); Grisolia, Rivero-Wendt e Barbosa
(2009), com a espécie tucunaré-açu (Cichla temensis); Jesus et al. (2016) e Santos, Torres e
Pinto (2020), com a pirambeba (Serrasalmus brandtii). Diante disso, tucunarés e pirambebas
coletados no Baixo São Francisco possuem potencial de utilização como bioindicadores de
qualidade ambiental, através de estudos dos marcadores histopatológicos, já que espécies
localizadas no topo da cadeia alimentar são importantes bioacumuladores e biomagnificadores
de poluentes organopersistentes.
Na avaliação comparativa do estado de saúde dos peixes entre os pontos de coleta, as
análises demonstraram que, em 2020, os municípios de Piaçabuçu, Traipu e Porto Real do
Colégio foram considerados os pontos com maiores índices de patologias; diferente do que
ocorreu em 2021, em que os mais altos índices de alterações histopatológicas encontradas
foram os pontos de coleta situados em Pão de Açúcar, Piranhas e São Brás, respectivamente.
Segundo Vasconcelos et al. (2020), os municípios do Baixo São Francisco alagoano
sofrem com problemas com efluentes e alta carência de saneamento básico, com despejo de

61

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

esgotos in natura em vários pontos das margens do rio. Além disso, Soares et al. (2020b)
afirmam que, especificamente no Baixo São Francisco, ocorrem práticas inadequadas de
irrigação, fertilização do solo com agroquímicos e lançamento de efluentes sem tratamento
diretamente na água.
Apesar das alterações pronunciadas e com diversos graus de severidade encontradas
nas análises dos peixes da IV Expedição Científica (2021), esta ainda evidenciou menor índice
de patologias quando comparada à III Expedição Científica (2020). Muitas das patologias
encontradas são consideradas reversíveis ou moderadas e não afetam os tecidos associados
ao funcionamento dos órgãos. Esse resultado pode ser atribuído ao aumento da vazão do
rio durante a Expedição de 2021.
São inúmeros os problemas de degradação ambiental que acometem o Baixo São
Francisco e estão diretamente relacionados ao aumento de patologias nos tecidos do fígado
e nas brânquias dos peixes. A redução drástica da vazão que vem ocorrendo nos últimos
anos ocasiona impactos significativos na capacidade de purificação do rio, uma vez que
menores vazões por longos períodos contribuem significativamente para a manutenção das
concentrações de poluentes (MEDEIROS et al., 2016).
A III Expedição Científica foi realizada sob condição de menor vazão liberada no
Baixo São Francisco, o que pode comprometer a qualidade da água e a saúde dos peixes,
pois influencia na diluição dos diversos agentes químicos estressantes presentes nos efluentes
domésticos, resíduos industriais, fertilizantes e agrotóxicos, arrastados para o corpo d’água. A
comparação entre os resultados das Expedições de 2020 e 2021 demonstra que é necessária,
no Baixo São Francisco, além da manutenção de um maior volume de água, a promoção um
aumento considerável no tratamento de efluentes, pois, em casos de baixa vazão, o rio não
tem água suficiente para diluir os efluentes lançados.
Associados ao problema de redução da vazão do rio estão a degradação da mata
ciliar e o uso abusivo de agrotóxicos. De acordo com Soares et al. (2020b), nos municípios
de Porto Real do Colégio, Penedo e Piaçabuçu ocorre a utilização de muitos insumos, como
fertilizantes químicos solúveis, inseticidas, herbicidas e raticidas nas plantações localizadas às
margens do rio. A lixiviação desses agroquímicos, principalmente em períodos chuvosos, tende
a contaminar as águas superficiais e, em alguns casos, também as subterrâneas, caracterizando
o rio como destino final de produtos químicos, o que pode levar à contaminação de nascentes
(RAMOS, 2020).
Portanto, a soma desses fatores favorece o processo de degradação da qualidade
da água e desencadeia alterações histopatológicas nos organismos aquáticos, podendo,
inclusive, ser responsável pelo desaparecimento de várias espécies importantes ecológica e
economicamente para a região.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo levou a oito conclusões relevantes para a avaliação da sanidade dos peixes
que habitam o Baixo São Francisco e dos muitos problemas que acometem a região:
1. Os peixes coletados na III Expedição Científica apresentaram maior ocorrência
e severidade nas alterações patológicas no fígado e nas brânquias em relação às II
e IV Expedições;
2. Os espécimes de tucunaré e pirambeba foram os que apresentaram índices e
frequências mais elevados de patologias, o que os torna interessantes bioindicadores,
por serem espécies bioacumuladoras e biomagnificadoras;

62

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

3. As patologias encontradas nos peixes são relacionadas à contaminação aquática
decorrente de efluentes domésticos e industriais, agrotóxicos e fertilizantes a que
os peixes estão expostos cronicamente;
4. Os municípios de Piaçabuçu, Traipu e Porto Real do Colégio foram considerados
os pontos com maiores índices de patologias em 2020, enquanto, em 2021, os mais
altos índices de alterações histopatológicas encontradas foram os pontos de coleta
situados em Pão de Açúcar, Piranhas e São Brás, respectivamente;
5. A redução da vazão no Baixo São Francisco compromete a capacidade de purificação
do rio e contribui significativamente para a manutenção das concentrações de
poluentes, tornando o ambiente propício a exposições agudas de contaminantes;
6. A exposição crônica a estressores químicos presentes na água compromete
a sanidade de populações de peixes endêmicos e exóticos, acarretando o
desaparecimento de espécies importantes do Baixo São Francisco;
7. As alterações histopatológicas, como as encontradas no fígado e nas brânquias
das espécies do Baixo São Francisco, são frequentemente estudadas em peixes
coletados em ambientes naturais poluídos para avaliar a presença de contaminantes
e a degradação do ambiente aquático, e podem ser utilizadas como biomarcadores
através do cálculo das lesões histológicas nos tecidos;
8. Os achados histopatológicos podem ser incorporados a outros biomarcadores,
como análises de genotoxicidade e estresse oxidativo, que, somados, permitirão
delinear um panorama completo da condição do ecossistema aquático do Baixo
São Francisco, possibilitando uma orientação mais adequada de programas de
monitoramento.

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CAPÍTULO 3 - MONITORAMENTO DOS ASPECTOS
REPRODUTIVOS DOS PEIXES DO RIO SÃO
FRANCISCO
Jucilene Cavali1

Emerson Carlos Soares2
Resumo: O objetivo deste estudo é monitorar os aspectos reprodutivos dos peixes do Baixo
São Francisco. Aqui, compilam-se capturas de 155 espécimes em 13 diferentes espécies da
III e da IV Expedições Científicas e as avaliações in vivo dos aspectos reprodutivos através da
técnica de ultrassonografia nas gônadas passíveis de mensuração e pesagem (>1g), sexagem,
chipagem e soltura de espécimes em estágio reprodutivo avançado. Determinaram-se a
diversidade e a predominância da espécie por município, relação macho:fêmea e o estágio de
desenvolvimento gonadal através do índice gonadossomático (IGS) para definição da época
de desova em relação à pluviosidade e à época de defeso (1º de novembro a 28 de fevereiro).
Cerca de 92% das fêmeas estavam ovadas e 67% destas em fase inicial ou madura (estágios 2
e 3). O município de Piranhas apresentou maior diversidade de espécies ovadas, mais pesadas
e em estágio gonadal avançado, com maiores IGS. Supõe-se que as características da região
de Piranhas a definam como um estuário reprodutivo. As espécies pacu, bagre e tucunaré
apresentaram-se em maior frequência e prolíferas nos municípios de Penedo e Piaçabuçu. A
colorimetria foi inserida na avaliação da carne e das gônadas dos peixes na fase de reprodução,
pois atrela a mobilização de pigmentos lipossolúveis durante a fisiologia reprodutiva. Pode-se
ressaltar que três fatores contribuíram para maior diversidade e quantidade de peixes nestes
1 a 1,5 anos: a vazão mais elevada, por mais de 30 dias, no ano anterior, que proporcionou
maior estímulo reprodutivo às espécies; as ações de peixamento e a diminuição da pesca na
fase mais crítica da pandemia de Covid-19, quando foi reduzida a comercialização de pescado.
Faz-se necessário o monitoramento reprodutivo bimestral e ao final do defeso, para validação
dos aspectos reprodutivos e garantia de desova, não somente ao estímulo reprodutivo, ainda
em condições ambientais adequadas para garantia de maior disponibilidade de alevinos.
Palavras-chave: Estádio de Maturação Gonadal. Ictiofauna. Colorimetria.

INTRODUÇÃO

O planejamento reprodutivo é uma estratégia importante para a manutenção da
biodiversidade de peixes no Rio São Francisco. Considerando a importância social, econômica
e cultural do rio na vida de milhares de famílias, alternativas que visem tornar os sistemas de
produção naturais ou de cultivo mais eficientes no atendimento à biosseguridade alimentar
vêm ao encontro das políticas públicas fomentadas para o Brasil.
O monitoramento dos aspectos reprodutivos para a preservação de espécies nativas
envolve estudo de ambiente, impactos ambientais, diversidade, frequência, fisiologia reprodutiva
coincidir com os fatores físico-ambientais em estímulos adequados para a reprodução e
garantia de desova e período de defeso.
1 Professora associada, Universidade Federal de Rondônia. Mestra e doutora em Zootecnia (UFV).
2 Professor associado, Universidade Federal de Alagoas.

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

A tecnologia de ultrassom em peixes permite a avaliação in vivo dos aspectos
reprodutivos e a tomada de decisão científica em soltura ou amostragem para abate do pescado
capturado, possibilitando a sexagem e a proporção entre machos e fêmeas, assim como a
determinação do estágio de desenvolvimento gonadal e a definição da época de desova em
relação à pluviosidade e ao período de defeso (1º de novembro a 28 de fevereiro).
No âmbito reprodutivo, pela ultrassonografia, determinam-se a qualidade das matrizes
através da maturação gonadal e de ovócitos, as fases de ovócitos vitelogênicos e os índices
gonodossomáticos (CREPALDI; ROTTA, 2007). Esta técnica não invasiva permite a
avaliação física do pescado sem a necessidade de abatê-lo. Empregada em pesquisas em
todo o mundo, devido ao seu caráter não destrutivo, simples, preciso e informatizado, além
de possibilitar a análise de amostras visivelmente opacas sem a necessidade de preparações
laboratoriais específicas, tem sido comparada à técnica da tomografia computadorizada na
eficácia de diagnóstico de algumas patologias em peixes (GUMPENBERGER et al., 2004).
As aplicações do ultrassom na piscicultura abrangem as áreas de reprodução animal,
diagnóstico de doenças e avaliação de características de qualidade e rendimento de carcaça,
com importância relevante nas pesquisas correlatas (NOVELO; TIERSCH, 2012).
O valor agregado da sexagem de alevinos até sua maturidade sexual, momento em
que é possível determinar a sexagem por características secundárias, promove ganhos de
até US$ 5,00 por peixe e, para o cultivo de tilápia, tambaqui, surubins e cachara sexados,
ganhos de peso até 25% superiores – o que representa precocidade, eficiência de ganho a
menor custo e conversão em proteína animal disponível ao consumidor. A técnica vem a
calhar com futuros projetos de cultivo de peixes em sistemas intensivos e sustentáveis onde
se possa otimizar a tecnologia da sexagem com o manejo adequado (BURTLE et al., 2003).
A sexagem de alevinos é praticada em algumas espécies com dismorfismo sexual precoce,
como o salmão, com até 8 cm de comprimento corporal, possibilitando a formação de lotes
mais homogêneos em desenvolvimento.
No âmbito reprodutivo, pela ultrassonografia, determina-se a qualidade das matrizes
através da maturação gonadal e de ovócitos, fases de ovocitosvitelogênicos e índices
gonodossomáticos (CREPALDI; ROTTA, 2007). A técnica permite a seleção de esturjões
fêmeas 100% maduros para a extrusão dos ovócitos, o monitoramento de batimentos cardíacos
e do comportamento respiratório de filhotes de espécies vivíparas, como raias e tubarões.
A ultrassonografia possibilita estimar a composição química da carne através das
proporções dos tecidos que compõem a carcaça (SANT’ANA et al., 2019); detectar nematoides
na musculatura de peixes e a presença de espinhas “y” para programas de melhoramento
genético (PERAZZA et al., 2017). Bons rendimentos musculares e de filés relacionam-se
a animais bem alimentados com satisfatório ganho de peso corporal. A qualidade física é
dada pela textura da carne que envolve tipos e feixes de fibras musculares passíveis pela
ultrassonografia e a coloração da carne.

DESENVOLVIMENTO
Os espécimes de peixes coletadas durante a III e a IV Expedições Científicas do Baixo
São Francisco (Sisbio) (MMA/ICMBio, n. 75591-2) foram avaliados quanto a seus aspectos
reprodutivos in vivo, através da técnica de ultrassonografia e em amostragens comprovativas
dos índices gonodossomáticos.

69

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Os peixes foram capturados em rede de emalhar e acondicionados em caixas com
difusores de ar e eugenol. Foram selecionadas e sexadas 37 espécies em 2020 e 133 espécies
em 2021, através da técnica da ultrassonografia, quanto ao estágio de desenvolvimento
gonadal e ao bem-estar, segundo aprovação do Comitê de Ética Animal (Ceua) 037/2020
e 024/2021, sendo escolhidos aqueles indivíduos que mantiveram natação e movimento
opercular normal. Chipadas com ID eletrônico via intramuscular na região dorsal, espécimes
em estágio reprodutivo avançado, pelo maior volume gonadal, foram devolvidas ao ambiente
próximo às áreas de captura dadas pelos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu,
Propriá, Neópolis, Penedo e Piaçabuçu, sediados às margens do São Francisco no trecho de
Piranhas à foz do rio.
As espécies bagre (Cathorops agassizii) (3), piau-três-pintas (Megaleporinus obtusidens)
(3), cará (Geophagus brasiliensis) (3), cará-boi (Astronotus ocellatus) (2) e pirambeba (Serrasalmus
brandtii) (4) foram devolvidas ao rio, próximo ao local de captura.

Sexagem e Índice Gonodossomático (IGS)

Foram sexadas 133 espécimes, sendo que pacu e piranha
apresentaram proporção de fêmeas duas vezes superior à de machos e a
pirambeba, proporção 2,3 vezes maior para machos.
Tabela 1 - Sexagem por ultrassonografia dos espécimes capturados no
Baixo São Francisco durante a Expedição Científica (nov. 2020)
Espécies (n = 133 exemplares)

Macho
15
10
12
8
6
4
3
1

Metynnis maculatus (pacu)
Cichlamonoculus (tucunaré)
Serrasalmusbrandtii (pirambeba)
Megaleporinusobtusidens (piau-três-pintas)
Schizodonknerii (piau-branco)
Astronotusocellatus (cará-boi)
Centropomusparallelus (robalo)
Pygocentruspiraya (piranha)

Fonte: Elaborada pelos autores.

Sexo

Fêmea
35
11
5
8
6
3
2
4

Relação
M:F
1:2,3
1: 1,1
2,4: 1
1:1
1:1
1,3:1
1,5: 1
1:4

Quanto ao estádio reprodutivo, com gônadas passíveis de mensuração via imagens de
ultrassom e pesagem >1,0 g, foi avaliado o índice gonadossomático (IGS) de fêmeas de 10
diferentes espécies. Dentre as 37 fêmeas capturadas em 2020, 82% dos espécimes estavam em
estágio avançado de desenvolvimento gonadal, corroborando com o quadrimestre de defeso
da pesca, de novembro a fevereiro. Para as capturas de 2021, 92% das 77 fêmeas estavam
ovadas e 67% destas em fase inicial de maturação ou madura (estágios 2 e 3).

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 1 - Gráfico Boxplot do índice gonadossomático de fêmeas de diferentes espécies de
peixes do Baixo São Francisco, no início do período de defeso

Fonte: CAVALI, 2021.

A avaliação reprodutiva das características de desenvolvimento gonadal das espécies
e maturidade ovocitária é de fundamental importância para identificar a fase reprodutiva
específica no respectivo período de defeso, validando, assim, hipóteses de pescadores sobre
a necessidade de prolongamento do período de defeso para a reprodução satisfatória de
algumas espécies.

Ambiente e reprodução de peixes

O município de Piranhas apresentou a maior diversidade de espécies ovadas, mais
pesadas e em estágio gonadal avançado. Pacu, bagre e tucunaré apresentaram-se em maior
frequência e prolíferos nos municípios de Penedo e Piaçabuçu.
A região caracteriza-se por boa qualidade da água, ambiente de rochas com mais
abrigo e esconderijos para os peixes e profundidade de até 74 metros; protegida por morros,
contém mais alimentos e é mais preservada, menos ladeada por lavouras e com vazão de
água mais concentrada. Sugere-se que as características do rio nos municípios de Piranhas a
Traipu favoreçam a reprodução, definindo-os como estuários reprodutivos de peixes.
Figura 2 - Fotos da topografia do Rio São Francisco na região de Piranhas, em Alagoas

Fonte: CAVALI, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Os maiores IGS nas espécies foram observados no trecho de Piranhas, a exemplo da
piranha de 2,06 kg, 27cm e IGS de 3,0 capturada durante a Expedição Científica.
Figura 3 - Imagens da gônada por ultrassonografia (A), em pesagem (B) e do espécime de
Pygocentruspiraya (C)

Fonte: CAVALI, 2021.

Os espécimes mais pesados de pacu foram capturados na região de Piranhas (n=5),
assim como os exemplares de maior comprimento padrão (CP) (n=8) entre Piranhas e Traipu.
A região de Propriá a Piaçabuçu, mais próxima à foz, apresentou maior número
(n=33) de espécimes de pacu e exemplares de menor CP.
Figura 4 - Gráfico Boxplot do peso corporal (A) e do comprimento padrão (B) das espécies
de Metynnis maculatus capturadas no Baixo São Francisco, no início do período de defeso

Fonte: CAVALI, 2021.

Espécime de Genidens barbus (bagre-branco), prolífera quanto aos aspectos
reprodutivos quantiqualitativos, foi capturada próximo à foz. Os bagres apresentam importante
característica de resistência às oscilações hídricas; em geral, conseguem suportar baixos
níveis de oxigênio, possuem estruturas respiratórias diferenciadas, reproduzem-se em águas
mais quentes e paradas – características das águas sob baixa vazão, como as do Baixo São
Francisco –, além de desovar em áreas estuarinas, o que justifica sua ocorrência no município
de Piaçabuçu, área de maior salinidade (CRUZ et al., 2020).

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Aspectos reprodutivos do Metynnis maculatus no Baixo São Francisco

Considerando o grande número de espécimes de pacu capturados, validaram-se
as características de dimorfismo sexual desta espécie para o Rio São Francisco, através do
tamanho e do comprimento de nadadeiras, do peso e da coloração dos peixes.

Fêmeas de pacu apresentaram maior variação de peso corporal (40,6 ± 15,0g),
comparadas aos machos (41,1 ± 8,5g)da espécie capturados no início do período de
defeso. A relação sexual esteve em 1 macho:2,3 fêmeas de pacu.
Figura 5 - Proporção de machos e fêmeas na sexagem de espécimes de pacu

Fonte: CAVALI, 2021.

No dismorfismo sexual do pacu (n=40), observou-se variação em tamanho e coloração
na sexagem. As nadadeiras dorsal (3,5 cm vs. 2,6 cm) e pélvica (1,5 cm vs 1,2 cm) são maiores
em machos; as nadadeiras peitoral, pélvica e anal diferem em forma e coloração.
Figura 6 - Gráfico Boxplot do dismorfismo sexual do Metynnis maculatus no Rio São
Francisco, em Alagoas. Gráfico Borie-Mojica

Fonte: CAVALI, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Os valores dos IGS variaram de 0,50 a 21,4 para fêmeas de pacu, coincidindo sua
desova com o período do defeso; 59% das 35 fêmeas de pacu estavam em estágio avançado
de maturação gonadal (estádio 3).
Figura 7 - Índice gonadossomático de fêmeas de pacus. Gônada: peso corporal

Fonte: CAVALI, 2021.

Os estágios gonadais também foram descritos para a espécie tucunaré. O índice de
IGS variou de 0,2 a 2,4 entre as 12 fêmeas, com média de 0,4 para os 18 machos avaliados.

Ultrassonografia na reprodução do pescado

O uso da ultrassonografia é uma tecnologia prática, não invasiva, portátil e eficiente
para a avaliação corporal dos peixes do Rio São Francisco durante a Expedição Científica.
A técnica foi empregada na tomada de decisão de soltura dos espécimes em estágio
avançado de maturação, sendo devolvidos ao ambiente ou destinados à biometria e coleta
de amostras científicas.
Utilizou-se o ultrassom modelo EXAGO IMV, probes lineares B-Mode em
frequências de ondas sonoras entre 5,0 e 10,0 Mhz (detalhes e peixes pequenos) e 2,5 e 5,0
Mhz (peixes grandes). Os animais foram acondicionados em caixas com água, para eliminar
qualquer interferência do ar na imagem gerada, proporcionando maior nitidez e imagens
ultrassonográficas tomadas com probe posicionada a 2 cm do peixe. A opção da probe esteve
diretamente relacionada à capacidade de reflexão de ondas no tecido do peixe, ao tamanho e
à composição corporal e à estrutura a ser visualizada. As imagens foram tomadas na região
dorso-ventral transversal, na altura da nadadeira dorsal e longitudinalmente, a fim de se
identificar a fase da maturação gonadal.
Através da ultrassonografia, pôde-se identificar a fase de maturação ovocitária do
bagre-branco, Genidens barbus, comprimento total 55 cm e 1,54 kg. Capturados na região de
Piaçabuçu, foram quantificados 38 ovos de 1,1 cm médios de diâmetro e outros 2 estágios
da maturação ovocitária (Figura 8).

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Figura 8 - Coleta de imagem do Genidens barbus (A). Ovos maduros na cavidade abdominal
em imagens de ultrassonografia (B) e em secção corporal transversal (C)

Fonte: CAVALI, 2021.

O G. barbus consta na lista do Ministério do Meio Ambiente como espécie em perigo
(EN) de extinção, pois apresenta baixa fecundidade se comparado a outros teleósteos: de 32
a 272 ovócitos e maturação sexual aos 8,5 a 9 anos.
Segundo Mendonça, Balanin e Garrone-Neto (2020), o número de ovos produzidos
pelos Genidens cresce linearmente (8 a 52 por ciclo) em função do tamanho corporal (22
cm a 47 cm), do peso total e do peso das gônadas, onde grandes ovócitos representam
alto esforço reprodutivo. Os machos desta espécie possuem cuidado parental e realizam a
incubação orofaringeana de ovos e alevinos (MACIEL; VAZ-DOS-SANTOS; VIANNA,
2018) nestas regiões estuarinas.
A avaliação do Hipostomussp. corroborou com dados de Bueno, Oliveira e Chellappa
(2017): 25% dos ovócitos vitelogênicos maduros de 3 mm de diâmetro médio e outras três fases
de ovócitos vitelogênios para a prolífera desova parcelada da espécie (ZAWADZKI, 2019).
Figura 9 - Posicionamento ventral de probe para a tomada de imagens ultrassonográficas
(A) na avaliação da cavidade ovocitária (B) do cascudo (Hipostomus sp.) (C) no Baixo
São Francisco

Fonte: CAVALI, 2021.

A pilombeta-branca, Anchoviella lepidentostole, é de grande relevância na manutenção
da cadeia alimentar, especialmente por servir de alimento para diversas espécies piscívoras.
Já esteve entre as três espécies mais abundantes no Rio São Francisco, microrregião de
Penedo (BARBOSA; SOARES, 2009). A espécie é muito apreciada na culinária pelo sabor
característico, especialmente quando na fase reprodutiva, em função do aumento no teor de
gordura visceral e intramuscular.
Contrapondo a redução de umidade do tecidos, os teores de proteína (17,1% vs
19,4%), lipídios (3,5% vs 6,7%), minerais e fósforo aumentam consideravelmente para
machos e fêmeas com o avanço dos estágios gonadais, comparando-se à fase gonadal imatura

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

(GIAMAS; VERMULM JR.; TAKINO, 1985), sendo tanto mais saborosa, quanto de maior
valor nutricional (nutrientes ou kcal/100g de matéria seca), pondo a pilombeta em condição
de vulnerabilidade de extinção.
Figura 10 - Imagem longitudinal (B) e transversal (C) por ultrassonografia e seção corporal
transversal (D) da Anchoviella lepidentostole

Fonte: CAVALI, 2021.

Através da ultrassonografia, é possível identificar o par do músculo sonoro (Figuras
11A e 11B, seta azul), bastante desenvolvido na maioria dos machos de cianídios em fase
de reprodução, além das estruturas de testículos (Figura 11A, seta verde), evidenciadas pelas
imagens da ultrassonografia. O músculo sonoro é importante para atrair a fêmea da pescadaamarela e desenvolve-se em sincronia com as gônadas nos machos (BORIE; BATALHA;
CHAO, 2018).
Figura 11 - Detalhes do músculo sonoro do Macrodonancylodon macho, observado por
ultrassonografia (A) e validado em secção corporal transversal (B)

Fonte: CAVALI, 2021.

A técnica de ultrassonografia é utilizada na reprodução e permite avaliar a qualidade
de matrizes, a exemplo da xira ou curimatã-piau, Prochilodus argenteus (Figura 12A), uma das
espécies mais apreciadas pelos pescadores do Rio São Francisco, pelo tamanho (média de 8
kg) e qualidade da carne. As imagens permitem estimar o tamanho da maturação gonadal
(média de 30 cm em fêmeas) (Figuras 12B e 12C) e a biomassa de ovos.
O emprego da ultrassonografia para avaliação e detecção do estágio de maturação
gonadal pode gerar melhorias nos índices reprodutivos em protocolos de desova induzida em
peixes de piracema, uma vez que pode ser possível a identificação do momento exato de início
do protocolo de indução. A técnica permite monitorar a eficiência de desova induzida (total

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

ou parcial) (Figura 12D) nos centros de reprodução de alevinos, a qualidade da matriz quanto
à condição corporal e a eficiência reprodutiva (tamanho da maturação gonadal, biomassa e
maturidade de ovos, resposta hormonal).
Em sua maioria, as fêmeas avaliadas estavam em estágio avançado de maturação sexual,
ou seja, condizentes ao período de defeso estabelecido para a desova nas condições do Baixo
São Francisco. Contudo, a desova desta espécie está diretamente relacionada às condições
ambientais ideais, que oscilam em função da vazão hídrica, sendo comum encontrar xiras e
pioas reabsorvendo suas ovas entre março/abril (CAVALI et al., 2019). Segundo Boncompagni
Jr. (2013), o índice gonadossomático da xira tem alta correlação (r = 0,84 fêmeas e r = 0,95
machos) com a precipitação pluviométrica.
Figura 12 - Prochilodus argenteus em estágio avançado de maturação (A). Imagens da
ultrassonografia nos sentidos longitudinal (B) e transversal (C). Resíduo de desova parcial
após extrusão (D)

Fonte: CAVALI, 2021.

Avaliando matrizes de piau, foi possível observar a relação das doses hormonais ao
estágio de maturação gonadal e que a aplicação de doses hormonais em matrizes em estágio
avançado provoca “empedramento de ovócitos”, observado pelas imagens de ultrassom,
impedindo a extrusão dos ovos e podendo levar à morte das matrizes.
Comportamento semelhante foi relatado sobre o Piaractus mesopotamicus
(KURADOMI; FORESTI; BATLOUNI, 2017). Para tanto, sugerem-se a seleção de matrizes
de qualidade e o monitoramento no manejo reprodutivo através da técnica de ultrassonografia.

Rendimento muscular/escore corporal

Alguns constituintes corporais, como gorduras e água, podem ser determinados
pela mensuração da velocidade de propagação das ondas de baixa intensidade geradas pelo
ultrassom, possibilitando fornecer informações sobre concentração, localização e composição
estrutural e física de componentes específicos dos tecidos corporais.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Bosworth et al. (2001) compararam imagens transversais de ultrassom de 30 bagresdo-canal, 535 a 967 gramas, às medições nos cortes transversais musculares, obtendo altas
correlações entre as medidas da área da musculatura desses peixes (r= 0,84 a 0,94). Crepaldi
et al. (2008) avaliaram 34 surubins híbridos de 2,5 kg e 1,5 kg em três regiões corporais,
definindo pontos que melhor correlacionaram-se aos rendimentos de carcaça, sendo possível
selecionar potenciais reprodutores por meio de avaliação por ultrassonografia.
Bons rendimentos em tecido muscular estão relacionados à qualidade da dieta/
alimentação disponível, à idade e à fase reprodutiva da espécie em função das alterações
fisiológicas. As imagens ultrassonográficas tomadas em espécimes do Rio São Francisco
apresentaram grande variação quantiqualitativa da musculatura, devido à diversidade de
espécies e aos respectivos hábitos alimentares.
Espécies de hábito alimentar especialista, como os carnívoros, e pouco migradoras,
a exemplo do pacamã, Lophiosilurus alexandri, espécie nativa endêmica da Bacia do Rio São
Francisco, tendem a maior susceptibilidade à restrição alimentar em ambientes com baixa
disponibilidade de alimentos vivos (TAKATA et al., 2014), o que dificulta a sobrevivência
das larvas nas águas do Rio São Francisco, apesar de este ser adaptado à baixa frequência
alimentar (DOS SANTOS et al., 2016). A espécie é classificada como vulnerável pela Portaria
nº 445 do Ministério do Meio Ambiente (BRASIL, 2014).
Figura 13 - Avaliação da Pacamã, Lophiosilurus alexandri (a) fêmea e estágio avançado de
maturação (b), e musculatura do macho (c).

Fonte: CAVALI, 2020.

A musculatura do pacamã apresenta-se bem definida nas imagens tomadas por
ultrassonografia, podendo-se identificar os miótomos (Figura 13C) e ausência de espinhos
intramusculares. A espécie é muito apreciada na culinária regional, por apresentar cortes grandes,
alto rendimento de filé, carne de textura macia e muito saborosa. O índice gonodossomático
desta espécie varia de 2% a 3% em exemplar de 2 kg de peso corporal (Figura 7B).

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

A temperatura ideal da água para o desenvolvimento de pacamãs juvenis (30,6 g) é
de 27,8°C (COSTA et al., 2016). Temperaturas superiores a 29,4°C promovem o aumento
do número de células vermelhas do sangue e do pigmento responsável pelo transporte de
oxigênio, provavelmente devido aos menores níveis de oxigênio dissolvido na água. Tais
características alteram a cor da carne, em função da concentração de mioglobina muscular.
As condições do ambiente, como temperatura e oxigênio disponível, além da
alimentação, influenciam a eficiência metabólica e a deposição de tecidos na carcaça. Os
pacamãs provenientes do Rio São Francisco apresentaram teor de proteínas de 17%, lipídios
1,44 ± 0,72%, melhor razão n-6/n-3 (0,67 ± 0,04); maiores teores de EPA (3,74 ±1,25) e
DHA (6,52 ± 2,85) e teor de ácido oleico acima de 20% (C18:1), comparados aos de cultivo
com 2,66±0,36% de lipídios (SANT’ANA et al., 2019).
A ultrassonografia permite determinar o conteúdo corporal dos peixes através da
opacidade dos tecidos, substituindo métodos laboratoriais onerosos e destrutivos para a
determinação de componentes centesimais. Crepaldi e Rotta (2007) avaliaram o conteúdo de
umidade dos filés e a influência de gordura, umidade e sólidos não gordurosos na velocidade do
ultrassom em tecidos de bacalhau do Atlântico (Gadus morhua), concluindo que a velocidade
do ultrassom cai linearmente com o aumento da umidade dos filés.
Para o tambaqui, os estudos têm sido direcionados à acurada estimativa que correlaciona
(r = 0,61) a musculatura da secção medial corporal, o número e a distância entre as costelas
ao maior rendimento de carne para programas de melhoramento genético (PERAZZA et
al., 2015). Considerando a herdabilidade média de 0,16 a peixes de ganho genético anual
de 4,971%, estima-se aumentar a média da área muscular de 5,82 cm2 na geração parental
para 6,687 cm2 na F1, e ganhos significativos em quantidade de carne no lombo do tambaqui
(PERAZZA et al., 2017), assim como na identificação, através da ultrassonografia, de
matrizes sem a presença das espinhas intramusculares “y”, que permitem eficiência de 13%
de rendimento de filé no processamento industrial.

Coloração da carne e das gônadas na reprodução

A colorimetria avaliada em carne e gônadas pode relacionar-se a dieta, idade e
atividade física, além da própria espécie, que determina a coloração de carnes pela deposição de
pigmentos no tecido lipídico. Observa-se que, na fase reprodutiva, os lipídios são mobilizados
para as gônadas na produção de ovócitos, levando consigo a coloração mais característica
e acentuada das ovas de cada espécie; o método auxilia-nos na validação dos estágios 1 e 5
(imaturo e desovado) confundidos na ultrassonografia.
Espécimes em estágio avançado de maturação foram devolvidos ao ambiente, e
naqueles destinados à biometria e à coleta de amostras realizou-se a leitura da cor do filé na
região mediana, utilizando-se Colorimetro DeltaColor acoplado a ângulo 11mm Delta Vista e
os dados tabulados em software i7. O sistema mais popular para a medição instrumental da cor
em carnes é o sistema CIE L*a*b*, recomendado pela Comissão Internacional de Iluminação
(CIE). L* representa luminosidade, 0 → preto e 100 → branco/luminoso); o a* reflete a
dimensão verde/vermelho (a* < 0 significa intensidade no verde e a* > 0 significa intensidade
no vermelho) e o b*, a dimensão azul/amarelo. A cor é uma característica tridimensional da
aparência que consiste no atributo da luminosidade (L*) e em dois atributos cromáticos, ou
seja, hue (h*) e croma (c*).

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 14 - Diferente coloração gonadal em M. obtusidens.

Fonte: CAVALI, 2020.

Os peixes adquirem seus carotenoides alimentando-se de pequenos crustáceos e
outros invertebrados e, em sua maioria, acumulam os carotenoides no tecido tegumentar e
nas gônadas.
A carne dos machos tende a apresentar mais intensidade no verde-amarelado (a*b*); já
as fêmeas, menor saturação (c*) nas cores e na luminosidade da carne (L*) (Figuras 15A, 15B).
Figura 15 - CIElab (a) e tendência espectral (b) da Cor da carne (do tucunaré em função
do sexo e fase reprodutiva

Fonte: CAVALI, 2021.

Fêmeas de pirambeba, especialmente as ovadas, apresentaram mais intensidade e
saturação na cor verde-amarelo (b*) e mais luminosidade comparadas aos machos, de cor de
carne mais estável (Figuras 16Ae 16B).

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 16 - CIElab (a) e tendência espectral (b) da Cor da carne da Pirambeba em função
do sexo e fase reprodutiva

Fonte: CAVALI, 2021.

As oscilações mais acentuadas na cor da carne de fêmeas relacionam-se às translocações
dos carotenoides, que se acumulam especialmente nos lipídios, à formação dos ovos. Logo,
a intensidade da cor da carne em fêmeas está diretamente relacionada à fase reprodutiva e à
coloração dos ovócitos maduros característica da espécie.
Figura 17 - Avaliação colorimétrica da cor da carne do Tucunaré (a) e Coloração das
gônadas maduras de diferentes espécies de peixes (b) do Rio São Francisco.

Fonte: CAVALI, 2021.

Os carotenoides têm, ainda, influência em reprodução, estabilidade de proteínas e
fotoproteção e são também uma fonte precursora de vitamina A e minerais (GOUVEIA;
EMPIS, 2003). O padrão de pigmentação da pele e da carne pode ser considerado um índice
de bem-estar animal em espécies de aquacultura e um fator de consideração econômica
(PAVLIDIS et al., 2006).
Os peixes de aquicultura apresentam coloração mais escura e menor valor de L* (p
quando comparados com os peixes selvagens) que podem estar relacionados a diferenças de
umidade e lipídios. Resultados semelhantes foram encontrados para robalo (FUENTES et
al., 2000).

Resultados esperados e sugestões

A ultrassonografia é uma ferramenta importante para o monitoramento ictiológico
no Rio São Francisco que permitirá caracterizar a condição reprodutiva de espécies em
abatê-las, avaliar a qualidade das matrizes e o planejamento produtivo, considerando tamanho
gonadal e fase ovocitária, condição corporal ou conformação advinda da disponibilidade de
alimentos, além de auxiliar em programas de melhoramento genético na seleção de matrizes
e protocolos de indução à desova.

81

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Contudo, faz-se necessário o uso da ferramenta em monitoramento para a obtenção
de amostral comparativo das diferentes condições do ambiente, bem como reprodutivas.
A colorimetria é outra ferramenta prática e importante nas correlações de características
de qualidade do pescado e da carne. Seu uso atrela avaliação de brânquias, da pele, do fígado,
cor da gordura visceral e da carne; assim como das fontes alimentares, como algas, água,
crustáceos e plantas aquáticas.
Logo, é oportuna uma maior inserção destes equipamentos nas coletas bimestrais
de monitoramento e interação do uso com colegas de áreas afins. Um bolsista suporte para
auxiliar no manejo de contenção dos espécimes e na tomada de medidas de melhor qualidade;
maior “n” amostral por espécie e computador para a tomada das imagens imediatamente
após as capturas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se ressaltar que três fatores contribuíram para maior diversidade e quantidade
de peixes em 2021, consequência destes 1 a 1,5 anos: a vazão mais elevada, por mais de 30
dias no ano anterior, que proporcionou maior estímulo reprodutivo às espécies; as ações de
peixamento e a redução da pesca na fase mais crítica da pandemia de Covid-19, quando foi
reduzida a comercialização de pescado.
A ultrassonografia permite avaliar a diversidade de espécies de peixes do Rio São
Francisco quanto às características reprodutivas e estimar sobre aspectos comportamentais
e nutricionais que se correlacionam aos rendimentos musculares e à cor da carne.
Faz-se necessário o monitoramento reprodutivo bimestral durante o ano e ao final do
defeso, para validação dos aspectos reprodutivos avaliados e garantia de desova, não somente
ao estímulo reprodutivo, ainda em condições ambientais adequadas para a garantia de maior
disponibilidade de alevinos no Rio São Francisco.

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83

CAPÍTULO 4 - DISTRIBUIÇÃO DE MERCÚRIO EM
PEIXES DE DIFERENTES NÍVEIS TRÓFICOS DO
BAIXO SÃO FRANCISCO
Carlos A. da Silva1

Hortência L. P. de Santana2

Marcos Vinícius Teles Gomes3
Carlos A. B. Garcia4

Silvânio S. L. da Costa5

Marcus Aurélio Soares Cruz6
Resumo: A determinação de mercúrio em pescado é de grande interesse à saúde pública,
devido à toxicidade e à bioacumulação deste metal pesado na cadeia alimentar, podendo
prejudicar a saúde humana através do consumo de peixe. O objetivo deste estudo foi
determinar e qualificar as concentrações de mercúrio encontradas em 14 espécies de peixes de
diferentes níveis tróficos coletados nas quatro edições das Expedições Científicas do Baixo São
Francisco (2018, 2019, 2020 e 2021), tomando como base os Limites Máximos de Tolerância
(LMT) prescritos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Quociente de
Risco (QR) proposto pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (USEPA).
Os peixes piscívoros, tucunaré e robalo, e os carnívoros, piranha-verdadeira e pirambeba,
de elevado nível trófico, apresentaram maiores concentrações de Hg do que os onívoros e
detritívoros. Todos os exemplares das espécies avaliadas referiram concentrações de mercúrio
abaixo do LMT. O mercúrio nos peixes mostrou concentrações médias na seguinte ordem
decrescente: bagre > peixe-cachorro > pirambeba > sargo-de-dente > piranha-verdadeira
> robalo > tucunaré > tilápia > oscar > piau-branco > piau-três-pintas > tambaqui > pacudisco > xira. Em relação ao QR do mercúrio associado ao consumo de pescado, nenhuma
das espécies avaliadas manifestou QR > 1, que significa que não representam potencial risco
para a saúde humana.
Palavras-chave: Metais Pesados. Peixes. Rio São Francisco.

INTRODUÇÃO
O consumo de peixes é considerado essencial na busca por hábitos alimentares
mais saudáveis e sustentáveis (DE BOER et al., 2020). Sua carne é fonte de proteína de
alta qualidade em aminoácidos essenciais, apresentando baixa concentração de gorduras
saturadas e abundância em ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa, ômega 3, como
o ácido docosahexaenoico (DHA) e o ácido eicosapentaenoico (EPA), vitaminas e minerais
1 Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe. Brasil.
2 Laboratório de Tecnologia e Monitoramento Ambiental, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão,
Sergipe. Brasil.
3 CODEVASF 5ª Superintendência Regional, Porto Real do Colégio, Alagoas. Brasil.
4 Professor Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, Sergipe, Brasil
5 Técnico da Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, Sergipe, Brasil.
6 Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe, Brasil.

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essenciais na dieta humana (DOMINGO et al., 2007; NESTEL et al., 2020). Seu consumo
é benéfico para o crescimento e o desenvolvimento neurológico, reduz o risco de acidente
vascular cerebral (AVC) e a incidência de doenças cardiovasculares, além de aumentar as
respostas imunológicas em humanos (MOZAFFARIAN; RIMM, 2006; LIN et al., 2019;
JAMSHIDIA et al., 2020; NESTEL et al., 2020).
Segundo a Associação Americana do Coração (AHA) – do inglês, American Health
Association –, ingerir pelo menos duas porções de peixe na semana pode melhorar a saúde
do coração e reduzir o risco de doença arterial coronariana e de acidente vascular cerebral
(RIMM et al., 2018; LI et al., 2020).
Por outro lado, ainda que o pescado contenha nutrientes essenciais e promova os
benefícios supracitados, há também uma preocupação quanto a ser uma fonte potencial
de contaminantes, como mercúrio, cádmio, chumbo e arsênio, prejudiciais aos seres vivos
(DOMINGO et al., 2007; CASTRO-GONZÁLEZ; MÉNDEZ-ARMENTA, 2008;
FERNANDES et al., 2012). Embora trate-se de metal com elevado grau de toxicidade, o
mercúrio, mesmo em níveis mínimos, da ordem de picograma por grama, não apresenta
informações totalmente conhecidas sobre a ciclagem e sua transformação no ambiente e
na cadeia trófica.
As contribuições naturais do Hg para o ambiente são atividade vulcânica e incêndios
florestais, enquanto que as antropogênicas mais significativas incluem a mineração, a queima
de combustíveis fósseis e a fundição de Pb, Cu e Zn (BOENING, 2000). Diversas formas do
mercúrio ocorrem naturalmente, sendo mais comuns o mercúrio metálico, o sulfeto de mercúrio
(HgS), o cloreto de mercúrio (HgCl2) e o metilmercúrio ([CH3Hg]+) (ACQUAVITA et al.,
2018). Pequenas concentrações de mercúrio no ambiente são potencializadas pela capacidade
de metilação de certos micro-organismos, majoritariamente por bactérias sulfato redutoras,
e sucessivas transferências tróficas da forma orgânica, que podem transformar o mercúrio
inorgânico em formas orgânicas, sendo a mais importante o metilmercúrio (MeHg), que
pode biomagnificar no topo da cadeia trófica (MALVANDI; ALAHABADI, 2019). Em
peixes carnívoros, o MeHg representa cerca de 90% do mercúrio total (MALINOWSKI,
2019) e é considerado o principal deles em termos de efeitos tóxicos para a saúde humana
( JEWETT; DUFFY, 2007).
A acumulação do mercúrio em solução pelos organismos unicelulares e o fitoplâncton
efetua-se, primeiro, pela difusão passiva das formas neutras e o transporte ativo das formas
ionizadas através das membranas celulares (MOYE et al., 2002). A bioacumulação no
fitoplâncton é o processo inicial de transferência deste metal ao longo da cadeia alimentar
aquática (MOREL et al., 1998; SILVA et al., 2011). Nos elos sucessivos, a dieta é um
componente decisivo nos mecanismos de amplificação do teor de Hg em tecidos animais.
Os teores encontrados nos peixes dependem de fatores como comprimento, hábitos
alimentares, nível na cadeia trófica, tempo de vida, localização geográfica e espécie (DE
PINHO et al., 2002).
O aspecto preocupante é a capacidade do Hg de se acumular nos organismos ao
longo da cadeia alimentar e apresentar elevadas concentrações, podendo magnificar-se no
topo da cadeia (SCHENONE; VACKOVA; CIRELLI, 2014; SROY et al., 2021). Um
aumento na concentração do Hg é observado a partir de peixes planctônicos em direção
aos peixes carnívoros, sendo que os consumidores de topo de cadeia, tais como tucunaré,
pirarucu e atum, apresentam os maiores teores de Hg (ADAMS, 2004; LACERDA, 1994
et al.; MAURICE-BOURGOIN et al., 2001; SILVA et al., 2019).

85

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Os níveis elevados de mercúrio encontrados em peixes de alto nível trófico têm
causado preocupação, devido aos problemas de toxidade deste metal em seres humanos,
causados pelo consumo de pescado contaminado (USEPA, 1997). A exposição do homem
ao mercúrio está associada ao desenvolvimento de distúrbios neurológicos, gastrointestinais,
renais, dermatológicos, cardiovasculares e imunitários, e implicação na formação do feto em
mulheres grávidas (AHMAD et al., 2015; JEWETT; DUFFY, 2007; ZAHIR et al., 2005).
O consumo de peixes é o principal meio de contaminação de Hg pelos humanos (ANUAL
et al., 2018; BONSIGNORE et al., 2018).
Deste modo, diversas legislações e organizações mundiais buscam avaliar e estabelecer
limites de concentrações seguros de serem consumidos sem causar danos à saúde dos
indivíduos (SCHENONE; VACKOVA; CIRELLI, 2014). No Brasil, a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa), responsável pela fiscalização de contaminantes em alimentos,
determinou, na Resolução Anvisa nº 42, de 29 de agosto de 2013, o Limite Máximo de
Tolerância (LMT) de mercúrio em peixes de 0,5 mg/kg para não carnívoros e 1,0 mg/kg
para carnívoros (BRASIL, 2013).
O conhecimento sobre o potencial risco do consumo de peixes que possam apresentar
teores de mercúrio acima dos LMT é de suma importância para subsidiar as agências de
saúde e de vigilância sanitária sobre as recomendações dos níveis seguros de consumo, em
particular para crianças, mulheres grávidas e também lactantes. Adicionalmente, como apenas
o LMT não é suficiente para caracterizar o potencial perigo à saúde humana.
Neste trabalho, também será calculado o quociente de risco (QR) para o mercúrio,
proposto pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (USEPA, 1989), que
associa os teores encontrados com a frequência de ingestão de pescado e a quantidade da
porção ingerida. Assim, o objetivo desta pesquisa é determinar os níveis de mercúrio presentes
na carne (tecido muscular) das mais variadas espécies de peixes de diferentes níveis tróficos
capturados ao longo do percurso do Baixo São Francisco e averiguar se estão dentro dos
limites permitidos pela legislação brasileira.

DESENVOLVIMENTO
A área de estudo localiza-se na região do Baixo São Francisco (BSF), entre os Estados
de Sergipe e Alagoas, abrangendo uma extensão do Rio São Francisco de cerca de 140 km
entre os municípios alagoanos de Pão de Açúcar, Piranhas, Traipu, Porto Real do Colégio,
Igreja Nova, Penedo, Piaçabuçu e os municípios sergipanos de Brejo Grande e Propriá,
além da foz do São Francisco, na divisa entre os dois Estados, conforme os pontos de coleta
referenciados na Figura 1.

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Figura 1 - Localização dos pontos de coleta de peixes na região do Baixo São Francisco

Fonte: SILVA et al., 2020.

A coleta dos peixes (Figura 2) foi conduzida pelos pesquisadores, com auxílio dos
pescadores locais, em barcos com motor de 5 Hp, utilizando-se tarrafas de 6 metros e redes
de emalhar de 30, 40 e 50 mm de 100 metros, dispostas no rio segundo orientação dos
pescadores, em diferentes pontos de coleta no BSF. Os peixes foram identificados de acordo
com Britski et al. (1988), Barbosa et al. (2017) e Lessa e Nóbrega (2000).
Figura 2 - Exemplar de robalo Centropomus parallelus coletado na III Expedição do BSF

Fonte: SANTANA, 2020.

Logo após a captura e a identificação dos peixes, ainda a bordo, foram retiradas
porções do músculo da região laterodorsal de cada exemplar cuja quantidade variou entre
10g e 150g, a depender do tamanho do animal (Figuras 3 e 4).

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 3 - Estação de trabalho a bordo durante a IV Expedição do BSF, em nov./21

Fonte: SANTANA, 2020.

Figura 4 - Biometria e filetagem dos peixes coletados

Fonte: SANTANA, 2020.

As amostras foram acondicionadas em potes plásticos e refrigeradas (Figura 5), sendo,
posteriormente, transportadas em caixas térmicas para o Laboratório de Estudos e Impactos
Ambientais (Labeia), na Embrapa Tabuleiros Costeiros, em Aracaju (SE), e mantidas em freezer a
-15ºC. Todo o material utilizado para coleta e armazenamento das amostras foi previamente

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lavado com detergente neutro, imerso em banho ácido de HCl 10% v/v por 24 horas e
enxaguado com água ultrapura (18 μΩ).
Figura 5 - Amostras de músculos de peixes etiquetadas e armazenadas em recipientes plásticos

Fonte: SANTANA, 2020.

O método analítico usado para determinar a concentração de mercúrio total (Hg) em
peixes foi baseado em decomposição térmica com detecção por espectrometria de absorção
atômica, utilizando-se o analisador direto de mercúrio (DMA-80, Milestone, Itália), de acordo
com o método Usepa 7473, recomendado pela United States Environmental Protection
Agency (USEPA, 2007). As concentrações de Hg foram expressas em mg kg-1 (base úmida).
As concentrações médias de mercúrio de cada espécie foram utilizadas para estimar
o quociente de risco (QR) associado ao consumo de pescado. A equação (1) para esse cálculo
foi proposta pela USEPA (1989):
FE X DE X TI X C
QR = DOR
X 10-3
X PMC X TE

onde FE é a frequência de exposição (365 dia ano-1); DE é duração de exposição (70 anos),
equivalente à estimativa média da vida humana; TI é a taxa de ingestão de pescado (36 g
pessoa-1 dia-1); C é a concentração do metal no peixe (µg g-1) (USEPA, 1989); DOR é a
dose oral de referência do Hg = 0,5x10-3 µg g-1 dia-1 (USEPA, 2010); PMC é o peso médio
corporal de um adulto (70 Kg); TE é o tempo médio de exposição para não cancerígeno
(365 dia ano-1 x DE).
Na avaliação de risco, é assumido que a ingestão oral do contaminante é igual à dose
absorvida pelo organismo humano e que, ao cozinhar o peixe, não se altera a concentração
ou a toxidade do contaminante (USEPA, 1989). É definido que, para valores de QR < 1, não
há risco apreciável para determinado poluente, e se o QR for > 1, há um risco iminente ao
continuar consumindo peixe com essa frequência (STORELLI, 2008).

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Avaliação dos peixes coletados no Baixo São Francisco

A validação do método analítico foi realizada utilizando-se dois materiais de referência
certificados, o NIST-1977 (tecido de peixe) adquirido do National Institute of Standards and
Technology (EUA) e o DORM-4 (tecido de peixe) do National Research Council (Canadá).
Os valores de recuperação do Hg foram de 103,54 % para o NIST-1947 e de 105,29 % para
o DORM-4, próximos aos valores certificados.
No estudo das concentrações de mercúrio presentes nos peixes do Baixo São Francisco
coletados nas Expedições Científicas do Baixo São Francisco em 2018, 2019, 2020 e 2021,
foram analisadas 14 (quatorze) espécies de peixes (Tabela 1).
Tabela 1 - Classificação, habitat e hábitos alimentares dos peixes coletados no Baixo São
Francisco, nas Expedições Científicas em 2018, 2019, 2020 e 2021
Hábitos

Nome vulgar

Família

Nome científico

Habitat

apaiari ou oscar

Cichlidae

Astronotus ocellatus

bentopelágico

Prochilodontidae

Prochilodus argenteus

bentopelágico

detritívoro

Serrasalmidae

Metynnis maculatus

bentopelágico

onívoro

Schizodon knerii

bentopelágico

bagre

curimatã-pacu ou
xira

pacu-disco

Ariidae

Cathorops agassizii

peixe-cachorro

Acestrorhynchidae

Acestrorhynchus lacustris

piau-três-pintas

Anostomidae

Megaleporinus obtusidens

piau-branco

Anostomidae

pirambeba

Serrasalmidae

robalo

Centropomidae

piranha-verdadeira

Serrasalmidae

Pygocentrus piraya

Centropomus parallelus

onívoro
onívoro

bentopelágico

carnívoro

bentopelágico

onívoro

onívoro

bentopelágico

carnívoro

demersal

piscívoro1

pelágico

carnívoro

Archosargus

associado a

Characidae

Colossoma macropomum

bentopelágico

onívoro

Cichlidae

Cichla monoculus

bentopelágico

piscívoro1

sargo-de-dente

Sparidae

tambaqui
tucunaré

tilápia

Serrasalmus brandtii

bentônico

alimentares

Cichlidae

probatocephalus

Oreochromis niloticus

recifes

bentopelágico

1 Espécies piscívoras na fase adulta.
Fonte: Elaborada pelos autores.

carnívoro
onívoro

A maior concentração de mercúrio observada nos peixes do Baixo São Francisco (BSF)
foi de 0,27 mg/Kg, no bagre (Cathorops agassizii), espécie invasora marinha capturada na região
da foz do Rio São Francisco; e a menor, 0,007 mg/Kg, no pacu-disco (Metynnis maculatus),
espécie de hábito alimentar onívoro e de ampla ocorrência ao longo do BSF. Os resultados do
presente estudo estão de acordo com os encontrados em 13 diferentes espécies de peixes do Rio
Jaguaribe (CE), que variaram entre 0,013 ± 0,002 e 0,256 ± 0,198 mg/kg (MOURA et al., 2018).
Os peixes piscívoros, tucunaré e robalo, e os carnívoros, piranha-verdadeira e pirambeba,
de elevado nível trófico, apresentaram maiores concentrações de Hg do que os onívoros e
detritívoros. Nos piscívoros, o maior teor de Hg, 0,18 mg/kg, foi encontrado no tucunaré; e
nos carnívoros, 0,19 mg/kg, foi observado na piranha-verdadeira (Figura 6). Com esses dados,
foi possível observar uma tendência geral do aumento da concentração de mercúrio com o
nível trófico, devido à bioacumulação do mercúrio ao longo da cadeia alimentar (AHMAD
et al., 2015; SILVA et al., 2021).

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Figura 6 - Níveis de Hg (mg/kg peso úmido) e nível trófico em 14 espécies de peixes do
Baixo São Francisco, coletados nas Expedições científicas em 2018, 2019, 2020 e 2021

Fonte: Elaborada pelos autores.

Nas espécies piscívoras tucunaré e robalo (Figuras 7 e 8) e na carnívora piranhavermelha (Figura 9), foi observada correlação positiva significativa entre a concentração de
Hg e o peso corporal dos exemplares coletados. Em relação à pirambeba, espécie carnívora,
os dados sugerem tendência de correlação positiva entre a concentração de Hg e o peso
corporal (Figura 10).
Figura 7 - Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido muscular
de tucunaré (Cichla monoculus)

Fonte: Elaborada pelos autores.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 8 - Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido muscular
de robalo (Centropomus parallelus)

Fonte: Elaborada pelos autores.

Figura 9 - Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido muscular
de piranha-verdadeira (Pygocentrus piraya)

Fonte: Elaborada pelos autores.

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Figura 10 - Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido muscular
de pirambeba (Serrasalmus brandtii)

Fonte: Elaborada pelos autores.

Em relação aos peixes onívoros mais capturados nas redes de emalhar, pacu-disco e
piau três pintas (Figuras 11 e 12), não foi observado correlação entre a concentração de Hg
e o peso corporal dos exemplares coletados.
Figura 11 - Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido muscular
de pacu-disco (Metynnis maculatus)

Fonte: Elaborada pelos autores.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 12 - Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido muscular
de piau-três-pintas (Megaleporinus obtusidens)

Fonte: Elaborada pelos autores.

Os resultados obtidos nesta pesquisa, em peixes de diferentes níveis tróficos coletados
no BSF, são similares aos de outros estudos (GALIMBERTI et al., 2016; SILVA et al.,
2011; STORELLI et al., 2005) e confirmam que os menores teores de mercúrio geralmente
são observados nos peixes de menor nível trófico do que nos carnívoros de topo de cadeia
alimentar (Figura 6). Adicionalmente, foram observadas variações intra e interespecíficas
nas concentrações de Hg nos peixes avaliados neste estudo.
Os resultados permitiram analisar se os peixes capturados na região do Baixo São
Francisco estão de acordo com os parâmetros da legislação brasileira em relação aos Limites
Máximos Toleráveis do mercúrio no pescado para consumo. Todos os exemplares das 14
espécies avaliadas apresentaram concentrações de mercúrio abaixo do LMT de 0,5 mg/kg
para espécies não carnívoras e 1,0 mg/Kg para carnívoras (BRASIL, 2013).
Esta análise é de fundamental importância para que tanto a população ribeirinha, que
depende da ingestão direta dessa valiosa fonte de proteína para sua segurança alimentar, quanto
os demais consumidores, via comercialização desse pescado, tenham acesso às informações
sobre os potenciais benefícios e riscos a que estão sendo expostos.
Em relação ao Quociente de Risco (QR) do mercúrio associado ao consumo de
pescado, nenhuma das espécies avaliadas apresentaram QR > 1, que significa que não
representam potencial risco para a saúde humana (Figura 13).

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Figura 13 - Quociente de risco do mercúrio em 13 espécies de peixes do Baixo São Francisco

Fonte: Elaborada pelos autores.

Estudos complementares sobre a especiação química de metais em peixes são
fundamentais para a avaliação de risco de consumo quando, como no caso específico do
mercúrio, as formas químicas demonstram diferentes impactos e comportamentos, como
sua toxidade, mobilidade e biodisponibilidade ( JEWETT; DUFFY, 2007).
Neste estudo, o mercúrio foi determinado como Hg total, sendo a forma orgânica
mais tóxica que a inorgânica. De acordo com a literatura, o MeHg representa cerca de 90%
do mercúrio total em peixes carnívoros (MALINOWSKI, 2019; SILVA et al., 2011).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O mercúrio, nos peixes do Baixo São Francisco coletados nas Expedições Científicas
de 2018, 2019, 2020 e 2021, apresentou concentrações médias na seguinte ordem decrescente:
bagre > peixe-cachorro > pirambeba > sargo-de-dente > piranha-verdadeira > robalo >
tucunaré > tilápia > oscar > piau-branco > piau-três-pintas > tambaqui > pacu-disco > xira.
Os níveis de mercúrio encontrados no tecido muscular dos peixes avaliados neste
estudo não apresentam potencial risco à saúde humana associado ao consumo dessas espécies,
com base nos Limites Máximos de Tolerância.
O conjunto das observações realizadas pelas demais áreas de pesquisa que integram
a Expedição Científica no Baixo São Francisco possibilitará a construção de um panorama
amplo da saúde do rio e de sua ictiofauna, associando aspectos fisiológicos e histológicos
examinados em diferentes órgãos dos peixes, juntamente com os parâmetros físicos e
químicos da água, do solo e dos sedimentos. Assim, pode-se rastrear a origem de possíveis
contaminantes e, consequentemente, oportunizar a busca por soluções viáveis e medidas
mitigadoras desses impactos.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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98

CAPÍTULO 5 - BIOMONITORAMENTO AMBIENTAL
UTILIZANDO PEIXES COLETADOS NAS III E IV
EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS DO SÃO FRANCISCO
Themis Jesus Silva1

Emilly Valentim de Souza2
Vivian Costa Vasconcelos3

Maraísa Bezerra de Jesus Feitosa4

Hanna Francyelle Barbosa Costa5
Emerson Carlos Soares6

Resumo:O Rio São Francisco, na sua porção final, o Baixo São Francisco, atravessa várias
cidades e tem 214 km de extensão. É a região mais impactada deste corpo hídrico, pois sofre
com todos os problemas causados nas demais regiões, devido a diferentes ações antrópicas.
Estas ações acarretam problemas ao ecossistema, bem como às populações que precisam,
direta ou indiretamente, do rio. Suas consequências são inúmeras. Assim, faz-se necessário
verificar a qualidade ambiental deste corpo d’água e, para isso, foram utilizados os peixes como
bioindicadores e biomarcadores dos tipos bioquímico e genético. Os peixes foram coletados
durante as Expedições Científicas do Baixo São Francisco. Foram utilizadas as enzimas
antioxidantes (CAT, SOD e GST), o MDA e as frequências de ANEs. Os dados de 2020 e
2021 em pirambeba e tucunaré sugerem que há um limite de OD tolerável, com aumento de
atividade enzimática, observada principalmente na SOD. Os valores de OD parecem modular
a resposta antioxidante nos diversos pontos investigados. As maiores frequências de ANEs
foram encontradas em Penedo (1,30%) e Piranhas (4,23%), nos anos 2020 e 2021, enquanto
a pirambeba e o pacu apresentaram as maiores frequências de ANEs e MNs em 2020 e 2021,
respectivamente. O uso dos biomarcadores e dos peixes como bioindicadores mostra-se útil
para verificar a qualidade da água do Rio São Francisco, gerando resultados que podem ser
usados para a elaboração de políticas públicas eficientes que busquem remediar e/ou extinguir
os impactos que afetam este ambiente e os organismos que ali vivem.
Palavras-chave: Anormalidades Nucleares. Enzima Antioxidante. Micronúcleo.
Peroxidação Lipídica.

1 Professora, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
2 Graduanda em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias
e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
3 Mestre em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e
Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
4 Bióloga, Doutora em Ciências da Saúde, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus
de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
5 Engenheira Civil, Mestranda em Recursos Hídricos e Saneamento/UFAL/CTEC
6 Professor, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

INTRODUÇÃO
A Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco tem uma extensão 2.863 km. Estende-se
de Minas Gerais, onde o rio nasce, percorre 505 municípios e, entre a divisa dos Estados de
Alagoas e de Sergipe, encontra-se sua foz. A bacia foi dividida em quatro zonas fisiográficas:
Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco (CBHSF, 2014), sendo esta última local de
realização das Expedições Científicas do São Francisco.
Para Tundisi e Tundisi (2011), as principais atividades humanas que impactam os
recursos hídricos e alteram a qualidade da água são: urbanização, despejo de esgoto sem
tratamento, mineração, construção de represas, atividades industriais, agricultura, pesca e
aquicultura, introdução de espécies exóticas, dentre outras. Ainda para estes autores, os
principais problemas resultantes de tais atividades estão relacionados com a eutrofização, o
aumento da toxicidade das águas superficiais e subterrâneas, alterações no ciclo hidrológico
e na disponibilidade de água –todos já constatados no Baixo São Francisco.
A região do Baixo São Francisco estende-se de Paulo Afonso (BA) até a foz
do rio, entre os Estados de Alagoas e Sergipe. Trata-se de uma área altamente povoada
e fortemente impactada por barragens, poluição e retirada da cobertura vegetal nativa
(NOGUEIRA; SÁ, 2015).
Para Zellhuber e Siqueira (2007), muitos problemas contribuem para a rápida degradação
do rio, que desde os anos 1970 vem enfrentando uma célere e desenfreada maximização da
agricultura intensiva. A bacia ainda sofre com superexploração das águas pela irrigação, mineração
e siderurgia, assoreamento, construção de barragens e hidrelétricas e falta de saneamento básico,
que lança efluentes industriais e domésticos sem tratamento diretamente no rio. Esses e outros
fatores comprometem diretamente a qualidade da água, prejudicando os peixes que ali vivem,
bem como as comunidades que dependem do rio para sobreviver.
Segundo Vasconcelos (2012), a contaminação da água por agroquímicos, mineração e
efluentes pode causar acúmulo de poluentes nos peixes, seja através da ingestão de organismos
aquáticos contaminados ou diretamente pela água contaminada. Assim, o biomonitoramento
é uma alternativa eficiente para identificar vários tipos de xenobióticos que contaminam
o meio ambiente. O processo é realizado por meio da avaliação de organismos expostos a
sistemas biológicos com possível presença de contaminantes (SILVA et al., 2003).
Uma das formas de identificar a presença de xenobióticos com potencial genotóxico
é o teste de micronúcleo (MN), técnica confiável, rápida e barata. De acordo com Obiakor
et al. (2012), micronúcleo é um biomarcador do tipo genético e origina-se como resultado
de aberrações cromossômicas, que podem ser irreversíveis e herdadas pelas progênies, sendo
capaz de ocasionar diminuição na taxa reprodutiva dos animais, levando a uma diminuição
da diversidade de espécies no ecossistema afetado.
Marques et al. (2009) acreditam que outras anormalidades nucleares resultantes
de danos análogos, tais como células binucleadas e bilobadas, também precisam ser
consideradas para uma avaliação mais detalhada da exposição destes organismos aos
contaminantes genotóxicos.
Corpos de cromatina não refrativos, circulares ou ovoides, menores do que um terço
do núcleo principal e apresentando o mesmo padrão de coloração e de focalização deste são
classificados como micronúcleos (AL-SABTI; METCALFE, 1995). Carrasco et al. (1990)

100

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

classificaram outras anormalidades nucleares eritrocitárias (ANEs) além do micronúcleo,
como: células binucleadas, núcleo: blebbed, lobed, notched e vacuolizado.
Vários trabalhos têm sido realizados utilizando os peixes como bioindicadores do
ambiente aquático. Entre estes, muitos avaliaram os micronúcleos e outras anormalidades
nucleares para verificar a saúde de diferentes corpos d’água (GRISOLIA et al., 2009;
SERIANI et al., 2011; FURNUS et al., 2014; C. JÚNIOR et al., 2015; LIMA et al., 2018;
SULA et al., 2019; LACERDA et al., 2020; RÉ et al., 2021; OLIVEIRA et al., 2022).
Além disso, já foi sugerido que substâncias que provocam danos ao DNA podem,
também, induzir sistemas enzimáticos, como as oxidases de função mista que estão envolvidas
na biotransformação, processo que pode levar à produção e/ou bioativação de metabólitos
mais reativos (DEPLEDGE, 1998).
Somados a isso, fatores físico-químicos da água doce, como salinidade, oxigênio
dissolvido (OD), temperatura, força iônica ou concentração total de minerais iônicos
aumentaram em diversas regiões, decorrentes da contaminação antropogênica, parâmetros
que modulam a produção de espécies reativas de oxigênio (EROs) (GRIFFITH, 2017;
WELKER et al., 2013).
Os íons possuem diferentes papéis fisiológicos nos organismos de água doce e são
necessários em diferentes concentrações dentro das células (GRIFFITH, 2017). A modulação
destas concentrações iônicas, além de outros compostos dissolvidos na água, também pode
interagir com a atividade de diversos componentes celulares.
Geralmente, as espécies endógenas e fisiológicas de EROs são geradas, principalmente,
no processo de reação oxidativa da cadeia respiratória mitocondrial, como subprodutos
do metabolismo celular normal (HALLIWELL, 2006). Essa produção basal de EROs é
conhecida como homeostase redox, ou seja, o equilíbrio dinâmico de reações de transferência
de elétrons (LAURINDO, 2018). O estresse oxidativo é considerado um importante fator para
promover a morte celular, em resposta a uma variedade de sinais e situações fisiopatológicas
(WELKER et al., 2013).
Em organismos aeróbios, o oxigênio é essencial para a produção eficiente de energia,
mas, paradoxalmente, a sobrecarga do metabolismo de energia celular e o consumo de oxigênio
estão associados à geração de EROs, que pode produzir estresse crônico tóxico nas células.
Por isso, as enzimas antioxidantes, como superóxido dismutase e catalase, e as que participam
da biotransformação de xenobióticos, como a glutationa S-transferase, são tão importantes.
A exposição excessiva a EROs interrompe a homeostase redox, leva ao estresse
oxidativo e a danos mediados por EROs a importantes organelas e biomoléculas, como DNA
e proteínas (HE et al., 2017; WELKER et al., 2013). Em virtude disso, muitos estudos de
biomonitoramento empregam a avaliação de marcadores enzimáticos e celulares, como o
micronúcleo, como ferramenta de investigação, utilizando os peixes como bioindicadores
do impacto da qualidade da água nos organismos.
Poluentes encontrados em hidrossistemas como o S. Francisco existem em forma de
misturas complexas, que sofrem uma grande variedade de interações e/ou biotransformações
(BARŠIENĖ; RYBAKOVAS, 2008). Durante tais processos, os efeitos aditivos, sinérgicos
ou antagônicos podem ser observados nos organismos. Portanto, faz-se necessária uma
compreensão clara dos efeitos cumulativos da poluição ambiental neste sistema natural, a
fim de promover o desenvolvimento de políticas socioeconômicas de proteção. Para isso, os

101

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

peixes serão tomados como bioindicadores do ambiente aquático, utilizando biomarcadores
genéticos e de estresse oxidativo.

Biomarcadores da ictiofauna do Baixo São Francisco
Espécies
As coletas foram realizadas nos anos 2020 e 2021, durante as Expedições Científicas
do São Francisco, nos municípios alagoanos de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás,
Penedo e Piaçabuçu (foz) e no município de Propriá (SE) (MMA/ICMBio nº 75591-2).
As espécies-alvo utilizadas foram: pacu (Metynnis maculatus), piau-branco (Schizodon knerii),
pirambeba (Serrassalmus brandtti) e tucunaré (Cichla monoculus) (Tabela 1). Para a análise
dos biomarcadores, foi realizada a coleta de tecidos (fígado e brânquias) e o preparo de
esfregaços sanguíneos.
Tabela 1 - Espécies coletadas durante as Expedições
Científicas do Rio São Francisco
Nome Científico
Metynnis maculatus
Serrasalmus brandtii
Cichla monoculus
Schizodon knerii
Total

Nome

Comum
pacu
pirambeba
tucunaré
piau-branco

Quantidade
2021
27
24
19
14
84

Fonte: SILVA, 2021.

Quantidade
2020
04
31
14
04
53

Biomarcadores de estresse oxidativo

Os fragmentos de fígado e brânquias foram descongelados a ­4ºC, pesados e
homogeneizados (10:1) em tampão fosfato de potássio salino (PBS, pH 7.4). A mistura foi
centrifugada por 10 minutos a 4ºC, com velocidade de 12.000 rpm. O sobrenadante resultante
foi utilizado para as análises da atividade das enzimas superóxido dismutase (SOD), catalase
(CAT) e glutationa S-transferase (GST), além da peroxidação lipídica (MDA).
a) Avaliação antioxidante através da enzima superóxido dismutase
A atividade da SOD foi mensurada nos tecidos através da técnica descrita por
Dieterich et al. (2000), Madesh e Balasubramanian (1998), onde a formação de O2•- e a
inibição da redução do MTT é mensurada em espectrofotômetro (λ= 570nm). Os resultados
foram expressos em U SOD mg de tecido-1.
b) Avaliação antioxidante através da enzima catalase
A atividade da CAT foi mensurada segundo Aebi et al. (1984) e Nelson et al. (1972).
A atividade foi determinada, através do espectrofotômetro, pela taxa de queda da absorbância
(λ= 240nm) em 60 segundos do peróxido de hidrogênio (H2O2) (0,3 M) em tampão fosfato
de potássio 0,5M (pH 7.0). Para encontrar a concentração total de CAT na amostra, foi
utilizada a constante de primeira ordem 2,361 e os resultados foram expressos em U CAT
mg de tecido-1.

102

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

c) Avaliação enzimática da glutationa S-tranferase
A atividade da enzima GST foi mensurada por meio da formação do conjugado
glutationa-2,4-dinitrobenzeno (GS-DNB), cuja reação é monitorada através do aumento da
absorbância (λ= 340 nm), durante 5 minutos, em intervalos de 60 segundos, de acordo com
a metodologia de Habig et al. (1974) e Mannervik et al. (1988). O coeficiente de extinção
molar do CDNB ɛ340 = 9,6 mM cm-1 foi utilizado para os cálculos e os resultados foram
expressos em µmol mL min-1.
d) Avaliação da peroxidação lipídica (MDA)
Os níveis de MDA foram mensurados como descrito por Buege e Aust (1978), com
pequenas adaptações. Em 200µL de tecido já homogeneizado, foram adicionados 400 µL de
solução de ácidos (tricloroacético a 15%, ácido tiobarbitúrico a 0,375% e ácido clorídrico a
0,6% M). Após agitação, a mistura reacional total foi mantida em banho-maria, 45 minutos
a 90°C. Após refrigeração, foi centrifugada por 5 min a 14000 rpm. Ao sobrenadante, foi
adicionado n-butanol e solução saturada de NaCl (1:1:0,1). Agitou-se e centrifugou-se
por 2 minutos a 14000 rpm. O sobrenadante foi utilizado para a leitura a 535 nm em
espectrofotômetro. Os níveis totais de MDA em cada amostra foram determinados por
meio de curva padrão a partir de concentrações conhecidas de 1,1,3,3-tetramethoxypropane
(TMPO) descrito por Wallin et al. (1993).
e) Análise estatística
Os dados enzimáticos foram analisados através do teste ANOVA de uma via com
pós-teste de Tukey. Para tratamento estatístico, será utilizado o software Prism 5.1 (GraphPad,
Califórnia, Estados Unidos). Os gráficos estão representados em média ± erro padrão da média.
Para efeito estatístico, serão considerados significativos os valores que apresentarem P < 0,05.
As atividades das enzimas que participam dos processos antioxidantes e de
biotransformação são moduladas por diversos fatores, dentre eles o ambiente, com a
interação de fatores bióticos e abióticos presentes, e a espécie, com a fisiologia, a idade
e o sexo dos indivíduos.
O Rio São Francisco possui diversas represas em seu curso, o que modifica os fatores
limnológicos ao longo de sua extensão, por exemplo: pH, condutividade elétrica, concentração
de gases dissolvidos (nitrogênio, carbono e fósforo), material em suspensão, dentre outros.
Estes fatores também permitem o estabelecimento de espécies invasoras, pela sua plasticidade
fenotípica a ambientes de água doce, que são modificados e/ou degradados por barragens
(PEREIRA et al., 2013). Com isso, o uso de bioindicadores para estudos ambientais é
apontado para levantar hipóteses e compreender as inter-relações entre o meio e a biota.
Desta forma, foram coletadas duas espécies nativas e duas invasoras, para identificar essas
possíveis inter-relações (Tabela 1).
Dentre as espécies de peixes invasoras selecionadas, o caracídeo Metynnis maculatus
é um peixe considerado herbívoro por alguns autores (GOMES et al., 2012; PEREIRA et
al., 2013) e onívoro com tendência ao herbivorismo segundo outros (FAVARATO et al.,
2019). É um indivíduo de pequeno porte, endêmico da América do Sul, nativo das Bacias
do Paraguai e Amazônica (LANGEANI et al., 2005).
Nos últimos anos, vários peixes amazônicos de importância comercial, incluindo
tucunaré, Cichla monoculus, foram introduzidos nos reservatórios do Semiárido nordestino

103

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

brasileiro (CHELLAPPA et al., 2003). O tucunaré é carnívoro/piscívoro e possui estoques
lipídicos na protuberância pós-occipitalcefálica de machos maduros; estas reservas lipídicas
provavelmente são mobilizadas durante a reprodução e os cuidados parentais, característica
da espécie (CHELLAPPA et al., 2003).
Já a pirambeba (Serrassalmus brandtti) é uma espécie carnívora nativa da Bacia do
Rio São Francisco. Com desova parcelada, reproduz-se durante o ano inteiro, com picos nos
meses de chuva, onde a perda de peso pode ocorrer, visto o cuidado parental (HONORATOSAMPAIO et al., 2009). Filogeneticamente, S. brandtti e M. maculatus são espécies muito
próximas; em virtude disso, essas espécies, por vezes, neste trabalho, serão comparadas
enquanto suas atividades antioxidantes.
Finalizando as espécies-alvo deste estudo está o Schizodon knerii, piau-branco ou piau,
endêmico na Bacia do Rio São Francisco e pertencente também à ordem Characiformes
(BRANDÃO et al., 2017). É uma espécie generalista e desova em ambientes lênticos e lóticos,
de hábito alimentar herbívoro (POMPEU; GODINHO, 2006).
A maioria dos teleósteos apresenta maturação sazonal, ou seja, fatores exógenos
(ambientais), como fotoperíodo, temperatura, propriedades da água ou oferta de alimentos
são, de alguma forma, percebidos pelo organismo e acionam neuromodulações que iniciam a
primeira maturação sexual ou puberdade. Essa estreita relação com sinais ambientais assegura
que a eclosão dos ovos e o desenvolvimento larval ocorram em época e condições favoráveis
(HONJI; MOREIRA, 2017; ALMEIDA, 2013; PEREIRA et al., 2013).
Esta sinergia de poluentes, características abióticas e fisiológicas de cada espécie
modulam a atividade enzimática por diversas vezes. O oxigênio molecular, por exemplo, é
indispensável para a vida aeróbica, sendo crítico para a produção de energia; no entanto, é
um potente oxidante (BILLER; TAKAHASHI, 2018). Por isso, em ambientes aquáticos, o
oxigênio dissolvido (OD) é um fator limitante, pois os peixes necessitam de níveis eficientes
de OD para manter seu metabolismo basal.
A concentração de OD depende, geralmente, de muitos fatores, incluindo fotossíntese
do fitoplâncton, respiração de organismos aquáticos e/ou difusão de O2 atmosférico (ABDELTAWWAB et al., 2019). Já foi sugerido que um nível de OD de cerca de 5 mg L−1 é crítico
para o crescimento aceitável dos peixes e, à medida que o nível de OD diminui, as atividades
de respiração e alimentação também diminuem.
Os valores de OD encontrados estão abaixo dos previstos pelas legislações ambientais,
sendo que Propriá, Piranhas, Piaçabuçu e Penedo apresentam valores abaixo de 2 mg L−1. Vários
estudos consideram os valores de oxigênio dissolvido abaixo de 2 mg L−1 (aproximadamente
30% da saturação de O2) como hipóxia, porque esse nível é letal para muitos organismos
aquáticos (ABDEL-TAWWAB et al., 2019; WELKER et al., 2013).
Estes parâmetros interferem diretamente na modulação/produção de espécies reativas;
os peixes, geralmente, diminuem o consumo de oxigênio com ativação do metabolismo
anaeróbico, pois a glicólise anaeróbica é capaz de atender à alta exigência energética dos
peixes durante o estresse por hipóxia. Porém, devido ao baixo rendimento de ATP da glicólise
anaeróbica, os substratos, como glicogênio e glicose, serão substancialmente consumidos,
levando ao acúmulo de lactato, que pode causar um distúrbio ácido-base, afetando o pH do
sangue e a morfologia das brânquias (ABDEL-TAWWAB et al., 2019).
Pôde-se observar que os valores de OD parecem modular a resposta antioxidante
nos diversos pontos investigados (Figura 1). Em S. Brás, observou-se o maior valor de OD,

104

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

com um pH em torno de 7.6, uma significativa concentração de fosfato e uma turbidez baixa,
ficando atrás somente de Propriá neste último parâmetro.
Nota-se que S. Brás e Propriá apresentam respostas enzimáticas diferentes para a
análise das brânquias de pirambebas e fígados de tucunarés (Figura 1), reflexo dos parâmetros
bioquímicos encontrados: OD 3,040 vs 1,975; pH 7.6 vs 7.3; turbidez 2,86 vs 1,583 e fosfato
0,220 vs 0,0717, respectivamente. Apesar dos altos desvios, provavelmente motivados pelo
número reduzido de animais, pôde-se observar comportamento enzimático, em S. Brás, para
todas as espécies investigadas.
O pacu encontrado em todos os pontos, exceto em Pão de Açúcar (pH mais elevado),
apresentou um pico de atividade em SOD branquial. O pH, assim como o CO2, pode modular
o sistema de ventilação em peixes. Os receptores envolvidos nesta via ainda são desconhecidos,
mas as evidências experimentais disponíveis sugerem o envolvimento de quimiorreceptores
branquiais sensíveis a CO2 ligados ao pH (GILMOUR, 2001), o que pode estar influenciando
as espécies encontradas em uma faixa de pH.
O tucunaré apresentou um aumento na atividade da SOD e CAT em fígado em Pão
de Açúcar, com ligeiro aumento do MDA quando comparado à pirambeba.
Além disso, os valores médios de ORP (potencial oxidação-redução) foram menores
em 2021. Na água, o ORP está fortemente relacionado a temperatura, pH, salinidade e
concentrações de OD e outros oxidantes dissolvidos, como o ozônio. Já se sabe que valores
de ORP acima de 300-320 mV influenciam negativamente os parâmetros hematológicos do
robalo e induzem à morte acima de 350 mV. Porém, não há muitas informações disponíveis
sobre a relação entre os níveis máximos e mínimos de ORP e a fisiologia dos peixes, mas,
como a regulação ácido-base em peixes é complexa e envolve uma série de reações para
HCO3- e H+ no sangue, já se pode identificar que o pH do sangue também é afetado pelos
níveis de ORP (LI et al., 2014).
A Figura 1 apresenta o comportamento enzimático e do MDA das espécies
investigadas nos diferentes pontos de coleta da IV Expedição (2021).

105

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 1 - Avaliação das atividades das enzimas: superóxido dismutase (SOD), Catalase
(CAT) e Glutationa S-transferase (GST), como também da peroxidação lipídica (MDA)
em brânquias (A, C, E, G) e fígado (B, D, F, H) de piau, pacu, pirambeba e tucunaré
encontrados no Baixo São Francisco durante a IV Expedição. Atividade antioxidante da
SOD e CAT expressa em unidade da enzima por miligrama de tecido. Atividade de GST
expressa em µmol da enzima capaz de degradar um mL de substrato por minuto, utilizando
o coeficiente de extinção molar do CNDB. Concentração de Malonaldeído (MDA) expressa
em micromols de MDA por miligrama de tecido. Resultados analisados utilizando o teste
ANOVA de uma via com pós-teste de Tukey, com intervalo de confiança de 95%, média ±
erro padrão da média.

Fonte: FEITOSA, 2021.

Inicialmente, pode-se observar que há um aumento, em concentração, de atividade
de SOD em brânquias e de GST em fígado.
Visto que grande parte dos peixes analisados estavam em fase de maturação avançada,
com as fêmeas produzindo ovócitos e ovadas, e como os parâmetros ambientais temperatura,

106

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

pH e oxigênio dissolvido são considerados os mais importantes moduladores da atividade
reprodutiva em peixes (BRANDÃO et al., 2017), decidiu-se investigar a influência do sexo
neste marcador em fígado.
A conclusão é de que não se pôde identificar diferenças significativas nos marcadores
enzimáticos comparando com o sexo, exceto nas amostras de SOD e MDA de brânquias
de tucunarés, onde as fêmeas apresentaram maiores valores quando comparadas aos machos
de sua espécie (Figura 2). Em fígado, apesar da tendência de maior peroxidação lipídica em
fêmeas, apenas em piau-branco foi visualizado um aumento na atividade.
Figura 2 - Peroxidação lipídica em brânquias (A) e fígado (B) das espécies coletadas na IV
Expedição do Rio S. Francisco. Na primeira coluna, são machos; na segunda, fêmeas. Os
resultados foram analisados utilizando o teste ANOVA de uma via com pós-teste de Tukey,
com intervalo de confiança de 95%, média ± erro padrão da média

Fonte: FEITOSA, 2021.

O sexo pode interferir com as análises enzimáticas do fígado, já que, em fêmeas,
uma das principais ações dos estrógenos é estimular a síntese da glicolipofosfoproteína
(vitelogenina) no fígado, que, por sua vez, é incorporada ao oócito durante o crescimento
secundário (ALMEIDA, 2013; HONJI; MOREIRA, 2017).
Os esteroides gonadais podem atuar em vários tecidos (dentre eles: fígado,
hipófise, encéfalo e nas próprias gônadas), alterando a expressão de neuro-hormônios e/
ou neurotransmissores e/ou outras substâncias, bem como seus respectivos receptores (via
feedback), além de serem importantes no comportamento sexual e no momento da desova ou
espermiação, o que pode ocorrer em certos momentos/meses específicos dentre os teleósteos,
como, por exemplo, o S. knerri,principalmente em dezembro e janeiro (SATO et al., 1996).
De maneira interessante, também houve aumento da catalase no fígado (dados não
apresentados); esta é uma enzima que contém um grupo heme responsável por catalisar a
dismutação de H2O2 em H2O e O2. Possui alta afinidade por H2O2, mas menor especificidade
por outros peróxidos orgânicos. Os peroxissomos são os hotspots de produção de H2O2 devido
a β-oxidação de ácidos graxos, fotorrespiração, catabolismo de purinas e estresse oxidativo,
e são encontrados, principalmente, no fígado; por isso, justifica-se a alta concentração de
catalase neste órgão (BOVERIS et al., 1972; DAS; ROYCHOUDHURY, 2014).
Em outros trabalhos, o M. maculatus mostrou um padrão de desenvolvimento com
predomínio de atividade vitelogênica entre abril a agosto e intensificação da desova em

107

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

setembro (PEREIRA et al., 2013), o que corrobora com os resultados aqui mostrados, visto
que, mesmo apresentando uma maior quantidade de fêmeas ovadas coletadas (10), isso não
refletiu no aumento do MDA, que se manteve quase que constante nos diversos pontos, tanto
em brânquias, quanto em fígado, mesmo com picos de atividade enzimáticas.
Para S. brandtii, os meses de cheias destacam-se, já que o sucesso reprodutivo depende
da inundação da vegetação adequada para a fixação dos ovos, com destaque para os períodos
de setembro a dezembro (HONORATO-SAMPAIO et al., 2009). Apesar disso, talvez pela
influência das hidrelétricas, não observamos diferença no MDA entre os sexos neste período.
A peroxidação lipídica é um dos fatores associados ao aumento da atividade da GST.
Neste, houve uma correlação inversa entre esses marcadores nas brânquias, exceto em S. Brás,
onde pode-se observar que piaus e tucunarés, mesmo apresentando valores significativos de
GST, demonstraram altos valores de MDA neste tecido, provavelmente causado pelo baixo
número de indivíduos coletados.
Outros estudos também apresentaram relação entre o aumento da atividade da GST
e a diminuição dos níveis de MDA, devido a esta enzima ter uma grande capacidade de
eliminar moléculas de pesticidas, transformando-as de um jeito que é facilmente excretada
(CLASEN et al., 2018). Os processos relacionados à glutationa desempenham um papel
central na segunda linha de defesa antioxidante, porque contribuem para processos como
eliminação de radicais livres, redução de peróxido e desintoxicação de compostos eletrofílicos
(CLASEN et al., 2018).
Como em outros trabalhos, os peixes, aqui, podem apresentar uma estratégia de
“conservação metabólica”, vistos os baixos valores de OD. Nessas condições, a demanda de
energia para manutenção basal pode ser muito alta (ou seja, além da capacidade metabólica
aeróbica do peixe) ou pode haver uma interrupção do metabolismo aeróbico, levando a uma
diminuição da energia disponível abaixo da demanda, o que pode diminuir a produção de
superóxido basal (TRIP et al., 2016; PETITJEAN et al., 2019).
Os organismos podem, então, entrar em um estado de “desligamento metabólico”,
ou seja, uma supressão de toda a atividade metabólica acima do metabolismo basal, uma
diminuição do catabolismo de carboidratos e aminoácidos (PETITJEAN et al., 2019). Este
fenômeno, chamado de “estratégia de conservação”, sugerido por Sokolova e colaboradores em
2012 e 2013, tem sido observado em outros trabalhos, sob exposição a múltiplos estressores
(PETITJEAN et al., 2019). No entanto, fortes efeitos deletérios na estrutura celular (altos
níveis de lesões celulares e danos ao DNA) podem ser esperados (PETITJEAN et al., 2019).
Para investigar os efeitos temporais, foram comparados os valores enzimáticos de
pirambeba e tucunaré, nos anos 2020 e 2021 (Figuras 3 e 4). A pirambeba aparenta estar
mais confortável em pH acima de 7.4, como em Traipu, onde o pH obteve média de 7.5 e
OD ligeiramente acima de 2 mg/L. Em 2021, o pico da atividade de SOD branquial foi em
Propriá, onde o OD está ligeiramente menor de 2mg/L; abaixo deste valor não se encontrou
a espécie, apesar de outros estudos comprovarem que Characiformes são resistentes a baixo
pH (MORRIS et al., 2021).
A atividade da SOD em brânquias foi inversamente proporcional aos valores de OD;
porém, mais estudos precisam ser realizados, para se investigar, por exemplo, por que não se
visualizou este pico de atividade da SOD em Piranhas, que também apresentou baixo valor
de OD, mas com pH neutro. Essa lógica corrobora com os dados encontrados na SOD no
fígado da pirambeba.
No ano 2020, o OD médio em Piranhas foi acima de 4,5 mg/L; este ano, foi de 1,9,
aproximadamente. A diminuição da atividade da SOD em fígado, este ano, pode ser reflexo

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

dessa adaptação (diminuição da atividade metabólica). Isso refletiu na atividade do MDA,
que foi igual ou maior do que no ano anterior em ambos os tecidos investigados, exceto em
fígado, em Piranhas.
O tucunaré também pode estar suscetível a uma estreita sensibilidade e largo intervalo
de pH: 7.3-8.0. Em outros trabalhos, foi visto que pode ocorrer perda de íons em um pH
baixo neste espécime (MORRIS et al., 2021). Em 2021, não houve captura desta espécie em
Piranhas e Penedo, cujo pH foi de 7.23 e 7.27, respectivamente.
No ano 2020, o menor pH detectado foi nestas cidades, com valor médio de 7.4 e
7.5, locais onde foram coletados apenas dois indivíduos; os demais pontos apresentaram
valores médios superiores a 7.6. Porém, em Traipu, neste mesmo ano, apesar de o pH estar
em torno de 7.8, não houve captura deste espécime; talvez devido ao OD estar em torno
de 2,4 mg/L, os valores baixos de turbidez podem ter afastado o espécime, bentopelágico e
predador de espreita.
Figura 3 - Comparativo das atividades das enzimas: superóxido dismutase (SOD) e
Glutationa S-transferase (GST) e peroxidação lipídica (MDA) em brânquias (A, C, E) e
fígado (B, D, F) de pirambeba e de oxigênio dissolvido (mg/L) encontrados no Baixo São
Francisco nos anos 2020 e 2021. Atividade antioxidante da SOD expressa em unidade da
enzima por grama de tecido. Atividade de GST expressa em nanomols da enzima capaz
de degradar um mL de substrato por minuto, utilizando o coeficiente de extinção molar
do CNDB. Concentração de malonaldeído (MDA) expressa em nanomols de MDA por
miligrama de tecido. Resultados analisados utilizando o teste ANOVA de uma via com pósteste de Tukey, com intervalo de confiança de 95%, média ± erro padrão da média

Fonte: FEITOSA, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 4 - Comparativo das atividades das enzimas: superóxido dismutase (SOD) e
Glutationa S-transferase (GST) e peroxidação lipídica (MDA) em brânquias (A, C, E)
e fígado (B, D, F) de tucunaré e de oxigênio dissolvido (mg/L) encontrados no Baixo São
Francisco nos anos 2020 e 2021. Atividade antioxidante da SOD expressa em unidade da
enzima por miligrama de tecido. Atividade de GST expressa em nanomols da enzima capaz
de degradar um mL de substrato por minuto, utilizando o coeficiente de extinção molar
do CNDB. Concentração de malonaldeído (MDA) expressa em nanomols de MDA por
miligrama de tecido. Resultados foram analisados utilizando o teste ANOVA de uma via
com pós-teste de Tukey, com intervalo de confiança de 95%, média ± erro padrão da média

Fonte: FEITOSA, 2021.

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Biomarcadores de genotoxicidade

A genotoxicidade (dano ao DNA) pode ser analisada por meio do teste do micronúcleo,
que utiliza esfregaços sanguíneos para a visualização das anormalidades nucleares eritrocitárias
(ANEs), dentre as quais o micronúcleo (MN).
Para a análise da genotoxicidade, foram utilizadas as espécies mais capturadas:
pacu (Metynnis maculatus), pirambeba (Serrasalmus brandtii) e tucunaré (Cichla monoculus),
totalizando 70 indivíduos pegos nas Expedições Científicas do São Francisco nos anos
2020 e 2021, nas cidades alagoanas de Pão de Açúcar, Penedo, Piranhas e Piaçabuçu. As
anormalidades nucleares eritrocitárias contabilizadas foram: célula binucleada, núcleos do
tipo blebbed, notched, lobeled, vacuolizados e micronúcleos (CARRASCO et al., 1990).
Os esfregaços foram preparados utilizando 10 µL da solução de sangue/EDTA
10% por lâmina; esta foi seca em temperatura ambiente, fixada em etanol absoluto durante
24 horas e corada com Giemsa 10% durante 40 minutos. Para o cálculo da frequência das
anormalidades (LACERDA et al., 2020), foram preparadas duas lâminas por indivíduo e
realizada a contagem de 1.500 eritrócitos periféricos por lâmina, com auxílio do microscópio
óptico (1.000X), onde também foram feitos os registros fotográficos. Análise estatística
realizada no programa Minitab 13.

Frequência das anormalidades nucleares eritrocitárias (ANEs) por local
de coleta

Um total de 210.000 eritrócitos foram analisados e a cidade de Pão de Açúcar
apresentou a menor frequência de ANEs nos dois anos amostrados (2020 e 2021) (Tabela 2),
enquanto as cidades de Penedo e Piranhas tiveram as maiores frequências de anormalidades
em 2020 e 2021, respectivamente (Figura 5). Penedo apresentou 1,30% e Piranhas 4,23%,
somando todas as anormalidades observadas, sendo a frequência encontrada em Piranhas a
maior para os anos 2019 (SOUZA et al., 2020), 2020 e 2021, em uma localidade amostrada
na região do Baixo São Francisco. Analisando somente as frequências de micronúcleos (MNs),
a cidade de Piranhas também apresentou as maiores frequências em 2019 (SOUZA et al.,
2020) e 2021 (Tabela 2).
Estas altas frequências de ANEs em Piranhas podem ser explicadas por esta ser a
primeira cidade após a barragem da Hidrelétrica de Xingó, última do Rio São Francisco,
recebendo a água represada com todos os compostos químicos oriundos de efluentes de
cidades e plantações das demais regiões deste rio. Estes compostos podem estar atuando
como genotóxicos, induzindo danos ao DNA nas células avaliadas dos peixes coletados na
região de Piranhas. Valores semelhantes de ANEs foram encontrados nas espécies Prochilodus
argenteus e Myleus micans (3,8% para ambas as espécies), coletadas também no Rio São
Francisco por Seriani et al. (2011).
Vale ressaltar que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a
cidade de Piranhas tem 54% do saneamento classificado como semiadequado e inadequado. A
influência dos poluentes urbanos no aparecimento das anormalidades nucleares eritrocitárias
(ANEs) já é bem estudada por vários autores (OLIVEIRA et al., 2022; KIRSCHBAUM et
al., 2009; AMADO et al., 2006).
De Lima-Cardoso et al. (2018), estudando três áreas, verificaram que a área próxima
à cidade e que sofre influência direta da urbanização apresentou maiores quantidades de

111

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

ANEs. Para estes, a presença de micronúcleos e outras alterações na membrana nuclear são
indicativos de ação mutagênica no ambiente analisado.
Tabela 2 - Frequência das anormalidades nucleares eritrocitárias (ANEs) e frequência de
micronúcleos (MNs) (%) nas diferentes localidades amostradas
CIDADES

2020

2021

Frequência

Frequência total*

Frequência MN

Frequência total*

Pão de Açúcar

0

0,066

0,433

1,5

Penedo

0,10

1,30

0,433

1,5

Piaçabuçu

0,033

0,266

0,6

1,833

Piranhas

0,033

0,333

1,366

4,233

0,166

1,97

2,832

9,066

MN

TOTAL

de ANE

de ANE

* Soma das anormalidades: célula binucleada, núcleos blebbed, notched, lobeled, vacuolizados e
micronúcleo.
Fonte: SILVA, 2021.

Kirschbaum et al. (2009), analisando MNs e ANEs em Centropomus parallelus,
encontraram níveis de poluição ambiental altos o suficiente para induzir danos genotóxicos
que, segundo eles, podem levar a danos fisiológicos, mutações e neoplasias na espécie, causando
um desequilíbrio ambiental.
Analisando carpas (Carassius carassius) em dois ambientes (poluído e controle), Sula
et al. (2019) observaram um valor elevado da frequência de ANEs (4,36%) no ambiente
poluído, próximo ao encontrado nos peixes coletados na cidade de Piranhas. O Lago
Seferani (considerado poluído) sofre com a pressão antropogênica e com o uso de pesticidas
e herbicidas, mesmos problemas encontrados ao longo do Rio São Francisco, em especial na
região estudada (Baixo São Francisco), que ainda sofre com as constantes mudanças de vazões
que podem deixar os organismos em ambientes com altas concentrações de alguns compostos
(baixas vazões) e/ou carrear de maneira rápida compostos que estavam, antes, retidos pelas
barragens das hidrelétricas (altas vazões). Para os autores, as diferenças significativas entre
os dois ambientes indicam efeitos genotóxicos de poluentes ambientais nas carpas do Lago
Seferani. O mesmo pode ser considerado para as espécies coletadas na cidade de Piranhas.
Vários autores já demonstraram a associação das anormalidades com a presença de
poluentes urbanos ou industriais (OLIVEIRA et al., 2022; ABDEL‑KHALEK; DAJEM;
MORSY, 2020; KIRSCHBAUM et al., 2009; AMADO et al., 2006), metais pesados (LACERDA
et al., 2020; KIRSCHBAUM et al., 2009; PORTO et al., 2005; DE ANDRADE et al., 2004) e
agrotóxicos (LIMA et al., 2018; KIRSCHBAUM et al., DE ANDRADE et al., 2004).
Levando em consideração somente os MNs, a análise estatística mostrou que não
houve diferença significativa entres os pontos amostrados em 2020, mas, em 2021, a cidade
de Piranhas diferenciou-se das demais – este dado pode ser explicado pela vazão, maior em
2020 (média 1421 m3/s) que em 2021 (média 951 m3/s), o que pode ter deixado os compostos
genotóxicos mais concentrados no ano 2021 (dados não amostrados).
Quando observada a análise estatística das ANEs, as cidades de Penedo, em 2020,
e Piranhas e Penedo, em 2021, diferiram das demais, apresentando resultados significativos
(dados não amostrados).

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Para Abdel‑Khalek, Dajem e Morsy (2020), a avaliação de danos ao DNA e aberrações
cromossômicas refletem os impactos genotóxicos de contaminantes ambientais, especialmente
metais, pois possuem efeitos genotóxicos, seja por dano direto ao DNA ou indireto, pelo
estímulo das espécies reativas de oxigênio (EROs), e podem ser usados para monitorar a
contaminação de corpos de água doce. Utilizando tilápias (Oreochromis niloticus) de diferentes
ambientes, os maiores níveis de indução de MNs e ANEs foram registrados próximo aos
pontos considerados mais poluídos (ABDEL‑KHALEK; DAJEM; MORSY, 2020).
Figura 5 - Frequência média de Anormalidades Nucleares Eritrocitárias (ANEs) nos
diferentes pontos de coleta amostrados nos anos 2020 e 2021

Fonte: VALETIM; SILVA, 2021. Baseado em BENVINDO-SOUZA et al., 2020.

