Relatório final da VI Expedição Científica do Baixo São Francisco
Ano: 2023
Relatório Final - VI Expedicao Científica do BSF.pdf
Documento PDF (43.9MB)
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RELATÓRIO FINAL DA VI EXPEDIÇÃO
CIENTÍFICA DO BAIXO
SÃO FRANCISCO
Organizadores
Emerson Carlos Soares
José Vieira Silva
Themis de Jesus da Silva
Maceió-AL
Junho/2024
1
EXPEDIENTE
Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
Reitor
Josealdo Tonholo
Vice-reitora
Eliane Cavalcanti
Expedição Científica do
Baixo São Francisco
Coordenadores
Prof. Dr. Emerson Soares (UFAL)
Prof. Dr. José Vieira (UFAL)
Profª. Drª. Themis Silva (UFAL)
Revisão
Rose Ferreira
Edição
Rose Ferreira
Iara Melo
Diagramação
Iara Melo
INVESTIDORES
Relatório disponível em:
ufal.br/expedicao-sao-francisco
2
SUMÁRIO
SAÚDE
COLETIVA
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04
1. Ações de saúde coletiva em municípios ribeirinhos localizados no Baixo São Francisco ...... 05
2. Ações de saúde bucal e levantamento epidemiológico da cárie dentária em escolares das
comunidades ribeirinhas da região do Baixo São Francisco durante a VI Expedição no ano
de 2023........................................................................................................................................................................... 34
ANÁLISE
DE
ÁGUAS•
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3. Análise físico-química e microbiológica da água em municípios do Baixo São Francisco ..... 44
4. Fitoplâncton do Baixo rio São Francisco..................................................................................................... 65
5. Avaliação de genotoxicidade utilizando peixes coletados na VI Expedição do
São Francisco............................................................................................................................................................... 78
6. Avaliação de biomarcadores antioxidantes enzimáticos e histopatológicos nos peixes coletados durante VI Expedição no São Francisco................................................................................................... 86
7. Investigação de salmonella spp e bolores em pescados comercializados em feiras livres
do Baixo São Francisco............................................................................................................................................102
8. Biofonia e a produção de sons de peixes nativos do Baixo rio São Francisco...............................113
9.Monitoramento de pesticidas no Baixo São Francisco.............................................................................135
10. Evidências de contaminação microplástica no Baixo rio São Francisco........................................165
11.Características da atividade pesqueira nas V e VI Expedições Científicas do Baixo São
Francisco........................................................................................................................................................................186
SOLOS,
MANGUEZAIS E ECOLOGIA • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •• 213
12.Monitoramento Ambiental das matas ciliares dos principais afluentes do Rio São Francisco
em seu baixo curso....................................................................................................................................................214
13. Estrutura fitossociológica e densidade populacional do caranguejo-uçá no bosque de
mangue da foz do Rio São Francisco.................................................................................................................226
PATRIMÔNIOS
E POVOS ORIGINÁRIOS • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 232
14.Antropologia das populações tradicionais..................................................................................................233
15. Arqueologia subaquática nas Expedições Científicas do Baixo rio São Francisco: paisagens
e longa duração..........................................................................................................................................................253
16. Indicações Geográficas e seu potencial uso como ferramenta para o desenvolvimento
regional sustentável nos municípios do Baixo São Francisco...................................................................273
17. Práticas corporais do Baixo São Francisco: a hegemonia futebolística e o brincar livre
com o rio.......................................................................................................................................................................287
EDUCAÇÃO
AMBIENTAL E SANEAMENTO RURAL • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 297
18. IBGE na VI Expedição Científica do Baixo São Francisco.................................................................. 298
19. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico: Jogo Akauana - oficina para os
professores................................................................................................................................................................. 307
20. Participação da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos
(SEMARH-Al).............................................................................................................................................................. 323
21. A Popularização e a Democratização do Ensino de Ciências através do Sesc Ciência do
Distrito Federal nas Expedições Científicas do Baixo São Francisco.................................................. 330
22. “Cultivar Água, Colher Serviços Ambientais”: Educação ambiental hídrica e climática com o
público do Baixo São Francisco.......................................................................................................................... 338
23.Fossas agroecológicas para o tratamento de efluentes sanitários no Baixo São Francisco..348
COMUNICAÇÃO
• • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •• • • • • • • • • • • • • • • • 362
24. Ações de comunicação na VI expedição: ações e resultados......................................................... 363
3
SAÚDE COLETIVA
4
1. AÇÕES DE SAÚDE COLETIVA EM MUNICÍPIOS
RIBEIRINHOS LOCALIZADOS NO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Ciências da Saúde.
Subárea de conhecimento: Saúde pública.
Eliane Aparecida Holanda Cavalcanti 1
Abel Barbosa Lira Neto 2
Adriano José dos Santos3
Antonio Passos Lima Filho 4
Bruna Priscila dos Santos 5
Ericlis dos Santos Silva3
Francine Simone de Mendonça Silva 6
Giovanna Maria Rodrigues Wanderley7
Karol Fireman de Farias8
Larissa Silveira de Mendonça Fragoso 9
Marcia Cristina da Silva 10
Maria do Socorro Meneses Dantas4
Mário Jorge Jucá11
Nathali da Silva Araújo 12
Rikelly Rhuana Nunes Silva7
Silvia Girlane Nunes da Silva9
RESUMO
O estudo transversal descritivo realizado durante a 6ª edição da Expedição Científica
do Baixo São Francisco em novembro de 2023 teve como objetivo principal caracterizar o
perfil epidemiológico da comunidade ribeirinha. Utilizando formulários semiestruturados,
foram coletados dados sociodemográficos e amostras biológicas por punção venosa,
raspagem cervical e entrega direta pelo paciente (fezes e urina). As amostras foram
processadas no Laboratório Clínico da UFAL do Campus de Arapiraca – UFAL, e os dados
foram analisados estatisticamente no Software SPSS após tabulação no Microsoft Excel.
Dos 294 participantes das ações de saúde, a maioria era do sexo feminino (65,43%). Foram
realizados cerca de 4000 exames, revelando altas prevalências de diabetes mellitus tipo II,
hipertensão arterial, dislipidemias, infecções sexualmente transmissíveis e desidratação.
Também foram observadas prevalências acima de 15% para infecções parasitárias e
presença de sangue oculto nas fezes. Dificuldades de acesso a exames endoscópicos
1
Bióloga, Docente, coordenadora do Lab. Clínico da UFAL - Unidade de Testagens da UFAL e coordenadora das ações de saúde na Expedição Científica do São Francisco;
2
Farmacêutico, Técnico da UFAL - Campus de Arapiraca;
3
Biólogo, Bolsista do Lab. Clínico da UFAL - Unidade de Testagens da UFAL - Campus de Arapiraca;
4
Docente. Educador/a Físico/a - Campus A.C. Simões;
5
Biomédica, Bolsista do Lab. Clínico da UFAL - Unidade de Testagens da UFAL-Campus de Arapiraca;
6
Acadêmica de Ciências Biológicas - Campus de Arapiraca;
7
Enfermeira, Docente da UFAL - Campus de Arapiraca;
8
Dentista, Docente da UFAL - Campus A.C. Simões;
9
Bióloga, Docente da UFAL - Campus de Arapiraca;
10
Bióloga, Docente da UFAL - Campus de Arapiraca;
11
Médico, Docente da UFAL - Campus A.C. Simões;
12
Acadêmica de Enfermagem, UFAL - Campus de Arapiraca.
5
comprometem o diagnóstico digestivo, enquanto alterações no ritmo de filtração
glomerular indicam incidência elevada de comprometimento renal. Os idosos relataram
qualidade de vida neutra e insuficiência financeira para suas necessidades. Embora
preservem a funcionalidade muscular, muitos enfrentam dificuldades com a força das
pernas. Adolescentes têm limitações no acesso a equipamentos de lazer. A receptividade
e participação dos ribeirinhos nas ações de educação em saúde são promissoras para
promover o autocuidado. Os resultados preliminares destacam a urgência de políticas
públicas de saúde para melhorar a qualidade de vida dessa população.
Palavras-chave: Comunidades ribeirinhas; Doenças crônicas transmissíveis; Doenças
crônicas não transmissíveis; Saúde pública. Lazer.
INTRODUÇÃO
A difícil realidade da população que habita as margens da região do Baixo São
Francisco e as desigualdades sociais, são problemas enfrentados comumente em países
em desenvolvimento, sendo ainda muito mais marcantes em comunidades vulneráveis.
Em locais com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixo ou médio, a neoplasia
maligna mais frequente em mulheres é o câncer de colo uterino, excluindo tumores
malignos não melanoma. No Brasil, as Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), são
responsáveis por cerca de 72% dos óbitos, representando a primeira causa de mortalidade
e de hospitalizações (BRASIL, 2021). Em 2019, 54,7% dos óbitos registrados no Brasil
foram causados por DCNTs e 11,5% por agravos. Segundo a Organização mundial da
saúde (OMS), em países em desenvolvimento a aderência aos tratamentos chega a ser
apenas de 20% (OMS, 2003).
Levantamentos epidemiológicos constituem instrumentos importantes para
o reconhecimento de fatores, causa e ação de morbidades, assim como, ratificam as
desigualdades sociais. Esses instrumentos são capazes de viabilizar ações de políticas
públicas em saúde (sendo uma delas os rastreamentos) sobretudo para grupos sociais
excluídos ou pouco estudados. Ressalta-se que rastreamentos de um modo geral, são
uma estratégia extremamente importante, em virtude da evolução, temporalidade,
tratamento e cura. O diagnóstico precoce permite uma qualidade de vida do paciente e
uma maior probabilidade de cura. Outrossim, o tratamento precoce poderá ser melhor
manejado não ocasionando colapso ao serviço.
A Expedição Científica do Rio São Francisco vem como uma importante estratégia
interinstitucional voltada a contribuir com a redução dos gargalos sociais levando ações
de pesquisa e extensão na área ambiental desde 2018. Com o propósito de ampliar as
áreas de conhecimento, em 2021 foram iniciadas ações de saúde, com coletas e análises
para o diagnóstico da COVID-19.
Em 2023, a área de saúde coletiva foi intensificada com realização de consultas
médicas e odontológicas, encaminhamento para alta complexidade, exames
hematológicos, bioquímicos, parasitológicos, citológicos, de biologia molecular e
avaliações de saúde na população idosa. Para além disso, ações de castrações animais
também foram desenvolvidas visando uma interface direta nas ações de saúde pública.
Nessa perspectiva, o objetivo principal das ações de saúde foi caracterizar o perfil
epidemiológico de doenças crônicas não transmissíveis na população ribeirinha do baixo
São Francisco, visando obter informações que possam subsidiar ações de saúde de
caráter multiprofissional, de modo que possa contribuir para melhorias no bem-estar e
qualidade de vida da população, assim como, no desenvolvimento de novas políticas de
saúde pública para os povos ribeirinhos.
6
METODOLOGIA
Foi realizado um estudo transversal descritivo durante o período de 20 a 30 de
novembro de 2023 em cidades ribeirinhas localizadas na região do Baixo São Francisco:
Piranhas-AL, Pão de Açúcar-AL, Traipu-AL, Propriá-SE, São Brás-AL, Igreja Nova-AL,
Penedo-AL e Piaçabuçu-AL. O conjunto das cidades visitadas/estudadas abrange uma
área de aproximadamente 3.486.635km², com uma população total em torno de 226.738
habitantes (IBGE, 2020). Foram realizadas 294 triagens em pacientes com idade igual
ou superior a 18 anos, os quais assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido
(TCLE). Essa pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos
da Universidade Federal de Alagoas (CEP/UFAL), sob parecer de nº 6.524.679 (CAAE:
75027223.0.000.5013)
A coleta de dados sociodemográficos foi realizada através de formulários semi
estruturados, assim como, foi também aplicado o Instrumento validado de qualidade de
vida da EUROHIS-EUROHIS - QOL8, originado dos itens do WHOQOL- BREF e produzido
pelo grupo WHOQOL da OMS (Romero et al., 2022). As amostras biológicas (sangue, fezes,
sangue, urina e outras secreções) foram obtidas por via direta (punção venosa, raspagens
cervicais, e/ou entregues pelo próprio paciente, a exemplo, de fezes e urina). O material
obtido foi acondicionado em caixas térmicas a 20°C, sendo imediatamente encaminhado
para o processamento no Laboratório Clínico da UFAL - Unidade de Testagens do Campus
de Arapiraca - UFAL. No soro (sem coagulante) ou no plasma (com anticoagulante) foram
realizadas as dosagens bioquímicas. As análises hematológicas foram realizadas através
de avaliação automatizada das células do sangue. No hemograma, foram analisados os
componentes celulares, os quais constituíram os resultados do eritrograma, leucograma
e plaquetograma. Tanto o soro quanto o plasma, foram refrigerados por até 3 dias ou
congelados por 30 dias até a sua análise, sem prejuízo no resultado.
Para as análises parasitológicas de fezes, foi utilizado o método de Kato-Katz (Kato;
Miura, 1954; Katz et al., 1972), o qual consiste num método direto que proporciona um
resultado qualitativo e quantitativo, através da identificação e quantificação (número de
ovos por grama de fezes – OPG) dos ovos de helmintos (Schistosoma mansoni, Ascaris
lumbricoides, Trichuris trichiura e Ancilostomídeos). Ressaltando que este é o método
preconizado pela OMS e Ministério da Saúde brasileiro nos inquéritos coproscópicos
realizados para diagnóstico da esquistossomose e geo-helmintíases (BRASIL, 2014;
2018).
Para a pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSO), foi utilizado um método
imunológico, cujo princípio utiliza anticorpos anti-hemoglobina de alta especificidade
para detecção da hemoglobina humana nas fezes. Em se tratando de rastreamento
precoce de câncer colorretal, este tipo de método é tido como um exame de primeira
linha, tendo por vantagens: não ser um método invasivo; indolor; de baixo custo; sem
necessidade de dieta específica antes do exame, além da agilidade do resultado (De
Paula Pires et al., 2021). A técnica empregada foi o teste rápido MedTest Sangue Oculto
(MedLevensohn®), que consiste num imunoensaio cromatográfico, de fluxo lateral, para
a detecção qualitativa de sangue oculto humano em fezes.
Para as análises moleculares foi utilizada a técnica RT-qPCR, para detecção de
28 tipos de HPV (19 de alto risco e 9 de baixo risco) e 7 patógenos causadores de ISTs
(Chlamydia trachomatis (CT), Neisseria gonorrhoeae (NG), Mycoplasma genitalium (MG),
Mycoplasma hominis (MH), Ureaplasma urealyticum (UU), Ureaplasma parvum (UP), e
de Trichomonas vaginalis (TV)). Para detecção dos 19 tipos de HPV de alto risco (16,
18, 26, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 53, 56, 58, 59, 66, 68, 69, 73, 82) e 9 de baixo risco (6,
11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70), a RT-PCR foi realizada utilizando o kit Anyplex II HPV28
Detection (Seegene). O material utilizado tanto para uma análise quanto a outra, foi
utilizado a citologia por meio líquido, obtidas conforme recomendação do fabricante do
meio líquido Gynoprep.
7
No tocante ao rastreamento do câncer de boca e lábio, as coletas foram realizadas
pelos docentes da Faculdade de Odontologia da UFAL (FOUFAL), através de exame
clínico extra e intraoral com auxílio de espátula de madeira, gaze e refletor odontológico,
em ambiente odontológico nas Unidades básicas de Saúde (UBS) dos municípios
ribeirinhos. Como instrumento de coleta de dados foi utilizado uma ficha clínica específica
contendo as informações de interesse da pesquisa tais como: dados sócio-demográficos,
idade, gênero, cor, ocupação ou profissão e procedência; informações sobre o uso do
álcool, tabaco e prótese dentária; presença ou ausência de lesão no lábio e/ou na boca e
descrição da lesão.
Para as análises de sedimentoscopia urinária, foi realizada utilizando a transferência
de 10 mL de urina previamente homogeneizada para um tubo de fundo cônico com
posterior análise química via tira reativa. Em seguida os tubos foram centrifugados
com rotação de 1.500 rpm durante dez minutos (centrífuga Fanem, 206 bl, Brasil).
Imediatamente após, 9,5 mL de sobrenadante foram removidos com auxílio de uma pipeta.
O volume restante de 0,5 mL foi homogeneizado e um volume de 50 µL foi depositado
sobre lâmina acrescida de lamínula de 32 mm x 24 mm para análise microscópica do
sedimento (Olympus, cx21 fs, Filipinas). Avaliaram-se vinte campos onde o aumento de
400 vezes foi empregado para observação de células epiteliais, leucócitos, eritrócitos,
cristais e outros elementos; no pequeno aumento (100 vezes) foram observados apenas
os cilindros (Andriolo,.et al 2017).
Complementando a linha de cuidado e qualidade de vida do paciente, foram
realizados atendimentos médicos especializados para rastreamento de câncer colorretal
e nefropatias crônicas. Os pacientes foram previamente triados pelos profissionais de
saúde do município e encaminhados à Unidade Básica de Saúde designada para receber
os profissionais/pesquisadores da expedição.
Para entender um pouco do conhecimento dos adolescentes sobre o lazer
e a saúde na região, foi realizada uma coleta de dados (através de questionários) de
forma individual durante as visitações dos adolescentes ao barco da saúde, sendo a
participação voluntária. Os dados coletados foram analisados utilizando a metodologia
interpretativa de Severino (2017), permitindo uma investigação aprofundada sobre os
padrões de acesso ao lazer e as barreiras enfrentadas pelos adolescentes ribeirinhos.
A análise possibilita identificar relações e significados subjacentes às respostas
dos participantes, contribuindo para o desenvolvimento de intervenções e políticas que
promovam o bem-estar e a inclusão desses jovens em contextos ribeirinhos específicos.
As análises estatísticas foram realizadas usando o programa, SPSS (Statistical Package
for Social Sciences) versão 22.0 (SPSS Inc., Chicago, Estados Unidos). A análise descritiva
foi realizada a partir de média e desvio padrão, as variáveis categóricas foram definidas
por frequência relativa e absoluta seus respectivos desvios padrões. Foram realizados
testes de distribuição a fim de verificar a normalidade das variáveis através do teste
de Kolmogorov-Smirnov e Shapiro-Wilk. O cálculo da amostra foi realizado no módulo
StatCalc do software Epi-info, versão 7.1.4.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
ANÁLISES BIOQUÍMICAS
Durante a 6ª edição, foram triados 294 pacientes, e nos mesmos, foram realizadas
as dosagens bioquímicas [Glicose, colesterol total, triglicerídeos, AST (TGO), ALT (TGP),
Creatinina e Ureia]. Na Tabela 1, encontram-se as médias e seus respectivos desviospadrão detalhadas por municípios investigados. Os valores de referências utilizados
estão descritos no Quadro 1 (SBAC, 2016; CONSENSO, 2016).
Tabela 1: Perfil bioquímico dos pacientes atendidos durante a 6ª edição da Expedição
Científica do Baixo São Francisco.
8
Quadro 1: Valores de referência dos parâmetros bioquímicos, durante a 6ª edição da
Expedição Científica do Baixo São Francisco, segundo a SBAC.
Fonte: Autores,2023.
Considerando o quantitativo de municípios visitados pela Expedição Científica, a glicose
foi um dos parâmetros que chamou bastante atenção, porque dos 08 (oito) municípios,
apenas 02 (Piranhas e Igreja Nova), apresentaram valores inferiores ao limítrofe. A maior
média, portanto, ocorreu nos pacientes atendidos em Propriá - SE (112,9 mg/dL). Os
municípios que apresentaram dosagens de glicose dentro dos limites estabelecidos
foram, Igreja Nova, com a menor média 85,6 mg/dL, seguido por Piranhas/AL, com a
9
média 92,9 mg/dL. Entretanto, os demais municípios apresentaram médias acima dos
valores de normalidade, o que demonstra necessidade de acompanhamento do sistema
de saúde, mais precisamente da atenção primária junto a estas populações. Segundo o
Plano de Ações Estratégicas para o enfrentamento das DCNT no Brasil, 2021 – 2030, uma
das ações estratégicas para promoção da saúde, prevenção e cuidado frente ao grupo de
DM, com atuação da Atenção Integral à Saúde é promover na APS o controle glicêmico
eficaz para pessoas com diabetes em conjunto com monitoramento doméstico, padrão
de glicose para pessoas tratadas com insulina para reduzir as complicações do diabetes
(BRASIL, 2021).
A maior média identificada para o colesterol total ocorreu nos pacientes de PiranhasAL (227,7 mg/dL), estando acima da normalidade, quando comparados aos demais
municípios. Já o município de Propriá-AL apresentou menor média (179,6 mg/dL) e dentro
dos valores de referência normais. Estudo realizado por Pedrosa e colaboradores (2018)
em população ribeirinha, associou diretamente o aumento da renda dessa população
com aumento de sedentarismo, sobrepeso, obesidade e hipertensão arterial. Partindo
desse pressuposto, o aumento da renda de uma população, sem a inclusão de políticas
públicas voltadas para atenção primária em saúde e conscientização da população, não
irá diminuir as prevalências para DCNTs. Em nosso estudo, foram encontradas famílias
com baixa renda, contudo os mesmos apresentavam altas prevalências para obesidade,
associados a altas prevalências de colesterol sérico. Neste sentido, o aumento no poder de
compra, sem a inclusão de políticas públicas voltadas para atenção primária e educação
em saúde, associadas às políticas nacionais, não garante diminuição das prevalências para
DCNTs. Para além disso podemos destacar também a mudança de hábitos alimentares
que antes era composta por produtos in natura vem sendo alterada pelo consumo de
alimentos industrializados (Pedrosa et al., 2018).
Quanto à dosagem de triglicerídeos, a maioria dos municípios apresentou
médias dentro dos valores limítrofes (inferior a 150 mg/dL) (Quadro 1). Piranhas - AL,
apresentou a maior média (169,7 mg/dL) e Igreja Nova - AL, a menor (95,2 mg/dL). As
DCV constituem um dos principais problemas de saúde pública atualmente, pois diminui
significativamente a vida produtiva e leva à mortalidade precoce (Faludi et al., 2017).
Níveis elevados de colesterol total, lipoproteína de baixa densidade (colesterol LDL) e
triglicerídeos estão relacionados com o maior risco de doença aterosclerótica (Melo et
al., 2022; Pedrosa et al., 2018).
As transaminases são enzimas utilizadas como parâmetro para avaliar patologias
associados a doenças hepáticas, por sua vez são divididas em duas frações: AST (aspartato
aminotransferase) ou TGO e, ALT (alanina aminotransferase) ou TGP. Quando analisados
os níveis de AST observou-se que a maior média entre os municípios investigados foi
de 32,9 ± 27,1 U/L, correspondente ao município de Traipu - AL. No entanto, apesar de
apresentar a maior média entre os municípios, não ocorreu alterações significativas no
limite de normalidade. Já para os resultados da ALT, a maior média das dosagens foi para
os pacientes oriundos de Penedo - AL, 29,0 U/L.
A creatinina é uma substância produzida pelos músculos e eliminada pelos rins,
que serve para produzir energia para o trabalho de contração muscular. A análise desse
parâmetro é fundamental para analisar alterações da função renal, bem como avaliar
quadros de insuficiência renal crônica, doença essa muito prevalente na população
ribeirinha (Vaz et al., 2020). Nas análises realizadas verificamos que a menor média
ocorreu no município de Piranhas - AL (0,59 mg/dL) e a maior média para o município de
Piaçabuçu-AL, 1,4 mg/dL, limite máximo atribuído pelas recomendações da Sociedade
Brasileira de Análises Clínicas (SBAC, 2016) para os valores de referência da dosagem de
creatinina.
Em relação a dosagem de ureia, observa-se que todos os municípios investigados
apresentam médias acima dos valores limítrofes, ressaltando Traipu, com a maior média
entre eles, 29,4 mg/dL. Os resultados apresentados demonstraram elevada taxa de
10
alterações nos níveis de ureia sérica e neste contexto, outros testes laboratoriais são
recomendados para complementar o diagnóstico de alteração das funções renais, como
exames de imagem, análise urinária e fecal, além da combinação de outros biomarcadores
em soro e urina como a inulina, cistatina C, radiofármacos e etc., na presença de sintomas
(Gowda et al., 2010; Lentini et al., 2017). Além disso, outra investigação importante que
se faz necessária é a contaminação por metais pesados como arsênio, chumbo, mercúrio,
cobalto e bário, principais metais e metalóides envolvidos nas alterações renais, no
entanto, a magnitude e expressão do dano depende do tempo de exposição, dose e
espécime do metal (Lentini et al., 2017).
Exclusivamente no município de Traipu/AL foram realizadas dosagens para metais
pesados. Os metais escolhidos foram: Cobre, Alumínio e Manganês. Foram escolhidos
esses três, uma vez, em análises de coleções aquosas, a exemplo de um dos tributários
do rio São Francisco, que margeiam o município de Traipu, foram encontrados altos níveis
desses metais. Dentre os 37 pacientes selecionados para o estudo, apenas um paciente
apresentou nível acima do recomendado para dosagem de Cobre. Já para dosagem de
Aluminio obtivemos prevalência de 28%, e para dosagem de Manganês não foi encontrada
nenhuma alteração. Altas prevalências para dosagem de alumínio estão diretamente
associadas a quadros de insuficiência renal crônica, encefalopatia, osteomalacia e anemia
(Wills et al., 1983). Apesar de apenas um paciente ter sido encontrado com níveis séricos
de cobre acima do permitido, é de fundamental importância a realização de busca
ativa em moradores que residam perto do paciente, pois só assim podemos descartar a
possibilidade de contaminação através de alimentos ou ingestão de água e tratá-lo como
caso isolado.
Reiteramos que, em sua maioria, foram observadas alterações significativas de
parâmetros essenciais para o bom funcionamento e qualidade de vida dos pacientes,
acendendo o alerta para a prevenção de comorbidades que poderão acometer a
população no intervalo de tempo relativamente pequeno. Os resultados apresentados
reforçam a necessidade de fortalecer estratégias para prevenção e controle das DCNT
e suas complicações em populações ribeirinhas, especialmente entre os municípios do
Baixo São Francisco.
ANÁLISE BIOQUÍMICA E SEDIMENTOSCOPIA DA URINA
Foram triados 187 sumários de urina. As análises foram divididas em duas etapas:
na análise física foram avaliadas as propriedades físicas da urina, como volume, cheiro e
coloração; e, nas análises químicas, foram utilizadas fitas colorimétricas para pesquisa de
elementos anormais e a sedimentoscopia utilizando microscopia óptica para visualizar
células e estruturas anormais urina.
Para a coleta do exame, foi solicitado que todos os pacientes enviassem a primeira
urina da manhã, desprezando o primeiro jato. Este pequeno volume de urina desprezado
serve para eliminar as impurezas que estejam na uretra. Após a eliminação do primeiro
jato, enche-se o recipiente com o resto da urina.
Dos 187 sumários analisados obtivemos prevalências significativas para os cristais de
ácido úrico 5,34%, cristais de oxalato de cálcio 8,55%. Para além disso foram encontrados
na sedimentoscopia urinária, cilindros granulosos com prevalência de 3,74%.
Os cristais na urina são formações sólidas que podem se desenvolver quando
substâncias presentes na urina, como oxalato, cálcio e ácido úrico, se concentram em níveis
elevados. Eles podem variar em tamanho e forma, e sua presença na urina pode indicar
uma série de condições médicas, incluindo desidratação, infecções do trato urinário,
pedras nos rins e problemas metabólicos. Quadros de desidratação, com prevalências
consideráveis de cristais na sedimentoscopia urinária, da população do Baixo São
Francisco foram encontrados durante a expedição. A identificação dos cristais presentes
na urina pode ser útil para diagnosticar a causa subjacente do problema e determinar o
11
tratamento mais adequado. Em casos graves, a formação de cristais na urina pode levar
à formação de litíase renal resultando em intervenção médica de urgência.
Os cilindros granulosos são estruturas encontradas na urina que consistem em
material granular coletado dentro dos túbulos renais e moldado em forma cilíndrica pela
proteína Tamm-Horsfall. Esses cilindros são compostos principalmente por proteínas
e podem conter diferentes tipos de grânulos, como grânulos finos ou grosseiros. Sua
presença na urina pode indicar uma variedade de condições médicas, incluindo doença
renal aguda ou crônica, glomerulonefrite, pielonefrite e outras condições que afetam
os túbulos renais. A identificação e a análise dos cilindros granulosos na urina são
importantes para diagnosticar e monitorar doenças renais.
Estudo realizado por Barros et al., (2008), tratando das tendências das
desigualdades sociais e demográficas na prevalência de doenças crônicas no Brasil,
encontrou prevalências para insuficiência renal de 1,25%. Durante a 6ª edição da
Expedição foram encontradas prevalências de 3,74% para cilindros granulosos. Quadros
de desidratação crônica associados a proteinúria e formação de cilindros nos túbulos
renais são fatores de risco que podem provocar insuficiência renal crônica. No entanto,
estudos complementares e adoção de políticas públicas voltadas para atenção primária
em saúde são necessárias.
Análises coproscópicas
No tocante às análises das amostras de fezes, foram realizados 104 exames
parasitológicos de fezes (EPF), pelo método de Kato-Katz, somando-se os oito municípios
contemplados. Desse total, 16,35% (n=17) foram positivos para alguma espécie de
helminto, dos quais, 70,58% (n=12) foram ancilostomídeos (Ancylostoma duodenale ou
Necator americanus), 23,53% (n=4), Ascaris lumbricoides e 5,89% (n=1) Hymenolepis
nana (tabela 2).
Em se tratando do teste para identificação de sangue oculto nas fezes, foram
realizados 152 exames, com taxa de positividade de 17,76% (n=27), ao considerarmos
todos os municípios visitados pela expedição. Dentre eles, Própria (60%/n=3), São
Brás (30,4%/n=7) e Piranhas (17,39%/n=4) foram os municípios com maiores taxas de
positividade. Vale ressaltar que o quantitativo de exames de sangue oculto foi superior
ao de EPF, porque em casos de fezes com consistência muito pastosa ou líquida, tornase inviável processar o material para preparo das lâminas de Kato-Katz (tabela 2).
Tabela 2. Proporção de testes para detecção de sangue oculto e exames parasitológicos
de fezes realizados em pacientes dos municípios ribeirinhos durante a 6ª edição da
Expedição Científica do Baixo São Francisco.
12
Fonte: Autores, 2024.
Apesar da baixa taxa de positividade observada no período de estudo, ressaltamos
que fatores como a baixa carga parasitária que o indivíduo pode apresentar, as variações
dos ciclos de liberação dos ovos pelos parasitos e a análise de apenas uma amostra
de fezes, são fatores limitantes que podem interferir no diagnóstico, resultando em
falsos negativos. Assim, recomenda-se a coleta de pelo menos três amostras de fezes
e o preparo de duas ou mais lâminas a partir de cada amostra, visando potencializar a
sensibilidade do exame (Costa et al., 2017; Dos Santos et al., 2023; Santos et al., 2021;
Vitorino et al., 2012).
É importante deixar registrado que apesar dos contatos previamente estabelecidos com
os municípios, apenas o município de Traipu não articulou a entrega do material fecal.
Logo, ao triarmos os pacientes, os mesmos informaram que não haviam sido avisados.
ANÁLISE CITOLÓGICA E MOLECULAR
Durante a edição da 6ª expedição foram realizados 85 atendimentos ginecológicos
de enfermagem, com coletas de amostras biológicas citopatológicas e secreção vaginal.
Para isso, foram realizados raspados de células com espátula da área ectocervical
(glandular) que foram dispersas em uma solução conservante do kit de citologia em meio
13
líquido e posterior análise molecular, através de RT-PCR, quanto às Infecções Sexualmente
Transmissíveis (ISTs) para identificação dos microrganismos: Chlamydia trachomatis (CT),
Neisseria gonorrhoeae (NG), Mycoplasma genitalium (MG), Mycoplasma hominis (MH),
Ureaplasma urealyticum (UU), Ureaplasma parvum (UP), e de Trichomonas vaginalis
(TV). Além da identificação de 19 tipos de diferentes cepas para o Papilomavírus humano
(HPV), sendo 10 (16, 18, 26, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 53, 56, 58, 59, 66, 68, 69, 73, 82) de
alto risco e 9 de baixo risco (6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70).
Dos 85 atendimentos realizados e amostras citopatológicas coletadas, 83 estavam
viáveis para a análise molecular. Em relação às análises quanto aos tipos de HPV, foram
detectados 9,4 % (N=8) casos de HPV de alto risco e 2,35 % (N=2) de baixo risco.
Segundo Rosa e colaboradores (2009), os tipos responsáveis pelas lesões escamosas
intraepiteliais (LSIL), os tipos de HPV 16 e 18 são responsáveis por 70% destas lesões e
do câncer cervical.
Na tabela 2, estão descritos os resultados para a presença de microrganismos
identificados em amostras cervicais de mulheres ribeirinhas atendidas durante a 6ª edição
Expedição. Silva (2020), em seu estudo, na população ribeirinha dos afluentes do Rio
Negro e Madeira no Amazonas, verificou a incidência de HPV, M. hominis e Ureaplasma
spp em amostras cervicais, das 117 amostras, 26,49% apresentaram infecção por HPV.
Tabela 3: Descrição dos resultados da presença de microrganismos identificados em
amostras cervicais de mulheres ribeirinhas atendidas durante a 6ª edição Expedição
Científica do Baixo São Francisco.
Fonte: Autores, 2023.
No tocante à avaliação do epitélio do colo uterino, foram coletadas 85 amostras
biológicas. Dessas, 20% (N=17) apresentaram lesão intraepitelial escamosa de baixo grau
(LSIL) e 1,2% (N=1) apresentou Lesão Intraepitelial de Alto Grau (ASC-H). As demais
amostras, 57,6% (N=49) foram negativas para lesão intraepitelial e 21,2% (18) insatisfatórias
para avaliação.
Nesse estudo, o microrganismo mais prevalente foi o Ureaplasma parvum com
35,3% (N=30), seguido da análise casada do Ureaplasma parvum e Mycoplasma hominis
com 7,1%(N=6), e pelo Mycoplasma hominis com 3,5% (N=3) (Tabela 3). Estudos
correlacionaram a lesão intraepitelial escamosa de baixo grau (LSIL), o HPV e a infecção
por Ureaplasma parvum (UP). Sugerindo que a infecção por UP e as anormalidades
citológicas estão relacionadas a infecção por HPV (Drago et al., 2016; Amorim et al.,
2017).
14
SAÚDE BUCAL E RASTREAMENTO DE CÂNCER DE BOCA E LÁBIO
Foram examinados 142 indivíduos para rastreamento de câncer de boca e lábio
através da realização de exames extra e intraoral, na faixa etária acima de 40 anos e
média de idade de 56,83 anos, de ambos os sexos. O sexo feminino representou 68,30%
dos participantes da pesquisa. Foi também observado que 68 dos indivíduos examinados
(47,88%), de ambos os sexos, trabalhavam como agricultores ou pescadores. Quanto
ao uso de tabaco e álcool, os dados mostraram que mais de 30% dos participantes da
pesquisa faziam uso de bebida alcoólica e 25,35% de tabaco. O uso de próteses dentárias
removíveis, do tipo total ou parcial também foi prevalente, quase 50% dos indivíduos
rastreados faziam uso de próteses. O quadro 02, sumariza os principais achados descritos
acima.
Quadro 02: Número absoluto e percentual de indivíduos rastreados para câncer de boca
e lábio, número e % de exames realizados por sexo, número e % de tabagistas, número
e % de etilistas e número % de usuários de prótese dentária, durante a 6ª edição da
Expedição Científica do Baixo São Francisco.
Fonte: Autores, 2024.
O rastreamento do câncer de boca tem sido tema de estudos, pois, além da possibilitar
a intervenção em alterações potencialmente malignas e do câncer em fase inicial, a
cavidade oral é considerada uma região anatômica de acesso facilitado, que permite
um exame visual, sendo portanto, um procedimento de simples execução. Assim, os
cirurgiões dentistas da atenção primária são de suma importância para a prevenção e
controle do câncer de boca e lábio, no entanto é necessário que estejam sensibilizados e
capacitados (INCA, 2022c).
O quadro 03, apresenta o número absoluto e percentual de lesões rastreadas, bem
como o tipo de lesão e a localização anatômica da mesma e o tipo de encaminhamento
para investigação na rede de atenção (atenção primária e secundária). Dos 142 indivíduos
examinados, 41 indivíduos apresentaram algum tipo de lesão de boca ou lábio, destes,
24 apresentaram lesões que requerem acompanhamento periódico preventivo pelo
cirurgião dentista em UBS, e 17 apresentaram lesões sugestivas de câncer necessitando
encaminhamentos para realização de biópsia para confirmação do diagnóstico e definição
do tratamento. Quanto ao local anatômico das lesões encontradas, as lesões sugestivas
de malignidade foram encontradas em sua maioria no lábio, enquanto, as lesões não
sugestivas de malignidade foram mais prevalentes na boca.
Quadro 03. Número absoluto e percentual de indivíduos examinados (presença e ausência
de lesão, tipo de lesão, local da lesão) e encaminhamento para a rede de atenção à saúde.
Resultados obtidos durante a 6ª edição da Expedição Científica do Baixo São Francisco.
15
Fonte: Autores, 2024.
A alta mortalidade por câncer oral pode refletir um menor Índice de Desenvolvimento
Humano, menor investimento em serviços de saúde (Cunha et al., 2021; Vargas et al.,
2021) atraso no diagnóstico e início do tratamento em estágios clínicos mais avançados
(Abrahão et al., 2020; Lima et al., 2021). Além disso, a maior cobertura de serviços de
saúde bucal na atenção primária à saúde (APS) (Cunha et al., 2021; Vargas et al., 2021;
Lima et al., 2021; Rocha et al., 2017; Cunha et al., 2019; Freire et al., 2020) e um maior
número de Centros de Especialidades Odontológicas (CEO) (Cunha et al., 2019) estão
associados a uma menor mortalidade. Esses resultados demonstram a importância de ter
um serviço de saúde funcional em todos os locais, independente da região geográfica.
Outrossim, é importante enfatizar que a expansão da cobertura dos serviços em cada
ponto da Rede de Atenção à Saúde (RAS) proporcionará uma melhor qualidade de vida
aos pacientes.
Figura 1. Pacientes com lesões sugestivas de câncer de boca e/ou lábio, diagnosticados
durante a 6ª edição da Expedição Científica do Baixo São Francisco.
16
Fonte: Autores, 2024.
Considerando que a etiologia do câncer de boca é multifatorial, relacionando-se a
fatores ambientais, estilo de vida, profissão, nutrição e predisposição genética (Santos et
al., 2012), o uso concomitante de álcool e tabaco que possuem uma maior predisposição
para neoplasias malignas em região de cabeça e pescoço, bem como exposição solar
excessiva devem ser observados (Melo et al., 2010). Os resultados obtidos neste estudo
indicam que a população pesquisada encontra-se exposta a diversos fatores de risco
para o desenvolvimento de câncer de boca e lábio, tendo em vista que mais de 30% dos
indivíduos rastreados fazem uso de álcool, 25,35% são tabagista, 47,88% são pescadores
ou agricultores e encontram-se diariamente expostos a alta exposição solar.
ATENDIMENTOS MÉDICOS ESPECIALIZADOS
Em 2023 (6ª edição), foram atendidos cerca de 170 pacientes, considerando as
duas especialidades médicas: coloproctologia e nefrologia/clínica médica. Ou seja, um
aumento de quase 50% em comparação ao ano de 2022 (5ª edição). Nas consultas de
coloproctologia, os pacientes foram avaliados e orientados com medidas higiênicas
dietéticas, assim como, tratados com medicações quando necessário. No tocante as
avaliações coloproctológicas as queixas mais relatadas pelos pacientes foram constipação
intestinal e sangramentos intestinais baixos, respectivamente, além de dor abdominal,
proctalgias e fissura anal.
17
Complementando a consulta no que tange à coloproctológica, antes mesmo do
atendimento médico foram realizados Testes Imunoquímicos nas Fezes (TIF), esse por
sua vez, mede diretamente a hemoglobina no material fecal, sendo realizado em uma
pequena porção de fezes (10g aproximadamente). É importante ressaltar que o teste
emerge como uma opção conveniente para os pacientes, pois não requer restrições
dietéticas ou de medicação, preparação intestinal, sedação, além de ser técnica não
invasiva e indolor. À medida em que o resultado do TIF ia sendo liberado, àqueles pacientes
que positivaram, independentemente de estar ou não agendado para o atendimento
coloproctológico, eram imediatamente encaminhados para a consulta. Do total de 152
exames TIF realizados em 2023, houve uma taxa de positividade de 17,65% (27).
A estratégia de adotarmos um exame complementar antes da consulta foi
fundamental, visto que, o atendimento especializado imediato, evitou que aquele paciente
buscasse realizar exames complementares e buscar um especialista que em sua maioria
encontra-se nos grandes centros de saúde. Entendemos, portanto, que rastreamentos por
TIF é fundamental para a identificação precoce e prognóstico adequado de patologias
graves, a exemplo do câncer colorretal (De Paula Pires et al., 2021). Nessa perspectiva,
estudos apontam que a implementação de técnicas pouco invasivas, como o TIF, venha
contribuir para redução dos indicadores de morbidade e mortalidade por CCR (Jucá et
al., 2023; Mota et al., 2021; Palmeira et al., 2020; Freitas et al., 2020).
No que diz respeito aos atendimentos de nefrologia/clínica médica, a análise de diferentes
marcadores celulares e bioquímicos, foram importantes para uma avaliação mais
consistente dos ribeirinhos. Dentre estas análises, está a investigação dos níveis séricos
de creatinina bem como do Ritmo de Filtração Glomerular (RFG). Nesse contexto, os
principais achados foram diabetes, hipertensão arterial, bem como um número elevado de
alterações no RFG indicando considerável número de pacientes com comprometimento
da função renal. Estes pacientes receberam encaminhamento para acompanhamento
por nutricionistas, visando ajustes alimentares pontuais para melhor controle glicêmico,
pressórico bem como redução de peso.
Logo, a função e o objetivo da Expedição não encerraram com a realização da
consulta no local, pelo contrário, os pacientes passaram a ter uma assistência contínua.
Nessa perspectiva, atualmente (abril de 2024), os pacientes acometidos por disfunção
renal oriundos da Expedição, passaram a receber assistência médica no município de
Arapiraca-AL, sendo encaminhados a partir das Secretarias de Saúde de seus respectivos
municípios até a Instituto Regional Renal do Agreste (IRRA), o que reforça a importância
das parcerias estabelecidas entre a universidade e os municípios na prestação de serviço
de saúde a população, proporcionando uma melhor qualidade de vida.
É importante considerar a especificidade e as singularidades das comunidades
ribeirinhas, construindo fluxogramas de atendimentos para essa população. É necessário
que haja priorização do atendimento, por meio de investimentos em políticas públicas
voltadas para populações específicas.
O LAZER DOS ADOLESCENTES EM POPULAÇÕES RIBEIRINHAS
Inicialmente a amostra foi caracterizada quanto aos aspectos: sexo, etnia,
escolaridade e moradia. Observa-se que há uma predominância de adolescentes do sexo
feminino, 83 (52,9%), enquanto o sexo masculino, aparece com 74 (47,1%). Entre eles,
a maioria considera-se parda/mulata (94 adolescentes - 59,9%). Os que se declararam
brancos perfazem um percentual de 19,1% (30 adolescentes), negros 18,5% (29
adolescentes), amarelos 1,9% (03 adolescentes) e somente 0,6% (1 adolescente) indígena
(Tabela 4).
No que se refere à escolaridade, predominou a participação de estudantes do 9º
ano, do ensino fundamental, com 81 (51,6%), seguidos do 8º ano, com 61 (31,9%), enquanto
do 7º ano, participaram 10 estudantes (6,4%) e mais 05 (3,2%) do 6º ano. Quanto à
18
residência, 95 (60,5%) estão localizados na zona urbana, enquanto 62 (39,5%), na zona
rural (tabela 4).
Tabela 4: Caracterização da amostra quanto às variáveis, Número (n) de participantes
e frequência percentual (%). Resultados obtidos durante a 6ª edição da Expedição
Científica do Baixo São Francisco.
Fonte: Autores, 2024.
19
A Tabela 5, indica a presença de um constructo no instrumento, o qual aponta o
acesso aos equipamentos específicos de lazer: Ateliê, teatro, biblioteca, cinema museu,
praça, parque, estádio, campo de futebol, quadra esportiva, ginásio poliesportivo e clube
recreacional, mencionando as ocorrências com que essas coisas acontecem, em números
absolutos e percentuais, em três níveis de ocorrências de visitas.
Dentre os equipamentos apontados pelos estudantes, o que mais nos chama a atenção,
pela popularidade, é a praça, onde 53,5% (84) desses estudantes, se dizem frequentar
muitas vezes, talvez por ser o mais comum deles e que deve existir em todas as localidades
(tabela 4).
Outro equipamento bastante sinalizado pelos estudantes é quadra esportiva
apresentando um percentual de 48,4% (76), entretanto 36,9% (58) apresenta pouca
participação e 14,6% (23) não tem nenhuma presença. No tocante ao campo de futebol,
36,6% (57) tem uma razoável participação, no entanto, 40,8% (64), pouco participa,
enquanto isso, 22,9% (36) estudantes, não utilizam. Já o ginásio esportivo, apesar de
ser um equipamento bastante popular nas localidades, os números chamam atenção, ou
seja, apenas 26,1% (41) dos estudantes muitas vezes frequentam, enquanto que 24,8%
(39), poucas vezes frequentam. No entanto, a grande maioria dos entrevistados 68,2%
(107) não frequentam (tabela 5).
Tabela 5: Prevalência de acesso aos equipamentos de lazer nas localidades pesquisadas
durante a 6ª edição da Expedição Científica do Baixo São Francisco.
Fonte: Autores, 2024.
20
Quanto aos demais equipamentos, a exemplo de parque (42%), clube recreativo
(68,2%), ateliê (83,4%), teatro (68,8%), biblioteca (73,8%), cinema (77,7%) e museu (73,3%),
apresentaram percentuais bastante elevados demonstrando que os estudantes não têm
nenhuma ou pouca participação nesses equipamentos de lazer, quer por não existirem
em seus locais ou pela ausência de políticas públicas que os oportunizem a participação.
Isto ficou mais evidenciado, principalmente, em localidades como Pão de Açúcar, Propriá
e Penedo, onde as possibilidades de existência dos equipamentos mencionados são mais
marcantes, chegando a comprometer os jovens adolescentes, pela ausência de opções
de lazer, importantes no seu processo de desenvolvimento (tabela 5).
Segundo Almeida e Gutierrez (2005), apesar da melhoria em índices (como
expectativa de vida, diminuição do número de analfabetos, e distribuição de renda), o
Brasil ainda apresenta um quadro sócio-econômico que se reflete no lazer, pois somente
os setores das classes mais abastadas usufruem alternativas, que não são diferentes
de metrópoles como Nova York, Tóquio, Paris, Londres, bem diferentes das regiões
pesquisadas. Para os autores, as possibilidades de acesso ao lazer, por parte da população
excluída e de baixa renda no Brasil, ficam cada vez mais restritas, por falta de espaço, já
que as ruas apresentam violência, o que torna a televisão o maior promotor do lazer.
A atividade esportiva limita-se ao jogo de futebol de final de semana, visita aos
parentes e as festas populares. Os parques e áreas verdes são poucos e subutilizados
(Almeida; Gutierrez, 2005), percebendo-se assim, que os mencionados equipamentos
são cruciais para a socialização e formação de comunidade, oferecendo oportunidades
para encontros informais, eventos culturais e práticas esportivas compartilhadas. Vale
destacar que a interação social nestes espaços fortalece laços e também contribui para
um senso de pertencimento, fatores essenciais para o equilíbrio emocional e mental.
Zamora et al. (1995) chamam a atenção para a conversão do tempo livre em tempo
nocivo para o adolescente e a sociedade na medida em que não for bem aproveitado,
levando o jovem ao envolvimento com condutas desadaptadas e de risco.
A manutenção da atratividade e a possibilidade futura das práticas de lazer nos
municípios decorrem, portanto, do papel do poder público nos próximos anos. Sua omissão
contribuirá negativamente para a qualidade de vida dos adolescentes. É importante,
portanto, que o poder público intervenha com ousadia e pioneirismo, proporcionando à
população uma melhor qualidade de vida, a começar pela juventude.
A tabela 6, aponta as barreiras de acesso aos equipamentos específicos de lazer.
Compuseram os constructos, 16 itens, que refletem as dificuldades dos estudantes de
visitarem os equipamentos nas referidas localidades, comprometendo o seu processo de
desenvolvimento.
A tabela 6, chama a atenção por conter dados impeditivos como inexistência,
baixa quantidade e pouca diversidade, no que se refere a dificuldades de acesso dos
adolescentes pesquisados, aos equipamentos de lazer mencionados, sendo que a
inexistência dos mesmos se destaca com percentuais altos, em todas as regiões, mesmo
naquelas localidades onde existem determinados equipamentos como ateliê, teatro,
museu, biblioteca, cinema e clube recreacional, as dificuldades em usufruir desses
equipamentos são grandes.
Tabela 6: Prevalência de barreiras que atuam como impeditivos aos equipamentos de
lazer pelos adolescentes residentes nos municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco
em novembro/2023. Resultados obtidos durante a 6ª edição da Expedição Científica do
Baixo São Francisco.
21
22
23
Especificamente a respeito do lazer na adolescência, Bonato, Sarriera e Wagner
(2012) consideram tanto uma oportunidade de desenvolvimento como de risco. Belsky
(2010) salienta que ter amigos que sejam pró-sociais, serem bem-sucedidos em atividades
escolares e ter um hobby (por exemplo, uma prática esportiva) são aspectos que pesam
para que o lazer seja um fator protetivo ao desenvolvimento do adolescente.
Nessa perspectiva, é essencial que os governantes compreendam que o lazer também é
uma necessidade de desenvolvimento do adolescente e que requer programas e políticas
públicas de abordagem interdisciplinar, buscando compreender e estabelecer vínculos
positivos a partir da complexa interação sujeito-contexto-desenvolvimento (Aspesi et al.,
2005).
A distância entre a moradia e os equipamentos de lazer, destaca-se como uma
barreira que impede a participação de adolescentes às atividades de lazer em suas
regiões, pois parcela significativa mora na zona rural do município ou distrito. Sobre essa
questão, convém salientar que, por se tratar de localidades com uma predominância de
pessoas de baixa renda, esta se apresenta como mais uma dificuldade, pois os meios de
transportes, além de escassos em algumas regiões, podem acarretar custos adicionais às
famílias daqueles adolescentes.
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), que envolveu adolescentes
brasileiros do nono ano do ensino fundamental de todas as regiões do País, realizado em
2012, encontrou prevalência de inatividade física de 71,0%, sendo maior na região Nordeste
(76,0%). Diante disso, cabe aos dirigentes das localidades pesquisadas, propor políticas
que venham contribuir para modificar a situação com a inserção dos adolescentes com
ações concretas, capazes de contribuir para a melhoria da qualidade de vida.
Os dados apontados revelam que a falta de segurança também é um dado
significativo é um empecilho para a participação de adolescentes, cujos cuidados de
familiares com a falta de garantia de órgãos responsáveis, geralmente sucateados,
não proporciona a tranquilidade de seus cidadãos, comprometendo um direito ao
lazer de todos, além de aparecerem outros dados como a falta de conservação dos
equipamentos, dias de atendimento, falta de conhecimento sobre o local, bem como falta
de conhecimento sobre o assunto/tema, colaboram negativamente. Se faz necessário,
portanto, a adoção de investimento em políticas de estímulo ao lazer para adolescentes,
sendo essa ação prioritária nas agendas governamentais relativas ao esporte, à saúde, à
educação e à cultura, bem como investimentos em órgãos de fomento à pesquisa. Para
Ribeiro e Amaral (2015, p. 132) “(...) é responsabilidade do Poder Público realizar um
planejamento de forma a não afetar a qualidade de vida dos moradores”.
Um estudo de Cureau (2016) aponta que a incidência de inatividade física no lazer em
adolescentes brasileiros é muito alta, apresentando variações regionais e está associada
à idade e ao baixo nível socioeconômico. Chama a atenção para as meninas e aos que
não praticam nenhuma atividade física no lazer, a fim de que estes possam adotar um
estilo de vida mais ativo. Logo, ao reconhecer a relevância desses elementos, é possível
criar espaços mais equilibrados, onde os momentos de lazer se tornam catalisadores
essenciais para uma vida mais plena e satisfatória.
ENVELHECIMENTO E QUALIDADE DE VIDA DA COMUNIDADE RIBEIRINHA
No contexto brasileiro, aspectos culturais e de estilo de vida em diferentes cenários,
como zonas rurais e zonas ribeirinhas, ainda são pouco estudados e compreendidos em
relação ao envelhecimento humano. Esse estudo realizado em comunidades às margens
do Baixo Rio São Francisco, conhecido carinhosamente como “Velho Chico”, demonstrou
um escore baixo de qualidade de vida na população idosa, com os maiores índices de
insatisfação relacionados às condições de saúde e a moradia. Em 2023 a amostra do
estudo foi composta por 57 participantes, sendo 35 mulheres e 22 homens com idade
igual ou superior a 60 anos.
24
QUALIDADE DE VIDA DAS PESSOAS
QUESTIONÁRIO EUROHIS-QOL-8
PARTICIPANTES-
RESULTADOS
DO
Considerando a quantidade de questionários aplicados em 2023, observa-se que assim
como ocorreu em 2022, as mulheres aderiram em maior proporção a pesquisa. No
tocante à faixa etária, a maioria dos entrevistados tinham entre 60 e 65 anos. É importante
observar ainda que o município que teve maior adesão foi Igreja Nova -Chinaré. É
importante ressaltar que a maior média de idade foi para os homens (71,0±8,0 anos vs.
70,5±8,4 anos), mesmo estando numa proporção menor em relação às mulheres (38,6 vs.
61,4%). Para a faixa etária, os participantes com idades entre 60 e 65 anos, apresentaram a
maior prevalência (26,3%). O município de Igreja Nova apresentou a maior prevalência de
participantes (19,3%), seguido de Piaçabuçu e Traipu, com 17,5% e 17,5%, respectivamente
(Tabela 7).
Tabela 7: Qualidade de Vida – prevalência para sexo, faixa etária, e município de moradia.
Resultados obtidos durante a 6ª edição da Expedição Científica do Baixo São Francisco.
25
Podemos observar que não houve diferença significativa para os escores finais de
QvD para os três segmentos analisados neste estudo. Os maiores valores de QvD foram
encontrados para os homens, com idades iguais ou superiores a 90 anos e residentes em
Pão de Açúcar-Alagoas (Tabela 8). Com um Alfa de Cronbach de 0,76, pode-se inferir
que sua consistência interna em relação ao Eurohis-Qol-8 foi razoável a boa (Tabela 9).
Tabela 8: Escore final de qualidade de vida por sexo, faixa etária e localidade dos
participantes do estudo durante a 6ª edição da Expedição Científica do Baixo São
Francisco.
§Média (DP). ¤Mediana (IIQ). £Teste t. Teste F. ¥Teste kruskal-Wallis. Letras iguais na coluna indicam similaridade Estatística pelo teste de Tukey-HSD (p≥0,05).
Fonte: Autores, 2024.
Tabela 9: Consistência interna da escala Eurohis-Qol-8 em relação à qualidade de vida
de idosos ribeirinhos durante a 6ª edição da Expedição Científica do Baixo São Francisco.
Fonte: Autores, 2024.
26
A tabela 9 apresenta a análise de correlação linear (rho) do escore final de QvD
em relação ao sexo, faixa etária e município de moradia. Não foram observados valores
de coeficientes lineares significativos (p<0,05) dos escores finais de QvD em relação a
sexo, faixa etária e município. Entretanto, pode-se verificar que estes valores parecem
aumentar linearmente à medida que há a mudança de nível dentro de cada uma das
variáveis analisadas (Tabela 10).
Tabela 10: Coeficientes de correlação (rho) de Pearson dos escores finais de QvD em
relação ao sexo, faixa etária e município de morada (Ano 2023).
De um modo geral, os dados referentes ao sexo e a faixa etária dos participantes
da 6ª edição ratificaram os dados obtidos durante a 5ª edição, em que a maior média
de idade (60 e 65 anos) continuou sendo para o sexo masculino, mesmo estando numa
proporção menor em relação às mulheres (38,6 vs. 61,4%). No entanto, o município de
Igreja Nova (Chinaré) apresentou a maior prevalência de participantes (19,3%), seguido de
Piaçabuçu e Traipu, com 17,5% e 17,5%, respectivamente. Os maiores valores de qualidade
de vida foram encontrados para os homens, com idades iguais ou superiores a 90 anos
e residentes em Pão de Açúcar-Alagoas. Dado interessante considerando que pessoas
mais idosas apresentam uma percepção inferior de qualidade de vida.
No que se refere à satisfação com a saúde, capacidade de desempenhar atividades
do dia-a-dia e dinheiro suficiente para satisfazer as suas necessidades, os idosos com
idade acima de 70 anos apresentaram uma percepção inferior para essas dimensões,
quando comparados com os idosos que ainda não atingiram essa faixa etária.
3.8.2 As entrevistas sobre envelhecer às margens do baixo Rio São Francisco
Para entender a percepção do envelhecimento, durante a 6ª edição, foram
entrevistadas 30 pessoas, dentre os participantes do estudo e que responderam ao
questionário Eurohis, foi perguntado se gostariam de participar da entrevista gravada,
todas responderam sim.
Os participantes eram pessoas fisicamente ativas, sem dificuldade de mobilidade,
e disseram que estavam felizes por envelhecer às margens do Rio São Francisco.
Entretanto, ressentem-se e ficam tristes com as ações que levam a atual condição do
rio. Falaram com tristeza sobre o assoreamento, poluição e a diminuição de peixes.
As entrevistadas deixaram claro como as mudanças que vem acontecendo no rio São
Francisco, têm impactado na condição econômica daqueles que tinham o rio como fonte
de sobrevivência.
27
Falam com tristeza sobre o assoreamento, poluição e a diminuição de peixes.
Como pode-se observar na fala da uma das mulheres entrevistadas:
“Antes o rio ele era uma coisa da natureza ele era mais vivo, né? Hoje o rio ele é bom,
mas, ele tá um pouco meio acabado, porque vocês sabe que muita gente não preserva
a natureza” (M.A. 63 anos). As mudanças que vem acontecendo no rio São Francisco,
têm impacto na condição econômica das famílias que tinham o rio como fonte de
sobrevivência.
Algumas cidades que beiram o Rio São Francisco, possuem diversidade cultural,
com potencial no artesanato para o desenvolvimento econômico da região. O bordado
é uma das tradições de algumas das comunidades próximas ao “Velho Chico”. Para
uma das mulheres bordadeiras entrevistada, os efeitos deletérios do envelhecimento,
impactou de forma negativa o seu modo de vida e a condição econômica:
“Quando eu era nova eu fazia, roupa de neném, bordava, costurava na máquina roupas
pro pessoal de equipe de quadrilha, era chegança, era pastoril, então eu costurava pra
esse pessoal. Mas, só que agora, com problema da coluna e o problema na perna eu não
posso mais trabalhar na máquina. Só faço alguma coisa bordado na mão, ponto de cruz,
labirinto, cheio” (M.F. 76 anos).
A maior parte dos entrevistados afirmaram que não têm dinheiro suficiente para
satisfazer as suas necessidades básicas. Em um estudo similar a este, desenvolvido por
Nascimento et al, (2016), com a comunidade ribeirinha do rio Amazonas, também ficou
claro a pobreza e os baixos níveis educacionais, distanciamento de recursos sociais e de
saúde. Esses obstáculos e limitações podem afetar de forma distinta a qualidade de vida
das pessoas idosas.
Foi perguntado para a M, o que significa envelhecer à margem do rio, e ela respondeu
o que significa o rio para sua vida: “Rapaz, é bom né? ótimo, porque às vezes a gente tá
sem nada em casa, pega um anzol, uma rede, uma tarrafa, e vai pra beirada do rio quando
chega vê com uma moqueca de piaba, de peixe; pra gente é uma benção” (M. mulher,74
anos).
Para a maioria dos entrevistados o rio é a fonte de sustento econômico e de
lazer. A criação de barragens para usinas hidrelétricas, assoreamento, desmatamento
das margens, além da transposição do rio São Francisco para vários outros municípios,
tem impactado a qualidade da água. Isso é observado no dia a dia dos moradores das
regiões banhadas pelo rio, como é o caso do Senhor J., que para ele o rio São Francisco
não é o mesmo da sua infância: “Teve mudança depois dessas barragens, depois dessa
transposição do rio, ele ficou mais… quando ele deságua, quer dizer, traz a água salobra,
tá havendo uma mudança… o rio não é o mesmo” (J. 62 anos).
As comunidades ribeirinhas do Baixo São Francisco enfrentam desafios
socioeconômicos significativos, incluindo baixos índices de desenvolvimento humano,
falta de acesso a serviços essenciais como saúde e educação, e impactos negativos nas
principais fontes de renda, como pesca, agricultura, turismo e comércio local (UFAL, 2021;
IPEA, 2023). É importante vislumbrar que a transição demográfica, o envelhecimento da
população, trouxe a necessidade emergente de se criar programas de assistência à pessoa
idosa, a fim de proporcionar um envelhecimento ativo e a manutenção da qualidade de
vida dessa parcela da população.
EDUCAÇÃO EM SAÚDE
Durante a 6ª edição da Expedição Científica do Baixo São Francisco, as ações de
Educação em Saúde foram realizadas no Barco da Saúde e nas unidades de atendimento.
Foram conduzidas diversas iniciativas para atender as comunidades ribeirinhas dos oito
municípios. Cerca de 600 alunos participaram de atividades educativas e aproximadamente
100 mulheres foram atendidas nas unidades de saúde. Para tornar o aprendizado mais
cativante, foram adotadas abordagens didáticas eficazes, envolvendo ações práticas e
interativas que despertaram o interesse do público de forma lúdica e estimulante.
28
Destacou-se a importância de promover a qualidade de vida e o autocuidado,
especialmente entre crianças e adolescentes para prevenir parasitoses intestinais, e
entre adultos para identificar e prevenir infecções sexualmente transmissíveis. Materiais
didáticos-educativos foram elaborados e distribuídos, incluindo peças anatômicas para
explorar o corpo humano, caixas entomológicas e serpentes em formol para aprender
sobre insetos, aracnídeos e serpentes relacionadas à saúde pública. Essas ações visaram
sensibilizar e educar multidisciplinarmente sobre questões de saúde, destacando a
interação entre o ambiente e a saúde humana no contexto das comunidades ribeirinhas.
A 6ª Expedição Científica do Baixo São Francisco representou um avanço
significativo na promoção da educação em saúde nessas comunidades. Diante das
profundas disparidades sociais e da falta de políticas públicas de saúde, essa iniciativa
se destacou por enfrentar esses desafios de frente. Por meio de ações educativas e
estratégias inovadoras, os residentes ribeirinhos foram capacitados a desempenhar um
papel ativo na promoção de sua própria saúde e bem-estar.
Essa abordagem completa e proativa na VI Expedição demonstrou um verdadeiro
compromisso em lidar com as desigualdades sociais e de saúde na região do Baixo São
Francisco. Ao ensinar às comunidades locais o que elas precisavam saber para cuidar de
si mesmas, essa iniciativa não apenas beneficiou imediatamente a saúde individual, mas
também fortaleceu os laços sociais e a capacidade de enfrentamento das comunidades
diante dos desafios.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando o período de execução da expedição e subsequentemente realização
dos trabalhos (coletas, consultas e processamento das amostras), observa-se que 95%
dos objetivos foram atingidos, ou seja, as análises foram realizadas, as consultas e os
encaminhamentos também foram executados. Já temos um perfil socioeconômico da
comunidade ribeirinha, assim como, um perfil epidemiológico definido. Com base nos dados
obtidos, consideramos: 1. A parasitose considerada muito frequente foi, a ancilostomíase
(Ancylostoma duodenale/Necator americanus), como a mesma é também veiculada pela
água, aponta para as precárias de saneamento básico; 2. Percentual elevado de sangue
nas fezes; 3. Alto índice de diabéticos e hipertensos; 4. Diversas queixas constantes de
constipação intestinal, independente do sexo; 5. Aproximadamente 30% da população
estudada apresentou algum tipo de lesão na boca e/ou lábio, sendo algumas delas
sugestivas para câncer; 6. Acesso limitado a equipamentos de esporte e lazer para os
adolescentes ribeirinhos, e 7. Idosos com mais de 70 anos de idade insatisfeitos com a
saúde, capacidade de desempenhar atividades do dia-a-dia e dinheiro insuficiente para
satisfazer as suas necessidades.
Dessa forma, ao analisarmos a situação de saúde dos ribeirinhos atendidos pela
equipe do barco da saúde durante a 6ª edição da Expedição Científica do Baixo São
Francisco, observamos uma população que apesar de jovem, encontra-se adoecida, com
sérias fragilidades sociais, deixando-os cada vez mais vulneráveis. A saúde preventiva é
fundamental, independentemente do local onde o paciente resida. Problemas básicos de
saúde pública, como por exemplo, o saneamento básico é fundamental para a qualidade
de vida das comunidades. Parasitoses veiculadas pela água, voltaram a contaminar as
pessoas. A falta de cuidados básicos reflete numa população doente que irá em algum
momento procurar o serviço de urgência e emergência.
Não obstante, os resultados mostram uma miscelânea de situações, que vai desde
uma hipertensão à úlceras sugestivas para carcinomas. Esses achados requerem uma
intensificação das ações de vigilância em saúde, assim como o acompanhamento dos
pacientes crônicos. Reiteramos que os resultados contribuem para o desenvolvimento
de políticas públicas em saúde, exequíveis que visem uma melhor qualidade de vida para
a população ribeirinha.
29
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33
2. AÇÕES DE SAÚDE BUCAL E LEVANTAMENTO EPIDEMIOLÓGICO
DA CÁRIE DENTÁRIA EM ESCOLARES DAS COMUNIDADES
RIBEIRINHAS DA REGIÃO DO BAIXO SÃO FRANCISCO DURANTE A
VI EXPEDIÇÃO DO BAIXO SÃO FRANCISCO NO ANO DE 2023
Área de conhecimento: Ciências da Saúde.
Subárea de conhecimento: Saúde bucal.
Cristiane Ribeiro da Silva Castro1
RESUMO
As atividades de cunho educativos e preventivas, são vistas como meio eficaz
para atenuar os efeitos causados pela desigualdade social e que repercutem de maneira
negativa na saúde bucal do indivíduo. Esse trabalho possui como objetivos contribuir para
a melhoria das condições de saúde bucal das populações ribeirinhas por meio de ações
preventivas, realizar um levantamento epidemiológico e gerar dados que contribuam
para o planejamento das ações das equipes de saúde bucal dos municípios. Trata-se
um estudo transversal, descritivo. O público-alvo foram os escolares da comunidade
ribeirinha do Baixo São Francisco. Atividades educativas sobre prevenção das doenças
bucais além da escovação supervisionada e aplicação tópica de flúor foram realizadas,
além de uma avaliação de cárie dentária nas 400 crianças e adolescentes, com a
distribuição de 500 kits de higiene oral para a população infantil e adulta. Por meio dos
dados epidemiológicos dos escolares é possível subsidiar o planejamento e a avaliação
de ações para este grupo, buscando iniciativas para intervenções de saúde mais efetivas
e promotoras de cidadania.
Palavras chaves: Cárie dental; Saúde coletiva; Saúde bucal: Epidemiologia; Escolares
1
34
Professora Doutora da Faculdade de Odontologia da UFBA
INTRODUÇÃO
A complexidade da saúde no Brasil tem raízes profundas no contexto
socioeconômico do país, evidenciado por profundas desigualdades que repercutem
diretamente nas condições de vida do indivíduo. As iniquidades em saúde também
podem ser evidenciadas na abordagem da saúde oral (Cabral et al., 2017). A saúde bucal
é parte integrante e essencial para a qualidade de vida, sob uma variedade de formas
nos domínios físico, social e psicológico (Carminatti et al., 2017; Silva, 2023; Xiao et al.,
2021). Uma boa saúde oral refere ao impacto que a saúde bucal ou a doença tem sobre
o desempenho de atividades diárias do indivíduo, o bem estar ou qualidade de vida
(Nóbrega et al., 2019).
As doenças e desordens bucais, bem como alguns hábitos orais, podem causar
impacto negativo na qualidade de vida das crianças. Existem estudos sobre a qualidade
de vida relacionada à saúde bucal (QVRSB), para uma análise do impacto da saúde bucal
na qualidade de vida de crianças e planejamento de políticas públicas de saúde que
almejam diminuir as desigualdades da sociedade, compreendendo as necessidades de
cada população (Nóbrega et al., 2019; Carminatti et al., 2017; Silva, 2023).
Apesar dos programas preventivos, há fatores que interferem na saúde bucal de
crianças no Brasil. Apenas uma pequena parcela recebe assistência recomendada e
a procura por serviços está associada a fatores socioeconômicos e culturais (Inagaki,
et al 2015). Silva et al. (2023) observaram que os índices mais altos de prevalência de
cárie foram em crianças de estratos econômicos mais baixos. Outros estudos também
relacionam diretamente às famílias de maior renda terem menor impacto na saúde bucal,
trazendo um dos assuntos de maior relevância para a epidemiologia e a Atenção Primária
em Saúde Bucal no país (Inagaki, et al 2015; Carminatti, et al 2017; Silva, 2023).
A ausência de uma saúde bucal satisfatória é uma realidade de muitos indivíduos.
A doença de maior predominância mundialmente é a cárie dental (Carminatti et al., 2017;
Silva, 2023). A cárie caracteriza-se como uma doença que se desenvolve por questões
multifatoriais, que acomete superfícies dentárias e tem impacto negativo na qualidade
de vida das crianças e suas famílias, incluindo as questões nutricionais, sintomas orais
comportamentais e alterações educacionais (Carminatti et al., 2017; Silva, 2023; CorrêaFaria et al., 2020).
Diante da heterogeneidade socioeconômica do país, nem toda população tem
acesso a saúde pública de qualidade. A saúde bucal é de difícil acesso para muitos
cidadãos, principalmente para aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade
social. A população ribeirinha é vista como uma comunidade mais carente que sobrevive
do que a natureza apresenta para lhe dar, como a pesca e a agricultura. Nos últimos anos,
a população Ribeirinha da região do Baixo São Francisco vem apresentando dificuldades
em conseguir sua renda, devido as ações antropológicas que acabam comprometendo a
vitalidade do rio São Francisco e consequentemente a qualidade de vida da população
que vive as suas margens.
Para estudar as consequências das ações humanas no Rio São Francisco e seus
ribeirinhos, e de forma conseguinte propor soluções, a VI Expedição Científica do Baixo
São Francisco realizou mais uma atividade durante o ano de 2023. A equipe de saúde bucal
abordou a promoção e educação em saúde bucal, e um levantamento epidemiológico
de cárie dental em escolares nessas comunidades ribeirinhas nos municípios onde a
Expedição esteve. Os objetivos desse trabalho em saúde bucal foram: garantir às crianças
das populações ribeirinhas acesso a ações educativas e preventivas em saúde bucal,
contribuir para a melhoria das condições de saúde bucal da população local, realizar
um levantamento epidemiológico simplificado, contribuir e subsidiar o planejamento das
ações das equipes de saúde bucal dos municípios.
35
DESENVOLVIMENTO
METODOLOGIA
Este trabalho caracteriza-se como qualitativo, observacional, com metodologia de
pesquisa-ação, onde o estudo e pesquisa das comunidades visitadas foram feitas, além
do desenvolvimento de ações educativas entre os dias 21/11/2023 e 01/12/2023, cujo
público-alvo foi a comunidade ribeirinha do Baixo São Francisco, com foco nas crianças
das escolas públicas dos municípios.
O cenário de atuação foi às escolas públicas dos municípios de Alagoas: Piranhas,
Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Piaçabuçu e em Sergipe, Propriá. Esta pesquisa- ação
em promoção de saúde bucal foi coordenada por uma profissional de Odontologia,
professora do curso de Odontologia da Universidade federal de Bahia (UFBA) e contou
com o apoio da equipe da VI Expedição do Baixo São Francisco e das coordenações e
equipes de saúde bucal dos municípios participantes.
As atividades desenvolvidas para os alunos das escolas municipais dos municípios foram:
•
Palestra sobre educação em saúde bucal e cárie dentária
•
Ensino de técnica de escovação
•
Levantamento epidemiológico da cárie dental e necessidade de tratamento
odontológico
•
Distribuição de kits de higiene oral
•
Escovação supervisionada com aplicação tópica de flúor
Um levantamento epidemiológico foi realizado pelos dentistas da rede municpal
com o objetivo de identificar os índices de cárie dentária dos alunos das escolas e gerar
informações que possam auxiliar em estratégias adotadas pela secretaria de saúde do
município para melhorar os níveis de doenças bucais na comunidade, assim como a forma
de tratamento que será adotada nas crianças já acometidas por enfermidades bucais.
Foram realizados uma entrevista estruturada e o exame bucal. Na entrevista
realizada com as crianças, utilizou-se um questionário que compreendia – identificação
da criança, informações socioeconômicas como idade da criança em anos, sexo, cor da
pele, município de residência, nome da escola e localização (zona urbana ou rural). Foi
utilizada uma ficha para o exame bucal padronizada criada para esse estudo.
A coleta de dados consistiu no exame clínico dos escolares e aplicação de
questionário individual no momento do exame, após assinatura do termo de consentimento
pelos pais ou responsáveis. O exame clínico foi realizado na escola, em salas de aulas ou
áreas abertas no ambiente escolar, sem profilaxia prévia, à luz natural, com o auxílio de
espátula de madeira e gaze. O diagnóstico da condição de saúde bucal das crianças
registrou a presença/ ausência e severidade da cárie segundo critérios da Organização
Mundial de Saúde (OMS) relativo aos índices ceo-d e CPO-D (OMS, 1999).
Caso fosse identificada necessidade de tratamento, a criança ou adolescente era
encaminhado para a Unidade Básica de Saúde mais próxima da sua residência, em
alguns momentos já conversava com o dentista responsável considerando a necessidade
encontrada. Em áreas descobertas pela estratégia saúde da família, a coordenação de
saúde bucal se responsabilizava pelo encaminhamento.
Os instrumentos de coleta de dados foram revisados e os dados digitados no
Microsoft Excel. Para a análise dos dados foi utilizado o programa SPSS. Realizou-se,
inicialmente, a análise descritiva das variáveis de interesse obtendo-se as frequências
simples e relativas para as variáveis categoriais e as medidas de tendência central e de
dispersão para as contínuas. Análises bivariadas foram realizadas posteriormente,
36
considerando a presença de cárie dentária como efeito principal (variável dicotômica) e
sua associação com as variáveis demográficas. A análise estatística foi realizada por meio
de frequências relativas e absolutas, em gráficos e tabelas; utilizou-se o teste estatístico
qui-quadrado para as variáveis categóricas e o teste estatístico Mann-Whitney para as
contínuas. Adotou-se nível de significância de 5%.
Foi calculado o índice CPO-D para cada escolar participante que apresentasse
dentição mista ou permanente, conforme recomendação da OMS. Foram estimadas a
prevalência de cárie dentária, medida pelo índice CPO-D>0, e sua gravidade (também
chamada de experiência ou ataque de cárie dentária), aferida pelo número médio de
dentes cariados ‘C’, perdidos ‘P’ e obturados ‘O’. Como há uma relação matemática
entre experiência de cárie medida pelo índice CPO-D e prevalência de cárie medida
pela porcentagem de indivíduos com CPO-D>0, valores de CPO-D entre 2,7 e 4,4 são
indicativos de nível moderado de cárie ou prevalência moderada; valores entre 1,2 e 2,6
são indicativos de prevalência baixa; e valores inferiores a 1,2 refletem uma prevalência
muito baixa (WHO, 2003). Para a dentição decídua, foi calculado o índice ceo-d e sua
composição percentual.
RESULTADOS
Todas as ações de saúde bucal realizadas durante a VI expedição foram planejadas
e articuladas de forma antecipada com os coordenadores gerais da expedição científica
com os professores, secretários de educação, e saúde de cada município. Foi realizada de
forma virtual, uma capacitação sobre tratamento restaurador atraumático (ART) com os
profissionais dentistas dos municípios, ministrada por uma doutora convidada dentista
da Estratégia de Saúde da Família de Salvador - Ba (Figura 1).
Figura 1: capacitação em ART para os dentistas dos Municípios ribeirinhos do Baixo São
Francisco.
Fonte: Autora, 2023.
As ações foram desenvolvidas nas escolas, onde métodos recreativos auxiliares
foram usados para facilitar o entendimento dos alunos como: palestras sobre ensino
de técnicas de escovação (Figura 2). A ludicidade é uma ferramenta importante para a
aprendizagem de escolares na faixa etária de 3 a 10 anos, a absorção do conhecimento
se dá de forma mais efetiva e os mesmos tendem a propagar o conhecimento aprendido
em casa e em seus ambientes de convivência. As atividades de desenho e pinturas
foram realizadas com o intuito de estimular as crianças ao aprendizado (Figura 3), pois
atividades lúdicas potencializam o aprendizado nessa faixa etária.
37
Figura 2: palestra sobre técnicas de escovação.
Fonte: Coordenação Municipal de Saúde Bucal, 2023.
Figura 3: atividades de desenho e pintura com as crianças das escolas visitadas.
Fonte: Coordenação Municipal de Saúde Bucal, 2023.
Foi realizada a distribuição de kits de higiene oral para os estudantes (Figura
4). Foram 500 kits distribuídos, sendo 300 doados pela Colgate e 200 cedidos pelas
prefeituras locais, todos os kits possuíam uma escova de dente e um creme dental. A
escovação supervisionada com aplicação tópica de flúor foi feita com o objetivo de
prevenção de novas lesões cariosas nas crianças, visto que em muitos locais visitados
não existe a fluoretação da água potável (Figura 5).
Figura 4: doação de kits de higiene bucal.
38
Fonte: Coordenação Municipal de Saúde Bucal, 2023.
Figura 5: escovação supervisionada com aplicação tópica de flúor
Fonte: Coordenação Municipal de Saúde Bucal, 2023.
39
Um levantamento epidemiológico na busca de lesões cariosas foi realizado (Figura
6), com o objetivo de identificar as condições bucais e índices de cárie dos alunos da
quela escola, e através disso desenvolver dados que possam auxiliar em estratégias
adotadas pela secretaria de saúde do município para abordar e diminuir os níveis de
doenças bucais na comunidade, assim como a forma de tratamento que será abordada
nas crianças já acometidas por enfermidades bucais.
Figura 6: levantamento epidemiológico nas comunidades visitadas pela expedição.
Fonte: Coordenação Municipal de Saúde Bucal, 2023.
Foram examinadas 331 estudantes de escolas públicas, sendo a maioria delas dos
municípios de Piaçabuçu (n=120) e Propriá (n=87). Foram avaliados os escolares que
compareceram no dia da avaliação e que apresentaram o consentimento pelos pais/
responsáveis, por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
A idade média foi de 7,86 anos (±2,12), a mediana foi 8 e a idade variou entre 3 e 15 anos,
sendo que a maioria das crianças possuía entre 8 e 9 anos. A maioria (50,2%) possuía
a cor da pele parda, era do sexo masculino (54,1%), residentes da zona urbana (73,7%)
(Tabela 1).
Em relação à ocorrência da cárie dentária, 61,9% encontravam com experiência
de cárie atua ou pregressa. Em relação à condição de saúde bucal na dentição decídua,
42,4% dos escolares avaliados encontravam-se livres de cárie. O ceo-d foi de 2,14 e,
quanto a sua distribuição percentual, 92,76% representavam dentes cariados, apenas
4,31% eram obturados e 9,23% com extração indicada por cárie. O que significa dizer que
há uma presença da doença ativa, com necessidade de tratamento e um baixo acesso
à atenção à saúde bucal. Esse resultado está de acordo com o encontrado em todos
os estudos nacionais avaliados e denota uma alta necessidade de tratamento dessas
crianças (PERES et al., 2003).
Tabela 1: Características sociodemográficas da população de estudo, Baixo São
Francisco, 2023 (n= 331).
40
Fonte: Autora,2024.
Com relação à experiência de cárie na dentição permanente, 36,1% dos escolares
apresentavam pelo menos um dente atacado por cárie. O CPO-D foi de 0,72, característico
de uma situação de baixa prevalência (WHO, 2003). Quanto à distribuição percentual do
CPO-D, 95,6% representavam dentes cariados, 3,5% eram obturados e 0,9% extraídos
por cárie, o que se constitui em perda precoce dos elementos dentários na faixa etária
avaliada e demonstra uma alta necessidade de tratamento.
CONCLUSÕES
Os programas de saúde bucal são de suma importância para a sociedade, pois
promovem a conscientização e a valorização do conhecimento e da prevenção em
prol da autonomia das práticas de saúde. Por isso, torna-se importante e essencial o
levantamento epidemiológico ou diagnóstico inicial para orientar o planejamento e
avaliação dos programas de saúde bucal. Sendo necessário o envolvimento do sujeito,
membros familiares, equipe de saúde, escola, comunidade e os agentes comunitários de
saúde (ACS).
41
A atuação das equipes de saúde bucal voltada para os escolares representam
estratégias importantes e efetivas para o controle dos agravos bucais, contribuindo para
a qualidade de vida de crianças e adolescentes, fazendo-se necessário o incentivo de
Programa Saúde na Escola (PSE), envolvendo equipes multidisciplinar, garantindo o
acesso a saúde de forma integral, interligada, de acordo com as reais necessidades de
cada população, principalmente para os grupos que estão em situação de vulnerabilidade
social como é o caso das comunidades ribeirinhas.
AGRADECIMENTOS
A toda equipe da VI Expedição Científica do Baixo São Francisco, e em especial
à coordenação e à assessoria de comunicação, às comunidades ribeirinhas com as
quais desenvolvemos nosso trabalho, aos diretores e demais professores das escolas,
e especialmente às coordenações de saúde bucal de cada município que deram apoio,
suporte logístico e aceitou conduzir os trabalhos coordenados á distância, a FOUFBA
pela doação dos kits de higiene bucal, nossos agradecimentos.
REFERÊNCIAS
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42
ANÁLISE DE ÁGUA E PEIXES
43
3. ANÁLISE FÍSICO-QUÍMICA E MICROBIOLÓGICA DA ÁGUA
EM MUNICÍPIOS DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Qualidade de água.
Fábio Francisco da Silva1
Hanna Francyelle Barbosa Costa 2
Anita Neves Santisteban3
Lívia Almeida de Souza4
Alexandre Santos da Costa5
Themis de Jesus da Silva6
Emerson Carlos Soares7
INTRODUÇÃO
O Rio São Francisco nasce em Minas Gerais, na Serra da Canastra e chega à sua foz,
no Oceano Atlântico, entre Alagoas e Sergipe percorrendo cerca de 2.800 km de extensão.
A região envolve parte da região do semiárido, a cerca de 58% do território da região
hidrográfica (ANA, 2015). Esta Região está dividida em quatro unidades hidrográficas,
são elas: Alto São Francisco, Médio São Francisco, Submédio São Francisco e Baixo São
Francisco.
