Relatório final da V Expedição Científica do Baixo São Francisco

Ano: 2022

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                    RELATÓRIO FINAL DA V EXPEDIÇÃO
CIENTÍFICA DO BAIXO
SÃO FRANCISCO
Organizadores
Emerson Carlos Soares
José Vieira Silva
Rose Mary Ferreira P. Gomes
Themis de Jesus da Silva
Maceió-AL
Agosto/2023

1

EXPEDIENTE
Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
Reitor
Josealdo Tonholo
Vice-reitora
Eliane Cavalcanti
Expedição Científica do
Baixo São Francisco
Coordenadores
Prof. Dr. Emerson Soares (UFAL)
Prof. Dr. José Vieira (UFAL)
Profª. Drª. Themis Silva (UFAL)
Edição
Me. Rose Ferreira
Diagramação
Iara Melo

INVESTIDORES

2

SUMÁRIO
SAÚDE
COLETIVA
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04
1. Ações de saúde coletiva em municípios ribeirinhos localizados no Baixo São Francisco ...... 05
2. Ações de saúde bucal nas comunidades ribeirinhas durante a V Expedição do Baixo São
Francisco ...................................................................................................................................................................... 24

ANÁLISE DE ÁGUA E PEIXES • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 37

3. Análise físico-química e microbiológica da água em municípios do Baixo São
Francisco ...................................................................................................................................................... 38
4. Ecologia e Análise de Risco da Comunidade Fitoplanctônica do Baixo São Francisco ........... 68
5. Monitoramento de Pesticidas e Teor De Óleos e Graxas no Baixo São Francisco ...................... 83
6. Avaliação de Gentoxicidade utilizando peixes coletados durante a V Expedição do São
Francisco .................................................................................................................................................................... 109
7. Poluição hídrica no Baixo São Francisco e seus efeitos nos peixes através da
avaliação enzimátixa e histopatológica........................................................................................................... 120
8. Impactos da Vazão de água na reprodução dos peixes do Baixo São Francisco ...................... 141
9. Características da atividade pesqueira na V Expedição Científica do Baixo São Francisco . 155
10. Peixes Ameaçados de Extinção do Baixo Rio São Francisco .......................................................... 169
11. Qualidade Microbiológica de pescados vendidos em feiras livres de oito
municípios do Baixo São Francisco .................................................................................................................. 187
12. Monitoramento Acústico Passivo (MAP) no Baixo Rio São Francisco .......................................... 198

SOLOS,
MANGUEZAIS E ECOLOGIA • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •209
13. Estudos dos solos das cidades ribeirinhas .............................................................................................. 210
14. Fragilidade ambiental das áreas ciliares do Rio São Francisco: um diagnóstico
ecodinâmico e dos remanescentes florestais............................................................................................... 223
15. Estrutura fitossociológica e densidade populacional do caranguejo-uçá no Bosque de
Mangue da Foz do Rio São Francisco ............................................................................................................. 245
16. Plantas Alimentícias Não-Convencionais (PANC) no Baixo São Francisco ............................... 260

PATRIMÔNIO
E POVOS ORIGINÁRIOS • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 286
17. Carta Arqueológica Subaquática do Baixo Rio São Francisco: As Ações na 5ª
Expedição Científica no Rio São Francisco .................................................................................................. 287
18. Indicações Geográficas e Desenvolvimento Local: ponderações para auxílio a comunidades
e prefeituras municipais a partir da observação da região do Baixo São Francisco ................... 305
19. Antropologia em Expedições Científicas: relato de uma experiência no Baixo São Francisco ..
......................................................................................................................................................................................... 317
20. O futebol de meninas ribeirinhas: imaginário, possibilidades, sonhos e desejos ................... 336

EDUCAÇÃO
AMBIENTAL E SANEAMENTO RURAL • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 354
21. Ações gerais de Educação Ambiental nas escolas ribeirinhas do Baixo São Francisco ...... 355
22. Ações de Educação Ambiental na V Expedição Científica do Baixo São Francisco
-SEMARH-AL ............................................................................................................................................................ 372
23. Participação do Oceanário Móvel do SESC DF (projeto As Maravilhas do Fundo do Mar)
na V Expedição do Baixo São Francisco ...................................................................................................... 376
24. Fossas Agroecológicas para o tratamento de efluentes sanitários e Projeto Ecosabão em
escola municipais do Baixo São Francisco .................................................................................................. 383

COMUNICAÇÃO • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 395
25. Ações de Comunicação na V Expedição: estratégias e resultados ............................................ 396

3

SAÚDE COLETIVA

4

1. AÇÕES DE SAÚDE COLETIVA EM MUNICÍPIOS
RIBEIRINHOS LOCALIZADOS NO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Ciências da Saúde.
Subárea de conhecimento: Saúde coletiva.
Eliane Aparecida Holanda Cavalcanti1
Karol Fireman de Farias2
Bruna Priscila dos Santos3
Adriano José dos Santos4
Ericlis dos Santos Silva4
Marcia Cristina da Silva5
Maria do Socorro Meneses Dantas6
Mário Jorge Jucá7
Francine Simone Mendonça8
Abel Barbosa Lira Neto 9
Wanessa Christina Beirauti Simões10

RESUMO
Esse é um estudo transversal descritivo realizado durante a 5ª edição da Expedição
Científica do baixo São Francisco, no mês de novembro/2022, cujo objetivo principal foi
caracterizar o perfil epidemiológico da comunidade ribeirinha. Para a coleta dos dados
sociodemográficos foram aplicados formulários semiestruturados, para as amostras
biológicas realizou-se punção venosa, raspagem cervical e/ou entrega direta pelo
paciente (fezes e urina). O material foi processado e analisado na Unidade de Testagens
do Campus de Arapiraca – UFAL, seguindo protocolo de cada exame realizado. Os
dados foram tabulados e analisados estatisticamente no Software SPSS. No total, 405
pacientes participaram das ações em saúde. Desses, a maioria eram do sexo feminino
(65,43%), com faixa etária > 45 anos (70,12%), da zona urbana (60,98%) e com renda de
até um salário mínimo (38,76%). Os pacientes de Traipu-AL apresentaram as menores
médias para dosagem de hematócrito, hemoglobina e contagem de leucócitos totais; os
de Pão de Açúcar-AL a menor média para hemácias; somente Piranhas-AL teve média
para glicose dentro dos limites de referência; a maior média para colesterol total foi em
Penedo-AL. Dos 112 homens testados para PSA, 15% foram reagentes; dentre os 220
1
Bióloga, Docente, coordenadora da Unidade de Testagens para Covid-19 da UFAL - Campus de Arapiraca e coordenadora das ações em saúde da Expedição Científica do São Francisco.
2
Enfermeira, Docente da UFAL - Campus de Arapiraca.
3
Biomédica, Bolsista na Unidade de Testagens para Covid-19 da UFAL - Campus de Arapiraca.
4
Biólogo, Bolsista na Unidade de Testagens para Covid-19 da UFAL - Campus de Arapiraca.
5
Bióloga, Docente da UFAL - Campus de Arapiraca.
6
Educadora Física, Docente da UFAL - Campus A.C. Simões.
7
Médico, Docente da UFAL - Campus A.C. Simões
8
Médica, Docente da UFAL - Campus de Arapiraca.
9
Farmacêutico, Técnico da UFAL - Campus de Arapiraca.
10
Técnica da UFAL - Campus A.C. Simões.