Frequência das anormalidades nucleares eritrocitárias (ANEs) por espécies
e por ano (2020 e 2021)

A pirambeba (S. brandtii) e o pacu (M. maculatus) apresentaram as maiores frequências
de ANEs e MNs nos anos 2020 e 2021, respectivamente, enquanto as menores frequências,
ANEs e MNs, foram encontradas nas espécies pacu e tucunaré nos anos 2020 e 2021,
respectivamente (Figura 6). O fato de o pacu ter apresentado resultados contraditórios nos
anos 2020 e 2021 pode estar associado ao baixo número amostral de 2020 (três espécimes),
quando comparado a 2021.
A pirambeba é um peixe carnívoro; encontra-se, portanto, no topo da cadeia alimentar,
estando, assim, exposta à biomagnificação e à bioacumulação. Espécies piscívoras apresentaram
frequências médias de micronúcleo até cinco vezes maiores que espécies onívoras e detritívoras
(PORTO et al., 2005) e, segundo Lacerda et al. (2020), espécies dos níveis tróficos superiores
(carnívoros) têm a predisposição de bioacumular níveis mais altos de poluentes em seus
tecidos do que aquelas dos níveis tróficos mais baixos, levando a frequências mais altas de
anormalidades, como encontrado nas pirambebas coletadas no ano 2020.

113

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 6 - Frequência média de anormalidades (ANEs) e micronúcleos (MNs) por espécies
coletadas nos anos de 2020 e 2021.

Fonte: VALETIM; SILVA, 2021.

O pacu é considerado uma espécie média-migradora, o que o deixa mais suscetível,
pois permanece parte do tempo nas áreas marginais (SOARES et al., 2020), ficando mais
exposto a contaminantes presentes nestes ambientes.
A avaliação toxicogenética é uma ferramenta sensível para apontar os efeitos dos
poluentes. Seu uso em diferentes espécies pode ajudar a responder questões ambientais e
demonstrar diferenças na suscetibilidade das espécies de peixes aos poluentes (LACERDA
et al., 2020). Para Lima et al. (2018), o uso de espécies nativas como bioindicadores para
o monitoramento ambiental é uma ferramenta útil, pois estas espécies fazem parte da
alimentação das comunidades ribeirinhas da região, sendo de extrema importância conhecer
a saúde destes recursos alimentares.
A análise estatística mostrou diferença significativa da pirambeba em 2020 e do pacu
e da pirambeba em 2021, com as demais espécies avaliadas (dados não amostrados). Como
já explicado, tal resultado pode estar associado ao hábito alimentar, no caso das pirambebas,
bem como da diferente média de vazão nos dois anos, deixando as espécies em contato com
maiores concentrações de xenobióticos genotóxicos no ano de menor vazão, 2021.
Quando comparadas as anormalidades encontradas nos anos estudados (2020 e 2021),
as células binucleadas apresentaram a menor frequência nos dois anos, enquanto as maiores
frequências foram núcleo tipo notched e micronúcleo, nos anos 2020 e 2021, respectivamente
(Figura 7). Dados apontados por Souza et al. (2020), que também encontraram uma maior
frequência de micronúcleos e menor de células binucleadas nos peixes avaliados. Sula et al.
(2019), observando as anormalidades das carpas, também encontraram frequências maiores
de notched, analisando dois lagos na Albânia.

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Figura 7 - Anormalidades Nucleares (ANEs) encontradas nos espécimes coletados durante
as Expedições Científicas do São Francisco. A e D – Micronúcleo; B – núcleo tipo notched;
C – núcleo vacuolizado; E – célula binucleada e F – núcleo tipo lobed

Fonte: VALETIM; SILVA, 2021.

De Lima-Cardoso et al. (2018), avaliando a genotoxicidade na espécie Prochilodus
lacustris, também encontraram uma maior quantidade de notched no ambiente com maior
pressão antropogênica. Para estes autores, a presença de anormalidades do tipo micronúcleo e
outras alterações no envelope nuclear são indicativos de ação mutagênica no ambiente analisado.
Os eritrócitos periféricos podem atuar como carreadores circulantes de poluentes
ambientais e são diretamente afetados por agentes genotóxicos (ABDEL‑KHALEK;
DAJEM; MORSY, 2020), como observado nos dados aqui analisados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A qualidade da água dos diferentes corpos hídricos do nosso país está sendo cada vez
mais afetada por diversas atividades humanas. No caso do Rio São Francisco, não é diferente.
São muitas as atividades que comprometem este tão importante recurso, dentre as quais a
poluição das cidades e plantações em seu entorno e as sucessivas e constantes mudanças nas
vazões determinadas pelas várias hidrelétricas no seu curso.

115

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O uso dos biomarcadores e dos peixes como bioindicadores mostra-se uma ferramenta
útil para verificar a qualidade da água do Rio São Francisco e os resultados gerados podem
ser empregados na elaboração de políticas públicas eficientes que busquem remediar e/ou
extinguir os impactos que afetam este ambiente e os organismos que ali vivem.
Diante do exposto e com dados das Expedições anteriores, foi possível observar que os
efeitos de dose, duração e/ou números de estressores são altos, modulados, principalmente, pela
vazão do rio ao longo dos anos. Como estratégia de sobrevivência, as respostas ao estresse podem
estar moduladas negativamente ou bloqueadas e, como consequência, os sistemas de defesa
são parcialmente, ou não, acionados, afetando, principalmente, o crescimento e a reprodução.
Os dados comparativos entre 2020 e 2021 em pirambeba e tucunaré sugerem que há
um limite de OD tolerável, com aumento de atividade enzimática, observada principalmente
na SOD. Quando este limiar é ultrapassado, os marcadores enzimáticos diminuem, o que
modula de forma diferente a peroxidação lipídica; porém, mais estudos deverão ser realizados,
investigando a influência deste e de outros parâmetros abióticos nas atividades de antioxidantes
endógenos de peixes no Baixo São Francisco.
Os danos genotóxicos refletem a qualidade do ambiente em que os organismos vivem,
assim, as cidades que apresentaram os maiores índices para este marcador necessitam tomar
medidas para cessar as causas da contaminação, que tem levado a mutações do material
genético e, consequentemente, comprometem todo o ecossistema, incluindo os ribeirinhos,
que dependem do rio para diversas atividades, dentre as quais a alimentação.

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CAPÍTULO 6 - AVALIAÇÃO MICROBIOLÓGICA
DE PESCADOS COMERCIALIZADOS EM FEIRAS
LIVRES DE OITO MUNICÍPIOS DO BAIXO SÃO
FRANCISCO, ALAGOAS, BRASIL
Juliett de Fátima Xavier da Silva1

Ana Paula de Almeida Portela da Silva2
Heloísa de Carvalho Matos3
Rykelly Bezerra Santos4

Resumo: O presente trabalho teve como objetivo realizar uma análise microbiológica de
pescados comercializados em feiras livres e/ou mercados públicos de oito municípios do
Baixo São Francisco, durante a IV Expedição do São Francisco, no período de 1º a 10 de
novembro de 2021. Foram coletadas amostras de tilápia (Oreochromis niloticus) e de camarão
(Litopenaeus vannamei e Macrobrachium sp.), in natura ou salgado seco. As amostras foram
acondicionadas em sacos plásticos estéreis e transportadas em caixas isotérmicas, com
gelo, para o Laboratório de Tecnologia do Pescado (Latepe) da Ufal, para processamento.
Posteriormente, 25 g de cada amostra foi homogeneizada em 225 mL de água peptonada
(0,1%) e realizadas diluições seriadas até 10-3. Em seguida, 1 mL de cada diluição foi semeada
por spread plate na superfície de placas contendo meio de cultura específico. Foi utilizado o
kit CompactDry, incubado a 34°C ± 1,0 por 24h, para análise bacteriana, e o Ágar Sabouraud
Dextrose (SDA-Himedia®), suplementado com Tetraciclina a 0,1 μg/mL-1, incubado a
25 ± 2°C, por até 12 dias, para análise fúngica. Foi detectada a presença de Escherichia coli,
coliformes totais e Staphylococcus aureus na maior parte das amostras, sendo que os peixes
comercializados nas feiras livres/mercados de Penedo, Piaçabuçu, Igreja Nova, São Brás,
Piranhas e Propriá estavam com valores de E. coli UFC/g acima do permitido pela Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e os peixes comercializados em Igreja Nova,
Piaçabuçu e Piranhas estavam com valores de S. aureus UFC/g acima do permitido pela
Anvisa. Os camarões in natura (Litopenaeus vannamei e Macrobrachium sp., respectivamente)
comercializados em Piaçabuçu e Propriá e os salgados secos (Macrobrachium sp.) vendidos em
Igreja Nova também estavam com o número de E. coli UFC/g acima dos valores permitidos
pela legislação vigente. Os camarões in natura comercializados em Propriá estavam com valores
de S.aureus UFC/g muito acima do permitido. Todas as amostras analisadas apresentaram
níveis de contaminação fúngica por bolores aceitáveis, segundo a legislação vigente, abaixo de
104 UFC/g. As amostras obtidas dos municípios de Traipu, Piranhas e Pão de Açúcar foram
as mais abundantes quanto ao número de fungos filamentosos, variando de 1,08 x 102 a 7,51
x 103 UFC/g. Condições de temperatura, manipulação, processamento, armazenamento e,
ainda, uso de água contaminada e condições higiênico-sanitárias inadequadas podem favorecer
a contaminação dos alimentos por microrganismos. Desta forma, faz-se necessária a oferta
de cursos e/ou palestras de capacitação sobre boas práticas de manipulação do pescado para
feirantes, visando manter a qualidade do pescado para consumo.
1 Docente do curso de Engenharia de Pesca/UFAL/Unidade Educacional de Penedo
2 Docente do curso de Engenharia de Pesca/UFAL/Unidade Educacional de Penedo
3 Bióloga da UFAL/ Unidade Educacional de Penedo
4 Graduanda em Engenharia de Pesca/ Unidade Educacional de Penedo

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Palavras-chave: Microbiologia do Pescado. Microrganismos Mesófilos. Boas Práticas de
Manipulação do Pescado.

INTRODUÇÃO
O pescado é um alimento considerado saudável, devido ao seu alto valor proteico
e à presença de aminoácidos essenciais e ácidos graxos poli-insaturados, além de ter baixo
teor de gordura e ser fonte de minerais, principalmente cálcio e fósforo, vitaminas A, D e do
Complexo B (EVANGELISTA-BARRETO et al., 2017). É facilmente encontrado em feiras
livres; porém, as condições higiênico-sanitárias, muitas vezes, são insatisfatórias, podendo
causar deterioração do alimento. Isso, associado às condições inadequadas de manuseio,
armazenamento e refrigeração, favorece a multiplicação de bactérias e fungos, decorrendo
em prejuízos à saúde humana (MARTINS, 2015).
O comércio informal do pescado gera diversas preocupações, pois tanto comerciantes,
quanto consumidores, muitas vezes, não conhecem os cuidados para a higienização e
conservação dos alimentos e os possíveis riscos de doenças relacionadas à proliferação de
microrganismos (OLIVEIRA et al., 2019). Devido ao pescado ser um alimento perecível,
sua manipulação, armazenamento, conservação, transporte e exposição devem seguir padrões
sanitários adequados para que não acarrete risco à saúde dos consumidores, devido à veiculação
de microrganismos patogênicos que podem causar infecções e intoxicações (ALMEIDA;
MORALES, 2021).
Dentre os microrganismos, as bactérias são consideradas índices de sanidade e sua
presença pode indicar que as condições de conservação da matéria-prima estão impróprias,
representando condições higiênico-sanitárias inadequadas. A legislação brasileira, por meio
da Instrução Normativa nº 60, de 23 de dezembro de 2019, preconiza limites para Estafilococos
coagulase positiva/g, Salmonella/25g e Escherichia coli/g para diferentes categorias de pescado
(BRASIL, 2019a).
Por outro lado, assim como as bactérias, a investigação de fungos é imprescindível,
pois eles podem propiciar alterações no odor e no sabor dos alimentos, causando diferentes
graus de deterioração através de contaminação cruzada, acarretando perigo à saúde humana,
principalmente pela produção de micotoxinas (OLIVEIRA et al., 2019). Micotoxinas
são metabólitos secundários com diferenciada estrutura química e propriedade biológica;
podem estar bioacumuladas no pescado e causar efeitos diretos, no animal, e indiretos, no
consumidor; ao serem ingeridas, podem causar micotoxicoses em animais e no homem, com
efeitos carcinogênico, nefrotóxico e teratogênico (ATAYDE et al., 2014).
Santos et al. (2019) alertam, ainda, para o cuidado com o pescado comercializado
proveniente de criadouros, onde, muitas vezes, é feita a utilização de antibióticos na piscicultura;
por sua vez, os medicamentos provocam resistência às bactérias presentes no meio, especialmente
as do gênero Aeromonas, que podem causar gastroenterites. Portanto, a avaliação microbiológica
é um fator relevante para o conhecimento das condições higiênico-sanitárias a que o pescado
é exposto, apontando perigos que podem oferecer à saúde da população.
Bactérias e fungos podem deteriorar e contaminar alimentos, causando danos à saúde
dos consumidores. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, de 2009 a 2019, o
pescado foi vinculado a 2,18% dos alimentos envolvidos nos surtos de doenças transmitidas
por alimentos (DTA) no Brasil (AMARAL et al., 2021).

123

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Diante do exposto, o presente estudo objetivou pesquisar bactérias Escherichia coli e
Staphylococcus aureus, além de bolores em pescados comercializados em feiras livres/mercado
público de oito municípios do Baixo São Francisco durante a IV Expedição do São Francisco,
em novembro de 2021.

Locais de coleta

O presente trabalho foi desenvolvido nas feiras livres dos municípios de Pão de
Açúcar, Piranhas, Traipu, São Brás, Propriá, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu, no período
de 1º a 10 de novembro de 2021.
Foram obtidas amostras de tilápia (Oreochromis niloticus) processadas in loco, em postas,
das feiras de São Brás, Traipu e Propriá, e filés das feiras de Pão de Açúcar, Piranhas, Igreja
Nova, Penedo e Piaçabuçu (Figura 1). Também foram selecionadas amostras de camarão
Litopenaeus vannameiin in natura (em Penedo e Piaçabuçu) e Macrobrachium sp. in natura
(em Propriá, no Estado de Sergipe), e Macrobrachium sp. salgado seco (em Pão de Açúcar,
Igreja Nova e Piranhas) (Figura 2).
As amostras foram acondicionadas em sacos plásticos estéreis e transportadas em caixa
isotérmica com gelo para o Laboratório de Tecnologia do Pescado (Latepe) da Universidade
Federal de Alagoas (Ufal), para iniciar as análises microbiológicas.
Figura 1 - Tilápia (Oreochromis niloticus) comercializada nas feiras dos municípios de
Penedo (A), Piranhas (B), Igreja Nova (C) e São Brás (D)

Fonte: PORTELA-SILVA; XAVIER-SILVA, 2021.

124

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 2 - Camarão comercializado nas feiras dos municípios de Propriá: Macrobrachium
sp. in natura (A); Igreja Nova: Macrobrachium sp. cozido em água e sal (B); Piranhas:
Macrobrachium sp. salgado seco (C); Penedo: Litopenaeus vannamei in natura (D)

Fonte: PORTELA-SILVA; XAVIER-SILVA, 2021.

Quantificação de microrganismos específicos e processamento para
isolamento de fungos filamentosos

A identificação e a quantificação de Escherichia coli, coliformes totais e Staphylococcus
aureus foi realizada através de placas estéreis para detecção e quantificação microbiológica
em matérias primas tipo CompactyDry EC (E. Coli e coliformes) e CompactyDry XSA (S.
aureus) da Nissui Pharmaceutical.
A primeira etapa da análise consistiu na preparação e diluição das amostras coletadas,
onde 25 g de cada amostra foi homogeneizada em 225 mL de água peptonada a 0,1%, referente
à solução-mãe (Figura 3), e realizadas diluições seriadas de 10-1 até 10-3. Em seguida, utilizouse a técnica de plaqueamento em superfície (spread-plate), em que 1 mL de cada diluição
foi inoculada em superfície, em placas CompactDry, incubadas a 34°C ± 1,0 por 24 h. O
resultado foi expresso em unidades formadoras de colônias por grama de amostra (UFC/g).
A inoculação dos fungos foi realizada com 1 mL de cada diluição em placa de Petri
contendo Ágar Sabouraud Dextrose (SDA-Himedia®) suplementado com Tetraciclina
a 0,1 μg/mL-1, para evitar crescimento bacteriano (SILVA et al., 2007). Em seguida, as placas

125

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

foram incubadas a 25 ± 2°C e monitoradas por até 12 dias, para observação do crescimento
e posterior isolamento dos fungos. A purificação dos fungos ocorreu por meio de repiques
sucessivos em SDA (Himedia®). Uma vez purificados, os isolados foram preservados, sob
refrigeração, para posterior identificação por taxonomista da Micoteca (URM/UFPE).
Figura 3 - Amostras homogeneizadas em água peptonada (solução-mãe): Penedo (A);
Piaçabuçu (B); Piranhas (C); Propriá-SE (D)

Fonte: MATOS; PORTELA-SILVA; XAVIER-SILVA, 2021.

Contagem de bactérias específicas

Na Tabela 1, encontram-se as quantificações de Escherichia coli, coliformes
termotolerantes e Staphylococcus aureus UFC/g nas amostras de peixe e camarão comercializados
nas feiras livres, após 24 horas de coleta.

126

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 1 - Quantificação de Escherichia coli (EC), coliformes termotolerantes (C) e
Staphylococcus aureus (SA) UFC/g nas amostras de peixe e camarão, após 24 horas (T=
34 ± 1°C)
Local de coleta
Pão de Açúcar
Penedo

Piaçabuçu

Igreja Nova
São Brás
Piranhas
Traipu

Propriá

Peixe

EC

1,8 x 101

C

SA

0,0

1,4 x 10

1,1 x 10

1,1 x 103

0,0

4

1,0 x 103

1

1,8 x 101

1,7 x 10

2,6 x 10

3

1

3

6,9 x 10

4,0 x 101
8,6 x 10

4

2

1,8 x 10
0,0

1,0 x 10

2

6,6 x 101

Camarão

EC

8,0 x 101

3,6 x 10

1,67 x 10

1,9 x 103

1,1 x 104

2

1,2 x 103
2,0 x 10

1

1

C

SA

0,0

1,8 x 102

2,8 x 101

1,5 x 102

6,67 x 101

8,7 x 102

1,67 x 101

--

--

0,0

1,1 x 102
--

1,3 x 10

2,0 x 10

3,33 x 10

3,8 x 102

1,0 x 10

INC

2,0 x 10

INC

3

1,1 x 102
3

1

--

1

--

1

* Nº UFC = número de unidades formadoras de colônia; - - = não amostrado.
Fonte: Elaborada pelos autores.

-

A presença de Escherichia coli foi observada em grande parte das amostras analisadas,
havendo uma variação de 1,8 x 101 a 8,6 x 104 UFC/g nos peixes e 1,67 x 101 a 1,1 x 104 nos
camarões. Em cinco das amostras de peixe e cinco das amostras de camarão, foi observada
a associação de E. coli com coliformes termotolerantes. Dentro do grupo dos coliformes,
estão os termotolerantes, que podem ser patogênicos e são considerados sinais de condições
higiênico-sanitárias de alimentos.
A legislação brasileira de 2001 (BRASIL, 2001b) não determinava limite de coliformes
°
a 45 C para pescado in natura não consumido cru, mas preconizava limite máximo de 102
UFC/g para pescado salgado. Neste caso, pode-se considerar que todas as amostras de camarão
ficaram abaixo do limite exigido, não demonstrando a presença destas bactérias. De acordo
com Macena et al., (2017), E. coli também faz parte do grupo dos coliformes termotolerantes
e é a principal causa de doenças diarreicas via água e alimentos contaminados.
Com exceção de Pão de Açúcar e Traipu, os peixes (Oreochromis niloticus) in natura
comercializados nas feiras livres/mercados de Penedo, Piaçabuçu, Igreja Nova, São Brás,
Piranhas e Propriá (Figura 4) estavam com valores acima do permitido pela Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que preconiza limite tolerável de 5 x 102 UFC/g de
Escherichia coli/g para pescados (peixes, crustáceos, moluscos) e miúdos (ovas, moela, bexiga
natatória) crus, temperados ou não, frescos, resfriados ou congelados não consumidos crus
(BRASIL, 2019a).
A presença de E. coli ocorreu devido às precárias práticas higiênico-sanitárias durante o
processamento e a comercialização dos peixes, como a provável utilização de água contaminada
para a lavagem do pescado, a exposição do pescado a altas temperaturas em superfícies de
contato inadequadas, como mesas de alvenaria ou revestidas com azulejos, mesas de madeira,
carrinhos de mão, bandejas plásticas e toalhas; a não conservação dos peixes no gelo a partir
de água potável e a falta de higiene pessoal e dos utensílios.
Os camarões in natura comercializados em Piaçabuçu (Litopenaeus vannamei) e
Propriá (Macrobrachium sp.) (Figura 5) também estavam acima dos valores permitidos para

127

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

a mesma categoria específica de pescado mencionada anteriormente, possivelmente pelos
mesmos motivos.
Figura 4 - Culturas de Escherichia coli e coliformes totais isoladas de amostras de peixes
(Oreochromis niloticus) comercializados em feiras livres: Penedo (A) = 10-2 ; Piaçabuçu (B)
= 10-1 ; Igreja Nova (C) = 10-1; São Brás (D) = 10-1 ; Piranhas (E) = 10-1; Propriá (F) = 10-1

Fonte: MATOS; PORTELA-SILVA; XAVIER-SILVA, 2021.

Os camarões (Macrobrachium sp.) salgados secos vendidos em Igreja Nova (Figura 5)
estavam com valores acima do preconizado pela Anvisa, que determina limite não superior a
102 UFC/g de Escherichia coli/g para pescados (peixes, crustáceos, moluscos) e miúdos (ovas,
bexiga natatória) salgados ou salgado secos, anchovados ou em salmoura (BRASIL, 2019a),

128

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

o que também indica condições higiênicas insatisfatórias, devido à contaminação microbiana
de origem fecal e à eventual presença de organismos patogênicos.
Figura 5 - Culturas de Escherichia coli e coliformes totais isoladas de amostras de camarões
comercializados em feiras livres. Litopenaeus vannamei in natura (A = 10-1, Piaçabuçu);
Macrobrachium sp. in natura (B = 10-2, Propriá); Macrobrachium sp.salgado seco (C = 10-3,
Igreja Nova)

Fonte: MATOS; PORTELA-SILVA; XAVIER-SILVA, 2021.

O pescado salgado e seco resulta de um processo que envolve a combinação de
duas técnicas: a salga e a secagem. Por meio delas, há uma redução ou inibição da atividade
microbiológica e enzimática devido à redução da atividade de água (aw) por ação do sal e
finalizada pela secagem. Embora o sal possa dificultar o crescimento microbiano em pescado,
existem microrganismos que podem não ser inibidos em sua presença, desencadeando perda
da qualidade, além de risco à saúde pública.
Microrganismos como Staphylococcus aureus e Escherichia coli vêm sendo identificados
em produtos salgados resistindo a concentrações de até 5% de sal (PINTO et al., 2002;
MOURA et al., 2021). Por outro lado, Niamnuy et al. (2007) relataram a eficácia do
aquecimento do camarão em solução de cloreto de sódio a 4% na redução da carga microbiana.
Possivelmente, o camarão salgado seco foi elaborado de forma artesanal, pré-cozido,
desidratado por exposição solar durante horas ou dias e estocado em temperatura ambiente
e sem embalagem, ou seja, com manipulação e processamento inadequados, sem qualquer
acompanhamento técnico visando às boas práticas higiênico-sanitárias, o que favorece à
contaminação cruzada e, consequentemente, à contaminação microbiana.
Em contrapartida, os camarões comercializados em Penedo (in natura) e Piranhas
(salgado seco) estavam livres de contaminação por Escherichia coli,provavelmente porque o
camarão comercializado em Penedo estava fresco, acondicionado em caixa de isopor com
gelo de boa procedência, e o camarão salgado seco vendido em Piranhas possivelmente estava
com teor de sal suficiente para diminuir a atividade de água e inibir a proliferação da E. coli.
A presença de Staphylococcus aureus, bactériaindicadora de ausência de higiene e de
manipulação inadequada, foi identificada em todas as amostras de peixes comercializados nas
feiras, porém apenas as amostras de Igreja Nova, Piaçabuçu e Piranhas (Figura 6) estavam com
valores acima do limite tolerável pela Anvisa, de103 UFC/g de Estafilococos coagulase positiva/g
para pescados crus, temperados ou não, frescos, resfriados ou congelados (BRASIL, 2019a).

129

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

A coagulase é uma enzima produzida por algumas espécies de Estafilococos,
principalmente Staphylococcus aureus, terceiro agente etiológico responsável por surtos de
doenças transmitidas por alimentos no Brasil entre os anos 2009 e 2019, correspondendo
a 16% dos casos (AMARAL et al., 2021). Acredita-se que concentrações de 105 UFC/g-1
de Staphylococcus sp. enterotogênicos são capazes de produzir toxinas (LIRA et al., 2013;
EVANGELISTA-BARRETO, 2016), causando toxicose. As toxinas são produzidas no
alimento e a sintomatologia ocorre após sua ingestão (CRIBB et al., 2018).
Figura 6 - Culturas de Staphylococcus aureus isoladas de amostras de peixes
(Oreochromisniloticus) comercializados em feiras livres (A = 10-2 – Igreja Nova, B = 10-1 Piranhas, C = 10-1 - Piaçabuçu)

Fonte: MATOS; PORTELA-SILVA; XAVIER-SILVA, 2021.

Sabe-se, ainda, que Estafilococos constituem a maior parte da microbiota natural
da pele de humanos e animais (SCHLEIFER; BELL, 2009; MOURA et al., 2021). A
contaminação por este tipo de bactéria pode ocorrer durante o processo de estocagem e
manipulação dos alimentos, devido à falta de higiene e de boas práticas na manipulação e
preparação deles.
O grupo dos Estafilococos tem capacidade de sobrevivência e multiplicação em uma
concentração de cloreto de sódio de até 15% e produz enterotoxina em concentrações de
sal de até 10%, o que faz com que os alimentos curados também sejam veículos potenciais
de intoxicação (SANTANA et al., 2010; SILVA, 2020). Contudo, houve presença de
Staphylococcus aureus em todas as amostras de camarão salgado seco, com exceção do vendido
em Pão de Açúcar, e em todas as amostras de camarão in natura; porém, todas as amostras
estavam dentro do limite preconizado pela Anvisa, de 104 UFC/g para pescado desidratado e
103 UFC/g para pescado cru, respectivamente (BRASL, 2019a), com exceção do camarão in
natura comercializado em Propriá, que estava com valores acima do permitido pela legislação.
Possivelmente, a presença de S. aureus em pescados salgados secos pode estar ligada
ao efeito conservador limitante do cloreto de sódio; talvez pelo descuido com a limpeza e
desinfecção das superfícies ou, ainda, pelas condições de conservação e estocagem inapropriadas
desses produtos. Silva et al. (2016) ressaltam que mesmo que a maioria das amostras não
estejam acima do preconizado pela legislação, os valores encontrados merecem atenção, pois

130

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

demonstram que houve falhas no processo de produção, o que é indicativo de ausência de
boas práticas de manipulação e pode se tornar um risco potencial para a saúde pública.

Contagem de UFCs e isolamento de fungos filamentosos

Foram obtidas 14 amostras de pescado (peixe e camarão), das 8 cidades visitadas
pela IV Expedição Científica do São Francisco. Em todas as amostras houve crescimento
fúngico, exceto no peixe de Propriá, porque o crescimento bacteriano acelerado impossibilitou
a proliferação e a análise dos fungos. Na Tabela 2, estão quantificadas as Unidades Formadoras
de Colônia (UFCs), por cidade/diluição.
Tabela 2 - Quantificação de Unidades Formadoras de Colônia (UFCs) de bolores UFC/g
nas amostras de peixe e camarão, após 12 dias de incubação (T= 25 ± 2°C)
Local de coleta

Peixe

Camarão

Pão de Açúcar

1,08 x 10

1,03 x 103

Piaçabuçu

3,3 x 102

3,3 x 101

Penedo

Igreja Nova

2

6,6 x 102
6,8 x 10

2

São Brás

1,06 x 103

Traipu

1,42 x 103

Piranhas
Propriá

4,2 x 101
2,9 x 103
--

3,4 x 102

7,51 x 103

0

3,8 x 101

--

* Nº UFCs = número de unidades formadoras de colônia; - - = não amostrado.
Fonte: Elaborada pelos autores.

No total, foram isoladas 42 culturas de fungos filamentosos de todas as cidades
amostradas. O aspecto macroscópico pode ser visualizado nas colônias abaixo (Figura 3).
As amostras obtidas dos municípios de Traipu, Piranhas e Pão de Açúcar foram as mais
abundantes quanto ao número de fungos filamentosos; Propriá, Piaçabuçu e Penedo foram
os municípios com menos isolados encontrados. O substrato peixe com maior presença de
fungos foi o de Traipu e o substrato camarão com maior presença de fungos foi o de Piranhas.
Apesar do camarão comercializado em Piranhas, salgado e seco, não apresentar
contaminação por E. coli, na análise para bolores houve alta incidência. De forma semelhante, o
peixe em Traipu não apresentava valores acima da recomendação de segurança da Anvisa, nem
para E. coli, nem para S. aureus, mas se destacou no número de UFCs de fungos filamentosos.
Possivelmente, isso está associado às condições inadequadas de armazenamento, exposto a
altas temperaturas, sem higiene adequada das mãos e dos utensílios.
Do total de isolados (42), foram purificadas 15 culturas. Destas, foram identificados
dois gêneros e 9 isolados ainda aguardam identificação. Dentre os fungos identificados, os
mais frequentes foram do gênero Penicilliumsp. (4 isolados, 66,6%) e Aspergillussp. (2 isolados,
33,3%). Todos os isolados serão preservados, sob refrigeração, para posterior identificação da
espécie, por taxonomista da Micoteca (URM/UFPE), pois, devido à pandemia da Covid-19,
a organização ainda não estava recebendo amostras de outras instituições para identificar.

131

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 3- Isolados de fungos filamentosos do pescado das cidades visitadas: Pão de Açúcar
(A); Penedo (B); Piaçabuçu (C); São Brás (D); Igreja Nova (E); Propriá (F); Piranhas (em
crescimento) (G); Traipu (em crescimento) (H)

Fonte: MATOS; PORTELA-SILVA; XAVIER-SILVA, 2021.

Embora a legislação em vigor não especifique o número máximo de UFCs de fungos
filamentosos (bolores) e leveduras no pescado e em outras carnes, e nem a taxa de metabólitos
produzidos por eles, pode-se considerar como referência o padrão permitido para produtos
alimentícios com condições de atividade de água similares, que é de, no máximo, 104 UFC/g
(BRASIL, 2001; BRASIL, 2019).
Deste modo, os resultados encontrados neste trabalho demonstram níveis de
contaminação aceitáveis; porém, os municípios de Traipu, Piranhas e Pão de Açúcar necessitam
de atenção especial, por estarem próximos ao limite recomendado pela legislação.
De forma semelhante à descrita, em estudos realizados com amostras de camarão
Macrobrachium amazonicum em Santarém (PA), os gêneros de fungos filamentosos mais
frequentes foram Aspergillus Micheli (29%) e Penicillium Link (22%); e as amostras oriundas
de feiras apresentaram maior percentual de contaminação (58%) em relação às provenientes
dos supermercados (42%) (OLIVEIRA et al., 2019).
Estes gêneros, e ainda o Fusarium, são os principais responsáveis pela síntese de toxinas.
Dentre as principais micotoxinas, toxinas produzidas por fungos, destacam-se: aflatoxina,
ocratoxina e fumonisina (SUN et al., 2015; MUNAWAR et al., 2019), todas com potencial
efeito hepatotóxico, carcinogênico, nefrotóxico e teratogênico, em animais e humanos.
A presença de microrganismos no pescado é preocupante, devido às toxinas
produzidas, que podem causar diminuição do crescimento, queda na alimentação e aumentar a
suscetibilidade a doenças, além do efeito de bioacumulação dessas toxinas no tecido muscular,
podendo acarretar contaminação humana indireta (ATAYDE et al., 2014). Daí, surge a

132

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

demanda pela manutenção da qualidade e da inocuidade do pescado, tendo em vista um
alimento seguro, havendo a necessidade de cuidados em todas as etapas da cadeia produtiva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Seguindo a Instrução Normativa nº 60, de 23 de dezembro de 2019, que estabelece as
listas de padrões microbiológicos para alimentos, as análises microbiológicas deste estudo sugerem
que apenas as feiras livres que comercializam pescado em Pão de Açúcar e Traipu estão dentro
dos valores estabelecidos pela legislação, quanto ao número de UFCs de bactérias mesófilas.
A presença de Escherichia coli e Staphylococcus aureus nas amostras de peixes e camarões in
natura e de Escherichia coli em camarão salgado e seco está associada a várias condições, como:
ausência de boas práticas de manipulação do pescado durante o processamento, exposição e
estocagem; deficiência na higiene pessoal; saneamento básico precário e qualidade da água
inapropriada para a lavagem do pescado e das mãos.
Os gêneros de fungos presentes nas amostras, Aspergillus Micheli e Penicillium Link,
também alertam para a necessidade de cuidados e boas práticas de manipulação do pescado,
pois têm potencial conhecido como produtores de micotoxinas.
Embora produtos salgados secos tenham a atividade de água reduzida de forma
a inibir ou diminuir o crescimento microbiano, alguns microrganismos podem resistir,
principalmente quando o produto é submetido a condições precárias de higiene, possibilitando
a contaminação por microrganismos patogênicos, que podem produzir e liberar toxinas que
causam intoxicação alimentar ao consumidor. A simples utilização de gelo, a partir de água
potável, para a conservação do pescado poderia assegurar sua inocuidade, assim como a
exposição em instalações pesqueiras adequadas.
Levando em consideração os resultados obtidos no presente trabalho, faz-se necessária
uma fiscalização eficiente, a fim de orientar e tomar as medidas cabíveis para evitar a
contaminação do alimento, bem como há necessidade de ofertar cursos ou palestras de
capacitação de boas práticas de manipulação do pescado para feirantes.

REFERÊNCIAS
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133

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simultaneous determination of multiple mycotoxins in fresh fish and dried seafoods. Journal
of Chromatography, v.1387, n.1, p.42-48, 2015.

135

CAPÍTULO 7 - MONITORAMENTO ACÚSTICO
PASSIVO (MAP) DO RIO SÃO FRANCISCO
Alfredo Borie-Mojica1
Resumo: A acústica passiva tornou-se uma ferramenta eficiente para detectar sons biológicos
e antropogênicos na região do Baixo São Francisco, onde foi, predominante, a produção
de sons característicos de pelo menos três tipos de crustáceos e 18 tipos de peixes em sete
locais de coleta, de Piranhas à foz. Os sons de peixes ocorreram praticamente em todas
as localidades e foram compostos por pulsos individuais ou trem de pulsos com média de
duração e número entre 0,4 segundos e 10,8 pulsos, e pico de frequência em 397,5 Hz, sendo
raramente detectados sons longos, o que caracterizaria indivíduos machos sexualmente
maduros, não sendo entradas agregações reprodutivas. Foi detectada a ocorrência de estalos de
camarões (espécies comumente encontradas em ambientes estuarinos e marinhos) em todas
as coletas a partir de Porto Real do Colégio, incluindo a foz, onde houve maior ocorrência,
podendo indicar ampla tolerância e sobrevivência em água doce ou baixa salinidade. Com isto,
recomendam-se mais esforços de coleta utilizando, de forma complementar, a acústica passiva
como sistema de monitoramento, junto com a continuidade de ações locais de repovoamento
de espécies nativas ao longo do Baixo São Francisco.
Palavras-chave: Ictiofauna. Comportamento. Reprodução. Camarão.

INTRODUÇÃO
Monitorar alterações dos ambientes e seus habitantes é uma necessidade crítica de
gestão e um desafio tecnológico considerável. Em muitos habitats aquáticos, o monitoramento
a médio e longo prazos é uma tarefa desafiadora. Neste sentido, o método acústico passivo pode
ser um meio eficaz para avaliar as atividades biológica (produzida por organismos aquáticos)
e antrópica (produzida através de diferentes embarcações) em locais onde o monitoramento
contínuo por métodos de pesquisas tradicionais é impraticável.
Diversos organismos aquáticos são capazes de emitir sons para a comunicação
associados a diferentes tipos de comportamentos (TYACK, 1998). O conjunto destes sons
permite definir a paisagem acústica de muitos ambientes, indicando o grau de diversidade de
espécies e o estado de conservação do ambiente, além de ser útil para avaliar a distribuição
dos organismos (PIJANOWSKI et al., 2011; FARINA; PIERETTI, 2012).
Para estudar a paisagem acústica e os sons que a compõem, recentemente, vem sendo
utilizado o método acústico passivo, que se baseia em ouvir os sons produzidos por organismos
sonoros, possibilitando a utilização dos sons como verdadeiros marcadores naturais das
espécies, uma vez que são espécie-específicos.
O monitoramento acústico subaquático apresenta uma abordagem viável, não
invasiva e amplamente inexplorada para monitorar ecossistemas de água doce, fornecendo
informações sobre os três principais elementos ecológicos dos ambientes aquáticos: (1) peixes,
(2) macroinvertebrados e (3) processos físico-químicos – bem como fornece dados sobre os
níveis de ruído antropogênico (LINKE et al., 2018).
1 Universidade Federal de Alagoas, UE Penedo. alfredo.mojica@penedo.ufal.br.

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

A importância ecológica da paisagem acústica em água doce está apenas no início do
processo de ser reconhecida pela sociedade. Os cientistas estão começando a aplicar os métodos
de Monitoramento Acústico Passivo (MAP), bem estabelecidos nos sistemas marinhos,
aos sistemas de água doce, para mapear padrões espaciais e temporais de comportamentos
associados aos sons biológicos, bem como os impactos do ruído sobre eles (ROUNTREE
et al., 2019).
A acústica passiva também provê benefícios importantes para a investigação científica,
já que é uma ferramenta observacional não invasiva e não destrutiva, com capacidade de
monitoramento remoto permanente ou de longa duração, e fornece importantes informações
sobre padrões diários e sazonais (ROUNTREE et al., 2006).
O Baixo São Francisco vem enfrentando problemas ambientais com fortes
consequências sociais e econômicas (SOUZA; LEITÃO, 2000), causadas por diversos
fatores, dentre eles: diminuição do seu volume e velocidade, contaminação e sobrepesca
(MARTINS et al., 2011; ZELLHUBER et al., 2016), afetando a biodiversidade de peixes
(GOMES; BRITO, 2017; SOARES et al., 2020) e crustáceos (MONTENEGRO et al.,
2001), sua distribuição e a atividade pesqueira, com a diminuição e até a extinção de algumas
espécies comerciais.
No Brasil, pesquisas da passagem acústica utilizando a ferramenta acústica passiva
em águas continentais são recentes e escassas. Assim, o objetivo deste trabalho, pioneiro na
região, foi realizar o Monitoramento Acústico Passivo para avaliar a paisagem acústica e a
produção de sons biológicos (principalmente de peixes e crustáceos) na região do Baixo São
Francisco. A relação entre o som e os parâmetros reprodutivos tem-se mostrado positiva para
algumas espécies de peixes. Espécies de peixes neotropicais em água doce, como é o caso
do curimatã-pacu (Prochilodontidae), podem produzir sons no ambiente natural durante o
período reprodutivo (BORIE et al., 2019; SATO; GODINHO, 2003).

Monitoramento Acústico Passivo (MAP) no Rio São Francisco

Os sons subaquáticos foram coletados durante a III e a IV Expedições Científicas
no Baixo São Francisco, realizadas entre 30 de novembro e 10 de dezembro de 2020 e 31 de
outubro a 10 de novembro de 2021, respectivamente. Os locais amostrados foram: Piranhas,
Pão de Açúcar, Porto Real do Colégio, Penedo (confluência com o Rio Boacica), Piaçabuçu
(confluência com o Rio Piauí) e foz.
Os dados acústicos foram obtidos utilizando um gravador subaquático do modelo
“SoundTrap (ST) 300” (Ocean Instrument, New Zealand). O STD é destinado para uso
geral de medições de ruído aquáticos com uma gama de 20 Hz a 60 kHz, com frequência de
amostragem 48 kHz e 16 bits. Este sistema permitiu avaliar os padrões sonoros biológicos
e antrópicos sazonais e temporais, juntamente com as temperaturas que ocorrem nos locais
durante o período de estudo.
O ST foi fixado a um cabo de polietileno e ancorado no fundo, utilizando uma garateia;
foram utilizadas boias para a armação do equipamento no fundo (Figura 1). As gravações
ocorreram em áreas com profundidades de 1 a 6 metros e foram realizadas do final da tarde
até o início da manhã do dia seguinte (aproximadamente entre 17h e 06h30), devido à maior
ocorrência de sinais acústicos nesse horário.
Após o recolhimento do hidrofone (ST) em cada ponto, os dados foram descarregados
em um computador portátil, onde foi feita uma avaliação utilizando programa de áudio

137

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Audacity® (www.audacityteam.org) e determinado o tempo inicial e final de cada evento
sonoro passível de ser ouvido, assim como a alta e a baixa frequências.
Os diferentes tipos de sons foram detectados e selecionados manualmente no Audacity,
através do espectrograma em escala logarítmica, frequência mínima e máxima de 100 e 48000
Hz, respectivamente, com janela Hann de tamanho 2048.
O programa Raven Pro 1.6 (Cornell Lab) foi utilizado para avaliar os tipos de sons
detectados, individualizados e selecionados, sendo efetuados cortes de diferentes comprimentos
nas gravações para logo serem gerados oscilogramas e espectrogramas. Os sons também foram
filtrados seguindo as bandas de frequência que apresentavam para as análises de parâmetros
acústicos, como: Frequência mínima (Hz), Frequência máxima (Hz), Pico da frequência
(Hz), Duração do som (seg.), Número de pulsos por som e Taxa de pulsação (pulsos/seg.).
O programa Raven Pro 1.6 (Cornell Lab) foi utilizado para avaliar os tipos de sons
detectados onde foram efetuados cortes de diferentes comprimentos (duração) nas gravações
para serem gerados oscilograma, espectrogramas e espectros de potência.
Figura 1 - Sistema de gravação autônomo (A); instalação da flutuação e sinalização (B);
gravador autônomo SoundTrap 300

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

Sons gravados em cativeiro

Com o objetivo de validar os sons detectados na natureza, o método acústico passivo
foi também utilizado, via SoundTrap, bem como um sistema de gravação portátil composto
de um hidrofone científico AS-1, junto com um pré-amplificador PA-4, ambos da Aquarian
Áudio, acoplado a um gravador digital Zoom H5 (Figura 2). Este sistema foi utilizado para
avaliar a produção de sons do bagre-branco (Cathorops agassizii) em aquário. As gravações
ocorreram a bordo da embarcação, na região de Piaçabuçu, mesmo local de captura dos
peixes por pescadores profissionais. Isto permitirá avaliar a ocorrência e a distribuição desta
espécie no ambiente natural.

138

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 2 - Sistema de gravação portátil utilizado para as gravações a bordo da embarcação
e no ambiente natural

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

Também foram realizados dois experimentos independentes com duas espécies
representativas do Baixo São Francisco, sendo elas o camarão-canela (Macrobrachium
acanthurus) e o peixe curimatâ-pacu (Prochilodus argenteus).
Para avaliar a produção de sons durante a atividade alimentar do camarão-canela em
condições controladas, foram coletados exemplares provenientes de ambiente natural, no Baixo
São Francisco, na região de Penedo (Alagoas), por pescadores artesanais. Após a captura, os
camarões foram transferidos ao Laboratório de Carcinologia e Carcinicultura da Universidade
Federal de Alagoas, Unidade Educacional Penedo. Para a realização dos experimentos, foram
selecionados apenas animais sem nenhum dano aparente. Após aclimatação, foram escolhidos
6 indivíduos adultos para analisar a produção de sons durante a atividade alimentar.
Os indivíduos selecionados permaneceram dois dias em jejum alimentar. As gravações
e observações ocorreram em um aquário de vidro autoadesivo preto, para evitar a interferência
de movimentação ou de luz ambiente, com uma luz fluorescente branca para ocasionar
melhor visualização dos espécimes (Figura 3). As gravações foram realizadas utilizando um
hidrofone SoundTrap 300. A taxa de amostragem das gravações foi de 96 kHz. Durante as
gravações, a aeração foi retirada, para evitar qualquer tipo de ruído que viesse a interferir nas
análises. Para as gravações, foram ofertados 5 pellets de tamanho para cada camarão e, assim,
visualizar e individualizar a captura do pellet no momento da alimentação.
Após o recolhimento dos gravadores autônomos (SoundTrap), os dados foram
transferidos para um computador, utilizando programa de áudio Audacity, que também foi
empregado para selecionar partes dos áudios para posteriores análises. Para uma avaliação

139

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

da distribuição das bandas de frequência no tempo e da energia acústica, foram elaborados
espectrogramas e espectros utilizando o programa acústico RAVEN PRO 1.4. A caracterização
individual de cada sinal é realizada por meio de parâmetros acústicos medidos utilizando
oscilogramas e espectrogramas.
Figura 3 - Dimensões do aquário e posicionamento do hidrofone SoundTrap (ST) para
as gravações durante a atividade alimentar do camarão-canela (Macrobrachium acanthurus)

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

A avaliação da produção de sons durante o processo de reprodução induzida do
curimatã-pacu (Prochilodus argenteus) foi realizada nas instalações do Centro de Referência
em Aquicultura e Recursos Pesqueiros do São Francisco (Ceraqua/SF), com gravações dentro
e fora da água (no momento da extrusão), antes e depois da indução reprodutiva, durante
24 horas contínuas.
Para a gravação dentro d’água, usou-se um hidrofone (SoundTrap 300) e para a
captura do som fora d’água foi usado um gravador digital. O hidrofone foi instalado em
tanques de alvenaria (4m x 1m), com profundidade de 60 cm (Figura 4).

140

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 4 - Hidrofone instalado no tanque de alvenaria do Centro de Referência em
Aquicultura e Recursos Pesqueiros do São Francisco (Ceraqua/SF)

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

Mecanismos sonoros de peixes do Rio São Francisco

Foi avaliado o mecanismo sonoro de alguns peixes capturados por pescadores
profissionais que fazem parte das Expedições Científicas e que produziram algum tipo
de som durante sua captura, como foi o caso das espécies: piau-três-pintas (Megaleporinus
obtusidens), bagre-branco (Cathorops agassizii), pirambeba (Serrasalmus brandtii) e piranhaverdadeira (Pygocentrus piraya).
Os resultados ressaltam a importância da utilização da acústica passiva como
ferramenta observacional, não invasiva e não destrutiva como sistema de monitoramento da
fauna aquática na região do Baixo São Francisco.
As análises de dados acústicos coletados na região do Baixo São Francisco vêm
permitindo avaliar e monitorar, até o momento, a produção de 21 sons biológicos (18 peixes
e 3 crustáceos) e 3 tipos de ruídos de embarcações onde, na região de Piaçabuçu, ainda
são encontradas características acústicas similares a ambientes estuarinos, consequência da
diminuição da vazão e aumento da cunha salina. Também vem sendo possível acompanhar
as ocorrências predominantes de sons característicos de crustáceos, provavelmente emitidos
por camarões de importância comercial para as comunidades ribeirinhas e para a pesca
artesanal, como é o caso do camarão-canela (Macrobrachium acanthurus), sendo detectados,
principalmente, em períodos crepusculares. Assim, também se esperam novos registros
acústicos, com a continuidade do monitoramento. Os sons biológicos no Baixo São Francisco
foram compostos, principalmente, por cliques e estalos de camarões, com padrões similares
aos encontrados durante a II Expedição Científica, realizada no final de 2019 (BORIE, 2020).
Nas áreas de confluência do Rio São Francisco com o Rio Boacica (Figura 5), assim
como na foz (Figura 6), também foi possível detectar sons característicos de crustáceos com
frequências entre 4 kHz e 7 kHz, e diferentes tipos de peixes com frequências menores a 2
kHz, sendo, na foz, sons de peixes com frequências menores a 1 kHz. Também foi possível
detectar os sons de outras espécies de peixes com diferentes padrões acústicos de frequência
e variações temporais do trem de pulsos em diversas localidades (Figura 7).

141

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 5 - Sons de peixes e crustáceos detectados na confluência dos rios Boacica e São
Francisco, próximo à cidade de Penedo

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

Figura 6 - Diferentes tipos de sons (n=7) característicos de peixes detectados na foz do Rio
São Francisco, coletados durante a IV Expedição Científica, em 2021

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

142

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 7 - Sons individuais característicos de peixes detectados nas regiões do Baixo
São Francisco

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

Foi observada uma similaridade nas frequências fundamentais (entre 0,10 e 1 kHz)
e frequência máxima entre um tipo de som detectado no ambiente natural na região de
Piaçabuçu e o som do bagre (Cathorops agassizii) gravado em ambiente controlado (Figura 8).
Figura 8 - Espectrogramas acústicos gravados em ambiente natural (A); som do bagre
(Cathorops agassizii) gravado em ambiente controlado na região de Piaçabuçu (B)

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

143

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Sabe-se que muitas espécies de peixes de água doce das famílias Prochilodontidae e
Curimatidae podem formar grandes agregações reprodutivas, em que os machos produzem
sons para atrair as fêmeas, iniciando o processo de desova. Sons estes que, algumas vezes,
podem ser ouvidos fora da água. Durante as expedições científicas no Baixo São Francisco,
realizadas nas campanhas (2019, 2020 e 2021), não foi possível localizar tais agregações, e sim
sons individuais de alguns poucos organismos (BORIE-MOJICA, 2019), principalmente
na região de Piranhas (Figura 9). Estes sons apresentaram uma banda de frequência média
entre 1132 Hz e 244 Hz (Tabela 1).
Figura 9 - Diferentes tipos de sons característicos de peixes na região de Piranhas. Windows
size 2048

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

Tabela 1 - Parâmetros acústicos dos sons (n=25) característicos de peixes detectados na
localidade de Piranhas. DP = desvio padrão
Frequência

Média
DP

Frequência

mínima (Hz)

máxima (Hz)

244.7

1132.0

38.2

127.7

Pico da

frequência
(Hz)

397.5
98.6

Duração do

Nº de pulsos/

Taxa de pulsação

0.355

10.8

30.8

som (seg.)
0.200

som

10.0

(pulsos/seg.)
16.5

Fonte: Elaborada pelo autor.

Os sons, em algumas espécies da família Prochilodontidae, como P. magdalenae, no Rio
Magdalena, na Colômbia (MUÑOZ-DUQUE et al., 2021), e P. nigricans, no Rio Madeira
(BORIE et al., 2019), podem estar compostos por pulsos individuais ou trem de pulsos,
com similares características das encontradas no Baixo São Francisco. Pulsos individuais
foram comumente encontrados em todos os pontos de coleta. Sons longos, compostos por
vários trens de pulsos, foram raramente detectados nas diferentes localidades. A dispersão
logarítmica do número de pulsos e pulsos por segundo pode indicar indivíduos em diferentes
estágios reprodutivos (Figura 10).

144

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 10 - Relação logarítmica do número de pulsos e pulsos/segundo de sons característicos
do gênero Prochilodus

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

O fato de não detectar essas agregações pode estar relacionado à falta de condições
ambientais favoráveis ao processo reprodutivo, o que, possivelmente, levou a um declínio da
população destas espécies em particular. Segundo Arantes et al. (2010), modificação de porções
de rios pode ter um impacto negativo no processo reprodutivo de peixes migradores de água
doce. A não detecção de agregações de peixes, relacionadas com aspectos reprodutivos, pode
indicar diminuição das populações e falta de habitat para processos reprodutivos. Assim, ações
de peixamento participativo com pescadores e manutenção de vazão ao máximo nível possível
durante períodos reprodutivos (defeso de 1º de novembro a 28 de fevereiro) são importantes.
Uma das características secundárias utilizadas para a seleção de machos de curimatãpacu aptos para o processo de reprodução induzida e extrusão são os sons produzidos. Isto é
realizado durante o período reprodutivo da espécie nas instalações do Ceraqua, para a ação
de peixamento na região.
Os resultados da avaliação da produção de sons durante o processo de indução
reprodutiva indicam que machos de curimatã-pacu produzem sons no formato de trem
de pulsos, com características similares a alguns sons encontradas no ambiente natural
do Baixo São Francisco e no Estado de Minas Gerais, também em ambiente controlado
(SMITH et al., 2018).
Observou-se que, após indução hormonal e no processo de extrusão, os machos
podem produzir uma maior quantidade de sons (Figura 11), sendo estes de maior duração,
consequentemente, há um maior número de pulsos, com variação temporal no intervalo entre
pulsos e frequências menores a 1000 (Figura 12), durante o processo de extrusão para obtenção
de gametas (Figura 13). Esta complexidade acústica pode estar diretamente relacionada
ao estado de maturação sexual por parte dos machos, o que pode permitir a utilização dos
sons emitidos como característica secundária de maturação sexual, além da possibilidade de

145

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

comparar os sons emitidos em ambientes controlados com os sons detectados na natureza,
indicando a ocorrência de alguns exemplares desta espécie.
Figura 11 - Sons na água antes e após a indução reprodutiva (setas): oscilograma (A) e
espectrograma (B)

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

Figura 12 - Oscilograma e espectrograma de sons de um exemplar de P. argenteus dentro da
água após o processo de indução reprodutiva hormonal

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

146

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 13 - Oscilograma e espectrograma maximizado de sons produzidos por machos de
curimatã-pacu compostos por trens de pulso gravados durante a extrusão reprodutiva

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

O camarão-canela (Macrobrachium acanthurus) é um animal encontrado na Bacia
do Rio São Francisco, com relevante interesse comercial, devido ao porte e à boa aceitação
no mercado (NEW, 1995). Segundo Coelho e Lima (2003), o camarão-canela é uma das
espécies mais abundantes no Rio São Francisco, mas sua exploração ainda baseia-se na pesca
artesanal, praticada por ribeirinhos e servindo para fins de subsistência destas comunidades.
Resultados preliminares da produção de sons durante atividade alimentar do camarãocanela em cativeiro mostram padrões similares aos encontrados no ambiente natural. A
produção de sons característicos de crustáceos, como os camarões, fez-se presente na maioria
das localidades (Figura 14), assim como ocorreu no ano anterior (BORIE-MOJICA, 2019).
O aumento na quantidade de macrófitas pode estar favorecendo às populações de camarões
encontradas na região.
Figura 14 - Som característico de camarão detectado na região de Pão de Açúcar. a.
oscilograma e espectrograma (abaixo). b. maximização dos três últimos pulsos. Windows
size 512

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

147

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Como era esperado, a área da foz apresenta características acústicas similares às
encontradas em outras regiões estuarinas do Nordeste brasileiro (BORIE-MOJICA, no prelo),
com som de estalos, principalmente produzidos por crustáceos. Na foz, foram detectados
sons característicos do camarão-de-estalo, provavelmente do gênero Alpheus (Figura 15).
Em água doce, os sons biológicos utilizaram frequências que variavam de 3 kHz
a cerca de 14 kHz (GILES et al., 2005). Camarões do gênero Alpheus produzem sons de
estalos com uma ampla faixa de frequências entre ~ 1 kHz e 15 kHz (SCHMITZ, 2002;
COQUEREAU et al., 2016). O estalo do camarão da família Alpheidae produz o principal
componente acústico com frequências acima de 2 kHz e intensidades mais altas no início e
no fim da noite, no ambiente marinho (LAMMERS; MUNGER, 2016).
Os sons característicos dos camarões-de-estalo, próprios de ambientes estuarinos,
apresentaram ampla banda de frequência entre 1.2 kHz e 12.4 kHz e pico de frequência
médio de 4,1 kHz. Já a espécie de camarão que foi predominante na região do Baixo São
Francisco emitiu cliques com banda de frequência entre 4,5 kHz e 6,8 kHz e pico de 5,5
kHz, em média, com maior duração (Tabela 2).
Figura 15 - Sons característicos de camarão-de-estalo, provavelmente do gênero Alpheus,
detectados na região da foz do Rio São Francisco

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

Tabela 2 - Parâmetros acústicos dos sons característicos de camarões detectados no Baixo
São Francisco. DP=Desvio padrão
Frequência

Camarão-deestalo

Camarão I

mínima (Hz)

máxima (Hz)

Frequência

Pico da frequência

Duração do som

Média

1256.4

12435.8

4171.9

4.7

DP

473.4

2523.1

1445.9

1.7

Média

4549.8

6852.2

5540.6

16.9

DP

104.8

63.0

337.9

0.5

(Hz)

(mseg.)

Fonte: Elaborada pelo autor.

Inesperadamente, também foram detectados sons característicos do camarão-de-estalo
a partir da localidade de Porto Real do Colégio. Este tipo de som é comumente encontrado
em ambientes estuarinos. Embora exista uma única espécie registrada em água doce, Alpheus
cyanoteles, encontrada na Malásia (YEO; NG, 1996), outras espécies de camarão-de-estalo

148

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

podem sobreviver em baixas salinidades, mesmo sendo mais abundantes em ambientes
marinhos e estuarinos. Assim, ainda são necessários esforços de coleta de dados sobre
as espécies de camarões; com isso, pode-se inferir sobre a possível origem dos sons
identificados na região.
Na avaliação da produção de sons durante atividade alimentar de Macrobrachium
acanthurus, após as gravações e a posterior identificação e seleção dos sons de alimentação, foi
possível detectar o som durante a captura do alimento (ração peletizada) e o som de diversos
cliques, com diferentes níveis de amplitude acústica (kU), consequentes da alimentação/
mastigação da ração, com duração (tempo de consumo do alimento) aproximada de 2
minutos e 50 segundos (Figura 16A). Cada clique apresentou uma duração aproximada de
0,15 segundos (Figura 16B). A banda de frequência dos cliques foi de 2 kHz a 7 kHz, sendo
a mínima e a máxima frequências, respectivamente (Figura 16C), e o pico da frequência ou
frequência fundamental foi de aproximadamente 2,5 kHz (Figuras 16C e 16D).
Figura 16 - Sons do camarão-canela. (A) oscilograma dos cliques emitidos durante
a alimentação; (B) oscilograma maximizado de um único clique; (C) espectrograma do
clique; (D) espectro de energia do clique, indicando o pico da frequência

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

149

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Mecanismos sonoros de peixes do Rio São Francisco

Em campo, foram avaliados os mecanismos sonoros em peixes, o que permite inferir
sobre a produção de sons de quatro espécies: piau-três-pintas (Megaleporinus obtisidens), que
apresenta músculo sonoro bilateral associado à primeira costela (Figura 17A), provavelmente
utilizado durante o período reprodutivo, sendo comum em Characiformes; bagre-branco
(Cathorops agassizii), em que se observou músculo sonoro associado à região posterior da
bexiga natatória; pirambeba (Serrasalmus brandtii) e piranha-verdadeira (Pygocentrus piraya),
com músculos sonoros similares aos comumente encontrados na família Serrasalmidae.
Figura 17 - Músculo sonoro de peixes do Rio São Francisco: (A) piau-três-pintas
(Megaleporinus obtisidens); (B) bagre-branco (Cathorops agassizii); (C) pirambeba
(Serrasalmus brandtii); (D) piranha-verdadeira (Pygocentrus piraya)

Fonte: BORIE-MOJICA, 2021.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os padrões acústicos característicos de crustáceos, principalmente camarões,
permaneceram similares aos de anos anteriores nas localidades avaliadas, com sons sendo
produzidos com maior energia acústica no início e no fim da noite.
Apesar de serem detectados sons de diversas espécies de crustáceos e peixes, não foram
encontradas agregações reprodutivas características de espécies da família Prochilodontidae,
e sim ocorrências de sons curtos e esporádicos. Foi observada uma maior produção de sons
longos (com maior número de pulso) após a indução reprodutiva durante o experimento com
o curimatã-pacu, o que indica que são exemplares maduros e preparados para a desova. Este
tipo de som não foi detectado no ambiente natural, o que pode demonstrar que as espécies
não estão alcançando a maturação na natureza, comprometendo as populações.

150

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Algumas localidades apresentaram maior diversidade de sons, como foi o caso da
confluência do Rio Boacica com a foz do Rio São Francisco, com 8 e 7 sons, respectivamente.
Sugere-se a realização de mais esforços utilizando a acústica passiva, que irão, também,
permitir a localização e o mapeamento de áreas prioritárias de conservação, essenciais para
as diversas espécies do Baixo São Francisco.
A metodologia acústica passiva utilizada durante as Expedições Científicas no
Baixo São Francisco pode ser replicada nas regiões do Submédio, Médio e Alto, para avaliar
ambientes, ocorrência de diversas espécies e agregações reprodutivas.

REFERÊNCIAS
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MUÑOZ-DUQUE, S. et al. Bioacoustic characterization of mating calls of a freshwater fish
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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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152

CAPÍTULO 8 - ATIVIDADE PESQUEIRA NO BAIXO
SÃO FRANCISCO: III E IV EXPEDIÇÕES
Vanildo Souza de Oliveira1
Alex Souza Lira2

Rodrigo Victor Marinho de Sá3
Resumo: Esta pesquisa aborda os resultados das duas últimas Expedições Científicas no
Baixo São Francisco, números III e IV, em 2020 e 2021. A III Expedição foi realizada
com a vazão do rio em torno de 2.500 m3.s-1, portanto, com características bem diferentes
das condições normais. A IV Expedição, em função da retenção de água pela hidroelétrica
de Xingó, foi realizada com vazão média menor, com 1.400 m3.s-1; no entanto, apresentou
maior abundância de peixes. Ações antrópicas foram observadas em ambas as expedições,
com graves danos à atividade pesqueira. Na III Expedição, observamos que 63% das capturas
são compostas apenas por duas espécies de peixes de baixo valor econômico: pirambeba e
pacu; assim como na IV, com 53%. A diversidade de espécies de peixes registradas na IV foi
maior do que na III Expedição. Também foi observada uma maior quantidade de espécies
de cultivo nos mercados públicos, tais como tilápia e tambaqui, e poucas espécies nativas. A
análise com a ecossonda mostrou a importância dessas informações no tocante à segurança
da navegação, além de registrar as diferenças entre as atividades diurnas e noturnas dos peixes.
Os perfis mostraram as diferenças topográficas entre a cidade de Piranhas, com maiores
profundidades e velocidade da água, e Piaçabuçu, já na planície litorânea, mais rasa e de
menor velocidade da água. Por fim, sugerem-se ações para as instituições de gestão pública do
Baixo São Francisco, no sentido de melhorar as condições ambientais, a atividade pesqueira
e a qualidade de vida dos pescadores.
Palavras-chave: Pescadores. Pesca Artesanal. Ictiofauna. Redes de Emalhar.

INTRODUÇÃO
O Baixo São Francisco abrange uma área da Bacia Hidrográfica do São Francisco
(BHSF) que se estende do município de Paulo Afonso (BA) até a sua foz, entre Alagoas
e Sergipe. Trata-se de uma área altamente povoada e fortemente impactada por barragens,
poluição e remoção da cobertura vegetal nativa. Alguns dos municípios inseridos neste trecho
da BHSF exibem, hoje, um triste quadro socioeconômico, com os piores IDHs do Brasil
(NOGUEIRA; SÁ, 2015).
A atividade de pesca tem forte componente social no Baixo São Francisco, Nordeste
do Brasil. Por outro lado, a região vem sofrendo com a interrupção das variações naturais
do nível d’água e a mudança do comportamento migratório dos peixes, promovidas por
hidrelétricas, que criaram barreiras e alteraram o sistema hídrico do rio, influenciando na
“piracema” (SATO; GODINHO, 2003). Entretanto, estudos específicos que avaliam esse
impacto ainda são escassos.
1 Professor doutor. Departamento de Pesca e Aquicultura (Depaq), Universidade Federal Rural de Pernambuco.
2 Mestre em Recursos Pesqueiros.
3 Estudante de Engenharia de Pesca. Departamento de Pesca e Aquicultura (Depaq), Universidade Federal
Rural de Pernambuco.

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Neste sentido, as Expedições Científicas anuais assumem grande importância no
fornecimento de dados sobre as condições da ictiofauna e qualidade da água, bem como dos
aspectos socioeconômicos e ambientais das cidades ribeirinhas do Baixo São Francisco. Neste
trabalho, são avaliados os resultados da III e da IV Expedições, realizadas em 2020 e 2021.
A III Expedição foi realizada com a vazão do rio em torno de 2.500 m3.s-1, portanto,
com características bem diferentes das condições normais, principalmente nos últimos
seis anos. Foram feitas entrevistas com os presidentes de colônias de pescadores, com o
objetivo de avaliar a situação da pesca nessas condições, assim como os impactos causados
pela pandemia no que se refere à comercialização do pescado e à geração de renda para os
pescadores nesse período.
A IV Expedição, em função da retenção do volume do rio, foi realizada com vazão
média menor, com 1.400 m3.s-1.No entanto, houve maior abundância de peixes, devido aos
bons aportes fluviais no ano anterior. Foi possível fazer uma análise mais detalhada sobre a
distribuição das principais espécies capturadas, ainda que com informações de coletas pontuais,
bem como das espécies predominantes. Ao final, foram sugeridas ações para os gestores, que
podem melhorar, principalmente, a atividade pesqueira no Baixo São Francisco.

Características da pesca na III Expedição Científica no Baixo São
Francisco (2020)

Na captura da ictiofauna, foram usadas redes de emalhar com comprimento de malhas
de 35 mm, 40 mm, 45 mm e 50 mm (entre nós), com fios de 30 mm e 35 mm de diâmetro. Os
lances foram realizados no período da tarde e o recolhimento, ao amanhecer. Para obtenção
da batimetria, foi utilizada uma ecossonda multifrequência de 50 kHz e 200kHz.
De uma forma geral, durante o trajeto, foram observados impactos antropogênicos, tais
como assoreamento das margens, atualmente agravado pelo grande volume de água (Figura 1).
Figura 1 - Áreas assoreadas nas margens do Rio São Francisco

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

154

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

As áreas destinadas ao lazer também foram afetadas: uma vez que o volume de água
aumentou, os bares e comércios construídos às margens de um rio com menor volume, ao
longo do tempo, foram sendo inviabilizados em alguns lugares (Figura 2).
Figura 2 - Áreas de comércio e turismo atingidas pela água.

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

A atividade pesqueira foi afetada em algumas cidades, quando do fechamento do
comércio, no auge da pandemia da Covid-19. Nem todos os pescadores receberam o Auxílio
Emergencial do Governo Federal, tendo dificuldades para viabilizar a comercialização do
pescado. Todos viram com bons olhos o aumento do volume do rio, pois possibilitou maior
área para a reprodução dos peixes; contudo, alguns pescadores informaram que, com o maior
volume, os peixes desapareceram, possivelmente devido à maior quantidade de áreas de
refúgio, diminuindo, assim, a produção pesqueira.
Na realidade, com a invasão das águas nas áreas marginais, as lagoas enriqueceram
a produtividade primária, contribuindo com uma água mais rica e locais importantes para a
reprodução de certas espécies, por serem ambientes lênticos e protegidos (Figura 3).
Figura 3 - Lagoas formadas nas margens do rio, em função do aumento de vazão das águas

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

155

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Esse aumento de vazão, consequentemente, teve impacto na produção da ictiofauna
do rio. A água mais rica em nutrientes, possivelmente, gerou uma maior produção de peixes
registrados na Expedição seguinte. Lamentavelmente, não se pode quantificar esse impacto,
uma vez que não temos estatística pesqueira que nos possibilite monitorar permanentemente
o aumento da produção pesqueira, tendo como consequência o aumento da vazão.
Visualmente, pode-se observar esse aumento através da presença, nas margens do
rio, de juvenis de várias espécies de peixes (Figura 4).
Figura 4 - Juvenis nas margens do rio

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Outra atividade impactada foi a piscicultura. Depoimentos indicam que o aumento
repentino da vazão de água resultou em fortes correntezas, causando a destruição de tanques
de cultivo ao longo da calha do rio. No entanto, esse tipo de atividade pode adaptar-se às
mudanças hidrológicas, desde que se tenha conhecimento do aumento da vazão com certa
antecedência e esta seja feita de forma gradativa. A atividade de cultivo de tilápia no Baixo
São Francisco (Figura 5) tem bons resultados, uma vez que sua cadeia produtiva já está
consolidada, assim como a comercialização.
É uma alternativa para o aumento da produção de pescado, principalmente quando
a pesca artesanal diminui a produção. Além da tilápia, outra espécie bastante cultivada é
o tambaqui. Estas espécies, atualmente, aparecem em quase todos os mercados públicos
de peixes.

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Figura 5 - Cultivo de tilápia em tanques-rede

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

As atividades pesqueiras com redes de emalhar, para captura de peixes (Figura 6),
e com covos, para captura de camarão (camarão-canela e pitu) (Figura 7) foram as mais
registradas. No caso dos covos, são usados bolinhos de farelo de arroz como iscas (Figura 8).
Estas pescarias são desenvolvidas com embarcações do tipo canoa, entre três e quatro metros
de comprimento, com motor de popa (rabeta) de fácil manobra para as fainas de pesca.
Figura 6 - Canoa com motor de rabeta, na pesca com redes de emalhar

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 7 - Canoa com covos, para a pesca de camarão

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Figura 8 - Bolinhos de farelo de arroz, utilizados como isca nos covos

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

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As espécies de peixes mais capturadas foram: piau (Megaleporinus obtusidens e
Schizodon knerii), pirambeba (Serrasalmus brandtii) e pacu (Metynnus maculatus) (Figura 9).
Em menores capturas, foram observados a xira (Prochilodus argenteus), o tucunaré (Cichla sp.),
o oscar (Astronotus ocellatus) e o cari (Geophagus brasiliensis). A xira, ou curimatã-pacu, sem
dúvida, é o peixe mais apreciado no Baixo São Francisco, sendo uma das maiores solicitações
dos pescadores sobre o programa de repovoamento da Codevasf.
Figura 9 - As três espécies mais capturadas nas redes de emalhar: piau, pirambeba e pacu.

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Um dos fatores mais impactantes na atividade pesqueira é a proliferação de macrófitas
aquáticas no fundo do rio, que forram todo o leito, impedindo que a rede toque essa região.
As macrófitas também se emalham nas redes, aumentando a visibilidade da rede na água;
desta forma, diminui-se a eficiência da captura dos apetrechos (Figura 10).
Figura 10 - Macrófitas aquáticas, emalhadas nas redes, diminuindo a eficiência de captura

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Situação das organizações sociais na atividade pesqueira

Em função da pandemia da Covid-19, os encontros com os presidentes de colônias
de pescadores foram limitados. A presença do coronavírus foi uma das causas que afetaram,
principalmente, a comercialização do pescado. Outra preocupação foi a falta de espécies
nativas de valor econômico, que desapareceram do rio, o que demandaria um programa de
repovoamento destes organismoscom exemplares de maior tamanho, minimizando a predação.

Análise das capturas

Na presença das espécies em proporção de ocorrência, foi observado que 63% das
capturas foram compostas apenas por duas espécies de baixo valor econômico: pirambeba e
pacu (Figura 11), explicando-se, com isso, as precárias condições econômicas da maioria dos
pescadores. Os peixes de maiores valores comerciais representam apenas 15% das espécies
capturadas. Isso mostra a necessidade dos órgãos governamentais que fazem o repovoamento
de peixes estimularem programas de reprodução de espécies de alto valor econômico, a exemplo
da xira, para que, com essa ação, possa-se gerar maior renda para os pescadores.
Figura 11 - Composição da porcentagem de captura das espécies

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Quanto à eficiência de captura das redes de emalhar, observamos que o maior
número de indivíduos capturados aconteceu nas malhas menores, de 35 mm (entre nós) e

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40 mm (entre nós) (Figura 12), o que pode significar que a maioria da ictiofauna capturada é
composta por peixes de pequeno e médio porte, como a pirambeba e o pacu, que representam
(67%) das capturas.
Figura 12 - Composição do número de captura nas redes de amalhar, por malhas

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Análise batimétrica dos dados da ecossonda

Em cada ponto marcado, a ecossonda registrou: latitude, longitude, profundidade
e temperatura da água na superfície. No gráfico do percurso, registrado de Piranhas até
Piaçabuçu, podemos observar que a profundidade diminui conforme aproxima-se a foz.
As maiores profundidades foram obtidas em áreas próximas à Usina de Xingó. Nesta
região, a grande velocidade da água provoca assoreamento no fundo do rio, caracterizando a
área com fortes turbulências e redemoinhos (Figura 13). Este declínio da batimetria também
é observado na Figura 14, onde os perfis A, B e C são mostrados em detalhe. Adicionalmente,
o assoreamento das margens corrobora, cada vez mais, para a diminuição de seu calado.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 13 - Variação da batimetria em função da coloração e perfil de todo o trajeto da
cidade de Piranhas até Piaçabuçu.

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

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Figura 14 - Perfil batimétrico detalhado em três áreas, entre as cidades de Piranhas e Piaçabuçu.

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

As primeiras análises da batimetria mostram informações interessantes referentes
ao comportamento dos peixes, demostrando haver maior atividade noturna do que diurna.
Isso pode ser explicado por fatores como hábito alimentar e proteção. Com uma água tão
transparente e sem sedimentos, como a do Baixo São Francisco, a atividade noturna parece
ser mais segura para as espécies esconderem-se dos predadores, como mostram os registros
às 20h (Figura 15) e às 10h da manhã (Figura 16).
Na mesma área, às 20h, aparecem dezenas de peixes na tela, demostrando uma grande
atividade noturna. Já às 10h da manhã, não foram notados sinais de peixes. Os registros foram
obtidos na parte mais funda do rio, onde a embarcação passou; provavelmente, durante o dia,
as espécies estão refugiadas nas margens, entre a vegetação.

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Figura 15 - Registro de grande atividade de peixes no período noturno

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Figura 16 - Registro de baixa atividade de peixes no período diurno

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

As informações da ecossonda também revelam características do fundo do rio com
vazão de 2.500 m3.s-1, ou seja, uma vazão ideal. Alguns aspectos são importantes de registro,
como a grande profundidade em frente à cidade de Piranhas, justamente por ficar próxima
à Hidrelétrica de Xingó. A água age com grande força de assoreamento no fundo, na frente
de Piranhas, e rapidamente alcançam-se os 60 metros de profundidade (Figura 17), com um
talude vertical com queda rápida de profundidade (Figura 18).

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Figuras 17 e 18 - Registro de grande profundidade e talude com subida rápida

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Outros aspectos importantes foram os registrados, como os vórtices (redemoinhos),
que podem ser perigosos, principalmente para banhistas e pequenas embarcações (Figura 19).
Figura 19 - Vórtices gerados desde o fundo até a superfície do rio

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

No fundo do rio, foram também observadas várias formações, que podem ser
sedimentos (areia fina), registrando-se turbulências, o que mostra o grande movimento de
sedimentos com o aumento do volume da água (Figuras 20 e 21).

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Figura 20 - Turbulências no fundo do rio

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Figura 21 - Turbulências no fundo do rio

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Outros registros importantes foram os “cabeços”, elevações que podem ser de
areia ou pedras, o que torna muito perigosa a navegação de transporte, principalmente
das maiores embarcações, que podem danificar o casco (pedras) ou encalhar (bancos
de areia). Nas fotos, observamos um cabeço a 4.3 m da superfície (Figura 22) e outros
a 2 m e 6 m (Figura 23).

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Figura 22 - Registro de “cabeços” no fundo do rio, a 4.3 m da superfície

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Figura 23 - Registro de “cabeços” no fundo do rio, a 2 m e 6 m da superfície, respectivamente

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Características da pesca na IV Expedição Científica no Baixo São
Francisco (2021)

Com vazão média de 1.400 m.s-1 no ano de 2021, menor que a vazão do ano de
2020, observou-se maior número de capturas de peixes, decorrente dos fatores benéficos ao
processo reprodutivo, em função da grande vazão do ano anterior, e da diminuição do volume
de água, facilitando as capturas. Entretanto, foram constatadas as mesmas dificuldades que

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

tanto as populações como o rio vêm sofrendo em decorrência das atividades antrópicas
indiscriminadas e da ausência de gestão, principalmente na atividade pesqueira, tais como:
poluição, desmatamento, assoreamento, degradação das lagoas marginais, presença de espécies
exóticas e pressão pesqueira descontrolada, que vêm influenciando negativamente a produção
pesqueira na região, bem como a distribuição espacial das espécies em relação aos ambientes
(SOARES et al., 2011) (Figura 24).
Com o objetivo de comparar a produção pesqueira, foram realizadas coletas
da ictiofauna com as mesmas características dos apetrechos utilizados no ano anterior,
possibilitando avaliar a composição de captura da atividade.
Figura 24 - Assoreamento das margens na foz do São Francisco

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Foram realizados 40 lançamentos de redes de emalhar, sendo colocadas na água ao
entardecer e recolhidas ao amanhecer, permanecendo, em média, 12 horas de pesca efetiva.
No total, empregaram-se redes com 35 mm (entre nós), com fios (nylon) 0,30 mm e 0,35mm
de diâmetro, redes com 40 mm (entre nós), com fio (nylon) 0,30mm de diâmetro e redes
com 50 mm (entre nós), com fio (nylon) 0,20 mm de diâmetro. Cada rede teve, em média,
400m de comprimento. As informações sobre a situação da pesca foram obtidas através de
entrevistas com os próprios pescadores, muitas vezes nas embarcações.

Situação atual da pesca

De acordo com os pescadores, foi justamente a grande variação do nível
do rio, onde a água transborda para as áreas mais planas das margens, que
proporcionou a melhora da desova de peixes. Apesar deste fator positivo, após
a redução repentina do nível da água, ocorreu mortalidade destes indivíduos
aprisionados nas lagoas (Figura 25).

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Figura 25 - Esquema do efeito da variação do nível do rio na reprodução das espécies nas
lagoas marginais, segundo os pescadores

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Quanto às espécies, foi relatada uma grande diminuição nas capturas daquelas de
valor comercial, a exemplo da xira. Nos mercados visitados (Figura 26), foram encontrados,
na maioria, espécies de cultivo, comotilápia (Oreochromis niloticus) e tambaqui (Colossoma
macropomum) (Figura 27).
As espécies nativas encontradas foram piranha-verdadeira (Pygocentrus piraya) e
piau (Figura 28). A xira e o surubim (Pseudoplatystoma corruscans), segundo vendedores,
vieram do Estado da Bahia (Figura 29), demostrando uma demanda da população por estas
espécies, motivando a importação de outros Estados, principalmente do surubim, que não é
mais encontrado no Baixo São Francisco. Também foi encontrado o panga (Pangasius sp.),
espécie exótica proveniente de cultivos.
Figura 26 - Mercado público e comércio de peixes em Propriá (SE)

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 27 - Peixes de cultivo, tilápia e tambaqui, à venda nos mercados

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

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Figura 28 - Espécies nativas encontradas nos mercados: piranha-verdadeira e piau

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Figura 29 - Espécies nativas encontradas nos mercados, oriundas de outros Estados:
xira e surubim

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Das espécies capturadas, a pirambeba, o pacu e os piaus representaram 60% do
total. A pirambeba e o pacu têm baixo ou nenhum valor comercial. Quando consideramos
a captura acumulada de pirambeba e pacu, estes representam 53% da produção; no entanto,
pelo reduzido valor de mercado, praticamente não geram receita. Isso coloca a atividade de
pesca em uma situação muito desestimulante para os pescadores. Atuar em uma atividade
em que só 47% do produto têm valor de segunda, ou primeira qualidade, não é atrativo. As
espécies de alto valor econômico – camurim (robalo), xira e tucunaré – representam apenas
20% da produção (Figura 30).
A piscicultura apresenta-se como uma alternativa para suprir a demanda de pescado
de valor econômico, haja vista a dominância de peixes de cultivo abastecendo os mercados.
Outra forma de estimular a produção é a atividade de repovoamento, com espécies nativas
de valor comercial, como piau e xira, assim como realizando o planejamento dos lugares mais
adequados para a liberação dessas espécies.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 30 - Distribuição da porcentagem de captura por espécie

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Quanto ao nível de captura, a rede de emalhar de 35mm (entre nós) apresentou a
melhor porcentagem, seguida pela de 40mm (Figura 31).
Figura 31 - Distribuição da captura por malhas das redes

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

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Quanto à distribuição horizontal da diversidade de espécies no Baixo São Francisco
(Figura 32), foi possível observar que, nos municípios de Pão de Açúcar (AL) e Propriá (SE),
foram encontradas mais que o dobro de espécies da região de Piranhas (AL). Nos outros
municípios, foram registradas entre 7 e 8 espécies, com exceção de Piaçabuçu (AL), que
teve maior abundância, em função da presença de espécies estuarinas. A menor diversidade
encontrada em Piranhas deve-se ao tipo de ambiente, com correntezas mais fortes e de maior
profundidade, impondo mais dificuldades nas capturas ou fazendo com que só as espécies
mais adaptadas a este tipo de ambiente, lótico, prevaleçam.

Quando analisamos a distribuição em número de indivíduos capturados por
cidade, observamos uma maior concentração em Piranhas e Pão de Açúcar, localizadas
logo após a Hidrelétrica de Xingó. Possivelmente, o menor número de espécies e
o maior número de indivíduos na cidade de Piranhas indique que o ambiente seja
adequado para uma concentração de espécies que escolhem um local lótico para
sua reprodução. A partir de Traipu, é possível observar um declínio no número de
indivíduos no sentido da foz, ambiente mais lêntico (Figura 33).
Figura 32 - Diversidade em número de espécies por município

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 33 - Captura em número de indivíduos por município

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Analisando a distribuição das principais espécies em abundância e importância
econômica, observamos que a pirambeba possui maior concentração de indivíduos entre os
municípios de Piranhas e Lagoa Comprida (São Brás) (AL) (Figura 34).
Figura 34 - Distribuição da pirambeba entre os municípios de coleta

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

A distribuição do pacu parece estar mais concentrada na zona mais lêntica do rio,
entre o povoado de Lagoa Comprida (São Brás) e Piaçabuçu, apresentando uma tendência
de declínio no sentido das cidades com ambientes mais lóticos, como Piranhas e Pão de
Açúcar – na última, inclusive, não houve ocorrência da espécie (Figura 35).

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Figura 35 - Distribuição do pacu entre os municípios de coleta

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

A distribuição do piau ficou concentrada no município mais próximo à
Hidrelétrica de Xingó, o que pode explicar o grande número de indivíduos. Ficou
visível a quantidade de peixes pulando na superfície da água, quando da coleta
nessa cidade, corroborando com a provável concentração para reprodução. Piranhas
é o limite aonde essas espécies que fazem piracema conseguem chegar. As fortes
correntezas servem como estímulo ao desenvolvimento gonadal e podem explicar
essa concentração reprodutiva. No restante das cidades, os registros foram inferiores
a 10 indivíduos (Figura 36).
Figura 36 - Distribuição do piau entre os municípios de coleta

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O tucunaré só não foi encontrado na cidade de Piranhas; no entanto, obteve maior
representatividade no município de Pão de Açúcar. Nas demais regiões estudadas, ocorreram
registros da espécie (Figura 37).
Figura 37 - Distribuição da presença do tucunaré entre as cidades visitadas

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

A xira, apesar de ser uma espécie bastante desejada na região do Baixo São Francisco,
sofre com a variação do volume do rio, principalmente em épocas de seca, quando não entram
águas novas pelos tributários, impactando diretamente sua reprodução natural. A presença
desta espécie apenas na região de Pão de Açúcar confirma que os peixes de piracema estariam
em águas mais próximas da Hidrelétrica de Xingó; entretanto, devido à falta de monitoramento
nos peixamentos (uma das poucas situações de oferta de peixes ao rio), não se sabe qual o
impacto na presença da espécie no Baixo São Francisco.

Propostas de ações a serem realizadas por instituições de gestão dos
recursos pesqueiros

1. Quanto à gestão de recursos e atividades pesqueiras, sugere-se que seja criado um
consórcio entre as prefeituras do Baixo São Francisco (Conpresf ), juntamente com
a Codevasf e as Universidades, com o intuito de montar uma rede de coletores
(profissionais habilitados) para fazer o controle de desembarque pesqueiro
(estatística pesqueira) e, assim, prestar assistência técnica aos pescadores do
Baixo São Francisco;
2. Quanto aos problemas causados pelas macrófitas aquáticas, elas podem ser uma
fonte de matéria orgânica aproveitável para várias finalidades. Segundo Soares
(2020), a inserção de macrófitas aquáticas como fertilizantes já vem sendo
estudada e desenvolvida. Em Santana do Piraí, no Rio de Janeiro, o uso destas
plantas aquáticas proporcionou grandes quantidades de nutrientes para o solo,

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

promovendo o crescimento de plantas nativas e cultivadas, possibilitando seu
emprego como adubo orgânico. Além disso, o uso da biomassa pode promover
expressivos ganhos ambientais e sociais, e também amenizar a parte econômica,
garantindo sustentabilidade no processo (CEIVAP, 2012). Segundo Yamauchi
(2014), tal método serve de auxílio a solos degradados, que se caracterizam por
dispor de baixos índices de nutrientes, matéria orgânica e características físicas
que impossibilitam o desenvolvimento das plantas. Desta forma, é essencial
o discernimento dos atributos químicos a serem usufruídos, assim como suas
consequências após incorporação no solo. Pode ser constatado que o acréscimo
de matéria orgânica altera de forma positiva a fertilidade do solo, sendo capaz de
melhorar as propriedades químicas até mesmo de áreas severamente degradadas;
3. Criação de um projeto-piloto no Baixo São Francisco, com o objetivo de revitalizar
o solo, no caso, o semiárido das margens do rio –Projeto Pró-Solo (com Embrapa,
Codevasf e Universidades). O projeto-piloto trabalharia para revitalizar os solos
dos assentamentos de agricultores, com o acompanhamento dos órgãos de
pesquisa. O projeto tem que constar de métodos de extração das macrófitas do rio,
que podem ser feitos com uma rede de arrasto de material sintético com lastros
e flutuadores, que facilmente cercaria uma área e seria puxada para a margem,
mecanicamente (trator das prefeituras); em seguida, seria triturada em uma
forrageira e transferida em caminhões para os devidos lugares pré-estabelecidos
no projeto. O aproveitamento dessas macrófitas, além de ser uma solução para
a produção agrícola e a atividade pesqueira, seria um grande benefício para a
qualidade da água do rio, pois essas macrófitas modificam o habitat dos peixes
e consomem o oxigênio da água;
4.

Criação do Programa Permanente de Peixamento de Espécies Nativas
(Properpen), de valor econômico, como forma de melhorar a renda dos
pescadores;

5. Criação do Programa de Educação Ambiental (Proea), nas colônias e na
Associação de Pescadores, assim como nas escolas, a fim de conscientizar sobre
a poluição do rio.

REFERÊNCIAS
NOGUEIRA, E.M.S.; SÁ,M.F.P. A pesca artesanal no Baixo São Francisco: atores,
recursos, conflitos. Petrolina:Editora da Sociedade Brasileira de Ecologia Humana(Sabeh),
2015.p.217.
SATO, Y.; GODINHO, H.P. Migratory fishes of the São Francisco River. In:
CAROLSFELD, J.B.; HARVEY, C.R.; BAER, A. (Eds.). Migratory fishes of South
America: biology, fisheries, and conservation status. Victoria: World Fisheries Trust/IDRC/
World Bank, 2003. p.199-232.
SOARES, E.C.et al. Ictiofauna e pesca no entorno de Penedo, Baixo São Francisco, Alagoas.
Biotemas, Florianópolis, v.24, p.61-67, 2011.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

SOARES, E.C. et al. Expedition on the Lower São Francisco: an X-ray of fisheries and
agriculture, pollution, silting and saline intrusion. Brazilian Journal of Development, v.6,
p.3047-3064, 2020b.
SOARES, E.C. et al. A ictiofauna do Baixo São Francisco. In: SOARES, E.C.; SILVA,
J.V.; NAVAS, R. O Baixo São Francisco: características ambientais e sociais. Maceió:
Edufal, 2020a. p.129-152.

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CAPÍTULO 9 - ESTRUTURA DA COMUNIDADE
FITOPLANCTÔNICA DO BAIXO SÃO FRANCISCO
(ALAGOAS E SERGIPE)
Élica Amara Cecília Guedes1

Manoel Messias da Silva Costa2
Ana Karolina Lopes da Silva3
Mariana Melo Fireman4

Resumo: O fitoplâncton lacustre constitui informação fundamental sobre a estrutura
da produção biológica de um ambiente aquático, sendo de extrema importância para a
compreensão do meio, uma vez que, dentro de cada ambiente, existe um conjunto de formas
fitoplanctônicas, cuja variedade, abundância e distribuição são próprias e dependem da
adaptação às características abióticas. Foram analisadas 34 amostras, coletadas no período de 1º
a 10/11/2021, quando foram determinados pontos de coleta ao longo do Baixo São Francisco.
As amostras foram obtidas através de arrastos horizontais superficiais, com rede de plâncton
(malha de 20 µM), acondicionadas em frascos e preservadas em TRANSEAU (6:3:1 água
destilada, álcool etílico 70%, formol), devidamente etiquetados. Foram examinadas alíquotas
de 1 mL, procedendo-se a análise qualiquantitativa em microscópio óptico binocular,de acordo
com o método de Sedgwick-Rafter, e a identificação baseada em bibliografias pertinentes
na área. Foram realizadas as seguintes análises: riqueza de espécies, abundância relativa (%),
frequência de ocorrência (%), diversidade de Shannon (H’), equitabilidade ( J), dominância
de Simpson (ʎ) e testes estatísticos. Durante o período estudado, foram observadas espécies
dominantes, que influenciaram na abundância de células, diversidade e equitabilidade: Eunotia
monodon (43,1%), Oedogonium sp. (36,2%), Aulacoseira granulata (35%), Staurastrum leptocladum
(33,6%), Ceratium furcoides (25,9%) e Microcystis aeruginosa (27,9%), espécies estas que estão
associadas a ambientes eutrofizados e/ou acidificados. Persistindo nas constantes mudanças nas
vazões e nos despejos indiscriminados de efluentes domésticos, o ambiente sofrerá enormes
consequências, com o surgimento de cianobactérias potencialmente tóxicas, florações de
dinoflagelados e aumento significativo de algas verdes filamentosas.
Palavras-chave: Espécie Invasora. Abundância. Ambiente Lótico.

INTRODUÇÃO
Dentre os inúmeros organismos que habitam os ambientes aquáticos, a comunidade
fitoplanctônica constitui-se como uma das mais importantes. Em sua grande maioria, os
indivíduos são dotados de pigmentos fotossintetizantes, constituindo-se o primeiro elo das
1 Professora Doutora, Chefe do Laboratório de Ficologia (Labofic), Setor de Botânica, Universidade Federal
de Alagoas (Ufal).
2 Professor Doutor, Setor de Biologia, Instituto Federal de Alagoas (Ifal).
3 Estudante de Graduação em Biologia, estagiária do Laboratório de Ficologia (Labofic), Setor de Botânica,
Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
4 Graduação em Biologia, estagiária do Laboratório de Ficologia (Labofic), Setor de Botânica, Universidade
Federal de Alagoas (Ufal).

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

cadeias alimentares aquáticas. Sendo responsáveis pela produtividade primária, refletem
com fidelidade os impactos antrópicos aquáticos, uma vez que, dentro de cada ambiente,
existe um conjunto de formas fitoplanctônicas cuja variedade, abundância e distribuição são
próprias e dependem da adaptação às características abióticas, sendo de extrema importância
para a compreensão do meio (REYNOLDS, 2006; RAVEN et al., 2014). Estes organismos,
predominantemente autotróficos, são a base da cadeia alimentar em ecossistemas aquáticos e
apresentam extrema importância para toda a comunidade aquática, visto que a abundância, a
riqueza e a biomassa impulsionam a produtividade para os demais níveis tróficos (PEREIRA;
SOARES-GOMES, 2002).
Estes seres, essenciais para a manutenção da vida nos ambientes lacustres, devido à alta
taxa de reprodução, em estado de desequilíbrio, podem atingir grandes concentrações, alterando
a coloração da água, principalmente aquelas pertencentes às cianobactérias (Nostocales,
Chroococcales) diatomáceas (bacilariofíceas cêntricas) e clorofíceas (Desmidiales), gerando
impactos negativos para a comunidade aquática e a saúde humana, em consequência das
alterações dos fatores abióticos (disponibilidade de nutrientes, mudanças climáticas) e
bióticos (competição, predação, atividades antropogênicas), acarretando em florações algais,
comprometendo a integridade da biota e intensificando o processo de eutrofização (ZANATA;
ESPÍNDOLA, 2002; CECY; SILVA, 2004).
O aumento da eutrofização em ambientes lóticos advindos de múltiplos usos, como
abastecimento público, lazer, aquicultura e pesca, além de se modificar rapidamente tanto
no tempo como no espaço, tem permitido um rápido crescimento de algumas espécies de
fitoplâncton, que estão se tornando cada vez mais comuns e dominantes nestes ambientes,
tanto qualitativamente quanto quantitativamente, implicando em potenciais danos à saúde
da população (PANOSSO et al., 2007; COSTA et al., 2009).
Nas extremas reduções de vazões, torna-se útil a compreensão de ecossistemas hídricos
e dos efeitos na dinâmica da qualidade da água, onde o fitoplâncton tem papel preponderante
para entender-se do funcionamento do sistema como um todo, devido à sua contribuição
essencial na elaboração da matéria orgânica necessária para a sobrevivência dos organismos
herbívoros destes ambientes (CÂMARA et al., 2007; MOSLEY, 2015; LI et al., 2018).
Diante do exposto, o presente trabalho tem o objetivo de compreender as
consequências das mudanças de vazões em resposta à estrutura da comunidade fitoplanctônica,
proporcionando importantes informações de bioindicadores da qualidade da água sobre o
ecossistema em estudo.

Área de estudo e coleta das amostras
Foram coletadas 34 amostras no período de 1º a 10/11/2021, quando foram
determinados pontos de coleta ao longo do trecho do Baixo São Francisco entre os Estados
de Alagoas e Sergipe, sendo definidos os seguintes pontos de coleta: Ponto 1 (região próxima
à margem do rio, Alagoas); Ponto 2 (região mediana do rio, entre Alagoas e Sergipe); Ponto
3 (região próxima à margem do rio, em Sergipe); Ponto 4 (próximo à captação de água),
tendo como referência os municípios de Piranhas-AL (PI), Pão de Açúcar-AL (PA), TraipuAL (TR), São Brás-AL (SB), Igreja Nova-AL (IN), Propriá-SE (PR), Penedo-AL (PE),
Piaçabuçu-AL (PU) e Foz do São Francisco, com dois pontos de coleta – Ponto 1 (região
próxima ao Estado de Alagoas) e Ponto 2 (região próxima ao Estado de Sergipe).

180

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

As amostras foram obtidas através de arrastos horizontais e subsuperficiais, utilizandose rede de plâncton com abertura de malha de 20µm. Após as coletas, as amostras foram
acondicionadas em frascos de plástico de aproximadamente 100 mL, devidamente etiquetados,
e preservadas em solução TRANSEAU (6:3:1 água destilada, álcool etílico 70%, formol),
sendo, posteriormente, transportadas para o Laboratório de Ficologia do Instituto de Ciências
Biológicas e da Saúde (ICBS) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Análise das amostras

A composição do microfitoplâncton foi determinada a partir da análise de montagens
lâmina-lamínulas (lâminas temporárias), visualizadas sob um microscópio óptico binocular
Zeiss (Axioscop 40). Para o estudo quantitativo, foram analisadas alíquotas de 1 mL, de acordo
com o método de Sedgwick-Rafter (S-R) (APHA; AWWA; WEF, 2005; CETESB, 2011).
Para a identificação taxonômica de gêneros e/ou espécies, foram consultados trabalhos
específicos na área: Bourrely (1970), Streble e Krauter (1987), Anagnostidis e Komarek
(1990), Parra e Bicudo (1995), Moreno et al. (1996) e Komarek e Anagnostidis (1998). Foi
utilizado o Sistema de Classificação de Round et al. (1990) para enquadramento taxonômico
das diatomáceas, o de Anagnostidis e Komarek (1988) e Komarek e Anagnostidis (2005)
para Cyanobacteria, Buchheimet al. (2001) para Chlorophyta e o Sistema de Van den Hoek
et al. (1995) para os demais grupos taxonômicos. Todos os nomes científicos de espécies
foram checados junto ao banco de dados internacional Integrated Taxonomic Information
System (ITIS) e ALGAEBASE (GUIRY; GUIRY, 2014).

Índices ecológicos

Após a identificação, foram realizadas contagens dos organismos e calculada a
abundância relativa de cada táxon, utilizado a fórmula: A = N x 100/n, onde: N = nº de espécies
na amostra; n = nº total de espécies; sendo estabelecidos os seguintes critérios: dominante –
ocorrência maior do que 50%; abundante – ocorrência entre 50% e 30%; pouco abundante
– ocorrência entre 30% e 10%; rara – menor de 10% (LOBO; LEIGHTON, 1986).
A frequência de ocorrência (%) foi calculada a partir do número de vezes em que
cada táxon ocorreu nas porções do talo dos hospedeiros, por intermédio da fórmula: F =
P×100/p, onde: P = número de amostras contendo a espécie; p = número total de amostras,
sendo estabelecidas as seguintes categorias: muito frequente – ocorrência em mais de 70% das
amostras; frequente – ocorrência entre 70% e 40% das amostras; pouco frequente – ocorrência
entre <40% e 20% das amostras e esporádica <20% (MATEUCCI; COLMA, 1982).
A riqueza correspondeu ao número de espécies encontrado em cada amostra. O índice
de diversidade específica foi calculado segundo Shannon (H’) (-∑pi.log2) (SHANNON,
1963), cujos valores foram enquadrados nas seguintes categorias: alta diversidade = ≥3,0 bits.
cel-1; média diversidade = <3,0 ≥ 2,0 bits.cel-1; baixa diversidade = <2 >1,0 bits.cel-1; muito
baixa diversidade = <1,0 bits.cel-1 (VALENTIN, 2000).
A equitabilidade ( J) foi calculada segundo Pielou (1977), apresentando valores entre
0 e 1, sendo considerados alto ou equitativo os valores superiores a 0.50, que representam
uma distribuição uniforme dos táxons na amostra analisada e dominância de Simpson
(ʎ) (MAGURRAN, 1988). Para estes cálculos, foi utilizado o programa estatístico PAST
(HAMMER et al., 2001).