A gestão dos recursos hídricos, perpassa por um maior controle das águas do
Velho Chico, desde a outorga, cobrança do uso e monitoramento contínuo, devido a
grande contribuição do rio em atividades como; irrigação, agricultura, abastecimento
de água, pesca e navegação, com isso há a necessidade de conciliar os diversos usos
da água bem como a manutenção da qualidade dela para a população e organismos
aquáticos. Com o crescimento da agricultura seguida do uso de agroquímicos, a poluição
decorrente de efluentes lançados sem tratamento faz com que a bacia do rio enfrente
inúmeros problemas ambientais, entre estes o aumento do assoreamento, de corrente de
solos sem manejo apropriado (ANA, 2021).
1
Mestre em Recursos Hídricos e Saneamento (CTEC/UFAL), Laboratório de Aquicultura e Ecologia
Aquática (LAQUA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
2
Mestre em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Ecologia Aquática (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
3
Graduanda em zootecnia, Laboratório de Aquicultura Ecologia Aquática (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
4
Graduando em Agroecologia, Laboratório de Aquicultura Ecologia Aquática (LAQUA), Campus de
Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
5
Graduando em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura Ecologia Aquática (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
6
Professora Associada III, Laboratório de Aquicultura Ecologia Aquática (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
7
Professor Associado IV, Laboratório de Aquicultura Ecologia Aquática (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
44
A expansão desordenada da população próximo aos corpos hídricos tem causado
grandes alterações na rede de drenagem, como o desaparecimento de alguns canais e
a artificialização de outros. De acordo com Melo et al (2018), o lançamento inadequado
de diferentes fontes contribui para a degradação desses corpos hídricos, impactando as
características do solo e da água contaminando o meio ambiente.
A qualidade da água dos corpos hídricos pode ser analisada mediante
investigações a partir de alterações físicas, químicas e biológicas que se relacionam a
atividades antrópicas ou a fenômenos naturais (BRITTO et al., 2018). Uma das formas
de caracterizar a qualidade do ambiente aquático são os indicadores microbiológicos
específicos da água tais como os que pertencem a família Enterobacteriaceae (MATTOS;
SILVA, 2002). Em estudos limnológicos, os coliformes proveniente de fezes de animais,
que se multiplicam com maior frequência na água, atraem grande atenção da saúde
pública, pois estão diretamente relacionados a várias patologias e são responsáveis pela
causa da maioria das doenças intestinais infecciosas em humanos (ANDRADE, 2008;
NASCIMENTO; ARAÚJO, 2013).
Quanto aos parâmetros físico-químicos, estes são determinados por características
próprias de cada bacia hidrográfica como condições de clima, geologia, relevo, uso e
cobertura vegetal e matéria orgânica e inorgânica na água (SPERLING, 2005). Podemos
citar entre os mais comuns avaliados: oxigênio dissolvido (OD), Total de Sólidos Dissolvidos
(TDS), pH, temperatura, condutividade elétrica (CE), compostos nitrogenados, fósforo,
nitrato, turbidez, sulfatos, salinidade, entre outros compostos identificados como metais
e ametais, tais como; ferro, manganês, cobre, zinco e arsênio, por exemplo.
Desta forma e levando em consideração a problemática em termos de qualidade
e disponibilidade de água para o consumo humano, abastecimento dos municípios e
dessedentação dos animais, uma avaliação hídrica dentro dos padrões vigentes é de
grande importância para caracterizar o meio aquático e assim, avaliar os fatores que
inviabilizam o uso da água para o abastecimento humano, produção de alimentos, entre
outros, assim proteger as comunidades aquáticas, bem como incentivar políticas públicas
de fiscalização.
No Âmbito da V e VI Expedições Cientificas do São Francisco procurou-se
compreender a qualidade da água em oito municípios localizados na calha principal do
São Francisco.
METODOLOGIA
As coletas foram realizadas na região do Baixo São Francisco nos municípios de
Piranhas (AL), Pão de Açúcar (AL), Traipu (AL), São Brás (AL), Propriá (SE), Igreja Nova
(AL), Penedo (AL) e Piaçabuçu (AL), durante a V e VI Expedição Científica realizada
entre os dias 03 e 12 de novembro de 2022 e 20 de novembro a 01 de dezembro de 2023,
respectivamente.
Para efeito de comparação com as vazões praticadas pelas hidroelétricas, foram
observadas as médias baseadas nos 3 meses antes e durante a realização das expedições
científicas, neste caso os meses de setembro, outubro e novembro de cada ano.
Em cada município foram coletadas amostras de água, na superfície (cerca de
50 cm de profundidade da lâmina d’água) a montante, ponto do barco e a jusante com
auxílio da garrafa de Van Dorn.
As análises foram realizadas no Laboratório de Aquicultura e Ecologia Aquática/
Campus de Engenharias e Ciências Agrárias/Universidade Federal de Alagoas - LAQUA/
CECA/UFAL, Alagoas - Brasil, seguindo a sequência resumo experimental:
Figura 1: Delineamento dos procedimentos de análise de água.
45
Fonte: Autores,2024.
ANÁLISE DOS PARÂMETROS FÍSICO-QUÍMICOS DA ÁGUA
As amostras foram armazenadas em recipientes estéreis de polietileno com 250
mL de volume útil, as garrafas estavam devidamente identificadas, e foram mantidas sob
refrigeração em caixas térmicas durante a coleta até o deslocamento para o laboratório
onde foram armazenadas em refrigerador com temperatura de 8°C até o momento da
avaliação.
As variáveis físico-químicas: oxigênio dissolvido (OD), potencial hidrogeniônico
(pH), resistividade (MΩ.cm), temperatura da água (°C), turbidez (FNU), condutividade
elétrica (μs/cm), potencial de óxido-redução (ORP), totais de sólidos dissolvidos (TDS)
e salinidade (PSU), foram mensuradas in situ, utilizando duas sondas multiparâmetros
(modelo HI 9829 e HI 98494, ambas da HANNA Instruments) (Figura 2).
Os parâmetros químicos e metais como, nitrito (NO2-), amônia (NH3-N) nitrato
(NO3-), fósforo (P), potássio (K), magnésio (Mg2+), sulfato (SO₄²-), fosfato (PO₄³⁻), ferro
(Fe), zinco (Zn), manganês (Mn) e cobre (Cu) foram analisados em laboratório através
de um espectrofotômetro (Modelo: HI83399, HANNA Instruments, espectrofotômetro
modelo HI 839800 e espectrofotometria UV comprimento de ondas de 110 a 1300 nm –
Kasvi e Merck®).
Figura 2: Análise das variáveis físico-químicas e coleta de água da V e VI Expedição
Cientifica do Baixo São Francisco.
Fonte: LAQUA, 2023.
46
ANÁLISE MICROBIOLÓGICA (COLIFORMES TOTAIS E ESCHERICHIA COLI)
Para as análises de coliformes totais e E. coli as amostras de água foram coletadas
em frascos de polietileno de 250 mL sendo então refrigeradas até análise. Em laboratório
realizou-se as análises seguindo o protocolo conforme descrito no kit do AQUATESTE COLI
(ONPG-MUG; LaborClin - BRASIL), registrado na ANVISA sob o número 100.970.10.149.
Para isso, a cada 100mL de amostra foi acrescentado um flaconete de meio de cultura,
conforme protocolo da empresa, após a completa diluição, alíquotas de 20 mL foram
transferidas para 5 tubos em vidro estéreis (Fluxograma 1).
Fluxograma 1: Substrato para detecção quantitativa e qualitativa de coliformes totais e
E. coli em amostras de água.
Fonte: Adaptado, LAQUA, 2021.
47
Em seguida, as alíquotas foram incubadas em estufa bacteriológica a 35±0,5°C
durante 24h. A confirmação de positivo nas amostras para coliformes totais foram
verificadas visualmente por desenvolvimento de cor amarela no meio de cultura, sendo a
presença de E. coli detectada pela observação de fluorescência azul esverdeada emitida
pela amostra quando submetida à exposição de luz UV (365nm) em câmara escura
(Figura 3).
Figura 3: Incubação em estufa bacteriológica por 24 horas, em seguida leitura em
câmara escura.
Fonte: LAQUA, 2023.
A análise quantitativa foi realizada após a contagem de tubos positivos usando a
tabela de Número Mais Provável/100 mL (NMP), (tabela 1), conforme descrito no kit do
AQUATESTE COLI.
Tabela 1: Número mais provável NMP /100mL
48
Para os indicadores ambientais e microbiológicos da qualidade de água, foram
preconizados os padrões estabelecidos pela Resolução CONAMA 357/05, em função
da classe do uso que dispõe sobre a classificação de água doce, classe 1, bem como a
Portaria de Consolidação nº 5 de 28 de setembro de 2017 e a Resolução CONAMA n° 274,
de 2000.
ANÁLISES ESTATÍSTICAS
Após aplicado teste de normalidade não havendo problemas para testes
paramétricos, foram utilizados uma ANOVA de uma via com pós teste de Tukey, quando
apropriado. Para tratamento estatístico, foram utilizados os softwares Excel 2016 e
o programa Minitab (Software Microsoft, versão 22.1) Para efeito estatístico, foram
considerados significativos os valores que apresentavam P< 0,05. Análises de PCA –
estatística não paramétrica (Distância Euclidiana e com método de Ward) foi usada para
verificar-se as correlações mais fortes entre os parâmetros de qualidade de água. O
dendrograma também foi construído para comparar similaridades entre os municípios
quanto ao aspecto qualidade de água.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para efeito de comparação nos resultados e discussão, as vazões médias
estabelecidas para o ano de 2022 (janeiro a novembro) foi de 1934 m³/s, com média
trimestral (setembro, outubro e novembro) de 1385 m³/s. Já no ano de 2023 a média
anual (janeiro a novembro) foi de 1240 m³/s, com média trimestral (setembro, outubro e
novembro) de 1375 m³/s.
OXIGÊNIO DISSOLVIDO (OD)
O oxigênio dissolvido é um importante indicador das condições de poluição por
matéria orgânica, e consequentemente à sobrevivência de espécies aeróbias. Quando em
concentrações mais baixas, passa a conferir características indesejáveis ao corpo hídrico,
tornando-o inapropriado ao abastecimento público. Em vista disso, uma água não poluída
deve estar saturada de oxigênio. De outra forma, níveis baixos de oxigênio dissolvido
podem indicar que houve grande atividade bacteriana decompondo a matéria orgânica
lançada no ambiente aquático (MOTA, 2012). Os valores de referência preconizados na
legislação CONAMA 357, é de 5 mg/L.
As análises desta variável apresentaram diferenças significativas quanto a
distribuição nos municípios estudados (p<0,05). Valores médios mais elevados foram
econtrados em todos os municípios em 2022 quando relacionados ao ano de 2023 (Teste
de Tukey, p<0,05). Os valores mais elevados desta variável foram encontrados em Igreja
Nova- AL (média de 7,20 – 7,74 mg/L, em 2022 e 2023, respectivamente) seguidos dos
municípios de Propriá- SE (6,96 ± 0,45 mg/L), São Brás-AL (6,50 ± 0,32 mg/L), todos no
ano de 2022, estes não diferiram uns dos outros. Como segunda escala de melhor teor
de oxigênio, os municipios de Traipu, Penedo e Piaçabuçu, no ano de 2022, apresentaram
média de 5,50 ± 0,24 mg/L. A partir do município de Pão de Açúcar em 2022 os valores
deste parâmetro ficaram abaixo do preconizado pela resolução CONAMA 357, portanto
abaixo de 5,0 mg/L, com média de 4,73 ± 0,40 mg/L, seguidos por Piaçabucu e Propriá,
ambos no ano de 2023, com média de 4,40 ± 0,30 mg/L.
É importante destacar que o município de Igreja Nova foi a única exceção das análises
de 2023, apresentando teores bem acima de 5,0 mg/L de OD, os demais municipios
apresentaram piora significativa, com destaque negativo para Penedo e Piranhas (média
de 2,40 ± 0,2 mg/L). A região do Xinaré (igreja Nova), possui como caraterísticas pequan
comunidade com pouco lançamento de efluentes, além de área de maior correnteza e
área de remanso, o que favorece melhor aporte de oxigênio dissolvido.
49
Podemos considerar que a diminuição dos valores de oxigênio dissolvido pode
ser atribuido a menor defluência das vazões no ano de 2023. Adicionalmente, o ano
de 2022 com vazões atípicas, acima de 3500 m³/s durante cerca de 3 meses e maior
volume de chuvas ocasionado pelo fenômeno La Niña, proporcionou maior renovação
de água, limpeza do leito da calha principal, contribuindo com maior poder diluente de
substâncias em processo de decomposição. Contudo, após a normalidade das vazões
no ano seguinte, grande quantidade de lixo e matéria orgânica, oriundo dos esgotos
das cidades, aumento do assoreamento no Velho Chico e afluentes com alto grau de
degradação (rios Piauí, Traipu, Ipanema, etc) e manejo inadequado de solos com uso de
agroquímicos, acumulou na calha principal do rio, diminuindo o poder de ciclagem de
nutrientes. Soma-se ainda fatotes como retenção de água (sistema lótico) pelas represas,
alterando a dinâmica da água. Essa condição é bem presente na região de Propriá e
Penedo.
Figura 4: Níveis de oxigênio dissolvido por município, avaliado nas expedições científicas
de 2022 e 2023.
Fonte: Emerson Soares, 2024.
De acordo com Farias (2006), o oxigênio dissolvido pode ser influenciado
negativamente por outros fatores também, como o aumento da turbidez, aumento da
temperatura (águas mais quentes e com maior quantidade de matéria orgânica), e pela
ação antrópica em cursos d’água onde efluentes são lançados com grande quantidade
de matéria orgânica.
50
TOTAL DE SÓLIDOS DISSOLVIDOS (TDS)
O TDS inclui, dentre outros, sais inorgânicos dos quais podemos citar principalmente,
potássio, magnésio, cálcio, sódio e cloretos, afetando diretamente o sabor e odor da
água. Os sólidos têm capacidade de sedimentar no leito dos rios, acabar com organismos
que disponibilizam alimentos, soterrar os leitos de desova de peixes. Além de tudo,
podem reter bactérias e resíduos orgânicos no fundo dos rios, ocasionando deterioração
anaeróbia, reduzindo o nível de oxigênio nos corpos hídricos (PHILIPPI JR; ROMERO;
BRUNA, 2004). O valor máximo permitido de TDS em águas doces de classe 1 e 2 é 500
mg/L (CONAMA 357, 2005), já a legislação que estabelece padrões de potabilidade em
águas nos Estados Unidos da América, caracteriza o valor de até 1.000 mg/L.
Entre os municípios avaliados destaca-se Traipu, que em 2022 apresentou valores
médios de 203,66 ± 14,28 mg/L, diferindo significativamente dos demais independente
do ano, seguido de Piaçabuçu em 2022, expressando valor médio de 171,7 ± 11,33 mg/L.
Percorrendo o rio no ano de 2022, a partir da cidade de Piranhas, Pão de Açúcar, São
Brás, Propriá e Penedo, os dados indicam uma variação de TDS da ordem de 120 a 134
mg/L, não havendo diferença para esta variável.
Já em 2023, foram encontradas medidas bem inferiores as avaliadas no anterior
(ANOVA p<0,05), conferindo certa uniformidade aos valores apresentados, onde o
município de Igreja Nova obteve 29,00 ± 3,00 mg/L e Piaçabuçu (distando menos de 20
km da foz) alcançou 41,67 ± 6,50 mg/L.
Em 2022 ocorreu grande defluência das hidroelétricas (comparada a última
grande enchente no perímetro ocorrida em 2009), durante mais de 4 meses, seguido de
volumes de chuvas acentuado na região, causando processos erosivos de solos e rochas.
O incremento deste acúmulo de água em solos desnudos e sem proteção, com grande
aporte de agroquímicos, com lavagem de rochas e de leitos secos e com grande acúmulo
de sedimento, pode ter proporcionado o aumento do TDS nos primeiros 3 meses antes
das coletas, esse fator foi observado nos estudos de Bazzo & Pizzato (2011).
Em um segundo momento, já no ano de 2023, com a diminuição da precipitação
e do volume de vazões há uma tendência de depleção do valor desta variável, que fica
dependente dos fenômenos das marés e da cunha salina nos municípios mais próximos
ao estuário, a exemplo de Penedo e Piaçabuçu. Contudo, nota-se que mesmo em áreas
mais próximas a foz do rio São Francisco, os valores encontrados são bem inferiores aos
observados aos anos de 2019 e 2020.
Há de se avaliar a influência do rio Traipu, afluente do Velho Chico no aumento
desta variável, alguns cátions e ânions são bem elevados na foz deste afluente, e devese possivelmente a formação rochosa, desflorestação das áreas marginais tipo de solo
na região (SALAMENE et al. 2011), revolvimento do solo por atividades mineradoras ou
práticas inadequadas de uso e manejo de solos, que podem interferir nos valores desta
variável, entretanto esta hipótese carece de mais estudos. Conforme preconizado em
legislação, os valores observados nos anos de 2022 e 2023 não ultrapassaram o limite de
500 mg/L.
AMÔNIA (NH3) E NITRITO (NO2)
A amonificação (processo de decomposição da matéria orgânica por organismos
heterotróficos), é realizada no sedimento, no leito dos ambientes aquáticos. Enquanto
em peixes por exemplo, a absorção dos compostos nitrogenados é originária dos
aminoácidos, contudo essa absorção não é completa, sendo eliminada pelas fezes,
enquanto a parte absorvida pelo metabolismo é usada como fontes energéticas tendo
como resultado a amônia, que deverá ser excretada pelos peixes, pois devido seu poder
tóxico pode causar sua morte em determinadas concentrações (SÁ, 2012).
No ambiente aquático, este composto pode ser oriundo do processo de degradação
51
biológica de matéria orgânica. Quando a amônia se apresenta em altas concentrações em
águas naturais é um indicativo de contaminação por esgoto bruto, efluentes industriais
ou afluxo de fertilizantes (SILVA et al., 2021). Seus níveis no ambiente aquícola são
preocupantes, uma vez que a presença desses compostos, mesmo em concentrações
baixas, inferiores a 0,5 mg/L, inspira atenção (PILLAY; KUTTY, 2005).
Já a nitrificação decorre de um processo em que o íon amônio atua como doador
de hidrogênio e através da oxidação destes compostos, os microorganismos obtêm os
equivalentes de redução (ferro, manganês e sulfito, etc) para o processo de sua síntese.
De acordo com a legislação CONAMA 357, classe 1 de água doce, o valor recomendado
para o nitrito não deve ultrapassar 1,0 mg/L. Já para a amônia o valor é expresso em
nitrogênio amoniacal total (somatória de NH3 e NH4) e varia de acordo com o pH, por
exemplo em pH 7,5 a 8,5, valores comuns encontrados no Baixo São Francisco, os valores
desta variável variam de 2,0 a 0,5 mg/L, conforme aumenta o pH, isto é devido o poder
tóxico desta molécula aumentar em soluções mais básicas. Para efeito das análises
iremos considerar valor de referência para amônia não ionizada NH3 de 0,5 mg/L, devido
a letalidade aumentada para organismos aquáticos em pH médio de 8,0. Já para o nitrito
valores de 0,3 mg/L já ameaçam a qualidade de vida de organismos aquáticos em
períodos de vazão reduzidas, altas temperaturas, diminuição da capacidade de diluição
do rio (sistema mais lótico em períodos de estiagens) e pH mais elevados.
Em se tratando da amônia, o município de Traipu em 2022 destacou-se
negativamente com valores médios superiores a 1,60 mg/L, portanto acima dos índices
recomendados de tolerância. Esta concentração ultrapassa o limite estabelecido pela
Portaria 1.469/2000 do Ministério da Saúde que preconiza 1,5 mg/L do valor máximo
permitido para água de aceitação ao consumo humano. Apesar da condição relatada
em Traipu, as demais áreas avaliadas independente do ano, não apresentaram diferenças
significativas entre elas, permanecendo abaixo dos níveis recomendados em legislação e
em literatura.
Figura 5: Avaliação dos índices de amônia nos municípios estudados durante as
expedições cientificas de 2022 e 2023.
Fonte: Emerson Soares, 2024.
52
Uma possível explicação para os resultados positivos desta variável deve-se as
vazões praticadas durante grande parte dos anos de 2022 e 2023, que mitigaram os
efeitos dos poluentes e esgotos oriundos dos municípios ribeirinhos, onde o ambiente
mais lótico atuou com efeito diluidor e “limpou” o rio. Quanto maior o fluxo de água, com
grandes vazões a remoção desses compostos é realizada mais rapidamente, impedindo
que os níveis aumentem.
Quanto a condição de elevação de amônia em Traipu, devemos avaliar a hipótese
do rio Traipu (maior afluente da região), estar atuando como grande transportador de
substâncias até a calha principal do rio, promovendo a deterioração do ambiente. Por
outro lado, não podem ser descartadas outras possibilidades como a geologia aquática na
região, tipo de solo e rochas, aporte de esgotos da cidade, além do modelo de circulação
de água na área estudada, que podem contribuir certamente para acúmulo de nutrientes.
O aumento da precipitação nos dois anos atuais, em relação aos anos anteriores
de grande estiagem, a exemplo de 2012 a 2019, promoveram uma lavagem em solos
degradados e com acúmulos de esgotos, agroquímicos, etc, estes fatores podem ter
influenciado nos índices de nitrito encontrados em Piaçabuçu (afluente, Igreja Nova,
Traipu e São Brás, cujos valores desta variável foram superiores a 0,3 mg/L, diferindo dos
demais municípios em 2022 e em 2023 (menor vazão), que não apresentaram diferenças
significativas entre si (p<0,05) com valores médio abaixo de 0,02 mg/L. Apesar da
elevação deste composto nitrogenado ser maior em alguns municípios no ano de 2022,
os valores não ultrapassaram o limite estabelecido pela resolução CONAMA 357, de 1,0
mg/L.
Figura 6: Avaliação dos índices de nitrito nos municípios estudados durante as expedições
cientificas de 2022 e 2023.
Fonte: Emerson Soares, 2024.
53
CONDUTIVIDADE ELÉTRICA (μS/CM)
Esta variável refere-se à capacidade que a água tem de conduzir corrente elétrica
mediante a presença dos íons e tem correlação significativa com aproximadamente dez
outros parâmetros tais como: pH, temperatura, dureza, cálcio, alcalinidade, sólidos totais,
demanda química de oxigênio, cloreto e ferro (PATIL et al., 2012), contudo, a temperatura
tem forte influência na condutividade, devido a excitabilidade das moléculas em altas
temperaturas, aumentando a condutância, enquanto a salinidade tem relação direta no
aumento da condutividade, pelo aumento de sais na água colaborando com a condução
da corrente elétrica.
Nas legislações brasileiras vigentes, a exemplo da CONAMA 357, não se tem um
valor máximo permitido estabelecido para condutividade elétrica, segundo Morais (2008),
valores acima de 100 μS/cm podem indicar algum impacto em ambientes dulciaquícolas,
contudo estudos ligados a FAO (AYERS & WESTCOT, 1994) estabelecem alguns valores
em águas para irrigação que variam entre < 0,7 dS.m-¹, ou 700 μS/cm - nenhum problema,
entre 0,7 e < 3,0 dS.m-¹- (700 e 3.000 μS/cm) - água moderada, e maior que 3,0 dS.m-¹
(>3.000 μS/cm) -água severamente comprometida.
Nas coletas realizadas durante a V e VI expedições científicas do São Francisco, o
município de Traipu no ano de 2022, obteve maiores valores desta variável em relação
aos municípios restantes (Teste de Tukey e Teste de Dunnet, p<0,05), com valor médio de
474,30 ± 22,45µS/cm, seguido de Piaçabuçu (ano de 2022) com valor médio de 350,00
± 18,34µS/cm. Piranhas, Pão de Açúcar, São Brás, Propriá-SE, Igreja Nova e Penedo,
mantiveram valores similares estatisticamente em 2022, com média de 250,15 ± 28,56 µS/
cm. Em relação ao ano amostrado, todos as cidades no ano de 2022, obtiveram valores
superiores estatisticamente em relação a 2023 (média de 72,50 ± 8,6 µS/cm), incluindo
Piaçabuçu, com grande influência da cunha salina. Em 2023, todos os municípios os
dados se mostram bem homogêneos quanto a condutividade elétrica.
Avaliando as informações nos anos de 2022 e 2023 fica bastante evidente o efeito
de anos com vazões elevadas e por períodos mais extensos, promovendo uma limpeza
no leito do rio, diminuindo o efeito da cunha salina, mesmo após 1 ano, com diminuição
do processo de salinização. Ademais, contribui para o retorno de espécies de peixes de
água doce em regiões, onde antes predominavam espécies marinhas.
Por outro lado, a região de Traipu por estar mais na área central do percurso de
250 km de coletas (distando em média 80 km da foz do rio), apresentaram valores
preocupantes, embora com teores dentro dos limites aceitos pela literatura.
Turbidez (UNT)
A turbidez da água está relacionada à presença de materiais sólidos em suspensão
que diminuem a sua transparência. Pode ser ocasionada pela presença de algas, plâncton,
matéria orgânica entre outros parâmetros como o zinco, ferro, manganês e areia, pode
ser decorrente do processo natural de erosão ou de efluentes domésticos e industriais
que provocam elevações na turbidez das águas (MOURA, 2017).
Os valores preconizados pela resolução CONAMA 357/2005, estabelece faixa
máxima de 40 uT, para corpos de água de classe 1, enquanto na classe 2, esse valor pode
chegar a 100 uT. Já o Ministério da Saúde, através da Portaria 1.469/2000, estabeleceu
volume máximo permitido em atendimento ao padrão de aceitação para consumo
humano, de 5 uT.
Independente do ano e localidade, todos os municípios apresentaram valores de
turbidez abaixo do limite recomendado pela legislação CONAMA 357/2005. Apesar das
vazões e períodos de chuvas mais acentuados no primeiro semestre de 2022, os dados
coletados em todas as localidades, exceto Piranhas e Traipu, neste ano foram similares,
com mínimo de 5,2 uT em São Brás e máximo de 9,3 uT em Igreja Nova. Com relação a
2022, o ano de 2023, em todas as localidades, foi inferior em valores de turbidez (p<0,05),
contudo a faixa mínima para esta variável foi observada em Pão de Açúcar com 0,5 uT,
54
enquanto a máxima foi observada em São Brás com 4,0 uT.
A alta de turbidez costuma acontecer com aumento significativo das vazões da
hidroelétrica de Xingó ou maior volume de precipitação nas cabeceiras dos afluentes
temporários (rio Piauí, Capiá, Traipu, Ipanema, Betume, Jacaré), onde são observados
eventos como quedas de barrancos de solos pobres e desflorestados que são carreados
para a calha principal do rio São Francisco.
Figura 7: Avaliação dos índices de turbidez nos municípios estudados durante as
expedições cientificas de 2022 e 2023.
Fonte: Emerson Soares, 2024.
POTÁSSIO (K)
O potássio, diferentemente de outros íons, não permanece em solução pois se
incorpora facilmente as plantas e argilas; sua concentração em águas doces superficiais
variam de 1 a 3 mg/L (CLESCERI et al, 1998). Não existe faixa limite estabelecida na
resolução CONAMA 357/2005 para esta molécula, entretanto, o consumo das águas do
São Francisco para fins de dessedentação é comum em comunidades ribeirinhas do baixo
curso do rio, principalmente em área onde os níveis de alguns sais e cloretos são mais
elevados, o risco está na formação da molécula cloreto de potássio, que pode atuar os
problemas de saúde em pacientes com insuficiência renal, diabetes, problemas cardíacos
e hipertensos.
Os níveis de potássio nos dois anos de coletas foram inferiores a 3,0 mg/L,
entretanto os maiores valores encontrados são observados no ano de 2022 para todos
os municípios, que não apresentaram diferenças significativas entre sí (p<0,05), mas
diferenciaram em relação ao ano de 2023. O nível mínimo encontrado foi em Pão de
Açúcar (2023) com 1,3 mg/L enquanto o máximo foi observado em São Brás com 2,35
mg/L.
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Figura 8: Avaliação dos índices de potássio nos municípios estudados durante as
expedições cientificas de 2022 e 2023.
Fonte: Emerson Carlos,2024.
COBRE (CU), MANGANÊS (MN) E FERRO (FE)
O cobre é um componente natural do ambiente aquático e pode ser encontrado
nas formas, coloidal, dissolvido e particulada. Industrialmente o cobre é um dos metais
mais importantes, é um bom condutor de eletricidade usado na confecção de cabos e
fios, e ligas metálicas como latão de bronze (SOUZA et al, 1998). Para o cobre o valor
máximo permitido é de 2,0 mg/L (Portaria 1469/2000 da vigilância ambiental em saúde),
enquanto na resolução 357/2005 o valor máximo permitido de cobre dissolvido é de
0,009 mg/L
O ferro e o manganês são originários da dissolução de rochas e solos. O ferro
apresenta-se na água nas formas insolúvel e dissolvida, como óxidos, silicatos, cloretos e
sulfatos. O manganês embora menos abundante na água que o ferro, raramente excede
1,0 mg/L (LIBÂNIO, 2016).
Segundo a Portaria 1.469/2000 do Ministério da Saúde para que a água seja
aceitável para o consumo humano, ela deve atender alguns requisitos, como por exemplo,
concentrações de ferro devem ser menor que 0,3 mg/L, esta concentração também se
aplica a resolução CONAMA 357/2000, valores acima conferem sabor, odor e favorecem
o aparecimento de manchas em equipamentos e estruturas que estejam em contato
direto com a água. Quanto a potabilidade da água o limite recomendado é de 0,1 mg/L.
Já o manganês tem como valor de referência máximo de 0,1 mg/L (classes 1 e 2) para
ambas as portarias (CONAMA 357/2005 e 1.469/2000 do Ministério da Saúde).
Os valores de cobre dissolvido encontrados em 2023 foram mais elevados que no ano
anterior (Teste de Fisher, p<0,05), conferindo a São Brás, Traipu e Piranhas valores médios
de 0,17, 0,15 e 0,145 mg/L, respectivamente, seguidos de Pão de Açúcar, Igreja Nova e
56
Propriá, com média de 0,11 mg/L, portanto estes dois grupos de localidade diferiram,
independente do ano, dos demais municípios. Os menores valores encontrados foram
observados em Piaçabuçu (em 2023), com média de 0,008 mg/L, Piranhas em 2022
(0,02 mg/L) e Traipu em 2022 (0,03 mg/L). Levando-se em conta o limite permitido
em resolução, apenas Piaçabuçu em 2023 ficou abaixo do valor tolerável, as localidades
restantes ficaram todas acima do valor de 0,009 mg/L.
Figura 9: Avaliação dos índices de cobre nos municípios estudados durante as expedições
cientificas de 2022 e 2023.
Fonte: Emerson Soares, 2024.
Os maiores valores de ferro foram observados em Piaçabuçu em 2022 (0,14 mg/L)
e Penedo em 2022 (0,073 mg/L), diferindo das demais localidades, independente
do ano (p<0,05). Os menores valores foram observados em Piranhas, Pão de Açúcar
para ambos os anos avaliados no presente estudo e Igreja Nova em 2022, todas estas
localidades apresentaram média de 0,001± 0,0001 mg/L Levando-se em conta o valor
máximo permitido em legislação os municípios de Piaçabuçu em 2022 e 2023, Penedo
em 2022 e São Brás em 2023 ultrapassaram o valor recomendado. Os demais municípios,
independente do ano ficaram dentro do limite aceitável.
Em relação aos limites de manganês, todas as localidades no ano de 2023 obtiveram
valores médios (0,36 ± 0,03 mg/L), acima do permitido pelo CONAMA 357/2005,
diferindo dos valores encontrados em todos os municípios em 2022 (média de 0,039 ±
0,004 mg/L), (Teste de Tukey e Teste de Fisher, p<0,05).
O cobre pode afetar o metabolismo dos peixes de diversas formas, sendo possível várias
possibilidades em analisar os efeitos tóxicos deste metal nos organismos (OLIVEIRA et
al, 2018). Para Sampaio (2013), as brânquias dos peixes são a principal via de absorção
de metais, representando ampla área de superfície.
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A toxicidade do ferro provoca quedas de produtividade primária, formação de ácido
sulfúrico e problemas nas brânquias de peixes e devido a afinidade com a hemoglobina
do sangue nestes animais impede a troca gasosa e a oxigenação dos tecidos. Quanto ao
manganês, estando este formando a molécula de permanganato, provoca a oxidação da
pele e brânquias.
FÓSFORO (P)
O fósforo é essencial ao crescimento dos organismos, o teor existente em um corpo
de água pode ser considerado um fator limitante (PIVELI; KATO, 2005). A presença do
fósforo na água pode estar relacionada tanto a processos naturais, como carreamento de
solo, dissolução de rochas, decomposição de matéria orgânica como também a processos
antropogênicos como uso de pesticidas, fertilizantes, detergentes além do lançamento
de esgotos in natura lançados diretamente no corpo hídrico.
A Resolução CONAMA 357/05 estabelece para o fósforo total em ambientes
lênticos, intermediário e lótico, os seguintes valores: 0,020 mg/L, 0,025 mg/L e 0,10
mg/L, respectivamente, todavia, o teor adotado para efeito deste trabalho foi o 0,10
mg/L (ambiente lótico com tributários intermediários).
Os resultados das análises observadas para este parâmetro na forma dissolvida,
demonstram que as localidades de Pão de Açúcar em 2023 (1,13 ± 0,44 mg/L) e Piranhas
em 2022 (0,50 ± 0,18 mg/L), obtiveram médias similares e acima do valor recomendado
em legislação que é de 0,1 mg/L. Para os demais municípios os valores não apresentaram
diferenças significativas (valor médio de 0,05 mg/L), e com exceção de Piaçabuçu em
2023 (0,11 mg/L), todos ficaram abaixo do limite aceitável.
Certamente a alta renovação de água proporcionada pelas vazões praticadas no
ano de 2022 e defluências mais estáveis em 2023, proporcionaram condições melhores
para que o fósforo presente fosse diluído. Esta condição foi comprovada pelas percepções
ambientais realizadas na região tais; formação de banco de macrófitas inexistentes e
estabilidade de outros parâmetros físico-químicos avaliados.
Zinco (Zn)
O zinco é um elemento químico natural e geralmente apresenta índices maiores em
águas de rios devido ao escoamento de resíduos naturais como: queima da vegetação,
erosão e devido a ação do homem na utilização de defensivos agrícolas.
De acordo com a Portaria 1.469/2000 do Ministério da Saúde para que a água seja
aceita para o consumo humano, ela deve atender alguns requisitos, como por exemplo,
concentrações de zinco não devem exceder 5 mg/L. A Resolução do CONAMA 357/05
recomenda concentrações de zinco em até 0,18mg/L.
Os valores de zinco não apresentaram diferenças significativas entre os dois anos
avaliados na maioria dos municípios (p>0,05), com exceção dos municípios de Traipu e
Piaçabuçu em 2023, que obtiveram valores médios de 0,7 ± 0,2 mg/L, medida acima do
preconizado em legislação.
POTENCIAL HIDROGENIÔNICO (PH)
O potencial hidrogeniônico (pH) refere-se a concentração de íons H+ nos corpos
hídricos e caracteriza as condições do ambiente aquático em ácidas ou alcalinas (BACCAR
et al., 2018). Segundo a Resolução do Conama 357/2005 e padrões de potabilidade
nacional, o pH considerado aceitável para águas doces de Classe 1 deve estar no intervalo
entre 6,0 e 9,0.
Os valores mínimos e máximos de pH independente do ano foi de 6,7 a 8,05
para Penedo em 2023 e Pão de Açúcar em 2022, respectivamente. Não há um padrão
de diferenças de pH entre os anos, entretanto em 2022 a maioria dos locais de coleta
obtiveram valores alcalinos acima de 7,8, enquanto em 2023 os dados coletados se
58
comportaram abaixo de 7,5. Porém todos as amostras coletadas e analisadas estão
dentro do padrão de classe 1 do CONAMA 357.
SALINIDADE (PSU)
A salinidade atua no controle da distribuição da fauna, flora e minerais, sendo
oriunda da intrusão da água do mar no corpo d’água, intemperismo das rochas, balanço
hídrico de precipitação e evaporação, influência das águas subterrâneas e lançamento
de efluentes domésticos e industriais (MORHIT & MOUHIR, 2014). Segundo a Resolução
Conama 357/2005 águas consideradas doces devem ter um percentual de salinidade
igual ou inferior a 0,5%.
Os dados de salinidade demonstraram que em 2022 foram superiores aos
observados em 2023 (p<0,05). Traipu em 2022 (0,19 PSU) obteve valor médio acima das
demais localidades estudadas, independente do ano. Piaçabuçu (2022) foi o município com
segundo maior índice obtendo média de 0,16 PSU, enquanto as localidades de Piranhas,
Pão de Açúcar, São Brás, Propriá, Igreja Nova e Penedo, apresentaram valor médio de
0,12 ± 0,02 PSU. No ano de 2023 todos os municípios apresentaram uniformidade, com
média de 0,03 PSU.
Devido o regime de altas vazões no ano de 2022 (média anual de 2.632 m³/s) e
com períodos mais estáveis, embora com fluxo de água no limite médio anual de 1.300
m³/s de vazão em 2023, os valores de salinidade e a cunha salina diminuíram em mais
de 5 km com relação aos dados observados durante os anos de estiagens de 2012 a
2018, quando as defluências atingiram valores médios de 1.100 m³/s em 2012, 1.000 m³/s
em 2015, com valor mínimo de defluência de 550 m³/s entre 2017 a 2018, obtendo leve
aumento em 2019, na qual o valor atingiu média de 700 m³/s (CRUZ et al., 2020).
A partir de 2020 e 2021, os dados de vazão apresentaram valores médios anual
entre 1.015 m³/s e 1250 m³/s, o que mitigou os efeitos da cunha salina principalmente na
localidade de Piaçabuçu.
ANÁLISE MICROBIOLÓGICA (COLIFORMES TOTAIS E ESCHERICHIA COLI)
Foi possível observar a presença de coliformes totais, em todos os pontos de coleta,
com valores acima do limite indicado pela resolução CONAMA n.357, de 17 de maio de
2005 e Portaria de Consolidação nº 5, de 28 de setembro de 2017 (BRASIL, 2017), os
resultados das análises microbiológicas, em todos os pontos amostrados, indicaram a
presença de coliformes e E. coli, fora dos padrões estabelecidos.
De acordo com a Portaria Gabinete do Ministro/Ministério da Saúde Nº 888, de 4
de maio de 2021 (BRASIL, 2021), a água potável deve estar sempre em conformidade
com padrão microbiológico, e a detecção de microrganismos permite considerar esta
como imprópria para o consumo humano.
Em 2022, houve um aumento da vazão do rio São Francisco de 4.000 m³/s, ele passou
por um processo de “limpeza” melhorando a qualidade de água, e consequentemente
a vida e o ciclo reprodutivo dos peixes nativos da região. Porém, com o alto índice
populacional, e as cidades sem plano de saneamento básico faz com que os índices de
contaminação microbiológica como coliformes totais e E. coli sejam altos e recorrentes
mesmo que o rio tenha passado por este processo de “limpeza”. Adicionalmente a isto,
as cidades localizadas às margens do rio São Francisco produzem sua cota de poluentes,
acarretando a saturação do corpo hídrico.
59
CONCLUSÃO
Por meio dos resultados de 2023, foi possível observar que as análises físicoquímicas de amostras ficaram mais estáveis e com menor oscilação em relação ao ano
de anterior, decorrente do processo de altas vazões praticadas em 2022 e vazões mais
estáveis em 2023. Contudo, a elevada presença de coliformes totais e E. coli em todos
os pontos avaliados sugere contaminação fecal das águas do Baixo São Francisco com
condições insatisfatórias e fora dos padrões de potabilidade estabelecidos pelas Portarias
vigentes do Ministério da Saúde.
Fatores como diminuição da vazão, maior adensamento populacional, ausência
de políticas de educação ambiental, ausência de sistemas de tratamentos de esgotos e
saneamento básico, lançamentos de esgotos in natura e limitação de políticas públicas
voltadas para a questão ambiental, contribuem para a degradação da água.
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64
4. FITOPLÂNCTON DO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Taxonomia e ecologia do fitoplâncton.
Élica Amara Cecília Guedes Coelho1
Manoel Messias da Silva Costa2
Fernando Pinto Coelho3
Giovanna Silva dos Anjos4
Alana Santos Oliveira4
RESUMO
Estudos com o fitoplâncton contribuem preponderantemente para a compreensão
do funcionamento do sistema aquático e dessa forma, o presente relatório preliminar tem
como objetivo analisar a estrutura da comunidade fitoplanctônica e fatores de risco que
esses organismos ocasionam na qualidade da água do baixo Rio São Francisco inicialmente
nos municípios de Piranhas e Penedo no dia 21/11/2023 e Penedo no dia 27/11/2023. Para
análise do fitoplâncton foram coletadas amostras através de arrastos subsuperficiais,
com rede de plâncton (malha de 20 µm). As amostras foram acondicionadas em frascos
e preservadas em solução de Transeau, devidamente etiquetados. Foram examinadas
alíquotas de 1 mL em câmaras de Sedgewick-Rafter durante a expedição na embarcação
e procedendo as análises diretamente em microscópio óptico binocular e a identificação
baseada em bibliografias pertinentes na área. Foram analisados, riqueza de espécies,
abundância relativa (%), diversidade de Shannon (H’), equitabilidade (J), dominância de
Simpson (ʎ) e densidade de células (cél/mL), posteriormente após a complementação
das análises, serão avaliados a frequência de ocorrência (%) e testes estatísticos. Os
resultados preliminares encontrados nos municípios de Piranhas e Penedo para
cianobactérias apresentaram acima do limite de tolerância para corpos d’água em
mananciais, demonstrando índice de “risco muito elevado”. A portaria do Ministério
da Saúde com referência de 10.000 cél/mL para cianobactérias, que estabelece esse
parâmetro como limite de segurança e conferindo riscos à saúde pública e investimentos
elevados na implantação de Estação de Tratamento de Água e nos seus diversos usos
múltiplos.
Palavras-chaves: Fator de risco, cianobactérias, densidade de células, abundância relativa.
1
2
3
4
Setor de Botânica, Laboratório de Ficologia – LABOFIC/ICBS/UFAL
Laboratório de Aquicultura e Ecologia Aquática – LAQUA/CECA/UFAL.
Campus de Engenharias e Ciências Agrárias – CECA/UFAL.
Laboratório de Ficologia – LABOFIC/ICBS/UFAL.
65
INTRODUÇÃO
Dentre os inúmeros organismos que habitam os ambientes aquáticos, a
comunidade fitoplanctônica se constitui como uma das mais importantes, por serem,
em sua grande maioria, dotados de pigmentos fotossintetizantes (sendo a clorofila “a” o
mais abundante) e constituindo o primeiro elo das cadeias alimentares. São responsáveis
pela produtividade primária dos ambientes aquáticos, cuja variedade, abundância e
distribuição são próprias e dependem da adaptação às características abióticas, sendo
de extrema importância para a compreensão do meio, pois refletem com fidelidade os
impactos antrópicos que ocorrem no meio aquático (RODRIGUES, 2004; REYNOLDS,
2006; RAVEN, EVERT e EICHHORN, 2014).
A distribuição, variação, profusão, coexistência, predomínio e variedade do
fitoplâncton estão relacionadas à presença de gradientes verticais e horizontais, ao tempo
de permanência, a estratificação hidráulica, ao transporte de partículas, às relações entre
partículas sedimentares e a água, ao sistema de transporte vertical e horizontal, bem
como à composição, diversificação e estrutura das comunidades biológicas (TUNDISI e
TUNDISI, 2008).
Com o aumento da eutrofização em ambientes lóticos advindos de múltiplos usos,
como abastecimento público, lazer, aquicultura e pesca, além de se modificar rapidamente
tanto no tempo como no espaço, tem ocorrido um rápido crescimento de algumas
espécies de fitoplâncton que estão se tornando cada vez mais comum e dominante nestes
ambientes, tanto qualitativamente quanto quantitativamente, implicando em potenciais
danos à saúde da população (PANOSSO et al., 2007; COSTA et al., 2009).
As variações na ecologia do fitoplâncton são reconhecidas por alterações em seu
ciclo sazonal e na composição dos grupos dominantes, por meio da sucessão ecológica
e, principalmente, devido às florações de algas. Nesse cenário, o nível trófico das águas
oferece uma perspectiva sobre como a luz e os nutrientes influenciam o crescimento do
fitoplâncton (CUNHA et al., 2013).
Dado que o fitoplâncton responde rapidamente a alterações ambientais, esses
seres podem ser empregados como marcadores do nível trófico dos corpos aquáticos
onde habitam, proporcionando uma importante referência quanto à qualidade da água
(PARMAR, RAWTANI e AGRAWAL, 2016; TRIPATHI e GAUR, 2021).
Dessa forma, o presente relatório teve como objetivo analisar a estrutura da
comunidade fitoplanctônica e os fatores de riscos que esses organismos ocasionam,
proporcionando importantes informações sobre o ecossistema em estudo como
bioindicadores da qualidade da água.
MATERIAIS E MÉTODOS
Coleta e armazenamento das amostras
Foram coletadas 33 amostras no período de 21 a 30/11/2023, sendo determinados
pontos de coleta ao longo do trecho do Baixo São Francisco entre os Estados de Alagoas
e Sergipe, sendo definidos da seguinte forma: P1 (região próximo a margem do rio, lado
de Alagoas), P2 (região entre Alagoas e Sergipe), P3 (região próximo a margem do rio,
lado de Sergipe) e ponto de captação d’água (CAP). As amostras de água foram obtidas
por meio de arrasto horizontal e subsuperficial (50 cm), utilizando rede de plâncton,
confeccionadas em tecido com abertura de malha de 20 µm, durante cinco minutos e
velocidade de 1 nó, ao longo do trecho do Baixo São Francisco (Figura 1).
Figura 1: Coleta do material fitoplanctônico através de arrastos horizontais utilizando
rede de plâncton (abertura de malha de 20 µm).
66
Fonte: Coelho, 2023.
As amostras foram acondicionadas em frascos plásticos com capacidade de
aproximadamente 150 mL, devidamente identificados com etiquetas e adicionadas à
solução de Transeau (6:3:1, água destilada, álcool etílico a 70% e formaldeído a 4%), a fim
de preservar os organismos presentes.
ANÁLISE DA COMUNIDADE FITOPLANCTÔNICA
A composição da comunidade fitoplanctônica foi determinada por meio da análise
da montagem de lâminas temporárias das amostras coletadas, tendo sido visualizadas
sob microscópio binocular Zeiss (Axioscop 40). Para o estudo quantitativo, foram
analisadas alíquotas de aproximadamente 1mL, de acordo com o método de SedgewickRafter (S-R) (CETESB, 2011; RICE e BRIDGEWATER, 2012).
Para a identificação dos gêneros/espécies foram utilizadas chaves de identificação
específicas de cada grupo algal: diatomáceas (ROUND et al., 1990; MORENO et al., 1996),
cianobactérias (ANAGNOSTIDIS e KOMAREK, 1988, 1990; KOMAREK e ANAGNOSTIDIS,
1998; KOMAREK e ANAGNOSTIDIS, 2005), clorofíceas (BUCHHEIM et al., 2001) e para
os demais grupos taxonômicos foram consultados trabalhos de Bourrely (1970), Streble
e Krauter (1987), Parra e Bicudo (1995) e Bicudo e Menezes (2006). Todos os nomes
científicos das espécies foram checados junto ao banco de dados internacional ITIS
(Integrated Taxonomic Information System) e AlgaeBase (GUIRY e GUIRY, 2014).
67
ANÁLISE DOS PARÂMETROS FITOSSOCIOLÓGICOS E ÍNDICES ECOLÓGICOS
Subsequentemente à identificação dos táxons, foram realizadas contagens dos
organismos e calculada a abundância relativa (AR), por meio da fórmula: A=Nx100/n,
na qual N equivale ao número de espécies na amostra e n ao número total de espécies;
a partir disto, foram estabelecidos os seguintes critérios: dominante – ocorrência maior
que 50%; abundante – ocorrência entre 50% e 30%; pouco abundante – ocorrência entre
30% e 10%; e rara – ocorrência menor que 10% (LOBO e LEIGHTON, 1986).
A medida de riqueza consistiu-se no número de espécies identificadas em cada
amostra. O cálculo do índice de diversidade específica foi realizado conforme proposto
por Shannon (H’) (-∑pi.log2) (SHANNON e WEAVER, 1963). Os resultados foram
classificados nas seguintes categorias: alta diversidade, quando ≥3,0 bits.cel-1; média
diversidade, para valores <3,0 ≥ 2,0 bits.cel-1; baixa diversidade, quando <2 >1,0 bits.cel-1;
e muito baixa diversidade, para valores <1,0 bits.cel-1 (VALENTIN, 2000).
A equitabilidade (J) foi determinada seguindo a metodologia proposta por Pielou
(1977) e os resultados variam entre 0 e 1. Valores superiores a 0.50 são considerados
elevados ou equitativos, indicando uma distribuição uniforme dos táxons na amostra
analisada. A dominância de Simpson (λ), que varia de 0 a 1 e quanto mais alto for, maior
a probabilidade de dominância de uma ou duas espécies e consequentemente, menor a
diversidade de espécies. Para os cálculos de índices ecológicos e elaboração de gráficos
e tabelas, foram utilizados o programa estatístico PAST (HAMMER et al., 2001) e o
Microsoft Office Excel (Pacote Office 2016).
A frequência de ocorrência (%) foi determinada com base no número de vezes
que cada táxon foi identificado, utilizando a fórmula: F= Px100/p, onde P representa
o número de amostras contendo a espécie e p é o número total de amostras. Foram
estabelecidas as seguintes categorias: muito frequente (MF) – quando ocorre em mais
de 70% das amostras; frequente (F) – ocorrendo entre 70% e 40% das amostras; pouco
frequente (PF) – com ocorrência entre <40% e 20% das amostras; e esporádica (E) –
ocorrência inferior a 20% (MATEUCCI e COLMA, 1982).
ANÁLISE DE RISCO
Quando a biota aquática incide em variáveis que podem ser avaliados por critérios
representados por valores que variam de 0 a 1, sendo que quanto maior for o valor, maior
será o impacto. A proporcionalidade relativa ao impacto estima o risco = 100% no seu
valor máximo = 1. Progressivamente a escala proporcional dimensiona risco mínimo para
impactos até 30%, 31-50% risco moderado, 51-70% para risco elevado, 71-100% para risco
crítico ou muito elevado (SOUZA, 2000).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A comunidade fitoplanctônica esteve representada por 107 táxons, distribuídos
nas divisões Bacillariophyta (53 spp.), Chlorophyta (26 spp.), Cyanobacteria (22 spp.) e
Dinophyta (6 spp.) (Figura 2 e Tabela 1).
Figura 2: Riqueza de espécies fitoplanctônicas do Baixo Rio São Francisco no trecho
entre Piranhas/AL à Foz do São Francisco.
68
Fonte: Autores, 2024.
Tabela 1: Abundância relativa (%) e densidade de células (cél/mL) do fitoplâncton do
Baixo Rio São Francisco. (PI) Piranhas, (PA) Pão de Açúcar, (TR) Traipu, (PR) Propriá,
(IN) Igreja Nova, (PE) Penedo, (SB) São Brás, (PU) Piaçabuçu, (FOZ) Foz do São
Francisco, (FO) frequência de ocorrência, (MF) muito frequente, (F) frequente, (PF)
pouco frequente, (E) esporádico, ( - ) dados não existentes.
Fonte: Autores, 2024.
69
70
Fonte: Autores, 2024.
Com relação à densidade de células, observou uma variação de 20 cel.mL-1, para o
grupo dos dinoflagelados (Traipu e Penedo/AL) a 52040 cel.mL-1 para as cianobactérias
(Piranhas/AL), sendo observadas diferenças significativas no número de células entre
os grupos algais amostrados. De maneira geral, as cianobactérias contribuíram com as
maiores densidades e dominância desses organismos, seguido pelas diatomáceas (Tabela
2 e Fig. 3).
Tabela 2: Densidade total de células (cél.mL-1) do fitoplâncton do Baixo Rio São
Francisco, no trecho de Piranhas/AL à Foz do São Francisco. (-) dados não existentes.
Fonte: Autores, 2024.
Figura 3: Densidade total de células (cél.mL-1) do fitoplâncton do Baixo Rio São
Francisco, no trecho de Piranhas/AL à Foz do São Francisco.
Fonte: Autores, 2024.
71
A Portaria nº 518 do Ministério da Saúde, exige monitoramento mensal e que a
densidade de células de cianobactérias presentes nos mananciais de até 10.000 céls.
mL-1, enquanto os limites estabelecidos pelo CONAMA Nº 357 de 2005, estabelece a
quantidade de cianobactérias de até 20.000 cél.mL-1 (BRASIL, 2004).
Valores elevados de cianobactérias implicam em monitoramento que deverá ser realizado
semanalmente, devido a possível presença de cianotoxinas, trazendo riscos a população
local, não sendo viável a sua utilização no abastecimento público, recreação e irrigação,
além do risco de bioacumulação em peixes e moluscos bivalves (BRASIL, 2004).
Ocorrendo a dominância e abundância de diatomáceas, com valores acima
de 5.000 cel.mL-1, a qualidade da água é classificada como ruim, demonstrando que
o ambiente está sofrendo em processo de eutrofização e, não sendo própria para o
consumo e recreação (CETESB, 2005).
Durante o período estudado, foram observadas espécies abundantes que
contribuíram na densidade de células, dentre elas podemos destacar as cianobactérias:
Dolichospermum spiroides, Limnococcus limneticus, Microcystis wesenbergii,
Raphidiopsis raciborskii; as diatomáceas: Entomoneis alata, Epithemia sorex, Nitzschia
longissima, Pinnularia viridis e Ulnaria ulna. Espécies estas que influenciaram os índices
de diversidade de Shannon (H’). Sendo até o presente momento, as amostras analisadas
apresentaram de um modo geral, de baixa a média diversidade específica (Tabela 1 e Fig.
4).
Com relação à equitabilidade de Pielou (J) observou-se uma distribuição alta e
equitativa das espécies, com exceção dos municípios de Piranhas e Propriá. Apesar de
observar espécies abundantes (%), observando o índice de dominância de Simpson (ʎ), a
cianobactéria Raphidiopsis raciborskii foi considerada dominante e diminuindo a riqueza
de espécies no município de Propriá/SE (Fig. 3).
Dentre as espécies do fitoplâncton identificadas durante o período de estudo
consideradas muito frequente (MF) e frequentes (F) por estarem presente em mais de
50% das amostradas analisadas foram, as clorofíceas: Eudorina elegans, Microspora
abbreviata, Neidium affine, Staurastrum leptocladum e Volvox aureus. As espécies que
mais se destacaram no grupo das diatomáceas foram: Aulacoseira granulata, Fragilaria
crotonensis, Nitzschia acicularis, Nitzschia longissima, Pleurosigma normanii, Tryblionella
hungarica e Ulnaria ulna. E entre as cianobactérias apenas a espécie Raphidiopsis
raciborskii foi considerada muito frequente (Tabela 1).
Figura 4: (a) Índice de diversidade específica de Shannon, (b) Equitabilidade de Pielou
e (c) Dominância de Simpson do fitoplâncton do Baixo Rio São Francisco, no trecho de
Piranhas/AL à Foz do São Francisco (2023). (FOZ) foz do São Francisco, (SB) São Brás,
(IN) Igreja Nova, (TR) Traipu, (PR) Propriá, (PE) Penedo, (PU) Piaçabuçu, (PA) Pão de
Açúcar, (PI) Piranhas.
72
Fonte: Autores, 2024.
73
ANÁLISE PRELIMINAR DOS PARÂMETROS ABIÓTICOS PARA SUSTENTABILIDADE
DO FITOPLÂNCTON
O monitoramento dos dados abióticos permite analisar o equilíbrio adequado
para sobrevivência do fitoplâncton no ecossistema fluvial. A temperatura da água se
mostrou estável com variação de 24 a 25º C. O pH está dentro de parâmetros equilibrados
com variações de 6 a 7,3. A salinidade apresentou maiores índices com a proximidade
da foz, o que traduz normalidade. Os padrões de turbidez e condutividade elétrica
mantiveram-se normais.
Os índices de Oxigênio dissolvido (OD) - 17,8% e 1,5 mg/L no município de Piranhas
em um ponto de coleta, com média de 29,92% em quatro pontos de coleta, estão
bem abaixo do índice médio dos municípios do Baixo São Francisco – 59,96% (OD)
(Quadro 1). Os índices da cidade de Piranhas com 100% abaixo dos valores padrões de
sustentabilidade do ecossistema fluvial, configuram preocupação quanto a fauna e a
biodiversidade do ecossistema do rio. A escala de análise de risco apresenta a categoria
“risco crítico ou muito elevado” para índices de 71 a 100% acima do limite tolerável.
Quadro 1: Análise de parâmetros abióticos para sustentabilidade do fitoplâncton.
Fonte: Autores, 2024.
Dentre os fatores que propiciam a diminuição de OD em sistemas fluviais a presença
de material orgânico na água, como esgotos lançados nos rios, pode diminuir porque
ele atua como oxidante desse material. Se a Demanda Biológica de Oxigênio (DBO) for
elevada, será necessário um grande volume de OD para oxidá-la, e não restará oxigênio
suficiente para a respiração dos peixes. A resolução CONAMA (Conselho Nacional do
Meio Ambiente) nº 357, de 17 de março de 2005 preconiza o limite desse parâmetro para
águas doces (classe 2), em qualquer amostra, não inferior a 5 mg/L. A média de 2,48
mg/L nesse munícipio com índice 100% inferior ao padrão dessa resolução, confirma o
fator de risco de categoria “risco crítico ou muito elevado”.
74
CONCLUSÃO
Os elevados índices de cianobactérias no município de Piranhas apresentados
nos resultados dessa pesquisa, com índice 100% acima dos níveis regulamentados pelo
Ministério da Saúde, coincidem com a determinação da resolução CONAMA 357, art. 2,
inciso VIII, no qual os nutrientes nitrogênio e fósforo se tornam agentes potenciais para
processos de eutrofização favorecendo o aparecimento de cianobactérias. Os reduzidos
índices de OD confirmam a elevada carga de efluentes de esgotos potencialmente
contaminantes em processos de eutrofização.
A historicidade em dois anos consecutivos desses resultados negativos,
apresentando dados ainda mais preocupantes e incisivos na VI Expedição do Rio São
Francisco, sinaliza a necessidade de medidas preventivas de saúde pública que venham
a proteger a população de possíveis contaminações através de cianobactérias e possam
salvaguardar a biodiversidade das espécies dentro do ecossistema na região fisiográfica
da bacia hidrográfica do Baixo São Francisco.
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77
5. AVALIAÇÃO DE GENOTOXICIDADE UTILIZANDO PEIXES
COLETADOS NA VI EXPEDIÇÃO DO SÃO FRANCISCO.
Área de conhecimento: Genotoxicidade.
Alexandre Santos da Costa1
Mariana Fonseca Cavalcante2
Edmara Ramos Melo3
Emerson Carlos Soares4
Themis Jesus Silva 5
RESUMO
O Rio São Francisco é de extrema importância socioeconômica para a região
Nordeste, mas vem enfrentando uma série de problemas relacionado com a qualidade da
água. O rio está dividido em alto, médio, submédio e baixo, sendo o Baixo São Francisco
(BSF) a região mais prejudicada, por receber e concentrar todo o fluxo de contaminantes
das demais partes do rio. Os principais problemas enfrentados pelo São Francisco ao
longo de todo o seu curso são: uso de agroquímicos em plantações próximas ao rio,
desmatamento das matas ciliares, mudanças bruscas nas vazões, pesca predatória,
introdução de peixes exóticos e lançamento de esgotos nas suas águas. Estes problemas
alteram de maneira significativa o ambiente aquático e podem afetar a saúde de todos
os organismos que vivem ou utilizam este ambiente. Entres estes organismos, os peixes,
são diretamente afetados e tornam-se excelentes bioindicadores da qualidade da água,
devido a sensibilidade aos poluentes, mesmo que em baixas concentrações. Deste modo,
quatro espécies de peixes (pacu, piau, pirambeba e tucunaré) coletadas durante a VI
Expedição do Baixo Rio São Francisco, nos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu,
São Brás, Propriá (SE), Penedo e Piaçabuçu, foram utilizados para identificar e quantificar
as anormalidades nucleares eritrocitárias (ANE´s). A identificação das ANEs foi feita por
meio do teste do micronúcleo, onde foram preparados esfregaços sanguíneos (3 lâminas
por indivíduo) e contabilizados 1500 eritrócitos por lâmina (4500 por indivíduo). As
cidades de Propriá (0,736%) e São Brás (0,667%) apresentaram as maiores frequências
de ANEs, enquanto as espécies com maiores anormalidades foram o pacu (Metynnis
maculatus) seguida do piau-branco (Schizodon knerii). É de extrema importância tratar
os esgotos que são despejados no São Francisco, bem como impedir que diferentes
compostos usados nas lavouras atinjam suas águas.
Palavras-chave: Anormalidades nucleares. Biomarcador. Danos genéticos. Micronúcleo.
1
Graduando em Agroecologia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de
Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
2
Graduanda em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
3
Mestre em Meteorologia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
4
Professor, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
5
Professora, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
78
INTRODUÇÃO
Entre os organismos aquáticos, os peixes são considerados eficientes bioindicadores
da qualidade do ambiente por possuírem grande diversidade ecológica, que implica em
apresentarem diferentes estilos de vida e habitat durante seu ciclo de vida (RIBEIRO e
AMÉRICO-PINHEIRO, 2018).
Uma técnica utilizada para identificar a presença de xenobióticos e seus efeitos
nos organismos é o teste do micronúcleo (MN), uma técnica rápida, confiável e de baixo
custo. Este teste permite a identificação de mutações em células expostas a grandes
quantidades de agentes genotóxicos. De acordo com Obiakor et al. (2012), micronúcleo
é um biomarcador do tipo genético e, origina-se como resultado de aberrações
cromossômicas, que podem ser irreversíveis e herdados pelas progênies, sendo capaz
de ocasionar diminuição na taxa reprodutiva dos animais, levando a uma diminuição
da diversidade de espécies no ecossistema afetado. A ação nociva causadas pelos
estressores ambientais sobre essas espécies é revelada por esses biomarcadores, que
podem estimar a magnitude dos danos (LIONETTO et al., 2021), muito importante para a
avaliação dos impactos ambientais em uma zona ecologicamente afetada, a exemplo da
região do Baixo São Francisco
O micronúcleo (MN) é classificado como corpos de cromatina não refrativos,
circulares ou ovoides, menores do que um terço do núcleo principal e apresentando
o mesmo padrão de coloração e de focalização como o núcleo principal, (AL-SABTI;
METCALFE, 1995). Carrasco et al. (1990), classificaram outras anormalidades nucleares
eritrocitárias (ANEs) além do micronúcleo, como: binucleada, blebbed, lobed e notched.
Os peixes são bastante utilizados como bioindicadores, além de preferidos para
testar possíveis efeitos genotóxicos (dano ao material genético) de agentes físicos e
químicos, pois são expostos diretamente a diversas substâncias, através da água, ou
indiretamente, através da cadeia alimentar (ARSLAN et al. 2015).
Portanto, este teve como objetivo verificar possíveis efeitos genotóxicos em peixes
coletados em municípios do Baixo São Francisco durante a VI Expedição, devido seu
grande valor econômico, social e ambiental às comunidades ribeirinhas.
METODOLOGIA
CAPTURA DOS ANIMAIS
As coletas ocorreram durante a VI Expedição Científica do Baixo São Francisco no
período de 21 a 30 de novembro de 2023, com início no município de Piranhas, seguiuse por Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Propriá (SE), Penedo finalizando o percurso em
Piaçabuçu.
A captura dos peixes ocorreu pela manhã, em todos os municípios visitados por
meio de redes de pesca (MMA/ICMBio nº 75591). Ao chegar na embarcação, os animais
passaram por biometria e logo em seguida foi realizada a coleta do sangue através de
punção na região branquial.
TESTE DO MICRONÚCLEO E ANORMALIDADES NUCLEARES ERITROCITÁRIAS (ANES)
A partir dos esfregaços sanguíneos foi avaliada a genotoxicidade (dano ao DNA) por
meio do teste do micronúcleo, onde foram visualizados e quantificados os micronúcleos e
as demais anormalidades eritrocitárias (célula com núcleo blebbed, núcleo com anomalia
lobbed, alteração nuclear do tipo notched e célula binucleada) (Figura 01).
Os esfregaços foram preparados em lâminas de microscópio utilizando 10 µL
da solução de sangue/heparina por lâmina. Após o esfregaço, as lâminas secaram em
temperatura ambiente, foram fixadas em metanol absoluto durante 1 hora e coradas com
79
Giemsa 10% durante 30 minutos. Preparou-se três lâminas por indivíduo e as anormalidades
foram contadas e identificadas conforme descrito por Carrasco et al. (1990).
A análise microscópica ocorreu no Laboratório de Aquicultura e Análises de água
(LAQUA/CECA/UFAL), com a contagem de 1500 eritrócitos periféricos por lâmina,
totalizando 4500 eritrócitos por indivíduo, com o auxílio do microscópio óptico (Nikon
Corporation, modelo 550S, objetiva 1000X). Também foram feitos registros fotográficos
das anormalidades mais frequentes. O cálculo das frequências de todas as anormalidades
observadas foi realizado conforme Nwani et al. (2011).
Figura 1: Ilustração de diferentes anormalidades nucleares eritrocitárias (ANEs).
Fonte: Emilly Valentim, baseado em Carrasco et al. (1990).
RESULTADOS
ESPÉCIES
As espécies coletadas para a avaliação da genotoxicidade foram: pacu (Metynnis
maculatus), piau branco (Schizodon knerii), pirambeba (Serrasalmus brandtii) e tucunaré
(Cichla monoculus) (Figura 02 e 03).
Figura 2: Biometria da espécie Cichla monoculus (tucunaré) coletado na VI Expedição
Científica do Baixo São Francisco.
80
Fonte: Autores, 2023.
Figura 3: Serrasalmus brandtii (pirambeba) coletada durante a VI Expedição do Baixo
São Francisco.
Fonte: Autores, 2023.
81
ANORMALIDADES NUCLEARES ERITROCITÁRIAS NOS MUNICÍPIOS DO BAIXO SÃO
FRANCISO
As cidades que apresentaram as maiores frequências de ANEs foram Propriá-SE
(0,736%) e São Brás-AL (0,667%) (Tabela 01). Estes municípios também apresentaram
as maiores frequências de algumas anormalidades quando analisadas cada uma delas
separadamente, como micronúcleo (MN) e blebbed em Propriá e lobbed e notched em
São Brás (Figura 04).
Tabela 1: Frequência (%) de anormalidades nucleares eritrocitárias (ANEs) nos
municípios do Baixo São Francisco (2023).
Fonte: Autores, 2024.
Figura 4: Gráfico das frequências (%) das anormalidades individuais e ANEs totais do
ano 2023 nas diferentes cidades.
Fonte: Autores, 2024.
MN: eritrócito com micronúcleo; BLE.: eritrócito com núcleo blebbed ; LOB.: núcleo com
anomalia lobbed; NOT.: alteração nuclear do tipo notched; BIN.: célula binucleada; ANEs:
Anormalidades Nucleares Eritrocitárias totais (somatório de todas as anormalidades
analisadas).
82
Quando avaliadas as espécies, diferente dos anos anteriores, em 2023 as espécies
pacu (0,518%) e piau-branco (0,472%) se destacaram por apresentarem as maiores
frequências de ANEs. O pacu também apresentou as maiores frequências de micronúcleo
e blebbed quando verificadas de forma separada (Figura 05).
Figura 5: Anormalidades visualizadas em eritrócitos do pacu (Metynnis maculatus). A
-blebbed (setas). B - micronúcleo (seta).
Fonte: Autores, 2024.
Vários estudos já provaram a associação das altas frequências de ANEs e de MNs
com águas poluídas, seja com esgotos (doméstico e/ou industrial) ou com resíduos
(herbicidas, inseticidas, fungicidas etc.) da agricultura praticada nas margens dos corpos
hídricos (OLIVEIRA et al., 2022; CASTRO et al., 2018; DEL- GUERCIO et al., 2017; SILVA;
NEPOMUCENO, 2010 KIRSCHBAUM et al., 2009; AMADO et al., 2006).
Quanto as espécies que apresentaram as maiores frequências de ANEs (pacu e
piau-branco), mesmo não sendo carnívoras e não estando no topo da cadeia alimentar,
parecem estar bioacumulando compostos tóxicos vindo dos diversos itens alimentares
que consomem, visto que ambas, pacu e piau-banco, são onívoras.
Além do hábito alimentar das espécies analisadas, a presença de anormalidades
nucleares pode ser explicada pelo estresse oxidativo induzido por poluentes dispersos no
ambiente que pode modificar a permeabilidade e seletividade das membranas, tornando
o núcleo mais sensível a deformações e alterações (SERIANE et al., 2011; THOMÉ et al.,
2016).
A comparação das frequências das ANEs nos seis anos de coletas realizadas
durantes as expedições (2018 a 2023) também mostra que as vazões praticadas no Rio
São Francisco pelas hidrelétricas, pode aumentar os danos ao material genético das
células; que ficou evidente com as maiores frequências das ANEs em anos com menores
vazões (2018 e 2021), pois a menor quantidade de água deixa as espécies em contato
com uma maior concentração dos contaminantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É de extrema importância evitar, ou minimizar, a presença de contaminantes vindo
das cidades e/ou dos cultivos próximos as margens do Rio São Francisco, pois estes tem
colocado em risco a sobrevivência e consequentemente a perpetuação das espécies
aquáticas neste tão importante habitat e também a sobrevivência das comunidades
ribeirinhas que precisam deste recurso alimentar. Além de atentar para o nível das vazões
praticado pelas hidrelétricas presentes ao longo de todo o Rio São Franciso, que afetam
vários aspectos da vida das espécies aquáticas desde reprodução e alimentação, até o
aumento das anormalidades nucleares.
83
AGRADECIMENTOS
Ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), à Companhia de
Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF), ao Ministério
da Pesca e Aquicultura (MPA) e ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCIT).
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85
6. AVALIAÇÃO DE BIOMARCADORES ANTIOXIDANTES
ENZIMÁTICOS E HISTOPATOLÓGICOS NOS PEIXES COLETADOS
DURANTE A VI EXPEDIÇÃO NO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Biologia oxidativa e histopatologia.
Maraísa Bezerra de Jesus Feitosa1
Rafaela Ellen Rocha da Silva1
Maryana Vitória da Paz1
Lívia Almeida de Souza1
Virgínia Fonseca Pedrosa1
Emerson Carlos Soares1
RESUMO
A utilização de animais no monitoramento ambiental, com auxílio de técnicas
como os biomarcadores enzimáticos, permite inferir acerca da alteração metabólica dos
indivíduos sob influência de contaminantes. Estas alterações podem ser tanto no nível
celular, bioquímico, como no molecular ou fisiológico, e podem ser medidos em células,
fluidos corporais, tecidos e órgãos, bem como indicar a presença e/ou efeitos de um
xenobiótico. Como as brânquias de peixes constituem uma rota direta de exposição aos
contaminantes ambientais da água e o fígado, por ser um órgão de importância ímpar na
detoxificação, estes órgãos geralmente têm sido utilizados como alvo de atividade desta
enzima, mas neste trabalho, além destes, também se investigou atividade enzimática em
músculo de peixes coletados em sete cidades do Baixo São Francisco, Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, São Brás, Propriá, Penedo e Piaçabuçu durante a VI expedição Científica.
Foi avaliada a atividade das enzimas antioxidantes superóxido dismutase e glutationa
S-transferase, normalizados pela dosagem de proteína. Em cada cidade, os animais
foram coletados através de redes de espera posicionadas durante a madrugada. Os
animais foram identificados, mensurados e eutanasiados. Aproximadamente 150mg de
brânquias, fígado e músculo foram retirados e imersos em nitrogênio. Em laboratório, os
tecidos foram descongelados sob gelo, homogeneizados em tampão PBS (10:1), pH 7.4,
e o sobrenadante foi utilizado para as análises. Para análise histopatológica, as amostras
teciduais de fígado foram fixadas em solução de formol a 10% por 24 horas, e transferidas
para álcool a 70% e, posteriormente emblocadas em historesina, cortadas em micrótomo
e a lâminas então foram coradas com hematoxilina e eosina. O fígado, por ser o órgão mais
associado ao processo de desintoxicação e biotransformação, representa um dos órgãos
mais afetados pelos contaminantes da água. Dessa forma, as alterações enzimáticas e
teciduais observadas no fígado podem fornecer informações sobre o estado de saúde
do animal, frente a ação de xenobióticos e poluição antrópica nas células que compõem
o órgão.
Palavras-chave: Estresse oxidativo, histopatologia, efluentes, pirambeba, tucunaré,
necrose
1
1 Laboratório de Aquicultura e Ecologia Aquática/ Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas – LAQUA/CECA/UFAL, Alagoas, Brasil.
86
INTRODUÇÃO
O monitoramento utilizado pela equipe expedicionária ao longo dos anos, reflete
os valores de ESG (do inglês, meio ambiente social e governança), por incluir questões
ambientais, questões sociais e governança que podem ser considerados no investimento,
principalmente para a população ribeirinha. Associado ao ESG, durante a expedição
também foram promovidos alguns dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
- ODS - da ONU pois entre as atividades a equipe promoveu boa saúde e bem estar,
educação de qualidade, igualdade de gênero, água limpa e saneamento, entre outras.
Aqui neste capítulo, nosso estudo visou gerar subsídios para as prefeituras e gestores
para a proteção da vida debaixo d’água pois, as águas interiores têm potencialmente
um alto risco para receber efluentes de origem antrópicas, como o escoamento urbano
e efluentes de estações de tratamento de esgoto, que eventualmente podem causar
efeitos adversos na biota (MONTAGNER, VIDAL, et al., 2017).
Com isso, vem se destacado nos últimos anos, a potencial utilidade de biomarcadores
de monitoramento para ambos, qualidade ambiental e saúde de organismos que habitam
estes ecossistemas (ABDEL-MONEIM, ABU EL-SAAD, et al., 2012). Muitos destes poluentes
são capazes de induzir o estresse oxidativo. As enzimas antioxidantes estão na linha de
frente de defesa e são cruciais no esforço de neutralizar o estresse oxidativo causado
por substâncias tóxicas, uma vez que esteja esgotado o suprimento de outros agentes
antioxidantes, como por exemplo, as vitaminas (SAGLAM, ATLI, et al., 2014).
Para o controle das ROS em estado estacionário, existem cinco vias principais:
a dismutação do ânion superóxido em peróxido de hidrogênio pela SOD; a seguinte
decomposição deste peróxido em oxigênio e água pela catalase (CAT); o ciclo redox da
glutationa, onde o peróxido de hidrogênio e outros peróxidos são decompostos pela
glutationa peroxidase, usando a glutationa como doador de elétrons; e ainda pelo ciclo
redox tiorredoxina onde a tiorredoxina reduzida é utilizada como doador de elétrons. Por
fim, a última via, por desintoxicação xenobiótica através da GST (ZHANG, WANG, et al.,
2019).
Além deste biomarcador, investigações histopatológicas tem se mostrado
promissoras, principalmente utilizando as brânquias e fígado, por meio da identificação
de lesões teciduais que surgem como resultado de uma exposição anterior ou atual
do organismo a uma ou mais toxinas. Tais lesões refletem o efeito de vários poluentes
antropogênicos, sendo um reflexo da saúde geral de toda a população do ecossistema,
podendo detectar efeitos nocivos agudos e crônicos da exposição nos tecidos e órgãos
(REDDY, 2012).
Considerando que os peixes desempenham um papel ecológico importante nas
cadeias alimentares, uma vez que transferem energia dos níveis tróficos basais inferiores
para os níveis superiores, optamos por estudar os efeitos dos parâmetros abióticos e
antrópicos, como os efluentes, em espécies herbívoras e piscívoras. Por isso, o propósito
deste estudo foi avaliar biomarcadores enzimáticos antioxidantes e histopatológico nas
espécies selecionadas, a saber, piau branco (Schizodon knerii), pacu (Metynnis maculatus),
pirambeba (Serrasalmus brandtti) e a invasora tucunaré (Cichla monoculus), além destes
também foram coletados mais duas espécimes de piau, o preto (Leporinus piau) e o três
pintas (Leporinus freiderici)
METODOLOGIA
CAPTURA DOS ANIMAIS
As coletas ocorreram durante a VI Expedição Científica do Baixo São Francisco, no
período de 20 a 30 de novembro de 2023, respectivamente nos municípios de Piranhas,
87
Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Propriá, Penedo e Piaçabuçu. As espécies alvo foram
pirambeba, tucunaré, pacu e piau.
A captura dos peixes ocorria pela manhã, e foi repetida durante os sete dias de
expedição em cada município visitado. Ao chegar na embarcação-laboratório os animais
eram identificados (sexo e espécie), pesados, mensurados e era realizada a coleta de
sangue. Em seguida os peixes foram sacrificados para a retirada de fragmentos de
fígado, músculo e brânquias. Os tecidos foram identificados e armazenados de diferentes
formas, as amostras enzimáticas foram imersas em nitrogênio líquido para congelamento
rápido e armazenados em freezer até o processamento em laboratório. Já, as amostras
histológicas foram imersas em formol até o processamento e posterior análise, ambas
realizadas no laboratório (Laboratório Aquicultura e Análise de Águas (LAQUA) do
Centro de Ciências agrárias (CECA-UFAL).
MARCADORES DE ESTRESSE OXIDATIVO
PREPARO DAS AMOSTRAS
No LAQUA, os fragmentos de fígado, músculo e brânquias foram descongelados
a -4 ºC, pesados e homogeneizados (10:1) em tampão fosfato de potássio salino (PBS,
pH 7.4). A mistura foi centrifugada por 10 minutos a 4ºC, com velocidade de 12.000
rpm. O sobrenadante resultante foi utilizado para as análises da atividade das enzimas
superóxido dismutase (SOD) e glutationa S-transferase (GST), normalizados pelo teste
de Bradford.
ENZIMAS ANTIOXIDANTES
A atividade da SOD foi investigada nos tecidos através da técnica utilizada por
Dieterich et al., (2000), com pequenas modificações, onde ocorre uma mensuração
indireta utilizando a auto oxidação do pirogalol (λ= 570nm). Os resultados foram expressos
em U SOD mg proteína- 1. (DIETERICH, BIELIGK, et al., 2000)
A atividade da enzima GST foi mensurada segundo Habig et al., (1974), onde a formação
do conjugado glutationa-2,4-dinitrobenzeno (CDNB) causa um aumento da absorbância
(λ= 340 nm). O coeficiente de extinção molar utilizado para os cálculos do CDNB foi
ɛ340 = 9,6 mM cm-1.
DETERMINAÇÃO DA CONCENTRAÇÃO DE PROTEÍNA
A concentração de proteína foi avaliada utilizando um método espectrofotométrico
a 595 nm (Bradford et al., 1976), com corante de Coomassie brilliant blue - G250. A
quantidade de proteína em cada amostra foi estimada por meio da curva de calibração
baseada em diferentes concentrações de albumina bovina, que foi utilizada como padrão.
BIOMARCADORES HISTOPATOLÓGICOS
PROCESSAMENTO HISTOLÓGICO
Após a retirada dos órgãos, os mesmos foram acondicionados em tubos de
5mL contendo formol a 10%, após 24 horas, a solução foi trocada por álcool 70%, para
manutenção da fixação até o processamento no LAQUA, onde os estudos histológicos
foram desenvolvidos.
Posteriormente realizou-se a desidratação em série alcoólica crescente a 80 e
90% (10 minutos cada) e três banhos em álcool etílico a 99% (10 minutos cada). As
amostras em seguida foram infiltradas, à temperatura ambiente, inicialmente em banho
88
contendo mistura de historesina e álcool (1:1) por duas horas e, a posteriori, imersas
em historesina pura por 24h. Para a inclusão tecidual em historesina foram utilizados
moldes de polietileno (histomold). O material foi mantido em temperatura ambiente,
no dessecador, até a polimerização completa dos blocos. Em seguida, as amostras de
ambos os órgãos foram seccionadas em cortes de 5 μm de espessura e coradas com
Hematoxilina de Harris e Eosina aquosa.
ANÁLISE ATRAVÉS DOS INDICADORES HISTOPATOLÓGICOS
As alterações identificadas no fígado foram avaliadas semi-quantitativamente
de acordo com o protocolo adaptado descrito por Bernet et al. (1999). O Índice
Histopatológico do Fígado (IHF) foi calculado para cada peixe, multiplicando o fator de
importância pelo valor de ocorrência de cada alteração. O fator de importância tem como
premissa os níveis de lesões do tecido: (1) mínima - alteração facilmente reversível; (2)
moderada - reversível se o fator de stress for neutralizado; e (3) grave - frequentemente
irreversível, levando assim a uma diminuição da função hepática. E o valor de ocorrência,
corresponde ao nível e extensão das alterações do tecido, sendo estes: (0) inalterado;
(2) ocasional; (4) moderado e (6) grave (lesão difusa). As alterações pela metodologia
supracitada são divididas em quatro categorias: (1) perturbações circulatórias (condição
patológica do fluxo de sangue e tecido), incluindo hemorragia e aneurisma; (2) alterações
regressivas (causa redução ou perda ou a função dos órgãos) que envolvem alteração
do citoplasma, esteatose hepática, necrose, e degeneração vacuolar; (3) alterações
progressivas (aumento da atividade das células ou tecidos) representadas por hipertrofia
e hiperplasia no parênquima hepático; e, (4) inflamação (consequência de outros padrões
de reação), tais como infiltração e parasitas.
Os resultados que serão obtidos a partir do IHF é a representação quantitativa
levando em consideração o nível e a intensidade das lesões encontradas. Com base nisso,
o método recomenda a utilização da frequência das alterações histológicas, calculada a
partir da ocorrência de uma alteração dividida pelo IHF total da amostra multiplicado por
100, em todos os peixes e para cada local. (BERNET, SCHMIDT, et al., 1999, ZIMMERLI,
BERNET, et al., 2007)
O Índice de Saúde dos Peixes (ISP) (Zimmerli et al., 2007) foi utilizado para
classificar a gravidade das lesões hepáticas e, se tem como referência, o produto
gerado pelo IHF. Este índice está dividido em cinco classes, como se segue: Classe I
(<10), estrutura do tecido normal/saudável sem deficiências ou alterações patológicas;
Classe II (11-20), estrutura do tecido normal com ligeiras alterações histológicas; Classe
III (21-30), modificações moderadas do tecido normal e morfologia; Classe IV (31-40),
alterações histológicas acentuadas; e Classe V (>40), alterações histológicas graves do
tecido normal e morfologia. SCHMIDT, et al., 1999, POLEKSIC, MITROVIC-TUTUNDZIC,
1994, ZIMMERLI, BERNET, et al., 2007)
ANÁLISE ESTATÍSTICA
Para avaliar os dados genotóxicos foi realizada uma análise de variância e teste
de Tukey a 95% de confiança. Os dados enzimáticos foram mostrados como média ±
desvio padrão da média (SD). Inicialmente utilizou-se o teste de normalidade de ShapiroWilk, para atestar a normalidade dos dados e, como não houve impedimento para a
aplicação de testes paramétricos, foram analisados através do teste ANOVA de uma via
com pós teste de Tukey, quando apropriado. Para tratamento estatístico, foi utilizado o
software Prism 5.1 (GraphPad, Califórnia, Estados Unidos). Para efeito estatístico, foram
considerados significativos os valores que apresentavam P< 0,05.