5

pacientes que fizeram EPF, 6,36% foram positivos para helmintos. Das 116 citologias, 7,8%
foram positivas para HPV de alto risco. Ureaplasma parvum (9,5%) foi o microrganismo
mais prevalente na microbiota vaginal; na avaliação do epitélio do colo uterino, 3,7%
apresentou lesão intraepitelial escamosa de baixo grau.
Palavras-chave: Comunidade ribeirinha; Doenças crônicas; Rastreamento; Saúde
pública.
INTRODUÇÃO
A difícil realidade da população que habitam as margens da região do Baixo São
Francisco, assim como, as desigualdades sociais, são problemas enfrentados comumente
em países em desenvolvimento, sendo ainda muito mais marcantes em comunidades
vulneráveis. Em locais com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixo ou médio,
a neoplasia maligna mais frequente em mulheres é o câncer de colo uterino, excluindo
tumores malignos não melanoma. No Brasil, as DCNTs, são responsáveis por cerca de
72% dos óbitos, representando a primeira causa de mortalidade e de hospitalizações
(BRASIL, 2021). Em 2019, 54,7% dos óbitos registrados no Brasil foram causados por
DCNTs e 11,5% por agravos. Segundo a OMS, em países em desenvolvimento a aderência
aos tratamentos chega a ser apenas de 20% (OMS, 2003).
Levantamentos epidemiológicos constituem instrumentos importantes para
o reconhecimento de fatores, causa e ação de morbidades, assim como, ratificam as
desigualdades sociais. Esses instrumentos, são capazes de viabilizar ações de políticas
públicas em saúde (sendo uma delas os rastreamentos) sobretudo para grupos sociais
excluídos ou pouco estudados. Ressalta-se que rastreamentos de um modo geral, é
uma estratégia extremamente importante, em virtude da evolução, temporalidade,
tratamento e cura. O diagnóstico precoce permite uma qualidade de vida do paciente e
uma maior probabilidade de cura. Outrossim, o tratamento precoce poderá ser melhor
manejado não ocasionando colapso ao serviço.
A Expedição Científica do rio São Francisco vem como uma importante estratégia
interinstitucional voltada a contribuir com a redução dos gargalos sociais levando ações
de pesquisa e extensão na área ambiental desde 2018. Com o propósito de ampliar as
áreas de conhecimento, em 2021 foram iniciadas ações de saúde. Em 2022 a área de saúde
coletiva foi intensificada com realização de consultas médicas, encaminhamento para
alta complexidade, exames hematológicos, bioquímicos, parasitológicos, citológicos,
de biologia molecular e avaliações de saúde na população idosa. Tendo como objetivo
principal caracterizar o perfil epidemiológico da comunidade ribeirinha do baixo São
Francisco, o qual subsidiará ações diversas em saúde, contribuindo no bem-estar e na
qualidade de vida da população, assim como, no desenvolvimento de novas políticas de
saúde pública para os povos ribeirinhos.
METODOLOGIA
Foi realizado um estudo transversal descritivo durante a primeira quinzena de
novembro de 2022 em cidades ribeirinhas situadas no baixo São Francisco: PiranhasAL, Pão de Açúcar-AL, Traipu-AL, Propriá-SE, São Brás-AL, Igreja Nova-AL, PenedoAL, Piaçabuçu-AL e Brejo Grande/SE. O conjunto das cidades visitadas/estudadas,
abrangem uma área de aproximadamente 3.486.635km², com uma população total em
torno de 226.738 habitantes (IBGE, 2020). Foram realizadas 405 triagens em pacientes
com idade igual ou superior a 18 anos, os quais assinaram o Termo de Consentimento
Livre Esclarecido (TCLE). Essa pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa
com seres humanos da Universidade Federal de Alagoas (CEP/UFAL), sob parecer de
nº 5.818.119 (CAAE 64293222.5.0000.5013).

6

A coleta de dados sociodemográficos foi realizada a através de formulários semi
estruturados, assim como, foi aplicado o Instrumento validado de qualidade de vida da
EUROHIS-EUROHIS - QOL8, originado dos itens do WHOQOL- BREF e produzido pelo
grupo WHOQOL da OMS (ROMERO et al., 2022).
As amostras biológicas (sangue, fezes, sangue, urina e outras secreções) foram
obtidas por via direta (punção venosa, raspagens cervicais, e/ou entregues pelo
próprio paciente, a exemplo, de fezes e urina). O material coletado foi acondicionado
em caixas térmicas a 20°C, sendo imediatamente encaminhado para o processamento
na Unidade de Testagens do Campus de Arapiraca - UFAL. No soro (sem coagulante)
ou no plasma (com anticoagulante) foram realizadas as dosagens bioquímicas. As
análises hematológicas foram realizadas através de avaliação automatizada das células
do sangue. No hemograma, foram analisados os componentes celulares, os quais
constituirão os resultados do eritrograma, leucograma e plaquetograma. Tanto o soro
quanto o plasma, foram refrigerados por até 3 dias ou congelados por 30 dias até a sua
análise, sem prejuízo no resultado.
Para as análises parasitológicas de fezes, foi utilizado o método de Kato-Katz (KATO;
MIURA, 1954; KATZ et al., 1972), o qual consiste num método direto que proporciona um
resultado qualitativo e quantitativo, através da identificação e quantificação (número de
ovos por grama de fezes – OPG) dos ovos de helmintos (Schistosoma mansoni, Ascaris
lumbricoides, Trichuris trichiura e Ancilostomídeos). Ressaltando que este é o método
preconizado pela OMS e Ministério da Saúde brasileiro nos inquéritos coproscópicos
realizados para diagnóstico da esquistossomose e geo-helmintíases (BRASIL, 2014;
2018).
Para a pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSO), foi utilizado um método
imunológico, cujo princípio utiliza anticorpos anti-hemoglobina de alta especificidade
para detecção da hemoglobina humana nas fezes. Em se tratando de rastreamento
precoce de câncer colorretal, este tipo de método é tido como um exame de primeira
linha, tendo por vantagens: não ser um método invasivo; indolor; de baixo custo; sem
necessidade de dieta específica antes do exame, além da agilidade do resultado (DE
PAULA PIRES et al., 2021). A técnica empregada foi o teste rápido MedTest Sangue
Oculto (MedLevensohn®), que consiste num imunoensaio cromatográfico, de fluxo
lateral, para a detecção qualitativa de sangue oculto humano em fezes.
Para as análises moleculares foi utilizada a técnica RT-PCR, para detecção de
28 tipos de HPV (19 de alto risco e 9 de baixo risco) e 7 patógenos causadores de
ISTs (Chlamydia trachomatis (CT), Neisseria gonorrhoeae (NG), Mycoplasma genitalium
(MG), Mycoplasma hominis (MH), Ureaplasma urealyticum (UU), Ureaplasma parvum
(UP), e de Trichomonas vaginalis (TV)). Para detecção dos 19 tipos de HPV de alto risco
(16, 18, 26, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 53, 56, 58, 59, 66, 68, 69, 73, 82) e 9 de baixo risco
(6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70), a RT-PCR foi realizada utilizando o kit Anyplex II HPV28
Detection (Seegene). O material utilizado tanto para uma análise quanto a outra, foi
utilizado a citologia por meio líquido, obtidas conforme recomendação do fabricante
do meio líquido Gynoprep.
As análises estatísticas foram realizadas usando o programa, SPSS (Statistical
Package for Social Sciences) versão 22.0 (SPSS Inc., Chicago, Estados Unidos). A análise
descritiva foi realizada a partir de média e desvio padrão, as variáveis categóricas foram
definidas por frequência relativa e absoluta seus respectivos desvios padrões. Foram
realizados testes de distribuição a fim de verificar a normalidade das variáveis através
do teste de Kolmogorov-Smirnov e Shapiro-Wilk. O cálculo da amostra foi realizado no
módulo StatCalc do software Epi-info, versão 7.1.4.

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RESULTADOS E DISCUSSÃO
Perfil socioeconômico e demográfico da população
Um total de 405 ribeirinhos(às) participaram das ações em saúde coletiva
durante a V Expedição Científica do São Francisco. Destes, 65,43% (265) eram do sexo
feminino, 70,12% (284) apresentavam uma faixa etária acima de 45 anos, 45,67% (185)
são casados(as) e 48,64% (197) se autodeclararam pardos (Tabela 1).
Em relação ao grau de escolaridade, 32,59 % (132) dos(as) ribeirinhos(as)
cursaram até o ensino fundamental I, e apenas 20,49% (83) concluíram o ensino médio.
No tocante à renda pessoal, a maioria dos participantes recebiam até um salário mínimo
ou menos, 38,76% (157) recebiam até um salário mínimo e 24,44% (99) menos que o
salário mínimo, respectivamente (Tabela 1).
Considerando o local da residência, a maioria dos participantes, ou seja, 60,98%
(247) são oriundos da zona urbana, e apenas 27,65% (112) na zona rural. Quanto à
estrutura de saneamento básico da localidade onde as residências encontram-se
instaladas, 73,34% (297) estão em rua pavimentada, onde em 60,74% (246) não existe
esgoto a céu aberto, e 85,18% (345) possuem água encanada em suas residências. Além
disso, 85,43% (346) destinam o lixo produzido à coleta municipal (Tabela 1).
Tabela 1: Características sociodemográficas das comunidades ribeirinhas da V Expedição
Científica do São Francisco, 2022.

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Fonte: Autores desta pesquisa (2023).

10

PERFIL CLÍNICO DOS PACIENTES RIBEIRINHOS
Perfil hematológico e bioquímico
No tocante a avaliação do perfil hematológico, ressalta-se que do total de
405 pacientes atendidos, 373 realizaram a coleta de sangue total para realização do
hemograma, embora alguns parâmetros não tenham sido avaliados em sua totalidade,
conforme descrição detalhada na Tabela 2.
Tabela 2: Perfil hematológico dos pacientes atendidos durante a V Expedição Científica
do Baixo Rio São Francisco, em 2022.

Fonte: Autores desta pesquisa (2023).