181

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Tratamento estatístico

O teste de Levene’s foi utilizado para avaliar a normalidade e a homogeneidade de
variância. Análises de variância (ANOVA unifatorial) foram usadas para testar a r i q u e z a
d e e s p é c i e s e a abundância de células das amostras coletadas. Teste de comparações
múltiplas de Tukey (Tukey’s pairwise) para riqueza e teste Wilcoxon (Wilcoxon pairwise) foram
aplicados quando ocorreram diferenças significativas (P < 0.05). Para todos os procedimentos
estatísticos, foram utilizados os programas estatísticos PAST (HAMMER et al., 2001).
A comunidade fitoplanctônica do presente estudo esteve distribuída nas divisões
Cyanobacteria, Bacillariophyta, Euglenophyta, Dinophyta e Chlorophyta. As divisões com
maior representatividade de riqueza de espécies foram Chlorophyta (24 spp.) e Bacillariophyta
(16 spp.), no município de Igreja Nova (AL), distrito de Chinaré (Tabela 1). Não foram
observadas diferenças significativas na riqueza de espécies entre os pontos de coletas analisados
(F = 0,1365; P < 0.05) (Tabela 1).
Tabela 1. Riqueza de espécies do fitoplâncton do Baixo São Francisco (Alagoas e Sergipe).
(PI) Piranhas-AL, (PA) Pão de Açúcar-AL, (TR) Traipu-AL, (IN) Igreja Nova-AL,
(SB)São Brás-AL, (PR) Propriá-SE, (PU) Piaçabuçu-AL, (PE) Penedo-AL, FOZ (Foz
do São Francisco).
DIVISÃO

PI

PA

TR

SB

IN

PR

PE

PU

FOZ

BACILLARIOPHYTA

10

7

17

12

16

11

14

15

16

DINOPHYTA

2

1

3

2

2

2

2

2

2

CYANOBACTERIA
EUGLENOPHYTA
CHLOROPHYTA
TOTAL

ANOVA

7
1

18
38

8

9

1

1

18
35

16

Sum of sqrs

46

58,7111

8
1

6
-

4
-

11

24

df

Mean square

34
8

48

13
30

7,3388

5

6

-

-

14
35

21
F

44

0,1365

7
-

14
39
P
*

(-) dados não existentes. *diferenças significativas pelo Tukey’s (Tukey’s pairwise) (P < 0.05).
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

Apesar da redução do número de espécies, devidaà mudança de vazão de 2.500
m /s, em 2020, para 1.500 m3/s, em 2021, nos pontos amostrados, as microalgas verdes
(Chlorophyta) e diatomáceas (Bacillariophyta) ocorreram com o maior número de táxons.
Alguns estudos referentes à comunidade fitoplanctônica em ambientes lacustres demonstram
que esses organismos constituem um grupo importante e bastante comum dentro desses
ecossistemas, sendo praticamente os grupos dominantes (OLIVEIRA; CALHEIROS, 2000;
KOMAREK et al., 2003; SHUBERT, 2003; NABOUT et al., 2006).
O grupo das algas verdes pertencentes às Desmidiaceae: Closterium, Cosmarium,
Desmidium, Eudorina, Euastrum, Micrasterias, Staurastrum, Xanthidium destaca-se entre os
grupos algais, principalmente pela riqueza específica, que se distribui de forma cosmopolita
em águas não contaminadas, sendo abundantes em ambientes lacustres (rios, lagos,
lagoas) oligotróficos e mesotróficos, condições estas que favorecem o desenvolvimento
desses organismos (FELISBERTO; RODRIGUES, 2002; WEHR; SHEAT, 2003; DI
BERNARDO et al., 2010).
3

182

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

De maneira geral, clorofíceas e diatomáceas contribuíram com os maiores índices de
abundância nas amostras analisadas, com exceção da foz do São Francisco, onde observouse uma dominância das diatomáceas, devido ao aumento da salinidade e à elevada energia
hidrodinâmica, que influenciam diretamente o desenvolvimento desses organismos (SOUSA
et al., 2009; COSTA et al., 2011).
Diante da predominância das algas verdes e diatomáceas no presente estudo, foi
observada uma boa representatividade do dinoflagelado Ceratium furcoides entre os municípios
de Piranhas, Pão de Açúcar e Traipu (no Estado de Alagoas), espécie cosmopolita, exótica
e invasora de ecossistemas de água doce. A abundância dessa espécie tem correlação com as
concentrações de NO3-, matéria orgânica disponível e fósforo total, bem como com o pH
alcalino. O surgimento dessa espécie em abundância está relacionado à mistura da massa de
água e ressuspensão dos cistos na coluna d’água, podendo ocasionar florações com odores
de matéria orgânica em decomposição, além do entupimento dos filtros das estações de
tratamento de água (EWERTS, 2015).
Em relação ao fitoplâncton, a Portaria nº 578 exige monitoramento mensal do número
de células de cianobactérias presentes nos mananciais de até 10.000 céls.mL-1. Para valores
elevados de cianobactérias, o monitoramento deverá ser realizado semanalmente, devido à
possível presença de cianotoxinas, trazendo riscos à população local, não sendo viável sua
utilização no abastecimento público, recreação e irrigação, além do risco de bioacumulação
em peixes e moluscos bivalves (BRASIL, 2004).
Estudos referentes à comunidade fitoplanctônica em ambientes lacustres tropicais
demonstram que clorofíceas e diatomáceas constituem um grupo importante dentro deste
ecossistema, por apresentarem altas taxas de reprodução e capacidade de adaptação em diversos
nichos ecológicos, principalmente sob os aspectos físico-químicos da água. De acordo com a
Cetesb (2005), quando ocorrem dominância e abundância de clorofíceas (desmidiáceas) e/ou
diatomáceas, com valores entre > 1000 e < 5000 cel.mL-1, a qualidade da água é classificada
de razoável a boa, demonstrando que o ambiente está em equilíbrio e considerandoa água
própria para o consumo e o lazer humanos.
Durante o período estudado,foram observadas espécies dominantes, que contribuíram
para a abundância de células nas amostras analisadas: Eunotia monodon (43,1%), Aulacoseira
granulata (42,3%), Oedogonium sp. (36,2%), Staurastrum leptocladum (33,6%), Ceratium furcoides
(25,9%), Microcystis aeruginosa (27,9%), espécies estas que estão associadas a ambientes eutrofizados
e/ou acidificados, influenciando os índices de diversidade específica, que variaram entre 1,57
bits.cel-1 no Ponto 4, pela dominância e abundância da diatomácea Aulacoseira granulata, e 2,11
bits.cel-1 no Ponto 3 (Igreja Nova/AL), na região de Sergipe (superfície), onde foi observada
maior diversidade de espécies. As amostras, de uma forma geral, apresentaram valores de
equitabilidade acima de 0,50, mostrando uma distribuição equitativa e uniforme das espécies.
Quando a diversidade específica de Shannon e a equitabilidade são consideradas
de baixos valores, de acordo com seus índices estabelecidos, refletirão em um desequilíbrio
populacional fitoplanctônico, ligado diretamente à abundância de células e à dominância de
poucas espécies.
O sumário completo dos dados de riqueza, abundância relativa (%), frequência de
ocorrência (%) e índices ecológicos (Diversidade de Shannon, Equitabilidade e Dominância)
encontra-se nas tabelas em anexo.

183

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O fitoplâncton é considerado um dos indicadores de qualidade biológica utilizado
na classificação do estado ecológico de massas d’água, principalmente quando são avaliadas a
abundância fitoplanctônica, a riqueza, a dominância, a intensidade e a frequência de florações
fitoplanctônicas (blooms) – o que requer conhecimentos sobre a atuação destes organismos,
que influenciam diretamente a qualidade da água.
Através dos resultados obtidos, foi possível observar que Chlorophyta (algas
verdes) e Bacillariophyta (diatomáceas) ocorreram com maior riqueza de espécies e
abundância, dominando o período de estudo. Nos pontos de amostragem, mesmo com
o surgimento de espécies de algas verdes filamentosas, a grande abundância de células
não refletiu no estado trófico da água – apesar de ser importante confrontar os dados
obtidos com informações sobre sedimentos e compostos orgânicos e inorgânicos para,
assim, inferira real situação do ambiente.
Mudanças na vazão entre as Expedições de 2020 e 2021 resultaram na abundância
de Ceratium furcoides, que podem interferir no estado trófico e na dinâmica da comunidade
fitoplanctônica, favorecendo a floração desta espécie, que pode estabelecer-se no ambiente e
trazer riscos ecológicos e efeitos negativos na qualidade da água, gerando inúmeros problemas
à saúde pública, com investimentos elevados nas Estações de Tratamento de Água (ETAs), no
abastecimento público e nos usos múltiplos (navegação, recreação, abastecimento, irrigação, etc.).

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Tabela 2 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de
Piranhas (Baixo São Francisco): (P1) Região de Alagoas; (P2) Região entre Alagoas e
Sergipe; (P3) Região de Sergipe; (P4) Captação de água
TÁXONS

P1

P2

P3

P4

FO (%)

Anabaena spiroides Klebahn

17,9

19,5

0,7

11,6

MF

Arthrospira platensis Gomont

1,4

-

-

0,9

F

Cylindrospermopsis raciborskii (Wołoszyńska) Seenayya & Subba Raju

-

-

-

0,5

PF

Eucapsis densa Azevedo, Sant’Anna, Senna, Komárek & Komárková

-

-

-

1,1

PF

CYANOBACTERIA

Lyngbya majuscula Harvey ex Gomont

0,7

-

0,4

-

F

Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing

18,3

11,7

27,9

14,5

MF

Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont

0,7

0,4

-

-

F

-

0,4

0,7

-

F

Bellerochea malleus (Brightwell) Van Heurck

-

-

0,7

0,3

F

Coscinodiscus radiatus Ehrenberg

1,1

-

-

1,8

F

BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen

Eunotia monodon Ehrenberg

0,4

0,2

-

0,5

MF

Fragilaria crotonensis Kitton

15,1

11,3

7,2

10,4

MF

Meridion circulare (Greville) Agardh

-

0,6

-

-

PF

Nitzschia hungarica Grunow

0,7

-

-

0,3

F

Odontella aurita (Lyngbye) Agardh

-

-

5,8

3,9

F

Terpsinoë musica Ehrenberg

3,6

0,8

1,4

1,2

MF

Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg

0,4

1,0

1,4

0,8

MF

EUGLENOPHYTA

187

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Euglena caudata Hübner

-

-

-

1,8

P

Ceratium furcoides (Levander) Langhans

11,1

Peridinium cinctum (Müller) Ehrenberg

-

19,5

-

15,1

MF

-

1,1

3,3

F

Acanthosphaera zachariasii Lemmermann

-

0,8

-

0,3

F

Actinastrum aciculare Playfair

-

0,6

-

-

P

Actinastrum hantzschii Lagerheim

-

-

-

1,5

P

Ankistrodesmus densus Korshikov

0,4

0,6

-

0,2

MF

Cosmarium laeve Rabenhorst

-

-

-

0,5

P

Desmidium grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary

-

0,6

-

-

P

Eudorina elegans Ehrenberg

5,0

2,9

2,5

4,8

MF

Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas

0,7

0,2

-

-

F

Oedogonium sp.

0,4

19,5

36,2

15,1

MF

Pediastrum duplex Meyen

8,6

0,4

-

-

F

Pediastrum simplex Meyen

1,1

3,5

8,3

8,0

MF

Sphaerozosma laeve (Nordstedt) Thomasson

-

1,6

-

0,5

PF

Spirogyra sp.

1,8

-

-

0,5

F

Staurastrum diacanthum Lemaire

1,1

0,6

-

-

F

Staurastrum dickiei Ralfs

-

1,0

1,8

-

F

Staurastrum leptocladum Nordstedt

8,2

0,2

0,7

0,3

MF

Stigeoclonium subsecundum (Kützing) Kützing

0,4

0,2

1,4

-

MF

Volvox aureus Ehrenberg

1,1

2,0

1,4

0,6

MF

Diversidade de Shannon (H’)

2,41

2,25

1,91

2,55

Equitabilidade ( J)

0,77

0,70

0,67

0,77

Dominância de Simpson (ʎ)

0,12

0,14

0,23

0,10

DINOPHYTA

CHLOROPHYTA

(FO) categorias de frequência de ocorrência: (F) frequente; (PF) pouco frequente; (-) dados não
existentes; (MF) muito frequente.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

Tabela 3 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Pão
de Açúcar (Baixo São Francisco): (P1) Região de Alagoas; (P2) Região entre Alagoas e
Sergipe; (P3) Região de Sergipe; (P4) Captação de água
TÁXONS

P1

P2

P3

P4

FO (%)

Anabaena spiroides Klebahn

1,5

8,3

5,8

3,4

MF

Aphanizomenonflos-aquaeRalfs ex Bornet&Flahault

-

2,4

-

-

PF

Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann

4,4

4,4

2,1

-

MF

Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya & Subba Raju

5,4

2,0

2,9

-

MF

CYANOBACTERIA

Eucapsis densa Azevedo, Sant’Anna, Senna, Komárek & Komárková

-

-

-

5,2

PF

Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing

3,9

4,8

4,1

1,7

MF

Oscillatoria curviceps Agardh ex Gomont

-

-

-

3,4

PF

Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont

1,0

-

0,4

-

F

Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen

-

1,6

-

-

PF

Eunotia exigua (Brébisson ex Kützing) Rabenhorst

-

-

0,8

-

PF

Fragilaria crotonensis Kitton

6,3

11,9

13,7

4,6

MF

BACILLARIOPHYTA

188

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Odontella aurita (Lyngbye) Agardh

-

0,8

-

-

PF

Surirella elegans Ehrenberg

-

Terpsinoë musica Ehrenberg

-

0,8

-

-

PF

1,2

11,6

-

F

Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg

2,0

1,2

-

2,9

MF

-

-

-

1,1

PF

25,9

21,8

-

18,4

MF

Actinastrum hantzschii Lagerheim

-

1,6

0,4

-

F

Asterococcus limneticus Smith

-

-

-

4,3

PF

Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs

-

0,8

0,4

-

F

Coelastrum microporum Nägeli

2,0

0,4

-

-

F

Cosmarium reniforme (Ralfs) Archer

-

-

0,8

-

PF

Eudorina elegans Ehrenberg

-

-

3,3

-

PF

Hyalotheca dissiliens Brébisson ex Ralfs

1,0

-

-

0,6

F

Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas

-

-

-

1,7

PF

Oedogonium sp.

26,8

5,2

-

28,7

MF

Pediastrum duplex Meyen

-

4,4

0,8

-

F

Pediastrum simplex Meyen

2,9

-

-

3,2

F

EUGLENOPHYTA
Euglena caudata Hübner
DINOPHYTA
Ceratium furcoides (Levander) Langhans
CHLOROPHYTA

Pleodorina californica Shaw

-

-

2,5

-

PF

Spirogyra sp.

2,9

2,8

10,4

6,3

MF

Staurastrum leptocladum Nordstedt

13,2

22,6

33,6

14,4

MF

Staurastrum sebaldi Reinsch

1,0

-

-

-

PF

Staurastrum manfeldtii Delponte

-

-

2,5

-

PF

Treubaria triappendiculata Bernard

-

-

1,2

-

PF
F

Volvox tertius Meyer

-

1,2

2,5

-

Diversidade de Shannon (H’)

2,12

2,39

2,24

2,22

Equitabilidade ( J)

0,78

0,80

0,76

0,82

Dominância de Simpson (ʎ)

0,17

0,13

0,17

0,15

(FO) categorias de frequência de ocorrência: (F) frequente; (PF) pouco frequente; (-) dados não
existentes; (MF) muito frequente.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

Tabela 4 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Traipu
(Baixo São Francisco). (P1) Região de Alagoas; (P2) Região entre Alagoas e Sergipe; (P3)
Região de Sergipe; (P4) Captação de água
TÁXONS

P1

P2

P3

P4

FO (%)

Anabaena spiroides Klebahn

1,1

-

-

1,7

F

Aphanizomenonflos-aquaeRalfs ex Bornet&Flahault

-

-

-

0,6

PF

Arthrospira platensis Gomont

0,5

-

1,6

-

F

Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann

0,5

2,9

-

-

F

Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya & Subba Raju

4,7

4,0

5,9

6,0

MF

Eucapsis densa Azevedo, Sant’Anna, Senna, Komárek & Komárková

2,1

1,7

1,9

3,4

MF

Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing

4,2

4,0

1,6

2,6

MF

Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont

1,6

0,6

-

-

F

Pseudanabaena catenata Lauterborn

-

-

1,3

0,6

F

CYANOBACTERIA

189

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen

0,5

0,6

1,3

2,6

MF

Cymbella lanceolata Agardh

-

-

Eunotia monodon Ehrenberg

-

-

0,8

-

PF

-

1,1

Eunotia exigua (Brébisson ex Kützing) Rabenhorst

2,1

PF

1,2

1,6

-

MF

Fragilaria crotonensis Kitton
Licmophora flabellata (Greville) Agardh

14,2

12,1

7,8

4,9

MF

-

-

0,5

-

PF

Navicula elegans Smith
Nitzschia acuminata (Smith) Grunow

-

-

0,5

-

PF

-

1,7

1,6

-

F

Nitzschia frustulum (Kützing) Grunow
Odontella aurita (Lyngbye) Agardh

-

-

0,5

-

PF

-

0,6

0,3

-

F

Pinnularia gibba (Ehrenberg) Ehrenberg

-

-

-

0,9

PF

Pinnularia persudetica Krammer

-

-

0,5

-

PF

Stauroneis anceps Ehrenberg

-

1,7

-

-

PF

Surirella elegans Ehrenberg

1,1

-

1,9

-

F

Surirella linearis Smith

-

-

0,5

6,6

F

Surirella robusta Ehrenberg

-

1,2

0,5

-

F

Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg

9,5

4,6

4,8

-

MF

0,5

1,2

0,3

-

MF

10,5

8,1

6,2

3,4

MF

Ceratium fusus (Ehrenberg) Dujardin

-

1,2

-

-

PF

Peridinium sp.

1,1

-

-

-

PF

Actinastrum hantzschii Lagerheim

2,6

2,3

2,7

2,6

MF

Ankistrodesmus densus Korshikov

1,6

-

0,8

-

F

Ankistrodesmus spiralis (Turner) Lemmermann

-

1,7

-

-

PF

Coelastrum microporum Nägeli

-

-

1,3

-

PF

Coelastrum reticulatum (Dangeard) Senn

-

-

-

0,6

PF

Desmodesmus serratus (Corda) An, Friedl & Hegewald

0,5

-

0,5

-

F

Eudorina elegans Ehrenberg

3,2

8,1

6,2

3,2

MF

Monactinus simplex (Meyen) Corda

-

1,2

-

-

PF

Oedogonium sp.

0,5

1,2

26,8

28,7

MF

Pediastrum duplex Meyen

6,8

5,2

1,6

-

MF

Pediastrum simplex Meyen

-

-

-

10,6

PF

Pleodorina californica Shaw

0,5

-

0,3

-

F

Radiococcus fottii (Hindák) Kostikov, Darienko, Lukesová & Hoffmann

3,7

-

-

-

PF

EUGLENOPHYTA
Euglena brevicaudata Gojdics
DINOPHYTA
Ceratium furcoides (Levander) Langhans

CHLOROPHYTA

Spirogyra sp.

3,2

7,5

3,2

2,0

MF

Staurastrum leptocladum Nordstedt

23,2

25,4

13,9

17,8

MF
F

Staurastrum sebaldi Reinsch

-

-

0,5

-

Diversidade de Shannon (H’)

2,60

2,63

2,70

2,36

Equitabilidade ( J)

0,81

0,83

0,78

0,80

Dominância de Simpson (ʎ)

0,11

0,11

0,12

0,14

(FO) categorias de frequência de ocorrência: (F) frequente; (PF) pouco frequente; (-) dados não
existentes; (MF) muito frequente.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

190

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 5 -Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de São
Brás (Baixo São Francisco). (P1) Região de Alagoas; (P2) Região entre Alagoas e Sergipe;
(P3) Região de Sergipe; (P4) Captação de água
TÁXONS

P1

P2

P3

P4

FO (%)

Anabaena spiroides Klebahn

0,7

-

0,7

1,7

MF

Aphanizomenonflos-aquaeRalfs ex Bornet&Flahault

1,4

-

-

0,6

F

Eucapsis densa Azevedo, Sant’Anna, Senna, Komárek & Komárková

7,7

5,8

7,5

3,4

MF

Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya & Subba Raju

3,5

3,8

1,6

6,0

MF

Gloeocapsa magma (Brébisson) Kützing

-

0,5

-

-

PF

Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing

2,8

1,5

1,0

2,6

MF

Pseudanabaena catenata Lauterborn

-

-

-

0,6

PF

Synechocystis sallensis Skuja

2,8

5,8

-

-

F

Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen

2,1

-

-

2,6

F

Bellerochea malleus (Brightwell) Van Heurck

2,1

-

-

-

P

Eunotia monodon Ehrenberg

-

0,3

0,7

1,1

M

Fragilaria crotonensis Kitton

2,1

3,6

4,3

4,9

M

Navicula grimmei Krasske

-

0,5

-

-

PF

CYANOBACTERIA

BACILLARIOPHYTA

Nitzschia hungarica Grunow

-

-

0,7

-

PF

Odontella aurita (Lyngbye) Agardh

1,4

0,3

-

-

F

Pinnularia gibba (Ehrenberg) Ehrenberg

-

-

-

0,9

PF

Pinnularia viridis (Nitzsch) Ehrenberg

1,4

-

0,7

-

F

Surirella elegans Ehrenberg

-

2,3

0,3

-

F

Surirella linearis Smith

-

-

-

6,6

PF

Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg

7,0

2,5

8,9

-

MF

1,4

0,5

1,0

-

MF

Ceratium furcoides (Levander) Langhans

21,8

5,1

5,2

3,4

MF

Peridinium cinctum (Ehrenberg) Perty

-

-

1,0

-

PF

Actinastrum hantzschii Lagerheim

-

1,5

-

2,6

F

Ankistrodesmus densus Korshikov

0,7

0,3

0,7

-

MF

Asterococcus limneticus Smith

-

15,0

-

-

PF

Coelastrum reticulatum (Dangeard) Senn

-

2,0

-

0,6

F

Eudorina elegans Ehrenberg

2,8

1,0

4,3

3,2

MF

Hyalotheca dissiliens Brébisson ex Ralfs

9,9

2,0

2,6

-

MF

Oedogonium sp.

3,5

25,4

32,8

28,7

MF

Pediastrum simplex Meyen

6,3

5,6

6,9

10,6

MF

EUGLENOPHYTA
Euglena caudata Hübner
DINOPHYTA

CHLOROPHYTA

Spirogyra sp.

-

-

0,7

2,0

F

Staurastrum leptocladum Nordstedt

17,6

14,5

18,7

17,8

MF
F

Volvox aureus Ehrenberg

0,7

0,3

-

-

Diversidade de Shannon (H’)

2,55

2,45

2,21

2,36

Equitabilidade ( J)

0,84

0,78

0,74

0,80

Dominância de Simpson (ʎ)

0,11

0,13

0,17

0,14

(FO) categorias de frequência de ocorrência: (F) frequente; (PF) pouco frequente; (-) dados não
existentes; (MF) muito frequente.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

191

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Tabela 6 -Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Igreja
Nova (Baixo São Francisco). (P1) Região de Alagoas; (P2) Região entre Alagoas e Sergipe;
(P3) Região de Sergipe; (P4) Captação de água
TÁXONS

P1

P2

P3

P4

FO (%)

-

-

0,3

-

PF

CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanizomenonflos-aquaeRalfs ex Bornet&Flahault

4,4

1,1

0,5

0,7

MF

Chroococcus limneticus Lemmermann

19,3

22,9

10,5

11,9

MF

Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing

2,5

1,4

0,9

1,7

MF

Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont

0,4

0,5

-

-

F

Phormidium sp.

1,2

1,8

1,9

-

MF

Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen

18,4

22,9

12,8

25,8

MF

Biddulphia sp.

-

0,5

-

-

PF

Caloneis amphisbaena (Bory) Cleve

0,2

0,7

-

0,7

MF

Caloneis obtusa (Smith) Cleve

0,2

0,7

-

-

F

Coscinodiscus radiatus Ehrenberg

-

1,8

-

-

PF

Cymbella sp.

0,6

0,7

0,3

0,7

MF

Eunotia monodon Ehrenberg

1,0

6,2

9,9

0,7

MF

Fragilaria crotonensis Kitton

0,6

0,2

1,7

2,3

MF

Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni

0,6

1,1

-

0,7

MF

Meridion circulare (Greville) Agardh

0,4

-

-

-

PF

Nitzschia linearis Smith

10,1

-

2,2

18,9

MF

Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller

0,4

0,5

0,3

-

MF

Surirella linearis Smith

4,4

0,9

-

0,7

MF

Surirella robusta Ehrenberg

1,0

0,5

-

-

F

Tryblionella hungarica (Grunow) Frenguelli

1,0

1,1

-

1,0

MF

Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg

4,8

-

-

-

PF

Ceratium furcoides (Levander) Langhans

4,3

3,0

2,4

5,0

MF

Peridinium sp.

0,4

-

0,5

0,7

MF

Actinastrum hantzschii Lagerheim

-

1,4

0,8

-

F

Ankistrodesmus fusiformis Corda

0,4

-

0,3

-

F

Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs

1,2

0,2

-

-

F

Coelastrum microporum Nägeli

-

0,2

0,4

-

F

Cosmariummargaritatum (Lundell) Roy & Bisset

0,4

0,5

0,1

-

MF

Desmidium grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary

0,8

-

-

-

PF

Dimorphococcus lunatus Braun

-

0,2

6,9

-

F

Eudorina elegans Ehrenberg

0,6

0,9

12,8

0,7

MF

BACILLARIOPHYTA

DINOPHYTA

CHLOROPHYTA

Kirchneriella contorta (Schmidle) Bohlin

-

-

0,6

-

PF

Kirchneriella elongata Smith

0,2

0,2

0,5

-

MF

Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius

-

0,2

0,9

0,7

MF

Kirchneriella obesa (Oeste) Oeste & West

-

0,5

0,1

-

F

Micractinium pusillum Fresenius

-

-

0,4

-

PF

Nephrocytium lunatum West

-

-

0,6

-

PF

Pandorina morum (Müller) Bory

0,4

1,1

5,6

-

MF

Pediastrum duplex Meyen

-

-

0,1

-

PF

192

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Pediastrum simplex Meyen

6,4

8,9

9,4

12,9

MF

Pleodorina californica Shaw

-

9,4

11,8

6,6

MF

Scenedesmus subspicatus Chodat

-

0,5

-

-

PF

Spyrogira sp.

10,4

4,3

-

3,0

MF

Staurastrum leptocladum Nordstedt

3,1

2,7

3,2

5,0

MF

Staurastrum sebaldi Reinsch

-

0,2

0,4

-

F

Tetraspora gelatinosa (Vaucher) Desvaux

-

-

0,3

-

PF

Volvox aureus Ehrenberg

0,2

-

0,6

-

F

Diversidade de Shannon (H’)

2,62

2,55

2,71

2,27

Equitabilidade ( J)

0,76

0,72

0,77

0,76

Dominância de Simpson (ʎ)

0,11

0,13

0,09

0,14

(FO) categorias de frequência de ocorrência: (F) frequente; (PF) pouco frequente; (-) dados não
existentes; (MF) muito frequente.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

Tabela 7 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de
Propriá (Baixo São Francisco). (P1) Região de Alagoas; (P2) Região entre Alagoas e
Sergipe; (P3) Região de Sergipe; (P4) Captação de água
TÁXONS

P1

P2

P3

P4

FO (%)

0,6

0,4

0,8

1,7

MF

CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanizomenonflos-aquaeRalfs ex Bornet&Flahault

-

-

-

1,1

PF

Chroococcus limneticus Lemmermann

18,6

7,3

4,2

11,4

MF

Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing

1,2

0,4

-

-

F

Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen

25,3

17,2

20,2

13,1

MF

Biddulphia sp.

0,9

0,4

-

-

F

Caloneis amphisbaena (Bory) Cleve

0,3

0,4

1,7

-

MF

Eunotia monodon Ehrenberg

1,2

43,1

1,7

-

MF

Fragilaria crotonensis Kitton

3,0

2,2

1,7

-

MF

Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg

-

2,6

-

-

PF

Meridion circulare (Greville) Agardh

0,9

-

-

-

PF

Nitzschia linearis Smith

5,2

1,7

6,7

-

MF

Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller

0,6

-

-

-

PF

Surirella linearis Smith

1,2

1,3

3,4

-

MF

Tryblionella hungarica (Grunow) Frenguelli

0,9

0,4

-

-

F

BACILLARIOPHYTA

DINOPHYTA
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve

4,3

-

3,4

3,4

MF

Peridinium sp.

0,3

1,3

1,7

-

MF

CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim

1,2

-

1,7

-

F

Ankistrodesmus fusiformis Corda

1,2

0,9

-

1,1

MF

Coelastrum microporum Nägeli

0,6

-

-

-

PF

Eudorina cylindrica Korshikov

-

0,9

-

1,1

F

Eudorina elegans Ehrenberg

1,2

2,6

3,4

8,0

MF

Micractinium pusillum Fresenius

-

-

1,7

-

PF

Pandorina morum (Müller) Bory

-

-

1,7

1,7

F

Pediastrum duplex Meyen

-

-

-

6,9

PF

193

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Pediastrum simplex Meyen

10,4

7,8

18,5

-

MF

Pleodorina californica Shaw

1,2

3,9

15,1

50,3

MF

Spirogyra sp.

-

1,7

0,8

-

F

Staurastrum leptocladum Nordstedt

18,9

3,4

10,1

-

MF

Staurastrum sebaldi Reinsch

0,6

-

1,7

-

F

Diversidade de Shannon (H’)

2,27

2,02

2,44

1,65

Equitabilidade ( J)

0,72

0,67

0,83

0,69

Dominância de Simpson (ʎ)

0,15

0,23

0,12

0,30

(FO) categorias de frequência de ocorrência: (F) frequente; (PF) pouco frequente; (-) dados não
existentes; (MF) muito frequente.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

Tabela 8 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de
Penedo (Baixo São Francisco). (P1) Região de Alagoas; (P2) Região entre Alagoas e
Sergipe; (P3) Região de Sergipe; (P4) Captação de água
TÁXONS

P1

P2

P3

P4

FO (%)

CYANOBACTERIA
Aphanizomenonflos-aquaeRalfs ex Bornet&Flahault

0,3

1,2

-

-

F

Chroococcus limneticus Lemmermann

19,6

17,5

9,9

11,5

MF

Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing

1,0

1,2

1,6

7,7

MF

Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont

0,7

0,3

-

-

F

Phormidium sp.

-

0,6

-

-

PF

Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen

35,0

30,8

32,9

42,3

MF

Caloneis amphisbaena (Bory) Cleve

0,7

0,3

1,3

-

MF

Coscinodiscus radiatus Ehrenberg

1,0

-

0,3

-

F

Cymbella sp.

0,7

0,9

1,3

-

F

Eunotia monodon Ehrenberg

1,4

2,2

0,7

-

MF

Fragilaria crotonensis Kitton

1,4

2,8

1,6

-

MF

Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni

0,3

-

1,0

-

F

Nitzschia hungarica Grunow

-

-

-

19,2

PF

Nitzschia linearis Smith

4,2

9,5

9,2

-

MF

Pleurosigma sp.

0,7

-

0,7

-

F

Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller

-

0,6

0,7

-

F

Surirella guatimalensis Ehrenberg

0,7

-

-

-

PF

Surirella linearis Smith

3,5

1,5

3,0

7,7

MF

Tryblionella hungarica (Grunow) Frenguelli

0,7

1,2

0,7

-

MF

Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve

2,4

4,0

3,0

-

MF

Peridinium sp.

0,3

-

0,7

-

MF

Actinastrum hantzschii Lagerheim

-

0,3

0,7

-

MF

Ankistrodesmus fusiformis Corda

0,7

0,6

-

-

MF

Coelastrum microporum Nägeli

0,7

0,6

-

-

MF

Eudorina cylindrica Korshikov

0,0

0,6

0,7

-

MF

Eudorina elegans Ehrenberg

1,0

2,5

0,7

-

MF

Kirchneriella elongata Smith

0,3

0,6

0,3

-

MF

Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius

0,7

0,6

0,3

-

MF

BACILLARIOPHYTA

DINOPHYTA

CHLOROPHYTA

194

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Kirchneriella obesa (Oeste) Oeste & West

1,0

-

0,3

-

F

Pandorina morum (Müller) Bory

0,3

0,3

0,7

-

MF

Pediastrum simplex Meyen

13,6

12,9

16,1

11,5

MF

Pleodorina californica Shaw

1,7

1,5

0,7

-

MF

Spirogyra sp.

1,4

2,2

3,9

-

MF

Staurastrum leptocladum Nordstedt

2,8

1,8

6,3

-

MF

Staurastrum sebaldi Reinsch

0,0

0,6

0,3

-

F

Xanthidium antilopaeum Kützing

0,7

-

0,7

-

F

Diversidade de Shannon (H’)

2,29

2,37

2,37

1,57

Equitabilidade ( J)

0,67

0,71

0,70

0,88

Dominância de Simpson (ʎ)

0,19

0,16

0,16

0,25

(FO) categorias de frequência de ocorrência: (F) frequente; (PF) pouco frequente; (-) dados não
existentes; (MF) muito frequente.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

Tabela 9 -Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de
Piaçabuçu (Baixo São Francisco). (P1) Região de Alagoas; (P2) Região entre Alagoas e
Sergipe; (P3) Região de Sergipe; (P4) Captação de água
TÁXONS

P1

P2

P3

P4

FO (%)

0,4

0,4

2,1

-

MF

CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanizomenonflos-aquaeRalfs ex Bornet&Flahault

-

-

1,0

1,7

F

Chroococcus limneticus Lemmermann

16,3

17,6

20,7

17,2

MF

Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing

1,9

5,3

3,7

2,2

MF

Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont

-

-

-

0,3

PF

Phormidium sp.

0,4

-

0,6

-

F

Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen

38,8

17,6

20,7

17,2

MF

Aulacoseira granulata var. angustissima (Müller) Simonsen

0,4

0,5

-

-

F

Biddulphia sp.

-

-

0,8

0,5

F

Caloneis amphisbaena (Bory) Cleve

-

0,5

-

0,3

F

Coscinodiscus radiatus Ehrenberg

0,4

0,7

-

3,8

MF

Cymbella sp.

0,8

-

1,0

0,5

MF

Eunotia monodon Ehrenberg

0,8

-

1,9

1,4

MF

Fragilaria crotonensis Kitton

1,6

3,7

2,1

1,4

MF

Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni

-

-

0,6

-

PF

Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg

-

-

0,4

-

PF

Meridion circulare (Greville) Agardh

-

0,4

-

-

PF

Nitzschia linearis Smith

-

1,9

4,5

7,2

MF

Surirella linearis Smith

0,4

3,0

-

2,2

MF

Terpsinoë musica Ehrenberg

0,4

0,2

0,2

-

MF

Tryblionella hungarica (Grunow) Frenguelli

-

-

2,1

0,9

F

Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve

1,2

4,9

2,5

1,0

MF

Peridinium sp.

-

0,5

-

-

PF

Actinastrum hantzschii Lagerheim

0,4

1,4

-

1,2

MF

Ankistrodesmus fusiformis Corda

0,4

-

0,4

0,5

MF

BACILLARIOPHYTA

DINOPHYTA

CHLOROPHYTA

195

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Coelastrum astroideum De Notaris

-

0,7

1,0

-

F

Coelastrum microporum Nägeli
Cosmariummargaritatum (Lundell) Roy & Bisset

0,4

-

-

0,5

F

-

0,2

-

0,7

F

Desmodesmus communis (Hegewald) Hegewald

-

-

0,4

-

PF

Eudorina cylindrica Korshikov

4,3

1,4

1,4

-

MF

Eudorina elegans Ehrenberg

6,2

2,5

-

3,8

MF

Kirchneriella elongata Smith

0,8

0,2

0,6

0,5

MF

Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius

-

0,2

0,8

-

F

Kirchneriella obesa (Oeste) Oeste & West

0,8

0,4

-

-

F

Micractinium pusillum Fresenius

-

0,4

-

0,9

F

Pandorina morum (Müller) Bory

-

0,4

-

0,5

F

Pediastrum simplex Meyen

20,2

17,6

20,7

17,2

MF

Pleodorina californica Shaw

-

1,9

4,1

4,6

MF

Scenedesmus acuminatus (Lagerheim) Chodat

-

-

-

1,0

PF

Scenedesmus subspicatus Chodat

-

0,4

-

0,9

F

Spirogyra sp.

-

2,6

1,9

3,3

MF

Staurastrum leptocladum Nordstedt

3,1

11,4

3,7

5,7

MF

Staurastrum sebaldi Reinsch

-

0,7

-

0,7

F
F

Volvox aureus Ehrenberg

-

0,7

-

0,3

Diversidade de Shannon (H’)

1,94

2,54

2,43

2,68

Equitabilidade ( J)

0,63

0,74

0,75

0,78

Dominância de Simpson (ʎ)

0,23

0,12

0,14

0,11

(FO) categorias de frequência de ocorrência: (F) frequente; (PF) pouco frequente; (-) dados não
existentes; (MF) muito frequente.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

Tabela 10 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton da foz (Baixo São Francisco).
(P1) Região de Alagoas; (P2) Região de Sergipe
TÁXONS

P1

P2

Aphanizomenonflos-aquaeRalfs ex Bornet&Flahault

3,8

-

Chroococcus limneticus Lemmermann

6,7

-

Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya & Subba Raju

-

1,8

Dolichospermumsolitarium (Klebahn) Wacklin, Hoffmann &Komárek

-

0,7

Eucapsis densa Azevedo, Sant’Anna, Senna, Komárek & Komárková

-

3,2

Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing

0,4

1,1

Phormidium sp.

0,7

-

Asterionellopsis glacialis (Castracane) Round

-

1,1

Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen

22,4

-

Aulacoseira granulata var. angustissima (Müller) Simonsen

0,4

-

Biddulphia sp.

1,3

-

Coscinodiscus centralis Ehrenberg

-

3,6

Coscinodiscus radiatus Ehrenberg

9,0

0,2

Cyclotella stylorum Brightwell

-

0,5

Entomoneis alata (Ehrenberg) Ehrenberg

-

0,9

Fragilaria crotonensis Kitton

0,9

3,2

Nitzschia frustulum (Kützing) Grunow

-

0,9

CYANOBACTERIA

BACILLARIOPHYTA

196

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Nitzschia linearis Smith

1,8

-

Surirella elegans Ehrenberg

-

0,7

Surirella guatimalensis Ehrenberg

0,4

-

Surirella linearis Smith

1,1

-

Tabellaria fenestrata (Lyngbye) Kützing

-

1,4

Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg

-

1,8

Ceratium furcoides (Levander) Langhans

-

3,4

Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve

2,0

-

2,7

3,2

Chlorococcum infusionum (Schrank) Meneghini

-

5,2

Coelastrum microporum Nägeli

1,1

-

Eudorina elegans Ehrenberg

1,8

0,7

Micractinium pusillum Fresenius

0,4

-

Oedogonium sp.

0,9

22,7

Pediastrum duplex Meyen

-

9,1

Pediastrum simplex Meyen

22,4

19,3

Pleodorina californica Shaw

4,3

-

Scenedesmus acuminatus (Lagerheim) Chodat

0,4

0,5

Spirogyra sp.

7,6

1,1

Staurastrum leptocladum Nordstedt

5,8

13,2

Staurastrum sebaldi Reinsch

1,3

-

Staurastrum setigerum Cleve

-

0,5

Diversidade de Shannon (H’)

2,47

2,49

Equitabilidade ( J)

0,78

0,77

0,13

0,12

DINOPHYTA

CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim

Dominância de Simpson (ʎ)

(-) dados não existentes.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

197

CAPÍTULO 10 - MONITORAMENTO DE PESTICIDAS
NO BAIXO SÃO FRANCISCO
Mozart Daltro Bispo1
João Inácio Soletti2

Sandra Helena Vieira de Carvalho3
Franciele Maria Rodrigues Dias4

Hanna Francyelle Barbosa Costa5
Emerson Carlos Soares6

Antônio Euzébio Goulart de Sant’Ana7
Henrique Fonseca Goulart8

Resumo: Uma quantidade expressiva dos pesticidas largamente utilizados na agricultura,
mesmo que presentes em baixa concentração, apresentam-se como poluentes de alta toxicidade,
com alto poder contaminante da água, do solo e também do ar, principalmente durante
sua aplicação. A dificuldade e o custo das análises para sua identificação e a ineficiência
do tratamento convencional de águas para consumo humano, aliados à falta de legislação
sobre o tema, têm propiciado seu acúmulo na biosfera. Este capítulo apresenta o estudo
realizado na parte do Baixo São Francisco, entre Paulo Afonso e a foz do rio. O trajeto
corresponde a aproximadamente 214 km de extensão, tendo sido as amostragens de água
realizadas no período de 02 a 09 de novembro de 2021, em pontos estratégicos do rio, à
jusante das cidades de: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Propriá e Penedo. Para o
monitoramento analítico, foi utilizada a cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de
massa. Foi detectada a presença de 14 pesticidas, dentre os 31 avaliados. Entre os compostos
identificados, três são classificados como extremamente tóxicos, seis são classificados como
altamente tóxicos, cinco são classificados como medianamente tóxicos. Na cidade de Pão de
Açúcar, foi identificada a presença dos três compostos, sendo dois deles altamente tóxicos.
Em Traipu, quatro compostos, sendo um deles de extrema e dois de alta toxicidade. Em São
Brás, quatro, sendo três idênticos aos encontrados em Traipu. Propriá e Penedo foram os
municípios que apresentaram maior diversidade de contaminantes pesticidas, respectivamente:
9 e 10 poluentes.
1 Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
2 Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
3 Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
4 Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
5 Laboratório de Aquicultura e Análise de Águas (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias
(CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
6 Laboratório de Aquicultura e Análise de Águas (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias
(CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
7 Laboratório de Pesquisa em Química de Produtos Naturais (LPQPN), Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
8 Laboratório de Pesquisa em Química de Produtos Naturais (LPQPN), Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Palavras-chave: Cromatografia. Extração. Poluentes Emergentes.

INTRODUÇÃO
Os poluentes aquáticos, dentre eles os pesticidas, chegam ao meio ambiente a partir
de várias fontes antropogênicas e são distribuídos pelas matrizes ambientais. Nas últimas
décadas, o aumento da concentração dos pesticidas – podendo ser denominados poluentes
emergentes (PEs) – tem ocorrido devido ao contínuo desenvolvimento e refinamento de
novas técnicas, por exemplo: carcinicultura, cultivo do arroz, atividades industriais, agrárias,
resíduos hospitalares, esgoto doméstico, novos fármacos e novos produtos de higiene, limpeza
e cosméticos, dentre outros (GEISSEN, 2015).
Uma grande variedade de contaminantes de preocupação ambiental não detectados
necessitam ser identificados e quantificados na matriz ambiental. Muitos destes poluentes
apresentam grande toxicidade e são persistentes no ar, na água, em sedimentos e receptores
ecológicos, mesmo em baixas concentrações (SAQUIB et al., 2021).
Não há dados sobre a destinação e o comportamento da maioria dos poluentes
emergentes já identificados no meio ambiente, bem como as possíveis ameaças à saúde
ecológica e humana. Portanto, o monitoramento, como também o desenvolvimento de novas
tecnologias para remediação e tratamento dos recursos hídricos para água potável, tem sido
um grande desafio. Em vários casos, falta regulamentação para avaliação do impacto de longo
prazo da exposição a baixos níveis de compostos químicos no meio ambiente, uma vez que
as classes da maioria destes compostos ainda não foram estudadas em detalhes. Isto tem sido
atribuído, principalmente, à falta de padrões adequados para técnicas de análise instrumental,
considerandoas baixas concentrações no meio ambiente (MONTAGNER et al., 2017).
Para compreender toda a gama dos efeitos dos contaminantes, é fundamental qualificar
e quantificar as concentrações dos poluentes na fonte de emissão e nos compartimentos
ambientais, bem como em organismos vivos (invertebrados e peixes, dentre outros)
(PIZZOCHERO et al., 2019).
Assim, pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas têm trabalhado em conjunto
para identificação e possível monitoramento de contaminantes emergentes no Baixo São
Francisco. Encontram-se envolvidos os seguintes laboratórios: Laboratório de Sistema de
Separação e Otimização de Processos (Lassop), do Centro de Tecnologia; Laboratório de
Pesquisa em Recursos Naturais (LPqRN), do Centro de Ciências Agrárias, e Laboratório
de Aquicultura (Laqua), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA).

DESENVOLVIMENTO
Foi realizado o levantamento literário indicando alguns dos principais poluentes em
rios. Dentre os poluentes emergentes, destacam-se os pesticidas geralmente utilizados na
agricultura. A metodologia experimental baseia-se na utilização de padrões e derivatizante
(método analítico para identificação dos padrões), seguida pelo processo de pré-tratamento,
extração e análise por cromatografia gasosa com espectrometria de massas (GC-MS)
(ACAYABA, 2017; PIZZOCHERO, 2019).
O primeiro passo é a identificação e quantificação de possíveis poluentes emergentes
presentes em algumas localidades do Baixo São Francisco. Uma vez identificados, são

199

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

realizadas pesquisas visando estudar os possíveis tratamentos para remoção. É preciso avaliar
a eficácia das diferentes alternativas de tratamento, considerando os custos de implementação.
Além disso, faz-se necessário estudar não apenas sua toxicidade, mas também os efeitos da
contaminação no meio ambiente e na saúde humana.
Os pesticidas são reconhecidos como reagentes para proteger as culturas contra
pragas e doenças nocivas em humanos. O resultado controlado dos agrotóxicos faz com que
se tornem uma importante ferramenta para manter e melhorar o padrão de vida da população
global. Segundo Saquib et al. (2021), uma média de 2 milhões de toneladas de pesticidas é
utilizada, anualmente, para combater ervas daninhas, insetos e pragas.
O uso excessivo de pesticidas vem recebendo preocupação mundial, uma vez que
os agrotóxicos tendem a se acumular nos organismos aquáticos e sedimentar no solo,
apresentando riscos à saúde humana. Muitas formulações de pesticidas foram introduzidas,
devido ao rápido crescimento no mercado global, resultado do amplo uso nos setores agrícolas
e não agrícolas. A ocorrência de agrotóxicos no corpo hídrico, tanto superficial como, no
decorrer do tempo, em águas subterrâneas, é derivada do escoamento dos campos agrícola,
doméstico, da agropecuária e de efluentes industriais.
Consequentemente, o uso indiscriminado de agrotóxicos degrada a qualidade e
reduz o fornecimento de água limpa para água potável. Segundo Guneseret al. (2017),
a exposição crônica a pesticidas através da ingestão de água pode reduzir a imunidade,
interromper o equilíbrio hormonal, desencadear problemas relacionados à reprodução,
apresentar efeitos cancerígenos e reduzir a inteligência, principalmente em crianças em
estágio de desenvolvimento corporal; portanto, estes elementos são apontados como
poluentes do ambiente.
No Brasil, o Programa Nacional de Avaliação da Qualidade das Águas (PNQA, 2022),
lançado pela Agência Nacional de Águas, visa ampliar o conhecimento sobre a qualidade
das águas superficiais e tem por objetivo contribuir com a gestão sustentável dos recursos
hídricos no Brasil e orientar a elaboração de políticas públicas para a recuperação da qualidade
ambiental em corpos d’água interiores, como rios e reservatórios.
Com base na Avaliação Nacional da Qualidade da Água (NAWQA), os pesticidas
são encontrados mais frequentemente em águas superficiais (RIBEIRO et al., 2007). Isto
demostra que a ocorrência de agrotóxicos prevalece nestas águas, devido à mobilização direta
e rápida por via terrestre de agrotóxicos, por meio de escoamento superficial (BUSS, 2003).
Segundo a Norman Network (2022), rede autossustentável permanente de laboratórios
de referência, centros de pesquisa e organizações relacionadas para monitoramento e
biomonitoramento de substâncias ambientais emergentes, atualmente, mais de 700 tipos
dessa variedade de poluentes, seus metabólitos e produtos de transformação estão listados
como presentes no meio aquático.

Classificação dos pesticidas

A classificação convencional de pesticidas inclui herbicidas, inseticidas, raticidas,
fungicidas e outras classe de compostos. Herbicidas e inseticidas são os tipos de pesticidas
mais utilizados, dominando 47,5%, e os últimos, 29,5% do consumo total de pesticidas. Os
principais países consumidores de pesticidas incluem China, Estados Unidos, Argentina,
Índia, Japão, Canadá, Brasil, França, Itália e Tailândia (GEISSEN, 2015). A Tabela 1 apresenta
as classes e os compostos químicos de inseticidas, herbicidas e fungicidas.

200

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 1 - Classificação dos pesticidas com base nas espécies-alvo
Pesticidas

Classes e Substâncias

Organoclorados: Endosulfan
Organofosforados: Diazinon, Malathion, Paration, Clorpirifós

Inseticida

Carbamato: Aldicarb, Carbofuran, Carbaril
Piretroide: Deltametrina, Fenpropatrina
Neonicotinoide: Acetamiprid, Tiametoxam
Degradado de Fenilpirazol: Aldicarb Sulfóxido, Endosulfan Sulfato

Herbicida

Triazina: Atrazina, Cianazina
Cloroacetamida: Alacloro, Butacloro, Dimetenamida, Metolacloro
Benzamida: Fluopicolide, Zoxamida
Carboxamida: Boscalid, Captafol

Fungicida

Hidrocarboneto Clorado: Hexaclorbenzeno
Organofosfato: Edifenfos, Iprobenfos
Clorofenil: Diclorano, Quintozeno

Fonte: Geissen (2015).

Os inseticidas são usados em fazendas, instalações de armazenamento de alimentos
ou hortas domésticas para controlar insetos. Os herbicidas são compostos exterminadores
de ervas daninhas e normalmente incluídos em reguladores de crescimento de plantas. Os
fungicidas previnem a infecção por fungos em plantas ou sementes e geralmente são aplicados
antes de o fungo estar presente ou após o fungo infectar as espécies de plantas. Além disso, o
pesticida pode ser classificado com base no modo de ação sobre as pragas como destruidor,
mitigante e repelente (MARCHI et al., 2008; GUEDES et al., 2008).

Principais usuários

A contaminação da água por pesticidas é causada por produtos químicos persistentes
de agrotóxicos liberados de atividades agrícolas, uso urbano e fábricas de produção de
agrotóxicos ( JARDIM et al., 2009; RIGOTTO et al., 2014).
Os agricultores são os principais usuários de pesticidas; aplicam uma enorme quantidade
deles para proteger e aumentar o rendimento das colheitas. Além disso, a indústria de tratamento
de madeira utiliza uma enorme quantidade de inseticida (BURALLI et al., 2020).
Dependendo das características, compostos químicos do agrotóxico aplicado
tendem a ser liberados no meio ambiente, tornando-se uma das fontes de contaminação
em águas superficiais.
Apesar do grande uso de pesticidas nos setores agrícolas, o uso urbano, principalmente
na horta interna, para controle de pragas, é uma grande fonte de contaminação da água. O
inseticida é detectado mais profundamente em ambientes urbanos do que outros tipos de
pesticidas, como herbicidas e fungicidas (NUNES et al., 2021).
Após a revolução verde, o crescimento do consumo de pesticidas levou à produção ativa
de formulações deles, o que aumentou o número de fabricantes em todo o mundo (AMEEN;
RAZA, 2018). Inevitavelmente, os processos de lixiviação de pesticidas ao longo dos processos
de fabricação de pesticidas, bem como no local de despejo e em efluentes de águas residuais,
contribuem para a contaminação por pesticidas de fonte pontual (KATAGI, 2013).
Desde 2008, o Brasil lidera o consumo global de agroquímicos, posição anteriormente
ocupada pelos Estados Unidos. O consumo brasileiro de pesticida atingiu cerca de 496

201

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

mil toneladas de ingredientes ativos em 2013, de acordo com o último relatório disponível
(RIGOTTO et al., 2014).

Destino e transporte de pesticidas

O estudo sobre destino e transporte de pesticida é importante para conhecer sua
circulação na biosfera (BERGSTROM, 2000). Os pesticidas encontram uma variedade de
paradeiros após serem aplicados na Terra. O que não é absorvido pelas plantas fica retido
no solo ou é submetido à degradação em outras formas químicas (BEDMAR et al., 2004;
BEIGEL; DI PIETRO, 1999; KATAGI, 2013).
Os pesticidas solúveis são levados pelas moléculas de água, especialmente durante os
eventos de precipitação, percolando para baixo nas camadas do solo e, eventualmente, atingindo
as águas subterrâneas. Caso isso não ocorra, produtos com menor solubilidade acumulam-se na
camada superficial do solo, com tendência de escoamento e erosão para as águas superficiais,
contaminando lagos, córregos e rios (KATAGI, 2013; IBRAHIM et al., 2020).
Os pesticidas são mais suscetíveis ao escoamento imediatamente após a aplicação
na superfície do solo, na faixa de 0,25 cm a 0,85 cm da superfície (KATAGI, 2013). A
contaminação da água também ocorre a partir da volatilização para a atmosfera, sendo
carreados pela chuva, contaminando os corpos d’água superficiais e o solo. No entanto, este
caminho é pouco significativo.
Em geral, os pesticidas entram no sistema hidrológico por lixiviação, através das
camadas do solo, sendo o grau de contaminação de pesticidas na água afetado por: propriedades
do pesticida; características do solo; condições locais, bem como práticas de aplicação e gestão
de pesticidas (FOGG et al., 2004a; 2004b).

Efeitos para a saúde

Apesar da grande importância dos pesticidas na manutenção da boa qualidade e
proteção das culturas ou matérias-primas, eles representam um alto grau de preocupação
para a saúde humana. Isto se deve pela tendência de acúmulo, junto à membrana celular,
interrompendo o sistema de funcionamento do corpo (SANKHLA et al., 2018; NUNES
et al., 2021).
Os seres humanos são expostos a pesticidas na água, principalmente por contato dérmico
e por ingestão (NUNES et al., 2021). Foi comprovado que a exposição a pesticidas resulta
em imunossupressão, interrupção hormonal, redução da inteligência, distorção reprodutiva
e câncer. Os impactos da exposição a pesticidas em humanos podem ser categorizados em
problemas de saúde agudos e problemas de saúde crônicos.
Os problemas crônicos abrangem efeitos neurológicos, como o início da doença de
Parkinson, redução da capacidade de atenção, distúrbios de memória, problemas reprodutivos,
perturbação do desenvolvimento infantil, defeitos congênitos e câncer.
Já os efeitos agudos dependem da toxicidade do pesticida. Os mais comuns são:
redução da visão, dores de cabeça, salivação, diarreia, náuseas, vômitos, sibilos, coma e até
morte. O envenenamento moderado por pesticidas leva a mimetizar asma intrínseca, bronquite
e gastroenterite (SANKHLA et al., 2018).
Segundo Nunes et al. (2021), agricultores apresentam alta probabilidade de induzir
câncer de próstata e asma alérgica ou não alérgica devido à exposição frequente ao pesticida

202

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

clorado, uma fonte considerável de contaminação da água. O inseticida é detectado mais
profundamente em ambientes urbanos do que outros tipos de pesticidas, como herbicidas
e fungicidas.
Como medida para proteger a saúde pública, níveis de orientação para pesticidas
na água potável foram implementados pelos governos nacionais. Existem vários valores de
orientação, mas poucos deles são emitidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a
Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO), que estabelecem
níveis aceitáveis de resíduos de pesticidas.
Os valores de referência podem diferir com base nas condições socioeconômicas,
dietéticas, geográficas e industriais; contudo, têm como objetivo visar à qualidade de água
adequada para consumo a longo prazo (SOLOMON, 2015; SANKHLA et al., 2018). A falta
de dados sobre a ocorrência de contaminantes nas águas inibe a priorização das substâncias
a serem regulamentadas e o estabelecimento de critérios para a água potável em relação aos
riscos associados ao seu consumo (SANKHLA et al., 2018).
Atualmente, no Brasil, existem 380 princípios ativos autorizados pelo Ministério da
Agricultura para defensivos agrícolas utilizados nas lavouras e 1.670 produtos fitofarmacêuticos
formulados no mercado. O registro de agrotóxicos é regulamentado pelo Decreto nº 4.074/2002. É
uma responsabilidade compartilhada entre Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
(Mapa), Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Ministério da Saúde (MS).
Ainda em março de 2022, o Mapa registrou 26 defensivos agrícolas, sendo três de
princípio ativo inédito para uso dos agricultores, dentre eles a Ametoctradina, fungicida
sistêmico, registrado em mistura com o fungicida Dimetomorfe, para uso em batata, alho,
abóbora, abobrinha e chuchu, além de uma mistura inédita e quatro registros para uso na
produção orgânica (MAPA, 2022).
São necessários métodos analíticos químicos adequados para a detecção de pesticidas
e contaminantes emergentes.

Técnicas analíticas

Segundo Chow et al. (2020), as dificuldades na implementação de monitoramentos
capazes de retornar dados significativos a respeito do real impacto sobre o meio ambiente
aquático relacionado ao uso de muitos pesticidas no território nacional e internacional também
podem ser atribuídas às criticidades analíticas ligadas à determinação de compostos químicos
em diferentes matrizes ambientais.A seleção desses compostos a serem regulamentados não
é fácil, tanto a identificação, como também a quantificação.
Existem diversas técnicas de preparo de amostras.As principais são: extração líquidolíquido (LLE), extração em fase sólida (SPE) e microextração em fase sólida (SPME). Além
das citadas, muitas outras têm sido usadas para a preparação de pesticidas a partir de água e
outras matrizes de amostra (MAJZIK-SOLYMOS et al., 2001; VASILJEVIĆ et al., 2012;
MUHLEN; LANÇAS, 2014).
Metodologias da Agência de Proteção Ambiental (EPA) incluem a SPME como o
procedimento recomendado para o pré-tratamento de poluentes orgânicos. A SPME é um
dos métodos mais utilizados para extração, por ser inovador e mais vantajoso do ponto de
vista de eficiência de tempo, redução de reagentes, segurança e maior sensibilidade. Estas
abordagens inovadoras derivam da miniaturização dos procedimentos básicos de extração
(HWANG; LEE, 2000).

203

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O acoplamento de técnicas de Cromatografia Gasosa com SPME baseia-se no
equilíbrio entre o analito e a fase de extração que cobre a fibra revestida com uma pequena
quantidade de uma fase polimérica extratora, bastante semelhante às utilizadas para colunas
de cromatografia gasosa – por exemplo, Polidimetilsiloxano (PDMS), Polietilenoglicol (PEG)
e Poliacrilato (PA) (ABDULRA’UF et al., 2012).
A extração de SPME pode ocorrer de duas maneiras: expondo a fibra na fase de
vapor acima da amostra, ou seja, no headspace (HEAD SPACE-SPME) ou por imersão da
fibra na amostra líquida (DIRECT-SPME). Ao processar matrizes complexas, o HEAD
SPACE-SPME é o preferido, porque as interferências podem entupir o extrator que cobre
a fibra; os analitos devem ser suficientemente voláteis para passar facilmente no headspace
(NASCIMENTOet al., 2019).
Em alguns estudos, a limitação do SPME também se refere à natureza dos
analitos hidrofóbicos fixados na parede dos recipientes de amostra, reduzindo a precisão
da determinação. Neste contexto, acredita-se que a amostragem no local da SPME seja a
abordagem futura para resolver este problema (MENEZES et al.,2009).
A Espectrometria de Massa (MS) é reconhecida como uma técnica extremamente
sensível e específica, ganhando uma posição de destaque para análises ambientais orgânicas. A
associação entre cromatografia e espectrometria de massa funde o grande poder discriminante
de um instrumento com o forte poder de separação, alcançando a complementaridade do
desempenho qualitativo e de quantificação das técnicas individuais. A GC-MS é, atualmente,
essencial para a identificação estrutural positiva e sensível de pesticidas e outros poluentes
no meio ambiente (RAINA, 2011).
A abordagem GC-MS combinada com técnicas de extração de SPME também é
mencionada por métodos regulamentados (ISO 27108, 2013; ASTM D 6520, 2000). Esta
técnica de extração traz várias vantagens, bem como algumas limitações (NATANGELO
et al., 1999).
O presente trabalho usa uma combinação de SPE e GC-MS como ferramenta
analítica para a triagem de 31 de pesticidas em águas superficiais, na parte baixa do Rio São
Francisco. Os objetivos deste estudo foram:
(1) estabelecer um único procedimento de extração utilizando SPE que permita a
determinação multirresíduo de compostos selecionados, pertencentes a diferentes grupos
químicos, nas águas superficiais do Rio São Francisco;
(2) combinar a etapa de preparação da amostra com o uso de GC-MS, usando o modo
de monitoramento de íons (SIM; Selective Ion Monitoring) e (SCAN; Scanning) selecionado
para a qualificação dos analitos-alvo e investigação de outros possíveis contaminantes;
(3) aplicar a metodologia desenvolvida para a análise de rotina de amostras de
água do Rio São Francisco, em diferentes estações, no âmbito de um inquérito alargado de
monitorização da qualidade da água, que incluiu 1 amostra (jusante) em seis municípios na
bacia do rio; e
(4) avaliar o risco provocado pelos pesticidas no Rio São Francisco.

Área de estudo

O estudo foi realizado no Baixo São Francisco, correspondente à área entre Paulo
Afonso, na Bahia, e a foz do rio, entre os Estados de Alagoas e Sergipe. O trajeto equivale a
aproximadamente 214 km de extensão, tendo sido as amostragens coletadas no período de
02 a 09 de novembro de 2021, em pontos estratégicos do rio (Tabela 2).

204

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 2 - Pontos de coleta de amostra de água, no Baixo São Francisco, à jusante de cada
cidade percorrida
Cidades

Piranhas

Geolocalização da coleta de amostra
La 9°38’8.82”S; Lo 37°46’36.27”O

Pão de Açúcar

La 9°44’52.18”S; Lo 37°27’30.02”O

Traipu

La 9°58’20.72”S;Lo 37° 0’31.10”O

São Brás

La 10° 7’35.06”S; Lo 36°54’56.03”O

Propriá

La 10°12’17.79”S; Lo 36°50’21.44”O

Penedo

La 10°16’21.64”S; Lo 36°35’34.89”O

Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

As amostras foram recolhidas em recipientes de vidro, devidamente higienizados,
com capacidade de armazenamento de 20 mL, previamente identificadas e posteriormente
armazenadas a temperatura de 3°C a 6°C.

Padrões e reagentes

Os compostos utilizados para estudo e identificação foram selecionados a partir de
um levantamento bibliográfico referente aos principais cultivos da parte baixa do Rio São
Francisco (de Paulo Afonso à foz). Os padrões dos pesticidas, um total de 31 compostos
químicos, foram adquiridos da Supelco (USA), em ampola de 1 mL. A Tabela 3 apresenta
alguns dados dos compostos monitorados, tais como: CAS (número ou registro de composto
químico no banco de dados constante na Chemical American Society), fórmula química e
massa molecular.
Tabela 3 - Compostos monitorados no Baixo São Francisco (total de 31)
Composto

Nº CAS

Fórmula química

Massa molecular (g,mol-1)

Ác. etilenodiamino tetra-acético

60-00-4
319-84-6

C10H16N2O8

292,2

Alpha-BHC
Beta-BHC

319-85-7

C6H6Cl6

290,8

C6H6Cl6

290,8

C12H8Cl6

364,9

C10H6Cl8

409,7

C9H6Cl6O3S

406,9

Lindane

58-89-9

Delta-BHC

319-86-8

Heptacloro

76-44-8

Aldrin

309-00-2

HeptachlorepoxideIsomer B

1024-57-3

γ-Clordano

α-Clordano

5103-74-2
5103-71-9

Endosulfan I (alpha)

959-98-8

DDE

72-55-9

Dieldrin

60-57-1

Endrin
Endosulfan II (Beta Isomer)

72-20-8
33213-65-9

DDD

72-54-8

Endrinaldehyde

7421-93-4

Endosulfan sulfate

1031-07-8

DDT

50-29-3

Endrin Cetona

53494-70-5

Metoxicloro

72-43-5

205

C6H6Cl6

290,8

C6H6Cl6

290,8

C10H5Cl7

373,3

C10H5Cl7O

389,4

C10H6Cl8

409,7

C14 H8 Cl4

318,0

C12H8Cl6O

380,9

C9H6Cl6O3S

406,9

C12H8Cl6O

380,9

(ClC6H4)2CHCCl3

354,4

C16H15Cl3O2

345,6

C12H8Cl6O

380,9

(ClC6H4)2CHCHCl2

320,0

C9H6Cl6O4S

422,9

C12H8Cl6O

380,9

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Diquat

85-00-7

Metribuzin

21087-64-9

Glifosato

1071-83-6

Ametryn

834-12-8

Atrazina

1912-24-9

Prometon

1610-18-0

Prometryn

7287-19-6

Propazine

139-40-2

Simazine

122-34-9

Terbutryn

886-50-0

C12H12N2Br2

344

C8H14N4OS

214,2

C9H17N5S

227,3

C10H19N5O

225,2

C9H16N5Cl

229,7

C10H19N5S

241,3

C3H8NO5P

169,0

C8H14ClN5

215,6

C10H19N5S

241,3

C7H12ClN5

201,6

Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

Cada composto foi identificado usando dados espectrais de massa, biblioteca NIST 14
(NIST/EPA/NIH Mass Spectra Library, versão 2.2, EUA), índices de retenção linear, dados
da literatura e injeção de padrões. Os índices de retenção linear (LRI) foram calculados de
acordo com a equação de Van den Dool e Kratz (1963), utilizando os padrões de n-alcanos
(C7 – C30) com grau de pureza acima de 99,5%, (Sigma-Aldrich).
Foram utilizados hexano, metanol e acetonitrila com 99% de pureza, da Aldrich,
como solventes para preparo preparadas soluções estoque contendo os pesticidas e
armazenadas a -4°C.

Procedimento de microextração de fase sólida (SPME) por headspace
Para a extração dos contaminantes de interesse, que apresentam pontos de ebulição
menor ou igual a 270°C, foi aplicada a técnica de microextração em fase sólida por headspace.
Em detalhe, Um frasco de 15 mL foi preenchido com cerca de 5 mL, avolumado com exatidão,
da amostra das água coletadas nos pontos geográficos listados na Tabela 2 e homogeneizada
e 2 mL de solução aquosa saturada de NaCl.
O frasco foi equipado com uma válvula “mininert” (Supelco, Bellefonte, PA, EUA).
A extração foi realizada no frasco de headspace (HS), mantido a 70°C, usando uma fibra de
Divinilbenzeno/Carboxen /Polidimetilsiloxano (DVB/CAR/PDMS), de espessura de filme
de 50/30 μm (Supelco, Bellefonte, PA, EUA), alojado em seu suporte manual (Supelco,
Bellefonte, PA, EUA). A amostra foi equilibrada durante 10 min e depois extraída durante
50 min sob agitação constante. Após a amostragem, a fibra SPME foi mantida por 6 min a
260°C no injetor sem divisão do GC/qMS.

Análise de cromatografia gasosa/espectrômetro de massa (GC-MS)

Foi utilizado um cromatógrafo de gás com interface direta com um espectrômetro de
massa de armadilha de íons (Shimadzu, GC-MS-QP2010 Plus, Kyoto, Japan). As condições
foram: temperatura do injetor 260°C; modo de injeção sem divisão; coluna capilar DB-5,
60 m de comprimento, 0,25 mm de diâmetro interno, espessura de película de 0,25 µm
(Agilent J&W); temperatura do forno 45°C mantida por 5 min, depois aumentada para 80°C
a uma taxa de 10°C min−1 e para 240°C a 2°C min−1; gás hélio a uma pressão constante de
100 kpa; temperatura da linha de transferência 250°C; faixa de aquisição 40–500 m/z. Os
cromatogramas GC-MS foram monitorados nos modos SIM e SCAN.

206

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Validação do método HS-SPME/GC-MS

A necessidade de mostrar a qualidade de medições químicas através de sua
comparabilidade, rastreabilidade e confiabilidade está sendo cada vez mais reconhecida e
exigida. Por conta disso, foi realizada a validação da metodologia analítica a ser usada na
caracterização dos pesticidas pelo método cromatográfico SIM.

Preparo das soluções-padrão

Para a análise qualitativa e quantitativa, foram preparadas soluções-estoque dos
padrões, na concentração aproximada de 1 mg L-1, em diclorometano ou acetona, de acordo
com a solubilidade do analito. A partir destas soluções, foi preparada uma solução de trabalho
na concentração de 10 μg L-1com todos os padrões. Para a análise por HS-SPME/GC-MS
no modo SIM, foram construídas curvas analíticas nas concentrações entre 0,005 μg L-1 e
10 μg L-1.
Os valores da curva foram determinados e ajustados pelo valor máximo permitido
segundo a Resolução Conama nº 357 (BRASIL, 2005).

Curva de calibração e limites de detecção e quantificação

A linearidade foi determinada pela evolução das curvas de regressão (volume do pico
em função da concentração do padrão adicionado) e expressa pelo coeficiente de determinação
linear (R2). Os limites de detecção (LD) e quantificação (LQ) foram determinados com base
no desviopadrão da intersecção da curva analítica (s) e da inclinação da reta (S), Equações
1 e 2, respectivamente.

Todas as análises foram realizadas em triplicata, empregando o modo SIM, sendo
utilizados os íons majoritários e secundários.
As análises das amostras não apresentaram picos interferentes, conferindo seletividade
ao método desenvolvido. A Tabela 4 apresenta a faixa de linearidade investigada para os
seis analitos (n=6), coeficientes de correlação linear, limite de detecção (LD), limite de
quantificação (LQ) e valores máximos estabelecidos pelo Ministério da Saúde na Portaria
nº 518, de 2004.

207

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Tabela 4 - Parâmetros analíticos obtidos para o método HS-SPME/GC-MSno modo
SIM, sendo: R2ocoeficiente de correlação linear; LD o limite de detecção e LQ, o limite
de quantificação
Faixa linear
-1

(μg L )

R2

LD

LQ

(μg L )

(μg L-1)

-1

DDT

0,005 – 0,05

0,996

0,0009

0,001

Aldrin

0,005 – 0,05

0,981

0,0008

0,002

Beta-BHC

0,05 – 0,5

0,993

0,0008

0,001

Heptachlorepoxide Isomer B

0,005 – 0,05

0,990

0,0007

0,001

Lindane

0,05 – 0,5

0,996

0,0009

0,002

0,05 – 0,5

0,989

0,0008

0,003

y-Chlordane

Fonte: Elaborada pelos autores, 2021.

Foi confirmada a presença de seis compostos (Tabela 3) com coeficiente de correlação
linear (R2) variando entre 0,981 a 0,996. Os limites de detecção para o método permaneceram
na faixa de 0,005 µg L-1a 1,0 µg L-1 e os limites de quantificação ficaram entre 0,001 µg L-1
e 0,003 µg L-1, atendendo aos valores estabelecidos pela legislação.
Todo o monitoramento analítico foi realizado utilizando a cromatografia gasosa
acoplada à espectrometria de massas. O perfil cromatográfico no modo SIM é apresentado
na Figura 1.
Figura 1 - Perfil cromatográfico no modo SIM dos compostos monitorados no Baixo
São Francisco

Fonte: Autores, 2022.

A Tabela 5 apresenta os compostos identificados nos seis municípios estudados no
Baixo São Francisco.

208

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 5 - Compostos identificados nos seis municípios do Baixo São Francisco utilizando
o método HS-SPME/GC-MS, modo SIM
Piranhas

Pão de

Propriá

Penedo

DDT

id.

id..

Aldrin

id.

id.

id.

id.

id.

id.

id.

id.

Açúcar

Traipu

São Brás

Beta-BHC
Heptachlorepoxide Isomer B
Lindane
y-Chlordane

id.

id.

id.

id.

id.

id. - identificação do contaminante.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

Os pesticidas identificados não tiveram valores acima do (LQ), portanto, estão abaixo
da concentração permitida segundo a Resolução Conama nº 357(BRASIL, 2005).
A Tabela 6 apresenta os compostos identificados utilizando o método HS-SPME/
GC-MS no modo SCAN, em seis municípios do Baixo São Francisco.
Tabela 6 - Compostos identificados nos seis municípios do Baixo São Francisco utilizando
o método HS-SPME/GC-MS, modo SCAN
Piranhas

Pão de

Açúcar

Traipu

São Brás

1,4-Diclorobenzeno

Propriá

Penedo

id.

id.

2-Etil Hexanol

id.

2,6,10,15-Tetramethylheptadecane

id.

3-Trifluoroacetoxypentadecane

id.

Carbendazim

id.

Fluoroacetamida

id.

Naftaleno

id.

id.

id.

Oxima-, metoxi-fenilTolueno

id.

id.

id. - identificação do contaminante.
Fonte: Elaborada pelos autores, 2021.

209

id.

id.

id.

id.

id.

id.

id.

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 2 - Perfil cromatográfico da amostra oriunda da cidade de Piranhas

Fonte: Autores, 2022.

Utilizando o método HS-SPME/GC-MS modo SIM para o município de Piranhas,
não foi detectado nenhum dos contaminantes estudados. Contudo, através do modo
SCAN, foi possível identificar, por meio do cálculo referente ao LRI, quatro compostos
com grande potencial toxicológico: carbendazim, fluoroacetamida, naftaleno e tolueno. O
fungicida carbendazim é muito utilizado em culturas de frutas e vegetais no Brasil. O perfil
cromatográfico é apresentado na Figura 2.
A Tabela 7 apresenta a classificação enquanto sua aplicação, como também sua
classe toxicológica segundo a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 294 (2019),
correlacionando com a ocorrência à jusante das cidades.
Tabela 7 - Ocorrência e classificação de pesticidas e substâncias químicas identificados nos
seis municípios do Baixo São Francisco
Aplicação

Classe Toxicológica

Ocorrência

Inseticida

III

Propriá/Penedo

Pesticida organoclorado

III

Penedo

Hidrocarboneto

II

Traipu

Inseticida

III

Propriá/Penedo

Beta-BHC

Fungicida/Inseticida

II

Propriá/Penedo

Carbendazim

Fungicida

1

Piranhas

DDT

Inseticida

II

Propriá/Penedo

1,4-Diclorobenzeno
2-Etil Hexanol
2,6,10,15-Tetramethylheptadecane
Aldrin

210

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Fluoroacetamida

Inseticida

II

Todas

Pesticida organoclorado

I

Traipu/São Brás

Lindane

Inseticida

II

Exceto Piranhas

Naftaleno

Inseticida / HPA

I

Piranhas

Oxima-, metoxi-fenil-

Fungicida

III

Propriá/Penedo

Tolueno

BTEX

III

Exceto Traipu e São Brás

y-Clordane

Fungicida/Inseticida

II

Propriá/Penedo

Heptachlorepoxide Isomer B

Fonte: Elaborada pelos autores, 2021.

Dentre os 14 compostos identificados, três são classificados como extremamente
tóxicos (I), seis como altamente tóxicos (II) e cinco como medianamente tóxicos (III).
Na cidade de Pão de Açúcar, foi identificada a presença dos três compostos:
lindane, fluoroacetamida e tolueno, sendo dois deles altamente tóxicos. Em Traipu, quatro
compostos: heptachlorepoxideisomer B, lindane, 2,6,10,15-tetramethylheptadecane e
fluoroacetamida, sendo um deles de extrema e dois de alta toxicidade. Em São Brás, quatro:
heptachlorepoxideisomer B, lindane, 3-trifluoroacetoxypentadecane e fluoroacetamida, sendo
três idênticos aos encontrados em Traipu.
Propriá e Penedo foram os municípios que apresentaram maior diversidade de
contaminantes pesticidas: DDT, aldrin, beta-BHC, lindane, y-chlordane, 1,4-diclorobenzeno,
fluoroacetamida, oxima-metoxi-fenil e tolueno. Além destes, também foi detectado o poluente
2-etil hexanol em Penedo. Portanto, em Propriá e Penedo foram identificados, respectivamente,
9 e 10 poluentes dos 31 estudados.
Pode-se observar que o composto fluoroacetamida, raticida agudo e altamente
tóxico, esteve presente em todas as amostras, coletadas nas seis cidades, o que é motivo de
grande preocupação.
A partir da identificação dos compostos, foi possível realizar uma avaliação bibliográfica
sobre sua classificação toxicológica e possíveis danos ao meio ambiente e à saúde humana.

1,4-diclorobenzeno
O paradiclorobenzeno é um sólido cristalino branco sintético usado principalmente
como desodorante de ambientes, blocos de mictórios e vasos sanitários. Ainda assim, pode
ser empregadona formulação de inseticidas para controle de traças (MARIA, 2021).
Quando o 1,4-diclorobenzeno é aquecido, libera vapores tóxicos. Assim, a exposição
ou inalação desse composto pode trazer riscos à saúde, como: danos ao fígado, dores de cabeça,
tontura, irritação aos olhos.
Um estudo do Programa Nacional de Toxicologia (NTP) relatou que o
1,4-diclorobenzeno causou tumores renais em ratos machos e tumores hepáticos em ambos
os sexos de camundongos por gavagem (colocando experimentalmente o produto químico
em seus estômagos). A EPA classificou o 1,4-diclorobenzeno como um grupo C, possível
carcinógeno humano (PUBCHEM, 2022).

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

2-etil-hexanol

O 2-etil-hexanol é um composto que aparece na forma líquida marrom-escuro, com
odor aromático. Em contato com a pele, pode causar irritação aos olhos e em membranas
mucosas. Além disso, é tóxico por ingestão, inalação e absorção pela pele.
Ademais, o 2-etilhexan-1-ol é um produto interferente muito comum da produção
de plástico (STAUFFER et al.,2008).

2,6,10,15-tetramethylheptadecane

O 2,6,10,15-tetramethylheptadecane é um hidrocarboneto de cadeia longa, derivado
de um hidreto de heptadecano.
É perigoso para a saúde humana, pois este composto pode fazer parte do metabolismo
do câncer (VERMEERSCH, 2014). De acordo com um estudo realizado por Achiraman
(2002), este composto está presente na urina de camundongos machos.

Aldrin

Amplamente utilizado como inseticida, o aldrin sólido fundido é marrom a branco. É
tóxico por inalação e absorção pela pele quando pulverizado, oferecendo perigo à saúde por
ser carcinogênico e teratogênico, ou seja, produz dano ao embrião ou feto durante a gravidez,
ocasionando má formação e distúrbios, aumentando riscos de abortos espontâneos ou partos
prematuros. Além disso, ocasiona toxicidade aguda, além de ser nocivo ao meio ambiente. É
insolúvel em água e incombustível.
Aldrin é onipresente em água, ar, solo ou locais de resíduos, sendo muito tóxico para
os organismos aquáticos. De acordo com Wrobel (2018) e estudos anteriores, eles também
são detectados na carne, no leite e em sangue humano.
Nos EUA, no Japão e em muitos países da Europa, a produção e o uso desses
inseticidas clorados já foram proibidos, mas, segundo Sruthiet al. (2017), na Índia, eles têm
sido amplamente utilizados em programas de agricultura e ocasionado risco potencial à
saúde pública.

Beta-BHC

Hexaclorociclohexano (HCH) é um pesticida organoclorado com uma mistura
de vários isômeros, principalmente alfa (α), beta (β), gama (γ) e delta (δ). Na composição
percentual de HCH industrial, encontram-se de 7% a 10% de β-HCH. Os isômeros exibem
diferenças sutis nas características, sendo o β-HCH o mais estável física e quimicamente.Esta
estabilidade reflete-se na persistência ambiental e biológica desta molécula. Apresenta-se como
um pó cristalino e, em razão de sua elevada densidade, é insolúvel em água, podendo, assim,
ser encontrado em níveis consideráveis depois de algum tempo exposto ao meio ambiente.
A exposição humana ao Beta-HCH pode ocorrer por ingestão de água ou alimentos
contaminados, inalação de ar contaminado e contato da pele com o solo. Distúrbios sanguíneos,
como anemia aplástica e alterações na contagem de glóbulos brancos, tonturas, dores de
cabeça e possíveis alterações nos níveis de hormônios podem ser sintomas para um contato
prolongado com determinado composto (CETESB, 2012).

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Como é o mais lipofílico entre os isômeros, é prontamente absorvido e distribuído
no organismo. Levando esses fatores em consideração, em 2015, a Agência Internacional de
Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classificou o Beta-HCH (assim como todos os isômeros)
como possivelmente carcinogênico para humanos.

Carbendazim

O Carbendazim é um ingrediente ativo utilizado na produção de fungicidas do grupo
benzimidazois, que age com o intuito de inibir a formação de microtúbulos, resultando na
morte do fungo (LI et al.,2020).
Conhecido como fungicida sistêmico, ajuda no controle de doenças fúngicas, nas
culturas de citros, feijão, maçã, soja e trigo e no tratamento das sementes das culturas de
algodão, feijão e soja.
É bastante encontrado no fungicida bendazol, que é rapidamente convertido no meio
ambiente, com tempo de meia-vida de 3 a 6 meses em turfa, 1 a 2 meses em sedimento de rio
sob condições aeróbias e 25 meses sob condições anaeróbias. Devido ao uso intenso, tornouse poluente muito persistente tanto no solo, quanto na água (GUPTA, 2018).
O carbedazim mostrou-se altamente tóxico: anfíbios (efeitos genéticos e mortalidade),
plantas aquáticas (reprodução), crustáceos (mortalidade), peixes (bioacumulação e mortalidade),
fungos (desenvolvimento e reprodução), moluscos (intoxicação e mortalidade) e plâncton
(intoxicação, crescimento, reprodução e mortalidade) (GUPTA, 2018).
Em humanos, o carbedazim pode causar disfunções do sistema nervoso central,
dano ocular e dermatite, bem como disfunções hepáticas, renais, estomacais, anemia e outras
disfunções sanguíneas.

DDT

Segundo Maria et al. (2021), o DDT, também conhecido como clofenotano, é um
hidrocarboneto clorado cristalino branco, inodoro e insípido, bastante encontrado em nosso
ambiente agrícola como pesticida e inseticida e também usado para controlar a malária.
Sendo incapaz de se decompor, domina a água e o solo em áreas expostas.
O DDT é um composto orgânico solúvel em solventes orgânicos e óleos e tende
a se acumular nos ecossistemas. Foi amplamente usado como inseticida para controlar
insetos agrícolas e contra malária, tifo e piolhos; contudo, sua prevalência generalizada é
agora limitada, devido aos seus efeitos nas condições de saúde humana e animal, como
distúrbios neurológicos, náuseas, perda de coordenação, câncer e sibilância em crianças,
afetando, principalmente, o sistema nervoso, causando tremores, tonturas, convulsões
(MARIA et al., 2021).

Fluoroacetamida

A fluoracetamida é um raticida agudo, altamente tóxico, que se apresenta em forma
de pó cristalino e incolor e possui grande solubilidade em água (BUDAVARI, 1996).
Ao passar por um processo de aquecimento, ocorre a emissão de gases tóxicos, como,
por exemplo, fluoreto de hidrogênio e óxidos de azoto (WILLIAMS, 2013). Nos animais,
essa substância atua bloqueando o sistema nervoso central, o que ocasionou a proibição da
comercialização, em virtude, principalmente, dos incontáveis acidentes fatais com humanos
ocorridos em todo o território nacional (ALMEIDA et al., 2002).

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Heptaclorepoxide Isomer B

O heptacloroepóxido (isômeros cis e trans) é um produto da quebra da molécula
de heptacloro por meio de reações produzidas por organismos (bactérias e animais), sendo
cerca de 20% do heptacloro convertido em heptacloroepóxido em curto período de tempo
no ambiente (ATSDR, 2007).
O heptacloro, quando no ambiente, é metabolizado em heptacloroepóxido, composto
estável com potencial carcinogênico. Este composto é persistente e relativamente estacionário
no solo, podendo desaparecer pela evaporação e pela oxidação lenta. Suas propriedades físicoquímicas de solubilidade baixa na água e volatilidade parcial tendem a favorecer o transporte
a longa distância.
É bastante utilizado na agricultura, com a finalidade de eliminar cupins, formigas e
insetos e tratar sementes. Pode permanecer em áreas contaminadas durante longos anos e
pode ter dissipação mais rápida em regiões tropicais.
Segundo a ATSDR (2003), sua utilização está suspensa desde 1988; contudo, devido
à lenta degradação, ele permanece por um longo período em corpos hídricos e no solo,
além de ter potencial de acumulação dentro da cadeia trófica. Este relato corrobora com os
contaminantes localizados no rio estudado, que, apesar de estarem proibidoshá mais de 30
anos, ainda têm seus vestígios encontrados em recursos hídricos.

Lindane

O lindane, γ-hexaclorociclohexano (γ-HCH), é um inseticida organoclorado com
propriedades neurotóxicas semelhantes ao DDT (clofenotano). É um sólido branco que
pode evaporar no ar como um vapor incolor, com leve odor de mofo, amplamente utilizado
como um pesticida organoclorado para proteger as culturas de doenças agrícolas. Também
é empregado para tratar ectoparasitas humanos (piolhos e sarna), na forma de loção, creme
ou xampu (LOOMIS et al., 2015).
Em seres humanos, a exposição oral é moderadamente tóxica, causando sinais de
hiperirritabilidade e excitação excessiva do sistema nervoso central, como vômitos, desmaios,
tremores, inquietação, espasmos musculares, ataxia e crises epilépticas clônicas e tônicas.
O lindane possui característica lipofílica. Este grupo de substâncias é armazenado
no tecido gorduroso, apresenta toxicidade aguda moderada e afeta, principalmente, o sistema
nervoso central, sendo prontamente absorvido por todas as vias de exposição e amplamente
distribuído no organismo, o que explica os três casos de leucemia (paramieloblastos e
mielomonócitos) relatados em homens expostos ao lindane, com ou sem coexposição a outros
produtos químicos (LOOMISetal., 2015).
Muitos casos de anemias aplásticas, mortes por câncer de pulmão e aumento da
dermatite entre trabalhadores agrícolas também estão associados ao produto. Além disso, o
lindane inibe a divisão celular em linfócitos do sangue periférico humano in vitro, o que resulta
em um aumento na frequência de fragmentação das cromátides, dependendo da concentração.
Devido aos seus efeitos letais, seu uso é proibido ou restrito na maioria dos países.

Naftaleno

Naftaleno é um hidrocarboneto policíclico aromático (HPA). Está presente na
composição química dos derivados de petróleo, principalmente na gasolina e no diesel, sendo
também utilizado na fabricação de inseticidas (FRESCURA, 2019).

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O efeito característico da toxicidade do naftaleno é hemólise intravascular aguda,
acompanhada de anemia, leucocitose, febre, hematúria, icterícia e disfunção renal e hepática.
A ingestão de naftaleno não é uma via de exposição comum; porém, os efeitos observados
são similares aos da inalação aguda. A exposição dérmica por curto prazo causa leve irritação
da pele e dermatite em pessoas suscetíveis, podendo levar à toxicidade sistêmica similar
à observada na inalação e ingestão. A exposição ocular pode irritar os olhos, danificar a
córnea e levar a opacidade das lentes e, em alguns casos, resultar na formação de cataratas
(FRESCURA, 2019).
Os efeitos adversos da inalação crônica são similares àqueles observados após
exposição aguda, como náusea, cefaleia, mal-estar e anemia hemolítica, e existe relato de
efeitos renais e hepáticos.

Oxima-, metoxi-fenil-

Oxime-, methoxy-phenyl podem ser usados como constituintes de biocidas,
repelentes ou atrativos de pragas, ou, ainda, como reguladores de crescimento de plantas
contendo compostos heterocíclicos com anéis com dois átomos de nitrogênio como os únicos
heteroátomos do anel.

Tolueno

O tolueno ou metilbenzeno é um solvente orgânico derivado do petróleo e utilizado
como matéria-prima industrial. É um hidrocarboneto aromático, incolor e com odor
característico. Está presente em colas, gasolinas, solventes, agentes de limpeza e na síntese
de outros produtos químicos, como uretano, poliuretano e benzeno. É utilizado como solvente
para tintas, na produção de explosivos, corantes, medicamentos e detergentes e como solvente
industrial para borrachas e óleos e, ainda, na produção de outros químicos (AZEVEDO, 2004).
A maior fonte de exposição ambiental ao tolueno é a produção e o uso da gasolina
(FORSTER et al., 1994). O tolueno é rapidamente absorvido pelos tratos respiratório e
gastrointestinal e, de forma mais lenta, através da pele. A exposição pode irritar os olhos, o nariz
e a garganta, causar tonturas, cefaleia, letargia, inebriação, sonolência, marcha cambaleante,
náusea e depressão do sistema nervoso central, podendo progredir com midríase e insônia
em concentrações acima de 200 ppm.
Altas concentrações podem causar delírios, desmaios e até coma e morte. Os efeitos
crônicos podem ocorrer algum tempo após a exposição a tolueno e permanecer por meses
ou anos. Outros efeitos, tais como a exposição repetida, podem causar danos à medula óssea
e redução na contagem das células. A exposição prolongada pode causar ressecamento e
rachadura da pele, perda de apetite, náusea e danos aos rins, fígado e cérebro (ALCÂNTARA;
BRASIL,1974).

y-clordano

O clordano é empregado como pesticida organoclorado ciclodieno. É um produto
sintético, usado contra formigas, coleópteros, larvas e cupins subterrâneos, dentre outras
pragas de insetos.
É caracterizado como um inseticida e fungicida de contato, ou seja, não penetra o local
em que foi aplicado, sendo apenas adsorvido; por esse motivo, o agrotóxico pode ser levado
pela chuva e, assim, contaminar além da sua área de aplicação. É tóxico por inalação, ingestão

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

ou absorção pela pele. Também estimula o sistema nervoso central e causa complicações no
fígado e nos rins.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo foi realizado na parte do Baixo São Francisco entre Paulo Afonso e a foz
do rio, com trajeto de aproximadamente 214 km de extensão, sendo as amostragens de água
feitas no período de 02 a 09 de novembro de 2021, em pontos estratégicos do rio, à jusante
das cidades de: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Propriá e Penedo.
O método HS-SPME/GC-MS desenvolvido neste trabalho demonstrou ser
fundamental para determinar a existência de pesticidas no Baixo São Francisco, com extrema
sensibilidade e seletividade, atendendo a requisitos na faixa de μg L-1, mesmo na presença
de matériaorgânica e em diferentes concentrações.
Os modos SIM e SCAN, aplicados na determinação dos pesticidas, apresentaram bons
resultados, mesmo na presença de matéria orgânica. Os limites de detecção e de quantificação
encontrados foram baixos, porém, suficientes para detectar estas substâncias em nível inferior
ao estabelecido pela legislação nacional.
Na cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa, foi detectada a
presença de 14 pesticidas, dentre os 31 avaliados. Dentre os compostos identificados, três
são classificados como extremamente tóxicos, seis são classificados como altamente tóxicos
e cinco são classificados como medianamente tóxicos. Na cidade de Pão se Açúcar, foi
identificada a presença dos três compostos, sendo dois deles altamente tóxicos. Em Traipu,
quatro compostos, sendo um deles de extrema e dois de alta toxicidade. Em São Brás, quatro,
sendo três idênticos aos encontrados em Traipu. Propriá e Penedo foram os municípios que
apresentaram mais diversidade de contaminantes pesticidas: respectivamente, 9 e 10 poluentes
dos 31 estudados.
Este estudo mostrou-se fundamental para alertar e conscientizar a população e os
responsáveis pelas políticas públicas e pelo meio ambiente. Além disso, a ocorrência de novos
contaminantes “não regulamentados” requer um monitoramento mais constante. Portanto, este
estudo dará subsídios para a implementação de novas políticas e regulamentações específicas,
fundamentais para alcançar e manter o equilíbrio saudável do meio ambiente.

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relaxin) of bovine myometrium motility in vitro?. Environmental Research, v.167, p.234239, 2018.

220

CAPÍTULO 11 - AVALIAÇÃO DO TEOR DE ÓLEOS E
GRAXAS NO BAIXO SÃO FRANCISCO
João Inácio Soletti1

Mateus Ferreira da Silva2
Samara Farias de Melo3
Mozart Bispo Daltro4

Emerson Carlos Soares5

Adryelle Suelen Gomes Silva6

Sandra Helena Vieira de Carvalho7
Resumo: O descarte de óleo e graxas de forma inadequada pode apresentar elevado potencial
de toxicidade, capacidade de bioacumulação e provocar danos irreparáveis para fauna e flora
aquáticas, provocando inúmeros problemas ambientais, muito deles irreversíveis na natureza.
Monitorar o teor de óleos e graxas (TOG) em águas é de grande importância, sendo este
um trabalho que deve ser realizado com frequência, principalmente em aquíferos utilizados
para a obtenção de água potável. Este monitoramento, além de identificar possíveis poluentes
derivados do petróleo e óleos vegetais, dentre outros, pode ser caracterizado por técnicas
específicas. A técnica aplicada foi a de espectrometria na região de infravermelho, utilizandose do equipamento Horiba Ocma-350. As amostras de águas retiradas dos diferentes locais
do Rio São Francisco foram analisadas a fim de determinar as concentrações de óleos e
graxas absorvidas ou não pelas águas. Estas análises compreendem os estudos realizados na
III e na IV Expedições do Rio São Francisco, nos períodos de 01/12 a 10/12/2021 2 e de
31/10 a 10/11 de 2021, respectivamente. A partir dessas análises, foi possível determinar
quantidades significativas de óleos presentes nas águas, chegando a concentrações de até
42,2 mg/L de contaminação. Este estudo, e sua continuidade, possibilitará, através do
conhecimento dos teores de TOG presentes em algumas localidades do Rio São Francisco,
avaliar e, consequentemente, tomar decisões que viabilizem a criação de políticas públicas
para a operação e o funcionamento adequado do sistema de tratamento das águas residuais
e evitar problemas ambientais em função do seu acúmulo no ambiente.
Palavras-chave: TOG. Rio São Francisco.
1 Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
2 Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
3 Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
4 Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
5 Laboratório de Aquicultura e Análise de Águas (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias
(CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
6 Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
7 Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

INTRODUÇÃO
O descarte de óleo e graxas, usualmente presentes em esgotos domésticos, bem como
em descarte de oficinas, embarcações, poços de petróleo, refinarias, dentre outras causas,
pode apresentar elevado potencial de toxicidade, capacidade de bioacumulação e provocar
danos irreparáveis para fauna e flora aquáticas, provocando inúmeros problemas ambientais,
muito deles irreversíveis na natureza. Monitorar o teor de óleos e graxas (TOG) em águas
é de grande importância, sendo este um trabalho que deve ser realizado com frequência,
principalmente em aquíferos utilizados para a obtenção de água potável.

Definição

Óleos e graxas são compostos por hidrocarbonetos, gorduras e ésteres, dentre outros
materiais de origem orgânica, mineral ou vegetal. Normalmente, não são encontrados em
águas naturais, mas sim provenientes de despejos e resíduos industriais, esgotos domésticos,
efluentes de oficinas mecânicas, postos de gasolinas, estradas e vias públicas (ORSSATTO
et al., 2010). No seu processo de decomposição,óleos e graxas reduzem o oxigênio dissolvido,
elevando a Demanda Química de Oxigênio (DQO) e a Demanda Bioquímica de Oxigênio
(DBO) e causando sérios problemas ao ecossistema aquático (METCALF; EDDY, 1991).
O TOG constitui um dos parâmetros ambientais de grande relevância para localidades
onde exista a presença de locais sujeitos ao derramamento ou descarte de óleo em ambientes
aquáticos. Cidades ribeirinhas com a presença de embarcações são suscetíveis a acidentes
que provocam o derramamento de óleo, quer seja pelo vazamento em motores, manutenção
ou acidentes, bem como no descarte em efluentes domésticos.

Mistura óleo-água

Com relação às misturas óleo-água, elas podem ser homogêneas, heterogêneas ou
coloidais. As homogêneas, ou soluções, são aquelas em que não ocorre a formação de fases
em que, pelo efeito da solvatação, as partículas não se precipitam. No sistema heterógeno,
ocorre a formação de fases, com duas ou mais, sendo o sistema água-óleo usualmente presente
neste grupo (BROWN et al., 1992). Nos sistemas coloidais, ocorre o fenômeno da emulsão,
em que algumas gotículas de óleo acabam sendo solubilizadas pela fase aquosa, sendo este
um fenômeno bastante comum nas misturas de óleo e água (ARIZONA DEPARTMENT
OF ENVIRONMENTAL QUALITY, 1996).
Podemos classificar as misturas óleo-água presentes nos efluentes de cinco formas:
1) Óleo livre: neste estado, as gotículas de óleo, com diâmetros iguais ou superiores a
20 micrômetros, possuem pouca ou nenhuma água associada e, devido ao seu peso específico
ser menor que o da água, elas flotam (SAWAMURAet al., 1999);
2) Óleo fisicamente emulsionado: são partículas de óleo, na ordem de 5 a 20
micrômetros, em que o óleo disperso na água encontra-se na forma estável. Isto pode ocorrer
por ações mecânicas, tipo bombeamento, fechamento ou abertura de válvulas ou restrições
de fluxo. Outra possibilidade de formação pode ser causada por incidência de chuva ou
jateamento de água (SAWAMURA et al., 1999);
3) Óleo quimicamente emulsionado: usualmente formado através do uso de
detergentes, desengraxantes, solventes e produtos afins, possui gotículas na ordem de 5
micrômetros (BROWN et al., 1992);

222

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

4) Óleo dissolvido: são as gotículas solúveis na água, com diâmetros inferiores a 0,01
micrômetro (BROWN et al., 1992);
5) Óleo adsorvido em partícula sólida: neste caso, o óleo encontra-se aderido ao
material particulado e sedimenta, devido à ação da força gravitacional (BROWN et al., 1992).
Outra consideração importante a ser feita para a mistura água e óleo consiste na
polaridade das duas substâncias envolvidas. A água é uma substância polar e o óleo é uma
substância apolar (SGPA-12, 2010). Esta característica é importante para que possamos
analisar a solubilidade das substâncias.
Uma molécula recebe a classificação de polar quando o centro das cargas positivas e
negativas não são coincidentes, caso específico da água. De uma maneira geral, as substâncias
polares solubilizam-se em substâncias polares e, da mesma forma, esta regra é válida para as
substâncias apolares (BROWNet al., 1992). Assim, a água e o óleo não são solúveis entre si,
a não ser em condições especiais, como relatado em tópicos anteriores. Estas informações
são importantes na concepção de equipamentos que possibilitem a separação óleo.

Fontes poluidoras e suas consequências

Uma fonte bastante comum de poluição, com alto impacto poluidor, principalmente
nas cidades ribeirinhas, são as provenientes dos serviços de lavagem de veículos, pois contêm
surfactantes, óleos e graxas (BROWN et al., 1992; SMITH; SHILLEY, 2009; INEA, 2014).
Dados do Ministério da Infraestrutura registram mais de 111 milhões de veículos automotivos
(automóveis, caminhões, tratores, dentre outros) no Brasil.
Outra forma de geração dos efluentes oleosos está relacionada ao carreamento dos
poluentes, através da água da chuva, em áreas abertas de estacionamento, lavagem de pisos
em áreas cobertas, postos de gasolina, dentre outros.
Nos sistemas aquáticos, a presença de óleos e graxas causa impactos gravíssimos. O
plâncton, base da cadeia alimentar dos organismos marinhos, é o primeiro a ser contaminado e
contaminao restante dos animais que dele se alimentam. No caso do petróleo, no derramamento
em grandes extensões, os fitoplânctons e as algas, responsáveis pela produtividade de alimento
na cadeia alimentar aquática, não sobrevivem, devido ao bloqueio da entrada de luz pela
camada de óleo que flutua na superfície. Outro problema é a impregnação do óleo nos animais,
impedindo a respiração em peixes, o voo em aves e o controle de temperatura em mamíferos.
O lançamento de óleos e graxas em corpos hídricos deve cumprir a legislação federal,
Resolução nº 20 do Conama, que estabelece os limites máximos de descarte de óleos em
efluentes, como 50 mg/L para óleos de origem vegetal e 20 mg/L para óleos minerais
(KLEMZet al., 2020).

Legislação e Portarias

Existem várias legislações aplicáveis à problemática do lançamento de efluentes
oleosos no meio ambiente.
Um marco regulatório foi estabelecido com o MARPOL 73/78, na Convenção
Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios, adotada em 1973 e, posteriormente,
emendada pelo Protocolo de 1978. Ela teve por propósito o estabelecimento de regras para
a completa eliminação intencional do descarte de óleo e outras substâncias danosas oriundas
de navios, bem como a minimização da descarga acidental daquelas substâncias no ar e no
meio ambiente.