89
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Em 2023, foram coletados 113 animais (Tabela 1 e 2). Foram retirados fígado,
brânquias e músculo para análises enzimáticas e brânquias e fígado para análises
histológicas (CEUA/UFAL - 14/2023). Desde 2021, foi selecionado 4 espécies alvo, o
pacu (Metynnis maculatus), piau - branco (Schizodon knerii), pirambeba (Serrassalmus
brandtti) e tucunaré (Cichla monoculus). Porém este ano, foi coletado mais duas espécies
de piau, o preto (Leporinus piau) e o três pintas (Leporinus freiderici) provavelmente,
frutos dos peixamentos promovido pela CODEVASF nos últimos anos.
Figura 1: Detalhes dos cortes de tecido e armazenamento
Fonte: Autores, 2023.
Nas tabelas abaixo pode-se identificar um resumo dos animais encontrados da
VI expedição. Destaca-se as diferentes espécies de piau coletadas, mostrando o efeito
benéfico do peixamento realizado no ano anterior promovido pela CODEVASF. Em 2023,
houve um menor número de pacu e tucunaré coletados, além do aumento de pirambeba.
Também merece destaque a quantidade de fêmeas ovadas de pirambeba, em 2022 o
maior quantitativo de fêmeas ovadas foi encontrado em pacu, talvez esta diferença seja
pelo fato de em 2023 a expedição ter acontecido entre os dias 22 e 30 de novembro,
enquanto que em 2022 aconteceu entre 04 e 11 de novembro.
Tabela 1: Valores globais das espécies coletadas em 2023
Fonte: Autores, 2024.
90
Tabela 2: Espécies capturadas durante a VI Expedição Científica do Baixo São Francisco.
91
92
93
Fonte: Autores, 2024.
Figura 2: Espécies de peixes coletadas na expedição.
Fonte: Autores, 2024.
BIOMARCADORES DE ESTRESSE OXIDATIVO
Os biomarcadores bioquímicos mais intensamente estudados são as enzimas
envolvidas no processo de detoxificação de xenobióticos e seus metabólitos (KAUR,
JINDAL, 2017). Além destas, estão as que atuam remediando as espécies reativas de
oxigênio (ROS) geradas pelo metabolismo aeróbico e que não são adequadamente
neutralizadas pelos sistemas antioxidantes endógenos (SHI, XIONG, et al., 2022).
Portanto, parâmetros enzimáticos e antioxidantes, além dos índices de estresse oxidativo
são considerados potenciais biomarcadores e são frequentemente utilizados como
ferramentas de triagem para avaliar os impactos do estresse ambiental (FAHEEM,
PARVEZ LONE, et al., 2018)
Para avaliar os parâmetros bioquímicos em peixes, é necessária mensurar a
qualidade da água e, em comparação ao ano de 2022, 2023 apresentou valores médios
de OD, pH, salinidade, TDS, turbidez, condutividade e ORP menores, com ligeiro aumento
de temperatura na água. Outros marcadores abióticos também foram mensurados e
pode ser visto detalhadamente no capítulo sobre a qualidade da água. Mas como os
biomarcadores refletem esta qualidade, neste texto, vale destacar que em 2023, os
valores de amônia foram maiores do que o ano anterior, com exceção da cidade de Traipu,
Igreja Nova e Piaçabuçu. Os valores de nitrito foram menores do que o ano anterior, com
exceção da cidade de Piranhas. Em 2023, os valores de potássio foram menores do que o
ano anterior. Os valores de sulfato foram maiores, com exceção de Piranhas, que em 2022
apresentou alto índice deste marcador. O nitrato apresentou pouca variação assim como
o ferro. Vale destacar o aumento de concentração de cobre de Piranhas até a cidade de
São Brás, do zinco nas cidades de Pão de Açúcar e Traipu e do Fósforo em Pão de açúcar.
Todos estes parâmetros, podem modular a resposta de enzimas antioxidantes e,
como pode ser visto na figura 5, os valores de SOD em brânquias, fígado e músculo
no ano de 2023. Quando comparado ao ano de 2022, pode-se observar um aumento
94
significativo da atividade desta enzima em todos os tecidos investigados.
Quando avaliamos a espécie por cidade de coleta, pode-se observar que não
houve diferença significativa, com exceção da atividade da SOD em fígado e músculo
dos tucunarés coletados na cidade de Penedo, que foi maior.
Pode-se observar também que a atividade da GST em brânquias tente a diminuir
no sentido à foz, enquanto que a GST em fígado tende a aumentar. O que precisa ser
melhor investigado.
Figura 3: Atividade das enzimas antioxidantes da superóxido dismutase (SOD) e
glutationa S-transferase (GST) em brânquias, fígado e músculo.
Fonte: Autores, 2023.
Avaliação da atividade da enzima antioxidante da superóxido dismutase (SOD) e
da glutationa S-transferase (GST) em brânquias, fígado e músculo de piau (barra branca),
pacu (barra verde), pirambeba (barra laranja) e tucunaré (barra azul), coletados durante
a VI Expedição Científica do Baixo São Francisco. A atividade de SOD nos tecidos foi
expressa em unidade de SOD por miligramas de proteína. A atividade da glutationa S
-transferase foi expressa pela taxa de aumento da absorbância da formação do conjugado
GS-DNB, em µmol por minuto por miligramas de proteína. Os dados estão plotados em
média ± desvio padrão. Os resultados foram analisados por ANOVA de uma via seguido
do pós-teste de Tukey.
BIOMARCADORES HISTOPATOLÓGICOS
Na análise histopatológica foi analisado o fígado de 90 animais. Todos as amostras
analisadas apresentaram algum tipo de lesão, variando de leve a grave a intensidade,
sendo identificadas dez alterações histopatológicas (Tabela 3).
A utilização do fígado como um importante biomarcador de contaminação
da água já vem sendo amplamente estudada, por desempenhar funções essenciais
do corpo, incluindo a regulação do metabolismo, a síntese de proteínas plasmáticas,
o armazenamento de energia de certas vitaminas e minerais e a desintoxicação de
xenobióticos. Dentre outros órgãos preconizados na análise histopatológica, o fígado
representa um órgão-alvo devido ao grande suprimento sanguíneo, contribuindo na
exposição e acúmulo de substâncias tóxicas e distúrbios metabólicos (Au, 2004).
95
O Índice de Alteração Histopatológica do Fígado (IHF) apresentou valores absolutos
entre 5,33 e 58,60, sendo o maior índice observado na cidade de São Brás no Piau 3
pintas. Com relação a severidade das lesões, pode-se observar na figura 4 uma maior
severidade de lesões encontradas nessa cidade. Com base nos valores do IHF, podemos
classificar o estado de saúde dos peixes por meio das alterações histopatológicas listadas
na Tabela 3, segundo Zimmerli et al. (2007).
Tabela 3: Classificação das alterações histopatológicas nas brânquias e do fígado em
relação ao tipo, localização e estágio das lesões, em que ocorrem. Modificado de Poleksić
e Mitrovic - Tutundzic (1994) para brânquias (estágio) e Bernet et al. (1999) para fígado
(fator de importância).
Fonte: Autores, 2024.
Através do gráfico do Índice de Alteração Histopatológica do Fígado (IHF),
podemos observar a Classe III, em que são identificadas as modificações moderadas no
tecido normal. Nessa classe encontramos a grande maioria das amostras analisadas, onde
podemos observar na pirambeba (Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Propriá e
Piaçabuçu), tucunaré (Pão de Açúcar, Propriá e Piaçabuçu), pacu (Propriá), piau preto
(Traipu), piau três pintas (Propriá), piau branco (São Brás). Na Classe IV (31>IHF<40), os
peixes começam a apresentar alterações mais acentuadas, e dentro dessa classe, uma
única espécie foi acometida, que foi o Piau branco (Propriá).
O piau três pintas (São Brás) foi a única espécie que apresentou alterações
histológicas graves, podendo interferir na funcionalidade do órgão de maneira irreversível,
estando enquadrada dentro da classe V (IHF>40). Com o resultado obtido, é possível que
as espécies piau branco e piau três pintas representem às mais suscetíveis aos impactos
antrópicos localizadas nos municípios onde se realizaram as coletas.
Figura 4: Índice Histopatológico do Fígado
96
Gráfico ilustrativo do índice histopatológico em fígado- IHF. Dados estão demonstrados em
média ± desvio padrão da média. As espécies estão agrupadas por município durante a VI
expedição científica do Baixo São Francisco.
Fonte: Autores, 2023.
Como destacado anteriormente, foi detectado um aumento de concentração de
cobre de Piranhas até a cidade de São Brás, do Zinco nas cidades de Pão de Açúcar e
Traipu e do Fósforo em Pão de açúcar. Níveis elevados de cobre são bem relatados na
literatura como potencializadores de alterações histopatológicas no fígado (ZHANG et
al., 2022), principalmente quando associados a um baixo nível de oxigênio dissolvido
na água. Dentre as lesões mais frequentes, podemos citar muitas das lesões que foram
identificadas nos animais analisados.
A frequência da ocorrência das lesões histopatológicas (Figura 5) pode nos
fornecer dados importantes sobre os tipos de lesões encontradas, uma vez que o índice
pode não se apresentar alto em determinadas amostras, mas a ocorrência de lesões
mais graves pode gerar um comprometimento maior do órgão nesses animais, como é o
exemplo da alta ocorrência de necrose (BERNET et al.,1999). O mecanismo de ação de
vários xenobióticos pode causar alterações no metabolismo, levando ainda à intoxicação
e morte celular, que a nível celular se manifesta como necrose, ou seja, tal lesão pode ser
considerada um biomarcador histopatológico a nível tecidual (VELKOVA, 2002). Entre as
amostras analisadas, ainda que com o IHF baixo, algumas espécies apresentaram necrose,
como o caso do pacu (Piranhas, Pão de Açúcar e Penedo), a pirambeba (Piranhas, Pão
de Açúcar, Traipú, São Brás, Propriá e Penedo), o tucunaré (Pão de Açúcar e Propriá),
piau preto (Piranhas), e para as duas espécies que se enquadraram no IHF na classe IV e
V (piau branco e piau três pintas, respectivamente, a presença de necrose foi observada
nos municípios de São Brás (piau branco), e Piranhas e Propriá (piau três pintas), onde
seus índices estavam IHF<31.
As lesões que apresentaram uma maior frequência nas amostras analisadas foram
infiltração e congestão. Tais lesões já foram reportadas em estudo histopatológico de
fígado de tilápia (Oreochromis niloticus) em ambientes poluídos (ABDEL-MONEIM et al.,
2012), onde encontraram alterações sob a forma de hiperemia, um distúrbio da circulação
sanguínea caracterizado por congestão, algumas áreas hepáticas com necrose focal e
infiltração grave de leucócitos.
A vacuolização citoplasmática também é bem apontada nos estudos de
biomarcadores histopatológico no fígado. A lesão foi observada em todas as espécies
97
analisadas: pirambeba (em todos os municípios), pacu (Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu,
Propriá e Penedo), tucunaré (São Brás), piau preto (Piranhas e Traipu), piau três pintas
(Propriá e Penedo) e piau branco (Propriá). Em uma pesquisa em águas com água
aumento na condutividade elétrica, alcalinidade total, nitratos, fósforo, cloreto e potássio,
foi associada a tais características, a poluição com resíduos orgânicos e deterioração
do oxigênio dissolvido (FATHI & AL-KAHTANI, 2009). Na ocasião, a vacuolização dos
hepatócitos foi a mais comum das patologias hepáticas. Neste tipo de distúrbio, vários
vacúolos aparecem no citoplasma celular, e posteriormente se fundem para formar
um grande vacúolo. O citoplasma e o núcleo são forçados para a periferia da célula. A
vacuolização dos hepatócitos pode indicar um desequilíbrio entre a taxa de síntese de
substâncias nas células parenquimatosas e a taxa de sua liberação no sistema circulatório
(REDDY, 2012).
Os Centros Melanomacrófagos (CMM) foram observados em todos os municípios,
enquanto que a presença de granulomas só foi observada em Traipu (em pirambeba),
sendo tais lesões consideradas respostas inflamatórias e/ou mecanismo de defesa dos
animais mediante agentes poluidores presentes na região, com extensão e severidade
variando conforme o comportamento individual de cada organismo (BERNET et al.,
1999) A presença de centros melanomacrófagos no fígado de peixes são indicadores de
condições ambientais, assim como estão envolvidos na biotransformação xenobiótica
(VIANA et al., 2021).
Alterações no ducto biliar estiverem presentes nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, São Brás e Propriá, e a esteatose hepática foi observada em todos os municípios,
porém em uma frequência maior em pirambeba.
Figura 5: Frequência de ocorrência das espécies analisadas por município amostrado na
VI expedição científica do Baixo São Francisco.
98
Fonte: Autores, 2024.
Gráficos ilustrativos sobre a frequência de ocorrência em (A) porcentagens encontradas
em Pacu; (B) porcentagens encontradas em Piau três pintas; (C) porcentagens encontradas
em Piau branco; (D) porcentagens encontradas em Piau preto; (E) porcentagens
encontradas em Pirambeba; (F) porcentagens encontradas em Tucunaré. A ocorrência
de cada lesão está sinalizada através da cor correspondente que se encontra abaixo de
cada gráfico.
CONCLUSÃO
A utilização de biomarcadores, quer sejam histopatológico e/ou antioxidantes,
permitiram uma avaliação mais complexa sobre os impactos os quais as espécies estudadas
estão submetidas nos municípios margeados no baixo São Francisco. Mediante às inúmeras
fontes de contaminação disponíveis nas áreas de estudo, foi possível identificar os efeitos
nos organismos, através das respostas fisiológicas mensuradas pelos marcadores. A SOD
apresentou valores similares em todos os pontos das diversas espécies, com exceção do
tucunaré na cidade de penedo. A GST em brânquias apresentou forma sinusoidal e em
fígado uma tendencia de aumento no sentido da foz, o que será melhor investigado.
De acordo com os dados obtidos com a análise histopatológica, pode ser observada
uma frequência de lesões mais graves nas regiões que englobam de Piranhas à Propriá,
com índices histopatológicos do fígado maiores no piau branco e piau três pintas,
porém a presença de necrose em outras espécies merece atenção, com destaque para a
pirambeba, pacu e tucunaré, que apresentaram os maiores graus de necrose. Tendo em
vista que as alterações histopatológicas identificadas no fígado não correspondem a uma
fonte específica, além dos índices encontrados nas enzimas antioxidantes é necessário
levar em consideração os níveis de metais traço, bem como a descarga antrópica de
agentes poluentes, aliados aos baixos níveis de oxigênio dissolvido, que torna perigosa a
presença de tais compostos para os peixes no ambiente aquático.
REFERÊNCIAS
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101
7. INVESTIGAÇÃO DE SALMONELLA SPP E BOLORES EM PESCADOS
COMERCIALIZADOS EM FEIRAS LIVRES DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Microbiologia do pescado.
Juliett de Fátima Xavier da Silva1
Ana Paula de Almeida Portela da Silva1
Abraão José da Silva Júnior2
Renata Correia Barros3
Hyago Magno Ramos4
Hygor Maycon Ramos4
INTRODUÇÃO
O presente estudo teve como objetivo verificar a ocorrência de Salmonella spp e
bolores em pescados comercializados em feiras livres e/ou mercados públicos de oito
Municípios do Baixo São Francisco. Foram coletadas amostras de tilápia (Oreochromis
niloticus), camarão marinho fresco (Litopenaeus vannamei, Litopenaeus schmitti) e
Xiphopenaeus kroyeri salgado e cozido, e transportados em sacos plásticos estéreis,
acondicionados em caixa isotérmica com gelo, para processamento no Laboratório
de Tecnologia do Pescado (LATEPE) e no Laboratório de Diversidade Microbiana
(LABDIMI)/UFAL. Posteriormente, as amostras foram inoculadas em placas CompactDry
Salmonella spp, incubadas a 42°C, por 24 h, para análise de bactérias; o Ágar Sabouraud
Dextrose (SDA-Himedia®), foi utilizado para detectar bolores, incubados a 25 ± 2ºC,
por até 12 dias. Foi identificada a presença de Salmonella spp em todas as amostras
de pescado, estando em não conformidade com a legislação vigente (IN 161/2022)
que determina ausência de Salmonella spp em 25 g de amostra. Salmonella spp. é uma
bactéria responsável por uma grave infecção alimentar que pode ser inserida na cadeia
do pescado por meio de manipulação e higiene imprópria ou por contato do pescado
com águas contaminadas. Em todas as amostras houve crescimento fúngico, exceto
nas amostras dos municípios de Propriá, Pão de Açúcar e Piranhas. Deve-se buscar um
avanço na qualidade dos produtos comercializados nas feiras livres, passando pelo
treinamento constante em boas práticas de manipulação do pescado para feirantes,
bem como a adoção de instalações adequadas para a comercialização do pescado e
fiscalização pelos órgãos competentes.
Palavras-chave: Microbiologia; peixe; camarão; segurança do alimento.
1
Docentes do curso de Engenharia de Pesca/ UFAL/ Campus Arapiraca/ Unidade Educacional Penedo,
Av. Beira Rio, s/n, Centro Histórico, CEP: 57200-000
2
Biólogo da UFAL/ Campus Arapiraca/ Unidade Educacional Penedo.
3
Graduanda em Engenharia de Pesca da UFAL/Campus Arapiraca/ Unidade Educacional Penedo
4
Graduandos em Licenciatura em Ciências Biológicas da UFAL/Campus Arapiraca/ Unidade Educacional Penedo.
102
INTRODUÇÃO
O pescado é uma alternativa saudável enquanto alimento proteico, possuindo
aminoácidos essenciais e ácidos graxos poli-insaturados; baixo teor de gordura, e fonte
de minerais, principalmente cálcio e fósforo, vitaminas A, D e complexo B (EvangelistaBarreto et al., 2017).
O consumo per capita de pescado no Brasil subiu de 10 para 14 kg por ano,
de acordo com dados da FAO em 2018. Entretanto, o desenvolvimento da cadeia
do pescado pode ser acometido por problemas sanitários, causados por bactérias e
fungos, decorrendo em prejuízos à saúde humana. O comércio informal do pescado gera
diversas preocupações, pois tanto comerciantes quanto consumidores, muitas vezes,
não conhecem os cuidados para higienização e conservação dos alimentos e os possíveis
riscos de doenças relacionadas à proliferação de microrganismos (Oliveira, et al., 2019).
Dentre as doenças vinculadas ao consumo de pescado, destaca-se a salmonelose.
As salmonelas são bactérias da família Enterobacteriaceae, frequentemente patogênicas
para humanos, pois, são parasitas intestinais e patógenos intracelulares. No Brasil, a
Salmonella spp representou 17% dos surtos de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA’s)
de 2009 a 2019 (Amaral et al., 2021). A legislação brasileira, INSTRUÇÃO NORMATIVA N°
161, DE 01 DE JULHO DE 2022, determina ausência de Salmonella/25g, para diferentes
categorias de pescado (BRASIL, 2022).
Assim como as bactérias, os fungos causam deterioração e até mesmo
enfermidades, pois podem propiciar alterações no odor e sabor dos alimentos, causando
diferentes graus de deterioração através de uma contaminação cruzada, acarretando
perigo a saúde humana principalmente, pela produção de micotoxinas (Oliveira et al.,
2019). Micotoxinas são metabólitos secundários com diferenciadas estruturas químicas e
propriedade biológica; podem estar bioacumuladas no pescado e causar efeitos diretos
no animal e indiretos, no consumidor; ao serem ingeridas podem causar micotoxicoses
em animais e no homem, com efeitos carcinogênico, nefrotóxico e teratogênico (Atayde
et al., 2014; Barreto et al., 2016).
Diante do exposto, o presente estudo objetivou pesquisar Salmonella spp e bolores
em pescados comercializados em feiras livres/mercados públicos de oito Municípios do
Baixo São Francisco, durante a VI Expedição do São Francisco.
METODOLOGIA
O presente trabalho foi desenvolvido nas feiras livres dos Municípios de Pão de
Açúcar, Piranhas, Traipu, São Brás, Propriá, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu, no período
de 21 a 30 de novembro de 2023.
Foram obtidas amostras de tilápias frescas (Oreochromis niloticus) de Igreja
Nova, Traipu, São Brás, Pão de Açúcar, Piranhas, Penedo, Piaçabuçu e Propriá (Figura
1); amostras de camarão marinho fresco (Litopenaeus vannamei) de Penedo, Igreja nova
e Propriá; Litopenaeus schmitti fresco de Piaçabuçu e Xiphopenaeus kroyeri salgado e
cozido de Piranhas (Figura 2). As amostras foram acondicionadas em sacos plásticos
estéreis e transportadas em caixa isotérmica com gelo para o Laboratório de Tecnologia
do Pescado – LATEPE da Universidade Federal de Alagoas – UFAL para iniciar as análises
microbiológicas.
103
Figura 1: Tilápia (Oreochromis niloticus) comercializada nas feiras dos Municípios de
Traipu (A), Piaçabuçu (B), Penedo (C), Piranhas (D).
Fonte: Autores, 2023.
Figura 2: Camarão marinho (Xiphopenaeus kroyeri) cozido na água e sal, comercializado
em Piranhas (A) e (Litopenaeus vannamei) fresco, nas feiras de e Propriá (B) e Penedo
(C).
Fonte: Autores, 2023.
104
IDENTIFICAÇÃO E QUANTIFICAÇÃO DE SALMONELLA SPP E BOLORES
A identificação Salmonella spp foi realizada através de placas estéreis para
detecção e quantificação microbiológica em matérias primas tipo CompactyDry SL da
Nissui Pharmaceutical®. A primeira etapa da análise consistiu na preparação e diluição
das amostras coletadas, onde 25 g de cada amostra foi homogeneizada em 225 mL
de água peptonada a 0,1%, referente à solução mãe, e realizadas diluições seriadas de
10-1 até 10-3. Em seguida, utilizou-se a técnica de plaqueamento em superfície (spreadplate), no qual 1 mL de cada diluição foi inoculada em superfície em placas CompactDry,
incubadas a 42°C, por 24 h, o resultado foi expresso em ausência ou presença, em 25 g
de amostra.
A inoculação dos fungos foi realizada com 1 mL de cada diluição em placa de Petri
contendo Ágar Sabouraud Dextrose (SDA-Himedia®) suplementado com Tetraciclina a
0,1 μg/mL-1, para evitar crescimento bacteriano (Silva et al., 2007) (Figura 3). Em seguida,
as placas foram incubadas a 25 ± 2ºC e monitoradas por até 12 dias, para a observação
do crescimento e posterior, isolamento dos fungos. A purificação dos fungos ocorreu por
meio de repiques sucessivos em SDA (Himedia®). Uma vez purificados, os isolados serão
preservados, sob refrigeração, para posterior identificação por taxonomista da Micoteca
(URM/UFPE).
Figura 3: Cabine de fluxo laminar higienizada, soluções de água peptonada e meios de
cultura para a inoculação de amostras de pescado e identificação e quantificação de
Salmonella spp e bolores.
Fonte: Autores, 2023.
105
RESULTADOS E DISCUSSÃO
IDENTIFICAÇÃO DE SALMONELLA SPP
Foi detectada Salmonella spp em todas as amostras coletadas de peixes e
camarão. Penedo, Igreja Nova e Propriá apresentaram um número maior de unidades
formadoras de colônias (UFC/g) em peixes; por outro lado, Pão de Açúcar e Traipu
apresentaram menos unidades. A amostra de camarão que apresentou um número maior
de unidades formadoras de colônias (UFC/g) foi em Propriá, contudo Penedo e Igreja
Nova apresentaram menores unidades. Na Tabela 1 consta a ocorrência de Salmonella
spp dos produtos analisados em 25 g de amostras, incubadas a 42°C, por 24 h. As figuras
4 e 5 mostram culturas de Salmonella spp isoladas de amostras de peixes e camarão,
respectivamente, e evidenciam a presença dessa bactéria. A legislação vigente, ANVISA
(IN 161/2022), determina sua ausência em 25 g de amostra de qualquer alimento,
abrangendo os pescados, devido a todas as cepas de Salmonella serem patogênicas.
Tabela 1: Identificação de Salmonella spp em amostras de peixe e camarão coletadas em
municípios do Baixo São Francisco, após 24h de incubação, a 42°C.
Fonte: Autores, 2024.
Figura 4: Culturas de Salmonella spp isoladas de amostras de peixes (Oreochromis
niloticus) comercializados em feiras livres (A = 10-1 – Penedo), (B = 10-1 – Igreja Nova), (C
= 10-1 - Propriá).
106
Fonte: Autores, 2023.
Figura 5: Culturas de Salmonella spp isoladas de amostras de camarões (Litopenaeus
vannamei) comercializados em feiras livres (A = 10-1 – Penedo), (B = 10-1 – Igreja Nova),
(C = 10-1 - Propriá).
Fonte: Autores, 2023.
A contaminação de Salmonella spp quando presente em pescados pode ser
proveniente de manipulação ou através da contaminação do ambiente de onde os mesmos
foram provenientes, pois a carência de saneamento básico ou disposição de dejetos
animais e humanos de forma inadequada contribuem para a poluição desses ambientes
(Gazal et al., 2018). De acordo com Fernandes et al, (2018), a Salmonella spp. é uma
bactéria responsável por uma grave infecção alimentar que pode ser inserida na cadeia
do pescado por meio de manipulação e higiene imprópria ou por contato do pescado
com águas contaminadas. Almeida e Morales (2021) analisaram 30 amostras de peixes
comercializados no mercado público do Município de Itacoatiara/AM e identificaram a
presença de Salmonella spp em 83,3% das amostras. Amaral et al., (2021), ao analisar a
situação epidemiológica dos surtos de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA’s) no
Brasil, nos anos 2009 a 2019, identificou que entre os 10 principais agentes etiológicos
envolvidos, a bactéria Escherichia coli representa 29% do total, seguido de Salmonella
spp. e Staphylococcus aureus, com 17% e 16%, respectivamente. Dentre os alimentos
envolvidos nesses surtos o pescado, frutos do mar e processados contribuem com 2,18%.
A contaminação por Salmonella sp pela perspectiva sanitária, indica que o alimento
está inapropriado para o consumo humano, sendo um fator de risco para à saúde dos
consumidores, pois encontra-se fora dos padrões estabelecidos pela legislação brasileira.
CONTAGEM E ISOLAMENTO DE FUNGOS FILAMENTOSOS
Foram obtidas 13 amostras de pescado (peixe e camarão), das 8 cidades visitadas
pela VI Expedição Científica do São Francisco. Em todas as amostras houve crescimento
fúngico (Figura 6), exceto nas amostras dos municípios de Propriá, Pão de Açúcar e
Piranhas. Na Tabela 2, estão quantificadas as Unidades Formadoras de Colônia (UFCs),
por cidade e por pescado analisado.
Tabela 2: Quantificação de Unidades Formadoras de Colônia (UFCs) em amostras de
pescado de feiras livres, coletadas em municípios do Baixo São Francisco.
107
* Nº UFCs = número de unidades formadoras de colônia/g; x= não amostrado.
Fonte: Autores, 2024.
Figura 6: Colônias de fungos filamentosos presentes em amostras de pescado coletadas
de feiras livres, em municípios do Baixo São Francisco, em crescimento (27 ± 1ºC). (ASão Brás, B- Igreja Nova, C- Traipu, D- Penedo, E- Piaçabuçu).
Fonte: Autores, 2023.
108
No total, foram isoladas 12 culturas fúngicas de todas as cidades amostradas,
conforme pode ser visualizado o aspecto macroscópico das colônias abaixo (Figura 7).
Os fungos filamentosos foram isolados e identificados como pertencentes aos gêneros:
Aspergillus (5), Penicillium (4) e Rhizopus (3).
Figura 7: Colônias de fungos filamentosos isolados do pescado, coletadas em feiras livres
de municípios do Baixo São Francisco, após 10 dias de crescimento (27 ± 1ºC). (A- São
Brás, B- Igreja Nova, C- Traipu, D- Penedo, E- Piaçabuçu).
Fonte: Autores, 2023.
109
Segundo os padrões microbiológicos dos alimentos que foram definidos
recentemente, na Instrução Normativa - IN nº 161, de 1º de julho de 2022, bolores e
leveduras aeróbios não são considerados na análise do pescado, nem a taxa de metabólitos
produzidos por eles, sendo analisados apenas em outras carnes; mas utilizando como
referência comparativa o padrão permitido para produtos alimentícios com condições
de atividade de água similares, que é de no máximo 104 UFC/g (RDC nº 12, BRASIL 2001;
RDC n° 60, DE 23 DE DEZEMBRO DE 2019; RDC nº 585, de 10 de dezembro de 2021; IN
º 161, BRASIL, 2022), todas as amostras analisadas encontram-se em níveis aceitáveis,
variando de 0 à 6,4x101 UFC/g.
Apesar de não serem considerados nos padrões microbiológicos para o pescado,
neste trabalho, foram identificados gêneros de fungos que apresentam espécies
conhecidamente produtoras de toxinas de importância médica, micotoxinas, como por
exemplo, aflatoxina, ocratoxina e fumonisina (Sun et al., 2015; Munawar et al., 2019); todas
com potencial de causar efeito hepatotóxico, carcinogênico, nefrotóxico e teratogênico,
em animais e humanos, indicando perigo de contaminação do alimento. Desta forma,
destaca-se a necessidade da manutenção das boas práticas de manipulação em toda
a cadeia produtiva, visando a diminuição dos riscos de contaminação ao consumidor
(Oliveira et al., 2019).
A partir dos resultados obtidos, será possível reforçar junto às prefeituras e
secretarias dos municípios visitados a necessidade da manutenção da qualidade e da
inocuidade do pescado, além de condições apropriadas de trabalho.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base nos resultados, a ocorrência de Salmonella spp. indica contaminação do
meio ambiente e da cadeia de produção do pescado. A presença de espécies fúngicas
potenciais produtoras de micotoxinas indica a possível contaminação do alimento com
metabólitos termoestáveis de importância médica.
Os feirantes presentes nas feiras visitadas receberam as cartilhas confeccionadas
ano passado, sobre acondicionamento e conservação do pescado e boas práticas. À
medida que as cartilhas estavam sendo entregues, alguns feirantes questionaram a respeito
das providências para melhoria das condições de trabalho e então, foi explicado que os
relatórios foram repassados para as prefeituras e que os gestores estavam analisando as
possibilidades de mudança bem como treinamento específico para os feirantes.
Considera-se urgente a construção de instalações adequadas para a comercialização
do pescado, além da oferta de cursos de capacitação para a manipulação e processamento
do pescado, bem como o cumprimento das exigências legais para funcionamento, junto
à fiscalização pelos órgãos competentes.
AGRADECIMENTOS
Gratidão aos discentes que colaboraram com a pesquisa: Josivânia Santos, Hyago
Magno Ramos, Hygor Maikon Ramos, Renata Correia Barros e Renata de Almeida Ferreira
e ao Biólogo da UFAL/ UE Penedo, Abraão José da Silva Júnior; à Universidade Federal de
Alagoas (UFAL), ao Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBSF), a Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL), a Companhia de Desenvolvimento
do Vale São Francisco (CODEVASF) e a todas as instituições que apoiaram o projeto para
que a VI Expedição Científica do Baixo São Francisco pudesse acontecer.
110
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112
8. BIOFONIA E A PRODUÇÃO DE SONS DE PEIXES NATIVOS DO
BAIXO RIO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Ecologia acústica.
Alfredo Borie Mojica1
Marise dos Santos Lima1
Rute Santos Nunes1
INTRODUÇÃO
O estudo da biofonia (todo o som que é gerado por organismos vivos) e dos
sons produzidos pelos peixes tem vindo a ganhar interesse nos últimos anos, já que
pode fornecer informações valiosas sobre o comportamento, ecologia e distribuição das
diferentes espécies. Além disso, os sons podem ser utilizados para identificar espécies
específicas, determinar a densidade populacional e monitorar a atividade migratória dos
peixes. Podem também ser utilizados como uma ferramenta para monitorar a saúde dos
ecossistemas aquáticos e avaliar o impacto humano no ambiente. A tecnologia acústica
passiva tornou-se uma ferramenta fundamental para estudar os sons dos peixes de uma
forma não invasiva. Esta tecnologia envolve a utilização de hidrofones, gravadores e
software específico de análise acústica. Atualmente, sabe-se que mais de mil espécies
são capazes de emitir algum tipo de som, com frequências até 2 kHz, utilizando uma
variedade de mecanismos sonoros. Estes sons podem desempenhar papéis importantes na
comunicação intra-específica, como a defesa do território, a alimentação e a reprodução.
A sua aplicação contínua em estudos ecológicos contribuirá para a conservação e a
gestão sustentável dos recursos pesqueiros. A acústica passiva é, portanto, um vasto
domínio de investigação que está a crescer. Os desafios são a identificação das espécies,
a automatização da identificação e o desenvolvimento de tecnologias de baixo custo.
1
Engenharia de Pesca da Universidade Federal de Alagoas, Penedo - AL.
113
INTRODUÇÃO
A ecologia acústica é uma recente área de pesquisa da ecologia e é uma disciplina
que tem como objeto de estudo o campo sonoro, em todos os seus aspectos ecológicos,
físicos, sociais e culturais. A ecologia acústica tem perspectiva macro, e foca em todo o
arranjo complexo de sons biológicos e outros sons ambientais que ocorrem em um local,
sejam geológicos ou antropogênicos (WRIGHTSON, 2000). A sonoridade do ambiente
pode revelar muito mais sobre o equilíbrio da biodiversidade. A utilização desse tipo
de ferramenta para a medição da biodiversidade é conhecida como ecologia acústica
(soundscape ecology) (HARRIS E RADFORD, 2014).
A compreensão da acústica em ambientes de água doce é uma área de pesquisa em
crescimento, com implicações para a conservação e gestão sustentável dos ecossistemas
aquáticos. O monitoramento acústico pode oferecer valiosas informações sobre a
dinâmica e a saúde desses ambientes, bem como sobre as populações de organismos
que os habitam.
Em águas interiores a acústica refere-se ao estudo dos sons e suas propriedades
em ecossistemas como rios, lagos, riachos e ambientes aquáticos similares. Assim
como nos ambientes marinhos, os sistemas dulcícolas apresentam uma variedade de
fenômenos acústicos que desempenham papéis importantes nas interações ecológicas.
Estudos acústicos nesses ambientes podem ser importantes para entender a ecologia das
espécies, monitorar populações de peixes, avaliar a saúde dos ecossistemas aquáticos
e desenvolver estratégias de conservação (PIJANOWSKI et al., 2011; FARINA; PIERETTI,
2012).
A diversidade acústica de peixes refere-se à variedade de sons produzidos por
diferentes espécies de peixes e as funções desses sons em seus ecossistemas. Muitas
espécies de peixes de água doce são capazes de produzir sons para diversas finalidades
fundamentais, como comunicação intraespecífica, atração de parceiros durante o período
de reprodução e estabelecimento de hierarquias territoriais (AMORIM, 2006 ; AMORIM,
VASCONCELOS, & FONSECA 2015; FINE & PARMENTIER , 2015 ; LADICH E FINE, 2006).
Alguns invertebrados aquáticos, como insetos e moluscos (SOLÉ et al. 2023), também
podem gerar sons.
De acordo com a literatura peixes como bagre-branco (Cathorops agassizii), piranha
(Pygocentrus piraya) e pirambeba (Serrasalmus brandtii) são peixes nativos da bacia do
rio São Francisco e produzem som. Os sons emitidos podem variam consideravelmente
entre as espécies. Esses sons podem abranger desde grunhidos, zumbidos, pulsos e até
mesmo padrões complexos de vocalização. Muitas espécies de peixes são capazes de
produzir sons utilizando estruturas especializadas, como músculos associados à bexiga
natatória e ossos faringeanos (BEM & PARMENTHER, 2015). A compreensão e identificação
desses padrões pode ser utilizados para localizar as espécies (MANN et al., 2008), avaliar
diversidade (DESIDERÀ et al., 2019), monitorar populações (LUCZKOVICH e SPRAGUE
2002), identificação do período reprodutivo e de áreas de desova (LUCZKOVICH 2008),
densidade populacional (MARQUES et al., 2013), além de estimar a abundância de peixes
nas agregações de desova (ROWELL et al., 2017).
Devido às propriedades únicas da água, a propagação do som em ambientes com
e sem salinidade ocorre de maneira diferente em relação aos ambientes terrestres. A
velocidade do som na água é maior do que no ar, e isso influencia a forma como os sons
se propagam e se dissipam (SOLÉ et al. 2023). A comunicação sonora é importante para
a orientação e navegação, especialmente em condições de visibilidade reduzida.
Portanto, para que seja possível capturar esses sons é necessário fazer uso da técnica
de acústica passiva, possibilitando assim, que a coleta desses sons não seja invasiva ou
destrutiva (BORIE, 2020). O uso da Acústica Passiva é particularmente útil em ambientes
aquáticos onde a observação direta é difícil, como águas profundas ou turvas, e em áreas
onde a presença humana pode perturbar os animais.
O Monitoramento Acústico Passivo (MAP/PAM) é uma das principais aplicações da
114
acústica passiva, é cada vez mais usado como um método para caracterizar as paisagens
sonoras subaquáticas e a biofonia para estudar a diversidade acústica de peixes. Essa
técnica consiste em colocar hidrofones (microfones subaquáticos) em áreas estratégicas
para coletar sons emitidos por animais aquáticos. Os hidrofones são capazes de detectar
sons em uma ampla faixa de frequência, permitindo a identificação de diferentes espécies
e comportamentos acústicos. Essas ferramentas permitem o monitoramento não invasivo
de populações de peixes e outros organismos aquáticos. (ROUNTREE ET AL., 2006).
O objetivo deste trabalho é identificar e caracterizar sons de peixes nativos do baixo
São Francisco, incluindo a foz. Os estudos provindos da V e VI Expedições Científicas
no Baixo Rio São Francisco resultaram na catalogação que fará parte da fonoteca da
Universidade Federal de Alagoas, que contribuirá para a identificação das espécies no
ambiente natural.
METODOLOGIA
Os sons foram gravados durante a V e VI Expedições Científicas no baixo rio
São Francisco realizadas no verão de 2022 e 2023 respectivamente. Foram realizadas
gravações nas regiões de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Penedo, Piaçabuçu
e foz do rio São Francisco. Na região da foz também foram realizadas coletas no mês de
julho (dias 18 e 31) de 2023, período de inverno na região.
BIOFONIA DO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO
Todas as gravações aconteceram no período do final da tarde até o início da noite do
mesmo dia, geralmente iniciando às 16h30, finalizado às 18h horas. Durante as gravações,
a embarcação ficava à deriva com o motor desligado, as gravações foram realizadas
em diferentes pontos e habitats ao longo do rio. As gravações durante atividade dos
pescadores artesanais profissionais na despesca foi realizada nas primeiras horas da
manha do amanhecer (a partir da 05h horas)
Na Foz, foram avaliados 6 pontos de coletas (Figura 1), com um total de 01:15:20
horas gravadas, sendo 00:47:38 no período de inverno e no verão 00:27:42. Os pontos
e horários escolhidos teve o auxílio de pescadores locais da região que conhecem a
localidade com maior propriedade tornando a coleta mais assertiva e com um número
maior de dados. De acordo com os pescadores artesanais, os horários e locais escolhidos
são os com maiores ocorrência de sinais acústicos. Com o auxílio do conhecimento
empírico fornecido pelos pescadores locais, e com a aplicação do método acústico
passivo, permitiu avaliar os padrões sonoros biológicos e antrópicos sazonais e temporais
que ocorrem nos durante o período de estudo.
115
Figura 1: Pontos de coleta de dados acústico na região da foz do rio São Francisco.
Fonte: R. Nunes.
O sistema de gravação foi utilizado em todas as coletas. O sistema portátil,
constando de um hidrofone AS-1 (Aquarian áudio), conectado a um amplificador e por
sua vez ligado a um gravador digital (Zoom H5), onde também foi utilizada uma caixa de
som JBL Flip 3. Este sistema de gravação permite gravar, ouvir e detectar em tempo real
os sons no sistema. O AS-1 é adequado para medições absolutas de som subaquático e
apresenta uma Faixa linear de amostragem de 1 Hz a 100 kHz ±2dB (Figura 2).
116
Figura 2: Sistema de gravação acústico passivo.
Fonte: Borie-Mojica ,2023.
BIOACÚSTICA DOS PEIXES
Foram avaliados os sons das espécies de peixes como: Serrasalmus brandtii,
Pygocentrus piraya e em diferentes condições Cathorops Agassizii. A coleta de dados
acústicos das espécies Serrasalmus brandtii, Pygocentrus piraya ocorreu em seis cidades
ao longo do rio, durante a atividade pesqueira realizada por pescadores artesanais da
região. A captação sonora foi realizada durante a captura das espécies, que estavam
retidas em uma rede de emalhar (Figura 3). Ao total foram 128 pirambebas da espécie
(Serrasalmus brandti) e 99 piranhas (Pygocentrus piraya).
Figura 3: Método de gravação de espécies endêmicas realizando durante a pesca com
rede de emalhar. A. pirambeba (Serrasalmus brandtii), B e C. Piranha (Pygocentrus
piraya) e D. pescador “Mestre Joh”.
117
Fonte: Autores, 2023.
Os sons do bagre Cathorops Agassizii foram avaliados em ambiente controlado,
sendo capturados por pescadores profissionais e acondicionados em um aquário de
40 litros, com aeração constante através de pedra difusora. Durante as gravações o
hidrofone foi colocado no aquário com a finalidade de detectar os sons emitidos pelos
peixes (Figura 4).
Figura 4: Exemplar acondicionado em caixa plástica.
Fonte: Autores, 2023.
118
ANÁLISES DOS DADOS
Após as gravações os arquivos acústicos foram descarregados a um computador
portátil para sua posterior análise. As análises ocorreram no laboratório de Ecologia
Acústica na Unidade Educacional da Universidade Federal de Alagoas em Penedo. Na
avaliação inicial foi utilizado o programa de áudio Raven Pro 1.6 (Cornell Lab.) visualizando
assim espectrogramas e oscilogramas (Figura 5), respectivamente, com janela Hann de
tamanho 2048. Os parâmetros acústicos como: Baixa frequência (Hz), Alta frequência
(Hz), Pico da frequência (Hz) e Duração do som (ms), foram utilizados para todos os
dados avaliados. Somente os parâmetros de número de pulsos e taxa de pulsação foram
incluídos nas análises das piranhas e pirambebas. Por meio da estatística descritiva foram
obtidos os valores de média, desvio padrão, mínimo e máximo.
Os diferentes tipos de sons detectados na região da foz, foram selecionados
manualmente no Audacity através do espectrograma em escala logarítmica, frequência
mínima e máxima de 100 e 48000 Hz respectivamente, com janela Hann de tamanho
2048. O programa Raven Pro 1.6 (Cornell Lab.) foi utilizado para avaliar os tipos de
sons detectados, individualizados e selecionados, sendo efetuados cortes de diferentes
comprimentos nas gravações para logo serem gerados oscilogramas e espectrogramas.
Os sons também foram filtrados seguindo a banda de frequência que apresentavam para
as análises de parâmetros acústicos como: Frequência mínima (Hz), Frequência máxima
(Hz), Pico da frequência (Hz), Duração do som (seg.), número de pulsos por som e Taxa
de pulsação (pulsos/seg.).
Figura 5: Espectro (acima) e oscilograma (abaixo), Serrasalmus brandtii.
Fonte: Autores, 2024.
119
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram detectados diversos tipos de sons biológicos ao longo de todo o baixo rio São
Francisco, principalmente emitidos por peixes e crustáceos na região estuarina. A foz do
rio vem se caracterizando por uma grande ocorrência de sons biológicos, este ambiente
é de grande importância ecológica uma vez que serve de berçário para muitas espécies,
que utilizam esse ambiente para reprodução e posterior desenvolvimento, além de ser
uma importante área de alimentação. A grande diversidade de sons encontrados nas
expedições anteriores, pode estar diretamente relacionado com os aspectos ecológicos
que apresenta esta região.
Nas análises acústicas da região estuarina do rio São Francisco foram encontrados
em torno de 18 sons diferentes (Figura 10). Os sons eram compostos provavelmente por
peixes e crustáceos, além dos sons biológicos, os ruídos de embarcações pesqueiras
(canoas motorizadas) estavam bem presentes também nas gravações dos áudios
coletados, isso já era o esperado pelo potencial pesqueiro que a região possui. Os sons
biológicos ocorreram durante todo o período de coleta, tanto no verão quanto no inverno,
no entanto a diversidade de sons encontrados foi maior no período de inverno.
Os sons detectados estão compostos por pulsos individuais, por trem de pulsos
ou tem características harmônicas, sendo: Pulsos individuais, n=7, trem de pulso, n=5,
harmônicas, n=6. Dos 18 sons biológicos encontrados, a maioria deles apresentavam uma
baixa frequência, sendo característico de peixes (MUELLER, et.al. 2020).Com as análises
feitas, pode-se perceber importantes variações espaço-temporais dos sons biológicos
encontrados no estuário da foz do rio São Francisco.
Os sons detectados estão compostos por pulsos individuais, por trem de pulsos
ou tem características harmônicas, sendo: Pulsos individuais, n=7, trem de pulso, n=5,
harmônicas, n=6. Sons, com os pulsos individuais foi comumente encontrado em estalos
de camarões com média de baixa frequência de 1358±801,2 Hz e alta frequência média
6541±1,389 Hz (som Tipo 1). Na análise dos 18 sons, o que apresentou maior baixa
frequência foi o tipo 3 com 357±106. A alta frequência foi menor no som tipo 3 com
4600±420 Hz e o maior 6776±112,2 Hz. O menor tempo de duração foi do sim tipo 1
com 0,04±0,01 segundos (seg.) e o maior entre eles mostrou 1,41±0,33 (seg.), duração
atribuída ao som tipo 11. E pico de frequência, o menor entre eles mostrou 332,8±73,9
resultados relacionado ao som tipo 9 e o maior 6796±2052, o som tipo 18 (Tabela 1).
Tabela 1: Parâmetros acústicos dos sons detectados no inverno Média ± Desvio Padrão
(máximo – mínimo).
120
Fonte: Autores, 2024.
121
Tabela 2: Parâmetros acústicos dos sons detectados no verão Média ± Desvio Padrão
(máximo – mínimo).
Fonte: Autores, 2024.
122
Figura 10: Oscilograma (acima) e Espectrograma (abaixo) dos 18 sons detectados na
região estuarina do rio São Francisco. Fonte: Autores.
123
124
125
126
127
Fonte: Autores, 2024.
128
SONS DO BAGRE
Foram encontradas emissões sonoras da espécie alvo nos áudios gravados. Das
quais 87 foram utilizadas para estatística, 37 das gravações em cativeiro e 50 em ambiente
natural. Em alguns pontos foi possível detectar agregações de peixes, possivelmente do
gênero Cathorops, este ponto foi localizado com a ajuda de pescadores locais. O ambiente
aquático se mostrou bastante heterogêneo com relação aos sons deste peixe, não sendo
possível sua detecção em todos os pontos de gravação. O tipo de som analisado neste
estudo pode ser descrito como um som curto, com uma duração média de 72,8 - 807,0
ms em cativeiro e 56,1- 436,6 ms ambiente natural de frequência multi-harmônica (Tabela
2).
Numerosos bagres (Siluriformes) emitem sons através de mecanismos
estridulatórios ou músculo sonoro. Os sons estridulatórios são não harmônicos com uma
ampla gama de frequências, desde menos de 100 Hz até mais de 8000 Hz (TAVOLGA,
1971). A frequência fundamental mínima medida para C. agassizii foi de 180,8 ± 61.8 Hz
(Tabela 2). Estes valores são similares aos encontrados em Ariopsis seemanni (Ariidae)
em condição de cativeiro em cardume ou isolado (SCHMIDTKE et al.2013). Na segunda
forma, a produção sonora resulta da vibração rítmica da bexiga natatória por deformação
de sua parede sob a ação dos chamados “músculos tamboriladores” (DEMSKI et al., 1973;
LOESSER et al., 1997). Esses músculos produzem sons característicos reconhecíveis por
sua estrutura harmônica porque possuem frequências fundamentais, geralmente de 50 a
300 Hz dependendo da espécie em que são encontrados. Estes valores foram similares
aos encontrados no presente trabalho.
No espectrograma da figura 12 pode-se observar sons em cativeiro (Figura 12A)
e em ambiente natural (Figura 12B), com algumas diferenças de amplitude e duração.
O espectrograma mostra sons harmônicos (sons harmônicos são representados
graficamente em faixas horizontais). Os sons em cativeiro se mostraram distintos
visualmente em relação aos coletados em ambiente natural, como pode ser observado
nos espectrogramas, notou-se dois tipos de sons com diferentes amplitudes e quantidade
de harmônicos, contabilizando em média três para cativeiro e dois para ambiente natural.
Entre os harmônicos um e três do cativeiro a energia de pico diminui linearmente em
direção aos harmônicos mais altos. No ambiente natural, os dois harmônicos apresentados
mantiveram a energia de pico centrada com uma dispersão mínima.. As diferenças
significativas encontradas podem estar relacionadas com alguns fatores como estresse,
tamanho do exemplar, tempo de aprisionamento na rede de emalhar e a metodologia de
gravação em cativeiro, o que causaria uma reflexão acústica nas paredes do aquário. Por
tanto, ainda precisamos realizar pesquisas em sistemas fechados no ambiente natural,
como tanques rede, para melhor comparação.
Figura 12: Sons característicos do bagre-branco. A. Cativeiro e B. Ambiente Natural.
Oscilograma acima e espectrograma abaixo
129
Fonte: Autores, 2024.
Tabela 2: Estatística descritiva dos parâmetros acústicos utilizados, Média ± Desvio
Padrão (Mínimo e Máximo) e o valor de p-valor obtido através do teste de Mann-Whitney.
130
SONS DAS PIRANHAS
As piranhas são peixes neotropicais que apresentam vocalização, e tanto os gêneros
Pygocentrus como Serrasalmus produzem sons pulsados semelhantes usando o mesmo
mecanismo de produção de som (RAICK et al., 2023),os músculos sónicos têm origem
nas vértebras e ligam-se a um tendão que rodeia a bexiga ventralmente (MÉLOTTE et
al., 2016). Foi possível detectar, gravar e analisar o som de duas espécies de piranhas
capturadas com rede de emalhar (Pygocentrus piraya e Serrasalmus brandti) . Isto pode
ser de grande relevância uma vez que esta espécie pode estar representada por um 80%
das capturas em várias regiões do baixo rio São Francisco. Outro fator importante vem
sendo observado recentemente e divulgado na mídia são os ataques de pirambebas a
banhistas em praias dessas regiões. Assim, a ferramenta acústica passiva pode contribuir
para identificar áreas de maior ocorrência destas espécies e monitorar as populações.
Uma vez que, os sons das piranhas vêm sendo documentados recentemente nas regiões
Norte e Sudeste do Brasil (RAICK et al., 2020a, 2020b; ROUNTREE e JUANES, 2020; ).
Ambas as espécies exibem características específicas nos padrões de vocalização.
Essas diferenças acústicas podem ser usadas para diferenciar ao nível do género (RAICK
et al., 2023). Com menores durações, os sons das espécies Serrasalmus apresentam
uma maior altura em relação ao gênero Pygocentrus (Figura 13). Nas frequências vocais
(Tabela 3), Pygocentrus piraya apresenta uma baixa frequência média de 22,2 ± 7,6 Hz,
enquanto Serrasalmus brandti tem uma média mais alta de 31,8 ± 12,7 Hz. A frequência
máxima registrada para P. piraya foi 421,7 ± 47,1 Hz e para S. brandti foi 609,8 ± 82,8 Hz.
Os picos de frequência foram observados em 170,9 ± 35,6 Hz para P. piraya e em 236,8 ±
78,0 Hz para S. brandti.
Figura 13: Oscilogramas (acima) e espectrogramas (abaixo). A. pirambeba (Serrasalmus
brandtii), B. piranha (Pygocentrus piraya).
Fonte: Autores, 2024.
131
Tabela 4: Estatística descritiva dos parâmetros acústicos utilizados. Média±Desvio
padrão, Mínimo e Máximo.
Fonte: Autores, 2024.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A ecologia acústica através da acústica passiva se mostrou uma ferramenta
completar necessária para estudar e monitorar a paisagem acústica e os sons que
a compõem, assim como, para avaliar a qualidade do habitat, biodiversidade e
comportamento das espécies da região do baixo rio São Francisco. A identificação
da espécie por meio da caracterização acústica dos sons que compõem a biofonia do
baixo rio São Francisco permitiu a descoberta de diversos sons com novos registros que
ocorreram principalmente na região estuarina. De maneira geral, a paisagem acústica e
o monitoramento acústico que vem realizado desde a segunda expedição cientifica em
2019 não mostra grandes diferenças. O sistema acústico portátil de deriva embarcada
também se mostrou eficaz para avaliar em tempo real a condição acústica de diversos
ambientes aquáticos e permitiu inferir sobre sons relacionados a comportamento de
alimentação durante algumas agregações de peixes e crustáceos. Peixes como piranhas
e pirambebas produzem sons de advertência quando capturados por redes de emalhar,
e bagres e item sons de advertência possivelmente para evitar a predação, sendo
detectados dois locais importantes de agregação no estuário. Os sons forma produzidos
por uma musculatura sonora nestas espécies. Os resultados reforçam a necessidade de
implementar sistemas de Monitoramento Acústico Passivo (MAP) a logo prazo para
avaliar diversos aspectos ecológicos em ecossistemas e habitas de agua doce.
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134
9. MONITORAMENTO DE PESTICIDAS NO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Qualidade de Água
Mozart Daltro Bispo1
Douglas Alves Damião1
Agda Savina Guimarães Pereira1
João Inácio Soletti1
Sandra Helena Vieira de Carvalho1
Emerson Carlos Soares2
RESUMO
A presença de pesticidas em sistemas aquáticos superficiais e subterrâneos
constitui uma preocupação global crescente, uma vez que esses compostos tendem
a se acumular nos organismos aquáticos e nos sedimentos. Isso representa um risco
significativo tanto para a saúde ambiental quanto humana. A introdução constante de
novas formulações de pesticidas no mercado, resultado de seu uso intensivo em setores
agrícolas e não agrícolas, exacerba esse problema. A identificação desses compostos é
desafiadora e custosa, e os métodos convencionais de tratamento de água para consumo
humano mostram-se ineficazes em eliminar tais contaminantes. Ainda, a ausência de uma
legislação robusta sobre o tema contribui para o acúmulo persistente de pesticidas na
biosfera. Este capítulo detalha um estudo realizado na região do Baixo Rio São Francisco,
entre Piranhas e a foz do rio, um trecho de aproximadamente 214 km. Durante o período de
21 a 30 de novembro de 2023, foram realizadas coletas de água em pontos estratégicos,
alguns dos quais já revisados em 2021 e 2022 e outros adicionados devido à expansão da
rizicultura e ao cultivo de camarões. O monitoramento analítico foi executado utilizando
técnicas avançadas, como a cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa
triploquadrupolo.
Palavras-chave: cromatografia, extração, poluentes emergentes.
1
Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
2
Laboratório de Aquicultura (LAQUA), Centro de Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas
(UFAL).
135
INTRODUÇÃO
Os pesticidas desempenham um papel crucial na proteção das culturas contra
pragas e doenças, impactando diretamente na produtividade agrícola e, por conseguinte,
no abastecimento global de alimentos. O uso desses agroquímicos é essencial para
manter e melhorar o padrão de vida da população mundial. No entanto, ao longo das
últimas décadas, observou-se um aumento significativo na concentração de pesticidas,
que são considerados poluentes emergentes (PEs). Este aumento está relacionado ao
desenvolvimento contínuo e ao refinamento de novas técnicas em diversos setores,
incluindo carcinicultura, cultivo de arroz, atividades industriais e agrárias, além do
manejo de resíduos hospitalares e esgoto doméstico, e a introdução de novos fármacos
e produtos de higiene, limpeza e cosméticos (GEISSEN, 2015).
Globalmente, cerca de 2 milhões de toneladas de pesticidas são utilizadas
anualmente, com herbicidas e inseticidas representando 47,5% e 29,5% do consumo
total, respectivamente. Os principais consumidores desses produtos são países
como China, Estados Unidos, Argentina, Índia, Japão, Canadá, Brasil, França, Itália e
Tailândia (Moraes, 2019). O Brasil, um dos maiores importadores de agroquímicos e
exportadores de produtos agrícolas, registra um consumo recorde de pesticidas, muitos
dos quais são considerados altamente perigosos e produzidos na União Europeia.
Surpreendentemente, cerca de 14% dos agrotóxicos exportados pela União Europeia
para o Mercosul contêm substâncias proibidas ou nunca autorizadas na própria UE.
Entre 2019 e 2022, foram registradas 14.549 intoxicações por agrotóxicos no Brasil,
resultando em 439 mortes, evidenciando uma grave crise de saúde pública. Durante
este período, o Brasil também atingiu um recorde de novos registros de pesticidas, com
mais de 1.800 novas aprovações, sendo 33 delas de produtos anteriormente proibidos
na Europa (SALLORENZO, 2023).
A falta de dados sobre o destino e comportamento dos pesticidas no meio
ambiente e as ameaças potenciais à saúde ecológica e humana destacam a necessidade
urgente de desenvolver novas tecnologias para a remediação e tratamento dos recursos
hídricos. A regulamentação para avaliação do impacto a longo prazo da exposição a
baixos níveis desses compostos químicos ainda é inadequada, principalmente devido à
falta de padrões para técnicas de análise instrumental (MONTAGNER et al., 2017).
Para uma compreensão abrangente dos efeitos dos contaminantes, é essencial
quantificar e monitorar as concentrações dos poluentes desde a fonte de emissão até
os diferentes compartimentos ambientais e organismos vivos, como invertebrados e
peixes (PIZZOCHERO et al., 2019). Nesse contexto, pesquisadores da Universidade
Federal de Alagoas têm colaborado ativamente no monitoramento de contaminantes
emergentes no Baixo Rio São Francisco, envolvendo laboratórios como o Laboratório
de Sistema de Separação e Otimização de Processos (LASSOP) e o Laboratório de
Aquicultura (LAQUA), ambos do Centro de Ciências Agrárias.
Esses esforços coletivos são vitais para mitigar os impactos adversos dos
pesticidas no ambiente e na saúde humana, promovendo uma gestão mais sustentável
e segura dos recursos naturais.
LEVANTAMENTO LITERÁRIO
Realizou-se uma revisão bibliográfica detalhada para identificar os principais
contaminantes presentes em rios, destacando-se os pesticidas, frequentemente
empregados na agricultura. A abordagem metodológica adotada envolveu o uso de
padrões e agentes derivatizantes para a identificação desses poluentes, precedidos
por etapas de pré-tratamento e extração, e finalizados com análises via cromatografia
gasosa acoplada à espectrometria de massas triplo quadrupolo (GC-MS/MS) (ACAYABA,
2017; PIZZOCHERO, 2019).
136
O processo inicia-se pela identificação e quantificação de poluentes emergentes
em diversas localidades do Baixo São Francisco. Uma vez detectados, investiga-se
os métodos mais eficazes para sua remoção, avaliando-se a eficiência de diferentes
alternativas de tratamento e seus respectivos custos. Além disso, é crucial analisar tanto
a toxicidade dos contaminantes quanto seus impactos ambientais.
Os pesticidas são reconhecidos por sua capacidade de proteger culturas contra
pragas e doenças prejudiciais aos humanos. O uso controlado de agrotóxicos é, portanto,
fundamental para sustentar e elevar o padrão de vida global. Conforme reportado por
Saquib et al. (2021), aproximadamente 2 milhões de toneladas de pesticidas são usadas
globalmente cada ano para combater ervas daninhas, insetos e outras pragas.
A preocupação internacional com o uso excessivo de pesticidas cresce à
medida que estes tendem a acumular-se nos organismos aquáticos e nos sedimentos,
aumentando os riscos à saúde humana. A expansão do mercado global de pesticidas
é impulsionada pelo uso extensivo tanto em setores agrícolas quanto não agrícolas. A
presença desses agrotóxicos em corpos d’água, tanto em superfícies quanto em águas
subterrâneas, resulta frequentemente do escoamento de áreas agrícolas, residenciais,
pecuárias e industriais.
O uso descontrolado de agrotóxicos compromete a qualidade da água e diminui
a disponibilidade de água potável. Segundo Guneser et al. (2017), a exposição crônica
por ingestão de água contaminada pode reduzir a imunidade, desregular o equilíbrio
hormonal, desencadear distúrbios reprodutivos, ter efeitos cancerígenos e afetar
negativamente o desenvolvimento intelectual, especialmente em crianças.
No Brasil, o Programa Nacional de Avaliação da Qualidade das Águas (PNQA, 2022),
iniciativa da Agência Nacional de Águas, é estratégico para ampliar o entendimento sobre
a qualidade das águas superficiais e contribuir para a gestão sustentável dos recursos
hídricos. Este programa também orienta políticas públicas voltadas para a recuperação
da qualidade ambiental em corpos d’água internos, como rios e reservatórios.
Conforme estudos da Avaliação Nacional da Qualidade da Água (NAWQA), verificase que pesticidas são frequentemente detectados em águas superficiais (RIBEIRO,
et al., 2007), evidenciando que a presença de agrotóxicos em tais águas decorre
principalmente do escoamento superficial direto (BUSS, 2003).
De acordo com a NORMAN Network (2022), uma rede autossustentável de
laboratórios de referência e centros de pesquisa para monitoramento de substâncias
emergentes, atualmente há mais de 700 tipos de poluentes, incluindo metabólitos e
produtos de transformação, catalogados como presentes em ambientes aquáticos.
Classificação dos Pesticidas
A classificação dos pesticidas é uma ferramenta essencial para entender
seu uso, aplicação e impactos potenciais. Pesticidas são substâncias químicas ou
biológicas usadas para controlar organismos que são considerados nocivos. Eles são
categorizados com base em vários critérios, incluindo o tipo de praga que visam
controlar, sua composição química, modo de ação e formulação. Entre essas, herbicidas
e inseticidas representam os segmentos mais prevalentes, constituindo 47,5% e 29,5%,
respectivamente, do consumo total de pesticidas a nível global. Os países que lideram
o consumo desses agentes químicos incluem China, Estados Unidos, Argentina, Índia,
Japão, Canadá, Brasil, França, Itália e Tailândia (GEISSEN, 2015). A Tabela 1, anexa,
detalha as principais classes e os compostos específicos de inseticidas, herbicidas e
fungicidas, oferecendo uma visão abrangente da distribuição e uso desses produtos
essenciais no manejo agrícola.
Tabela 1:. Classificação dos pesticidas com base nas espécies-alvo.
137
Fonte: Greissen, 2015.
Os herbicidas são agentes químicos projetados para eliminar ervas daninhas,
frequentemente integrados como reguladores no crescimento de plantas. Os inseticidas,
utilizados tanto em fazendas quanto em instalações de armazenamento de alimentos
e jardins domésticos, são essenciais para o controle de populações de insetos nocivos.
Por sua vez, os fungicidas são aplicados para prevenir ou tratar infecções fúngicas em
plantas ou sementes, sendo comum sua utilização tanto em estágios preventivos quanto
após a ocorrência de infecções. Adicionalmente, os agrotóxicos podem ser categorizados
conforme seu modo de ação contra as pragas, dividindo-se em destruidores, mitigantes
e repelentes, conforme as classificações estabelecidas por MARCHI, et al. (2008) e
GUEDES, et al. (2008).
PRINCIPAIS USUÁRIOS
A contaminação das águas por agrotóxicos é um fenômeno resultante da liberação
persistente desses produtos químicos, provenientes de atividades agrícolas, aplicações
urbanas e instalações industriais de produção de pesticidas (JARDIM et al., 2009;
RIGOTTO et al., 2014). Agricultores, como os principais usuários desses produtos, aplicam
quantidades significativas de pesticidas para proteger e potencializar o rendimento das
colheitas. A indústria de tratamento de madeira, por sua vez, também consome grandes
volumes de inseticidas, contribuindo igualmente para a carga de poluentes (BURALLI, et
al., 2020).
Os agrotóxicos aplicados podem ser liberados para o meio ambiente através de
processos como lixiviação e escoamento, tornando-se uma das principais fontes de
contaminação de águas superficiais. Além disso, o uso urbano de pesticidas, especialmente
em jardins internos para controle de pragas, é uma fonte significativa de poluição hídrica.
Estudos indicam que inseticidas são frequentemente mais detectados em ambientes
urbanos do que outros tipos de pesticidas, como herbicidas e fungicidas (NUNES et al.,
2021).
138
Com o advento da Revolução Verde, o aumento no consumo de agrotóxicos
impulsionou a expansão da indústria de fabricação de pesticidas, elevando globalmente
o número de produtores desses compostos químicos (AMEEN; RAZA, 2018). A lixiviação
de pesticidas durante a fabricação e a disposição inadequada de resíduos e efluentes
industriais são processos que contribuem substancialmente para a contaminação pontual
das águas por pesticidas (KATAGI, 2013).
Desde 2008, o Brasil tornou-se o maior consumidor mundial de agroquímicos,
ultrapassando os Estados Unidos. O consumo brasileiro de agrotóxicos alcançou
aproximadamente 496 mil toneladas de ingredientes ativos em 2013, destacando-se na
utilização intensiva dessas substâncias com implicações diretas para a qualidade das
águas nacionais (RIGOTTO et al., 2014).
DINÂMICA AMBIENTAL DOS AGROTÓXICOS
O estudo aprofundado sobre o destino e transporte de agrotóxicos é essencial
para entender sua movimentação dentro da biosfera (BERGSTROM, 2000). Uma vez
aplicados, os pesticidas podem seguir múltiplos caminhos. Os que não são absorvidos
pelas plantas podem permanecer no solo, onde eventualmente sofrem degradação em
diferentes formas químicas, ou serem retidos em sua forma original, contribuindo para a
poluição do solo (BEDMAR et al., 2004; BEIGEL; DI PIETRO, 1999; KATAGI, 2013).
Os pesticidas solúveis são transportados através das moléculas de água,
especialmente durante períodos de chuva intensa, infiltrando-se nas camadas mais
profundas do solo e, potencialmente, contaminando as águas subterrâneas. Em contraste,
compostos menos solúveis tendem a se acumular na camada superficial do solo, estando
sujeitos a escoamento superficial e erosão, o que pode contaminar corpos d’água como
lagos, córregos e rios (KATAGI, 2013; IBRAHIM et al., 2020).
O risco de contaminação por agrotóxicos é particularmente alto logo após sua
aplicação na superfície do solo, na faixa de 0,25 a 0,85 cm da superfície (KATAGI, 2013).
A volatilização para a atmosfera também é uma via de contaminação, ainda que menos
significativa, com resíduos sendo depositados nos corpos d’água e no solo via precipitação.
Predominantemente, os pesticidas ingressam no sistema hidrológico por lixiviação através
das camadas do solo, e o nível de contaminação das águas é influenciado por uma série
de fatores, incluindo as propriedades do pesticida, características do solo, condições
ambientais locais, e práticas de aplicação e gestão (FOGG et al., 2004a, 2004b).
IMPACTOS NA SAÚDE HUMANA
Apesar de sua importância crucial na proteção das culturas e matérias-primas, os
pesticidas representam uma grave preocupação para a saúde humana. Estes compostos
tendem a acumular-se nas membranas celulares, interferindo com as funções corporais
vitais (SANKHLA et al., 2018; NUNES et al., 2021). A exposição humana aos pesticidas,
principalmente através de contato dérmico e ingestão de água contaminada, pode
resultar em uma série de problemas de saúde.
Foi comprovado que a exposição prolongada a pesticidas pode causar
imunossupressão, interrupções hormonais, diminuição da inteligência, distúrbios
reprodutivos e até câncer. Os impactos podem variar de problemas agudos, como
irritação ocular, dores de cabeça e náuseas, a condições crônicas, incluindo doenças
neurológicas como Parkinson, problemas de memória e cognição, questões reprodutivas,
perturbações no desenvolvimento infantil, defeitos congênitos e câncer (SANKHLA et al.,
2018).
139
REGULAÇÃO E SEGURANÇA
Para mitigar esses riscos, diretrizes internacionais para níveis aceitáveis de
pesticidas em água potável foram estabelecidas por organizações como a Organização
Mundial da Saúde (OMS) e a Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO). Esses
padrões visam garantir uma qualidade de água segura para consumo humano a longo
prazo, levando em consideração variáveis socioeconômicas, dietéticas e geográficas
(SOLOMON, 2015; SANKHLA et al., 2018).
No Brasil, o registro e controle de agrotóxicos é uma responsabilidade compartilhada
entre vários ministérios, refletindo a preocupação do governo com a segurança alimentar
e ambiental (MAPA, 2022). Métodos analíticos avançados são essenciais para detectar
TÉCNICAS ANALÍTICAS AVANÇADAS EM MONITORAMENTO AMBIENTAL
De acordo com Chow et al. (2020), as dificuldades em estabelecer monitoramentos
eficazes que forneçam dados significativos sobre o impacto dos agrotóxicos em ambientes
aquáticos, tanto no âmbito nacional quanto internacional, podem ser atribuídas às
complexidades analíticas na determinação de compostos químicos em diversas matrizes
ambientais. A escolha de quais compostos devem ser regulamentados e monitorados é
um desafio contínuo, envolvendo tanto a identificação precisa quanto a quantificação
desses elementos.
Dentre as várias técnicas de preparo de amostras, destacam-se a extração líquidolíquido (LLE), extração em fase sólida (SPE), e a microextração em fase sólida (SPME), que
têm sido amplamente aplicadas para a preparação de amostras de água e outras matrizes
ambientais (MAJZIK-SOLYMOS et al., 2001; VASILJEVIĆ et al., 2012; MUHLEN; LANÇAS,
2014). Notadamente, a SPME é recomendada pela Agência de Proteção Ambiental (EPA)
como método preferencial para o pré-tratamento de poluentes orgânicos, devido à sua
eficiência, economia de reagentes, segurança e alta sensibilidade (HWANG; LEE, 2000).
Esta técnica baseia-se no equilíbrio entre o analito e a fase extratora, que
geralmente consiste em uma fibra revestida com um polímero similar aos utilizados em
colunas de cromatografia gasosa, como Polidimetilsiloxano (PDMS), Polietilenoglicol
(PEG) e Poliacrilato (PA) (ABDULRA’UF et al., 2012). A SPME pode ser realizada através
da exposição da fibra ao headspace da amostra ou por imersão direta na amostra líquida.
Para matrizes complexas, a técnica de headspace-SPME é geralmente preferida para
evitar entupimentos e interferências na fibra extratora, sendo essencial que os analitos
sejam suficientemente voláteis para migrar para o headspace (NASCIMENTO et al., 2019).
No entanto, limitações são observadas quando analitos hidrofóbicos são absorvidos
nas paredes dos recipientes de amostra, o que pode reduzir a precisão da determinação.
Isso sugere que amostragem in situ via SPME poderia ser uma abordagem promissora
para superar tais desafios (MENEZES et al., 2009).
A Espectrometria de Massa (MS) é outra técnica fundamental no arsenal de
ferramentas analíticas para o monitoramento ambiental, reconhecida por sua sensibilidade
e especificidade excepcionais. Quando combinada com a Cromatografia Gasosa (GC), a
GC-MS se torna uma metodologia poderosa, capaz de realizar a identificação estrutural
e quantificação precisa de pesticidas e outros poluentes ambientais (RAINA, 2011). Essa
abordagem é também reforçada por normas internacionais como ISO 27108:2013 e ASTM
D 6520:2000, destacando a importância de integrar técnicas de extração inovadoras
como a SPME com métodos analíticos robustos para garantir a precisão e a relevância
dos resultados obtidos (NATANGELO et al., 1999).
140
A técnica de cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas em
tandem (GC-MS/MS) representa uma evolução significativa no campo das análises
ambientais, oferecendo sensibilidade e especificidade ainda maiores na detecção de
contaminantes. Especialmente eficaz para a identificação e quantificação de compostos
orgânicos voláteis e semi-voláteis, a GC-MS/MS permite a análise simultânea de múltiplos
alvos com alta resolução e precisão.
A integração do headspace dinâmico com a GC-MS/MS é particularmente valiosa
para o monitoramento de voláteis em amostras ambientais. Esta técnica envolve a coleta e
análise de gases ou vapores que são emitidos por uma amostra em condições controladas
de temperatura e pressão. O headspace dinâmico é eficaz para minimizar a interferência de
matrizes complexas, permitindo uma análise mais limpa e direta dos analitos voláteis. Esta
abordagem é ideal para detectar compostos em baixas concentrações e é amplamente
utilizada para amostras de água, solo e resíduos, onde a presença de solventes e outros
extrativos pode complicar outras formas de extração.
Para assegurar a conformidade e a qualidade das análises realizadas com GC-MS/MS e
headspace dinâmico, diversas normas internacionais podem ser aplicadas:
O presente trabalho usa uma combinação de SPE, LLE e GC–MS/MS com um injeto
automatico headspace dinamico como ferramenta analítica para a triagem de mias de
100 compostos em águas superficiais, na parte baixa do Rio São Francisco. Os objetivos
deste estudo foram:
(1) estabelecer um único procedimento de extração utilizando SPE que permita a
determinação multirresíduo de compostos selecionados, pertencentes a diferentes
grupos químicos, nas águas superficiais do rio São Francisco;
(2) combinar a etapa de preparação da amostra com o uso de GC–MS/MS usando o
modo de monitoramento de íons (SIM; Selective Ion Monitoring) e (SCAN; Scanning),
selecionado para a qualificação dos analitos-alvo e investigação de outros possíveis
contaminantes em escalas de traço como “femto” (10-15) ou 0,000.000.000.000.001;
(3) aplicar a metodologia desenvolvida para a análise de rotina de amostras de água
do rio São Francisco, em diferentes estações, no âmbito de um inquérito alargado de
monitorização da qualidade da água, que incluiu 1 amostra (jusante) em 7 municípios na
bacia do rio; e,
(4) avaliar o risco provocado pelos pesticidas no rio São Francisco.
ÁREA DE ESTUDO
O estudo foi conduzido na região do Baixo Rio São Francisco, que se estende desde
Paulo Afonso, na Bahia, até a foz do rio, localizada entre os estados de Alagoas e Sergipe.
Esta seção do rio, com aproximadamente 214 km de extensão, é de vital importância
tanto por sua biodiversidade quanto por sua relevância socioeconômica. As amostras
foram coletadas entre os dias 21 à 30 de novembro de 2023, em locais estrategicamente
selecionados ao longo do rio para abranger uma representação abrangente das condições
ambientais da área (Tabela 2).
A escolha desses pontos de coleta visa capturar a variabilidade hidrológica e
química ao longo do curso d’água, oferecendo insights sobre os impactos das atividades
humanas e naturais na qualidade da água e nos ecossistemas aquáticos. A região
estudada é caracterizada por uma complexa interação entre usos agrícolas, industriais
e domésticos, o que a torna um local ideal para investigar a dispersão e o destino de
contaminantes, incluindo agrotóxicos e outros poluentes.
141
O período selecionado para a coleta coincide com a estação seca na região, o que
pode influenciar tanto a concentração quanto a dispersão de poluentes devido às variações
no volume de água. Este fator é crucial para entender os padrões de contaminação ao
longo do ano e avaliar a eficácia das estratégias de gestão de recursos hídricos.
Tabela 2: Pontos de coleta de amostra de água, no Baixo São Francisco, à jusante, meio
e montante de cada cidade percorrida.
Fonte: Autores, 2024.
142
As amostras foram recolhidas em recipientes de vidro, devidamente higienizados,
com capacidade de armazenamento de 20 mL, previamente identificadas e posteriormente
armazenadas a temperatura de 3 a 6°C.
METODOLOGIA
Foram coletadas no total 26 amostras de água superficial segundo a tabela 2. As
amostras foram recolhidas em recipientes de vidro âmbar, devidamente higienizados,
com capacidade de armazenamento de 1 L, previamente identificadas e posteriormente
armazenadas a temperatura de 3 a 6°C (ANA, 2011).
Os compostos utilizados para estudo e identificação foram selecionados a partir
de um levantamento bibliográfico e referente aos principais cultivos da parte baixa do
Rio São Francisco (Paulo Afonso à Foz do Rio São Francisco). Os padrões dos pesticidas,
total de 31 compostos químicos, foram adquiridos da Supelco (USA) em ampola de 1 mL.
As análises foram realizadas nos espaços da expedição como também no
Laboratório de sistema de separação e otimização de processos (LASSOP) situado no
Centro de Tecnologia (CTEC), da Universidade Federal de Alagoas.
Para a extração dos compostos orgânicos, foram aplicadas 4 técnicas de extração
microextração em fase sólida por headspace (HS-SPME) EPA method 6040D, extração
liquido-liquido (LLE) EPA 625, extração líquido – sólido EPA method 352°C e extração
por headspace dinâmico EPA Method 524.2.
As normas mencionadas, são procedimentos estabelecidos pela Agência de
Proteção Ambiental dos Estados Unidos (Environmental Protection Agency - EPA)
para a análise de compostos orgânicos em amostras ambientais. Cada método possui
especificações detalhadas sobre a preparação da amostra, condições de extração, análise,
e os parâmetros de qualidade para garantir a precisão e a confiabilidade dos resultados.
EPA Method 6040D: Microextração em Fase Sólida por Headspace (HS-SPME)
Este método é uma variação específica de técnicas de HS-SPME designada para
a extração de compostos voláteis e semi-voláteis de amostras aquosas ou sólidas. Ele
é frequentemente aplicado na determinação de contaminantes orgânicos em amostras
ambientais, como águas superficiais, subterrâneas e efluentes industriais. Fornece uma
abordagem eficiente e ambientalmente amigável, reduzindo a necessidade de solventes
orgânicos e minimizando a geração de resíduos.
Procedimento Experimental para HS-SPME
Preparação da Amostra:
As amostras oram colocada em um vial de headspace de 20 mL fechado
hermeticamente. Para amostras sólidas, foram necessários adicionar água Milli-Q para
facilitar a liberação dos compostos voláteis ao headspace.
Equilíbrio:
O vial foi aquecido a uma temperatura específica de 70°C para acelerar o equilíbrio
dos compostos voláteis entre a amostra e o headspace.
Exposição da Fibra:
Uma fibra revestida com uma fase estacionária fibra de divinilbenzeno/carboxen/
polidimetilsiloxano (DVB/CAR/PDMS 65µm) é exposta ao headspace da amostra por
um período de tempo determinado de 30 min. Os compostos voláteis são adsorvidos
pela fibra, a figura abaixo demostra o procedimento experimental.
143
Figura 1: Princípios de extração por microextração headspace-fase sólida (HS-SPME).
Fonte: Schmidt & Podmore, 2015.
Desorção:
Após a adsorção, a fibra é inserida no injetor de um cromatógrafo gasoso (GC-MS/
MS), onde os compostos são rapidamente desorvidos pela alta temperatura de 250°C.
Análise Cromatográfica:
Os compostos desorvidos são separados e quantificados por cromatografia gasosa,
foi utilizado um cromatógrafo de gás com interface direta com um espectrômetro de
massa de armadilha de íons (Shimadzu, GC-MS-TQ8050 NX com um HS-20NX, Kyoto,
Japan). As condições cromatográficas foram: temperatura do injetor, 260°C; modo de
injeção, sem divisão; coluna capilar, DB-5, 60 m de comprimento, 0,25 mm de diâmetro
interno, espessura de película de 0,25 µm (Agilent J&W); temperatura do forno, 45°C
mantida por 5 min, depois aumentada para 300°C a uma taxa de 5°C min−1; gás hélio a
uma pressão constante de 100 kpa; temperatura da linha de transferência, 250°C; faixa
de aquisição, 45–500 m/z. Os cromatogramas foram monitorados no modo SCAN e SIM.
EPA 625 & 3520C: Extração Líquido-Líquido (LLE) & Extração Líquido-Sólido
Este método descreve a extração líquido-líquido e extração líquido-sólido para
a análise de poluentes orgânicos prioritários em efluentes industriais e municipais,
bem como em sedimentos e águas superficiais e subterrâneas. Especifica os solventes
orgânicos a serem usados, as razões de volume de amostra para solvente, as condições
de agitação e separação das fases, além das etapas de purificação e concentração do
extrato. É uma técnica clássica, conhecida pela sua robustez e eficácia na extração de
uma ampla gama de compostos orgânicos.
144
Procedimento Experimental do Método EPA 525.2 & 3520C
Preparação da Amostra:
As amostras de água e sedimentos foram coletadas e preservadas de acordo com
as diretrizes específicas (ANA) para evitar a degradação dos compostos de interesse.
Foram armazenados em frascos de vidro âmbar sob baixa temperatura.
Extração Líquido-Líquido & Líquido-Sólido:
A amostra de sedimento e aquosa foram extraídas com solventes orgânicos imiscíveis
com água (diclorometano, hexano, 2-propanol, ciclohexano e acetonitrila). Este processo
envolveu a agitação de 200 rpm das amostras juntamente com o solvente orgânico
separadamente conforme a figura abaixo, permitindo que os compostos orgânicos sejam
transferidos das fases aquosa e sólida para a fase orgânica. A fase orgânica, que contém
os compostos de interesse, é separada e coletada.
Figura 2: Princípio da extração líquido-líquido (A) e líquido-sólido (B).
Fonte: https://www.gunt.de/images/download/extraction_english.pdf (modificada),
2024.
Concentração do Extrato:
O extrato orgânico é concentrado por evaporação do solvente, utilizando um
rotoevaporador, até um volume definido de 1mL.
Limpeza:
A matriz das amostras e dos compostos de interesse, passaram por uma etapa de
limpeza adicionais para remoção de interferentes usando cartuchos de limpeza. Após
esse procedimento foram realizadas as análises cromatográficas.
Análise Cromatográfica:
Os compostos extraidos são separados e quantificados por cromatografia gasosa,
foi utilizado um cromatógrafo de gás com interface direta com um espectrômetro de
massa de armadilha de íons (Shimadzu, GC-MS-TQ8050 NX com um HS-20NX, Kyoto,
Japan). As condições cromatográficas foram: temperatura do injetor, 260°C; modo de
injeção, sem divisão; coluna capilar, DB-5, 60 m de comprimento, 0,25 mm de diâmetro
interno, espessura de película de 0,25 µm (Agilent J&W); temperatura do forno, 45°C
mantida por 5 min, depois aumentada para 300°C a uma taxa de 5°C min−1; gás hélio a
uma pressão constante de 100 kpa; temperatura da linha de transferência, 250°C; faixa
de aquisição, 45–500 m/z. Os cromatogramas foram monitorados no modo SCAN e SIM.
EPA Method 524.2: Extração por Headspace Dinâmico
Especificamente desenvolvido para a análise de compostos orgânicos voláteis em
água potável e sedimentos, este método utiliza a técnica de headspace dinâmico para
145
isolar e concentrar os analitos antes da sua análise por cromatografia gasosa. Detalha o
processo de purga e armadilha (purge-and-trap) dos voláteis presentes no headspace
da amostra, a desorção dos compostos capturados, e as condições cromatográficas para
a análise. Ela permite a determinação sensível e precisa de contaminantes voláteis em
matrizes aquosas, contribuindo para a segurança da água potável.
Figura 3: Princípio esquemático do método purge-and-trap.
Fonte:https://www.gerstelus.com/blog/dynamic-headspace-vs-purge-and-trap-acomparative-insight/ (modificado), 2024.