Observa-se na tabela 2, os valores das médias e seus respectivos desvios-padrão
(M ± DP) referentes às dosagens dos componentes do hemograma (hematócrito,
hemoglobina, hemácias, leucócitos e plaquetas) detalhados por municípios estudados
durante a expedição. Em relação ao eritrograma (correspondendo as dosagens do
hematócrito, hemoglobina e hemácias), o município de Penedo - AL, apresentou as
maiores médias para hematócrito, hemoglobina e hemácias (41,49% ± 3,40; 14,02
g/dL ± 1,29; 4,70 milhões/mm3 ± 0,35, respectivamente), enquanto Traipu - AL, as
menores médias para hematócrito e hemoglobina (38,00% ± 4,66; 12,57 g/dL ± 1,78,
respectivamente), embora a análise do desvio-padrão indique uma maior dispersão dos
dados para hematócrito e hemoglobina em Traipu. Além disso, a menor média para a
dosagem de hemácias foi apresentada pelos ribeirinhos atendidos em Pão de Açúcar AL (4,40 milhões/mm3 ± 0,28).

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Menores médias de hematócritos estão diretamente relacionadas a quadros
de anemias, associando diretamente a baixos indicadores sociais como demonstra
nossos dados, os municípios de Traipu e Pão de Açúcar possuem menor índice de
desenvolvimento humano quando comparados com Penedo (DOS SANTOS et al., 2020).
Considerando, a série branca (leucograma), para a contagem dos leucócitos totais,
Propriá - SE, apresentou a maior média (7.190 mm3 ± 1.951) e Traipu - AL, a menor (5.009
mm3 ± 55,48). No plaquetograma, o município de Pão de Açúcar - AL, apresentou a
maior média (253,47 mil ± 51,6), enquanto Piaçabuçu - AL, a menor (221,36 mil ± 68,38).
Em relação ao perfil bioquímico, observa-se na tabela 3 a descrição dos resultados
para as dosagens bioquímicas para cerca de 371 pacientes atendidos durante a expedição.
Vale ressaltar que, para cada município foi realizado um “n” diferente dos 371, devido
à alguma inconsistência na qualidade e/ou quantidade de amostra de sangue total
coletada, onde, por exemplo, o “n válido” para o cálculo da média da dosagem de
colesterol total dos pacientes, corresponde a 367 amostras.
Tabela 3: Perfil bioquímico dos pacientes atendidos durante a V Expedição Científica
do Baixo Rio São Francisco, em 2022.

Fonte: Autores desta pesquisa (2023).

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O perfil bioquímico, portanto, foi avaliado segundo as dosagens de glicose,
colesterol total, triglicerídeos, ALT, AST e creatinina, conforme detalhado na tabela 3 e
valores de referências utilizados no Quadro 1 (CARDOSO, 2012).
Quadro 1: Valores de referência utilizados determinados, pela Sociedade Brasileira de
Análises Clínicas, referentes aos resultados das dosagens bioquímicas realizadas em
pacientes durante a V Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco, em 2022.

Fonte: Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (2018)

Observa-se que de todos os municípios atendidos, os pacientes de Propriá - SE
apresentaram a maior média para dosagem de glicose (129,9 mg/dL), valor acima dos
valores de referência (Quadro 1). No entanto, apenas no município de Piranhas/AL,
a média apresentada (97,9 mg/dL) estava dentro dos limites de referência, todos os
outros municípios apresentaram média superior ao limite ideal, solicitando um melhor
acompanhamento do sistema de saúde junto à população. Acerca das dosagens de
colesterol total, os pacientes de Penedo - AL apresentaram maior média 247,5 mg/
dL, valor acima da normalidade, quando comparados aos demais municípios. Quanto
à dosagem de triglicerídeos, Propriá - SE apresentou a maior média (172,8 mg/dL) e
São Brás - AL, a menor (127,2 mg/dL), ressaltando os mesmos permanecem dentro dos
valores de normalidade (inferior a 150 mg/dL) (Quadro 1).
As transaminases são enzimas utilizadas como parâmetro para avaliar patologias
associados ao fígado, por sua vez são divididas em duas frações: AST (aspartato
aminotransferase) ou TGO e, ALT (alanina aminotransferase) ou TGP. Quando analisados
os níveis de AST observou-se que a maior média entre os municípios investigados foi
de 32,9 ± 28,8 U/L, correspondente ao município de Piaçabuçu - AL. No entanto, apesar
de apresentar a maior média entre os municípios, não ocorreu alterações significativas
no limite de normalidade. Já para os resultados da ALT, a maior média das dosagens foi
para os pacientes oriundos de Brejo Grande - AL, 35,8 ± 55,0 U/L.
A creatinina é uma substância produzida pelos músculos e eliminada pelos rins,
que serve para produzir energia para o trabalho de contração muscular. A análise desse
parâmetro é fundamental para analisar alterações nos rins. Nas análises realizadas
verificamos que a menor média ocorreu no município de Traipu/AL (0,92 mg/dL ± 0,2)
e as maiores ocorreram em dois municípios, em Penedo/AL (1,1mg/dL ± 0,2) e Pão-deAçúcar/AL (1,1 mg/dL ± 0,15).
Reiteramos que em sua maioria foram observadas alterações significativas de
parâmetros essenciais para o bom funcionamento e qualidade de vida dos pacientes,
acendendo o alerta para a prevenção de comorbidades que poderão acometer a
população no intervalo de tempo relativamente pequeno.

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Antígeno Prostático Específico (Prostate Specific Antigen - PSA)
Do montante de 140 pacientes do sexo masculino, 80% (112) realizaram exames de
PSA, dos quais 32,15% (36) foram reagentes, ou seja, apresentaram frações relevantes
no sangue (Tabela 4). Num contexto de rastreamento precoce de câncer de próstata, a
alteração no PSA é considerada um achado importante a ser investigado. No entanto, é
necessário levar em consideração outros fatores, a exemplo da idade do paciente. Nessa
perspectiva, o exame de PSA alterado sugere uma investigação mais aprofundada da
situação de saúde do paciente (FERNANDES et al., 2022).
Tabela 4: Descrição dos resultados para análise do Antígeno Prostático Específico
(PSA) em pacientes atendidos durante a V Expedição Científica do Baixo Rio São
Francisco, em 2022.

Fonte: Autores desta pesquisa (2023).

Análises coprológicas
No tocante ao exame parasitológico de fezes (EPF), dos 405 pacientes atendidos,
54,32% (220) realizaram EPF pelo método de Kato-Katz, dos quais 6,36% (14) foram
positivos para infecção helmíntica (Tabela 5), dentre eles, 92,86% (13) estavam infectados
por Ancylostoma duodenale e 7,14% (1) com Schistosoma mansoni.
Apesar da baixa taxa de positividade observada no EPF, ressaltamos que fatores
como: a baixa carga parasitária que o indivíduo pode apresentar, as variações dos ciclos
de liberação dos ovos pelos parasitos e a análise de apenas uma amostra de fezes, são
fatores limitantes que podem interferir no diagnóstico positivo. Assim, recomenda-se
a coleta de pelo menos três amostras de fezes e o preparo de duas ou mais lâminas a
partir de cada amostra, visando potencializar a sensibilidade do exame (COSTA et al.,
2017; SANTOS et al., 2021; VITORINO et al., 2012).
Ademais, ressaltamos a importância do acompanhamento dessa população pelo
serviço de saúde, considerando a influência dos fatores supracitados, bem como dos
resultados positivos, haja visto que o S. mansoni é veiculado pelo contato com água
contaminada por fezes de pessoas doentes. Já os ancilostomídeos pelo contato com

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o solo contaminado pelas larvas de Ancylostoma duodenale e/ou Necator americanus,
uma vez que as comunidades ribeirinhas em sua maioria utilizam a água do rio em sua
rotina, e tem contato com o solo, podendo assim se expor ao risco de infecção destas
parasitoses.
Tabela 5: Exame parasitológico e de sangue oculto realizado no material fecal entregues
pelos pacientes atendidos durante a Vª Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco,
em 2022.

Fonte: Autores desta pesquisa (2023).

Com relação a análise qualitativa para pesquisa de sangue oculto nas fezes,
foram realizados 241 testes, dos quais 12,45% (30) tiveram resultado positivo (tabela 5),
sinalizando a possibilidade de algum problema intestinal, que pode variar desde uma
simples síndrome inflamatória, diverticulite ou até mesmo úlceras e, câncer colorretal
em casos mais graves, indicando a necessidade de um acompanhamento do paciente,
pelo serviço de saúde, a fim de investigar a causa desse sangramento intestinal. Nessa
perspectiva, é importante frisar que a realização anual de testes de sangue oculto nas
fezes, contribui para a diminuição da taxa de mortalidade dos casos de câncer colorretal,
podendo ser uma ferramenta importante para o diagnóstico precoce da doença (DE
PAULA PIRES et al., 2021).
Análises de urinálise
A urinálise foi realizada em 275 amostras, correspondendo a 67,90% (275) do
total (405) de participantes. O perfil físico-químico foi determinado através de leituras
realizadas por strips (tiras específicas) onde foi possível avaliar pH e a densidade,
parâmetros importantes pois podem determinar possíveis associações com diversas
patologias, dentre elas podemos destacar cálculos urinários, em urinas alcalinas como
demonstrado na Tabela 6 (TOSTES; CARDOSO, 2001).