223

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

A Lei nº 9478, de 6 de agosto de 1997 (BRASIL, 1997), dispõe sobre a política
energética nacional, as atividades relativas ao monopólio do petróleo e institui o Conselho
Nacional de Política Energética e a Agência Nacional do Petróleo, além de outras providências.
Destaca-se, nesta lei, o artigo primeiro, inciso quarto, que trata da proteção ao meio ambiente
e promoção da conservação da energia.
A Lei nº 9966, de 28 de abril de 2000 (BRASIL, 200), dispõe sobre a prevenção, o
controle e a fiscalização da poluição causada por lançamento de óleo e outras substâncias
nocivas ou perigosas em águas sob jurisdição nacional e dá outras providências.
A Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama)nº 357, de 17 de
março de 2005 (BRASIL, 2005), dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes
ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e os padrões de
lançamento de efluentes, e dá outras providências. Considera que a saúde e o bem-estar
humano, assim como o equilíbrio ecológico aquático, não devem ser afetados pela deterioração
da qualidade das águas. A resolução também considera que os Estados e municípios devem
possuir parâmetros próprios de lançamento, independentemente de estarem inclusos ou não
na Resolução, seja através de norma específica ou por licenciamento de atividade.
A Resolução Complementar 430 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama),
de 13 de maio de 2011 (BRASIL, 2011),“dispõe sobre a classificação e diretrizes ambientais
para o enquadramento dos corpos de águas superficiais, bem como estabelece as condições
e padrões de lançamento de efluentes”e altera a Resolução Conama nº 357, de 17 de março
de 2005 (BRASIL, 2005). Ela foi resultado da Portaria nº 422, de 26 de outubro de 2011
(BRASIL, 2011), do Ministério do Meio Ambiente, que dispõe sobre procedimentos para o
licenciamento ambiental federal de atividades e empreendimentos de exploração e produção
de petróleo e gás natural no ambiente marinho e em zonas de transição terra-mar.
Apesar de existirem várias legislações e resoluções sobre o descarte de óleos e graxas,
cabe à cada Unidade da Federação, ou mesmo município, estabelecer limites para o lançamento
em corpos receptores através de suas legislações ambientais, sem, no entanto, exceder os
valores máximos estabelecidos pela União, sendo apenas mais restritivos.
As ações dos municípios em relação às legislações ambientais são fundamentais,
pois nem todos os parâmetros contidos na Resolução Conama 357 (BRASIL, 2005)
estão devidamente estabelecidos. Desta forma, os municípios podem considerar diferentes
parâmetros de análise, bem como metodologiaque considerem importantes como maneira
complementar, dentro da jurisdição, sobre enquadramentos previstos no corpo d’água.

Tecnologias para remoção de óleos e graxas

Normalmente, os separadores óleo-água consistem de uma câmara de sedimentação,
com o objetivo de remover a borra oleosa, seguida de outras câmaras que permitem o controle
da vazão com dispositivos para a coleta do óleo retido. Neste processo, o efluente oleoso escoa
através das câmaras, promovendo a coalescência das gotículas de óleo que ascendem até a
superfície, onde são coletadas.
Outros tratamentos complementares são:
- Sistemas de filtros;
- Sistemas compactos de tratamento;
- Separação gravitacional, flotação e filtragem;
- Tratamentos biotecnológicos com recuperação e reutilização de águas residuárias;

224

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

- Biorreatores com filtração;
- Filtros de areia com carvão ativado;
- Argilo-minerais;
- Lodos ativados com flotação e coagulação química;
- Eletrocoagulação.
As tecnologias mais compactas para tratamento de óleos e graxas são bastante difundidas
e normalmente direcionadas a efluentes e águas residuárias. Em muitos casos, estas tecnologias
são acopladas ao reaproveitamento das águas em sistemas fechados ou, mesmo quando o efluente
está dentro dos padrões ambientais adequados, descartadas (BRASIL, 2005).
A destinação final do efluente pode ser o reaproveitamento ou lançamento em rede
coletora, desde que atenda aos limites estabelecidos pelos órgãos fiscalizadores.

Importância do monitoramento

O monitoramento de óleos e graxas, além de identificar possíveis poluentes derivados
do petróleo e de óleos vegetais, dentre outros, pode ser caracterizado por técnicas específicas.
A técnica aplicada neste estudo foi a de espectrometria na região de infravermelho,
utilizando-se do equipamento Horiba Ocma-350. As amostras de águas retiradas dos
diferentes locais do Rio São Francisco foram analisadas a fim de determinar as concentrações
de óleos e graxas absorvidas ou não pelas águas. Estas análises compreendem os estudos
realizados na III e na IV Expedições do Rio São Francisco, de 01/12 a 10/12/2020 e de
31/10 a 10/11 de 2021, respectivamente.
Apesar dos gravíssimos danos causados pelo derramamento de poluentes em ambientes
aquáticos, ainda são poucos os estudos publicados que ressaltam o impacto do lançamento de
óleos e graxas em rios e oceanos. De uma forma geral, isto se deve à falta de monitoramento
deste parâmetro, bem como à dificuldade de acesso aos dados monitorados. Além disso, é
difícil mensurar os potenciais impactos, visto que muitos dos seus efeitos são sinérgicos e
os poluentes podem sofrer bioacumulação ao longo da cadeia trófica, ao longo do tempo.
Neste trabalho, foi identificada a necessidade de maior rigor no monitoramento das
águas do Rio São Francisco, de forma que seja possível prever potenciais danos relacionados
à presença de óleo. O monitoramento deve ser mais efetivo, principalmente em regiões
com maior concentração de embarcações, como Penedo, Piaçabuçu e Propriá, dentre outras
cidades ribeirinhas.
Esta pesquisa teve início na III Expedição do Rio São Francisco e recomenda-se a
ampliação dos estudos, com divulgação das informações levantadas, de forma a se obter uma
base de dados coesa, para análise dos impactos atuais e futuros.

Análises

As análises foram realizadas nos espaços da Expedição, como também no Laboratório
de Sistema de Separação e Otimização de Processos (Lassop), situado no Centro de Tecnologia
(Ctec) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
Para medir e quantificar a concentração de óleos e graxas nas águas, descritos
por órgãos ambientais como Total Oil and Grease (TOG), foi utilizado o analisador de
óleo Horiba® modelo Ocma-350. Esta técnica representa uma abordagem rápida e direta
comumente utilizada na literatura (KLEMZ et al., 2020). As medições são baseadas na

225

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

absorção, no infravermelho, na faixa de 3,4 – 3,6 µm. Para a extração de TOG da amostra de
PW, o solvente poli-triclorofluoroetileno (S-316, Horiba®) foi usado em uma proporção de
1:1 segundo solvente para amostra, de acordo com o manual de instruções Horiba Ocma-350.

Coleta das amostras

Foram selecionados nove pontos para a coleta de amostras de água, associados a nove
cidades ribeirinhas, objetivando diagnosticar o comportamento do teor médio de óleos e graxas
presentes em cada município. Desta forma, foram realizadas coletas próximas às margens
e em um ponto à jusante do sistema de despejos dos municípios. Os pontos de coleta das
amostras de água estão apresentados na Figura 1 e suas coordenadas geográficas, na Tabela 1.
As amostras de água foram coletadas na superfície utilizando-se garrafa de Van Dorn.
A água foi transferida a bordo para garrafas de polietileno de 500 mL, previamente limpas
com detergente neutro, e, em seguida, em banho ácido de HNO3 10% v/v por 24 horas e
enxaguados com água Mili-Q (18 μΩ), devidamente identificadas, transportadas refrigeradas
em caixas térmicas até o laboratório e estocadas em temperaturas abaixo de -15°C em freezer
até o momento das análises.
Figura 1 - Localização dos pontos de coleta de amostras de água no Baixo São Francisco

Fonte: Autores, 2020.

226

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 1 - Localização dos pontos de coleta de amostras de água no Baixo São Francisco
em dezembro de 2020
Ponto

Longitude

Latitude

Pão de Açúcar

PA3

-37.450444

-9.753866

Penedo

PE3

-36.571452

-10.327155

Piranhas

PI3

-37.749370

-9.626304

Piaçabuçu

PU3

-36.442632

-10.423743

Propriá

PR3

-36.827987

-10.212273

Igreja Nova

IN3

-36.660687

-10.271721

Traipu

TR3

-37.006676

-9.974881

Brejo Grande

BG3

-36.410863

-10.485840

Foz do São Francisco

FOZ3

-36.410863

-10.485840

Amostras

Fonte: Elaborada pelos autores, 2020.

Preparação do equipamento (Horiba Ocma-350)

Para melhor confiabilidade dos dados, foi realizada a preparação da solução padrão
para calibração do equipamento segundo as instruções indicadas no Instruction Manual
Horiba Ocma-350. Foi utilizando b-heavy oil como referência padrão. Foram extraídos 5,6
microlitros do b-heavy (A) usando microsseringa e colocado em um balão volumétrico de
25 mL avolumado com o poli-triclorofluoroetileno (S-316, Horiba®) (C). O equipamento
foi calibrado com a solução padrão com concentração de 200 mg/L.
Foi utilizado o método de extração de fase orgânica, pelo fato de que hidrocarbonetos,
tais como óleo e graxa, podem ser extraídos da água ou do solo através de um procedimento
de extração com solvente apropriado, sendo, neste caso, o solvente (poli [triclofluoretileno])
S-316 (C). Os hidrocarbonetos extraídos absorvem energia infravermelha a um comprimento
de onda específico e a quantidade de energia absorvida é proporcional à concentração de
óleo/graxa no solvente (BATIRA, 2014).
A extração foi realizada na proporção de 1:1, colocando 5 mL da amostra de água
previamente acidificada a pH igual a 2, em um tubo de ensaio, juntamente com 5 mL do
solvente, agitando e retirando a fase decantada para análise de espectrometria no equipamento
Horiba Ocma-350 (B).

Extração e leitura

A Figura 2 mostra o equipamento utilizado durante a expedição para a análise do
teor de óleos e graxas.

227

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 2 - Análise de TOG durante a III Expedição do Rio São Francisco

Fonte: Autores, 2020.

Respeitando as Resoluções descritas abaixo, foi possível interpretar e discutir os
dados encontrados.
Resolução Conama nº 393/2007
Dispõe sobre o descarte contínuo de água de processo ou de produção
em plataformas marítimas de petróleo e gás natural, e dá outras
providências.
Art. 5º - O descarte de água produzida deverá obedecer à concentração
média aritmética simples mensal de óleos e graxas de até 29 mg/L, com
valor máximo diário de 42 mg/L. (BRASIL, 2007).
Resolução Conama nº 274/2001
Art. 8º - Para as águas de Classe 5, são estabelecidos os limites ou
condições seguintes: [...]
i) pH: 6,5 a 8,5, não devendo haver uma mudança do pH natural maior
do que 0,2 unidade; [...]. (BRASIL, 2001).

Durante a III e a IV Expedições do Rio São Francisco, foi observada a presença de óleo
nas regiões ribeirinhas em algumas cidades visitadas. Destaca-se, como pode ser observado
nas Figuras 3 e 4, a presença de óleo na região de Piaçabuçu. Episódio semelhante também
foi notado em Penedo. Provavelmente, a presença deste óleo é decorrente do vazamento de
combustível de embarcações pesqueiras que ficam atracadas no rio, bem como do despejo de
efluentes que são lançados diretamente nas águas, sem tratamento prévio.

228

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 3 - Mancha de óleo registrada durante a III Expedição do Rio São Francisco,
em Piaçabuçu

Fonte: Autores, 2020.

Figura 4 - Registro de mancha de óleo identificado durante a III Expedição do Rio são
Francisco, em Piaçabuçu

Fonte: Autores, 2020.

229

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Em outras localidades, foram observadas a prática da lavagem de carros (Penedo)
(Figura 5), de animais e de roupa, dentre outras atividades, como limpeza de utensílios
domésticos (Figura 6).
Figura 5 - Lavagem de automóveis nas margens do Rio São Francisco, em Penedo

Fonte: Autores, 2020.

Figura 6 - Limpeza de utensílios domésticos nas margens do Rio São Francisco, em Piaçabuçu

Fonte: Autores, 2020.

A Tabela 2 apresenta os resultados parciais do teor de óleo e graxas (TOG) em
diferentes locais e horários realizadas a bordo, na Terceira Expedição.
Nos pontos de coleta apresentados na Tabela 2, em Penedo e na foz do Rio São
Francisco, não foi observada a presença de óleo no período de coleta das amostras, muito
provavelmente devido à dispersão do óleo no rio, bem pela ausência visual de óleo no
momento da coleta. Em Piaçabuçu, as análises indicaram traços de óleos, como identificados
nas Figuras 2 e 3.

230

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 2 - Teor de óleo e graxas em pontos críticos da III Expedição do Rio São Francisco
Data

Local

Horário (h)

Resultado TOG (mg/L)

Foz do rio

12:00

< 0,1

06/12/20

Barcas/Penedo

09/12/20

Penedo, após captação de água da cidade

09/12/20

14:00

09/12/20

Penedo, antes da captação de água da cidade

07/12/20

Piaçabuçu, banho

07/12/20

Piaçabuçu, saída esgoto

07/12/20

Piaçabuçu, parada barco

09/12/20

Água filtro

08/12/20

12:00
12:00

< 0,1
< 0,1

15:00

0,3±0,1

14:00

0,7±0,1

15:30

Propriá C

< 0,1

14:00
09:00

Fonte: Elaborada pelos autores, 2020.

0,6±0,1
42,2 ± 2,5
6,4 ± 2,

O ponto de maior contaminação foi identificado em Propriá, com um valor de 42,2
mg/L, bem acima do que a legislação ambiental permite.
Durante a Expedição, a água utilizada na embarcação era captada diretamente do
Rio São Francisco e passava por um sistema de filtração que, após processo de cloração, era
depositada em reservatórios. Ao término da Expedição, foi coletada uma amostra da água
contida no meio filtrante que apresentou um teor de TOG em torno de 6,4 mg/L, como
mostrado na Tabela 1, revelando que, nesse sistema, ocorre acúmulo de óleo e graxas.
A partir dos dados obtidos (Tabela 3), foram observados níveis variáveis de
contaminação nas amostras de água coletadas. Nesta análise, a relação direta entre o pH e o
nível de contaminação (valores de TOG) estava ausente, uma vez que as amostras com pH
semelhante foram obtidas em diferentes concentrações de TOG. Em geral, as análises de
TOG apresentam altos valores, chegando a 30,5 ± 2,3 mg L-1 em Propriá (SE).
O Ponto C (Propriá) apresentou a maior concentração registrada de teores de óleo
e graxas entre as amostras de água coletadas. Este ponto superou a concentração média
estipulada pela OMS (2003) e pela Resolução Conama nº 393/2007 (BRASIL, 2007); de
acordo com a Resolução, trata-se de efluente da produção de petróleo no Brasil, com suas
concentrações de disposição de 29,0 mg L-1. Embora seja um valor médio aritmético mensal
simples de óleos e graxas para águas de produção, mostra as concentrações presentes nas
águas como irregulares.
Portanto, pode causar vários problemas ambientais e de saúde humana, uma vez
que o óleo identificado é uma mistura complexa que contém uma variedade de espécies de
toxicidade comprovada, incluindo compostos orgânicos voláteis (VOCs), PAH, sulfeto de
hidrogênio e metais potencialmente tóxicos, podendo ter várias origens (barcos, restaurantes,
turismo e cidades).
Em todos os pontos analisados, durante a Terceira e a Quarta Expedições do Rio
São Francisco, em dezembro de 2020, foi identificada a presença de óleo. A tomada destes
pontos sempre foi à jusante do ponto de captação de água.
A gravidade da exposição ocorre por ingestão, absorção pela pele intacta e inalação.
Os riscos toxicológicos envolvidos são graves, agudos e crônicos, com atenção especial às
frações tóxicas do óleo, que podem levar à morte por envenenamento, principalmente quando
associadas a compostos aromáticos. Tais concentrações devem ser consideradas, pois sabemos
que as amostras não são de água de campos de produção de petróleo ou próxima de indústrias.
Na Quarta Expedição, em novembro de 2021, foram avaliados vários pontos de
coleta, procurando manter o mesmo posicionamento da Terceira Expedição. Na Tabela 3,

231

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

encontram-se dispostos os dados referentes aos valores de TOG em pontos críticos, locais onde
se identificava a presença de óleo na superfície da água, em Piaçabuçu e Traipu. Observa-se
que, em todos eles, foi identificada a presença de óleo.
Tabela 3 - Análise do teor de óleos e graxas em diferentes localidades do Baixo São
Francisco, em dezembro de 2020
Amostras

pH

Longitude

Latitude
-9.753866

Pão de Açúcar

8,91

-37.450444

Piranhas

7,62

-37.749370

Penedo

7,35

Piaçabuçu

8,71

Propriá

9,13

Igreja Nova

9,18

Traipu

Brejo Grande

9,14

Foz do São Francisco

8,11
7,34

Teor (mg/L)
10,2 ± 0,3

-36.571452

-10.327155

-36.442632

-10.423743

19,8 ± 1,8

-36.660687

-10.271721

26,5 ± 3,3

-9.626304

-36.827987

-10.212273

-37.006676

-9.974881

-36.410863

-10.485840

-36.410863

-10.485840

Fonte: Elaborada pelos autores, 2020.

13,9 ± 2,1
6,2 ± 0,3

30,5 ± 2,3
26,2 ± 1,2
7,7 ± 1,0

10,6 ± 0,7

Em Piaçabuçu, onde, em 2020, já havíamos identificado a presença de óleo, o quadro
manteve-se em 2021. Este ponto refere-se a um local de recreação da população local,à
jusante de pontos de despejos da cidade.
Em Propriá, no ponto onde os caminhões-pipa abastecem localidades com água,
identificou-se um teor de 2,7 mg/L de TOG. Este valor, apesar de estar com concentrações
baixas, torna-se expressivo, por se tratar de um sistema de captação que será a única fonte de
água para vários povoados do interior do Estado de Sergipe. Destaca-se, também, que este
local fica à jusante do ponto de despejo da cidade de Propriá.
A Tabela 4 apresenta os dados referente às análises realizadas em vários pontos ao
longo do Baixo São Francisco. Observa-se que, mesmo com valores menores que nos anos
anteriores, foi identificada a presença de óleos e graxas em quase todos os pontos analisados.
Este fato é preocupante e fundamenta a necessidade de análises com maior periodicidade do
TOG ao longo do ano, e não somente durante o período de Expedição. Destaca-se que os
valores são baixos, porém, como não estamos identificando o tipo de óleo presente, mas tão
somente a sua presença, tornam-se necessárias análises mais criteriosas para a identificação
de sua origem.
Tabela 4 - Resultado de TOG em pontos críticos
Cidade

Piaçabuçu
Piaçabuçu
Piaçabuçu
Traipu
Propriá

Georreferenciamento
La 10°24’27.98”S;
Lo 36°26’8.38”O
La 10°24’28.32”S;
Lo 36°26’8.75” O
La 10°24’27.98”S;
Lo 36°26’8.38”O

Motivação da coleta

TOG (mg/L)

Lavagem de utensílios de cozinha

5,7±0,1

Recreação de contato primário

0,8±0,1

Esgoto a céu aberto

0,6±0,1

Fonte de abastecimento de água
para quilombolas
Ponto de coleta de água por
caminhões-pipa

Fonte: Elaborada pelos autores, 2020.

232

1,0±0,1
2,7±0,1

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Neste período, em novembro de 2020, não foi detectada a presença de óleo na foz do
Rio São Francisco, bem como em outras duas localidades. O maior índice foi observado em
Piaçabuçu: 12,3 mg/L, município que, em 2019, também obteve valores elevados: 19,8 mg/L.
Nesta localidade, ficam evidenciadas, além dos inúmeros despejos a céu aberto, várias embarcações
com vazamento de óleo, além de outras atividades, como lavagem de material domiciliar no rio.
Tabela 5 - Análise do teor de óleos e graxas em diferentes localidades do Baixo São
Francisco, em novembro de 2020
pH

Longitude

Latitude

Teor (mg/L)

6,3

-37.450444

-9.753866

0,20 ± 0,1

Penedo

7,35

-36.571452

-10.327155

12,30 ±0,1

Piranhas

7,62

-37.749370

-9.626304

3,20 ± 0,1

Piaçabuçu

8,71

-36.442632

-10.423743

16,50 ± 0,1

Propriá

9,13

-36.827987

-10.212273

14,80 ± 0,1

Igreja Nova

9,18

-36.660687

-10.271721

0,50 ± 0,1

Traipu

9,14

-37.006676

-9.974881

0,00 ± 0,1

Brejo Grande

8,11

-36.410863

-10.485840

0,00 ± 0,1

Foz do São Francisco

7,34

-36.410863

-10.485840

0,00 ± 0,1

Amostras

Pão de Açúcar

Fonte: Elaborada pelos autores, 2020.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O resultado das análises do teor de óleo e graxas nas águas do Baixo São Francisco,
durante a III e a IV Expedições, indicaram a presença de óleo em pequenas, porém relevantes,
quantidades, na quase totalidade das cidades ribeirinhas. Em Piaçabuçu e em Penedo, foi
detectada a presença visual do óleo, em alguns momentos. Em Piaçabuçu, foi possível coletar
a amostra no momento da presença visual do óleo. Em alguns pontos de Piaçabuçu, a análise
detectou teor de óleos e graxas, mesmo não havendo presença visual do óleo. Segundo a
Resolução Conama 357 (BRASIL, 2005), o teor de óleos e graxas em água doce deve ser
virtualmente ausente.
É importante salientar a necessidade de uma periodicidade das análises em pontos
críticos das cidades ribeirinhas a serem identificados. Isto se deve à grande variação do teor de
óleos e graxas, em função de descarte de efluentes, vazão do rio, águas pluviais e despejos, dentre
outros fatores que levam à diluição ou ao acúmulo do óleo e outros contaminantes nas águas.
A foz do Rio São Francisco apresentou contaminação no ano de 2019, pelo
derramamento de petróleo em alto-mar, e este nível de contaminação esteve mantido nos
padrões de outras localidades ao longo do Baixo São Francisco.
Localidades como Piaçabuçu e Propriá merecem uma fiscalização mais efetiva dos
setores públicos com relação aos índices de contaminação de TOG.
Sugerimos que as análises sejam continuadas, haja vista que os índices de contaminação
ainda estão sendo identificados, bem como análises das areias de regiões próximas às cidades
ribeirinhas, a fim de se verificar a contaminação do solo.

233

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

REFERÊNCIAS
ARIZONA DEPARTMENT OF ENVIRONMENTAL QUALITY. Badct Guidance
document for pretreatment with Oil/Water Separators Draft, USA, p.34, 1996.
BATIRA, F. Estudo do tratamento de água de produção de petróleo utilizando unidade
de separação por biosorção. 2014. 74f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Química) –
Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2014.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Resolução Conama nº 274, de 29 de novembro de
2000.Revoga os artigos 26 a 34 da Resolução no 20/86 (revogada pela Resolução nº 357/05)
e define os critérios de balneabilidade em águas brasileiras.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Resolução Conama nº 357, de 15 de junho de
2005. Dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais para o seu
enquadramento, bem como estabelece as condições e padrões de lançamento de efluentes, e dá
outras providências.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Resolução Conama nº 393, de 8 de agosto de
2007. Complementa a Resolução Conama nº 357/05 (art. 43, § 4º). Dispõe sobre o descarte
contínuo de água de processo ou de produção em plataformas marítimas de petróleo e
gásnatural, e dá outras providências.
BROWN, T.L.; LEMAY JR., H.E.; BURSTEN, R.E. Química: ciência central. Prentice
Hall, ed.9, p.702, 1997.
INSTITUTO ESTADUAL DO AMBIENTE (INEA). Oficinas mecânicas e lava a jato:
orientações para o controle ambiental. Gestão ambiental, v.8. 2.ed. Secretaria do Ambiente.
Rio de Janeiro: Inea, 2014. p.48.
KLEMZ, A.C. et al. Treatment of real oilfield produced water by liquid-liquid extraction and
efficient phase separation in a mixer-settler based on phase inversion. Chemical Engineering
Journal, v.417, p.127926, 2021.
METCALF, L.; EDDY, H.; THOBANOGLOUS, G. Inc. Wastewater Engineering.
Treatment. Wastewater University & Research, 4.ed., p.1334, 1991.
ORSSATTO, F.; HERMES, E.; VILAS BOAS, M.A. Eficiência de Remoção de Óleos e
Graxas de uma Estação de Tratamento de Esgoto Sanitário. Engenharia Ambiental, Espírito
Santo do Pinhal, v.7, n.4, p.249, 2010.
SAWAMURA, M.Y.; MORITA, D.M. Mecanismos de desemulsificação de águas
residuárias de indústrias de refino de óleo lubrificante pelo processo ácido-argila com cloreto
férrico. Revista Engenharia Sanitária e Ambiental, v.4, p.76-83, 1999.
SMITH, D.J.; SHILLEY, H. Residential car washwater monitoring study. Surface Water
Management, p.20, 2009. Disponível em: https://tinyurl.com/sxzrsc4w. Acesso em: 13
abr. 2022.

234

CAPÍTULO 12 - A SALINIDADE DA ÁGUA NO BAIXO
SÃO FRANCISCO
Marcus Aurélio Soares Cruz1
Carlos Alberto da Silva2

Silvânio Silvério Lopes da Costa3
Carlos Alexandre Borges Garcia4
Joel Marques da Silva5

Petrônio Alves Coelho Filho6

Marco Yves de Aguiar Vitório Praxedes7
Lucas Cruz Fonseca8

Resumo: O monitoramento dos teores de sais presentes nas águas do Baixo São Francisco
durante as Expedições Científicas realizadas em 2020 e 2021 indicou a presença de dois
trechos distintos claramente definidos no rio, um situado de Piranhas (AL) até antes de
Piaçabuçu (AL), de baixos teores de sais e sem restrições aos usos avaliados neste estudo;
e outro localizado à jusante de Piaçabuçu (AL) até Brejo Grande (SE), junto à foz do
rio, no Oceano Atlântico, com salinidade variável e altamente dependente da condição
de maré, com restrições moderadas a severas para consumo ou irrigação de culturas, por
exemplo. A salinidade média, em profundidade, do trecho de jusante foi de 9,15‰ no ano
de 2021, por exemplo, contrapondo os 2,34‰ obtidos de média neste trecho em 2020.
Observou-se, também, aumento na variabilidade das concentrações de sais na IV Expedição,
comparativamente à III edição. Medições realizadas em locais intermediários neste trecho
indicam a presença da cunha salina a distâncias superiores a 7 km a partir da foz, bem como
uma predominância de maiores teores de sais na margem alagoana. Ressalta-se a necessidade
de monitoramentos contínuos, visando ao avanço no entendimento da influência das marés
na presença de sais nas águas do Baixo São Francisco e sua relação com diferentes condições
de escoamento presentes no rio ao longo do ano.
Palavras-chave: Condutividade Elétrica. Sólidos Totais Dissolvidos. Salinidade. Restrição
ao Uso.

INTRODUÇÃO
A população do Baixo São Francisco (BSF) vem enfrentando problemas relacionados à
presença excessiva de sais em decorrência da entrada das águas do Oceano Atlântico na calha
do Rio São Francisco (CAVALCANTE et al., 2020; SOARES et al., 2020). Esta intrusão
1 Embrapa Tabuleiros Costeiros
2 Embrapa Tabuleiros Costeiros
3 Universidade Federal de Sergipe
4 Universidade Federal de Sergipe
5 Universidade Federal de Sergipe
6 Universidade Federal de Alagoas
7 Universidade Federal de Alagoas
8 Instituto Tecnológico e de Pesquisas do Estado de Sergipe

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

salina, associada à poluição hídrica, vem afetando negativamente as atividades econômicas
da região, podendo vir a inviabilizar, em último caso, a utilização das águas para fins de
abastecimento humano, com prejuízos não restritos apenas aos municípios ribeirinhos à calha
do Rio São Francisco (GONÇALVES, 2016; MEDEIROS et al., 2016), mas a todos os
municípios que utilizam estas águas para fins de abastecimento, como é o caso de Aracaju (SE).
Este cenário tem mostrado sinais de piora nos últimos anos e pode estar associado à
exploração excessiva de recursos naturais, como a remoção de mata ciliar em rios tributários e
a ausência de tratamento de esgoto urbano nos municípios da região, com impactos agravados
pela ocorrência de longos períodos de seca, levando a decisões gerenciais que não promoveram
adequadamente os usos múltiplos da água do rio (CUNHA, 2015; ARAÚJO et al., 2018).
O regime de vazões do Rio São Francisco nesta área é regido pelos reservatórios
localizados nas partes mais altas da bacia, como as barragens de Sobradinho, Itaparica e Xingó,
cujas afluências foram reduzidas, nos últimos anos, devido ao uso inadequado da terra, com
diminuição da produção de água na bacia e aumento da erosão do solo, bem como sucessivos
períodos de seca (CHESF, 2017; SANTOS et al., 2022).
Como consequência, há uma redução gradual dos fluxos mínimos no rio, com impactos
significativos, dentre os quais o avanço da cunha salina na região da foz, causando a salinização
das águas utilizadas para abastecimento e atividades agrícolas, com alterações na biota local e
diminuição dos estoques pesqueiros, resultando no desaparecimento de algumas espécies de
peixes e crustáceos, e o surgimento de outros afeitos a ambientes salinizados (FONSECA
et al., 2020; PAIVA; SCHETTINI, 2021). Associada a estas questões, a menor capacidade
depurativa do rio, resultado de vazões mais baixas ao longo de períodos mais longos, contribui
significativamente para a manutenção de poluentes em concentrações prejudiciais à biota,
consumo e irrigação de culturas (MEDEIROS et al., 2016).
Assim, verifica-se uma diminuição da capacidade produtiva dos setores econômicos
que dependem da flutuação dos níveis de água para o seu desenvolvimento adequado, como o
cultivo de arroz e a piscicultura, por exemplo, e, logicamente, uma diminuição nos índices de
desenvolvimento humano da população na região (CUNHA, 2015; D’ÁVILA et al., 2021).
Este estudo buscou caracterizar a atual situação da presença de sais nas águas do Baixo
São Francisco, por meio de análises de medições realizadas ao longo de pontos localizados
em diferentes municípios da região, nos anos 2020 e 2021, durante a III e a IV Expedições
Científicas no Baixo São Francisco.

Caracterização da área de estudo

A área de estudo localiza-se na região do Baixo São Francisco (BSF), entre os Estados
de Sergipe e Alagoas, cobrindo 25.500 quilômetros quadrados, onde vive uma população de
cerca de 1,5 milhão de habitantes, dos quais 440.000 residem em áreas ao longo do Rio São
Francisco (CBHSF, 2021; IBGE, 2021). O estudo abrangeu os municípios alagoanos de
Piranhas, Pão de Açúcar, Belo Monte, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e
Piaçabuçu e os municípios sergipanos de Neópolis, Propriá e Brejo Grande, conforme pontos
de amostragem referenciados na Figura 1.

236

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 1 - Localização dos pontos de monitoramento de água do rio na região do Baixo
São Francisco

Fonte: SOARES et al., 2020.

A salinidade nas águas do Baixo São Francisco

A avaliação da salinidade das águas na região do Baixo São Francisco foi realizada
por meio da utilização de uma sonda multiparamétrica YSI modelo EXO1, onde foram
mensurados os seguintes parâmetros físico-químicos: pH, temperatura da água, condutividade
elétrica, sólidos totais dissolvidos e salinidade.
Foram selecionados 27 pontos de amostragem de água de forma aleatória, buscando
representar o comportamento médio das seções de medição do rio presentes em cada
município. Assim, foram realizadas medições em barco próximas às duas margens e em um
ponto intermediário (Figura 1), priorizando os horários de maré alta. A sonda era lançada
em cada local, iniciando sua leitura na maior profundidade possível, sendo realizadas leituras
intercaladas a cada três segundos, à medida que a sonda era içada à superfície, de modo a
criar um perfil vertical de variação de cada parâmetro. Na Tabela 1, estão apresentadas as
coordenadas geográficas dos pontos de amostragem no Datum WGS1984.
A análise estatística dos dados foi realizada por meio do programa R Studio e foram
produzidos mapas utilizando o software livre QGIS e Google Earth.

237

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Tabela 1 - Localização dos pontos de coleta de amostras de água no BSF
Município

Piranhas (AL)

Pão de Açúcar (AL)

Belo Monte (AL)

Traipu (AL)

Propriá (SE)

Igreja Nova (AL)

Penedo (AL)

Piaçabuçu (AL)

Brejo Grande (SE)

Ponto

Longitude

Latitude

PI1

-37.751278

-9.624347

PI3

-37.749370

-9.626304

PI2

-37.749750

PA1

-37.447327

PA2

-37.449494

PA3

-37.450444

BM1

-37.244480

BM2

-37.244013

BM3

-37.247284

TR1

-37.006143

TR2

-37.005506

TR3

-37.006676

PR1
PR2
IN1

-36.582383

PE2

-36.580135

PE3

-36.571452

PU1

-36.430666

PU2

-36.431902

PU3

-36.442632

FOZ1

-36.398627

FOZ2

-36.407867

FOZ3

-9.889896
-9.892764
-9.892921
-9.971428
-9.972609
-9.974881

-10.212273

-36.660687

PE1

-9.753866

-36.827987
-36.661799

IN3

-9.752503

-10.192243

-36.672528

IN2

-9.750914

-36.836774
-36.831299

PR3

-9.624700

-36.410863

Fonte: Elaborada pelos autores, 2021.

-10.206496
-10.266311
-10.268844
-10.271721
-10.299611
-10.306073
-10.327155
-10.412070
-10.426152
-10.423743
-10.476388
-10.481488
-10.485840

A avaliação da condição ambiental e de usos múltiplos das águas foi realizada por
meio da comparação com os limites estabelecidos pela Resolução Conama nº 357, de 17
de março de 2005 (BRASIL, 2005); pela Portaria de Consolidação nº 5, de 28/09/2017, do
Ministério da Saúde (BRASIL, 2017), sobre padrões de potabilidade, e pelo documento da
FAO relacionado ao uso para irrigação (AYERS; WESTCOT, 1994). Os valores limites
utilizados, bem como as respectivas fontes de consulta, estão listados na Tabela 2.

238

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 2 - Limites comparativos de avaliação ambiental e de usos múltiplos para os
parâmetros medidos nas amostras de água coletadas no Baixo São Francisco
Parâmetro
pH

Limites

Fonte

Águas doces < 0,5 ‰
0,5 ‰ < Águas salobras < 30,0‰
30,0‰ > Águas salinas

Conama 357/05

6,0 a 9,0

Salinidade

Nenhuma < 0,7
0,7 < Moderada < 3,0
Severa > 3,0

CE (dS.m-1)
Restrição para irrigação
SDT

FAO
(AYERS; WESTCOT, 1994)

2000,0 mg/L

Fonte: Elaborada pelos autores, 2021.

O comportamento das variáveis relacionadas aos teores de sais presentes nas águas do
BSF mostrou-se claramente distinto entre dois trechos, segundo os pontos de monitoramento:
o primeiro iniciando em Piranhas (AL), ponto de partida das Expedições, até antes de
Piaçabuçu (AL), que aqui utiliza-se Neópolis (SE) como referência; e o segundo com início
em Piaçabuçu, seguindo até Brejo Grande (SE), na foz do rio, junto ao Oceano Atlântico.
As águas monitoradas em diferentes profundidades, de Piranhas até Neópolis, foram
enquadradas como “águas doces” (águas com salinidade igual ou inferior a 0,5‰) segundo a
Resolução Conama nº 357, de 17 de março de 2005 (BRASIL, 2005) (Tabela 2). A salinidade
média no ano de 2020 foi de 0,04‰ ± 0,005‰ e valores mínimos de 0,00‰ e máximos de
0,04‰, enquanto em 2021 estes valores pouco sofreram alteração, com média de 0,04‰
± 0,01‰, e 0,00‰ e 0,06‰, como valores máximo e mínimo, respectivamente (Tabela 3).
Os valores de Condutividade Elétrica (CE) medidos em 2020 apresentaram média
de 0,085dS/cm ± 0,01 dS/cm e de Sólidos Dissolvidos Totais (SDT) de 55,43 mg/L ±
6,22 mg/L, estando as águas classificadas como de nenhuma restrição ao seu uso para
fins de irrigação de culturas segundo a FAO (Tabela 2). Este comportamento mostrou-se
praticamente inalterado em 2021, com CE média de 0,093 dS/cm ± 0,014 dS/cm e SDT
de 60,42mg/L ± 9,23 mg/L.
Tabela 3 - Parâmetros ambientais medidos nos pontos amostrais de Piranhas (AL) até
Neópolis (SE), durante a III e a IV Expedições no Baixo São Francisco (Média ± Desvio
Padrão – D.P., Mínimo e Máximo)
III Expedição Científica do BSF
Parâm.

Temp.

Unid.

°C

Média

28,32

D.P.

pH

2020

IV Expedição Científica do BSF

CE

SDT

Sal

Temp.

dS/cm

mg/L

ppt

°C

7,68

0,085

55,43

0,04

28,14

1,04

0,22

0,010

6,22

0,005

Mín.

27,53

6,62

0,002

1,00

Máx.

37,48

8,50

0,097

63,00

pH

2021
CE

SDT

Sal

dS/cm

mg/L

ppt

7,43

0,093

60,42

0,04

0,84

0,24

0,014

9,23

0,01

0,00

26,81

6,88

0,009

6,00

0,00

0,04

29,78

8.64

0,126

82,00

0,06

Fonte: Elaborada pelos autores, 2021.

239

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Como pode ser observado na Tabela 4, nos pontos de medição no Rio São Francisco,
nos municípios de Piaçabuçu e Brejo Grande, as águas medidas em superfície (profundidade
inferior a 30 cm) na III Expedição do BSF (2020) foram enquadradas como “águas doces”
(águas com salinidade igual ou inferior a 0,5‰), com valores médios de 0,06‰ ± 0,07‰;
no entanto, com valores máximos em Brejo Grande, aproximando-se do limite para águas
salobras. Tal fato pode estar relacionado à profundidade da cunha salina no momento das
medições, que, normalmente, localiza-se em camadas mais profundas dos corpos d’água.
Este comportamento foi diverso na IV Expedição, em 2021, uma vez que a salinidade
média atingiu 0,75‰ ± 1,04‰, classificando estas águas superficiais como salobras, conforme
a Resolução Conama 357/2005 (BRASIL, 2005), com ocorrência de um valor de salinidade
máximo de 3,26‰ no município de Brejo Grande. Ressalte-se, aqui, no entanto, que o valor
máximo de salinidade em Piaçabuçu ficou em 0,06‰, indicando que há uma gradação da
foz no sentido a Piaçabuçu, com aprofundamento da cunha.
Esta diferença observada entre os anos 2020 e 2021 pode estar associada à condição
de maior vazão no rio no período da III Expedição (cerca de 2500 m3/s, em média), o que
dificultaria o avanço da cunha salina a maiores distâncias. Porém, essa influência apenas pode
ser efetivamente comprovada com a realização de um monitoramento contínuo.
Com relação à CE, o valor médio registrado em 2020 foi de 0,136 dS/cm ± 0,137
dS/cm e SDT de 88,29 mg/L ± 89,14 mg/L, apontando para grande variabilidade no trecho,
com menores valores à medida que se aproxima de Piaçabuçu, vindo da foz, indicando, neste
local, águas superficiais sem restrição de uso para irrigação de culturas (Tabela 2).
Na IV Expedição, os valores médios de CE e SDT foram de 1,436 dS/cm ± 1,961
dS/cm e 933,55mg/L ± 1274,72 mg/L, indicando restrições moderadas à utilização das
águas para fins de irrigação.
Tabela 4 - Análise estatística dos parâmetros medidos em medições superficiais (< 30
cm) nos municípios de Piaçabuçu e Brejo Grande, na III e na IV Expedições do Baixo
São Francisco
III Expedição Científica do BSF

IV Expedição Científica do BSF

2020

Parâm.

Temp.

Unid.

°C

Média

28,53

D.P.

pH

2021

CE

SDT

Sal

Temp.

dS/cm

mg/L

ppt

°C

7,76

0,136

88,29

0,06

28,56

0,34

0,16

0,137

89,14

0,07

Mín.

28,01

7,54

0,087

56,00

Máx.

28,98

8,38

0,590

383,00

pH

CE

SDT

Sal

dS/cm

mg/L

ppt

7,62

1,436

933,55

0,75

0,16

0,24

1,961

1274,72

1,04

0,04

28,29

7,29

0,125

82,00

0,06

0,28

28,87

8,00

6,033

3922,00

3,26

Fonte: Elaborada pelos autores, 2021.

Buscando identificar melhor o comportamento do avanço da cunha salinana IV
Expedição do BSF, foram feitas medições em pontos intermediários (PF1, PF2 e PF3)
situados entre os municípios de Piaçabuçu e Brejo Grande, a aproximadamente 7,0 km, 6,0
km e 5,0 km do encontro com o Oceano Atlântico (Figura 2).

240

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Nesta região, como se podeobservar na Figura 3, as concentrações de sais em águas
superficiais apresentam alteração significativa apenas a distâncias muito próximas à foz,
uma vez que, nos pontos intermediários de monitoramento, que iniciam a partir de 4,0 km
do encontro com o oceano, as alterações foram muito pequenas, com o maior valor sendo
registrado no ponto PF2 (0,120‰).
Ressalte-se, no entanto, que o ponto mais próximo à foz situado na margem alagoana
(FOZ1) mostrou-se com os maiores valores de salinidade nas águas superficiais, indicando
menor presença de águas doces neste local ou, ainda, a existência de caminhos preferenciais
de correntes de entrada da água marinha, influenciados pelo relevo de fundo do rio.
Figura 2 - Pontos monitorados na região próxima à foz do Rio São Francisco, com indicação
de três pontos intermediários (PF1, PF2 e PF3) utilizados na IV Expedição do BSF

Fonte: AUTORES; GOOGLE EARTH, 2021.

241

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 3 - Valores médios de salinidade (‰) em superfície (< 30 cm) nos pontos monitorados
na região próxima à foz do Rio São Francisco, na IV Expedição do BSF

Fonte: AUTORES; GOOGLE EARTH, 2021.

Para as medições em profundidade (Tabela 5), as águas, nestes locais, foram
enquadradas como “águas salobras” (com salinidade superior a 0,5‰ e inferior a 30‰),
conforme a Resolução Conama nº 357, de 17 de março de 2005 (BRASIL, 2005) (Tabela
2). A salinidade das águas de fundo na III Expedição (ano 2020) variou de 0,04‰ a 24,11‰
no trecho do Rio São Francisco na localidade de Piaçabuçu (AL) a Brejo Grande (SE). Os
valores mínimos ocorreram em Piaçabuçu, localizado a mais de 10 km da foz, indicando
limite de alcance da cunha salina em condição de maré alta em profundidade.
Nas medições realizadas na IV Expedição, em 2021, esta variação foi de 0,06‰ a
32,89‰, o que coloca parte dessas águas em condição de “salinas”, segundo a classificação
Conama 357/2005 (BRASIL, 2005). Medições realizadas nos pontos intermediários entre os
municípios indicaram valores máximos de salinidade de 17,68‰ nas maiores profundidades,
mostrando que a cunha teve avanço superior a 7,0 km durante a IV Expedição.

242

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 5 - Análise estatística dos parâmetros medidos em amostras em profundidade nos
municípios de Piaçabuçu e Brejo Grande, na III e na IV Expedições do Baixo São Francisco
III Expedição Científica do BSF

IV Expedição Científica do BSF

2020

Parâm.

Temp.

Unid.

°C

Média

28,34

D.P.

pH

2021

CE

SDT

Sal

Temp.

dS/cm

mg/L

ppt

°C

7,80

3,853

2504,67

2,34

27,74

0,36

0,23

9,800

6370,16

6,15

Mín.

27,84

7,48

0,087

56,00

Máx.

28,98

8,38

38,092

24760,00

pH

CE

SDT

Sal

dS/cm

mg/L

ppt

7,82

14,514

9434,22

9,15

0,50

0,35

16,722

10869,65

10,78

0,04

27,26

7,28

0,125

82,00

0,06

24,11

28,86

8,40

50,292

32690,00

32,89

Fonte: Elaborada pelos autores, 2021.

Pode-se observar, na Figura 4, a variação da salinidade ao longo dos perfis de
profundidade nos locais de medição, com desvios padrão que, às vezes, ultrapassam a grandeza
dos valores médios, como nos pontos FOZ3 (8,162‰ ± 11,890‰) e PF2 (1,953‰ ±
4,177‰). Isto se deve ao gradiente de avanço da cunha salina, com maiores concentrações
próximas ao fundo do rio, reduzindo rapidamente ao se aproximar da superfície.
Observa-se, aqui, assim como no caso das águas superficiais, uma tendência de maior
concentração de sais na margem alagoana do rio, com valor médio, por exemplo, de 5,137‰
± 5,782‰ (PF1), superior aos valores médios obtidos no ponto PF2. Cabe ressaltar, também,
a presença de maiores profundidades junto à margem esquerda do rio neste trecho, o que se
torna, naturalmente, um caminho preferencial ao avanço das águas marinhas.
Os valores de Condutividade Elétrica (CE) e Sólidos Totais Dissolvidos (SDT)
também mostraram-se diferentes entre as duas Expedições, com valores médios de 3,853
dS/cm ± 9,800 dS/cm e 2504,67mg/L ± 6370,16 mg/L, respectivamente, na III Expedição,
com aumento na IV Expedição, atingindo médias de CE da ordem de 14,514dS/cm ± 16,722
dS/cm e SDT de 9434,22 mg/L ± 10869,65 mg/L.
Em ambos os casos, as águas foram classificadas como de restrição severa ao uso em
irrigação e culturas. Assim como nas águas de superfície, em profundidade, a influência das
vazões do rio pode ser um fator significativo nesta variação de condição de salinização das
águas – neste caso, com maior intensidade, em virtude da maior diferença de densidade das
águas oceânicas, que se deslocam abaixo das águas doces.

243

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 4 - Valores médios e desvios padrão (DP) para salinidade (‰) em profundidade
nos pontos monitorados na região próxima à foz do Rio São Francisco, na IV Expedição
do BSF

Fonte: AUTORES; GOOGLE EARTH, 2021.

Um exemplo do comportamento da cunha salina em condição de maré alta pode ser
observado na Figura 5, onde estão plotados os perfis de salinidade medidos pela sonda em
pontos do rio entre os municípios de Brejo Grande (SE) e Piaçabuçu (AL). Observou-se que,
à medida que há o afastamento da foz em direção ao interior, ocorre o aprofundamento das
águas com maiores teores de sais. Em Brejo Grande, junto à foz (ponto FOZ1), observou-se
um aumento de salinidade entre 2,0 m e 3,0 m de profundidade com incrementos graduais,
atingindo o máximo (cerca de 33‰) próximo a 5,0 m de profundidade, onde a água já se
restringe à água marinha.
No ponto intermediário (PF1), as águas começam a apresentar teores de sais mais
significativos a partir de 4,0 m de profundidade, e os maiores teores de sais estão situados a
partir de 6,0 m, com aumento gradual ocorrendo entre 7,0 m e 8,0 m, atingindo a concentração

244

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

máxima (próximo a 15‰) após os 8,0 m de profundidade. As medições em Piaçabuçu não
apresentaram variação nos teores de sais com aumento da profundidade, mantendo-se com
salinidade baixa durante todo o período de medição.
Figura 5 - Perfis de salinidade nos locais de medição próximos à foz do Rio São Francisco
em condição de maré alta, na IV Expedição do Baixo São Francisco (vazão média do rio
1400 m3/s)

Fonte: Autores, 2021.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O comportamento da salinidade das águas na região objeto das Expedições Científicas
do Baixo São Francisco apresenta dois trechos distintos claramente definidos: o primeiro,
de baixos teores de sais, situado de Piranhas (AL) até antes de Piaçabuçu (AL); e o segundo
localizado à jusante de Piaçabuçu (AL) até Brejo Grande (SE), junto à foz do rio, no Oceano
Atlântico, com salinidade variável e altamente dependente da condição de maré.
Este capítulo reúne os resultados das medições em campo relacionadas à salinidade
obtidas durante a III e a IV Expedições Científicas do BSF, que ocorreram nos anos 2020
e 2021, respectivamente. As condições de avaliação da qualidade das águas foram distintas
entre as Expedições, uma vez que, em 2020, a vazão média no Rio São Francisco, nesta região,
foi de 2500 m3/s, superior aos 1400 m3/s registrados em média no período da realização da
IV edição da Expedição, em 2021. Esta diferença pode ter influência direta sobre a condição
e o avanço da cunha salina proveniente das águas marinhas em direção ao continente; no
entanto, o grau desta influência apenas poderá ser objetivamente definido a partir de um
monitoramento contínuo na região.
A condição de utilização das águas do Rio São Francisco para diferentes fins mostrase prejudicada, atualmente, por conta da condição de salinidade à jusante do município de
Piaçabuçu (AL), conforme demonstram as medições realizadas em pontos situados a diferentes

245

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

distâncias à montante da foz, onde os teores de sais atingem valores da ordem de 15,0‰ a
cerca de 8,0 m de profundidade em condição de maré alta.

REFERÊNCIAS
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São Francisco River in the States Sergipe and Alagoas (Brazil). Water and Landscape,
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of the São Francisco River Estuary and adjacent coastal zone (NE/Brazil). Regional Studies
in Marine Science, v.38, p.101363, 2020.
COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO (CBHSF).
Regiões hidrográficas. Disponível em: https://cbhsaofrancisco.org.br/a-bacia/#regioeshidrograficas. Acesso em: mar. 2021.
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temporária da vazão mínima do Rio São Francisco para 550 m³/s, a partir da UHE
Sobradinho. 45º Relatório Mensal de Acompanhamento, Companhia Hidrelétrica do
São Francisco, dez. 2017.
CUNHA, C.J. Regularização da vazão e sustentabilidade de agroecossistemas no estuário
do Rio São Francisco. 2015. 231f. Tese (Doutorado em Geografia) – Centro de Ciências e
Tecnologia, Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, 2015.
D’AVILLA, T.; COSTA-NETO, E.M.; BRITO, M.F. Impacts on fisheries assessed by local
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DA SILVA, D.F.et al. Variabilidade da qualidade de água na Bacia Hidrográfica do Rio
São Francisco e atividades antrópicas relacionadas. Qualit@s Revista Eletrônica, v.9, n.3,
p.1-17, 2010.
FONSECA, S.L.M. et al. Effect of the reduction of the outflow restriction discharge
from the Xingó dam in water salinity in the Lower Stretch of the São Francisco River.
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Rio São Francisco. In: SIMPÓSIO DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO
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SOARES, E.C.; SILVA, J.V.; NAVAS, R. O Baixo São Francisco: características ambientais
e sociais. Maceió: Edufal, 2020.

247

CAPÍTULO 13 - ESTRUTURA FITOSSOCIOLÓGICA E
DENSIDADE POPULACIONAL DO CARANGUEJOUÇÁ NO BOSQUE DE MANGUE DA FOZ DO RIO
SÃO FRANCISCO
Alexandre Oliveira1
Ludmylla Wolpert2
Chaiane Assunção3
Milena Dutra4

Nadjacleia Vilar Almeida5
Resumo: Os manguezais são ecossistemas costeiros comuns em regiões de clima tropical e
subtropical e sujeitos ao regime de marés e à conexão de ambientes de água doce e marinhos,
podendo ser encontrados em quase toda a costa brasileira (04°30’N; 28°28’S), o que representa
cerca de 8,9% dos manguezais do mundo. Por suas características únicas, são considerados
excelentes indicadores de mudanças climáticas. Em Alagoas e Sergipe, os manguezais ocorrem
em todas as áreas estuarinas, rios e canais com conexões aos corpos d’água das principais
lagoas costeiras. A ocorrência do caranguejo-uçá é limitada à costa oeste do Oceano Atlântico,
acompanhando a ocorrência dos manguezais. O objetivo deste trabalho foi caracterizar a
estrutura do manguezal e a dinâmica populacional do caranguejo-uçá na foz do Rio São
Francisco. Para a amostragem da vegetação, foram utilizados parâmetros fitossociológicos.
A dinâmica populacional dos caranguejos foi avaliada por métodos não-destrutivos. O
manguezal da foz do Rio São Francisco possui duas das mais comuns espécies do ecossistema
manguezal, R. mangle e L. racemosa, apresentando bons valores de parâmetros fitossociológicos.
Os valores de densidade (ind./m2) e frequência das classes de tamanho indicam que esta área
pertence ao estoque juvenil, portanto não é recomendada para a captura de caranguejos, pelo
menos durante o período em que as coletas ocorreram. Finalmente, é necessário implementar
programas de monitoramento do manguezal, bem como das populações, tanto no habitat
natural, quanto nos locais de desembarque pesqueiro, a fim de realizar estimativas periódicas
de densidade populacional deste importante recurso pesqueiro.
Palavras-chave: Conservação.Ucides cordatus. Métodos NãoDestrutivos. Expedição Científica
do São Francisco.

INTRODUÇÃO
Os manguezais são ecossistemas costeiros comuns de regiões com clima tropical e
subtropical e sujeitos ao regime das marés e da conexão dos ambientes de água doce e marinho
1 Professor associado IV da Universidade Federal de Alagoas (Ufal/Penedo), Laboratório de Pesquisas em
Estuários e Manguezais (Lapem).
2 Graduanda em Engenharia de Pesca, Unidade Educacional Penedo, Laboratório de Pesquisas em Estuários e
Manguezais (Lapem), Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
3 Graduanda em Engenharia de Pesca, Unidade Educacional Penedo, Laboratório de Pesquisas em Estuários e
Manguezais (Lapem), Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
4 Professora adjunta, Departamento de Engenharia e Meio Ambiente, Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
5 Professora adjunta, Departamento de Engenharia e Meio Ambiente, Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

(SCHAEFFER-NOVELLI; VALE; CINTRÓN, 2015), sendo considerados indicadores
de mudanças climáticas regionais e globais (LIMA; OLIVEIRA, 2011).
Os manguezais ocupam uma área de cerca de 137.760 km2, distribuídos em 118
países. Essa estimativa diminui com o aumento da latitude, exceto entre 20° e 25° de latitude
norte, onde se localizam os Sundarbans, a maior área de manguezais do mundo, na divisa
entre o Estado indiano de Bengala Ocidental e Bangladesh (GIRI et al., 2011; BUNTING
et al.,2018).
Este ecossistema pode ser encontrado em quase todo o Litoral brasileiro, desde
o Oiapoque (04°30’N) até a Lagoa de Santo Antônio (28°28’S) (SOARES et al., 2012;
CAVANAUGH et al.,2018), sendo que levantamentos mais recentes sobre a área de cobertura
dos manguezais no Brasil indicam uma área entre 962.683 ha e 1,071,083.74 ha, o que
representa cerca de 7,0% a 8,9% do total mundial da área de ocorrência desse ecossistema
(MAGRIS; BARRETO, 2010; BRASIL, 2010; GIRI et al., 2011; SOARES et al., 2012 ).
O manguezal pode ser estruturado como feições conectadas de acordo com
características específicas de cada zona, sendo classificadas como apicum, bosque de mangue
e lavado (SCHAEFFER-NOVELLI; VALE; CITRÓN, 2015). Estas regiões são resultado
da influência em relação à linha d’água, constituindo formações de vegetação de mangue
peculiares à periodicidade das inundações (ALMEIDA et al., 2014).
A dinâmica da vegetação de mangue pode modificar-se através do tempo, com
as mudanças na quantidade de inundações marinhas por mudanças no uso e ocupação
de uma determinada bacia e influxo de água doce proveniente dos rios, sendo excelentes
bioindicadores, pois respondem aos gradientes de inundação, de nutrientes e de salinidade
(SCHAEFFER-NOVELLI; VALE; CINTRÓN, 2015). Tal heterogeneidade parece ser
uma resposta à interação de vários fatores abióticos e antrópicos que atuam em diferentes
escalas locais e/ou regionais (microescala e mesoescala) e temporais (BERNINI; REZENDE,
2010; CUNHA-LIGNON et al., 2011).
A vegetação apresenta baixa diversidade, uma vez que poucas espécies conseguem
se adaptar às oscilações da maré e salinidade, ao substrato inconsolidado e pouco oxigenado
(CUNHA-LIGNON et al., 2011; LONDE et al., 2013; OLIVEIRA; TOGNELLA, 2014).
Nos manguezais brasileiros, ocorrem três gêneros: Rhizophora L., Laguncularia C.F. e Gaertne
Avicennia L., com um total de seis espécies: Rhizophoramangle L. (Rhizophoraceae), Rhizophora
harrisonii Leechm. (Rhizophoraceae), Rhizophora racemosa G. Mey. (Rhizophoraceae),
Laguncularia racemosa (L.) C.F. Gaertn. (Combretaceae), Avicennias chaueriana Stapfand
& Leechm. ex Moldenke (Acanthaceae) e Avicennia germinans (L.) L. (Acanthaceae)
(GONÇALVEZ et al., 2018; BRASIL, 2018).
Em Alagoas, os manguezais ocorrem ao longo de todas as áreas estuarinas, rios e
canais com ligações com os corpos d’água das principais lagunas costeiras (CORREIA;
SOVIERZOSKI, 2009; NEVES, 2014; RODRIGUES, 2015; SILVA; BARROS;
OLIVEIRA, 2020), assim como em Sergipe (SANTOS, 2013). São habitats de diversas
populações, pois possuem condições ideais de reprodução e desenvolvimento de diversas
espécies de peixes, crustáceos e moluscos, além de ser considerados um dos ambientes naturais
mais produtivos do planeta (BERNINI et al., 2014; BLOTTA et al., 2016).
A dinâmica do manguezal é diretamente influenciada pela interação da biota e das
características ambientais. Os padrões edáficos e geomorfológicos e a composição vegetal e
fatores abióticos atuam sobre a abundância e distribuição espacial dos microrganismos, bem

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

como daqueles que constituem a meio e a macrofauna (SCHAEFFER-NOVELLI, 1995;
A. NETTO; GALLUCCI, 2003). O tamanho e a dominância relativa vegetal mostram
associação com a presença e a densidade de crustáceos braquiúros que escavam galerias
no sedimento (AMOROUX; TAVARES, 2005), sendo importantes componentes dos
manguezais (NICOLAU; OSHIRO, 2007).
Dos animais que o manguezal abriga, os caranguejos destacam-se pela quantidade e
diversidade apresentadas, o que os torna alvo da exploração econômica. Dentre os caranguejos,
o Ucides cordatus (LINNAEUS, 1763) destaca-se por seu grande valor econômico (IVO
et al., 2000; BOTELHO; SANTOS 2002). O caranguejo-uçá é um dos crustáceos de
maior importância econômica e social encontrados, principalmente, no Nordeste do Brasil
(ARAÚJO; CALADO, 2008).
A ocorrência do caranguejo-uçá está limitada à costa oeste do Oceano Atlântico,
partindo da Flórida, passando pelo Golfo do México, Antilhas, norte da América do Sul e
Guianas, até chegar ao Brasil (MELO, 1996). No Brasil, sua distribuição acompanha a dos
manguezais, sendo Laguna, no Estado de Santa Catarina, seu limite de distribuição austral
(COELHO; RAMOS, 1972; SCHAEFFER-NOVELLI et al., 1990; CASTRO et al., 2008).
Dentre os principais recursos utilizados pelas comunidades ribeirinhas estão os peixes,
crustáceos e moluscos, em grau de exploração, respectivamente, sendo a pesca de crustáceos
equivalente a aproximadamente 30% das pescarias de alto valor no mundo (SMITH;
ADDISON, 2003). É uma atividade importante para diversos países, considerada como
uma das mais valiosas do planeta (TULLY, 2003).
O estabelecimento de um método indireto pode ser mais adequado nos estudos de
estrutura populacional ( JORDÃO; OLIVEIRA, 2003). Dentre as vantagens do estudo da
dinâmica populacional de U. cordatus através da medição da abertura das tocas, destacam-se
a rapidez e o consequente aumento do número amostral; a realização de amostragens não
destrutivas, importante quando o trabalho envolve espécies ameaçadas e a possibilidade de
se conseguir medidas relativas de todos os indivíduos dentro das unidades amostrais, o que é
raramente possível quando a remoção dos caranguejos é necessária (SCHMIDT et al., 2008).
Sendo assim, torna-se o objetivo deste trabalho a caracterização estrutural do
bosque de mangue e da dinâmica populacional do caranguejo-uçá do manguezal da foz
do Rio São Francisco.

Fitossociologia

Para a caracterização e estudo dos bosques de mangue da foz do Rio São Francisco,
foi selecionada uma área amostral em que foram mensurados e analisados parâmetros
fitossociológicos da vegetação, bem como aspectos populacionais do caranguejo-uçá. As
amostragens ocorreram no mês de novembro de 2021, no período matutino, durante a
baixa-mar de quadratura. As coletas foram registradas no formulário para Coleta de Material
Botânico nº 80978-1.
A área amostral foi escolhida conforme a representatividade do habitat, aliada à
melhor logística possível para a realização das atividades (Figura 1).

251

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 1 - Área de estudo (10°29’38”S; 036°25’20”W) do manguezal do estuário da foz do
Rio São Francisco

Fonte: GOOGLE EARTH, 2021.

O estudo da vegetação seguiu a metodologia sugerida por Schaeffer-Novelli e Cintrón
(1986). No transecto de pesquisa, foram demarcadas duas parcelas, denominadas franja e
bacia (medindo 400 m2 cada, distanciadas em 10 m entre si e perpendiculares à margem do
rio). A parcela denominada franja corresponde à zona do bosque de mangue mais próxima
ao canal estuarino e sob maior influência da variação de maré; a parcela denominada bacia
correspondente à zona média do bosque (Figura 2).
Figura 2 - Diagrama das parcelas para o estudo das estruturas fitossociológicas do manguezal
do estuário da foz do Rio São Francisco

Fonte: OLIVEIRA, 2022.

As árvores foram identificadas ao nível de espécie, sendo que, para cada espécie
arbórea, foram mensuradas altura (estimativa visual) e circunferência (auxílio de fita métrica)

252

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

(Figura 3), a fim de se obter o Perímetro à Altura do Peito (PAP), para posterior transformação
em Diâmetro à Altura do Peito (DAP). Foram considerados, para a contagem de indivíduos
adultos, todos os organismos com DAP maior ou igual a 2,5 cm.
Figura 3 - Medida do DAP em exemplar de Rhizophora mangle no manguezal do estuário
da foz do Rio São Francisco

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

O cálculo dos parâmetros estruturais mencionados por parcela, espécie e classe
diamêtrica seguiu a metodologia de Schaeffer-Novelli e Cintrón (1986). Foram mensurados:
Diâmetro da Altura do Peito (DAP); Altura das árvores; Densidade, Densidade Relativa
(DR); Área Basal (AB) e Área Basal Relativa (ABR).

Dinâmica populacional do caranguejo-uçá

A estimativa da densidade do caranguejo-uçá (Ucidescordatus) (Figura 4) na área
amostral foi determinada pela totalização das galerias abertas com atividade biogênica (lama
fluida e/ou fezes próximas à abertura da toca) presentes nos quadrados de amostragem. As
coletas foram realizadas sob permissão do ICMBio (Licença Permanente para Coleta de
Material Zoológico nº 20291-5).

253

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 4 - Exemplar de Ucides cordatus (caranguejo-uçá) no manguezal do estuário da foz
do Rio São Francisco

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Os quadrados utilizados totalizavam área de 25 m2 (mediam 5 m x 5 m). A primeira
área foi iniciada a 10 m após o corpo d’água (área de franja do bosque), sendo a segunda
posicionada (área de bacia do bosque) a 10 m de distância da primeira área (Figura 5).
As medidas das tocas foram mensuradas com o auxílio de paquímetro digital. Foram
realizadas duas medidas para cada toca, sendo que o valor registrado era sempre o menor
entre eles. Este valor foi, então, adicionado à equação:
Comprimento do Caranguejo = -5,739 + (1,265 * Diâmetro da toca),
relacionando o tamanho do indivíduo com o diâmetro da abertura da galeria
(SCHMIDT et al., 2008).
Figura 5 - Diagrama das áreas para o estudo da estrutura populacional do caranguejo-uçá
no manguezal do estuário da foz do Rio São Francisco

Fonte: OLIVEIRA, 2022.

254

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

As galerias do caranguejo-uçá foram diferenciadas das demais espécies pela posição
oblíqua de sua abertura em relação à superfície do sedimento, conforme descrito por Costa
(1979). As galerias com dupla abertura foram identificadas, mas somente foram medidas as
que apresentaram sinais de atividade biogênica.
Durante o estudo da estrutura vegetal do manguezal da foz do Rio São Francisco,
foram amostrados indivíduos de Rhizophora mangle (Figura 6) e Laguncularia racemosa
(Figura 7).
Figura 6 - Exemplares de Rhizophora mangle no manguezal do estuário da foz do Rio São
Francisco

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

255

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 7 - Exemplar de Laguncularia racemos no manguezal do estuário da foz do Rio
São Francisco

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

Foram observadas, ainda, árvores mortas e cortadas, indicando ação antrópica.
Nas parcelas amostradas, também foram notadas várias plântulas, em diversas fases de
desenvolvimento, tanto de R. mangle, quanto de L. racemosa.
Os parâmetros fitossociológicos apontam para uma superioridade de organismos
vivos em relação às árvores mortas (Tabela 1); consequentemente, os valores de área basal
são maiores para indivíduos vivos.
Não houve ocorrência de indivíduos mortos na feição bacia, indicando uma área bem
preservada. Os valores de área basal mostram maior quantidade de organismos na feição
franja, indicando maior reposição de indivíduos. Este fato é característico das áreas de franja
dos manguezais, sujeitas à maior dinâmica do ambiente, pois estão relacionadas às variações
de maré e às taxas de nascimento de plântulas.
Tabela 1 - Parâmetros fitossociológicos do bosque de mangue do estuário da foz do Rio
São Francisco
Area Basal (m2/ha) Vivos
Area Basal (m2/ha) Mortos
Area Basal Relativa (%) Vivos
Area Basal Relativa (%) Mortos
Densidade (troncos/ha) Vivos
Densidade (troncos/ha) Mortos
Densidade Relativa (%) Vivos
Densidade Relativa (%) Mortos

Feição
Franja
Bacia
1,09
0,72
0,19
0,00
85,29
100,00
14,71
0,00
350,00
75,00
50,00
0,00
87,50
100,00
12,50
0,00

DAP (média)

6,30

Parâmetros Fitossociológicos

Altura (média)

Fonte: Oliveira, 2022.

256

6,42

13,33
11,00

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Valores bem superiores na Densidade (Tabela 1) de troncos na feição franja são
justificados pela maior ocorrência da espécie R. mangle, árvore esta que tem como característica
múltiplos troncos, diferentemente de L. racemosa, com maior ocorrência na feição bacia, que
possui muito menos ramificações e, geralmente, apenas um tronco principal.
Os valores de DAP e Altura (Tabela 1) apontam superioridade da feição bacia em
relação à franja, indicando indivíduos maiores e mais largos, devido, provavelmente, aos
indivíduos da bacia serem mais velhos, estando numa região mais estável e menos propensa
à grande dinâmica que ocorre mais próxima ao principal corpo d’água que banha o bosque.
Foram amostradas 274 tocas do caranguejo-uçá na feição franja. Pela equação
utilizada para estimar os tamanhos dos caranguejos através do tamanho da abertura das
tocas, os organismos amostrados foram classificados em juvenis e adultos (Tabela 2).
Tabela 2 - Distribuição de juvenis e adultos do caranguejo-uçá da feição franja do manguezal
do estuário da foz do Rio São Francisco

Fonte: Oliveira, 2021.

Os indivíduos juvenis representaram 83,94% do total de tocas amostradas, enquanto
os adultos representaram 16,06%. Estes valores indicam que os organismos estão, na feição
franja, em sua maioria, em estádio imaturo de desenvolvimento e pertencem ao estoque juvenil
(BLANKENSTEYN; CUNHA FILHO; FREIRE, 1997; IVO et al., 2000; MORAES;
NUNESMAIA; PINHEIRO, 2015). Portanto, esta feição possui indivíduos juvenis,
inapropriados para a captura, pois são organismos menores que os tamanhos comerciais
recomendados (60mm – tamanho comercial).
Em relação à Densidade, os quadrados amostrais apresentaram diferença entre todos
os quadrados amostrados (Tabela 3). A densidade média foi de 2,3ind/m²±0,7 ind/m².
Tabela 3 - Média de indivíduos (m2) do caranguejo-uçá na feição franja do manguezal do
estuário da foz do Rio São Francisco

Fonte: Oliveira, 2021.
Já a frequência das classes de tamanhos apresentou um pico de maior ocorrência no
intervalo de tamanho 30 mm –40mm (Figura 8).

257

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 8 - Distribuição de frequência nas classes de tamanho do caranguejo-uçá na feição
franja do manguezal do estuário da Foz do Rio São Francisco

Fonte: OLIVEIRA, 2021.
A frequência de tamanhos apresentada pela feição franja corrobora o alto valor de
densidade de juvenis. As menores classes de tamanho com maior frequência de ocorrência
encontradas na feição franja podem estar relacionadas ao comportamento reprodutivo da
espécie, pois os organismos recém-assentados irão povoar as áreas mais próximas à água, já
que a desova de U. cordatus é realizada em águas mais salinas (BLANKENSTEYN; CUNHA
FILHO; FREIRE, 1997; IVO et al., 2000, MORAES; NUNESMAIA; PINHEIRO, 2015).
Os tamanhos encontrados estão, na sua grande maioria, fora do permitido para a
captura. Segundo a Portaria nº 034/03-N do Ibama, de junho de 2003 (BRASIL, 2003), são
proibidos: captura,manutenção em cativeiro, transporte, beneficiamento e industrialização de
qualquer indivíduo da espécie Ucides cordatus cuja largura de carapaça seja inferior a 6,0cm
nos Estados do Nordeste e do Norte do Brasil.
Já na feição bacia, foram amostradas 235 tocas do caranguejo-uçá. Pela equação
utilizada para estimar os tamanhos dos indivíduos através do tamanho da abertura das tocas,
os organismos amostrados foram classificados em juvenis e adultos (Tabela 4).

258

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 4 - Distribuição de juvenis e adultos do caranguejo-uçá da feição bacia do manguezal
do estuário da foz do Rio São Francisco

Fonte: Oliveira, 2021.

Os indivíduos juvenis representaram 65,11% do total de tocas amostradas, enquanto
os adultos representaram 34,89%. Nesta feição, o valor de porcentagem de juvenis também
foi alto, porém, significativamente mais baixo. O valor de porcentagem de adultos foi maior
quando comparado com a feição franja. No entanto, os valores obtidos também indicam área
predominante de indivíduos juvenis (MORAES; NUNESMAIA; PINHEIRO, 2015).
Em relação à Densidade, os quadrados amostrais apresentaram diferença entre todos
os quadrados amostrados (Tabela 5). A densidade média foi de 2,0ind/m²±0,7ind/m².
Tabela 5 - Média de indivíduos (m2) do caranguejo-uçá na feição bacia do manguezal do
estuário da foz do Rio São Francisco

Fonte: Oliveira, 2021.

A densidade (ind/m2) da feição bacia foi menor do que a apresentada pela franja,
indicando uma menor quantidade de organismos na área. Isto pode estar relacionado ao
maior tamanho dos organismos na feição bacia, levando, consequentemente, a uma menor
densidade, já que organismos maiores são mais territorialistas (COSTA, 1979; PINHEIRO;
HATTORI, 2006), aumentando a competição intraespecífica.
A frequência das classes de tamanhos apresentou um pico de maior ocorrência no
intervalo de tamanho 40 mm – 50mm, intervalo superior na distribuição das classes de
tamanho (Figura 9).

259

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 9 - Distribuição de frequência nas classes de tamanho do caranguejo-uçá na feição
bacia do manguezal do estuário da foz do Rio São Francisco

Fonte: OLIVEIRA, 2021.

A frequência de ocorrência da feição bacia (Figura 9) demonstra que os organismos
presentes nesta área são, em sua maioria, das classes de tamanho inferior ao mínimo permitido
para a captura, segundo a Portaria nº 034/03-N do Ibama (BRASIL, 2003).
Os valores de densidade (ind/m2) foram superiores aos observados por Schmidt
(2006) em manguezais de Canavieiras, na Bahia, e Duarte et al. (2014) em manguezais da
Jureia e de Cubatão, em São Paulo. Porém, foram inferiores aos valores encontrados por Paiva
(1987) nos estuários de Sergipe, Lima e Mochel; Castro (2010), nos manguezais do Norte
Maranhense, e Silva (2014), no estuário do Rio Coruripe, em Alagoas. Assim, podemos
sugerir que a densidade pode diminuir conforme o aumento da latitude.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O bosque de mangue da foz do Rio São Francisco abriga duas das mais comuns
espécies do ecossistema manguezal, R. manglee L. racemosa, apresentando bons valores dos
parâmetros fitossociológicos.
Os valores de densidade (ind./m2) e frequência das classes de tamanho indicam
que esta área pertence ao estoque juvenil e, portanto, não é recomendada para a captura dos
caranguejos, pelo menos durante o período em que se deram as coletas.
Por fim, faz-se necessária a implementação de programas de monitoramento das
populações, tanto no habitat natural, quanto nos locais de desembarque do pescado, com
o objetivo de realizar estimativas periódicas da densidade populacional. Vale frisar que há
necessidade da intensificação da fiscalização, principalmente no período da andada.
Além disso, práticas de educação e sensibilização ambiental dos pescadores, das
comunidades ribeirinhas e, principalmente, nas escolas do sistema público de ensino são
ferramentas importantes na prática da informação sobre a exploração sustentável dos
recursos pesqueiros.

260

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

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264

CAPÍTULO 14 - A CARTA ARQUEOLÓGICA
SUBAQUÁTICA DO BAIXO SÃO FRANCISCO:
CONTRIBUIÇÕES DA ARQUEOLOGIA DE
AMBIENTES AQUÁTICOS ÀS EXPEDIÇÕES
CIENTÍFICAS DO RIO SÃO FRANCISCO
Gilson Rambelli1

Leandro Domingues Duran2

Paulo Fernando Bava de Camargo3
Luis Felipe Freire Dantas Santos4

Resumo: Neste capítulo, apresenta-se a contribuição da equipe de Arqueologia Subaquática
do Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe
para as 3ª e 4ª Expedições Científicas do Rio São Francisco. Seguindo um projeto proposto
há mais de 10 anos – o desenvolvimento de uma Carta Arqueológica dos bens culturais
depositados em meio aquático –, conseguiu-se obter resultados de significativa importância
para a gestão do Patrimônio Cultural Subaquático existente nesse importante rio brasileiro.
Foram identificados remanescentes materiais do plural patrimônio náutico do grande Opará,
tais como uma âncora lítica, canoas de tolda, barco a vapor e um naufrágio mais antigo, quiçá
do período da Independência do Brasil.
Palavras-chave: Arqueologia de Ambientes Aquáticos. Arqueologia Subaquática. Patrimônio
Cultural Subaquático. Carta Arqueológica. Sítio Arqueológico de Naufrágio.

INTRODUÇÃO
Na última década, iniciativas de mapeamento do Patrimônio Cultural Subaquático
(PCS) no Baixo São Francisco têm sido constituídas, graças ao esforço conjunto de muitas
instituições. O Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade
Federal de Sergipe (Laaa/UFS), por meio da articulação com instituições interessadas
na preservação do Patrimônio Cultural brasileiro, tem se dedicado ao estabelecimento de
pesquisas arqueológicas e formas de gestão dos recursos culturais da região, buscando,com
isso, uma mudança na situação de fragilidade existente no que concerne à preservação dos
vestígios arqueológicos localizados parcialmente ou totalmente submersos.
1 Professor associado do Departamento de Arqueologia (Darq) e do Programa de Pós-Graduação em
Arqueologia (Proarq) e de Antropologia (PPGA) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Coordenador do
Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe (Laaa). Bolsista de
Produtividade do CNPq.
2 Professor adjunto do Departamento de Arqueologia (Darq) e do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia
(Proarq) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Coordenador do Laboratório de Arqueologia de Ambientes
Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe (Laaa).
3 Professor adjunto do Departamento de Arqueologia (Darq) e do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia
(Proarq) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Coordenador do Laboratório de Arqueologia de Ambientes
Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe (Laaa).
4 Doutor em Arqueologia pela Universidade Federal de Sergipe. Pesquisador do Laboratório de Arqueologia de
Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe (Laaa/UFS).

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Tem-se também a preocupação com o retorno do conhecimento produzido para as
comunidades presentes ao longo das margens, de maneira que elas integrem o PCS às suas
práticas sociais. Buscamos uma Arqueologia para o Baixo São Francisco que aja de forma
decisiva para entender não apenas o passado da região, mas também que pense alternativas
para um futuro de integração, respeito pelas comunidades e desenvolvimento autossustentado
(FERREIRA, 2005).
A região tem um contexto arqueológico construído, em grande parte, pelas ações do
Projeto Arqueológico de Xingó (PAX), iniciado em 1988 e desenvolvido em boa parte da
década de 1990, que identificou em torno de 223 sítios arqueológicos, sítios pré-históricos
de arte rupestre e a céu aberto nos Estados de Sergipe, Alagoas e Bahia. Propiciou, o PAX,
assim, uma visibilidade em nível nacional de um passado indígena na região, mas sempre sob
uma ótica que distanciava os povos ribeirinhos ancestrais de suas práticas sociais no ambiente
aquático do São Francisco (SANTOS, 2013). Contudo, somente nos últimos anos, ações
para a identificação e o registro de sítios arqueológicos vêm visibilizando o rico patrimônio
existente nas águas do Velho Chico.
Dentre as principais iniciativas em prol da salvaguarda do PCS do Baixo São
Francisco, podemos mencionar o processo de registro, no ano de 2012, do antigo povoado
Cabeço, sendo ele o primeiro sítio arqueológico subaquático de Sergipe. A ação decorreu de
uma vistoria técnica realizada em agosto de 2011, que visava responder ao questionamento
dirigido à Superintendência,em Sergipe,do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan) acerca da existência de valor cultural no Farol São Francisco do Norte,
contando com a participação dos especialistas do Laaa/UFS.
A área do sítio arqueológico tem, enquanto marcador paisagístico, o antigo farol,
popularmente conhecido como Farol do Cabeço. Hoje, o farol encontra-se em uma ilha
submarina, sendo o único ponto visível do antigo povoado Cabeço, Ilha de Arampibe,
município de Brejo Grande (RIBEIRO JR.; RAMBELLI, 2012).
Além do exposto acima, atendendo à solicitação da Procuradoria da República de
Sergipe, conforme Ofício MPF/PRSE/LNT nº 330/2009 (UNIVERSIDADE FEDERAL
DE SERGIPE, 2009), em 2009, iniciou-se o trabalho de levantamento de acervos arqueológicos
(oriundo da pilhagem do PCS), permitindo aconstrução teórico-metodológica da pesquisa
hoje em desenvolvimento. Estas ações do Laaa/UFS resultaram na dissertação de mestrado
Nas Águas do Velho Chico: por uma Arqueologia de Ambientes Aquáticos no Baixo Rio São Francisco,
Sergipe/Alagoas (SANTOS, 2013).
Neste processo de consolidação da Arqueologia úmida são-franciscana, cabe apontar a
função determinante, em termos de gestão ativa do PCS, do projeto de Fiscalização Preventiva
Integrada da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, uma força-tarefa coordenada pelos
Ministérios Públicos Estadual (Sergipe) e Federal, que contou com o apoio dos coordenadores
do Laaa/UFS. Vencedora do Prêmio CNMP 2020 na categoria Indução de Políticas Públicas,
a ação realizou o registro de 18 sítios arqueológicos subaquáticos, de diferentes épocas, ao
longo do Baixo São Francisco (BAVA DE CAMARGO; DURAN; 2018).
Uma característica que permeia as iniciativas mencionadas é a importância da
existência de articulações entre instituições e a sociedade civil para a concretização de
mudanças sociais profundas – neste caso, a relação predatória do PCS da região. As referidas
pesquisas vêm possibilitando, nos últimos anos, a identificação e a investigação in situ de
sítios arqueológicos, e também a localização de acervos arqueológicos gerados pela coleta

266

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

indevida de remanescentes materiais dos sítios subaquáticos, realizada, em grande parte, por
indivíduos das comunidades ribeirinhas que, por desconhecimento da legislação patrimonial
e de sua preservação, vêm continuamente efetuando a retirada dos objetos dos seus contextos
de origem.
O PCS, no Brasil, é vítima de constantes ataques e dilapidação. Esta lamentável
realidade, que faz com que desapareçam, paulatinamente, diferentes testemunhos, únicos e
não renováveis de atividades humanas pretéritas, representadas por uma enorme diversidade
de cultura material submersa, deixa notório não só o descaso das autoridades brasileiras, mas
também a não compreensão da importância desses sítios arqueológicos subaquáticos para a
produção de conhecimento nacional e internacional (RAMBELLI, 2006).
O desrespeito e a depredação do PCS, principalmente restos de navios naufragados
(denominados sítios arqueológicos de naufrágio), devem-se, em grande parte, ao
desconhecimento, à desinformação e, principalmente, à falta de identidade dos depredadores
com os sítios arqueológicos que destroem.
Diante deste contexto injustificável para com o PCS em águas brasileiras, imbuídos
dos valores de preservação do PCS e na (re)construção de elos das comunidades com o seu
patrimônio, passamos, atualmente, por um processo de amplificação destas ações, em parceria
com a Expedição Científica do Baixo São Francisco, que passou a contar com os pesquisadores
do Laaa/UFS nos anos 2020 e 2021.
Devido à dinâmica itinerante da Expedição, temos alinhado a suas edições anuais
as práticas do projeto da Carta Arqueológica Subaquática do Baixo Rio São Francisco:
Inventário Sistemático do Patrimônio Cultural Subaquático, que conta com autorização de
pesquisa do Centro Nacional de Arqueologia/Iphan (Processo nº: 01450.002827/2021-55),
fortalecendo as bases de desenvolvimento de uma ferramenta de utilidade pública capaz de
mudar a realidade da depredação dos sítios arqueológicos subaquáticos da região.
O projeto visa atingir grande parte dos municípios do Baixo São Francisco, sendo
eles: margem sergipana – Amparo de São Francisco, Brejo Grande, Canhoba, Canindé de São
Francisco, Gararu, Ilha das Flores, Neópolis, Nossa Senhora de Lourdes, Poço Redondo, Porto
da Folha, Propriá, Santana do São Francisco, Telha; margem alagoana – Belo Monte, Igreja
Nova, Pão de Açúcar, Penedo, Piaçabuçu, Piranhas, Porto Real do Colégio, São Brás, Traipu.
Conforme apresentado na Figura 1, o objetivo da pesquisa é trabalhar com
o levantamento do PCS no trecho do rio delimitado pelos pontos: Limite 1 (24 L
785532/8836341), na área da foz do rio; e o Limite 2 (24 L 634614/8934703), nas proximidades
da Hidrelétrica de Xingó.

267

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 1 - Mapa dos municípios abrangidos pela pesquisa

Fonte: AUTORES, 2021.

Programas como este, visando à confecção de Cartas Arqueológicas Subaquáticas
regionais, estão sendo elaborados, com sucesso, em vários países, envolvendo Universidades,
centros de pesquisa e mergulhadores recreativos, dentre outros segmentos das sociedades,
porque possibilitam conhecer e divulgar este patrimônio como uma herança comum de
todos para todos.
No Brasil, a ideia de um inventário dos bens culturais subaquáticos e relacionados
aos temas náuticos não representa nenhuma novidade. No final da década de 1980, uma
proposta de inventário foi sugerida por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia, por
meio do projeto Archenave: Centro de Estudos de Arqueologia, História e Etnografia Naval
ao Iphan. Uma iniciativa que, embora apresentasse uma preocupação bastante interessante
com a temática, acabou não se concretizando (AGOSTINHO, 1988; 1989; RAMBELLI,
1998; 2002; 2006; 2007).
É válido destacar que o presente projeto é um desmembramento de um programa
acadêmico de amplitude maior: a Carta Arqueológica Subaquática de Sergipe: Inventário
Sistemático do Patrimônio Cultural Subaquático, também vinculado ao Laaa/UFS, programa
este que objetiva o levantamento e o cadastro do PCS em todo o espaço sergipano, servindo
como um mecanismo de conhecimento e gestão.
Portanto, aproveitando do aporte interdisciplinar da Expedição Científica do Rio São
Francisco, buscamos somar esforços na consolidação da Carta Arqueológica Subaquática,
para que, nos próximos anos, toda esta gama de conhecimento produzido sobre estes bens
culturais possa ser integrada pelas comunidades que vivem às margens do rio.

268

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

A Carta Arqueológica

Devemos reafirmar que nosso principal objetivo é a confecção da Carta Arqueológica
Subaquática para o Baixo São Francisco, como uma ferramenta para sensibilizar a sociedade
como um todo, através da Arqueologia de ambientes aquáticos, sobre a importância desta
cultura material, composta pelo PCS, para o entendimento de nossa diversidade cultural.
A Carta Arqueológica Subaquática servirá como um mecanismo para se conhecer e
garantir proteção e gestão do PCS de Sergipe e Alagoas. Ela representa o primeiro passo para
o estabelecimento de uma política de proteção e gestão do patrimônio arqueológico, pois não
é possível gerenciar o que se desconhece (SCATAMACCHIA; RAMBELLI, 2001). Logo,
quando nos referimos à necessidade da confecção de uma Carta Arqueológica específica sobre
o PCS, não estamos inventando nada de novo. Trata-se de uma tendência da Arqueologia
contemporânea preocupar-se com o inventário dos sítios arqueológicos.
É necessário lembrar que, nos últimos 50 anos, foram vários os documentos internacionais
que recomendaram, entre outros aspectos, a necessidade de se conhecer o potencial patrimonial
de cada país, a fim de se poder determinar as medidas adequadas para sua proteção (PUJANTE,
2001), ajudando na definição de estratégias de curto e/ou longo prazo. Devemos ressaltar que
os programas de Carta Arqueológica são considerados, nas últimas décadas, em todo o mundo,
sistemas de base imprescindíveis para a gestão nesta área do patrimônio, tanto no plano científico,
como no administrativo ou operacional (ALVES, 2001).
Estes planos interagem e podem ser compreendidos da seguinte forma: o plano
científico é o inventário que integra a análise exaustiva do sítio e de seu contexto; o
administrativo é o que tem uma orientação meramente protecionista e o operacional é o
que, inicialmente, apresenta um conteúdo superficial, mas, posteriormente, serve de base ao
científico (FERNÁNDEZ-POSSE-DE; ÁLVARO, 1993; PUJANTE, 2001).
Pode-se afirmar que a Carta Arqueológica cumpre seus objetivos quando: permite
programar ações arqueológicas preventivas e futuras, atendendo a critérios de prioridades;
contribui para uma visão global do conjunto patrimonial, proporcionando as bases para uma
investigação planejada, e, principalmente, permite, através de sua difusão, uma aproximação
da comunidade ao potencial patrimonial regional e/ou nacional (PUJANTE, 2001).
A importância dos inventários vem sendo contemplada desde a Carta de Paris da
United Nations Educacional, Scientific and Cultural Organization (Unesco), de 1972. Os
artigos 29, 30 e 31 já chamavam a atenção dos Estados-membros para a necessidade de
se inventariar, através de documentação e mapas, o máximo possível, para poder garantir
sua proteção.
Hoje, a Convenção da Unesco para Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático,
de 2001, mantém a mesma preocupação e continua incentivando os inventários. Há apenas
um ponto de discordância entre a proposta da Carta Arqueológica Subaquática do Baixo
São Francisco com esta Convenção da Unesco de 2001:oprojeto não se restringe ao limite
de 100 anos, estabelecido na Convenção, para o reconhecimento do PCS, pois acreditamos
que todos os testemunhos de atividades humanas que deixaram vestígios merecem atenção.
Essa linha arbitrária do tempo desconsideraria sítios arqueológicos preciosos para a História
das dinâmicas náuticas são-franciscanas, a exemplo dos remanescentes de canoas de tolda e
outras embarcações naufragadas no século XX.
É importante ressaltar que o tema Carta Arqueológica evoluiu deste modo devido à
sua importância para as demandas contemporâneas das sociedades: o conceito de inventário,

269

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

hoje, está diretamente relacionado à proteção do patrimônio enquanto vetor de cultura. Pelo
menos, esta é a ideia que se mantém constante nos fóruns de debates sobre o assunto, que
reúnem especialistas ao redor do mundo (PUJANTE, 2001; RAMBELLI, 2003; 2009). E é
quase unânime a posição de que a responsabilidade do arqueólogo deve ir além da pesquisa,
pois ele deve, também, exercer um papel social de divulgador e gerenciador do patrimônio
arqueológico, ampliando seu campo de atuação (SCATAMACCHIA; RAMBELLI, 2001).
Logo, neste caso, o desenvolvimento da Carta Arqueológica Subaquática específica
para os bens culturais submersos dentro de um projeto de Arqueologia pretende contribuir
enquanto proposta de aplicação concreta, como um modelo regional, que possa colaborar,
futuramente, para a realização de um Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Subaquático
(RAMBELLI, 2003; 2009).
O projeto acredita que a Arqueologia não pode esquecer-se da comunicação, levando
em conta que o conhecimento produzido sobre o passado não é privilégio de um pequeno
círculo intelectual, mas que deve ser dividido com toda a população. Assim, os vestígios
arqueológicos têm urgência de passar do estágio de relato técnico para o significado de ações
que envolvem os atores sociais que as produziram. Isto só pode ser feito com uma Arqueologia
interpretativa, que ultrapasse o nível descritivo (SCATAMACCHIA; RAMBELLI, 2001).
Existe uma grande lacuna entre o patrimônio arqueológico e as comunidades. Quando
se enfatiza o PCS, então, a distância aumenta. Preocupados com isso, acreditamos que a
Arqueologia deve explicar e, na medida do possível, reconstituir o processo de ocupação que
se deu na região, buscando esclarecer a herança cultural recebida, mostrando que ela deve
ser usada e usufruída pelas comunidades atuais, mas com o compromisso obrigatório de
transmissão para as gerações futuras (SCATAMACCHIA; RAMBELLI, 2001).
E isso só é possível através do envolvimento direto das pesquisas com o público.
Assim, ao pensarmos no uso social do PCS, que desperta não só interesse corriqueiro, mas
também identidades com as comunidades, pretendemos, futuramente, levar moradores e
visitantes para debaixo d’água, desenvolvendo programas de turismo monitorado. E para os
que não têm condições/não querem mergulhar, serão desenvolvidos programas de visitação
virtual dos sítios, efetivamente divulgando, de forma ampla, o PCS.
A criação destes programas monitorados de turismo cultural subaquático corresponde
a uma tendência internacional que permeia tanto a educação patrimonial, como sua gestão
e proteção; deste modo, o patrimônio deve ser repensado como um elemento-chave para a
sustentabilidade (CAMERON; NOELLE, 2001).
Por fim e apertando de novo a mesma tecla, o ponto de partida é o desenvolvimento
da Carta Arqueológica Subaquática, porque só a partir dela pode-se fazer o gerenciamento
destes bens culturais submersos, avaliando o estado de conservação do PCS e os impactos
que ele poderia absorver sem danos, além de estabelecer rotinas de monitoramento do uso
social aplicado.

As ações da Carta Arqueológica nas Expedições

O projeto da Carta Arqueológica tem buscado atuar nas Expedições Científicas de
2020 e de 2021 de forma a compartimentar as metodologias de trabalho de acordo com a
dinâmica de mobilidade das Expedições.
Um dos principais fundamentos para o êxito em uma pesquisa arqueológica subaquática
deste tipo é um minucioso planejamento. Por conta disso, encontramo-nos ainda em um

270

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

momento inicial de integração de esforços com o projeto da Expedição Científica, período
em que buscamos estratégias de pesquisa que se coadunem com ações diretas em âmbito
local/regional e, ao mesmo tempo, sirvam para a construção de conhecimento que tenha
maior abrangência – nacional e internacional – e que permita a atuação de longa duração
no São Francisco.
Neste processo de integração, os objetivos específicos desta pesquisa envolveram:
(1) a averiguação do estado de conservação de sítios arqueológicos submersos previamente
cadastrados (RAMBELLI; DURAN, 2020; BAVA DE CAMARGO; DURAN, 2019) e a
obtenção de mais informações sobre eles (dimensões, tipologia, vestígios materiais móveis e
estruturas, dentre outros); (2) a localização de novos sítios arqueológicos a partir de prospecção
extensiva; (3) a averiguação do potencial arqueológico de alvos identificados por varredura
geofísica com sonar de varredura lateral (SOUZA, 2006) na 3ª e na 4ª Expedições Científicas.
Destaca-se que estes objetivos foram realizados através de técnicas arqueológicas
associadas ao mergulho autônomo científico (NAUTICAL ARCHAEOLOGY SOCIETY,
2009; GREEN, 2004; RAMBELLI, 2002).

A Arqueologia na 3ª Expedição Científica do São Francisco (ECSF)

Em nossa primeira participação expedicionária (2020), optou-se por entender como a
Arqueologia poderia se encaixar com os propósitos da 3ª ECSF para um pleno desenvolvimento
da pesquisa nas Expedições subsequentes. Logo, seguimos uma abordagem pautada na integração
com outras frentes de pesquisa já desenvolvidas anteriormente na Expedição.
Quando possível, realizavam-se inspeções subaquáticas, sem qualquer intervenção
nos contextos materiais ou coleta de vestígios, para atualização do conhecimento sobre a
conservação dos bens já conhecidos (RAMBELLI; DURAN, 2020).
Neste sentido, buscando o aproveitamento das potencialidades da 3ª ECSF e visando
à geração de novos dados para a Carta Arqueológica Subaquática, atuamos em conjunto à
equipe de levantamento geofísico (batimetria e sonar de varredura lateral), coordenada pelo
pesquisador Gilberto Schwertner. A pesquisa geofísica contou com a utilização do sensor
Starfish 450®,que produziu dados que puderam ser aproveitados para a pesquisa arqueológica.
O sonar de varredura lateral (Starfish 450®) é um equipamento fixado em uma
embarcação e emite um feixe lateral de ondas acústicas, a partir de uma frequência de 450
kHz, produzindo uma imagem do fundo, cujo resultado final em muito assemelha-se a uma
“fotografia aérea”.
A prospecção indireta por métodos geofísicos é amplamente aceita pela comunidade
arqueológica e é considerada, atualmente, um instrumental básico na pesquisa arqueológica
subaquática, sendo citada pela bibliografia especializada tanto no âmbito internacional
quanto no nacional (ARNOLD III; CLAUSEN, 1975; EDGERTON, 1976; BASS, 1988;
MAZEL, 1988; ESPANHA, 1988; DELGADO, 1997; NAUTICAL ARCHAEOLOGY
SOCIETY, 2009; RAMBELLI, 1998, 2002, 2003; BAVA DE CAMARGO, 2002; GREEN,
2004; SOUZA, 2006; DURAN, 2008).
Devemos, ainda, ressaltar que a utilização de equipamentos geofísicos significa uma
grande economia de tempo nas desgastantes tarefas a serem realizadas embaixo d’água
(MAZEL, 1988). Em comparação com os métodos diretos de investigação, estas técnicas
apresentam pelo menos outras duas grandes vantagens: o fato de não serem afetadas pelas
condições de baixa visibilidade que, muitas vezes, dominam as áreas de pesquisa e o fato de
possibilitarem a formação de uma visão mais completa da totalidade do espaço investigado.

271

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O trabalho feito em conjunto com a equipe de levantamento geofísico (topologia) foi
iniciado no município de Piranhas e seguiu até a foz do rio. Com vistas a não comprometer
o cronograma da 3ª ECSF, nas áreas onde não havia referências de contextos arqueológicos
conhecidos, o levantamento focou na produção de um levantamento contínuo, enquanto
realizava-se o deslocamento até o próximo ponto de parada.
A partir da análise sistemática da grande quantidade de dados gerados, buscou-se a
identificação de alvos potenciais (anomalias geofísicas), ou seja, feições conspícuas detectadas
na superfície doleito do rio que indicam remanescentes materiais de atividade humana. Ao
mesmo tempo, foi sugerido o levantamento geofísico nas áreas dos sítios arqueológicos
conhecidos, para melhor dimensionamento destes contextos, economizando uma razoável
quantidade de horas de investigação direta com a utilização de mergulhadores científicos.
Adicionalmente, foi proposta a avaliação de áreas que teriam maior potencial de
abrigar vestígios náuticos, devido às suas características ambientais e às paisagens culturais.
Estas foram, em parte, identificadas através da análise de imagens de satélite: com o
mapeamento de antigas estradas e povoados de maior porte, definiram-se quais locais
teriam tido, historicamente, uma maior atividade portuária. Assim, nossa navegação era feita
com base nestas referências, o que possibilitou o mapeamento geofísico tanto de partes das
margens sergipanas, como das alagoanas.
Apesar da metodologia preestabelecida, a oportunidade e a casualidade também atuaram
durante o levantamento. Alvos que, muitas vezes, eram identificados aleatoriamente,enquanto
a navegação era realizada, ajudavam na definição das áreas de levantamento acústico. Com a
identificação desses alvos casuísticos durante o levantamento geral, buscava-se um refinamento
do levantamento nas áreas potenciais.
Tratando em específico das áreas arqueologicamente conhecidas, a dinâmica de
trabalho com o levantamento geofísico funcionava de forma distinta: em primeiro lugar,
realizávamos uma pré-seleção dos contextos, focando somente naqueles que, por suas
características estruturais, seriam passíveis de registro com o método geofísico, especificamente
os sítios de embarcações naufragadas.
Os sítios arqueológicos depositários, geralmente localizados em áreas portuárias
construídas ou em portos naturais (áreas abrigadas) que foram utilizados para o fundeio de
embarcações e transbordo de pessoas e mercadorias, acolhem vestígios materiais móveis de
pequeno porte, resultantes das atividades rotineiras das comunidades fluviais, descartados
voluntariamente ou perdidos por azar. Por serem formados por objetos relativamente pequenos
e fragmentos de utensílios, sua localização, praticamente, só é possível através da observação
arqueológica direta, com utilização de mergulho.
Portanto, o sonar de varredura lateral foi empregado com maior ênfase nas áreas com
estruturas de embarcações naufragadas. Com o auxílio de um aparelho GPS, orientamos nossa
navegação nessas áreas, estabelecendo linhas de aquisição de dados longitudinais à margem,
espaçadas em 10-20 metros ou conforme as condições de navegabilidade.

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Tabela 1 - Relação dos sítios arqueológicos subaquáticos conhecidos levantados com Sonar
de Varredura Lateral (Datum Sirgas 2000, zona 24 L)
Sítios Arqueológicos

X

Y

Naufrágio Canoa do Sítio Cruz

647489

8928834

Canoa Caiçara/Xokó
Naufrágio Canoa de Propriá

678492
737751

8917929
8870431

Lancha Moxotó

660504

8922592

Naufrágio de Neópolis

765732

8858525

Fonte: Elaborada pelos autores, 2021.

Como resultado do levantamento indireto realizado entre os dias 1ºe 9 de dezembro
de 2020, foram obtidos 424 arquivos de log do software StarFish Scanline® (.LOGDOC),
todos convertidos em arquivo eXtended Triton Format(.XTF), resultando em mais de 5GB
de dados.
Diante da grande quantidade de dados, realizamos a análise de parte dos registros
sonográficos. Neste processo, desconsideramos as feições geomorfológicas que são atribuídas
a formas naturais do fundo do rio, como rochas e depósitos arenosos.
Atendendo ao nosso critério de análise, buscamos, como principais alvos, as feições
geométricas, de alto contraste de impedância acústica, formas não reconhecíveis e/ou objetos
de nítida origem antrópica, cabendo a avaliação do seu potencial arqueológico através de
investigação direta, com a utilização de arqueólogos-mergulhadores, nas próximas Expedições.
Figura 2 - Exemplo de anomalia geofísica (A2) identificada pelo levantamento

Fonte: AUTORES, 2021.
Em relação ao levantamento acústico nas áreas dos sítios arqueológicos subaquáticos,
os dados não apontaram elementos substanciais para um processo de construção de registros
espaciais detalhados sobre as estruturas dos sítios. Esta situação demandou, na 4ª ECSF,
maior esforço na realização deste tipo de levantamento nas áreas dos sítios arqueológicos.