Procedimento Experimental do Método EPA 524.2
Preparação da Amostra:
As amostras de água são coletadas em frascos âmbar limpos e conservadas sob
baixa temperatura e com um conservante, como o ácido clorídrico (HCl), para manter o
pH abaixo de 2, o que ajuda a preservar os VOCs entre outros compostos na amostra.
Extração (Purga e Armadilha).
Purga:
A amostra é aquecida a uma temperatura controlada de 70°C para facilitar a
transferência dos VOCs da fase líquida para a fase gasosa (headspace). Um fluxo de gás
inerte (hélio 5.0 graus analítico, White Martins) é então utilizado para purgar os VOCs
do líquido e sedimentos para o headspace, onde são transportados para a armadilha, a
figura abaixa ilustra esse procedimento.
Armadilha:
Os compostos purgados são capturados em uma armadilha contendo material
adsorvente (Shimadzu, GC-MS-TQ8050 NX com um HS-20NX, Kyoto, Japan). A armadilha
é projetada para concentrar os compostos voláteis enquanto permite que o gás inerte e
outros componentes não voláteis passem.
146
Desorção:
Após a captura, os compostos são desorvidos da armadilha pelo aquecimento de
250°C e transportados para o sistema de GC-MS/MS - Cromatografia Gasosa Acoplada
a Espectrometria de Massas Triplo Quadrupolo para análise.
Foi utilizado um cromatógrafo de gás com interface direta com um espectrômetro
de massa de armadilha de íons (Shimadzu, GC-MS-TQ8050 NX com um HS-20NX, Kyoto,
Japan). As condições cromatográficas foram: temperatura do injetor, 260°C; modo de
injeção, sem divisão; coluna capilar, DB-5, 60 m de comprimento, 0,25 mm de diâmetro
interno, espessura de película de 0,25 µm (Agilent J&W); temperatura do forno, 45°C
mantida por 5 min, depois aumentada para 300°C a uma taxa de 5°C min−1; gás hélio a
uma pressão constante de 100 kpa; temperatura da linha de transferência, 250°C; faixa de
aquisição, 45–500 m/z. As condições do headspace foram Temperatura do forno: 70ºC;
Temperatura da linha de amostra: 150ºC; Temperatura da linha de transferência: 150ºC;
Temperatura de resfriamento do trap: 5ºC; Temperatura de desorção do trap: 250ºC;
Temperatura de equilíbrio do trap: 25ºC. Os cromatogramas foram monitorados no modo
SCAN e SIM.
Controles e Calibração
Foram utilizados padrões internos e curvas de calibração para quantificação dos
analitos, os padrões estão descritos na tabela abaixo, todos os padrões foram adquiridos
da empresa Merck – Sigma-Aldrich. Controles de qualidade devem ser analisados
juntamente com as amostras para assegurar a precisão e a confiabilidade dos resultados.
Tabela 3: Padrões escolhidos para monitoramentos do baixo Rio São Francisco
147
148
Fonte: Autores, 2024.
Foi utilizada a técnica (GC-MS/MS) - Cromatografia Gasosa Acoplada a
Espectrometria de Massas Triplo Quadrupolo, técnica que informará quais compostos
orgânicos considerados poluentes emergentes persistem na água e em sedimento.
Foi utilizado um cromatógrafo de gás com interface direta com um espectrômetro de
massa de armadilha de íons (Shimadzu, GC-MS-TQ8050 NX com um HS-20NX, Kyoto,
Japan). As condições cromatográficas foram: temperatura do injetor, 260°C; modo de
injeção, sem divisão; coluna capilar, DB-5, 60 m de comprimento, 0,25 mm de diâmetro
interno, espessura de película de 0,25 µm (Agilent J&W); temperatura do forno, 45°C
mantida por 5 min, depois aumentada para 300°C a uma taxa de 5°C min−1; gás hélio a
uma pressão constante de 100 kpa; temperatura da linha de transferência, 250°C; faixa de
aquisição, 45–500 m/z. Os cromatogramas GC/MS foram monitorados no modo SCAN
e SIM. As condições do headspace foramTemperatura do forno: 70ºC; Temperatura da
linha de amostra: 150ºC; Temperatura da linha de transferência: 150ºC; Temperatura de
resfriamento do trap: 5ºC; Temperatura de desorção do trap: 250ºC; Temperatura de
equilíbrio do trap: 25ºC.
As amostras utilizando as 4 técnicas de extração descritas foram caracterizados
utilizando uma abordagem qualitativa e os constituintes foram identificados por índice
de retenção (IR) (item 2.5); como também por similaridade e comparação dos espectros
de massas (>90%) obtidos com os fornecidos pela biblioteca do equipamento (NIST
08s, NIST 27, NIST 20). As análises foram realizadas no equipamento do Laboratório de
Sistema de Separação e Otimização de Processos (LASSOP).
INDICE DE RETENÇÃO (IR)
O Índice de Retenção (IR), também conhecido como Índice de Retenção de Kovats,
é um parâmetro utilizado em cromatografia gasosa para identificar compostos químicos.
Desenvolvido por Ervin Kovats em 1958, o IR permite a comparação padrão da eluição
de compostos químicos através de diferentes colunas cromatográficas e condições
operacionais. Ele é particularmente útil porque fornece uma maneira de descrever o
tempo de retenção de um composto de maneira que seja comparável entre diferentes
experimentos e laboratórios.
O Índice de Retenção é calculado com base nos tempos de retenção de
hidrocarbonetos não ramificados (alcanos) que são injetados na mesma coluna
cromatográfica sob as mesmas condições do composto de interesse. A fórmula para
calcular o IR de um composto é dada por:
149
Fonte: Autores, 2024.
Onde:
IR é o Índice de Retenção do composto.
n é o número de átomos de carbono no alcano mais próximo com tempo de retenção
menor que o composto.
N é o número de átomos de carbono no alcano mais próximo com tempo de retenção
maior que o composto.
tx é o tempo de retenção do composto.
tn é o tempo de retenção do alcano com
n átomos de carbono.
tN é o tempo de retenção do alcano com N átomos de carbono.
RESULTADOS
As análises das amostras não apresentaram pico interferentes, conferindo
seletividade ao método desenvolvido. A faixa de linearidade investigada para os padrões
(n=6), os coeficientes de correlação linear, limite de detecção (LD), limite de quantificação
(LQ) e valores máximos, estabelecidos pelo Ministério da Saúde na Portaria n. 518 de
2004.
Foram calibrados os padrões, com coeficiente de correlação linear (R2) variando
entre 0,981 a 0,996. Os limites de detecção para o método permaneceram na faixa de
0,005 a 1,0 µg L-1, e os limites de quantificação ficaram entre 0,001 e 0,003 µg L-1,
atendendo os valores estabelecidos pela legislação.
Todo o monitoramento analítico foi realizado utilizando a GC-MS/MS. O perfil
cromatográfico no modo SCAN é apresentado nas figuras 5 a 13.
Figura 5: Perfil cromatográfico no Modo Scan, dos compostos monitorados no Baixo São
Francisco em Piranhas.
Fonte: Autores, 2024.
150
Figura 6: Perfil cromatográfico no Modo Scan, dos compostos monitorados no Baixo São
Francisco em Pão de Açúcar.
Fonte: Autores, 2024.
Figura 7: Perfil cromatográfico no Modo Scan, dos compostos monitorados no Baixo São
Francisco em Traipu.
Fonte: Autores, 2024.
151
Figura 8: Perfil cromatográfico no Modo Scan, dos compostos monitorados no Baixo São
Francisco em São Brás.
Fonte: Autores, 2024.
Figura 9: Perfil cromatográfico no Modo Scan, dos compostos monitorados no Baixo São
Francisco em Propriá.
Fonte: Autores, 2024.
152
Figura 10: Perfil cromatográfico no Modo Scan, dos compostos monitorados no Baixo
São Francisco em Chinaré.
Fonte: Autores, 2024.
Figura 11: Perfil cromatográfico no Modo Scan, dos compostos monitorados no Baixo
São Francisco em Penedo.
Fonte: Autores (2024).
153
Figura 12: Perfil cromatográfico no Modo Scan, dos compostos monitorados no Baixo
São Francisco em Piaçabuçu.
Fonte: Autores, 2024.
Através do perfil cromatográfico comparativo das águas coletadas nos municípios
banhados pelo Rio São Francisco, podemos observar grandes semelhanças entre as
amostras. Essas similaridades são evidentes tanto nas amostras coletadas a montante,
jusante e intermediárias quanto entre os diferentes municípios. No entanto, o perfil
do município de Traipu (amostra Jusante) destacou-se significativamente devido à
complexidade e quantidade dos compostos detectados.
A análise cromatográfica revelou que, embora haja uma uniformidade geral nos
tipos de compostos presentes ao longo do rio, as concentrações e a diversidade de
contaminantes em Traipu foram notavelmente mais elevadas. Este município apresentou
uma variedade maior de poluentes, possivelmente indicando fontes específicas de
contaminação localizadas ou atividades antropogênicas mais intensas. A presença de
uma ampla gama de compostos químicos complexos sugere que fatores adicionais,
como descargas industriais, uso agrícola intensivo e outros despejos locais, podem estar
contribuindo para esta maior complexidade química.
Grande parte dos compostos identificados nas amostras de água são originários
da degradação natural do meio ambiente, como matéria orgânica proveniente da
vegetação, além de compostos comumente encontrados em corpos d’água. Esses
compostos incluem tanto produtos de decomposição de plantas quanto substâncias que
ocorrem naturalmente em ecossistemas aquáticos, como ácidos húmicos e fúlvicos, além
de nutrientes e minerais dissolvidos.
A presença desses compostos naturais, embora esperada, fornece uma linha
de base crucial para diferenciar entre poluentes antropogênicos e naturais. A análise
cromatográfica revelou perfis complexos, especialmente em áreas com maior atividade
biológica, onde a decomposição de matéria orgânica contribui significativamente para a
composição química da água.
Contudo, foram identificados também compostos de origem industrial e de
combustíveis, entre outros como: benzeno, etil benzeno, xilenos, tolueno, decanal,
naftalenos. Esses compostos incluem hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs),
solventes industriais, aditivos de combustíveis e subprodutos de processos de manufatura.
A presença desses poluentes antropogênicos indica influências significativas
154
de atividades humanas, como descargas industriais, vazamentos de combustíveis e
escoamento urbano. A detecção desses compostos é particularmente preocupante
devido ao seu potencial impacto negativo na saúde humana e nos ecossistemas aquáticos.
Muitos desses poluentes são persistentes, bioacumulativos e têm propriedades tóxicas
que podem afetar a fauna e a flora local.
A identificação precisa e a quantificação desses compostos são essenciais para
avaliar o nível de contaminação e para implementar medidas de remediação apropriadas.
Essas informações podem orientar políticas ambientais mais eficazes, promovendo
práticas industriais mais sustentáveis e a mitigação de impactos ambientais adversos.
Como mencionado anteriormente, a amostra coletada a jusante de Traipu apresentou um
perfil significativamente diferente das demais, o que será explorado com mais detalhes
a seguir.
Figura 13: Perfil cromatográfico no Modo Scan, dos compostos monitorados no Baixo
São Francisco em Jusante de Traipu com o ion 57.
Fonte: Autores, 2024.
Os compostos químicos presentes nessa revelam uma complexidade significativa
em termos de origem e potencial toxicidade. Dentre os compostos identificados, alguns
se destacam pela sua alta toxicidade e impactos adversos à saúde humana e ao meio
ambiente. Este texto aborda em detalhe os compostos mais preocupantes encontrados,
enfatizando suas propriedades tóxicas e os riscos associados à sua presença nos
ecossistemas aquáticos.
COMPOSTOS ALTAMENTE TÓXICOS
1. Hydrazine, methyl- (Methylhydrazine)
Methylhydrazine é um composto extremamente tóxico e carcinogênico, amplamente
utilizado como propelente de foguetes. Sua alta reatividade o torna particularmente
perigoso, causando danos severos ao sistema nervoso central, fígado e rins. Além disso,
a exposição prolongada pode resultar em efeitos mutagênicos, aumentando o risco de
câncer. No ambiente, este composto pode contaminar a água e o solo, representando
uma ameaça significativa para a vida aquática e para os seres humanos que entram em
contato com ele.
155
2. Butane, 1,1,3,4-tetrachloro-1,2,2,3,4,4-hexafluoroCompostos contendo cloro e flúor, como o Butane, 1,1,3,4-tetrachloro-1,2,2,3,4,4hexafluoro-, são altamente tóxicos e persistentes no meio ambiente. Eles têm a capacidade
de bioacumular-se nos organismos, causando efeitos a longo prazo tanto na saúde
humana quanto na vida silvestre. Esses compostos são conhecidos por sua estabilidade
química, o que dificulta sua degradação natural, tornando-os contaminantes duradouros
no ecossistema.
3. Piperazine, 1,4-bis[2-(3-chlorophenoxy)ethyl]As piperazinas substituídas, como a Piperazine, 1,4-bis[2-(3-chlorophenoxy)
ethyl]-, possuem propriedades tóxicas que incluem toxicidade aguda e potencial
carcinogenicidade. Este composto é frequentemente utilizado em aplicações industriais
e farmacêuticas, e sua liberação no ambiente pode levar a contaminações que afetam a
fauna aquática e a saúde humana através da cadeia alimentar.
4. Oxirane, dodecylOs oxiranos, como o Oxirane, dodecyl-, são compostos altamente reativos que
podem causar irritação severa aos olhos, pele e sistema respiratório. Alguns epóxidos são
suspeitos de serem carcinogênicos, tornando sua presença na água uma preocupação
séria. A exposição a esses compostos pode resultar em sensibilização e reações alérgicas,
além de potenciais danos crônicos à saúde.
5. Hexanal
Hexanal é um aldeído que pode causar irritação respiratória e cutânea. Em
concentrações mais altas, este composto pode ser tóxico, afetando negativamente o
fígado e os rins. No ambiente aquático, Hexanal pode impactar negativamente a qualidade
da água, afetando organismos que dependem dessa fonte para sobrevivência.
6. Nonanal
Semelhante ao Hexanal, o Nonanal é irritante para os olhos, pele e sistema
respiratório. Pode causar sensibilização e reações alérgicas em indivíduos expostos.
Sua presença em corpos d’água pode indicar contaminação por atividades industriais
ou agrícolas, afetando a biota aquática e potencialmente entrando na cadeia alimentar
humana.
7. Benzaldehyde
Embora encontrado em baixas concentrações em várias plantas, o Benzaldehyde,
em concentrações elevadas, pode causar irritação nos olhos, pele e trato respiratório.
Ele é moderadamente tóxico se ingerido e pode causar sensibilização cutânea. Na água,
Benzaldehyde pode afetar a vida aquática e representar riscos para a saúde pública.
8. Cyclohexane, 1,2,3-trimethylHidrocarbonetos cíclicos como o Cyclohexane, 1,2,3-trimethyl- são nocivos ao
sistema nervoso central e tóxicos por inalação. A presença deste composto na água indica
possíveis contaminações industriais e pode afetar a saúde dos organismos aquáticos e
humanos expostos.
156
Os pesticidas identificados na tabela 4 não tiveram valores acima do (LQ), portanto,
estão abaixo da concentração permitida segundo a Resolução CONAMA Nº 357. CONAMA
(2005).
Tabela 4: Compostos identificados nos 6 municípios do Baixo São Francisco utilizando o
método SPME/GC/MS, modo SIM.
Fonte: Autores, 2024.
A Tabela 5 apresenta os compostos identificados, utilizando o método SPME/GC/
MS no modo SCAN, em seis municípios do Baixo São Francisco.
Tabela 5: Compostos identificados nos 6 municípios do Baixo São Francisco utilizando o
método HS-SPME/GC/MS, modo SCAN.
Fonte: Autores, 2024.
157
A tabela 6 apresenta a classificação, enquanto sua aplicação, como também,
sua classe toxicológica segundo “Resolução da Diretoria Colegiada, RDC 294 (2019),
correlacionando com a ocorrência à jusante das cidades.
Tabela 6: Ocorrência e classificação dos pesticidas e substâncias químicas identificadas
nos 6 municípios do Baixo São Francisco.
158
Fonte: Autores, 2024.
Dentre os 14 compostos identificados, 3 são classificados como extremamente
tóxicos (I), 6 são classificados como altamente tóxicos (II) e 5 são classificados como
medianamente tóxicos (III). Na cidade de Pão de Açúcar, foram detectados lindane,
fluoroacetamida e tolueno, sendo dois deles altamente tóxicos. Em Traipu, os compostos
identificados foram heptachlorepoxide isomer B, lindane, 2,6,10,15-tetramethylheptadecane
e fluoroacetamida, incluindo um de extrema toxicidade e dois de alta toxicidade. Em São Brás,
foram encontrados heptachlorepoxide isomer B, lindane, 3-Trifluoroacetoxypentadecane
e fluoroacetamida, com três compostos idênticos aos encontrados em Traipu.
Propriá e Penedo apresentaram a maior diversidade de contaminantes pesticidas,
com a presença de DDT, aldrin, beta-BHC, lindane, y-chlordane, 1,4-diclorobenzeno,
fluoroacetamida, oxima-metoxi-fenil e tolueno. Em Penedo, foi adicionalmente detectado
o poluente 2-etil hexanol. Propriá e Penedo identificaram, respectivamente, 9 e 10 dos 31
poluentes estudados.
Um ponto de preocupação significativo é a presença do composto fluoroacetamida, um
raticida agudo e altamente tóxico, em todas as amostras coletadas nas seis cidades. Este
composto é conhecido por seus efeitos adversos severos à saúde humana e ao meio
ambiente.
Os dados das coletas de 2024 mostraram semelhanças notáveis com as coletas
anteriores, confirmando a persistência desses compostos tóxicos nos mesmos locais.
A identificação repetida de compostos como fluoroacetamida e lindane, tanto em 2021
quanto em 2022, sugere uma fonte contínua ou um comportamento persistente desses
poluentes no ambiente.
Com base na identificação desses compostos, foi realizada uma avaliação
bibliográfica detalhada sobre sua classificação toxicológica e os possíveis impactos
ambientais e à saúde humana. Os compostos classificados como extremamente e
altamente tóxicos, como lindane e fluoroacetamida, são conhecidos por causar sérios
efeitos adversos, incluindo neurotoxicidade, carcinogenicidade e toxicidade aguda em
organismos aquáticos e terrestres.
A presença contínua e disseminada desses poluentes enfatiza a necessidade
urgente de monitoramento ambiental constante e de estratégias eficazes de remediação.
Medidas rigorosas de controle e regulamentação são essenciais para mitigar os riscos
associados a esses contaminantes e proteger tanto a saúde humana quanto a integridade
dos ecossistemas aquáticos.
CONCLUSÃO
O método GC-MS/MS desenvolvido neste trabalho demonstrou ser fundamental
para determinar a presença de pesticidas no Baixo São Francisco, exibindo extrema
sensibilidade e seletividade. Este método atende aos requisitos na faixa de μg L-1, mesmo
na presença de matéria orgânica em diferentes concentrações. Os modos SIM e SCAN
aplicados na determinação dos pesticidas apresentaram resultados excelentes, mesmo
em amostras com altos níveis de matéria orgânica. Os limites de detecção e quantificação
encontrados foram baixos, porém suficientes para detectar essas substâncias em níveis
inferiores aos estabelecidos pela legislação nacional.
Nas amostras foram detectados grande quantidade de compostos, incluindo
organoclorados, inseticidas, fungicidas e hidrocarbonetos como naftaleno e tolueno.
Devido aos efeitos adversos que esses pesticidas podem causar à saúde e ao meio
ambiente, o monitoramento contínuo das águas é crucial para a qualidade de vida. O
estudo foi realizado na parte do Baixo São Francisco, abrangendo o trecho entre Paulo
Afonso e a foz do rio, com um trajeto de aproximadamente 214 km de extensão.
Este estudo mostrou-se essencial para alertar e conscientizar a população e os
responsáveis pela política pública e meio ambiente sobre a presença de contaminantes
perigosos na água. A ocorrência de novos contaminantes “não regulamentados” requer
159
um monitoramento mais constante e detalhado. Portanto, este estudo fornece subsídios
importantes para a implementação de novas políticas e regulamentações específicas,
fundamentais para alcançar e manter o equilíbrio saudável do meio ambiente. Além
disso, as semelhanças nos perfis de contaminantes observadas nas coletas de 2024 em
relação aos dados de 2022 e 2021 indicam a persistência e recorrência desses compostos,
reforçando a necessidade de ações imediatas e eficazes de remediação e prevenção.
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164
10. EVIDÊNCIAS DE CONTAMINAÇÃO MICROPLÁSTICA NO
BAIXO RIO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Ecotoxicologia.
Jerônimo Vieira Dantas Filho1
Jucilene Braitenbach Cavali1
Tatiane Luciano Balliano2
Sandro de Vargas Schons1
Elica Amara Cecilia Guedes2
Emerson Carlos Soares3
RESUMO
O objetivo deste estudo foi evidenciar a contaminação microplástica nos peixes e
nos camarões do Baixo Rio São Francisco. As pesquisas foram desenvolvidas durante a
Expedição Científica do Baixo São Francisco, realizada de 21 a 30 de novembro de 2023.
Estudo I - foram realizadas análises qualiquantitativas de partículas de microplásticos (MPs)
na água (jusante, montante e meio) e nos peixes (muco das brânquias e do tegumento,
conteúdo estomacal, sangue periférico e órgãos internos esôfago, estômago, intestino,
fígado, pâncreas, bexiga natatória e coração) dos municípios ribeirinhos do baixo São
Francisco de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu
no estado de Alagoas e Propriá no estado de Sergipe, e também foram realizadas
análises de água e nos peixes da foz. Amostras foram coletadas de um total de 66 peixes
selvagens. Estudo 2 – foram caracterizados os microplásticos em camarões silvestres
comercializados na praia do Pontal do Peba. Amostras de tecidos foram coletadas do
trato gastrointestinal, brânquias, músculos e exoesqueleto de um total de 88 camarões
selvagens. Houve maior abundância de microplásticos na água e no pescado no sentido
do fluxo do rio (em direção a foz), isso é devido ao acúmulo dos efluentes das cidades.
E, maior abundância de partículas microplásticas nos peixes carnívoros em comparação
aos onívoros e herbíviros, confirmando biomag-nificação na cadeia alimentar. Em relação
aos resultados nos camarões, a contaminação por microplásticos foi comprovada em
órgãos de Litopenaeus schmitti (exosqueleto com médias mais altas 997,20 MPs Ind.-1 e
brân-quias 793,44 MPs mL-1), Litopenaeus vannamei (maiores médias de tecido muscular
1.782,68 MPs Ind.-1 e 961,88 MPs mL-1) e Farfantepenaeus brasiliensis (maiores médias de
exoesqueleto 1.799,53 MPs Ind.-1 e 999,90 MP mL-1). As categorias de MPs encontradas
no trato gastrointestinal foram em sua maioria 325,33 MPs mL-1 de fragmentos, seguidas
de 196,45 MPs mL-1 de fibras. Enquanto nas brânquias as categorias encon-tradas foram
em sua maioria 329,89 MPs mL–1 de fibras, seguidas de 100,08 MPs mL–1 de fragmentos.
Quanto às categorias encontradas no tecido muscular foram em sua maioria 492,99 MPs
mL−1 de fibras, seguido de 472,60 MPs mL−1 de fragmentos. Enquanto no exoesqueleto
as categorias de MPs encontradas foram em sua maioria 404,09 MPs mL-1 de fibras,
seguidas de 472,60 MPs mL-1 de fragmentos.
1
Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Departamento de Engenharia de Pesca, Univer-sidade Federal de Rondônia (UNIR).
2
Instituto de Química e Biotecnologia e Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
3
Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos e Saneamento, Centro de Ciências Agrárias, Univer-sidade Federal de Alagoas (UFAL).
165
Os camarões silvestres estu-dados são excelentes indicadores da presença de
microplásticos no ambiente aquático. Informações quantitati-vas detalhadas sobre essa
contaminação podem auxiliar em ações conservacionistas para controlar o descarte de
plástico em áreas costeiras do Nordeste do Brasil.
Palavras-chave: Poluição Ambiental; Plásticos tóxicos; Poluição aquática; Seguridade
alimentar.
INTRODUÇÃO
Os rios são ecossistemas particularmente sensíveis às atividades humanas. No
Brasil, as bacias hidro-gráficas vêm sofrendo impactos significativos devido à exploração
intensiva dos recursos naturais, o que envol-ve práticas de mineração, desmatamento e
principalmente o descarte inadequado de efluentes das áreas urbanas nos rios. Diversos
estudos documentaram a deterioração da qualidade da água em decorrência das
ações antró-picas nos rios (CASTRO, 2019). A Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
(BHRSF), que possui aproxima-damente 640 mil km² e 2.800 km de extensão, enfrenta
problemas decorrentes das atividades humanas. A área abrange os estados de Goiás,
Distrito Federal, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, sendo dividida em
quatro regiões: alto, médio, submédio e baixo São Francisco (VILA-NOVA et al., 2015).
O baixo São Francisco é de grande relevância para a região Nordeste do Brasil,
devido à sua contri-buição para a geração de energia elétrica, irrigação, abastecimento
de água, agricultura, pesca, turismo e navega-ção (SOARES et al., 2023). E, caracterizase por possuir uma área de 32 mil km², correspondendo a 4% do total da bacia. O clima
é predominantemente quente e úmido com chuvas de inverno, embora na região existam
áreas com características semiáridas com curto período chuvoso no outono-inverno
(BEZERRA et al., 2012). Comparativamente, o baixo curso do rio possui dimensões
pequenas quando comparado aos demais, porém, concentra o maior número de
problemas relacionados às alterações hidrológicas, com danos às lagoas marginais que
são habitats importantes para a manutenção da fauna aquática (PAREDES-TREJO et al.,
2016).
Pontal do Peba é uma pequena vila turística pertencente ao município de Piaçabuçu,
estado de Alagoas, Brasil. Esta região litorânea do estado de Alagoas é reconhecida
pelo turismo por suas praias exuberantes e também é um paraíso ecológico com águas
cristalinas e animais silvestres (VIEIRA et al., 2017). Além disso, a praia do Pontal do Peba
é frequentada principalmente por turistas e pescadores, por isso a pesca e o comércio de
camarão são muito comuns na praia do Pontal do Peba. Outro detalhe é que esta região é
cercada por dunas e é onde o Rio São Francisco encontra o Oceano Atlântico. Infelizmente,
nos últimos meses o mar trouxe uma grande quantidade de resíduos plásticos e lixo
urbano para a praia do Pontal do Peba (SOARES et al., 2021). Devido à ampla distribuição
de espécies de camarões selvagens nesta região e ao seu hábito alimentar detritívoro
nos sedimentos de áreas rasas do mar próximas à praia (MILLARD et al., 2021). Portanto,
o camarão selvagem é um dos melhores bioindicadores de microplásticos (MILLARD et
al., 2021; CARVALHO et al., 2016).
Os plásticos são materiais versáteis, flexíveis, resistentes e muitas vezes uma opção
de menor custo para a fabricação de materiais e embalagens de uso diário, o que os
torna amplamente utilizados na sociedade moderna. Conforme relatado por ValenciaCastañeda et al. (2022), a produção global de plástico no ano de 2018 foi de 359 milhões
de toneladas, sendo que menos de 10% foi submetido a processos de reciclagem. O
aumento na produção de plástico está ligado à rápida expansão da população global,
e estima-se que anualmente entre 4,8 e 12,7 milhões de toneladas de fragmentos de
plástico chegam aos oceanos, principalmente através da descarga de resíduos plásticos
em rios durante períodos de fortes chuvas (KUNZ et al., 2023). Nestes casos, os rios
166
são sumidouros dessas par-tículas plásticas e, uma vez livres na natureza, é muito difícil
removê-las. Vários estudiosos pesquisaram métodos para eliminar essas partículas,
porém nenhum método ainda pode ser replicado em larga escala (PADERVAND et al.,
2020).
Os poluentes plásticos são provenientes de atividades humanas, como cosméticos,
indústria nacional e fontes de fármacos (GERMANOV et al., 2018; CÁRDENAS-ALCAIDE
et al., 2022), bem como de fontes secundárias, como decomposição mecânica, química
e/ou fotocatalítica, que pode incluir fibras originárias do setor têxtil (PRATER et al., 2010;
LI et Al., 2016). As partículas de plástico podem ser diferenciadas por tamanho como
microplásticos de 0,001 a 5 mm e por peso como nanoplásticos abaixo de 1 mg. Partículas
microplásticas (MPs) são morfologicamente identificadas como fibras, fragmentos e
microesferas, que por sua vez são categorizadas em frações de cor, azul, vermelho, preto,
transparente e outros (BHAGAT et al., 2021 A; BHAGAT et al., 2021 B).
Partículas de MPs são acessíveis na natureza e podem ser ingeridos por uma ampla
variedade de orga-nismos na terra e na água. De acordo com esta suposição, MPs foram
encontrados em várias espécies, incluindo zooplâncton, peixes, moluscos, crustáceos,
aves marinhas e mamíferos marinhos (UGWUN et al., 2021). Isto levou à ingestão de MPs
por muitos animais comercialmente importantes que são consumidos pelos humanos.
O con-sumo significativo de frutos do mar na região Nordeste do Brasil levanta sérias
preocupações sobre os possíveis impactos dos MPs na saúde humana (BARBOZA et al.,
2018). Algumas pesquisas foram realizadas sobre água, sedimentos, moluscos, peixes
e crustáceos no México (RAMÍREZ-ÁLVAREZ et al., 2020; LOZA-NO-HERNÁNDEZ
et al., 2021), porém nenhum estudo de MPs foi encontrado com camarões selvagens
cap-turados no Nordeste do Brasil, embora este marisco seja considerado comercial e
ecologicamente importante para o turismo no nosso país. No Brasil, o consumo anual
típico de camarão por pessoa é estimado em 0,3 kg (DI-BENEDITTO et al., 2022). No
entanto, há falta de informações científicas sobre a prevalência de partículas de MPs
na água, nos peixes em camarões capturados comercialmente pela pesca, apesar da
importância deste setor econômico para o turismo ao longo da costa tropical do Brasil.
A contaminação microplástica da água pode se estender às áreas costeiras, à
própria água, aos sedimentos, à terra, ao ar e aos corpos de água doce, como rios e
lagos. O crescimento urbano desenfreado das cidades costeiras do Brasil, aliado ao estilo
de vida inadequado desta população, está provocando uma maior presença de materiais
não biodegradáveis na água do mar e nas praias, principalmente aqueles derivados do
plástico, resultando em um volume substancial de resíduos sólidos (PEGADO et al., 2018).
No Brasil, é estimado pelo WWF que só no ano de 2019 foram geradas aproximadamente
11,3 milhões de toneladas de resíduos plásticos. Como resultado, o Brasil ocupa o 4º lugar
entre os maiores geradores de resíduos plásticos do mundo (BERTOLDI et al., 2021). Para
au-mentar o desafio, o Brasil ocupa a 112ª posição mundial em termos de infraestrutura
de saneamento e esgoto urbano (PENIDO et al., 2020), ficando atrás até mesmo de
algumas nações do Norte de África e do Médio Oriente com rendimentos per capita
mais baixos. As condições sanitárias nos municipios do interior da região Nordeste são
particularmente deficientes, com apenas aproximadamente 31,4% dos municípios tendo
acesso a alguma rede de esgoto funcional (MIRANDA et al., 2020).
O presente trabalho teve como objetivo analisar a abundância, tamanho,
morfologia e variações de cor de partículas de MPs encontrados na água, nos peixes e
nos camarões selvagens capturados pela pesca do Baixo Rio São Francisco. Esse estudo
é um marco a primeira pesquição-ação sobre a presença de MPs. As informações obtidas
Nossa hipótese é que a água e os animais estejam contaminados por partículas de MPs,
acumulados principalmente por ingestão, principalmente via trato gastrointestinal. As
origens primárias destas partículas são atribuídas a resíduos plásticos provenientes de
detritos de praia e resíduos de operações pesqueiras e agrícolas.
167
MATERIAL E MÉTODOS
ESTUDO 1
Foram obtidas 3 amostras de água em 8 trechos e foram amostrados 66 exemplares
pertencentes a 9 espécies de peixes comerciais do baixo São Francisco, Brasil. Amostramos
os exemplares durante uma Expedi-ção Científica de 21 a 30 de novembro de 2023, no
Baixo Rio São Francisco.
Os exemplares foram pescados com rede de arrasto (dimensões: 10m de
comprimento x 1,5m de lar-gura x 3m de altura e abertura de malha de 12 mm). Em
relação às pescarias foram realizadas próximas às cida-des ribeirinhas do baixo São
Francisco, que eram as cidades de Piranhas (9°45’3,06”S, 37°26’50,04”W), Pão de
Açúcar (9°48’51,48” ”S, 37°19’38,11”W), Traipu (9°59’17,57”S, 36°19’57,97”W), São Brás
(9°59’17,57”S, 36°19’57,97”W) , Propriá (10°12’27,28”S, 36°35’50,05”W), Igreja Nova
(10°15’7,20”S, 36°19’15,33”W), Pe-nedo (10°17’6,60”S, 36°35’8,12”W) e Piaçabuçu
(10°26’33,21”S, 36°25’19,83”W), todos pertencentes ao es-tado de Alagoas, Brasil. As
contagens e categorizações das partículas de microplástico (MPs) foram realizadas com
auxílio de microscópio estereoscópico Trinocular (Sigma, EUA) com ampliação de 4x até
40x.
Primeiramente, foi realizado um estudo de contaminação por MPs nas águas do rio
em cada ponto amostral das 8 cidades ribeirinhas, as coletas de água foram realizadas
em triplicata e foi adotado um esquema fatorial 8 × 3 x 3 inteiramente casualizado.
A amostragem de MPs foi realizada seguindo um método modifi-cado baseado na
Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA). Para a obtenção dos microplásticos foram feitos lances horizontais e verticais (4m de profundidade) com rede Neuston
(dimensões: 3,0 m de comprimento x 2,2 m de largura x 0,6 m de altura e abertura de
malha de 250 µm).
As amostras de água foram armazenadas em frascos de vidro de 125 mL e, para
observação imediata ao microscópio, essas amostras foram bombeadas e filtradas
em peneira de malha de 6,0 mm (BERTOLDI et al., 2021). Em seguida, a peneira foi
enxaguada com água estéril pré-filtrada e os microplásticos retidos foram transferidos
para um frasco contendo solução salina (0,85%) (BERTOLDI et al., 2021). Os sólidos
residuais foram transferidos para um Becker limpo utilizando 20 mL de água destilada e
foram contadas as partículas de MPs por mL. A quantificação e qualificação dos MPs foi
realizada em câmara de Neubauer com auxílio de micropipeta (gotas de 30 µL), após
garantia de higiene com água destilada e desinfecção com álcool 70°.
Imediatamente após a captura dos peixes, foram raspadas lâminas de vidro nas
brânquias e no tegu-mento (sempre do lado direito) para obtenção de muco dessas
regiões superficiais. As amostras de muco foram armazenadas em tubos Eppendorf de
5 mL e imediatamente observadas sob microscopia. O muco foi gotejado e analisado
6x em câmara de Neubauer com micropipeta (gotas de 30 µL), após higiene com água
destilada e desinfecção com álcool 70°.
Os estômagos dos peixes foram cuidadosamente retirados da cavidade abdominal
imediatamente após a captura, os estômagos foram fixados em formol a 10% e armazenados
em frascos de vidro âmbar de 125 mL. Após 3 dias de fixação, os estômagos foram
lavados com água destilada antes do corte e exterioriza-ção do conteúdo, em seguida o
conteúdo estomacal foi fixado em álcool 70º para observação em microscopia utilizando
leito de Neubauer e micropipeta (gotas de 30 µL). Os valores foram apresentados a
partir da conta-gem em partículas de MPs por mL de muco e conteúdo estomacal.
Foram separados em frascos de vidro os órgãos internos (esôfago, estômago,
intestino, fígado, pân-creas, bexiga natatória e coração) de cada indivíduo. Cada amostra
foi imersa em solução de NaOH (10 mol L-1) para digestão por cinco dias. As amostras
digeridas foram filtradas usando uma peneira de aço inoxidável (0,075 μm), o gel obtido
168
dessa filtração foi diluído em água destilada em encaminhada para observação sob
microscopia (ROJAS et al., 2023). A qualiquantificação e categorização foi realizada
conforme descrito no item 2.5 e as contagens foram apresentadas em partículas de MPs
por mL.
Foram realizadas as colheitas de sangue periférico de cada espécie de pescado
em cada um dos pontos amostrais, dos 8 municípios. Imediatamente após a captura
dos peixes, eles foram imobilizados com o uso das mãos após calçadas as luvas, e sobre
uma tolha úmida com água foi realizada a colheita do sangue periférico. De cada peixe
foi obtido cerca de 10 μL do sangue periférico por punção na artéria branquial direita,
utilizando seringa de 1 mL com agulha de 13mm x 0,38 mm sendo uma seringa para cada
indivíduo.
O sangue foi gotejado direto nas lâminas de vidro e os esfregaços foram conduzidos
em triplicata para cada peixe. Com microscópio as partículas de microplástico foram
contadas e categorizadas de acordo com a metodologia descrita no item 2.5. Os valores
foram apresentados a partir da contagem em partículas de MPs por mL de sangue
periférico.
Nas amostras de água, sangue, muco e conteúdo estomacal, as partículas de
MPs foram categorizadas morfologicamente em fragmentos e fibras filamentosas e nas
cores azul, preto, vermelho ou transparente, con-forme metodologias de Dantas Filho
et al. (2023). Na bancada do laboratório, ao quantificar cada ponto amos-tral, foram
colocadas placas de Petri com 50 mL de água destilada para realizar a contagem do
branco laborato-rial.
Para evitar a contaminação das amostras no laboratório, todos os instrumentos e
materiais foram cui-dadosamente lavados com água deionizada e pré-filtrada três vezes
antes do uso, o número de pessoas traba-lhando no mesmo espaço foi reduzido e todos os
pesquisadores usaram jalecos de algodão, máscaras e luvas nitrílicas durante o processo.
Materiais e amostras foram cobertos para evitar contaminação do ar. Para mais detalhes
sobre a metodologia de detecção e quantificação de resíduos sólidos (BERTOLDI et al.,
2021).
ESTUDO 2
Pontal do Peba é um ponto de passagem localizado no município de Piaçabuçu,
estado de Alagoas, Brasil (Figura 1). O ponto de passagem deu nome à praia adjacente,
praia do Pontal do Peba. A região é reconhecida pelo turismo por suas praias exuberantes
e também é um paraíso ecológico com águas cristalinas e animais silvestres. É uma
área de proteção ambiental que combate o desmatamento. Suas praias são muito
procuradas porque o mar é calmo, de águas translúcidas, e a areia é grossa. É frequentada
principalmente por moradores e pescadores, por isso a pesca e o comércio de camarão
são muito comuns na praia do Pontal do Peba. Outro detalhe é que esta região é cercada
por dunas e é onde o Rio São Francisco encontra o Oceano Atlântico.
Figura 1: Localização geográfica da praia do Pontal do Peba, estado de Alagoas, Brasil
169
Fonte: Autores, 2024.
Este estudo foi iniciado durante a expedição científica Baixo Rio São Francisco, realizada
de 21 a 30 de novembro de 2023 e organizada pela Universidade Federal de Alagoas.
Foram capturados 88 indivíduos na praia do Pontal do Peba, sendo 39 exemplares
de Litopenaeus schmitti Burkenroad, 1936 (Família: Penaeidae), 28 exemplares
de Litopenaeus vannamei Bo-one, 1931 (Família: Penaeidae), e 21 exemplares de
Farfantepenaeus brasiliensis Latreille, 1817 (Família: Penaeidae) (Figura 2).
Figura 2: Espécies de camarão capturados durante o estudo, os exemplares de
Litopenaeus schmitti (A), Litopenaeus vannamei (B) and Farfantepenaeus brasiliensis
(C) (Família: Penaeidae), pescados na praia do Pontal do Peba, estado de Alagoas,
Brasil.
170
Fonte: Autores, 2023.
Esses camarões pesavam 910 ± 110g e comprimentos que variavam de 39,5 ± 11,5
cm e eram pescados ativamente com rede de arrasto (pano com abertura de malha
entre 2,5 e 4 cm entre os nós) utilizada pelos barcos camaroneiros no porto pesqueiro
de Pontal do Peba. Os camarões foram transportados para o laboratório certificador e
embrulhados em papel alumínio antes de serem armazenados a uma temperatura de
-20°C. Posteriormente, foram descongelados em reci-pientes de vidro e lavados com
água tridestilada utilizando filtros de microfibra de vidro Whatman GF/F com tamanho
de poro de 0,45 μm para eliminar quaisquer sedimentos ou impurezas. O peso e o
comprimento total de cada exemplar de camarão foram então medidos e registrados
(18,5 ± 3,4g).
Os camarões foram divididos aleatoriamente em conjuntos de quatro e dissecados
para extrair amostras de seus órgãos internos – especificamente, trato gastrointestinal,
brânquias, músculos e exoesqueleto. O peso combinado de cada conjunto variou entre 88
± 12g. Estas amostras de órgãos internos foram cuidadosamente dissecadas e separadas,
com cada tecido pesado adequadamente. Para analisar microplásticos (MPs), os tecidos
de cada conjunto de ca-marões foram transferidos para frascos Erlenmeyer para digestão
usando uma mistura de ácidos (proporção 4:1 de ácido nítrico 65% para ácido perclórico
68%), seguindo os métodos descritos por De- Witte et al. (2014) e Devriese et al. (2015).
A solução filtrada foi filtrada usando um filtro de microfibra de vidro Whatman
GF/F com tamanho de poro de 0,45 μm, e o filtro foi então transferido para uma placa
de Petri de vidro para exame adicional. Os filtros foram examinados sob um microscópio
estereoscópico trinocular (Sigma, Japão) com ampliação de 40x para caracterizar e
contar as partículas de MPs (LI et al., 2016; VALENCIA-CASTEÑEDA et al., 2022). Os MPs
observados foram categorizados com base em sua forma, cor e tamanho, com medidas
feitas por meio de ocular equipada com escala micrométrica variando de 10 a 1600 μm.
Para identificar os MPs mais proeminentes nos tecidos, a coloração Nile Red (NR) foi
realizada utilizando uma solução preparada dissolvendo 1 mg de NR em 1 mL de acetona
(99,5%) diluída até um volume total de 100 mL (VALEN-CIA-CASTEÑEDA et al., 2022). A
microscopia de fluorescência foi então empregada para observar os MPs nos filtros sob
excitação de luz azul (457,5 ± 37,5 nm) (PENIDO et al., 2020). A abundância de MPs foi
estimada após verificação através da coloração NR (DE- WITTE et al., 2014; DEVRIESE et
al., 2015; VALENCIA-CASTEÑEDA et al., 2022).
A solução digerida foi filtrada (filtro de microfibra de vidro GF/F Whatman, tamanho
de poro de 0,45 μm) e o filtro foi transferido para uma placa de Petri de vidro para posterior
visua-lização. Os filtros foram observados em microscópio estereoscópico trinocular
(Sigma, Japão) com ampliação de 40x, onde as partículas de MPs foram caracterizadas
e contadas. As categorias, forma, cores das frações e tamanho das partículas de MPs
observadas na membrana do filtro foram identificadas [5, 9]. O tamanho das partículas de
MPs foi medido com uma ocular com escala micrométrica (10-1600 μm). Os itens de MPs
mais representativos nos tecidos foram verificados pela coloração Nile Red (NR) usando
uma solução estoque (1 mg NR dissolvido em 1 mL de acetona (99,5%) diluída em 100
mL) (VERMEIREN et al., 2020). Os MPs nos filtros foram observados sob um microscópio
de luz fluorescente (LEICA DMLS., Viena, Áustria) usando excitação de luz azul (457,5
± 37,5 nm) (SHIM et al., 2016). A abundância de MPs foi estimada após a verificação
pela coloração NR (VALENCIA-CASTEÑEDA et al., 2022). Com base nessas observações
morfológicas, as partículas foram classificadas em fibras, fragmentos e mi-croesferas e
divididas em cores, azul, vermelho, preto, transparente e multicolorido (DANTAS FILHO
et al., 2023).
Suprimentos necessários, como luvas, vidros higienizados, equipamentos de aço
inoxidável e um jaleco lavado regularmente, foram empregados para garantir o controle de
qualidade durante os procedimentos e observações das amostras. Todos os equipamentos
foram submetidos a limpeza completa com água triplamente destilada e seca em estufa
(>70 °C) antes do uso. Além disso, placas de Petri abertas com filtros foram utilizadas
171
para monitorar a potencial contaminação do ar durante os procedimentos. Para minimizar
o risco de gelatinização da amostra durante a digestão, foi incorporado um pré-filtro de
sucção. É importante notar que as amostras em branco foram criadas pela introdução
da solução da mistura ácida em frascos Erlenmeyer sem qualquer presença de tecido
(WU ET AL., 2020). A análise envolveu o cálculo da distribuição percentual de MPs com
base no seu tipo, forma, cor e tamanho em várias amostras de tecido. Isso incluiu a
determinação da concentração de MPs (partículas mL−1) no tecido (ww) e a quantidade
média de MPs (partículas por indivíduo, Ind.−1) por camarão, ajustada de acordo com o
peso do camarão.
A abundância de MPs foi demonstrada em termos de contagens médias para cada
cidade ribeirinha com desvio padrão. O teste de Mann-Whitney-Wilcoxon foi utilizado
para comparar o número de partículas de MPs no muco branquial, tegumento e conteúdo
estomacal e órgãos internos. Um teste de Kruskal-Wallis e um teste post-hoc pareado de
Wilcoxon Rank Sum foram utilizados para comparar o número de partículas microplásticas
entre peixes de diferentes hábitos alimentares. O teste de Spearman foi utilizado para
analisar a correlação do comprimento e peso padrão dos peixes com a abundância de
partículas microplásticas.
Em relação à análise estatística descritiva, inicialmente foi realizada uma ANOVA
unidi-recional para contrastar as quantificações de partículas nos órgãos do trato
gastrointestinal, brânquias, músculo e exoesqueleto. Ao longo da análise dos dados, a
significância estatística foi consistentemente mantida em um limiar de p <0,05. Todos os
resultados foram obtidos do RStudio Development Core Team, versão 3.5.3.
RESULTADOS
ESTUDO 1
Foram pescadas 9 espécies de peixes, sendo 5 espécies de hábito alimentar
carnívoro, 3 espécies de há-bito onívoro e 2 espécies de hábito herbívoro. As espécies de
peixes capturados foram, carnívoros: Cynoscion acoupa (pescada-amarela), Serrasalmus
rhombeus (piranha-preta), Pygocentrus nattereri (piranha-amarela), Ser-rasalmus brandti
(pirambeba), Hoplias microcephalus (traíra); onívoros: Haemulon sciurus (xira), Metynnis
ma-culatus (pacu-disco), Piaractus mesopotamicus (pacu); herbívoros: Leporinus sp.
(piau cutia) e Leporinus frideri-ci (piau-três-pintas).
Houve maior abundância de microplásticos (MPs) na água e no pescado no sentido
do fluxo do rio (em direção a foz) com exceção dos resultados do sangue periférico. Isso
é devido ao acúmulo dos efluentes das cidades. E, maior abundância de MPs nos peixes
carnívoros, confirmando biomagnificação na cadeia ali-mentar.
No geral, as partículas de MPs mais frequentes foram fibras transparentes (33%),
fragmentos pretos (30%) e transparentes (18%), fibras azuis (10%) e vermelhas (5%) e
outras (4%). As fibras transparentes representam, por exemplo, as fragmentações de
sacolas plásticas, os fragmentos pretos representam frações de poliestireno (PE) e
nylon (PA), fragmentos transparentes representam plásticos em degradação como, por
exemplo, garrafas PET, as fibras azuis representam presença de tecido como poliéster
(PI) e as fibras vermelhas representação a fração de polipropileno (PP).
Na água foi observada uma média de 211 partículas de microplástico por mL à
jusante, 306 partículas por mL à montante e 380 partículas de microplástico no meio
do rio. Ou seja, a concentração é maior próximo ao despejo do efluente e em seguida a
contaminação vai se acumulando no sentido do fluxo da água.
Os peixes capturados em Traipu, Penedo e Piaçabuçu apresentaram as maiores
médias de partículas de MPs no muco das brânquias e no tegumento, Traipu (235,37
e 109,35 partículas por mL), Penedo (108,75 e 108,53 partículas por mL) e Piaçabuçu
(254,52 e 153,83 partículas por mL) (Tabela 1).
172
Tabela 1: Média de partículas de MPs no muco das brânquias e do tegumento dos peixes
por município do Baixo São Francisco.
Fonte: Autores, 2024.
Esperava-se maior abundância de MPs nos peixes onívoros devido a serem filtradores
e planctônicos, porém peixes carnívoros apresentaram uma abundância média de 142,20
partículas de MPs por mL no muco das brânquias e no tegumento, enquanto os onívoros
apresentaram média de 98,11 partículas de MPs por mL e herbívoros 44,76 partículas de
MPs por mL no muco das brânquias e no tegumento.
As contagens de MPs no conteúdo estomacal dos peixes ainda não foram tabuladas
e serão apresen-tadas no próximo relatório parcial. No tecido dos órgãos internos foram
encontradas médias de 3.219,24 partí-culas de MPs na pirambeba, 761,72 partículas de MPs
no piau-três-pintas e 444,80 partículas de MPs no pi-au-preto. As principais categorias
de MPs observados foram fibras transparentes, fragmentos transparentes e pretos, além
disso foram nos órgãos internos que foram observadas as microesferas.
Em relação ao sangue periférico, as partículas MPs mais frequentes foram fragmentos
pretos (70%), fragmentos transparentes (20%), fibras azuis (6%) e outras (4%). Esperavase maior abundância de MPs nos peixes onívoros devido a serem filtradores e planctônicos,
porém, mais uma vez os peixes carnívoros apresenta-ram as maiores média de MPs cerca
de 210 partículas de MPs por mL 30% mais elevado que onívoros e 70% mais elevado que
os peixes herbívoros. Não foram encontrados MPs no sangue dos peixes em Piranhas,
92,21 partículas de MPs em Pão de Açúcar, 99,84 partículas de MPs em Traipu, 58,93
partículas de MPs em São Brás, 47,84 partículas de MPs em Propriá, 35,59 partículas de
MPs em Penedo, 47,88 partículas de MPs em Piaça-buçu e 24,96 partículas de MPs nos
peixes da foz do rio (Tabela 2).
Tabela 2: Média de partículas de MPs no sangue periférico dos peixes por município do
Baixo São Francisco.
173
Fonte: Autores, 2024.
A contaminação por microplásticos foi comprovada em camarões silvestres
Litopenaeus schmitti, Lito-penaeus vannamei, Farfantepenaeus brasiliensis da praia do
Pontal do Peba. A Figura 2 ilustra exemplos de partículas de MPs encontradas nos órgãos
de camarões selvagens da praia do Pontal do Peba, fibras de cores transparente (Fig. 3
A), azul (Fig. 3 B) e vermelha (Fig. 3 C). E fragmentos de cores transparentes (Fig. 3 D),
pretos (Fig. 3 E) e microesferas (Fig. 3 F). Na Figura 3 D, um fragmento multicolorido
está destacado pela seta e na Figura 3 D, a seta destaca fragmentos de nylon.
Figura 3: Exemplos de partículas MPs encontradas, fibras transparentes (A), azuis
(B), vermelhas (C); e transparente, multicolorido (D) – seta apontando para detritos
multicoloridos, fragmentos pretos (E) – seta apontando para detritos de nylon e
microesferas (F).
174
Fonte: Autores, 2024.
Os órgãos internos das espécies L. schmitti (maiores médias de exoesqueleto
997,20 MPs Ind.-1 e brânquias 793,44 MPs mL-1), L. vannamei (maiores médias de tecido
muscular 1.782,68 MPs Ind. -1 e 961,88 MPs mL-1), e F. brasiliensis (maiores médias do
exoesqueleto 1.799,53 MPs Ind.-1 e 999,90 MPs mL-1). Maiores abundâncias de partículas
microplásticas também foram observadas no exoesqueleto (maiores médias de F. brasiliensis 1.799,53 MPs Ind. -1 e 999,90 MPs mL-1) e no tecido muscular (maiores médias de L.
vannamei 1.782,68 MPs Ind. -1 e 961,88 MPs mL-1) em comparação ao trato gastrointestinal
(maiores médias de F. brasiliensis 1.154,11 MPs Ind. -1 e 622,72 MPs mL-1) e brânquias
(maiores médias de L. vannamei 1.545,68 MPs Ind. -1 e 793,44 MPs mL-1) (Figura 4).
Figura 4: Contaminação microplástica (MPs mL-1 e MPs Ind.-1) em órgãos de camarão
selvagem Litopenaeus schmitti, Litopenaeus vannamei, Farfantepenaeus brasiliensis
(comparado por ANOVA unidirecional).
Fonte: Autores, 2024.
As categorias de MPs encontradas no trato gastrointestinal foram em sua maioria
325,33 MPs mL-1 de fragmentos (destacando-se em 33,05% de cores pretas e 65,81%
de cores transparentes), seguidas de 196,45 MPs mL-1 de fibras (destacando-se em
25,47% de cores azuis, 18,87% de fibras) e 55,66% de cores transparentes, finalmente foi
encontrado um total de 11,12 MPs mL-1 de microesferas transparentes (Fig. 5 A). Enquanto
em brânquias as categorias de MPs encontradas foram em sua maioria 329,89 MPs mL-1
de fibras (destacando-se em 92,70% de cor transparente), seguidas de 100,08 MPs
mL-1 de fragmentos (destacando-se em 66,66% transparentes, 25,93% pretos e 7,41%
% cores multicoloridas), e finalmente foi encontrado um total de 7,41 MPs mL-1 de microesferas transparentes (Fig. 5 B). Em relação às categorias de MPs encontradas no
tecido muscular foram em sua maioria 492,99 MPs mL-1 de fibras (destacando-se em
82,71% de cor transparente), seguidas de 472,60 MPs mL-1 de fragmentos (destacandose em 60,31% de cores transparentes e 25,88% de cores pretas). , e finalmente foi
encontrado um total de 1,85 MPs mL-1 de microesferas transparentes (Fig. 5 C). Enquanto
no Exoesqueleto as categorias de MPs encontradas foram em sua maioria 404,09 MPs
mL-1 de fibras (destacando-se 74,20% das cores transparentes, 14,55% azul, 7,20% preto
e 4,05% vermelho), seguidas de 472,60 MPs mL-1 de fragmentos (des-tacando-se nas
cores 57,01% transparente, 21,66% preto, 15,92% vermelho e 5,15% azul), e finalmente foi
en-contrado um total de 2,20 MPs mL-1 de microesferas transparentes (Fig. 5 D).
175
Figura 5: Categorias e frações de cor de partículas microplásticas (MPs mL−1) em órgãos
de camarões selvagens (comparados por ANOVA unidirecional); (A) Trato gastrointestinal,
(B) brânquias, (C) músculo e (D) amostras de exoesqueleto.
Fonte: Autores, 2024.
DISCUSSÃO
Conforme afirmado por Cárdenas-Alcaide et al. (2022) e Dantas-Filho et al. (2023),
as agências governamentais de monitoramento ambiental e pesqueiro em todo o mundo
atualmente apresentam deficiências na implementação de medidas adequadas para
garantir a segurança ali-mentar. Isso se deve principalmente à ausência de diretrizes
internacionais sobre a regulação da abundância e quantificação de partículas de
microplásticos (MPs). Além disso, ainda há uma falta de consenso entre os cientistas
sobre as técnicas ideais para amostragem de partículas de MPs em tecidos animais para
fornecer evidências de poluição da água.
Pesquisas validadas e publicadas indicam que a dispersão e movimentação das
partículas de MPs em ambientes aquáticos são influenciadas principalmente por atividades
humanas (GARCIA et al., 2020), atributos físicos e químicos dos MPs (WANG et al.,
2017), fatores hi-drológicos (JIAN et al., 2019; YUAN et al., 2019) e condições climáticas
(HORTON et al., 2017). Portanto, esses fatores devem ser considerados para aprimorar
nossa compreensão da distribuição de microplásticos no ambiente (WONG et al., 2020).
Mintenig et al. (2019) propõem em seu estudo que, embora o plástico exiba durabilidade
e resiliência, uma explicação plausível para a presença de micropartículas plásticas na
água é a erosão de tubulações de esgoto e con-duítes compostos de amianto. Além disso,
Re et al. (2019) sugere a hipótese da introdução e transporte de microfibras sintéticas
através do solo e camadas de rochas para aquíferos e reser-vatórios de água. Segundo
Bi et al. (2022), o processo de urbanização e a consequente produção em larga escala de
resíduos sólidos frequentemente levam à contaminação de águas subterrâneas em todo
o mundo. Cao et al. (2019) afirmam que a intensa industrialização e a rápida expansão
urbana em áreas costeiras estão entre os fatores que contribuem para a degradação de
águas subterrâneas, superficiais e marinhas.
No que diz respeito à poluição de microfibras plásticas, estas são introduzidas
nos ecos-sistemas aquáticos através de microplásticos secundários, que são produzidos
176
pela fragmentação de fibras plásticas maiores (HORTON et al., 2017; XU et al., 2020).
Consequentemente, a pre-valência de MPs na água pode ser atribuída a várias origens,
incluindo o despejo de esgoto não tratado, escoamento de estradas, infiltração de lixiviados
de aterros, descarga de estações de tratamento de esgoto e descarte inadequado de
resíduos sólidos (XIONG et al., 2018). Investigar as fontes de MPs representa um desafio
considerável, dada a natureza complexa de seus meca-nismos de dispersão e transporte.
Com base em nossas análises microscópicas e dados de mi-croplásticos, inferimos que
as partículas encontradas nas praias provêm principalmente de fontes secundárias,
resultantes da degradação ou fragmentação de detritos maiores. Em ambientes aquáticos, os plásticos frequentemente persistem como entidades flutuantes por longos
períodos e podem se fragmentar em microplásticos sob a influência da luz solar ou
outros fatores climáticos (ENDRIN et al., 2019). Esta inferência é apoiada pelo notável alto
conteúdo de carbonila esti-mado em 58% (PEGADO et al., 2018). Além disso, o esgoto
doméstico representa outra fonte potencial de contaminação por microplásticos. Dado
que muitos locais estão situados próximos a zonas residenciais, o esgoto doméstico,
transportado por pequenos cursos de água, pode servir como um condutor significativo
para levar microplásticos primários às praias. Relatos na literatura indicam que pequenos
fragmentos plásticos representam um perigo potencial para organismos aquáticos, pois
podem ser ingeridos inadvertidamente e, subsequentemente, entrar na cadeia alimentar
(ENDRIN et al., 2019).
Quanto às classificações morfológicas dos MPs, fibras (tanto transparentes quanto
pretas) foram encontradas como predominantes em todas as amostras. Esses achados
estão em confor-midade com a literatura existente, que consistentemente relata fibras
como a categoria morfológica mais prevalente (KOELMANS et al., 2019; PAN et al., 2020).
A presença substancial de MPs coloridos sugere uma diversidade de fontes contribuindo
com plásticos para o meio ambiente. Além disso, a prevalência de microplásticos
transparentes e pretos pode ser atribuída à degradação de plásticos coloridos ao longo
do tempo devido à exposição à luz UV, estressores ambientais e resíduos de atividades
pesqueiras (GHOSH et al., 2023). Alguns pesquisadores observaram uma prevalência de
MPs incolores, notando que, embora essas partículas possam parecer brancas ou pálidas
na superfície, seus interiores revelam coloração após a fragmentação (BORRIELO et al.,
2023). Isso destaca o fenômeno dos MPs se tornarem incolores ou perderem cor no
ambiente.
Por outro lado, a significativa proporção de microplásticos transparentes aponta
para o uso de itens plásticos como sacolas, recipientes de alimentos, garrafas PET,
nylon e utensílios plásticos (KADA-CZAPSKA et al., 2023). Adicionalmente, fibras e
fragmentos pretos provavelmente originam-se da erosão natural dos pneus de veículos
em praias adjacentes a rodovias movimen-tadas, com a água da chuva facilitando seu
transporte para os ecossistemas aquáticos através de riachos e sistemas de drenagem
urbana (BALLENT et al., 2016). A presença de partículas de MPs em todas as amostras
coletadas fornece evidências contundentes da influência antropogênica como uma fonte
primária de materiais sintéticos, sublinhando a multiplicidade de fontes de po-luição. A
abundância de microplásticos coloridos pode estar ligada a itens plásticos utilizados em
embalagens de alimentos, representando uma parcela significativa (20,3%) da produção
total de plásticos do Brasil (GALLAGHER et al., 2016).
Valencia-Castañeda et al. (2022) detectaram MPs no trato gastrointestinal,
brânquias e exoesqueleto de camarões selvagens (Litopenaeus vannamei) que habitam
uma lagoa costeira localizada no sudeste do Golfo da Califórnia, México. Assim como
os achados do presente es-tudo, os tipos prevalentes de microplásticos foram fibras e
fragmentos transparentes, pretos e azuis, com tamanho médio de 403 μm. A abundância
de 114,7 no trato gastrointestinal, 13,7 nas brânquias e 3,0 no exoesqueleto por grama (g)
de amostras de tecido foi muito menor do que a abundância encontrada no estudo atual
na praia do Pontal do Peba. Valencia-Castañeda et al. (2022) observaram apenas 13,3
177
partículas de MPs por animal. No entanto, mesmo em quantidades menores, considerando
os padrões de consumo de camarão no México, juntamente com a pre-valência de MPs,
eles estimaram a ingestão de 280 partículas de MPs por pessoa por ano. Se essa estimativa
fosse estrapolada para o Brasil, a ingestão seria de 6.720 partículas de MPs por pessoa
por ano. Tipicamente, apenas através do consumo de camarão no Brasil, um indivíduo
consome em média 18 partículas de MPs por dia.
Gurjar et al. (2021) relataram valores médios de 64,8, 78,5 e 47,5 MPs g−1 no
trato gas-trointestinal de Parapeneopsis stylifera, Metapenaeus monoceros e Penaeus
indicus, respecti-vamente, amostrados em praias da região árabe. Wang et al. (2020)
observaram uma média de 7,8 MPs g−1 no trato gastrointestinal e nas brânquias de
Parapenaeopsis hardwickii coletados na Baía de Hangzhou, China. A abundância de MPs
no trato gastrointestinal em nosso estudo é compa-rativamente maior do que em outras
investigações realizadas em camarões penaeídeos. Quando se fala sobre a predominância
das categorias morfológicas das partículas de MPs, refere-se a frag-mentos e fibras de
microplásticos encontrados em ecossistemas marinhos (CAPPARELLI et al., 2021). A
presença de fragmentos de MPs pode ser atribuída à poluição originada de resíduos
plásticos descartados, comumente associados a atividades turísticas. Esses plásticos
degradam-se ao longo do tempo em fragmentos menores. Por outro lado, a ocorrência
de fibras está ligada a sistemas de esgoto subterrâneos ou escoamento não tratado de
riachos próximos a praias. Esse esgoto é frequentemente despejado em áreas costeiras,
juntamente com resíduos de operações de pesca (SIN et al., 2023).
Uma prevalência semelhante de detritos de fibras e fragmentos foi observada
em praias, consistente com achados em camarões selvagens L. vannamei (VALENCIA;
CASTAÑEDO, 2022), bem como em outros estudos envolvendo espécies de camarões
penaeídeos como M. monocerous, Penaeus monodon, F. indicus, P. hardwickii e
Metapenaeus affinis (HOSSAIN et al., 2020; DANIEL et al., 2020; WU et al., 2020;
KESHAVARZIFARD et al., 2021). Ao con-trário dos microplásticos, os resíduos
macroplásticos demoram mais para se decompor em pedaços menores (WEINSTEIN
et al., 2016), tornando-se menos propensos a serem ingeridos por ca-marões devido
ao seu tamanho maior. Consequentemente, espera-se encontrar menos pellets, films de
nylon e fragmentos nos tecidos dos camarões. No entanto, os altos níveis persistentes
de partículas de microplásticos encontrados em camarões da praia do Pontal do Peba ao
longo de vários anos confirmam o processo de biomagnificação.
Essas partículas de MPs transparentes, pretas e azuis predominantes observadas
no estudo atual e a predominância de fibras e fragmentos em amostras ambientais são
resultados comuns em estudos de MPs. Esses detritos multicoloridos têm sido associados
à poluição de resíduos de cidades, estradas movimentadas, nylon de redes de pesca,
cordas e roupas de pesca, além de roupas lavadas (CHOUDHURY et al., 2021). A prevalência
de MPs transparentes foi docu-mentada em espécies de camarões como L. vannamei do
Equador e da Malásia (HOSSAIN et al., 2020), assim como em M. affinis do noroeste do
Golfo Pérsico (KESHAVARZIFARD et al., 2021). Além disso, estudos relataram a presença
de partículas de MPs em diversos organismos, incluindo crustáceos decápodes. Um
exame abrangendo a ingestão de MPs por espécies de ca-marões penaeídeos de diversas
regiões foi delineado (DANTAS FILHO et al., 2023). Em dife-rentes áreas e espécies de
camarões, a cor de fragmento mais frequentemente observada foi preta, seguida por
azul e vermelho (CÁRDENAS-ALCAIDE et al., 2022).
Foram encontramos estudos sobre MPs apenas para camarões selvagens da espécie
L. vannamei, que tem um hábito alimentar onívoro; devido a essa variedade dietética,
eles podem ingerir pellets de cerca de 700–3000 μm (VALENCIA-CATAÑEDA et al.,
2022). Portanto, quando examinados como camarões adultos, eles podem ter acumulado
predominantemente partículas de MPs que variam de 251 a 500 μm. Vale ressaltar que
camarões selvagens são de-tritívoros, ou seja, alimentam-se de sedimentos localizados
no fundo do mar, potencialmente aumentando seu contato com MPs presentes em
178
substâncias sedimentares. Fundamentalmente, os camarões servem como indicadores
valiosos da presença de microplásticos em ecossistemas aquáticos. Eles dependem de
uma ampla gama de quimiorreceptores, localizados em suas ante-nulas, para detectar
alimentos (DALL et al., 1990; CURREN et al., 2020).
Crustáceos como os camarões possuem um exoesqueleto que precisa ser trocado
para que possam crescer. Durante a fase de proecdise, uma nova cutícula se forma sob
a antiga, que é subsequentemente descartada (ecdise). Pouco antes da muda, o cálcio é
reabsorvido do exoes-queleto, amolecendo a carapaça para a remoção (DALL et al., 2020).
Após a ecdise, o cálcio armazenado é utilizado para endurecer a nova cutícula. Apesar
desse processo, o estudo atual encontrou uma abundância significativa de partículas de
MPs, sublinhando a gravidade da po-luição por MPs. Essas partículas de MPs podem se
associar com o cálcio na matriz do exoes-queleto, sendo absorvidas pela superfície do
exoesqueleto ou ligando-se à matriz interna do exoesqueleto após a absorção (VALENCIACATAÑEDA et al., 2022). Nossa teoria postula que MPs e seus resíduos tóxicos poderiam
se calcificar dentro da carapaça ainda macia do animal pós-muda, persistindo até a
ecdise subsequente, semelhante ao comportamento observado com metais. No entanto,
mais pesquisas são necessárias para investigar esse mecanismo de forma abrangente,
particularmente replicando estudos sobre os resíduos poliméricos de nanoplásticos em
organismos aquáticos. Duan et al. (2021) observaram em L. vannamei que MPs afetam
a mi-crobiota intestinal e o sistema imunológico, enquanto Hsieh et al. (2021) notaram
que MPs de polietileno impactam enzimas antioxidantes, elevando consequentemente
o conteúdo de peróxido lipídico e causando danos à glândula digestiva média e às
brânquias.
Alguns pesquisadores estimaram o quanto de partículas de MPs, os humanos
ingerem através do consumo de espécies aquáticas de peixes e mariscos (KIBRIA, 2023).
Nessas inves-tigações, quatro fatores (como hábitos alimentares) são normalmente
levados em consideração para avaliar a exposição humana a toxicidade dos MPs, incluindo
(1) o consumo médio per capita de camarão e peixe no país ou região específica, (2) a
abundância de MPs encontrados na água potável, (3) o efeito significativo do cozimento
dos alimentos no conteúdo de MPs, e (4) consi-derar cenários menos comuns (a
forma ou o corte comercial do organismo aquático, se houve contaminação durante o
processamento e descarte industrial) (PIRONTI et al., 2021) No entanto, os impactos das
partículas de MPs e seus resíduos tóxicos na saúde humana através do consumo de frutos
do mar ainda são pouco compreendidos, necessitando de mais pesquisas abrangentes e
práticas para elucidar as implicações para a segurança alimentar humana (BARBOZA et
al., 2018).
Infelizmente, já se pode dizer que apenas reciclar resíduos plásticos não é suficiente
e não resolve o problema da poluição por MPs. A produção exponencial de plástico e a
consequente poluição de seus resíduos estão finalmente sendo percebidas como um dos
fatores relevantes da crise ambiental. Muitos cientistas concordam que os plásticos estão
amplamente distribuídos na atmosfera, no solo e subsolo, e na água, já fazendo parte
do registro fóssil da Terra (KUMAR et al., 2021). De acordo com o Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), aproximadamente 400 milhões de toneladas
de resíduos plásticos estão sendo geradas atualmente. E, se as tendências históricas
de crescimento forem mantidas, a produção global de plástico primário alcançará 1,1
bilhão de toneladas por ano até 2050. As previsões sugerem que, até 2050, o volume de
emissões de gases de efeito estufa vinculadas à fabricação industrial, utilização e descarte
de plásticos convencionais derivados de combustíveis fósseis pode ultrapassar 56 gigatoneladas, o que representaria entre 11,5% de todo o balanço de carbono restante. Esse
mesmo ano 2050 será também o ano em que as tendências de que haverá mais plástico
do que peixes nos oceanos se manterão (SHARMA et al., 2021).
179
Um outro desafio a ser considerado, é que a indústria petroquímica e os produtores
de plástico focam sua atenção na gestão de resíduos sólidos e na reciclagem com o
objetivo de ofuscar sua responsabilidade pelo verdadeiro problema ambiental, que é o
crescimento no volume de plásticos produzidos (SILTALOPPI et al., 2021). Portanto, a
maior parte da culpa não é dos maus hábitos da população, mas sim dos incentivos à
produção de resíduos tóxicos. No entanto, a situação é tão grave que, mesmo com todo
o marketing promovido pela indústria, a população está se conscientizando de que é
imperativo reduzir a produção de plásticos devido à toxicidade de seus resíduos tóxicos,
e, consequentemente, o movimento de organizações, não de governos, está carregando
essa bandeira da poluição tóxica do plástico.
CONCLUSÕES
Houve maior abundância de microplásticos (MPs) na água e no pescado no sentido
do fluxo do rio (em direção à foz), isso é devido ao acúmulo dos efluentes das cidades
ribeirinhas. E, maior abundância de MPs nos peixes carnívoros em comparação aos onívoros
e herbíviros, confirmando biomagnificação na cadeia alimentar. Os camarões selvagens
examinados servem como indicadores excepcionais da presença de partículas de MPs e
polímeros nos ambientes aquáticos, devido à sua tendência de se alimentarem no fundo
do mar. Informações quantitativas detalhadas sobre a contaminação por MPs podem
ajudar nos esforços de conservação voltados para a gestão do descarte de plásticos nas
regiões costeiras do Nordeste do Brasil, considerando que a área de pesquisa abrange
simultaneamente zonas urbanas, turísticas e agrícolas. Esta pesquisa pioneira destaca a
contaminação por MPs em pescados de diferentes espécies. Assim, este estudo defende
o monitoramento de partículas de MPs em espécies sel-vagens considerados como frutos
do mar, e além disso, possuem importância tanto ecológica quanto comercial.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos o apoio do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais
(PGCA) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), e o suporte financeiro do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)/ Fundação Rondônia de
Amparo ao Desenvolvimento das Ações Científicas e Tecnológicas e à Pesquisa do Estado
de Rondônia (FAPERO) por conceder bolsa de pós-doutorado ao Prof. Dr. Jerônimo
Vieira Dantas Filho.
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185
11. CARACTERÍSTICAS DA ATIVIDADE PESQUEIRA NAS V
E VI EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Engenharia de Pesca
Vanildo Souza de Oliveira1
Rodrigo Victor Marinho de Sá2
RESUMO
Está pesquisa aborda os resultados da V e VI Expedição Científica do baixo São
Francisco. Na V Expedição foram colhidas informações sobre os custos de uma canoa
para a pesca, cujo o preço fica em torno de R$ 4.000,00 já com o motor. Também foi
registrado a construção de canoas com fibra de vidro que é um pouco mais caro, cerca
de 6.000,00. Segundo os pescadores, após as chuvas (cheias), voltaram aparecer as
espécies que não eram mais encontradas, isso porque com as chuvas as várzeas encheram
possibilitando assim a reprodução dos peixes, espécies como: pilombeta, xira, piau
cutia e mandim. Na Cidade de Pão de Açúcar, destaca-se a abundância de pirambebas,
chegando as capturas de: pirambebas, piranhas e pacu disco a alcançarem 91% do total
das capturas. Essas observações de dominâncias, indicando um desequilíbrio entre as
espécies, causado pela marcante presença das pirambebas no ambiente. Essa situação,
mostra a necessidade de repovoamento com grandes predadores de espécies nativas
que já não existem mais no baixo São Francisco. A VI Expedição não encontrou padrões
que demostrassem melhorias durante esses seis anos, principalmente quanto as espécies
capturadas pela atividade pesqueira. O número de espécies sem valor econômico, domina
a maior parte da produção tornando a atividade pesqueira, mais de sobrevivência do que
como atividade econômica rentável. Observou-se uma maior presença de espécies que
não foram registradas nas expedições iniciais, em todas as entrevistas com os pescadores
eles disseram que o aparecimento dessas espécies foi devido as cheias, que possibilitaram
a formação de lagoas que funcionam como local de reprodução de várias espécies. O
que demostra a importância de garantirmos cheias artificias nos períodos de secas para
que essas espécies possam se reproduzir.
1
Professor doutor. Departamento de Pesca e Aquicultura (Depaq), Universidade Federal Rural de Pernambuco.
2
Estudante de Engenharia de Pesca. Departamento de Pesca e Aquicultura (Depaq), Universidade
Federal Rural de Pernambuco.
186
INTRODUÇÃO
As Expedições do Baixo São Francisco cobrem uma área de pesquisa que vai
desde a cidade de Piranha até a cidade de Piaçabuçu, onde é possível observar várias
condições topográficas que afetam as características do rio, e com isso a ocorrência de
certas espécies que são capturadas pela pesca artesanal.
Nesse trajeto, é possível registrar várias fontes de impactos que interferem na
atividade pesqueira, desde poluição de esgoto sanitário a proliferação de macrófitas.
Nessa região a pesca é intensa e de grande potencial, sendo praticada, em sua maioria,
por pescadores artesanais e com muitos pontos de desembarque, embora no município
de Piaçabuçu (com 35% do efetivo de pescadores) apresente alguma atividade semiindustrial (AECID, 2008).
A atividade tem forte componente social, com os diferentes ecossistemas que
compõem a região (estuário, rio e mar), contribuindo para uma oferta diversificada de
pescado. Adicionalmente, a poluição, o desmatamento e o assoreamento, a degradação
das lagoas marginais, presença de espécies exóticas e a pressão pesqueira descontrolada
vêm influenciando negativamente a produção pesqueira na região, bem como na
distribuição espacial das espécies em relação aos ambientes (SOARES et al., 2011).
Os dados na V Expedição Científica, foram obtidos através de informações em
reuniões nas colônias de pesca, realizadas nas localidades em que foram possíveis,
procurou-se obter informações genéricas a respeito da produção pesqueiras e sobre
quais as principais dificuldades enfrentadas pela atividade pesqueira.
A coleta da ictiofauna foi realizada com redes de emalhar com comprimento de
malhas, entre nós, de 50mm, 45mm,35mm e 30mm, tendo 600m de comprimento, cada.
As redes eram colocadas no final da tarde e recolhidas na manhã seguinte, passando em
média 16 horas de pesca.
Em cada rede eram registrados o total capturado de cada espécies, assim como o
comprimento da malha da rede. O fato de a Expedição ter um tempo limitado em cada
cidade visitada, e com isso só ser possível a realização de uma coleta, nos fornece uma
possível tendencia pontual sobre as espécies capturadas. Dessa forma, iniciaremos com
os resultados da V (2022), e em seguida com a VI Expedição (2023), concluindo com
recomendações referentes as duas expedições.
SITUAÇÃO DA ATIVIDADE PESQUEIRA NAS CIDADES E POVOADOS VISITADOS NA
V EXPEDIÇÃO.
Cidade de Piranhas
A expedição chegou na cidade de Piranhas no dia 3 de novembro, onde entrevistamos
os pescadores da Colônia Z30 (Figuras 01 e 02), que segundo o presidente tem 242
pescadores que pescam na sua maioria com redes de emalhar e covos. Utilizam canoas
de madeira, cujo o preço fica em torno de R$ 4.000,00 já com o motor.
Também foi registrado a construção de canoas com fibra de vidro é um pouco mais
caro, cerca de 6.000,00 (Figuras 03 e 04), no entanto evita toda a questão ambiental de
utilização de madeira e de manutenção que é infinitamente menor. As canoas de madeira
são construídas na própria comunidade, geralmente com pranchas de piqui. Atualmente
existe cerca de 100 embarcações de pesca. Segundo os pescadores, com um ano de
muitas chuvas resultaram em uma maior quantidade de peixes, principalmente a Xira e o
piau.
Todos os pescadores, que estão cadastrados na colônia, recebem o seguro defeso
que vai de novembro a fevereiro. Um registro inusitado em nossas coletas, nesta cidade,
veio na rede de malha 50 mm com fio 0,25mm, um peixe xaréu. Esse peixe é característico
do mar, vive nos oceanos e tem uma enorme capacidade para tolerar uma variação muito
187
grande de salinidade, sendo classificado como eurialino, normalmente é capturado
nas áreas costeiras e em mar aberto. No entanto, esse indivíduo juvenil com 30cm de
comprimento foi capturado a mais de 200 km da foz, na cidade de Piranhas (Figura 05)
Figuras 01 e 02:Colônia Z-30 de Pescadores da cidade de Piranhas.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Figuras 03 e 04: Canoa revestida com fibra de vidro em Piranhas.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Figura 05: Juvenil de Xaréu com 30 cm, capturado na cidade de Piranha, em rede de
emalhar com fio 0,25 e malha de 50mm.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
188
Cidade de Gararu
Na cidade de Gararu, a colônia possui inscritos cerca de 1800 pescadores. Relataram
que o maior problema que eles têm atualmente é a concorrência com a pesca de mergulho
e dizem que esse tipo de pesca é muito danoso para as espécies, pois captura os maiores
reprodutores. Ressaltaram a grande presença de pirambeba nas capturas e que seriam
necessárias mais ações, pelos órgãos competentes, como o repovoamento de espécies
como a xira.
Povoado de São Brás
Em São Brás, segundo os pescadores, após as chuvas, voltaram aparecer as
espécies que não eram mais encontradas, isso porque com as chuvas as várzeas
encheram e possibilitaram a reprodução dos peixes, espécies como: pilombeta, xira, piau
cutia e mandim. Espécies como tubarana, curvina e pirá, eles disseram que continuam
sem aparecer. Uma das espécies que mais reproduziram, segundo os pescadores foram
os piaus, com as seguintes espécies :piau preto, branco, cutia e amarelo. Segundo eles
as cheias de novembro do ano passado (2021), aprofundaram mais o rio, levou grande
parte do lodo (macrófitas) do fundo e as baronesas na superfície, promovendo também
o enchimento em algumas várzeas, que serviram de berçário para os peixes.
Cidade de Propriá
Em Propriá, na colônia Z8 a presidente Dilma, relatou que conta com 500
pescadores inscritos, abrangendo :Propiá, Telha, Nossa Senhora de Lurdes, Gararu e
Taioba. A espécie que mais capturam é a pirambeba, dizem que de três partes, duas é de
pirambeba. Registraram que o aragú e o lambiá apareceram bastante depois das cheias.
Em Propriá foi possível visitar o mercado de peixes, onde diferentemente das outras
vezes, havia espécies nativas como os piaus (Figura 06), onde também foi encontrado pela
primeira vez, as três espécies: o preto (três pintas), o cutia (com nadadeiras amarelas) e
o branco (com uma pinta no início da cauda) (Figura 07). Além das espécies de cativeiro:
tilápia e tambaqui (Figura 08). Foi encontrado apenas um peixe dourado a venda, que foi
capturado no médio São Francisco (Figura 09).
Figuras 06 e 07: Bastante piaus a venda no mercado de Propriá. O preto (três pintas), o
cutia (com nadadeiras amarelas) e o branco (com uma pinta no início da cauda).
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
189
Figuras 08 e 09: Peixes de cultivos, presentes em todas as expedições, tilápia e tambaqui,
no mercado de Propriá. Dourado encontrado no mercado de Propriá, capturado no médio
São Francisco.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Povoado de Chinaré
Em Chinaré, a Colônia de Pescadores registra cerca de 1600 pescadores de vários
municípios próximos (Figuras 10 e 11). Dentre as espécies mais capturadas por eles estão:
pilombeta, piau cutia, aragú e lambia que voltaram a aparecer, assim como o tambaqui
que apareceu, devido ao rompimento de viveiros com as cheias. Também relataram a
presença do peixe panga, provavelmente por esses mesmos motivos. Outra espécie que
vem aparecendo, segundo eles, é o pirarucu nos lagos, certamente também por fuga de
cativeiros. Quanto aos aparelhos de pesca, além de redes de emalhar, eles pescam com
covos para captura de camarão, usam em média 300 covos com iscas de bolo de arroz,
segundo seus relatos em dia de pesca bom, capturam 10kg, em dia ruim 2 kg.
Figuras 10 e 11: Reunião com os pescadores divulgando os trabalhos científicos da
Expedição.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
190
Cidade de Penedo
Na cidade de Penedo, os pescadores relataram o retorno da presença de espécies
como: piau cutia e muitos aragús e lambiás, em função das cheias do ano passado e
desse ano. A Pilombeta retornou forte, segundo os pescadores, 30kg era R$30,00 agora
com maior abundância baixou para R$ 12,00, tem até robalo e piau cutia nas lagoas.
Nessa cidade foi observado uma das necessidades, quanto a assistência técnica, para
a atividade pesqueira no baixo São Francisco, o armazenamento e processamento do
pescado. Encontramos o pescado sendo eviscerado e lavado no porto de Penedo, mesmo
local em que os carros são lavados como mostra a (Figura 12). A falta de assistência
técnicas, para que esses pescadores saibam do risco de contaminação do pescado
durante o processamento, e que podem trazer prejuízos caso vitimize alguém. Parece
permanecer o costume, que lavou nas águas do rio, está purificado, não importa, mesmo
que esteja próximo a descargas de esgotos sanitários.
Figura 12: Evisceração e limpeza do pescado no porto de Penedo.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
191
Cidade de Piaçabuçu
Sem dúvida essa é a cidade que recebe o maior número de barcos de pesca de
várias modalidades, tanto do rio, como de água doce (Figura 13). A grande maioria opera
no rio com canoas que pescam principalmente a pilombeta, essa pesca é realizada de
noite onde as redes cruzam o leito do rio, ficando de um lado uma boia luminosa e do
outro a canoa com o pescador com uma lanterna (Figura 14), para auxiliar a navegação.