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Tabela 6: Parâmetros físico-químicos da urina da população ribeirinha atendida durante
a V Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco, em 2022.

Fonte: Autores desta pesquisa (2023).

Análise citológica e molecular
Durante o período analisado, 242 mulheres foram atendidas, dessas apenas em
116 (48%) foram realizadas coletas citológicas e análises moleculares. As investigações
para as Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) se deu por da identificação dos
microrganismos: (Chlamydia trachomatis (CT), Neisseria gonorrhoeae (NG), Mycoplasma
genitalium (MG), Mycoplasma hominis (MH), Ureaplasma urealyticum (UU), Ureaplasma
parvum (UP), e de Trichomonas vaginalis (TV)). E 19 tipos de diferentes cepas para o
Papilomavírus humano (HPV), sendo 10 (16, 18, 26, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 53, 56, 58,
59, 66, 68, 69, 73, 82) de alto risco e 9 de baixo risco (6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70).
Na população investigada foram detectados 7,8 % (N=9) casos de HPV de alto
risco e 4,3% (N=5) de baixo risco. Entre os tipos responsáveis pelas lesões escamosas
intraepiteliais (SIL), os tipos de HPV 16 e 18 são responsáveis por 70% destas lesões
e do câncer cervical (ROSA et al., 2009). Farias, et al. (2020) ao analisarem amostras
em uma cidade do agreste alagoano verificaram a predominância dos tipos 16 e 58
respectivamente. Fato, esse também verificado no material coletado na população
ribeirinha do baixo São Francisco.
No tocante à avaliação do epitélio do colo uterino, foram coletadas 102 amostras
biológicas, correspondendo a 42% das mulheres que foram atendidas durante o período.
Dessas, 13,73% (N=14) apresentaram lesão intraepitelial escamosa de baixo grau (LSIL)
e 3,92% (N=4) de células escamosas atípicas de significado indeterminado (ASC-US).

16

Tabela 7: Descrição dos resultados da presença de microrganismos identificados em
amostras cervicais de mulheres ribeirinhas atendidas durante a V Expedição Científica
do Baixo Rio São Francisco.

Fonte: Autores desta pesquisa (2023).

Nesse estudo, o microrganismo mais prevalente foi o Ureaplasma parvum com
31,03% (N=36), seguido da análise casada do Ureaplasma parvum e Mycoplasma
hominis com 5,17%(N=6), e pelo Mycoplasma hominis com 4,31% (N=5). As outras
detecções corresponderam a 0,86% (N=1) (Tabela 7).
Estudos correlacionaram a
lesão intraepitelial escamosa de baixo grau (LSIL), o HPV e a infecção por Ureaplasma
parvum (UP). Sugerindo que a infecção por UP e as anormalidades citológicas estão
relacionadas a infecção por HPV (DRAGO et al., 2016; AMORIM et al., 2017). Embora em
nosso estudo a prevalência na população ribeirinha tenha sido 0,86%(N=1) na detecção
do Ureaplasma urealyticum, individual, e 0,86%(N=1) na identificação do Ureaplasma
urealyticum com o Mycoplasma hominis, clinicamente é necessário tratar caso a caso
para quebrar o ciclo da infecção.
Envelhecimento e saúde
Para avaliar a auto percepção de qualidade de vida (QvD) das pessoas idosas
ribeirinhas, foi utilizado o questionário EUROHIS-QOL-8 (PEREIRA et al., 2011), aplicado
com 119 pessoas, dos quais 50,42% (60) eram do sexo feminino e 49,58% (59) do sexo
masculino.
Figura 01: Percepção da QdV avaliada pela escala EUROHIS-QOL-8 das pessoas idosas
ribeirinhas atendidas durante a V Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco, em
2022.

17

Fonte: Autores desta pesquisa (2023).

A maioria dos respondentes avalia a sua qualidade de vida como boa, conforme
a Figura 01, principalmente os moradores das cidades de Penedo, Piranhas e Pão
de Açúcar. O rio São Francisco apresenta uma realidade complexa e dinâmica. Essa
complexidade abrange o aspecto físico e, também, as peculiaridades socioeconômicas,
culturais e identitárias ligados às vivências e aos significados que as pessoas atribuem
ao ambiente em que vivem (SILVA; VARGAS, 2020).
Para entender a percepção do envelhecimento, foram entrevistadas 30 mulheres
do
grupo de 119 pessoas que fizeram parte do estudo. A entrevista foi gravada e teve
duas perguntas norteadoras: “O que é envelhecer para o/a senhor/a?” e “O que significa
envelhecer à margem do Rio São Francisco?”. As participantes eram pessoas fisicamente
ativas, sem dificuldade de mobilidade, e disseram que estavam felizes em envelhecer às
margens do Rio São Francisco. Mas, se ressentem e ficam tristes com a atual condição
do rio. Falaram com tristeza sobre o assoreamento, poluição e a diminuição de peixes.
As entrevistadas deixaram claro como as mudanças que vem acontecendo no rio
São Francisco, têm impactado na condição econômica daqueles que tinham o rio como
fonte de sobrevivência.
Consultas e encaminhamentos para complexidade
Foram realizadas uma média de aproximadamente 120 consultas distribuídas em 09
municípios e em duas especialidades médicas: coloproctologia e síndrome metabólica.
Em relação aos atendimentos para avaliação em gastroenterologia e coloproctologia
tiveram o objetivo de promover e prevenir como também de tratar. Os pacientes foram
avaliados e orientados com medidas higiênico dietéticas, assim como, tratados com
medicações. As queixas mais relatadas pelos pacientes foram constipação intestinal e
sangramentos intestinais baixos, respectivamente, além de dor abdominal, proctalgias
e fissura anal.
Reiteramos que a pesquisa de sangue oculto nas fezes foi utilizada como
estratégia de rastreamento do câncer de intestino, de modo que os casos positivos
foram atendidos por coloproctologista que fez os devidos encaminhamentos de rastreio
complementares. Assim, ressaltamos as contribuições positivas que o rastreamento de

18

sangue oculto nas fezes, pode ter para a identificação precoce e prognóstico adequado
de patologias graves, a exemplo do câncer colorretal (DE PAULA PIRES et al., 2021). Vale
ressaltar ainda, que os casos que necessitaram de encaminhamentos, foram regulados
para os serviços do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes da Universidade
Federal de Alagoas (HUPAA-UFAL). Tratando-se de alta complexidade diagnosticada
in-loco, houve 01 caso de câncer de esôfago em um paciente de Sergipe, o qual foi
encaminhado para o HU da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
No tocante às consultas voltadas às patologias pré-existentes, na avaliação realizada
por um profissional de nefrologia que fez as investigações a respeito das síndromes
metabólicas, foi observado (Tabela 8) na população ribeirinha um porcentual elevado
de Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) e HAS + Diabetes Mellitus (DM) (Tabela 9).
Segundo os dados disponibilizados pela Sociedade Brasileira de Hipertensão (YUGARTOLEDO et al., 2020), temos cerca de 30% da população adulta com diagnóstico de
hipertensão e 6,9% de diabéticos no Brasil. Em 9 dias foi verificado na população
ribeirinha um índice altíssimo de ambas as patologias, em torno de 85% dos pacientes
atendidos tinham HAS e HAS + DM.

Tabela 8: Quantitativo de encaminhamentos realizados durante os atendimentos aos
pacientes na V Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco.

Fonte: Autores desta pesquisa (2023).

19

Tabela 9 - Queixas autorrelatadas e/ou diagnosticadas durante os atendimentos aos
ribeirinhas na V Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco.