273

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Mas o trabalho não foi em vão: o levantamento com sonar de varredura lateral
dos contextos arqueológicos, principalmente quando realizado periodicamente, permite o
monitoramento da conservação dos sítios face à intensa dinâmica do Rio São Francisco.
Além da investigação indireta com o sonar de varredura lateral, realizamos a
investigação direta não interventiva, com o emprego de técnicas de mergulho científico,
em antigas áreas portuárias, a exemplo do Porto de Piranhas, Porto de Bonsucesso, Porto
de Propriá e o Porto de Piaçabuçu, sendo este último um ponto que ainda não havia sido
investigado por pesquisas anteriores. Apesar dos nossos esforços, não foi possível avançar
muito com a investigação naquele ano, em função da intensa correnteza.
Nosso principal objetivo, na investigação de áreas portuárias, era a reavaliação dos
contextos outrora identificados (BAVA DE CAMARGO; DURAN, 2018), objetivando a
coleta de dados para o desenvolvimento de nossa proposta de estudo preliminar de potencial e
de vulnerabilidade arqueológica. No entanto, durante este processo, como no caso de Propriá,
novos contextos arqueológicos foram identificados, a exemplo dos remanescentes estruturais
de uma canoa de tolda no porto central daquela cidade (24 L 737594 8870544). Já no Porto
de Piaçabuçu (24 L 780765 8848359), identificamos alguns fragmentos de louças domésticas
(faianças finas) do século XIX, o que pode caracterizar o contexto como sítio depositário.
Aproveitando o cronograma dos pontos de parada da expedição, também foram
achados dois contextos arqueológicos de ocupação histórica costeira na foz do Rio São
Francisco (24 L 785274 8840676 e 24 L 785511 8840898), na margem alagoana, implantados
na área de dunas. Apresentam, eles, material cerâmico, faianças finas, vidros, dentre outros tipos
de vestígios. Todos os novos contextos arqueológicos identificados foram delimitados com
aparelho GPS; contudo, ainda buscaremos, nas futuras ações do projeto, maior aprofundamento
do conhecimento sobre eles.
Figura 3 - Registro arqueológico de um fragmento de faiança fina do sítio arqueológico
depositário Porto de Bonsucesso

Fonte: AUTORES, 2020.

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A Arqueologia na 4ª Expedição Científica do São Francisco

Para atingir os objetivos da Carta Arqueológica Subaquática, alinhados às características
da ECSF, na quarta edição, ocorrida no período de 31 de outubro a 10 de novembro de 2021,
optamos por um aprofundamento do levantamento de dados dos contextos arqueológicos
com maior potencial arqueológico, através da investigação indireta (fishfinder Humminbird
Helix 10®) e da investigação direta, por meio do mergulho autônomo. Somou-se a isso a
identificação de novos contextos arqueológicos submersos.
Adotaram-se, como estratégias de pesquisa, a avaliação não interventiva do potencial
arqueológico (sem escavação e sem coleta amostral) e a mensuração de impactos negativos
que, eventualmente, estariam sendo infligidos ao PCS da região, localizado tanto em zona
de interface terra/água quanto no leito do rio, tendo como base as definições internacionais
determinadas na Convenção da Unesco para Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático,
de 2001 (UNESCO, 2001).
A pesquisa arqueológica subaquática foi autorizada pela Portaria Iphan/Depam/
CNA nº 61, de 1º de outubro de 2021, publicada no Diário Oficial da União nº. 188, de 4
de outubro de 2021, seção 1, p.308 (Processo nº 01450.002827/2021-55).
De início, foram realizados mergulhos no sítio arqueológico Porto de Piranhas (AL),
acompanhando o talude para oeste. Na praia contígua, localizaram-se estruturas emersas
(fundações em rocha e argamassa – 24 L 636575 8935650) que podem corresponder à parte
de um cais. Buscando a ampliação na localização de estruturas enterradas na área, utilizouse, experimentalmente, o Vant com câmera térmica para o mapeamento das estruturas do
Porto de Piranhas, o que permitiu a identificação de estruturas soterradas por fina camada
de areia, que serão investigadas em detalhes, em um futuro próximo.
Figura 4 - Trabalho no sítio arqueológico Porto de Piranhas

Fonte: AUTORES, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 5 - Imagem aérea das estruturas de alvenaria localizadas na Praia de Piranhas
(A). Imagem aérea com leitura térmica das estruturas de alvenaria localizadas na Praia de
Piranhas (B)

Fonte: AUTORES, 2021.

Figura 6 - Estruturas localizadas na Praia de Piranhas

Fonte: AUTORES, 2021.

No povoado Bom Sucesso, no município de Poço Redondo (SE), vistoriaram-se
os sítios arqueológicos da lancha Moxotó (1917) (AMORIM, s.d.) e Banho dos Homens,
com a localização de vestígios arqueológicos industrializados (louças dos sécs. XVIII e XIX;
vidros dos sécs. XIX e XX). O processo de registro dos remanescentes materiais contou
com a realização de filmagens técnicas e o levantamento sonográfico das áreas dos sítios
arqueológicos mencionados.

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Figura 7 - Utilização do sonar de varredura lateral

Fonte: AUTORES, 2021.

Figura 8 - Investigações no sítio arqueológico de naufrágio da Lancha Moxotó

Fonte: AUTORES, 2021.

277

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 9 - Fragmento de prato do séc. XIX no sítio arqueológico Banho dos Homens

Fonte: AUTORES, 2021.

No município de Porto da Folha, realizou-se o levantamento sonográfico no sítio
arqueológico da Canoa Caiçara/Xocó, buscando o registro das estruturasde uma canoa de
tolda afundada há mais de 90 anos. Por problemas operacionais, este levantamento não
apresenta as qualidades técnicas desejadas, de forma que terá que ser refeito em uma próxima
etapa da Expedição.
No povoado Ilha do Ouro, município de Porto da Folha (SE), utilizou-se o sonar para
a localização da canoa de tolda Ouro Branco, naufragada há, no máximo, duas décadas. A
indicação deste naufrágio foi feita pela população local em 2016, durante etapa da Fiscalização
Preventiva Integrada, mas, na época, os mergulhos realizados foram infrutíferos, muito em
função da forte correnteza e da baixa visibilidade.
Figura 10 - Imagem sonográfica das estruturas da canoa de tolda Ouro Branco

Fonte: AUTORES, 2021.

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Buscando a identificação de novos contextos de naufrágios por meio do levantamento
sonográfico, investigamos a região conhecida como Buraco de Maria Pereira, no município de
Traipu (AL), onde, na década de 1960, naufragou a canoa de tolda Topázio, de propriedade
do Sr. João Bonfim. O levantamento acabou não apontando dados para a localização do
naufrágio, estando a canoa, muito provavelmente, enterrada no leito do rio, o que coincide
com os relatos do Sr. Everaldo Fernandes da Silva, parente do antigo proprietário.
Na fachada ribeirinha de Traipu, realizaram-se investigações diretas com mergulho,
resultando na identificação de âncora lítica (pedra polida), um remanescente material
bastante importante para o contexto são-franciscano, devido ao ineditismo deste tipo de
artefato para a região.
Na área do porto do referido município, foram localizadas inscrições rupestres,
almofarizes e afiadores no paredão rochoso da fachada ribeirinha da cidade, revelando indícios
da ocupação indígena pré-colonial e histórica da sede do município, fato digno de destaque
em nível nacional, tendo em vista que as dinâmicas de transformação urbana quase sempre
eliminam este tipo de sinais dos povos originários.
Figura 11 - Âncora lítica localizada na fachada ribeirinha de Traipu

Fonte: AUTORES, 2021.

Figura 12 - Área onde foram localizados inscrições rupestres, almofarizes e afiadores, na
fachada ribeirinha de Traipu

Fonte: AUTORES, 2021.

279

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

A fim de dar continuidade aos processos investigativos na área do Porto do centro de
Propriá, iniciados em 2020, buscamos o levantamento de informações com um morador da
região, o já mencionado Sr. Everaldo Fernandes da Silva, sobre as estruturas de embarcações
que foram abandonadas e aterradas, na década de 1980, durante a expansão da área portuária
e de lazer da cidade. Além da estruturaidentificada no ano anterior, que nos apontou como
sendo uma chata, também apresentou-se, ao lado, outra estrutura de canoa de tolda, que se
encontrava no momento parcialmente submersa, identificada como sendo a canoaEirara.
Figura 13 - O Sr. Everaldo Fernandes da Silva relatando detalhes sobre a chata aterrada
no Porto de Propriá, ao lado de uma de suas cavernas, exposta na margem do rio (A); Sr.
Everaldo Fernandes da Silva apontando o leme submerso da Canoa Eirara, no Porto de
Propriá, na margem do rio (B)

Fonte: AUTORES, 2021.

Também a partir da indicação do Sr. Everaldo, realizamos a investigação sonográfica
na fachada ribeirinha do município de Porto Real do Colégio (AL), onde localizamos uma
grande balsa de madeira de meados do séc. XX, associada ao transporte de combustíveis e/

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ou vagões de trem que, antes de 1972, precisavam ser transportados por via fluvial entre os
tramos ferroviários alagoano e sergipano.
Além do registro sonográfico, foram realizados mergulhos de prospecção para uma
melhor caracterização das estruturas submersas. Em ações futuras, buscaremos levantar mais
dados,com investigação direta.
Figura 14 - Imagem de sonar de balsa de madeira, localizada nas proximidades do antigo
cais do ferry boat da ferrovia, em Porto Real do Colégio

Fonte: AUTORES, 2021.

No município de Penedo (AL), optamos por empreender esforços na ampliação do
reconhecimento das estruturas do naufrágio do vapor Comendador Peixoto, com a utilização
do sonar. Esta embarcação, dos primeiros anos do século XX, naufragada no porto do
centro histórico no final da década de 1960, assemelhava-se a um barco-gaiola amazônico,
denominação que remete ao fato de ele possuir muitos deques cobertos, com guarda-corpos
de barras metálicas nos bordos.
Em Neópolis (SE), fez-se a investigação sonográfica no sítio arqueológico Naufrágio
de Neópolis, localizado em 2017 (BAVA DE CAMARGO; DURAN, 2018), e também nas
imediações do Morro do Aracaré, onde existia uma fortificação que ainda era minimamente
ativa durante a passagem do imperador Pedro II pela localidade, em 1859.
Em concomitância com a varredura por sonar, realizaram-se mergulhos no já
mencionado Naufrágio de Neópolis, com o objetivo de identificar assinaturas construtivas do
casco da embarcação e características detalhadas das ferragens, além de obter mais informações
sobre o estado de conservação das estruturas e buscar o entendimento da estratificação do
sítio, o que permitirá estabelecer protocolos de intervenção de Arqueologia e de conservação
para os próximos anos.
De antemão, é possível destacar que as medidas de conservação in situ são urgentes
e que a embarcação, apesar de ter sido muito danificada ao longo de dois séculos, apresenta,
ainda, contextos deposicionais que podem revelar muitas informações sobre a construção
naval iberoamericana e os usos do barco ao longo de sua vida útil.

281

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 15 - Imagem de sonar do vapor Comendador Peixoto, afundado no Centro Histórico
da cidade de Penedo

Fonte: AUTORES, 2021.

Figura 16 - Casco do vapor Comendador Peixoto, afundado no Centro Histórico da cidade
de Penedo, parcialmente visível durante as marés baixas de sizígia, em época de seca ou
baixa vazão da Usina de Xingó

Fonte: AUTORES, 2015.

Figura 17 - Imagem de sonar do sítio arqueológico Naufrágio de Neópolis, afundado no
centro de Neópolis

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Fonte: AUTORES, 2021.

Figura 18 - Detalhes construtivos do casco da embarcação naufragada de Neópolis

Fonte: AUTORES, 2021.

283

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 19 - Detalhes construtivos do casco da embarcação naufragada de Neópolis,
destacando o revestimento metálico do casco de madeira

Fonte: AUTORES, 2021.

Há bons indícios de que esta embarcação esteja relacionada às lutas da Independência
ou a eventos correlatos, tais como a emancipação da capitania de Sergipe ou a Confederação
do Equador, tanto pelas evidências materiais (tipologia da embarcação) quanto pelos relatos
orais recorrentes na população de Neópolis (canhões de antecarga teriam sido retirados do
naufrágio e vendidos em Aracaju, por volta de 15 anos atrás).
Nas referências bibliográficas, tem-se mais um subsídio para a contextualização do
naufrágio: em um trecho do diário do imperador Pedro II, ele comenta, sobre sua passagem
por Vila Nova, a atual Neópolis:
Houve muitos vivas e foguetes, e mostraram-me um lugar pedregoso
onde os holandeses tiveram um curtume, achando-se assestada sobre
o monte perto, uma peça que aí mandou colocar por ocasião da
Independência, o Barão de Cotinguiba tendo sido achado entre os
despojos de um navio de guerra português que deu à costa na barra do
S. Francisco, salvou agora. (SODRÉ, 1949, p.106).

É interessante notar que o trecho apresenta alguma imprecisão por parte do imperador,
quiçá por serem anotações rápidas e talvez registradas algum tempo depois, quando do término
de suas inúmeras atividades diárias desenvolvidas em suas viagens.
De qualquer maneira, o Barão de Cotinguiba (Bento de Melo Pereira) e sua tropa
foram responsáveis por retardar um pouco a travessia de Alagoas para Sergipe por parte do
contingente patriótico comandado pelo general Labatut (ANTONIO, 2012). Tal feito não
seria possível sem peças de artilharia dispostas em locais estratégicos, o que dá algum lastro à
narrativa de Pedro II. Além do mais, à época da viagem do imperador, o Barão de Cotinguiba
ainda estava vivo, o que vale dizer que este relato de heroica defesa dos interesses da Coroa
Portuguesa não teria caído no completo esquecimento.

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Os próximos passos para a construção da Carta Arqueológica Subaquática

Como foi possível observar, a participação dos pesquisadores do Laaa/UFS junto às
Expedições Científicas do Rio São Francisco tem possibilitado um avanço considerável na
produção de dados sobre o PCS do Baixo São Francisco. Mesmo que nos encontremos ainda
em momento inicial de integração de esforços com o projeto, tivemos a possibilidade de adotar
uma estratégia de trabalho que, ao mesmo tempo em que serve para um direcionamento do
projeto em longo prazo, com a iniciativa científica, enxerga horizontes de possibilidades para
a construção de um profícuo cenário patrimonial para a região.
Neste sentido, as experiências relatadas com a 3ª e a 4ª ECSF, mesmo atuando de
forma não interventiva na região, possibilitaram a produção de novos dados sobre os contextos
já conhecidos, ao passo que também vêm propiciando a identificação de novos elementos
que podem ser integrados a uma política patrimonial por meio da Carta Arqueológica
Subaquática do Baixo São Francisco.
Enquanto arqueólogos, estamos constantemente imersos em assuntos de interesse
social e, considerando a intrínseca relação entre a Arqueologia e a política, cabe reconhecermos,
explicitamente, a dimensão política da prática arqueológica. A estreita relação entre o passado
e o presente, mediatizada por indivíduos, grupos ou instituições, é inevitável no mundo
contemporâneo, levando, cada vez mais, a nos interrogarmos sobre o papel que temos de
assumir na prática cotidiana. Neste sentido, a participação ativa dos pesquisadores, diante
dos contextos políticos, configura-se enquanto um compromisso social, uma alternativa
de mudança de um panorama epistemológico, mas, sobretudo, prático (CURTONI, 2004;
GONZÁLES-RUIBAL, 2010).
Atualmente, a Expedição Científica do Rio São Francisco vem se configurando como
um dos projetos científicos práticos de maior relevância em nosso País, visto seu caráter
multidisciplinar e sua ampla abrangência. Tendo isto mente, entendemos que a Arqueologia de
ambientes aquáticos, ao mesmo tempo em que se beneficia destas idiossincrasias, propiciando
a produção de um conhecimento ainda inédito para a região, como apresentado aqui,
extremamente rico patrimonialmente, possibilita a instrumentalização de políticas de gestão
e uso social do PCS, que beneficiem diretamente as comunidades locais.
O Baixo São Francisco possui um relevante contexto histórico e arqueológico a ser
trabalhado. Por isso, torna-se necessário elaborarmos uma metodologia que possibilite não
só o estudo dos sítios arqueológicos, mas que também propicie o resgate de memórias e a
inclusão de vozes que, até então, foram ignoradas e excluídas do processo de construção
do passado. Portanto, o projeto da Carta Arqueológica não se limita a levantar e indicar o
patrimônio da região, mas tornar as comunidades localizadas nas margens deste rio partícipes
do processo de construção do seu patrimônio.
Somente com a realização de uma iniciativa preocupada com as condições de
integração com grupos locais, poderemos criar um terreno propício para a configuração
de instrumentos políticos que auxiliem na gestão deste patrimônio. Assim, a realização
de pesquisas arqueológicas subaquáticas com esta postura social/política consciente não
só enquadra a Arqueologia regional dentro das perspectivas internacionais, como também
representará o primeiro passo para a concretização de uma experiência deste porte no País,
tendo em vista que a pesquisa arqueológica subaquática permite a incorporação de múltiplos
personagens e múltiplas interpretações.

285

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Pretendemos, já nas próximas edições da Expedição, efetivar este primeiro passo
em prol de uma integração das comunidades ribeirinhas com a implementação de ações de
educação patrimonial alinhadas às iniciativas consolidadas pelo projeto. A adoção de estratégias
integrativas por meio da comunicação e/ou educação torna-se um dos instrumentais mais
preciosos na preservação do PCS para as próximas gerações, pois são elas que contribuirão
para uma mudança gradativa de mentalidades, como também de sensibilização da sociedade
para com as questões voltadas ao patrimônio.
“Através da educação patrimonial o cidadão torna-se capaz de entender sua importância
no processo cultural em que ele faz parte, cria uma transformação positiva entre a relação
dele e do patrimônio cultural” (DE CARVALHO; FUNARI, 2009, p.5).
A educação patrimonial é uma atividade que permite difundir os dados provenientes da
pesquisa arqueológica de forma ampla para a comunidade, fazendo com que este conhecimento
esteja acessível a todos, pois o patrimônio arqueológico é um bem público e as informações
geradas a partir dele não devem ficar apenas restritas ao meio científico, cumprindo seu
papel como atividade educadora (CARNEIRO; GILBERTONI, 2014). Desta forma, ela
é definida como:
[...] todos os processos educativos, formais e não formais que têm como
foco o Patrimônio Cultural, apropriado socialmente como recurso para
a compreensão sócio-histórica das referências culturais em todas as
suas manifestações, a fim de colaborar para seu reconhecimento, sua
valorização e preservação. Considera, ainda, que os processos educativos
devem primar pela construção coletiva e democrática do conhecimento,
por meio do diálogo permanente entre os agentes culturais e pela
participação efetiva das comunidades detentoras e produtoras das
referências culturais, onde convivem diversas noções de Patrimônio.
(BRASIL, 2014, p.19).

Pouco tem sido feito no sentido de interação com as pessoas que convivem diariamente
com estes bens, raramente considerando seus saberes e sua relação com o patrimônio ao
pensar em sua preservação (SILVEIRA; BEZERRA, 2007). Quando falamos do patrimônio
inserido em águas nacionais, esteponto torna-se ainda mais complexo devido à situação legal
e à mentalidade exploratória ainda conservada por determinados grupos políticos brasileiros.
Por conta disto, o projeto da Carta Arqueológica Subaquática tem demonstrado,
também, interesse pelo patrimônio contemporâneo, a exemplo das canoas de tolda e dos
saberes náuticos. A superação do distanciamento entre a sociedade e seu patrimônio permite
que se realizem conexões entre a vida diária dos indivíduos e o processo histórico abordado
(CARVALHO; FUNARI, 2009); assim, os indivíduos sentem-se mais inclinados a agir
em prol da conservação e da multiplicação destas ideias, aproximando o patrimônio da sua
realidade (SILVA; LE BOURLEGAT, 2011).
Além de pensar uma educação patrimonial que possa funcionar de forma ativa
com os públicos escolares e moradores das comunidades ribeirinhas, objetivamos ampliar a
integração e o acesso aos dados da Carta Arqueológica. Logo, temos idealizado um espaço
virtual (site) onde as pessoas possam ter acesso aos conteúdos gerados pela pesquisa e pela
divulgação científica do projeto.
Ademais o site, no sentido da ampliação da divulgação científica do projeto, iremos
elaborar exposições fotográficas e videográficas sobre as pesquisas realizadas e em andamento,
bem como organizar atividades de extensão universitária que sigam estas linhas de atuação,

286

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

como oficinas de produção de vídeos, documentários e podcasts, dentre outros conteúdos de
relevância na contemporaneidade.
Assumindo o viés de impacto da Carta Arqueológica, iremos desenvolver mecanismos
de gestão e proteção dos sítios arqueológicos estudados para as gerações futuras, para
serem utilizados como modelos de proteção ao patrimônio cultural subaquático brasileiro,
constantemente ameaçado de destruição pela ação antrópica inescrupulosa.
Neste contexto, reforça-se o objetivo do projeto, com o apoio da Expedição Científica,
de estimular o uso social do patrimônio cultural subaquático e sua sustentabilidade,
considerando, para isso, a participação e o envolvimento das comunidades tradicionais locais,
de forma que elas encontrem afinidades e identidades com este patrimônio e com as pesquisas
arqueológicas realizadas sobre ele, e, dele, benefícios decorrentes dos serviços prestados aos
sítios arqueológicos, aos pesquisadores e aos turistas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
No momento, o Laaa/UFS vem debruçando-se na consolidação dos dados gerados
sobre o PCS da região em ações paralelas que são desenvolvidas para o projeto, bem como em
nossas participações nas Expedições. O banco de dados da Carta Arqueológica atualmente
conta com sítios arqueológicos registrados e valorados, utilizando critérios de valoração cultural
adotados em Portugal, que vêm produzindo bons resultados também no Brasil (SEMA,
2022; BAVA DE CAMARGO; FRAGA, 2021) e que permitem estabelecer prioridades de
pesquisa a partir da comparação de critérios mensuráveis. Também temos alimentado o banco
de dados com os contextos em “processo de registro”; assim, podemos delinear as prioridades
de pesquisa nas oportunidades de trabalho que temos na região.
Nossa expectativa é de que, muito em breve, muitos outros bens possam ser levantados,
já que as investigações sonográficas e históricas têm nos apontado vários outros alvos
potenciais a serem averiguados. A partir do momento em que novos sítios forem registrados,
continuaremos realizando os estudos de valoração do patrimônio, possibilitando a definição
das estratégias mais adequadas de gestão para cada bem cultural.
Acreditamos que a integração do projeto da Carta Arqueológica Subaquática do Baixo
São Francisco com as Expedições Científicas do Rio São Francisco tem possibilitado gerar
mais dados e, consequentemente, ganhos científicos robustos, pensando em levantamentos
mais amplos, aumentando nossas possibilidades futuras de investir maior tempo em contextos
que possam trazer maior benefício local, corroborando o fortalecimento de um elo entre
comunidades locais e a pesquisa arqueológica, e também fortalecendo a relação que estas
comunidades possam ter com seu patrimônio.

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290

CAPÍTULO 15 - ÁREAS CILIARES DO BAIXO SÃO
FRANCISCO: FRAGMENTOS FLORESTAIS E FAUNA
ASSOCIADA
Milena Dutra da Silva1

Nadjacleia Vilar Almeida2
Ubiratan Piovezan3

Anderson dos Santos4

Maria Mônica de França Aquino5
José Vieira Silva6

Resumo: Na Bacia Hidrográfica do Baixo São Francisco (BSF), as áreas ciliares encontram-se
severamente degradadas. Assim, na IV Expedição Científica do São Francisco, foram avaliadas
a vegetação florestal ciliar e a fauna associada. Foram utilizados métodos e técnicas rápidas e
não destrutivas, observadas as áreas ciliares desde Piranhas (AL) até a foz do rio; em campo,
foram avaliadas nove unidades amostrais. Consideraram-se: 1) estrutura da paisagem – área,
perímetro e índice de forma dos fragmentos florestais; 2) solo – matéria orgânica, macro e
micronutrientes, posteriormente submetidos a testes estatísticos de correlação e investigadas
associações com dados de vegetação; 3) vegetação ciliar – identificação de espécies lenhosas,
obtenção de altura, frequência e CAP, estimados a riqueza de espécies e os índices de
diversidade de Shannon e de Simpson, e 4) fauna – verificação de ocorrência de mamíferos,
a partir de estudos anteriores, armadilhamento fotográfico nos fragmentos florestais para
registro da mastofauna, além de relatos e observações em campo. Os fragmentos florestais são
pequenos e numerosos, com vegetação densa diminuta. Os mais lineares ocorrem na Caatinga.
Quanto à flora, foram identificadas 46 espécies lenhosas, com altura entre 1,83 m e 7,51 m,
e CAP entre 0,11 m e 0,58 m; há predominância de espécies pioneiras e/ou secundárias.
Menor riqueza e diversidade em Traipu (AL), e maior em Piranhas (AL). Quanto ao solo, há
baixa fertilidade. Não houve associação entre a diversidade e a fertilidade do solo. Quanto à
fauna, já foram registradas 38 espécies. Os dados indicam a urgência de ações de preservação
para a melhoria da qualidade ambiental das áreas ciliares do BSF.
Palavras-chave: Espécies Lenhosas. Mamíferos. Caatinga. Mata Atlântica. Manguezal.

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

INTRODUÇÃO
A vegetação ciliar é responsável pela prestação de importantes serviços ecossistêmicos.
Estabelecida às margens do corpo hídrico, ela propicia a manutenção dos rios e da qualidade
da água, atuando como uma barreira de proteção à chegada de resíduos; suas raízes retêm o
solo, minimizando o assoreamento marginal; apresenta, também, importante papel na ciclagem
da água, visto que áreas florestadas nas bacias hidrográficas podem aumentar o provimento
natural de água (GARCIA, 2019).
Ainda que as matas ciliares exerçam papéis funcionais e estruturais de efetivo valor
à manutenção da vida, apresentam um longo e intenso histórico de tensões (supressões e/
ou alterações) ocasionadas por usos antropogênicos, sobretudo para pasto, agricultura e/ou
estabelecimento de comunidades (assentamentos, vilas e cidades). Acrescentam-se, ainda,
às tensões ambientais vigentes nas áreas ciliares as modificações decorrentes da regulação
antrópica do fluxo de vazão dos rios, com impactos na estrutura e composição da vegetação
ciliar ( JANSSEN et al., 2020). Todas estas tensões fazem dos ecossistemas ciliares destaques
mundiais entre os ecossistemas com mais modificações antrópicas (TONKIN et al., 2018).
As modificações antropogênicas “produzem nas matas ciliares, mais do que na
maioria dos ecossistemas florestais, um cenário composto por uma mata fragmentada, em
um mosaico de manchas de composição e idade diversas” ( JANSSEN et al., 2020). Esta
paisagem florestal, caracterizada por apresentar pequenos e numerosos fragmentos, traz
em si um histórico gradativo de perda de biodiversidade, de fragilidade ambiental e de
susceptibilidade ao estabelecimento de espécies exóticas. Tal cenário influencia diretamente
a qualidade dos serviços ecológicos e ecossistêmicos prestados pelas matas ciliares, dentre os
quais destacamos, para além dos serviços diretamente vinculados aos corpos hídricos, a perda
de habitat, reduzindo a disponibilidade de ambientes e, consequentemente, a diversidade e
a abundância das populações vegetais e animais.
Embora a conservação e a preservação da vegetação ciliar dos rios, riachos e mananciais
seja uma questão de grande relevância econômica, social e ambiental, havendo dispositivos
legais para proteção dessas áreas, as áreas ciliares da Bacia Hidrográfica do Baixo São Francisco
(BSF) encontram-se severamente degradadas.
Em seu trabalho de diagnóstico ambiental, Silva et al. (2021) destacam a escassez de
vegetação nativa na faixa de proteção do rio e indicam que os problemas ambientais decorrem
de impactos negativos direta ou indiretamente vinculados à produção vegetal (agricultura
e extração vegetal), à pecuária e à urbanização. Os autores apontam, ainda, que os impactos
ambientais são reverberados também na fauna.
Além dos desafios impostos pelo ambiente sazonal e degradado, as espécies da
fauna no BSF são ameaçadas pela caça de subsistência praticada pelas populações rurais
e ribeirinhas. Na prática, todas as espécies de mamíferos terrestres são potencialmente
consumidas pelas populações humanas na região, fato que torna a busca por espécimes e
mesmo indícios da sua presença uma tarefa bastante difícil, seja pela escassez de animais,
seja pela necessidade premente destes indivíduos de evitarem encontros com seres humanos,
por razões de sobrevivência.
A literatura que trata do tema da fauna na região pode ser considerada escassa.
A maioria dos trabalhos disponíveis refere-se a levantamentos realizados em unidades
de conservação, de modo que existe pouco esforço amostral em áreas remanescentes
(fragmentos isolados).

292

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Considerando a elevada importância das áreas ciliares, são apresentados, aqui,
resultados das ações exploratórias e investigativas para avaliação da vegetação e da fauna
associadas no BSF, efetuadas no âmbito da IV Expedição Científica do São Francisco.
Destaca-se que, em correspondência à dinâmica da Expedição Científica do Rio São Francisco,
foram utilizados métodos e técnicas rápidas e não destrutivas.
O presente estudo representa a continuidade de investigações e análises iniciadas na
III Expedição e inclui, além da faixa de proteção permanente do São Francisco, a vegetação
ciliar de alguns dos rios tributários, em áreas de vizinhança tão próximas quanto possível
ao Rio São Francisco. Os resultados aqui apresentados contribuem para o conhecimento
da qualidade atual dos ambientes ciliares do BSF e poderão auxiliar nas diretrizes de
planejamento ambiental desta região.

Diagnóstico ambiental da área ciliar
Para diagnóstico ambiental da área ciliar do BSF, foram determinadas faixas ciliares
com largura de 500 metros ao longo do rio, iniciando na altura dos municípios de Piranhas
(AL) e Canindé do São Francisco (SE) até a foz, nos municípios de Piaçabuçu (AL) e Brejo
Grande (SE) (Figura 1).
Para determinação da área de estudo, foram consideradas análises de fotointerpretação,
do relevo, da rede de drenagem e a faixa de proteção ambiental legal do Rio São Francisco
e de alguns dos seus tributários, bem como observações de campo realizadas durante a IV
Expedição Científica do São Francisco.
Figura 1 - Áreas ciliares da Bacia Hidrográfica do Baixo São Francisco selecionadas para
análise das florestas ciliares e da fauna associada. Em destaque, as unidades amostrais (T1 a
T9) em que foram coletados dados de flora e fauna

Fonte: ALMEIDA; SILVA, 2022.

293

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Para análise da estrutura da paisagem da vegetação ciliar no BSF, foram consideradas
as classes fitofisiográficas a partir do índice Normalized Difference Vegetation Index (NDVI),
conforme valores e classificação utilizados por Silva et al. (2021) para a referida região.
Com fins de análise dos fragmentos florestais, foram utilizadas as classes
fitofisiográficas correspondentes, a saber: “vegetação densa” e “vegetação de transição”. Os
vetores referentes aos fragmentos florestais foram submetidos aos modelos de métricas
da paisagem propostos por Langanke et al. (2005) e McGarigal (2002), com auxílio dos
softwares Arcgis e Arcgis Pro (licença de uso LCG/CCAE/UFPB), ferramenta “Patch
Analysis”, em que foram determinados o número de manchas (fragmentos florestais), a
área, o perímetro e o índice de forma.
Para fins de levantamento de dados em campo, foram selecionadas áreas florestadas
ciliares, estabelecidas em três unidades de paisagem: Caatinga (Piranhas, Pão de Açúcar,
Traipu e São Brás, em AL); Mata Atlântica (Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu, em AL; e
Propriá, em SE) e Mangue (Brejo Grande, SE). Nestas unidades de paisagem, sob o uso de
técnicas rápidas e não destrutivas, foram estabelecidos 9 transectos (Figura 1), com cinco
pontos amostrais cada, intercalados entre si a cada 10 metros, ao longo do curso hídrico. Este
desenho amostral permite identificar as espécies vegetais estabelecidas às margens dos rios,
em maior proximidade ao espelho d’água.
O trabalho de campo foi efetuado durante o período de estiagem, com campanhas
entre 1º e 9 de novembro de 2021. Foram efetuados procedimentos para coleta de solo,
caracterização da estrutura da vegetação ciliar e levantamento da fauna.
A coleta de solo foi realizada em cada uma das unidades amostrais selecionadas para
coleta de campo durante a IV Expedição. Foram realizadas amostragens (0 cm – 20 cm)
em quatro pontos de cada transecto e uma no mangue, totalizando 33 amostras. O chão foi
escavado com o uso de picareta, até 20 cm de profundidade, e uma fatia de todo o perfil do solo
foi retirada, homogeneizada dentro da cova e coletada. As amostras, com aproximadamente
0,5 kg de massa, foram acondicionadas em saco plástico e identificadas. Posteriormente,
foram fracionadas, identificadas e encaminhadas para análise.
As amostras foram recebidas pelo Laboratório de Análises de Solos da Empresa
Brasileira de Pesquisa e Agropecuária (Embrapa) Tabuleiros Costeiros, onde foram
efetuadas as análises de fertilidade típicas para a finalidade agrícola, ou seja, focadas nas
concentrações de macro e micronutrientes para as plantas, bem como na disponibilidade
de matéria orgânica dos solos.
Os resultados da análise de fertilidade foram submetidos à análise estatística,
utilizando os testes de correlação de Pearson e de Spearman, com 95% de confiabilidade (p
< 0,05). Foram estudadas possíveis associações entre os índices de diversidade estimados para
as comunidades vegetais das áreas avaliadas (Riqueza de espécies, Índice de Diversidade de
Shannon e Índice de Diversidade de Simpson) e os parâmetros de fertilidade dos solos nessas
áreas, mais especificamente: matéria orgânica (MO) (g.kg-1); pH em H2O; micronutrientes:
Ca, Mg, H+Al e Al (mmolc.dm-3) e macronutrientes, sob o ponto de vista da nutrição de
plantas: P, K, Na (mg.dm-3).
Para conhecimento da estrutura da vegetação florestal ciliar, foram coletadas
informações referentes às espécies lenhosas (hábito, altura, frequência e circunferência
do caule – CAP). Foram estimados a riqueza de espécies e os índices de diversidade de
Shannon e Simpson.

294

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Para os levantamentos de ocorrência de mamíferos, inicialmente foi composta uma
lista de 21 espécies, a partir de estudos prévios realizados na região (DIAS et al., 2017; 2019),
com a finalidade de verificação da possível ocorrência destes animais na área de estudo.
Visando ao registro de ocorrência de mastofauna, foi realizado armadilhamento fotográfico
nos fragmentos florestais.
De modo adicional, foram consideradas observações diretas de animais em campo e/
ou indícios da presença das espécies, bem como testemunhos de moradores da região sobre a
ocorrência de animais silvestres na área; além de observações realizadas pelos pesquisadores, a
partir de embarcações da IV Expedição Científica ao longo do Rio São Francisco. As coletas
ocorreram sob licença permanente de número 16534-2 MMA/ICMBio/SISBio.

Fragmentos florestais ciliares e fauna associada

As áreas ciliares florestadas no BSF apresentam estrutura da paisagem composta
por um mosaico de pequenos e numerosos fragmentos. No trecho 1 (Figura 2), na faixa de
proteção ciliar de 500 m, 9.450 fragmentos correspondem à vegetação densa e apresentaram
tamanho variável entre 0,05 km2 e 0,39 km2. As áreas com “vegetação de transição” foram
mais numerosas (44.346), porém de tamanho reduzido, oscilando entre 1-8 km2 e 0,001 km2.
Figura 2 - Classificação fitofisiográfica, a partir de determinação de índice de vegetação
(NDVI), para a Região do Baixo São Francisco. Adaptado de Silva et al. (2021)

Fonte: ALMEIDA; SILVA, 2022.

295

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

No trecho 2 (Figura 2), a vegetação densa ocorreu em 12.311 fragmentos, com
tamanho entre 5,78-6 km2 e 4,04 km2. Quanto à vegetação de transição, é encontrada em
33.836 fragmentos, com área de 5,76-6 km2 a 11,90 km2. Destaca-se que o maior fragmento
com vegetação densa e com vegetação de transição encontra-se neste trecho.
Os trechos 3 e 4 (Figura 2) apresentam, conjuntamente, 6.945 fragmentos com
vegetação densa, com tamanho variável entre 5,76-6 km2 e 0,13 km2. A vegetação de transição
corresponde a 21.004 fragmentos, com áreas entre 5,76-6 km2 e 1,38 km2.
Em um ambiente sob intensa pressão antrópica, os fragmentos florestais podem
ser submetidos a um processo de fragmentação, com aumento no número de fragmentos e
redução da área florestada total ao longo dos anos; caso as perturbações intensifiquem-se,
pode ocorrer a supressão total de fragmentos, sobretudo aqueles com área diminuta, como
observado por Matias et al. (2020) em estudo desenvolvido no BSF.
Quando considerado o índice de forma (MSI), observa-se que os fragmentos florestais
variam entre ligeiramente compacto (MSI = 1,08) e fortemente linear (MSI > 40), com maior
parte dos fragmentos exibindo linearidade. Os fragmentos mais lineares ocorrem nos trechos
1 e 2. É provável que este resultado seja influenciado pelo estabelecimento da vegetação
florestal em proximidade à rede de drenagem de rios intermitentes, seguindo a linearidade
dos seus cursos como uma estratégia de desenvolvimento em áreas com melhores condições
de disponibilidade hídrica.
Ao interpretar os resultados das métricas da paisagem, devem ser consideradas,
também, as características das unidades de paisagem. Neste sentido, a abundância de
fragmentos com vegetação de transição pode ser interpretada como uma resposta associada
aos aspectos fitofisionômicos, especialmente nas áreas de Caatinga (trecho 1 e parte do trecho
2), além de uma resposta associada ao estágio de sucessão ecológica.
Os fragmentos florestais selecionados para levantamento em campo correspondem
às fitofisiografias de vegetação densa (T1, T5, T6), vegetação de transição (T2, T3, T4 e T8)
e vegetação esparsa (T7 e T9), em proximidade ao Rio São Francisco e/ou rios intermitentes
(Figura 3). Em campo, houve necessidade de realização de coleta de dados fora da faixa de
proteção dos 500 m, como consequência de: ausência de fragmentos florestais e acessibilidade
às áreas de coleta, dentre outros fatores. As áreas de coleta são de propriedade privada,
excetuando-se o T9.

296

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 3 - Vigor e densidade da vegetação e classe fitofisiográfica nas áreas florestais ciliares
onde foram efetuados levantamentos de campo, unidades amostrais T1 a T9

Fonte: ALMEIDA; SILVA, 2022.

Nas áreas ciliares de Caatinga (T1 a T5), Mata Atlântica (T6 A T8) e Mangue (T9),
foram encontradas 46 espécies lenhosas (Tabela 1). A catingueira (Poincianella pyramidalis
(Tul.) L. P. Queiroz) e o marmeleiro (Croton blanchetianus Baill) destacam-se entre as espécies
mais abundantes, evidenciando um cenário de regeneração em fase inicial. Há predominância
de espécies pioneiras e secundárias.

297

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Dentre as espécies de frequência rara, destaca-se a amendoeira (Terminalia catappa
L.), por ser exótica (Figura 4). Esta espécie exibe vantagens na competição com as espécies
nativas e, por apresentar alelopatia e grande sombreamento, pode alterar a estrutura e a
composição de espécies sob a sua copa (ou área de influência) (MACHADO, 2019).
Figura 4 - Terminalia catappa L. (amendoeira), espécie exótica estabelecida às margens de
um rio tributário do São Francisco, em Piranhas, Alagoas

Fonte: SILVA, 2021.

Tabela 1 - Espécies lenhosas da mata ciliar do Baixo Rio São Francisco, em Alagoas e
Sergipe
ID

Nome

vulgar

Nome Científico

Família

Informações ecológicas*

Ocorrência

T1

Sp1

Amburana

Amburana cearenses
(Alemão) A.C. Sm.

Fabaceae

Heliófita; espécie clímax; em
risco de extinção. Floração: maio
a julho. Polinização: melitofilia.
Frutificação: junho a outubro.
Dispersão: anemocórica.

Sp2

Amendoeira

Terminalia catappa L.

Combretaceae

Heliófita; espécie exótica (invasora).
Dispersão: zoocórica

T1

Fabaceae

Heliófita; secundária inicial a
secundária tardia. Ocorre em
solos úmidos e áreas ciliares.
Espécie chave para a recuperação
florestal. Floração: junho a agosto.
Polinização: melitofilia. Frutificação:
janeiro a junho. Dispersão:
zoocórica; quiropterocoria

T8

Sp3

Angelim

Andira fraxinifolia
Benth.

298

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Sp4

Sp5

Sp6

Sp7

Sp8

Sp9

Sp10

Sp11

Bom nome

Braúna

Cajazeira

Cajueiro

Cambuí

Caroba

Canela de
cutia

Catingueira

Maytenus rigida
Mart.

Schinopsis brasilienses
Engl.

Spondias cf. mombin
L.

Anacardium
occidentale L.

Myrciaria floribunda
(H.West ex Willd.)
O.Berg

Jacaranda puberula
Cham.

Esenbeckia grandiflora
Mart.

Poincianella
pyramidalis (Tul.) L.
P. Queiroz

Celastraceae

Espécie da submata; comum em
áreas muito secas e, ou, com solo
"compactado ou cascalhento". É
recomendável para a recuperação de
ambientes degradados na caatinga,
especialmente
ciliares,
porém
exibe crescimento lento. Floração:
variável de acordo com o estado
de ocorrência; outubro (em SE).
Polinização: melitofilia. Frutificação:
março a maio. Dispersão: zoocórica.

T1; T7

Anacardiaceae

Heliófita; espécie clímax; em risco
de extinção. Floração: junho a
setembro. Polinização: melitofilia.
Frutificação: outubro e novembro.
Dispersão: anemocórica.

T2

Anacardiaceae

Heliófita; xerófita; nativa do
semiárido nordestino do Brasil;
secundária tardia. Ocorre em
Floresta Estacional Semidecidual
e Decidual, em áreas ciliares,
várzeas e de terra firme (plantio).
Floração: junho a julho. Polinização:
melitofilia. Frutificação: agosto
a outubro. Dispersão: zoocórica;
ictiocórica.

T6; T7

Anacardiaceae

Heliófita;
pioneira;
ocorre
em solos arenosos e, ou, bem
drenados. Floração: junho a
novembro. Polinização: entomofilia.
Frutificação: setembro a janeiro.
Dispersão: zoocórica

T8

Myrtaceae

Nativa. Espécie secundária; pode
ocorrer em solos arenosos inundáveis
e
não-inundáveis.
Floração:
setembro a janeiro. Polinização:
melitofilia. Frutificação: outubro a
março. Dispersão zoocórica.

T8

Bignoniaceae

Heliófita; ocorre em áreas úmidas
e baixas; pioneira. Floração: agosto
a setembro. Polinização: melitofilia.
Frutificação: fevereiro a março.
Dispersão:
autocórica
(fruto);
anemocórica (semente).

T8

Rutaceae

Esciófita; secundária tardia e
clímax. Floração: dezembro a
janeiro. Polinização: melitofilia.
Frutificação: julho a setembro.
Dispersão: autocórica.

T8

Fabaceae

Heliófita;
xerófita;
pioneira;
endêmica; adaptável aos diferentes
solos, incluindo solos pobres e
pedregosos. Floração: outubro a
fevereiro. Polinização: melitofilia.
Frutificação: dezembro e junho.
Dispersão: autocórica (barocórica).

T4; T7

299

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Sp12

Sp13

Craibeira

Croton;
Marmeleiro

Tabebuia aurea (Silva
Manso) S. Moore

Croton blanchetianus
Baill

Senegalia tenuifolia
(L.) Britton & Rose

Bignoniaceae

Heliófita; secundária; tolerante a
solos salinos; frequente em áreas
ciliares. Floração: agosto e setembro.
Polinização: ornitofilia. Frutificação:
agosto a outubro. Dispersão:
anemocórica.

T1

Euphorbiaceae

Pioneira; nativa da Caatinga;
frequente em áreas antropizadas.
Floração: julho a dezembro.
Polinização: melitofilia. Frutificação:
janeiro a julho. Dispersão: autocórica

T3; T4; T5

Fabaceae

Heliófita; pioneira e secundária
inicial; de ampla distribuição na
América Latina. Floração: janeiro
a março. Polinização: zoofilia.
Frutificação: fevereiro a setembro.
Dispersão: anemocórica; zoocórica

T7

Sp14

Unha de gato

Sp15

Morfotipo 1

Informação dependente da confirmação da identificação da espécie

T6

Sp16

Morfotipo 2

Informação dependente da confirmação da identificação da espécie

T7

Sp17

Sp18

Sp19

Gameleira

Ipê roxo

Jenipapo

Sp20

Juá

Sp21

Jurema

Sp22

Jurema preta

Ficus glabra Vell.

Handroanthus
impetiginosus (Mart.
Ex DC.) Mattos

Genipa americana L.

Ziziphus joazeiro
Mart.

Moraceae

Heliófita;
ocorre
em
áreas
úmidas; pioneira. Floração: maio
a junho. Polinização: entomofilia;
melitofilia. Frutificação: agosto a
setembro. Dispersão: ornitocórica;
quireptocórica.

T8

Bignoniaceae

Heliófita; ocorre preferencialmente
em floresta estacional semidecídua
ou decícua. Floração: maio a
agosto. Polinização: melitofiliza.
Frutificação: detembro a outubro.
Dispersão: anemocórica.

T7

Rubiaceae

Heliófita;
seletiva
higrófita;
ocorre nas matas ciliares, em
áreas
temporariamente
ou
permanentemente
inundáveis;
espécie
secundária.
Floração:
outubro a janeiro. Polinização:
melitofilia. Frutificação: novembro
a fevereiro. Dispersão: autocórica;
zoocórica.

T3

Rhamnaceae

Heliófita; pioneira; geralmente
rara ou em frequência reduzida.
Floração:variável (maio a junho em
PE; setembro na BA). Polinização:
melitofilia. Frutificação: junho a
julho. Dispersão: zoocórica.

T1; T2; T5;
T6

Informação dependente da confirmação da identificação da espécie

Mimosa tenuiflora
(Wild.) Poir.

Mimosaceae

300

Heliófita; pioneira à formação
secundária de áreas de várzea e/
ou solo úmido e profundo, porém
também se desenvolve sob restrição
hídrica; indicada para a recuperação
de áreas ciliares degradadas.
Floração: novembro a fevereiro
(período de estiagem). Polinização:
melitofilia. Frutificação: novembro
a fevereiro (período de estiagem).
Dispersão: autocórica.

T5

T2

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Sp23

Manguebranco

Sp24

Morfotipo 3

Sp25

Sp26

Sp27

Leiteiro

Laguncularia racemosa
(L.) C.F.Gaertn.

Combretaceae

Espécie típica do mangue; em áreas
com menor salinidade tende a ser
a espécie dominante. Rebrota com
facilidade. Floração: novembro a
fevereiro. Polinização: entomofilia,
provável melitofilia. Frutificação:
janeiro
a
maio.
Dispersão:
autocórica.

Informação dependente da identificação da espécie.

Sapium glandulosum
(L.) Morong

Louro

Cordia trichotoma
(Vell.) Arrab. ex.
Steud.

Maçaranduba

Manilkara elata
(Allemão ex Miq.)
Monach.

T3

Euphorbiaceae

Heliófita; pioneira, secundária
inicial ou clímax (com exigência
de alta luminosidade). Floração:
outubro a novembro. Polinização:
melitofiliaFrutificação: dezembro.
Dispersão: barocórica; zoocórica.

T9

Boraginaceae

Heliófita;
espécie
secundária.
Comum em áreas ciliares, com
preferência por solo mais férteis.
Floração: maio a junho. Polinização:
abelhas e insetos. Frutificação: julho
a setembro. Dispersão: anemocórica.

T8

Sapotaceae

Heliófita;
seletiva
xerófita;
secundária tardia ou clímax.
Floração: maio a julho. Polinização:
melitofilia. Frutificação: agosto a
setembro. Dispersão: zoocórica.

T8

Cactaceae

Xerófita;
pioneira.
Floração:
novembro a janeiro (logo após as
primeiras chuvas). Polinização:
quiropterofilia. Frutificação: janeiro
a março. Dispersão: zoocórica.

T2; T6

Sp28

Mandacaru

Sp29

Morfotipo 4

Informação dependente da identificação da espécie.

T3; T5

Sp30

Morfotipo 5

Informação dependente da identificação da espécie.

T3

Sp31

Morfotipo 6

Informação dependente da identificação da espécie.

T5

Sp32

Morfotipo 7

Informação dependente da identificação da espécie.

T6

Sp33

Murta

Sp34

Morfotipo 8

Sp35

Pereiro

Sp36

Morfotipo 9

Sp37

Quixabeira

Cereus jamacaru D.C.

T9

Myrtus cf. L.

Aspidosperma
pyrifolium Mart.

Myrtaceae

Informação
dependente
da
confirmação da identificação da
espécie.

T8

Myrtaceae

Informação
dependente
identificação da espécie.

T7

Apocynaceae

Heliófita; secundária. Floração:
julho a outubro. Polinização:
esfingofilia. Frutificação: julho a
novembro. Dispersão: anemocórica.

da

Informação dependente da identificação da espécie.
Sideroxylon
obtusifolium (Roem.
& Schult.) T. D.
Penn.

Sapotaceae

301

Heliófila;
seletiva
higrófita;
comum em áreas ciliares e várzeas
úmidas. Floração: outubro a
dezembro. Polinização: melitofilia.
Frutificação: janeiro a abril.
Dispersão: ornitocórica.

T1
T8

T1; T3

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Sp38

Manguevermelho

Sp39

Samambaia
do mangue;
avencão

Sp40

Sp41

Sombreiro

Trapiá

Rhizophora mangle L.

Acrostichum aureum
L.

Clitoria fairchildiana
R.A.Howard

Crateva tapia L.

Rhizophoraceae

Espécie típica do mangue; halófita
facultativa; comumente na franja
do bosque de mangue, ao longo do
curso do rio. Em áreas sob baixo
impacto antrópico= Floração: ao
longo de todo o ano, especialmente
de abril a junho e de novembro
a março. Frutificação: julho a
março. Polinização: vento e insetos.
Dispersão: propágulos.

T9

Pteridaceae

Halófita facultativa; comum em
pantanos salobrosos e em florestas
de manguezal perturbadas. Progação
por esporos; propagação vegetativa:
divisão de tufos ou do rizoma.

T9

Fabaceae

Espécie climáx e, ou, secundária
inicial. Floração: setembro a
novembro. Polinização: melitofilia.
Frutificação: julho a janeiro.
Dispersão: autocórica.

T6

Capparaceae

Heliófita;
secundária;
grande
tolerância ao alagamento. Utilizada
para recomposição de áreas
degradadas. Floração: agosto a
novembro. Polinização: melitofilia;
quiropterofilia.
Frutificação:
dezembro a janeiro. Dispersão:
zoocórica.

T2

T8

T2

Sp42

Tucum

Bactris setosa Mart.

Arecaceae

Pioneira; secundária tardia; ocorre
em áreas encharcadas, alagadas.
Floração: novembro a dezembro.
Polinização: entomofilia; melitofilia.
Frutificação: janeiro a março.
Dispersão: zoocórica.

Sp43

Velame

Croton cf.
heliotropiifolius
Kunth

Euphorbiaceae

Heliófita; pioneira. Polinização:
abelhas e moscas silvestres.
Dispersão: mirmecórica.

*Fonte: CNCFlora (2022); CRPol (2022); Silva et al. (2021); Nema (2021); Benevides et al.
(2021); Howard (2019); Machado (2019); Programa Arboretum (2017); Nadia et al. (2014);
Carvalho (2007; 2008; 2010; 2014); Arborecer (2009); Lorenzi (2006).

As espécies florestais apresentaram altura média variável de 1,83 m (T5) a 7,51
m (T9) (Figura 4). Quanto às medidas de CAP, associadas ao crescimento secundário das
espécies vegetais, os menores valores foram exibidos pelas espécies estabelecidas T4 e T5.
Nestas áreas, havia indícios de perturbação ambiental, evidenciados por marcas de cortes nas
árvores, com sinais de rebrota (Figura 6) e o estabelecimento das espécies em áreas ciliares
com fortes evidências de assoreamento (Figura 7). Os maiores valores médios de CAP são
exibidos em espécies estabelecidas em T3, T6 e T7 (Figura 5).

302

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 5 - Média de altura e circunferência (CAP), em metros, das espécies lenhosas
estabelecidas em florestas ciliares no Baixo São Francisco, unidades amostrais T1 a T9

Fonte: AUTORES, 2022.

Figura 6 - Rebrota em espécie lenhosa em fragmento florestal ciliar, em Traipu, Alagoas

Fonte: SILVA, 2021.

303

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 7 - Espécies lenhosas estabelecidas em área ciliar de riacho intermitente, com fortes
evidências de assoreamento, em São Brás, Alagoas

Fonte: ALMEIDA, 2021.

Os resultados relativos à diversidade das comunidades vegetais estudadas são resumidos
na Figura 8. Uma das razões para os índices de diversidade serem utilizados para avaliação da
composição das comunidades é a necessidade de se considerar, ao mesmo tempo, a riqueza
das espécies e sua abundância relativa.
Com efeito, os trabalhos nesta área da Biologia costumam utilizar pelo menos dois
índices para representar a diversidade nas comunidades, sendo que, geralmente, um deles trata
da riqueza entre as localidades e outro é baseado na equitabilidade das abundâncias relativas.
Numa primeira aproximação, os resultados deste estudo revelam que o ambiente
menos diverso, tanto na dimensão de riqueza de espécies vegetais (Shannon), quanto na
dimensão de equitabilidade das abundâncias relativas (Simpson), é a localidade T4, que
equivale às áreas avaliadas no município de Traipu (AL). Em contraste, as áreas amostradas
que tiveram os maiores índices de diversidade nas duas dimensões foram encontradas no
município de Piranhas (AL).
Não houve correlação significativa entre as medidas de diversidade da comunidade
vegetal e os parâmetros de fertilidade do solo considerados (p < 0,05). Possivelmente,
fatores não abordados neste estudo possuem mais associação com a diversidade de plantas
nos ambientes ciliares da região do BSF do que a fertilidade do solo de 0 cm a 20 cm
de profundidade.

304

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 8 - Índice de Diversidade de Shannon e Índice de Diversidade de Simpson das
espécies florestais ciliares da região do Baixo São Francisco

Fonte: AUTORES, 2022.

Os resultados da análise de solo demonstram que, de modo geral, os solos da região
do BSF podem ser considerados como de baixa fertilidade (Tabela 2). Embora esta seja uma
característica comum aos solos observados na região, alguns nutrientes, como Na, apresentaram
ampla variação entre as áreas. Mesmo assim, tais variações da disponibilidade de nutrientes
para as plantas não foram suficientes para afetar sensivelmente as comunidades vegetais sob
o ponto de vista da diversidade. Tal resultado leva à refutação da hipótese de que fertilidade
e diversidade vegetal fossem correlacionadas na região.
Tabela 2 - Análise de fertilidade dos solos de ambientes ciliares na região do Baixo São
Francisco, 2021
Unidade

M.O

pH

amostral

(g.kg-1)

H2O

P1

32,7

6,5

44,7

50,8

14,1

0,2

279,3

253,1

74,0

P3

22,0

7,3

117,4

43,8

5,3

0,1

567,8

167,1

65,4

P5

17,8

6,5

117,3

15,7

16,8

0,2

215,6

129,1

28,8

P6

15,3

6,4

47,5

22,9

21,8

0,4

339,2

164,1

47,4

P2

18,3

5,4

28,3

32,2

43,3

0,9

138,1

138,1

68,6

P3

12,9

5,8

46,1

47,8

27,3

0,4

260,5

232,1

39,7

P4

13,2

5,5

31,0

52,1

38,5

0,7

220,6

95,9

52,3

P5

19,8

5,1

32,3

42,4

49,8

2,4

238,1

71,6

58,8

P1

11,4

6,1

31,8

61,8

17,8

0,2

18,7

114,1

469,3

P2

28,9

6,8

41,0

42,1

13,1

0,2

30,2

133,1

237,3

P3

18,0

6,6

37,2

43,2

12,3

0,2

30,1

153,1

329,3

P4

7,5

7,2

35,6

23,4

5,2

0,0

25,7

577,1

74,6

T1

T2

T3

Ca

Mg

H+Al

Al

P

(mmolc.dm-3)

305

K

Na

(mg.dm-3)

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

T4

T5

T6

T7

T8

P1

23,3

6,2

33,2

23,8

38,8

0,2

14,5

195,1

20,6

P2

18,7

6,8

35,6

33,5

17,8

0,2

39,2

338,1

22,3

P3

24,8

6,7

47,1

36,8

28,6

0,2

25,5

199,1

18,3

P4

25,7

6,4

47,9

26,4

27,5

0,3

25,1

154,1

27,9

P1

18,4

5,3

8,6

10,1

57,4

8,0

2,4

104,1

19,4

P2

30,5

5,1

15,0

19,0

52,6

1,2

3,0

243,1

21,5

P3

15,3

5,0

6,9

8,9

56,4

9,1

1,0

95,4

18,0

P4

17,2

5,2

12,4

13,2

36,1

1,3

2,8

184,1

16,1

P1

32,5

5,5

94,1

43,1

44,8

0,4

5,0

247,1

57,2

P2

41,5

5,1

55,3

32,7

52,2

1,2

7,9

219,1

37,2

P3

32,7

4,9

63,5

39,5

47,2

2,7

3,3

117,1

40,0

P4

23,5

5,8

88,5

72,5

32,5

0,4

13,0

124,1

62,0

P1

47,7

5,3

36,4

27,1

62,3

0,4

22,7

254,1

50,5

P2

49,9

6,3

83,9

36,2

32,0

0,1

7,4

362,1

20,7

P3

47,1

6,0

45,1

27,4

38,0

0,5

6,7

168,1

18,6

P4

30,1

4,7

15,5

9,4

76,5

7,5

3,9

97,5

10,4

P1

55,6

4,1

8,3

4,7

122,4

14,7

4,5

35,8

32,0

P2

29,0

4,1

2,6

4,4

83,4

14,8

4,6

33,5

27,5

P3

26,7

4,3

5,4

5,3

72,6

7,4

2,8

40,9

32,2

P4

26,4

4,0

3,9

2,9

87,5

13,2

41,7

17,0

12,0

31,1

5,3

22,2

38,2

49,3

0,5

15,2

166,9

906,5

T9

Fonte: Elaborado pelos autores, 2021.

Fauna

Com as observações realizadas na IV Expedição Científica do São Francisco, foi
atualizada a lista de espécies de mamíferos não voadores registradas nos trabalhos de Dias et
al. (2017; 2019) com ocorrência na região. A verificação, em campo, das espécies desta lista
ainda tem demonstrado aumento no número, em função do crescimento do esforço amostral,
o que indica que as coletas de campo devem ser mantidas.
Como destaque desta etapa do estudo, aponta-se o registro de duas espécies de
carnívoros de médio porte: o guaxinim (Procyon cancrivorus), em Brejo Grande (SE), e a
raposinha (Cerdocyon thous), na região de Penedinho/Piaçabuçu (AL). A lista atualizada das
espécies é apresentada no Quadro 1.
Quadro 1 - Lista atualizada de espécies de aves e mamíferos, a partir dos registros efetuados
durante a IV Expedição Científica do Rio São Francisco, na região do Baixo São Francisco,
em novembro de 2021
Nome popular

Espécie

Ordem

Família

Registro*

Ano

Biguá

Nannopterum
brasilianum

Suliformes

Phalacrocoracidae

Av

2021

Cabeça-seca

Mycteria americana

Ciconiiformes

Ciconiidae

Av

2020 e
2021

306

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Camundongodo-campo

Calomys mattevi

Rodentia

Cricetidae

-

Cangambá

Conepatus amazonicus/
semistriatus

Carnivora

Mephitidae

-

Capivara

Hydrochoeris hydrochaeris

Rodentia

Caviidae

IL, MT; IL
(2021)

Carcará

Caracara plancus

Falconiformes

Falconidae

Av

Colhereiro

2020 e
2021
2020 e
2021

Corujaburaqueira

Platalea ajaja

Pelecaniformes

Threskiornithidae

Av

Athene cunicularia

Strigiformes

Strigidae

Av

Cuica-graciosa

Gracillinanus agilis

Didelphimophia

Didelphidae

-

Falcão-peregrino

Falco peregrinus

Falconiformes

Falconidae

Fv

Ardea alba

Pelecaniformes

Ardeidae

Av

Egretta thula

Pelecaniformes

Ardeidae

Av

Garça-moura

Ardea cocoi

Pelecaniformes

Ardeidae

Av

Garça-vaqueira

Bubulcus ibis

Pelecaniformes

Ardeidae

Av

Gato-do-mato

Leopardus tigrinus

Carnivora

Felidae

MT

2020

Gaviãocaramujeiro

Rostrhamus sociabilis

Accipitriformes

Accipitridae

Av

2020 e
2021

Gavião-carijó

Rupornis magnirostris

Accipitriformes

Accipitridae

Av

Irerê

Dendrocygna viduata

Anseriformes

Anatidae

Av

Jaçanã

Jacana jacana

Charadriiformes

Jacanidae

Av

Jaguarundi

Puma yagouaroundi

Carnivora

Felidae

-

Jaguatirica

Leopardus pardalis

Carnivora

Felidae

-

Lontra

Lontra longicaudis

Carnivora

Mustelidae

MT, IL

Mão-pelada

Procyon cancrivorus

Carnivora

Procyonidae

V

Martim-pescador

Megaceryle torquata

Coraciiformes

Alcedinidae

Av

Mocó

Kerodon rupestres

Rodentia

Caviidae

IL, Av

Pato-de-crista

Sarkidiornis sylvicola

Anseriformes

Anatidae

Av

Pato-do-mato

Cairina moschata

Anseriformes

Anatidae

Av

2020

Pernilongocostas-negras

Himantopus mexicans

Charadriiformes

Recurvirostridae

Av

Preá

Galea spixii

Rodentia

Caviidae

IL

2020 e
2021

Punaré

Thrichomys laurentius

Rodentia

Echimyidae

C

Quero-quero

Vanellus chilensis

Charadriiformes

Charadriidae

Av

Quiri-quiri

Falco sparverius

Falconiformes

Falconidae

Av

Raposinha

Cerdocyon thous

Carnivora

Canidae

MT, V, CA

Rato-bico-delacre

Wiedomis pirrihomis

Rodentia

Cricetidae

-

Rato-cachorro

Monodelphis domestica

Didelphimophia

Didelphidae

-

Garça-brancagrande
Garça-brancapequena

307

2020

2020 e
2021
2020 e
2021
2020 e
2021
2020 e
2021
2020 e
2021
2020 e
2021

2020 e
2021
2020 e
2021
2020 e
2021

2020 e
2021
2021
2021
2020 e
2021
2020 e
2021

2020
2020

2020 e
2021
2020 e
2021
2020 e
2021

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Saracura-do-brejo

Aramides cajaneus

Gruiformes

Rallidae

Av

Saruê

Didelphis marsupialis

Didelphimophia

Didelphidae

IL, MT

Socó-boi

Tigrisoma lineatum

Pelecaniformes

Ardeidae

Socozinho

Butorides striata

Pelecaniformes

Ardeidae

Av

Soín

Callitrix jacchus

Primates

Callitrichidae

MT

Tamanduá-mirim

Tamandua tetradactyla

Pilosa

Myrmecophagidae

MT

Tatu-galinha

Dasypus novencintus

Cingulata

Dasypodidae

MT

Tatu-peba

Euphractus sexcintus

Cingulata

Dasypodidae

IL

2020

Cathartes aura

Cathartiformes

Cathartidae

Av

2021

Coragips atratus

Cathartiformes

Cathartidae

Mazama goazoubira

Artiodactyla

Cervidae

Urubu-cabeçavermelha
Urubu-decabeça-preta
Veado catingueiro

2020
2021
2020 e
2021
2020 e
2021
2020 e
2021
2020

2021
MT,
IL(2021)

2020 e
2021

*Os registros realizados basearam-se em: captura física (C); avistamento direto (Av); vestígios (V);
Informante local (IL); foto/vídeo (Fv); Museu Traipu (MT); Carcaça atropelada (CA).
Fonte: Elaborado pelos autores, 2021.

Registro avulso
•

Presença de rebanho de búfalos na margem alagoana – espécie exótica.

Rastros e indícios observados em campo
•
•
•

Rastros de raposinha na RPPN (unidade amostral T7) (Figura 9);
Rastros de mão-pelada no mangue, dia 09/11/2021 (Figura 10);
Dia 9 de novembro, raposinha atropelada na região de Penedinho/Piaçabuçu
(AL), na estrada de acesso à fazenda (unidade amostral T8) (Figura 11).

Informações sobre animais recebidas de pessoas
•
•
•
•

Senhor Vítor (pescador da equipe da Expedição, residente em Neópolis/SE)
indicou a presença de veado-catingueiro em morro (reserva) próximo de Gararu
– informações obtidas de caçadores conhecidos por Vítor;
Senhor Rodrigo (pescador da equipe da expedição) viu lontra quando foi retirar
covos de camarão (na madrugada do dia 31/10/2021), próximo a Traipu;
Na região de Penedinho (AL), tivemos o apoio em campo do Senhor Messias,
que indicou local em que viu pessoalmente tamanduá-mirim, com filhotes;
Na região da foz do São Francisco, próximo ao ponto de coleta realizada no
mangue (T9), falamos com dois moradores, um deles conhecido como Ginaldo
Pescador (nós o filmamos lançado a tarrafa), que nos indicou a ocorrência do
macaco-do-mangue (Sapajus xanthosternos) na ilha conhecida como Mamona,
próxima à região onde estivemos, porém à montante do ponto de coleta T9;
no mesmo braço de rio, um morador do “Porto da Cruz” também confirmou a
ocorrência do macaco naquela região, indicando as primeiras horas da manhã
como melhor horário para avistar o animal.

308

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 9 - Local com pegadas onde raposinha (Cerdocyon thous) escavou o solo, em Propriá
(SE), em 06/11/2021

Fonte: PIOVEZAN, 2021.

309

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 10 - Pegada de guaxinim (Procyon cancrivorus) no mangue, na margem sergipana da
foz do Rio São Francisco, em 09/11/2021

Fonte: PIOVEZAN, 2021.

Figura 11 - Raposinha (Cerdocyon thous) atropelada na região de Penedinho/Piaçabuçu
(AL), em 09/11/2021

Fonte: PIOVEZAN, 2021.

310

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As análises exploratórias e descritivas-quantitativas desenvolvidas na Expedição
Científica do São Francisco permitiram ampliar os dados e as informações referentes aos
fragmentos florestais ciliares e à fauna associada. Os achados da pesquisa demonstram que
se faz necessário realizar mais trabalhos de campo e atividades de monitoramento contínuo,
a fim de representar com propriedade a diversidade de espécies que a região possui.
Para além da identificação da escassez de fragmentos florestais na faixa de proteção
legal do Rio São Francisco, aponta-se, aqui, a pulverização destas áreas, que, em número
elevado e tamanho reduzido, correm risco de desaparecimento, com sérios prejuízos ambientais,
sociais e econômicos.
Diante do exposto, e considerando as tensões ambientais nas áreas ciliares do Rio São
Francisco e de seus tributários, percebe-se a urgência de realização de ações de preservação
e conservação para a melhoria da qualidade ambiental destas áreas. Sugere-se, fortemente,
que iniciativas de recuperação e de educação ambiental sejam implementadas, especialmente
voltadas aos proprietários de terra e/ou moradores das áreas ribeirinhas do BSF.

REFERÊNCIAS
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tinyurl.com/mwncn2f5. Acesso em: 20 abr. 2022.
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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

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313

CAPÍTULO 16 - DIAGNÓSTICO DO ASPECTO
CÊNICO DA PAISAGEM COM ÊNFASE NOS
RECURSOS NATURAIS NA REGIÃO DO BAIXO SÃO
FRANCISCO A PARTIR DE IMAGENS OBTIDAS POR
VEÍCULO AÉREO NÃO TRIPULADO (VANT)
Rychardson Rocha de Araújo1
João Thiago Gomes de Farias2
Mário Jorge Campos3

Wendel de Melo Massaranduba4
Resumo: As observações de uso e ocupação do solo através do mapeamento mostram um
elevado grau de complexidade no processo de automação, por apresentar diversas classes e
um nível de detalhe extremamente variável. A geração de mapas de uso e ocupação do solo
está sujeitaà obtenção de produtos do sensoriamento remoto, a partir de diversos métodos
de aquisição e técnicas de classificação e de obtenção de dados em campo, caracterizando-se
como etapas essenciais no processo de elaboração do produto final. O objetivo principal deste
capítulo foi avaliar as aplicações da plataforma Vant em três contextos distintos: (1) agrícola,
apresentando como plataformas comerciais embarcadas com sensores de menor sensibilidade
podem oferecer resultados relevantes ao seu monitoramento; (2) ecossistêmicos, expondo
como a utilização dos Vants como ferramenta complementar aos métodos convencionais de
campo podem refletir em melhorias na caracterização de sistemas naturais e na manutenção
da resiliência ecossistêmica e (3) os sistemas hídricos, demonstrando como sensores e
aeronaves mais robustas podem fortalecer os estudos de conservação e subsidiar programas
de monitoramento das águas interiores, manejo e conservação do solo.
Palavras-chave: Sensoriamento Remoto. Geotecnologia. Processamento de Imagem.
Vegetação. Uso e Ocupação do Solo.

INTRODUÇÃO
O presente capítulo apresenta uma descrição da diversidade do aspecto cênico das
macropaisagens do Nordeste brasileiro no Estado de Alagoas, localizados na região semiárida
da Bacia do Rio São Francisco (BHSF), do ponto de vista de seus recursos naturais e da
sua dinâmica social. Ocupando 8% do território nacional, a Bacia Hidrográfica do Rio São
Francisco compreende uma extensão 2.863 km e uma área de drenagem de aproximadamente
640 mil km².

1 Prof. D.Sc. do Departamento de Engenharia Agrícola (UFS).
2 Técnico em Estradas – 5ª Superintendência Regional da Codevasf.
3 Prof. D.Sc. do Departamento de Engenharia Florestal (UFS).
4 Eng. Agro. M.Sc. em Recursos Hídricos. Departamento de Engenharia Agrícola (UFS).

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

O São Francisco passa por cinco Estados brasileiros: Minas Gerais, onde o rio nasce,
na Serra da Canastra, percorrendo os Estados da Bahia e de Pernambuco, até o Oceano
Atlântico, onde deságua na divisa dos Estados de Alagoas e Sergipe.
No Brasil, o uso das geotecnologias é recorrente em diversas áreas do conhecimento
científico, tornando-se indispensável em pesquisas geográficas e no monitoramento
ambiental. Aliado às geotecnologias está o geoprocessamento de informações de dados da
superfície terrestre, englobando o agrupamento de tecnologias associadas a: coleta de dados,
processamento e tratamento da informação espacial, análise e oferta de informações com
referência geográfica.
Com o avanço da tecnologia digital, os custos para o mapeamento da paisagem têm
diminuído e, atualmente, os Veículos Aéreos Não Tripulados (Vants) têm se popularizado
como nova plataforma para o sensoriamento remoto.
Diante da importância, são apresentadas as etapas metodológicas principais do
zoneamento na área supracitada, que visa caracterizar e espacializar os diversos ambientes
em função da diversidade dos recursos naturais e agrossocioeconômicos.
Dentre outras aplicações, o referido capítulo pretende fornecer uma melhor orientação
às ações de planejamento, tratos culturais, restauração de ambientes antropizados e da
paisagem, resultando, desta forma, na racionalização da aplicação do aspecto cênico para
conservação e recuperação do meio ambiente.
Considerando que as ações de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico na área
rural necessitam da integração das investigações interdisciplinares de natureza agroecológica
e agrossocioeconômica, foi desenvolvida e aprimorada uma metodologia de diagnóstico do
meio natural, tendo como base o auxílio da Unidade Geoambiental (UG). Entende-se como
UG a aplicabilidade da realidade diversa, de acordo com as áreas de atuação (Geografia,
Ecologia, Pedologia, dentre outras), sempre evidenciando aquela que melhor atenda às metas
do desenvolvimento do ambiente como um todo.
A definição da UG como uma ferramenta especializada, como substrato (material
de origem do solo), a vegetação natural, o modelado (relevo) e a natureza e distribuição dos
solos na paisagem constituem um conjunto cuja variabilidade é mínima, de acordo com a
escala cartográfica.

Aspecto da paisagem no Semiárido

O Semiárido brasileiro apresenta diversidade paisagística, sendo conhecido pelos
planaltos e depressões que ali estão localizados, o que proporciona o desenvolvimento de uma
variedade que, em conjunto com a geologia, a geomorfologia, o clima, os solos e a vegetação
propiciará a formação de diversos habitats.
O cênico da paisagem semiárida varia entre chapadas com altitudes acima de 800
m, com relevo acidentado, e, geralmente, apresenta vegetação de Caatinga hipoxerófila. Os
maciços e as serras baixas destacam-se por seu relevo acidentado, solos de alta fertilidade
e vegetação de florestas ou Caatingas, atualmente com um grau elevado de antropização.
A concepção de paisagem está inteiramente relacionada ao aspecto do natural, visual
e estético (VITTE, 2010). No sentido etimológico, a palavra paisagem é dotada de vários
significados, variando entre os países e as diversas línguas: na França, remete ao sentido de
região, território, nação; em hebraico, relaciona-se a algo maravilhoso; em inglês, diz respeito
à organização dos campos, estando também associada a cenário, e, em holandês, deriva do

315

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

alemão, significando unidade de ocupação humana (PASSOS, 2003; RODRIGUEZ; SILVA;
CAVALCANTI, 2017).
Segundo Vitte (2007), o termo paisagem associa-se a uma conotação espacial, o que
a faz ser caracterizada sob duas perspectivas: estética, que corresponde a uma representação
voltada para a aparência estética, e/ou geopolítica, designando uma unidade territorial para
o desenvolvimento de comunidades humanas.
O aspecto da paisagem apresenta-se como um arcabouço tanto teórico, como
metodológico para estudar o meio ambiente mediante a análise integrada da paisagem, fazendo
uso de procedimentos técnicos e operacionais que permitem identificar a forma, a estrutura
e a função do cênico paisagístico para que seja possível subsidiar diagnósticos e análises
ambientais aplicáveis na gestão e no planejamento ambiental do território (RODRIGUEZ;
SILVA; CAVALCANTI, 2017).
Segundo Silva, Gorayeb e Rodriguez (2010), o aspecto da paisagem estabelece uma
abordagem teórico-metodológica com enfoque sistêmico e interdisciplinar. Esta abordagem
pode ser utilizada para subsidiar o planejamento territorial, fornecendo um diagnóstico
operacional que tem por objetivo classificar e cartografar as unidades das paisagens em uma
determinada área ou território.
Já Silva e Rodriguez (2011) reforçam que, na atualidade, as paisagens refletem
mudanças das feições naturais, devido aos intensos processos de ocupação e transformação
ambiental, que resultam em impactos de “antropização” – um conjunto constituído por feições
naturais, sociais e culturais.
Desta forma, a análise sistêmica da paisagem engloba os elementos da natureza, da
economia, da sociedade e da cultura em um contexto amplo, composto por variáveis que
buscam representar a dinâmica da natureza como um sistema, que se relaciona com o homem,
constituindo sistemas complexos (BARROS, 2011; CAVALCANTI, 2014).

Veículos Aéreos Não Tripulados (Vants)

A terminologia drone e/ou Vant é mais usual nos Estados Unidos e está sendo utilizada
para referir-se a veículos aéreos não tripulados que incluem, normalmente, a aplicação mais
ativa com robótica e que apresentam mais independência em seu funcionamento. A década
de 1970 ficou conhecida como sendo o início da área moderna dos Vants, especificamente nos
Estados Unidos e em Israel, com projetos mais acessíveis e pequenos (LONGHITANO, 2010).
A obtenção de dados de sensoriamento remoto em nível aéreo está ganhando força
devido à recente popularização dos Vants, também conhecidos como Remotely Piloted
Aricraft Systems (RPAS) ou, traduzindo para o português, Sistema de Aeronaves Pilotadas
Remotamente. O uso destes equipamentos e plataformas está se tornando de grande valor
para pesquisas em geral ( JORGE; INAMASU, 2014; LINHARES, 2016).
No Brasil, os primeiros relatos de experimentos envolvendo Vants remetem à década
de 1980, quando o Centro Tecnológico Aeroespacial (CTA) desenvolveu o projeto Acauã, que
tinha como objetivo o desenvolvimento de plataforma, visando à ampliação do conhecimento
nas áreas de controle, telecomando e telemetria. Como consequência de tais experimentos, foram
construídos cinco protótipos, que realizaram o primeiro voo em 1985 (OLIVEIRA, 2005).
A forma mais usual de se referir a uma aeronave que não leva a bordo uma tripulação
é definida como Veículo Aéreo Não Tripulado (Vant). A expressão vem do termo em inglês
Unmanned Aerial Vehicles (UAV), que se tornou popular no início dos anos 1990 e foi adotado

316

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

para substituir o termo Remotely Piloted Vehicle (RPV), usado durante e após a Guerra do
Vietnã (NEWCOME, 2004; BORNE, 2014).
O uso de Vants para análise, diagnóstico e monitoramento ambiental pode fornecer
uma ferramenta inovadora em relação à melhoria nos processos de gestão ambiental.
Atualmente, são encontrados diversos tipos, tamanhos e modelos de Vant, o que
facilitou a incorporação de novas tecnologias (PÁDUA et al., 2017). Assim, de maneira geral,
estas aeronaves que são categorizadas entre asa fixa, multirrotores e híbridos, diferenciamse não só em relação à classificação, mas também em autonomia de voo e sensores a serem
embarcados (BACKES, 2007; SIMARD et al., 2011;WATTS et al., 2012; PANEQUEGALVEZ et al., 2014).
As vantagens dos Vants são a capacidade de gerar imagens com alta taxa de revisita,
a resolução espacial em escala micrométrica, a capacidade de sobrevoar regiões em baixas
altitudes e a segurança oferecida ao piloto e a terceiros (RASI, 2005), características que os
tornam menos onerosos e com resultados superiores aos obtidos pelas demais plataformas,
como os satélites (HORCHER; VISSER, 2004; WHITEHEAD; HUGENHOLTZ, 2014).
Mesmo com os benefícios apresentados, a inserção destas aeronaves no espaço aéreo
ainda não é uma unanimidade, devido à ausência de uma normatização internacional. Porém,
no Brasil, desde 2017, está regulamentada a aeronavegabilidade dos Vants, por conta da
grande ampliação do uso destes equipamentos e do número de usuários (NACKAERTS,
2010; BRASIL, 2018).
Em contrapartida, nas finalidades científicas, as principais aplicações destas aeronaves
estão relacionadas ao setor agroambiental (KOH, 2017), frente carente de produtos com
escalas espaço-temporais maiores (BURKHARD; MAES, 2017), o que é uma barreira
superada pelos Vants, capazes de cumprir missões em condições adversas e, assim, elevar a
taxa de amostragem em uma determinada área de interesse (WATTS et al., 2012).
Os destaques da sua utilização neste setor são na avaliação da estrutura da vegetação,
na identificação e no monitoramento de clareiras naturais, no monitoramento da produção
agrícola por índices de vegetação (FERRIER; DRIELSMA, 2010; FRANKE et al., 2012;
JORGE et al., 2014), no cálculo de volumes para mineração (GAO, 2017; SUH; CHOI,
2017), erosão (D’OLEIRE-OLTMANNS et al., 2012), no monitoramento de fauna e de
populações de plantas ( JONES et al., 2006; CHABOT; BIRD, 2012) e no mapeamento de
mudanças de usos do solo (RANGO et al., 2009).
Tais abordagens confirmam o potencial do uso destas plataformas, reafirmando sua
importância como uma alternativa de baixo custo à obtenção de produtos de elevada precisão.
Ainda, estes resultados são determinantes à consolidação nos variados cenários beneficiados,
afinal, os mesmos podem subsidiar a formulação de políticas públicas adequadas à tecnologia,
visto que a complexidade e a capacidade operacional dos Vants ainda representam ameaças aos
cidadãos e aos demais objetos do espaço aéreo, já que os impactos sociais da utilização destas
plataformas persistem como alguns dos principais fatores que influenciam a sua efetividade
(SANDBROOK, 2015; STÖCKER et al., 2017).
Diante do exposto, o objetivo principal deste trabalho foi demonstrar as
aplicações da plataforma Vant em três contextos distintos: (1) agrícola, apresentando
como plataformas comerciais embarcadas com sensores de menor sensibilidade podem
oferecer resultados relevantes ao seu monitoramento; (2) ecossistêmicos, expondo como
a utilização dos Vants como ferramenta complementar aos métodos convencionais de

317

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

campo pode refletir em melhorias na caracterização de sistemas naturais e na manutenção
da resiliência ecossistêmica e (3) os sistemas hídricos, demonstrando como sensores e
aeronaves mais robustas podem fortalecer os estudos de conservação e subsidiar programas
de monitoramento das águas interiores.
Desta forma, espera-se não só apresentar os benefícios do emprego destas plataformas
em diferentes contextos e escalas de trabalho, mas também fortalecer o desenvolvimento de
métodos e o aperfeiçoamento das aplicações futuras dos Vants em diferentes cenários.

Áreas de estudo

A abrangência do estudo corresponde a três áreas distintas do Baixo São Francisco,
compreendendo os municípios de Pão de Açúcar, Traipu e Penedo, no Estado de Alagoas.
O município de Pão de Açúcar está situado na região centro-oeste do Estado,
limitando-se, ao norte, com os municípios de São José da Tapera e Monteirópolis; à leste,
com Palestina e Belo Monte; ao sul, com o Rio São Francisco/SE e a oeste, com Piranhas.
A área municipal ocupa 659,12 km2, inserida na mesorregião do Sertão alagoano.
A área de estudo possui aproximadamente 50 ha e está localizada entre as coordenadas
Universal Transversa de Mercator (UTM) 683789.879 E e 8916976.652 N zona 24S, no
Domínio Hidrogeológico Fissural, composto por rochas do embasamento cristalino da
Província Borborema, Sistema de Dobramento Sergipano e Maciço Pernambuco-Alagoas
(SOUZA JUNIOR; MASCARENHAS; BELTRÃO, 2005a).
Localizado na região centro-sul do Estado de Alagoas, o município de Traipu
limita-se, ao norte, com os municípios de Girau do Ponciano e Jaramataia; ao sul, com o
Rio São Francisco; a leste, com Campo Grande, Olho d’Água Grande e São Brás, e a oeste,
com Batalha e Belo Monte. A área municipal ocupa 698,8 km2, inserida na mesorregião do
Agreste alagoano.
A área de estudo possui, aproximadamente, 60 ha e está localizada entre as coordenadas
UTM 721655.543 E e 8896351.172 N zona 24S, inserida no Domínio Hidrogeológico
Fissural, Subdomínio Rochas Metamórficas (SOUZA JUNIOR; MASCARENHAS;
BELTRÃO, 2005c).
O município de Penedo encontra-se inserido na região sul do Estado de Alagoas,
limitando-se, ao norte, com os municípios de São Sebastião, Teotônio Vilela e Coruripe; ao
sul, com o Rio São Francisco e Piaçabuçu; a leste, com Feliz Deserto, Coruripe e Piaçabuçu
e a oeste, com Igreja Nova. A área municipal ocupa 687,96 km2, encravada na mesorregião
do Leste alagoano.
A aérea de estudo compreende 50 ha e está localizada entre as coordenadas UTM
773927.348 E e 8850055.358 N zona 24S, inserida no Domínio Hidrogeológico Intersticial,
composto por rochas sedimentares (CPRM, 2005b).

Procedimentos em campo

Para o mapeamento das áreas de pesquisa, utilizou-se o equipamento Vant eBee Plus
com tecnologia RTK/PPK embarcada, permitindo a acurácia posicional de até 3 cm sem
utilização de pontos de controle em solo (Figura 1).

318

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 1 - Veículo Aéreo Não Tripulado (Vant) modelo eBee Plus RTK/PPK, utilizado
para a obtenção de imagens aéreas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

A câmera utilizada para obtenção das imagens RGB foi a senseFly S.O.D.A. com uma
resolução de 5,472 x 3,648 px (3:2) (Figura 2A). Para obtenção das imagens multiespectrais,
foi utilizada a câmera MicasenseParrot Sequoia (Figura 2B), que possui quatro sensores
espectrais com bandas verde, vermelha, borda vermelha e infravermelha próxima (1,2 MP),
autocalibrados através de um sensor solar integrado à câmera que realiza a calibração
radiométrica das imagens em tempo real, facilitando, assim, o processamento das imagens e
resultando em análises mais precisas. Além disso, a Parrot Sequoia também possui um sensor
RGB de 16 megapixel integrado a seu corpo.
Figura 2 - (A) Câmera senseFly S.O.D.A. para obtenção das imagens RGB; (B) Micasense
Parrot Sequoia para obtenção das imagens multiespectrais

Fonte: ARAÚJO, 2021.

319

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O planejamento de cada voo foi realizado no software eMotion 3®. A altura do voo
foi estabelecida em 120 metros, velocidade média de 12 m/s-1 e sobreposição frontal e lateral
de 80% (Figura 3A). Os locais de lançamento do Vant foram reconhecidos previamente, pois
faz-se necessário um raio de 50 m sem obstáculos para que a aeronave possa decolar e pousar
sem problemas de barreiras físicas em solo.
O mapeamento aéreo foi realizado ultrapassando a área dos limites de interesse. Este
procedimento é necessário, para evitar o efeito de bordadura no processamento e delimitar
a área de estudo. As imagens foram georreferenciadas em coordenadas de referência UTM
à superfície terrestre, com auxílio de uma base GNSS RTK Topcon® Hiper V em solo
(Figura 3B).
Para o processamento das imagens, foi utilizado o software Agisoft Metashape
Profissional®, que possui um fluxo automatizado para processar as imagens, utilizando
algoritmos SIFT (Scale-Invarinat Feature Transform).
Figura 3 - Planejamento de voo no software eMotion 3® (A) e base de apoio GNSS RTK
Topcon® Hiper V em solo, para rastreamento das coordenadas de referência (B)

Fonte: ARAÚJO, 2021.

Este algoritmo é capaz de identificar pontos de interesse, geração de descritores
e correspondência entre os pontos, caracterizando os pontos homólogos. As imagens
correspondentes são definidas pelas coordenadas espaciais, capturadas pelo sistema RTK/
PPK da aeronave. Neste modelo de mapeamento aéreo, o produto gerado é o modelo digital
de superfície (MDS), com identificação dos objetos acima do solo.

320

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Para obtenção do modelo digital de elevação (MDE), foi realizada a filtragem da
nuvem de pontos sobre a forma de uma malha triangular. O MDE foi utilizado para a geração
do ortomosaico RGB e Multiespectral e todos os conjuntos de dados foram exportados em
formato Geotiff. O processamento, a classificação e a análise das imagens foram tratados
no software livre QGIS versões 3.16 e 3.22, por meio do complemento SCP 7.10.5 (SemiAutomatic Classification Plugin). Para cálculo do NDVI, foram utilizadas as bandas vermelha
(Red) e Infravermelha próxima (NIR).
O cálculo foi feito utilizando a calculadora Raster, segundo a fórmula:

O estudo utilizou como critério primordial para a identificação das unidades cênicas da
paisagem o aspecto fisionômico, relacionado ao termo geofácie, definido como a possibilidade
de serem identificadas no mosaico as alterações antrópicas (DINIZ; OLIVEIRA, 2018;
SILVA, 2018). Para a nomenclatura das unidades de paisagem, foram utilizados os critérios
das características de geomorfologia, vegetação e ocupação do solo, ressaltando o aspecto
predominante da paisagem.

Unidade de paisagens

O processo erosivo em áreas produtivas ou antropizadas é parte natural do ciclo
hidrossedimentológico, ou seja, é o processo natural de desenvolvimento da paisagem.
Entretanto, quando a erosão supera o valor de pedogênese, a erosão natural do solo aumenta.
Para avaliar esta relação, segundo Smith (1941), é sempre empregado o conceito de
limite de tolerância de perdas de solo (TPS) por erosão. Segundo o autor, a taxa máxima
de perdas de solo permitida seria a que garantisse a manutenção da fertilidade do solo ao
longo do tempo.
A TPS por erosão é definida como limite de perda de solo que não compromete a
produtividade das culturas agrícolas e também considera as taxas de erosão para avaliar a
degradação do solo a partir da modificação de sua profundidade (WISCHMEIER; SMITH,
1978). Todavia, os resultados da TPS só podem ser considerados a curto prazo e não podem
ser considerados definitivos, pois as perdas são cumulativas e, ainda que abaixo do limite da
TPS, podem levar ao esgotamento da capacidade produtiva do solo. Por isso, mesmo as áreas
abaixo dos limites da TPS devem ser objeto de medidas mitigadoras para a redução das taxas
de erosão para valores próximos aos das matas nativas, visando garantir a sustentabilidade
da produção agrícola da área (FAO; ITPS, 2015).
Como variáveis decisivas na estimativa da tolerância de perdas de solo por erosão
hídrica, eis as áreas de mapeamento e seus respectivos municípios (Tabela 1):
Tabela 1- Quantitativo das áreas mapeadas e suas respectivas áreas de unidade de paisagem
MUNICÍPIO

ÁREA MAPEADA

ÁREA PROCESSADA

ÁREA DA UNIDADE

Pão de Açúcar

50 ha

48 ha

40 ha

Traipu

60 ha

58 ha

50 ha

Penedo

50 ha

48 ha

40 ha

Fonte: ARAÚJO, 2021.

321

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Avaliando as Figuras 4 e 5, no município de Pão de Açúcar; 6 e 7, no município
de Traipu, e 8 e 9, no município de Penedo, apresentam-se as cartas georreferenciadas da
composição colorida das áreas de estudo (RGB) e de Índice de Vegetação por Diferença
Normalizada (NDVI), e as unidades de paisagens identificadas no estudo, que correspondem
a uma zona intertropical e a um domínio morfológico, respectivamente.
Os fatores físicos ambientais da paisagem semiárida na área de abrangência do
município de Pão de açúcar/AL (Figura 4 e 5) compreendem uma área com diversas formações
e com predominância do domínio cristalino bem expressivo, com presença de rio (mata ciliar)
com preservação de baixo a médio em um pequeno trecho e com segmentação antrópica de
médio a alto com vegetação quase inexistente em sua maior extensão.
Figura 4 - Área de estudo no município de Pão de Açúcar (AL), com a composição natural
em RGB de uma imagem aerofotogramétrica no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

A antropização elevada, no trecho em que é percebida, está relacionadaà proximidade
das áreas produtivas em razão da falta de cobertura vegetal, sendo o corpo hídrico de fluxo
perene proveniente do Rio São Francisco com menor volume de vazão e potencial de
água subterrânea baixo, dotado de clima semiárido com predominância geomorfológica do
Pediplano Sertanejo ou do Baixo São Francisco, com relevos residuais, além de áreas bordejadas
por serras, com presença da vegetação de Caatinga Hipoxerófilae de Várzea, apresentando
solos que vão de drenados a pouco drenados, profundos, rasos e superficiais.

322

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 5 - Área de estudo no município de Pão de Açúcar (AL) com a composição em
NDVI de uma imagem aerofotogramétrica no estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

Percebe-se, quando observado na imagem NDVI, uma área com destaque verde, que
apresenta uma vegetação de porte médio, destacando um fragmento florestal com aspecto
de preservação com um nível baixo de antropização ou possível regeneração em razão da
presença de resquício de presença de águas sub-superficiais (hipercolação) e pelo grau de
porosidade do solo que mantém a umidade do solo. Essa área corresponde a 22% do total
da área verde, o que, possivelmente, destaca o aspecto cênico da paisagem, bem expressivo,
como uma aparência de área preservada (Figura 5).
Constatou-se que a ausência de práticas conservacionistas aumenta as perdas de solo
para taxas muito superiores aos limites da TPS, comprometendo a sustentabilidade ambiental
e socioeconômica das áreas destinadas às atividades agrícolas.
Da mesma forma, áreas de relevos íngremes com uso consolidado e ausência de
práticas conservacionistas podem contribuir para um aumento nas perdas de solo acima
do limite da TPS estabelecido para o tipo de solo da área de estudo, de tal modo que a
manutenção e a recomposição das Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal
(RL) são essenciais para mitigar as perdas de solo e evitar o assoreamento dos corpos d’água
(BATISTA et al., 2019).
Mendes Jr.et al. (2018) e Tavares et al. (2019) definiram áreas prioritárias para a
implantação de medidas mitigadoras dos processos erosivos e indicaram locais que, devido

323

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

ao uso inadequado e sem práticas conservacionistas do solo, estão sofrendo intensa pressão
e degradação ambiental – como demonstrado na área de estudo do município de Traipu
(AL) (Figura 6), que necessita de adequação do uso da terra, visando à redução das perdas
econômicas e ambientais na produção agrícola.
Os resultados das pesquisas realizadas com o emprego da plataforma Vant elucidam
que, quando utilizados os recursos do solo adequadamente, mesmo considerando as limitações
quantitativas, dispendem-se menos recursos e tempo para identificar áreas com perdas de
solo acima do limite da TPS, bem como as causas que elevam as perdas de solos e permitem
planejar ações para mitigar essas perdas e promover a sustentabilidade agrícola.
Amorim et al. (2010) revelam que os erros obtidos na modelagem da erosão são
menores para as áreas com maiores perdas de solo, o que justifica o uso de técnicas de
modelagem para identificar as áreas emergenciais para adoção de técnicas conservacionistas
para redução da erosão a taxas mínimas, conforme recomendado pela FAO (2019).
Na composição do mosaico funcional na área do município de Traipu (AL),
apresentada nas (Figuras 6 e 7), observa-se uma área bastante acentuada em dois aspectos:
o primeiro está relacionadoà topografia, com uma inclinação de elevação bem expressiva
quando observada na imagem RGB.
Quando empregada a imagem NDVI, percebem-se pequenos fragmentos na coloração
verde, o que representa pequenas áreas produtivas no âmbito da agricultura familiar de
subsistência ou 22,33% de áreas agricultáveis na área do município em questão (Figura 7).
Figura 6 - Área de estudo no município de Traipu (AL) com a composição em RGB de
uma imagem aerofotogramétrica no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

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Figura 7 - Área de estudo no município de Traipu (AL) com a composição em NDVI de
uma imagem aerofotogramétrica no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

A partir do aspecto cênico sem manejo conservacionista (Figuras 6 e 7) para a
sustentabilidade dos solos, Ayer et al. (2015) simularam o sistema de manejo bem planejado
e avaliaram a eficiência de técnicas de combate à erosão acelerada e de melhoria dos atributos
físicos dos solos semelhantes ao do estudo em questão.
A área do município de Penedo(AL) (Figuras 8 e 9) apresenta as relações entre os
componentes geoeambientais na paisagem através da interação dos geofluxos, potencializados
por estar localizados entre duas áreas de produção agrícola.

325

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 8 - Área de estudo no município de Penedo (AL) com a composição em RGB de
uma imagem aerofotogramétrica no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

A partir das características da paisagem (Figuras 8 e 9), como a topografia, os atributos
do solo, a geologia e o clima, é possível definir a capacidade de uso do solo (LEPSCH et
al. 2015), o que contribui para a elaboração de estratégias que conciliem a aptidão agrícola
com as práticas e técnicas de manejos conservacionistas das terras, tendo como objetivo a
preservação dos recursos naturais.
Desta forma, ao conciliar a produção agrícola com manejos conservacionistas, o
produtor rural promove, direta e indiretamente, a conservação dos serviços ambientais e
ecossistêmicos e assegura o equilíbrio hidrológico, a fertilidade e estabilidade dos solos, a boa
qualidade das águas e os serviços de polinização de plantas pela fauna silvestre (PARRON
et al., 2015).
O mosaico da adequação do uso do solo em trabalho executado por Servidoni et al.
(2016) permitiu acompanhar a evolução das áreas com uso e ocupação acima da capacidade
natural, com resultados semelhantes ao do estudo em questão.

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Figura 9 - Áreas de estudo no município de Penedo em composição NDVI de uma imagem
aerofotogramétrica no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, R.R. 2021.

Pelo conjunto de dados demonstrados nas Figuras 8 e 9, apesar da proximidade do
leito do rio principal, percebe-se, na área verde, uma faixa bastante expressiva no centro do
fragmento vegetativo. Esta faixa em destaque apresenta-se mais expressiva em razão do
fluxo hídrico que se projeta para o interior do fragmento, sendo este fluxo um mantenedor
de umidade no lençol freático do fragmento.
É notório que o estudo baseado no modelo funcional da geoecologia da paisagem
demonstrou que o funcionamento da paisagem da área analisada é constituído por diferentes
funções geoecológicas, moldadas pela influência de fatores advindos da interface terra-rio-ar,
mediante as ações antrópicas, que causam pressões e desiquilíbrio na área em questão.
Vidal et al. (2014) ressaltam que é de fundamental importância a compreensão da
estrutura funcional, como base para análise, diagnóstico, planejamento e gestão da paisagem,
sendo, assim, uma ferramenta valiosa para o ordenamento, restauração e/ou recuperação
ambiental e territorial em destaque para paisagens no Semiárido.
Quanto ao NDVI, através destes parâmetros, foi possível analisar a dinâmica da
paisagem e verificar o estado da vegetação, de forma que na cor verde-escura estão os ambientes
com valores de NDVI mais próximos de +1, ou seja, os que têm maior quantidade de área verde.

327

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Para a região de Pão de Açúcar, observa-se que, no curso d’água, os valores de NDVI
ficam acima de 0,5, quando, normalmente, em corpos hídricos, o NDVI fica abaixo de 1 – e
isto é devido à grande quantidade de material vegetativo observada ao longo do curso d’água.
Na região de Traipu, observa-se que uma parte do rio possui valores de NDVI
similaresà área de solo exposto, o que leva a entender que há um assoreamento no rio. No
geral, a maior parte de Traipu é cercada de vegetação seca e solo exposto e, portanto, apresenta
valores de NDVI entre 0,2 e 0,5.
Já na região de Penedo, observa-se uma área com floresta nativa, com valores de
NDVI acima de 0,9 e corpo hídrico com valores negativos.
Em todas as regiões que não possuem vegetação nativa, os valores de NDVI foram
menores que 0,23 ou negativos, corroborando com Huete e Tucker (1991), que observaram
valores de NDVI referentes a solos expostos no intervalo de 0,005 a 0,30.