Essa pescaria, geralmente acompanha a vazante da maré. Existe também canoas que
pescam na zona estuarina e fora da foz (Figura 15), principalmente de linha de mão e
espinhel para peixes e tubarões (Figuras 16 e 17). A pesca estuarina ou fora da barra pode
ser realizada com as canoas ou em embarcações motorizadas maiores, que pescam em
alto mar, ou fazem arrasto de camarão. Por essa grande atividade pesqueira na cidade, é
possível encontrar facilmente na rua que margeia o rio em Piaçabuçu, além de frigoríficos
de peixes, vários varais com peixes secando ao sol (Figuras 18 e 19).
Figuras 13 e 14: Porto de Piaçabuçu e despesca da rede de pilombeta, após uma noite
de pescaria.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Figura 15: Canoas de pesca na foz do São Francisco.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira
192
Figuras 16 e 17: Pesca com espinhel na Foz do São Francisco.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Figura 18: Pesca com espinhel na Foz do São Francisco. Peixes secos e salgados no Porto
de Piaçabuçu.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Figura 19: Peixes secos e salgados no Porto de Piaçabuçu.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
193
CARACTERISTICAS DAS COLETAS COM REDES DE EMALHAR
Cidade de Piranhas
Por ser localizada próxima da barragem de Xingó, possui um ambiente aquático
muito dinâmico, com corredeiras que tende a ser mais um ambiente lótico do que lêntico.
Isso fica claro, com a maior concentração de peixes que se adaptam e esse ambiente
como piaus branco e preto (Figura 20), que juntos representam 61% das capturas. Como
esperado nessa cidade, as pirambebas que se adaptam a ambientes mais lênticos, tiveram
baixa representação (Figura 21).
Figura 20: Abundancia de piaus, nas redes de emalhar na cidade de Piranhas.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Figura 21: Capturas em relação as espécies na cidade de Piranhas.
Fonte: Autores, 2023.
194
Cidade de Pão de Açúcar
Com as águas mais lênticas nessa localidade, destaca-se a presença das pirambebas
(Figura 22), seguida pelo pacu disco, duas espécies de baixo valor comercial, chegando
as capturas de pirambebas (Figura 23), piranhas (Figura 24) e pacus disco (Figura 25),
alcançarem 91% do total das capturas. Essa grande presença de pirambebas é motivo de
descontentamento por parte dos pescadores, pois além de ter menor valor econômico,
ainda predam as outras espécies de maior valor econômico que ficam presas nas redes
(Figura 26). Realmente a proporção de pirambeba em Pão de Açucar, chama atenção
tornando-se, possivelmente, o ambiente ideal para sua reprodução.
Figura 22: Capturas em relação as espécies na cidade de Pão de Açúcar.
Fonte: Autores, 2023.
Figura 23: Pirambeba capturada na rede de emalhar.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
195
Figuras 24 e 25: Piranha verdadeira e pacu disco, capturados em redes de emalhar.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Figura 26: Espécies predadas, nas redes de emalhar, pelas pirambebas e piranhas.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Povoado de Lagoa Comprida
Em Lagoa Comprida foi registrado a mesma tendencia de dominância das espécies
de baixo valor econômico (pirambeba, piranha e pacu), sendo as três equivalentes a 50
% da produção total, seguidos pelos piaus: branco, preto (três pintas) e cutia. Já sendo
registradas, em menor número, presenças de espécies, que não eram encontradas antes
das cheias como: cari, piau cutia e lambiá (Figura 27).
196
Figura 27: Capturas em relação as espécies na cidade de Lagoa Comprida.
Fonte: Autores, 2023.
Cidade de Propriá
Em Propriá, fica evidente que na medida em que o rio toma aspectos mais lênticos
a pirambeba e o pacu parece dominar o ambiente com suas presenças em maior
quantidade. A proporção de captura das espécies de pirambeba, piranha e pacu chegam
a alcançar 75,9% da captura total (Figura 28). A partir dessa cidade registra-se a presença
de espécies estuarinas como os siris (Figura 29).
Figura 28: Capturas em relação as espécies na cidade de Propriá.
Fonte: Autores, 2023.
197
Figura 29: Captura de siris, em redes de emalhar na cidade de Propriá.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Cidade de Penedo
A partir da Cidade de Penedo, é possível observar uma menor ocorrência de
pirambebas e piranhas, o que parece ocorrer em função da proximidade com a foz, pois
já ocorre aparecimento de espécies estuarinas em maior número, a exemplo do siri,
carapeba e xaréu. No entanto, espécies de peixes onívoras com pacu foi a que apresentou
maior ocorrência (Figura 30).
Figura 30: Capturas em relação as espécies na cidade de Penedo.
Fonte: Autores, 2023.
198
Cidade de Piaçabuçu
Em Piaçabuçu é possível ver a tendencia de dominância das espécies estuarinas que
juntas representam 52% do total da captura (siri, robalo, pargo e bagre). Destacando-se
entre as espécies de água doce o tucunaré e os piaus em maior abundância e a ausência
de pirambebas (Figura 31).
Figura 31: Capturas em relação as espécies na cidade de Piaçabuçu.
Fonte: Autores, 2023.
DIVERSIDADE DE ESPÉCIES
Quanto a diversidade de espécies, por local de coleta, houve uma distribuição
homogênea (Figura 32) que variou entre nove e dez espécies capturadas nas redes
em cada localidade. Sendo a dominância, as espécies de água doce desde Piranhas.
As espécies de água salgada só alcançaram mais de 50% perto da foz em Piaçabuçu.
Observou-se que, o tucunaré (Figuras 33 e 34), parece ter se adaptado em todos os
ambientes, uma vez que foi a única espécie capturada em todas as localidades, tanto nas
áreas mais próximas de Xingó, quando nas próximas da foz em Piaçabuçu. Deve-se levar
em consideração, que estamos em um ano com grande aporte de água doce no Rio, o
que pode explicar essa distribuição.
Figura 32: Distribuição do número de espécies por localidades.
Fonte: Autores, 2023.
199
Figura 33: Distribuição da captura do Tucunaré por localidade.
Fonte: Autores, 2023.
Figura 34: Tucunaré capturado nas redes de emalhar, registrado em todas as localidades.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
IMPACTOS AMBIENTAIS QUE AFETAM A ATIVIDADE PESQUEIRA
Além do assoreamento do leito do rio, a presença de macrófitas no fundo ainda
é o principal impacto que afeta a atividade pesqueira, uma vez que age diretamente
na eficiência de captura das redes de emalhar. Além de causar danos na panagem do
equipamento, resultando nos seguintes transtornos: a rede não toca o fundo, em função
da biomassa das macrófitas, as malhas ficam mais visíveis, pois ficam com materiais
agregados nas malhas, exige grande perda de tempo fazendo a limpeza e reparando
danos na panagem (Figura 35). Outro fator que afeta a atividade é a constante e brusca
diminuição e aumento dos níveis de água no baixo São Francisco, em função da política de
geração de energia da CHESF. Essa variação, além de influenciar na erosão das margens
(Figura 36), causam situações inusitadas as redes são colocadas em uma profundidade
junto as margens, chamados de remansos, e no outro dia as redes estão em terra, pois o
nível baixou bruscamente (Figuras 37 e 38).
200
Figura 35: Redes de emalhar totalmente cheias de macrófitas.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Figura 36: Erosão das margens, causadas pela variação brusca do volume do rio.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
Figura 37: Redes que ficaram em terra, devido a diminuição brusca do volume do rio.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
201
Figura 38 : Redes de emalhar que ficaram em terra, devido a diminuição brusca do
volume do rio.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2022.
VI EXPEDIÇÃO CIENTIFICA
.
A VI Expedição Cientifica não encontrou padrões que demostrassem melhorias
durante esses seis anos, principalmente quanto às espécies capturadas e condições
na atividade pesqueira. O número de espécies sem valor econômico, domina a maior
parte da produção tornando a atividade pesqueira, mais de sobrevivência do que como
atividade econômica rentável.
A solução para a melhoria da qualidade das espécies do Baixo São Francisco já é
conhecida e praticada há anos, no caso o peixamento de espécies nativas. No entanto,
a falta de uma política permanente de peixamento, faz com que ações isoladas que são
realizadas, fiquem difíceis de fazer o monitoramento e com isso, a aferir a eficiência
dessas ações.
Observamos uma maior presença de espécies que não foram registradas nas
expedições iniciais, em todas as entrevistas com os pescadores eles disseram que o
aparecimento dessas espécies foi devido as cheias, que possibilitaram a formação de
lagoas que funcionam como local de reprodução de várias espécies. O que demostram
a importância de garantirmos cheias artificias nos períodos de secas para que essas
espécies possam se reproduzir.
SITUAÇÃO DA PESCA NO BAIXO SÃO FRANCISCO
Durante a VI expedição visitamos as cidades de Piranhas, Pão de Açucar, Traipu,
Lagoa Comprida, Propriá, Penedo e Piaçabuçu, tivemos encontros com pescadores e
presidentes de colônias. Houve uma percepção comum, já constatada na expedição
anterior, que após as cheias de 2021 e 2022 várias espécies como: pilombeta, piau cutia e
pacamão, dentre outros voltaram a aparecer, ficando claro a importância desses eventos
na reprodução dessas espécies, uma vez que as cheias causam alagamento que chegam
nas lagoas e consequentemente viabilizam a reprodução, proteção e crescimento dos
alevinos.
202
Outra vantagem das cheias citadas por eles foi a limpeza do leito do rio, as fortes
correntezas levaram as grandes concentrações de baronesas (macrófitas aquáticas) de
superfície e as macrófitas de fundo chamada por eles de “Cabelo”. Esse fato, foi percebido,
uma vez que não havia mais baronesas flutuando no leito do rio como nas expedições
anteriores. Isso teve reflexo também na fauna das aves, já que sem as baronesas os
gaviões-caramujeiros Rostrhamus sociabilis, abundantes nas expedições passadas,
praticamente desapareceram, pois segundo os pescadores os caramujos foram levados
com as baronesas.
Em geral, os pescadores reclamam da grande presença da pirambeba e do pacu
disco que, além de ter baixo valor econômico, a pirambeba come os outros peixes de valor
comercial ainda presos nas redes, além de rasgarem as panagens das redes, trazendo um
duplo prejuízo.
Todos reclamaram da pesca de mergulho com arpão, pois dizem que os pescadores
com arpão só capturam os peixes grandes, eliminando assim os reprodutores. A existência
do mergulho parece ser um dos principais conflitos entre eles, difícil de ser resolvido em
função da falta de controle e fiscalização.
Foram registrados os mesmos impactos, sem observar nenhuma melhora nesses
seis anos, sendo eles poluição por esgoto sanitário. Assoreamento das margens do rio
(Figura 39), destruição da mata ciliar (Figura 39), criação de gado (Figura 40). Assim
como o crescimento descontrolado das macrófitas aquáticas que interferem diretamente
na atividade pesqueira (Figura 41). No entanto, nas áreas em que não foram retiradas as
matas ciliares (Figura 42) existe uma maior concentração de fauna e consequentemente
mais atividade pesqueira.
Figuras 39 e 40: Assoreamento das margens e Criação de gado.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2023.
Figuras 41 e 42: Macrófitas aquáticas e Margens com mata ciliar
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2023.
203
PRINCIPAIS ESPECIES CAPTURADAS NA EXPEDIÃO
Dentre as principais espécies capturadas destacam-se o “Cari”, “Xira”, “Tucunaré”
“Piau “, “Piranha” e “Pirambeba” (Figuras 43,44 e 45). No entanto, quanto a proporção
as pirambebas e piranhas dominaram, chegando em algumas cidades a representar mais
de 50 % do total da captura.
Figura 43: Peixes Acari e Xira
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2023.
Figura 44: Figura: Peixes Tucunaré e Piau.
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2023.
Figura 45: Peixes Piranha e Pirambeba
Fonte: Vanildo Souza de Oliveira, 2023.
204
Na distribuição por captura total a pirambeba e piranha e pacu disco, espécies de
menor valora econômico, representaram 54%, o que desmotiva a atividade pesqueira
(Figura 08), estando a pirambeba presentes em todas as cidades visitadas pela expedição.
Figura 46: Distribuição da captura total de peixes.
Fonte: Autores, 2024.
Observa-se uma tendencia de diminuição da captura, no sentido da foz do rio.
As cidades mais próximas da Usina Xingo apresentam uma abundância maior. Esses
ambientes possuem velocidades das correntes maiores, o que pode ser ambientes mais
apropriados para o desenvolvimento de certas espécies como o piau registrado na cidade
de Piranhas e a pirambeba em Pão de açúcar área mais lênticas. A seguir analisaremos a
distribuição das principais espécies em proporção de captura por cidades:
Figura 47: Distribuição da captura por cidade, em número de indivíduos.
Fonte: Autores, 2024.
205
PIAU
O Piau apresentou uma maior concentração, cerca de 50% capturado na cidade de
piranhas próximo da usina de Xingó, declinando na direção da faz. Na cidade de penedo
houve uma grande captura em função do pescador ter praticamente cercado um cardume
de piau embaixo de uma concentração de baronesas, com essa estratégia saindo fora da
curva os dados de produção. Considerou-se Piau, as três espécies: o branco, o preto e o
cutia (Figura 50).
Figura 48: distribuição do Piau por cidades.
Fonte: Autores, 2024.
PIRAMBEBA
A pirambeba apresentou maior abundância dentre o total das capturas, destacandose na cidade de Pão de Açucar (Figura 51), representando 50 % das capturas. Essa parte
do rio parece reunir condições ideais para a reprodução dessa espécie, pois esse registro
vem sendo percebido desde a segunda Expedição.
Figura 49: Distribuição da porcentagem de captura da pirambeba por cidades.
206
Fonte: Autores, 2024.
PEIXE PIRANHA
A piranha apresenta comportamento da abundância contraria a pirambeba e ao
piau, pois registra sua maior abundancia em águas mais tranquilas, distantes da usina de
Xingo, a partir de Penedo (Figura 52).
Figura 50: Distribuição da porcentagem da captura de piranhas por cidades.
Fonte: Autores, 2024.
PACU DISCO
Nessa Expedição, como foi mostrado a captura de pacu disco representou apenas
8%, tendo sua maior proporção de captura na cidade de pão de Açucar, parece que,
assim como a pirambeba, prefere esse ambiente, onde parece ter as condições ideais
para seu desenvolvimento (Figura 53).
Figura 51: Distribuição da porcentagem da captura de pacu disco por cidades.
Fonte: Autores, 2024.
207
CAPTURA POR CIDADES
CIDADE DE PIRANHAS
Nessa cidade observamos espécies passaram a ocorrer após as cheias como
curimatã, o pacu e o Piau cutia, quanto a maior presença foram registrados os piaus
(Branco, preto e cutia) o pacu disco e a pirambeba (Figura 54).
Figura 52: Espécies capturadas na cidade de Piranhas.
Fonte: Autores, 2024.
CIDADE DE PÃO DE AÇÚCAR
Sem dúvida, essa cidade sempre registra um grande número de captura de
pirambeba, em relação as outras espécies, alguns fatores ambientais provavelmente
contribuem para ter as condições ideais para seu desenvolvimento. (Figura 55).
Figura 53: espécies capturadas na cidade de Pão de Açúcar.
Fonte: Autores, 2024.
208
CIDADE DE TRAIPU
Novamente essa área mostra a grande concentração de pirambeba e piranha,
também foi observado um registro interessante de siri, a uma distância aproximada de
100 km da foz do São Francisco (Figura 56).
Figura 54: Espécies capturadas na cidade de Traipu.
Fonte: Autores, 2024.
POVOADO DE LAGOA COMPRIDA
As pirambebas dominam, seguidas pelas piranhas , nessa localidade foi registrado
uma grande quantidade de carí, bagre que voltou a aparecer após as cheias ,sua carne é
muito apreciado e tem valor comercial.Além do lambiá e piau cutia (Figura 57).
Figura 55: Espécies capturadas na cidade de Lagoa Comprida.
Fonte: Autores, 2024.
209
CIDADE DE PROPRIÁ
Seguindo a tendencia, nessa cidade a dominância foi da pirambeba seguida pelas
piranhas e caris. Registrando também a presença de lambiá espécie que voltou depois
das cheias, segundo registros dos pescadores eles formaram grandes cardumes, depois
das cheias. Essa era uma espécie que os pescadores reclamavam da ausência e agora
estão de volta, mostrando a importância das cheias na reprodução dessas espécies
(Figura 58).
Figura 56: Espécies capturadas na cidade de Propriá.
Fonte: Autores, 2024.
CIDADE DE PENEDO
Nessa cidade, tanto o número de indivíduos, quanto o número de espécies foram
baixos, com exceção a captura de piau. Como descrito, foi praticamente um cerco ao
cardume resultando nesse elevado número (Figura 59). Essa baixa produção pode ter
vários motivos, no entanto mostra a presença da dominância de espécies de água doce.
Figura 57: Espécies capturadas na cidade de Penedo
210
Fonte: Autores, 2024.
CIDADE DE PIAÇABUÇU
A cidade de Piaçabuçu é caracterizada por sua proximidade da foz do rio e com
isso a presença de espécies marinhas, como mostra no gráfico de captura espécies como:
bagre, carapeba, robalo e siri, além de espécies de valor econômico, principalmente o
robalo. Essa situação difere muito da atividade pesqueira nas cidades do baixo, onde
predominam espécies sem valor econômico como pirambeba, piranha e pacu disco
(Figura 60). A presença da Tilápia chama muita atenção, uma espécie exótica que tem
a fama de ser uma praga nos ambientes em que se instalam. Porque não aconteceu no
SF? pelo tempo que foi introduzido já estaria dominando o ambiente. Como mostra no
gráfico, a presença de predadores vorazes como traíra, tucunaré e robalo, além de outros
carnívoros provavelmente não permitem essa dominância
Figura 58: Espécies capturadas na cidade de Piaçabuçu.
Fonte: Autores, 2024.
AÇÕES NECESSÁRIAS PARA A MELHORIA DA ATIVIDADE PESQUEIRA NO BAIXO
SÃO FRANCISCO
Como foi registrado, as colônias de pescadores necessitam de assistência técnica,
de forma a poderem ter mais acesso as políticas públicas e programas especiais do
governo para a atividade.
Apesar de ter melhorado as condições ambientais do rio, com as chuvas, a
proliferação de macrófitas ainda surge como um problema na produção pesqueira,
iniciativas de aproveitamento dessa biomassa já está em andamento, no âmbito dos
projetos sugeridos por essa Expedição, com boas perspectivas de no futuro termos o
problema transformado em solução.
Quanto a rentabilidade da atividade pesqueira, observamos que a predominância
de espécies que não tem valor econômico no total da captura, torna a vida do pescador
muito mais difícil, principalmente, para aqueles que tem essa atividade como única
alternativa de vida. Dessa forma, o repovoamento com espécies carnívoras nativas, com
o objetivo de controlar, principalmente as pirambebas, piranhas e pacus disco, surge
como alternativa, tanto para melhorar o equilíbrio entre as espécies, como em oferecer
espécies de maior valor comercial para a atividade pesqueira.
O Baixo São Francisco diferencia-se do médio e do alto, onde ainda existe
predadores como: surubim e dourado. Enquanto o baixo, por não permitir a piracema
dessas espécies predadoras, torna-se o paraíso para as pirambebas e piranhas, além
211
do pacu disco. Portanto, o povoamento com surubins e dourados, grandes predadores,
mesmo que tenham origem em cultivos, não tem impactos genéticos no baixo, porque
não existe mais espécies nativas desses peixes no ambiente. Esses repovoamentos
devem ser feitos periodicamente, uma vez que essas espécies não encontram condições
para se reproduziram no baixo. Iniciativas já estão sendo tomada, no âmbito de projetos
da Expedição, no sentido de isolar um canal, para criação dessas espécies nativas com
a finalidade de repovoamento. No entanto, mais ações serão necessárias pelos órgãos
competentes, no sentido de realizar repovoamento de espécies nativas no Baixo São
Francisco, tanto para a melhoria ambiental, quanto para aumentar a rentabilidade da
atividade pesqueira local. Realizações, por parte da CHESF, de cheias periódicas com o
objetivo de estimular a reprodução das espécies no Baixo São Francisco.
BIBLIOGRAFIA
AECID - Agência Espanhola de Cooperação Internacional. Proposta de desenvolvimento
sustentável da pesca e aquicultura Alagoana. Diagnóstico propositivo. Aracaju, 2008.
259 p.
SOARES E.C.S; BRUNO, A.M.S; LEMOS, J.M.; SANTOS, R.B. Ictiofauna e pesca no entorno
de Penedo, Alagoas. Biotemas, v. 24, p. 61-67, 2011.
212
SOLOS, MANGUEZAIS E ECOLOGIA
213
12. MONITORAMENTO AMBIENTAL DAS MATAS CILIARES
DOS PRINCIPAIS AFLUENTES DO RIO SÃO FRANCISCO
EM SEU BAIXO CURSO
Área de conhecimento: Mata Ciliar e Geoprocessamento
Milena Dutra da Silva1
Nadjacleia Vilar Almeida2
Raimundo Ferreira da Silva Sobrinho3
David Luiz Santos4
Rafaella Silva Leal5
Anderson dos Santos6
José Vieira Silva7
João Thiago Farias8
RESUMO
O monitoramento de áreas ciliares é fundamental para tomadas de decisão
que visam a manutenção da qualidade dos recursos hídricos, e que possuem especial
desdobramentos socioambientais e econômicos. Este relatório objetiva o monitoramento
das áreas ciliares dos principais rios e riachos afluentes do rio São Francisco, em seu baixo
curso. Para isso, são utilizados métodos e técnicas em Botânica, visando a obtenção
de dados referentes a biodiversidade e processos ecológicos. Foram selecionados
remanescentes florestais ciliares do rio Boa Vista (Piranhas/AL) (T1); do rio Tapuio (Pão
de Açúcar/AL) (T2); do rio Traipu (Traipu/AL) (T3); do rio Poção (São Brás/AL) (T4);
do riacho Jacaré (Telha/SE) (T5); do rio Boacica (Igreja Nova/AL) (T6); e do rio Piauí
(Penedo/AL) (T7). Resultados apontam cenários de degradação ambiental, com algumas
áreas em processo inicial de recuperação ambiental e/ou degradação recorrente (T1,
T2 e T7) e, em outras, um quadro de degradação ambiental severo (T3 e T6- ausência
de mata ciliar e atuação de processos erosivos; T4- desmatamento). Recomenda-se o
reflorestamento das áreas ciliares nos rios Traipu, Poção e Boacica; e intervenções para
melhoria da qualidade das matas ciliares nos rios Boa Vista, Tapuio e Piauí.
Palavras-chave: desmatamento; comunidade regenerante; caatinga; mata atlântica
1
Professora Adjunta da UFPB, Campus CCAE/Departamento de Engenharia e Meio Ambiente, Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento - LCG;
2
Professora Associada da UFPB, Campus CCAE/Departamento de Engenharia e Meio Ambiente, Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento - LCG;
3
Estudante de Ecologia/DEMA/CCAE/UFPB e bolsista PIBIC/UFPB, Laboratório de Cartografia e
Geoprocessamento - LCG;
4
Estudante de Ecologia/DEMA/CCAE/UFPB e bolsista PIBIC/UFPB, Laboratório de Cartografia e
Geoprocessamento - LCG;
5
Servidora técnica de geoprocessamento, Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento - LCG/
DEMA/CCAE/UFPB;
6
Doutor em Engenharia Agrícola pela UFRPE;
7
Professor Associado da UFAL/Campus Arapiraca e Coordenador do Centro de Referência em Recuperação de Áreas Degradadas (CRAD) do Baixo São Francisco;
8
Servidor técnico de topografia, CODEVASF.
214
INTRODUÇÃO
As áreas ciliares do curso principal do rio São Francisco e de seus principais
afluentes são espaços relevantes para a manutenção do curso hídrico, com importância
socioambiental e econômica.
O monitoramento ambiental de áreas ciliares é uma estratégia proeminente para
a adequada gestão e manejo ambiental. Por se tratar de um território complexo, onde
vigoram conflitos de uso e cobertura com prejuízos socioambientais e elevação da
vulnerabilidade ambiental (Almeida et al., 2023), as áreas ciliares devem ser analisadas
sistematicamente quanto a “composição, estrutura, processo e função”, na perspectiva
do planejamento ambiental (Santos, 2004).
Desde a III Expedição Científica do Baixo São Francisco, em 2020, têm sido
realizados diagnósticos ambientais referentes às áreas ciliares que, se somam a outros
estudos em desenvolvimento no Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento (LCG/
CCAE/UFPB), e analisam de forma integrada aspectos da geormorfologia, pedologia,
clima, hidrografia, uso e cobertura da terra, com ênfase em cobertura vegetal (composição
e densidade). As análises têm apontado um cenário preocupante marcado pela baixa
cobertura vegetal nas áreas ciliares e processos erosivos, além de outros indicadores de
perturbação ambiental (desmatamento, assoreamento, pastoreio extensivo etc.). Diante
desse quadro, surgem alguns questionamentos, como: há indicativo de recuperação
ambiental? e o que os dados sugerem para o futuro dessas áreas?
O monitoramento de áreas florestadas tem suporte em métodos e técnicas em
Botânica, que auxiliam no conhecimento da biodiversidade e dos processos ecológicos.
Com a utilização desses métodos e técnicas empregados na observação da composição
florística-estrutural de comunidades regenerantes e de indivíduos adultos em
remanescentes florestais, torna-se possível o entendimento da construção de comunidade
arbórea e da manutenção florestal (Santos et al., 2018). Nesse sentido, a forte presença
de comunidade regenerante, quando em áreas degradadas, é um indicador de potencial
de regeneração florestal.
A partir de dados de composição florística também é possível analisar as relações
ecológicas associadas às síndromes de polinização e de dispersão. Esses dados permitem
a captura de informações e inferências sobre a biodiversidade local e de interações com
a vegetação.
Assim, neste relatório, são utilizados métodos e técnicas em Botânica, não
destrutivas, objetivando o monitoramento ambiental das áreas ciliares dos principais
afluentes do rio São Francisco, em seu baixo curso.
METODOLOGIA
Para o monitoramento das áreas ciliares na VI Expedição do São Francisco, foram
efetuados levantamento em campo em áreas amostradas em expedições anteriores e
que correspondem às margens dos principais afluentes do rio São Francisco, em seu
baixo curso. Foram sete unidades amostrais (Figura 1), localizadas às margens do rio Boa
Vista (Piranhas/AL) (T1); do rio Tapuio (Pão de Açúcar/AL) (T2); do rio Traipu (Traipu/AL)
(T3); do rio Poção (São Brás/AL) (T4); do riacho Jacaré (Telha/SE) (T5); do rio Boacica
(Igreja Nova/AL) (T6); e do rio Piauí (Penedo/AL) (T7).
Figura 1: Áreas ciliares na Bacia Hidrográfica do Baixo São Francisco e localização das
unidades amostrais para dados coletados em campo. T1- no rio Boa Vista (Piranhas/
AL); T2- rio Tapuio (Pão de Açúcar/AL); T3 - rio Traipu (Traipu/AL); T4 - rio Poção (São
Brás/AL); T5 - riacho Jacaré (Telha/SE); T6- rio Boacica (Igreja Nova/AL); e T7 - rio Piauí
(Penedo/AL).
215
Fonte: Autores, 2024.
Para obtenção de dados nas matas ciliares, em novembro de 2023 foram
estabelecidos transectos paralelos ao curso hídrico e distando aproximadamente 10
metros de suas margens; em cada transecto, foram amostrados cinco pontos, distando 10
metros entre si e, em cada ponto, foram consideradas as espécies/morfotipos lenhosos
em um raio de 2,5 metros. Foram tomadas as medidas de ocorrência e frequência dos
indivíduos adultos e da comunidade regenerante, sob autorização para atividades com
finalidade científica de número 85802-1, ICMBio/MMA; para os indivíduos adultos foram
mensurados também altura e CAP (Circunferência à Altura do Peito) (Figura 2).
Figura 2: Levantamento de dados durante a VI Expedição do Baixo São Francisco, nas
áreas ciliares dos principais afluentes do rio São Francisco, em seu baixo curso. A e Blevantamento de dados de composição florística e biometria (altura e CAP) de espécies
lenhosas; C- levantamento de dados abióticos (latitude, longitude, elevação, quantidade
de luz incidida, temperatura e umidade relativa do ar); D- drones utilizados no sobrevoo;
E- decolagem de drone para sobrevoo.
216
Fonte: Autores, 2023.
Para obtenção de dados abióticos de quantidade de luz incidida, temperatura e
umidade relativa do ar foram utilizados luxímetro e termo-higrômetro digital.
Para obtenção de imagens aéreas (RGB) das margens dos afluentes e de seu entorno,
foram efetuados sobrevoos com drone (Figura 2): modelo DJI mini 2, equipado com uma
câmera RGB de 20 megapixels e resolução 4k, disponibilizada pelo LCG/CCAE/UFPB
(Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento). Os voos foram realizados durante o
período da manhã (entre 8h e 10h), e quando a tarde, entre 13h e 15h30min; a variação de
altitude do voo foi de 50 m a 100 m, com uma duração de 9 a 20 min.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O levantamento da vegetação arbórea presente nas áreas ciliares dos principais
afluentes do Rio São Francisco, em seu baixo curso, efetuado em novembro de 2023
apontou a ocorrência de 26 espécies, pertencentes a 14 famílias botânicas (Quadro 1). Essa
baixa diversidade é característica de matas ciliares sob influência antrópica (vizinhança
imediata), onde comumente há redução da biodiversidade e simplificação da estrutura
da comunidade vegetal (Graeff et al., 2018).
Quadro 1: Espécies lenhosas da mata ciliar de afluentes do Rio São Francisco, na região
do baixo curso observadas durante a VI Expedição Científica do São Francisco, novembro
de 2023. T1- no rio Boa Vista (Piranhas/AL); T2- rio Tapuio (Pão de Açúcar/AL); T3 - rio
Traipu (Traipu/AL); T4 - rio Poção (São Brás/AL); T5 - riacho Jacaré (Telha/SE); T6- rio
Boacica (Igreja Nova/AL); e T7 - rio Piauí (Penedo/AL).
Fonte: Autores, 2024.
217
Ao considerar todas as espécies vegetais arbóreas já observadas nas áreas ciliares
pela nossa equipe durante a III, IV, V e VI Expedições Científicas, somam-se 71 espécies,
com maior ocorrência (43 espécies) identificada no ano de 2021 (IV Expedição) devido
ao maior número de áreas amostrais. O declínio no número de espécies observadas na VI
Expedição resulta do desmatamento (total ou parcial) em algumas das áreas de estudo,
sobretudo nas unidades amostrais T3, T4 e T6.
Destacamos que na unidade amostral T3 (rio Traipu/AL), não foram constatados
remanescentes florestais ciliares de mata nativa. Em alguns trechos são encontradas
árvores nativas isoladas e plantio de algaroba. As margens do rio Traipu apresentam-se
desnudas, com processos erosivos, e em sua calha, os bancos de sedimento são visíveis,
sobretudo no período de estiagem (Figura 3).
Figura 3: Vista aérea do rio Traipu, município de Traipu, em Alagoas. À esquerda: margem
desnuda e plantas nativas isoladas; À direita: plantio de algaroba; Ao centro: calha com
bancos de sedimento evidenciando processos de assoreamento do rio Traipu.
Fonte: Autores, 2023.
Nas áreas de caatinga (T1 e T2), as espécies adultas mais frequentes são a
quixabeira (Sideroxylon obtusifolium (Roem. & Schult.) T. D. Penn.), a catingueira
(Poincianella pyramidalis (tul.) L. P. Queiroz), o avelós (Euphoria tirucalli L.) e o angico
de caroço (Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan). Essas espécies são comumente
encontradas na zona de semi-árido da Caatinga e indicam que as unidades amostrais
T1 e T2 estão em estágio inicial de sucessão ecológica e/ou de regeneração (Silva et
al., 2022). Os autores destacam, ainda, que as interações planta-animal dessas espécies
incluem entomofilia/melitofilia (angico de caroço, quixabeira e catingueira) e a dispersão
barocórica (catingueira).
Quanto a comunidade regenerante presente na caatinga, destacam-se indivíduos
de marmeleiro (Croton blanchetianus Baill) (T1- 20 indivíduos; T2- 12 indivíduos), bom
nome (Maytenus rigida Mart.) (T1- 9 indivíduos e 1 rebrota; T2- 8 indivíduos), e pereiro
(Aspidosperma pyrifolium Mart.) (T2- 10 indivíduos). Importante destacar que o baixo
número de indivíduos adultos e da comunidade regenerante na caatinga (T1 e T2) (Figura
4) são compatíveis com uma floresta menos densa (Figura 5), raleada pela influência
218
antrópica da vizinhança imediata (uso agropecuário) e de extração de madeira. Nesse
contexto, a existência da comunidade regenerante aponta para o sucesso da germinação
e, também, da aparente diminuição de tensores ambientais como o pisoteio do gado, em
pastoreio extensivo nas unidades amostrais.
Figura 4: Dados comparativos do número de indivíduos vegetais arbóreos regenerantes
e adultos nas áreas ciliares dos principais afluentes do Rio São Francisco, em seu baixo
curso.
Fonte: Autores, 2024.
Figura 5: Mata ciliar estreita e com baixa densidade de indivíduos arbóreos e arbustivos,
na margem do rio Tapuio, Pão de Açúcar, Alagoas.
Fonte: Autores,2023.
A composição da comunidade regenerante é compatível com ambientes com
degradação ambiental recente (ou recorrente) e/ou em estágio inicial de regeneração
ambiental, uma vez que a espécie mais frequente é pioneira (marmeleiro), seguida
por espécies secundárias (Silva et al., 2022). Os autores destacam que essas espécies
também são dependentes da interação com abelhas e borboletas para a polinização; a
síndrome de dispersão é variável, sendo autocórica (marmeleiro), zoocórica (bom nome)
e anemocórica (pereiro).
As interações planta-animal fazem das matas ciliares corredores biológicos e
habitat restritivo para alguns animais que prestam importantes serviços ecológicos, a
219
exemplo de abelhas nativas em remanescentes sob clima semi-árido na Caatinga da
BHBSF (Moura e Schlindwein, 2009). As características das matas ciliares, a exemplo
da largura da faixa ciliar que ocupam, a qualidade dos cursos hídricos, a capacidade de
produção de serrapilheira e as características do solo, também influenciam no potencial
de biodiversidade (Clipp e Anderson, 2018).
Entre as espécies da comunidade regenerante, bom nome (Maytenus rigida
Mart.) (Figura 6) se destaca como espécie recomendável para a recuperação de áreas
degradadas de caatinga, com boa resposta a germinação em solos “compactados e/ou
cascalhentos” e adaptada aos ambientes muito secos, conforme mencionam Silva et al.
(2022).
Figura 6: Indivíduo jovem de bom nome (Maytenus rigida Mart.), em área de mata ciliar
na unidade amostral T1, rio Boa Vista (Piranhas/AL), afluente do Rio São Francisco na
região do baixo curso.
Fonte: Autores, 2023.
Na unidade amostral T4, mata ciliar do rio Poção (São Brás/AL), houve
desmatamento total (Figura 7), com ampla supressão de marmeleiro e jurema-preta
(Mimosa tenuiflora (Mart.) Benth.). Essas espécies são importantes na regeneração
ambiental e seu desmatamento traz prejuízos ecológicos e para a manutenção do solo e
dos recursos hídricos. Foram excetuadas do desmatamento apenas os indivíduos de juá
(Ziziphus joazeiro Mart.).
Figura 7. Desmatamento de vegetação ciliar do rio Poção, São Brás, Alagoas.
Fonte: Autores, 2023.
220
Na unidade amostral T5 optou-se pelo monitoramento apenas por drone (Figura
8), uma vez que eventos de fiscalização ambiental estavam em andamento no território,
para que não houvesse associação das atividades (causando provável confusão aos
proprietários quanto as atividades de pesquisa e monitoramento realizadas pela
Expedição Científica). Nessa unidade são encontradas espécies como amburana
(Amburana cearensis (Alemão) A.C. Sm.), brinco-de-sauim (Pithecellobium diversifolium
Benth.), juá (Ziziphus joazeiro Mart.), peroba (Aspidosperma cf. cylindrocarpon Muell.
Arg.), entre outras (Almeida et al., 2023).
Figura 8: Vista aérea de mata ciliar do riacho Jacaré, Telha, Sergipe.
Fonte: Autores, 2023.
O rio boacica (T6), em Igreja Nova, não apresenta remanescentes florestais ciliares,
sobretudo nas regiões em vizinhança aos plantios de arroz e pasto (Figura 9). Na maior
parte do trecho analisado, a cobertura vegetal encontrada corresponde a macrófitas
aquáticas e, nas margens ciliares, gramíneas.
Figura 9: Vista aérea da área ciliar do rio Boacica, Igreja Nova, Alagoas.
Fonte: Autores, 2023.
221
Em trechos do rio Boacica é possível encontrar árvores nativas em disposição linear
ao rio (Figura 10), em até 5 metros da margem; observam-se árvores como jenipapeiro
(Genipa americana L.) (6 indivíduos), ingazeiro (Lonchocarpus sericeus (Poir.) Kunth ex
DC.) (4 indivíduos), embaúba (Cecropia L.) (3 indivíduos) e goiabeira (Psidium guajava
L.) (1 indivíduo). As três primeiras espécies são recorrentes em áreas ciliares, com alta
resistência a alagamentos temporários e solos encharcados, e são identificadas por
Marroquim et al. (2023) como parte da flora ciliar na porção sergipana da BHBSF.
Figura 10: Baixa cobertura de floresta ciliar nas margens do rio Boacica, Igreja Nova,
Alagoas.
Fonte: Autores, 2023.
Na foz dos rios perenes, a exemplo do rio Boacica (Figura 11) e do rio Piauí (Figura
12), são observadas plumas de sedimento. Esse fenômeno está frequentemente associado
à baixa cobertura de mata ciliar e aos processos erosivos atuantes nas margens dos
rios. Ao estudar a mata ciliar na região da BHBSF, em proximidade à foz do Rio São
Francisco, Holanda et al. (2005) indicam que em áreas com vegetação de raiz com
pouca profundidade as erosões dos taludes são recorrentes, aumentando o volume de
sedimentos carreados.
Figura 11: Pluma de sedimento, foz do rio Boacica, Igreja Nova, Alagoas.
Fonte: Autores, 2023.
222
Figura 12: Pluma de sedimento, foz do rio Piauí, Penedo, Alagoas.
Fonte: Autores, 2023.
Na unidade amostral T7, a vegetação corresponde a mata atlântica (Quadro 1),
com destaque para a presença de amescla e jatobá, entre as espécies arbóreas mais
frequentes. Marroquim et al. (2023) aponta o jatobá como destaque entre as Fabaceae
ocorrentes na mata ciliar no BHBSF.
A unidade amostral T7 se destaca por apresentar maior número de indivíduos
pertencentes a comunidade regenerante (Figura 4), sendo eles morfotipo 1 (204
indivíduos), murta (20 indivíduos), mimosa (13 indivíduos), e ingazeira (1 rebrota),
evidenciando processos de composição e adensamento arbóreo e arbustivo na mata
ciliar.
O morfotipo 1 foi predominante em áreas de menor luminosidade (2580 Lux)
e maior umidade (69%). Estudos desenvolvidos por McLaren e McDonald (2003)
apontam que uma menor luminosidade, conjugada com uma alta umidade, melhoram
a germinação e a sobrevivência de indivíduos jovens em florestas tropicais. Tais fatores
podem justificar uma maior frequência de indivíduos da comunidade regenerante em
T7, quando comparada as demais unidades amostrais. Além disso, aponta-se que T7
apresenta características edafoclimáticas, de estrutura mata ciliar e do ciclo fenológico
diferentes do encontrado nas demais unidades amostrais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Há baixa cobertura e diversidade de espécies arbóreas na mata nativa em áreas
ciliares dos rios afluentes do rio São Francisco, em seu baixo curso.
Ao longo do último ano, entre a V e a VI Expedição Científica do Baixo São Francisco,
houve perda de vegetação, sobretudo em áreas ciliares de riachos temporários, com
influência na riqueza e diversidade de espécies.
A análise das espécies arbóreas adultas e da comunidade regenerante, indica que as
matas ciliares estão em processo de regeneração inicial e/ou degradação ambiental
recorrente.
Processos erosivos são constatados nas margens ciliares desnudadas de rios
perenes, gerando o carreamento de plumas de sedimento ao rio São Francisco.
Diante desse cenário recomenda-se para as margens ciliares desnudas (rio Traipu,
em Traipu/AL; rio Poção, em São Brás/AL; e rio Boacica, em Igreja Nova/AL) ações de
reflorestamento, com vistas à recuperação ambiental e à manutenção da qualidade dos
223
cursos hídricos. Nesse sentido, a ausência de intervenções poderá implicar no aumento
do volume de sedimentos erodidos e carreados pelos rios e riachos, causando distúrbios
como aumento do acúmulo desse material na calha principal do rio São Francisco e na
região da foz dos principais afluentes (constituindo barreiras físicas no contato com o rio
principal).
Nas áreas ciliares com fragmentos de mata (rio Boa Vista, em Piranhas/AL; rio
Tapuio, Pão de Açúcar/AL; riacho Jacaré, em Telha/SE; e rio Piauí, em Penedo/AL),
recomenda-se intervenções para aumento da densidade, riqueza e diversidade vegetal,
bem como a inserção de espécies de dispersão ornitocórica, com fins de ampliar áreas
de colonização vegetal e o fluxo gênico na paisagem. Em matas circunscritas em matriz
agropecuária, recomenda-se o cercamento em zonas de pastoreio, uma vez que, para o
sucesso do desenvolvimento dos indivíduos jovens, é necessário que tensões ambientais,
como o pisoteio de gado e o corte seletivo de madeira, sejam minimizados.
AGRADECIMENTOS
Ao Centro de Ciências Aplicadas e Educação (CCAE/UFPB), pelo suporte
logístico de transporte para a participação da equipe do Laboratório de Cartografia e
Geoprocessamento (LCG/CCAE/UFPB) na VI Expedição Científica do São Francisco e
para realização dos trabalhos de campo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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225
13. ESTRUTURA FITOSSOCIOLÓGICA E DENSIDADE
POPULACIONAL DO CARANGUEJO-UÇA NO BOSQUE DE MANGUE
DA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Ecologia de Ecossistemas
Alexandre Oliveira1
INTRODUÇÃO
O Manguezal é um ecossistema costeiro característico de áreas onde há o encontro
dos ambientes terrestre e marinho, comum de regiões com climas tropicais e subtropicais
e sujeito ao regime das marés (Schaeffer-Novelli; Vale; Cintrón, 2015). Globalmente, os
manguezais ocupam uma área de cerca de 137.760 km2, distribuídos em 118 países e
territórios. Essa estimativa diminui com o aumento da latitude, exceto entre 20° e 25° de
latitude norte, onde se localizam os Sundarbans, a maior área de manguezais do mundo,
localizado na divisa entre o estado indiano de Bengala Ocidental e Bangladesh (Giri et
al., 2011).
Os levantamentos mais recentes sobre a área de cobertura no Brasil variam de
962.683 a 1,071,083.74 ha, o que representa cerca de 7,0 a 8,9% do total mundial da
área de ocorrência desse ecossistema (BRASIL, 2010; Magris; Barreto, 2010; Giri et al.,
2011). Os manguezais podem ser encontrados em quase todo o litoral brasileiro, desde o
Oiapoque (04º 30’ N) até a Lagoa de Santo Antônio (28º 28’ S) (Soares et al., 2012).
Em Alagoas, os manguezais ocorrem ao longo de todas as áreas estuarinas, ao
longo dos rios, canais e junto aos corpos de água das principais lagunas costeiras (Correia;
Sovierzoski, 2009). Em razão de ser um ambiente costeiro, torna-se o habitat de diversas
populações e possui condições ideais para a reprodução de várias espécies de peixes,
crustáceos e moluscos, sendo considerado um dos ambientes naturais mais produtivos
do Brasil (Bernini et al., 2014; Blotta et al., 2016).
Em relação à vegetação, nota-se que há baixa diversidade, uma vez que poucas
espécies conseguem se adaptar às condições de maré, salinidade, substrato inconsolidado
e pouco oxigenado (Oliveira; Tognella, 2014). Nos manguezais brasileiros ocorrem três
gêneros, Rhizophora, Laguncularia e Avicennia com um total de seis espécies (INSTITUTO
CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO E BIODIVERSIDADE, 2018).
O manguezal pode ser estruturado como um continuum de feições de acordo
com as características específicas existentes em cada zona, classificadas como apicum,
bosque de mangue e lavado (Schaeffer-Novelli; Vale; Cintrón, 2015). Essas regiões
exercem influência na formação da vegetação e, geralmente, as espécies vegetais de
mangue estão distribuídas em zonas em relação à linha d’água, constituindo em uma
fisionomia peculiar (Almeida et al., 2014).
A trajetória da dinâmica da vegetação de mangue pode mudar através do tempo
com as mudanças do nível relativo do mar. Tanto por mudanças no uso e ocupação de
uma determinada bacia que tem no seu nível de base florestas de mangue em pleno
desenvolvimento, quanto pelas mudanças climáticas locais e/ou regionais (microescala
e mesoescala), os manguezais constituem excelentes bioindicadores, respondendo aos
gradientes de inundação, de nutrientes e de salinidade (Schaeffer-Novelli; Vale; Cintrón,
2015). Tal heterogeneidade parece ser uma resposta à interação de vários fatores abióticos
(fatores edáficos e salinidade) e antrópicos que atuam em diferentes escalas espaciais e
temporais (Bernini; Rezende, 2010).
1
Professor associado, Campus de Engenharia e Ciências Agrárias (CECA), Laboratório de Pesquisas
em Estuários e Manguezais (LAPEM), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
226
METODOLOGIA
Para a caracterização e estudo dos bosques de mangue da Foz do Rio São Francisco
foi selecionada uma área amostral, na qual foram mensurados e analisados parâmetros
fitossociológicos da vegetação, bem como aspectos populacionais do caranguejo-uçá.
A área amostral foi escolhida conforme a representatividade da habitat, aliado
a melhor logística possível para a realização das atividades. O ponto representa as
fisiografias de bosques de franja, bacia e área de transição (apicum). Todo o estudo
foi baseado na metodologia de Schaeffer-Novelli (1986) e recomendações do ICMBio
(Projeto Monitora).
A equipe foi coordenada pelo Prof. Alexandre Oliveira (UFAL/LAPEM), com
participação das discentes Ludmyla Melo e Gabriela Santos (UFAL) em parceria com
a UFPB representada pela Profa. Milena Dutra da Silva, Nadjacleia Vilar Almeida e o
discente David Luiz do Nascimento Santos. O ponto amostral foi definido levando-se em
consideração a logística e representatividade (Figura 1):
Figura 1: Área de estudo - Ponto B
O desenho amostral aborda ambas as metodologias (Figura 2).
Figura 2: Desenho amostral das coletas realizadas no manguezal da Foz do Rio São
Francisco
227
Fonte: Autores, 2024.
Para o transecto de estudo, foram demarcados três parcelas, denominadas franja,
bacia e interior. A parcela denominada franja, corresponde à zona do bosque de mangue
mais próxima do canal estuarino e sob maior influência da variação de maré; bacia
correspondente à zona média do bosque e parcela interior caracterizada por ser a zona
mais distante da linha d’água, cada parcela medindo 400m2, distanciados em 10 m entre
si, perpendiculares à margem do rio.
As árvores seriam identificadas quanto à espécie. Para cada espécie arbórea viva
seriam anotadas altura, por estimativa visual, e circunferência, com o auxílio de fita
métrica, para se obter o Perímetro na Altura do Peito (PAP), sendo que posteriormente
seriam transformado em Diâmetro da Altura do Peito (DAP).Seriam considerados todos
os indivíduos com DAP maior ou igual a 2,5 cm.
O cálculo dos parâmetros estruturais mencionados por parcela, espécie e classe
ddiamêtrica, seguiria a metodologia de Schaeffer-Novelli e Cintrón, (1986). Seriam
calculados o Diâmetro da Altura do Peito (DAP); Diâmetro da Altura do Peito Médio
(DAP); Dominância Relativa (DoR); Densidade Relativa (DR); Frequência Absoluta (FA);
Frequência Relativa (FR); Índice de Valor de Importância (IVI).
A estimativa da densidade dos caranguejos na área amostral seria determinada pela
totalização das galerias abertas com atividade biogênica (lama fluída e fezes próximas
à abertura), presentes nos quadrados de amostragem. Cada quadrado totaliza uma área
de 25m². As medidas das tocas seriam mensuradas com auxílio de paquímetro. Seriam
realizadas duas medidas para cada toca, sendo que o valor que seria registrado, seria
sempre o menor entre eles. Este valor seria então adicionado á equação de reta: Abertura
de Galeria = 0,36 + 1,04 * Comprimento do Caranguejo; elaborado por Schmidt (2006),
relacionando o tamanho do individuo com o menor diâmetro da abertura da galeria.
Com base no trabalho de Schmidt et al. (2004), os dados relacionados aos
indivíduos com tamanho comercial apresentados, correspondem ao número de
caranguejos com comprimento maior ou igual a 4,66cm (equivalente a 6cm de largura
= tamanho comercial) por metro quadrado. Segundo a Portaria número 034/03-N do
IBAMA de junho de 2003, é proibida a captura, manutenção em cativeiro, transporte,
beneficiamento e industrialização de qualquer indivíduo da espécie Ucides cordatus cuja
largura de carapaça seja inferior a 6,0cm, nos estados do Nordeste e Norte. O tamanho é
dado pela maior dimensão da carapaça (largura), sendo a medida tomada sobre o dorso
do corpo, de uma margem lateral à outra.
As galerias do caranguejo uçá seriam diferenciadas das demais espécies pela
228
posição oblíqua de sua abertura em relação à superfície do sedimento, conforme descrito
por Costa (1972). As galerias com dupla abertura seriam identificadas, mas somente seria
medida as que apresentassem sinais mais claros de atividade biogênica.
RESULTADOS
FITOSSOCIOLOGIA
Não houve amostragem.
DINÂMICA POPULACIONAL CARANGUEJO-UÇÁ
Não houve amostragem.
DIFICULDADES ENCONTRADAS
As amostragens não foram realizadas devido a problemas de logística para o
deslocamento até o ponto amostral selecionado. Apesar dos esforços em tentar liberar
os barcos e que estes fossem disponibilizados para a equipe que estava pronta desde as
seis horas da manhã do dia previsto para a coleta, não obtivemos sucesso.
Percebemos extrema má vontade do capitão da embarcação Magnífica que
atrasou deliberadamente o início das trabalhos, sendo acompanhado pelo capitão da
embarcação Maravilhosa. O senhor Anselmo ainda destratou o chefe da equipe Manguezal
perguntando se o mesmo estava “estressado”. É claro que estávamos. Aguardamos um
ano inteiro para realizar a atividade que é pensada nos mínimos detalhes para que ocorra
com sucesso. O capitão da Maravilhosa ainda relatou que não estava “habilitado” para
conduzir a embarcação até a Foz. O transporte da equipe, da cidade de Piaçabuçu até a
Foz, era perigoso e poderia colocar a equipe em risco de morte.
Vale relatar ainda que houve falta de liderança do responsável pela logística
das embarcações em comandar e ordenar a saída das embarcações, “jogando a
responsabilidade para os comandantes. Perdemos tempo considerável nesta situação.
Vale ressaltar que o ponto escolhido já estaria encoberto pela água (maré enchente),
impossibilitando a realização das medições das tocas dos caranguejos no ponto, naquele
momento.
Solicitamos que seja realizada uma revisão da logística para o último dia da
Expedição, pois não é a primeira vez que a Equipe Manguezal tem suas atividades
prejudicadas pela má vontade e falta de compromisso por parte de alguns setores e
colegas.
Acreditamos que o Manguezal é parte importante da Expedição e do Baixo São
Francisco e deve ser tratado de maneira respeitosa e profissional.
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231
PATRIMÔNIO E POVOS ORIGINÁRIOS
232
14. ANTROPOLOGIA DAS POPULAÇÕES TRADICIONAIS
Área de conhecimento: Antropologia
Ulisses Neves Rafael1
RESUMO
A tradição de pesquisa de campo na antropologia encontra nas expedições
científicas do século XIX um importante impulso. Na atualidade, esse tipo de atividade
tem se tornado cada vez mais escassa, razão pela qual a presença antropológica
nas V e VI Expedição Científica do Baixo São Francisco se apresenta com momento
privilegiado para o desenvolvimento de uma perspectiva analítica sobre uma área
investigativa extremamente complexa e diversificada em termos socioculturais. Nesta
experiência, buscou-se traçar um mapa das comunidades tradicionais situadas no
circuito da Expedição, ampliando significativamente o arco de abrangência da categoria
para incluir territórios, cuja regulação envolveu procedimentos técnicos e jurídicos na
tramitação do seu reconhecimento e titulação, como no caso de sociedades indígena e
quilombolas. A pesquisa também incorporou agrupamentos envolvidos em processos
recentes de ocupação, como integrantes de acampamentos e assentamentos de reforma
agrária organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), além de
comunidades constituídas de pescadores e de artesãos tradicionais.
Palavras-chave: antropologia; territórios tradicionais; Comunidades originárias; Artesãos;
Colônias de pescadores; Celebrações baixo São Francisco
1
Professor titular do Departamento de Ciências Sociais e membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia, ambos da Universidade Federal de Sergipe.
233
INTRODUÇÃO
Este relatório propõe apresentar o levantamento geral acerca da minha participação
nas V e VI Expedições Científica do Baixo São Francisco, ocorridas, respectivamente,
entre os dias 03 e 12 de novembro de 2022 e entre os dias 20 a 30 de novembro de 2023,
as quais percorreram, nas duas ocasiões, municípios localizados nas duas margens do
rio, como: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Braz Porto Real do Colégio, Igreja Nova,
Penedo e Piaçabuçu, situados na margem alagoana, e, do lado sergipano, os municípios
de Gararu, Propriá, Santana do São Francisco e Brejo Grande, além da própria foz.
O curto espaço de tempo disponível para permanência em cada município e a
extensa área de 250 km coberta pela expedição, teve efeito decisivo sobre a abordagem
adotada, a qual consistiu basicamente em rápidas incursões às comunidades envolvidas
e a realização de entrevistas dirigidas com um número reduzido de interlocutores chave,
cuja presença na localidade destacava-se pelo grau de participação na vida social local
e pela influência sobre os demais integrantes do grupo selecionado.
A ênfase maior recaiu sobre populações tradicionais, aqui entendidas como
comunidades locais mobilizadas em torno da luta comum pelo direito à terra, “que expressa
uma identidade coletiva reivindicada com base em fatores pretensamente primordiais,
tais como uma origem ou ancestrais em comum, hábitos, rituais ou religiosidade
compartilhados, vínculo territorial centenário, parentesco social generalizado,
homogeneidade racial, entre outros (ARRUTI, 2006, p. 38-39).
A partir dessa perspectiva, buscou-se traçar um mapa das comunidades tradicionais
situadas no circuito da expedição, ampliando significativamente o arco de abrangência
da categoria para incluir, populações envolvidas em “processo de territorialização’, termo
utilizado para se referir ao “conjunto de procedimentos e efeitos por meio dos quais um
‘objeto político-administrativo’, tal como os ‘grupos indígenas” e também “imigrantes”,
“assentados” ou “comunidades remanescentes de quilombolas”, convertem-se em uma
coletividade organizada, unificada por meio de uma identidade própria, por uma série
de mecanismos que decidem sobre a representação, assim como por uma série de
reestruturações das suas formas culturais” (ARRUTI, 2006, p. 41).
Assim sendo, as informações obtidas através do levantamento bibliográfico
preliminar foram complementadas, durante a participação nas duas expedições, com
a realização de levantamentos antropológicos através de incursões nos municípios
previamente selecionados pelos organizadores da atividade.
No conjunto foram visitadas sete comunidades quilombolas situadas no roteiro,
quais sejam, na margem esquerda do Rio São Francisco: Sítio Lages, município de
Piranhas/AL; Quilombo Mumbaça, situado no município de Traipu/AL; Sapé, município
de Igreja Nova/AL, Tabuleiro dos Negros e Oiteiro, ambos no município de Penedo/AL
e Pixaim, no município de Piaçabuçu/AL. Na margem sergipana do rio, foram visitados
os quilombos Canafístula, no município de Propriá/SE e Brejão dos Negros, Resina e
Capitanga, no município de Brejo Grande/SE.
Além dos remanescentes quilombolas, durante o percurso das duas expedições,
foram também incluídas no roteiro duas outras comunidades tradicionais como a reserva
indígena dos Wakóna (ou Aconã, conforme Hohenthal, 1960), situada no município de
Traipu/AL e o território Kariri-Xokó de Porto Real do Colégio/AL. Desse modo, foram
priorizados os territórios, cuja regulação envolveu procedimentos técnicos e jurídicos na
tramitação do seu reconhecimento e titulação, como nos já mencionados quilombolas
e indígenas. Porém, a pesquisa também incluiu agrupamentos envolvidos em processos
recentes de ocupação, organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra
(MST), como o Assentamento Gastone Beltrão (Chico Mendes) no município de Olho
d’Água do Casado/AL e o Acampamento Estrela, em Propriá/SE, com a finalidade de
acompanhar as formas de exploração do ecossistema, principalmente no que diz respeito
ao registro dos saberes tradicionais inscritos nos usos e consumo das chamadas Plantas
234
Alimentícias Não Convencionais (PANC).
Foram abarcados também, através dos primeiros inquéritos sociais realizados por
ocasião da Expedição de 2022, as colônias de pescadores dos municípios de Piranhas,
Pão de Açúcar e Piaçabuçu em Alagoas, e de Gararu em Sergipe, onde observamos os
modos de fazer coletivos.
Por fim tive oportunidade de realizar breves incursões às comunidades de artesão,
a exemplo do povoado Ilha do Ferro, a fim de observar as especificidades do trabalho
artístico ali encontrado, como as esculturas em madeira, inspirados na fauna e na flora
locais e que deram notoriedade ao povoado, juntamente com o bordado Boa-Noite,
bem como os artesãos do município de Santana do São Francisco/SE, antigo povoado
Carrapicho, no estado de Sergipe e as artesãs da Associação “Estação Cangaço”, no
município de Piranhas/AL.
POPULAÇÕES TRADICIONAIS REMANESCENTES DE QUILOMBOS
SÍTIO LAGES
A Comunidade Quilombola Sítio Lages está localizada no município de Piranhas,
Alto Sertão alagoano e abriga atualmente mais de 50 famílias espalhadas entre a sede
principal e sítios vizinhos, as quais guardam entre si, além do vínculo territorial, o laço
de consaguinidade parental, cujo significado é reconhecido pelos moradores do lugar
como elemento decisivo no processo de reivindicação da certificação e reconhecimento
do caráter quilombola. A memória oral do grupo se apresenta como um reforço a mais
nas demandas do grupo na defesa de direitos associados ao passado colonial e à história
dos antepassados escravizados dos quais se declaram remanescentes, conquista obtida
através da certificação pela Fundação Cultural Palmares no dia 27 de dezembro de 2010
.
Visitei a comunidade durante a segunda expedição ocorrida em novembro de
2023 o que coincidiu com comemoração ali, do dia da Consciência Negra (20/11), evento
este que contou com a participação de diversas autoridades locais, como o prefeito e o
vice, vereadores e secretários municipais, como também de lideranças políticas de vários
movimentos sociais da região, a exemplo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra
(MST), o que talvez revele o prestígio do quilombo, pelo menos em termos eleitorais.
MUMBAÇA
Trata-se da segunda comunidade quilombola visitada no percurso da expedição
de 2023 e situada no município de Traipu-AL, a qual foi certificado e reconhecida como
remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em 2010, conforme Portaria
n° 162/2010.
As informações obtidas durante a visita realizada, foram fornecidos em primeira
mão por duas das lideranças locais: Marcos Cordeiro, assessor da Secretaria de Educação
do Município e Manoel Oliveira dos Santos, mais conhecido por Bié, líder comunitário
do quilombo e Secretário de Igualdade Racial e Diversidade do Município de Traipu,
desde 2023, embora tenha também assumido cargo comissionado na antiga Secretaria
de Turismo.
Durante os 22 quilômetros que separam o quilombo da sede do município, os
dois interlocutores foram me instruindo sobre as vantagens ecológicas da comunidade,
devido à presença de poços e fontes naturais de água subterrânea. Isso coloca a região
numa posição estratégica com relação ao conjunto, inclusive comparado com o município
como um todo, cuja rede de abastecimento atinge apenas 27,03% da população total,
mesmo estando ele, situado às margens do rio São Francisco. Além disso, o município
é banhado pela sub-bacia do Rio Traipu, cujo afluente principal é o riacho Priaca, antiga
235
denominação da própria Vila Santo Antonio que integra a área quilombola. O quilombo
conta com a presença de um reservatório que capta a água proveniente do São Francisco
na altura do município vizinho de São Braz/AL.
A presença desses mananciais serve também como importante demarcador
territorial da comunidade, a qual está dividida em três áreas estabelecidas em função
da presença dessas fontes. A primeira delas, a Fonte do Senhor do Pobres, encontra-se
nas imediações da Igreja de mesmo nome, que homenageia o padroeiro do povoado.
É dessa fonte principal que se abastecem os romeiros que se abrigam no entorno da
igreja, embora cotidianamente ela sirva mais aos moradores “fidalgos” ou ao chamado
povo “civilizado”, aqueles cujas residências situam-se na rua principal e pavimentada do
quilombo.
A segunda fonte é a dos Negros, numa área de preservação ambiental, vulgarmente
conhecida como “Cabeça de Vargem” a qual, ao longo dos últimos anos, vem sofrendo
uma redução dos seus limites por conta da construção desordenada de casas nas
proximidades. Trata-se de um lugar que no passado, possuía grande significado identitário
para a comunidade, reconhecido como espaço de sociabilidade pública da população
pobre e negra do lugar que a ela recorria para lavar roupa, abastecer suas casas e tomar
banho, costume este praticado em área reservada da fonte para este fim e protegidas
com palhas de coqueiro e Ouricuri.
Por fim, tem-se o Reservatório da Bica de Banho, cujo espaço foi revitalizado para
transformar o local em ponto de atração para turistas. Ali se encontra a Fonte de Água
Benta, muito procurada pelos romeiros, principalmente durante a festa do padroeiro,
e à qual se atribuem propriedades curativas. Nesse local, encontra-se um dos raros
exemplares da palmeira que dá nome ao quilombo, coqueiro-mumbaca, e que no passado
era bastante utilizado para construção de barreiras de proteção contra a invasão dos
inimigos, por conta das suas palhas cobertas de espinhos pretos e longos. A partir da
destruição desse espécime, foi-se também apagando uma parte da história do lugar.
SANTO ANTÔNIO DA CANAFÍSTULA
A parada seguinte no roteiro das comunidades tradicionais remanescentes
quilombolas foi em Propriá/SE e o quilombo visitado foi o Santo Antonio da Canafístula,
onde encontramos o Sr. Jorge dos Santos um dos primeiros moradores da comunidade.
Ele contou que a certificação de deu através da Portaria nº 28, de 9 de fevereiro de 2011,
emitida pela Fundação Cultural Palmares. Seu Jorge divide a área de com mais 7 famílias
formada quase totalmente por casais mais velhos, que residem em casas de alvenaria,
enquanto seus filhos moram na cidade, por conta da escassez de recursos encontrada
no quilombo. Até se estabelecerem no local, seus atuais moradores percorreram várias
propriedades do município, vivendo em barracas de lona e fazendo roça em terras
devolutas como as da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Sergipe (CODISE)
e da Pedreira São João, situada na Fazenda Estrela, que dá nome ao acampamento que
ali se encontra até hoje.
Por conta dessa proximidade com área de acampamento, é que o processo
de regularização fundiária e a legitimação da terra quilombola em Canafístula, tem
se arrastado por tantos anos, inclusive, sido objeto de questionamento por parte do
Ministério Público Federal, quanto à certificação dada, por conta da existência no local,
desse acampamento, que supostamente tinha também o nome de Canafístula.
Esse fato resultou na visita de técnico da Fundação Palmares, o qual constatou que
a área certificada era distinta do acampamento. Contudo, somente em 2018, por
recomendação da procuradora da Palmares, uma nova visita técnica foi realizada para
elaboração de laudo antropológico, resultando na conceção de certidão de autodefinição
da comunidade como remanescente de quilombo. Atualmente, tanto o Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária de Sergipe (INCRA/SE) quanto a Superintendente
236
de Patrimônio da União (SPU) vêm se mobilizando no sentido de produzir o Relatório
Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), a fim de estabelecer os limites da terra do
quilombo para regularizar a situação da comunidade e assegurar o título coletivo da área
para as famílias ali encontradas.
Dentro do próprio movimento quilombola tem surgido questionamentos quando a
condição reivindicada pela comunidade de Canafístula, uma vez que se trata de uma área
muito reduzida (6 tarefas) e que abriga uma quantidade irrisória de famílias, as quais, não
tendo obtido êxito nos projetos de assentamento da região, recorreu à pauta quilombola
(RIBEIRO, 2016, p. 169).
Na atualidade os moradores do quilombo plantam abacate, goiaba, abacaxi,
maracujá, roça (macaxeira, feijão, milho, abóbora, etc.), sempre em período de inverno,
além da criação de animais (porco, carneiro e galinha). A produção é toda voltada para
o consumo das próprias famílias.
TABULEIRO DOS NEGROS
A primeira visita ao conjunto de quilombos que compõem a área fronteiriça entre
os municípios de Penedo e Igreja Nova, ambos no Estado de Alagoas, aconteceu em 2022
e teve início a partir de povoado Chinaré, pertencente a este último município e onde os
expedicionários são sempre recepcionados pelo já tradicional cortejo dos pescadores da
região.
O quilombo Tabuleiro dos Negros pertence ao município de Penedo/AL, de cuja
sede está distante 15 km, fazenco fronteira com a comunidade originária Alecrim dos
Negros, também conhecida como Sapé, pertencente ao município de Igreja Nova/AL,
separados um do outro apenas por uma rua.
O líder da associação do Tabuleiro dos Negros é Cícero dos Santos, mas foi Maria
Quitéria coordenadora da Associação de Mulheres Agricultoras Quilombolas Pescadoras
do Povoado Sapé — Mulheres Guerreiras (MG), quem prestou as primeiras informações
sobre a comunidade na primeira incursão de 2022. Ela contou que a certificação da
comunidade foi emitida pela Fundação Cultural Palmares através da Portaria nº 25/2007,
de 13/03/2007, embora a comunidade ainda aguarde a titulação. A conversa com ela girou,
basicamente, em torno das dinâmicas religiosas no quilombo. Ela informa que o padroeiro
da comunidade é São Pedro, cujos cultos são realizados na capela existente ao lado de
sua casa. O campo religioso local conta ainda com três outras denominações evangélicas
e um terreiro de umbanda liderado por Valdemir Santos, mais conhecido no local como
Pai Pitô e situado no vizinho quilombo Sapé. Contudo a maior rivalidade enfrentada
pelo catolicismo na comunidade é interna. Além das celebrações em homenagem ao
padroeiro, organizadas pela família Vital, existia também a devoção à Nossa Senhora
do Rosário em igreja própria, cujas celebrações sempre coincidiam em com o período
carnavalesco: “independente da data que caísse”, razão pela qual eram conhecidas como
“festa de fevereiro”.
Quitéria também mostrou a Palmeira, símbolo do Quilombo. Ela informou que esse
tipo de árvore representa as lutas dos quilombolas em várias comunidades. O engenheiro
agrônomo Antonio Santos, que mais cedo havia informado ser remanescente quilombola,
uma vez que passara sua infância no sítio da família no Tabuleiro dos Negros, também fez
menção ao significado dessa árvore que nas rotas de fugas dos escravizados, servia como
ponto de vigilância e de orientação para os refugiados entre os tabuleiros de capim.
Quanto à ligação da comunidade com o São Francisco, Quitéria informa que ela
advém das atividades que eram desenvolvidas pelos antigos e que dependiam do rio,
como a pesca e o plantio de arroz, principalmente. Dessa maneira, o Velho Chico assume
esse aspecto afetivo, porquanto remete a essa memória e ligação com os antepassados
que desempenhavam essas tarefas ribeirinhas.
Outro contato estabelecido, tanto na primeira visita como na segunda, foi com o
237
Sr. Jonas Estácio, vice-presidente da outra associação existente no local, no caso a mais
antiga e a qual é responsável, entre outras coisas, pela distribuição de cestas básicas na
comunidade. Estive com seu Jonas em três ocasiões que visitei o quilombo, a última delas
durante a expedição de 2023. Além da casa, situada na parte mais urbanizada do quilombo,
S. Jonas também possui uma propriedade localizada na região da mata, conhecido como
“tabuleiro”, razão do nome do povoado, e onde cria animais, principalmente gado, que se
beneficia do capim abundantemente encontrado no local. A área também é privilegiada,
por conta da presença de um minadouro onde, no passado, a população local ia buscar
água, a qual era utilizada como espaço de sociabilidade pelas mulheres, que ali lavavam
roupa e tomavam banho. Hoje essa área de brejo está protegida por cercas de arame
farpado o que impede o acesso do restante dos moradores do quilombo ao local. A
justificativa para tal é a proteção dos animais que agora são mantidos no que eles chamam
de colônia. A torragem de castanhas, outra importante fonte de renda da população
local, desenvolvida, exclusivamente por mulheres.
SAPÉ
A visita ao vizinho quilombo Sapé, município de Igreja Nova/AL, só aconteceu
em 2023 e, curiosamente, também a partir de contato estabelecido com moradores da
comunidade que se encontravam no povoado Chinaré. Aí verificou-se a apresentação do
Guerreiro, um auto popular tipicamente alagoano que guarda reminiscências do Reisado
e dos Caboclinhos (BRANDÃO, 2003). A apresentação a que assisti foi conduzida pelo
mestre Daniel da Silva, residente no povoado Sapé e de quem fui atrás, depois de sua
apresentação na Escola Municipal General Arthur Costa e Silva onde os expedicionários
haviam sido recepcionados. Daniel é responsável pela improvisação das peças que são
acompanhadas pela orquestra formada por sanfona, caixa e pandeiro, e já está à frente
do Guerreiro do Sapé há mais de 30 anos.
Fui reencontrá-lo em sua residência, a qual forma com o conjunto de outras casas
onde residem seu filhos, genros, noras e netos, uma verdadeira vila quilombola dentro da
área demarcada. Nasa imediações também se localiza a casa de farinha onde se realiza
a prática da farinhada entre os meses de agosto e novembro, atividade organizada pelo
conjunto dos moradores locais.
A comunidade Sapé foi certificada através da Portaria n° 185/2009, data de
19/11/2009 e atualmente residem no local 100 famílias, contando com um total de 1.
284 habitantes. Embora pertencente ao município de Igreja Nova/AL, o quilombo está
mais próximo de Penedo/AL, fazendo fronteira com o quilombo Tabuleiro dos Negros,
ambos situados na zona rural. No passado existia uma grande rivalidade entre as duas
comunidades, inclusive pelo fato dos moradores do Tabuleiro serem conhecidos pela sua
valentia. De modo que para os moradores do Sapé terem acesso ao quilombo vizinho,
precisavam da autorização do delegado do distrito. Essas informações foram prestadas
por seu Jonas, o vice-presidente da associação, que as recolheu junto aos moradores
mais antigos do quilombo.
Quilombo Oiteiro
O quilombo do Oiteiro completa a tríade das comunidades tradicionais dessa
região do baixo São Franciso. Embora separado do centro histórico de Penedo/AL,
seus contornos se confundem com o emaranhado de ruas e casas do bairro Senhor do
Bonfim, causando confusão entre os próprios moradores da região quanto ao desenho
da comunidade. Muitos dos habitantes do lugar relutam em reconhecer suas moradias
como pertencente a um quilombo urbano, inclusive, para escapar das práticas de racismo
que recaem cotidianamente sobre seus moradores.
O nome do quilombo advém de sua localização em ponto mais alto da cidade o
238
que garantia, no passado, um lugar de refúgio mais seguro para negros escravizados em
fuga. Sua incorporação total à malha urbana se dá após a construção da Rodovia Mário
Freire Leahy, o que concorreu para diminuir as distâncias e o isolamento da comunidade
com relação ao resto da cidade.
A certificação do território como comunidade quilombola foi feita através da Portaria
n° 29/2006/FCP, de 13/12/2006 e onde residem 184 famílias dedicadas à agricultura de
subsistência com a plantação de feijão, mandioca, milho e inhame, mas principalmente,
a pesca: “Para complementação da renda, as mulheres fazem bordado, crochê, costura e
peças artesanais da palha e madeira” (PROGRAMA, 2020, p. 6).
Para além das ocasiões das duas expedições, visitei a localidade em período
extraordinário para acompanhar a Lavagem da Igreja do Senhor Bonfim, templo
construído pelos próprios moradores da comunidade e de onde advém o nome do
Bairro. Segundo o Babalorixá Jackson dos Anjos da Silva, entrevistado em 2022, além
de liderança religiosa é também um dos mentores da lavagem do Bonfim, a qual consiste
basicamente na realização do cortejo pela principal rua do bairro, até o cruzeiro de
Cristo, localizado no Mirante do Bonfim, na entrada do Quilombo. Ali, encontra-se uma
imagem de Cristo Crucificado, situada no alto de um pedestal, o qual se pode acessar por
meio de uma escada lateral. Na ocasião, apenas um dos filhos de santo sobe para lavar
a base da imagem. Os demais se postam embaixo, no largo do mirante o qual também
lavam com água perfumada e flores que foram trazidas pelos fiéis durante o trajeto. Na
sequência, o cortejo, ainda acompanhado de grupos folclóricos e de capoeira, segue em
direção à Capela do Senhor do Bonfim, situada na outra extremidade do Bairro, onde será
realizada outra etapa da lavagem. Depois de encerrar a parte religiosa da celebração,
iniciam os festejos carnavalescos com blocos de sujos, transformando o lugar, que até
então, estivera envolto em uma aura sagrada, numa contagiante algazarra. Os adultos
participam da brincadeira, mas são os adolescentes quem mais se divertem.
Durante a Expedição de 2003 tive oportunidade de conversar com Wanderley
Nunes Lisboa, historiador, guia de turismo e atual presidente da Associação Cultural
Quilombola do Oiteiro, fundada em abril de 2022 e cuja sede funciona provisoriamente
em sua própria residência. Wanderley contou que, ainda no século XIX, as águas do
São Francisco chegavam mais perto do bairro, principalmente no período de cheias,
quando as águas do rio alcançavam as imediações da comunidade, criando condições
favoráveis ao cultivo do arroz. Independente das cheias, em algum ponto da região, os
moradores apanhavam barcos, através dos quais alcançavam a margem sergipana do rio.
As condições favoráveis ao plantio do arroz e à pesca, principais fontes nutricionais da
comunidade, tornaram o local objeto de atração para populações desgarradas de outras
localidades.
Foi por intermédio de Wanderley que conheci Dona Maria Francisca Santos,
verdadeiro patrimônio vivo da comunidade, responsável pela organização do Guerreiro
Treme-Terra importante expressão artístico-cultural local, integrado por senhoras da
“melhor idade”. O grupo é sempre muito requisitado para apresentações em Penedo,
principalmente na festa do Bom Jesus dos Navegantes, e em outras interiores, cujas
viagens são patrocinadas pela prefeitura de Penedo.
QUILOMBO BREJÃO DOS NEGROS
A última visita no percurso da Expedição de 2022 foi ao município de Brejo Grande
no Estado de Sergipe e onde se localiza o território quilombola que agrega as comunidades
de Brejão dos Negros, Fazenda Resina, povoado Carapitanga e a sede de Brejo Grande.
Todo o território se encontra certificado, através da Portaria n° 38930/2006 embora
somente em Brejão se verificou o cadastramento das famílias que se autodefinem como
remanescentes de quilombo. Foram destinadas a esta última comunidade específica 469
hectares das terras que antes integravam a Fazenda Batateira, que, por sua vez, é um
239
desmembramento da Fazenda Capivara (São Francisco), que fora desapropriada em
março de 2011 por intermédio da Reforma Agrária. A condição étnica de Brejão dos Negros
atendia às exigências de preferência legal para ocupação desse tipo de terras públicas
pertencentes à união, conforme normas do Programa Brasil Quilombola, que estabelece
um conjunto de direitos às comunidades que se autodefinem enquanto “remanescentes
das comunidades de quilombos”. Segundo Bomfim, a garantia de acesso à terra para
o agrupamento do Brejão, as Batateiras vão se tornar um símbolo da luta, “é o núcleo
representativo da questão quilombola na região” (BONFIM, 2017, p. 190).
As sedes que formam o conjunto do município, apesar da certificação paralela,
aguardam até hoje a demarcação das áreas pendentes e o cadastramento das famílias
por pautarem suas reivindicações em torno da luta pela terra, dependendo, portanto,
de processos mais complexos que envolvem pedidos de desapropriação por parte do
INCRA sobre o qual recai a responsabilidade de selecionar os beneficiários e assentar as
famílias. A situação do agrupamento Resina, ilustra bem a complexidade dessa situação.
Uma vez situada nos limites da Fazenda Capivara, território localizado às margens do rio
São Francisco, cercado de extensa mata, mananciais, lagoas e alagados, a regularização
fundiária torna-se objeto de cobiça e acirrada disputa e arrasta-se por mais tempo.
Segundo Bonfim, “a propriedade se torna uma peça importante em torno da ‘luta pela
terra’ na região” (BONFIM, 2017, p. 74).
A presidente da Associação Remanescente de Quilombola Dom José Brandão
de Castro, Maria José Bezerra dos Santos, mais conhecida como Dona Deca, além
de quilombola também se declara colonizada, ou seja, credenciada na colônia de
pescadores do município, que é uma característica dos moradores da sede do Quilombo,
dada a proximidade do rio. Seu depoimento também foi fundamental para acompanhar
o processo de luta pela terra, iniciado ainda em 1985, com o incentivo do Padre Luiz
Rodrigues e, continuada, já em 2003, com o apoio prestado pelo Padre Isaias Nascimento,
proveniente da paróquia de Propriá/SE onde atuava à frente das Comunidades Eclesiais
de Base (CEBs). Inspirado na Teologia da Libertação, ele retoma em Brejo Grande/SE o
processo de luta pelo direito à terra em nome dos menos favorecidos.
Durante muito tempo, as campanhas política assumiram caráter fundiário,
aproximando suas pautas das campanhas dos trabalhadores sem-terra que visavam
à reforma agrária. É nessa condição que, pelo menos os moradores na sede de Brejo
Grande/SE, acamparam durante quase 90 dias no Saramém, povoado construído para
acomodar os moradores do antigo Cabeço e de onde foram expulsos pelo prefeito do
município de Brejo Grande/SE, buscando na sequência, abrigo às margens da rodovia que
liga o povoado à sede do município. As campanhas são lembradas por todos com pesar,
dadas as situações de penúria e insegurança enfrentadas pelos que estavam na linha de
frente do movimento. São comuns os relatos de ameaças, perseguições e humilhações
sofridas por todos que ocupavam as terras abandonadas e impingidas por fazendeiros,
jagunços e policiais locais.
Do ponto de vista judicial, o antropólogo Wellington de Jesus Bonfim (2017)
reconstitui com precisão as etapas da judicialização da questão, a qual envolve a
intervenção do Ministério Público Federal, do Ministério Público do Estado de Sergipe e
da Procuradoria Geral de Justiça, através da Curadoria dos Direitos Humanos, Controle
Externo da Atividade Policial & Conflitos Agrários, além dos religiosos da Teologia da
Libertação. “Presidida pelo ouvidor agrário nacional e desembargador Gercino José da
Silva Filho, o litígio foi classificado como ‘conflito agrário’ (BONFIM, 2017, p, 142-143).
À medida que os processos corriam na justiça, a questão assumiu uma feição mais
étnica. Por esse motivo, foi recomendado pelo MPF a realização de laudo antropológico
por servidores da autarquia federal com a finalidade de produzir Relatório Técnico de
Identificação e Delimitação (RTID), o qual só foi concluído em 2013.
Segundo o parecer técnico conclusivo, dado pela antropóloga Ana Lídia Nauar Pantoja,
servidora pública lotada na Superintendência Regional do INCRA em Belém-SR01, as
240
localidades situadas no conjunto compreendido pelo Quilombo Brejão dos Negros
(Resina, Saramém, Carapitanga e Guaratuba) são predominantemente habitadas por
pescadores. Tal constatação revela a necessidade e a importância da demarcação desses
territórios tradicionais como alternativa de conservação e preservação das áreas que
formam a bacia do São Francisco.
COMUNIDADE QUILOMBOLA DO PIXAIM
Por fim, a jornada pelos territórios quilombolas, se encerra com a visita ao quilombo
Pixaim, ocorrida na última expedição de 2023. No passado o lugar era habitado por
famílias que viviam da produção do arroz, tipo de cultura possível por conta das várzeas
que se formavam no estuário do São Francisco. Após a construção da Usina Hidrelétrica
de Xingó toda a dinâmica da vazão do rio foi alterada, provocando a salinização da água
e transformando as condições de uso do solo por parte da comunidade nativa. Com isso
vai se verificar um processo contínuo de imigração para fora da área.
Outro episódio decisivo para o destino daquela população foi a criação, em
1983, da Área de Proteção Ambiental (APA) de Piaçabuçu, por meio do decreto de nº
88.421, a qual abrange o território que antes pertencia à comunidade do Pixaim e outras
populações vizinhas. Essa medida foi tomada com a finalidade de garantir a conservação
do ambiente natural e a proteção de tartarugas marinhas e aves migratórias, contudo,
implicou em outro processo de migração compulsória para a comunidade que procurou
as áreas de dunas mais próximas da foz do São Francisco. Porém, quando em 2009
Pixaim foi certificada como ‘Comunidade Quilombola’, pela Fundação Palmares, houve um
entendimento de que pessoas reconhecidas como remanescentes poderiam permanecer
ou transitar pela área protegida.
Por conta do isolamento em que se encontra, o acesso à comunidade só pode ser
feito através de barco, meio de transporte que utilizei a partir de Piaçabuçu para chegar
até o porto onde fui recepcionado pela líder comunitária Alexandra. Apesar de quase
escondida, chama a atenção quando entramos, o tamanho da comunidade, impressão
que está associada à presença das dunas que dão à paisagem, uma característica de
deserto. As residências são escassas e algumas estão erguidas sobre pilotis de madeira
para escapar do movimento das dunas.
Alexandra falou sobre as formas de subsistência da comunidade, onde se destaca o
plantio do coco, banana, macaxeira, frutas, plantadas em terreno de argila, para consumo
próprio, a criação de animais (vaca, cabras e ovelhas, principalmente) e fabrico de doces
e cocadas que são vendidos na foz do rio para os turistas. Seu bar é frequentado pelos
próprios moradores das redondezas.
Na sequência percorri a comunidade e no caminho Alexandra mostrou os poços
de água potável que eles abrem em meio ao areal, sem nenhuma cobertura de alvenaria,
mas que se conserva límpida, e de onde os moradores abastecem suas casas, uma vez
que não existe água encanada no lugar.
Depois visitei a capela de Nossa Senhora da Conceição, cujo novenário iria
começar no dia seguinte (29/11), sendo o ponto alto da celebração, a missa e a procissão
realizada no dia 8 de dezembro com a presença do padre de Piaçabuçu. A festa acontece
com a limpeza da capela, montagem do altar com os anjos, coroação da santa, etc.