Neste sentido, os dados obtidos levam a alguns questionamentos importantes: 1.
Até que ponto a qualidade da água do Rio e seu teor salino podem estar contribuindo
para tal impacto? 2. O tratamento da água para consumo humano é adequado? 3. Os
hábitos alimentares e a qualidade dos alimentos são adequados? Existe o hábito de
realização de atividade física por parte dos pacientes? Estas são questões que precisam
ser melhor investigadas.
Ademais, destacamos que além das avaliações supracitadas, foi realizada também
uma triagem dermatológica, a partir da qual os pacientes identificados (um total de
aproximadamente 35 de diferentes municípios) com problemas dérmicos crônicos
foram encaminhados diretamente ao HUPAA-UFAL.
Considerando o projeto executado e os resultados de análises clínicas efetuadas nos
ribeirinhos distribuídos entre os 9 municípios estudados às margens do baixo Rio
São Francisco, faz-se necessários mais estudos a respeito da situação de saúde desta
população, como por exemplo, investigar a hipótese da existência de uma relação entre
essas enfermidades e a ingestão de água não apropriada para o consumo e também
alimentos oriundos deste ecossistema.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando o período de execução da expedição e subsequentemente realização
dos trabalhos (coletas, consultas e processamento das amostras), observa-se que 95%
dos objetivos foram atingidos, ou seja, as análises foram realizadas, as consultas e os
encaminhamentos também foram executados.
Já temos um perfil socioeconômico da comunidade ribeirinha, assim como, um
perfil epidemiológico definido. Com base nos dados obtidos, observamos que: 1. Em
termos de frequência da ocorrência de parasitoses intestinais, a ancilostomíase se

20

mostrou frequente na região, tendo sido seu agente etiológico (Ancylostoma duodenale)
identificado em 06 cidades ribeirinhas, o que pode ser influenciado por condições
de saneamento básico precário, além disso, destacamos a presença do Schistosoma
mansoni em um dos municípios estudados, o que serve de alerta para a possibilidade
da existência de criadouros do hospedeiro intermediário (caramujo) e casos autóctones
na região ou ocorrência de casos alóctones; 2. Percentual elevado de sangue nas fezes;
3. Alterações dérmicas que requerem alta complexidade (como por exemplo, alguns
cânceres já diagnosticado, porém sem ainda iniciar o tratamento); 4. Alto índice de
diabéticos e hipertensos e, 5. Diversas queixas constantes de constipação intestinal,
independente do sexo.
Dessa forma, ao analisarmos a situação de saúde dos ribeirinhos atendidos pelo
barco da saúde durante a Vª Expedição Científica do Baixo São Francisco, observamos
algumas fragilidades sociais que essa população está a mercê, dentre elas destacamos
a dificuldade de acesso aos serviços de saúde para algumas pessoas que necessitavam
de assistência especializada. Além disso, ressaltamos a ocorrência de infecções e
doenças crônicas não transmissíveis nesta população, que requerem uma intensificação
das ações de vigilância em saúde, assim como o acompanhamento de determinados
pacientes crônicos. À vista disso, nossos resultados contribuem para o desenvolvimento
de políticas públicas em saúde, em prol de uma melhor qualidade de vida para a
população ribeirinha.
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23

2. AÇÕES DE SAÚDE BUCAL NAS COMUNIDADES RIBEIRINHAS
DURANTE A V EXPEDIÇÃO DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Cristiane Ribeiro da Silva Castro11
Daniela Ferreira de Oliveira12
RESUMO
As atividades de cunho educativos e preventivas, são vistas como meio eficaz
para atenuar os efeitos causados pela desigualdade social e que repercutem de maneira
negativa na saúde bucal do indivíduo. Esse trabalho possui como objetivos contribuir
para a melhoria das condições de saúde bucal das populações ribeirinhas por meio
de ações preventivas, realizar um levantamento epidemiológico e gerar dados que
contribuam para o planejamento das ações das equipes de saúde bucal dos municípios.
Trata-se um estudo transversal, descritivo.
O público-alvo foram os escolares da comunidade ribeirinha do Baixo São
Francisco. Atividades educativas sobre prevenção das doenças bucais além da
escovação supervisionada e aplicação tópica de flúor foram realizadas, além de uma
avaliação de cárie dentária nas 519 crianças e adolescentes e alguns responsáveis, com
a distribuição de 700 kits de higiene oral para a população infantil e adulta. A idade
média dos escolares foi de 8,11 anos (±2,68).
A maioria possuía a cor da pele parda, era do sexo feminino e residentes da zona
urbana. De todos os escolares avaliados, 64,4% encontravam sem experiência de cárie
atual ou pregressa. O ceo-d foi de 2,06 e, quanto a sua distribuição percentual, 89,44%
representavam dentes cariados, apenas 4,68% eram obturados e 6,53 com extração
indicada por cárie. O CPO-D foi de 0,81, característico de uma situação de baixa
prevalência. Por meio dos dados epidemiológicos dos escolares é possível subsidiar
o planejamento e a avaliação de ações para este grupo, buscando iniciativas para
intervenções de saúde mais efetivas e promotoras de cidadania.
Palavras chaves: Cárie dental; Saúde coletiva; Saúde bucal: Epidemiologia, Escolares
INTRODUÇÃO
A saúde bucal se mostra como um importante indicador de saúde geral e de
qualidade de vida do indivíduo, sendo a terceira maior demanda por cuidados em saúde
no Brasil (DARLEY et. al., 2021). Os programas de saúde bucal seguem como base um
serviço de saúde democrático, universal, integral e igualitário (OLIVEIRA; FEITOZA,
2021). Contudo, ainda é nítida a deficiência desses programas em muitas comunidades
brasileiras.
A universalização do acesso às ações e serviços de saúde bucal ainda se constitui
um grande desafio das gestões municipais a serem enfrentados para a efetivação do
SUS, como modelo de política pública. Existem discussões acerca de até que ponto se
deve investir em serviços especializados em odontologia ou aumentar os investimentos
na atenção primária como: acesso ao flúor, disseminação das práticas de higiene oral,
já que estes reduzem em grande parte os agravos em saúde bucal (LUZ et. al., 2022).
A prevenção na odontologia tornou-se a palavra-chave para a diminuição dos índices de
11
12

24

Professora Doutora da Faculdade de Odontologia da UFBA;
Cirurgiã-dentista formada pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL);

doenças bucais, principalmente na primeira infância. A escola é vista como um espaço
de privilegiado para o desenvolvimento de ações em educação em saúde bucal, pois é
facilitadora para adoção de medidas preventivas, além de ser importante ambiente de
convivência social, que reúne alunos de diferentes idades e de origens socioeconômicas
variadas (KOHWALD et.al., 2019).
Kohwald (2019) reforça que uma boa condição de saúde, reflete no rendimento
do aluno em sala de aula. Problemas como dores nos dentes levam ao sofrimento do
aluno, e consequentemente prejudicam o rendimento dele na escola.
Outro problema de agravo na saúde bucal, que atinge a população adulta é o
câncer de boca. Ele chega a acometer mais de 14.100 novos pacientes por anos. O
carcinoma epidermoide bucal, é o responsável pela maioria desses casos de neoplasia
maligna em região de boca e com altas taxas de mortalidade (JUNIOR et al., 2013). Um
dos fatores de risco para o câncer bucal é a exposição à radiação solar sem as devidas
proteções. O câncer bucal é uma neoplasia que ainda não é conhecida por todos e nem
mesmo a sua gravidade, principalmente pela população mais pobre, tornando muitas
vezes casos não diagnosticados.
Diante da heterogeneidade socioeconômica do país, nem toda população tem
acesso a saúde pública de qualidade. A saúde bucal é de difícil acesso para muitos
cidadãos, principalmente para aqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade
social. A população ribeirinha é vista como uma comunidade mais carente que sobrevive
do que a natureza apresenta para lhe dar, como a pesca e a agricultura. Nos últimos
anos, a população Ribeirinha da região do Baixo São Francisco vem apresentando
dificuldades em conseguir sua renda, devido as ações antropológicas que acabam
comprometendo a vitalidade do rio São Francisco e consequentemente a qualidade de
vida da população que vive as suas margens.
Para estudar as consequências das ações humanas no Rio São Francisco e seus
ribeirinhos, e de forma conseguinte propor soluções, a Expedição Científica do Baixo São
Francisco realizou mais uma atividade durante o ano de 2022. A V Expedição Científica
do Baixo São Francisco contou com a presença de 64 pesquisadores, durante os dias
03 de novembro ao dia 12 de novembro de 2022, percorrendo 10 cidades banhadas
pelo rio São Francisco e com 35 áreas de pesquisas, que estudaram áreas como: como
aos efeitos da poluição aquática, pesca, qualidade do pescado, perfil socioeconômico
das comunidades, impacto das culturas e de poluentes no rio, avaliação dos efeitos
do assoreamento e do desmatamento na calha do rio, impacto da cunha salina nas
comunidades aquáticas e no ecossistema e seus efeitos na saúde da população
ribeirinha, observando aspectos socioambientais, educação e extensão rural, além da
área de saúde bucal.
A equipe de saúde bucal abordou a promoção e educação em saúde bucal, e
um levantamento epidemiológico de cárie dental nessas comunidades ribeirinhas nos
municípios onde a Expedição esteve, juntamente com palestras sobre câncer bucal para
a população adulta em alguns desses municípios. Os objetivos desse trabalho em saúde
bucal foram: garantir às crianças das populações ribeirinhas acesso a ações educativas
e preventivas em saúde bucal, contribuir para a melhoria das condições de saúde bucal
da população local, realizar um levantamento epidemiológico simplificado, contribuir e
subsidiar o planejamento das ações das equipes de saúde bucal dos municípios.
METODOLOGIA
Este trabalho caracteriza-se como qualitativo, observacional, com metodologia
de pesquisa-ação, onde o estudo e pesquisa das comunidades visitadas foram feitas,
além do desenvolvimento de ações educativas entre os dias 03/11/2022 e 12/11/2022,
cujo público-alvo foi a comunidade ribeirinha do Baixo São Francisco, com foco nas
crianças das escolas públicas dos municípios.