Classificação supervisionada

Estudos sobre a evolução temporal do quantitativo da cobertura do solo para avaliar
a variação em função das mudanças de uso e ocupação das terras e das técnicas de manejo
adotadas contribuem para a compreensão de como mudanças no modo de trabalhar com
o solo afetam a produção. A proposta, quando correlacionada a outras variáveis, como
percentagem de cobertura vegetal nativa restaurada, pode servir como indicador da efetividade
da redução das taxas de perdas de solo, colaborando, assim, para modelos de produção agrícola
socioeconomicamente rentáveis e ambientalmente sustentáveis.
Esta abordagem visou apenas à detecção da profundidade alcançada pelo sensor nestes
remanescentes, mas, mesmo que de forma visual, permitiu o acesso a informações estruturais
da área que são relevantes à compreensão de sua morfologia, como o perfil, que é um modo
de avaliar a distribuição da cobertura vegetal, assim como a regeneração natural ao longo do
tempo (CHAPIN III et al., 2002; SETTELE et al., 2015).
A classificação supervisionada e o cálculo do Índice de Vegetação por Diferença
Normalizada (NDVI) foram realizados com base em imagens aerofotogramétricas obtidas
com o Vant, que conta com quatro sensores espectrais com bandas verde, vermelha, borda
vermelha e infravermelha próxima (1,2 MP) e uma resolução espacial de 11 cm/pixel.
Os resultados das interpretações realizadas são importantes por demonstrar que, nas
bandas empregadas na análise, podem subsidiar estudos ecológicos e das dinâmicas florestais
em qualquer extrato vertical ou monocultura, pois as clareiras, por exemplo, influenciam a
composição, a distribuição e a riqueza de espécies, sendo uma das responsáveis pela regeneração
ou manutenção natural da paisagem (BURTON et al., 2014; PEARSON et al., 2003). Assim,
ao utilizar desses produtos obtidos por Vant de maneira integrada aos métodos de campo,
podem-se monitorar os processos com a precisão exigida em tais abordagens.
Na área de estudo que compreende 40 ha no município de Pão de Açúcar (Figura 10),
percebe-se a predominância do solo exposto devido à cultura intensiva do milho, ocupando
63% da área total (Figura 11). A mata ciliar que deveria ser predominante ocupa apenas
22% do total. Encontra-se, também, vegetação seca (16,26%), área de agricultura (7,64%) e
3,68% com presença de corpo hídrico.
Silva Júnior et al. (2021) investigaram a sensibilidade espectral dos índices de vegetação
GNDVI, NDVI e EVI na mata ciliar do Reservatório de Serrinha II (PE) e evidenciam que
os índices de vegetação do infravermelho possibilitam mais sensibilidade para a classificação

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da mata ciliar, resultando em um instrumento necessário para a tomada de decisão, fato que
corrobora com o presente estudo que, apesar dos diferentes usos do solo às margens do Rio
São Francisco, a ferramenta possibilita a diferenciação e um diagnóstico assertivo.
O diagnóstico para a diferenciação de vegetação seca, principalmente do bioma
Caatinga, é necessário para análise que promova decisões propositivas. Santos et al.
(2021) relatam que os produtos NDVI obtidos a partir de satélites Landsat 8 e Sentinel 2
demonstraram-se com eficácia satisfatória no bioma Caatinga; mas, quando comparada a
imagens em alta resolução obtidas com o auxílio do Vant, foram inferiores, principalmente
em área de Caatinga preservada, quando o objeto do estudo são alvos mais específicos, como
é o caso de vegetação e solo, devido à maior resolução espacial.
Este fato também foi observado na presente investigação, onde o menor tamanho
de pixel possibilitou a diferenciação das classes de forma minuciosa, diagnosticando, assim,
a falta de preservação das margens rio, sendo possível planejar intervenções que aumentem
a área de mata ciliar, preservando o corpo hídrico.
Figura 10 - Mapa não supervisionado de uma imagem aerofotogramétrica no município de
Pão de Açúcar, no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 11 - Mapa das classificações supervisionadas com base em cinco classes temáticas
de uma imagem aerofotogramétrica no município de Pão de Açúcar, no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

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Figura 12 - Mapa não supervisionado de uma imagem aerofotogramétrica no município de
Traipu, no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, R.R. 2021.

Na área de estudo que compreende 50 ha no município de Traipu (Figura 12),
percebe-se a predominância do solo exposto, devido à cultura intensiva do milho, ocupando
48,93% da área total (Figura 13). A mata ciliar, que deveria ser predominante, ocupa apenas
8,76% do total. Encontram-se também vegetação seca (17,86%), área de agricultura (22,33%)
e 17,86% com presença de corpo hídrico.
O trecho referente ao município de Traipu, entre as áreas analisadas, é o que possui
a menor área de mata ciliar. Silva et al. (2020) enfatizam que a supressão da vegetação de
mata ciliar pode acelerar os processos de assoreamento do leito do rio, tornar as águas mais
susceptíveis à contaminação superficial e subterrânea, prejudicar a navegação e a biota aquática.
São necessárias intervenções, por parte das entidades públicas e particulares, a fim
de promover uma educação ambiental que vise à sustentabilidade e à ocupação adequada do
leito do Rio São Francisco e, prioritariamente, à proteção das margens do rio e à redução da
poluição por esgoto e dejetos.
A predominância de agricultura com culturas anuais e sem a devida consciência
ambiental pode gerar erosões e assoreamento do rio, sendo necessária a implementação de
métodos de manejo do solo e da água que favoreçam a cobertura vegetal de forma permanente,
evitando que precipitações intensas, condições topográficas e ações antrópicas aumentem a
possibilidade da perda do solo.

331

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

É necessário o aumento da biodiversidade nos ecossistemas, com a recomposição
das áreas de proteção permanente, favorecendo a sustentabilidade das áreas ribeirinhas
(RODORFF et al., 2018; WITING et al., 2022).
Na área de estudo que compreende 40 ha no município de Penedo (Figura 14),
percebe-se a predominância de mata ciliar, representando 47,10% da área total. De acordo
com a classificação supervisionada, verificam-se que 10,51% apresentam solo exposto e um
menor percentual para as classes corpo hídrico (4,11%), pastagem (22,0%) e vegetação seca
(16,26%) (Figura 15).
Uma observação importante em relação à classificação supervisionada das áreas
em estudo é que no resultado, em algumas delas, pode ter acontecido confusão para as
classes vegetação seca, pastagem e agricultura, ocorrendo, em alguns pixels, comportamento
espectral similar.
Outra condição pertinente às áreas é em relação à idade fenológica da cultura agrícola
local, que pode ser confundida com vegetação seca ou solo exposto e apresentar, em algum
momento, assinaturas espectrais similares.
Figura 13 - Mapa das classificações supervisionadas com base em cinco classes temáticas de
uma imagem aerofotogramétrica no município de Traipu, no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

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Figura 14 - Mapa não supervisionado de uma imagem aerofotogramétrica no município de
Penedo, no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 15 - Mapa das classificações supervisionadas com base em cinco classes temáticas de
uma imagem aerofotogramétrica no município de Traipu, no Estado de Alagoas

Fonte: ARAÚJO, 2021.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do contexto apresentado, identificaram-se áreas degradadas e suscetíveis à
degradação, que podem ser combatidas com a adoção de práticas de manejo conservacionistas
específicas para controle da erosão hídrica – que pode ser de vários tipos, no que se refere
ao entendimento da paisagem, e sobre o planejamento, monitoramento e manejo ambiental
em diferentes abordagens de aplicação.
Desta forma, a paisagem, enquanto categoria de análise geográfica, traz consigo um
arcabouço epistemológico, teórico e metodológico de tradição e múltiplas possibilidades.
Neste contexto, o arcabouço teórico e metodológico que compõe a Unidade
Geoambiental dispõe de instrumentos para uma análise integrada da paisagem em diferentes
escalas, tendo, entre as principais finalidades, o diagnóstico e o mapeamento com objetivos
de planejar e gerir o território ambientalmente.
A esta relação dual (paisagem e geoambiental), soma-se o planejamento, formando um
campo de investigação sistêmica e interdisciplinar que permite aos pesquisadores, planejadores
e tomadores de decisão a realização de diagnósticos que poderão delinear ações seguras a
diferentes ambientes e realidades na hora de planejar e gerir.

334

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

É pertinente ressaltar que o aprofundamento sobre o tema é necessário e urgente,
uma vez que envolve, tal como já apresentado anteriormente, uma gama de situações, tais
como: a supressão de superfícies com diferentes tipos de usos, muitas vezes ocupadas por
comunidades que retiram seu sustento destas áreas; perda de solo fértil e diminuição da riqueza
biológica, principalmente de fitofisionomias endêmicas; supressão de patrimônios naturais
e de sítios paleontológicos; introdução de espécies predadoras com perda em população ou
extinção local de espécies autóctones; reorganização do regime de circulação atmosférica
local com reflexos nas variáveis de temperatura e precipitação, a depender do tamanho da
área inundada, dentre outras.
Cabe também destacar que os processos de alteração da paisagem e dos ambientes
naturais como um todo, seja por qualquer atividade antrópica, vêm sendo praticados em
velocidade maior do que a capacidade científica de conhecer a diversidade, os processos e as
interações que ocorrem nos meios bióticos e abióticos.
Desta forma, é essencial a continuidade de estudos que nos mostrem não apenas como
a natureza reage à interferência humana, mas que norteiem caminhos para a recuperação e
a preservação dos ambientes naturais.
Dentro da perspectiva do Planejamento Ambiental e no âmbito do diagnóstico
do aspecto cênico da paisagem, os procedimentos aqui apresentados e os produtos para
exemplificar esta aplicação representam uma importante ferramenta de aplicabilidade na
contribuição, no entendimento das dinâmicas e nas relações ambientais, possibilitando o
incremento semântico no processo de tomada de decisão.
Neste sentido, faz-se necessário reafirmar-se que o uso das novas plataformas
aerotransportadas não tripuladas oferece grande projeção e sua inserção tem um impacto
significativo no desenvolvimento de pesquisas e em mapeamentos nas atividades diversas,
podendo subsidiar o aumento da produtividade aliado à conservação dos recursos naturais.
Sem dúvida, o desenvolvimento da tecnologia persistirá, ainda, por um período
considerável, exigindo cada vez menos conhecimento técnico dos operadores devido à
tendência de automação das rotinas.
Assim, a facilidade na obtenção e no processamento dos dados pode garantir e ajudar
as tomadas de decisão em curto prazo, evitando prejuízos socioeconômicos e ambientais e
proporcionando a adoção de medidas de manutenção e de melhoria da qualidade ambiental
dos sistemas naturais.
Por fim, continuar a explorar o potencial desta plataforma e dos sensores é um modo
de aperfeiçoar a automação das rotinas na agricultura, em recursos hídricos e em abordagens
ecossistêmicas, principalmente no Brasil, que enfrenta dificuldades nos estudos remotos
devido à grande extensão territorial e à diversidade edafoclimática.

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339

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

VIDAL, M.R.; MASCARENHAS, A.L.S. Estrutura e funcionamento das paisagens
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340

CAPÍTULO 17 - PERFIL MINERALÓGICO E DA
FERTILIDADE DOS SOLOS NA REGIÃO DO BAIXO
SÃO FRANCISCO: ANÁLISE PRELIMINAR
Tatiane Luciano Balliano1
Ubiratan Piovezan2

Pedro P. Florez-Rodriguez3
Raimundo Nonato4

Resumo: A região do Baixo São Francisco (BSF) apresenta planaltos, depressões, baixadas,
várzeas, dunas, restingas, mangues, florestas e caatingas, sendo reconhecidas sete unidades de
paisagem para esta região: Depressão Sertaneja, Bacia Sedimentar, Planalto da Borborema,
Superfícies Dissecadas Diversas, Superfícies Retrabalhadas, Tabuleiro Costeiro e Baixada
Litorânea. Com base na diversidade dos processos de gênese de que derivam, os solos da
região têm potencial para apresentar desde alta até baixa fertilidade natural. Considerando
que informações sobre as aptidões dos solos são fundamentais ao desenvolvimento regional,
foi realizada uma análise descritiva do perfil mineralógico e da fertilidade de solos amostrados
em Piranhas (AL), Pão de Açúcar (AL), Traipu (AL), São Brás (AL), Porto Real do Colégio
(AL), Propriá (SE), Penedinho (AL) e Brejo Grande (SE). Os resultados demonstram que,
de modo geral, os solos avaliados possuem baixa fertilidade, havendo locais apresentando altas
concentrações de Na e pH menor que 8,5, indicando solos potencialmente salino-sódicos. As
possíveis alternativas de produção para a região devem incluir etapas de correção da fertilidade
do solo, a fim de viabilizar seu uso para fins agrícolas. Dada a grande variação dos resultados
observados até o presente momento, as avaliações para descrever os solos do BSF deverão
ser continuadas, para que se alcance um esforço amostral representativo para toda a região.
Palavras-chave: Pedologia. Ambientes Ciliares. Química do Solo. Minerais.

INTRODUÇÃO
A região do Baixo São Francisco (BSF) encontra-se localizada entre as coordenadas
geográficas de 8º e 11º de latitude sul e 36º e 39º de longitude oeste, constituindo-se na
porção mais oriental da bacia, ocupando uma extensão territorial de 30.377 km2, sendo
equivalente a 5% da área da bacia deste rio, perfazendo, assim, a menor porção das quatro
subdivisões da bacia (CBHSF, 2018). O BSF inicia em Paulo Afonso-BA, e estende-se até a
foz, entre Piaçabuçu-AL e Brejo Grande-SE, com áreas nos Estados da Bahia, Pernambuco,
Alagoas e Sergipe.
1 Universidade Federal de Alagoas. Instituto de Química e Biotecnologia. Laboratório de Bioprocessos,
Cristalografia e Modelagem Molecular. E-mail: tlb@qui.ufal.br.
2 Pesquisador. Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária (Embrapa) Tabuleiros Costeiros. E-mail:
ubiratan.piovezan@embrapa.br.
3 Universidade Federal de Alagoas. Instituto de Química e Biotecnologia. Laboratório de Captura e Conversão
Catalítica do Carbono. E-mail: pedro.rodriguez@iqb.ufal.br.
4 Universidade Federal de Alagoas, Campus do Sertão, Delmiro Gouveia. Departamento de Engenharia Civil.
E-mail: nonato2004@yahoo.com.br.

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

A região é formada por 14 munícipios localizados do nordeste do Estado de Sergipe:
Amparo de São Francisco, Brejo Grande, Canhoba, Cedro de São João, Ilha das Flores,
Japoatã, Malhada dos Bois, Muribeca, Neópolis, Pacatuba, Propriá, Santana do São Francisco,
São Francisco e Telha. De acordo com o Plano de Desenvolvimento Territorial do Baixo São
Francisco Sergipano de 2008, também fazem parte da região 11 municípios do Estado de
Alagoas: Delmiro Gouveia, Olho d’Água do Casado, Piranhas, Pão de Açúcar, Belo Monte,
Traipu, São Brás, Igreja Nova, Porto Real do Colégio, Penedo e Piaçabuçu. Em 2017, o IBGE
publicou dados do censo que mostraram uma população total de 281.762 habitantes nas
cidades ribeirinhas de Alagoas, onde grande parte das pessoas sobrevivem de atividades da
pesca, agricultura e pequenos comércios locais. O mesmo ocorre para as cidades sergipanas
que compõem o Baixo São Francisco.
Para o fortalecimento das atividades de sobrevivência dos ribeirinhos, é importante
que se conheça a “saúde” do Rio São Francisco, bem como a fertilidade e o manejo do solo
ao longo de suas margens, assim como sua aptidão para a agricultura. Sendo assim, este
trabalho tem como objetivo descrever características físico-químicas de solos em diferentes
localidades ao longo do Baixo São Francisco. São reportados dados de fertilidade com base
em análise de macro e micronutrientes de interesse agrícola e análises utilizando técnicas de
difração de raios-X e fluorescência de raios-X, capazes de revelar os minerais mais abundantes
ao longo de toda a região.

Os tipos de solo

De acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos da Embrapa (2018),
solos podem ser definidos como
uma coleção de corpos naturais, constituídos por partes sólidas, líquidas
e gasosas, tridimensionais, dinâmicos, formados por materiais minerais
e orgânicos que ocupam a maior parte do manto superficial das
extensões continentais do nosso planeta, contêm matéria viva e podem
ser vegetados na natureza onde ocorrem e, eventualmente, terem sido
modificados por interferências antrópicas.

O BSF apresenta uma diversidade muito grande do seu quadro natural. Compreende
paisagens com planaltos, depressões, baixadas, várzeas, dunas, restingas, mangues; florestas,
caatingas; solos de alta e baixa fertilidade natural, profundos, rasos; relevo plano, pouco
movimentado e movimentado; climas quente e úmido, quente e seco, distribuídos em
seis grandes Unidades de paisagem: Depressão Sertaneja, Bacia Sedimentar, Planalto da
Borborema, Superfícies Dissecadas Diversas, Superfícies Retrabalhadas, Tabuleiro Costeiro
e Baixada Litorânea (EMBRAPA, 2000).
Na natureza, há ocorrência de muitos tipos de solos, considerando-se um conjunto de
variáveis que interferem em suas características, cujas possibilidades de uso são intrinsecamente
dependentes, tais como: material de origem, clima, relevo, organismos vivos e tempo
cronológico. Além disso, os solos apresentam camadas, denominadas “horizontes”, que se
formam pela ação conjunta de processos físicos, biológicos e químicos, diferenciando-se

342

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

uns dos outros por apresentar colorações, texturas e teores de argilas diferenciadas. Os solos
podem ser classificados de acordo com as propriedades resultantes do processo de gênese na
região do estudo (Quadro 1).
Quadro 1 - Classificação dos solos presentes na região do Baixo São Francisco, de acordo
com propriedades resultantes do processo de gênese
Tipos de solo
Argissolos
Espodossolos

Característica

Solos com acumulação de argila no

Argissolos Vermelho-Amarelos, Eutróficos

Solos com alto teor de areia, que

Espodossolos Ferrihumilúvicos

horizonte B

apresentam horizonte B, que acumula
matéria orgânica

Solos velhos, profundos e com

desenvolvimento maior no horizonte
Latossolos

Observados na região

B, que é a região do subsolo e que

e Distróficos

Hiperespessos

Latossolos Amarelos Distróficos, mais

afastados da calha do Rio São Francisco

armazena mais sais minerais e possui
elementos dos horizontes O e A, tais

como matéria orgânica, água, animais
e plantas

Solos jovens com acumulação de

Luvissolos

argila no horizonte B e alta fertilidade

Neossolos

Solos jovens em início de formação

Planossolos

química natural

Solos com acúmulo de argila no

horizonte B, que geralmente têm cores
acinzentadas

Luvissolos Crômicos Órticos, comuns no
Semiárido

Neossolos Litólitos Eutróficos

Planossolos Háplicos Eutróficos na Região
Média do BSF

Fonte: Elaborado pelos autores, 2021.

O presente trabalho propõe-se a fazer uma breve descrição do perfil mineralógico
dos solos dos municípios do Baixo São Francisco por que a quarta expedição do Rio São
Francisco passou em 2021 (Figura 1). Neste contexto, no curso da Expedição, em cada
cidade visitada, realizou-se trabalho de campo planejado para coletas de amostras de solo,
priorizando regiões ambientalmente mais preservadas e com maior prevalência e abundância
de espécies vegetais. Tal planejamento foi feito a partir da análise de imagens obtidas por
satélites, utilizando o aplicativo Google Earth®.

343

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 1 - Distribuição dos tipos de solos ao longo da região do Baixo São Francisco e das
cidades por que passou a Expedição. Os pontos vermelhos representam os locais de coleta

Fonte: AUTORES, 2021.

Em relação aos subtipos de solos, há uma variedade de classes, mesmo dentro
da unidade de paisagem, resultado da variação do material de origem (rochas) e relevo,
principalmente. Assim, serão apresentados, aqui, de forma preliminar, aspectos da fertilidade
e características químicas dos solos que compõem a região do BSF.

As Unidades de Paisagem e os solos típicos do BSF
Depressão Sertaneja
Abrange Sertão alagoano, Sertão sergipano e Centro-Norte baiano, com características
de Neossolo Litólico Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado rochosa suave
ondulado e ondulado + Planossolo Háplico Eutrófico solódico arenosa/média, arenosa/
argilosa e média/argilosa A fraco e A moderado suave ondulado + Planossolo Nátrico Órtico
típico arenosa/média, arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco e A moderado suave ondulado.
Planossolo Háplico Eutrófico solódico arenosa/média, arenosa/argilosa e média/
argilosa A fraco plano e suave ondulado + Neossolo Litólico Eutrófico típico arenosa e
média A fraco pedregosa suave ondulado + Planossolo Nátrico Órtico típico arenosa/média,
arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco plano e suave ondulado.
Neossolo Regolítico Distrófico fragipânico arenosa cascalhenta A fraco plano e
suave ondulado + Neossolo Litólico Eutrófico típico arenosa e média A fraco rochosa suave
ondulado e ondulado + Planossolo Nátrico Órtico típico arenosa/média e arenosa/argilosa
A fraco plano e suave ondulado.

344

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Luvissolo Crômico Órtico vertissólico média/argilosa A fraco pedregosa suave
ondulado e plano + Neossolo Litólico Eutrófico típico arenosa e média A fraco pedregosa
suave ondulado + Planossolo Háplico Eutrófico solódico arenosa/média, arenosa/argilosa
e média/argilosa A fraco plano e suave ondulado.

Tabuleiros Costeiros
Argissolo Vermelho-Amarelo Eutrófico típico média/argilosa A moderado suave
ondulado e ondulado + Neossolo Litólico Eutrófico típico média A moderado suave
ondulado e ondulado.
Latossolo Vermelho-Amarelo Eutrófico típico média A moderado e A fraco plano
e suave ondulado + Argissolo Vermelho-Amarelo Eutrófico latossólico média A fraco plano
e suave ondulado + Latossolo Vermelho Eutrófico típico média A moderado e A fraco plano
e suave ondulado.
Latossolo Amarelo Distrófico típico média A moderado plano e suave ondulado
+ Argissolo Amarelo Distrófico típico arenosa/média e média/argilosa A moderado e A
proeminente plano e suave ondulado + Planossolo Háplico Eutrófico solódico arenosa/
média, arenosa/argilosa e média/argilosa A moderado plano e suave ondulado.
Plintossolo Pétrico Concrecionário argissólico média muito cascalhenta/argilosa
muito cascalhenta A moderado ondulado e suave ondulado + S Argissolo Vermelho-Amarelo
Distrófico típico média/argilosa A moderado e A proeminente ondulado e suave ondulado
+ Planossolo Háplico Eutrófico solódico arenosa/média, arenosa/argilosa e média/argilosa
A moderado suave ondulado Argissolo Amarelo Distrocoeso fragipânico arenosa/média
A fraco álico plano + Espodossolo Ferri-Humilúvico Órtico típico arenosa A fraco e A
moderado plano.
Gleissolo Háplico Tb Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano + Gleissolo Háplico Ta Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano + Gleissolo Háplico Ta Distrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano Espodossolo Ferri-Humilúvico Órtico dúrico arenosa e média A moderado plano
+ Argissolo Amarelo Distrófico fragipânico média/argilosa A moderado plano + Argissolo
Acinzentado Distrófico típico arenosa/média A moderado plano.

Planalto da Borborema
O sul de Alagoas pertence a esta região e apresenta Argissolo Vermelho-Amarelo
Eutrófico típico e chernossólico média/argilosa A moderado e A chernozêmico forte ondulado
e ondulado + Neossolo Litólico Eutrófico típico arenosa e média A moderado rochosa
forte ondulado e montanhoso + Neossolo Litólico Chernossólico típico arenosa e média A
chernozêmico rochosa forte ondulado e montanhoso.
Cambissolo Háplico Tb Eutrófico latossólico média A moderado e A chernozêmico
forte ondulado e ondulado + Argissolo Vermelho-Amarelo Eutrófico típico e chernossólico
média/argilosa A moderado e A chernozêmico forte ondulado e ondulado + Neossolo
Litólico Eutrófico típico média A moderado forte ondulado e montanhoso + Neossolo
Litólico Chernossólico típico média A chernozêmico rochosa forte ondulado e montanhoso.
Neossolo Regolítico Eutrófico fragipânico e típico arenosa cascalhenta e arenosa A
fraco plano e suave ondulado + Neossolo Regolítico Distrófico fragipânico e típico arenosa

345

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

A fraco plano e suave ondulado + Neossolo Litólico Eutrófico típico arenosa e média A
fraco rochosa suave ondulado.

Superfícies Dissecadas Diversas
Ocorre nos Sertões das Alagoas e de Sergipe, Neossolo Litólico Eutrófico típico
arenosa e média A fraco e A moderado rochosa ondulado e forte ondulado + Luvissolo
Crômico Órtico vertissólico e típico média/argilosa A fraco e A moderado suave ondulado
e ondulado + Planossolo Háplico Eutrófico solódico arenosa/média, arenosa/argilosa e
média/argilosa A fraco e A moderado suave ondulado e ondulado.
Planossolo Háplico Eutrófico solódico arenosa/média, arenosa/argilosa e média/
argilosa A fraco e A moderado plano e suave ondulado + Neossolo Litólico Eutrófico típico
e fragmentário arenosa e média A fraco e A moderado não álico plano e suave ondulado.
Luvissolo Crômico Órtico vertissólico média/argilosa A fraco e A moderado suave
ondulado + Neossolo Litólico Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado
rochosa suave ondulado e ondulado + Planossolo Háplico Eutrófico solódico arenosa/média,
arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco e A moderado plano e suave ondulado.

Superfícies Retrabalhadas
Ocorre nos Litorais de Alagoas e Pernambuco, Luvissolo Crômico Órtico típico
média/argilosa A fraco e A moderado pedregosa ondulado e forte ondulado + Neossolo
Litólico Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado pedregosa forte ondulado
e ondulado + Argissolo Vermelho-Amarelo Eutrófico típico média/argilosa A fraco e A
moderado ondulado.
Plintossolo Pétrico Concrecionário argissólico média muito cascalhenta/argilosa
muito cascalhenta A moderado ondulado e suave ondulado + Argissolo Vermelho-Amarelo
Distrófico típico média/argilosa A moderado e A proeminente ondulado e suave ondulado
+ Planossolo Háplico Eutrófico solódico arenosa/média, arenosa/argilosa e média/argilosa
A moderado suave ondulado.
Argissolo Vermelho-Amarelo Eutrófico saprolítico e abrúptico arenosa/média,
arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco e A moderado suave ondulado + Neossolo Litólico
Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado pedregosa suave ondulado e ondulado
+ Planossolo Háplico Eutrófico solódico arenosa/média, arenosa/argilosa e média/argilosa
A fraco suave ondulado e plano.
Latossolo Amarelo Distrófico típico média A moderado plano e suave ondulado +
Neossolo Quartzarênico Órtico típico arenosa A fraco e A moderado plano e ondulado.
Gleissolo Háplico Ta Distrófico típico argilosa A moderado plano + Gleissolo
Melânico Ta Distrófico típico argilosa A húmico plano + Neossolo Flúvico Ta Eutrófico
típico indiscriminada A fraco e A moderado plano suave ondulado.
Neossolo Flúvico Ta Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado plano
+ Neossolo Flúvico Tb Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado plano +
Gleissolo Háplico Ta Eutrófico típico média e argilosa A fraco e A moderado plano.

Bacias Sedimentares
Neossolo Quartzarênico Órtico típico arenosa A fraco e A moderado plano e
suave ondulado.

346

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Neossolo Litólico Distrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado forte
ondulado e montanhoso + Afloramentos de Rochas.
Baixada Litorânea
Neossolo Quartzarênico Órtico típico arenosa A fraco e A moderado suave
ondulado + Espodossolo Ferri-Humilúvico Órtico típico arenosa A fraco, A moderado e
A proeminente plano e suave ondulado.
Neossolo Flúvico Tb Distrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado plano
+ Neossolo Flúvico Ta Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado plano +
Gleissolo Háplico Ta Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado plano.
Gleissolo Háplico Tb Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado plano
+ Gleissolo Háplico Ta Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado plano +
Gleissolo Háplico Ta Distrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado plano.

Metodologia de coleta do solo
A coleta de solo foi realizada em cada uma das cidades visitadas durante a IV
Expedição. Foi estabelecido um transecto em cada área de estudo, subdividido em quatro
pontos equidistantes e, em cada ponto, foi realizada colheita de solo. O chão foi escavado com
uso de picareta, até 20 cm de profundidade, e uma fatia de todo o perfil do solo foi retirada,
homogeneizada dentro da cova e coletada. As amostras tiveram aproximadamente 0,5 kg
de massa, foram acondicionadas em saco plástico e identificadas com papel. Ao chegar ao
laboratório, foram fracionadas e encaminhadas para as análises planejadas.

Análises Químicas do solo (fertilidade)
Foram realizadas análises químicas para trinta e duas (32) amostras de solo,
considerando oito (8) diferentes locais de coleta de sete cidades diferentes, com o objetivo de
conhecer a composição química relacionada à fertilidade dos solos. Para tanto, realizaram-se
análises qualitativas e quantitativas dos elementos de interesse, considerando valores médios
para os quatro pontos de cada transecto. Os elementos químicos analisados foram escolhidos
considerando sua utilização para avaliação da fertilidade de solos para fins agrícolas.
As dosagens e avaliações químicas relacionadas à fertilidade dos solos amostrados
foram realizadas no Laboratório de Análises de Solos da Embrapa Tabuleiros Costeiros,
sediada em Aracaju-SE. A avaliação do potencial hidrogeniônico dos solos foi feita por
meio de eletrodo combinado imerso em suspensão solo:líquido (água, KCl ou CaCl2), na
proporção 1:2,5. Para a determinação do P, foi utilizado espectrômetro de emissão ótica com
plasma indutivamente acoplado (ICP-OES). A leitura pôde ser feita diretamente no extrato
obtido com a solução Mehlich-1.
Al3+, Ca2+ e Mg2+ – cátions trocáveis – para avaliação de cátions trocáveis utilizou-se
uma solução extratora, com o método do KCl 1 mol L-1. Esses cátions adsorvidos foram, então,
analisados por métodos volumétricos, de emissão ou absorção atômica. Para determinação
do alumínio trocável, foi realizada a extração com solução KCl 1 mol L-1 e determinação
volumétrica com solução diluída de NaOH.
Cálcio + magnésio trocáveis – ambos determinados por complexometria. Extração
com solução de KCl 1 mol L-1 e determinação complexométrica em presença dos indicadores
negro de eriocromo e murexida ou calcon.

347

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Potássio e sódio trocáveis estimados pelo Princípio Extração com solução Mehlich-1
e posterior determinação por espectrofotometria de chama.
Os resultados da análise química demonstraram baixas quantidades de matéria orgânica,
se comparadas às de solos considerados férteis com relação a este parâmetro (Tabela 1).
Como pode ser visto nos dados preliminares da Tabela 1, os percentuais estimados de
nitrogênio presentes nas amostras, considerando as análises químicas de fertilidade, são muito
baixos, indicando que, provavelmente, seria necessária a correção de Nitrogênio para estes
solos, uma vez que este elemento é altamente demandado pelos vegetais (MENDES, 2007).
A Tabela 1 apresenta as medidas de pH para o solo de todas as cidades, mostrando
que, em vários locais, seriam recomendadas abordagens de correção de acidez para, então,
possibilitar atividades agricultáveis. Nos resultados obtidos, os valores de pH situaram-se no
intervalo de 5,1 – 6,7 e é importante considerar que em torno de 5 pode haver presença de
alumínio trocável e o pH em torno de 7 sugere a presença de calcário5.
Tabela 1 - Percentuais de matéria orgânica, nitrogênio e potencial hidrogeniônico (pH)
caracterizado para o solo de cada cidade
Locais

MO

%N

pH

Piranhas

21,94

0,1097

6,66

PA 2

16,44

0,0822

6,67

PA 1

16,03

Traipu

0,0801

23,18

São Brás

0,1156

20,36

PRC

5,11

0,1627

43,69

Penedinho

6,53

0,1018

32,54

Propriá

5,45

5,32

0,2185

---

5,57

0,1721

---

Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

A Tabela 2 mostra a presença de alguns metais alcalinos e alcalinos terrosos que, na
presença de água, formam óxidos com esses metais, colaborando para a diminuição da acidez
do solo, o que é algo bastante positivo. Além disso, é importante salientar a presença abundante
de fósforo em Piranhas: muito embora este seja um não metal, é um dos macronutrientes de
grande importância para a fertilidade do solo. As concentrações relativas de cada parâmetro
da fertilidade dos solos nas diferentes localidades são resumidas na Tabela 2.
Tabela 2 - Composição química relativa à fertilidade do solo de cada cidade
Ca

Mg

H+Al

43,59

39,74

Piranhas

81,71

33,31

PA 2

36,41

42,61

PA 1

Traipu

São Brás
PRC

Propriá

Penedinho

34,40
40,97
10,72
75,36
45,21
5,055

30,10
12,80
46,98
25,05
4,345

Al

P

K

Na

14,51

0,21

350,47

178,35

53,90

12,09

0,14

26,20

244,35

277,62

156,67

18,75

28,18
50,61
44,18
52,19

91,4825

1,07
0,21
4,92
1,16
2,12

12,5425

214,33
26,07
2,28
7,28

10,18

13,3975

Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

348

134,42
221,60
176,85
220,45
31,8

54,85
22,27
49,10
25,05

25,925

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Análises de difração de raios-X
As análises de raios-X foram conduzidas em duas etapas, que compreenderam a
fluorescência de raios-X e a difração de raios-X, pois, com o conhecimento sobre a composição
metálica das amostras, torna-se mais fácil e segura a identificação das fases cristalinas.

Espectroscopia de fluorescência de raios-X
Todas as amostras foram submetidas a uma análise de espectroscopia de raios-X
por dispersão em energia (EDX). Para todas as frações, foram utilizados porta-amostras
de polietileno com extremidades abertas, vedados com filme de polipropileno. A análise
identifica e quantifica os elementos presentes nas amostras. O equipamento empregado foi
o EDX-7000 da Shimadzu, com um intervalo de resolução do ¬11Na ao 92U.

Difração de raios-X (DRX)
A técnica de difração de raios-X foi empregada para a determinação das possíveis fases
cristalinas das amostras coletadas. Os experimentos de DRX das amostras foram realizados
utilizando um difratômetro DRX – 7000 (Shimadzu), com radiação CuKα 1,2 de 40 kV e
30 mA. A varredura utilizada para todas as amostras foi 2θ de 9° a 90°, utilizando um passo
de 0.02° (2°/min).
De modo geral, pode-se considerar que os solos da região possuem fertilidade comprometida.
Embora essa seja uma característica comum à maioria dos solos analisados e aos tipos
de solos reconhecidos para a região, alguns nutrientes apresentaram ampla variação entre
as áreas analisadas. A fertilidade apresentada pelos solos estudados representa um desafio à
exploração agrícola e, consequentemente, um obstáculo ao desenvolvimento rural no BSF.
A Figura 2 mostra os resultados de fluorescência de raios-X para todas as amostras
e é possível observar o Silício como elemento majoritário, apresentando concentrações
entre 46,33% para a amostra da cidade de Traipu e 94,13% para a amostra de Penedinho e
Piaçabuçu; o segundo elemento predominante nas amostras foi o Alumínio, com concentrações
variando entre 20,31% para a amostra de Traipu e 1,192% para a amostra de Penedinho; o
terceiro elemento predominante foi o Ferro, mostrando concentrações entre 13,33% para a
amostra de Porto Real do Colégio e 0,47% para a amostra de Penedinho; o quarto elemento
predominante encontrado foi o Potássio, mostrando concentrações entre 10,39% para a
amostra de São Brás e 0,82% para a amostra de Penedinho.
Todas as amostras mostraram concentrações em torno de 1% para o elemento Cálcio,
assim como 2% para o elemento Titânio. Estes seis elementos (Silício, Alumínio, Ferro,
Potássio, Cálcio e Titânio) representaram, aproximadamente, 98,63% (amostra de São Brás)
e 95,803% (amostra de Traipu) do total dos elementos presentes nas amostras analisadas por
fluorescência de raios-X, o que não descarta a presença de outros elementos, como Carbono,
Sódio etc., não detectáveis através desta técnica.
Por outro lado, foi possível observar a presença de outros elementos em concentrações
menores a 1%, dentre eles: Fósforo, Zircônia, Manganês, Enxofre, Estrôncio, Prata (Pão
de Açúcar), Cromo (todas as amostras), Rubídio (todas as amostras, exceto em Traipu e
Penedinho), Ítrio (todas as amostras, exceto em Traipu e Penedinho), Zinco e Nióbio (todas
as amostras, exceto em Penedinho), Cobre (Penedinho), Irídio (Pão de Açúcar), Níquel (todas

349

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

as amostras, exceto em Pão de Açúcar, São Brás e Penedinho), Paládio (Traipu), Vanádio
(Traipu e Porto Real do Colégio) e Bromo (Propriá).
Figura 2 - Resultado de fluorescência de raios-X das amostras de solo coletadas em cada
cidade. T2P2 = Pão de Açúcar; T3P2 = Pão de Açúcar; T4P2 = Traipu; T5P2 = São Brás;
T6P2 = Porto Real do Colégio; T7P2 = Propriá; T8P2 = Penedinho

Fonte: AUTORES, 2022.

A Figura 3 mostra os difratogramas obtidos para todas as amostras de solo referenciadas
na Figura 6. A partir destes difratogramas, é possível observar a presença predominante da
fase cristalina hexagonal do Quartzo (SiO2) para todas as amostras, com picos principais
observados em 2ϴ = 26°, 20,8°, 54,7°. Outras fases cristalinas de baixa intensidade são
observadas para as amostras de Pão de Açúcar e Traipu, que poderiam estar associadas à
presença do mineral Scorzalita, composto por (Fe, Mg)Al2(PO4)2° (Figura 8), com picos
principais observados em 2ϴ = 27,4°, 27,8°; do mesmo modo, foi possível observar fases
cristalinas associadas ao Alumínio, silicatos de Sódio NaAlSi3O8 com picos principais
observados em 2ϴ = 22,03,4°, 24,17° para essas amostras.

350

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 3 - Difratogramas referentes às análises e difração de raios-X de todas as amostras
de solo analisadas previamente por EDX

Fonte: AUTORES, 2022.

A Figura 4 mostra a Scorzalita, que se trata de um mineral da classe dos minerais
fosfatados. Essa informação apresenta-se em consonância com os resultados obtidos para a
fertilidade do solo que são mostrados na Tabela 1, onde podem ser vistas altas concentrações
de Fósforo nas cidades de Piranhas e Pão de Açúcar, tendo esta última apresentado a segunda
maior concentração de Fósforo entre as cidades onde foram realizadas coletas, reforçando a
importância dos minerais para a fertilidade do solo.
Figura 4 - Mineral Scorzalita

Fonte: WIKIPÉDIA, 2022.

351

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Análise de Cor
Foram realizadas análises de cor das amostras de solo adotando como metodologia
o sistema de determinação de cores de Munsell, amplamente utilizado por pesquisadores
no mundo inteiro, pelo fato de que se trata de procedimento simples e prático em que é
necessário, apenas, fazer uma comparação com um padrão de cores estabelecidas a partir da
observação de ocorrência de solos já caracterizados.
A Carta de Cores Munsell para Solos reúne uma série de padrões de cores encontradas
nos solos. Abaixo de cada padrão de cor há uma abertura, onde são posicionadas as amostras
de solo para se fazer a comparação visual. A notação Munsell referente a cada padrão de cor é
feita da seguinte forma: matiz valor/croma (MUNSELL SOIL COLOR COMPANY, 1975).
A informação sobre a cor do solo, além de caracterizar a região em estudo, aponta a
possível presença de vários componentes minerais que corroboram para que se possa traçar
um perfil daquele determinado solo. A Tabela 3 traz os resultados referentes às análises de
cor de uma amostra para cada cidade visitada durante a Expedição do Rio São Francisco.
Tabela 3 - Análise de cores das amostras coletadas durante a Expedição do São Francisco
Local

Piranhas

Tipo de solo, de acordo com a Carta de Cores de
Munsell

10YR 4/4/3 solo de cor marrom-médio

Pão de Açúcar 1

10 YR 5 5/4 solo de cor marrom-amarelado

Pão de Açúcar 2

10 YR 5 5/4 solo de cor marrom-amarelado

Traipu

10 YR 4 4/4 4 solo de cor marrom-escuro-amarelado

352

Imagem do solo coletado

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

São Brás

10 YR 5 5/3 4 solo de cor marrom

Porto Real do

10 YR 5 5/4 solo de cor marrom-amarelado

Colégio

Propriá

10 YR 3 3/4 4 solo de cor marrom-escuro-amarelado

Penedinho

10 YR 6 6/3 4 solo de cor marrom-pálido

Fonte: Elaborada pelos autores, 2022.

Considerações sobre a fertilidade observada

De modo geral, pode-se afirmar que os solos estudados possuem baixa fertilidade,
havendo locais que apresentaram altas concentrações de Na, juntamente com pH menor
do que 8,5, o que é um indicador de solos, de acordo com os preceitos de interpretação de
resultados de análises de solos (SOBRAL et al., 2015).
Sob o ponto de vista da utilização dessas áreas para finalidade agrícola, poucas
atividades seriam naturalmente recomendáveis, tendo como base apenas os resultados da
fertilidade dos solos. Para fins de produção, haveria a necessidade de ações prévias de correção
de aspectos ligados à fertilidade dos solos, tais como o pH e a concentração de macro e
micronutrientes interessantes à nutrição de plantas. A adoção de ações prévias de correção
da fertilidade do solo seria condição necessária ao desenvolvimento de atividades agrícolas
ordinárias, rentáveis, nesta região.

REFERÊNCIAS
ALAGOAS EM DADOS E INFORMAÇÕES. Rio São Francisco em Alagoas.
Disponível em: https://dados.al.gov.br/catalogo/ne/dataset/rio-sao-francisco-em-alagoas.
Acesso em: 18 abr. 2022.
COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO (CBHSF).
Lista de municípios CBHSF. Belo Horizonte, 2018. Disponível em: https://tinyurl.
com/2nxpv83u. Acesso em: 18 abr. 2022.

353

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA (EMBRAPA). Aspectos
Ambientais. Brasília: Agência Embrapa de Informação Tecnológica (Ageitec), s.d. Disponível
em: https://tinyurl.com/ywdkbkbf. Acesso em: 22 abr. 2022.
MENDES, Alessandra Monteiro Salviano. Introdução à Fertilidade do Solo. Salvador:
Superintendência Federal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Estado da Bahia –
SFA-BA/SDC/Mapa, 2007. Disponível em: https://tinyurl.com/39xbzswv. Acesso em: 22
abr. 2022.
MUNSELL SOIL COLOR COMPANY. Munsell Soil Color Chats. Baltimore,
Maryland, USA: Macbeth Division of Kollmorgen Corporation, 1975.
SANTOS, Humberto Gonçalves dos et al. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos.
5.ed. Brasília: Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Solos, 2018.
SERGIPE. Plano de desenvolvimento do território do Baixo São Francisco Sergipano.
2008. Disponível em: https://tinyurl.com/42vwk9kd. Acesso em: 18 abr. 2022.
SOBRAL, L.F. et al. Guia prático para interpretação de resultados de análises de solos.
Aracaju: Embrapa Tabuleiros Costeiros, 2015. 13 p. Disponível em: https://www.infoteca.
cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1042994/1/Doc206.pdf. Acesso em: 22 abr. 2022.

354

CAPÍTULO 18 - USO E OCUPAÇÃO DOS SOLOS DA
BACIA E CARACTERIZAÇÃO HIDROAMBIENTAL
Anderson dos Santos1

Gabriel Siqueira Tavares Fernandes2
Resumo: As intervenções antrópicas nos ecossistemas naturais têm ocasionado diversos
impactos ambientais, alterando o equilíbrio dos ecossistemas e o ciclo hidrológico,
intensificando processos de erosão e assoreamento de rios, modificando o balanço de fluxos
de energia na superfície, dentre outros fatores. A Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco,
uma das mais relevantes do Nordeste do Brasil, apresenta grandes desafios relacionados a
problemas de preservação, conservação e proteção do seu manancial. Neste sentido, o presente
estudo pretende avaliar as consequências das mudanças climáticas, ambientais e hidrológicas
nos municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco. Foram obtidos dados fluviométricos e
pluviométricos na Agência Nacional de Águas (ANA) e dados de precipitação diária do
produto (CHIRPS), respectivamente. Também foram obtidos dados de NDVI e temperatura
da superfície do sensor MODIS e dados de uso e cobertura do solo na plataforma MapBiomas
Brasil. De uma maneira geral, a região possui distribuição de temperatura da superfície,
precipitação e cobertura vegetal heterogênea. Em relação às mudanças no uso e na cobertura
do solo, constatou-se que, entre os anos 2012 e 2020, houve uma redução de 17,35% da área
de vegetação nativa. Por fim, as mudanças no regime hidrológico decorrente do controle das
vazões pelas barragens impactam diretamente a morfologia da calha do Rio São Francisco,
promovendo a expansão das áreas de bancos de areia em períodos de menores vazões e
ocasionando impactos na socioeconomia em cidades como São Brás, que tem o turismo em
sua orla reduzido em períodos de menores vazões.
Palavras-chave: Assoreamento. SIG. Cobertura Vegetal. Precipitação. Geoprocessamento.

INTRODUÇÃO

O Rio São Francisco (RSF), considerado o mais importante do Nordeste pelo volume
de água transportado para o Semiárido, tem sofrido constantes intervenções antrópicas, desde
os tempos imperiais, que exerceram demandas adicionais sobre a Bacia, ocasionando diversos
impactos ambientais. Dos grandes rios localizados completamente em território brasileiro, o
São Francisco é o que apresenta os maiores desafios e problemas de preservação, conservação
e proteção do seu manancial ao longo de todo o seu percurso, da nascente à foz (SANTOS
et al., 2012; FREITAS, 2015; SOARES et al., 2020).
Na região da Bacia Hidrográfica do São Francisco (BHSF), os conflitos pelo uso
dos recursos naturais têm sido crescentes, devido, principalmente, à construção de diversas
barragens no curso principal do RSF, que se destinam a diversos usos, dentre eles a geração
de energia e a redução das vazões. Para atender à demanda de energia do sistema a que estão
conectados, esses reservatórios acumulam água durante a estação chuvosa (verão e início da
1 Departamento de Engenharia Agronômica, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife-PE.
agryanderson@gmail.com.
2 Laboratório de Agrometeorologia, Universidade Federal Rural da Amazônia, Belém-PA. gabrieltavareez@
gmail.com.

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

primavera) e, então, durante a estação seca (inverno e outono), liberam o volume acumulado
(VASCO et al., 2017; JONG et al., 2018; MARTINS et al., 2018). Deste modo, os elevados
picos de vazões, de 8.000 a 15.000 m3s-1, que ocorriam naturalmente nos primeiros meses
do ano (de janeiro a março), foram drasticamente reduzidos (MEDEIROS et al., 2014).
A Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco tem vivenciado a intensificação dos
processos de desgaste dos recursos terrestres e hídricos, redução significativa da vegetação
nativa e perda da biodiversidade, exibindo áreas fortemente deterioradas que contribuem
diretamente para o processo de degradação ambiental e desertificação das terras, gerando
uma carga de sedimentos e materiais que é dispersa e depositada ao longo da calha principal
do rio e de seus reservatórios de barramento, acelerando o assoreamento (CANTALICE et
al., 2019; SANTOS et al., 2020; SOARES; SILVA; NAVAS, 2020).
Diante disso, programas de média e longa duração têm sido desenvolvidos para
diagnóstico, monitoramento e recuperação de nascentes e cursos hídricos, como os já
desenvolvidos pelo Ministério do Meio Ambiente, Comitê da Bacia Hidrográfica do São
Francisco, Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba
(Codevasf ) e Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas da Caatinga
(Crad). Ainda assim, tais projetos não têm sido suficientes para sobrepujar as ações de
degradação que ali ocorrem.

Dados fluviométricos
As séries temporais das vazões mensais foram obtidas de estações fluviométricas da
Agência Nacional de Águas (ANA) localizadas nos municípios alagoanos de Pão de Açúcar
(9,74°Se -37,45°W) e Traipu (9,96°S e 37,00°W). Vale destacar que os dados de vazão
serão utilizados no cálculo do SSI; deste modo, com o objetivo de trazer mais robustez à
estimativa do SSI e melhor compreender a influência climática na região em estudo, buscouse trabalhar com uma série de dados de 30 anos, compreendendo o período de janeiro de
1991 a dezembro de 2020.

Dados de precipitação
Neste estudo, os valores mensais e anuais de precipitação foram obtidos com base
nos dados de precipitação diária do produto CHIRPS e a distribuição espacial dos dados
foi estimada usando o método de interpolação, com o intuito de analisar a distribuição
espacial da precipitação sobre a região do Baixo São Francisco (BSF) e sua influência junto
às condições de mudanças anuais da cobertura e uso da terra por parte dos parâmetros
físico-hídricos à superfície.
O método estatístico responsável pela caracterização espacial da chuva para a
região do BSF foi o interpolador espacial estatístico Krigagem Ordinária, baseado em
modelos estatísticos de autocorrelação entre os pontos amostrados, que são um total de
962 pixels, explicando, assim, a variação espacial dos dados a partir de técnicas de média
ponderada. É importante destacar que, após a interpolação, os pixels foram reamostrados
para resolução de 30 m.
A princípio, o uso desta ferramenta no software ArcGIS® 10.6.1 pode predizer
interpolar detalhadamente determinados valores de estimativa entre os pontos da grade de
pixels, que inclui análise estatística exploratória dos dados, gerando, assim, um mapeamento

356

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

temático de superfície estimada com valores de precipitação em milímetros (mm) previstos
para toda a região, atingindo boa precisão e erros mínimos no padrão de variabilidade espacial.
Os dados CHIRPS foram extraídos para o período de 1991 a 2021, na plataforma
Google Earth Engine3, empregando linguagem de programação em JavaScript e usando o
conjunto de dados desde 1981 da coleção ee.ImageCollection (“UCSB-CHG/CHIRPS/
DAILY”). A escolha deste produto baseou-se no seu desempenho aceitável na identificação
de seca agrícola, quando comparado às medições in situ na BHSF, e por apresentar maior
resolução espacial e temporal quando comparado a outros produtos. Sua vantagem em relação
aos dados obtidos de estações meteorológicas está no maior número de pontos amostrais,
o que possibilita um estudo mais preciso e detalhado das respostas dos diferentes tipos
de cobertura vegetal à precipitação em extensas áreas que possam apresentar variação na
distribuição espacial das chuvas.

Standard Precipitation Index (SPI)

O SPI foi utilizado neste trabalho para medir a duração e a severidade da seca
meteorológica, usando dados do produto CHIRPS para cada ponto da grade correspondente
às estações fluviométricas da ANA localizadas nos municípios alagoanos de Pão de Açúcar
e Traipu. O SPI foi desenvolvido por McKee et al. (1993) e descreve a probabilidade de
variação da precipitação (em relação a um valor normal), ou seja, a ocorrência de anomalias,
para o período de referência em um determinado local, em um intervalo de tempo mensal
(ou de vários meses).
Valores positivos de SPI indicam períodos chuvosos, enquanto valores negativos
caracterizam deficits pluviométricos. O início de um episódio de seca pode ser identificado
quando o SPI passa de um valor positivo para um valor negativo e termina quando o índice
retorna a um valor positivo; contudo, para definir o evento como seco, o SPI deve atingir um
valor menor ou igual a -1 por pelo menos dois meses consecutivos (MCKEE et al., 1993). A
duração de um período de seca é o número de meses entre o início e o fim. O pico é o valor
mínimo do SPI durante a ocorrência de um período de seca. A severidade de um evento de
seca é o valor absoluto da soma dos valores do SPI do início ao fim do referido evento de seca.
Além dos critérios para definir uma seca, McKee et al. (1993) criaram um sistema
para classificar os valores do SPI em sete categorias de secas meteorológicas (Tabela 1).
Tabela 1 - Classificação do SPI, segundo McKee et al. (1993)
SPI

Classificação

≥ 2,00

Extremamente Úmido

0,50 a 0,99

Moderadamente Úmido

-0,50 a -0,99

Moderadamente Seco

≤ -2,00

Extremamente Seco

1,00 a 1,99

Muito Úmido

0,49 a -0,49

Próximo ao Normal

-1,00 a -1,99

Muito Seco

Fonte: MCKEE et al. (1993).

3 Disponível em: https://earthengine.google.com.

357

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Standardized Streamflow Index (SSI)

O SSI permite a caracterização de eventos de seca hidrológica de uma bacia
hidrográfica, de modo simples, mas eficaz, das condições de seca hidrológica ( JUNQUEIRA
et al., 2020; LUHAIM et al., 2021), sendo considerado o método mais empregado para
quantificar as secas hidrológicas baseadas em vazões (SHAMSHIRBAND et al., 2020).
O SSI usa a mesma fórmula do SPI, mas com a vazão mensal como entrada de dados.
Neste estudo, o SSI foi utilizado para identificar ocorrência, duração e gravidade das secas
hidrológicas nos municípios alagoanos de Pão de Açúcar e Traipu, localizados na Região do
Baixo São Francisco (RBSF).

Estimativa da cobertura vegetal dos municípios ribeirinhos

O índice de vegetação NDVI foi calculado em função das bandas multiespectrais da
refletância da superfície do sensor MODIS. O produto MODIS escolhido para execução
dessa etapa foi Refletância da Superfície da Terra 8 dias L3 global 500 m (MOD09A1 v006),
sendo utilizadas as bandas de refletância r1 (0,620 – 0,670 μm) e r2 (0,841 – 0,876 μm). O
NDVI é rotineiramente utilizado como indicador das condições de mudanças do uso e da
cobertura da terra, como biomassa vegetal, avaliação da condição hídrica, produtividade
agrícola e atividade fotossintética (BARBOSA et al., 2018; FERREIRA et al., 2020; SANTOS
et al., 2020; SILVA et al., 2020; TEIXEIRA et al., 2009)on the border between the states of
Sergipe and Alagoas, a Brazilian semiarid region. For this, we used images from the Landsat-8
satellite, OLI sensor, with a spatial resolution of 30 m. The results found in this study reveal
two distinct behaviors in the study region of the Low S~ ao Francisco watershed, the first
encompassing more homogeneous areas and with greater environmental preservation located
in the West and the second encompassing heterogeneous areas with severe environmental
degradation in the east of the study region. In general, due to the occurrence of exposed soil,
thin vegetation, and regions of the high declivity, the basin has a high and very high degree
of vulnerability in 73.8% of its land, with serious risks of desertification. According to the
results of the Normalized Difference Water Index (NDWI.
Com base no NDVI proveniente de imagens do sensor MODIS, foi calculada a
Cobertura Vegetal (VC) da área em estudo para o período entre 2013 e 2021, conforme Gao
et al. (2006):

em que VC é a cobertura vegetal, NDVIS é o mínimo valor de NDVI em área de solo
exposto obtido na área de estudo e NDVIV é valor máximo do NDVI.

Temperatura da superfície da Terra
A estimativa da temperatura da superfície da Terra para a região em estudo no período
entre 2013 e 2021 foi realizada em função do produto MODIS Temperatura da Superfície
Terrestre/Emissividade oito dias L3 global 1 km (MOD11A2 v006), sendo estimado a partir
das emissividades das bandas 31 e 32, que, por sua vez, são estimadas a partir da modelagem
matemática em função dos tipos de cobertura e uso da terra, pixel a pixel da imagem MODIS

358

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

(WAN et al., 2002). As imagens MODIS foram manejadas e processadas automaticamente
por meio da plataforma digital em nuvem do Google Earth Engine.

Uso e ocupação do solo nos municípios ribeirinhos

Os dados de uso e ocupação da terra foram obtidos da plataforma MapBiomas
Brasil, referentes à Coleção 6 do Projeto MapBiomas (2021), que usa procedimentos de
classificação automática aplicados a imagens de satélite para gerar dados de cobertura e uso
da terra. Essa coleção apresenta alta confiabilidade e inclui dados anuais de cobertura e uso da
terra no período de 1985-2020, priorizando as seguintes classes: formação vegetal (arbórea,
arbustiva e herbácea), agricultura, pastagem, mosaico agricultura e pastagem, área urbana e
corpos hídricos (FENDRICH et al., 2020).

Mapeamento do espelho d’água e do assoreamento no Rio São Francisco

O NDWI foi utilizado para extração da área de água de superfície, a partir das bandas
refletivas das imagens dos satélites Planet, pelo cálculo da diferença normalizada entre duas
bandas de imagem, conforme a Equação (2). A plataforma Google Earth Engine foi utilizada
na geração do mosaico de imagens utilizado no cálculo do NDWI:

em que ρG e ρN são as refletâncias mensuradas na banda do verde e infravermelho
próxima ao satélite Planet.
O NDWI separa bem corpos de água de outros tipos de cobertura do solo. As áreas
de água geralmente apresentam valores maiores que 0 e demais usos do solo, como áreas de
vegetação e solo exposto, tendem a apresentar forte valor negativo. As imagens NDWI foram
classificadas em água e terra, usando um valor-limite de 0. Posteriormente, as imagens de
NDWI foram utilizadas na quantificação do assoreamento da calha do Rio São Francisco
ao longo da região em estudo.
O total de 500 amostras de treinamento de classificação foi distribuído aleatoriamente
nas áreas homogêneas representativas. Essas amostras foram classificadas manualmente, com
base na interpretação visual, como pixels de água ou não, e, em seguida, a matriz de confusão
foi calculada comparando a classificação de água com essas amostras “verdadeiras”, com a
utilização do software QGIS 3.16.7 (QGIS Development Team, 2021).

Resultados
As séries temporais de anomalias de precipitação e vazão, precipitação e vazão mensal
acumulada (SPI-12) foram utilizadas para avaliar os episódios de seca meteorológica, entre
1991 e 2020, nos municípios de Pão de Açúcar e Traipu (Figura 1). Analisando os parâmetros
de gravidade e duração, a seca que afetou esses municípios, tendo início em março de 2012 e
com duração até fevereiro de 2020, foi o pior evento de seca extrema em termos de gravidade
(27,05) e duração (18 meses com valores de SPI ≤ -1,00) em Pão de Açúcar e o segundo em
Traipu, em gravidade (15,29) e duração (12 meses). Além disso, esse episódio atingiu picos de

359

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

2,02, 1,34 e 1,24 em novembro de 2012, janeiro de 2017 e janeiro de 2019, respectivamente
(Figura 1B), enquadrando-se nas categorias extremamente seco e muito seco (conforme
apresentado na Tabela 1). Por conseguinte, a seca meteorológica entre 2012 e 2020 é agrava
pela com ocorrência de valores de SPI ≤ 0,5 (moderadamente seco) em 75 e 31 dos 108
meses, nos municípios de Pão de Açúcar e Traipu, respectivamente.
Nesta análise, a precipitação anual de longo prazo foi de cerca de 475 mm e 678 mm
em Pão de Açúcar e Traipu, respectivamente. No entanto, durante o período 2012-2020,
a precipitação acumulada foi inferior a 405 mm em Pão de Açúcar e 655 mm em Traipu.
Considerando todo o período estudado, o deficit pluviométrico afetou, principalmente, a
disponibilidade hídrica durante os meses de maio a setembro.
Figura 1 - Análise de precipitação sobre a área de captação do Rio São Francisco nos
municípios de Pão de Açúcar e Traipu: (A) anomalias anuais de vazão expressas por meio
do Standardized Streamflow Index (SSI); (B) anomalias anuais de precipitação expressas
por meio do Standardised Precipitation Index (SPI); (C) e (D) precipitação e vazão mensal
cumulativa

Fonte: SANTOS, 2022.

Por outro lado, a gravidade dos eventos de seca hidrológica baseados no SSI-12
tendeu a aumentar a partir de 2013, atingindo eventos de seca a partir de novembro de 2015,
culminando em agosto de 2020 (Figura 1A). Ao analisar os parâmetros de gravidade e duração,
esse evento de seca hidrológica foi o pior evento de seca extrema em termos de gravidade
(103,43) e duração (58 meses). Vale ressaltar que esse episódio atingiu picos de SSI superiores
a 2 no período entre novembro de 2017 e junho de 2019 (Figura 1A), enquadrando-se na
categoria de seca extrema (Tabela 1).
Esses resultados evidenciam que as mudanças hidrológicas ocorridas no baixo curso
do Rio São Francisco não estão diretamente atreladas à escassez de chuvas na região, mas a
eventos de chuvas nas regiões do Alto e Médio São Francisco e aos efeitos dos perímetros
irrigados e barragens, principalmente a Barragem de Sobradinho, que, além da redução das
vazões, podem aumentar o deficit hídrico em alguns períodos do ano (TEIXEIRA et al., 2009;
GENZ; LUZ, 2012; VASCO et al.; 2017; 2019). Por conseguinte, observa-se tendência de
redução do volume das vazões, com o pico da vazão anual deslocado para os períodos de
menor precipitação (Figuras 1A, 1C e 1D).

360

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Como os eventos de seca de 2012-2020 nos municípios de Pão de Açúcar e Traipu
foram os mais longos e severos nos últimos 30 anos, esse foi o período escolhido para a análise
dos parâmetros biofísicos (cobertura vegetal, temperatura da superfície e precipitação) e do
uso e ocupação da terra na escala da RBF durante esses anos.
Com as observações da dinâmica espaço-temporal das chuvas na região em estudo, foi
possível observar a ocorrência de variação na distribuição e no volume das chuvas, de modo
que algumas áreas apresentam tendência a uma maior ocorrência de chuvas, que podem estar
condicionadas ao tipo de vegetação nativa e aos efeitos orográficos da região. Por conseguinte,
os maiores acumulados de precipitação pluviométrica ocorrem no extremo leste da bacia,
entre os municípios de Piaçabuçu, Penedo, Igreja Nova e Porto Real do Colégio, com valores
superiores a 850 mm (Figura 1), com chuvas concentradas entre os meses de abril e agosto
e os maiores valores verificados no mês de maio.
Os totais pluviométricos, entre os anos, apresentam um padrão de distribuição em
que se destaca uma pequena zona mais próxima à região costeira, localizada na porção sudeste
da região, onde há maiores acúmulos de chuva, com precipitação acumulada variando de
aproximadamente 940 mm ano-1 a 1560 mm ano-1, englobando os municípios de Piaçabuçu,
Penedo e Brejo Grande. Por outro lado, as menores precipitações acumuladas até o dia 31
de outubro são verificadas entre os municípios de Piranhas e Traipu, com valores que variam
de 250 mm a 675 mm (Figura 2).
A cobertura vegetal da superfície é uma variável diretamente associada à sustentabilidade
do ecossistema, uma vez que a presença de vegetação, sobretudo nativa, indica a qualidade
ambiental da região. Essa cobertura age como proteção para o solo, reduzindo o impacto das
chuvas e da erosão, atenuando problemas de assoreamento do rio. Paralelamente, a presença de
vegetação contribui para a manutenção biofísica do ecossistema, permitindo o balanceamento
adequado dos fluxos de energia, além da conservação da fauna e da flora locais e perpetuação
de espécies (SANTOS et al., 2019).
A cobertura vegetal na região hidrográfica do BSF apresenta comportamento
heterogêneo, com percentuais de cobertura variando de 0% a 99,9% (Figura 3). Os maiores
percentuais de vegetação são evidenciados na porção sudeste, nas proximidades dos municípios
de Piaçabuçu, Penedo e Brejo Grande, mesma região onde há maiores totais pluviométricos
(Figura 2). De acordo com Santos et al. (2018), os índices de vegetação são mais expressivos
na faixa litorânea da bacia, pois essa região está associada a menores altitudes, relevos menos
acidentados e maior precipitação, condição ambiental que favorece o desenvolvimento
da vegetação. Além disso, ressalta-se a presença de vegetação verde no entorno do rio,
caracterizando a vegetação ciliar.

361

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 2 - Distribuição espaço-temporal das chuvas (mm) para o produto do satélite
CHIRPS, nos municípios ribeirinhos que compreendem a região hidrográfica do BSF, no
período de 2012 a 2020

Fonte: SANTOS, 2022.

Nos municípios de Canindé de São Francisco, Poço Redondo e Porto da Folha,
localizados na porção oeste da região, nota-se, predominantemente, a presença de vegetação
rala e de solo exposto (ausência de vegetação) em todos os anos. Nessa área, há menor
ocorrência de precipitação e maior temperatura da superfície (Figura 4), condição que impacta
negativamente o desenvolvimento e estabelecimento de vegetação. Santos et al. (2018)
encontraram maiores temperaturas em áreas menos vegetadas, na mesma região, evidenciando
a importância da presença de vegetação para manutenção da temperatura da superfície.

362

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 3 - Condição dos diferentes tipos de cobertura vegetal do agroecossistema presente
nos municípios ribeirinhos que compreendem a região hidrográfica do BSF, no período
entre 2012 e 2020

Fonte: SANTOS, 2022.

A temperatura da superfície na região hidrográfica do BSF apresentou variação de
25°C a 41°C em toda a sua extensão nos anos avaliados. A porção sudeste obteve as menores
temperaturas da superfície (25°C a 33°C). Em contrapartida, a região oeste, já caracterizada
como mais seca, apresenta temperaturas acima de 37°C na maior parte de sua área. Vale
ressaltar que, apesar de haver um padrão de distribuição da temperatura do BSF, nos anos
2015, 2016 e 2018 ocorreram as maiores temperaturas da série estudada, corroborando com
os resultados apresentados.

363

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 4 - Temperatura da superfície terrestre nos municípios ribeirinhos que compreendem
a região hidrográfica do BSF, no período entre 2013 e 2021

Fonte: SANTOS, 2022.

O monitoramento espaço-temporal do uso e ocupação da terra nos municípios
ribeirinhos que compreendem a região hidrográfica do BSF entre os anos de 2012 e 2020
(Figura 5) foi desenvolvido e adaptado por meio de dados geoespaciais e classificações
temáticas, tendo como base a série de satélites Landsat do projeto de mapeamento anual da
cobertura e uso do solo no Brasil (MAPBIOMAS BRASIL, 2021).
Na cobertura de formação florestal (pixel verde-escuro), encontram-se os níveis
de floresta natural (ou seja, formação de Caatinga, Floresta Atlântica e Mangue) e floresta
plantada. Para as áreas de formação vegetal não florestal (pixel verde-claro), destacam-se
os níveis de formação campestre (vegetação herbácea), afloramento rochoso, pastagem e
mosaico agricultura e pastagem. As áreas de agricultura (pixel rosa) são compostas pelos
níveis agricultura irrigada e de sequeiro, em que se observam lavouras temporárias e perenes.
Na área não vegetada (pixel vermelho), destacam-se os níveis de praia e duna, mineração e,
principalmente, a infraestrutura urbana, dentre outras áreas não vegetadas. Por fim, a área de
corpos hídricos (pixel azul) apresenta os níveis de áreas cobertas por rios, riachos, lagos, lagoas
e oceano, e também da aquicultura (por exemplo, áreas de lagos artificiais, com predominância
das atividades aquícolas) (Figura 5) (MAPBIOMAS BRASIL, 2020).

364

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 5 - Classificação temática do uso e ocupação da terra entre os anos 2012 e 2020, para
os municípios ribeirinhos que compreendem a região hidrográfica do BSF

Fonte: SANTOS, 2022.

As áreas com atividade agrícola são verificadas, principalmente, a leste da Bacia
Hidrográfica do Baixo São Francisco, com destaque para os municípios de Igreja Nova e
Penedo, em Alagoas, e Santana do São Francisco, em Sergipe, cuja atividade agrícola ocupa
19,20%, 48,20% e 20,71% da área territorial, respectivamente. Contudo, entre os anos 2012
e 2020, as áreas agrícolas reduziram em 26,54 km² – essa redução deu-se, principalmente, em
áreas antes utilizadas na atividade canavieira (Piaçabuçu, Penedo e Igreja Nova) e na zona
oeste da região em estudo, onde a ocupação do solo por essa atividade é inferior a 1% (Figura
5). A predominância da atividade agrícola na zona leste da região em estudo é favorecida pelo
maior volume pluviométrico, relevo menos acidentado e solos mais desenvolvidos.
Tabela 2 - Quantificação anual das condições de uso e cobertura da terra de 2012 a 2020
para os municípios ribeirinhos que compreendem a região hidrográfica do BSF
Classes

Quantificação anual dos tipos de uso/cobertura da terra (km² ano-¹)
2012

2020

Formação florestal

2.755,731

2.277,472

Agricultura

327,489

300,946

Formação vegetal não florestal
Áreas não vegetadas
Corpos hídricos
Total

5.014,205
119,749
259,676

8.476,85

Fonte: Adaptado de MapBiomas Brasil, 2021.

5.521,111
139,844
237,477

8.476,85

No ano 2012, 32,51% da área (2.755,731 km²) dos municípios ribeirinhos que
compreendem a região hidrográfica do BSF era composta pela classe formação florestal,
sendo 26,83% composto por vegetação do bioma Caatinga, 5,07% Mata Atlântica e os outros
0,61% por vegetação de Mangue (Figura 5 e Tabela 2). No entanto, observa-se, no ano 2020,
uma redução de 17,35% na área de vegetação nativa (478,26 km²) representada pela classe
formação vegetal (Figura 5 e Tabela 2), em relação ao ano 2012. A contração das áreas dessa

365

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

classe ocorreu, em grande parte, sobre a vegetação nativa do bioma Caatinga. Essa redução
dá-se, principalmente, devido à expansão da classe formação vegetal não florestal sobre áreas
de vegetação nativa (833,72 km²) (Figura 6), em sua maioria composta por áreas de pastagem
e vegetação herbácea, tal qual se potencializa, especialmente, por parte do avanço da pecuária
extensiva nas regiões Agreste e Sertão ao longo dos últimos anos.
Figura 6 - Mudanças de uso/cobertura da terra nos municípios ribeirinhos que compreendem
a região hidrográfica do BSF entre os anos 2012 e 2020. Valores positivos indicam expansão
da respectiva cobertura da terra; valores negativos, uma contração

Fonte: SANTOS, 2022.

Mapeamento do espelho d’água e do assoreamento no Rio São Francisco

Desde o início de janeiro de 2022, o Rio São Francisco passou por sucessivos aumentos
em suas vazões, decorrentes das fortes chuvas ocorridas, principalmente, na região do Alto São
Francisco, atingindo valores próximos a 4000 m³s-1. Tais vazões foram verificadas na região do
BSF entre os meses de maio e junho de 2009. Motivado por esse aumento da vazão e a fim
de estudar os efeitos do impacto do controle das vazões pelas barragens sobre os municípios
ribeirinhos do BSF, realizou-se um mapeamento do espelho d’água e do assoreamento no
Rio São Francisco, por meio de imagens dos satélites Planet, nas datas de 21 de março de
2021 (vazão de 830 m³s-1) e 28 de fevereiro de 2022 (4000 m³s-1).
Em 21 de março de 2021, cerca de 44,23% da área superficial da calha do rio eram
correspondentes a bancos de areia. No entanto, em 28 de fevereiro de 2022, o rio apresentou
aumento da superfície de corpos hídricos, proveniente do aumento da vazão média anual
na Usina Hidrelétrica de Xingó, com o aumento da vazão para 4000 m³s-1 (ANA, 2022), o
que ocasionou uma menor exposição dos bancos de areia, que atingiram apenas 23,60% da

366

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

área superficial da calha hídrica do Baixo São Francisco (Figuras 7 e 8). De maneira geral, a
baixa vazão ocorrida em 21 de março de 2021, além de reduzir a área superficial dos corpos
hídricos ao longo da calha hídrica do BSF e aumentar a exposição dos bancos de areia e áreas
marginais da calha, diminui e afeta a força de arraste da correnteza do rio, promovendo a
deposição dos sedimentos ao longo do curso hídrico, formando bancos de areia e ilhas que
agravam as condições já existentes de assoreamento.
Figura 7 - Ocupação da área superficial da calha principal do Rio São Francisco, na região
do BSF, em 21 março de 2021 (A) e 28 de fevereiro de 2022 (B)

Fonte: SANTOS, 2022.

É importante salientar que, de Piranhas a Piaçabuçu, existem locais onde a presença
de bancos de areia depende da largura e da profundidade da calha hídrica, de modo que, no
trecho 1, que se apresenta mais estreito e profundo, observa-se pouca ocorrência de bancos
de areia, com ocupação da calha hídrica de cerca de 6,99% e 0,36%, respectivamente, nas
datas de 21 de março de 2021 e 28 de fevereiro de 2022 (Figuras 7 e 8). Por outro lado, os
trechos 2, 3 e 4 apresentaram elevada variação da área superficial de bancos de areia entre as
duas datas de imageamento (43,36% em 21 de março de 2021 e 10,18% em 28 de fevereiro
de 2022) (Figuras 7 e 8). Vale salientar a importância da ocorrência de maiores vazões nessa
região como meio para arrastar os bancos de areia não consolidados e formados recentemente
e entregá-los ao mar, reduzindo, assim, o processo de expansão dos bancos de areia, crescente
em períodos de menores vazões (SOARES et al., 2020; VASCO et al., 2019).

367

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Os trechos 5 e 6 apresentaram as maiores extensões de bancos e as menores variações
percentuais ao longo das datas de imageamento (Figuras 7 e 8). Esses setores estão localizados
em uma região de menor altitude e relevo mais plano; desse modo, os sedimentos acumulados
ao longo dos cursos hídricos e transportados pelo próprio rio são depositados com maior
intensidade neles, onde a velocidade da vazão é naturalmente menor. Outro fator que merece
destaque é a presença de vegetação nos bancos de areia existentes nesses setores, condição
que reduz o arraste de partículas desses bancos de areia.
Figura 8 - Ocupação (%) da área superficial da calha principal do Rio São Francisco na
região do BSF, para as datas de 21 de março de 2021 (A) e 28 de fevereiro de 2022 (B)

Fonte: SANTOS, 2022.

As flutuações da vazão do Rio São Francisco ao longo de suas margens afetam de
formas diferentes os municípios ribeirinhos. Conforme a Figura 9, observam-se dois cenários
distintos: durante o período de menores vazões, o município de Pão de Açúcar ganha uma
área de banco de areia que é utilizada pela população local e por turistas como prainha e
área de banho; já em períodos de elevadas vazões, esse banco de areia é alagado, reduzindo
a área de banho. No entanto, eventos de elevadas vazões ocorrem esporadicamente nessa
região, causando poucos impactos ao município. Por outro lado, no município de São Brás,
em períodos de baixa vazão, o canal que banha a orla da cidade seca, afetando drasticamente
a atividade turística, pesqueira e econômica da região, uma vez que tais eventos ocorrem com
maior frequência (Figura 9).

368

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 9 - Efeito da variação das vazões nas cidades de Pão de Açúcar e São Brás nas datas
de 21 de março de 2021 e 28 de fevereiro de 2022

Fonte: SANTOS, 2022.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo, apontamos de forma clara que há uma tendência significativa da
expansão de atividades antrópicas sobre áreas de vegetação nativa, o que resulta, principalmente,
na diminuição progressiva do bioma Caatinga. Os efeitos das ações antrópicas tornam-se
preocupantes, devido à falta de ações estratégicas que possam mitigar tais danos. Aliado a
isso, é possível afirmar que os efeitos do sistema de regularização de vazões da bacia impactam
diretamente a morfologia do Rio São Francisco, causando danos socioeconômicos ao longo
dos municípios ribeirinhos.
Dessa forma, pesquisas futuras são encorajadas, para investigar e mitigar as causas e
consequências das mudanças hidroambientais verificadas na região hidrográfica do Baixo São
Francisco, principalmente no que diz respeito ao assoreamento e à supressão das matas ciliares.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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371

CAPÍTULO 19 - TESTAGENS EM RT-qPCR PARA
RASTREAMENTO DA COVID-19 EM MUNICÍPIOS
RIBEIRINHOS LOCALIZADOS NO BAIXO SÃO
FRANCISCO
Eliane Aparecida Holanda Cavalcanti1
Abel Barbosa Lira Neto2

Bruna Priscila dos Santos3
Marcia Cristina da Silva4
Karol Fireman de Farias5

Wanessa Christina Beirauti Simões6
Resumo: O objetivo deste capítulo é rastrear a transmissibilidade do vírus Sars-CoV-2
na região que compreende o Baixo São Francisco, através de amostras biológicas, obtidas
por esfregaços com swabs na região nasofaríngea. Concomitantemente, foram aplicados
questionários semiestruturados para obtenção dos dados socioeconômicos, demográficos e
clínicos. As coletas foram realizadas no período de 1º a 11 de novembro de 2021, em oito
municípios: Piranhas/AL, Pão de Açúcar/AL, Traipu/AL, Igreja Nova/AL, São Brás/AL,
Penedo/AL, Piaçabuçu/AL e Propriá/SE. Em laboratório, os dados foram processados em
duas etapas: 1. presença e ausência do vírus (pelo teste RT-qPCR) e 2. tabulação dos dados
obtidos nos questionários. Foram analisados 458 indivíduos, em sua maioria do sexo masculino
(50,8%) e com faixa etária média de 41,19 a 46,01 anos. No tocante ao rastreamento do
vírus, apenas uma (01) amostra foi positiva, ou seja, um percentual de 0,22% do montante
analisado. Após a análise ajustada, os fatores que se associaram de forma significante às doenças
crônicas não transmissíveis, a exemplo da hipertensão, foram sexo e tabagismo. No modelo
de regressão robusta, os indivíduos do sexo masculino apresentaram menores prevalências
para cobertura vacinal: 93,5% (RP = 3,22; IC 95%:1,08 -9,64; p = 0,03), e os indivíduos que
fazem uso regular de tabaco apresentaram menores prevalências para cobertura vacinal (RP
= 4,15; IC 95%: 1,66-10,36; p = 0,002). Observa-se que os ribeirinhos aderiram ao plano de
imunização, fato esse comprovado por um único caso positivo. Outrossim, ressalta-se que a
imunização tornou-se uma barreira eficaz para não propagação e/ou transmissibilidade da
Covid-19, permitindo a reabertura segura do comércio, o retorno às atividades laborais e o
impulsionamento do turismo local, proporcionando o desenvolvimento regional.
Palavras-chave: Sars-CoV-2. Vírus. Rastreamento. Ribeirinho. Rio São Francisco.

1 Bióloga, Docente da Universidade Federal de Alagoas - Campus Arapiraca.
2 Farmacêutico, Técnico da Universidade Federal de Alagoas - Campus Arapiraca.
3 Biomédica, Docente voluntária da Universidade Federal de Alagoas - Campus Arapiraca.
4 Bióloga, Docente da Universidade Federal de Alagoas - Campus Arapiraca.
5 Enfermeira, Docente da Universidade Federal de Alagoas - Campus Arapiraca.
6 Técnica da Universidade Federal de Alagoas - Campus A. C. Simões.

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

INTRODUÇÃO
O vírus Sars-CoV-2 teve sua origem na cidade de Wuhan, na China no final de
2019, e desde então vem mudando a vida das pessoas em todo o mundo, impondo alterações
na rotina diária e restringindo o convívio social. A principal via de transmissão do vírus
dá-se, principalmente, através das vias aéreas superiores; no entanto, ele pode ser também
disseminado por meio de fômites e/ou por contato direto (WU et al., 2003).
De forma geral, os vírus têm uma evolução natural, disseminando em outras espécies
seu material genético (RNA ou DNA). No caso da Covid-19, o vírus possui uma fita de
RNA e sua associação com o genoma do hospedeiro aumenta a disponibilidade de ácidos
nucleicos, viabilizando mutações em seu genoma (SAMUDRALA et al., 2020). Na espécie
humana, encontramos backgrounds genéticos que podem estar associados a etnias, dentre elas
podem-se destacar: africanos, caucasianos, orientais e indígenas (POLLARD; MORRAN;
NESTOR-KALINOSKI, 2020). Essa vasta gama de etnias com genótipos específicos
faz com que o vírus realize mutações, resultando no surgimento de novas variantes que
podem ser mais virulentas e rapidamente disseminadas, causando aumento do número
de hospitalizações, sobrecarregando o Sistema Único de Saúde (SUS) e serviços de saúde
complementar, impulsionando a falta de insumos, a sobrecarga dos profissionais de saúde e,
consequentemente, o aumento de óbitos (MOHAMADIAN et al., 2021).
A sintomatologia clássica, denominada Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG),
apresenta um quadro de febre, tosse, cefaleia, dor de garganta, rinorreia, congestão nasal,
coriza, mialgia, anosmia, ageusia e dificuldade ao respirar. Portanto, os casos podem ser
classificados em sintomáticos, assintomáticos, leves ou graves. Normalmente, os sintomas
poderão aparecer no período de 02 a 14 dias de exposição ao vírus, podendo ou não ser
diferentes, a depender da variante e/ou do estado imunológico do paciente (ESCANDÓN
et al., 2021; LARSEN et al., 2021).
Dentre as várias alterações fisiopatológicas, destacam-se a evolução do processo
inflamatório, que é extremamente preocupante e está diretamente associada ao aumento
importante das citocinas inflamatórias, fenômeno este conhecido como tempestade
inflamatória, intimamente associado ao número de óbitos por Covid-19 (KOH; GELLER;
VANDERWEELE, 2021). Além disso, a Covid-19 tem como principal alvo as vias aéreas
superiores e inferiores, podendo também ocasionar complicações extrapulmonares, como
lesão cardíaca, acidente vascular cerebral isquêmico e outros eventos tromboembólicos e
complicações inflamatórias (KOH; GELLER; VANDERWEELE, 2021).
De um modo geral, a maioria dos pacientes não desenvolve a sintomatologia clássica,
sendo considerados assintomáticos, comportando-se como disseminadores do vírus. Portanto,
realizar a vigilância em saúde para Covid-19, com isolamento social e testagem em massa
da população (utilizando técnica para diagnóstico, que é o real time – reação de transcriptase
reversa seguida de reação em cadeia da polimerase – RT-qPCR), é imprescindível para
identificar novos casos e isolá-los, bem como diagnosticar e diferenciar de outras doenças –
um exemplo clássico é a influenza (CUI; LI; SHI, 2019).
O vírus da Covid-19 vem desafiando o mundo globalizado; quarentenas foram
impostas para conter sua propagação, com o objetivo de não superlotar os sistemas de saúde,
principalmente as UTIs. Contudo, alguns governantes não tomaram medidas sanitárias
necessárias quanto ao distanciamento físico, isolamento dos pacientes detectados com o
vírus e testagem em massa da população. Dentre esses países, destaca-se o Brasil, com quase
700.000 óbitos (DEMENECH et al., 2020).

374

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

O mundo reconhece que a testagem em massa para rastreamento dos infectados e
de seus contatos é uma excelente estratégia para conter a propagação do vírus da Covid-19,
assim como realizar com rapidez o tratamento adequado dos sintomáticos. Partindo desse
pressuposto, a IV Expedição Científica do São Francisco realizou a testagem para Covid-19
de todo o Baixo São Francisco. Essa ação foi proposta devido ao decréscimo na distribuição
normal (gaussiana) dos novos casos, permitindo abertura do comércio e turismo na região.
Sabe-se que essa população encontra-se afastada dos grandes centros urbanos, tendo,
por vezes, uma assistência em saúde deficitária, por conta da carência de unidades hospitalares
especializadas. Logo, diagnosticar e tratar o paciente é fundamental, visto que o deslocamento
e o tempo tornam-se fatores preponderantes para o atendimento devido de pacientes com
graves complicações ocasionadas pela Covid-19.
A área da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (BHRSF) é de 639.219 km2,
o que a caracteriza como a mais extensa bacia hidrográfica exclusivamente brasileira (7,5%
do território nacional). Tradicionalmente, subdivide-se em Alto, Médio, Submédio e Baixo
São Francisco. Envolve 506 municípios, distribuídos em sete Unidades da Federação (UFs):
Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Goiás e Distrito Federal, abrangendo
uma população de 18,2 milhões de habitantes (CASTRO; PEREIRA, 2019; MEDEIROS
et al., 2014).
O Rio São Francisco tem sua nascente na Serra da Canastra, no Estado de Minas
Gerais, deslocando-se, em grande parte, no Semiárido do Nordeste e desembocando no
Oceano Atlântico, em ambiente estuarino na divisa entre os Estados de Sergipe e Alagoas
(MEDEIROS et al., 2014). Seu comprimento é de 2.863 km, passando por cinco estados
brasileiros. Ele, sozinho, é responsável por quase 70% da disponibilidade de águas superficiais
do Nordeste (CASTRO; PEREIRA, 2019; MEDEIROS et al., 2014).
A Região Fisiográfica do Baixo São Francisco (BSF) compreende os Estados de
Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia, cobrindo uma área de 25.500 quilômetros quadrados
em 78 municípios, onde vive uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes, dos quais
440.000 residem em áreas ao longo do Rio São Francisco (SOARES; SILVA; NAVAS,
2020). O Baixo São Francisco, do lado alagoano, banha 11 cidades (Delmiro Gouveia,
Olho d’Água do Casado, Piranhas, Pão de Açúcar, Belo Monte, Traipu, São Brás, Porto
Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu) (Figura 1) que, em sua maior parte,
ficam distantes da capital Maceió e da segunda maior cidade de Alagoas, Arapiraca. Às
margens do Rio São Francisco, a população ribeirinha tira seu sustento do setor pesqueiro
e turístico, por exemplo, fato que viabiliza uma grande circulação de pessoas nessas cidades
(DE CASTRO MATTEO et al., 2013).

375

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 1 - Estado de Alagoas, com destaque para as cidades ribeirinhas

Fonte: SOARES; SILVA; NAVAS, 2020.

Visando avaliar a propagação do Sars-CoV-2, foi feito o rastreamento em oito
municípios visitados pela IV Expedição Científica do São Francisco. As coletas foram
realizadas no período de 1º a 11 de novembro de 2021 em: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu,
São Brás, Igreja Nova, Penedo, Piaçabuçu e Propriá/SE (Figura 2). O tamanho amostral por
município elencado (Tabela 1) foi composto adotando um processo de estágios múltiplos
com três etapas: 1ª) seleção dos municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco, por meio de
amostragem sistemática com probabilidade proporcional ao tamanho; 2ª) um ponto inicial
dentro de cada setor, a partir do que se realizou visita. Penedo, por agregar um terço da
população estudada, foi sorteada três vezes.

376

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Tabela 1 - Relação de municípios do Baixo São Francisco visitados pela IV Expedição
Científica do São Francisco, em 2021
Município

Piranhas/AL

Pão de Açúcar/AL
Traipu/AL

Igreja Nova/AL
Penedo/AL

São Brás/AL

Piaçabuçu/AL
Propriá/SE

Total

Habitantes

Nº amostral/coleta Covid-19

24.399

41

25.183
27.934
23.298

41
41
41

63.846

171

17.848

41

6.078

29.756

218.342

Fonte: IBGE, 2010.

41
41

458

Para o cálculo do tamanho amostral, a variável foi a infecção por Sars-CoV-2, cuja
prevalência para adultos, no Brasil, foi estimada em 61,9%. Para uma população de 218.342
habitantes (IBGE, 2010), foram adotados um erro amostral de 5% e um intervalo de confiança
de 95%, adicionando-se 20% para compensar possíveis perdas amostrais. Dessa forma, foi
necessário selecionar, aleatoriamente, 458 habitantes do Baixo São Francisco. Os cálculos
foram realizados no módulo StatCalc do software Epi-info, versão 7.1.4.
As coletas foram realizadas em locais próximos às margens do rio, em sua maioria, no
cais junto às embarcações da Expedição. Foram feitas um total de 608 coletas, das quais 140
foram com a tripulação e pesquisadores embarcados. As amostras foram obtidas através da
introdução de um cotonete (swab com Rayon) na cavidade nasal (cerca de 5 cm), direcionado
para cima (em direção aos olhos), com uma angulação de 30° a 45° em relação ao lábio
superior, certificando-se de que o swab ultrapassou superiormente o corneto inferior e atingiu
o meato médio (Figura 2). Após a coleta, o swab foi introduzido no tubo falcon (com solução
fisiológica), acondicionado em caixa térmica (com controle de temperatura entre 2°C e 8°C)
e encaminhado ao Laboratório Molecular Clínico – Unidade de Testagem para Covid-19
Ufal Campus de Arapiraca – para posterior processamento.
Para realização do RT-qPCR para Covid-19 foi utilizado o ensaio Allplex SarsCoV-2 em tempo real multiplex, que detecta e identifica, em uma amostra, a infecção da
Covid-19 usando genes-alvo: RdRP, S e N específicos para Sars-CoV-2 e para todos os
Sarbecovírus. O Allplex Sars-CoV-2 Assay é um dispositivo de diagnóstico médico in vitro
projetado para detecção qualitativa de Sars-CoV-2 com PCR de transcrição reversa em
tempo real a partir de aspirado nasofaríngeo, amostra nasofaríngea por zaragatoa, lavado
broncoalveolar, zaragatoa orofaríngeo (garganta) e expectoração. Esse, por sua vez, é um
ensaio de PCR multiplexado em tempo real que permite amplificação e detecção simultâneas
de ácidos nucleicos alvos de E gene, RdRP gene, S gene e N gene com Controle Interno
(IC). A presença de sequências específicas de genes na reação é relatada como um valor de
Ct. Um gene humano exógeno é usado como Controle Interno (IC) para monitoração de
todo o processo, desde a coleta de amostras à extração de ácido nucleico, assim como para
verificar qualquer possível inibição de PCR.
Para evitar que o produto de amplificação aja como um dos contaminantes potenciais,
o sistema Uracil-DNA glicosilase (UDG)-dUTP é empregado. O sistema UDG-dUTP

377

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

é comumente usado quando se executa a PCR para eliminar o acúmulo de amplicons por
meio de UDG a excisar resíduos de uracila do RNA com clivagem de ligação N-glicosídica
(GIMFERRER et al., 2018).
Além da coleta do material biológico, foram aplicados questionários semiestruturados
com as variáveis dependentes e independentes, visando à avaliação da prevalência do
número de vacinados (variável dependente), além de determinar o perfil socioeconômico
da comunidade ribeirinha. A análise múltipla foi procedida segundo um modelo teórico
hierárquico adaptado, composto por quatro níveis: o primeiro contemplou as variáveis
demográficas e socioeconômicas; no nível 2, as variáveis relacionadas ao estilo de vida, que
foi ajustado pelas variáveis do nível 1 com p < 0,05; já o nível 3, as possíveis comorbidades,
foi ajustado pelas variáveis com p < 0,05 nos níveis 1 e 2; o quarto nível foi ajustado por todas
as variáveis com p < 0,05 nos níveis precedentes.
Para identificar a associação entre a vacinação e as variáveis independentes, usouse a razão de prevalência (RP) e o respectivo intervalo com 95,0% de confiança (IC95%),
calculados por regressão de Poisson com variância robusta. Foram elegíveis para a análise
hierárquica todas as variáveis que, na análise bruta, associaram-se à vacinação em um nível de
significância de até 20,0% (p < 0,2). Em cada um dos três níveis de análise, houve eliminação
sucessiva das variáveis não significantes (backward stepwise elimination), permanecendo, ao
final do processo, apenas aquelas com p < 0,05. A partir dessa definição, todas essas variáveis
permaneceram no modelo ajustado final, mesmo que tenham perdido significância estatística
nos níveis seguintes ao seu nível original, em que foram inseridas como variáveis de controle.
Esse estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Ufal, sob o número 5.091.600.

378

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Figura 2 - Coleta do material biológico: (A) Piranhas/AL; (B) Pão de Açúcar/AL; (C)
Traipu/AL e (D) Chinaré – Igreja Nova/AL

Fonte: AUTORES, 2021.

Perfil socioeconômico das comunidades ribeirinhas da IV Expedição
Científica do São Francisco
Considerando o número total de participantes deste estudo, verificou-se que 50,8% (N
= 232) foram do sexo masculino e 49,2% (N = 223), feminino. Analisando o todo, observa-se

379

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

que os percentuais são extremamente próximos, não apontando diferenças importantes na
composição da comunidade (Gráfico1).
Gráfico 1 - Percentual de composição (masculino e feminino) da população ribeirinha
durante as coletas para realização de RT-qpcr na IV Expedição Científica do Rio São
Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2021.

Outros parâmetros complementares, a exemplo de idade, peso e altura, apresentaram
poucas variações (Gráfico 2), mantendo-se a constância das maiores médias para os indivíduos
do sexo masculino. Lira et al. (2010), ao analisarem comunidades ribeirinhas no Litoral de
Pernambuco, observaram que os homens foram os mais abundantes, constituindo 67% das
comunidades, e apresentaram idades superiores às das mulheres, ou seja, uma média de 38
anos. Quando relacionamos os dados obtidos, observa-se que, para as comunidades ribeirinhas,
a composição é praticamente homogênea, seja idade, sexo, altura ou peso.

380

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Gráfico 2 - Média dos parâmetros complementares (idade, peso e altura) dos ribeirinhos
investigados durante a IV Expedição Científica do São Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2021.

Visando ao conhecimento da composição das comunidades ribeirinhas do Baixo
São Francisco quanto à etnia/cor de pele, observou-se que 77% (N = 350) autodeclararamse pardos, seguidos de brancos e pretos (Gráfico 3). Porém, é importante registrar que, nos
municípios visitados pela Expedição Científica, há comunidades indígenas e remanescentes
quilombolas. Como neste estudo, em sua maioria, foram realizadas coletas nos centros urbanos,
essas populações não foram assistidas.

381

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Gráfico 3 - Composição (percentual) por etnia das comunidades ribeirinhas investigadas
durante a IV Expedição Científica do São Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2021.

No tocante à distribuição de renda per capita por família, observou-se que, em
sua maioria (67,7%), era de um salário mínimo ou mais. Porém, 31,1% foram inferiores
a um salário mínimo (Gráfico 4). Rabelo, Vaz e Zacardi (2017) também observaram essa
distribuição ao analisar o perfil socioeconômico dos pescadores em dois lagos periurbanos de
Santarém/PA. É importante ressaltar que ambos os estudos ocorreram em áreas próximas aos
centros urbanos, permitindo à população ribeirinha acesso às diferentes ofertas ocupacionais.
Gráfico 4 - Distribuição de renda per capita por família dos ribeirinhos investigados durante
a IV Expedição Científica do São Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2021.

382

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Complementando os dados anteriormente apresentados, observa-se que, nos centros
urbanos, encontram-se o comércio (lojas, lanchonetes, feiras livres, etc.) e os empregos públicos
(municipal, estadual e federal), que geram empregos para a comunidade como um todo. Na
região ribeirinha do Baixo São Francisco, também verificou-se esse mesmo padrão, ou seja,
49,1% da população possuía emprego formal, 28,7% informal, 21,7% desempregados e 0,5%
não quis informar (Gráfico 5). Esses dados corroboram com os dados referentes à renda per
capita (Gráfico 4). No entanto, 18,4% encontram-se desempregados e 24,4% na informalidade,
demonstrando a necessidade de políticas públicas voltadas para as comunidades estudadas.
Gráfico 5 - Composição, em percentual, dos tipos de trabalhos desempenhados pela
população ribeirinha investigada e de aposentados atendidos durante a IV Expedição
Científica do São Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2022.

Considerando a inserção da população ribeirinha em programas sociais como fonte
de renda per capita das famílias, observa-se uma correlação dos dados daqueles que possuem
o CADÚnico com os que participam do programa social Bolsa Família. Quando comparados
aos dados anteriores, observa-se que a maioria da população possui algum tipo de emprego,
justificando a não inserção no CADÚnico, que foi de 79,3% (Gráfico 6).

383

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Gráfico 6 - Participação dos ribeirinhos em programa social, assim como inserção no
CADÚnico, investigados durante a IV Expedição Científica do São Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2022.

Há uma correlação direta entre a saúde da população e o descarte do lixo, seja sólido ou
líquido; sabe-se, portanto, que, em sua maioria, as cidades ribeirinhas não possuem saneamento
básico e/ou tratamento de resíduos. Neste estudo, verificou-se que o resíduo sólido (lixo)
produzido pela população é recolhido pelo agente público em 94% das residências ribeirinhas
(Gráfico 7). Porém, por se tratar de uma região ribeirinha, considerando a atual situação
em termos de saneamento básico dos municípios alagoanos, necessita-se, urgentemente, da
implantação de sistemas para tratamento de efluentes, uma vez que estes, em sua maioria, são
lançados in natura diretamente no rio, ocasionando problemas básicos de saúde na população,
como a disseminação de doenças crônicas transmissíveis (esquistossomíase).
Gráfico 7 - Descarte do resíduo sólido (lixo) pela população ribeirinha investigada durante
a IV Expedição Científica do São Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2022.

384

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Para Ubiratan e Fernandes (2009), sobre o uso das águas do São Francisco para fins de
saneamento básico e de abastecimento de água, necessidades reais e crescentes, especialmente
nas aglomerações urbanas, pode-se afirmar que ainda é preciso muitos investimentos para o
alcance de condições adequadas. De acordo com informações disponibilizadas pelo Comitê da
Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, somente 52,5% dos esgotos da bacia são coletados,
e 20,7% desse total é tratado. Isso implica comprometimento das águas dos rios da bacia,
com perda da qualidade para fins de uso, especialmente para consumo humano.

Perfil epidemiológico dos ribeirinhos quanto à Covid-19 e algumas
doenças crônicas não transmissíveis

As populações ribeirinhas representam uma mistura de diferentes grupos sociais
(indígenas, quilombolas, etc). Essas populações vivem em áreas urbanas e rurais, às margens
do Rio São Francisco. O cotidiano dos ribeirinhos às margens do rio e sob influência das
dinâmicas das águas (cheias e vazantes) impõe restrições de ordem multidimensional. De
um modo geral, esses grupos são destituídos de infraestrutura mínima, como saneamento
básico e serviços de saúde especializados. Considerando o avanço da pandemia no mundo e,
subsequentemente, para o interior do Brasil, foi definido, neste levantamento, um tamanho
amostral de 456 coletas/amostras, sendo Piranhas a cidade de menor adesão e Penedo a
maior – fato esse definido pelo tamanho populacional de cada município (Gráfico 8).
Gráfico 8 - Número de participantes por município visitado durante a IV Expedição
Científica Rio São Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2022.

Desde o início da pandemia (março/2020), observou-se, em alguns momentos, o
aumento do número de casos da doença, e, em outros, o decréscimo. Esse evento sempre
foi evidenciado nos grandes centros urbanos pelo percentual de ocupação dos leitos de alta
complexidade (UTI). Porém, para regiões mais interioranas, pouco se tinha conhecimento
sobre a propagação da onda de contaminação do vírus Sars-CoV-2. Durante o período

385

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

analisado, foi observado que a infecção viral apresentou 0,22% (N = 1) de casos positivos,
demonstrando baixíssima prevalência na população estudada (Tabela 2).
Tabela 2 - Relação município x número de amostras coletadas x número de amostras
positivas durante a IV Expedição Científica do São Francisco, em 2021
Município

Piranhas/AL

Pão de Açúcar/AL
Traipu/AL

Nº de amostras coletadas
35
49

Nº de amostras positivas
0
0

58

1 (0,22%)

Penedo/AL

105

0

Piaçabuçu/AL

50

Igreja Nova/AL
São Brás/AL
Propriá/SE
Total

61
48
48

454

Fonte: Autores da pesquisa, 2021.

0
0
0
0

01

A propagação do vírus em ondas sazonais (curvas gaussianas), associada a outras
comorbidades, ocasiona grandes perdas na população como um todo. A partir do momento
em que o Plano Nacional de Imunização foi publicado e os esquemas vacinais executados,
iniciou-se uma retração na propagação, uma vez que o número de casos graves e o percentual
de ocupação dos leitos de UTI começaram a cair. Durante o período da IV Expedição do
São Francisco, apenas 01 (um) caso positivo foi identificado no montante de 454 amostras.
Correlacionando os dados obtidos quanto à imunização, 96% (N = 436) da população da
amostra foi imunizada contra a Covid-19. Estatisticamente, o esquema vacinal apresentou
altas prevalências quando correlacionada a detecção do vírus na população.
A eficácia de uma vacina pode ser definida como a redução, atribuível à vacinação, na
incidência da doença entre os indivíduos vacinados. O parâmetro primário de avaliação nas
vacinas empregadas é a indução da Covid-19 confirmada laboratorialmente pelo RT-qPCR
(PRADA; FERREIRA, 2020). Em Alagoas, observa-se que, desde o início do Programa
Nacional de Imunizações (PNI), houve uma redução significativa no número de casos positivos
e de ocupação de leitos hospitalares. Para Lopez-Bernal et al. (2021), a eficácia das vacinas
varia de acordo com o tipo e a variante, sendo elas, em sua maioria, mais eficazes a partir
da segunda dose. Segundo Serpa et al. (2021), até o momento, as vacinas vêm mostrando
boa eficácia, principalmente na prevenção de casos graves de Covid-19, hospitalizações e
óbitos. Neste estudo, observa-se que, no Baixo São Francisco, a imunização da população
está desempenhando uma ação eficaz contra o Sars-CoV-2.