O novenário é conduzido pelas próprias zeladoras até o dia principal, quando o padre
retorna à comunidade para celebrar missa principal. No passado, a celebração contava
com a presença de grupos de reisado, pastoril e zabumba, todos oriundos de Piaçabuçu.
Atualmente só a banda de pífanos se apresenta na celebração. Para recepcionar os
visitantes que costumam acompanhar o padre, a comunidade oferece um almoço. Na
parte da tarde tem a quermesse, onde se vendem salgados e doces, e os leilões. Por volta
das 15 horas, tem a celebração da missa e a realização da procissão pelas imediações da
capela, subindo e descendo os morros do entorno.
241
A construção encontra-se encravada nos fundos de uma duna, cuja altura já supera
o tamanho do templo. Trata-se de estrutura simples de vão único com um altar, onde
ganha destaque a imagem da padroeira, espaço que divide com santos menores como
são Francisco, São José e São Miguel.
Quanto ao nome da comunidade, fui informado que tem a ver com o tipo de cabelo
“carangolado” da maioria dos moradores, embora os mais antigos não costumassem
falar sobre o assunto. Saímos do lugar sem encontrar ninguém nunca soubesse confirmar
essa história.
TERRITÓRIOS INDÍGENAS
ALDEIA INDÍGENA ACONÃ
Seguindo a viagem rio abaixo, a Expedição de 2022 aportou no município de São
Braz, a partir de onde foi possível acessar a aldeia dos Aconã, cuja reserva indígena
está situada no município vizinho de Traipu/AL. A dificuldade de encontrar referências
históricas sobre o grupo talvez advenha do fato de sua origem estar associada a outras
comunidades indígenas alagoanas.
Os registros históricos não se fazem acompanhar de referências mais recentes. A
confusão acerca das suas origens também pode estar associada à dificuldade dos próprios
membros da comunidade de reconstituírem os inúmeros processos de dissolução pelos
quais passaram, bem como os percursos realizados até onde se encontram atualmente,
ocupação recente que remonta ao ano de 2003.
Os Aconã são provenientes da mesma matriz étnica. Antes de chegar à Reserva
Indígena atual, residiram com outros grupos étnicos como os Cropotó, Ceococes e Prakiós
no aldeamento Kariri-Xocó, na Rua dos Caboclos, logradouro da periferia de Porto Real
do Colégio/AL onde estavam misturados com moradores não indígenas, impedidos de
plantar suas roças e vivenciar seus costumes tradicionais. Lembrando que oficialmente
aquelas denominações étnicas e seus respectivos territórios foram extintos em 1873 e
seus antigos habitantes foram considerados integrados à sociedade nacional. Somente
em 1978 os indígenas ocuparam as terras da antiga Fazenda Modelo, da Companhia
de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF), também
conhecida por Sementeira, e exigiram a demarcação da área como seu território
tradicional. Entre os anos de 2000 e 2005 verifica-se o processo de demarcação da TI
Kariri-Xokó, a qual acontece em meio a forte contestação por parte dos fazendeiros da
região. É também nesse mesmo período que acontece o levantamento e a demarcação
da reserva indígena dos Aconã.
A própria história dos Aconã é marcada por processos de dissidência, migrações forçadas
e dispersão por entre outras comunidades indígenas, sobretudo “em certas ilhas do
médio São Francisco, sob a jurisdição de várias missões, durante o século XVIII, antes de
mover-se para sua localidade atual de Brejo dos Padres, Pernambuco” (HOHENTHAL JR.
1960, p. 55).
Segundo Andrade que é o motorista da unidade e integrante da etnia Karapotó, cuja
origem remonta ao convívio em aldeamentos junto aos Kariri-Xocó, a longa trajetória dos
antepassados de sua própria etnia envolve complexos processos de rupturas e mudanças.
Segundo Andrade, os indígenas que se recusaram a abdicar de sua identidade étnica,
durante a convivência em Porto Real do Colégio, recorreram a regiões mais afastadas
do rio São Francisco, no município de São Sebastião/AL. Ali o grupo também enfrentou
embates com fazendeiros locais tendo que, por isso, fugir para procurar abrigo novamente
em Colégio, desta feita, submetendo-se e abdicando de sua identidade para se misturar
aos Kariri Xocó.
Devido às desavenças internas entre Kariri-Xocó e Tingui-Botó, em 2003 os Aconã,
com a mediação da FUNAI, optaram pela mudança para território próprio, sob a alegação
242
de que constituíam uma etnia localizada em registros históricos antigos, embora fossem
dados como desaparecidos para os órgãos oficiais do Governo. A mudança definitiva
acontece no ano de 2003, depois do levantamento feito nos anos anteriores,
Atualmente residem 35 famílias na Reserva Indígena de 627,78 hectares. Apesar
de terem conseguido se instalar na Reserva, a comunidade ainda se ressente da falta de
assistência por parte da FUNAI. Solange Saraiva, filha do Cacique José Saraiva, agente
indígena de saúde da comunidade e Andrade, motorista da unidade, manifestaram
preocupação com a demora na demarcação de suas terras por parte da FUNAI, além
da falta de assistência do órgão que não assegura a infraestrutura necessária para o
funcionamento das atividades básicas. A aldeia não dispõe, por exemplo, de um prédio
apropriado para as crianças estudarem.
A comunidade sobrevive basicamente das atividades agrícolas, cujos principais
produtos são milho, feijão, mandioca, arroz, abóbora e batata para consumo próprio.
Também criam alguns tipos de animais como gado, galinha e porco. As fruteiras mais
comuns são manga e goiaba. Por fim, a comunidade produz artesanato, tipo pulseiras,
cocares e brincos, feitos de sementes e penas de aves (gavião, carcará, garça etc.) que
não são comercializados.
Na segunda visita que realizei em 2023, dei prioridade às entrevistas com as
mulheres indígenas, por perceber o significado de sua presença na comunidade, enquanto
agricultoras, artesãs e lideranças femininas. Na ocasião conversei com Maria Izabel, Iara e
Suriana, todas filhas do cacique Saraiva, patriarca da família Aconã. Na ocasião o grupo
de expedicionários foi conduzido até um espaço arborizado com área central aberta e
onde os integrantes da comunidade apresentavam suas atividades culturais aos visitantes,
principalmente o toré. Na ocasião se encontravam muitas crianças, adolescentes e
mulheres indígenas.
Os dançarinos, principalmente os mais jovens, se preparavam para a dança,
fazendo uns nos outros, pinturas corporais e providenciando adereços de cabeça e
outros tipos de acessórios que também seriam utilizados na apresentação. Os cocares
feitos com penas maiores são utilizados pelas lideranças e as menores, pelas crianças.
Enquanto isso fui conversando com as mulheres, reunidas em torno de uma fogueira
improvisada e da qual eles utilizavam tições para acender seus cachimbos, notadamente
usados por todos, inclusive crianças, sob a alegação de que ajudam na concentração.
Aos poucos o grupo foi se reunindo numa roda no centro da lareira e subitamente
começaram a percorrer a área em círculos entoando canções e tocando maracas. A
formação era predominantemente masculina, mas algumas meninas e mulheres também
acompanhavam a roda, na parte externa do grupo. Depois de um intervalo, ouve-se vindo
de lugar mais afastado, dois jovens irmãos tocando cada um, um búzio, espécie de flauta
comprida feita de madeira enfeitada e utilizadas em rituais de cura. Numa coreografia
ritmada, aproximam-se do restante do grupo que os recepciona tocando as maracas e
apitos, enquanto entoam canções sincopadas. Na sequência, os dois percorrem também
em círculo o espaço aberto, sendo acompanhados, depois, pelos demais integrantes do
grupo, com a mesma estrutura, homens no centro e mulheres no círculo externo. Ao final
e simultaneamente, alguns dos convidados são chamados a se incorporar à roda. Uma
hora depois de iniciada, a dança se encerra e Suriana, uma das lideranças femininas da
comunidade profere algumas palavras de agradecimento, ao mesmo tempo em que faz
um apelo aos convidados para que não esqueçam o povo Aconã.
TERRITÓRIO INDÍGENA KARIRI-XOKÓ
Durante a Expedição de 2022, não conseguimos visitar a comunidade, cujos
integrantes se encontravam recolhida para realização do ritual do Ouricuri. Em 2023
visitamos a residência de Pawanã Crody Kariri, localizada no aldeamento Kariri-Xocó,
situado na periferia do município de Porto Real do Colégio/AL, onde fomos recepcionados
por sua esposa Nary, que nos apresentou mostrou o artesanato produzido por ela e sua
243
família e que ela costuma comercializar em cidades maiores como Maceió e Aracaju,
principalmente. Foi ela quem nos conduziu ao Centro Cultural Sabuká Kariri Xocó, um
espaço amplo de reunião do grupo, com várias casas de alvenaria, salão central e cozinha
coletiva e alojamentos.
Pawanã nos falou da importância desse espaço de convivência para a realização
das vivências do grupo e de cursos oferecidos aos visitantes interessados. Conta que o
lugar foi construído com apoio de organizações belga e italiana.
Depois de apresentar as instalações, Pawanã convidou o grupo de expedicionários
presentes na ocasião para participar do ritual do pôr do sol, durante o qual ele e um
parente seu, entoaram canções na língua nativa de agradecimento pelo dia que se
findava, enquanto contemplavam do crepúsculo. Enquanto assistíamos o ritual, sentados
num banco de madeira, fomos convidados a compartilhar do pauí, cachimbo que foi
passado de mão em mão entre os presentes. Segundo Pawanã, trata-se de uns principais
instrumentos utilizados nos rituais indígenas da região, porquanto auxilia os que usam,
acesso ao mundo espiritual. O ritual se encerra com o uso de apitos, cujos sons se
assemelham aos cantos dos pássaros e com quem, segundo Pawanã, eles estão em
constante comunicação.
TERRITÓRIOS DE OCUPAÇÃO RECENTE
FAMÍLIAS ASSENTADAS E ACAMPADAS
O assentamento Gastone Beltrão (Chico Mendes) localiza-se no município de Olho
d’Água do Casado/AL situado na microrregião alagoana do Sertão do São Francisco e
dentro do perímetro do semiárido brasileiro. Embora fora do roteiro da Expedição, que
previa apenas os municípios localizados às margens do rio, a visita ao assentamento
mostrou-se extremamente útil pois possibilitou compreender as dinâmicas socioculturais
em territórios que foram ou estão em processo declarado de disputa fundiário. O acesso ao
local foi facilitado pela presença do engenheiro da antiga EMATER que presta assistência
técnica às comunidades locais . No local se encontravam José da Silva Santos, mais
conhecido como Zé Neto, jovem liderança do Movimento dos Sem Terra no Alto Sertão.
Zé Neto tem 29 anos e durante a entrevista falou sobre as formas de exploração
da terra, falou do plantio feijão, do mil e da palma, principalmente, voltada para a criação
do gado leiteiro. No assentamento também se verifica a criação de galinhas, porcos e
ovelhas. Atualmente vem se desenvolvendo no local a apicultura e fabricação do mel.
A proximidade do rio, não é suficiente para suprir o problema decorrente da falta
d’água. Outra ameaça constante diz respeito ao fato de os assentamentos, principalmente
o Nova Esperança, estarem localizados em área, atualmente, muito valorizada
turisticamente, pela proximidade do Portal dos Cânions, os quais têm atraído a atenção
de especuladores, interessados na compra de lotes, gerando inúmeros conflitos entre
assentados e não assentados.
ACAMPAMENTO ESTRELA
Para efeito de comparação, importante citar a visita ao acampamento Estrela, no
município de Propriá/SE, realizada durante a Expedição de 2022. Também lá o acesso foi
possibilitado pelos técnicos em agropecuária e contratados da EMATER, os quais prestam
na comunidade assistência às famílias cadastradas no Programa de Fortalecimento da
Agricultura Familiar, orientando, avaliando e encaminhando integrantes das unidades
cadastradas para obtenção do financiamento, sobretudo em áreas mais carentes com os
acampamentos do MST.
Manuel Messias Nogueira da Cruz é um dos agricultores que exploram
economicamente a unidade. Na tarefa por ele utilizada, embora ainda não demarcada,
244
encontram-se vários tipos de fruteiras e de animais como galinhas, pato e porco, além de
um apiário. Ali também existe um poço onde são criados peixes como tilápia, tambaqui
e tambacu. Manuel conhece bem a região, pois trabalhou durante 20 anos para famílias
abastadas da região. O lugar onde se encontra o acampamento era uma mineradora, hoje
abandonada. Junto com ele estão instaladas ali 150 famílias.
COMUNIDADES ARTESÃS
ILHA DO FERRO
A Ilha do Ferro é um povoado do município de Pão de Açúcar/AL, segunda parada
da Expedição de 2022 e do qual está distante 15 Km. Na ocasião, o acesso ao povoado
continuava complicado por conta das fortes chuvas que caíram no último inverno e que
destruíram a ponte sobre o riacho Grande, a única que permite a ligação com a sede do
município .
O povoado ganhou maior notoriedade desde que a produção artesanal local passou
a ser noticiada na mídia alagoana e nacional, e a ser exibida em feiras e exposições fora do
estado. A modalidade mais conhecida é o bordado conhecido por “Boa-noite”, praticada
eminentemente pelas mulheres da comunidade e cuja denominação advém, de uma flor
nativa da Ilha do Ferro. A origem se perde no tempo, mas para alguns estudiosos, sua
introdução na comunidade foi feita por intermédio da artesã dona Ernestina, nos idos dos
anos 1940, que teria aprendido a fazer a renda em Sergipe (ROCHA, 2017, p. 399) . A outra
modalidade artesanal de grande reputação na localidade e fora dali são as esculturas,
produzidas com madeira antes encontrada na região e que hoje são encomendadas em
outros municípios.
Com pouco mais de 400 habitantes, além de principal polo artesanal no Estado,
o povoado também tem se tornado importante polo de atração de artistas plásticos e
colecionadores, que acorrem ao local, não apenas para passagens rápidas em casas de
temporada, mas também para fixar residência permanente, como a museóloga Cármen
Lucia Dantas que também já foi secretária de Cultura do Estado de Alagoas e publicou
diversas obras sobre aspectos da cultura e do folclore alagoano. Na conversa obtida, ela
revelou ter sido uma das organizadoras, juntamente com o fotógrafo Celso Brandão e o
artista plástico Rogério Gomes da exposição sobre Alagoas no Moseo Sant’Egidio, em
Roma, a qual continha elementos do artesanato da Ilha do Ferro (LINS, 2021, p. 53).
O primeiro artesão entrevistado foi José Alvaci, mais conhecido como Zé Crente,
o qual informou que começou a trabalhar com esculturas por influência do pai que
construía barcos. Essa associação da atividade artística com a construção naval, remete
inevitavelmente à proximidade do Rio São Francisco com suas histórias de naufrágios, de
fluxo de passageiros e de corridas de barcos à vela, categoria de transporte característica
do Baixo antes do advento das embarcações a motor. “Esse passado naval explica o grande
número de artesãos que começaram a vida nos muitos estaleiros ao longo dos povoados
ribeirinhos. Muitos também eram os construtores das armações de madeira, estruturas
depois ‘tapadas’ com barro, originando as casas de taipa, cobertas originalmente com
palha” (ALAGOAS, 2022, p. 129).
Na sequência, visitamos o ateliê de Mestre Aberaldo, talvez o artista mais
conhecido da Ilha. Como em vários outros casos na comunidade, sua habilidade com a
madeira tem início por influência da própria família, cujos antepassados eram exímios
carpinteiros, como seu avô e seu pai, mestres na construção de casas, currais, carros de
boi, mas principalmente canoas de tolda. Ele informa que começou construindo canoas
de brinquedo, estendendo a variedade de objetos para os bonecos e ex-votos. Como em
outros relatos obtidos, o tipo de madeira mais comumente trabalhada é o mulungu e a
imburana, espécie mais rara, mas ainda encontrada na região.
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A atividade artesã surge como alternativa ao trabalho na roça e à própria construção
de barcos, às quais a maioria desses artesãos foi forçado em razão do baixo nível de
instrução e do fato de terem sido inicialmente forçados a abandonado mais cedo os
bancos da escola para ajudar os pais no trabalho na roça e na pesca.
No amplo terreno onde se localiza sua oficina, e que o Mestre Aberaldo divide com sua
esposa, Dona Vana e dois filhos dos seus quatro filhos, eles construíram uma pousada
para receber “amigos de Maceió”, como eles chamam os artistas e colecionadores que
costumam frequentar a comunidade e que antes se hospedavam nas casas das famílias
locais. D. Vana, que também é artesão, conta que sua função consiste na confecção de
panos de prato, descanso de copo e jogo americano com o Bordado Meia-Noite, uma
tradição que pratica desde os 10 anos de idade e que herdou de sua mãe, que por sua
vez recebeu de sua avó.
Em 2023 Retornamos à Ilha do Ferro, desta vez com um grupo maior que foi
acompanhado pelo secretário de Administração e Gestão do Planejamento do Município
de Pão de Açúcar, que nos conduziu à sede da associação das artesãs de Ilha do Ferro,
conhecido como Espaço Art Ilha Artesanato Bordado Boa Noite, onde já se encontrava
uma boa parte das rendeiras e alguns poucos escultores. A finalidade do encontro era
conversar sobre a possibilidade de incluir a comunidade no Projeto de Identificação
Geográfica, que Alexandre Vasconcelos e Tatiane Balliano, membros da Expedição,
ficaram responsáveis por apresentar às artesãs. Após a reunião, conversei com André
Fontes Torres, mais conhecido no local como Dedé, cujos trabalhos com madeira muito
contribuíram para obter a notoriedade que a ilha possui hoje nacionalmente. Ele falou
sobre as origens do artesanato no povoado, que se iniciou com a contribuição de Fernando
Rodrigues dos Santos, “o patriarca” que começou fabricando tamancos e construindo
bancos com a restos da árvore derrubada para construção da estrada que liga o povoado
ao município de Pão de Açúcar em 1982 e que passava em frente à sua casa. Foi com os
troncos desse mulungu que ele construiu os bancos que mobiliaram o Bar Redondo de
sua propriedade. Depois disso seu Fernando começou a construir também tamancos e
cabeças (carrancas). Depois do seu falecimento, o atelier dele, chamado “boca de vento”,
foi assumido por seu genro e dois de seus netos, inclusive, Camile Souza, a primeira
mulher da comunidade a tratar com madeira, a qual tem servido de inspiração a outras
mulheres que ingressaram na atividade, antes exclusivamente reservada aos homens.
Atualmente essas mulheres invertem a clássica divisão sexual das tarefas entre gêneros
que organiza a vida dos moradores locais, a qual estabelece dois campos separados de
atividade: homens esculpem com madeira e mulheres dedicam-se ao bordado.
Dedé tem três filhos, todos eles dedicados também ao trabalho com madeira,
inclusive sua filha caçula, Raquel, de 7 anos que já se arrisca no trabalho artístico,
pintando os pássaros de madeira que seus dois irmãos mais velhos fabricam. Todos eles
aprenderam o ofício com o pai, que os incentivou fornecendo materiais, que antes eram
utilizados na fabricação de canoas. Os principais tipos de madeira utilizados são, além
do mulungu encontrado abundantemente nas margens do rio, pereiro, galhos secos da
caatinga, imburana ainda encontrada na região ou trazidas de fora sob encomenda. Por
conta da tendência ao escasseamento dessa matéria prima, Dedé, como outros artesão
da localidade, assumiram um discurso favorável ao reflorestamento, ele próprio tendo
reservado um terreno herdado do seu pai para esse fim.
A associação dos artesãos em madeira chama-se Ilha das Árvores, cujo presidente
atual é Yang, filho de Petrônio Farias, de quem herdou a veia artística.
SANTANA DO SÃO FRANCISCO, ANTIGO POVOADO DE CARRAPICHO
Somente na Expedição de 2023, visitamos, eu e Alexandre Vasconcelos, o município
de Santana do São Francisco, antigamente conhecido como Carrapicho, situado na
margem sergipana, na altura do município de Penedo. Trata-se de uma comunidade
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responsável pela produção de um tipo de artesanato de cerâmica característico e
comercializado nos pontos turísticos e feiras das principais capitais no Nordeste.
Na ocasião visitamos a oficina dos irmãos Soares, nove ao todo, Lourenço, Joaquim,
Tiago, Daniel, Antonio, Jacó, Davi, Ivan e Juca, filhos do mestre Soarino, famoso construtor
de canoas e de barcos de corrida da região. Seus filhos hoje se dedicam à produção de
peças em argila, tomando como modelo, figuras regionais como Lampião. Cada um deles
se responsabiliza por uma etapa da produção ou por um modelo específico de objeto.
São as histórias desses personagens retratados que servem de inspiração. Quanto um
personagem se torna muito popular eles fabricam uma peça matriz num molde de gesso
que vai possibilitar a reprodução em série.
Daniel conta que o pioneiro nesse tipo de arte no município foi um português de
nome João Henrique da Costa, mais conhecido como Zé Igreja que montou a primeira
fábrica no povoado, embora ele tenha se instalou inicialmente no Barro Vermelho,
bairro da cidade de Penedo famoso pela qualidade da argila lá encontrada e da grande
quantidade de olarias existentes no passado.
Daniel Soares conta que aprendeu esse tipo arte quando ainda era criança,
observando os mais antigos. Quanto às mulheres, ele informa que elas se dedicam mais
às etapas de finalização, com a pintura e envelhecimento das peças, embora homens
também façam esse tipo de acabamento, como Lourenço um dos irmãos da família
Soares e com quem também conversamos em nossa visita à oficina.
Na ocasião da visita ao município conversamos também com Wilson de Carvalho,
mais conhecido localmente por Capilé. O pai era barqueiro e fazia transporte de
mercadorias pelo São Francisco, comercializando peças utilitárias como cabaça, moringa,
potes e vasos de plantas em Propriá, principalmente. Com o declínio econômico desta
cidade, o foco volta-se para Penedo, entreposto comercial entre o rio e os municípios do
sertão, cujas embarcações levavam açúcar e traziam cal e paralelepípedo dessas cidades
do interior, tudo feito através de chatas, irmãs menores das canoas de tolda. A partir
da década de 1990, começa a se verificar também uma alteração no tipo de artesanato
comercializado, com a introdução de miniaturas de cerâmica por intermédio dos irmãos
Freitas, Antonio, Gama e João, este último pai do artista Beto Freitas, mais conhecido
como Beto Pezão, cujas peças concorreram para tornar o artesanato do povoado
Carrapicho conhecido nacionalmente.
A inserção de Capilé nesse mercado artístico começa com o mestre Sorino, esposo
de sua tia e pai dos irmãos Soares, e com quem aprendeu a fazer réplicas de chaleiras,
bules e compoteiras, que eram os objetos com os quais seu tio pagava o serviço que
ele prestava de amassar o barro. Hoje Capilé considera que superou o mestre, uma vez
que seu artesanato é superior, não apenas em qualidade, mas também em tamanho dos
objetos. Sua produção de caracteriza pelo fabrico de esculturas de tamanho natural, a
exemplo das figuras do presépio, sua marca principal, e as imagens sagradas, como a
Senhora Santana, padroeira do município, cujo exemplar se encontra no nicho da entrada
da cidade e a imagem de Nossa Senhora da Saúde do povoado vizinho de mesmo nome.
Ele também fabrica, quando encomendado, imagens de orixás, a exemplo do Exu africano
que localizamos na sua oficina.
Ele conta que todo o processo criativo é de sua inteira responsabilidade e que
executa sozinho todas as etapas da fabricação. Seus filhos, a maior parte deles residindo
fora, não deram continuidade à profissão do pai, embora tenham adquirido a habilidade
artística durante o período em que com ele conviviam na infância e sejam capazes de
demonstrá-lo quando solicitados.
Antes de deixarmos o município para voltar pra Penedo, passamos pelo Centro
Comercial de Artesanato do município onde é comercializada a produção dos artistas
locais e até de municípios vizinhos, cuja característica criativa se confunde com a local.
247
“ESTAÇÃO CANGAÇO” DE PIRANHAS/AL
O terceiro grupo de artesãs visitadas no circuito da Expedição, aconteceu em 2023
e pertence ao município de Piranhas/AL. Trata-se da Associação “Estação Cangaço”,
integrado exclusivamente por mulheres dedicadas ao fabrico de peças artesanais feitas
com coro de tilápia. Não localizamos, em todo roteiro da expedição, qualquer outra
localidade ou grupo que produzisse materiais com esse tipo de material.
A sede funciona em um galpão, cujo aluguel é pago pela prefeitura de Piranhas/
AL, situação que deixa as artesãs em situação de muita vulnerabilidade profissional, uma
vez que sempre estão na dependência da boa vontade dos novos gestores públicos,
quando há substituição de mandato. As condições desconfortáveis de trabalho também
são objeto de queixa por parte das artesãs que não desfrutam de um ambiente fresco
para exercerem suas atividades laborais.
Na parte anterior do galpão, situa-se a parte principal da oficina, com suas quatro
máquinas de costura e uma quinta que é utilizada para esticar as peles, além de uma
grande mesa posta no centro onde as peças são cortadas. Ali também se encontra
exposta parte das peças fabricadas e que são comercializadas por elas mesmas. Nos
fundos do prédio, encontram-se dois ambientes voltados para o tratamento da pele, o
último deles, o próprio banheiro da associação, onde as peles são conservadas dentro de
tinas com água e amônia.
Na ocasião da visita, encontramos todas as artesãs da associação, inclusive
a presidente Jussara, a qual assume a função em regime de rodízio com as outras
companheiras de trabalho. Contudo, quem prestou as maiores informações sobre a
associação foi Josinete, que também já a presidiu. Ela nos contou que a associação foi
fundada em 2007 e que atualmente é formada por 7 mulheres. Apenas um homem, o
marido da própria Josinete, presta assistência à Associação, fazendo serviços de reparo
e conserto do maquinário.
Luzinete tratou do regime de trabalho das artesãs, as quais dedicam boa parte do
seu tempo livre ao trabalho de produção artesanal (segunda à sexta, das 8 às 12 e das
14 às 18 horas). O resultado do produto é dividido entre todas de forma equitativa. Ela
conta que no passado as associadas tiveram muitos problemas com o sistema de divisão
dos lucros em função da produção individual de cada uma. As artesãs que não tinham
seus produtos comercializados nas feiras de que participavam, sentiam-se prejudicadas.
O novo modelo de divisão total e equitativo parece ter contribuído para diminuir os
conflitos entre as trabalhadoras.
Josinete relata que hoje os desentendimentos são comuns, mas não a ponto
de comprometer o espírito de coletividade do grupo e ressalta que são as relações
de solidariedade e apoio mútuo que caracterizam o trabalho coletivo na Associação.
Todas as artesãs presentes na ocasião foram unânimes em reforçar o aspecto familiar da
Associação. Elas se consideram fazendo parte de uma grande família, cujas integrantes
estão sempre de prontidão para prestar assistência às companheiras em situação de
maior vulnerabilidade.
Adriana nos levou para conhecer as instalações da oficina e as etapas de produção.
Enquanto fazia isso nos explicou que o material utilizado na produção das peças advém
de comerciantes de filé de tilápia de Canindé/SE, cujas peles eram descartadas sem
qualquer preocupação com os prejuízos no meio ambiente. A parceria, além de assegurar
um destino ecológico para os resíduos, garante uma fonte de renda criativa para as
mulheres artesãs de Piranhas/AL.
A orientação para utilização desse tipo de matéria foi dada pelo SEBRAE, que teve
a responsabilidade de reunir as artesãs interessadas para receber a formação necessária
à produção. Boa parte das atuais integrantes da Associação já tinham alguma atuação no
ramo artesanal, embora com a produção de peças de menor valor econômico.
Além do couro da tilápia, as artesãs de Piranhas também usam o coro de bode,
248
proveniente do município de Cabaceiras. Quanto ao couro de tilápia, o processo se inicia
com a conservação in natura no congelador por pelo menos 3 dias. Na sequência, o
material é descongelado, envolto em cal e depois imerso em uma tina com água, casca
de angico e amônia onde permanece por volta de 30 a 40 dias. O cheiro no ambiente fica
impregnado por essa infusão.
Depois desse período, as peles assumem uma coloração avermelhada. Elas são
lavadas com água abundante, numa bancada de granito contendo quatro torneiras, cujos
dejetos são lançados no quintal da sede que não possui rede de esgoto e encanamento.
A atividade complementar dessa etapa de limpeza das peles, consiste na retirada com
facas peixeira dos vestígios que restaram na parte posterior da pele. Só depois de todo
esse processo, as peças são postas para secar, no interior da própria sede, em área
coberta, para evitar a luz do sol que pode pigmentar o material e inutiliza-lo.
Quando cumpridas todas essas etapas, as peles curtidas são transformadas em arte.
Com o uso de moldes, são feitos os desenhos, principalmente as flores de mandacaru,
símbolo máximo da Associação. Mais recentemente as artesãs vêm ampliando o leque
de desenhos para incorporar também desenhos das casas características da paisagem
urbana de Piranhas/AL e cartão postal da cidade, além das tranças feitas com o couro
de bode usadas como adereços complementares nas peças fabricadas por elas, como
bolsas, porta moedas, sapatos e sandálias.
Os instrumentos de trabalho utilizados pelas artesãs variam entre martelo, canivete,
faca, cola, tecido, tesoura e as próprias máquinas de costura.
Depois de realizada a entrevista, fica-se com a sensação de que as artesãs exercem
um trabalho muito árduo, pouco reconhecido e cuja remuneração não corresponde ao
esforço empreendido, embora seja perceptível a satisfação que elas demonstram no
desenvolvimento da atividade. O discurso corrente é o de que, embora o lucro seja baixo,
elas nunca passam dificuldade financeira.
ASSOCIAÇÃO DE PESCADORES
COMUNIDADES DE PESCADORES
No que diz respeito às comunidades pesqueiras, na edição de 2022 da Expedição,
conversamos com integrantes das colônias de três municípios: Pão de Açúcar/AL, Gararu/
SE e Piaçabuçu/AL. No primeiro, os pescadores foram convidados a visitar as embarcações
da Expedição, numa das quais foi feita a reunião com eles, para instruí-los sobre a pesquisa
com implantação de chips nos peixes para monitoramento das espécies. Na ocasião,
conversamos com três pescadoras e um pescador aposentado. Os depoimentos delas
reportam sempre as dificuldades com a atividade pesqueira, sobretudo em função de
serem mulheres, o que exige, muitas vezes, serem acompanhadas pelos maridos e filhos.
Duas das pescadoras entrevistadas também comercializam o peixe pescado na feira, ou
seja, são “cambistas”. Na maioria, a pesca realizada pelas mulheres é feita como vara e
anzol, embora, às vezes, mas raramente, usem também a rede. A atividade é realizada
em botes a motor, e o período preferido é quando a lua é nova, que torna o ambiente
mais escuro. Quanto ao período do ano, todas afirmam que só pescam entre março e
outubro, uma vez que entre novembro e fevereiro é o período da piracema quando todos
os pescadores colonizados recebem o seguro defeso, equivalente a quatro meses de
salário-mínimo.
Notamos ser recorrente no discurso delas e, principalmente para o pescador
aposentado, as queixas com relação à atividade, decorrente, sobretudo, da diminuição
dos peixes no rio. O Sr. Claudionor, de 68 anos, mostrou-se preocupado com as gerações
futuras dos ribeirinhos, pois apesar da propalada riqueza do rio, hoje, muita gente já
passa fome na região. O mesmo tom também se verifica no discurso dos pescadores da
Colônia 218, no município Gararu/SE, com os quais nos reunimos no Clube Municipal. O
249
mote da reunião era instruir os pescadores sobre o monitoramento dos peixes do São
Francisco. Na ocasião, conversamos com Aragão, comerciante no município que também
se queixou da precariedade do trabalho na pesca e da necessidade de criar alternativas
de emprego que não acomode os moradores em torno de políticas públicas e programas
de renda. Também entrevistamos o vereador Valdinho, pescador desde os 12 anos, assim
como todos de sua família. Ele fez menção à escassez de peixes no rio na atualidade e
o desaparecimento de algumas espécies, inclusive, em decorrência da ação do homem.
Culpa os gestores por isso e acredita que somente um projeto educacional nas escolas
poderia reverter a situação descrita.
As queixas não parecem tão frequentes na Colônia de Pescadores de Piaçabuçu/
AL, onde a escassez não é notada, talvez pela proximidade da foz do São Francisco.
No local, conversamos com Adielson, e José Ataíde, conhecidos como Maribondo e
Vanderson Santos, vulgo Pitão, todos pescadores desde sempre. Aprenderam com os
pais e praticam a pesca desde a infância o que prejudicou a continuidade dos estudos.
Além da pesca, dedicam-se também a atividades extras para complementação da renda,
como é o caso de Maribondo que também fabrica remos e canoas de madeira. Na ocasião,
também conversei conversamos com D. Zezé, merendeira, embora também se declare
colonizada.
Dedica-se ao fabrico de malhas para pesca de camarões (puçá) e de peixes (malha
trinta), além de também trabalhar limpando peixes.
Na colônia de Piaçabuçu/AL, pudemos também obter informações sobre a realização
dos festejos em homenagem ao Bom Jesus dos Navegantes, padroeiro de quase todos
os municípios do Baixo São Francisco, os quais disputam em termos de ostentação
e grandiosidade das procissões. Em Piaçabuçu, por exemplo, a festa acontece no
quarto domingo de janeiro. A ordem das comemorações nos municípios do Baixo são
Francisco que homenageiam o padroeiro nos domingos do mês de janeiro é a que segue:
Neópolis, Penedo/Pão de Açúcar; Ilha da Flores, Piaçabuçu e Brejo Grande. Às vezes, as
celebrações extrapolam o mês de janeiro e estende-se até março. Além da procissão,
que percorrem vastas extensões do rio com a imagem do padroeiro, as comemorações
também incluem as corridas de barcos e canoa, competições que atraem moradores e
concorrentes de várias localidades ribeirinhas do São Francisco. O trajeto das corridas no
trecho de Piaçabuçu, sai do Cabeço até o Porto da Banca no município. Os vencedores
são premiados com troféus e dinheiro.
CONCLUSÃO
Este relatório buscou refletir sobre “encontros itinerários” (Cf. Clifford, 1999) e
caminhadas ao longo de cidades, povoados e sítios localizados ao longo de todo o baixo
São Francisco, região coberta pela Expedição Científica do Baixo São Francisco, cujas
últimas edições, 2022 e 2023, pude acompanhar na condição de antropólogo. Dessa
forma, este relato etnográfico buscou descrever essa experiência itinerante.
Evidentemente este relatório não comporta na totalidade a riqueza da experiência
vivenciada durante as duas edições da Expedição Cientifica do Baixo São Franciso. Alguns
temas foram priorizados no tratamento aqui reservado, como as visitas às populações
quilombolas, por exemplo. Percorri também ao longo das duas expedições, setes
comunidades remanescentes de quilombo, dois territórios indígenas, três comunidades
de artesãos, um assentamento, um acampamento e várias associações de pescadores.
Embora o espaço de tempo disponível para permanência em cada comunidade fosse
bastante exíguo, o material recolhido permitiu uma descrição rica sobre as comunidades
visitadas, ainda que com recorte mais reduzido do que o desejado. Nota-se, à medida
que o relato vai se construindo, que é possível selecionar comunidades estratégicas,
representativas de um certo conjunto de modos de vida e de visões de mundo coletivas
dessa população ribeirinha e com isso, realizar uma leitura significativa do conjunto.
250
Ao longo da Expedição, algumas tendências são mais flagrantes aos olhos do
antropólogo. Nos trechos iniciais, por exemplo, despontam mais queixas associadas
à qualidade de vida das águas do São Francisco e sobre o desaparecimento das
espécies nativas responsáveis pelo sustento das populações locais. Todos clamam por
políticas públicas capazes de reverter esse quadro que promete se agravar ainda mais,
comprometendo o destino de gerações futuras.
Outro aspecto que ressalta e que se relaciona particularmente aos territórios
tradicionais, diz respeito às retóricas de perdas, de resistência e de lutas cotidianas para
assegurar a essas populações originárias e quilombolas o direito à terra. Trata-se de
percursos históricos árduos, mas coroados de conquistas e reconhecimentos legais, que
dão a outras populações em processos semelhantes de combate, esperanças de dias
melhores.
Um terceiro aspecto a destacar, e que escapa um pouco a esse cotidiano de
denúncias, lutas e resistências diz respeito ao aspecto festivo presente em todas essas
comunidades ribeirinhas. O circuito de festas do Bom Jesus dos Navegantes, por
exemplo, mobiliza inúmeras comunidades situadas ao longo do Vale do São Francisco,
apresentando-se como verdadeiro patrimônio imaterial dessas populações tradicionais
que habitam suas margens.
Enfim, a investida antropológica na Expedição faz perceber que a riqueza do
São Francisco não reside apenas nos seus elementos naturais, representados pelas
condições climáticas, os tipos de relevos ou pela fauna e flora localizadas na região,
mas principalmente, pelas dinâmicas socioculturais produzidas a partir do encontro, das
trocas e da convivência dos ribeirinhos que residem nas imediações do rio ou moradores
que habitam áreas mais afastadas do leito. Daí a importância desse aporte antropológico
para entendimento desse aspecto fundamental na compreensão da manutenção do rio.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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fundiária de Território Quilombola: o caso da comunidade Brejão dos Negros/SE. São
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BRANDÃO, T. Folguedos Natalinos. Universidade Federal de Alagoas, Museu Théo
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251
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MENDES, Dulce Santoro. Com um te botaram com dois eu te tiro! Um estudo sobre
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Nova – Alagoas. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2017. (Tese de
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NAUAR, Ana Lídia. Relatório Antropológico. Território Remanescente de Quilombo Brejão
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CEMQS. Aceno, Vol. 3, N. 6, p. 159-175. Ago. a Dez. de 2016.
252
15. ARQUEOLOGIA SUBAQUÁTICA NAS EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS
DO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO: PAISAGENS E LONGA DURAÇÃO
Área de conhecimento: Arqueologia Subaquática.
Paulo Fernando Bava de Camargo 1
Luis Felipe Freire Dantas Santos 2
Gilson Rambelli3
RESUMO
Neste capítulo apresenta-se a contribuição da equipe de Arqueologia subaquática,
do Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de
Sergipe, para a 5ª e a 6ª Expedição Científica do Baixo São Francisco. Seguindo um
programa iniciado ainda na primeira década deste século – o desenvolvimento de
uma Carta Arqueológica do Patrimônio Cultural Subaquático – obteve-se resultados
consistentes para a pesquisa e gestão dos bens submersos e à beira d’água desse
fundamental rio brasileiro. Foram monitorados contextos arqueológicos previamente
localizados e registrados no Velho Chico/ Opará, principalmente com relação ao seu
estado de conservação. Em paralelo, mais dados científicos foram obtidos de alguns
desses sítios já conhecidos. O contato mais amplo com os/as barranqueiros/as (como a
população ribeirinha é denominada) permitiu a coleta de novos dados sobre contextos
arqueológicos potenciais. Agora, com a pausa das atividades da Expedição, resta
processar os dados e criar ferramentas que permitam interpretar e gerenciar os bens
culturais de forma a transformar positivamente a vida da população que vive com o
Velho Opará.
Palavras-chave: Arqueologia de Ambientes Aquáticos, Arqueologia subaquática,
Patrimônio Cultural Subaquático, Carta Arqueológica, Sítio Arqueológico de Naufrágio
1
Professor do Departamento de Arqueologia (DARQ) e do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PROARQ) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Coordenador adjunto do Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe (LAAA).
2
Bolsista de pós-doutorado CAPES (PDPG-POSDOC) do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia da Universidade Federal de Sergipe (PROARQ/UFS). Pesquisador do LAAA/UFS.
3
Professor do DARQ e do PROARQ/UFS. Coordenador do LAAA/UFS.
253
INTRODUÇÃO
Nas duas décadas precedentes, iniciativas de levantamento e mapeamento do
Patrimônio Cultural Subaquático (PCS) na região do baixo rio São Francisco (BSF),
especialmente à jusante da hidrelétrica de Xingó vêm sendo desenvolvidas através da
comunhão de diversas instituições, a maior parte delas de ensino e pesquisa públicas.
Dentro desse quadro está o Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos
(LAAA) da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que em razão dessa parceria com
a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) tem-se dedicado à pesquisa, ensino e
extensão, bem como à proposição de formas de gerenciamento dos recursos culturais
da região. Visa-se, assim, uma gradual – mas infelizmente lenta – melhora nas condições
de preservação dos remanescentes arqueológicos parcial ou totalmente submersos. Isso
exige, de forma muito clara, quatro ações dentro do escopo científico da atuação do
LAAA no BSF: pesquisa in situ, extroversão do conhecimento para a sociedade – sendo
as comunidades ribeirinhas prioritárias nesse processo – monitoramento do estado de
conservação dos bens e a parametrização para as ações de salvaguarda das autoridades
competentes. Busca-se fazer uma Arqueologia engajada e que não esteja voltada
somente para o entendimento do passado (muitas vezes idealizado), mas que também
proponha caminhos para uma real apropriação do espaço são-franciscano com justiça
social e qualidade ambiental (Ferreira, 2005).
Os panoramas arqueológicos do BSF começaram a ser investigados
majoritariamente em função do Projeto Arqueológico de Xingó (PAX), que se estendeu
de 1988 até o início deste século, tendo identificado mais de duas centenas de sítios
arqueológicos em Sergipe, Alagoas e Bahia, em decorrência das ações arqueológicas
voltadas ao licenciamento ambiental da usina hidrelétrica de Xingó. Foi o PAX que deu
visibilidade nacional aos remanescentes arqueológicos da região, com destaque aqueles
ligados à ocupação pré-colonial, sem, contudo, aproximar a cultura material desses povos
ribeirinhos ancestrais do ambiente aquático são-franciscano (Santos, 2013). A despeito
dessa lacuna de vinculação de culturas pretéritas ao meio aquático, o legado do PAX
é robusto: o Museu Arqueológico de Xingó (MAX), surgido do PAX, mantém-se como
instituição fundamental para ensino, pesquisa e extensão, dispondo hoje de condições
de basilares para endossar trabalhos arqueológicos subaquáticos.
A despeito desse pioneirismo arqueológico do PAX, as ações diretamente
vinculadas ao PCS, contudo, começam em fins da primeira década deste século, com
uma investigação sobre acervos arqueológicos oriundos de pilhagens de bens culturais
submersos (Relatório, 2009) e uma primeira abordagem arqueológica do farol do Rio
São Francisco do Norte (popularmente conhecido como farol do Cabeço), equipamento
oitocentista de sinalização náutica que hoje se encontra parcialmente tombado, nas
águas da foz do rio, em função do processo erosivo marinho, potencializado desde a
entrada em funcionamento da hidrelétrica de Xingó (Ribeiro Júnior; Rambelli, 2012).
Essas iniciativas colocaram o LAAA como um dos protagonistas na arqueologia
subaquática da região e culminaram na dissertação de mestrado L. F. Santos (2013).
Após breve hiato (no qual predominaram ações de readequação de gestão e estrutura do
MAX), o LAAA retorna ao São Francisco em 2016, através de projeto voltado em especial
ao passado pré-colonial do Opará (Almeida; Klokler, 2016), mas também atuando por sete
anos na Fiscalização Preventiva Integrada da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
(FPI), força tarefa dirigida pelos Ministérios Públicos Estadual e Federal de Sergipe (Bavade-Camargo; Santos, 2022; Bava-de-Camargo; Duran, 2019, com referências anteriores).
Em concomitância com a FPI, a UFS foi convidada a participar das Expedições
Científicas da UFAL, a partir de 2020, o que permitiu ao LAAA outra oportunidade de
manter as atividades de prospecção e monitoramento do PCS do rio São Francisco
(Rambelli; Duran, 2022). De forma potencialmente inovadora, pôde-se incrementar ações
educativas e desenvolver abordagens vinculadas a uma visão de meio ambiente integrado
254
do BSF com vistas a, em um futuro que de forma taxativa não pode estar distante, criar
ferramentas de gestão que integrem sociedade, PCS e meio ambiente para administrar
a sobrevivência da Humanidade, atuando diretamente para atingir alguns dos Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) na
Década do Oceano.
DESENVOLVIMENTO (Metodologia e Resultado)
A primeira ação, dentro desse quadro apresentado acima, deve ser a localização,
mapeamento e registro dos bens culturais, atividade basilar desenvolvida dentro
do projeto Carta Arqueológica Subaquática do Baixo Rio São Francisco: Inventário
Sistemático do Patrimônio Cultural Subaquático4, pesquisa autorizada pelo Centro
Nacional de Arqueologia (CNA) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(IPHAN) (Bava-de-Camargo; Santos, 2023).
Projetos de Cartas Arqueológicas Subaquáticas (CAS) regionais foram muito
difundidos a partir da década de 1970, desde a Carta de Paris (1972) da United Nations
Educacional, Scientific and Cultural Organization (UNESCO). Os artigos 29, 30 e 31 já
chamavam a atenção dos Estados membros para a necessidade de se inventariar, através
de documentação e mapas, o máximo possível dos bens culturais, o que propiciaria a
proteção deles (“conhecer para preservar”). Décadas mais tarde, a Convenção da UNESCO
para Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático (2001) manteve essas diretrizes (para
mais informações consultar Alves, 2001; Pujante, 2001).
Alguns países já realizaram esse dever de casa, tornando a CAS um método para se
atingir um determinado fim e não mais um produto a ser desenvolvido como tal. Mas, o
Brasil ainda está muito aquém de conhecer uma pequena parcela de seus bens culturais
materiais submersos, sejam eles em água doce ou salgada. A despeito dos esforços
das últimas décadas, ainda resta muito a ser feito e as CASs se mantém como projetos
prioritários.
No Brasil, embora os inventários dos bens culturais subaquáticos não sejam
novidade – sendo planejados desde o final da década de 1980, quando uma proposta
foi apresentada ao IPHAN por pesquisadores e integrantes da Universidade Federal da
Bahia (Agostinho, 1988-1989; Rambelli, 2002) – a concretização desse tipo de projeto só
se deu neste século.
Em termos metodológicos e técnicos, a equipe de arqueologia subaquática do
LAAA atua na localização, no georreferenciamento, mapeamento, na caracterização
tipológica e no levantamento histórico dos bens submersos ou relacionados à água. Esses
objetivos elencados foram realizados com técnicas arqueológicas bastante conhecidas,
associadas ao mergulho autônomo científico (ver principalmente Nautical Archaeology
Society, 2009; Green, 2004; Rambelli, 2002).
A pesquisa realiza ações de campo in situ, ou seja, procura-se não realizar coleta
de material submerso porque, embora o MAX tenha condições de realizar operações
básicas para a conservação de material úmido, os preceitos da Convenção da UNESCO
de 2001 recomendam perturbar contextos arqueológicos submersos apenas o mínimo
necessário. Coleta de material só se justifica em escavações e em casos de emergência –
os adequadamente designados resgates. Como consequência, o LAAA só retira material
arqueológico do meio aquático em casos extremos o que, infelizmente, ocorre bastante
no rio São Francisco, principalmente em função das mudanças ambientais observadas ao
longo das últimas décadas, atribuídas de forma geral aos potenciais efeitos da operação
da usina de Xingó.
Entre 2022 e 2023, ficou claro à equipe de arqueologia subaquática que já se
dispunha de um conhecimento adequado sobre o PCS, o que levou os pesquisadores a
4
A pesquisa teve renovada a autorização pela portaria IPHAN/ DEPAM/ CNA nº. 16, de 22 de março
de 2024, publicada no Diário Oficial da União, 01 de abril de 2024, edição 62, seção 1, p. 45.
255
estabelecer duas diretrizes principais: estimular discentes a desenvolverem seus trabalhos
de pós-graduação em sítios arqueológicos identificados, buscando um conhecimento
mais aprofundado desses bens; e utilizar a dinâmica de movimento da Expedição para o
monitoramento do estado de conservação dos bens previamente conhecidos, envolvendo
também uma maior interação com a população envoltória desse patrimônio. É sobre este
último ponto que tratar-se-á adiante.
MONITORAMENTO DOS CONTEXTOS ARQUEOLÓGICOS
O primeiro contexto arqueológico monitorado foi o do Porto de Piranhas. Até a 6ª
Expedição havia uma certa preocupação com esse contexto, tendo em vista que nesse
importante ponto de embarque de mercadorias e pessoas não se havia encontrado
remanescentes de cultura material típicos de um sítio depositário, tal como em outros
locais do BSF.
O intuito do monitoramento deste ano era averiguar as condições dos trilhos de
trem submersos, encontrados em 2016 durante a FPI daquele ano, em uma pequena
reentrância contígua à rampa do porto atual. Infelizmente os trilhos não foram localizados,
porque os barcos da Expedição estavam fundeados exatamente na área, o que pode ter
provocado o bloqueio da luz do sol no leito do rio e a dificuldade em percorrer essas
áreas de baixa visibilidade. Soma-se a isso o fato de que o mergulho ocorreu logo após
um feriado e a água do rio estava com grande quantidade de material particulado, o que
a deixou turva.
Uma reflexão mais aprofundada sobre a razão para os trilhos estarem debaixo
d’água leva para além da obviedade: apesar do porto de Piranhas estar logo abaixo do
espaço da antiga Estrada de Ferro Paulo Afonso, os trilhos submersos conduzem o olhar
dos pesquisadores a prestarem mais atenção às fontes documentais. O binômio ferrovia –
porto se se constitui antes mesmo da operação conjunta dos dois equipamentos, porque
o porto, que é anterior à ferrovia, serviu como ponto de partida e canteiro de obras do
caminho de ferro, tal como se pode perceber em foto disponível no acervo da Biblioteca
Nacional Digital – o areal do porto está dominado por dormentes empilhados (centro e
direita das Figuras 2 e 3). Dessa forma, os trilhos submersos permitem uma aproximação
efetiva ao trabalho e trabalhadores/as que construíram a obra – uma boa parte deles/
as, potencialmente escravizados/as, uma vez que a ferrovia foi iniciada por volta de dez
anos antes da Lei Áurea.
Figura 1: Foto de 1880 do porto de Piranhas, tomada da margem oposta do rio por
I. Mendo. O detalhe mostra tanto os dormentes armazenados quando as choupanas
próximas às rochas da beira do rio (esq.).
256
Fonte: Biblioteca Nacional Digital, 2024.
Mas o monitoramento não foi em vão: houve grata surpresa durante o mergulho
em busca dos trilhos, quando procurou-se prospectar em maiores profundidades: a
equipe desceu até 18,5 m acompanhando as rochas do porto, o que permitiu um melhor
entendimento de alguns dos vetores da dinâmica deposicional do sítio arqueológico.
Além de uma peça estrutural, em madeira, possivelmente de embarcação tradicional,
identificou-se grande quantidade de fragmentos de utensílios cerâmicos, variando
da faiança fina (ou pó-de-pedra), porcelana, cerâmica local/ regional até o grés e,
possivelmente, faiança (sem o esmalte) depositados nas rochas e nos bolsões de areia
entre as rochas. Uma vez que as capas de areia do porto são muito espessas, é praticamente
impossível localizar cultura material não contemporânea na superfície da praia e nas
porções de areia submersa até 3 ou 5 m de profundidade. Algumas semanas mais tarde,
as fortes chuvas que inundaram o centro histórico de Piranhas e provocaram enxurradas
intensas, fartamente registradas e veiculadas nas redes sociais virtuais, mostraram que os
processos de formação e transformação desse sítio podem ser bastante mais complexos
do que o imaginado.
Figura 2: Arqueólogos no sítio arqueológico Porto de Piranhas e a peça náutica de
madeira.
Fonte: LAAA/UFS, 2023.
257
Mais complexidade e humanidade despontam quando se atenta, de novo, às fontes
documentais fotográficas: na mesma foto citada acima, pode-se perceber pequenas
cabanas de palha nas areias do porto, próximas às rochas mais proeminentes ainda hoje
visíveis na paisagem. Seriam pescadores ou trabalhadores da obra naquele acampamento?
Seriam os vestígios materiais localizados pela equipe resultado das atividades daquelas
pessoas, além dos remanescentes das operações de carga e descarga de mercadorias?
Essas e outras perguntas poderão ser respondidas futuramente, quando pesquisas
específicas forem desenvolvidas nesse sítio arqueológico desafiador. Por ora, elas
permitem enriquecer o entendimento de um contexto mais amplo, sobre as diversas
Paisagens Culturais do rio São Francisco, elementos fundamentais para o direcionamento
da CAS.
Em Poço Redondo (SE), no povoado Bonsucesso e em Pão de Açúcar (AL),
povoado Ilha do Ferro, realizou-se levantamento com a sonda, mas os resultados ainda
precisam ser analisados em detalhe, pois as condições climáticas e de correnteza estavam
desfavoráveis. Aqui vale uma explicação sobre a ferramenta de detecção remota.
O fishfinder 5 é uma ecosonda recreacional, cujo transdutor é fixado em haste
no bordo da embarcação. O aparelho possui diversas funções acústicas, cuja mais
importante para a Arqueologia é o Sonar de Varredura Lateral (SVL). Embora não seja
um equipamento que permita um verdadeiro levantamento geofísico do leito do rio,
ainda assim constitui ferramenta importante para as pesquisas: o transdutor submerso
emite feixes laterais de ondas acústicas, a partir de uma frequência entre 450 e 850 kHz.
Ao atingirem diferentes feições e objetos no fundo do curso d’água, os pulsos sonoros
retornam ao emissor que envia esses sinais modificados ao processador do aparelho,
produzindo imagens pictóricas digitais cujo resultado em muito se assemelha a uma
fotografia aérea do fundo do rio e dos eventuais derrelitos nele existentes.
A prospecção indireta por métodos geofísicos ou ferramentas similares é
considerada uma etapa básica na pesquisa arqueológica subaquática, status que adquiriu
ao longo dos últimos 60 anos (Arnold III & Clausen, 1975; Edgerton, 1976; Mazel, 1988;
Delgado, 1997; Nautical Archaeology Society, 2009; Rambelli, 1998, 2002, 2003; Bavade-Camargo, 2002; Green, 2004; Souza, 2006; Duran, 2008; Bava-de-Camargo, 2015).
Em princípio o levantamento com SVL não revelou nenhum alvo que indicasse
a necessidade de investigação em Ilha do Ferro, mas isso não anula o potencial
arqueológico da área, pois pesquisas produtivas devem ser necessariamente contínuas.
No levantamento feito no sítio arqueológico Banho dos Homens (Bonsucesso), as
imagens foram inconclusivas, isso porque a representação dos utensílios cerâmicos
submersos no registro digital pode se confundir com as anomalias relativas às rochas
do leito do rio. Assim, esse sítio arqueológico representa um desafio para a arqueologia
subaquática brasileira, merecendo um trabalho de geofísica aprofundado – incluindo
perfilagem sísmica – e mapeamento detalhado que só poderia ser obtido com um resgate
arqueológico vinculado à pesquisa de mestrado ou de doutorado, de preferência.
Ainda no povoado Bom Sucesso, vistoriou-se o sítio arqueológico da lancha Moxotó
(1917) (Amorim, s.d.), como o objetivo de monitorar suas condições de conservação.
Como resultado das inspeções arqueológicas subaquáticas, pudemos observar que as
mudanças no nível das águas, com as constantes alterações de vazão da UHE Xingó,
propiciaram o deslocamento de sedimento no sítio, evidenciando partes estruturais,
outrora cobertas por sedimentos, e cobrindo outras partes.
Figura 3: Arqueólogo realizando investigações no sítio arqueológico de naufrágio da
lancha Moxotó.
5
O que a equipe utiliza é da marca Humminbird, modelo Helix 10, mas existem diversas outras marcas
e modelos.
258
Fonte: LAAA/UFS, 2022.
Soma-se à vistoria/ monitoramento, a captação de material audiovisual para
produção de conteúdo de divulgação científica para as redes sociais. Uma das principais
ações foi o registro da conversa com o ambientalista e memorialista local, Jackson Borges,
que nos relatou a história do naufrágio da lancha e a repercussão do evento na memória
do baixo rio São Francisco.
Figura 4: Cartilha produzida por meio da parceria da Expedição Científica do Baixo São
Francisco com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL).
Disponível em: https://ufal.br/ufal/pesquisa-e-inovacao/programas/expedicaocientifica-do-rio-sao-francisco/publicacoes/cartilha-arqueologia-subaquatica.pdf/view
259
A Moxotó, em razão da sua forte influência na cultura barranqueira, demanda
estudos aprofundados vinculados a trabalhos acadêmicos específicos. A ação da equipe,
dentro da Expedição, restringe-se ao monitoramento e ao levantamento de informações
contextuais.
É interessante perceber que o fim traumático da lancha ficou marcado na memória
coletiva. Mas, o que se pode dizer sobre o seu começo? Dentro de uma perspectiva
de História de Longa Duração (Schuster; Garcia, 2020), os episódios – naufrágios
– são importantes; porém, a compreensão do processo que encadeia os episódios é
indispensável para a tecitura do conhecimento.
O fim da lancha é a chave para a compreensão de seu começo. Por que ela ficou
tão arraigada na memória da população? Esse fato levanta a suspeita sobre o tempo que
ela operou no São Francisco – ela deve ter sido importante para muitas pessoas, por um
longo período.
E, de fato, assim o foi. Informações desse tipo, corriqueiras, são encontradas nos
periódicos, ou seja, em jornais, almanaques e revistas da época. Um dos acervos mais
completos está na Hemeroteca Digital Brasileira, plataforma operada pela Fundação
Biblioteca Nacional – e é nesse acervo eletrônico que encontramos a data de operação da
“lancha” Moxotó: entre 1892 e 1893, de acordo com informações do Diário de Pernambuco
(22/05/1892, p. 3; 12/10/1892, p. 2). Ou seja, a embarcação esteve a serviço por quase
25 anos antes de seu naufrágio... um quarto de século transportando cargas, pessoas,
animais, informações, ideias e sentimentos ao longo do trajeto Piranhas – Penedo –
Piranhas.
Mais interessante ainda são as dimensões e a tipologia da embarcação a vapor, feita
de aço (não de ferro): media 25,91 m (85 pés) de comprimento, 4,27 m (14 pés) de boca
e calava 0,61 m (2 pés). Tinha capacidade para 15 toneladas de carga e 60 passageiros
– 20 na 1ª classe e o restante na 2ª. Era propelida por roda de pás à popa e desenvolvia
impressionantes 9 a 10 milhas (16,67 a 18,52 km/h) contra a corrente. A Companhia de
Navegação Pernambucana, que adquiriu a Empresa Fluvial do Baixo São Francisco em
1891-1892, denominava a Moxotó como paquete, mas essa designação era dada para
qualquer embarcação que carregava malotes oficiais e não indica o tipo da embarcação
que, em realidade, era uma chata.
Essa denominação permaneceu até 1909, segundo as referências encontradas em
periódicos de Alagoas. A partir dessa data – e até o final de seus dias – a Moxotó passaria
a ser designada mais frequentemente como lancha. Isso leva a uma pergunta importante,
cuja resposta depende de um levantamento bibliográfico exaustivo para fornecer
informações textuais que possam ser entrelaçadas com as de campo: essa mudança de
designação, de chata para lancha indicaria apenas uma questão de preferência semântica
ou apontaria para mudanças estruturais na embarcação – tipo um acréscimo de convés
ou troca da máquina? Teriam as potenciais modificações alterado o centro de gravidade
da Moxotó, contribuindo para o naufrágio dela?
Indagar sobre reforma da embarcação não é algo meramente indutivo: em notícia
d’O Trabalho, jornal penedense, escreve-se:
“A Moxotó é uma verdadeira pitorra, incomoda, sem acomodações. Dispõe de
um pequeno compartimento destinado especialmente às famílias, (...) Existe [sic] umas
sanefas ou empanadas de lona, (...) porém essas nem sempre podem se descer, na
ocasião das chuvas e rajadas de vento, ficando por tal motivo os passageiros à mercê das
intempéries do tempo, sem terem para onde apelar. Na viagem, se há alguma família no tal
compartimento, está tudo perdido... O recurso é levar-se chuva à vontade” (14/08/1897,
p. 3).
Teriam as possíveis melhorias para a acomodação de malas e passageiros, diante
do vento e da chuva do Velho Chico, demanda do novo século XX que iniciava, alterado
a estabilidade da embarcação?
260
Na sequência investigou-se com a sonda a região entre Pão de Açúcar e a
ilha de São Pedro, no município de Porto da Folha, área com a presença maciça de
topônimos africanos e informações de canoas de tolda acidentadas. Em razão do
desbarrancamento (erosão) ou do assoreamento, dependendo da margem do rio que
se observa, os resultados foram singelos, tendo em vista que há grande quantidade
de árvores recém submersas, as quais geram anomalias muito significativas no fundo
homogêneo carregado de sedimentos. Fica, assim, difícil identificar, com a sonda, os
remanescentes de embarcações tradicionais de madeira entre árvores submersas. Além
disso, os objetos dos sítios arqueológicos depositários podem ser enterrados pelos novos
sedimentos ou carregados pelas enxurradas e caudais. Comenta-se, em Pão de Açúcar,
sobre as grandes mudanças nos canais de navegação na altura do Quilombo Mocambo,
na margem sergipana, região investigada pelo LAAA, por ocasião da FPI de 2018.
Mais adiante, no sítio da Canoa Caiçara/ Xocó a equipe conseguiu um bom
registro de SVL dessa embarcação soçobrada, além da indicação de possíveis peças
desagregadas do conjunto principal. Como o leito do rio é bastante homogêneo nessa
região, as anomalias detectadas pelo SVL podem indicar alvos potenciais em meio ao
extenso areal, notadamente os utensílios de cerâmica soçobrados de naufrágios de
canoas saídas das aldeias indígenas para o mercado de Pão de Açúcar. Embora seja
repetitivo, esse contexto arqueológico mereceria pesquisas específicas, tendo em vista o
prolífico contexto etnoarqueológico e as dificuldades impostas pelo mergulho científico
(Bava-de-Camargo; Santos, 2023), pois essa é uma região de fortes correntezas, apesar
– ou em razão – da pouca profundidade, que não atinge os 3 m de lâmina d’água.
Figura 5: Imagem de sonar mostrando o sítio Canoa Caiçara/Xocó.
Na sequência investigou-se com a ecosonda a região porto de Gararu. Foram
identificados diversos alvos potenciais nesse outrora importante, mas ainda profundo
porto, local de escala segura para navios de maior calado. Tendo em vista que a equipe
pode chegar facilmente ao município por transporte rodoviário e realizar os mergulhos
a partir da margem sergipana do rio, deixou-se a investigação desse contexto para uma
outra oportunidade científica.
No entanto, além da pesquisa, faz-se necessária a extroversão dos resultados e o
trabalho de educação patrimonial.
Figura 6: Divulgação das atividades de pesquisa e da cartilha para a Colônia de Pesca
em Gararu/SE.
261
Fonte: LAAA/UFS, 2022.
Também no município de Gararu, em 2022 foi realizada a divulgação das atividades
de pesquisa arqueológica para os membros da Colônia de Pesca local, onde igualmente
foi divulgada a cartilha produzida em parceria com a Expedição, que teve sua versão
impressa integrada aos kits didáticos distribuídos para as escolas da região.
Na fachada ribeirinha de Traipu, realizou-se investigações diretas com mergulho,
na tentativa de relocalização de âncora lítica (rocha polida), um remanescente material
bastante importante para o contexto regional. Infelizmente o leito do rio ainda está
bastante assoreado, em razão das enchentes dos últimos dois anos, indicando que a
peça está soterrada – mas preservada – sob espessa camada de areia. Embora o local
esteja sendo lentamente escavado – a âncora foi acha a 14 m de profundidade, em 2021;
em 2022 não havia mais de 6 m de profundidade; neste ano (2023) encontrou-se 10 m de
profundidade – ainda levará certo tempo para o reaparecimento da âncora, mantendo-se
as condições de remobilização de sedimentos com essa dinâmica atual.
Em Neópolis (SE), fez-se nova investigação sonográfica do sítio arqueológico Naufrágio
de Neópolis, localizado em 2017 (Bava-de-Camargo; Duran, 2018).
Em concomitância com a varredura por sonar, mergulhos de monitoramento também
foram realizados em 2022 e no ano seguinte. Em 2022 houve uma maior dedicação
à localização de âncoras antigas submersas, reportadas pelo pescador e marinheiro
José Rodrigo (também integrante da Expedição), mas a prospecção não logrou êxito.
Embora naquele mesmo ano tenha-se realizado o monitoramento do sítio arqueológico
de naufrágio, foi no ano seguinte que essa atividade rendeu resultados excepcionais.
Em 2023 a visibilidade na água estava muito boa para os padrões do local, e
com pouca correnteza. Foi possível fazer uma avaliação pormenorizada do contexto
do naufrágio, diversas filmagens, fotografias e notou-se que a infestação pelo mexilhão
dourado havia diminuído significativamente – um efeito que pode ser sazonal, que
demandará mais atenção nos próximos mergulhos de monitoramento. Alguns fragmentos
de utensílios – em cerâmica e em madeira – foram identificados junto à estrutura do casco,
bem como descobriu-se o leme da embarcação. Essa importante peça do navio permite
direcionar as pesquisas para a definição do tipo e a cronologia da embarcação que deu
origem ao sítio arqueológico. É pouco provável, mas não impossível que o navio tenha
sido construído no século XVIII. Estar-se-ia diante de uma embarcação oitocentista, de
tamanho inferior a uma corveta – talvez um lugre ou escuna.
262
Figura 7: Parte do costado que compõem o sítio arqueológico Naufrágio de Neópolis.
Fonte: LAAA/UFS, 2023.
Vale destacar que as pesquisas conduzidas até agora se depararam com um
padrão de Longa Duração: a população de Penedo, Piaçabuçu, Neópolis e, com menor
frequência, de Pacatuba lida com o tráfego marítimo e os salvados marítimos há séculos.
Casos extremamente interessantes são os naufrágios do Nancy, do corsário platino e do
Potengi. No primeiro caso, a embarcação estadunidense afundou em 1799, carregada de
presas de marfim – não se sabe de elefantes ou se de mamíferos aquáticos, pois ela vinha
de altas latitudes meridionais – e com milhares de barris de óleo de baleia. Como o óleo é
menos denso que a água, os barris flutuaram e chegaram ao Pontal, onde foram leiloados.
No segundo caso, o navio corsário encalhou na (imensa) praia de Santa Isabel, em 1825.
A notícia de jornal que relata o naufrágio comenta, de forma jocosa, que os moradores
de Vila Nova de Santo Antônio, atual Neópolis poderiam pelo menos recuperar as peças
de artilharia para seu uso. No terceiro caso, o Potengi, afundado em 1870, estimulou a
criação de um povoado homônimo que, muito provavelmente, floresceu em função da
salvatagem da carga e das próprias partes da embarcação.
PROSPECÇÃO DE DETALHAMENTO NA FOZ
Na sede do município de Penedo, percorreu-se a orla ribeirinha, desde a rampa
do porto principal até a rampa da marina pública, no bairro de Santo Antonio, ao norte
da Rocheira. Destaca-se, dessa prospecção a pé, ao longo da margem do rio, o registro
de evidências que merecerão novas investigações, tais como as argolas de amarração
das rochas ao final da rua do Banheiro ou os gravados (picoteados) e bacias polidas nas
rochas dos pescadores, entre a Rocheira e o Santo Antonio (anteriormente chamado de
Barro Vermelho).
263
Figura 8: Argolas de amarração da Rocheira (abaixo da rua do Banheiro).
Fonte: LAAA/UFS, 2023.
Figura 9: detalhe de imagem aérea oblíqua, obtida nos anos 1970, mostrando a área
portuária do fim da rua do Banheiro, a qual parecia bastante maior, pois poderia englobar
o pátio traseiro de edificação da rua da Matriz, hoje murado.
Fonte: Biblioteca do IBGE, 2024.
264
Figura 10: Bacias polidas e moldura picoteada (esq.). Feições que deverão ser estudadas
em conjunto com as incisões existentes em Traipu, em Santana do São Francisco (dir.) e,
potencialmente, em Lagoa Comprida (São Brás).
Fonte: LAAA/UFS, 2023.
A despeito das pinturas e gravados rupestres, na bacia do Alto/ Médio São Francisco
serem tema de pesquisa há bastante tempo, ainda não existe literatura em abundância
que contemple os grafismos e gravados do Baixo e os outros tipos de sulcos intencionais
(afiadores, polidores e calibradores) presentes nas rochas das margens são-franciscanas
(ver Martin, 1998; Vergne; Carvalho, 2001; Costa, 2005; Comerlato, 2007; Costa, 2013;
Guedes, 2015; Schuster; Garcia, 2020, entre outros/outras). Esse fato torna ainda mais
importante a pesquisa integrada desse tipo de material arqueológico.
Em 2022, já no final da Expedição, na foz do rio, procedeu-se uma prospecção
mais rigorosa em sítios arqueológicos que haviam sido identificados em 2020 e no
ano subsequente. Auxiliados por Darly Calumbi e Priscyla Viana, então discentes
do mestrado em Arqueologia da UFS, desenvolveu-se mapeamento dos contextos
arqueológicos costeiros, por meio levantamento não-interventivo (sem escavação ou
coleta de material), nos municípios de Brejo Grande (SE) e Piaçabuçu (AL). Para atingir os
objetivos pretendidos, realizou-se basicamente caminhamento registrando a posição dos
vestígios arqueológicos localizados, com aparelho de GPS e efetuando exaustivo registro
fotográfico. Durante a ação, porém, novos contextos arqueológicos foram localizados.
Posteriormente, os dados obtidos do campo foram processados no software QGIS, o que
permitiu gerar as poligonais dos sítios, informações determinantes para o registro deles
junto ao IPHAN.
Na margem sergipana, os remanescentes das atividades náuticas estão ainda bem
visíveis: o Posto Fiscal e o farol do Cabeço – embora sua conservação demande ações
emergenciais. Somam-se a eles alguns outros elementos materiais encontrados nas
praias, tais como uma chapa metálica identificada próxima ao Posto, medindo 125 por 45
cm, que pode ser proveniente de algum dos muitos naufrágios da foz.
265
Figura 11: Chapa de metal remanescente de embarcação e o registro de suas dimensões.
Fonte: P. Viana, 2022.
Na margem alagoana, delimitou-se com maior rigor os sítios Dunas de Piaçabuçu
(1 e 2), localizou-se um terceiro sítio, identificou-se uma caverna (peça do esqueleto de
embarcação) em madeira, além de três postes metálicos, equidistantes, distribuídos por
200 m. Posteriormente descobriu-se que eram postes de antiga linha telegráfica.
Figura 12: Poste de cabo telegráfico, com a arqueóloga registrando sua posição.
Fonte: D. Calumby, 2022.
266
Dando sequência à prospecção, delimitou-se uma nova área de concentração de
remanescentes materiais móveis, bastante densa, com grande quantidade de cerâmica,
louça (séc. XX), vidro, metal e material construtivo. Pode caracterizar a área do antigo
povoado Pontal da Barra, ideia corroborada pelas informações orais dos moradores do
povoado Saramém, o assentamento mais populoso e longevo da foz, implantado no lado
sergipano do rio.
Figura 13: Arqueóloga analisando os vestígios arqueológicos do antigo povoado Pontal
da Barra.
Fonte: D. Calumby, 2022.
Em continuidade prospecção nas margens da foz do rio São Francisco, encontrouse as bases de concreto da antiga Atalaia que servia para observar e sinalizar a
movimentação das embarcações, tanto no mar quanto no rio. A torre foi destruída com
o avanço das águas, restando-lhe apenas as bases, visíveis na maré baixa.
267
Figura 14: “Planta da barra do Rio de São Francisco”, 1853, por F. Halfeld. O detalhe da
figura mostra a disposição do antigo povoado Pontal da Barra, a base da praticagem da
barra.
Fonte: Biblioteca Nacional Digital, 2024.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A prospecção, prioritária entre 2016-2022, passou para segundo plano em 2023,
mas ainda assim novas anomalias evidenciadas pela sonografia apontaram evidências
em Pão de Açúcar, Gararu, Penedo e Neópolis, principalmente.
Os relatos orais indicaram evidências a serem pesquisadas em Canhoba, São Brás,
Igreja Nova e na foz do rio (Piaçabuçu e Brejo Grande) em futuros projetos de prospecção.
O monitoramento se tornou o foco das ações, o que garantiu o melhor entendimento
268
de sítios previamente conhecidos, tais como o Porto de Piranhas ou o Naufrágio de
Neópolis. A continuidade do monitoramento permitirá estabelecer parâmetros objetivos
e mensuráveis para elencar prioridades de pesquisa, conservação e extroversão do
conhecimento adquirido com o PCS do BSF.
A história de vida como estratégia etnográfica tem rendido bons frutos no sentido
de interconexão entre o patrimônio material e imaterial, aproximando pessoas de coisas;
Arqueologia da Sociedade.
Por fim, a gestão de Bens Culturais desponta como uma necessidade real e imediata,
cujas ações só poderão ser executadas em conjunto com as comunidades e o poder
público, em âmbito regional e não a partir de divisões políticas (estados e municípios).
Daí fica evidente a urgência do planejamento de curto, médio e longo prazos construídos
entre as universidades e o Comitê da Bacia do São Francisco, dialogando também com
o IPHAN e Marinha do Brasil.
AGRADECIMENTOS
Aos coordenadores Emerson Soares, José Vieira, Themis Silva (UFAL), e à toda
equipe da Expedição Científica do Baixo São Francisco. Novamente e sempre ao Mestre
do Rio, Antonio Jackson Borges Lima, por conceder-nos o privilégio de utilizar o catamarã
Comendador do Rio para as pesquisas subaquáticas, bem como o apoio de seu filho Jau,
Antonio Jácomes Machado Lima, na condução da embarcação e escolha da trilha sonora.
À população ribeirinha como um todo, por sua imensa simpatia, resiliência e informações
orais fornecidas à equipe. À UFS pelo fornecimento de apoio de transporte terrestre e à
FAPEAL pelo fomento da cartilha de educação patrimonial.
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272
16. INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS E SEU POTENCIAL USO COMO FERRAMENTA PARA O DESENVOLVIMENTO REGIONAL SUSTENTÁVEL
NOS MUNICÍPIOS DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Propriedade Intelectual, Inovação e Desenvolvimento
Regional Sustentável..
Alexandre Guimarães Vasconcellos1
INTRODUÇÃO
As indicações geográficas (IGs) constituem o reconhecimento do nome geográfico
de localidade que se tenha tornado conhecida como centro de extração, produção ou
fabricação de determinado produto ou de prestação de determinado serviço ou que
designe produto ou serviço cujas qualidades ou características se devam exclusiva ou
essencialmente ao meio geográfico, incluídos fatores naturais e humanos (Brasil, 1996).
Esse reconhecimento costuma potencializar a agregação de valor aos produtos com IG
quando estes são percebidos pelos consumidores por suas características e qualidades
apreciadas (Brandão et al., 2012; Martins e Vasconcellos, 2020).
Além do benefício direto aos produtores envolvidos com a IG, outros benefícios
relacionados costumam ocorrer, como o aumento do turismo com foco nos produtos e
serviços regionais e a valorização da identidade e do saber-fazer regional. Nessa etapa
da pesquisa, onde já haviam sido identificadas algumas localidades com potencial para o
reconhecimento de IG, em especial a Ilha do Ferro, onde destacam-se o bordado boa noite
e o artesanato em madeira, buscou-se analisar os caminhos que podem ser seguidos pela
comunidade junto com o poder municipal para que um possível reconhecimento dessas
IGs esteja alinhado com a questão da sustentabilidade das matérias-primas utilizadas.
A região do Baixo São Francisco engloba 93 municípios, sendo 46 em Alagoas, 28
em Sergipe, 14 em Pernambuco e 5 na Bahia. Nessa região, constituída pelos biomas de
caatinga e mata atlântica, vivem 2.183.679 habitantes, sendo 53.697 indígenas e 63.059
quilombolas (IBGE, 2023).
Com base na VI Expedição Científica do Baixo São Francisco (VI ECBSF), onde
foram visitados 10 municípios pelas embarcações da expedição e mais Santana do São
Francisco em Sergipe, e tomando por base as atividades de pesquisa que já vinham
sendo desenvolvidas pelo primeiro autor desde sua participação nas IV e V Expedição
realizadas nos anos de 2021 e 2022, foi possível identificar e analisar alguns sistemas
produtivos relacionados à produtos regionais que vêm ganhando progressivo destaque
no cenário regional e nacional.
Desde a IV Expedição Científica em 2021 o trabalho de pesquisa buscou identificar
os produtos regionais peculiares de cada município e como os referidos produtores estão
organizados. Além disso, buscou-se prospectar como esses produtores estão envolvidos
com o ofício e com os processos criativos e como as questões de gênero aparecem nas
referidas atividades.
1
Pesquisador classe especial III, Divisão Pós-graduação e Pesquisa da Academia de Propriedade Intelectual, Inovação e Desenvolvimento do Instituto Nacional da Propriedade Industrial.
273
De maneira abrangente, conseguiu-se identificar ao longo das Expedições
Científicas de 2021, 2022 e 2023 várias atividades produtivas que guardam relação com
a identidade e o saber-fazer de localidades da Região do Baixo São Francisco.
Tabela1: Identificação de atividades de produção ou fabricação de produtos em
localidades da Região do Baixo São Francisco.
Fonte: Autor, 2024.
274
A partir desse processo de identificação das atividades desenvolvidas nos
municípios envolvendo processos criativos e o saber-fazer peculiar de cada localidade,
estabeleceu-se como objetivo tentar compreender como os instrumentos de propriedade
intelectual e, em especial, as Indicações Geográficas (IGs) podem contribuir para a
valorização cultural, técnica, social e econômica do saber-fazer das populações que
habitam o Baixo São Francisco (BSF), incluindo-se, entre elas, comunidades tradicionais,
a exemplo de ribeirinhos, quilombolas e indígenas. Na VI ECBSF a questão de gênero
também foi investigada e buscou-se destacar como homens e mulheres estão envolvidos
nas atividades de criação e no respectivo ofício como um todo.
Visando estabelecer as bases conceituais da pesquisa, destaca-se que a Indicação
Geográfica é um instrumento de uso coletivo associado a um local geográfico que se
torna conhecido em face de determinado produto ou prestação de serviço.
A origem de determinado instrumento de reconhecimento remonta à região do
Porto, em Portugal, que na metade do século XVIII enfrentava problemas relacionados
à falsificação de seus vinhos regionais e falsas referências à região de produção por
parte de oportunistas que, vendendo bebidas menos nobres, buscavam se aproveitar
da reputação alcançada pela região do Porto na produção de vinhos. Foi então que
Marquês do Pombal, por volta de 1750, determinou o reconhecimento geográfico da área,
as delimitações das áreas de cultivo e das variedades de uvas e as análises específicas
dos vinhos que respaldassem todas as características produtivas, mercadológicas e
organolépticas do vinho dessa região (Soeiro, 2021).
A partir de então, estabeleceram-se as bases para o reconhecimento das IGs,
que passaram a ser, por força de tratados internais posteriores, reconhecidas além das
fronteiras nacionais.
No ordenamento jurídico brasileiro os mecanismos de reconhecimento das IGs
estão dispostos na Lei 9.279 de 1996 (Brasil, 1996), que estabelece em seus artigos 176,
177 e 178:
“ Art. 176. Constitui indicação geográfica a indicação de procedência ou a denominação
de origem.
Art. 177. Considera-se indicação de procedência o nome geográfico de país, cidade,
região ou localidade de seu território, que se tenha tornado conhecido como centro
de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de
determinado serviço.
Art. 178. Considera-se denominação de origem o nome geográfico de país, cidade,
região ou localidade de seu território, que designe produto ou serviço cujas qualidades
ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico, incluídos
fatores naturais e humanos.”
No estado de Alagoas já existem duas IGs reconhecidas. São elas a Indicação de
procedência da Região das Lagoas Mundaú-Manguaba para o bordado filé (data de
registro: 19/04/2016) e a Denominação de Origem dos Manguezais de Alagoas para a
própolis vermelha e extrato de própolis vermelha (data de registro 17/07/2012) (SEBRAE/
INPI, 2019). Apesar grande diversidade do saber-fazer regional no Baixo São Francisco
e do avanço do conhecimento sobre essas atividades produtivas em nível estadual e
nacional, ainda não existe nenhuma IG reconhecida ou em vias de reconhecimento na
localidade (Lacerda et al. 2022).
Durante a V Expedição, o trabalho de pesquisa sobre o potencial de reconhecimento
de IGs e marcas coletivas no Baixo São Francisco avançou substancialmente e envolveu
a finalização da dissertação de mestrado da aluna Camila Lacerda, orientada pelos
Professores Tatiana Luciano Baliano da UFAL e Alexandre Guimarães Vasconcellos do
INPI (Lacerda, 2022), e da produção de uma lista de recomendações partilhada com a
Prefeitura de Pão de Açucar, destacando-se entre elas:
275
1. Elaboração e execução de um projeto arquitetônico com melhoramentos
relacionados ao design do prédio onde fica localizada a cooperativa das bordadeiras,
para que represente em sua estrutura, decoração e arquitetura o ambiente cultural ali
existente, a história e a identidade do Bordado Boa Noite. Essa ação contribuirá para
o conforto no local de trabalho das bordadeiras, para o associativismo e para reforçar
a notoriedade alcançada pelo Bordado Boa Noite, podendo inclusive ser um polo de
visitação para todos os interessados na arte desenvolvida na ilha;
2. Sustentabilidade da matéria-prima do pau pereiro utilizado no artesanato em
madeira, com distribuição e cultivo de mudas de plantas e campanhas de conscientização
para a preservação e manutenção da espécie vegetal, tanto na ilha quanto em todo o
município;”
A partir dessas duas recomendações de ações na Ilha do Ferro foram estabelecidos os
principais objetivos da pesquisa durante a VI Expedição. São eles:
1)
Dar seguimento ao trabalho de identificação das produções regionais envolvendo
processos criativos e o saber-fazer tradicional nas diversas localidades do Baixo São
Francisco alcançadas pela expedição.
2)
Identificar formas de favorecer o associativismo e identidade coletiva do saberfazer local de base comunitária.
3)
Consolidação de compromissos para a garantia da sustentabilidade das matériasprimas utilizadas nas diversas atividades produtivas identificadas e discussão participativa
sobre a indissociabilidade dessa questão em relação à busca do reconhecimento de
futuras IGs.
DESENVOLVIMENTO
Esta pesquisa utilizou como metodologia técnicas de pesquisa participativa e,
em especial, pesquisa-ação. Conforme definido por Thiollent (1985), a pesquisa-ação
é um tipo de investigação social com base empírica, concebida e realizada em estreita
associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo em que os
pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão
envolvidos de modo cooperativo ou participativo.
O planejamento da pesquisa-ação difere significativamente de outros tipos de
pesquisa, não apenas em virtude de sua flexibilidade, mas, sobretudo, porque, além
dos aspectos referentes à pesquisa propriamente dita, envolve também a ação dos
pesquisadores e dos grupos interessados, o que ocorre nos mais diversos momentos
da pesquisa. Daí porque torna-se difícil apresentar seu planejamento a partir de fases
ordenadas temporalmente (GIL, 1991).
Na pesquisa-ação, ocorre um constante vaivém entre as fases, determinado pela
dinâmica do grupo de pesquisadores em seu relacionamento com a situação pesquisada.
Assim, o que se pode, à guisa de delineamento, é apresentar alguns conjuntos de ações
que, embora não ordenados no tempo, podem ser considerados como etapas da pesquisaação (GIL, 1991).