25

O cenário de atuação foi às escolas públicas dos municípios de Alagoas: Piranhas, Pão
de Açúcar, Traipu, São Brás, Igreja Nova, Penedo, Piaçabuçu e em Sergipe, Propriá. Esta
pesquisa- ação em promoção de saúde bucal foi coordenada por uma profissional de
Odontologia, professora do curso de Odontologia da Universidade federal de Bahia
(UFBA) e por uma acadêmica do mesmo curso da Universidade Federal de Alagoas
(UFAL); e contou com o apoio da equipe da 1V Expedição do Baixo São Francisco.
As atividades desenvolvidas para os alunos das escolas municipais foram:
•
•
•
•
•
•
•

Palestra sobre educação em saúde bucal
Ensino de técnica de escovação
Gincana com os alunos sobre alimentos com potencial cariogênico
Levantamento epidemiológico da cárie dental
Distribuição de kits de higiene oral
Escovação supervisionada com aplicação tópica de flúor
Palestra sobre câncer bucal

Todas as ações de saúde bucal realizadas durante a V expedição foram planejadas
e articuladas de forma antecipada com os coordenadores gerais da expedição científica
com os professores, secretários de educação, e saúde de cada município. Foi realizada,
de forma virtual, uma capacitação sobre câncer bucal com os profissionais dentistas
dos municípios, ministrada em parceria com um professor doutor em Estomatologia da
Universidade Federal de Alagoas (Figura 1).

Figura 1: capacitação em Câncer bucal para os dentistas dos Municípios ribeirinhos do
Baixo São Francisco.

As ações foram desenvolvidas nas escolas, onde métodos recreativos auxiliares
foram usados para facilitar o entendimento dos alunos como: palestras sobre ensino
de técnicas de escovação (Figura 2). A ludicidade é uma ferramenta importante para a
aprendizagem de escolares na faixa etária de 3 a 10 anos, a absorção do conhecimento
se dá de forma mais efetiva e os mesmos tendem a propagar o conhecimento aprendido
em casa e em seus ambientes de convivência. As gincanas sobre alimentos com potencial
cariogênico foram realizadas com o intuito de estimular as crianças ao aprendizado
(Figura 3) juntamente com as atividades de desenho e pinturas (Figura 4) pois, ações
como essas efetivam em suas memórias o aprendizado.

26

Figura 2: palestra sobre técnicas de escovação.

Figura 3: gincana sobre alimentos com potencial
cariogênico

Figura 4: atividades de desenho e pintura com as crianças das escolas visitadas

Além das crianças, os pais também foram engajados nas atividades educativas e
realizaram a produção de macromodelos com materiais recicláveis para que as crianças
pudessem fazer uso em atividades educativas em saúde bucal em situações futuras nas
escolas (Figura 5). Essa adesão dos pais é de extrema importância, pois eles passam
a ter motivação e conhecimento da necessidade de estimular e orientar os filhos no
ambiente doméstico.

Figura 5: confecção de macromodelos pelos pais dos alunos

27

Um levantamento epidemiológico foi realizado (Figura 6) com o objetivo de
identificar as condições bucais e índices de cárie dos alunos da quela escola, e através
disso desenvolver dados que possam auxiliar em estratégias adotadas pela secretaria de
saúde do município para abordar e diminuir os níveis de doenças bucais na comunidade,
assim como a forma de tratamento que será abordada nas crianças já acometidas por
enfermidades bucais.
A coleta de dados consistiu no exame clínico dos escolares e aplicação
de questionário individual no momento do exame, após assinatura do termo de
consentimento pelos pais ou responsáveis. O exame clínico foi realizado na escola, em
salas de aulas ou áreas abertas no ambiente escolar, sem profilaxia prévia, à luz natural,
com o auxílio de espátula de madeira e gaze. O diagnóstico da condição de saúde bucal
das crianças registrou a presença/ ausência e severidade da cárie segundo critérios da
Organização Mundial de Saúde (OMS) relativo aos índices ceo-d e CPO-D (OMS, 1999).

Figura 6: levantamento epidemiológico nas comunidades visitadas pela expedição

Foram realizados uma entrevista estruturada e o exame bucal. Na entrevista
realizada com as crianças, utilizou-se um questionário que compreendia – identificação
da criança, informações socioeconômicas como idade da criança em anos, sexo, cor da
pele, município de residência, nome da escola e localização (zona urbana ou rural). Foi
utilizada uma ficha para o exame bucal, onde foram registrados dados referentes à cárie
dentária, conforme os critérios do ceo-d e CPO-D (OMS, 1999).
A coleta dos dados foi realizada pela docente e por equipes de dentistas da rede
de atenção à saúde dos municípios, devidamente treinados. A equipe também era
formada pelos auxiliares em saúde bucal e por uma docente de graduação do curso de
odontologia que aturam como anotadores.
Os instrumentos de coleta de dados foram revisados e os dados digitados no
Microsoft Excel. Para a análise dos dados foi utilizado o programa SPSS. Realizou-se,
inicialmente, a análise descritiva das variáveis de interesse obtendo-se as frequências
simples e relativas para as variáveis categoriais e as medidas de tendência central e
de dispersão para as contínuas. Análises bivariadas foram realizadas posteriormente,
considerando a presença de cárie dentária como efeito principal (variável dicotômica)
e sua associação com as variáveis demográficas. A análise estatística foi realizada por
meio de frequências relativas e absolutas, em gráficos e tabelas; utilizou-se o teste
estatístico qui-quadrado para as variáveis categóricas e o teste estatístico MannWhitney para as contínuas. Adotou-se nível de significância de 5%.
Foi calculado o índice CPO-D para cada escolar participante que apresentasse
dentição mista ou permanente, conforme recomendação da Organização Mundial da
Saúde. Foram estimadas a prevalência de cárie dentária, medida pelo índice CPO-D>0,

28

e sua gravidade (também chamada de experiência ou ataque de cárie dentária), aferida
pelo número médio de dentes cariados ‘C’, perdidos ‘P’ e obturados ‘O’. Como há uma
relação matemática entre experiência de cárie medida pelo índice CPO-D e prevalência
de cárie medida pela porcentagem de indivíduos com CPO-D>0, valores de CPO-D
entre 2,7 e 4,4 são indicativos de nível moderado de cárie ou prevalência moderada;
valores entre 1,2 e 2,6 são indicativos de prevalência baixa; e valores inferiores a 1,2
refletem uma prevalência muito baixa (WHO, 2003).
RESULTADOS
Foi realizada a distribuição de kits de higiene oral para os estudantes (Figura
7). Foram 700 kits distribuídos, sendo 450 doados pela Colgate e 250 cedidos pelas
prefeituras locais, todos os kits possuíam uma escova de dente e um creme dental. A
escovação supervisionada com aplicação tópica de flúor foi feita com o objetivo de
prevenção de novas lesões cariosas nas crianças, visto que em muitos locais visitados
não existe a fluoretação da água potável (Figura 8).

Figura 7: doação de kits de higiene bucal

Figura 8: escovação supervisionada e aplicação tópica de flúor

29

Devido o relato de casos ocorridos e por se constituir em uma população exposta
à exposição solar em sua atividade laboral, a equipe de saúde bucal nessa V expedição
introduziu a realização de palestras sobre câncer bucal em algumas comunidades
do Baixo São Francisco (Figura 9). O público-alvo foi adultos, trabalhadores rurais,
pescadores e domésticas lavadeiras de roupa pois, são pessoas que se expões
constantemente a radiação solar e sem as devidas proteções. Por ser comunidades
em situação de vulnerabilidade social, é sabido da falta de recursos para a compra de
protetores solares.
As orientações seguiram para o uso alternativo de chapéus com grande área de
proteção, camisas que cubram os membros superiores e vestimentas que possam cobrir
a maior área do corpo possível, e assim diminuir de alguma forma a exposição solar, com
a necessidade do uso do bloqueador solar para quem possuir condições financeiras de
adquiri-lo. Foi orientado sobre os sinais e sintomas do câncer bucal, como surgem as
primeiras lesões, a forma de se realizar o autoexame e da necessidade de buscar ajuda
odontológica ou médica ao primeiro sinal de alterações no sistema bucal, pois quanto
mais cedo o diagnóstico e cuidados são feitos, melhor o prognóstico.