386

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Gráfico 9 - Número de ribeirinhos que sinalizaram ter realizado o esquema vacinal durante
a IV Expedição Científica do São Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2021.

O álcool e o cigarro são elementos e/ou substâncias imunossupressoras que facilitam
a infecção por todo tipo de vírus, inclusive pelo coronavírus. Geralmente, um está associado
ao outro, e assim sucessivamente. Nogueira et al. (2022) identificaram alta prevalência de
consumo de álcool ao analisarem uma população ribeirinha na Paraíba, sinalizando o uso
abusivo pelos ribeirinhos. Observou-se, portanto, que, diferentemente de alguns estudos
realizados em outros locais, que demonstram um alto índice de consumo e álcool e/ou cigarro
em populações ribeirinhas, para a região analisada, o percentual para o consumo de álcool
foi de 27,7% e de cigarro, 8,8% (Gráficos 10 e 11).
Gráfico 10 - Percentual populacional que consome álcool investigado durante a IV
Expedição Científica do São Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2021.

387

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Gráfico 11 - Percentual populacional que é tabagista investigado durante a IV Expedição
Científica do São Francisco, em 2021

Fonte: Autores da pesquisa, 2021.

Além do rastreamento para a Covid-19, patologias crônicas não transmissíveis
foram também sinalizadas durante a anamnese da população, dentre elas a hipertensão
arterial sistêmica (HAS) e o diabetes. Das 454 pessoas investigadas, 107 autodeclararam-se
hipertensas, ou seja, 23,5% da população apresentou essa comorbidade. Quanto à diabetes,
apenas 8% da população entrevistada apresentou tal comorbidade.
Correlacionando os dados obtidos, estatisticamente foi possível observar diferenças
significantes entre as variáveis: Sexo: feminino, com prevalência de 98,2%, e masculino,
prevalência de 93,5% (valor de p = 0,01); Tabagismo: prevalências dos indivíduos que não
fizeram uso do tabaco durante os últimos três meses (96,9%), prevalências de indivíduos que
fazem uso diário do tabaco (85%), com p = 0,01; Etilismo: prevalência entre não consumo
(97,3%) e consumo (92,1), p < 0,001. A amostra foi caracterizada conforme as variáveis
socioeconômicas, demográficas e de estilo de vida (Tabela 3).

388

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 3 - Cobertura vacinal correlacionada às variáveis socioeconômicas, demográficas
e estilo de vida da população ribeirinha do Baixo São Francisco, analisada durante a IV
Expedição Científica do São Francisco, em 2021
Variáveis

N

Imunização (%)

*P (valor)

19 a 30

170

96,5%

-

30,1 a 40

210

94,3%

0,21

40,1 a > 60

80

98,8%

0,21

Feminino

227

98,2%

-

Masculino

233

93.5%

0,01

Sim

371

95,9%

-

Não

89

95,5%

0,84

≥ Salário mínimo

309

96,7%

.

< Salário mínimo

149

93,9%

0,15

Não

352

96,3%

-

Sim

108

94,4%

0,39

Não

423

95,8%

-

Sim

37

97,3%

0,64

Não

420

96,9%

-

Sim

40

85,0%

<0,001

Não

325

97,3%

-

Sim

116

92,1%

0,01

Faixa etária (anos)

Sexo

Programa Bolsa Família

Renda per capita

Hipertensão

Diabetes

Tabagismo (últimos 03 meses)

Etilismo

Fonte: Autores da pesquisa, 2021.

Após a análise ajustada, os fatores que se associaram de forma significante às doenças
crônicas não transmissíveis, a exemplo da hipertensão, foram: sexo e tabagismo. No modelo
de regressão robusta, os indivíduos do sexo masculino apresentaram menores prevalências
para cobertura vacinal: 93,5% (RP = 3,22; IC 95%:1,08 - 9,64; p = 0,03) e os indivíduos que
fazem uso regular de tabaco apresentaram menores prevalências para cobertura vacinal (RP
= 4,15; IC 95%: 1,66 - 10,36; p = 0,002). A significância estatística permaneceu mesmo após
ajuste para todos os fatores de risco nos modelos (Tabela 4).

389

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Tabela 4 - Razões de prevalências (RP) e respectivos intervalos de confiança (IC - 95%)
obtidos por regressão de Poisson multivariável, segundo modelo teórico hierárquico de
determinação da cobertura vacinal em populações de ribeirinhos do Baixo São Francisco
analisadas durante a IV Expedição Científica do São Francisco, em 2021
VARIÁVEIS

RP (IC - 95%)

P (valor)

Sexo

2.92 (1,02 - 8,32)

0,04

Tabagismo

3,24 (1,08 - 9,70)

0,03

Fonte: Autores da pesquisa, 2021.

Segundo Bastos et al. (2017), os homens consomem mais cigarros industrializados que
as mulheres e também utilizam mais álcool e tabaco que elas. Neste estudo, observa-se que,
em homens, esse hábito esteve relacionado à prevalência de não vacinados. Em mulheres, a
prevalência foi muito menor, visto que, em sua maioria, há o hábito de procurar e responder
a tratamentos de saúde. Para Bwire (2020), o organismo das mulheres responde melhor a
infecções que o dos homens, apresentando mais resistência a vírus como o Sars-CoV-2. Isso
pode ser atribuído a questões biológicas, como hormônios sexuais, alta expressão de alguns
receptores, estilo de vida, baixo consumo de álcool e tabaco.
É importante destacar que, no país como um todo, o número de óbitos foi relativamente
grande, independente de período (sazonalidade), região, raça, faixa etária, peso e sexo. No
entanto, observa-se, frente à pandemia imposta pela Covid-19, que o maior número de
óbitos ocorreu em indivíduos do sexo masculino, que, em sua maioria, aderiram em menor
proporção ao plano de imunização (SS/ES, 2020). Nery et al. (2022) identificaram que quando
os homens trabalham e têm comorbidades, são menos propensos a hesitar em ser vacinados.
Outro fator importante para a redução da hesitação vacinal é o maior nível de escolaridade
e a alta percepção de risco. Dessa forma, é imprescindível que as estratégias de campanhas
de vacinação considerem as diferenças de gênero e as características sociais de cada região
para aumentar a cobertura vacinal.
O estudo apresentou limitações quanto à não realização de aferição de pressão
arterial e à mensuração da glicemia capilar, visto que essas verificações poderiam impactar
na associação entre Covid-19 e comorbidades, hipertensão arterial sistêmica e diabetes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo identificou que as comunidades ribeirinhas aderiram ao Plano Municipal de
Imunização, comprovadamente observado pela quantidade de exames realizados, assim como o
número de casos positivos rastreados, que foi extremamente baixo. A vacina tem demonstrado,
de forma positiva, sua eficácia, espelhada nas constantes quedas de números de novos casos,
internações e óbitos. Para a região do Baixo São Francisco, comprova-se, portanto, que a
imunização é uma barreira eficaz para a não propagação e/ou transmissibilidade da Covid-19,
permitindo a reabertura segura do comércio, o retorno às atividades laborais e o impulsionamento
do turismo local, proporcionando o desenvolvimento e a economia da região.
Destacamos, ainda, que, para além do rastreamento da Covid-19, faz-se necessário o
desenvolvimento de ações de prevenção e promoção da saúde para as comunidades ribeirinhas,
seja no combate às doenças infectocontagiosas, seja nas crônicas não transmissíveis, uma vez
que as comunidades ribeirinhas localizam-se geograficamente afastadas dos grandes centros
urbanos, não tendo acesso a serviço de saúde especializado.

390

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Finalizamos ressaltando que a pandemia da Covid-19 ainda não acabou e que novas
variantes do coronavírus estão surgindo a todo o momento; por isso, é necessário seguir o
Plano Nacional de Imunização e manter as orientações básicas para a não propagação do
vírus: usar máscaras, usar álcool em gel (70%) e evitar aglomerações.

REFERÊNCIAS
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População Brasileira. Rio de Janeiro: Fiocruz/Icict, 2017. 519p. Disponível em: https://
tinyurl.com/9vzreyac. Acesso em: 12 abr. 2022.
BWIRE, G.M. Coronavirus: why Men are More Vulnerable to Covid-19 Than Women? SN
Comprehensive Clinical Medicine, v.2, n.7, p. 874-876, jun. 2020. Disponível em: https://
tinyurl.com/325sv7hs. Acesso em: 11 abr. 2022.
CASTRO, C.N.; PEREIRA, C.N. Revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio São
Francisco: histórico, diagnóstico e desafios. Brasília: Ipea, 2019.
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Reviews Microbiology, v.17, n.3, p.181-192, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1038/
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Estado de Alagoas. Brasília: Editora Iabs, 2013. 182p.
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CAPÍTULO 20 - PERFIL DE SAÚDE BUCAL E
AÇÕES DE PROMOÇÃO DE SAÚDE BUCAL NAS
COMUNIDADES RIBEIRINHAS DA REGIÃO DO
BAIXO SÃO FRANCISCO
Cristiane Ribeiro da Silva Castro1
Daniela Ferreira de Oliveira2

Resumo: Muitas doenças bucais podem ser evitadas por meio das ações de promoção da saúde
e medidas preventivas. Os objetivos deste capítulo foram garantir às crianças das populações
ribeirinhas acesso a ações educativas e preventivas em saúde bucal, contribuir para a melhoria
de suas condições de saúde bucal, realizar um levantamento epidemiológico e subsidiar o
planejamento das ações das equipes de saúde bucal dos municípios. Trata-se de um estudo
de corte transversal, descritivo, com metodologia de pesquisa-ação e o desenvolvimento de
ações educativas, cujo público-alvo foram os escolares da comunidade ribeirinha do Baixo São
Francisco. Foram atividades educativas com as crianças sobre prevenção das doenças bucais,
além de escovação supervisionada e aplicação tópica de flúor. Foi avaliada a presença de cárie
dentária nas 478 crianças e adolescentes estudantes de escolas públicas, com idades entre 3 e
18 anos, das comunidades ribeirinhas. A média de idade foi de 8,68 anos (±2,75). A maioria
(72,2%) possuía a cor da pele parda, era do sexo feminino (52,3%), residente na zona urbana
(80,75%) e proveniente de escolas do município de Propriá (24,9%). Em relação à condição
de saúde bucal na dentição decídua, 45,3% dos escolares avaliados encontravam-se livres de
cárie. O ceo-d foi de 1,72 (DP = 2,41) e o CPO-D foi de 0,66 (DP = 1,16), característicos
de uma situação de baixa prevalência. O estudo permite levantar hipóteses quanto ao papel
dos fatores ambientais e socioeconômicos nas condições de saúde bucal das crianças e serve
como base para orientar ações e serviços de odontologia dos municípios envolvidos.
Palavras-chave: Cárie Dental. Odontologia. Escolares. Prevenção. Epidemiologia.

INTRODUÇÃO
Muitas doenças bucais podem ser evitadas por meio de ações de promoção da saúde
e medidas preventivas. A promoção da saúde pressupõe a compreensão da relação do ser
humano com sua história, suas crenças, seus hábitos, relações com o mundo, com seu ambiente
sociocultural e demais determinantes sociais em saúde. Trabalhar a educação em saúde é
contribuir para que ocorram pequenas mudanças na vida das pessoas, o que pode levar ao bemestar físico e emocional do indivíduo e contribuir também para uma melhor relação entre o
profissional da saúde e o sujeito que está sendo beneficiado com a ação ( J. JÚNIOR et al., 2017).
Os programas de Promoção de Saúde Bucal seguem como base um serviço de saúde
democrático, universal, integral e igualitário. A Odontologia, por muito tempo, dedicou-se à
elaboração e ao aprimoramento de técnicas operatórias e não conseguiu concentrar esforços
1 Professora doutora da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). cristiane.castro@
foufal.ufal.br.
2 Acadêmica em Odontologia pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Área de pesquisa: Saúde/
Odontologia/Saúde Coletiva. dniferreira.oliver@gmail.com.

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

na área de prevenção e promoção da saúde. Com a chegada do cirurgião-dentista à Estratégia
Saúde da Família, uma nova perspectiva foi gerada sobre um modelo de atenção e acesso
às ações de saúde bucal, propiciando uma atenção integral aos indivíduos (DOMINGOS
et al., 2019).
A odontologia preventiva mostra-se como uma forte aliada do combate às doenças
bucais desde a primeira infância. As atividades educativas e preventivas, que vêm sendo
realizadas de forma coletiva, apresentam resultados relevantes, pois abrangem e envolvem
toda a comunidade. Possuem o objetivo de evitar doenças e reduzir gastos em tratamentos
complexos ao final da primeira infância, já que a atenção odontológica ocorre de forma precoce
para as crianças. A colaboração participativa dos pais é um fator crucial para o sucesso do
programa de controle da cárie dentária (BENTO et al., 2019).
A cárie dentária continua sendo, no início do século XXI, o principal problema de
saúde bucal em vários países do mundo, afetando de 60% a 90% das crianças em idade escolar
e a maioria dos adultos. A doença é uma das principais causas de perda e de dor de dente,
restringindo as atividades na escola e no trabalho e, portanto, impactando a qualidade de
vida e o desenvolvimento dos afetados e, devido à elevada prevalência e a seus impactos, é
considerada um problema de saúde pública. Afeta grande parte das crianças, principalmente
as de baixo nível socioeconômico, sendo a doença crônica mais comum em crianças (NUNES
et al., 2017; FRAZÃO et al., 2010).
A cárie é uma doença transmissível, multifatorial, e sua manifestação está relacionada
a diversos fatores que, juntos, corroboram para o seu aparecimento na cavidade bucal, como,
por exemplo: dieta, microbiota local, tempo e hospedeiro, fatores sociais, econômicos, culturais,
étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais, sendo fundamental o conhecimento destes,
a fim de reduzir a ocorrência da cárie, prevenindo dor e sofrimento (CASTRO et al., 2019;
PERES, 2003).
A prevalência da cárie vem diminuindo nos últimos anos; entretanto, continua sendo
um dos principais problemas de saúde pública na maioria dos países. Contudo, essa redução
não vem ocorrendo na mesma proporção nas crianças na faixa etária pré-escolar. No Brasil, a
cárie dental foi observada em 53,4% das crianças aos cinco anos de idade, em 2011 (SOUZA;
VIANNA; CANGUSSU, 2006).
Estudos epidemiológicos são utilizados com a finalidade de realizar diagnóstico da
situação de saúde e identificar áreas prioritárias para intervenções, pois as práticas sanitárias
fundamentadas em informações epidemiológicas são mais efetivas e dispendem recursos
financeiros de forma otimizada, além de identificar os fatores causais e incentivar a promoção
da saúde e a prevenção de doenças.
Infelizmente, não são todas as comunidades que possuem um acesso adequado à
saúde bucal. O termo ribeirinho designa qualquer população que reside às margens de rios.
Os ribeirinhos da região do Baixo São Francisco vivem em situação de vulnerabilidade social.
Eles possuem como sustento a renda que adquirem de pesca, agricultura familiar e artesanato,
dependendo diretamente do Rio São Francisco, que vem apresentando, nos últimos anos, uma
forte intervenção humana, degradando-o e, consequentemente, comprometendo o sustento
das famílias que dependem de suas águas.
Dessa forma, os objetivos deste trabalho foram: garantir às crianças das populações
ribeirinhas o acesso a ações educativas e preventivas em saúde bucal, contribuir para a
melhoria das condições de saúde bucal da população local, realizar um levantamento

394

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

epidemiológico simplificado, contribuir e subsidiar o planejamento das ações das equipes
de saúde bucal dos municípios.

Ações de Saúde Bucal no Baixo São Francisco

A IV Expedição Científica no Baixo São Francisco contou com uma equipe
multiprofissional de 65 pesquisadores, estudantes de 30 áreas do conhecimento, e ocorreu
durante os dias 30 de outubro e 10 de novembro de 2021. A equipe de saúde bucal integrou
a expedição, pelo segundo ano consecutivo, com o propósito de promoção e educação em
saúde bucal e de realização de um levantamento epidemiológico de cárie dental nessas
comunidades ribeirinhas.
A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de corte transversal, de caráter
descritivo, com metodologia de pesquisa-ação e desenvolvimento de ações educativas entre os
dias 01/10/2021 e 09/11/2021, cujo público-alvo foram os escolares da comunidade ribeirinha
do Baixo São Francisco. O cenário de atuação foram as escolas públicas dos municípios de
Alagoas: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu; e, em
Sergipe, Propriá.
Esta pesquisa-ação em promoção da saúde bucal foi coordenada por uma profissional
de Odontologia, professora do curso de Odontologia da Universidade federal de Alagoas
(Ufal), e por uma acadêmica do mesmo curso da Ufal, e contou com o apoio da equipe da
IV Expedição do Baixo São Francisco, da coordenação e de equipes de saúde bucal dos
municípios (Figura1).
Figura 1 - Equipe de Expedicionários da IV Expedição Científica do Baixo São Francisco

Fonte: AUTORAS, 2021.

A dinâmica para organizar as ações aconteceu através da articulação entre a coordenação
da Expedição com professores, secretários de Educação e Saúde e Coordenação de Saúde
Bucal de cada município. Assim, através de prévias reuniões virtuais, devido à pandemia
da Covid-19, planejaram-se as possibilidades de atividades a serem aplicadas em cada

395

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

comunidade, levando-se em consideração as peculiaridades de cada região, a forma de acesso
às escolas e à associação de moradores. Foi realizado, de forma remota, uma semana antes do
primeiro dia de Expedição, um curso de capacitação em levantamentos epidemiológicos para
os cirurgiões-dentistas e auxiliares em saúde bucal dos municípios de Traipu, Pão de Açúcar,
Piaçabuçu e Propriá, com o objetivo de atualizar e treinar os profissionais para a coleta de
dados epidemiológicos (Figura 2).
Figura 2 - Atividade de capacitação para os cirurgiões-dentistas e auxiliares de saúde bucal
dos municípios

Fonte: AUTORAS, 2021.

Como ferramentas de educação em saúde bucal, foram realizadas palestras com as
crianças sobre prevenção das doenças bucais (Figura 3). Em algumas cidades onde as escolas
dispunham de projetor multimídia, como datashow, foi possível proporcionar para as crianças
uma sessão cinema, com um vídeo educativo curto que relatava a importância de desenvolver
todos os processos relacionados à higiene bucal, desde escovar os dentes após cada refeição
ao uso do fio dental, e realizar a escovação da língua. Os filmes do Dr. Dentuço e da Dra.
Escovita (Colgate) foram os escolhidos para a exibição (Figura 4). Também foram realizados
jogos de mitos e verdades na Odontologia e demonstração de técnica de escovação e do uso
do fio dental (Figura 5).
O ensino da técnica de escovação foi ilustrado com o auxílio de macromodelo, escovas
dentais e fio dental. Os alunos realizaram atividades lúdicas, tais como caça-palavras, palavras
cruzadas e pinturas com as temáticas em questão: saúde bucal, cárie, placa bacteriana, hábitos
alimentares e sua relação com a doença cárie (Figura 6).

396

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 3 - Palestra para as crianças das escolas sobre educação em saúde bucal e hábitos alimentares

Fonte: AUTORAS, 2021.

Figura 4 - Vídeo educativo sobre educação e promoção em saúde bucal

Fonte: AUTORAS, 2021.

397

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 5 - Ensino de técnica de escovação para as crianças das escolas ribeirinhas

Fonte: AUTORAS, 2021.

Figura 6 - Crianças das escolas visitadas participando das atividades lúdicas relacionadas
à odontologia

Fonte: AUTORAS, 2021.

398

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Foi realizado um levantamento epidemiológico simplificado de cárie dentária nas
crianças das instituições, de 2-14 anos (Figura 7). Em dois municípios (Propriá e Penedo),
foram registrados casos de fluorose dental. Não estava previsto avaliar esta condição; porém,
chamou a atenção da examinadora a alta ocorrência e, por esse motivo, foi realizado o registro.
Após exame, as crianças fizeram escovação dental supervisionada e houve aplicação tópica
de flúor fosfato acidulado (ATF), seguindo o protocolo de biossegurança (Figuras 8 e 9).
A coleta de dados foi realizada em ambiente escolar, no período de 01/10/2021 a
09/11/2021, após treinamento e calibração dos examinadores. Consistiu em exame clínico
dos escolares e aplicação de questionário individual no momento do exame, após assinatura
do termo de consentimento pelos pais ou responsáveis. O exame clínico foi realizado na
escola, em salas de aula ou áreas abertas no ambiente escolar, sem profilaxia prévia, à luz
natural, com o auxílio de espátula de madeira e gaze. O diagnóstico da condição de saúde
bucal das crianças registrou a presença/ausência e severidade da cárie segundo critérios da
Organização Mundial da Saúde (OMS) relativo aos índices ceo-d e CPO-D (OMS, 1999).
A avaliação da prevalência de fluorose foi realizada para os municípios de Propriá e
Penedo, devido à observação da alta ocorrência na população estudada durante o exame, o
que chamou a atenção da pesquisadora.
Figura 7 - Levantamento epidemiológico simplificado nas crianças das escolas visitadas

Fonte: AUTORAS, 2021.

399

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 8 - Distribuição de kits de higiene oral para as crianças em situação de
vulnerabilidade social

Fonte: AUTORAS, 2021.

Figura 9 - Escovação supervisionada e aplicação tópica de flúor

Fonte: AUTORAS, 2021.

400

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Caso fosse identificada a necessidade de tratamento, a criança ou adolescente era
encaminhada/o para a Unidade Básica de Saúde mais próxima da sua residência; em alguns
momentos, já conversava com o dentista responsável, considerando a necessidade encontrada.
Em áreas descobertas pela Estratégia Saúde da Família, a Coordenação de Saúde Bucal
responsabilizava-se pelo encaminhamento.
Foram realizados uma entrevista estruturada e o exame bucal. Na entrevista com as
crianças, utilizou-se um questionário que compreendia: identificação da criança, informações
socioeconômicas, como idade da criança em anos, sexo, cor da pele, município de residência,
nome da escola e localização (zona urbana ou rural). Foi utilizada uma ficha para o exame
bucal, onde foram registrados dados referentes à cárie dentária, conforme os critérios do
ceo-d e CPO-D (OMS, 1999).
A coleta dos dados foi realizada pela docente e por equipes de dentistas da Rede de
Atenção à Saúde dos municípios, devidamente treinados. A equipe também era formada
pelos auxiliares em saúde bucal e por uma docente de graduação do curso de Odontologia,
que atuaram como anotadores.
Os instrumentos de coleta de dados foram revisados e os dados, digitados no Microsoft
Excel. Para a análise dos dados, foi utilizado o programa SPSS. Realizou-se, inicialmente, a
análise descritiva das variáveis de interesse, obtendo-se as frequências simples e relativas para
as variáveis categoriais e as medidas de tendência central e de dispersão para as contínuas.
Análises bivariadas foram realizadas posteriormente, considerando a presença de cárie dentária
como efeito principal (variável dicotômica) e sua associação com as variáveis demográficas.
A análise estatística foi realizada por meio de frequências relativas e absolutas, em gráficos
e tabelas; utilizou-se o teste estatístico qui-quadrado para as variáveis categóricas e o teste
estatístico Mann-Whitney para as contínuas. Adotou-se nível de significância de 5%.
Foi calculado o índice CPO-D para cada escolar participante que apresentasse
dentição mista ou permanente, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde.
Foram estimadas a prevalência de cárie dentária, medida pelo índice CPO-D > 0, e sua
gravidade (também chamada de experiência ou ataque de cárie dentária), aferida pelo
número médio de dentes cariados (C), perdidos (P) e obturados (O). Como há uma relação
matemática entre experiência de cárie medida pelo índice CPO-D e prevalência de cárie
medida pela porcentagem de indivíduos com CPO-D > 0, valores de CPO-D entre 2,7 e
4,4 são indicativos de nível moderado de cárie ou prevalência moderada; valores entre 1,2 e
2,6 são indicativos de prevalência baixa e valores inferiores a 1,2 refletem uma prevalência
muito baixa (WHO, 2003).
Com o intuito da manutenção da saúde bucal, houve a distribuição de kits de higiene
bucal como instrumentos indispensáveis para o autocuidado da boca, após as atividades
educativas, em todos os pontos visitados pela Expedição. Cada kit era composto por uma
escova dental, dentifrício fluoretado e um folheto educativo. Alguns vieram acompanhados
de fio dental, cedidos pela gestão dos municípios visitados.

Caraterização da população de estudo

A amostra não probabilística constituiu-se de 478 crianças e adolescentes estudantes de
escolas públicas, com idades entre 3 e 18 anos, das comunidades ribeirinhas, que compareceram
no dia da avaliação e apresentaram o consentimento pelos pais/responsáveis, por meio da
assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Todas as crianças e adolescentes
presentes nas comunidades no dia do estudo foram incluídos e examinados. A média de idade

401

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

foi de 8,68 anos (±2,75) e mediana 9 anos. A maioria (72,2%) possuía a cor da pele parda,
era do sexo feminino (52,3%), residente da zona urbana (80,75%) e proveniente de escolas
do município de Propriá (24,9%) (Tabela 1).
Tabela 1 - Características sociodemográficas da população de estudo. Baixo São Francisco,
2021 (n = 478).
Idade*
<= 9 anos
> 9 anos
Sexo
Feminino
Masculino
Etnia
Branco
Negro
Pardo
Amarelo

Variáveis

Município
Igreja Nova
Pão de Açúcar
Penedo
Piaçabuçu
Piranhas
Propriá
São Brás
Área da Escola
Urbana
Rural

N

%

212
263
234

44,63
55,37
52,35

213

47,65

65
33
288
13

16,29
8,27
72,18
3,26

28
56
38
76
29
119
30

5,86
11,72
7,95
15,90
6,07
24,90
6,28

386

80,75

92

*Dados perdidos.
Fonte: Elaborado pelas autoras, 2021.

19,25

Durante as visitas, observou-se o contexto geral das famílias de cada município
ribeirinho visitado. Em grande parte das cidades, foi possível ver que as casas são construídas
em alvenaria e o esgoto é coletado por meio de fossas sépticas ou a céu aberto, tendo como
destino o rio. Segundo relato dos professores das instituições visitadas, as crianças são de
famílias com baixo poder aquisitivo e frequentam a escola para terem ao menos uma refeição
garantida, a merenda escolar, visto que muitas famílias não têm condições de oferecer as três
refeições diárias mínimas e porque essa é uma das condicionalidades para receber o benefício
do Programa Bolsa Família (PBF).
Diante do cenário observado nas comunidades por Navas, Netter e O. Filho (2020),
durante a II Expedição Científica, em 2019, são evidentes as baixas taxas de alfabetização
entre os adultos, principalmente os homens. Com relação ao saneamento básico, o acesso
ao sistema de esgotamento sanitário e de coleta de lixo tem sido inexistente ou insuficiente
para atender às famílias. Com relação ao abastecimento de água, apresenta-se como fator
limitante para algumas comunidades, principalmente para garantir a produção agrícola/animal,
refletindo no rendimento familiar e criando uma dependência dos programas de transferência

402

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

de renda, como o PBF. A região do Baixo São Francisco apresenta os piores indicadores
socioeconômicos, com um Produto Interno Bruto (PIB) de 9% do PIB da bacia inteira.
A relação entre condições socioeconômicas e condições de saúde é bem estabelecida
na literatura (PERES et al., 2003; MELO, 2011; ALLIN; STABILE, 2012). De acordo
com Peres e colaboradores (2003), os indicadores de renda, nível de escolaridade dos pais,
número de membros da família e condições de moradia têm sido utilizados com êxito na
estratificação social da população. Embora não tenham sido coletados dados relativos aos
fatores socioeconômicos no presente estudo, observou-se, durante as visitas aos municípios, que
a maioria das crianças eram membros de famílias com uma menor condição socioeconômica.
O nível de educação é um importante marcador de condição socioeconômica, pois altos
níveis de escolaridade, geralmente, são preditores de melhores postos de trabalho e melhores
condições de moradia. Peres e colaboradores (2003) apontam, como outras vantagens desse
marcador da condição socioeconômica, o fato de ser aplicado a ambos os sexos, ser usado
para pessoas fora do mercado de trabalho e apresentar um comportamento estável ao longo
da vida adulta.

Condição de saúde bucal

A cárie na infância é um problema de saúde pública que continua a afetar as crianças
em todo o mundo, caracterizando-se como uma das doenças mais comuns neste grupo etário.
Sua prevalência varia em diferentes populações e apresenta-se de forma desigual entre as
regiões brasileiras, sendo as crianças em desvantagem socioeconômica as mais vulneráveis.
Em relação à condição de saúde bucal na dentição decídua, 45,3% dos escolares
avaliados encontravam-se livres de cárie, ou seja, a prevalência da cárie foi de aproximadamente
54,7%. Para a dentição decídua, 45,1% das crianças encontravam-se livre de cárie, ou seja,
mais da metade dos escolares apresentaram pelo menos 1 dente decíduo com história presente
ou pregressa de cárie dentária. O ceo-d foi de 1,72 (DP = 2,41) e, quanto à sua distribuição
percentual, 95,35% representavam dentes cariados, apenas 4,07% eram obturados e 0,58 com
extração indicada por cárie (Gráfico 1), o que significa dizer que há uma presença da doença
ativa, com necessidade de tratamento.
A experiência de cárie dentária na dentição decídua continua a ser um problema
relevante no Brasil. O desenvolvimento de pesquisas nesse âmbito possibilita maior
conhecimento e compreensão da realidade sobre a experiência da doença na população
infantil e uma compreensão acerca da necessidade de tratamento, além de orientar a adoção
de medidas preventivas e curativas para a minimização dos prejuízos causados pela cárie
dentária (SILVA et al., 2018).

403

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Gráfico 1 - Composição percentual do ceo-d

Fonte: Elaborado pelas autoras, 2021.

A alta prevalência da cárie na dentição decídua nessa população é superior à encontrada
em alguns estudos nacionais (CANGUSSU et al., 2016; COUTINHO et al., 2009; PIVA et
al., 2017). Outros estudos, entretanto, apresentam maior ocorrência da doença (PERES et al.,
2003; BRASIL, 2004; BAHIA, 2006; PIVA et al., 2017; BALDANI et al., 2017). No estudo
realizado em Salvador, por Almeida e colaboradores (2009), envolvendo 1.374 crianças de
5 anos de idade, a prevalência de cárie foi de 49,6%.
Em um estudo transversal desenvolvido por Carminatti et al. (2017), as 93 crianças
avaliadas foram divididas em três grupos, de acordo com a faixa etária: 29 (31,2%) crianças
tinham entre 3 anos e 3 anos e 11 meses; 30 (32,3%) crianças, entre 4 anos e 4 anos e 11 meses
e 34 (36,6%) crianças entre 5 anos e 5 anos e 11 meses de idade. Conforme o índice ceo-d, 49
(52,7%) crianças eram livres de cárie; 18 (19,4%) apresentavam cárie de baixa gravidade; 26
(28%), cárie de alta gravidade (Tabela 2). Ou seja, um pouco menos da metade das crianças,
equivalente a 47%, apresentaram cárie, o que é um número significante.

404

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Tabela 2 - Número de crianças e adolescentes examinados de acordo com a idade e o índice
de cárie, Baixo São Francisco, 2021 (n = 478)
Idade

Examinados

CPO-D médio

ceo-d médio

4

16

.

1,81

6

64

3
5
7

3

20

0,05

83

0,21

8

147

10

79

9

11
12
13

.

0,09
0,45

28

0,70
0,74

46

0,90

18

1,00

8

0,8

14

10

0,90

16

3

2,00

15
18

13

1,31

1

7

Fonte: Elaborado pelas autoras, 2021.

4,33
1,96
1,85
2,44
2,22
2,22
0,97
0,83
.
.
.
.
.
.

Essa variação nas prevalências pode ser atribuída às diferenças na definição de caso
e nos critérios de diagnóstico, além da influência dos fatores de risco (PRIYADARSHINI
et al., 2011). A falta de padronização na aferição dos eventos e a obtenção de amostras não
representativas da população de referência, entre outros aspectos, podem comprometer
significativamente as estimativas geradas e, consequentemente, a comparação dos resultados.
No Brasil, a cárie está declinando, se comparados os resultados dos levantamentos
epidemiológicos nacionais. O inquérito nacional de saúde bucal, publicado em 2004, avaliou as
condições de saúde bucal de crianças na faixa etária de 18 a 36 meses e os resultados revelaram
que cerca de 27% das crianças apresentaram pelo menos um dente decíduo cariado; essa
prevalência subiu para cerca de 60% nas crianças com 5 anos de idade. O ceo-d na faixa etária
de 18 a 36 meses foi de 1,07 e este índice apresentou variações entre as regiões do Brasil. Na
região Nordeste, as crianças de 18 a 36 meses possuíam, em média, 1 dente decíduo atacado
pela cárie em 2003. Entre as crianças de 5 anos, o ceo-d foi igual a 2,8, sendo o componente
cariado responsável por mais de 80% deste índice (BRASIL, 2004).
Em 2010, de acordo com os dados do último levantamento realizado pelo Ministério
da Saúde, aos cinco anos de idade, uma criança brasileira possuía, em média, 2,43 dentes com
experiência de cárie. Novamente, diferenças são observadas entre as regiões. As médias do
índice ceo-d são mais elevadas nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, em comparação
com as regiões Sul e Sudeste. Observou-se uma distribuição desigual da cárie no território
nacional, estando em pior situação os Estados do Nordeste comparados aos do Sul e Sudeste.
Nesse levantamento, o percentual de crianças livres de cárie, no Brasil, foi de 46,6%; na região
Nordeste, 41,6% e em Salvador, 56,5% (BRASIL, 2011).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Federação Dental Internacional
(FDI), em 1982, recomendaram, através do estabelecimento das “Metas globais para saúde
oral para o ano 2000”, que 50% das crianças de 5-6 anos estivessem livres de cárie naquele

405

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

ano. Observa-se que o país não atingiu essa meta, pois registraram-se apenas 40,62% livres
de cárie e na região Sudeste, 44,92% (BRASIL, 2004).
Houve um grande número de crianças livres de cárie na amostra estudada, cerca
de 45%. Entretanto, o ceo-d variou de 0 a 17. Utilizando a classificação do ceo-d proposta
por Coutinho e colaboradores (2009), 37,11% das crianças apresentaram ceo-d médio, que
corresponde à presença de 1 a 3 dentes afetados pela cárie, e 17,63% tiveram ceo- alto, ou
seja, quatro ou mais dentes com história de cárie. A ocorrência dos índices ceo-d médio e
alto é um dado importante, pois revela que uma parcela das crianças é acometida por cárie
numa faixa etária precoce. Um fato bastante preocupante dentro deste quadro epidemiológico
é a ocorrência de ceo-d alto, o que demonstra a gravidade da doença acometendo um maior
número de dentes irrompidos.
O índice ceo-d de 1,72 (DP = 2,41) foi maior que o observado por Peres e colaboradores
(2003) em crianças de 6 anos em São Paulo. Vale destacar que os critérios diagnósticos para a
cárie utilizados por esse autor foram os mesmos adotados neste estudo, considerando cariado
o dente que apresentasse lesão cavitada, segundo critérios da OMS adotados nos inquéritos
nacionais (BRASIL, 2004; BRASIL, 2011).
Em relação à composição percentual do índice ceo-d, o componente cariado representa
95,35% dos dentes com história atual ou pregressa de cárie. Esse resultado está de acordo
com o encontrado em todos os estudos nacionais avaliados e denota uma alta necessidade
de tratamento dessas crianças (PERES et al., 2003). No levantamento nacional, também
houve predomínio do componente cariado do ceo-d, responsável por mais de 80% do índice
(BRASIL, 2011). Esse resultado pode suscitar a hipótese de que as crianças das creches de
Salvador investigadas não têm acesso aos serviços odontológicos, seja porque seus pais ou
responsáveis não têm tempo de levá-las ao dentista, pelo desconhecimento da necessidade
de tratamento da dentição decídua ou, ainda, pela deficiência na prestação de serviços
odontológicos públicos, principalmente para esta faixa etária.
As crianças que apresentam cárie dental na primeira infância têm maior probabilidade
de desenvolver cáries subsequentes tanto na dentição decídua quanto na permanente, como
também apresentam problemas oclusais, dificuldade de se alimentar e baixo peso, devido à
associação da dor ao ato de comer. Dessa forma, a prevenção e o manejo da cárie prevalente
na infância deve ter início precoce na vida da criança, já que esse problema é evidente em
crianças tão pequenas e devido às suas características destrutivas (COUTINHO et al., 2009).
Com relação à experiência de cárie na dentição permanente, 32,49% dos escolares
apresentavam, pelo menos, um dente atacado por cárie. O CPO-D foi de 0,66 (DP = 1,16),
característico de uma situação de baixa prevalência (WHO, 2003). Quanto à distribuição
percentual do CPO-D, 86,55% representavam dentes cariados, 6,91% eram obturados por
cárie, o que se constitui em perda precoce dos elementos dentários na faixa etária avaliada e
demonstra uma alta necessidade de tratamento (Gráfico 2).
O panorama epidemiológico da cárie dentária é caracterizado pelo declínio que vem
ocorrendo em diferentes regiões brasileiras. Contribuem para esse resultado a fluoretação
das águas de abastecimento, a adição do flúor nos dentifrícios no final da década de 1980
e a reforma do SUS, criando condições para ampliação e reorientação das ações em saúde
bucal (PERES, 2008).

406

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Gráfico 2 - Composição percentual do CPO-D

Fonte: Elaborado pelas autoras, 2021.

No Brasil, verificamos que houve um decréscimo ao avaliarmos o índice CPO-D para
a idade de 12 anos, visto que, na década de 1980, este era em torno de 7,6; em 1993, de 4,8;
em 2003, de 2,8 e, em 2010, foi igual a 2,07. Na região Nordeste, verificou-se que a doença,
aos 12 anos, saiu de um CPO-D de 3,19 (em 2003) para 2,63 (em 2010), apresentando a
segunda maior prevalência de cárie em todo o Brasil por região (BRASIL, 2011).
No Brasil, a prevalência dessa doença em crianças da idade-índice de 12 anos caiu de
96,3% para 68,9%, entre 1980 e 2003, até chegar a 56,0% em 2010, devido, principalmente,
a: 1) aumento do acesso a água e creme dental fluoretados e 2) mudanças nos objetivos dos
programas locais de saúde bucal, que passaram a enfatizar a promoção da saúde e ações
preventivas específicas (BRASIL, 2004; BRASIL, 2011; PERES et al., 2003). Apesar dessas
melhorias, a cárie é desigualmente distribuída, conforme o nível socioeconômico, com uma
pequena proporção de adolescentes concentrando a maior parte da carga da doença. A
maioria desses adolescentes vive em áreas onde a taxa de pobreza é alta, com indicadores
socioeconômicos ruins e consumo de água não fluoretada. Muitas dessas áreas estão localizadas
na Amazônia brasileira, um vasto território do Norte do Brasil, onde são raros os inquéritos
de saúde (FRAZÃO et al., 2010).
Os dados do presente estudo evidenciam a ocorrência da polarização da cárie dentária,
pois, apesar do alto percentual de crianças livres de cárie, as que possuem a doença apresentam
uma alta gravidade. Este fenômeno, conhecido como polarização, consiste na concentração
da maior parte das doenças e das necessidades de tratamento em uma pequena parcela
da população, considerada de alto risco. Tal grupo minoritário caracteriza-se por ser mais
susceptível, por estar mais exposto a fatores de risco, desprotegido e com maior vulnerabilidade
social. Tal condição de doença bucal, atualmente, ainda é uma realidade, principalmente em
regiões que se encontram em vulnerabilidade social, como as comunidades visitadas ao longo
do Velho Chico.

407

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Dados semelhantes aos do presente estudo foram encontrados em outros trabalhos
que envolvem comunidades ribeirinhas, que alegam a necessidade de políticas preventivas de
saúde pública, ofertando também mais convergência no atendimento odontológico a regiões
de difícil acesso. A elaboração de pesquisas e programas de saúde com base nas características
regionais reduziriam as grandes desigualdades sociais existentes devido à ausência de políticas
públicas direcionadas às populações rurais, em especial a ribeirinha (FRAZÃO, 2010).
Na análise bivariada, observou-se que as diferenças na ocorrência da cárie entre os
escolares de ambos os sexos não foram significativas (Tabela 3). Também não foram observadas
diferenças estatísticas significativas com relação à idade e etnia. Embora a prevalência de
cárie tenha sido numericamente maior para a área urbana (82,2%), a diferença não foi
estatisticamente significativa (p = 0,338) (Tabela 3).
Tabela 3 - Características sociodemográficas da população de estudo de acordo com a
presença de cárie dentária. Baixo São Francisco, 2021 (n = 478)
Ceo/CPO = 0

Covariáveis
Área da escola

Urbana
Rural

Idade

<= 9 anos

Cárie dentária

(n = 213)

n

Ceo/CPO ≠ 0
(n = 234)

p-valor

%

n

151

78,6

235

82,2

41

21,4

51

%

17,8

> 9 anos

100

91

47,6

161

56,7

Feminino

86

48

148

55,2

23

14,4

14

8,8

Sexo

Masculino

Etnia

Branco

93

Pardo

117

Amarelo

6

Negro

52,4

52

123

120

43,3

44,8

0,338

0,0527

0,136

73,1
3,8

Fonte: Elaborado pelas autoras, 2021.

0,824

Inquéritos transversais são estudos adequados quando o objetivo é descrever uma dada
realidade para um determinado momento. Não obstante, estudos envolvendo a distribuição da
cárie dentária em grupos populacionais específicos de municípios pequenos, cujo padrão de
cárie é desconhecido, podem enfrentar limitações decorrentes do tamanho da amostra quando
se busca explorar diferenças; principalmente, quando a distribuição da cárie aproxima-se de
um padrão de baixa prevalência (FRAZÃO, 2010).
Neste estudo, foi incluída a avaliação da fluorose dentária em dois municípios. A
fluorose dentária é consequência da exposição do germe dentário, durante o seu processo
de formação, a altas concentrações do íon flúor, decorrente da ingestão crônica. Como
resultado, têm-se defeitos de mineralização do esmalte, com severidade diretamente associada
à quantidade ingerida. Geralmente, o aspecto clínico é de manchas opacas no esmalte, em

408

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

dentes homólogos, até regiões amareladas ou castanhas em casos de alterações mais graves
(SOARES et al., 2010). Além da dosagem de flúor, outros fatores interferem na severidade da
doença: baixo peso corporal, taxa de crescimento esquelético e períodos de remodelamento
ósseo constituem-se fases de maior absorção do flúor; estado nutricional, altitude e alterações da
atividade renal e da homeostase do cálcio também são fatores relevantes (DENBESTEN, 1999).
No município de Penedo, dos 38 escolares avaliados, 11 apresentavam fluorose, o
que representa uma prevalência de 28,9% (Gráfico 3). Em um levantamento epidemiológico
realizado no município no ano 2020, foram avaliadas 2.335 crianças em 11 escolas
municipais e foi encontrada uma prevalência de 56,1% de fluorose. Dessa forma, pode-se
concluir que, no município de Penedo-AL, existe alta prevalência de fluorose dentária nos
escolares de 7-12 anos, destacando-se os graus muito leve ou leve (SANTOS; MENDES;
KANTOVITZ, 2021).
Gráfico 3 - Prevalência de fluorose nos municípios de Penedo e Propriá, 2021

Fonte: Elaborado pelas autoras, 2021.

Já em Propriá, na zona rural, dos 25 alunos com 11 anos ou mais examinados,
96% apresentam esse defeito de formação do esmalte dentário. Esse achado chamou a
atenção e foi repassado para a coordenação de saúde bucal e para o prefeito do município.
Foi solicitada à Vigilância Sanitária municipal uma avaliação da concentração de flúor na
água de abastecimento público, pois foi levantada a hipótese de que se encontra acima das
concentrações recomendadas, podendo ser um fator responsável pelo surgimento de fluorose
nas crianças. Também foi orientada à Coordenação de Saúde Bucal a realização de um
levantamento epidemiológico de fluorose dentária no município, com um exame de amostra
representativa de crianças.
Os estudos, no Brasil, mostram uma prevalência baixa e muito variável, desde 3% no
município de Catalão-GO, para crianças de 7 a 12 anos, até 63,7% em escolares de 4 a 18
anos do município de Santa Tereza-RS (SOARES et al., 2012). A prevalência, no país, é de
8,56%, sendo de 3,68% na Região Nordeste (BRASIL, 2011).

409

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Atenção à saúde bucal

Os resultados do levantamento epidemiológico realizado evidenciam, em parte, a
lacuna na atenção à saúde bucal. Embora a maioria dos municípios possua uma alta cobertura
das equipes de saúde bucal na Estratégia Saúde da Família (ESF), como pode ser observado
no Quadro 1, alguns pontos podem ser identificados como limitadores do acesso aos serviços.
Dentre eles, a falta do desenvolvimento de ações educativas e de prevenção pelos profissionais
de saúde bucal dos municípios, a dificuldade de acesso ao atendimento na Unidade Básica de
Saúde (UBS) em áreas sem ESF, a distância de muitos povoados até a UBS e a existência de
áreas descobertas pela ESF. Tais pontos negativos sinalizam a necessidade do desenvolvimento
preponderante de ações preventivas, maior envolvimento dos gestores, maior compromisso
dos profissionais de odontologia e melhor acesso à informação pela comunidade. Uma grande
limitação relaciona-se às práticas de educação em saúde, que precisam ser permanentes para
se consolidar.
Quadro 1 - Rede de Atenção à Saúde Bucal nos municípios envolvidos na IV Expedição
Município
Traipu
Piaçabuçu
Propriá

Número de Equipes de

Cobertura da

Existência de CEO e

Dentistas na AB em áreas

50%

Não há

São 6 ESF

100%

Não tem

ESB 09 E ESF 10

100%

Saúde Bucal

04 equipes de ESF e 02

Saúde Bucal

descobertas

especialidades

1 CEO: pacientes especiais,

prótese, endodontia, periodontia
e cirurgião bucomaxilo

1 CEO: cirurgia, periodontia,
Piranhas
Pão de Açúcar
São Brás

Igreja Nova

7 equipes ESF

95,89%

7 ESB

80%

3 ESB

100%

10 ESB

100%

endodontia, odontopediatria,
pacientes especiais e prótese
dentária
Não há
Não há

CEO tipo II, com as seguintes
especialidades: endodontia,

periodontia, cirurgia, pacientes
especiais e prótese

Penedo

19 ESB

100%

Fonte: Elaborado pelas autoras, 2021.

1 CEO: cirurgia e estomatologia,
endodontia, paciente especial,
periodontia

Dessa forma, as dificuldades não residem apenas na cobertura da assistência e na
qualidade dessa assistência; há outros determinantes, como, por exemplo, o modelo de atenção
prestado pelos profissionais. Embora a ESF preconize o cuidado centrado na pessoa, na família
e não na doença, além da ênfase nas ações de promoção da saúde e preventivas, ainda existem
odontólogos que exercem sua função na lógica da odontologia mutiladora, que há muito
vem sendo superada com uma filosofia de Promoção de Saúde, com cobertura assistencial
adequada e de qualidade, tendo como base a saúde como direito (ARDENGHI et al., 2013).

410

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Pouco se sabe sobre a atuação das equipes de saúde bucal nessas comunidades no
contexto da reorganização da Atenção Básica (AB) por meio da Estratégia Saúde da Família
(ESF). De uma forma geral, é sabido que, de uma fase inicial que priorizava apenas as áreas
de maior risco social, essa iniciativa expandiu-se para afirmar-se como uma estratégia de
mudança do modelo de atenção básica à saúde adotado no Brasil. Todavia, constatam-se
importantes dificuldades para produzir mudanças no modelo de atenção à saúde bucal.
Certamente, a educação em saúde é um processo contínuo e, em comunidades remotas,
torna-se uma tarefa ainda mais desafiadora. Contudo, diante deste desafio, as metas de uma
saúde bucal com compromisso com a saúde e o bem-estar do próximo envolvido na profissão
da Odontologia tornam-se algo plausível de ser realizado (AMARAL et al., 2017).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Verifica-se, no presente estudo, que os índices avaliados mostram-se maiores que os
apresentados nos levantamentos epidemiológicos nacionais, demonstrando a necessidade
de acesso a serviços odontológicos a esta população, além de continuidade de programas
preventivos e educativos na região.
Com relação à cárie dentária, a compreensão de seu surgimento e desenvolvimento
ultrapassa as clássicas explicações centradas na Biologia ou em padrões de comportamento.
O presente estudo permite levantar hipóteses quanto aos fatores ambientais e o papel das
variáveis socioeconômicas que contribuem para as condições de saúde bucal das crianças;
serve como base para orientar ações e serviços de odontologia dos municípios envolvidos
e busca colaborar para a compreensão do processo saúde-doença-cuidado para além da
visão biologicista.
A atuação das equipes de saúde bucal deve ser pautada no paradigma da Promoção
em Saúde Bucal, considerando os determinantes sociais em saúde, identificando as reais
necessidades e problemas de saúde e buscando respostas para aumentar a qualidade de vida
das comunidades, propiciando informações e condições para que elas possam acessar melhores
níveis de saúde, principalmente para os grupos que estão em situação de vulnerabilidade
social, como é o caso das comunidades ribeirinhas.

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414

CAPÍTULO 21 - INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS NA
REGIÃO DO BAIXO SÃO FRANCISCO: PROSPECÇÃO
DE CAMPO PARA AVALIAÇÃO DO POTENCIAL
PARA NOVOS RECONHECIMENTOS, COM
DESTAQUE PARA A ILHA DO FERRO
Camila Moura Lacerda1

Tatiane Luciano Balliano2

Alexandre Guimarães Vasconcellos3
Resumo: A Indicação Geográfica (IG) é um instrumento de propriedade intelectual utilizado
para identificar a origem de produtos ou serviços quando o local tenha se tornado conhecido
ou quando determinada característica ou qualidade do produto ou serviço deva-se à sua
origem. O objetivo da pesquisa foi fazer uma prospecção de campo a partir da IV Expedição
Científica do Rio São Francisco, realizada entre 1º e 11 de novembro de 2021, visando avaliar
o potencial para novos reconhecimentos na mesorregião do Baixo São Francisco (BSF), com
destaque para a Ilha do Ferro. A metodologia utilizada foi a pesquisa-ação, que é um tipo
de investigação social realizada em estreita associação com uma ação de interesse coletivo,
em que os pesquisadores e os participantes representativos da situação estão envolvidos de
modo cooperativo ou participativo. A interação com produtores e autoridades dos municípios
permitiu tomar conhecimento de uma grande diversidade de produtos regionais que já têm
reputação reconhecida ou estão em vias de construí-la. No caso específico da Ilha do Ferro,
foi possível verificar, através de diagnóstico construído por meio de levantamento de matérias
jornalísticas, reuniões com as autoridades do município e visita da equipe de pesquisadores
ao local, que o bordado Boa Noite, lá produzido, já é conhecido dentro e fora da região. Com
base no diagnóstico, também foram apontadas algumas ações que podem contribuir e abrir
caminhos para viabilizar o reconhecimento de uma indicação geográfica para o bordado Boa
Noite da Ilha do Ferro e para a valorização do saber-fazer existente na região.
Palavras-chave: Propriedade Intelectual. Indicação Geográfica. Ilha do Ferro. Bordado.
Desenvolvimento Regional.

INTRODUÇÃO
O objetivo desta pesquisa, iniciada na IV Expedição Científica do Rio São
Francisco, é tentar compreender como os instrumentos de propriedade intelectual
e, em especial, as Indicações Geográficas (IGs) podem contribuir para a valorização
cultural, técnica, social e econômica do saber-fazer das populações que habitam o Baixo
São Francisco (BSF), incluindo-se, entre elas, comunidades tradicionais, a exemplo de
ribeirinhos, quilombolas e indígenas.
1 Advogada, mestranda PROFNIT - UFAL, e-mail: mila-lacerda@hotmail.com / mouralacerdac@gmail.com
2 Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Instituto de Química e Biotecnologia, Coordenadora do Mestrado
Profissional em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação – PROFNIT/UFAL,
Email: tlb@qui.ufal.br.
3 Pesquisador Classe Especial III, Divisão de Pós-graduação e Pesquisa da Academia de Propriedade Intelectual,
Inovação e Desenvolvimento do Instituto Nacional da Propriedade Industrial. E-mail: alexguim@inpi.gov.br.

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

A interação com produtores e autoridades dos municípios permitiu tomar
conhecimento de uma grande diversidade de produtos regionais, como o mel do Sertão
alagoano, cuja cooperativa, relacionada no município de Piranhas, já agrega mais de 100
associados; o doce de batata-doce de Propriá; a pimenta-rosa e o bolo de macaxeira de
Piaçabuçu; o bordado Boa Noite e o artesanato em madeira da Ilha do Ferro.
O processo de identificação do potencial de Indicações Geográficas como ferramenta
para o desenvolvimento regional sustentável envolve a compreensão de que é a comunidade
envolvida que deve ser a maior protagonista do processo e deve compreender como a
identificação da região nos produtos, com a devida preservação da qualidade, pode servir
como um diferencial para distinguir os produtos da região e, consequentemente, ter o efeito
direto de agregar valor aos mesmos.
Alguns trabalhos, como o de Tonietto e colaboradores (2022), têm discutido os
principais benefícios observados a partir do reconhecimento das Indicações Geográficas e,
no caso específico do trabalho citado, tratam das pioneiras IGs de vinhos no Rio Grande
do Sul, destacando:
1) Foram a base para um importante salto na qualidade intrínseca geral
dos produtos das regiões tradicionais delimitadas e para as regiões
vizinhas e/ou limítrofes;
2) Constituíram-se no motor central do desenvolvimento econômico,
social e ambiental das regiões delimitadas, via incremento da atividade
de produção vitivinícola associada ao enoturismo, à enogastronomia,
à hotelaria, à produção de insumos diversos, ao patrimônio cultural,
gerando necessidade de incremento da infraestrutura pública e
privada e aumentando o sentimento de pertencimento comunitário e
de valorização do patrimônio material e imaterial dos territórios das
indicações geográficas;
3) Serviram de exemplo a ser seguido por produtores de outras
regiões do país, tendo de algum modo contribuído para motivar novos
investimentos e projetos vitivinícolas em vários estados brasileiros,
dinâmica esta que veio a formar o que atualmente convenciona-se
chamar “novas regiões vitivinícolas brasileiras”;
4) Também serviram de “case” para processos de estruturação de
inúmeras indicações geográficas brasileiras de vários outros produtos,
além de motivar processos semelhantes em regiões vitivinícolas dos
estados de Santa Catariana, Pernambuco e Bahia, bem como para
desenvolver este potencial em outros estados, como Minas Gerais e São
Paulo;
5) Permitiram o alinhamento da vitivinicultura gaúcha e brasileira
aos exigentes mercados internacionais consumidores de vinho;
6) Permitiram, da mesma forma que ocorre nos tradicionais países
vitícolas mundiais, ressaltar e dar maior visibilidade às diferenças
concretas existentes entre as áreas de produção, decorrentes de
especificidades de clima, solo, relevo, aptidão enológica de variedades,
práticas vitícolas e enológicas e fatores históricos e culturais; como
consequência, a apresentação internacional dos vinhos do Brasil.

416

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

A partir da compreensão do benefício direto que pode ser gerado aos produtores
pela IG, outras camadas de benefícios sociais somam-se, como, por exemplo, no que tange à
qualificação técnica dos produtores envolvidos no processo e à melhoria do turismo qualificado,
com foco na cultura e nos produtos regionais, o que pode beneficiar, de maneira substancial,
os municípios envolvidos nos aspectos educacionais, técnicos, sociais e econômicos. Sendo
assim, também faz-se necessário, para que o projeto de pesquisa possa gerar subsídios para
um futuro reconhecimento de uma ou mais Indicações Geográficas, que os poderes públicos
local e regional estejam envolvidos e anseiem por esse reconhecimento.
Esta primeira incursão no campo, por ocasião da IV Expedição, já gerou desdobramentos
e um projeto conjunto sobre a história e o território do bordado da Ilha do Ferro e seu potencial
para futuro reconhecimento como uma Indicação Geográfica (Figura 1). Isso já foi iniciado
pela mestranda Camila Moura Lacerda, que está sendo orientada pela professora Tatiane
Balliano no Profnit/Ufal e coorientada pelo professor Alexandre Guimarães Vasconcellos,
do Inpi, sendo, por esse motivo, estes três os autores deste capítulo.
Figura 1 - Produtos potenciais catalisadores do reconhecimento de Indicação Geográfica
em Alagoas e Sergipe

Fonte: AUTORES, 2021.

DESENVOLVIMENTO

Esta pesquisa utiliza como metodologia técnicas de pesquisa participativa e, em
especial, pesquisa-ação.
Conforme definido por Thiollent (1985), a pesquisa-ação é um tipo de investigação
social com base empírica, concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a
resolução de um problema coletivo em que os pesquisadores e os participantes representativos
da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.

417

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O planejamento da pesquisa-ação difere significativamente de outros tipos de
pesquisa, não apenas em virtude de sua flexibilidade, mas, sobretudo, porque, além dos aspectos
referentes à pesquisa propriamente dita, envolve também a ação dos pesquisadores e dos grupos
interessados, o que ocorre nos mais diversos momentos da pesquisa. Daí porque torna-se
difícil apresentar seu planejamento a partir de fases ordenadas temporalmente (GIL, 1991).
Na pesquisa-ação, ocorre um constante vaivém entre as fases, determinado pela
dinâmica do grupo de pesquisadores em seu relacionamento com a situação pesquisada.
Assim, o que se pode, à guisa de delineamento, é apresentar alguns conjuntos de ações que,
embora não ordenados no tempo, podem ser considerados como etapas da pesquisa-ação
(GIL, 1991).
São eles, segundo Gil (1991):
a)
fase exploratória;
b)
formulação do problema;
c)
construção de hipóteses;
d)
realização do seminário;
e)
seleção da amostra;
f)
coleta de dados;
g)
análise e interpretação dos dados;
h)
elaboração do plano de ação;
i)
divulgação dos resultados.
Desta forma, o conjunto da pesquisa-ação serve-se de uma metodologia sistemática,
não necessariamente linear, que tem a perspectiva de transformar as realidades observadas a
partir de sua compreensão, conhecimento e compromisso para a ação dos agentes envolvidos na
pesquisa. Portanto, o objeto da pesquisa-ação é indissociável de seu contexto e os pesquisadores
envolvidos devem estar muito cientes disso e próximos da realidade estudada, para não
correrem o risco de, ao tentar analisar um conjunto de variáveis isoladas sem considerar o
contexto, esvaziá-la.

Fase Exploratória

A IV Expedição Científica do Rio São Francisco, realizada no período de 1º a 10 de
novembro de 2021, constituiu a fase exploratória da pesquisa, em que foram estabelecidos
contatos e visitas pelo professor doutor Alexandre Guimarães Vasconcellos, em companhia
do professor doutor Fabiano Leite Gomes, a algumas Associações de produtores, como
a Cooperativa dos Produtores de Mel, Insumos e Produtos da Agricultura Familiar
(Coopeapis), localizada na AL 220, s/n, Distrito de Piau, Piranhas-AL, CEP: 57460-000,
CNPJ: 08418802/0001-280, telefone: (82) 99800-0635, e-mail: coopeapis@hotmail.com, no
dia 1º de novembro, e a Associação Aroeira, localizada na Rodovia Dalmo Santana, Km 3,
Piaçabuçu-AL, CNPJ: 14026278/0001-42, informações e distribuição: Instituto Ecoengenho
(www.ecoengenho.org.br), contatos: Sra. Rita e Sr. Jorge, telefone: (82) 9831-9998, no dia
08 de novembro de 2021. Além dessas associações, foi visitada a loja Vovô Félix – Doces
Caseiros de Propriá, localizada na Avenida Pedro Abreu de Lima, 258, Propriá-SE, CNPJ:
13.721.267/0001-10, telefones: (79) 3322-1962/99917-5002, e foram visitadas quatro
comunidades quilombolas, duas comunidades de agricultores e a comunidade indígena
Aconã, onde tivemos a oportunidade de estabelecer contato com o cacique Saraiva, sua filha
Iara e o pajé Reinaldo.

418

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Também foi possível observar as condições de vida de várias comunidades e identificar
projetos interessantíssimos, como o das guardiãs de sementes, liderado pela Dona Maria
Francisca, na comunidade Poço Doce 2, no município de Piranhas, onde estão depositadas
mais de 50 espécies e variedades vegetais tradicionalmente plantadas pela comunidade
e adaptadas à região da Caatinga. Observou-se também o destaque da organização e do
empoderamento das mulheres em vários povoados quilombolas, onde elas eram maioria em
todas as reuniões presenciais que tivemos.
Além disso, tomou-se conhecimento, através de contato com integrantes da Prefeitura
de Pão de Açúcar, da reputação existente na Ilha do Ferro e do envolvimento da comunidade
local com a produção do bordado e do artesanato, que, segundo esses relatos preliminares, já
apontariam que a localidade tornou-se conhecida como centro de produção e fabricação do
bordado e do artesanato, o que é o requisito principal para que o nome geográfico da cidade,
região ou localidade possa ser reconhecido como Indicação Geográfica.

Formulação do Problema

O Baixo São Francisco (BSF) insere-se em mesorregião que compreende os Estados
de Alagoas e Sergipe, uma área de 25.000 quilômetros quadrados onde vivem cerca de 1,5
milhão de habitantes, dos quais 440.000 residem em áreas ao longo do Rio São Francisco. Por
localizar-se em ambiente árido, o BSF tem na água do Rio São Francisco a principal força
motriz das comunidades (SOARES et al., 2020). Fatores ligados a pesca, aquicultura, geração
de energia hidrelétrica, poluição dos corpos d’água por esgotos das cidades e agrotóxicos
utilizados em plantações, assoreamento, desmatamento da vegetação marginal, escasseamento
e extinção de espécies de ocorrência natural, entre outros, permeiam o cotidiano dessas
comunidades e impactam diretamente a qualidade de vida das pessoas que vivem na localidade.
Os indicadores socioeconômicos da região estão abaixo da média nacional e o Índice
de Desenvolvimento Humano de alguns municípios visitados pela IV Expedição, como
Piranhas (0,598), Pão de Açúcar (0,593), Penedo (0,630), Propriá (0,661) e Piaçabuçu (0,572),
são classificados como de IDH médio (entre 0,550 e 0,699) (IPEA, 2017), segundo o último
Censo de 2010 (IBGE, 2022).
Pensando na melhoria desses indicadores, deve ser levado em conta que o conceito
de segurança humana tem avançado ao longo dos últimos anos e o debate tem deslocado-se
da ideia de segurança territorial para segurança das pessoas. Essa ideia foi, definitivamente,
encampada pela Assembleia-Geral das Nações Unidas, em 2012, que convocou os especialistas
em segurança e os responsáveis por formulação de políticas a olhar mais adiante da proteção
do Estado-nação para proteger o que mais importa em nossas vidas: necessidades básicas,
integridade física e dignidade humana, que permitem às pessoas alcançarem o direito de
viver sem temor, sem miséria e com dignidade. Fica clara, a partir daí, a estreita relação entre
segurança, desenvolvimento, proteção e empoderamento das pessoas e comunidades. Além
disso, a solidariedade apresenta-se como elemento fundamental para o enfrentamento desses
desafios e como fator de facilitação e promoção da capacidade de atuar dos diferentes atores
sociais envolvidos no sistema (UNDP, 2022).
Sendo assim, as ações nos campos científico, educacional e de saúde com a perspectiva
de melhorar a qualidade de vida das pessoas nos locais onde vivem devem encontrar na
solidariedade um dos seus eixos estruturantes. Com base nesse pressuposto, a pesquisaação ora em curso predispõe-se a fazer convergir suas conclusões com ações que possam

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

beneficiar as pessoas em suas localidades ao longo do tempo, sendo fator-chave para isso o
acompanhamento periódico dos desdobramentos dessas ações, o que pode ser viabilizado
com a perenidade das Expedições Científicas no BSF.
Como fatores de conexão entre as pessoas e seu saber-fazer ao longo do tempo,
constatou-se que existem produtos regionais já conhecidos há muito tempo nas localidades
do BSF e cuja tradicionalidade é nomeada por várias pessoas da região. Um exemplo, neste
sentido, é o artesanato de madeira e o bordado da Ilha do Ferro, no município de Pão de
Açúcar, que se destaca no estilo Boa Noite, segundo comunicação pessoal do Sr. Jackson
Borges. Foi também identificado o interesse das autoridades municipais de Pão de Açúcar
em salientar e divulgar essa produção do bordado da Ilha do Ferro e aprofundar os estudos
para viabilizar uma futura Indicação Geográfica.

Construção de Hipóteses
Construiu-se a hipótese da viabilidade do desenvolvimento de uma Indicação
Geográfica envolvendo o bordado da Ilha do Ferro e, para avançar nessa construção, a
professora doutora Tatiane Luciano Balliano e a aluna de mestrado Camila Lacerda realizaram
uma reunião em Pão de Açúcar na semana seguinte à da IV Expedição. Os dados estão sendo
coletados com a finalidade de se delinear a área geográfica alcançada pelo produto, os atoreschave envolvidos com o processo produtivo, as questões técnicas relacionadas e os agentes
públicos que poderão atuar como facilitadores para a continuidade do projeto.
A perspectiva é que, até a V Expedição, que ocorrerá em novembro de 2022, essas
informações já estejam mapeadas junto à comunidade e aos agentes públicos, de maneira a
fornecer subsídios, discutir condicionantes e apontar a viabilidade de um possível pedido de
reconhecimento de IG para o bordado dessa região.
Nesse período de um ano entre a quarta e a quinta Expedição, também estão sendo
aprofundados os contatos feitos com as associações envolvidas na produção de mel (Figura
2) e de pimenta-rosa, de maneira a auxiliar com informações relevantes para a construção da
notoriedade dos produtos, condição sine qua non para viabilizar um eventual reconhecimento
de IG no futuro.
No que tange às comunidades tradicionais, verificou-se que algumas delas precisam
de apoio urgente das próximas Expedições, a exemplo dos indígenas Aconã, cuja aldeia está
sendo afetada pelo desbarrancamento das margens e com o assoreamento do rio. O cacique
Saraiva, sua filha Iara e o pajé Reinaldo têm interesse na melhoria das condições para as
crianças poderem estudar na própria aldeia e em um projeto de produção de mudas de
plantas capazes de evitar o desbarrancamento das margens do rio e que sejam úteis para o
uso comunitário. Foi informado também que já existe espaço disponível para implantar um
viveiro de mudas, caso alguém disponha-se a colaborar.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 2 - Cooperativa dos Produtores de Mel, Insumos e Produtos da Agricultura Familiar
(Coopeapis), Piranhas, Alagoas

Fonte: AUTORES, 2021.

Coleta, Análise e Interpretação dos Dados

A coleta de dados sobre o potencial de IG para a Ilha do Ferro foi iniciada com um
diagnóstico de matérias jornalísticas tratando da Ilha do Ferro como local que se tornou
conhecido como centro de produção do bordado Boa Noite e do artesanato em madeira. Esse
diagnóstico será peça fundamental caso haja o desdobramento futuro de uma solicitação de
reconhecimento de Indicação Geográfica relacionada a esses produtos envolvendo o nome
geográfico da Ilha do Ferro.
A revista virtual Casa e Jardim, do jornal O Globo, divulgou exposição que aconteceu
em São Paulo, no Museu A Casa, no período de 28 de novembro a 18 de dezembro de 2013
(MELO, 2013). De acordo com o site A Casa – Museu do Objeto Brasileiro, verifica-se que
ele tem se voltado para a divulgação e reflexão sobre a produção artesanal e o design brasileiros,
bem como para a promoção de encontros entre designers e artesãos.
As artesãs da Cooperativa Art-Ilha, detentoras do saber-fazer do bordado Boa
Noite, contaram com o apoio e o trabalho do designer têxtil Renato Imbroisi, que, segundo
coluna publicada no site Artesol (2022), está inteiramente mergulhado no universo da
revitalização técnica e estética do artesanato; e ainda com Paula Ferber (FERBER, 2022),
que, de acordo com o site da empresária e designer, dedica sua vida a pesquisar as matrizes
étnicas do país, buscando transitar nos planos da economia criativa e solidária orientada
para a produção artesanal. O projeto de Paula Ferber visou dar reconhecimento e tornar
os produtos artesanais conhecidos em todo o país, assim como auxiliar na melhoria de vida
das artesãs. Para isso, no âmbito do projeto da autora, foram identificadas as dificuldades da
Cooperativa e realizadas oficinas para exercício da criatividade, desenvolvimento de novos
produtos e gestão de comércio.
A técnica de bordado, com base em desfiar o tecido e recompô-lo com temas florais,
resultou em produtos para a exposição, como almofadas, toalhas de mesa e de lavabo, jogos
americanos, guardanapos, colchas, cortinas e marcadores de livro, dentre outros.

421

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

A Ilha do Ferro, que se tornou conhecida pelo bordado Boa Noite e pelo artesanato
desenvolvido em madeira, já foi tema de diversas reportagens da Rede Globo de Televisão
e, no ano 2017, os artistas Aberaldo e José Alvacir, que tiveram seu trabalho divulgado na
novela da emissora A Lei do Amor, viajaram até o Projac, no Rio de Janeiro, para participar
do programa Encontro com Fátima Bernardes. Cadeiras e bancos de madeira fabricados na
Ilha do Ferro de autoria dos artistas serviram de decoração para o cenário da novela. No
programa, foi divulgada a informação de que os artesãos foram convidados a aparecer no
último capítulo da novela.
A matéria divulgada na internet, no site da Globo sobre o programa, informou aos
leitores que a Ilha do Ferro, banhada pelo Velho Chico, é considerada um dos mais importantes
polos de artesanato do país, sendo o artesão Fernando Rodrigues, conhecido como “Seu
Fernando da Ilha do Ferro”, o pioneiro na fabricação de bancos e cadeiras de madeira. Por
fim, o texto referiu-se ao bordado Boa Noite como o artesanato mais famoso da Ilha, mas
ressaltou que as obras em madeira também fazem sucesso nas exposições e galerias de arte
por todo o Brasil.
Outro destaque dado à Ilha do Ferro foi feito pela importante e conceituada jornalista
alagoana Nide Lins (2018), que, em seu website, além de dar dicas sobre bares e restaurantes,
também fala sobre turismo. Em publicação de 2018, a Ilha do Ferro esteve em foco na página
e, na ocasião, a colunista ressaltou o bordado Boa Noite, as rendeiras, os artistas, a culinária
e as esculturas, tornando atrativa a visita ao local.
Lins (2018) relata que sua primeira vez na Ilha foi em um dia de domingo, para
entrevistar o famoso artesão Fernando Rodrigues em sua casa, e que navegou pelo Rio São
Francisco, que dá acesso à Ilha. Ressaltou a fabricação de cadeiras realizada pelo sertanejo, que
aproveitava o design das árvores do mangue, com poemas e frases feitos à faca nos assentos.
Nide Lins recorda-se de que, ao vê-la, o simpático artista disse que domingo era dia
de festa e que não poderia perdê-la; e que já tinha barco esperando por ele. Em virtude disso,
Nide recomenda aos leitores visitarem a região de segunda a sábado, chegando à conclusão
de que os moradores da Ilha amam uma festa e que não costumam perdê-las por nada.
A autora também destaca que não tem como falar do pioneiro da arte em madeira da
Ilha do Ferro sem tratar da forma como os objetos lapidados por Fernando Rodrigues eram
feitos. Como lembra Nide Lins na matéria de 2018, o artista, hoje falecido, que tinha 70 anos
na época, criou mesas, cadeiras e bancos rústicos aproveitando as formas orgânicas de troncos
e raízes colhidos no próprio povoado. Fernando tinha o hábito de desafiar seus amigos a fazer
bancos, e todos os que aceitaram a provocação do mestre viraram escultores de mão cheia.
A jornalista passa a comentar sobre o povoado da cidade de Pão de Açúcar destacando
a simplicidade do lugar, que, à época da visita, contava apenas com uma pousada, poucas
casas de aluguel e somente uma bodega com venda de cachaça, cerveja e quebra-queixo de
Zé Bobô. Apresenta a ilha como um lugar turístico para aqueles que apreciam arte popular
e bordados Boa Noite, um ambiente propício para apreciar a beleza do Rio São Francisco, a
arquitetura e os barquinhos, sugerindo admirar a pacata cidade enquanto senta num banquinho
na praça. Nide Lins também recomenda seguir o roteiro dos artistas da Ilha do Ferro, que
foi retratado em forma de fotos em seu website (LINS, 2018).
Por oportuno, em depoimento dado à Associação Brasileira de Estilistas (Abest),
a renomada estilista alagoana Martha Medeiros, nacionalmente conhecida pelas peças de
grife bordadas em renda Renascença, citou o bordado Boa Noite como sendo uma das

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

técnicas utilizadas em suas confecções. Martha Medeiros é empresária e proprietária da loja
multimarca Maison M, tem loja em bairros de luxo em Maceió e em São Paulo e suas peças
bordadas têm enorme valor agregado. A estilista revelou que herdou a paixão pela arte da
avó, que era professora de arte, e que hoje seu trabalho diferencia-se por resgatar o luxo das
tramas feitas à mão. Ela afirma que, para cada peça, são horas de trabalho manual, fio a fio,
unidos à técnica de modelagem e estilos adquiridos com sua formação de moda.
Martha Medeiros (2022) destacou o bordado Boa Noite ao dizer que:
São quase 200 mulheres organizadas em cooperativas de rendeiras,
envolvidas no processo de confecção de rendas como a Renascença,
além de outras técnicas como: filé, richilieu, bilro e a delicadíssima renda
boa noite, hoje confeccionada apenas na Ilha do Ferro, no meio do São
Francisco, a 320 km de Maceió. [grifo nosso].

Recentemente, a Globo Cultura publicou matéria informando que a Ilha do Ferro
entrou no mapa como polo da cultura popular do Nordeste, ressaltando suas belezas, que
denominou de únicas e fortes contrastes onde o solo quente, ressecado e rachado vai ao
encontro do espelho d’água do Rio São Francisco – contribuindo para o imaginário dos
moradores, que criam esculturas coloridas, bonecas de pano, magníficos bordados e muito
mais. A reportagem trata a Ilha como uma joia rara que já teve esculturas e peças expostas
ao lado de obras importantes, como as dos Irmãos Campana, e destaca, ainda, o fato de elas
já terem servido de decoração nas lojas da grande marca carioca Farm.
A matéria de Nai Frossard (2022) trata da visita à Cooperativa das Bordadeiras
Art-Ilha e retrata um costume forte na região, que é o hábito das mulheres de todas as
idades se reunirem para fazer os bordados Boa Noite, explicando que elas desfiam o tecido
e fazem desenhos com agulhas e linhas, geralmente com temas florais. O texto revela, ainda,
que elas estão por todo o lugar, unidas pelo ofício na cooperativa ou sentadas sozinhas nas
calçadas, na frente de suas casas, segurando o bastidor e com a agulha em movimento no
corte de linho.
A reportagem faz interessante observação sobre o programa do governo estadual
de 2015, Alagoas Feita à Mão, que consiste em identificar as casas dos artesãos através
de uma plaquinha (Figura 3) e tem por finalidade apoiar a produção e a comercialização
da arte popular como incentivo aos artesãos e à manutenção da identidade cultural e
artística nordestina.
Outro ponto importante ressaltado na matéria foi a criação de lei municipal, por
Pão de Açúcar, em que a Ilha do Ferro e suas manifestações artísticas foram consideradas
patrimônio cultural e que todas as edificações devem ser preservadas com as características
originais e todas as fachadas, respeitando a tradição arquitetônica sertaneja do Baixo
São Francisco.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 3 - Placa de identificação dos artesãos apoiados por projeto estadual

Fonte: AUTORES, 2021.

O povoado Ilha do Ferro também já foi cenário de filmagens. Em 2020, a Secretaria
de Estado de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Alagoas (Sedetur) divulgou curtas
que foram exibidos em forma de documentário na Semana Criativa de Tiradentes, realizada
na cidade de Tiradentes, em Minas Gerais, divididos em três blocos denominados: “Bom
Dia”, “Boa Tarde” e “Boa Noite”.
Segundo a matéria da Sedetur (CARDOSO, 2020), os curtas retratam o local pela
perspectiva andarilha de um viajante que aprecia, experimenta e deslumbra-se com a energia
do lugar, que, geração após geração, revigora-se, transmite conhecimento e concretiza-se
como um dos cenários marcados pela arte popular no Brasil e no mundo.
Letícia Cardoso (2020), editora do texto publicado, evidenciou o Boa Noite ao tratar
que a região da Ilha do Ferro é berço desse bordado, genuinamente alagoano, assim como
também o artesanato em madeira.
Em novembro de 2021, a aluna Camila Lacerda, mestranda do programa Profnit
Ponto Focal na Universidade Federal de Alagoas, juntamente com sua orientadora, Tatiane
Balliano, visitaram a Ilha do Ferro, sendo recebidas pela equipe da Prefeitura do Município
de Pão de Açúcar. Na oportunidade, elas apresentaram a ideia do trabalho através da
demonstração do pitch, a fim de receber apoio e aprovação do projeto inicial para andamento
da pesquisa-ação em conjunto com as artesãs locais.
O secretário de Administração e Gestão de Planejamento do município, Ramon
Santos Carvalho, assim como Carla Rezende, do Centro de Empreendedorismo, e Cledjan
Correia, assessora da Procuradoria do município, demonstraram o interesse da Prefeitura no
andamento das atividades propostas para o então estudo potencial do reconhecimento de
Indicação Geográfica do bordado Boa Noite presente na região da Ilha do Ferro e adjacências.
Assim, após reunião de apresentação, a aluna, sua orientadora e alguns representantes
do município seguiram até o povoado Ilha do Ferro, que fica a alguns minutos do centro da
cidade, através do acesso terrestre, por uma estradinha de barro, ocasião em que puderam

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

desfrutar de um agradável e enriquecedor passeio pela casa dos artesãos, que apresentaram
não só o bordado Boa Noite, como também o trabalho em madeira desenvolvido na região.
O povoado fica às margens do Rio São Francisco e é habitado, basicamente, por
artesãos. É um lugar de cultura viva, um centro de produção artesanal, com população bastante
receptiva, que abre as portas de suas casas para mostrar suas artes. Trata-se de região com
forte potencial turístico. Em um passeio por lá, é possível entrar de casa em casa, conhecendo
o trabalho de cada um, escutar suas histórias de vida, saber como estão desenvolvendo seus
trabalhos e, ainda, como aprenderam suas técnicas, restando evidente que a arte ali produzida
faz parte de um conhecimento tradicional ensinado por pais, avós e demais parentes, sendo
essa uma tradição que passa de geração em geração.
Impende dizer que o bordado produzido na Ilha do Ferro, conhecido como Boa
Noite faz referência a uma flor nativa local assim denominada (Figura 4). Com relação à
confecção do bordado, é realizado por mulheres artesãs ligadas, em parte, à Cooperativa
Art-Ilha, sendo o tear, a produção e a venda atividades que geram renda e contribuem para
o fomento da história e da cultura da região (Figura 5).
Figura 4 - Flor conhecida popularmente como Boa Noite – que dá o nome ao bordado
produzido na Ilha do Ferro

Fonte: AUTORES, 2021.

425

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 5 - Pontos do bordado Boa Noite, expostos no museu Art-Ilha

Fonte: AUTORES, 2021.

No tocante ao conhecimento tradicional no âmbito da propriedade intelectual, podese ressaltar o ensinamento constante em nota informativa da WIPO (2016), que, dentre outros
aspectos, destaca que os conhecimentos tradicionais não são assim chamados por causa da
sua antiguidade: dizem respeito a um conjunto dinâmico de conhecimentos desenvolvido,
sustentado e transmitido de geração em geração no âmbito de comunidades tradicionais,
definidas na Lei nº 13.123, de 2015, como
grupo culturalmente diferenciado que se reconhece como tal, possui
forma própria de organização social e ocupa e usa territórios e recursos
naturais como condição para a sua reprodução cultural, social, religiosa,
ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas
geradas e transmitidas pela tradição. (BRASIL, 2015).

Desta forma, os conhecimentos tradicionais não são facilmente protegidos pelo
sistema atual de propriedade intelectual, que tipicamente concede proteção durante um
período limitado a novas invenções e obras originais de pessoas ou empresas. Sua natureza
dinâmica significa também que os conhecimentos “tradicionais” não são fáceis de definir.
Nesse contexto, o instrumento da Indicação Geográfica pode ser de grande valia para o
reconhecimento do saber-fazer tradicional associado a uma área geográfica específica.
É interessante destacar a riqueza cultural da Ilha do Ferro, que se desdobra em
dois produtos principais: o bordado Boa Noite e as obras de arte em madeira. Nota-se que
o bordado é desenvolvido, predominantemente, por mulheres, ao passo que o trabalho na
madeira é desempenhado, em sua grande maioria, por homens que usam a espécie botânica
presente na localidade conhecida popularmente como “pereiro”.

426

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Na visita à Ilha, as artesãs mostraram o bordado Boa Noite, que conta com algumas
variações, tais como: Boa Noite Simples, Flor, Cheio, Vazio e Cerzido, dentre outros, como
demonstrado na foto tirada no Museu Art-Ilha (Figura 6).
Figura 6 - Tipos de pontos existentes no bordado Boa Noite expostos no museu Art-Ilha

Fonte: AUTORES, 2021.

O ambiente acolhedor da comunidade é, com certeza, o ponto-chave para que os
visitantes retornem mais vezes. Fica claro que os artesãos da Ilha não medem esforços para
que os turistas sejam bem recebidos, divulgando o bordado e tentando ensinar um pouco da
técnica artesanal (Figura 7).
Figura 7 - Momento entre as bordadeiras e as autoras no aprendizado da arte de bordar o
Boa Noite
				

(Camila Lacerda)

(Tatiane Balliano)

Fonte: AUTORES, 2021.

A presente pesquisa também propõe-se a avaliar preliminarmente a possibilidade de
reconhecimento de Indicação Geográfica do bordado Boa Noite. Desta maneira, é primordial

427

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

tomar conhecimento de que existem duas espécies de Indicações Geográficas na legislação
brasileira: Indicação de Procedência (IP) e Denominação de Origem (DO), como bem define
o artigo 176 e seguintes da Lei nº 9.279/96, de Propriedade Industrial. Vejamos:
Art. 176. Constitui indicação geográfica a indicação de procedência ou
a denominação de origem.
Art. 177. Considera-se indicação de procedência o nome geográfico
de país, cidade, região ou localidade de seu território, que se tenha
tornado conhecido como centro de extração, produção ou fabricação de
determinado produto ou de prestação de determinado serviço.
Art. 178. Considera-se denominação de origem o nome geográfico de
país, cidade, região ou localidade de seu território, que designe produto
ou serviço cujas qualidades ou características se devam exclusiva ou
essencialmente ao meio geográfico, incluídos fatores naturais e humanos.

Pelo que disciplina a Lei nº 9.279, de 14 de maio de 1996, verifica-se a reunião
das condições para o reconhecimento de uma Indicação Geográfica como Indicação de
Procedência quando o nome geográfico tornou-se conhecido por conta de um produto
ou serviço. Já a Denominação de Origem pressupõe que as qualidades ou características
de uma área geográfica, incluindo os fatores naturais, como, por exemplo: solo, clima,
vegetação, topografia, fauna, flora; e humanos, como, por exemplo, o saber-fazer tradicional,
passado de geração em geração, influenciam, exclusiva ou essencialmente, um produto
ou serviço, tipificando-o.
Cabe destacar também o entendimento que se tem por Centro de Produção ou
Fabricação expresso no Manual de Indicação Geográfica do Inpi (2022):
[...] a área geográfica onde se produz ou fabrica um determinado
produto. Refere-se a qualquer tipo de atividade destinada à produção,
fabricação, transformação e beneficiamento de produtos, incluindo
processos manufatureiros e artesanais.

O bordado objeto do estudo adequa-se ao conceito de Indicação de Procedência,
uma vez que a Indicação de Procedência é caracterizada por uma expertise que surge em um
determinado território e ganha reputação além de seus limites, enquanto a Denominação
de Origem, além desta notoriedade, requer profunda relação com o meio natural e humano
(RODRIGUES; DURSO; ROCHA, 2015).
O Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) traz o passo a passo do
processo de pedido de reconhecimento da IG, esclarecendo que, primeiramente, é crucial a
identificação se a IG é de Denominação de Origem ou de Indicação de Procedência; seguida
do pagamento da taxa através da Guia de Recolhimento da União (GRU) e preenchimento
do formulário específico, em duas vias, com os dados do requerente, nome e delimitação da
área e do produto.
De acordo com o Inpi, o pedido deverá ser realizado por uma associação, sindicato ou
outro substituto processual brasileiro, reunindo o caderno de especificações técnicas; procuração
(se for o caso); comprovante do pagamento da GRU; estatuto social devidamente registrado;

428

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

atas registradas da assembleia-geral com aprovação do estatuto social, da posse da atual
diretoria e da assembleia-geral com aprovação do caderno de especificações técnicas e lista de
presença; identidade e CPF dos representantes legais do substituto processual; declaração de
estarem os produtores ou prestadores de serviço estabelecidos na área delimitada; documentos
que comprovem que o nome geográfico tornou-se conhecido, no caso de IP, ou documentos
que comprovem a influência do meio geográfico nas qualidades ou características do produto
ou serviço, no caso de DO; instrumento oficial que delimita a área geográfica; além de outros
documentos que o requerente julgar necessário.
Em seguida, o Inpi irá verificar a regularidade da documentação apresentada, através
de exame preliminar, momento em que poderão ser formuladas exigências que deverão
ser atendidas no prazo de 60 dias da publicação, sob pena de arquivamento. Havendo a
manifestação de terceiros, ela será publicada para que o requerente apresente resposta, dentro
do prazo de 60 (sessenta) dias, caso seja do seu interesse (INPI, 2021).
Encerrados os prazos anteriores, será realizado o exame de mérito do pedido,
oportunidade em que serão analisadas as manifestações e as respostas às manifestações.
Poderão ser formuladas, ainda, exigências para esclarecimentos de questões relacionadas ao
mérito, que deverão ser respondidas em até 60 (sessenta) dias, sob pena de arquivamento
definitivo do pedido (INPI, 2021)
Caso haja algum impedimento à continuidade do exame, o pedido poderá ser
sobrestado. Realizado o exame de mérito, será proferida decisão de concessão ou indeferimento
do pedido, com a respectiva publicação. Concedido o registro, será, simultaneamente, expedido
o respectivo certificado (INPI, 2021).
Impende citar que o Estado de Alagoas obteve o reconhecimento de IG pelo
Inpi em 2016, na modalidade de IP, do então denominado Bordado Filé da região das
lagoas Mundaú e Manguaba (Figura 8), sendo um guia importante a ser observado,
uma vez que passou recentemente por todas as etapas exigidas pela Autarquia Federal
responsável pelo reconhecimento.
Figura 8 - Dados do reconhecimento da IG do bordado Filé das Alagoas

Fonte: INPI, 2022.

O Regulamento Técnico do Bordado Filé, atualmente denominado Caderno de
Especificações Técnicas do Bordado Filé, atende aos requisitos exigidos pelo Inpi para o
reconhecimento da IG na modalidade de IP, ao comprovar a existência dos seguintes
elementos: tradição, localidade e qualidade.
No que atine ao requisito da tradição, o bordado Boa Noite possui similaridade com o
bordado Filé, visto que ambos são oriundos de técnica europeia, remanescente da colonização,
que foi difundida e passada de geração em geração.
Em relação ao requisito da localidade, resta evidente que o bordado Boa Noite é
encontrado na região do Sertão de Alagoas, no município de Pão de Açúcar e adjacências,
com foco principal no povoado Ilha do Ferro.

429

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Dos três requisitos a serem atendidos, o da qualidade é o que precisa de maior atenção,
uma vez que, na visita local à comunidade, assim como à Associação das Rendeiras, foi possível
identificar as dificuldades enfrentadas por elas, necessitando de estrutura de apoio sobre os
procedimentos operacionais que atenda às artesãs que desempenham o ofício na localidade,
para, assim, atender ao requisito da qualidade.
Dito isto, propõem-se algumas ações que podem contribuir e abrir caminhos para
viabilizar o reconhecimento de uma Indicação Geográfica e para a valorização do saber-fazer
existente na região:
1. Projeto arquitetônico para melhoramento do design do prédio da Associação,
já existente, tornando-o um centro de cultura onde haja interação entre as
bordadeiras e a comunidade;
2. Aumento da sinergia entre associadas e não associadas, a fim de desenvolver um
trabalho cooperativo, e não desarticulado;
3. Comprometimento com as demandas, pelas rendeiras, para entrega das
encomendas no tempo acertado;
4. Ação conjunta da Prefeitura e do Sebrae para divulgação do bordado e cursos
para as bordadeiras da região;
5. Remodelação das peças, para torná-las mais atrativas ao público, demandando
menos horas de bordado e aumentando, assim, a visibilidade e o valor agregado
das peças;
6. Programas de incentivo à cultura, para auxílio e complementação da renda das
artesãs;
7. Fortalecimento do turismo, criando rota de visitação à Ilha com infraestrutura
adequada para receber e dar suporte aos turistas, com bares, restaurantes,
lanchonetes, local para desfrutar da paisagem do Rio São Francisco visto da
Ilha, enquanto visitam as obras dos artistas da região;
8. Oficinas de conscientização dos jovens da comunidade, mostrando a riqueza
do bordado e que ele faz parte da identidade cultural local, visto que, com o
aumento do acesso aos smartphones e o retorno financeiro, em alguns casos, pouco
atrativo com o ofício, cada vez menos crianças e adolescentes têm interesse no
saber-fazer do bordado;
9. Mostrar e conscientizar através de palestras e da troca de experiências com as
artesãs do bordado filé, do potencial que o Boa Noite tem e que precisa ser
valorizado e conhecido;
10. Conscientizar sobre a importância do reconhecimento da IG para o território
e o quanto pode agregar valor às peças produzidas na região, valorizando-as.
A fim de nortear o atendimento dos requisitos supramencionados, o Instituto
Nacional de Propriedade Industrial instrui os interessados a especificar seu produto no
Caderno de Especificações Técnicas, e o seu modo de fazer através do preenchimento de ficha
técnica com os dados específicos do bordado. As sugestões acima são essenciais para o
engajamento, a interação e o reconhecimento da população em prol do fortalecimento das
artes locais e mais rápida reunião dos requisitos propostos pela autarquia responsável pelo
reconhecimento das IGs (Inpi).

430

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Elaboração do Plano de Ação para Futuros Desdobramentos e Divulgação
dos Resultados

Para o reconhecimento de uma IG, faz-se necessário existir, como já relatado, um
agrupamento de pessoas associadas ou cooperando com o objetivo comum de obter aquele
reconhecimento do local associado ao produto ou ao serviço que se tornou conhecido. Com
base nisso, uma das próximas ações futuras será a realização de oficinas voltadas para o
fortalecimento do grupo de mulheres que praticam o bordado Boa Noite, no intuito de deixar
mais evidente a importância do trabalho conjunto, tanto para o crescimento e a disseminação
dessa arte praticada como também para o reconhecimento da IG. Desta forma, Camila
Lacerda, aluna de mestrado do Profnit e uma das autoras deste capítulo, realizará sua oficina
profissional, obrigatória no âmbito de seu mestrado, na Ilha do Ferro.
Outro ponto a ser trabalhado durante as oficinas com as bordadeiras será a necessidade
de inovar no que diz respeito à usabilidade das peças produzidas, trazendo para o foco de
seus trabalhos mais eficiência e elementos de tendência que precisarão ser recorrentemente
observados e considerados.
Por fim, serão trabalhadas, ainda, as estratégias de empreendedorismo e negociação
nessa área, onde o Sebrae Alagoas já vem há algum tempo atuando, junto aos artesões da
Ilha, para a promoção de novas oportunidades de negócios e de divulgação dos trabalhos.
Além disso, com base no entendimento de como as artesãs associam-se, podese sugerir às bordadeiras e aos artesãos a elaboração de marcas coletivas de titularidade
das coletividades envolvidas, o que ajudaria a fortalecer a identidade do lugar em seu
reconhecimento como reduto de arte.
Pretende-se, ainda, promover uma ação integrativa e de divulgação de artesãos e
bordadeiras e seus respectivos trabalhos a partir de um evento onde o “Artesão Abre Suas
Portas”, expondo suas peças em suas casas, portas e calçadas, integrando outras culturas
locais, como a gastronomia, e fortalecendo o turismo, ao mesmo tempo em que projeta para
o conhecimento de todos a Ilha do Ferro como ambiente de artes.
Em paralelo a este evento, Camila Lacerda deve realizar sua defesa de dissertação de
mestrado, tornando esse momento ainda mais especial e memorável. Pretende-se desenvolver
essas duas ações durante a visita da V Expedição Científica do Rio São Francisco à cidade
de Pão de Açúcar, contando com o apoio da Prefeitura local e da coordenação da Expedição,
que já se colocou à disposição para promover todas as ações necessárias para catalisar esse
planejamento, inclusive disponibilizando sua equipe de comunicação e jornalismo para fazer
a cobertura dessas ações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esperamos que todas as informações aqui reunidas e todas essas ações que serão
decorrentes da presente pesquisa contribuam fortemente para o reconhecimento da Indicação
Geográfica relacionada ao bordado Boa Noite da Ilha do Ferro num futuro próximo, pois
o que as experiências internacional e nacional apontam é que este reconhecimento da IG
pode ser de grande valia para a valorização do saber-fazer regional e para a agregação de
valor aos produtos produzidos nas regiões, beneficiando toda a coletividade na área da IG.
Com esse intuito, vislumbramos o reconhecimento e o fortalecimento da Ilha do Ferro como
espaço-mãe na produção do bordado Boa Noite e, juntamente com outros saberes e fazeres

431

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

da região, queremos ver florescer um tempo em que ciência, inovação, cultura e arte estejam
cada vez mais a serviço do bem-viver e do desenvolvimento sustentável das comunidades
do Baixo São Francisco.

REFERÊNCIAS
ARTESÃOS DA ILHA DO FERRO PARTICIPAM DE PROGRAMAS DA
REDE GLOBO DE TELEVISÃO. Notícia Quente, 2017. Disponível em: https://www.
noticiaquente.com.br/site/post/artesaos-da-ilha-do-ferro-participam-de-programas-da-redeglobo-de-televisao/2162. Acesso em: 14 abr. 2022.
ARTESOL ARTESANATO SOLIDÁRIO. Disponível em: https://www.artesol.org.br/
conteudos/visualizar/A-trajetoria-de-vanguarda-de-Renato-Imbroisi. Acesso em: 19 abr. 2022.
BRASIL. Lei nº 9.279, de 14 de maio de 1996 – Lei de Propriedade Industrial. Disponível
em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9279.htm. Acesso em: 09 abr. 2022.
CARDOSO, Letícia. Ilha do Ferro é retratada em documentário na Semana Criativa
de Tiradentes. Sedetur, 2020. Disponível em: https://tinyurl.com/2w2vnjxn. Acesso em:
16 abr. 2022.
EXPOSIÇÃO BORDADO BOA NOITE ILHA DO FERRO 2013. Museu A Casa do
Objeto Brasileiro, 2013. Disponível em: https://acasa.org.br/exposicoes/boa-noite-ilha-deferro-2013. Acesso em: 18 abr. 2022.
FEBER, Paula. Era uma vez em Trancoso. Disponível em: https://paulaferber.com/
institucional/historia.html. Acesso em: 19 abr. 2022.
FRANÇA, E. et al. Proteção intelectual através da indicação geográfica “Chã de Jardim” do
artesanato em folha da bananeira (Musa sp.) no Estado da Paraíba. Revista Brasileira de
Desenvolvimento Regional, v.3, n.1, p.83-102, 2015.
FROSSARD, Nai. Ilha do Ferro, em Alagoas, entra no mapa como polo da cultura popular
do Nordeste. O Globo, 2022. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/ilha-doferro-em-alagoas-entra-no-mapa-como-polo-da-cultura-popular-do-nordeste-1-25470125.
Acesso em: 16 abr. 2022.
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10 abr. 2022.

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INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Atlas do
Desenvolvimento Humano nas Regiões Metropolitanas Brasileiras. Brasília: Ipea; Pnud;
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RODRIGUES, E.A.G.; DURSO, E.D.; ROCHA, W.F. O Potencial para Indicação
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SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE DESENVOLVIMENTO REGIONAL, 7.,
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SOARES, E.C.; SILVA, J.V.; NAVAS, R. O Rio São Francisco, o baixo curso e as expedições
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THIOLLENT, M. Metodologia de pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 1985.
TONIETTO, J. et al. As Indicações Geográficas de Vinhos do Rio Grande do Sul. In:
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do Sul registradas até março de 2021. Brasília: Mapa/Aecs, 2022.
UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME (UNDP). New threats to
human security in the anthropocene: demanding greater solidarity. Special Report, 2022.
Disponível em: https://hs.hdr.undp.org/pdf/srhs2022.pdf. Acesso em: 12 abr. 2022.
WORLD INTELLECTUAL PROPERTY ORGANIZATION (WIPO). Nota
informativa sobre conhecimentos tradicionais e propriedade intelectual. 2016. Disponível em:
https://www.wipo.int/edocs/pubdocs/pt/wipo_pub_tk_1.pdf. Acesso em: 21 abr. 2022.

433

CAPÍTULO 22 - FOSSAS AGROECOLÓGICAS PARA O
TRATAMENTO DE EFLUENTES SANITÁRIOS EM
ESCOLAS MUNICIPAIS DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Eduardo Lucena Cavalcante de Amorim1
Fernanda Santana Peiter2
Emerson Carlos Soares3
José Vieira Silva4

Resumo: O lançamento de esgoto em córregos e rios é uma das principais causas da degradação
de mananciais de água potável, sendo desejável a pesquisa de formas eficientes de tratamento
e reuso do esgoto sanitário in loco. Entretanto, a construção correta de sistemas convencionais
centralizados demanda custos elevados e pessoal qualificado. A Bacia Hidrográfica do Rio
São Francisco possui afluentes importantes que recebem, diretamente, efluentes sanitários
sem tratamento, sendo um dos principais problemas ambientais que a bacia enfrenta. O
presente trabalho foi desenvolvido na IV Expedição Científica do Baixo São Francisco,
com o objetivo de implantar fossas agroecológicas para tratamento do esgoto sanitário em
escolas municipais. Ações de capacitação para a execução das obras e atividades de educação
ambiental foram realizadas visando à continuidade do projeto. Observou-se que as fossas
agroecológicas podem ser soluções viáveis de baixo custo e fácil execução, importantes para
a manutenção da qualidade ambiental na região do São Francisco.
Palavras-chave: Fossas Agroecológicas. Tratamento de Esgoto. Saneamento Ambiental.