São eles, segundo Gil (1991): a) fase exploratória; b) formulação do problema; c)
construção de hipóteses; d) realização do seminário; e) seleção da amostra; f ) coleta de
dados; g) análise e interpretação dos dados; h) elaboração do plano de ação; i) divulgação
dos resultados.
Durante a VI Expedição delineou-se cada fase da pesquisa-ação para o atendimento
dos objetivos propostos:
276
A identificação das produções regionais envolvendo processos criativos e o
saber-fazer tradicional nas diversas localidades do Baixo São Francisco alcançadas pela
expedição seguiu como uma busca de novidades não “descobertas” nas expedições
anteriores, constituindo, portanto, uma fase exploratória.
Já para o incremento dos desdobramentos do plano de ação concernente às
atividades necessárias para o avanço das discussões sobre a necessidade e viabilidade da
busca de reconhecimento de IG para as atividades do bordado boa noite e o artesanato
em madeira da Ilha do Ferro, foi realizada uma roda de conversa na Associação Art-Ilha,
na Ilha do Ferro, no dia 22 de novembro de 2023, reunindo artesãs do bordado boa
noite, artesãos que trabalham com madeira, lideres comunitários e o Secretário Municipal
de Administração, Ramom Carvalho, juntamente com outros representantes do poder
público municipal e os pesquisadores da VI Expedição Científica Alexandre Guimarães
Vasconcellos do INPI, Tatiane Luciano Baliano da UFAL e Ulysses Neves Rafael da UFS.
O trabalho prospectivo realizado durante a VI ECBSF das atividades envolvendo
processos criativos e atividades baseadas no saber-fazer regional permitiu incorporar
dois registros ao mapeamento.
O primeiro se refere ao artesanato de peças utilitárias, em sua maioria de vestimenta
e de acessórios de vestuário utilizando o couro de tilápia. Esta atividade é desenvolvida
por 7 mulheres e 1 homem que estão organizados em uma Associação denominada
Associação dos Artesãos em Couro de Tilápia que conta com uma marca registrada no
INPI denominada Estação Cangaço, que identifica o local que foi cedido pela prefeitura
onde o couro de tilápia é produzido e as peças de artesanato são fabricadas e vendidas. A
Estação Cangaço fica localizada no município de Piranhas no endereço: Avenida Batalha
número 41, Bairro de Nossa Senhora da Saúde, telefone (82) 36863348. A presidente
da associação atualmente é a Sra. Jussara que iniciou suas atividades na associação em
2007 através da Pastoral da Criança, num projeto para mães que tivessem interesse em
desenvolver um ofício.
A pele in natura para a produção do couro de tilápia vem de Canindé do São
Francisco e o material é doado para as artesãs processarem a pele e produzirem as peças
a partir do couro acabado (bolsas, sapatos, bijuterias, etc...). O couro da tilápia produzido
também é vendido para terceiros por 6 reais a unidade.
Conforme informado pela senhora Adriana que é do município de Pão de Açucar
mas já mora em Piranhas há 32 anos e trabalha no ofício do artesanato com couro há 17
anos, o couro da tilápia in natura é mantido congelado até o início do processamento.
No início do processo o couro é deixado em água por três horas e após isso é colocado
junto com água, cal e cinzas por 3 dias. Depois disso as peças são raspadas e colocadas
em contato com amônia por três horas. Após serem bem lavadas, as peças são imersas
na água junto com a casca do angico ou do coco para realçar a cor natural. Elas ficam
na água do angico por no mínimo de 40 dias e são mexidas todos os dias. Depois disso
as peças são bem lavadas e colocadas em óleo vegetal por 3 horas para tirar o cheiro.
Depois as peças são colocadas para secar na sombra e esticar. Após esse processo as
peças estão prontas para a confecção dos artesanatos.
Várias peças de artesanato também são feitas com couro de bode. Este é comprado
a metro na região de Cabaceiras -Paraíba por 70 reais o metro e o material é enviado
mediante encomenda.
A associação conta com marca registrada ativa no INPI sob o número de processo
910535787, com data de concessão em 03/04/2018 e, segundo a artesã Adriana, a marca
registrada foi importante para melhorar a visibilidade do trabalho feito pelas associadas.
Ela também destacou a página do Instagram como uma das formas de divulgar as peças
e o trabalho da associação. Além disso, ressaltou o sonho de terem uma sede própria
permanente que seja adequada para a realização de todas as etapas produtivas. Também
destacou a importância de adquirir o equipamento “fulão” para automatizar o processo
de produção, uma vez que a máquina mexe ininterruptamente as peças durante as etapas
277
que ocorrem em meio líquido.
O trabalho de produção das peças utilizando o couro de tilápia constitui a principal
fonte de renda dessas mulheres e a renda obtida com o trabalho costuma ser entre
800 e 1000 reais por mês. A repartição dos rendimentos se dá pelo número de horas
trabalhadas por mês e, segundo elas, esse foi o melhor sistema encontrado pois daí todas
se envolvem coletivamente para que as peças produzidas tenham a melhor qualidade
e sejam vendidas rapidamente sem gerar controvérsias sobre preferências pessoais na
venda das peças.
Figura 1: Visita à Associação dos Artesãos em Couro de Tilápia – Estação Cangaço em
Piranhas/AL durante a VI Expedição Científica do BSF (novembro de 2023).
Fonte: Autor, 2023.
Figura 2: Registro de marca em vigor – ESTAÇÃO CANGAÇO
278
Fonte: Autor, 2024.
O segundo novo registro de atividade envolvendo o saber-fazer de uma determinada
localidade foi no município de Santana do São Francisco em Sergipe, onde foi identificada
forte atividade econômica relacionada ao artesanato de peças decorativas e da produção
de peças utilitárias como filtros de água produzidos em barro.
Na produção das peças de artesanato em barro destaca-se a participação
masculina. Os homens dedicam-se à feitura e queima das peças e as mulheres costumam
se envolver com as atividades de pintura e venda das mesmas. O componente criativo
também foi identificado e muitos artesãos já se destacam pelo componente autoral de
suas peças, onde os próprios conseguem identificar a autoria pela simples observação
das peças. Percebe-se também o orgulho e a satisfação dos artesãos com seu ofício e
com a capacidade de tê-lo como “meio de vida”.
Figura 3: Local da “queima” das peças de artesanato feitas com barro em oficina
localizada em Santana do São Francisco – Sergipe.
Fonte: Autor, 2023.
Sobre os objetivos 2 e 3 da pesquisa, analisados a partir da roda de conversa
realizada na sede da Art-Ilha na Ilha do Ferro, observou-se que a partir do envolvimento
de bordadeiras mais novas em idade, várias questões sobre quem poderia e deveria
utilizar a reputação construída pela Ilha do Ferro no bordado boa noite começam a ser
discutidas pela comunidade. Foi levantada a questão, por exemplo, se uma pessoa que
aprendeu a técnica do bordado boa noite com as bordadeiras da Ilha do Ferro e foi morar
em outra região poderia designar legitimamente suas peças como sendo da Ilha do Ferro.
Nessa questão foi apresentado pelos autores da pesquisa que, no caso do interesse da
comunidade no avanço do processo de reconhecimento da IG, essa questão teria que ser
discutida coletivamente e os parâmetros sobre como o selo da IG deveria ser utilizado
deveria partir deles e, uma vez decidido, iria integrar o caderno de especificações técnicas
que é uma parte fundamental do pedido de reconhecimento da IG.
Figura 4: Roda de conversa realizada em 22 de novembro de 2023 com os artesãos da
Ilha do Ferro, Poder Público Municipal e Pesquisadores da VI Expedição Científica do
BSF.
279
Fonte: Autor, 2023.
Na questão concernente ao artesanato em madeira, foi possível verificar nas visitas
à localidade durante as V e VI Expedição Científicas do BSF (2022 e 2023) que vários
relatos apontam o pioneirismo do Sr. Fernando Rodrigues dos Santos, mais conhecido
como Fernando da Ilha do Ferro, no labor criativo do artesanato em madeira na região.
De acordo com a Galeria Estação, fundada em 2004 em São Paulo, que inaugurou
um programa curatorial atendendo a uma ampla comunidade de vozes artísticas não
canônicas e de autodidatas pioneiros, é dito sobre a biografia do Sr. Fernando (19282009) (Galeria Estação, 2024, apud Frota, 2005):
“Nasceu na casa mais antiga da Ilha do Ferro. Foi à escola, disse em depoimento
a Celso Brandão, mas nunca aprendeu a escrever o nome, embora dissesse entender
as inscrições rupestres presentes na região. Na primeira mocidade trabalhou em roça,
plantando arroz, milho, feijão. Personagem provocador, na vida como nas artes, tem um
livro, ditado e transcrito, de estórias picarescas, lembranças de caçadas e malandragem.
Filho de fabricante de tamancos, iniciou-se nas artes produzindo pequenos objetos na
oficina do pai. Aos 40 anos construiu sua primeira peça do mobiliário: uma espreguiçadeira.
Nos anos 1970 retoma a profissão do pai, redesenhando os tamancos originais.
Em 1979 uma viagem ao Rio de Janeiro influirá também no seu percurso de
inventor, pois já em 1980, de volta à casa, parte pra novas propostas, construindo o Bar
Redondo, cujas mesas e bancos escultóricos deram início à sua carreira de escultor e
designer de móveis. Bancos de sua autoria foram expostos em 1987, na mostra “Brésil,
Arts Populaires”, no Grand Palais, Paris, e hoje estão na exposição permanente de arte
popular do Centro Cultural de São Francisco, em João Pessoa, PB. Expôs no Museu de
Arte Popular da Paraíba e na Casa Cor, São Paulo, em 2001, com prêmio para o ambiente
do designer Arthur Casas, que incluiu a cadeira de três pés e espaldar alto de Fernando.
Participou da mostra “O Sentar Brasileiro” com 100 cadeiras e bancos, que inaugurou
o novo Museu de Curitiba, de Oscar Niemeyer, onde três peças suas foram colocadas
na sala principal ao lado dos móveis dos irmãos Campana. Tem um pronunciado gosto
pelo orgânico, bem equilibrado em seu mobiliário, mas que, quando se transfere para a
escultura que pratica na virada do século XX para o XXI, gera um não menos fascinante
bestiário de criaturas apavorantes, frequentemente híbridas. Seus recortes muitas vezes
conceituais da modernidade fazem-no igualmente representar como ex-voto um braço de
280
Ayrton Senna, com uma face de atabaque para percussão cerimonial pela morte do ídolo
da Fórmula-1. Esse objeto tinha também a função de marmita térmica nas suas caçadas,
pois é revestido de alumínio. A presença de Fernando contribuía para a revelação gradual
da Ilha do Ferro como um centro de criação habitado por numerosos artistas.
Essa visão do Sr. Fernando como uma mente extremamente criativa e inquieta,
capaz de se inspirar na natureza, vendo formas zoomórficas (com aparência de bichos)
repletas de sentido, onde outros só viam um toco de madeira ou um pedaço de pau,
também foi relatado em comunicação pessoal por seu amigo, o Mestre Jackson (Doutor
Honoris Causa Jackson Borges) e pela filha do Sr. Fernando, Dona Rejane, e foi capaz de
inspirar muitos outros artistas na região.
O ofício de artesão em madeira era praticamente exercido exclusivamente por
homens na Ilha do Ferro e as mulheres, quando participavam, se dedicavam à pintura
das peças, algum detalhe ou venda. Essa realidade começou a mudar recentemente e
foi possível observar que a Sra. Camila, neta do Sr. Fernando, é uma jovem que vem se
dedicando ao trabalho de artesanato em madeira na casa de sua família, sendo bastante
respeitada por todos.
É notório que o artesanato em madeira da Ilha do Ferro vem se tornando cada vez
mais conhecido em outras regiões do Brasil, bem como no exterior, e que os artesãos
da Ilha já possuem certo grau de organização associativa em torno de seus interesses
comuns. Essa é a principal condição para um potencial reconhecimento futuro de uma
Indicação Geográfica.
Figura 5: Loja de grife de vestuário em Paraty - Rio de Janeiro em que a decoração da
vitrine e do interior da loja é feita com peças de artesanato em madeira da Ilha do Ferro.
Fonte: Autor, 2023.
281
No entanto, no que tange à discussão sobre a sustentabilidade da matéria-prima
utilizada, foi levantado por alguns artesãos que uma parte das madeiras utilizadas
são oriundas de poda e de arraste de árvores durante a cheia do rio que “come os
barrancos”. Também são utilizadas outras “madeiras mortas” ou restos de embarcações
abandonadas nas margens do rio. No entanto, também foi relatado que algumas espécies
estão escasseando rapidamente, sendo urgente um trabalho junto com a prefeitura, a
universidade e a comunidade para o replantio dessas espécies, principalmente as de
crescimento mais lento e as que crescem próximo da beira do rio, de maneira a evitar
a extinção das mesmas na localidade e também evitar o assoreamento progressivo do
Rio São Francisco. Dentre as espécies citadas para a confecção das peças artesanais em
madeira na Ilha do Ferro estão:
1)
Pereiro (Aspidosperma pyrifolium) que é uma árvore nativa da caatinga,
principalmente em várzeas fluviais e terrenos próximos a elevações de terra. Sua madeira
é clara e, segundo os artesãos é relativamente “macia” e fácil de ser trabalhada.
2)
Imburana (Commiphora leptophloeos) que é uma árvore nativa na caatinga, no
pantanal e no chaco. Seu nome popular deriva palavras em língua tupi y-mb-ú (árvore de
água) e ra-na (falso), formando assim a palavra imburana (falso imbu).
3)
Craibeira (Tabebuia aurea) que, segundo o Instituto do Meio Ambiente do estado de
Alagoas (2024), é a árvore símbolo do Estado de Alagoas, sendo conhecida popularmente
como “Craibeira”, “Caraíba” e “Ipê-amarelo”. A espécie é predominantemente encontrada
em regiões semiáridas, especificamente no bioma Caatinga. No entanto, registros de sua
ocorrência também foram documentados em outros domínios vegetacionais do estado,
geralmente em condições de cultivo. Caracteriza-se como caducifólia, evidenciando a
perda de folhagem em determinadas estações climáticas, período no qual a floração
torna-se o aspecto visual mais proeminente. Devido à sua floração vistosa e atrativa, a
espécie é frequentemente empregada em processos de herborização e no paisagismo de
áreas urbanas.
4)
Mulungu (Erythrina mulungu) que é uma espécie de árvore endêmica do Brasil,
encontrada no Cerrado, Caatinga, Amazônia e Mata Atlântica.
Figura 6: Atividade de artesanato em madeira na Ilha do Ferro.
282
Fonte: Autor, 2023.
Figura 7: Peça com aparência zoomórfica fabricada na Ilha do Ferro.
Fonte: Autor, 2023.
CONCLUSÃO
A identificação de duas novas atividades envolvendo o saber-fazer regional referente
ao artesanato a partir do couro de tilápia no município de Piranhas e do artesanato em
barro no município de Santana do São Francisco deixam claro a grande riqueza cultural
relacionada ao saber-fazer criativo na Região do Baixo São Francisco. A divisão das
atividades laborais entre homens e mulheres nos ofícios artesanais levantam interessantes
questõess sobre as estruturas familiares na região, sobre como o protagonismo feminino
em algumas atividades está contribuindo para o aumento de renda das famílias e para a
emancipação econômica através do trabalho das mulheres. Estas questões específicas
relacionadas ao saber-fazer artesanal e gênero estão sendo aprofundadas em pesquisa
conjunta em colaboração com o Professor Ulysses Neves Rafael e serão objeto de um
trabalho em continuação sobre o tema.
Sobre as estratégias que devem ser buscadas para avançar com as discussões
sobre a importância do reconhecimento das IGs para a comunidade e, ao mesmo tempo,
solucionar a questão da sustentabilidade das madeiras regionais, especialmente o
pereiro, que são utilizadas de maneira sistemática no artesanato e tem as especificidades
que identificam a regionalidade das peças produzidas, propomos o envolvimento de
instituições como o INPI e o SEBRAE, juntamente com a prefeitura, para estabelecer um
programa de mentoria em IG junto com a comunidade da Ilha do Ferro, que integra o
município de Pão de Açúcar, de maneira a dar andamento às atividades já iniciadas no
âmbito das Expedições Científicas do Baixo São Francisco.
Além disso, reitera-se fortemente a recomendação feita durante a V Expedição
para a construção de um horto botânico para geração de mudas e garantia do replantio
das espécies utilizadas.
Figura 8: Espécie de árvore conhecida como Pereiro – amplamente utilizada no artesanato
em madeira na Ilha do Ferro
283
Felizmente essa recomendação parece estar em linha com o entendimento da
prefeitura de Pão de Açúcar que informou durante a roda de conversa, através de seu
representante, Sr. Ramon Carvalho, que iria dar início à construção do horto botânico
para a geração de mudas para o replantio das espécies ainda em 2023.
Em relato posterior, feito no mês de abril de 2024, foi informado pelo Sr. Ramon
Carvalho que foi construído um viveiro, cujo objetivo é promover o tema da sustentabilidade
na comunidade e o reflorestamento das espécies locais. Também foi informado que
a comunidade local foi capacitada, junto com o SEBRAE, sobre a importância do
reflorestamento e manuseio para a multiplicação das espécies. Além disso, foi relatada
a criação da associação dos artesãos em madeira e realizado, junto com o SEBRAE, o
REFLORESÇA ILHA, onde foram plantados cerca de mil mudas de espécies da região.
Figura 9: Atividade junto com os artesãos da Ilha do Ferro sobre a importância do
reflorestamento e manuseio para a multiplicação das espécies.
Fonte: Ramon Carvalho, 2023.
284
A execução de projetos estruturantes para solucionar gargalos da cadeia produtiva
têm sido apontada como uma demanda desafiadora e de longo prazo para a efetividade
e incremento do reconhecimento de um produto com indicação geográfica no mercado
(Benitz et al., 2024). No caso da Ilha do Ferro, as ações visando a sustentabilidade das
madeiras utilizadas no artesanato são fundamentais para que a atividade, que está se
tornando cada vez mais conhecida e apreciada na região e em outras partes do país,
possa se consolidar de uma maneira que possa atender à várias gerações na Ilha do
Ferro. Dessa forma, em face de um potencial reconhecimento de indicação geográfica no
futuro, a atividade poderá tornar-se, de fato, um vetor de desenvolvimento sustentável
na região, contribuindo para a geração de renda, preservação ambiental e manutenção
da biodiversidade, turismo e fixação dos jovens na localidade com trabalho digno.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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E AGREGAÇÃO DE VALOR EM CARNES COM INDICAÇÃO GEOGRÁFICA. Arquivo
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BRASIL . LEI DE PROPRIEDADE INDUSTRIAL – LEI Nº 9.279, DE 14 DE MAIO DE 1996.
Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9279.htm>. Acesso em: 30
de abril de 2024.
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Thiollent, M. METODOLOGIA DE PESQUISA-AÇÃO. São Paulo: Cortez, 1985.
286
17. PRÁTICAS CORPORAIS DO BAIXO SÃO FRANCISCO:
A HEGEMONIA FUTEBOLÍSTICA E O BRINCAR LIVRE COM O RIO
Área de conhecimento: Esporte e sociedade.
Silvan Menezes dos Santos 1
Leonea Vitória Santiago2
José Cícero Pereira da Silva3
Marisa Alves Feitosa4
Rose Tatyanne de Souza Tavares5
Thayná Patricio dos Santos6
Vanessa Higino dos Santos7
Gustavo Gomes de Araujo8
RESUMO
Identificamos, em 2022, que há no Baixo São Francisco uma monocultura
futebolística hegemônica, precarizada para meninas e mulheres. Intrigados com o caráter
restritivo deste cenário, estabelecemos como problema de pesquisa para a edição de
2023: O que essas populações ribeirinhas praticam com os seus corpos nos seus tempos
livres e como essas práticas se relacionam com o Rio São Francisco? O objetivo geral foi
cartografar as práticas corporais e os seus lugares de vivência nas cidades e povoados
alagoanos visitados. Realizamos um trabalho simultâneo de extensão e de pesquisa.
Ao mesmo tempo que o Projeto Academia & Futebol Alagoas desenvolveu práticas de
divulgação, experimentação e educação sobre o futebol de mulheres com meninas e
meninos, ampliamos o escopo investigativo de caráter exploratório e descritivo, com
abordagem qualitativa dos achados. O procedimento base adotado para as atividades
educativas de extensão em todas as cidades foi composto por: i) uma roda inicial de
conversa com as meninas e meninos participantes; ii) um jogo especial focalizado no
trabalho com competências socioemocionais ou temas transversais, tais como igualdade
de gênero e diversidade) uma roda de conversa final para relato das percepções sobre
a experiência. No total participaram 306 pessoas, sendo 220 meninas e mulheres.
Para a pesquisa adotamos a técnica de entrevista aberta como forma de busca e de
conhecimento sobre os jeitos de ser, estar e viver destas populações.
Palavras-chave: Futebol; Mulheres; Etnografia; Lazer.
1
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Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
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Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
287
Em 2022, o projeto Academia & Futebol de Alagoas, coordenado pela Universidade
Federal de Alagoas (Ufal), identificou durante a V Expedição Científica do Baixo São
Francisco que a cultura futebolística está presente, faz parte do imaginário e se manifesta
como prática corporal de meninas e mulheres das sete cidades ribeirinhas visitadas. Ainda
que não tenhamos identificado, em nenhuma delas, um nível especializado de relação e
desempenho com o jogo, garotas de Pão de Açúcar e do Povoado Chinaré, em Igreja
Nova, apresentaram características de um nivelamento intermediário de jogabilidade
(SANTOS et al., 2023).
Na ocasião, compreendemos também que a imagem cultural mais presente nas
localidades é do futebol como prática majoritariamente masculinizada. O futebol de
mulheres e o seu principal símbolo contemporâneo, a jogadora alagoana Marta, ainda
trafegam de modo periférico e fragmentado nesta região, sobretudo quando colocados
lado a lado com a representação do futebol masculino e do jogador Neymar Junior
(SANTOS et al., 2023).
Deduzimos, a partir dos achados da pesquisa, que o futebol de meninas e mulheres
do Baixo São Francisco manifesta a precarização sistêmica do acesso a bens e fenômenos
culturais globais, tal como a cultura futebolística, para aquelas e aqueles que vivem na
periferia da globalização. As meninas interessadas têm a esperança de seguir jogando
e sonhando sustentada apenas no seu respectivo “dom” de jogar. Não há uma rede
de formação e desenvolvimento de ambiências para a prática sistêmica do futebol de
mulheres na região. Mais da metade delas sequer têm incorporada a imagem da Marta em
suas mediações culturais. Ou seja, nem como educação, tampouco como bem cultural de
lazer e cidadania, o futebol de mulheres tem se estabelecido nas localidades mapeadas.
Os dados de 2023 assemelham-se ao cenário encontrado em 2022 no que diz
respeito ao nivelamento técnico intermediário e precarização de acesso as práticas
corporais, especialmente o futebol. Após o diálogo e planos de ação estabelecidos com
as prefeituras, secretarias de esporte e educação e professores municipais em 2022, foi
possível observar em 2023 o mesmo padrão de incentivo, com iniciativas municipais
limitadas para desenvolver a modalidade e os aspectos sociais, físicos e cognitivos
atrelados ao esporte.
Diante deste primeiro mergulho investigativo, descritivo e indiciário nas belezas,
contradições e resistências das cidadãs, mulheres e meninas, do Baixo São Francisco,
para o ano de 2023, na VI Expedição Científica do Baixo São Francisco, compreendemos
que era necessário ampliar nossos olhares para este território e suas relações com as
práticas corporais. Nesse sentido, sabendo que havia ali uma monocultura futebolística
hegemônica, precarizada para meninas e mulheres, estabelecemos como problema
de pesquisa a seguinte questão: O que essas populações ribeirinhas praticam com os
seus corpos nos seus tempos livres e como essas práticas se relacionam com o Rio São
Francisco?
Como forma de buscar indícios e sintomas sociais para este questionamento,
partimos com o objetivo geral de cartografar as práticas corporais e os seus lugares de
vivência nas cidades e povoados alagoanos visitados pela Expedição.
METODOLOGIA
Assim como na quinta edição da Expedição, neste ano de 2023 realizamos um
trabalho simultâneo de extensão e de pesquisa durante os dias de atividades nas cidades
visitadas. Ao mesmo tempo que o Projeto Academia & Futebol Alagoas desenvolveu
propostas práticas de divulgação, experimentação e educação sobre o futebol de
mulheres com meninas e meninos, também ampliamos o nosso escopo investigativo de
caráter exploratório e descritivo, com abordagem qualitativa dos achados.
Na dimensão da extensão, junto às secretarias de educação e esporte das cidades
288
mobilizamos crianças e adolescentes na faixa etária de 10 a 17 anos, tendo como prioridade
meninas, mas sem excluir a participação de meninos, e realizamos festivais esportivos em
espaços definidos, antecipadamente, pelas próprias prefeituras. O local destinado para
estas práticas variou em cada um dos municípios. Alguns nos alocaram em quadras,
outros em ginásios e os demais em campos gramados de futebol.
O trabalho educativo desenvolvido nesta VI Expedição foi ampliado para além do
futebol. Associamos esforços da Secretaria do Estado de Esporte, Lazer e Juventude,
com a Federação Alagoana de Futebol e o Ministério do Esporte nas ações em todos os
municípios alagoanos visitados e, assim, trabalhamos com outras modalidades esportivas,
tais como o voleibol e o badminton. Em cada localidade foram doados quites com bolas e
coletes de futebol, bolas e rede de voleibol, bem como raquetes e petecas de badminton.
O procedimento base adotado para as atividades educativas de extensão em
todas as cidades foi composto por: i) uma roda inicial de conversa com as meninas e
meninos participantes; ii) um jogo especial focalizado no trabalho com competências
socioemocionais ou temas transversais, tais como igualdade de gênero e diversidade; iii)
uma roda de conversa final para relato das percepções sobre a experiência. Participou
dos festivais nas sete cidades alagoanas um total de 306 pessoas, sendo 220 meninas e
mulheres, que eram o público prioritário das nossas ações.
Figura 1: Roda de conversa entre monitoras e meninas ribeirinhas.
Fonte: Acervo das/dos autoras/es.
Em relação à pesquisa, como dito, mantivemos o caráter descritivo e exploratório
do estudo por se tratar de uma ampliação do espectro compreensivo e interpretativo das
culturas corporais de movimento de cada cidade. Para operacionalização deste intento
estabelecemos a técnica de entrevista aberta como forma de busca e de conhecimento
sobre os jeitos de ser, estar e viver destas populações. Nos encontramos com o Rio e
com os ribeirinhos barranqueiros para dialogar, conversar, jogar conversas fora e, assim,
289
estar de perto e de dentro das suas práticas corporais e das suas experiências de lazer
cotidianas, inspirados por uma abordagem antropológica e etnográfica destes fenômenos
(MAGNANI, 2002).
As conversas coletivas ou individuais estabelecidas com ribeirinhas e ribeirinhos
ao longo dos dez dias de Expedição foram registradas em diário de campo por todas/os
as/os pesquisadoras/es. Gravamos somente quando autorizadas pelas/os participantes
da pesquisa. No total contabilizamos aproximadamente 220 diálogos. Foram conversas
com meninas, meninos, mulheres, homens, gestoras/es municipais e professoras/es,
constituindo um grupo diverso em sua faixa etária, no gênero e no papel social que
exercem em suas respectivas localidades.
É sabido que a pesquisa qualitativa tem maior interesse pelo processo do que
pelos resultados, onde os aspectos subjetivos dos fenômenos sociais tornam-se
objeto de estudo. Tais fenômenos ocorrem em determinado tempo, local e cultura. O
trabalho de campo é o momento em que o pesquisador mergulha no território onde os
fenômenos acontecem. Nesse estudo, mergulhamos no Rio São Francisco para buscar
a compreensão dos símbolos, das crenças, dos valores e das relações humanas desse
grupo social ribeirinho. A roda de conversa foi realizada prioritariamente com meninas e
mulheres, incluindo gestoras e professoras, ao longo das atividades de extensão.
ACHADOS DOS ESTUDOS
Sobre a prática do futebol de mulheres nas localidades alagoanas visitadas pela
Expedição, para além dos achados sobre nível de desempenho e jogabilidade mapeados
por Santos et al. (2023) na edição de 2022, identificamos a presença de times femininos
em cinco das sete cidades. Somente em Piranhas e no Povoado Chinaré, em Igreja Nova,
as meninas informaram não haver equipes constituídas.
Em relação às práticas cotidianas das populações nas cidades, a partir das duas
centenas de diálogos que estabelecemos, mapeamos cerca de 55 diferentes manifestações
de práticas corporais. Entre elas estão jogos esportivos, brincadeiras populares, danças
tradicionais e outras expressões emergentes da cultura corporal de movimento, tais como
o Beach Tennis e o Futmesa. Na figura 1 é possível visualizar a multiplicidade de práticas
anunciadas e algumas até mesmo observadas enquanto estivemos nas cidades.
Figura 2: Nuvem de palavras composta pelas práticas corporais anunciadas e observadas
Fonte: Gerada pelo Tagcrowd.com a partir do diário de campo das/dos pesquisadoras/es
290
Para o exercício cotidiano destas práticas, escutamos e observamos que as quadras
e os campos de futebol públicos destas cidades se configuram como equipamentos
específicos de lazer fundamentais para o gozo deste direito social constitucional.
Paralelamente a estes, por sua vez, as escolas e as ruas citadinas apresentaram-se como
outros equipamentos não específicos cruciais para as vivências dos lazeres destas
populações. Em especial para as crianças e adolescentes, as aulas de Educação Física
foram descritas como tempos e espaços únicos e exclusivos para muitas das vivências
lúdicas e esportivas que elas e eles experimentam em suas vidas.
Os 7 municípios apresentaram os seguintes dados populacional: 1) Piranhas. 11.689
mulheres no município; 2) Pão de Açucar. 12.089 mulheres no município; 3) Traipu. 11.803
mulheres no município; 4) São Brás. 3.381 mulheres no município; 5) Igreja Nova. 10.791
mulheres no município; 6) Penedo. 30.665 mulheres no município; 7) Piaçabuçu. 8.112
mulheres no município. Traipu e Piaçabuçu foram os municípios com maior capacidade
de mobilização de meninas e mulheres nas atividades durante a Expedição (n=60 em
cada município, equivalente a 0,50% e 0,73% respectivamente). Os municípios de Pão
de Açucar e Penedo, cada um mobilizou 30 meninas e mulheres, equivalente a 0,24% e
0,09% respectivamente. Piranhas (n=19, equivalente a 0,16%), São Brás (n=17, equivalente
a 0,50%) e Igreja Nova (n=4, equivalente a 0,03%) foram os municípios com menor
capacidade de aproveitamento da VI Expedição. Vale ressaltar que durante a Expedição
foram abordados temas relacionados a desigualdade de gênero, desvalorização das
mulheres no esporte e estratégias para estimular a prática por meio de apresentação e
discussão com a comunidade sobre as mulheres desportistas referência.
Proporcionalmente, a procura de meninas e mulheres para as práticas esportivas,
apesar da divulgação e magnitude da VI Expedição foi baixa e não apresenta linearidade
com o número absoluto de mulheres do município. Penedo foi o município com maior
número populacional, mas apresentou o menor índice de mulheres proporcionalmente.
Por outro lado, Piaçabuçu foi o segundo menor município populacional, mas apresentou
a maior procura pela ação do A&F. Em relação ao nível técnico, Piranhas, Traipu, São Brás
e Igreja Nova, foram classificados como Intermediário-Avançado. Pão de Açucar, Penedo
e Piaçabuçu, apresentaram um nível técnico classificado como Iniciante-Intermediário.
Desses municípios, Piranhas e Igreja Nova não possui time de futebol, Penedo conta
com times escolares e os demais apresentam times com encontros para a prática e
competições sistematicamente.
O mapeamento regional realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), disponível no livro “Perfil Socioeconômico Municipal e Aspectos Geoambientais
do Baixo São Francisco 2023” (Freire e Gomes, 2023), identifica áreas esportivas nas
cidades ribeirinhas visitadas pela VI Expedição. Listamos elas no Quadro 1.
Quadro 1: Áreas esportivas cartografadas pelo IBGE nas cidades ribeirinhas alagoanas
visitadas pela Expedição.
291
Fonte: Autor, 2024.
Por meio do diálogo com as populações ribeirinhas, como previsto na metodologia
do trabalho, buscamos informações sobre os lugares das cidades e povoados onde elas
vivenciam suas práticas corporais e esportivas com vistas ao lazer. Listamos no quadro 2
os achados desta questão investigada.
Quadro 2: Espaços de práticas corporais e esportivas anunciadas pelos participantes e
visualizados por pesquisadoras/es da pesquisa em cada cidade visitada pela Expedição.
292
Fonte: Autor, 2024.
Ao relacionarmos os achados da escuta qualificada junto a população em seu
território durante a Expedição com os dados levantados pelo IBGE, identificamos, em
primeiro lugar, que o trabalho desenvolvido neste programa científico multidisciplinar é
fundamental para o reconhecimento, sistematização e prospecção de políticas públicas
assertivas. Em segundo lugar, demonstra a relevância dos ginásios escolares, das aulas
de Educação Física escolar, dos campos de futebol, mas também do Rio São Francisco
nestes contextos como espaço-tempo de vivências corporais/esportivas, de modo
a retroalimentar a cultura corporal, esportiva e do lazer. Por fim, verificamos assim o
desequilíbrio distributivo de espaços esportivos específicos entre a população e as áreas
municipais da região do Baixo São Francisco em Alagoas.
Ademais, nestes primeiros olhares e escutas primárias aqui registrados, identificamos
uma polissemia sobre a relação com o Velho Chico. Para alguns não há sequer interesse
em mergulhar nele. Para outros não é viável a visita ao Rio no cotidiano, pois vivem
em comunidades, assentamentos ou povoados afastados dos barrancos e não existe
mobilidade para o deslocamento até ele. Há quem tenha uma relação de medo com as
águas do articulador nacional. Existem aquelas/es que o têm como espaço e tempo para
o descanso e o divertimento dos finais de semana.
Figura 3: Relações das populações ribeirinhas visitadas com o Rio São Francisco para as
práticas corporais e esportivas voltadas ao lazer.
Fonte: elaborada pelas/os autoras/es
Nas andanças pelos barrancos e navegações pelas águas do rio, em meio aos
achados ilustrados na figura 1, vimos crianças, jovens e adultos que se misturam com as
águas do Rio São Francisco. Se banham. Nadam. Brincam. Mergulham. Jogam. Navegam.
Respeitam. Contemplam.
Figura 4: Criança no encontro com o Rio São Francisco.
293
Fonte: Acervo dos/das autores/as.
A figura 4, por sua vez, nos apresenta o Rio como escola. Ou melhor, como outro
lugar de aprender e de viver, apesar dela. Vemos, então, o Velho Chico como educador
da vida de uma criança. Os primeiros passos misturam-se com os primeiros mergulhos.
O que vem antes? Andar ou mergulhar? Seria possível se equilibrar nas suas águas? A
figura 5 nos responderia que sim.
Figura 5: Crianças brincam livres em cinestesia com o Rio.
Fonte: Acervo dos/das autores/as.
294
O desequilíbrio ecológico causado pela oscilação das vazantes do Rio determinada
pela companhia hidroelétrica, ou então pela poluição de lixos e esgotos jogados nele por
520 dos 521 municípios que o margeiam, não são páreos para o equilíbrio das crianças
ribeirinhas. Ali, corpo e rio se misturam de modo cinestésico. Assim, parece a chance
para o reequilíbrio ecossistêmico.
Figura 6: Crianças brincam com/no Rio em frente a uma saída de esgoto e depósito de
lixo.
Fonte: Acervo dos/das autores/as.
Como vemos na figura 6, é como se fossem um só corpo. Humano-Rio ou RioHumano. Resistem à ruptura moderna entre humano e natureza. Ignoram a poluição
emergente do Rio. Se negam a rejeitá-lo, a abandoná-lo. O Rio é casa. É lar. É lazer. É
viver.
CONSIDERAÇÕES
Os exercícios práticos de extensão e pesquisa a que nos propomos nesta edição da
Expedição planam no universo do paradigma indiciário de ser e estar como pesquisadoras/
es em contextos ribeirinhos tão únicos como as sete cidades alagoanas visitadas. Em
nossos primeiros diálogos analíticos das observações e diálogos estabelecidos com as
comunidades ressaltamos o sentimento de desejo pela ação transformadora de muitas
destas realidades sociais. São muitos povoados, cidades, barrancos de Rio, pessoas
abandonadas, esquecidas pelo poder público. Povos que vivem às margens do articulador
nacional e nunca foram conectadas à direitos constitucionais básicos para o exercício da
cidadania. Ao mesmo tempo, nos encantamos a todo instante pela sabedoria popular
expressa em cada fala, em cada gesto. Pela simplicidade com que lidam com a vida
cotidiana. Pela força de meninas e mulheres em materializarem o desejo de jogar futebol.
Pela resistência, ousadia e sagacidade das crianças ao brincarem com o Rio, sem jamais
abandoná-lo.
295
A relevância da escola, das aulas de Educação Física e do Rio São Francisco,
conforme identificamos, como lócus para as vivências de práticas corporais e esportivas
voltadas ao lazer dessas populações é o indicativo principal sobre a necessidade do
desenvolvimento de políticas que unam os setores da Educação, da Cultura, do Esporte
e do Meio Ambiente. É a contraditória e forte relação de medo, respeito e desejo dessas
populações para com o Rio nos seus tempos e espaços de lazer que pode se configurar
como um dos caminhos para a revitalização dele, combatendo a partir da força popular
contra as oscilações de suas vazões e os depósitos de esgotos das cidades.
AGRADECIMENTOS
Ministério do Esporte, Governo Federal pelo fomento ao Programa Academia & Futebol.
Yasmin Freitas Abrantes, Suzana Prates e Mayara Pires.
REFERÊNCIAS
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geoambientais do Baixo São Francisco 2023. Maceió: Edufal, 2023. Disponível em: https://
ufal.br/ufal/pesquisa-e-inovacao/programas/expedicao-cientifica-do-rio-sao-francisco/
publicacoes/e-books/perfil-socioeconomico-bsf-2023.pdf/view. Acesso em 25 de abril
de 2024.
MAGNANI, J. G. C.. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. Revista
Brasileira de Ciências Sociais, v. 17, n. 49, p. 11–29, jun. 2002.
SANTOS, S. M. D. et al. O futebol de meninas ribeirinhas: imaginário, possibilidades, sonhos
e desejos. In: SOARES, E. C. et al. Relatório final da V Expedição Científica do Baixo São
Francisco. Maceió: UFAL, p. 336-353, 2023. Disponível em: https://ufal.br/ufal/pesquisa-einovacao/programas/expedicao-cientifica-do-rio-sao-francisco/publicacoes/relatorios/
relatorio-final-v-expedicao-cientifica-bsf.pdf/view. Acesso em 15 de dezembro de 2023.
296
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E
SANEAMENTO RURAL
297
18. IBGE NA VI EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Ciências humanas.
Neison Cabral Ferreira Freire1
Silvânia da Rocha Medeiros Vila Nova 2
RESUMO
Em sua primeira participação no Programa da Expedição Científica do Baixo São
Francisco, o IBGE empreendeu esforços em diversas frentes que envolveram um total de
20 profissionais que atuam como servidores e agentes públicos que contribuem para a
mais ampla disseminação dos dados e informações geradas pelas pesquisas estruturais
e conjunturais do instituto, com destaque para os resultados do Censo Demográfico
2022. As atividades contaram com ações junto aos públicos infantojuvenil e adulto,
promovendo a democratização do acesso ao conhecimento gerado pelo IBGE. O principal
objetivo foi o letramento geográfico e estatístico da população ribeirinha dos municípios
que integraram a VI Expedição, bem como ampliar a compreensão sobre as diferentes
possibilidades de acesso às fontes físicas e digitais existentes nos canais oficiais do
IBGE. Foram desenvolvidos produtos exclusivos que deram suporte às ações em campo,
como livros, mapas, folhetos, apresentações e um banco digital de dados geoespaciais
da região do Baixo São Francisco. Foram realizadas doações para as Secretarias de
Educação Municipais de centenas de publicações, além daquelas que compuseram kits
tecnocientíficos entregues diretamente à população. Tanto a programação planejada
como aquelas que surgiram de forma tempestiva em campo, foram concretizadas com
êxito pela equipe responsável. Foram sete meses de trabalho intenso, desde a ideação
sobre a participação e potenciais contribuições do IBGE, passando por planejamentos
e articulações internas e externas, organização e logística de material bibliográfico e
material de apoio, até a mobilização de recursos físicos e financeiros, envolvendo a
infraestrutura de transporte, equipamentos, alimentação e hospedagem das equipes.
Palavras-chave: letramento geográfico e estatístico; IBGE; Rio São Francisco; dados
geoespaciais; democratização do acesso ao conhecimento; educação; inovação social.
1
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Superintendência Estadual em Alagoas – SES/
AL. Chefe da Seção de Disseminação de Informações em Alagoas – SDI/AL e Coordenador das atividades do
IBGE na VI expedição Científica do Baixo São Francisco. E-mail: neison.freire@ibge.gov.br
2
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. Superintendência Estadual em Alagoas – SES/
AL. Analista de Planejamento e Gestão de Informações Geográficas e Estatísticas da Seção de Disseminação
de Informações em Alagoas – SDI/AL. Articuladora e responsável pelas atividades em campo do Projeto
IBGE educa Offline e ações junto as comunidades tradicionais indígenas e quilombolas. E-mail: silvania.
vilanova@ibge.gov.br
298
INTRODUÇÃO
O IBGE é o instituto federal oficial responsável pela produção geográfica e
estatística do Brasil. Dentre suas principais funções encontram-se a produção e análise
de informações estatísticas e geocientíficas. Integrado por 27 superintendências
sediadas nos Estados da Federação e no Distrito Federal, os trabalhos coordenados
pela Superintendência de Alagoas (SES/AL), envolveram também a Superintendência
de Sergipe (SES/SE), além do suporte institucional realizado pela Superintendência da
Bahia (SES/BA) e pela sede do órgão localizado no Rio de Janeiro.
As ações e produtos desenvolvidos na primeira participação do IBGE no programa
expedicionário do Baixo São Francisco mobilizaram, direta e indiretamente, um total de
21 servidores e agentes públicos federais. Composta por duas equipes em campo, de terra
e água, as atividades desenvolvidas pelo IBGE ainda contaram com uma terceira equipe
exclusivamente voltada para trabalhos junto à academia e programas de comunicação
em veículos de radiodifusão. Todos atuavam de forma integrada nas diferentes ações
junto à população.
O IBGE tem como missão “retratar o Brasil com informações necessárias ao
conhecimento da sua realidade e ao exercício da cidadania”. Nesse sentido, a SES/
AL desenvolveu uma inovação social inédita em seus processos de disseminação, que
antes dependiam de acesso amplo à internet para serem realizados, seguindo o modelo
de trabalho exclusivo até então orientado pelo IBGE. A tecnologia social elaborada e
implementada no modo de disseminar e comunicar os conteúdos que integram o projeto
IBGE Educa Offline foi pensada e construída de modo a permitir o conhecimento sobre
dados e informações geradas pelas diferentes pesquisas do IBGE sem a necessidade de
conexão com a internet.
Ao fomentar o mais amplo conhecimento e apropriação territorial, o projeto
IBGE educa Offline explorou as realidades socioambientais captadas pelas pesquisas
e análises do instituto desenvolvidas nos 93 municípios que conformam o território do
Baixo São Francisco, com destaque para aqueles 8 visitados nesta edição da Expedição.
Esse projeto permitiu que variados grupos de pessoas atingidas pelas ações do IBGE
fossem contempladas com apresentações personalizadas que, dentre outros aspectos,
promoveram a democratização do acesso aos dados e informações atualizadas sobre o
Brasil e seus diferentes Estados e Municípios.
Em um movimento inovador para uma instituição pública da Administração
Federal com mais de 87 anos de existência, a integração dos servidores e pesquisadores
especializados do IBGE com os demais pesquisadores e expedicionários estabeleceu um
novo padrão no modo de se relacionar e devolver à sociedade os resultados gerados a
partir da interação com a população nas diferentes pesquisas realizadas pelo instituto.
Novas técnicas e processos foram desenvolvidos motivados pela necessidade de melhor
alcançar os públicos-alvo da Expedição, objetivando uma harmonia com as propostas de
educação ambiental e sustentável defendidas pelo programa.
METODOLOGIA
As atividades e produtos desenvolvidos seguiram o padrão institucional impresso
nos demais produtos do IBGE. Cada um dos produtos e ações exclusivamente preparados
para a Expedição, passou pelo seguinte processo básico:
1) Levantamento da necessidade: identificada por demanda interna ou externa.
2) Reunião: os membros da equipe da SES/AL, integrantes da Seção de
Disseminação
de Informações se reuniam para discussão de diferentes aspectos
relacionados à
gestão das atividades/projetos sob análise.
3) Discussão: nas reuniões foram discutidos os objetivos, métodos e produtos para
as
diferentes possibilidades no atendimento às demandas identificadas e latentes
passíveis de serem atendidas, dentro da missão institucional do IBGE.
299
4) Estratégias: verificação dos prazos, recursos disponíveis, potenciais contatos
capazes de contribuir para o andamento das demandas.
5) Articulação: indicação das pessoas que conduzirão cada uma das ações
identificadas como necessárias.
6) Antecipação: levantamento dos desdobramentos e resultados possíveis,
visando
minimizar erros e potencializar acertos.
7) Ação: cada membro da equipe se dedica a realizar o que ficou sob sua
responsabilidade no delineamento do plano de ação.
8) Comunicação: instâncias superiores ou externas são informadas, no que couber.
9) Piloto/Protótipo: são realizados testes visando o aprimoramento do resultado
final.
9) Avaliação: a equipe volta a se reunir, após o prazo previamente estabelecido,
para avaliar o andamento das atividades e evolução do plano de ação.
10) Reflexão: a equipe reflete sobre os impactos diretos e indiretos das
atividades/produtos oriundos do processo.
Todos os produtos e ações desenvolvidos para a Expedição foram oriundos de
processos de tomada de decisão compartilhada. Em cada etapa buscou-se refletir a
atenção da equipe à proposta de valor entregue à população do Baixo São Francisco
diretamente e indiretamente impactada pelo rio, valorizando as particularidades do
território e do seu povo.
PRODUTOS E AÇÕES DESENVOLVIDAS
Considerando a importância estratégica na difusão do conhecimento científico a
partir das pesquisas realizadas sob a coordenação da UFAL nas diversas expedições
realizadas no Baixo São Francisco, a equipe do IBGE propôs, desenvolveu e entregou os
seguintes produtos e ações à sociedade:
1) IBGE educa no Baixo São Francisco: realização de atividades presenciais com alunos
das 4ª, 5ª e 6ª séries do Ensino Fundamental 1 de escolas públicas e privadas, conforme
agendamento e dinâmica estabelecida organização da expedição em cada município
visitado, previamente selecionadas a partir de conteúdos paradidáticos disponibilizados
pelo site educa.ibge.gov.br e adequados para a versão offline, a partir do projeto IBGE
Educa Offline. Realização de encontros com lideranças em territórios tradicionais
indígenas e quilombolas, onde foram apresentados e entregues exemplares dos produtos
do IBGE.
2) Resultados do Censo Demográfico 2022: disseminação focada no perfil dos municípios
no Baixo São Francisco. Realização de palestra sobre os Resultados do Censo 2022 no
Campus Universitário, que promoveu a reflexão sobre as potenciais causas das primeiras
estatísticas divulgadas da pesquisa.
3) Mapeamento sistemático do Baixo São Francisco: Elaboração de imagens satelitais,
cartas e mapas municipais digitais e físicos, em escala disponível, relativos aos temas
relacionados ao meio ambiente, recursos hídricos, geomorfologia, áreas urbanizadas e
uso e ocupação do solo, dentre outros, com ampla distribuição às comunidades, gestores
públicos e agentes privados.
4) SIDRA – Sistema IBGE de Recuperação Automática e Banco de Dados Geoespaciais do
Baixo São Francisco: realização de palestras introdutórias visando o mais amplo acesso
aos dados e informações dos bancos de dados do IBGE, com enfoque sobre dados
produzidos pelas pesquisas do IBGE na área de abrangência do Baixo São Francisco em
temas relativos à: indicadores, demografia, economia e meio ambiente, em municípios
previamente selecionados.
300
5) Publicações tecnocientíficas: produção do livro “Perfil Socioeconômico Municipal e
Aspectos Geoambientais do Baixo São Francisco 2023”, nas versões impressa e digital,
apresentando o “olhar” sobre a região do Baixo São Francisco a partir das diferentes
perspectivas oferecidas pelas pesquisas realizadas pelo IBGE. Seu conteúdo reúne
reflexões e análises de especialistas, além de um rico arcabouço de imagens geoespaciais
e ambientais da região, contendo os principais dados resultantes do Censo 2022 dos
municípios abrangidos pela Bacia Hidrográfica do São Francisco, disponibilizados até a
data do evento. Sua produção ocorreu em parceria com a editora EDUFAL, editora da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
6) Mapa: produção e impressão de 500 exemplares do Mapa Base Municipal da Bacia
Hidrográfica do Baixo São Francisco, em tamanho A0, destacando todos os municípios
da Bacia Hidrográfica, de acordo com o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco.
7) Banco de Dados Geoespaciais do Baixo São Francisco, integrado por dados estatísticos
oficiais que contemplam temas da agropecuária, economia e população. Estão disponíveis:
a) Tabelas Excel com dados de pesquisas em nível municipal; b) 93 Mapas municipais
PDF; c) Livro Perfil Socioeconômico Municipal (PDF); d) Plano alternativo de acesso
aos dados do IBGE; e) Folhetos, apresentações digitais e demais conteúdos produzidos
para a Expedição; f) Mapa Base Municipal da Bacia Hidrográfica do Baixo São Francisco
(PDF).
8) Doações de publicações: foram doadas centenas de livros às Secretarias Municipais de
Educação, bem como kits com folders-mapa, icosaedros e publicações tecnocientíficas
que foram entregues para todos os alunos e professores que experienciaram, direta ou
indiretamente, as atividades do IBGE em campo.
9) Palestras especializadas: realização de palestra tecnocientífica sobre os riscos e
impactos do desastre de Brumadinho sobre o Rio São Francisco e apresentação para o
programa dos povos de língua inglesa, transmitido ao vivo diretamente das embarcações
da expedição, onde foi possível explicar sobre as atividades do Instituto e seus propósitos,
realçando o valor dos dados das pesquisas do IBGE para o exercício da cidadania no país.
10) Entrevistas: realizadas em veículos de radiodifusão e imprensa televisiva, ampliando
o alcance da disseminação de dados e informações geradas pelas pesquisas do IBGE.
CONCLUSÕES
O processo de letramento geográfico e estatístico é uma importante premissa para
a construção da cidadania de qualquer grupo social ou país. Antes de se constituir numa
estratégia de política pública voltada à educação, o projeto de participação do IBGE
na VI Expedição Científica do Baixo São Francisco, ao mobilizar diferentes equipes em
vários estados brasileiros, resultou em uma rica experiência de disseminação dos dados
produzidos pelo instituto para as populações que habitam o vasto território ocupado por
mais de 2 milhões de habitantes (IBGE, Censo Demográfico 2022) e distribuídos por 93
municípios em 4 estados: Alagoas, Bahia, Pernambuco e Sergipe (CBHSF, 2023).
No processo, entretanto, destacam-se as atividades do IBGE Educa ao permitir que
alunos conheçam algumas das variáveis do meio físico e natural que atuam sob seu País,
estado e município, despertando neles o sentimento de pertencimento ao território –
condição essencial para o engajamento e valorização dos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS), a Agenda 2030, da qual o Brasil é signatário.
301
A jornada científica do IBGE na Expedição revelou possibilidades outrora
inimagináveis para o instituto, abrindo novas frentes de pesquisa e extensão na
disseminação de informações geográficas e estatísticas dos diversos grupos sociais
e seus respectivos territórios. Numa perspectiva regional, as atividades criadas e
executadas permitiram uma escalabilidade não só quanto ao público-alvo (de crianças a
jovens, adolescentes e adultos), mas também quanto à adaptabilidade referente às reais
condições de acesso às novas tecnologias de comunicação e informação (TICs).
Concluindo, podemos, então, afirmar que o projeto do IBGE na expedição
democratizou o acesso às informações geoestatísticas oficiais produzidas pelo País,
revelando aspectos ainda não completamente mapeados sobre nosso território a
partir dos dados georreferenciados e contextualizados especialmente produzidos para
a Expedição. De certa maneira, o ineditismo por parte do instituto focou no recorte
territorial que delimitou o Baixo São Francisco a partir da integração em várias áreas do
conhecimento, tais como: geografia, geomorfologia, vegetação, educação, cartografia
temática, demografia, agropecuária, etc. Trata-se, portanto, de um projeto de contribuição
ao fortalecimento da cidadania não só para as populações ribeirinhas do “Velho Chico”,
mas também, ao revelar sua magnitude e abrangência, de todo o País.
REFERÊNCIAS
CBHRSF (2023). A Bacia.
bacia/#municipios-da-bacia>.
Disponível
em
<https://cbhsaofrancisco.org.br/a-
IBGE (2023). Censo Demográfico 2022. Disponível em <www.ibge.gov.br>.
ONU (2023). Agenda 2030. Disponível em <https://www.un.org/en/about-us/memberstates#gotoB>.
ANEXOS
Figura 1: Mapa da programação.
302
Figura 2: Folder-mapa do Baixo São Francisco.
303
Figura 3: Livro impresso e E-book.
304
Figura 4: Folderes IBGE Palestra e Banco de Dados Geoespaciais.
305
Figura 5: Mapa Base Municipal da Bacia Hidrográfica do Baixo São Francisco
306
19. AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO:
JOGO AKAUANA - OFICINA PARA OS PROFESSORES
Área de conhecimento: Ciências humanas.
Luís Gustavo Miranda Mello1
Fábio Otuzi Brotto2
RESUMO
O “Akauana: Um jogo de conexão com as águas” foi criado como opção para
diversificar a atividade pedagógica nas escolas. Essa é uma iniciativa da Agência Nacional
de Águas e Saneamento Básico (ANA), em parceria com a Organização das Nações
Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) desenvolvida pelo Projeto Cooperação.
O Jogo é um recurso pedagógico que possui grande versatilidade e pode servir como
projeto a ser desenvolvido durante um ou dois semestres letivos. Trata-se de uma jornada
investigativa que incentiva a atuação em equipe, de forma colaborativa, estimulando
também a autonomia dos alunos. Sua intenção é mobilizar na juventude a vontade de
aprender sobre as águas da bacia hidrográfica que banha o território do seu município.
Por meio de desafios e de missões, que buscam soluções para as situações identificadas,
a dinâmica do jogo gradualmente amplia o foco para o cuidado das águas no Brasil e
no planeta. O Akauana foi apresentado para professores do ensino fundamental da rede
pública dos municípios atendidos pela VI Expedição Científica do Baixo São Francisco.
Em oficinas com duração média de 4 horas, foram mostrados os princípios e a estrutura
desse recurso pedagógico e foram realizadas algumas de suas atividades e dinâmicas,
propiciando os professores vivenciarem a experiência do jogo. Foram realizadas oito
oficinas que tiveram a participação de 213 professores.
1
2
Servidor da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico – ANA.
Consultor, cofundador do Projeto Cooperação.
307
INTRODUÇÃO
“Akauana: Um jogo de conexão com as águas” foi criado como opção para diversificar
a atividade pedagógica nas escolas. Essa é uma iniciativa da Agência Nacional de Águas
e Saneamento Básico (ANA), em parceria com a Organização das Nações Unidas para
Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e desenvolvida por Tereza Moreira, Magda Vila,
Felipe Vila, Fábio Otuzi Brotto e Flávia Freitas Ramos. O Jogo foi desenvolvido durante
a pandemia da Covid-19 e essa versão trabalhada nas oficinas da Expedição foi aplicada
com escolas no ano de 2023 em oficinas com alunos, tendo a participação de professores
no apoio à facilitação e também como observadores.
O Jogo é proposto como uma jornada investigativa com desafios realizados
dentro e fora da escola e superados de forma colaborativa. Seu foco é a produção de
conhecimento sobre as bacias hidrográficas, principalmente sobre a bacia local, visando
gerar engajamento comunitário na ação transformadora da realidade identificada. Como
sabemos que muitos dos problemas locais refletem situações globais, o jogo também
abre possibilidades para que a juventude se aproprie de temáticas de caráter global,
como, por exemplo, as mudanças do clima.
As fases do jogo são conduzidas por meio de uma narrativa desencadeadora
das ações, envolvendo atividades individuais e coletivas voltadas à aprendizagem e ao
fortalecimento de vínculos entre estudantes, suas comunidades e comitês de bacias na
gestão das águas.
A proposta é que este jogo seja um material que ajude o professor e a professora
a trabalharem em sala de aula o senso de pertencimento das equipes jogadoras à sua
comunidade e ao território da bacia hidrográfica. Pretende-se, com isso, estabelecer uma
conexão com os recursos naturais e com o seu cotidiano, contribuindo com possíveis
intervenções relacionadas ao cuidado com a água.
Este material foi concebido como estratégia educacional que busca desenvolver
competências e estimular o envolvimento de integrantes do público educacional nas
instâncias de participação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos
(SINGREH). São 18 jogadas de 50 minutos, que podem ser realizadas ao longo de um
semestre ou de um ano letivo. Dessa forma, o jogo tem a possibilidade de ser incorporado
ao currículo escolar como projeto interdisciplinar.
Considera-se também um material de aplicação e abordagem, no âmbito escolar,
dos vários temas que integram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da
Organização das Nações Unidas - ONU, tendo como tema gerador o ODS 6 – Água e
Saneamento. Os principais objetivos do Jogo Akauana são:
•
Ampliar o conhecimento a respeito do tema água e bacia hidrográfica (local,
regional e nacional).
•
Promover a aproximação entre a juventude e os comitês de bacia hidrográfica e
destes com as comunidades escolares.
•
Engajar o público juvenil nos processos de governança das águas por meio da
ação educativa.
•
Desenvolver competências interrelacionais de colaboração, cooperação e
autonomia.
O jogo é um recurso pedagógico que possui grande versatilidade e pode servir
como projeto a ser desenvolvido durante um ou dois semestres letivos, estruturado em
três ciclos, 18 jogadas e 48 missões.
De acordo com o Manual de Orientação para Docentes (2023), algumas das principais
características do jogo são:
308
•
Jornada gamificada de aprendizagem colaborativa. Akauana possui dimensão
lúdica, seu foco está no engajamento da juventude para o cuidado com as águas da bacia
hidrográfica e a aprendizagem se dá como consequência.
•
Adaptável a qualquer bacia hidrográfica: O jogo leva em conta a diversidade
de ecossistemas, biomas e regiões do país. Possui uma estrutura flexível, que permite
trabalhar conteúdos específicos e possibilita a construção de conhecimento adaptado a
cada bacia, sub-bacia ou microbacia hidrográfica.
•
Fornece indicações de pesquisa para ampliar o conhecimento, de forma a suprir
parte das demandas por dados, informações e conhecimentos necessários à superação
dos desafios e das missões propostas.
•
Os “Grandes temas” são guias: As equipes definem os conteúdos a aprofundarem
e quais projetos realizar em relação a: direito à água, saneamento, gestão, usos múltiplos,
mudança do clima, sustentabilidade e sistemas regenerativos.
•
Desafios provocam colaboração dentro da equipe, entre equipes, com a comunidade
e com o Comitê de Bacia Hidrográfica (CBH). A ideia é que as relações com o comitê de
bacia e a comunidade local se estabeleçam logo nas primeiras jogadas, intensificando-se
no decorrer de toda a jornada.
•
A Pedagogia da Cooperação é a matriz da jornada, pois desenvolve e fortalece, por
meio de sete práticas e de forma equilibrada, autonomia individual e interdependência
das pessoas que integram as equipes, além da colaboração entre estas, para que juntas
possam VenSer. Alguns termos utilizados reforçam a mensagem colaborativa. No jogo,
algumas palavras aparecem com hífen ou com grafia diferenciada da convencional, a
exemplo de VenSer e comum-unidade. Esse recurso é intencional e tem como propósito
chamar atenção e ampliar o significado desses termos. Trata-se de uma licença de
linguagem utilizada ao longo de todo o jogo.
•
Pode ser jogado mais de uma vez, pois Akauana não possui temas fixos. A
aprendizagem evolui à medida que a turma supera desafios e adquire novos conhecimentos
e saberes sobre a bacia. Dessa ampliação de horizontes surgem novos desafios, que se
transformam em objeto de novas partidas.
•
Jogando com diversas dimensões: Passado: com o resgate das memórias sobre a
bacia que as pessoas mais vivi das e experientes da família e da comunidade possuem;
Presente: com o diagnóstico da condição atual das águas da bacia por meio de buscas
de informações e do contato com pessoas e organizações vinculadas ao cuidado das
águas; Futuro: com a definição de sonhos para a sustentabilidade da bacia e de como
realizá-los.
•
Convite à autoavaliação com a identificação dos avanços e das lacunas que
surgiram ao longo do percurso. Os focos da avaliação podem ser: a aprendizagem do
conteúdo temático; o engajamento e a colaboração das pessoas e entre equipes; bem
como a verificação do alcance de algumas competências gerais desejáveis para o Ensino
Médio e para os anos finais do Ensino Fundamental.
Quando é realizado durante um semestre letivo, pode ser desenvolvido com uma
jogada de 50 minutos de duração por semana, totalizando 18. Dependendo da realidade
de cada rede de ensino, é possível ampliar esse tempo para aprofundar as ações previstas,
seja com mais tempo para as jogadas, seja com mais encontros semanais. De acordo com
309
as possibilidades da escola, o jogo pode se estender para além de um semestre letivo.
Cada um dos três ciclos do jogo é composto por 6 jogadas, compondo uma jornada
desenvolvida em etapas.
Ciclo 1: Conexão Água
Composto de seis jogadas, nesse primeiro ciclo são criadas condições para que
a turma se mobilize com o tema “água”, além de fazer com que estudantes fortaleçam
as conexões entre si, integrando-se para uma potente atuação em equipes. Espera-se
também que, nesses momentos iniciais, sejam dados os primeiros passos para conhecer
a realidade da bacia hidrográfica onde se situa a escola.
Ciclo 2: Mergulho na bacia hidrográfica
Este é o momento de abraçar a bacia hidrográfica local. As seis jogadas têm a
finalidade de investigar as problemáticas e potencialidades daquele território, sonhar
futuros possíveis e contatar parcerias, chamadas de Vozes-Fontes, para torná-los
realidade. As Vozes-Fontes são pessoas e organizações capazes de fornecer dados,
informações, memórias, ou seja, diversos tipos de registros vinculados com a gestão das
águas. Com esses apoios será possível identificar e projetar as ações transformadoras,
que serão realizadas na fase seguinte.
Ciclo 3: Festival das Águas
Nesse momento “mão nas águas”, as equipes executarão as ações previstas nos
projetos elaborados. As aprendizagens obtidas ao longo da jornada serão compartilhadas
com toda a comunidade envolvida por meio de uma celebração e, posteriormente,
avaliadas pelas equipes participantes.
As atividades do jogo são conduzidas a partir de uma narrativa que, com elementos
de aventura, encantamento e mistério levam à mobilização, ao engajamento emocional e
à ação, fazendo com que as pessoas sejam transportadas para uma dimensão socioafetiva
que vai além da racionalidade cotidiana.
A jornada a ser percorrida combina essa narrativa mítica com atividades individuais
e em equipes, realizadas tanto em sala de aula quanto em casa ou na comunidade.
A cada jogada, a dinâmica de desvendar enigmas conduzirá as equipes na busca de
conhecimentos e novas formas de atuação.
Durante toda a jornada é importante ressaltar a figura do(a) Mestre do Jogo. É essa
pessoa, em geral docente, que exerce a mentoria da jornada: lê a narrativa, apresenta os
desafios, explica as missões e garante que sejam realizadas. Porém, ao longo do jogo,
integrantes de cada equipe podem se revezar nesse papel, conquistando cada vez mais
autonomia na condução do processo.
O papel docente – assim como de todas as pessoas adultas envolvidas na jornada
– é estimular a turma a realizar os desafios propostos. Exercer a mentoria do jogo
significa oferecer apoio quando solicitado pelas equipes, porém sem tentar interferir nos
resultados obtidos. O estímulo ao caráter colaborativo, sempre por meio de exemplos
práticos, é também fundamental para o sucesso da jornada.
O Akauana, portanto, é uma jornada gamificada de aprendizagem colaborativa. O
jogo possui dimensão lúdica, e seu foco está no engajamento da juventude para o cuidado
com as águas da bacia hidrográfica e a aprendizagem que se dá como consequência.
Por meio de desafios, os jogos mobilizam habilidades como a atenção, a memória e a
motivação. Segundo Eugênio (2020), tais habilidades são apontadas pela neurociência
como fatores indispensáveis à aprendizagem. E o fazem de maneira lúdica, leve e divertida.
Ao mesmo tempo em que desenvolvem competências intelectuais nos estudantes, os
jogos também exercitam as chamadas competências socioemocionais.
Competências socioemocionais podem ser definidas como características que se
310
manifestam na forma de sentir, agir e reagir nas relações da pessoa consigo mesma, com
os outros e com o seu entorno, especialmente em situações novas e desafiadoras. Alguns
exemplos de competência socioemocional são a empatia, a persistência, a autoconfiança
e a abertura para situações novas.
Por meio dos jogos, adolescentes e jovens encorajam-se a manifestar maior
espontaneidade e a desenvolver conexões sociais que estimulam o seu senso de
pertencimento. Suas emoções e comportamentos revelam, no entanto, potencial para
competir e/ou colaborar, dependendo do ambiente e dos estímulos ao seu redor.
Considerando-se o ambiente criado pela maioria dos jogos, conforme pontua
Brotto (2001), a tendência dominante tem sido a de exacerbar a competição. Nesse
sentido, os jogos apenas refletem o tipo de sociedade em que vivemos. Para esse autor,
longe de serem características inerentes à espécie humana, a competição e a cooperação
constituem valores culturais, adquiridos por meio da educação formal e informal ao longo
das gerações. Em suma, competir se aprende. E colaborar também.
O Akauana busca criar situações em que as pessoas participantes se sintam
acolhidas, incluídas e encorajem-se a sonhar, projetar soluções compartilhadas para
desafios cotidianos e a desenvolver relacionamentos colaborativos. Para isso, o jogo se
baseia nos princípios da Pedagogia da Cooperação (Brotto 2020), uma abordagem que
“potencializa a inteligência coletiva e a autonomia pessoal para solucionar problemas,
transformar conflitos, alcançar metas e realizar objetivos, conciliando produtividade
e felicidade”. Ela reúne diferentes metodologias colaborativas, tais como, a da
Comunicação Não Violenta, Jogos Cooperativos, Danças Circulares, Dragon Dreaming e
Planejamento Participativo para exercício da democracia direta em tempo real, focando
no desenvolvimento de Competências de Rendimento e de Relacionamento que são
dinamizadas pela aplicação das Sete Práticas da Pedagogia da Cooperação (Imagem 1)
que se desenvolvem em uma sequência:
1.
Fazer Com-Tato: promover aproximação e integração de um grupo; reunir a turma
para começar; criar um ponto de partida acolhedor, atraente e que desperte a curiosidade
e a vontade de prosseguir juntos. Ativa a competência saber conectar.
2.
Estabelecer Com-Trato: estabelecer acordos de cooperação e combinados para
reconhecer os cuidados necessários e os recursos existentes com vistas ao bem-estar
pessoal e coletivo. Ativa a competência saber cuidar.
3.
Compartilhar In-Quieta-Ações: partilhar perguntas, dúvidas, inquietações e
incertezas sobre o tema/foco do encontro, projeto ou jogo. Ativa a competência saber
compartilhar.
4.
Fortalecer Alianças e Parcerias: desenvolver as competências voltadas a regenerar
e/ou fortalecer as relações de aliança e parceria. Ativa a competência saber confiar.
5.
Reunir Soluções Como-Uns: coletar e sintetizar todas as ideias, sugestões, dicas,
comentários, insights e respostas para as perguntas produzidas na 3ª Prática. Ativa a
competência saber cocriar.
6.
Realizar Projetos de Cooperação: transferir para o dia a dia a realização das
Soluções “Como-Uns”, por meio da prática pessoal e coletiva de pequenas, simples e
poderosas estratégias cooperativas. Ativa a competência saber cultivar.
7.
Celebrar o VenSer: reconhecer as aprendizagens, conquistas, descobertas e
inspirações. Celebrar a realização dos objetivos e propósitos pessoais e coletivos. Ativa
a competência saber celebrar.
Figura 1: As Sete Práticas da Pedagogia da Cooperação.
311
DESENVOLVIMENTO DAS OFICINAS
Para as oficinas desenvolvidas com os professores durante a VI Expedição, o
desafio foi apresentar o jogo e propiciar um ambiente em que os professores pudessem
vivenciar algumas das jogadas e missões do Akauana e as práticas da Pedagogia da
Cooperação.
O objetivo das oficinas foi, portanto, despertar o interesse e mobilizar os professores
para se aprofundarem posteriormente nos estudos e práticas necessários para trabalhar
com o Jogo Akauana em sala de aula. Isso foi realizado mostrando o potencial do jogo
e sua estrutura flexível, que permite trabalhar conteúdos específicos e possibilita a
construção de conhecimentos adaptados a diversas condições. Também procurou-se
trabalhar durante as oficinas com atividades e dinâmicas que pudessem ser incorporadas
imediatamente ao dia a dia dos professores participantes.
O trabalho de mobilização e preparação com os professores para as oficinas
começou antes da Expedição, com a realização de dois encontros online que contaram
com a participação de professores pontos focais de cada município que iriam receber
as oficinas. Cada reunião online teve duração de 01 hora e 30 minutos, nos dias 30 de
outubro e 06 de novembro de 2023. Nessas reuniões foram feitos os primeiros contatos
entre os participantes, com a apresentação geral sobre o jogo, a proposta de programação
para as oficinas e a logística e a infraestrutura necessárias, bem como as atribuições dos
instrutores e dos pontos focais na organização.
As oficinas foram planejadas para terem uma duração de 4 horas, no período da
tarde. Os instrutores disponibilizaram o material de consumo para as atividades (folhas
A2, A4; cartolinas; pincéis, canetas, lápis de cor) e o material didático de apoio (painéis
com o roteiro do jogo; painéis de montagem de jogos; mapa da bacia; listas de presença;
manual de jogadas e de narrativa do jogo).
Os pontos focais dos municípios tiveram a atribuição de disponibilizar a sala com
cadeiras móveis, quadros e espaço para realização de atividades e dinâmicas em grupo
para os participantes inscritos (figura 2).
Figura 2: Sala de aula da oficina em Piranhas-AL
312
Fonte: Acervo ANA, 2023.
As oito oficinas realizadas durante a Expedição tiveram a participação de 213
profissionais da educação, presentes nas seguintes localidades e datas:
•
•
•
•
•
•
•
•
Piranhas-AL, 21/novembro: 11 participantes;
Pão de Açucar-AL, 22/novembro: 39 participantes;
Traipu-AL, 23/novembro: 29 participantes;
São Brás-AL, 24/novembro: 22 participantes;
Propriá-SE, 25/novembro: 23 participantes;
Igreja Nova-AL (distrito de Chinaré), 26/novembro: 26 participantes;
Penedo-AL, 27/novembro: 38 participantes;
Piaçabuçu-AL, 28/novembro: 26 participantes.
A condução das oficinas foi feita pelos dois facilitadores, Fabio Brotto e Luís Mello,
que se revezavam na condução e no apoio às atividades.
Em todas as oficinas, foram trabalhadas atividades e dinâmicas seguindo-se a
sequência básica da Pedagogia da Cooperação e propiciando-se a vivência de, pelo
menos, quatro jogadas do Akauana (figura 3).
313
Figura 3: Mapa do jogo.
Fonte: Acervo ANA, 2023.
A diversificação de atividades e jogadas realizadas em cada uma das 08 oficinas,
evidenciaram a flexibilidade e adaptabilidade do jogo, considerando as características
de cada turma, o tempo disponível para as oficinas e os tempos que os grupos levavam
para realizar as atividades. A programação geral das oficinas seguiu, portanto, o seguinte
roteiro básico:
1.
Acolhimento e abertura: Receberam as boas-vindas e acessaram uma breve
visão geral do jogo e da oficina, seus princípios e objetivos. E se integraram como uma
grande e única comunidade de aprendizagem colaborativa se preparando para adentrar
na aventura do Akauana. Exercitaram a Competência Colaborativa do Saber Conectar
(figura4).
Figura 4: Acolhimento e abertura em Pão de Açúcar-AL.
314
Fonte: Acervo ANA, 2023.
2.
Formação das equipes: Reconheceram nome e características individuais de cada
participante (os “superpoderes” dos integrantes) para então, reunidos em cada time,
descobriram o Super Poder Coletivo (qualidade, virtude, competência coletiva) e, sem
seguida, apresentaram seus respectivos “gritos de garra” (isso mesmo, ao invés de gritos
de guerra). Exercitaram a Competência Colaborativa do Saber Cuidar (figura 5).
Figura 5: Super poder coletivo em Penedo-AL.
315
3.
Compartilhar perguntas-quentes: Conheceram, compartilharam e registraram
suas dúvidas, perguntas, curiosidades e inquietações sobre o Cuidado e Regeneração
das Águas de suas respectivas bacias, sua região, sua atuação enquanto profissional,
cidadão, membro da comunidade em relação ao meio ambiente e às águas. Trabalhando
em equipes, perceberam como suas dúvidas e inquietações se refletiam no restante do
grupo. Exercitaram a Competência Colaborativa do Saber Compartilhar (figura 6).
Figura 6: Compartilhando e registrando dúvidas na oficina em Piranhas-AL.
Fonte: Acervo ANA, 2023.
4.
Fortalecer alianças e parcerias: Superaram um grande desafio coletivo, ativando
ainda mais o espírito de equipe e de colaboração para solucionarem problemas, unindo
todos os times para que todo mundo possa ganhar junto, percebendo que a resposta
está além do indivíduo, na coletividade. Exercitaram a Competência Colaborativa do
Saber Confiar (figura 7).
Figura 7: Trabalhando juntos para a resolução de problemas na oficina de Propriá-SE.
Fonte: Acervo ANA, 2023.
316
5.
Reunir Soluções Como-Uns: Elaboraram e registraram respostas e soluções em
grupo para as perguntas e inquietações feitas anteriormente. Retomando as perguntas e
inquietações anteriores, conseguiram propor respostas e soluções coletivas, registrandoas em desenhos, vídeos e fotos. Exercitaram a Competência Colaborativa do Saber Cocriar (figura 8).
Figura 8: propondo respostas e soluções em São Brás-AL.
Fonte: Acervo ANA, 2023.
6.
Realizar Projetos de Cooperação: Olharam para o futuro e desenharam seus Mínimos
Passos Elegantes para implementarem as Soluções Cocriadas na jogada anterior para
manter viva a chama da cooperação no cuidado e regeneração das águas no cotidiano
das Escolas. A partir das soluções, identificaram como começar a agir. Exercitaram a
Competência Colaborativa do Saber Cultivar (figura 9).
Figura 9: Apresentação do Mínimo Passo Elegante, em Chinaré (Igreja Nova-AL).
Fonte: Acervo ANA, 2023.
317
7.
Celebrar o VenSer: Reconheceram os aprendizados, inspirações e ensinamentos
propiciados pela experiência Akauana e teceram uma rede de relacionamentos
cooperativos para apoio mútuo e continuarem compartilhando suas descobertas.
Exercitaram a Competência Colaborativa do Saber Celebrar (figura 10).
Figura 10: Olhando para o futuro ao final da oficina em São Brás-AL.
Fonte: Acervo ANA, 2023.
Em todas as oficinas leitura da narrativa do jogo foi o fio condutor entre as atividades
desenvolvidas pelo grupo (figura 11). A narrativa e todas as jogadas do Akauana, bem
como, o Manual de Orientação Docente, estão disponíveis no site da biblioteca ANA,
com o título da publicação “Akauana: um jogo de conexão com as águas” (ANA, 2023).
Figura 11: A narrativa serve como fio condutor para o jogo (Propriá-SE).
Fonte: Acervo ANA, 2023.
318
Para registro e divulgação, em todas as oficinas foram feitos vídeos e fotos dos
grupos e atividades (Imagem 12). Com exceção da oficina de Piranhas, em todas as outras
oficinas os times registraram em vídeos as respostas e soluções coletivas para as suas
respectivas perguntas quentes. Os participantes de Piranhas registraram suas respostas
e soluções em textos e desenhos.
Figura 12: Final da oficina em Piaçabuçu-AL.
Fonte: Acervo ANA, 2023.
Desde as primeiras reuniões online com os pontos focais, foi criado um grupo no
Whatsapp para os participantes do Jogo Akauana na Expedição. A medida em que as
oficinas foram sendo realizadas, seus participantes foram sendo convidados a participar
do grupo e compartilhar vídeos, fotos, e impressões sobre a experiência. Esse grupo se
mantém ativo trocando experiências para manter viva a chama do Akauana nas escolas.
Todas as pessoas que assinaram a lista de presença receberam certificados
de participação na oficina e uma cópia de cada uma das publicações sobre o jogo:
“Akauana: um jogo de conexão com as águas” e “Akauana: um jogo de conexão com
as águas – manual para docentes” (ANA, 2023). A lista de presença também notifica a
responsabilidade da ANA na proteção dos dados pessoais ali registrados e autoriza o
uso de vídeos e imagens das oficinas para divulgação do Jogo Akauana.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As oficinas do Jogo Akauana realizadas durante a VI Expedição retratam a imensa
riqueza cultural das comunidades do Baixo Rio São Francisco. E, mesmo considerando
diferentes níveis de mobilização e envolvimento com a Expedição, destaca-se sempre a
preocupação com o Rio São Francisco e a vontade de transformar práticas destrutivas
do passado, mesmo quando as soluções ainda não são claras. O que se viu, entretanto, ao
final de cada oficina, é a percepção de que ao se pensar junto, por mais desafiador que
isso seja, os caminhos ficam mais definidos. O Rio São Francisco surgiu sempre como o
elemento de integração e mobilização de todas as comunidades onde foram realizadas
as oficinas
A ANA tem planejadas atividades para continuar apoiando esse processo de
reflexão e mudanças de práticas nas comunidades do Baixo São Francisco. A partir da
mobilização inicial das oficinas, serão realizadas atividades para continuar a formação
sobre o Jogo Akauana ainda em 2024.
319
A continuidade dos trabalhos envolvendo os participantes das oficinas realizadas
durante a Expedição faz parte do esforço da ANA para implantar o Jogo Akauana em
escolas de diversas regiões do país, em parceria com comitês de bacia hidrográfica e
secretarias estaduais de educação.
Durante o Jogo, os participantes vão, à medida que superam os desafios das jogadas,
remontando a “Cuia das Águas dos Sonhos” (Imagem 13), que na narrativa representa o
resgate de nossa capacidade de pensar e agir de forma cooperativa para a regeneração
de nossas águas. O Akauana é, portanto, uma Jornada de busca para descobrir e juntar as
peças quebradas, que foram separadas e perdidas. Em cada uma das oficinas realizadas
durante a Expedição, os grupos terminaram os trabalhos orgulhosos por ver a Cuia das
Águas dos Sonhos novamente inteira. Terminaram uma Jornada e estão prontos para a
próxima. Nós da ANA e do Projeto Cooperação esperamos poder continuar participando
dessas Jornadas.
Figura 13: a “Cuia das Águas dos Sonhos” sendo recuperada.
Fonte: Acervo ANA, 2023.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Akauana: um jogo de
conexão com as águas. Brasília, ANA, 2023, 133 p., il.
BRASIL. ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Akauana: um jogo de
conexão com as águas – orientações para docentes. Brasília, ANA, 2023, 105 p., il.
BROTTO, Fábio Otuzi e Comum-Unidade de Co-autorias. Pedagogia da Cooperação: por
um mundo onde todas as pessoas possam VenSer. Rio de Janeiro, Bambual Editora, 2020.
BROTTO, Fábio Otuzi. Jogos Cooperativos: o jogo e o esporte como um exercício de
com-vivência. São Paulo, Palas Athena, 2013.
EUGÊNIO, Thiago. Aula em jogo: descomplicando a gamificação para educadores. São
Paulo, Évora, 2020.
320
MATERIAIS PARA IMPRESSÃO:
Os materiais de apoio às jogadas estão disponíveis em formato digital no repositório
de objetos educacionais (biblioteca virtual) da ANA, na pasta do jogo pedagógico
Akauana. Esses materiais são apresentados em diferentes formatos e tamanhos e
precisarão ser impressos para compor o mural.
O link para pesquisar na biblioteca virtual: https://biblioteca.ana.gov.br/sophia_web/
ANEXOS
Tabela 1: Programação base aplicada com adaptações em cada localidade.
Fonte: Autores, 2024.
321
Tabela 2: As sete fases da pedagogia da cooperação (Brotto 2020)
Fonte: Autores, 2024.
322
20. PARTICIPAÇÃO DA SECRETARIA DE ESTADO DO MEIO
AMBIENTE E DOS RECURSOS HÍDRICOS (SEMARH-AL)
Área de conhecimento: Educação Ambiental.
Anusk da Silva Oliveira 1
Bárbara Alves Batista1
Cataria Soares de Gusmão Verçosa1
Cláudia Silva de Almeida1
Fernanda Liz Lima de Araújo1
Marcílio Ferreira de Melo Neto1
INTRODUÇÃO
A Educação Ambiental é definida como abordagens, ferramentas e programas que
desenvolvem e apoiam de forma interdisciplinar ações, valores, consciência, conhecimento
e habilidades que preparam cidadãos em prol da conservação ambiental, redução dos
danos ambientais decorrentes de atividades antrópicas, utilização sustentável dos
recursos naturais e melhor qualidade de vida para as futuras gerações (Ardoin; Bowers;
Gaillard, 2020).
Para maior efetividade das intervenções e resultados obtidos, faz-se necessária
a participação ativa e integração entre o Estado, através da promoção e execução de
políticas públicas, Instituições de Ensino, através do aporte técnico-científico promovido,
e conscientização da comunidade civil (população). Em uma revisão realizada por Lelis
e Marques (2021), a qual buscou analisar a agenda de Políticas Públicas da Educação
Ambiental no Brasil, foi concluído que esta encontra-se em constantes transformações
e que propicia robusticidade para o processo de sensibilização e conscientização nas
relações que emergem entre homem, sociedade e natureza.
Em 2018, com o objetivo da promoção e aprimoramento da conscientização
ambiental, conhecimento e pesquisa, surge a maior expedição científica nacional, a
Expedição Científica do Baixo São Francisco, a qual tem como instituição coordenadora
a Universidade Federal de Alagoas e em 2023 teve sua sexta edição. O evento percorre
diversos municípios alagoanos e sergipanos banhados pelo Rio São Francisco e traz
temáticas que abordam os mais diversos assuntos das ciências biológicas, saúde, geografia
e carreira militar. Vale mencionar que além das palestras, jogos e oficinas ofertadas nas
escolas pelas instituições participantes, serviços de saúde (ex.: atendimento médico e
odontológico), coleta de dados sociodemográficos e amostras biológicas também são
realizados.