Figura 9: palestras sobre câncer bucal para a população ribeirinha

CARATERIZAÇÃO DA POPULAÇÃO DE ESTUDO
A amostra não probabilística constituiu-se de 509 crianças e adolescentes
estudantes de escolas públicas, com idades entre 3 e 18 anos das comunidades ribeirinhas,
que compareceram no dia da avaliação e que apresentaram o consentimento pelos pais/
responsáveis, por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Foram avaliadas também 10 mães que estavam acompanhando as crianças. A maioria
das pessoas (37,52%) era residente do município de Propriá-SE.
Todas as crianças e adolescentes presentes nas comunidades no dia do estudo foram
incluídos e examinados. A idade média foi de 8,11 anos (±2,68) e mediana 8 anos. A
maioria (65,62%) possuía a cor da pele parda, era do sexo feminino (50,79%), residentes
da zona urbana (68,76%) (Tabela 1). Para as mães avaliadas a idade média foi de 35,7
anos (± 6,51), variando de 21 a 43 anos.
A maioria dos programas de saúde bucal tem como público-alvo crianças entre
06 e 11 anos de idade, o que vem se configurando como uma tendência ao longo da
história. Entretanto, é necessário que as ações coletivas e clínicas odontológicas também
sejam direcionadas para outros grupos etários, especificamente os pré-escolares e
adolescentes, haja vista que estes grupos concentram uma alta prevalência de cárie
dentária e índices precários de higiene bucal (TAGLIETTA et al., 2011). Neste trabalho,
foram incluídos esses grupos etários, pois a idade variou de 1 a 17 anos.

30

Tabela 1. Características sociodemográficas da população de estudo, Baixo São
Francisco, 2022 (n= 509).

31

Condição de saúde bucal
Apesar dos avanços da odontologia no que se refere ao conhecimento e às
práticas de prevenção e tratamento das doenças bucais, é comum encontrar crianças
e adolescentes acometidas pelas principais doenças bucais, como a cárie, a doença
periodontal, a má oclusão e os traumas dentários. A cárie e a doença periodontal são
alterações bucais relacionadas com a presença do biofilme dental e podem ser prevenidas
e controladas através de estratégias comuns, como a escovação supervisionada, correto
uso do fio dental e outras estratégias relacionadas com a higiene bucal. Além disso,
para a cárie, o flúor ainda é um elemento essencial para o seu controle, sobretudo a
nível populacional em países marcados pelas desigualdades sociais (RUFF et al., 2018).
As lesões de cárie quando não tratadas podem causar dor, infecções, problemas
na mastigação, na fala, comprometimento estético e psicossocial, além de mudanças
no comportamento, como incapacidade de concentração na escola, baixa autoestima e
relações sociais prejudicadas. Também são observados problemas de ordem sistêmica,
como retardo do crescimento, baixo peso corporal e altura em crianças com lesões
cariosas (LOSSO et al., 2018). O processo carioso influencia a qualidade de vida desde
a primeira infância, podendo se estender até a adolescência e vida adulta (RUFF et al.,
2018).
De todos os escolares avaliados, 64,4% encontravam sem experiência de cárie atua
ou pregressa. Em relação à condição de saúde bucal na dentição decídua, 40,18% dos
escolares avaliados encontravam-se livres de cárie, percentual inferior ao encontrado no
ano anterior na IV Expedição que foi de 45,1%. O ceo-d foi de 2,06 (DP=1,41) e, quanto
a sua distribuição percentual, 89,44% representavam dentes cariados, apenas 4,68%
eram obturados e 6,53 com extração indicada por cárie (Gráfico 1). O que significa
dizer que há uma presença da doença ativa, com necessidade de tratamento e um baixo
acesso à atenção à saúde bucal. Esse resultado está de acordo com o encontrado em
todos os estudos nacionais avaliados e denota uma alta necessidade de tratamento
dessas crianças (PERES et al., 2003).
Entre os distúrbios odontológicos evitáveis na infância, a cárie dentária é a mais
prevalente, ainda sendo um problema de saúde bucal que resulta em impactos negativos,
apesar da acentuada redução em crianças e adolescentes no Brasil e o no mundo ao
longo dos anos (BRIZON, 2014). Impactos causados por esta doença afetam a qualidade
de vida das crianças, podendo comprometer o desenvolvimento e a participação em
atividades importantes, como os seus estudos. Apesar da possibilidade da interrupção e
reversão em seus estágios iniciais, sem os cuidados necessários, a cárie pode progredir
e levar à destruição e à perda do dente. A perda dentária prematura pode interferir no
desenvolvimento, nas funções orofaciais, prejudicando a fala, mastigação e deglutição
(WHO, 2011).

Gráfico 1: Composição percentual do ceo-d

32

Com relação à experiência de cárie na dentição permanente, 31,85% dos escolares
apresentavam pelo menos um dente atacado por cárie. O CPO-D foi de 0,81 (DP=1,31),
característico de uma situação de baixa prevalência (WHO, 2003). Quanto à distribuição
percentual do CPO-D, 93,3% representavam dentes cariados, 3% eram obturados e 3,7%
extraídos por cárie, o que se constitui em perda precoce dos elementos dentários na
faixa etária avaliada e demonstra uma alta necessidade de tratamento (Gráfico 2).

Gráfico 2: Composição percentual do CPO-D

Apesar do declínio da cárie no Brasil e no mundo, este agravo bucal ainda
é considerado o mais comum em crianças e adolescentes, ocasionando graves
consequências para o seu desenvolvimento, podendo levar também à perda dentária
precoce (BRASIL, 2012).
Diante desse quadro epidemiológico, a literatura revela que os programas de
saúde bucal podem contribuir para a prevenção e controle dos principais problemas
bucais, especialmente a cárie dentária, atuando para a mudança de hábitos mais
favoráveis à saúde (NAKRE; HARIKIRAN, 2013). A escola é o ambiente ideal para a
realização de programas de saúde, pois ela auxilia o desenvolvimento integral das
crianças, estimulando sua aprendizagem e novas habilidades (NERY, 2019).
Dos 353 escolares avaliados quanto à ocorrência de fluorose dentária, 23
apresentavam fluorose o que representa uma prevalência de 6,52%. Sendo que a maioria
dos casos foram de escolares de Propriá. Calculando a ocorrência nesse município,
encontra-se uma prevalência de 7,89%, percentual menor do que encontrado no ano
anterior e, quando comparado ao resultado no último levantamento nacional, maior do
que a prevalência de 3,68% da Região Nordeste (BRASIL, 2011). Os estudos no Brasil
mostram uma prevalência baixa e muito variável de fluorose, desde 3% no município de
Catalão-GO, para crianças de sete a 12 anos, até 63,7%, em escolares de quatro a 18 anos
do município de Santa Tereza-RS (SOARES et al., 2012).
O traumatismo buco-dentário é um sério problema de saúde que pode acarretar
dor, perda de função, estética pobre e problemas psicológicos, tanto para a criança
quanto para os seus pais (SOUSA et al., 2008). Tem sido considerado um problema
de saúde pública, afetando cerca de 4 a 33% da população, principalmente crianças e
adolescentes (cravalho et al., 2020). De cordo com Segundo Andreasen e Andreasen
(2001), as injúrias traumáticas afetam principalmente crianças, sendo o seu pico de
incidência dos 2 aos 4 anos e dos 8 aos 10 anos de idade, sendo a maior prevalência para
o sexo masculino. Nesse estudo, foi encontrada uma prevalência 3,42% de traumatismo
dentário, sendo 58,3% dos casos em meninos.
Os resultados do levantamento epidemiológico realizado evidenciam, em parte,
a lacuna na atenção à saúde bucal dos municípios avaliados. Embora a maioria deles
tenham uma alta cobertura das equipes de saúde bucal na Estratégia Saúde da Família
(ESF), alguns pontos podem ser identificados como limitadores do acesso aos serviços.