INTRODUÇÃO

A maior parte da região do Baixo São Francisco está situada no Semiárido do
Nordeste brasileiro, caracterizado por apresentar poucos eventos de precipitação e escassez
hídrica. Nesse cenário, o Rio São Francisco e seus afluentes são essenciais para a subsistência
da população, sustentando atividades como a pesca, a aquicultura, o turismo, a agropecuária
e a indústria. Entretanto, problemas como assoreamento, existência de fontes pontuais
e difusas de poluição, alterações constantes da vazão e avanço da cunha salina tendem a
deteriorar a quantidade e a qualidade da água na região, tornando cada vez mais crítica a sua
disponibilidade (SOARES, 2019).
Um dos principais contribuintes para a degradação dos recursos hídricos é a poluição
causada pelo lançamento de efluentes sanitários. Em geral, o esgoto doméstico proveniente
de residências, comércio, escolas e outras instituições é gerado a partir dos diversos usos da
água, como atividades de higiene e preparo de alimentos. Sua composição pode apresentar
cargas significativas de matéria orgânica, sólidos, nutrientes, microrganismos, dentre outros
componentes, que, ao serem dispostos de forma inadequada, podem causar prejuízos ao meio
ambiente e à saúde da população.
1 Professor Associado, Centro de Tecnologia (CTEC), Universidade Federal de Alagoas. E-mail: eduardo.
lucena@ctec.ufal.br
2 Engenheira Ambiental e Sanitarista, Doutora em Hidráulica e Saneamento. Pós-doutoranda da UFAL.
3 Professor, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
4 Professor, Coordenador Geral do CRAD/UFAL – Campus Arapiraca. Universidade Federal de Alagoas.

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Segundo dados do Atlas Esgotos, elaborado pela Agência Nacional de Águas e
Saneamento Básico (ANA), aproximadamente 80% do esgoto das cidades ribeirinhas do
Baixo São Francisco não são tratados. A Tabela 1 apresenta o percentual de tratamento dos
esgotos nas cidades que margeiam o rio (ANA, 2017).
Castro e Pereira (2019) apontam que o lançamento de efluentes nos cursos d’água da
Bacia Hidrográfica do São Francisco (BHSF) constitui um dos principais responsáveis pela
degradação da bacia e da qualidade da água dos rios da região. O serviço de esgotamento
sanitário na BHSF apresenta deficiência tanto nos municípios com menos recursos econômicos
como nos mais desenvolvidos, sendo possível verificar o despejo direto de esgoto na rede de
drenagem urbana, no subsolo e nos corpos d’água.
Tabela 1 - Porcentagem de esgoto tratado nas cidades ribeirinhas do Rio São Francisco*
Município/Estado
Belo Monte/AL

Delmiro Gouveia/AL
Igreja Nova/AL
Olho d’Água do Casado/

AL
Pão de Açúcar/AL
Penedo/AL
Piaçabuçu/AL
Piranhas/AL
Porto Real do Colégio/AL
São Brás/AL
Traipu/AL
Amparo de São Francisco/

SE
Brejo Grande/SE
Canhoba/SE
Canindé de São Francisco/
SE
Gararu/SE
Ilha das Flores/SE
Neópolis/SE
Nossa Senhora de

Lourdes/SE
Poço Redondo/SE
Porto da Folha/SE
Propriá/SE
Santana do São Francisco/
SE
Telha/SE

Com coleta

Sem coleta

(habitantes)

tratamento

tratamento

individual (%)

tratamento

1.125

2,56

47,91

49,53
2,01
0,52

-

80,44
-

4.322

23,14

76,16

0,7

-

11.295
47.419
10.884
14.054
6.856
3.319
8.585

3,00
11.82
37,25
7,76
6,48

89,25
79,17
47,49
23,55
52,29
91,74
75,44

10,75
17,83
40,69
3,75
7,71
18,08

35,45
40,00
-

1.907

21,25

76,47

2,28

-

4.213
1.537

1,22
7,81

98,18
91,12

0,6
1,07

-

15.459

59,47

37,79

2,74

-

2.908
5.587
10.777

48,73
16,34
16,55

45,55
83,66
76,80

5,72
6,65

-

3.406

18,02

81,98

-

-

9.110
10.355
25.261

80,14
79,25
-

16,77
20,14
62,54

3,09
2,46

35

4.792

1,33

58,28

40,39

-

1.118

24,76

42,86

32,39

-

População

36.958
4.987

e sem
(%)

3,83
7,41

e sem
(%)

13,72
92,07

Solução

Com coleta
e com
(%)

*Os dados mais recentes disponibilizados pela ANA são de 2013; portanto, os valores aqui apresentados
podem mostrar diferenças em relação ao período de estudo (2021).

Fonte: Dados do Atlas Esgoto (ANA, 2017).

435

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O relatório da II Expedição do Baixo São Francisco reúne um conjunto de estudos
que mostram os diversos impactos ambientais existentes na região, destacando o lançamento
de esgotos como um dos maiores problemas em termos de impactos antrópicos. Soares et al.
(2020), ao analisarem a ictiofauna do São Francisco, concluíram que a grande quantidade
de esgotos e lixo descartados de forma incorreta prejudica a qualidade de água, levando
ao estresse das espécies e interferindo no crescimento saudável e no desenvolvimento dos
peixes. Souza et al. (2020) também apresentaram resultados indicativos da alteração da
qualidade da água por meio da verificação da saúde dos peixes, que apresentaram uma série
de anormalidades. Cavali e Mojica (2020) realizaram alguns registros do despejo direto de
efluentes sanitários no corpo hídrico, ressaltando esse problema como um dos que mais
incomoda os pescadores locais.
Verifica-se, portanto, que as consequências da disposição inadequada de efluentes
sanitários atingem diretamente os domínios ambiental, social e econômico do Baixo São
Francisco. Deste modo, existe a urgência na adoção de medidas para atenuar essas problemáticas,
que podem ser amparadas pelos instrumentos da Política Nacional do Saneamento Básico,
que estabelece, dentre seus princípios fundamentais (Art. 2º da Lei nº 11.445/2007, alterada
pela Lei nº 14.026/2020):
•

A universalização do acesso e efetiva prestação do serviço;

•

A adoção de métodos, técnicas e processos que considerem as
peculiaridades locais e regionais;

•

Articulação com as políticas de desenvolvimento urbano e regional,
de habitação, de combate à pobreza e de sua erradicação, de proteção
ambiental, de promoção da saúde, de recursos hídricos e outras de
interesse social relevante, destinadas à melhoria da qualidade de
vida, para as quais o saneamento básico seja fator determinante;

•

Estímulo à pesquisa, ao desenvolvimento e à utilização de
tecnologias apropriadas, consideradas a capacidade de pagamento
dos usuários, a adoção de soluções graduais e progressivas e a
melhoria da qualidade com ganhos de eficiência e redução dos
custos para os usuários.

O novo Marco Legal do Saneamento Básico, sancionado pela Lei Federal nº 14.026,
de 2020, trata-se de uma medida que possui o objetivo de fomentar a melhoria dos indicadores
de cobertura do saneamento em todo o país. A Lei estabelece como metas o atendimento
de 99% da população com água potável e de 90% da população com coleta e tratamento de
esgotos até o ano 2033. Entretanto, os índices de saneamento do Baixo São Francisco estão
muito aquém das metas estabelecidas, e alcançar os valores pretendidos no período estipulado
constitui-se um desafio de gestão e execução para os governos e as prestadoras de serviço.
A concepção de projetos e a execução de redes coletoras de esgoto e sistemas de
tratamento convencionais geralmente requerem uma infraestrutura adequada e mão de obra
qualificada, demandando custos elevados. Contudo, soluções mais baratas e de execução
simplificada, como as fossas agroecológicas, constituem opções viáveis para atender pequenas
comunidades, cidades ribeirinhas e populações rurais.

436

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Sendo assim, visando minimizar a problemática ambiental gerada pelos esgotos, o
presente trabalho consistiu em um conjunto de ações, promovidas em consonância com a
IV Expedição Científica do São Francisco, ocorrida em 2021, para a implantação de fossas
agroecológicas nos municípios de Piranhas, Igreja Nova, Pão de Açúcar e Penedo, situados
em Alagoas.
O objetivo principal do projeto foi apresentar uma alternativa sustentável para evitar o
lançamento de esgoto não tratado em corpos hídricos e a consequente degradação ambiental
da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (BHRSF). De forma complementar, atividades
de educação ambiental nas escolas foram realizadas, com a finalidade de difundir a tecnologia
de tratamento do poluente e sensibilizar a população quanto aos impactos causados pelo
lançamento indevido de efluentes sanitários na região.

Fossas Agroecológicas

As fossas agroecológicas são sistemas que englobam bacias de evapotranspiração
para tratamento das águas escuras (provenientes dos vasos sanitários) conjuntamente com
círculos de bananeiras para tratamento das águas cinzas (provenientes de pias, tanques e
chuveiros) (Figura 1). Essas constituem alternativas de tratamento de efluentes em locais
onde a instalação de sistemas coletivos de esgotamento sanitário seria inviável, representando
uma solução individual de baixo custo. Além disso, seu caráter sustentável é aprimorado, pois
há a possibilidade de reutilização de resíduos, como pneus e entulhos da construção civil, no
processo construtivo (DHF CONSULTORIA E ENGENHARIA, 2019).
As bacias de evapotranspiração (BET) podem ser encontradas na literatura com
diferentes denominações, como tanques de evapotranspiração (Tevap), fossas verdes, fossa
de bananeira etc. Esse sistema consiste na abertura de uma vala retangular no solo que, após
ser impermeabilizada, é preenchida com entulhos de construção, brita, areia e solo. Como
ilustrado nas Figuras 2 e 3, a camada superior contém solo enriquecido para o cultivo de
plantas com alta demanda hídrica, como taiobas e caetés (LEAL, 2014).

437

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 1 - Planta esquemática das Fossas Agroecológicas

Fonte: DHF CONSULTORIA E ENGENHARIA, 2019.

Figura 2 - Esquema ilustrativo da BET (visão frontal)

Fonte: TONETTI et al., 2018.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 3 - Esquema ilustrativo da BET (visão lateral)

Fonte: TONETTI et al., 2018.

O esgoto que chega à BET é depositado, inicialmente, na parte mais funda do
sistema. O tratamento das águas escuras ocorre pela ação de microrganismos que consomem
as substâncias presentes no esgoto, em um ambiente sem oxigênio, no processo denominado
digestão anaeróbia. A água contida no tanque possui movimento vertical ascendente, passando
pelas camadas da BET até alcançar a camada superior de solo e as raízes das plantas, onde
deixará o sistema pelo processo de evapotranspiração (LEAL, 2014).
Dentre as vantagens da BET, podem-se destacar a simplicidade da construção, a
ausência de processos mecanizados ou requerimento de energia elétrica para seu funcionamento
e a baixa necessidade de manutenção, sendo adequada para regiões com baixos índices de
precipitação (LEAL, 2014).
Para tratamento de águas cinzas, utiliza-se o círculo de bananeiras. De concepção
ainda mais simples que a BET, esse sistema consiste na escavação de uma vala circular no
solo onde serão depositados materiais secos, como galhos, capim e folhas, de acordo com o
esquema da Figura 4. A terra retirada para fazer o buraco é colocada no seu entorno, onde
devem ser plantadas as bananeiras e possíveis espécies menores, como mamoeiros e taioba.
Recomenda-se a instalação de uma caixa de gordura a montante do círculo para retenção de
restos de alimento e materiais gordurosos (TONETTI et al., 2018).

439

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 4 - Esquema ilustrativo do Círculo de Bananeiras

Fonte: TONETTI et al., 2018.

No caso do círculo de bananeiras, é importante procurar alternativas de locação
afastadas do lençol freático e de nascentes, bem como evitar solos arenosos, pois o solo não
é impermeabilizado neste caso (TONETTI et al., 2018).

Ações do projeto

O projeto para instalação das fossas agroecológicas foi idealizado em três etapas,
como apresentado na Figura 5. A pré-expedição possuiu caráter mais instrutivo, visando
apresentar a proposta para os interessados, ressaltando os benefícios de sua implantação.
Nessa fase, também ocorreu a preparação da equipe responsável pela construção dos sistemas
de tratamento, com instruções sobre as especificações técnicas para execução dos serviços,
abordando critérios e parâmetros de projeto. Visitas técnicas prévias foram realizadas nas
instituições educacionais, para conhecimento das características locais, verificando aspectos
como o destino do esgoto produzido, o número de pessoas a serem atendidas com a obra
e a área de implantação. A Figura 6 mostra a sequência das ações ocorridas na etapa de
pré-expedição.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 5 - Etapas do projeto e ações

Fonte: AUTORES, 2022.

A construção das fossas agroecológicas (Figura 7) ocorreu durante a Expedição.
A opção pela utilização das Bacias de Evapotranspiração (BET) para o tratamento de
águas escuras, em conjunto com Círculos de Bananeira (CB) para o tratamento de águas
cinzas, ponderou não só o critério ambiental, por se tratar de solução sustentável e barata
para o tratamento de esgoto em zona rural, mas também condições hidrogeológicas locais
verificadas em visita a campo. Quatro escolas situadas em cidades do Estado de Alagoas
foram contempladas com o projeto:
•
•
•
•

Escola Municipal Frei Damião, em Piranhas;
Escola Municipal Ronalço dos Anjos, em Pão de Açúcar;
Escola Municipal de Educação Básica Rivanda Santos Gomes, em Igreja Nova;
Escola Municipal de Educação Básica Wilton Lisboa Lucena, em Penedo.

As ações de educação ambiental tinham como objetivo conscientizar os estudantes
e a comunidade em geral sobre a importância das fossas agroecológicas, bem como ressaltar
o papel do cidadão na preservação do meio ambiente. A Figura 8 apresenta a sequência das
ações realizadas durante a IV Expedição do São Francisco.

441

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 6 - Ações realizadas na etapa de Pré-Expedição

Fonte: AUTORES, 2022.

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Figura 7 - Etapas construtivas das fossas agroecológicas: (A) Vala aberta; (B)
Impermeabilização; (C) Pneus; (D) Camada de entulho; (E) Camada de brita; (F) Fossa
agroecológica finalizada

Fonte: AUTORES, 2022.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 8 - Ações realizadas durante a Expedição

Fonte: AUTORES, 2022.

Na fase Pós-Expedição, a equipe de trabalho continua realizando ações de
capacitação e acompanhamento da operação e monitoramento das fossas agroecológicas
construídas. A Figura 9 mostra a fossa agroecológica instalada na Escola Municipal Frei
Damião (Povoado Passagem do Meio, em Piranhas) no dia da entrega e alguns meses
depois, com a vegetação crescida.

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Figura 9 - Fossa Agroecológica, antes e depois

Fonte: AUTORES, 2022.

Vale enfatizar a importância da continuidade do projeto, incentivando sua implantação
em outros municípios do Baixo São Francisco e realizando atividades de educação ambiental
para a conscientização da população quanto à preservação do Rio São Francisco e do conjunto
de riquezas naturais da região.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A problemática da falta de tratamento dos esgotos e suas consequências negativas
para o meio ambiente têm sido observadas desde as Expedições Científicas do São Francisco
anteriores. Deste modo, a IV Expedição Científica do São Francisco foi essencial para dar os
primeiros passos no sentido da concretização de ações voltadas à resolução desses problemas,
partindo da implantação de fossas agroecológicas como uma alternativa de tratamento viável
para as águas residuárias domésticas na região.
O projeto envolveu a participação de profissionais técnicos, mas, principalmente,
da população beneficiada com as fossas agroecológicas, que esteve presente nas diversas
atividades de educação e conscientização ambiental. De modo geral, as construções das
fossas agroecológicas nas quatro escolas contempladas apresentaram execuções simples
e eficazes, capazes de atender às demandas de carga poluente geradas nas comunidades
ribeirinhas e na zona rural. Sendo assim, essa opção de tratamento pode ser difundida
para os demais municípios.
Por fim, ressalta-se que o tratamento dos efluentes sanitários é imprescindível para
evitar mais prejuízos ambientais, sociais e econômicos em uma região já tão afetada pela
baixa disponibilidade hídrica.

445

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

REFERÊNCIAS
AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Atlas
Esgotos: despoluição das bacias hidrográficas. 2017. Disponível em: http://atlasesgotos.ana.
gov.br. Acesso em: 26 abr. 2022.
BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº
11.445, de 5 de janeiro de 2007. Estabelece as Diretrizes Nacionais para o Saneamento
Básico. Brasília, 2007.
CAVALI, J.; MOJICA, A.L.B. Percepção dos pescadores sobre as mudanças no Baixo Rio
São Francisco: relatório da 2ª Expedição Científica do Rio São Francisco. 2020.
DHF CONSULTORIA E ENGENHARIA. TR1: fossas ecológicas para o tratamento de
efluentes em Penedo/AL, 2019.
CASTRO, C.N.; PEREIRA, C.N. Revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio São
Francisco: histórico, diagnóstico e desafios. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), 2019.
LEAL, J.T.C.P. Tanque de evapotranspiração. Belo Horizonte: Emater-MG, 2014.
SOARES, E.C. Relatório da 1ª Expedição Científica do Baixo São Francisco: resgate
Histórico e Radiografia Atual do Velho Chico. 2019.
SOARES, E.C. et al. Análise da Ictiofauna e dos seus Aspectos Fisiológicos na II
Expedição Científica do Baixo São Francisco para Ações de Manejo. Relatório da 2ª
Expedição Científica do Rio São Francisco. 2020.
SOUZA, E.V. et al. Uso de Micronúcleo e Anormalidades Nucleares para Verificar a
Saúde dos Peixes no Baixo São Francisco. Relatório da 2ª Expedição Científica do Rio
São Francisco. 2020.
TONETTI, A.L. et al. Tratamento de esgotos domésticos em comunidades isoladas:
referencial para a escolha de soluções. Campinas: Biblioteca Unicamp, 2018.

446

CAPÍTULO 23 - AÇÕES DE COMUNICAÇÃO NA 4ª
EXPEDIÇÃO: ESTRATÉGIAS E RESULTADOS
Rose Mary Ferreira Pereira Gomes1
Resumo: A 4ª Expedição Científica do Baixo São Francisco, realizada de 1º a 10 de
novembro de 2021, consolidou as ações desenvolvidas nas edições anteriores e ampliou as
perspectivas de atuação, dando ênfase aos aspectos socioeconômicos do Baixo São Francisco.
Os destaques dessa edição foram a participação de 70 pesquisadores embarcados, de 35 áreas
de pesquisa, incluindo as novas áreas de Dermatologia/Oncologia e de Biomedicina; as ações
de educação ambiental e de saúde bucal, com ampla repercussão na mídia, e a transmissão ao
vivo de palestras científicas pelos perfis no Instagram da Universidade Federal de Alagoas
(Ufal) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal). Neste capítulo,
apresentaremos as ações de comunicação desenvolvidas na 4ª Expedição, explicaremos o
porquê das escolhas feitas e os resultados quantitativos e qualitativos obtidos. Vale ressaltar
que, por esta ter sido a primeira edição a ter uma profissional de Comunicação diretamente
envolvida, não há parâmetros anteriores de comparação. No entanto, com os dados coletados
e a repercussão obtida, podemos considerar que a comunicação foi bem desenvolvida e eficaz,
ainda que com limitações a serem superadas nas próximas edições.
Palavras-chave: Comunicação. Instagram. Expedição Científica. Ascom. Ufal. Fapeal.

INTRODUÇÃO
As Expedições Científicas do Baixo São Francisco acontecem desde 2018. Ano após
ano, têm crescido em relevância científica e projeção socioambiental, sendo uma realização da
Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e tendo parceiros e financiadores importantes, como o
Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), o Comitê da Bacia Hidrográfica do
Rio São Francisco (CBHSF), a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos
de Alagoas (Semarh-AL), a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e
do Parnaíba (Codevasf ) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal).
Diante desse cenário, a comunicação institucional da 4ª Expedição recebeu apoio
integral da Assessoria de Comunicação da Ufal (Ascom/Ufal), por meio da produção e
publicação de matérias jornalísticas, divulgação nas redes sociais institucionais da Universidade,
envio de releases à imprensa local e nacional e acompanhamento do que foi publicado na
mídia, em um processo chamado clipagem.
Desde o início dos preparativos para o evento, a comunicação também começou a
atuar, sendo o trabalho visivelmente intensificado nos meses de outubro e novembro de 2021,
inclusive através da participação integral da servidora Rose Ferreira durante a Expedição,
o que contribuiu para uma cobertura e uma repercussão recordes nas mídias sociais e na
imprensa de modo geral – repercussão essa viabilizada também pela participação exclusiva
de uma equipe da TV Gazeta, afiliada da TV Globo, por meio do jornalista Amorim Neto,
1 ASCOM. Reitoria. Campus A.C. Simões. Universidade Federal de Alagoas

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

do repórter cinematográfico Aldo Correia e da estagiária Iara Melo, estudante de Jornalismo
da Ufal; além do apoio das jornalistas voluntárias Naísia Xavier, da Ascom/Fapeal; Carolina
Neris e Malu Fernandes, da Shopping Comunicação, em São Paulo.
Assim, a comunicação da Expedição Científica do Baixo São Francisco foi realizada
em duas vertentes: uma mais voltada ao Jornalismo e à Assessoria de Comunicação, no sentido
de produção de matérias e de reportagens, contato com a imprensa, realização de entrevistas
e gerenciamento do perfil, no Instagram, @expedicao_saofrancisco, e outra relacionada à
comunicação de ciência/divulgação científica, por buscar comunicar temas científicos, através
dos pesquisadores envolvidos, de forma inteligível, por meio de uma linguagem acessível à
população em geral, audiência não especializada.

Escolha das Estratégias de Comunicação

Em nenhum momento houve dúvidas de que a comunicação da Expedição deveria
estar pautada no virtual, por meio de sites, redes sociais e podcasts. Dados fornecidos pelo
website Internet World Stats (2021) mostram que mais de 5.2 bilhões de pessoas usam a
internet, o que representa 66,2% da população mundial.
A expressão “rede social” foi usada pela primeira vez em uma comunicação por J. A.
Barnes, em 1953. Ele a empregou para descrever como os indivíduos utilizavam as relações
de parentesco e de amizade em uma comunidade da Noruega, conferindo-lhe um caráter
antropológico. Com o surgimento e difusão da World Wide Web (www), as redes sociais
(relações entre pessoas) ganharam uma nova dimensão: agora, já não precisavam mais se
restringir ao contato físico. Os sites de redes sociais (SRS) começaram a surgir como espaços
públicos mediados pela tecnologia em que as pessoas expressam-se e normas sociais são
estabelecidas. O diferencial da internet na mediação dessas conexões de redes sociais é a sua
ampliação, o que nos remete ao amplo alcance das redes sociais on-line que temos à disposição
hoje (RECUERO, 2012).
Ainda de acordo com o website Internet World Stats (2021), em março de 2021,
a internet, no Brasil, tinha uma taxa de penetração de 74,8%, com mais de 160 milhões
de usuários. Nesse meio, o Instagram surge como a quarta rede social mais usada no país,
com 110 milhões de usuários, segundo relatórios da We Are Social e da Hootsuite, atrás
somente de Facebook, YouTube e WhatsApp. A comunicação da Expedição decidiu apostar,
prioritariamente, no Instagram e nas ferramentas disponibilizadas por essa rede social que,
segundo Manovich (2017), funciona como uma vitrine, um serviço para a comunicação de
uma estética visual.
Lançado em outubro de 2010, o Instagram foi uma das primeiras redes sociais
exclusivas para acesso através do celular, embora hoje já seja possível criar, visualizar publicações,
responder mensagens e tecer comentários por meio do computador. Em 2012, o Instagram
passou a integrar o grupo do Facebook, atualmente chamado Meta, que inclui o Facebook,
o Messenger, o WhatsApp e o Instagram.
Para Santaella (2018), o aumento do uso das plataformas de redes sociais está associado
à crescente aquisição de dispositivos móveis, cada vez mais sofisticados e com acesso à internet,
permitindo ao usuário estar sempre conectado, se assim desejar.
O Instagram disponibiliza vários recursos, com objetivos e suportes distintos. Na
comunicação da 4ª Expedição, foram utilizados:

448

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

•

•

•
•

•

•

O feed, que funciona como um cartão de visitas do perfil e pode ser utilizado
para a publicação de fotos e vídeos ou republicação (repost) de peças multimídia
de outros perfis, além da utilização de textos e elementos gráficos na legenda.
Por desempenhar um papel mais permanente, como de arquivo de conteúdos
pessoais, uma publicação, para ir ao feed, costuma ser melhor planejada, editada
e trabalhada (NAZAR; SIQUEIRA, 2018);
Os stories, lançados mundialmente em agosto de 2016 e que permitem a
publicação de imagens ou vídeos de até 15 segundos, oferecendo a possibilidade
de fracionamento de um vídeo com maior duração em vários stories. Essa foi a
ferramenta mais utilizada no perfil @expedicao_saofrancisco, pois tende a receber
publicações mais espontâneas, menos planejadas, por terem a característica de se
autodestruírem em 24h, caso não sejam destacadas (NAZAR; SIQUEIRA, 2018);
Os destaques, por possibilitarem categorizar e manter as publicações feitas por
meio dos stories visíveis, por quanto tempo o usuário desejar;
A aba “vídeos”, que substituiu, à época, a Televisão do Instagram (IGTV), criada
em junho de 2018 e extinta em outubro de 2021. Esse recurso possibilitou-nos
publicar vídeos com duração superior a 1 minuto, como as transmissões ao vivo
(lives) realizadas;
As transmissões ao vivo, chamadas de Instagram Lives, foram lançadas em
novembro de 2016 e funcionam para a transmissão de eventos em geral, bem
como para a realização de entrevistas. Na 4ª Expedição, as lives foram utilizadas
na abertura do evento e nas palestras científicas noturnas;
A ferramenta reels, criada em julho de 2020, possivelmente como uma resposta à
rede concorrente TikTok. O reels permite a criação rápida e intuitiva de vídeos de
curta duração e é considerado uma opção para aumentar o alcance de um perfil,
já que o design da aplicação foi redefinido, de forma a deixar o botão reels no
centro do menu inferior, dando mais ênfase a esse recurso. As publicações feitas
utilizando essa ferramenta foram muito bem-sucedidas, como veremos adiante.

Com a certeza da importância do uso da internet e das redes sociais, foi preciso definir
o conteúdo a ser divulgado, levando em consideração as especificidades do Instagram, mas
também da comunicação de ciência/divulgação científica. Mas o que significa comunicação
de ciência? Burns et al. (2003) definem como o uso de habilidades apropriadas, meios,
atividades e diálogo para produzir na sociedade determinadas respostas ou reações, que são
reunidas sob o rótulo das vogais AEIOU – Awareness, Enjoyment, Interest, Opinion-forming
e Understanding.
• Awareness refere-se a uma consciência, a não ser ignorante a respeito de algo, a
ter familiaridade com o processo de produção científica;
• Enjoyment está relacionado à afetividade, a perceber a ciência como algo bom e
prazeroso, não como algo entediante, que só interessa a poucos estudiosos;
• Interest é o interesse, é querer saber mais sobre algo – neste caso, a ciência, a ponto
de envolver-se voluntariamente;
• Opinion-forming é o intuito da comunicação de ciência que está relacionado à
formação de opinião, à tomada de decisões com base no conhecimento científico,
em leis e teorias testáveis e fundamentadas, não em subjetividades;

449

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

•

Understanding, que tem a ver com a compreensão, algo que se desenvolve a respeito
de um assunto, ação ou processo baseado em princípios comumente aceitos. Aqui,
é importante salientar que essa resposta não se apresenta de forma binária (ter ou
não ter), mas revela níveis de compreensão em relação ao conteúdo, ao processo
e a fatores sociais que envolvem a ciência.

Desta forma, a ciência é um empreendimento social (MILLAR, 1996), e comunicála, no sentido de torná-la acessível, é uma obrigação de cientistas, instituições de ensino e
pesquisa e poder público. Seguimos nessa direção.

Ações de Comunicação Desenvolvidas

O principal meio jornalístico utilizado para a publicação de matérias e reportagens foi
o portal da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) (www.ufal.br), com 13 matérias publicadas
no período de fevereiro a novembro de 2021, além de 12 podcasts disponibilizados na Rádio
Ufal, por meio do site radio.ufal.br e no Spotify.
Releases foram enviados à imprensa local e nacional pela Assessoria de Comunicação
(Ascom) da Ufal, resultando na publicação de 48 matérias em sites locais e três nacionais,
além de atendimentos telefônicos e por e-mail, a fim de suprir as demandas dos veículos de
comunicação.
A Rádio Ufal teve um papel crucial na divulgação e dinâmica da comunicação do
evento, por meio da gravação de dois programas Ufal e Sociedade, com maior duração, com o
coordenador-geral das Expedições, Emerson Soares (Figura 1), e do Boletim do Velho Chico,
com flashes de entrevistas sobre variados temas científicos, produzido pela jornalista Rose
Ferreira durante os 10 dias do evento (Figura 2). Todos os podcasts estão disponíveis em
radio.ufal.br e no Spotify.
Figura 1 - Programa Ufal e Sociedade nº 111, da Rádio Ufal, com Emerson Soares,
coordenador-geral das Expedições Científicas e professor da Ufal

Fonte: RÁDIO UFAL, 2021.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 2 - O Boletim do Velho Chico, da Rádio Ufal, foi criado especificamente para a
4ª Expedição

Fonte: RÁDIO UFAL, 2021.

Matérias exclusivas foram veiculadas pela TV Gazeta, afiliada da TV Globo em
Alagoas, durante todos os dias da Expedição e mesmo depois do evento, além da veiculação
de reportagens e entradas ao vivo em programas nacionais da TV Globo (Figura 3), como
Jornal Nacional, Jornal Hoje e Hora 1.
Figura 3 - Reportagem de Amorim Neto, com produção executiva de Iara Melo e imagens
de Aldo Correia, veiculada no Jornal Nacional em 20 de novembro de 2021

Fonte: GLOBOPLAY, 2021.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

E, como forma de ampliar o alcance da comunicação e aproximar a Expedição dos
parceiros e do público em geral, as redes sociais Instagram e YouTube foram utilizadas para
repercutir matérias, veicular informações rápidas, mostrar os preparativos e a rotina do evento
e transmitir ao vivo palestras científicas noturnas com renomados pesquisadores.
As palestras foram realizadas em quatro noites (Figura 4), com especialistas de
instituições nacionais renomadas, como Ufal, Universidade Federal de Sergipe (UFS),
Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Empresa Brasileira de Pesquisas
Agropecuárias (Embrapa), Instituto Nacional da Propriedade Intelectual (Inpi), dentre outras.
O público presencial e on-line interagiu com perguntas e comentários que
enriqueceram o conteúdo. As transmissões foram feitas através dos perfis @ufaloficial e @
fapeal.br, que contam com 94,8 mil e 8.228 seguidores, respectivamente. O conteúdo foi salvo
e disponibilizado no Instagram da Ufal. Ao todo, as quatro transmissões ao vivo alcançaram
7.542 contas (perfis) e foram visualizadas 2.653 vezes posteriores.
Figura 4 - Divulgação geral das palestras, realizada no Instagram @expedicao_saofrancisco,
em 27 de outubro de 2021

Fonte: INSTAGRAM DA UFAL, 2021.

Redes Sociais

A partir do dia 22 de outubro, a jornalista Rose Ferreira, da Ascom/Ufal, assumiu
voluntariamente o gerenciamento do Instagram @expedicao_saofrancisco. De acordo com
os dados do Meta Business Suite, ferramenta gratuita que reúne os recursos do Facebook e
do Instagram para contas profissionais, no período de 22 de outubro a 02 de dezembro de
2021, o perfil da Expedição alcançou 46.461 contas, representando um crescimento de 2,9
mil% em relação ao período anterior, conforme mostra a Figura 5.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 5 - Gráfico de resultados em relação ao alcance de contas, no perfil @expedicao_
saofrancisco, no período de 22 de outubro a 02 de dezembro de 2021

Fonte: META BUSINESS SUITE, 2021.

Ainda segundo o gráfico acima, o pico de alcance no período analisado aconteceu no
dia 07 de novembro de 2021, quando o perfil alcançou 22.536 contas. É importante destacar
que, nesse dia, também houve a transmissão do 2º dia de palestras científicas, cujos temas e
palestrantes foram:
• “Quais os benefícios do monitoramento da governança das águas? O Protocolo
de Monitoramento do OGA Brasil”, com Ângelo Lima, secretário executivo do
Observatório da Governança das Águas;
• “O impacto das mudanças climáticas”, com Ricardo Araújo, da Ufal;
• “História submersa: arqueologia subaquática no Rio São Francisco”, com Gilson
Rambelli, da UFS.
Outro dado relevante é que, em 02 de dezembro de 2021, o perfil contava com 1.522
seguidores, mais que o dobro do número que tinha antes da profissionalização da comunicação
do evento (Figura 6).

453

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 6 - Captura de tela do perfil da Expedição, no Instagram, em 02 de dezembro de 2021

Fonte: INSTAGRAM DA EXPEDIÇÃO, 2021.

Em relação ao público, o perfil @expedicao_saofrancisco é majoritariamente feminino
(57,9%), na faixa etária de 25 a 44 anos, e proveniente das cidades de Maceió-AL, PenedoAL, Aracaju-SE, Arapiraca-AL e Propriá-SE. O Brasil destaca-se com 82,1% dos acessos,
mas há usuários do perfil também em Portugal, Alemanha, Suíça e África do Sul, conforme
revela a Figura 7.

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Figura 7 - Estatísticas relacionadas ao público do perfil @expedicao_saofrancisco no Instagram

Fonte: META BUSINESS SUITE, 2021.

Inserções Espontâneas na Mídia
No período de 20 de outubro a 12 de novembro de 2021, a Expedição Científica do
Rio São Francisco obteve 69 inserções em sites locais e nacionais, 34 inserções em telejornais,
2 em revistas de alcance nacional e 13 podcasts publicados na Rádio Ufal/Spotify e no Podcast
Travessia, do CBH São Francisco.
No Instagram e no YouTube, foram realizadas 671 publicações, dentre transmissões
ao vivo, posts no feed, vídeos no IGTV e reels, e stories, no período de 22 de outubro a 02 de
dezembro de 2021 (Tabela 1).

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Tabela 1 - Repercussão da 4ª Expedição nas redes sociais e na mídia impressa e audiovisual
Fonte: Elaborada pela autora, com base em clipagem realizada pelo Núcleo de Relações
Públicas (Nurp) da Ascom/Ufal.
Sites

Quantidade
e local de
inserções

Telejornais

Revistas

Rádio

Instagram e
YouTube

Portal da Ufal: 13
Portal da Andifes: 1
Correio Braziliense: 1
Site da Embrapa: 2
CBH São Francisco: 4
Sites locais: 48

TV Gazeta: 30
TV Sergipe: 1
TV Globo: 3

Travessia (CBH
São Francisco): 1
SBPC: 1

Rádio Ufal: 12
Podcast Travessia
(CBH): 1

Transmissões ao
vivo: 5
Posts no feed: 50
Reels: 5
Vídeos: 20
Stories: 591

69

34

2

13

671

Total

Fonte: Elaborada pela autora, com base em clipagem realizada pelo Núcleo de Relações Públicas
(Nurp) da Ascom/Ufal.

A seguir, apresentamos o detalhamento da repercussão da Expedição nos meios
de comunicação:

Portal da Ufal
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Começaram os preparativos para a 4ª Expedição Científica do Baixo São Francisco:
https://ufal.br/ufal/noticias/2021/2/comecaram-os-preparativos-para-a-4aexpedicao-cientifica-do-baixo-sao-francisco [fev. 2021];
Coordenadores discutirão projetos para Expedição no Baixo São Francisco: https://
ufal.br/ufal/noticias/2021/3/projetos-para-expedicao-cientifica [mar. 2021];
4ª Expedição Científica da Ufal vai doar kits de informática em escolas: https://ufal.
br/ufal/noticias/2021/5/proxima-expedicao-cientifica-da-ufal-vai-doar-kits-deinformatica-em-escolas-rurais [mai. 2021];
Começa em outubro a maior Expedição Científica do Brasil pelo São Francisco: https://
ufal.br/ufal/noticias/2021/8/comeca-em-outubro-a-maior-expedicao-cientificado-brasil-pelo-sao-francisco [ago. 2021];
Ufal e Sociedade entrevista Emerson Soares sobre a 4ª Expedição: https://ufal.br/
transparencia/noticias/2021/09/ufal-e-sociedade-entrevista-emerson-soaressobre-a-4a-expedicao-cientifica [set. 2021];
Maior expedição científica do Brasil começa dia 31 de outubro no Velho Chico: https://
ufal.br/transparencia/noticias/2021/10/maior-expedicao-cientifica-do-brasilcomeca-no-dia-31-de-outubro-no-rio-sao-francisco [out. 2021];
Expedição também terá testagem de Covid-19 e ações de saúde bucal: https://ufal.br/
transparencia/noticias/2021/10/expedicao-cientifica-tera-testagem-de-covid19-e-acoes-de-saude-bucal [out. 2021];
Prevenção ao câncer de pele integra programação da Expedição Científica do Baixo São
Francisco: https://ufal.br/transparencia/noticias/2021/10/prevencao-ao-cancerde-pele-integra-programacao-da-expedicao-cientifica-do-baixo-sao-francisco
[out. 2021];
Maior expedição científica do Brasil navega pelo Sertão de Alagoas: https://ufal.br/
ufal/noticias/2021/11/maior-expedicao-cientifica-do-brasil-navega-pelo-sertaode-alagoas [nov. 2021];

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

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Ufal e Sociedade acompanha a 4ª Expedição Científica do Baixo São Francisco:
https://ufal.br/transparencia/noticias/2021/11/ufal-e-sociedade-acompanhaa-4a-expedicao-cientifica-do-baixo-sao-francisco [nov. 2021];
4ª Expedição Científica do Rio São Francisco promoverá ações de divulgação científica:
https://ufal.br/transparencia/noticias/2021/10/4a-expedicao-cientifica-do-riosao-francisco-promovera-acoes-de-divulgacao-cientifica [nov. 2021];
Bordados e mel: Expedição Científica mapeia possibilidades de desenvolvimento
econômico no interior de Alagoas: https://ufal.br/ufal/noticias/2021/11/bordadose-mel-expedicao-cientifica-mapeia-possibilidades-de-desenvolvimentoeconomico-no-interior-de-alagoas [nov. 2021];
Crianças ribeirinhas recebem cuidados e orientações de saúde pública: https://ufal.br/
ufal/noticias/2021/11/criancas-ribeirinhas-recebem-cuidados-e-orientacoes-desaude-publica [nov. 2021].

Rádio Ufal – Boletim do Velho Chico e outros
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Link geral: https://radio.ufal.br/boletim-do-velho-chico;
Achados arqueológicos na 4ª Expedição; entrevista com Paulo Bava, da UFS: https://
radio.ufal.br/boletim-do-velho-chico/achados-arqueologicos-na-4a-expedicao
[nov. 2021];
Monitoramento aéreo do Rio São Francisco; entrevista com Rychardson Rocha, da
UFS: https://radio.UFAL.br/boletim-do-velho-chico/monitoramento-aereodo-rio-sao-francisco [nov. 2021];
A água do Rio São Francisco; entrevista com Petrônio Filho, da Ufal Penedo: https://
radio.ufal.br/boletim-do-velho-chico/monitoramento-aereo-do-rio-saofrancisco [nov. 2021];
A vice-reitora Eliane Cavalcanti avalia a Expedição: https://radio.ufal.br/boletimdo-velho-chico/a-vice-reitora-eliane-cavalcanti-avalia-a-expedicao [nov. 2021];
Manguezais na foz do Rio São Francisco; entrevista com Alexandre Oliveira, da Ufal
Penedo: https://radio.ufal.br/boletim-do-velho-chico/manguezais-na-foz-dorio-sao-francisco [nov. 2021];
Arqueologia subaquática; entrevista com Luis Felipe Santos, da UFS: https://radio.
ufal.br/boletim-do-velho-chico/arqueologia-subaquatica [nov. 2021];
Análise dos sedimentos do Rio São Francisco; entrevista com Joel Marques, mestrando
da UFS: https://radio.ufal.br/boletim-do-velho-chico/analise-dos-sedimentosdo-rio-sao-francisco [nov. 2021];
Avaliação da 4ª Expedição Científica do Baixo São Francisco; entrevista com José
Vieira, coordenador adjunto da Expedição: https://radio.ufal.br/boletim-do-velhochico/avaliacao-da-4a-expedicao-cientifica-do-baixo-sao-francisco [nov. 2021];
Construção de fossas agroecológicas; entrevista com Eduardo Lucena, do Centro de
Tecnologia da Ufal: https://radio.ufal.br/boletim-do-velho-chico/construcao-defossas-agroecologicas [nov. 2021];
Podcast Travessia (CBH São Francisco), com Maciel Oliveira, presidente do Comitê:
https://cbhsaofrancisco.org.br/noticias/novidades/confira-o-podcast-sobre-a4a-expedicao-cientifica-do-baixo-sao-francisco [nov. 2021].

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Transmissões Ao Vivo

O primeiro dia de palestras foi realizado em 1º de novembro, na cidade de PiranhasAL. A transmissão foi realizada pelo perfil @ufaloficial no Instagram e ficou salva para acesso
posterior neste link: https://www.instagram.com/tv/CVwT3F0lSov. Nesse dia, aconteceram
as seguintes palestras:
1. “Rio São Francisco, das duas nascentes à foz”, com Jackson Borges, do CBH
São Francisco;
2. “A importância da fauna no ambiente terrestre da Bacia do Rio São Francisco”,
com Ubiratan Piovezan, da Embrapa Tabuleiros Costeiros.
Os dados fornecidos pelo Meta Business Suite foram os seguintes:
• Número de contas alcançadas durante a transmissão: 2.102;
• Número de interações durante a transmissão: 37;
• Número de visualizações posteriores: 1.305.
O segundo dia de palestras aconteceu em 07 de novembro, em uma sala de reuniões
do Hotel São Francisco, em Penedo. A transmissão foi realizada pelo perfil @ufaloficial no
Instagram e ficou salva para acesso posterior neste link: https://www.instagram.com/tv/
CV_0hnKFON9. As palestras desse dia foram:
1. “Quais os benefícios do monitoramento da governança das águas? O Protocolo
de Monitoramento do OGA Brasil”, com Ângelo Lima, secretário executivo do
Observatório da Governança das Águas;
2. “O impacto das mudanças climáticas”, com Ricardo Araújo, da Ufal;
3. “História submersa: arqueologia subaquática no Rio São Francisco”, com Gilson
Rambelli, da UFS.
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Número de contas alcançadas durante a transmissão: 2.568;
Número de interações durante a transmissão: 23;
Número de visualizações posteriores: 72.

O terceiro dia de palestras aconteceu em 08 de novembro, diretamente do barcolaboratório, na cidade de Piaçabuçu. A transmissão foi realizada pelo perfil @ufaloficial no
Instagram e ficou salva para acesso posterior neste link: https://www.instagram.com/tv/
CWCWKUBFni4. Foram realizadas as seguintes palestras:
1. “Poluentes emergentes”, com Sandra Carvalho, do Centro de Tecnologia (Ctec)
da Ufal;
2. “Instrumentos de Propriedade Intelectual, Empreendedorismo e Desenvolvimento”,
com Alexandre Guimarães Vasconcelos, do Inpi.
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Número de contas alcançadas durante a transmissão: 1.452;
Número de interações durante a transmissão: 40;
Número de visualizações posteriores: 1.192.

O quarto e último dia de palestras aconteceu em 09 de novembro, em uma sala
de reuniões do Hotel São Francisco, em Penedo. A transmissão foi realizada pelo perfil @

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

ufaloficial no Instagram e ficou salva para acesso posterior neste link: https://www.instagram.
com/tv/CWE-rCJFzlG. As palestras foram as seguintes:
1. “Mecanismo para a construção da certificação participativa dos produtos da
Agrosociobiodiversidade”, com Fabiano Leite, da Emater-AL;
2. “Aquarela dos manguezais: uma viagem pelas cores do mangue”, com Alexandre
Oliveira, da Ufal Penedo.
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Número de contas alcançadas durante a transmissão: 1.420;
Número de interações durante a transmissão: 37;
Número de visualizações posteriores: 84.

A última transmissão ao vivo, durante a Expedição, foi o encerramento, realizado
no dia 10 novembro, na cidade de Penedo-AL. A transmissão foi realizada pela Prefeitura
de Penedo e também pelo canal da Ufal no YouTube. O vídeo está salvo e disponível neste
link: https://www.youtube.com/watch?v=gT_YNWdR9eQ.

Matérias Veiculadas em Telejornais Durante a Expedição
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https://globoplay.globo.com/v/9999327;
https://globoplay.globo.com/v/9999325;
https://globoplay.globo.com/v/10000450;
https://globoplay.globo.com/v/10001917;
https://globoplay.globo.com/v/10002819;
https://globoplay.globo.com/v/10002814;
https://globoplay.globo.com/v/10005093;
https://globoplay.globo.com/v/10003651;
https://globoplay.globo.com/v/10006094;
https://globoplay.globo.com/v/10009668;
https://globoplay.globo.com/v/10009380;
https://globoplay.globo.com/v/10011834;
https://globoplay.globo.com/v/10010503;
https://globoplay.globo.com/v/10012929;
https://globoplay.globo.com/v/10012924;
https://globoplay.globo.com/v/10013472;
https://globoplay.globo.com/v/10012927;
https://globoplay.globo.com/v/10014367;
https://globoplay.globo.com/v/10015674;
https://globoplay.globo.com/v/10019843;
https://globoplay.globo.com/v/10019628;
https://globoplay.globo.com/v/10019843;
https://globoplay.globo.com/v/10019972;
https://globoplay.globo.com/v/10019779;
https://globoplay.globo.com/v/10021979;
https://globoplay.globo.com/v/10023266;
https://globoplay.globo.com/v/10024343;
https://globoplay.globo.com/v/10026895;

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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https://globoplay.globo.com/v/10029143;
https://globoplay.globo.com/v/10031919;
https://globoplay.globo.com/v/10033026;
Hora 1: https://globoplay.globo.com/v/10026775;
Jornal Hoje: https://globoplay.globo.com/v/10028208;
Jornal Nacional: https://globoplay.globo.com/v/10059740.

Sites Nacionais
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Portal da Andifes: https://www.andifes.org.br/?p=90654;
Shopping de Comunicação: https://www.shoppingdecomunicacao.com.br/
blog/205-maior-expedicao-cientifica-do-brasil-comeca-domingo-no-rio-saofrancisco;
Correio Braziliense: Maior Expedição do Brasil começa em 31 de outubro no Rio
São Francisco: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/10/4959438maior-expedicao-cientifica-do-brasil-comeca-em-31-de-outubro-no-rio-saofrancisco.html.

Site da Embrapa
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Pesquisadores da Embrapa integram a 4ª Expedição Científica do Baixo São Francisco:
https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/65657538/pesquisadoresda-embrapa-integram-4-expedicao-cientifica-do-baixo-sao-francisco;
Expedição Científica chega ao final; Embrapa reitera compromisso e participação:
https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/66165995/4-expedicaocientifica-do-sao-francisco-chega-ao-final-embrapa-reitera-compromisso-eparticipacao.

Site do CBH São Francisco
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https://cbhsaofrancisco.org.br/noticias/novidades/ccrs-do-submedio-e-mediosao-francisco-devem-replicar-em-2022-expedicao-cientifica;
https://cbhsaofrancisco.org.br/noticias/novidades/presidente-do-cbhsf-fala-emreuniao-da-ana-sobre-o-pedido-do-aumento-de-vazao-no-rio-que-ajudou-nanavegacao-das-embarcacoes-durante-a-4a-expedicao-cientifica;
https://cbhsaofrancisco.org.br/noticias/novidades/4a-expedicao-cientifica-dosao-francisco-chega-ao-final-com-muitas-expectativas-para-a-proxima-edicao;
https://cbhsaofrancisco.org.br/noticias/novidades/video-novo-no-ar-4aexpedicao-cientifica-do-baixo-sao-francisco.

Sites Locais
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https://tribunadoagreste.com.br/2021/10/prevencao-ao-cancer-de-pele-integraprogramacao-da-expedicao-cientifica;
https://tribunadoagreste.com.br/2021/10/prevencao-ao-cancer-de-pele-integraprogramacao-da-expedicao-cientifica;
https://al1.com.br/informacao/noticias/66095/expedicao-cientifica-teratestagem-de-covid-19-e-acoes-de-saude-bucal;

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

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https://tribunahoje.com/noticias/saude/2021/10/25/expedicao-tambem-teratestagem-de-covid-19-e-acoes-de-saude-bucal;
https://painelnoticias.com.br/geral/197081/expedicao-ao-rio-sao-franciscotambem-tera-testagem-de-covid-19-e-acoes-de-saude-bucal;
http://www.primeiraedicao.com.br/noticia/2021/10/26/4-edicao-da-expedicaocientifica-do-baixo-sao-francisco;
https://www.aquiacontece.com.br/noticia/alagoas/26/10/2021/4-expedicaocientifica-promovera-acoes-de-divulgacao-da-ciencia/171317;
https://tribunadoagreste.com.br/2021/10/prevencao-ao-cancer-de-pele-integraprogramacao-da-expedicao-cientifica;
https://tribunadoagreste.com.br/2021/10/prevencao-ao-cancer-de-pele-integraprogramacao-da-expedicao-cientifica;
https://al1.com.br/informacao/noticias/66095/expedicao-cientifica-teratestagem-de-covid-19-e-acoes-de-saude-bucal;
https://tribunahoje.com/noticias/saude/2021/10/25/expedicao-tambem-teratestagem-de-covid-19-e-acoes-de-saude-bucal;
https://painelnoticias.com.br/geral/197081/expedicao-ao-rio-sao-franciscotambem-tera-testagem-de-covid-19-e-acoes-de-saude-bucal;
http://www.primeiraedicao.com.br/noticia/2021/10/26/4-edicao-da-expedicaocientifica-do-baixo-sao-francisco;
https://www.aquiacontece.com.br/noticia/alagoas/26/10/2021/4-expedicaocientifica-promovera-acoes-de-divulgacao-da-ciencia/171317;
https://www.tnh1.com.br/noticia/nid/vice-reitora-da-ufal-participa-daexpedicao-do-sao-francisco-liderando-equipe-de-testes-de-covid-19-emribeirinhos;
https://www.tnh1.com.br/noticia/nid/vice-reitora-da-ufal-participa-daexpedicao-do-sao-francisco-liderando-equipe-de-testes-de-covid-19-emribeirinhos;
https://www.cadaminuto.com.br/noticia/2021/11/04/vice-reitora-da-ufalparticipa-da-expedicao-do-sao-francisco-liderando-equipe-de-testes-de-covid19-em-ribeirinhos;
https://www.redegn.com.br/?sessao=noticia&cod_noticia=154584;
https://www.aquiacontece.com.br/noticia/penedo/05/11/2021/penedorecepciona-maior-expedicao-cientifica-do-rio-sao-francisco-nestesabado-05/171830;
https://www.correiodosmunicipios-al.com.br/2021/11/gestao-da-ufal-da-apoiologistico-para-realizar-testes-rt-pcr-durante-expedicao;
https://www.tribunadosertao.com.br/2021/11/gestao-da-ufal-da-apoiologistico-para-realizar-testes-rt-pcr-durante-expedicao;
https://www.tribunadosertao.com.br/2021/11/penedo-recepciona-maiorexpedicao-cientifica-rio-sao-francisco-neste-sabado-05;
https://www.tribunadosertao.com.br/2021/11/expedicao-cientifica-e-recebidacom-festa-em-sao-bras;
https://www.alagoas24horas.com.br/1395642/penedo-recepciona-maiorexpedicao-cientifica-do-rio-sao-francisco-neste-sabado;

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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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https://www.cadaminuto.com.br/noticia/2021/11/05/vice-reitora-da-ufalparticipa-da-expedicao-do-sao-francisco-liderando-equipe-de-testes-de-covid19-em-ribeirinhos;
https://www.cadaminuto.com.br/noticia/2021/11/05/penedo-recepciona-maiorexpedicao-cientifica-do-rio-sao-francisco-neste-sabado-05;
https://tribunadoagreste.com.br/2021/11/gestao-da-ufal-da-apoio-logisticopara-realizar-testes-rt-pcr-durante-expedicao;
https://infosaofrancisco.canoadetolda.org.br/noticias/geotecnologias/canoa-detolda-se-une-ao-hot-e-planeja-mapeamentos-da-bacia-do-rio-sao-francisco;
https://penedo.al.gov.br/2021/11/05/penedo-recepciona-maior-expedicaocientifica-do-rio-sao-francisco-neste-sabado-05;
https://www.7segundos.com.br/arapiraca/noticias/2021/11/05/191278-penedorecepciona-maior-expedicao-cientifica-do-rio-sao-francisco-neste-sabado-06;
https://correiodopovo-al.com.br/noticias/penedo-recepciona-maior-expedicaocientifica-do-rio-sao-francisco-neste-sabado-05;
https://ama-al.com.br/expedicao-cientifica-e-recebida-com-festa-em-sao-bras;
https://melhornoticia.com.br/noticia/interior/mn105095762/penedorecepciona-maior-expedicao-cientifica-do-rio-sao-francisco-neste-sabado-06;
https://al1.com.br/informacao/noticias/66650/expedicao-cientifica-e-recebidacom-festa-em-sao-bras;
https://boainformacao.com.br/2021/11/ufal-realiza-teste-gratuito-paradiagnostico-de-covid-na-orla-de-penedo;
https://www.cadaminuto.com.br/noticia/2021/11/08/prefeitura-de-penedo-eexpedicao-cientifica-realizam-atividades-nas-escolas;
https://tribunahoje.com/noticias/educacao/2021/11/08/expedicao-cientificachega-a-penedo-e-leva-acoes-para-escolas;
https://www.alagoas24horas.com.br/1395642/penedo-recepciona-maiorexpedicao-cientifica-do-rio-sao-francisco-neste-sabado;
https://www.alagoas24horas.com.br/1395642/penedo-recepciona-maiorexpedicao-cientifica-do-rio-sao-francisco-neste-sabado;
https://al1.com.br/informacao/noticias/66842/iv-expedicao-cientifica-eprefeitura-realizam-acoes-em-escolas-municipais-de-piacabucu;
https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2021/11/10/expedicao-cientifica-dosao-francisco-constata-aumento-na-quantidade-e-especies-de-peixes-no-rio.
ghtml;
https://tribunahoje.com/noticias/cidades/2021/11/11/4a-expedicao-cientificado-sao-francisco-chega-ao-final;
https://www.aquiacontece.com.br/noticia/alagoas/26/10/2021/4-expedicaocientifica-promovera-acoes-de-divulgacao-da-ciencia/171317;
https://www.correiodosmunicipios-al.com.br/2021/09/piacabucu-recebera-4aexpedicao-cientifica-do-baixo-sao-francisco-em-novembro;
https://painelnoticias.com.br/geral/197122/4-expedicao-cientifica-promoveraacoes-de-divulgacao-cientifica;
https://tribunahoje.com/noticias/cidades/2021/10/28/edicao-2021-daexpedicao-cientifica-levara-doacoes-para-ribeirinhos;

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EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

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http://meioambienteeturismo.blogsdagazetaweb.com/2021/10/29/expedicaocientifica-no-velho-chico-parte-de-piranhas-domingo;
https://web.arapiraca.al.gov.br/2021/11/arapiraca-participa-da-maiorexpedicao-cientifica-do-brasil-no-rio-sao-francisco.

As publicações feitas no feed do perfil @expedicao_saofrancisco estão detalhadas
abaixo, na Tabela 2, com os seguintes parâmetros: recurso multimídia utilizado, quantidade
de curtidas/visualizações (no caso de vídeos), comentários, compartilhamentos, salvamentos
e contas alcançadas.
Tabela 2 - Detalhamento de publicações realizadas no feed do perfil @expedicao_
saofrancisco, de 22 de outubro a 02 de dezembro de 2021
POST
Resumo da 3ª Expedição:
22/10/21

RU
Vídeo

CURT
83/484
visualizações

COMEN

COMPART

SALV

CONTALC

2

0

3

826

Card de notícia do portal
da Ufal sobre prevenção ao

Imagem

187

2

1

2

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0

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2

6.899

câncer de pele: 23/10/21
Divulgação do local e
horário da abertura:
26/10/21
Divulgação geral das
palestras (Fig. 1): 27/10/21
Paisagem do Rio São
Francisco: 27/10/21

Vídeo

150/4.367
visualizações

Para que serve uma fossa
agroecológica? Uma

Vídeo

63

criança explica: 28/10/21
Paisagem do São Francisco
com contagem regressiva:

Vídeo

29/10/21
Saída das barcas de Penedo:
30/10/21
Chegamos, Piranhas!
31/10/21
Abertura ao vivo da
Expedição: 01/11/21
Programação do 1º dia de
palestras: 01/11/21
Bom dia com paisagem:
02/11/21
Saúde bucal em Pão de
Açúcar: 02/11/21
Análise ultrassônica em
piranha-preta: 02/11/21
Ribeirinho incentivando o
teste de Covid: 02/11/21

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Vídeo

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-

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0

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889

463

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Post colaborativo com @

Imagens

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1.251

Spirogyra sp.: 05/11/21

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Peixamento: 05/11/21

Vídeo

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7

2.357

2

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1

1.412

belomontedeboa: 03/11/21
Flor facheiro: 03/11/21
Crianças com máscara de
carranca: 04/11/21
Fisioterapia na Expedição:
04/11/21
Chuva em Lagoa
Comprida: 04/11/21

Alunos falam sobre
educação ambiental:

Vídeo

05/11/21
Pôr do sol e bom fim de
semana: 05/11/21
Paisagem de bom dia:
06/11/21
Recepção em Chinaré:
06/11/21
2º dia de palestras:
07/11/21
Descoberta arqueológica:
07/11/21
Pescador/bom dia:
07/11/21
Foto parcial da equipe em
Penedo: 07/11/21
3º dia de palestras:
08/11/21
Chegada em Piaçabuçu:
08/11/21
4º dia de palestras:
09/11/21
Chegada à foz: 09/11/21
Foto oficial em Penedo:
10/11/21
Emerson Soares avalia
Expedição: 10/11/21
Expedicionários fazendo
PCR: 10/11/21

452

6

1

5

8.914

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3

3.412

Imagens

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11/11/21
Momentos equipe terra/ar:
12/11/21

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809

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11/11/21
Agradecimento geral:

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Depoimento Mestre do
Rio no encerramento:

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464

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Resumo do CBH sobre a 4ª
Expedição: 12/11/21

Vídeo

Reportagem TV Gazeta
(receita de tucunaré):

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14/11/21
Hélice quebrada #tbt:
16/11/21
Coordenadora de saúde
bucal de Propriá: 16/11/21

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1

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0

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628

Programa Ufal e Sociedade

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nº 111: 17/11/21

podcast

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2

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Consciência Negra:
20/11/12
Dia do Músico: 22/11/21
Expedição no JN: 23/11/21
Expedição no Minutos da
Ciência: 25/11/21

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Vídeo

330/2.940
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14/102
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Card de notícia do portal
da Ufal sobre saúde bucal

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70

na Expedição: 30/11/21

RU = recurso utilizado; CURT = curtidas; COMEN = comentários; COMPART =
compartilhamentos; SALV = salvamentos; CONTALC = contas alcançadas.
Fonte: Elaborada pela autora, 2022.

Assim, com base na Tabela 2, podemos concluir que:
• A Figura 8 demonstra que o post com maior número de visualizações (4.367)
foi um vídeo de paisagem do Rio São Francisco, publicado em 27 de outubro de
2021, com a música Meu Sertão, de Jonatas Fonseca, ao fundo.

465

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 8 - Demonstrativo dos dados de alcance da publicação mais visualizada no perfil @
expedicao_saofrancisco no Instagram, no período de 22 de outubro a 02 de dezembro de 2021

Fonte: Meta Business Suite.

•

O post com maior número de curtidas (875) foi feito colaborativamente com
o perfil @belomontedeboa, em 03 de novembro de 2021, conforme Figura 9:

Figura 9 - Demonstrativo dos dados de curtidas (likes) da publicação mais visualizada
no perfil @expedicao_saofrancisco no Instagram, no período de 22 de outubro a 02 de
dezembro de 2021

Fonte: Meta Business Suite.

466

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

•

A Figura 10 revela que o post com maior número de contas alcançadas (22.435) foi
o de divulgação do 2º dia de palestras científicas, publicado em 07 de novembro
de 2021:

Figura 10 - Demonstrativo dos dados da publicação que alcançou mais contas no Instagram
da Expedição, no período de 22 de outubro a 02 de dezembro de 2021

Fonte: Meta Business Suite.

•

Conforme a Figura 11, a seguir, o post com mais comentários (24) foi um vídeo
da chegada à foz do São Francisco, realizado em 09 de novembro de 2021:

467

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 11 - Demonstrativo da publicação mais comentada no Instagram da Expedição, no
período de 22 de outubro a 02 de dezembro de 2021

Fonte: Meta Business Suite.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados revelados nesta pesquisa mostram que tanto o post com maior número
de curtidas quanto o post com maior número de contas alcançadas foram feitos de maneira
colaborativa com os perfis @belomontedeboa e @ufaloficial, respectivamente, o que reforça
a importância da parceria entre perfis afins e com credibilidade, com o objetivo de aumentar
o alcance e o engajamento do público nas publicações.
Os posts com maior número de visualizações e com mais comentários foram vídeos
curtos, mostrando o Rio São Francisco e a chegada à foz, respectivamente, publicados na
ferramenta reels do Instagram; ferramenta mais recente desta rede social. Essa constatação
corrobora a importância do reels como estratégia com maior possibilidade de entrega aos
usuários e o quanto vídeos curtos, atraentes e bem elaborados tendem a se projetar mais
nessa rede social que supervaloriza a beleza das publicações, seja em imagens ou em vídeos
(MANOVICH, 2017).
Acreditamos que a escolha do Instagram como rede social preferencial e da comunicação
virtual tenham contribuído para uma efetiva e abrangente comunicação de ciência, tendo
em vista que a ciência precisa fazer-se presente onde as pessoas estão. Estudos como o de
Martin e MacDonald (2020) mostram que as redes sociais têm bastante potencial, inclusive
por permitirem um modelo participativo de comunicação, em que o cientista/pesquisador
pode interagir com o público, esclarecer dúvidas e mostrar o que faz: “the internet and social
media provide science communicators with significant opportunities to share policy-relevant

468

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

information with citizens, as such tools are now the main information source for the public,
including for scientific and policy information” (MARTIN; MACDONALD, p.2).
Os desafios desta edição na área da Comunicação, além das condições climáticas
difíceis enfrentadas por todos os participantes, com sensação térmica chegando a 46°C, foram
a conectividade à internet limitada ou ausente nos municípios e a quantidade insuficiente
de profissionais da área para cobrir o grande número de atividades paralelas desenvolvidas
diariamente. A dimensão da Expedição Científica hoje exige uma equipe de assessoria de
comunicação própria, a fim de garantir uma cobertura jornalística ampla, eficiente e eficaz
e o atendimento a contento da imprensa em geral, seja para prestar esclarecimentos, sugerir
pautas ou enviar material audiovisual.
Entretanto, com os recursos financeiros e humanos disponíveis, podemos considerar
que a comunicação realizada durante a 4ª Expedição foi bem-sucedida, tendo como referência
a repercussão local, nacional e internacional, por meio dos portais da Ufal e da Associação
Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes); das dezenas
de sites de notícias, jornais impressos e revistas, a exemplo da Revista Travessia, do CBHSF,
e da Revista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); de telejornais locais
e nacionais, como o Jornal Hoje, o Jornal Nacional e o Hora 1, da TV Globo; e através do
convite para participação na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), promovida
pelo MCTI em dezembro de 2021.
A Aventura Produções, produtora premiada internacionalmente, também acompanhou
integralmente a 4ª Expedição e lançará, em breve, um documentário sobre o Rio São Francisco,
conferindo ainda mais credibilidade e ampliando o alcance do programa.

REFERÊNCIAS
BURNS, T.W.; O’CONNOR, D.J.; STOCKLMAYER, S.M. Science communication:
a contemporary definition. Public Understanding of Science, v.12, n.2, p.183-202, 2003.
Disponível em: https://doi.org/10.1177/09636625030122004. Acesso em: 01 abr. 2022.
INTERNET WORLD STATS. World intenet usage and population statistics. 2021.
Disponível em: www.internetworldstats.com. Acesso em: 01 abr. 2022.
MILLAR, R. Towards a science curriculum for public understanding. School Science, v.77,
n.280, p.7-18, 1996.
MANOVICH, L. Instagram and Contemporary Image, 2017. Disponível em: http://
manovich.net/index.php/projects/instagram-and-contemporary-image. Acesso em: 22
fev. 2022.
MARTIN, C.; MACDONALD, B.H. Using interpersonal communication strategies to
encourage science conversations on social media. PLoS ONE, v.15, 2020. Disponível em:
https://doi.org/10.1371/journal.pone.0241972. Acesso em: 22 fev. 2022.
NAZAR, E.; SIQUEIRA, N. Memória e curadoria digital no Instagram: o contraste entre
feed e stories, p.463-482, 2018.

469

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

RECUERO, Raquel. A Conversação em Rede: a Comunicação Mediada pelo Computador
e as Redes Sociais na Internet. Porto Alegre: Sulina, 2012.
SANTAELLA, Lucia. A pós-verdade é verdadeira ou falsa?. Barueri: Estação das Letras e
Cores, 2018.
WE ARE SOCIAL E HOOTSUITE. Digital 2021 July Global Stathot Report, v.2, 2021.
Disponível em: https://www.slideshare.net/DataReportal/digital-2021-july-global-statshotreport-v02. Acesso em: 10 abr. 2022.

470

SOBRE OS AUTORES
Abel Barbosa Lira Neto
Bacharel em Farmácia, Pós-Graduado em Saúde Coletiva, Mestre e Doutor em Ciências
da Saúde. Atualmente, servidor técnico efetivo da UFAL e responsável técnico pelo
Laboratório Molecular Clínico do Campus de Arapiraca - UFAL. Atua em inquéritos
epidemiológicos direcionado a genética de populações associadas a doenças crônicas
transmissíveis e não transmissíveis.

Alexandre Guimarães Vasconcellos
Biólogo, Mestre em Biofísica e Doutor em Biotecnologia Vegetal pela UFRJ. Fez PósDoutorado Sênior em Gestão da Inovação em Saúde na FIOCRUZ e na WIPO, Suíça.
É Pesquisador em Proriedade Industrial e Professor da Pós-graduação da Academia de
Propriedade Intelectual, Inovação e Desenvolvimento do INPI, onde ministra as Disciplinas
de Conhecimentos Tradicionais e Direitos Associados e Propriedade Intelectual em
Biotecnologia. Lidera o Grupo de Pesquisa em Propriedade Intelectual em Biotecnologia
e Saúde no INPI. É autor de diversas publicações na área de Propriedade Intelectual e já
apresentou mais de 100 palestras no Brasil e no exterior sobre o tema.

Alexandre Oliveira
Licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES 1994), mestre em Oceanografia Biológica (FURG-1999), doutor em Oceanografia Biológica
(FURG - 2006) e Pós-Doutorado em Recuperação de Áreas de Manguezal (UFMA - 2019).
Atualmente é professor Associado da Universidade Federal de Alagoas (UFAL-Penedo) onde
coordena o Laboratório de Pesquisas em Estuários e Manguezais (LAPEMI). Desenvolve
atividades na área de Ecologia de Ecossistemas, com ênfase em Manguezal, Dinâmica de
Populações, com ênfase em Crustáceos Decápodes (caranguejos e siris) e Ecotoxicologia.

Alfredo Borie Mojica
Biólogo Marinho (UNAB, Chile) e Engenheiro de Pesca (UFRPE). Mestre em Ciências
Pesqueiras nos Trópicos (UFAM) e Doutor em Recursos Pesqueiros e Aquicultura (UFRPE).
Experiência na conservação de tartarugas marinhas e genética de populações e nas áreas
de aquicultura e recursos pesqueiros (peixes ornamentais, biologia reprodutiva e cultivo de
peixes amazônicos). Trabalhou com monitoramento da atividade pesqueira artesanal e com
o impacto das hidroelétricas no rio Madeira. Atualmente trabalha com ecologia acústica
aquática, paisagem sonora e bioacústica de peixes marinhos e de água doce, utilizando o
método acústico passivo como sistema de monitoramento.

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Ana Karolina Lopes da Silva
Graduanda em Ciências Biológicas modalidade Licenciatura. Atualmente é estagiária do
Laboratório de Ficologia do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade
Federal de Alagoas. Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em Taxonomia de
Criptógamos, atuando principalmente nos seguintes temas: fitoplâncton e taxonomia
de microalgas.

Ana Paula de Almeida Portela da Silva
Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) (2004),
mestre em Biologia de Fungos (UFPE- 2007) e doutora em Ciências Biológicas (UFPE2014). Atualmente, é professora adjunta da Universidade Federal de Alagoas (UFAL),
coordenada o Laboratório de Diversidade Microbiana (LABDIMI), desenvolve atividades
na área de Microbiologia aplicada, com ênfase em Micologia. Tem interesse por fungos de
importância agronômica, controle biológico de pragas e Microbiologia ambiental

Anderson dos Santos
Doutorando em Engenharia Agrícola - Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE),
com ênfase em Meteorologia e Sensoriamento Remoto. Mestre em Agricultura e Ambiente Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Bacharel em Agronomia, pela mesma instituição.
Tem experiência em agrometeorologia e ecofisiologia, com ênfase em radiação solar e controle
de ambientes; mudança do uso do solo e desertificação, geoprocessamento e sensoriamento
remoto; e impactos das ações antrópicas no meio ambiente.

Antônio Jackson Borges Lima
Ambientalista. Bancário aposentado do BNB. Palestrante e autor de vários artigos sobre meio
ambiente. Foi Secretário de Meio Ambiente de Traipu e Diretor do sindicato dos bancários
de Alagoas. É Fundador e Diretor do Museu Ambiental Casa do Velho Chico, em Traipu.
Honrarias: Comendador das Águas - Governo de Alagoas; Título de Velho do Rio/AFBNB;
Destaque ambiental/IMA; Título de Cidadão dos Municípios de Traipu/AL, Gararu/SE,
Pão de Açúcar/AL e Cidadão Sergipano. Membro do CBHSF por três mandatos seguidos.

Carlos Alberto da Silva
Oceanógrafo, Mestre em Aquicultura, Doutor em Geoquímica Ambiental e pós-doutorados
em Gestão/Impacto Ambiental e Piscicultura Marinha. Pesquisador nas áreas de Sistemas
de Produção e Boas Práticas de Manejo em Aquicultura, Contaminação Ambiental e
Piscicultura marinha. Tem experiência na piscicultura e carcinicultura em sistemas de viveiros
e tanques-rede. Atua na Geoquímica com contaminação e biomagnificação de metais pesados
na cadeia trófica.

472

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Chaiane Assunção
Graduanda em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal- Penedo).
Atualmente estagia no Lapem (Laboratório de pesquisas em Estuários e Manguezais) da
Ufal Penedo. Atuando nas áreas de monitoramento de Ecossitemas Costeiros com ênfase em
Estuários e manguezais e Volutariando com projetos de Educação Ambiental e recuperação
das populações de meros na costa Brasileira.

Cristiane Castro

Odontóloga (UFBA). Especialista em Gestão de sistemas e serviços de saúde. Mestre
em Saúde Coletiva e doutora em Saúde Pública, área de concentração Epidemiologia.
Experiência na área de Epidemiologia e odontologia, com ênfase em Saúde Coletiva, atuando
principalmente nas seguintes áreas: epidemiologia, saúde coletiva, bioestatística, políticas
de saúde. Membro associado da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).
Trabalhou como dentista de equipe da Estratégia Saúde da Família em dois municípios, como
coordenadora de saúde bucal da equipe de gestão municipal, como epidemiologista e como
sanitarista na Diretoria de Atenção Básica e na Diretoria de Vigilância Epidemiológica da
SESAB. Professora Adjunta da Universidade Federal de Alagoas e da Uninassau.

Daniela Ferreira de Oliveira
Acadêmica do curso de Odontologia pela Universidade Federal de Alagoas - UFAL.
Pesquisadora do programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC - UFAL)
na área de Dentística e Materiais Dentários. Vinculada ao grupo de Pesquisa Biomateriais
em Odontologia (UFAL). Bolsista do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde
(PET - Saúde) /interprofissionalidade (Ministério da Saúde). Monitora da disciplina
de Endodontia de Laboratório (FOUFAL) em 2019. Integrante da Liga Acadêmica de
Endodontia da FOUFAL.

Eduardo Lucena Amorim
Possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Alagoas-UFAL (2005),
mestrado em Engenharia Hidráulica e Saneamento pela Escola de Engenharia de São Carlos
(EESC) da Universidade de São Paulo-USP (2007) e doutorado em Engenharia Hidráulica
e Saneamento pela Universidade de São Paulo (2009). Atualmente é professor Associado III
dos cursos de Engenharias e pesquisador do Centro de Tecnologia da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL). É professor dos programas de pós-graduação em Recursos Hídricos
e Saneamento e do programa de pós-graduação de Engenharia Química do Centro de
Tecnologia da UFAL. Atualmente é coordenador do programa de pós-graduação em Recursos
Hídricos e Saneamento (PPGRHS/UFAL). Bolsista de Produtividade em Pesquisa 2 do
CNPQ. É membro do grupo de trabalho saneamento do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio
São Francisco (CBHSF). Tem experiência na área de Engenharia Hidráulica e Saneamento,
com ênfase em Tratamento de Águas Residuárias.

473

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Eliane Aparecida Holanda Cavalcanti
Bacharel em Ciências Biológicas, Mestre em Biologia Animal e Doutora em Oceanografia.
Docente associada III e vice-reitora da Universidade Federal de Alagoas. Tem experiência em
Zoologia (biodiversidade e macrozooplâncton) e em Saúde Pública (parasitologia humana).
Atualmente coordena a Unidade de Testagens no enfrentamento ao Sars-COV-2 – UFAL
de Campus de Arapiraca.

Elica Amara Cecilia Guedes
Possui graduação em Ciencias Biologicas pela Universidade Federal do Rio Grande do
Norte, Mestrado em Botanica pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e Doutorado
em Biotecnologia - RENORBIO, pela Universidade Estadual do Ceará, com área de
concentração em Biotecnologia de Recursos Naturais. É professora de nivel superior da
Universidade Federal de Alagoas ministrando aulas para os cursos de biologia, farmacia,
agronomia e zootecnia. Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em Taxonomia
de Criptógamos, atuando principalmente nos seguintes temas: fitoplancton, algas marinhas
bentonicas e bioprospecção de extratos de algas.

Emerson Carlos Soares
Engenheiro de Pesca, graduando em Biomedicina, especialização em Gestão de Recursos
Pesqueiros, Mestre em Biologia de Água Doce, Doutor em Biotecnologia com ênfase em
Aquicultura, Pós-Doutorado em Ciências Marinhas com ênfase em reprodução de peixesInstituto Espanhol de Oceanografia/Espanha. Aperfeiçoamento em microparasitas na
Universidade do Porto/Portugal. Estágio na Kentucky State University- USA em aquicultura.
Finalista do prêmio Espírito Público na área de meio ambiente e premiado pela Revista Gente
da Gente, como personalidade da pesquisa na área ambiental em 2022. Foi Vice-Coordenador
do comitê cientifico de bacias hidrográficas do Nordeste/MAPA. Coordenador da forçatarefa de pesquisas do óleo nas praias em Alagoas. Coordenador Geral das Expedição do
São Francisco. Coordenador do Programa de Biomonitoramento do rio São Francisco e do
projeto de qualidade ambiental dos três rios da APA Costa do Corais. Professor Associado
IV da graduação e do mestrado em Recursos Hídricos e Saneamento da Universidade Federal
de Alagoas.

Emerson Fonseca Oliveira Filho
Graduando em Agroecologia (bacharelado, UFAL). Produtor audiovisual de documentários.
Atualmente está produzindo um documentário sobre a história da Agroecologia no Estado
de Alagoas, envolvendo a Universidade Federal de Alagoas, IFAL Maragogi, EMATER,
SEAGRI, CPT, MST, Instituto Terra Viva, PRONERA, Coopabacs, AAGRA, Associação
Aroeira, Rede Mutum de Agroecologia e agricultores oriundos da agricultura familiar.
Sob orientação do Professor Rafael Navas, trabalha com levantamentos de campo, sobre
socioeconomia de comunidades e agricultura familiar.

474

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Emilly Valentim de Souza
Graduanda em Zootecnia. Bolsista do programa pró-graduando da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL). Colaboradora PIBIC no laboratório de Aquicultura e Análise de
Água (LAQUA) sob orientação da Profª. Drª. Themis de Jesus da Silva. Tem experiência
em microparasitologia da fauna aquática do Brasil e ecotoxicologia, com ênfase nas enzimas
antioxidantes Catalase e Superóxido dismutase, peroxidação lipídica (Malondialdeído) e
teste de micronúcleo.

Ester Milena dos Santos
Mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFS na linha de pesquisa em
Planejamento e Gestão Ambiental com ênfase em Recursos Hídricos, apresenta graduação
em Engenharia Ambiental e Sanitária pela UFS. Apresenta alguns estudos e atuações
nas seguintes temáticas: resíduos sólidos, licenciamento ambiental, geoprocessamento e
modelagem ambiental.

Gilson Rambelli
Arqueólogo Subaquático; Professor Associado III do Departamento de Arqueologia
da Universidade Federal de Sergipe - UFS; Bolsista de Produtividade do CNPq; Possui
Graduação em História pela Universidade de São Paulo - USP (1991), Especialização
em Arqueologia Subaquática na França (1992), Mestrado (1998) e Doutorado (2003) em
Arqueologia pela Universidade de São Paulo - USP e Pós-Doutorado em Arqueologia
Subaquática pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP (2004-2007); Professor
dos Programas de Pós-graduação em Arqueologia (PROARQ-UFS) e Antropologia (PPGA
- UFS); Coordenador do Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos (LAAA/
UFS); Membro do Comitê Internacional para o Patrimônio Cultural Subaquático / Conselho
Internacional de Monumentos e Sítios (ICUCH / ICOMOS).

Hanna Francyelle Barbosa Costa
Engenheira Civil - IFAL e especialização em Gerenciamento de Obras pela UNIBF,
Mestranda em Recursos Hídricos e Saneamento pelo PPGRHS-UFAL na linha de pesquisa
de qualidade ambiental aquática. Possui conhecimento nas análises de parâmetros físicoquímicos e microbiológicos na água e análise de contaminantes por cromatografia gasosa
(GC/MS) e cromatografia líquida de alta eficiência (HPLC).

Hortência Elucielly Pereira de Santana
Graduada em Química Industrial pela UFS e atual mestranda do Programa de Pós-Graduação
em Biotecnologia (PROBIO - UFS). Possui experiência na área de tratamento de amostras
e análise de metais tóxicos em pescados, tendo atuado como bolsista de Desenvolvimento
Tecnológico e Industrial na Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE).

475

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Iara Maria Melo Nascimento,
Graduanda em Comunicação Social - Jornalismo (UFAL). Atuou no Núcleo de Rede da
TV Gazeta de Alagoas, afiliada da Rede Globo, com apuração jornalística e produção de
reportagens. Atualmente, trabalha como analista de comunicação em uma Organização da
Sociedade Civil (OSC), em Maceió. Trabalha com assessoria de imprensa e gestão de mídias
sociais. Teve experiências também com assessoria de imprensa, no Serviço Brasileiro de Apoio
às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE).

João Inácio Soletti
Possui graduação em Engenharia Química pela Universidade Estadual de Maringá (1986),
mestrado em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro / COPPE/
PEQ (1990) e doutorado em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro / COPPE/ PEQ (1997). Pós-Doutorado na University of British Columbia, em
Vancouver, Canadá. Tem experiência na área de Engenharia de Produção, com ênfase em
Pesquisa Operacional, e na área de energia, atuando principalmente nos seguintes temas:
biodiesel, tratamento de efluentes, otimização de processo, petróleo e separação petróleo-água.
Professor Titular pela Universidade Federal de Alagoas, com defesa de Memorial ocorrido
em 24 de julho de 2015. Bolsista CNPq de Produtividade em Desenvolvimento Tecnológico
e Extensão Inovadora - DT 2015, Nível 2.

João Thiago Gomes de Farias
Técnico em estradas. Atua na 5ª Superintendência da CODEVASF atuando nas áreas de
levantamento topográfico, geoprocessamento, sensoriamento remoto e elaboração de projetos.

José Aldo Correia
Supervisor de imagens da TV Gazeta, afiliada da Rede Globo em Alagoas. Trabalha há 14
anos na empresa como repórter cinematográfico de rede e editor de imagem, com reportagens
veiculadas em telejornais e programas locais e nacionais, como Jornal Nacional, Jornal Hoje
e Hora 1. Com experiência internacional, é graduando em Marketing Digital (Uninassau),
e já fez intercâmbio na Globo como camera cross do BBB 17.

José Amorim Neto
Jornalista com especialização em telejornalismo, radialista, roteirista e estudante de aviação.
Também possui especialização em gestão de pessoas. Como jornalista atuou na rádio CBN
no Recife com carreira de repórter de tv há 25 anos, sempre com afiliadas à rede Globo.
Experiência em importantes coberturas relacionadas à secas e enchentes no Nordeste, e em
assuntos diversos com mais de 1.200 participações em telejornais nacionais da rede Globo
e Globo News. Foi diretor de jornalismo durante 7 anos em Teresina- PI e Caruaru-PE.
Atualmente coordena o núcleo globo de jornalismo na Tv Gazeta- Maceió e com função de
repórter em telejornais nacional. Cobre a expedição científica do rio São Francisco há 3 anos.

476

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

José Vieira Silva
Engenheiro Agrônomo, Mestre e Doutor em Fitotecnia pela Universidade Federal do
Ceará (UFC). Perito Criminal na área ambiental pela ANP/DPF. Professor Associado da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL - Campus Arapiraca), nas áreas de Ecofisiologia
Vegetal e Agrometeorologia. Estuda e pesquisa na área de ecofisiologia de plantas cultivadas e
nativas sob condições de estresses (hídrico e salino) e atua na recuperação de áreas degradadas
e educação ambiental. É Pesquisador e Coordenador do Centro de Referência em Recuperação
de Áreas Degradadas (CRAD) do Baixo São Francisco – UFAL.

Jucilene Cavali
Mestre e Doutora em Zootecnia (UFV). Professora Associada da Universidade Federal de
Rondônia. Atua como docente nos cursos de Engenharia de Pesca e Zootecnia. Laboratório
de Ciência da Carne – LCC/UNIR e Núcleo de Estudos de Espécies de Peixes Tropicais
- NEPET. Pesquisadora/Orientadora no Programa de Mestrado Acadêmico em Ciências
Ambientais da UNIR/Embrapa e no Programa de Doutorado em Sanidade e Produção
Animal Sustentável na Amazônia Ocidental (PPGESPA/UFAC). Desenvolve pesquisas
em Sistemas de produção sustentáveis de peixes nativos na Amazônia, área piscicultura 4.0
para a comercialização do pescado.

Juliett de Fátima Xavier da Silva
Engenheira de Pesca pela Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE. Mestre em
Recursos Pesqueiros e Aquicultura - UFRPE. Doutora em Ciências Biológicas - UFPE. Atua
na área de tecnologia do pescado, com ênfase em enzimologia aplicada a organismos aquáticos,
aproveitamento integral do pescado; e inspeção do pescado. Atualmente é Professora Adjunta
do Curso de Engenharia de Pesca da UFAL – Penedo, lecionando as disciplinas de: Tecnologia
e Inspeção do Pescado, Beneficiamento e Industrialização do Pescado, Microbiologia Geral
e do Pescado, e Instalações Pesqueiras e Engenharia Sanitária.

Karol Firemam de Farias
Bacharel em Enfermagem, Mestre em Ciências da Saúde e Doutora em Biotecnologia
em Saúde. Docente Adjunta II e coordenadora do Laboratório Molecular Clínico. Tem
experiência em revisões patentárias, saúde do trabalhador rural, câncer de colo do útero,
infecções sexualmente transmissíveis, comorbidades psiquiátricas, biomarcadores imunológicos
e genéticos. Atualmente atua na Unidade de Testagem no enfrentamento ao Sars-CoV-2 do
Campus de Arapiraca.

Lívia Maria Alves Lino Acioly de Carvalho
Engenheira ambiental e sanitarista, atualmente presidente do Comitê de bacia hidrográfica
do Rio Piauí e superintendente de meio ambiente do Município de Arapiraca.

477

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Lucas Cruz Fonseca
Química Bacharel pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Tecnólogo em Gestão
Ambiental e Especialista em Engenharia Ambiental e Saneamento Básico pela Universidade
Estácio de Sergipe. Experiência em Química Analítica Ambiental, Recursos Hídricos e
em Coleta e Preservação de amostra de água e sedimentos. Atualmente trabalhando no
monitoramento de qualidade da água dos mananciais superficiais e reservatórios do estado
de Sergipe, no Instituto Tecnológico e de Pesquisas do Estado de Sergipe (ITPS).

Lucas de Oliveira Arruda
Graduando de Zootecnia. Bolsista do programa pró-graduando da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL). Atualmente faz parte da equipe de estudantes do Laboratório de
Aquicultura e Análise de Água (LAQUA). Tem experiência em microparasitologia da fauna
aquática do Brasil e ecotoxicologia.

Ludmylla Wolpert
Graduanda em Engenharia de Pesca (UFAL-Penedo). Atualmente estagia no LAPEM
(Laboratório de Pesquisas em Estuários e Manguezais) da UFAL Penedo. Atua na área de
Monitoramento de Ecossistemas Costeiros, com ênfase em Manguezais.

Luís Felipe Freire Dantas Santos
Doutor em Arqueologia pelo Programa de Pós-graduação em Arqueologia da Universidade
Federal de Sergipe (2020) e Mestre em Arqueologia pelo Programa de Pós-graduação em
Arqueologia da Universidade Federal de Sergipe (2013). Possui graduação em História
pela Universidade Tiradentes (2009). Especialista em Cinema e Linguagem Audiovisual
pela Universidade Estácio de Sá (2021). Pesquisador do Laboratório de Arqueologia de
Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe. Diretor de Projetos da Contextos
Arqueologia. Possui experiência com diagnóstico, levantamento, resgate e monitoramento
de sítios arqueológicos em áreas emersas e submersas, bem como com a coordenação de
atividades de requalificação de acervos arqueológicos.

Manoel Messias da Silva Costa
Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Alagoas (2003). Mestrado
(2008) e Doutorado (2015) em Botânica pela Universidade Federal Rural de Pernambuco.
Experiência na área de Botânica, com ênfase em Taxonomia, Sistemática e Ecologia de micro
e macroalgas. Professor de nível médio (Estado de Alagoas e Instituto Federal de Alagoas/
IFAL), e superior (Faculdade Regional Brasileira/UNIRB e Instituto Federal de Alagoas/
IFAL) e Professor Formador I (Bolsista CAPES) de Ensino a Distância da Universidade
Aberta do Brasil (UAB).

478

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Maraísa Bezerra de Jesus Feitosa
Bióloga, lotada no Laboratório de Aquicultura e Análise de Água/CECA/UFAL. Mestre e
Doutora em Ciências da Saúde pela UFS. Atua na área de biofísica cardiovascular e biologia
do estresse oxidativo e hoje investiga a interação de poluentes e compostos abióticos na
modulação das espécies oxidativas e sistema enzimáticos nos diversos tecidos de peixes.

Marco Yves de Aguiar Vitório Praxedes
Engenheiro de Pesca pela Universidade Federal de Alagoas. Marinheiro fluvial de convés. Tem
experiência em ecologia e diversidade de ecossistemas aquáticos continentais; em larvicultura
e cultivo de crustáceos decápodos, com ênfase em camarões de água doce; em hidrologia e
em biologia reprodutiva de peixes.

Marcus Aurélio Soares Cruz
Engenheiro Civil, Mestre e Doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental,
Pesquisador em Manejo de Bacias Hidrográficas na Embrapa Tabuleiros Costeiros, em
Aracaju, Sergipe. Tem experiência em Hidrologia, Modelagem hidrológica, Impactos
Ambientais e Geotecnologias.

Milena Dutra da Silva

Doutora em Geografia, Mestre em Botânica e Licenciada em Ciências Biológicas. É professora
adjunta da Universidade Federal da Paraíba, Curso de Ecologia, e se dedica aos estudos
integrados do meio ambiente, com especial atenção aos remanescentes florestais, utilizando
saberes em Botânica, Sensoriamento Remoto, Geoprocessamento e Ecologia da Paisagem.

Maria Mônica de França Aquino

Graduanda em Ecologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), estagiária do
laboratório de Cartografia e Geoprocessamento (LCG). Tem experiência na área de Análise
do Uso e Cobertura do Solo e Ecologia da Paisagem. Pesquisadora do Programa Institucional
de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) no ano de 2017-2018 e 2018-2019, Pesquisadora
do Programa Institucional Voluntário de Iniciação Científica (PIVIC) no ano de 2019-2020.
Monitora da disciplina de Sensoriamento Remoto e SIG em 2019 e no ano atual 2022.

Mozart Daltro Bispo
Técnico em Eletrônica Industrial pelo SENAI, graduado em Engenharia e Tecnologia de
Petróleo e Gás, mestre e doutor em Biotecnologia Industrial. Experiência na área Química,
com ênfase em Química Analítica. Trabalho com análises cromatográficas enfatizando a
cromatografia gasosa (GC/FID,GC/MS e GCxGC/qMS) e líquida (HPLC/DAD/MS).
Atuo em projetos voltada a técnicas de extração (LLE, SPME), termoquímicas (pirólise) e
analises cromatografias (combustíveis, biocombustíveis, óleos essenciais e outros). Atualmente
pesquisador pós-doc. do programa de Engenharia Química – UFAL, colaborando no
monitoramento dos pesticidas e compostos tóxicos no baixo do rio São Francisco.

479

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Nadjacleia Vilar Almeida
Doutora em Geografia pela UFF (2012) com área de concentração em Ordenamento
Territorial Ambiental, Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (2006) e graduada
em Geografia (Bacharelado e Licenciatura), ambos pela UFPB (2002/2003). Atualmente é
professora adjunta do curso de Ecologia da Universidade Federal da Paraíba (Campus IVCCAE), coordenadora do Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento (LCG/CCAE/
UFPB) e do grupo de pesquisa Estudos Geoambientais. Tem experiência na área de Ciências
Ambientais, atuando principalmente nos seguintes temas: geotecnologias com ênfase no
sensoriamento remoto e geoprocessamento, diagnóstico ambiental de bacias hidrográficas,
expansão urbana, ecologia de paisagem e ordenamento e planejamento ambiental.

Paulo Bava de Camargo
Professor adjunto do magistério público superior, no Departamento de Arqueologia (DARQ)
e no Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PROARQ) da Universidade Federal
de Sergipe (UFS) desde 2013. Estágio de pós-doutorado na área de Arqueologia (2014),
no Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH),
Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Doutor em Arqueologia pelo Museu de
Arqueologia e Etnologia (MAE), da Universidade de São Paulo (USP), em 2009. Mestre em
Ciências (2002), área de concentração em Arqueologia, no MAE-USP, então subordinado
à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Bacharelado em Ciências
Sociais pela FFLCH-USP (1998). Experiência em Arqueologia, nas disciplinas de Arqueologia
marítima, portuária, subaquática, náutica/ naval, de ambientes aquáticos, histórica, urbana,
industrial, mediterrânica e em Arqueologia preventiva. Membro da Sociedade de Arqueologia
Brasileira (SAB) e da European Association of Archaeologists (EAA).

Petrônio Alves Coelho Filho
Bacharel em Ciências Biológicas (UFRPE), especialista em ecossistemas aquáticos (UFPE),
Mestre em oceanografia (UFPE) e Doutor em oceanografia biológica (USP). Possui experiência
em estudos da diversidade, conservação e ecologia de ecossistemas aquáticos, com ênfase nos
estudos dos crustáceos decápodos. Professor do curso de graduação em Engenharia de Pesca
da UFAL e dos Programas de Pós-graduação em Diversidade e Conservação (mestrado) e
em Gestão Ambiental (especialização) da UFAL.

Priscylla Costa Dantas
Engenheira Florestal pela Universidade Federal de Sergipe. Mestre e Doutora em Entomologia
Agrícola pela Universidade Federal de Lavras e Especialização em Educação Ambiental
(com ênfase em espaços educadores sustentáveis) pela Universidade Federal de Sergipe.
Pós-doutorado na modalidade Desenvolvimento Científico Regional (DCR-Fapeal) pela
Universidade Federal de Alagoas. Atualmente Professora substituta do Centro de Ciências
Agrárias (CECA-UFAL) e atua como pesquisadora no Laboratório de Aquicultura e Análise
de água (LAQUA) na área de técnicas histológicas e histoquímicas de peixes.

480

EMERSON CARLOS SOARES | JOSÉ VIEIRA SILVA | THEMIS JESUS SILVA (ORG.)

Ricardo Araújo Ferreira Junior
Engenheiro Agrônomo, Mestre em Agronomia (Produção vegetal) e Doutor em Agronomia
(Energia na Agricultura). Professor efetivo da UFAL. Ministra as disciplinas relacionadas
à Agrometeorologia e Energia de Biomassa. Tem experiência na área de Agrometeorologia
atuando principalmente nos seguintes temas: medidas e modelagens agrometeorológicas e
radiométricas, Modelagem do Crescimento e Desenvolvimento Vegetal.

Rychardson Rocha de Araújo
Engenheiro Agrônomo pela Universidade Federal de Alagoas, Mestre e Doutor em Fitotecnia
pela Universidade Federal do Seminárido - RN. Professor efetivo da Universidade Federal de
Sergipe. Ministra as disciplinas de Topografia Aplica a Ciências Agrárias, Produção e Manejo
de Cana-de-açúcar e Técnicas de Produção e Manejo de Culturas Agrícolas. Tem experiência
nas áreas de geoprocessamento e sensoriamento remoto e agricultura atuando nas seguintes
linhas de pesquisa: geoprocessamento, topografia, produção vegetal e agricultura de precisão.

Rose Mary Ferreira Pereira Gomes
Bacharel em Jornalismo (UFAL), especialista em Mídias na Educação, pelo Centro de
Educação (CEDU/UFAL) e mestre em Multimédia, pela Faculdade de Engenharia
da Universidade do Porto (FEUP), Portugal. Servidora da Assessoria de Comunicação
(ASCOM) da UFAL, desde 2008, tem ampla experiência em comunicação institucional,
divulgação científica e redes sociais. Também possui experiência em revisão textual, edição
e assessoria de comunicação de grandes eventos, como Bienais Internacionais do Livro de
Alagoas, Congressos Acadêmicos Integrados de Inovação e Tecnologia (CAIITE) e a 70ª
Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Sandra Helena Vieira de Carvalho
Graduada em Engenharia Química pela Universidade Federal de Pernambuco (1985),
mestrado (1990) e doutorado (1998), em Engenharia Química pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro UFRJ/COPPE/ PEQ. Pós-Doutorado na University of British Columbia,
em Vancouver (UBC), Canadá. Trabalhou por cinco anos em indústrias químicas, como
engenheira de projeto e de processo. Professora da Universidade Federal de Alagoas (UFAL),
tendo aposentado como Professor Titular em 2017. Professora visitante, concursada pela
UFAL, 2018 a 2020; e, professora voluntária da UFAL a partir de 2020. Tem experiência na
área de energia, atuando, principalmente, nos seguintes temas: biodiesel, dessalinização solar,
gaseificação, bioóleo e biocarvão. Bolsista de Produtividade e Desenvolvimento Tecnológico
e Extensão Inovadora do CNPq- DT 2, Nível 2.

Tatiane Luciano Balliano
Graduação em Química, mestrado em físico-química e doutorado em física aplicada.
Desenvolve projetos na área de desenvolvimento tecnológico a partir de produtos naturais,
na área de inovação e transferência de tecnologia e empreendedorismo inovador. Na expedição
nosso projeto está voltado para obtenção de extratos de plantas das matas ciliares do Rio
São Francisco

481

O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Themis de Jesus da Silva
Licenciada em Ciências Biológicas (UFAM), Mestre em Genética e Evolução (UFSCar)
e Doutora em Biotecnologia (UFAM). Atualmente Professora da UFAL, com experiência
na área de genética (genética molecular e genotoxicidade) e microparasitologia da fauna
aquática do Brasil.

Ubiratan Piovezan
Zootecnista pela UNESP de Jaboticabal em 1995. Participou do Programa PET/CAPEs.
Mestre em Zootecnia pelo programa de Pós graduação em Genética e Melhoramento
Animal da UNESP, em 1998. Doutor em Ecologia pela Universidade de Brasíla - UnB,
em 2004. Pesquisador da Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária desde
2002, possui experiência nas áreas de conservação e uso de animais; ecologia aplicada;
manejo, comportamento e bem estar animal; além de possuir experiência no campo das
relações internacionais, sobre o tema Agricultura. Atual supervisor do Núcleo de Apoio à
Programação da área de PD&I - NAP, também atua como secretário executivo do Comitê
Local de Publicações - CLP e como vice-coordenador da CEUA - Comissão de Ética no
Uso de Animais da Embrapa Tabuleiros Costeiros. Membro de grupo de especialistas da
IUCN desde 2009 - DSG/SSC/IUCN.

Vanildo Souza de Oliveira
Engenheiro de Pesca pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE, 1985),
Mestre e Doutor em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal de Pernambuco.
Especialização em Ciências Pesqueiras no Japão e Pesca de Profundidade na Coréia do Sul.
Atualmente é Professor Associado da UFRPE. Foi consultor da FAO na África e assessor
técnico do CONAMA. Trabalhos realizados com recursos e produção pesqueira, pesca
artesanal e industrial, métodos sustentáveis de pesca.

Vivian Costa Vasconcelos
Engenheira de Pesca com Mestrado em Zootecnia pela Universidade Federal de Alagoas
(2016/ PPGZ- 2019). Atualmente é colaborador/ pesquisador do Laboratório de Aquicultura
e Análises de Água (LAQUA/CECA/UFAL), realizando estudos de biomonitoramento nos
rios do litoral norte de Alagoas, investigando a qualidade de água e seus efeitos contaminantes
na saúde de peixes, principalmente na Apa Costa dos Corais de Alagoas e na região do Baixo
São Francisco, com ênfase em estresse oxidativo, genotoxicidade, histologia, microparasitologia
e análises físico/química e microbiológica de água

482

Este é o segundo volume de uma história que foi concretizada em 2018. As
Expedições Científicas do São Francisco, hoje, são uma realidade no que diz
respeito à conscientização ambiental e social. É um modelo de sucesso para
implementar e atrair políticas públicas para a resolução de problemas no
Baixo São Francisco. Este resultado é fruto de uma grande parceria visionária, que engloba, pesquisa, ensino, extensão e amor ao Velho Chico. A
maior expedição científica do Brasil, veio para mostrar que a mudança de
paradigmas depende de força de vontade, conhecimento e ações. O trabalho desenvolvido por cerca de 18 instituições, entre investidoras e parceiras,
permitiu confeccionar o volume II desta obra, mesmo nos dois anos de pandemia (2020 e 2021), e mostrou que é possível realizar ações, em prol do
povo ribeirinho, com responsabilidade e cuidado com o próximo. A Ciência
não se curvou a um vírus e não se curvará aos desafios de mudar a realidade do Baixo São Francisco. O trabalho foi coordenado pela Universidade
Federal de Alagoas (Ufal) e contou com a participação efetiva e investimentos de: CBHSF, MCTI, Embrapa (SE), Emater (AL), Fapeal, Codevasf, UFS,
UFRPE, UFPB, ITPS, Semarh (AL), Unir, Pedreira Triunfo, Museu do Velho
Chico e Inpi, além do apoio das prefeituras de Piranhas, Pão de Açúcar,
Traipu, São Brás, Propriá, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu. O conteúdo do
livro contempla a participação de mais de 55 pesquisadores/as que estiveram presentes nas expedições e/ou colaboraram nas análises laboratoriais.
Ao todo, são 23 capítulos estruturados por grandes áreas do conhecimento
científico, de maneira que a organização da escrita técnico-científica possa
facilitar a leitura e o entendimento por parte de todos/as os/as leitores/as.
Viva o Velho Chico; viva as Expedições Científicas do São Francisco!

Patrocínio:

ISBN 978-65-5624-111-1

9 786556

241111
                
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