Como é de notório conhecimento público, a promoção da educação em Meio
Ambiente, Recursos Hídricos e Prevenção de Desastres Naturais fazem parte do rol de
temáticas inerentes à Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos
(SEMARH-AL), tornando assim sua participação indispensável no evento.
1
Secretaria do Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Alagoas
(SEMARH-AL). Av. General Luiz França de Albuquerque, s/n, Jacarecica, Maceió - AL.
323
OBJETIVOS
OBJETIVO GERAL
Realizar atividades educativas em Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Prevenção
de Desastres Naturais em escolas dos municípios de Alagoas (Piranhas, Pão de Açúcar,
Traipu, São Brás, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu) e Sergipe (Propiá).
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Realizar oficinas de pinturas e colagem com materiais recicláveis;
- Estimular o desenvolvimento cognitivo através do jogo da memória e trilha ecológica
em lona;
- Ministrar palestra abordando os principais mecanismos de degradação dos recursos
hídricos, sistema de tratamento e uso sustentável dos recursos hídricos;
- Realizar oficina de montagem e funcionamento de um sistema de filtração simples
(protótipo) utilizando materiais reciclados;
- Apresentar o funcionamento da Sala de Alerta, como são geradas as climáticas para a
população (ex.: previsão do tempo, dados de precipitação, temperatura, etc) e como se
proteger de eventos climáticos críticos.
MATERIAIS E MÉTODOS
LOCAIS DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS
As atividades em Educação Ambiental da SEMARH foram desenvolvidas nos
seguintes municípios conforme tabela abaixo:
Tabela 1: Municípios contemplados, data, local e turno da realização das atividades
expedicionárias.
Fonte: Autores, 2024.
324
ATIVIDADES DA SUPERINTENDÊNCIA DE MEIO AMBIENTE (SMA)
Para realização das atividades da SMA foram utilizados: (1) materiais recicláveis e/
ou sustentáveis (ex.: garrafas pet, CDs, folhas e sementes) para a produção de pinturas
e colagens que abordassem temas como conservação ambiental, recursos hídricos e
descarte correto de resíduos sólidos; (2) trilha ecológica em lona (jogo), a qual possibilita
argumentos e reflexões englobando conhecimentos e curiosidades sobre meio ambiente,
ecossistemas, desenvolvimento sustentável, gerenciamento de resíduos, economia
circular, geografia e história local; e (3) jogo da memória com espécies da fauna local em
riscos de extinção.
ATIVIDADES DA SUPERINTENDÊNCIA DE RECURSOS HÍDRICOS (SRH)
As atividades da SRH foram divididas em duas etapas. Na primeira etapa, foi
ministrada palestra abordando conceitos gerais acerca dos recursos hídricos, principais
causas de degradação, tipos de poluentes, sistema básico de filtração, uso racional da
água e finalização com um quiz para fixação do conteúdo. Já na segunda etapa foram
utilizados materiais recicláveis (garrafa pet) e naturais (ex.: algodão e areia) para realizar
oficina de montagem de um filtro simples (protótipo) com o objetivo de avaliar a
eficiências do sistema.
ATIVIDADES DA SUPERINTENDÊNCIA DE PREVENÇÃO DE DESASTRES NATURAIS
(SPDEN)
Para a atividade expositiva da SPDEN foram utilizados pluviômetro convencional
e digital (incluindo placa solar acoplada), dos quais foram explicadas suas diferenças
e mídia digital e impressa com informações sobre a Sala de Alerta, eventos climáticos
críticos e prevenção de desastres.
RESULTADOS
Um total de 1.150 alunos provenientes de 25 escolas participaram das atividades da
Expedição (Figura 1). Foram atendidos 76 alunos distribuídos em 4 escolas do município
de Piranhas, 67 alunos distribuídos em 3 escolas do município de Pão de Açúcar, 192
alunos distribuídos em 2 escolas do município de Traipu, 212 alunos distribuídos em 3
escolas do município de São Brás, 256 alunos distribuídos em 5 escolas do município
de Propiá, 50 alunos distribuídos em 1 escolas do município de Igreja Nova, 200 alunos
distribuídos em 4 escolas do município de Penedo e 97 alunos distribuídos em 3 escolas
do município de Piaçabuçu.
Figura 1: Número total de alunos atendidos por municípios.
Fonte: Autores, 2024.
325
Figura 2: Atividades da SMA. (a) jogo da memória; (b) trilha ecológica; e (c) oficina de
pintura e colagem.
Fonte: Autores, 2024.
Figura 3: Atividades da SRH. (a) palestra sobre conscientização e manejo dos recursos
hídricos; e (b) oficina para produzir filtro (protótipo).
Fonte: Autores, 2024.
Figura 4: Atividade expositiva da SPDEN.
Fonte: Autores, 2024.
326
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mediante ao exposto, todos os objetivos foram atingidos, valendo mencionar que
a SEMARH foi um dos grandes destaques nas atividades de Educação Ambiental desta
edição, sendo o órgão com maior número de atividades ofertadas. Entretanto algumas
melhorias para as próximas edições são cruciais para melhorar o desempenho tanto
dos profissionais que colaboram quanto dos alunos, como a organização e condução de
grupos de alunos para cada atividade, pois algumas “ilhas” ficavam sobrecarregadas e
outras livres, disponibilidade de água gelada e umidificadores em todos os municípios,
bem como a disponibilização de todo material previamente solicitado a ser usado por
cada instituição.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARDOIN, N. M.; BOWERS, A. W.; GAILLARD, E. Environmental education outcomes for
conservation: A systematic review. Biological Conservation, v. 241, p. 108224, 2020.
LELIS, D. A. de J.; MARQUES, R. Políticas Públicas de Educação Ambiental no Brasil:
um panorama a partir de eventos internacionais e nacionais. Research, Society and
Development, v. 10, n. 7, p. e39910716841–e39910716841, 2021.
APÊNDICE
Município de Piranhas
A Escola SCFV com 17 alunos com idades de 09 a 16 anos
Representando a escola a Coordenadora Mari Leide L. Dantas
A Escola Arco Iris com 35 alunos com idades de 09 a 10 anos
Representando a escola as Professoras, Ana Cláudia, Julia, Domila, Dayse e Ângela.
A Escola Don Antônio Brandão com 10 alunos com idades de 12 anos
Representando a escola as Professoras Ana Maria, Anny Karine e Camila.
A Escola Professora Sônia Nunes com 14 alunos com idades de 11 anos
Representando a escola a Professora Ana Luísa Costa.
Município de Pão de Açúcar
A Escola Centro Educacional Opção com 10 alunos com idades de 9 a 11 anos
Representando a escola os Professores Glaudson Bismark Almeida e Andreia Mariana
Santos.
A Escola Ronalço dos Anjos com 22 alunos com idades de 9 a 10 anos
Representando a escola a Coordenadora Valdilene Rocha dos Santos.
A Escola Primeiros Passos com 35 alunos com idades de 9 a 11 anos
Representando a escola a Professora Silvania Pereira Cardoso.
Município de Traipu
A Escola Moreno Brandão com 150 alunos com idades de 12 a 17 anos
Representando a escola a Professora Denismaria Santeiro da Silva.
327
A Escola Agapito Rodrisguês com 42 alunos com idades de 8 a 12 anos
Representando a escola a Professora Wanessa Cristyan de Sousa.
Município de São Brás
A Escola de Educação Básica Deputado José Medeiros com 120 alunos com idades de
10 a 15 anos
Representando a escola a Coordenadora e Diretora Elisangela.
A Escola José Quirino com 57 alunos com idades de 11 a 15 anos
Representando a escola a Coordenadora.
A Escola José Araújo de Carvalho com 35 alunos com idades de 9 a 15 anos
Representando a escola a Vice-Diretora Acácia Lucia Santos.
Município de Propriá
A Escola Pedro de Medeiros com 22 alunos com idades de 11 a 17 anos
Representando a escola a Diretora Neide Vieira.
A Escola Monsenhor José Soares com 29 alunos com idades de 8 a 13 anos
Representando a escola a Diretora Cleide Floreço e a Coordenadora Márcia e Mercia.
A Escola Padre Luiz Henrique com 105 alunos com idades de 12 a 13 anos
Representando a escola a Diretora Celia. Regina Rolemberg.
A Escola Professora Edvanda Mª Teófilo Feitosa com 30 alunos com idades de 10 a 15
anos
Representando a escola a Diretora Teresa Cristina Teles Marques.
A Escola Integral Agrícola Geraldo Sampaio Maia com 70 alunos com idades de 9 a 16
anos
Representando a escola a Coordenadora Mª Gilvania dos Santos Silva.
Município de Igreja Nova (Povoado de Chinaré)
A Escola General Arthur da Costa e Silva com 50 alunos com idades de 6 a 11 anos
Representando a escola a Professora Mônica Freitas.
Município de Penedo
A Escola Nossa Senhora de Fatima com 52 alunos com idades de 10 a 16 anos
Representando a escola a Professora Janecleia Ribeiro.
A Escola Tempo Integral Douglas Aprato Tenorio com 31 alunos com idades de 6 a 11 anos
Representando a escola a Professora Marta Nascimento.
A Escola Rotary com 37 alunos com idades de 6 à 9 anos
Representando a escola a Professora Jamile.
A Escola Tempo Integral Douglas Aprato Tenorio com 80 alunos com idades de 11 a 14
anos
Representando a escola a Professora Iaponira.
328
Município de Piaçabuçu
A Escola Uilsson Ferreira Costa com 45 alunos com idades de 9 a 10 anos
Representando a escola a Professora Misleide Santana.
A Escola Messias com 40 alunos com idades de 6 a 7 anos
Representando a escola a Professora Auxiliar Palina Caetano.
Reforço Escolar com 12 alunos com idades de 05 à 10 anos
Representando o reforço a Professora Julieta Fernandes.
329
21. A POPULARIZAÇÃO E A DEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO DE
CIÊNCIAS ATRAVÉS DO SESC CIÊNCIA DO DISTRITO FEDERAL
NAS EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Educação Ambiental.
Mariana Guimarães de Sousa1
Patrícia J. C. de Souza Martins2
RESUMO
Durante a VI Expedição Científica do Baixo São Francisco que ocorreu de 21 a 30
de novembro de 2023, o Sesc-DF promoveu duas atividades simultâneas, cujo propósito
fundamental foi democratizar o acesso ao conhecimento científico e incentivar o ensino
de ciências de maneira envolvente e acessível para a população. A primeira atividade
foi a oficina da extração do DNA da banana em que foi estruturado um laboratório,
permitindo que os estudantes se familiarizassem com os procedimentos científicos de
maneira interativa e acessível. A segunda atividade, envolveu a exibição de filmes de
curta duração em realidade virtual (RV), que trouxe uma dimensão única e inesquecível
ao ensino de ciências. A expedição percorreu 8 municípios às margens do Rio São
Francisco, Piranhas (AL), Pão de Açúcar (AL), Traipu (AL), São Brás (AL), Própria (SE),
Igreja Nova (AL), Penedo (AL) e Piaçabuçu (AL). Os atendimentos realizados somaram
cerca de 2.232 pessoas que fortaleceram os laços existentes entre a população e a ciência,
promovendo uma compreensão mais ampla e participativa do mundo científico ao nosso
redor.
Palavras-chave: ensino de ciências, laboratório, realidade virtual, tecnologia, conhecimento
científico.
1
2
330
Coordenadora Pedagógica Sala de Ciências do SescDF;
Coordenadora Pedagógica Sesc Oceanário DF.
INTRODUÇÃO
O Serviço Social do Comércio do Distrito Federal (Sesc-DF) tem como missão
promover ações socioeducativas que contribuam para o bem-estar e a qualidade de
vida dos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, de seus familiares e
da comunidade, para uma sociedade democrática. Tem como valores o acolhimento,
integridade, diversidade, excelência, sustentabilidade e inovação (Plano Estratégico Sesc/
DF, 2022-2026). Dentre as diversas atuações educacionais da instituição, a educação
não formal é representada pelo Sesc Ciência que conta com duas salas de ciências, o
oceanário e o planetário.
O Sesc Ciência tem como objetivo tornar a educação científica mais próxima
da população nas áreas de Ciências da Natureza de maneira interdisciplinar, lúdica e
interativa, respeitando os valores culturais e reconhecendo seu potencial científicotecnológico na sociedade. Segundo Chassot (2018¸ p.77), a nossa responsabilidade maior
no ensinar Ciências é procurar que nossos alunos e alunas se transformem, com o ensino
que fazemos, em homens e mulheres mais críticos. Sonhamos que, com o nosso fazer
educação, os estudantes possam torna-se agentes de transformações-para melhor-do
mundo em que vivemos.
Diante desse contexto, trabalhar a educação ambiental na perspectiva dos sujeitos
sociais permite estabelecer uma prática pedagógica contextualizada e crítica, que explicita
os problemas estruturais de nossa sociedade, as causas do baixo padrão qualitativo da
vida que levamos e da utilização do patrimônio natural como uma mercadoria e uma
externalidade em relação a nós (Péres e Gon, 2015). A educação ambiental assume
assim a sua parte no enfrentamento da crise ambiental radicalizando seu compromisso
com mudanças de valores, comportamentos, sentimentos e atitudes, que deve se
realizar junto à totalidade dos habitantes de cada base territorial, de forma permanente,
continuada e para todos (Brasil, 2007).
Atuando na áerea da Educação Ambiental no ano de 2023 na VI Expedição Científica,
o Sesc Ciência lançou-se mão do uso de ferramentas tecnológicas como os óculos
de realidade virtual. Uma vez que ao compreender a cultura digital hoje, como parte
responsável pela reestruturação da sociedade, é notório que ela traz a oportunidade de
conexão, tendo a internet como pano de fundo. Por isso, está relacionada à comunicação
e a conectividade global, ao acesso e a produção de conteúdo de forma rápida e
interconectada. à tecnologia de comunicação na educação ganha destaque no momento
em, paralelamente ao uso na educação (Leal, 2021).
Compreendendo a mediação como algo importante nas aprendizagens, o Sesc Ciência
do Distrito Federal utilizou ferramentas tecnológicas nas atividades desenvolvidas com a
população durante VI Expedição Científica do Baixo São Francisco: extração do DNA da
banana com materiais de laboratório e exibição de vídeos em realidade virtual com uso
dos óculos VR.
DESENVOLVIMENTO
A proposta central da expedição é impulsionar uma nova abordagem participativa
na região, por meio do conhecimento e monitoramento dos principais indicadores
sociais, econômicos e ambientais. O objetivo é sinalizar a importância na qualidade e
segurança alimentar da população, ao mesmo tempo em que se concentra em destacar
a situação do rio, evidenciando seus desafios e propondo ações concretas para reduzir
impactos e preservar a qualidade ambiental. A expedição busca não apenas identificar
problemas, mas também sensibilizar os principais órgãos de fomento e os governantes
sobre a importância de medidas efetivas para enfrentar os desafios enfrentados pelo rio
São Francisco.
331
Dessa forma, cientes das inúmeras formas de aprendizagem, a pedagoga com
formação em Educação Ambiental, Patrícia J. C. de Souza Martins e a bióloga e pedagoga,
Mariana Guimarães de Sousa, atuaram por meio da educação não formal para divulgação
científica voltada à conservação, preservação e conscientização do meio ambiente,
elucidando impactos socioambientais na esfera microssocial de cada local percorrido,
ao longo da expedição, fornecendo meios e conhecimento de maneiras lúdica, prática e
analítica.
I- Oficina: extração do DNA da banana
Os atendimentos oferecidos pelo Sesc Ciência foram marcados por duas atividades
simultâneas, cujo propósito fundamental foi democratizar o acesso ao conhecimento
científico e incentivar o ensino de ciências de maneira envolvente e acessível para a
população (Figura 1).
Figura 1: Atividades desenvolvidas simultaneamente. Exibição de vídeos com os óculos
de realidade virtual e extração do DNA da banana – Piranhas Al.
Fonte: Ascom Expedição, 2023.
A extração do DNA da banana é uma experiência prática que visa não apenas
ensinar sobre genética, mas também proporcionar uma compreensão tangível e lúdica
dos processos biológicos. O espaço dedicado para essa atividade foi estruturado como
um laboratório, permitindo que os estudantes se familiarizassem com os procedimentos
científicos de maneira interativa. Os materiais utilizados foram escolhidos estrategicamente
para serem de fácil acesso, promovendo a ideia de que a ciência pode ser realizada com
recursos simples, como sal, banana, água, álcool, peneira e detergente (Figura 2).
Figura 2: Espaço estruturado como um laboratório para a extração de DNA. Atendimentos
em Penedo e Piaçabuçu Al.
Fonte: Ascom Expedição, 2023.
332
Além disso, a flexibilidade desses materiais permitiu sua substituição por alternativas
mais acessíveis, uma vez que são passíveis de substituição, como o gral com pistilo,
becker, pipetas de pasteur e eppendorf, que podem ser substituídos por plásticos
reutilizáveis, copos de requeijão, conta gotas e tubos de confetes. Essas informações
foram repassadas aos professores, que demonstraram interesse e curiosidade durante o
desenvolvimento das aulas (Figura 3).
Figura 3: Professora participando da oficina junto com a turma. Materiais utilizados para
a extração do DNA. Pão de Açúcar e Piranhas Al.
Fonte: Ascom Expedição, 2023.
Diante desse contexto, reforçamos a ideia de que a ciência pode ser praticada de
forma adaptável e inclusiva. A participação ativa dos estudantes, aliada à possibilidade
de levarem consigo sua própria amostra de DNA, tornou o aprendizado mais envolvente,
prático e visualmente impactante. Assim, cada amostra de DNA levada para casa tornou-se
mais do que um simples resultado de laboratório; representou uma lembrança palpável de
que a ciência, quando compartilhada de maneira acessível e envolvente, pode transformar
não apenas mentes, mas também corações, alimentando uma conscientização profunda
sobre a importância da preservação ambiental (Figura 4).
Figura 4: Amostras de DNA em Eppendorf como lembrança aos participantes da oficina.
Piranhas e Pão de Açúcar Al.
Fonte: Ascom Expedição, 2023.
333
2 - EXIBIÇÃO DE FILMES EM REALIDADE VIRTUAL COM OS ÓCULOS VR
Na segunda atividade, foi realizada a exibição de filmes de curta duração em
realidade virtual (RV) trouxe uma dimensão única e inesquecível ao ensino de ciências.
Ao proporcionar a sensação de estar imerso em ambientes como o oceano, buraco negro,
molécula de DNA e célula, os óculos de RV ofereceram uma experiência educacional que
transcendeu as barreiras físicas da sala de aula (Figura 5).
Figura 5: Exibição de filmes em realidade virtual com óculos RV – Traipu Al.
Fonte: Ascom Expedição, 2023.
Essa abordagem permitiu que os estudantes se aproximassem de espaços muitas
vezes distantes de sua realidade educacional, proporcionando uma compreensão mais
profunda e vívida dos conceitos científicos. As reações de surpresa, espanto, alegria
e encantamento expressadas pelos participantes evidenciaram não apenas o impacto
imediato da experiência, mas também o potencial transformador do ensino de ciências
quando incorpora tecnologias inovadoras (Figura 6).
Figura 6: Participação dos estudantes em Penedo e Traipu Al.
Fonte: Ascom Expedição, 2023.
334
Ao explorar digitalmente ambientes muitas vezes distantes da realidade cotidiana
dos estudantes, a atividade de realidade virtual não apenas transcende as barreiras físicas
da sala de aula, mas também serve como uma ponte entre o aprendizado científico e a
compreensão íntima da importância da preservação ambiental. Ao vivenciar virtualmente
a beleza e complexidade da natureza, os participantes eram instigados a desenvolver uma
empatia mais profunda pelos ecossistemas e, por extensão, uma consciência renovada
sobre a necessidade de proteger e conservar nosso ambiente natural (Figura 7).
Figura 7: Atendimento nos munícipios de Pão de Açúcar e Piaçabuçu Al.
Fonte: Ascom Expedição, 2023.
Consequentemente, ao estimular um maior interesse dos participantes pelos
assuntos vistos, os óculos de realidade virtual auxiliaram de forma essencial a criar uma
visão mais sustentável acerca da educação ambiental. Esse foi objetivo das coordenadoras
Patrícia e Mariana (Figura 8).
Figura 8: Preparação para o primeiro atendimento em Piranhas Al (à esquerda).
Coordenadoras pedagógicas do Sesc Ciências-DF. Mariana (à esquerda) e Patrícia (à
direita).
Fonte: Ascom Expedição, 2023.
335
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os atendimentos realizados na VI Expedição do Baixo São Francisco, somaram
cerca de 2.232 pessoas que fortaleceram os laços existentes entre a população e a
ciência, de modo que, o interesse e acolhimento manifestados durante os atendimentos
destacam a importância de iniciativas educacionais que conectam a pesquisa científica
à vida cotidiana das pessoas, assim, promovendo uma compreensão mais ampla e
participativa do mundo ao nosso redor.
A atmosfera envolvente do laboratório, onde os estudantes puderam explorar os
intrincados processos biológicos de forma prática, transcendeu as fronteiras tradicionais
da sala de aula. A experiência sensorial, desde a textura da banana até o fascinante
processo de extração, não apenas despertou a curiosidade científica, mas também
estabeleceu uma conexão emocional com o ambiente natural. A interatividade dessas
atividades não só tornou o aprendizado mais tangível, mas também plantou as sementes
da consciência ambiental, incentivando os participantes a refletir sobre a intrincada teia
da vida e seu papel crucial na preservação desse equilíbrio.
Ao desmistificar a ciência e demonstrar que os princípios fundamentais podem ser
explorados com materiais simples e acessíveis, a oficina não apenas promoveu a inclusão,
mas também quebrou barreiras socioeconômicas na busca pelo conhecimento. Essa
abordagem inclusiva não apenas capacitou os estudantes a se tornarem protagonistas
de sua própria aprendizagem, mas também gerou um impacto duradouro na forma como
encaram o ambiente ao seu redor.
As atividades práticas no ensino de ciências são essenciais para o desenvolvimento
da aprendizagem e, por meio delas, é possível acompanhar a construção do conhecimento
científico. Outro ponto em destaque é que esse tipo de atividade torna a rotina escolar
mais prazerosa e interativa (Bassoli, 2014). Com as aulas lúdicas, o estudante aprende
brincando e tem a vontade de participar, interagir e contribuir coletivamente para a
construção do conhecimento, ou seja, o aprender fazendo.
Em suma, as oficinas transmitiram conhecimento científico ao mesmo tempo em
que ilustraram a onipresença da ciência, o quão presente ela é na vida de todos nós e
como ela é essencial para compreendermos melhor o ambiente em que vivemos e como
cuidá-lo. Ao tornar o aprendizado mais acessível, prático e emocionante, essas iniciativas
contribuem para formar uma sociedade mais informada, crítica e engajada com o avanço
científico, destacando, assim, a importância crucial da ciência em nossa vida cotidiana e
na construção de um futuro sustentável.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e ao Serviço Social do
Comércio do Distrito Federal (Sesc-DF), que por meio do Sesc Ciência, viabilizaram o
desenvolvimento deste trabalho na V e VI Expedição Científica do Baixo São Francisco.
336
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BASSOLI, Fernanda. Atividades práticas e o ensino-aprendizagem de ciência(s): mitos,
tendências e distorções. Scielo, Brasil, v. 20, n.3, p. 579-593, novembro, 2012. Disponível
em: https://doi.org/10.1590/1516-73132014000300005
CHASSOT, Attico. Alfabetização Científica: questões e desafios para a educação. Rio
Grande do Sul: Editora Unijui, 2018.
LEAL, Géssica Dias. O uso da tecnologia no processo de ensino aprendizagem. 2021. 28
páginas. Pontifícia Universidade Católica de Goiás Pró-Reitoria de Graduação escola de
formação de Professores e Humanidades Curso de Pedagogia - Universidade Católica de
Goiás, Goiânia, 2021.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Departamento de Educação Ambiental. Unesco. Vamos
cuidar do Brasil : conceitos e práticas em educação ambiental na escola. Brasília, 2007a.
PERES, Campanharo Péres; Gon Thaiane Falcão. Educação ambiental em Espaço formal
e Não-Formal: um relato de experiências. 2015. 30 páginas. Departamento de Teorias do
Ensino e Práticas Educacionais Centro de Educação Ciências Biológicas – Universidade
Federal do Espírito Santo, Vitória, 2015.
SESC, et.al Plano Estratégico do Serviço Social do Comércio do Distrito Federal, 2022 –
2026.
337
22. “CULTIVAR ÁGUA, COLHER SERVIÇOS AMBIENTAIS”: EDUCAÇÃO AMBIENTAL HÍDRICA E CLIMÁTICA COM O PÚBLICO DO BAIXO
SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Educação Ambiental.
Ayanna Araújo1
Gabriela Maria Cota dos Santos2
Meraldo Rocha3
Wemenson Rogê Sena Filho4
Ana Carolina Araújo5
RESUMO
O Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) é o órgão executor de políticas
públicas ambientais do estado de Alagoas. Durante a VI Expedição Científica do Baixo
São Francisco, o IMA contribuiu com a linha de educação ambiental sob uma perspectiva
de mudanças climáticas e da importância da promoção do ciclo da água para seu
enfrentamento e para a conservação do rio São Francisco, através do fornecimento
de serviços ambientais com práticas sustentáveis. Nesse sentido, a prática promovida
pelo IMA na VI Expedição foi a de Fossa Jardim, tecnologia social bastante difundida
como “fossas agroecológicas” ou “bacias de evapotranspiração”, cujo uso permite
reaproveitamento de dejetos doméstico, e ainda, possui forte elemento social de mudança
de realidade do saneamento rural por ser facilmente replicada. A participação do IMA
na VI Expedição pôde expandir o território alagoano atendido pelo órgão, fortalecer
os laços poder público-academia e, principalmente, reverberar a educação ambiental
hídrica e climática ao longo do público docente, discente, gestor e trabalhador do Baixo
São Francisco.
Palavras-chave: Educação Ambiental; Ciclo da água; Mudanças Climáticas; Fossas
agroecológicas; Rio São Francisco.
1
Gestora Ambiental, Gerência de Educação Ambiental do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas
(IMA/AL)
2
Agroecóloga, Gerência de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade do IMA/AL
3
Pedagogo, Gerência de Educação Ambiental do IMA/AL
4
Engenheiro Civil, Gerência de Licenciamento do IMA/AL
5
Engenheira Civil, Gerência de Licenciamento do IMA/AL
338
INTRODUÇÃO
O papel do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas na conservação da natureza
O Instituto do Meio Ambiente de Alagoas, IMA, constitui parte do poder público
alagoano, foi criado em 1975 e transformado em autarquia estadual em 1988, sendo o
mais antigo órgão ambiental do Brasil. E no seu propósito de um futuro sustentável
para Alagoas, tem a missão de executar as políticas ambientais para proteger o meio
ambiente e atuar proativamente em temas de interesse da sociedade. Além disso,
busca a observância da legislação ambiental e a conscientização da população frente a
importância do estabelecimento de relações saudáveis e sustentáveis entre ser humanonatureza, como através da manutenção dos ecossistemas naturais alagoanos.
Nesse sentido, o IMA dedica sua estrutura para atender a esses objetivos, como
através da criação de uma série de programas e projetos ambientais. Entre eles, com
o intuito de levar boas práticas ambientais às escolas, está o Programa Cultivar Água,
desenvolvido pelo Instituto do Meio Ambiente do Estado de Alagoas (IMA) em parceria com
Ministério Público Estadual (MPAL), Tribunal de Contas (TCE), Associação dos Membros
dos Tribunais de Contas do Brasil (ATRICON) entre outras instituiçõe, promovendo uma
verdadeira revolução na gestão das águas nas escolas de Alagoas.
O Programa busca promover o “repensar” e o agir sobre o ciclo da água em prédios
públicos, prioritariamente nas escolas, por meio da construção coletiva de uma proposta
pedagógica. Busca também a ampliação dessa reflexão além da comunidade escolar,
visando a mudança de comportamento e a apropriação de metodologias sustentáveis de
uso, reuso e destinação da água em unidades familiares. Uma estratégia para aplicar os
objetivos do Programa é através da implementação de Fossas Jardim.
Fossas Jardim, alternativas sustentáveis para o esgotamento rural
As diferentes denominações para fossas não convencionais que usam a lógica
do reaproveitamento de dejetos através da fermentação anaeróbica, ascensão hídrica
(capilaridade) e evapotranspiração por espécies vegetais, se dão em virtude de
diferentes propostas pedagógicas. A escolha pelo termo “Fossas Jardim” ao invés de
“fossas agroecológicas” ou “bacias de evapotranspiração”, se dá pelo estímulo a uma
maior aproximação do público com o ambiente de fossas, que geralmente é um local
da propriedade do qual as pessoas tendem a manter distância e repulsa. Já o “jardim”,
possui o potencial de despertar a curiosidade e o cuidado.
Dito isso, a Fossa Jardim é um sistema inovador de tratamento e reaproveitamento
de esgoto proveniente do vaso sanitário. Esse sistema conta com ligações que conectam
o vaso à fossa jardim, substituindo a tradicional tampa de cimento por uma camada de
terra e plantas.
Ao adotar a Fossa Jardim, uma abordagem sustentável é aplicada ao tratamento
do esgoto doméstico. Onde o esgoto é direcionado para a fossa, ocorrendo um processo
natural de filtragem e tratamento. As camadas de metralha, brita, terra e plantas presentes
sobre a fossa desempenham um papel crucial, atuando como agentes biológicos que
ajudam na purificação e decomposição dos resíduos.
As plantas desempenham um papel importante na Fossa Jardim, pois suas raízes
absorvem os nutrientes presentes no esgoto, auxiliando na sua decomposição e filtragem.
Além disso, o solo e as plantas agem como um filtro natural, retendo partículas sólidas e
reduzindo a carga orgânica presente no esgoto.
Com a Fossa Jardim, é possível obter benefícios ambientais significativos.
Através do tratamento e reaproveitamento do esgoto, é reduzido o impacto negativo
no meio ambiente, contribuindo para a preservação dos recursos hídricos e evitando a
contaminação do solo e das águas subterrâneas. Além disso, a Fossa Jardim proporciona
339
um aspecto estético agradável, transformando uma estrutura usualmente associada a
odores desagradáveis em um ambiente com plantas que contribuem para a melhoria do
paisagismo.
A Fossa Jardim torna-se um espaço pedagógico na estratégia de estimular a
reflexão do ciclo da água, a responsabilidade e participação de cada um de nós no ciclo,
principalmente na devolução da água usada para o ciclo hidrológico. O Cultivar Água
desenvolve por meio de oficinas e momentos formativos, junto a comunidade escolar, a
construção de conhecimentos e a possibilidade da mudança comportamental. O espaço
da Fossa Jardim tem também a pretensão de ser um laboratório para interfaces com as
diversa disciplinas da grade curricular e um espaço de transferência de tecnologia para
a comunidade em geral, ampliando as contribuições a saúde pública colaborando na
transmissão das doenças de veiculação hídricas e a diminuição das parasitoses intestinais
e mortalidade infantil.
Educação ambiental e temas urgentes: mudanças climáticas e a importância da
conservação do ciclo hidrológico
Além do cenário atual sobre a escassez de sistemas de esgotamento no ambiente
rural, toma corpo mais uma problemática urgente para as populações rurais: as mudanças
climáticas.
A inclusão desta temática em ações de educação ambiental se faz relevante à
medida em que se intensifica a ocorrência e a agressividade de eventos climáticos
extremos. Tal conjuntura estimula ações de adaptação climática para as gerações atuais,
que já têm passado a vivenciar as alterações no clima, não sendo mais um assunto a ser
considerado e tratado para o futuro.
Através de acordo de cooperação técnica e de estudos de rotina, o IMA através da
Gerência de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade, se utiliza de dados de mudanças
climáticas para elaboração e execução de políticas públicas do gênero. Assim, tem-se
na Figura 1 um resumo dos riscos de impacto presentes e futuros para cada município
visitado pela VI Expedição Científica do Baixo São Francisco.
Figura 1: Baixo São Francisco em dados de mudanças climáticas
Fonte: Autores (2023) a partir de informações do SEEG (Sistema de Estimativa de Emissões
de Gases do Efeito Estufa) - coluna de % de emissões -, do AdaptaBrasil (2023) - colunas
de risco de impacto - e do ClimaAdapt (2023) - coluna de média de vulnerabilidade.
340
Através destes dados, se percebe como cada município tende a apresentar
diferentes cenários de risco climático, a depender do clima da região, da infraestrutura e
das políticas públicas locais disponíveis para assessorar as cidades diante de situações
como secas ou inundações. Assim, se faz importante a publicidade desses dados
diretamente à população.
Todavia, o processo de ansiedade climática, que tende a afetar os grupos sociais
que menos têm condições de tomar decisão para lidar com o problema (como crianças
e adolescentes, bem como comunidades tradicionais e periféricas), não pode ser um dos
fins da educação ambiental climática, sendo importante apresentar, junto ao problema,
alternativas para enfrentamento e adaptação aos riscos elencados.
Dessa maneira, tem-se a abordagem da promoção do ciclo da água como tal
alternativa, cuja materialização se dá através da implementação de Fossas Jardim,
que possuem potencial de provimento de serviço ambiental a partir do momento em
que evitam que dejetos domésticos sejam despejados diretamente ou indiretamente através do despejo no solo, que podem percolar em direção a corpos hídricos - no rio
São Francisco. Esse potencial se fortalece sob a necessidade crônica de saneamento
básico dos municípios ribeirinhos (Amorim et al., 2022).
Nesse sentido, diante da conjuntura de temáticas urgentes e de alternativas
práticas para tratar destas, no início de 2023 houve tratativas entre o IMA e a UFAL,
que se firmaram em parceria para construção de Fossas Jardim nos municípios da IV
Expedição. Assim, a primeira participação do IMA na Expedição se formou através da
ação intergerencial entre a Gerência de Educação Ambiental (GEDAM) e a Gerência de
Mudanças Climáticas e Sustentabilidade (GECLIM). Dessa maneira, a constituir o objetivo
da abordagem do IMA na VI Expedição, foi possível aproximar o público do Baixo São
Francisco das questões ambientais hídricas e climáticas.
METODOLOGIA
As atividades do IMA na VI Expedição se dividem em 3 períodos, conforme o Quadro
1, de maneira a garantir a perpetuação da relação entre o Instituto e as comunidades
beneficiadas.
Quadro 1: Atividades gerenciadas pelo IMA como contribuição à VI Expedição Científica
do Baixo São Francisco (2023).
341
MOMENTOS FORMATIVOS
Os momentos formativos com corpo docente municipal e com gestores locais
seguiram com a seguinte programação:
a)
Distribuição de questionário (pré-teste) para avaliar o conhecimento prévio
dos docentes e da gestão a respeito do ciclo hidrológico, Fossas Jardim e mudanças
climáticas;
b)
Apresentação de slides para aprofundamento do conteúdo sobre mudanças
climáticas, ciclo hidrológico e como as Fossas Jardim atuam para contribuir com a
conservação do rio São Francisco;
c)
Oficina lúdica de construção de Fossas Jardim com materiais reciclados.
d)
Distribuição de questionário (pós-teste) para avaliar o incremento de informações
pelos participantes após apresentações e práticas.
IMPLEMENTAÇÃO DE FOSSAS JARDIM
Foram mapeadas uma escola - através da indicação da gestão municipal - e uma
unidade produtiva familiar (UPF) - através da abertura de um edital pelo IMA - em
cada município beneficiado pela Expedição (Figura 2) para receber uma Fossa Jardim
conforme dimensões na Figura 3.
Figura 2: Mapeamento das Fossas Jardim implementadas pelo IMA na VI Expedição do
Baixo São Francisco.
Fonte: Autores, 2023.
342
Figura 3: Dimensões da Fossa Jardim implementada pelo IMA na VI Expedição do Baixo
São Francisco.
Fonte: Autores, 2023.
TENDA IMA “CULTIVAR ÁGUA, COLHER SERVIÇOS AMBIENTAIS”
Nos 8 municípios visitados pela VI Expedição (incluso o município sergipano de
Propriá), o IMA montou uma Tenda com o tema “Cultivar água, colher serviços ambientais”,
a fim de estabelecer uma ponte entre a urgência das mudanças climáticas e a importância
do ciclo da água para o seu combate.
Dessa maneira, sob a tenda foram expostos 3 materiais (Figura 4):
a)
Banner 1: “O que são mudanças climáticas?” - com a apresentação do mapa do
Baixo São Francisco e sua divisão climática, segundo a classificação de Koppen (Alvares
et al., 2013), em clima semiárido quente (Piranhas e Pão de Açúcar) e clima tropical
quente e úmido (Traipu, São Brás, Propriá, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu). E ainda, a
Figura 1, como forma de expor os níveis de risco de impacto para seca e para inundações/
alagamentos/enxurradas que cada cidade sofre atualmente, bem como seus riscos
projetados para o futuro.
b)
Maquete física da Fossa Jardim;
c)
Maquete digital da Fossa Jardim;
d)
Banner 2: “Programa Cultivar Água”. Com uma breve apresentação do programa
Cultivar Água.
Figura 4: Materiais expostos na Tenda do IMA “Cultivar água, colher serviços ambientais”.
343
Fonte: Autores, 2023.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Atividades desenvolvidas
Foram realizados 3 momentos formativos com docentes e gestão municipal,
em Penedo, Piaçabuçu e Pão de Açúcar (Figura 5) em virtude da disponibilidade dos
participantes e da equipe técnica do IMA. Os resultados dos questionários (comparação
pré-teste e pós-teste) ainda estão sob análise, uma vez avaliados, será possível identificar
se os momentos formativos puderam incorporar informações ao conhecimento prévio
dos participantes. Além disso, se observou a percepção social e a melhor compreensão
do funcionamento da Fossa Jardim a partir do momento prático de oficina, o que
fortalece a importância de: a) usar mais de uma estratégia de educação no processo de
ensino-aprendizagem; b) incluir a função social que tecnologias (também sociais) feito
as Fossas Jardim podem ter (Interaminense, 2019; Campos, 2023).
Figura 5: Momento formativo em Penedo, Alagoas.
Fonte: Autores, 2023.
344
Ao todo, todos os municípios alagoanos contemplados pela VI Expedição receberam
visitas técnicas do IMA para implementação das Fossas Jardim. Destes, seis fossas foram
iniciadas (2 em Penedo , 2 em Piaçabuçu, 1 em Igreja Nova e 1 em Pão de Açúcar), sendo
três concluídas (2 em Penedo - na Escola Municipal Santo Antônio e em uma UPF da
Comunidade Quilombola Tabuleiro dos Negros - e 1 em Igreja Nova - na Associação de
Agricultores do Povoado Cajueiro) - Figura 6.
Durante a Expedição, todas as 8 cidades receberam a exposição da Tenda do
IMA, com um público que variou de crianças do ensino infantil, fundamental e médio
a agricultores familiares da região. Essa diversidade do público receptor demonstra a
importância do conteúdo abordado, desde uma perspectiva do interesse das crianças ao
querer saber para onde vão os dejetos de casa após a descarga, até uma perspectiva de
inovação e replicabilidade percebida pelos agricultores familiares.
Figura 6: Registros de visitas técnicas e inauguração de Fossa Jardim.
Fonte: Autores, 2023.
Além disso, a maquete física mostra a implementação e a funcionalidade do
sistema de tratamento do esgoto proveniente dos vasos sanitários. A ideia foi mostrar de
forma lúdica a importância deste sistema e como ele pode contribuir para devolver água
limpa para o ciclo hidrológico. A apresentação da maquete 3D mostrou-se satisfatória,
proporcionando a visualização completa e sob várias perspectivas da área de construção
e sua funcionalidade. As maquetes 3D produzidas durante a explanação trouxeram o
caráter de inovação às formas de visualização das informações temáticas e de feições
mais relevantes ao sistema de tratamento “Fossa Jardim”, contribuindo assim para o
desenvolvimento de práticas que incorporem a visualização à compreensão do processo.
Elaboração de cartilha
Em parceria com o docente da Universidade Federal de Alagoas, Eduardo Lucena,
e com ilustrações de Adnael, foi elaborada uma cartilha instrutivo-educativa (Figura 7)
sobre os princípios e métodos relacionados à implementação de fossas agroecológicas.
Incorporada à temática do ciclo hidrológico, a cartilha será distribuída em todos os
municípios contemplados pela VI Expedição Científica do Baixo São Francisco.
Figura 7: Registros de visitas técnicas e inauguração de Fossa Jardim.
345
Fonte: Autores, 2024.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base na primeira participação do IMA na Expedição Científica do Baixo
São Francisco, se observa o forte potencial existente no estabelecimento de laços
entre entidades de ensino (como a UFAL, e a própria Expedição) e a gestão pública
na promoção de atividades educativas e de políticas públicas. Nestas oportunidades, o
IMA pôde ampliar seu território de atuação através do vínculo expedicionário, e, assim,
espera-se que esse potencial possa se manter no período pós-Expedição.
Além disso, foi possível perceber a boa recepção do conteúdo e da abordagem
de educação ambiental climática e hídrica, tanto pelo corpo docente, quanto pelos/
as alunos/as visitantes da Tenda, quanto pela população rural de maneira geral. O que
reforça a importância de se tratar temáticas urgentes com cuidado e em busca das
melhores ferramentas de fixação de informações no processo de ensino-aprendizagem.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos às prefeituras dos municípios visitados pela VI Expedição pela
parceria firmada para a implementação das Fossas Jardim com recursos oriundos do
IMA.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVARES, Clayton Alcarde et al. Köppen’s climate classification map for Brazil.
Meteorologische Zeitschrift, v. 22, n. 6, p. 711-728, 2013.
AMORIM, E.L.C. et al. Capítulo 22 - Fossas agroecológicas para o tratamento de efluentes
sanitários em escolas municipais do Baixo São Francisco, em “O Baixo São Francisco:
características ambientais e sociais” (Org.) Emerson Carlos Soares, José Vieira Silva e
Themis Jesus Silva. Vol. 2. ISBN: 978-65-5624-107-4. 2022.
346
CAMPOS, Fernando Rossetto Gallego; SEVERO, Francieli Zeferino. Educação CTS:
reflexões acerca das percepções de docentes do ensino médio. Alexandria: Revista de
Educação em Ciência e Tecnologia, v. 16, n. 1, p. 3-30, 2023.
INTERAMINENSE, Bruna de Kássia Santana. A Importância das aulas práticas no ensino
da Biologia: Uma Metodologia Interativa/The Importance of practical lessons in the
teaching of Biology: An Interactive Methodology. ID on line. Revista de psicologia, v. 13,
n. 45, p. 342-354, 2019.
347
23. FOSSAS AGROECOLÓGICAS PARA O TRATAMENTO DE
EFLUENTES SANITÁRIOS NO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Engenharias – Engenharia Sanitária.
Eduardo Lucena Cavalcante de Amorim1
RESUMO
Durante o desenvolvimento da VI Expedição Científica do Baixo São Francisco
diversas atividades foram realizadas, dentre elas destaca-se a implantação de fossas
agroecológicas em escolas municipais, em uma comunidade quilombola e em um
povoado para tratamento do esgoto sanitário. Os esgotos gerados de atividades humanas
são normalmente tratados por sistemas convencionais, como as fossas sépticas, que
se instaladas de maneira equivocada podem provocar impactos ambientais e à saúde
humana. Diante do exposto, a utilização de “Fossas Agroecológicas” pode ser uma
alternativa viável para mitigar os impactos ambientais do problema supramencionado.
Nesse sentido foram visitados os municípios de Piranhas-AL, Pão de Açúcar-AL, São Brás
e Penedo para verificação e acompanhamento das fossas agroecológicas construídas
durante a V Expedição Científica em escolas municipais para o tratamento do esgoto
sanitário. Além disso, foram construídas mais duas fossas agroecológicas em uma
comunidade quilombola, quilombo Lages, localizada no povoado de Piau, e no povoado
Entremontes, ambos localizados em Piranhas-AL. Nos dias 09 e 10 de novembro de
2023 foi realizada a gravação de duas matérias para os programas Globo Rural e Gazeta
Rural, visando apresentar a tecnologia social como uma alternativa para solução do
saneamento rural. E fruto de uma parceria com o Instituto de Meio Ambiente de Alagoas
foi confeccionada uma cartilha sobre as fossas agroecológicas e o ciclo hidrológico
para utilização nas ações de educação ambiental nas escolas ribeirinhas. Diante dessas
atividades realizadas durante a expedição, despertou interesse da comunidade em
buscar alternativas ambientais mais sustentáveis, bem como o poder público.
Palavras-chave: tecnologia social, impactos ambientais, resíduos, esgoto sanitário, reuso
de água.
1
348
Professor do Centro de Tecnologia (CTEC) da universidade Federal de Alagoas (UFAL).
INTRODUÇÃO
O presente relatório visa apresentar as ações realizadas no âmbito da VI Expedição
Científica do Rio São Francisco realizada entre 20 de novembro e 01 de dezembro de
2023, especificamente a implantação de fossas agroecológicas para tratamento do
esgoto sanitário em Escolas municipais e comunidades em municípios do baixo São
Francisco, bem como a elaboração de cartilha educativa visando a realização de educação
ambiental.
Os efluentes e resíduos gerados de atividades sanitárias humanas são normalmente
tratados por sistemas convencionais, como as fossas sépticas, que se instaladas de
maneira errada podem provocar impactos ambientes e à saúde humana. O lançamento
de esgoto em córregos e rios é uma das principais causas da degradação de mananciais
de água potável, sendo desejável a pesquisa de formas eficientes de tratamento do
esgoto domiciliar in loco e reuso.
O custo elevado e a falta de mão de obra qualificada para a construção correta
de sistemas convencionais, aliado à falta de infraestrutura em sistemas de esgotamento
sanitário nas zonas rurais dos municípios brasileiros, são fatores que agravam o problema
fora do meio urbano.
A região do baixo São Francisco possui afluentes importantes, a situação dos
domicílios sem tratamento de esgoto se apresenta como uma questão imperativa, pois
o lançamento de efluentes sanitários não tratados diretamente no leito do rio é um dos
principais problemas que a bacia enfrenta.
As fossas agroecológicas são um método simples e econômico de tratamento de
esgotos domésticos, podendo ser adequadas para localidades com períodos críticos
de escassez hídrica e onde a infraestrutura de saneamento é baixa ou inexistente. Essa
técnica integra a construção de Bacias de Evapotranspiração (BET) para o tratamento
de águas escuras e Círculos de Bananeiras (CB) para o tratamento de águas cinzas,
empregando materiais de baixo custo e fácil acesso como entulho, palha, pneus usados,
brita, terra e areia (AMORIM et al., 2022).
Uma das áreas que podem ser beneficiadas com a implantação de fossas
agroecológicas é a Região Hidrográfica do Baixo São Francisco (RBSF), que compreende
o clima tropical quente e úmido (com período de verão sem chuvas) e o clima semiárido
quente (com altas temperaturas, elevada insolação e eventos escassos de precipitação).
Diante da baixa disponibilidade hídrica, a RBSF possui o Rio São Francisco como principal
fonte de recursos hídricos e de subsistência para a população local. Entretanto, fontes
pontuais e difusas de poluição têm afetado a qualidade de suas águas, fato que pode
ser observado pelo aumento significativo de macrófitas no curso do rio (AMORIM et al.,
2022).
Sendo assim, visando diminuir a degradação ambiental decorrente da falta de
saneamento, em 2021 surgiu o projeto de implantação de fossas agroecológicas junto
à IV Expedição Científica do Baixo São Francisco. Na época, foram construídas cinco
fossas em diferentes escolas municipais, localizadas nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Igreja Nova e Penedo. Em 2023, o projeto foi expandido com a inclusão de novas
instituições contempladas e parcerias de trabalho. Deste modo, este capítulo apresenta
as etapas de continuação das atividades e resultados das ações realizadas durante a VI
Expedição Científica.
OBJETIVOS
OBJETIVO GERAL
Evitar o lançamento de esgoto sanitário não tratado em corpos hídricos e
consequentemente a degradação ambiental da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
(BHRSF), a partir da construção de sistemas sustentáveis de tratamento de efluentes
sanitários em escolas municipais e em comunidades na BHRSF.
349
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
•
Construção de Bacias de Evapotranspiração para o tratamento de águas escuras;
•
Construção de Círculos de Bananeira para tratamento de águas cinzas;
•
Realização de capacitação de equipe técnica das prefeituras para construção dos
sistemas de tratamento;
•
Promoção do acesso ao Saneamento Básico (eixo esgotamento sanitário) em áreas
da BHRSF, conforme prevê a Lei do Saneamento (Lei nº 11.445/2007);
•
Tratar os esgotos sanitários provenientes de escolas municipais de municípios
localizados na BHRSF;
•
Evitar a contaminação da água, do solo e do lençol freático;
•
Produção de cartilha educativa sobre as fossas agroecológicas;
•
Realização de ações de educação ambiental em escolas com a finalidade de
difundir a tecnologia de tratamento de esgoto e sensibilização dos impactos causados
do lançamento indevido no Rio São Francisco.
METODOLOGIA
Ações pré-expedição
Antes da realização da VI Expedição Científica do Rio São Francisco foram
realizadas visitas e oficinas em escolas para a construção de fossas agroecológicas. As
comunidades e escolas que foram contemplados com as fossas agroecológicas foram:
Sítio Lages e Entremontes, em Piranhas-AL e Penedo.
Ações durante a expedição
Durante a Expedição foram realizadas ações de educação ambiental, nas
escolas citadas anteriormente, integrada à entrega de novas fossas agroecológicas e
acompanhamento das fossas construídas durante a V Expedição com a finalidade de
emponderar a comunidade escolar do sistema de tratamento de esgoto da escola.
Ações pós-expedição
Após a Expedição às ações de capacitação e acompanhamento da operação e
monitoramento das fossas agroecológicas continuam sendo realizadas. Além disso, o
acompanhamento da conclusão das obras de fossas agroecológicas e mobilização de
outros municípios para construção do sistema de tratamento de esgoto em escolas.
Também foi elaborada uma cartilha, em parceria com o Instituto de Meio Ambiente de
Alagoas (IMA), sobre as fossas agroecológicas e o ciclo hidrológico para utilização nas
ações de educação ambiental.
Abrangência e atividades do projeto
O mapa da Figura 1 mostra a localização das fossas agroecológicas implantadas na
última expedição científica (2023) e aquelas em fase de acompanhamento, construídas
em 2021/22 (Tabela 1). A expansão incluiu mais 4 instituições, situadas nas cidades de
Piranhas (Comunidade Quilombola Sítio Lages e Comunidade Quilombola Entremontes)
e São Brás (Escola Municipal de Educação Básica Dep. José Medeiros e Escola Municipal
Ver. Elpídio Cardoso).
Antes do projeto, algumas escolas possuíam sistemas de fossas convencionais
rudimentares, que eram utilizadas apenas para as águas escuras, com problemas
constantes de transbordamento e afundamento. Outras escolas destinavam as águas
350
cinzas diretamente para o solo. Atualmente, as fossas agroecológicas realizam o
tratamento das águas residuárias de sete escolas públicas, atendendo um total de 2550
estudantes. Além disso, o projeto beneficiou duas comunidades quilombolas, compostas
por aproximadamente 62 famílias, que antes não tinham destinação adequada para o
esgoto gerado.
A Expedição do Rio São Francisco envolve diversas ações de educação ambiental
e outras atividades, como palestras e exposições, em diversos locais do Baixo São
Francisco (Figura 2). A decisão de implantação das fossas agroecológicas em determinada
instituição é motivada pelo envolvimento e interesse da direção, professores ou outros
responsáveis.
Figura 1: Abrangência do projeto de construção das fossas agroecológicas em 2023.
Fonte: Autor, 2024.
351
Tabela 1: Instituições contempladas pelo projeto.
Figura 2: Atividades de educação ambiental e outras ações.
352
Fonte: Autor, 2023.
Outra atividade incluída na VI Expedição foi a Oficina de Ecosabão implantado
na Escola Ronalço dos Anjos em Pão de Açúcar. Essa ação foi desenvolvida visando
promover um uso mais sustentável para o óleo de cozinha utilizado, que poderia ser
descartado de forma inadequada no meio ambiente, contaminando águas e solos. A
Figura 3 mostra os registros da oficina realizada.
Figura 3: Oficina EcoSabão
Fonte: Autor, 2023.
A Associação Brasileira de Normas Técnicas ABNT define o lixo como os “restos
das atividades humanas, considerados pelos geradores como inúteis, indesejáveis ou
descartáveis, podendo-se apresentar no estado sólido, semi-sólido ou líquido, desde que
não seja passível de tratamento convencional.” Desta forma, este representa uma séria
ameaça à vida no planeta por dois motivos fundamentais: sua quantidade e seus perigos
tóxicos. Os óleos vegetais são amplamente e universalmente consumidos para o preparo
de alimentos em residências, estabelecimentos industriais e comerciais de produção de
alimentos.
No entanto, devido ao seu caráter aglutinante, o óleo despejado nos ralos das pias
causa, além de problemas de higiene e mau cheiro, o entupimento de canos de esgoto,
bem como o mau funcionamento das estações de tratamento. Ao atingir córregos e
riachos, o óleo interfere na passagem da luz e dificulta a oxigenação da água. Ao chegar
ao mar, o óleo vegetal sofre decomposição por microrganismos e se transforma em
metano, que retém vinte vezes mais energia que o dióxido de carbono.
Uma alternativa para tentar minimizar o impacto que esse tipo de resíduo causa é
o reaproveitamento dos óleos vegetais utilizados nos processos de fritura. A reciclagem
é uma forma interessante e eficiente de gerir os resíduos.
A produção de sabão artesanal é a maneira mais fácil, rápida e econômica de reciclar
o óleo residual, pois é facilmente degradado por bactérias e tem tempo de permanência
ambiental inferior a um dia. Sua ocorrência em sistemas aquáticos não corresponde a um
problema ambiental.
353
Nesse contexto, foi criado o projeto de extensão a “Oficina Sabão ECOLEGAL”
com o objetivo de minimizar o impacto ambiental, promover a conscientização dos
alunos e da comunidade sobre os benefícios da reciclagem do óleo vegetal usado, bem
como auxiliar em projetos sociais e de geração de renda com a fabricação de sabão em
comunidades carentes.
PREPARAÇÃO PARA A OFICINA
Coleta do óleo de fritura
Para o desenvolvimento da oficina a comunidade realizou a coleta de óleo residual
de fritura no município de Pão de Açúcar.
Estruturação da oficina de capacitação
Visando atingir a população que residisse na região, com implicações econômicas,
sociais e ambientais; a oficina foi realizada com os professores da Escola Municipal
Ronalço dos Anjos e comunidade próxima. Para atingir o objetivo, a oficina foi estruturada
em duas modalidades: teórica e prática. Ao longo da modalidade teórica foi explorada
a poluição, de uma maneira geral, e o impacto da mesma sobre o meio ambiente e a
sociedade. Em seguida, o assunto foi detalhado, buscando-se focar, exclusivamente, na
poluição das águas causada pelo descarte incorreto de óleo de cozinha. Posteriormente,
foi apresentada a receita de sabão e os cuidados que se deve ter durante a produção
e, finalmente, realizado uma análise de custo/benefício dessa receita, indicando a
vantagem econômica de se produzir o sabão e apresentando a possibilidade de venda.
Já a modalidade prática, demonstrou a produção de sabão de uma maneira dinâmica,
ensinando os participantes a fazê-lo com total segurança e garantia de resultados.
Desenvolvimento do material didático
Foi elaborada uma apresentação, em slides, com objetivo apresentar os prejuízos
que o descarte incorreto de óleo usado pode trazer para o meio ambiente e para a
sociedade, os mecanismos químicos básicos que envolvem a produção e ação dos
sabões, fornecer a receita a ser utilizada.
Para tanto, identificou-se uma necessidade de desenvolver um material impresso
semelhante, a cartilha, para ser distribuído entre os participantes das oficinas, de forma
a auxiliar o acompanhamento.
Execução da oficina
A ação foi realizada na “Escola Municipal de Ensino Ronalço dos Anjos” do município
de Pão de Açúcar/AL. Participaram como expositores os coordenadores, colaboradores
e alunos envolvidos no projeto.
Atividades teóricas: educação Ambiental e financeira
A equipe do projeto realizou uma capacitação de educação ambiental com
atividades lúdicas sobre descarte de resíduos sólidos e poluição ambiental. Nesse
contexto, foram apresentadas as alternativas para o descarte correto dos resíduos, em
especial sobre o óleo residual de fritura.
As atividades de educação financeira foram realizadas após a prática da produção
de sabão, na qual foram levantados os custos fixos e variáveis para produção e venda do
sabão em barra.
Aula prática de produção de sabão
A aula prática do sabão em barra e do sabão líquido foi realizada após a aula
teórica. A receita de sabão em barra e do sabão líquido, utilizado pelo projeto, foram
desenvolvidos pelos próprios membros do projeto. As receitas seguiram os passos
354
apresentados na cartilha. Além dos reagentes: água, óleo usado, soda cáustica, essência;
foram utilizados os seguintes utensílios: funil, palha de aço, galão para armazenar o óleo
filtrado, balde plástico, colher de madeira grande, vasilha plástica, luvas, máscaras e
avental.
Primeiramente, foi realizada a filtração do óleo usado, de forma a retirar todas as
impurezas e garantir a qualidade do sabão que será posteriormente produzido. Para isso,
recobriu-se um funil com a palha de aço, constatado como o melhor material para a filtração,
uma vez que possui uma malha fina, com pequenos poros, capaz de proporcionar uma
boa retenção da borra. O óleo foi, então, cuidadosamente vertido no funil e depositado em
um galão higienizado. Após o processo de filtragem é possível iniciar, de fato, a produção
do sabão. No balde plástico foi depositado toda a água. A seguir, a soda cáustica em
escamas, foi adicionada para dissolução desses reagentes. Durante esta etapa observase a liberação de vapor de água com partículas de soda cáustica e calor, assim, para
manter a segurança pessoal foi utilizado os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual),
tai como: luvas, máscara, calça, blusa de manga comprida e calçado fechado. Após toda
dissolução da soda na água, adicionou-se o óleo residual filtrado em pequenas porções,
com agitação constante para garantir a homogeneização adequada do produto. Para
finalizar foram acrescentadas as essências, para neutralizar o cheiro do óleo e inserir
um aroma agradável, conforme a preferência do grupo que estava produzindo o sabão,
ainda sob agitação constante por cerca de quinze minutos, Figura 3. A solução foi vertida
na vasilha plástica para passar pelo processo de branqueamento e secagem, Figura 3. A
avaliação do produto foi realizada após um tempo total de 12 horas.
Dessa forma, a reciclagem de óleo de fritura através da produção de sabão caseiro
além de ser simples, minimiza os impactos ambientais e proporciona uma melhoria
na qualidade de vida das pessoas de comunidades carentes. A oficina foi de extrema
importância no que diz respeito à conscientização ambiental e à motivação das pessoas
da comunidade. A oficina obteve um alcance c total de 40 pessoas, que participaram da
oficina, com uma excelente interação entre os estudantes e coordenadores do projeto de
extensão com os participantes, integrando assim a universidade e a comunidade.
Além das atividades de educação ambiental, o projeto é voltado para a construção
das fossas agroecológicas, formadas por bacias de evapotranspiração e círculos de
bananeiras, está resumido na Figura 4.
Figura 4: Resumo das etapas de construção das fossas agroecológicas.
Fonte: Autor, 2024.
355
Amorim et al. (2022) descrevem as etapas apresentadas de forma mais detalhada
e explicam o funcionamento do processo. Simplificadamente, as águas escuras chegam
na BET pela parte inferior do sistema, passa por um processo chamado de digestão
anaeróbia (onde os microrganismos consomem as substâncias poluentes presentes no
esgoto), e a água tratada percola o sistema de forma ascendente alcançando as raízes
das plantas. No caso do CB, o funcionamento é ainda mais simples, com as águas cinzas
sendo depositadas no fundo do conjunto de galhos secos e palhas.
A Figura 5 mostra algumas etapas da construção das fossas agroecológicas nas
escolas municipais Deputado José Medeiros e Vereador Elpídio Cardoso, em São Brás, e
nas comunidades Quilombolas de Sítio Lages e Entremontes, em Piranhas. Já o estado
atual das fossas agroecológicas construídas em 2021/2022, que foram acompanhadas
durante a sexta expedição, pode ser observado na Figura 6.
Figura 5: Implantação das fossas agroecológicas nas novas instituições contempladas
pelo projeto.
356
Fonte: Autor, 2023.
Figura 6: Acompanhamento das fossas agroecológicas nas primeiras instituições
contempladas pelo projeto.
Fonte: Autor, 2023.
357
RESULTADOS OBTIDOS
As fossas agroecológicas implantadas no Baixo São Francisco têm sido importantes
para minimizar o lançamento inadequado de esgoto no Rio São Francisco e seus afluentes,
contribuindo para a conservação das fontes de recursos hídricos na região.
Para as escolas, os benefícios do projeto incluem a aplicação de uma solução eficiente
para lidar com o esgoto sanitário, que antes trazia problemas de transbordamento e
mau cheiro, chegando a causar eventuais suspensões das aulas. Além disso, as plantas
cultivadas (Figura 7) têm sido incluídas na merenda escolar para alimentação dos
estudantes.
Figura 7: Culturas produzidas na Escola Municipal Frei Damião (Piranhas).
Fonte: Autor, 2023.
Uma cartilha de educação ambiental (Figura 8), ressaltando a importância da
conservação das águas e das fossas agroecológicas na manutenção do meio ambiente,
foi elaborada em parceria com o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA-AL).
Essa cartilha será distribuída, em formato digital e impresso, principalmente para as
comunidades ribeirinhas e para as escolas do Baixo São Francisco.
Os impactos positivos foram noticiados em reportagem veiculada na TV Gazeta
de Alagoas e no programa Globo Rural, da emissora Rede Globo em 2023. A Figura
9 mostra a equipe de reportagem junto com os participantes do projeto e a Figura 10
apresenta alguns dos personagens, componentes das comunidades locais, que são parte
fundamental para o sucesso da iniciativa.
358
Figura 8: Cartilha de educação ambiental sobre as fossas agroecológicas e a conservação
da água.
Fonte: Autor, 2024.
Figura 9: Entrevistas.
Fonte: Autor, 2023.
359
Figura 10: Prints da reportagem veiculada na TV Gazeta de Alagoas e no programa
Globo Rural.
Fonte: Autor, 2023.
CONCLUSÕES
As fossas agroecológicas têm sido uma alternativa viável de tratamento de esgoto
sanitário no Baixo São Francisco, uma região que sofre com a baixa disponibilidade hídrica
e tem seu principal curso d’água ameaçado por distintas pontes de poluição. Deste modo,
as atividades de conscientização ambiental, que inicialmente foram concebidas apenas
nas escolas públicas, têm alcançado novos atores, como as comunidades Quilombolas
locais. Observa-se que o projeto das fossas agroecológicas tem um grande potencial de
expansão, podendo ser levado para as demais cidades do Baixo São Francisco. Por meio
dessa iniciativa, é possível aumentar os índices de saneamento na região e a qualidade
ambiental utilizando uma tecnologia simples e acessível.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem aos parceiros da VI Expedição Científica do Baixo São
Francisco, principalmente ao Ministério da Ciência e Tecnologia, à Universidade Federal
de Alagoas (UFAL) e ao Instituto do Meio Ambiente do Estado de Alagoas (IMA-AL).
360
REFERÊNCIAS
AMORIM, E. L. C. et al. Fossas agroecológicas para o tratamento de efluentes sanitários
em escolas municipais do Baixo São Francisco. O Baixo São Francisco: Características
Ambientais e Sociais. Maceió: EDUFAL, 2022. v. 2. p. 434–446.
Globo Rural. Fossas agroecológicas ajudam famílias ribeirinhas a cultivar alimentos.
Globoplay, 03 de dezembro de 2023. Disponível em: https://globoplay.globo.
com/v/12162693/. Acesso em: 23/04/2024.
Bom dia Alagoas. Fossas agroecológicas mudam a realidade de comunidades no Sertão
e Baixo São Francisco. Globoplay, 03 de dezembro de 2023. Disponível em: https://
globoplay.globo.com/v/12176171/. Acesso em: 23/04/2024.
361
COMUNICAÇÃO
362
24. AÇÕES DE COMUNICAÇÃO NA VI EXPEDIÇÃO:
ESTRATÉGIAS E RESULTADOS
Área de conhecimento: Comunicação, Divulgação Científica.
Rosy Mary Ferreira Pereira Gomes1
Iara Maria Melo Nascimento2
Emerson Fonseca Oliveira Filho3
Wendell de Almeida4
Edson Oliveira5
RESUMO
O presente relatório visa analisar os indicadores parciais do setor de comunicação
da 6ª Expedição Científica no Baixo São Francisco, ocorrida entre os dias 21 a 30 de
novembro de 2023. O projeto tem como objetivo principal reunir dados sobre aspectos
ambientais e sociais de oito municípios ribeirinhos, sendo o setor de comunicação
fundamental para disseminar informações e envolver a comunidade. A equipe de
comunicação utilizou recursos digitais para alcançar a sociedade, ao mesmo tempo em
que facilitou a interação dos pesquisadores com a mídia, visando promover a divulgação
científica. As informações coletadas indicam que o Instagram permanece como o meio
mais eficaz de abrangência, em detrimento do Facebook, e que o reels continua a ser
o formato em alta na plataforma Instagram. A análise de notícias veiculadas (clipping)
confirmou que a ação de visitação e entrega de press kit à mídia local foi de grande
importância para aproximar os veículos das temáticas trabalhadas. Dessa forma, é
possível observar que, entre agosto de 2023 e dezembro de 2023, a visibilidade do
projeto e de seus principais apoiadores - MCTI, MPA, CBH São Francisco, Codevasf e
Fapeal - cresceu, resultando em melhorias ambientais e sociais, para o Velho Chico e a
população ribeirinha.
Palavras-chave: comunicação, Instagram, divulgação científica, mídia.
1
Jornalista, servidora da Assessoria de Comunicação da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e
Mestre em Educação Multimídia pela Universidade do Porto (PT);
2
Jornalista e bolsista da FAPEAL, no período de 01/07/2023 a 28/02/2024;
3
Estudante de Agroecologia (CECA/UFAL) e voluntário na área de audiovisual na Expedição;
4
Fotógrafo e servidor do Campus de Arapiraca da UFAL
5
Fotógrafo do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF)
363
INTRODUÇÃO
A VI edição da Expedição Científica do Baixo São Francisco contou com novos
parceiros e atividades nunca antes realizadas nas edições anteriores, como, por
exemplo a participação da Marinha do Brasil, com o projeto “Canoa Legal”, que visa
o arqueamento e regularização das embarcações de pequeno porte gratuitamente; do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que difundiu informações inéditas
sobre a região do Baixo São Francisco; e de diversos outros atores que promoveram
fortemente a educação ambiental e a importância de gerar dados embasados na ciência
para a criação de políticas públicas por parte dos gestores locais.
No total, foram mais de 100 pesquisadores, atuando em 35 linhas de pesquisas, que
percorreram 240 km, em quatro embarcações, ao longo de sete municípios alagoanos
(Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Igreja Nova/Chinaré, Penedo e Piaçabuçu) e
um sergipano (Propriá), além da foz do Rio São Francisco. O trabalho conjunto envolveu
mais de 30 instituições locais e nacionais, incluindo universidades, institutos de pesquisa,
órgãos ambientais, fundações e empresas.
No âmbito da divulgação científica, a equipe de comunicação trabalhou em
conjunto com o IBGE na edição e publicação do livro impresso e e-book intitulado “Perfil
Socioeconômico Municipal e Aspectos Geoambientais do Baixo São Francisco”, que
traz um recorte inédito de dados estatísticos sobre a região, tendo como referências o
censo demográfico 2022 e outros dados do Instituto. A obra foi lançada na cerimônia de
abertura da Expedição, no dia 21 de novembro de 2023.
Outra importante ação de comunicação e relacionamento com a mídia e a
sociedade em geral foi o lançamento do documentário da VI Expedição, composto por
sete curtas-metragens e produzido pela Mila Filmes, no Centro Cultural Arte Pajuçara.
Na oportunidade, investidores, pesquisadores, estudantes e demais interessados nas
temáticas abordadas assistiram a produção audiovisual e reconheceram, ainda mais, a
relevância dos trabalhos desenvolvidos ao longo dos seis últimos anos.
Assim, o presente relatório irá descrever e avaliar as ações da área de comunicação
durante o período de agosto de 2023 a março de 2024, visando avaliar o impacto das
reportagens realizadas, as métricas das redes sociais e o desempenho das produções
gráficas. Ao analisar esses aspectos, pretende-se revelar tanto as conquistas notáveis
quanto às áreas de aprimoramento que surgiram no âmbito da comunicação desse
programa científico.
METODOLOGIA
A comunicação da Expedição foi realizada em duas vertentes: uma voltada ao
Jornalismo e à Assessoria de Comunicação, no sentido de produção de matérias e de
reportagens, contato com a imprensa, realização de entrevistas e gerenciamento do perfil
@expedicao_saofrancisco no Instagram e Facebook; e outra relacionada à divulgação
científica, com o objetivo de comunicar temas científicos, através dos pesquisadores
envolvidos, de forma inteligível, por meio de uma linguagem acessível à população em
geral. Quando a divulgação científica é feita por meio das redes sociais, faculta-se ao
usuário o direito de ter informação credível e de qualidade na palma da mão.
A identidade visual da Expedição, criada em 2022 em parceria com a Agência Peixe
Vivo e a Tanto Expresso, continua sendo fundamental para o aprimoramento e a ampliação
da produção gráfica e visual da maior expedição científica em águas continentais do
Brasil. A marca, inclusive, foi patenteada pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial
(INPI).
Os recursos digitais de transmissão ao vivo; criação e publicação de vídeos
didáticos; e gravação de podcasts foram amplamente utilizados para divulgar a ciência
e aproximar os pesquisadores do público em geral, seja por meio do esclarecimento de
364
dúvidas, curiosidades ou explicações sobre suas áreas de atuação.
BURNS et al (2003) definem comunicação de ciência como o uso de habilidades
apropriadas, meios, atividades e diálogo para produzir na sociedade determinadas
respostas ou reações, que são reunidas sob o rótulo das vogais AEIOU – Awareness,
Enjoyment, Interest, Opinion-forming e Understanding.
Awareness refere-se à uma consciência, a não ser ignorante a respeito de algo, de ter
familiaridade com o processo de produção científica;
Enjoyment está relacionado à afetividade, a perceber a ciência como algo bom e
prazeroso, não como algo entediante, que só interessa a poucos estudiosos;
Interest é o interesse, é querer saber mais sobre algo, nesse caso a ciência, ao ponto de
envolver-se voluntariamente;
Opinion-forming é o intuito da comunicação de ciência que está relacionado à
formação de opinião, à tomada de decisões com base no conhecimento científico, em
leis e teorias testáveis e fundamentadas, não em subjetividades; e
Understanding, que tem a ver com a compreensão, algo que se desenvolve a respeito
de um assunto, ação ou processo baseado em princípios comumente aceitos. Aqui, é
importante salientar que essa resposta não se apresenta de forma binária (ter ou não ter),
mas revela níveis de compreensão em relação ao conteúdo, processo e fatores sociais
que envolvem a ciência.
Dessa forma, a ciência é um empreendimento social (MILLAR, 1996), e comunicála, no sentido de torná-la acessível, é uma obrigação de cientistas, instituições de ensino
e pesquisa e poder público. É nessa direção que as ações de comunicação da Expedição
seguem.
RESULTADOS
RELACIONAMENTO COM VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO
Antes mesmo do início das atividades de campo, a equipe de comunicação adotou
uma estratégia proativa de relacionamento com os veículos midiáticos locais. Essa
estratégia visou estabelecer parcerias sólidas, promover a visibilidade da Expedição e
garantir uma cobertura abrangente e precisa.
Foram realizadas visitas e entregues 10 press kits, uma ação de marketing visando
a apresentação do projeto para aqueles que o desconhecem, contendo releases e folders
de apresentação das atividades executadas ao longo dos anos, além de camisas, chapéus,
garrafas térmicas e blocos de anotações.
Além da entrega dos press kits, as visitas proporcionaram um ambiente propício para
receber feedback antecipado, esclarecer dúvidas e ajustar a abordagem comunicativa.
Essa interação preliminar foi valiosa para moldar as narrativas que seriam desenvolvidas
ao longo da expedição. O coordenador das Expedições, prof. José Vieira, e as jornalistas
Rose Ferreira e Iara Melo visitaram a Secretaria de Comunicação do Estado de Alagoas
(SECOM/AL), Organização Arnon de Melo (TV Gazeta, Rádio Gazeta, G1 e Gazetaweb),
Sistema Pajuçara de Comunicação (TV Pajuçara e TNH1), TV Assembleia, TV Farol e a
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL), que, além de ser uma
investidora da Expedição, é parceira da comunicação, por meio dos profissionais que
atuam em sua Assessoria, especialmente através da jornalista e coordenadora Naísia
Xavier.
Imagem 1: Coordenador José Vieira (à esquerda), ao lado da equipe de
comunicação e do secretário-executivo de Comunicação de AL, Wendel Palhares.
365
Fonte: Thiago Sampaio – SECOM/AL, 2023.
Ao cultivar essa colaboração entre a expedição e os meios de comunicação locais,
as histórias não se limitam a uma única audiência, mas se tornam uma narrativa dinâmica
que ressoa nacionalmente e, por vezes, internacionalmente.
Em um mundo cada vez mais interligado, as Expedições Científicas, através dessa
colaboração estratégica, não são apenas buscas por descobertas e acompanhamento
da “saúde” do rio e da população de modo geral, mas histórias que enriquecem a
compreensão sobre o Baixo São Francisco e suas riquezas.
Durante o período analisado, foram produzidas diversas reportagens destacando
os aspectos científicos, culturais e ambientais da região. Ao todo, foram 67 matérias,
divididas entre portais de notícias, rádios, podcasts e televisão, como aponta a tabela
abaixo:
Tabela 1: Clipagem das reportagens que foram ao ar no período analisado
366
367
368
369
370
371
Fonte: Autores (2024)
FORTALECIMENTO DAS REDES SOCIAIS
No universo digital, a comunicação transcende fronteiras físicas, trazendo em suas
métricas uma dimensão do alcance dos conteúdos divulgados. Atualmente, a Expedição
está presente no Instagram (@expedicao_saofrancisco), no Facebook (@expsaofrancisco)
e no YouTube, em uma playlist do canal da UFAL (@ufaloficial).
As métricas das redes sociais apresentam um retrato do impacto digital da Expedição.
Ao analisar o Facebook, Instagram e outras plataformas, observamos um crescimento
significativo no número de seguidores no mês de novembro, chegando a 3.851 seguidores
no mês de dezembro, indicando um aumento no alcance das publicações.
Imagem 2: Gráfico apontando um pico de novos seguidores no mês de novembro de
2023
372
Fonte: Meta Business, 2023.
O engajamento nas redes sociais não é apenas quantitativo, mas um indicador
qualitativo do impacto nas audiências. Curtidas, comentários e compartilhamentos não
apenas ampliam o alcance, mas também refletem o envolvimento e a apreciação do
público. Além disso, as redes sociais oferecem oportunidades únicas de reconhecimento
e colaboração, como atestam estudos, como o de Martin e MacDonald (2020), que
mostram que as redes sociais têm bastante potencial, inclusive por permitirem um
modelo participativo de comunicação, no qual o cientista/pesquisador pode interagir
com o público, esclarecer dúvidas e mostrar o que faz (MARTIN E MACDONALD, 2020).
Este ano, foi trabalhado fortemente a produção de vídeos em formato reels, uma
ferramenta que traz dinamismo ao formato convencional anteriormente utilizado. Ao
todo, foram produzidos 19 vídeos, entre os meses analisados, sobre temáticas diferentes,
apresentando eventos, reuniões, narrativas e vivências únicas dos expedicionários.
Somente em novembro, o formato apresentou um alto volume de interações com
as publicações neste formato, totalizando 4.224 ações entre curtidas, comentários,
salvamentos e compartilhamentos. A captura de tela abaixo apresenta os principais reels,
os que tiveram mais destaque no quesito engajamento, sendo em primeiro lugar o vídeo
referente às atividades realizadas no município de Igreja Nova, no povoado de Chinaré.
Essa constatação corrobora a importância do reels como estratégia com maior
possibilidade de entrega aos usuários e o quanto vídeos curtos, atraentes e bem
elaborados tendem a se projetar mais nessa rede social que supervaloriza a beleza das
publicações, sejam em imagens ou em vídeos (MANOVICH, 2017).
Imagem 3: Captura de tela dos insights disponibilizados pela plataforma Meta Business
373
Fonte: Meta Business, 2023.
Imagem 4: Bolsista Iara Melo gravando conteúdo para as redes sociais.
Fonte: Autores, 2023.
374
A disseminação digital não apenas amplia o alcance das histórias, mas também
abre portas para parcerias, patrocínios e colaborações que podem impulsionar ainda
mais a visibilidade do projeto, como aconteceu com a visita dos pesquisadores
franceses Veronica Mitroi (CIRAD) e Luke Whaley (IRD), que com o acompanhamento
da pesquisadora brasileira Laudemira Rabelo (Funceme/CE) conheceram a Expedição
Científica por meio das redes sociais, possibilitando o agendamento de uma reunião
para a troca de conhecimentos e construção de projetos futuros na bacia do Rio São
Francisco.
Imagem 5: Jornalista Rose Ferreira (à esquerda) entrevistando Laudemira Rabelo (à
direita)
Fonte: Autores, 2023.
Assim, ao analisar as métricas das redes sociais, não se está apenas quantificando
números, mas mapeando um território digital onde as publicações não só atingem novos
horizontes, mas também estabelecem a base para o reconhecimento e a apreciação em
uma escala global.
De modo geral, obteve-se 78.302 de alcance no Instagram nos meses analisados
em questão, um aumento de 182% de acordo com a plataforma, destacando-se os meses
de outubro e novembro, com picos de contas atingidas, como demonstra a imagem
abaixo:
375
Imagem 6: Imagem do gráfico de análise de alcance do perfil da Expedição no Instagram.
Fonte: Meta Business, 2023.
Outro ponto essencial na construção das narrativas dentro de plataformas digitais
são as personas, personagens fictícios que norteiam a forma como deve-se comunicar e
os formatos utilizados. Tendo esse conceito como base, podemos observar que o público
atingido é majoritariamente feminino, entre a faixa etária de 25 a 35 anos, como aborda
a imagem a seguir:
Imagem 7: Gráfico apresentando a disposição de idades e gêneros em que consistem os
seguidores do perfil em questão.
Fonte: Instagram, 2023.
376
Um ponto a ser destacado foi o fortalecimento da identidade visual criada e
utilizada a partir da V edição. Este ano, foram reformuladas as capas para destaques do
perfil no Instagram, trazendo uma harmonia ao feed e uma melhor compreensão sobre o
que trata cada tópico.
Imagem 9: Captura de tela do perfil oficial da Expedição.
Fonte: Instagram (2023)
Para além desse fortalecimento, foram criados templates para divulgação das
matérias publicadas ao longo desta edição, e foi fortalecida a publicação em collab, na
qual perfis distintos se tornam colaboradores da mesma publicação, aumentando, assim,
o alcance e engajamento dos temas difundidos. A imagem abaixo demonstra os dois
pontos citados:
Imagem 10: Captura de tela de uma publicação utilizando a moldura para matérias e a
colaboração com o perfil da UFAL.
377
PRODUÇÃO DE MATERIAIS GRÁFICOS
A comunicação está intrinsecamente ligada ao design gráfico, seja na elaboração
de materiais físicos ou digitais. Tendo isso em vista, este ano, a produção de materiais
gráficos, pensados estrategicamente para a difusão dos dados analisados pelos
pesquisadores ao longo dos anos e para apresentação da expedição a novos públicos,
foi amplamente trabalhada.
A equipe de comunicação teve o privilégio de estar à frente da elaboração do livro
“Perfil Socioeconômico Municipal e Aspectos Geoambientais do Baixo São Francisco”,
em parceria com o IBGE. O recorte inédito de dados elaborado pelo Instituto em questão
foi revisado e diagramado pela equipe de comunicação da Expedição.
Imagem 11: Processo de diagramação do livro, em conjunto com o pesquisador do IBGE
Neison Freire.
Fonte: Autores, 2023.
Ao todo, foram elaborados cerca de 29 itens gráficos entre folders, banners, faixas,
outdoors, pulseiras de identificação, manual de sobrevivência, placas e outros. E, como
forma de facilitar o acesso e a disseminação desses materiais, eles estão disponíveis em
PDF na página da Expedição, no portal da UFAL: https://ufal.br/expedicao-sao-francisco.
Imagem 12: Banner elaborado para a participação da Expedição no
Congresso Brasileiro de Engenharia de Pesca (CONBEP)
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Fonte: Autores, 2023.
Imagem 13: Banner sobre as ações de Educação Ambiental
Fonte Autores, 2023.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
No ciclo contínuo de desafios e descobertas que caracteriza a Expedição Científica
do Baixo São Francisco, a equipe da Assessoria de Comunicação existe como um elo vital,
moldando e compartilhando informações essenciais para difundir a ciência e a educação.
Durante a VI edição dessa jornada enriquecedora, a dedicação incansável da equipe de
comunicação revelou não apenas um compromisso, mas como um trabalho em equipe
pode fortalecer ainda mais as ações executadas.
Desde a fase pré-Expedição, onde a estratégia de comunicação foi planejada, até
o auge do evento, onde cada descoberta e narrativa foram traduzidas em reportagens
envolventes, a equipe de assessoria demonstrou um profundo comprometimento.
Durante o período da Expedição, a agilidade e a resiliência da equipe foram postas à
prova, enfrentando desafios como o calor e o cansaço, mas sempre mantendo um fluxo
constante de informações para as plataformas digitais e para a imprensa.
O verdadeiro diferencial, entretanto, foi o compromisso persistente no pósExpedição. A análise minuciosa das métricas das redes sociais, a continuidade na
produção de conteúdo relevante e a exploração de oportunidades de reconhecimento
demonstram não apenas uma resposta ao evento, mas uma visão estratégica de longo
prazo.
Nesse relatório, testemunhamos não apenas um conjunto de atividades comunicativas,
mas o reflexo de um compromisso contínuo com a disseminação de informações sólidas
e embasadas cientificamente, a promoção da cultura local e a projeção da Expedição
em um cenário amplo. A equipe da Assessoria de Comunicação não apenas cumpriu seu
dever, mas superou as expectativas, contribuindo significativamente para a construção
da divulgação científica no Estado de Alagoas e no Brasil.
AGRADECIMENTOS
À confiança e parceria dos coordenadores da Expedição; à gestão superior da
UFAL e Assessoria de Comunicação, pela liberação em tempo integral da servidora
Rose Ferreira para a Expedição; à FAPEAL, pela concessão da bolsa à Iara Melo,
para desenvolvimento das atividades antes, durante e pós-Expedição; à equipe de
comunicação pequena, mas gigante, da Expedição, incluindo os colegas de profissão
e expedicionários Amorim Neto e Aldo Correia; à presteza, empatia e trabalho de cada
pesquisador competente e voluntário que integra esse trabalho. Vocês nos inspiram e
merecem todo o reconhecimento!
REFERÊNCIAS
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contemporary definition. Public Understanding of Science, v. 12, n. 2, p. 183–202, 2003.
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manovich.net/index.php/projects/instagram-and-contemporary-image. Acesso em: 22
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encourage science conversations on social media. PLoS ONE, v. 15, 2020. https://doi.
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