33

Dentre eles, a falta do desenvolvimento de ações educativas e de prevenção pelos
profissionais de saúde bucal dos municípios, a dificuldade de acesso ao atendimento na
Unidade Básica de Saúde (UBS) em áreas sem ESF, a distância de muitos povoados até
a UBS, a existência de áreas descobertas pela ESF, a sobrecarga dos profissionais das
equipes diante de uma demanda acumulada de ações curativas. Tais aspectos sinalizam
a necessidade do desenvolvimento de ações preventivas de forma continuada, de maior
envolvimento dos gestores, maior compromisso dos profissionais de odontologia e
melhor acesso à informação pela comunidade. Uma grande limitação relaciona-se às
práticas de educação em saúde que precisam ser permanentes para se consolidarem.
Por meio dos dados epidemiológicos dos escolares é possível subsidiar o
planejamento e a avaliação de ações para este grupo, buscando iniciativas para
intervenções de saúde mais efetivas e promotoras de cidadania. Ambientes com o maior
número de pessoas são locais importantes para a promoção da saúde. Sabe-se que vários
fatores podem influenciar os hábitos dos indivíduos, inclusive o ambiente em vivem
(FONSÊCA et al., 2020). A escola é um dos melhores locais para o desenvolvimento de
habilidades e adoção de hábitos saudáveis (NERY et al., 2019).
Nos últimos anos, chama a atenção a avaliação positiva da efetividade das ações
educativas em saúde bucal implementadas através dos programas com escolares no
Brasil e no mundo. Os resultados destes programas são importantes, pois ajudam os
gestores a alocar recursos e formular estratégias de políticas públicas mais eficazes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os programas de saúde bucal são de suma importância para a sociedade, pois
promovem a conscientização e a valorização do conhecimento e da prevenção em
prol da autonomia das práticas de saúde. Por isso torna-se importante e essencial o
levantamento epidemiológico ou diagnóstico inicial para orientar o planejamento e
avaliação dos programas de saúde bucal. Sendo necessário o envolvimento do sujeito,
membros familiares, equipe de saúde, escola, comunidade e os agentes comunitário de
saúde (ACS).
A atuação das equipes de saúde bucal voltada para os escolares representam
estratégias importantes e efetivas para o controle dos agravos bucais, contribuindo
para a qualidade de vida de crianças e adolescentes, fazendo-se necessário o incentivo
de Programa Saúde na Escola (PSE), envolvendo equipes multidisciplinar, garantindo o
acesso a saúde de forma integral, interligada, de acordo com as reais necessidades de
cada população, principalmente para os grupos que estão em situação de vulnerabilidade
social como é o caso das comunidades ribeirinhas.
AGRADECIMENTOS
A toda equipe da V Expedição Científica do Baixo São Francisco, as comunidades
ribeirinhas pela qual passamos e desenvolvemos nosso trabalho, assim como a gestão
de cada município que deu apoio e suporte logístico, a Colgate-Palmolive pela doação
dos kits de higiene bucal, e a Universidade Federal de Alagoas por todo, nossos
agradecimentos.

34

REFERÊNCIAS
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36

ANÁLISE DE ÁGUA E PEIXES

37

3. ANÁLISE FÍSICO-QUÍMICA E MICROBIOLÓGICA DA
ÁGUA EM MUNICÍPIOS DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Hanna Francyelle Barbosa Costa13
Fábio Francisco da Silva 14
Lívia Almeida de Souza15
Alexandre Santos da Costa16
Anita Neves Santisteban17
Themis de Jesus da Silva18
Emerson Carlos Soares19
INTRODUÇÃO
De acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA, 2015), a região hidrográfica
do São Francisco conta com aproximadamente 638.466 km2 de área, sendo 7,5% deste
do território nacional, envolvendo sete unidades da federação, são elas, Bahia, Minas
Gerais, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Goiás, e Distrito Federal.
O Rio São Francisco nasce em Minas Gerais, na Serra da Canastra e chega à sua foz,
no Oceano Atlântico, entre Alagoas e Sergipe percorrendo cerca de 2.800 km de
extensão.
A região envolve parte da região do semiárido, a cerca de 58% do território da região
hidrográfica (ANA, 2015). Esta Região está dividida em quatro unidades hidrográficas,
são elas: Alto São Francisco, Médio São Francisco, Submédio São Francisco e Baixo São
Francisco.
De acordo Lustosa et al (2008), no Baixo São Francisco, há elevação das atividades
agrícolas e turísticas que são condicionados a boa qualidade ambiental do rio São
Francisco, porém são muitos os impactos negativos em toda a sua extensão, entre os
quais destacamos o desmatamento de suas margens, a poluição, as grandes hidrelétricas,
bem como a introdução de espécies invasoras. O rio apresenta alto potencial e garante
fornecimento de energia elétrica, contribui para a irrigação, agricultura, abastecimento
de água, pesca e navegação para diversas regiões, com isso há a necessidade de
conciliar os diversos usos da água bem como a manutenção da qualidade dela para
a sobrevivência dos organismos aquáticos que ali vivem. Sendo necessário medidas
para o controle da vazão de água e geração de energia. Sendo fundamental, visto que
passa por cinco estados do sudeste até o nordeste do Brasil, além de ter suas águas
redirecionadas artificialmente para abastecer outros estados que sofrem com escassez
13
Mestranda, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Programa de Pós-Graduação
em Recursos Hídricos e Saneamento (UFAL)
14
Mestre em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
15
Graduanda em zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
16
Graduando em Agroecologia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de
Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
17
Graduando em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
18
Professora, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
19
Professor, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

38

de abastecimento (MESCOLOTTI et al.,2021).
Com o crescimento da agricultura seguida do uso de agroquímicos, a poluição
decorrente de efluentes lançados sem tratamento faz com que a bacia do rio enfrente
inúmeros problemas de assoreamento (ANA, 2021). A poluição difusa é uma das mais
importantes causas de poluição das águas em bacias hidrográficas. Segundo Lucas et al
(2010), em consequência dessas atividades são as concentrações de nutrientes e metais
acima dos limites exigidos pela resolução de ecossistemas aquáticos que estabelece os
critérios para classificação e diretrizes ambientais. Grizzetti et al (2016), reforça que
a poluição do corpo hídrico pode destacar os principais fatores: produtos químicos,
patógenos, salinização e sedimentos. Vários destes contaminantes apresentam alta
toxicidade e insistem em permanecerem em ambientes como ar, água, solo e sedimentos
mesmo em concentrações baixas (SAQUIB et al 2021).
A expansão desordenada da população próximo aos corpos hídricos tem causado
grandes alterações na rede de drenagem, como o desaparecimento de alguns canais e
a artificialização de outros. De acordo com Melo et al (2018), o lançamento inadequado
de diferentes fontes contribui para a degradação desses corpos hídricos, impactando
as características do solo e da água contaminando o meio ambiente.
Segundo Illi et al (2003), a análise de coliformes em ambientes aquáticos fornecem
informações confiáveis para avaliação dos aspectos sanitários. Estes atuam como
indicadores de poluição fecal, pois estão presentes no trato intestinal de animais que
eliminam grandes quantidades nas fezes.
Os indicadores microbiológicos específicos da água são estudados através
de análises e biomonitoramento, os mais comuns pesquisados pertencem a família
Enterobacteriaceae (MATTOS; SILVA, 2002). Em estudos limnológicos, os coliformes
proveniente de fezes de animais, que se multiplicam com maior frequência na água,
atraem grande atenção da saúde pública, pois estão diretamente relacionados a várias
patologias e são responsáveis pela causa da maioria das doenças intestinais infecciosas
em humanos (ANDRADE, 2008; NASCIMENTO; ARAÚJO, 2013).
Desta forma e levando em consideração a problemática em termos de qualidade
e disponibilidade de água para o consumo humano, faz-se necessário o monitoramento
que assegure a qualidade de água para este fim, atendendo as legislações vigentes.
O monitoramento da qualidade de água pode ser feito a partir de análises mediante
variações físicas, químicas e microbiológicos que possuem relação com as atividades
antrópicas, variações de vazão e até fenômenos naturais (BRITTO et al, 2018).
Neste caso pode-se dizer que as características de uma determinada água está
relacionada às condições naturais, do seu uso e ocupação da terra na bacia hidrográfica
(VON SPERLING, 2005). Diante disto, a gestão destes recursos hídricos deve ser
descentralizada e contar com a participação do poder público, dos usuários e das
comunidades através dos Comitês de Bacias Hidrográficas (MOTA, 2012).
Deste modo, a avaliação hídrica dentro dos padrões vigentes é de grande importância
para caracterizar o meio aquático e assim, avaliar os fatores que inviabilizam o uso da
água para o abastecimento humano, produção de alimentos, entre outros, assim proteger
as comunidades aquáticas, bem como incentivar políticas públicas de fiscalização.
Como indicadores ambientais e de qualidade de água, foram adotados os padrões
estabelecidos pela Resolução Conselho Nacional de CONAMA 357/05, em função da
classe do uso que dispõe sobre a classificação de água doce classe 2. Bem como a
Portaria 1.469 - Controle e Vigilância da Qualidade de Água para Consumo Humano e
seu Padrão de Potabilidade.
Consolidação nº 5 de 28 de setembro de 2017, que adota os padrões microbiológicos
de potabilidade e aceitabilidade para o consumo humano.
Com isto, o objetivo deste trabalho foi avaliar a qualidade da água de sessenta amostras
e suas respectivas variáveis em dez municípios do baixo São Francisco, oriunda de
coletas da V Expedição Científica realizada em novembro de 2022.

39

METODOLOGIA
As coletas foram realizadas na região do Baixo São Francisco nos municípios de
Piranhas (AL), Pão de Açúcar (AL), Traipu (AL), São Brás (AL), Propriá (SE), Igreja Nova
(AL), Penedo (AL), Piaçabuçu (AL), Brejo Grande (SE) e Foz, durante a V Expedição
Científica entre os dias 03 e 12 de novembro de 2022. Em cada município foram coletadas
amostras de água, na superfície (cerca de 50 cm de profundidade da lâmina d’água) a
montante, ponto do barco e a jusante.
Análise dos parâmetros físico-químicos da água.
As amostras foram armazenadas em recipientes estéreis de polietileno com 250mL
de volume útil, as garrafas estavam devidamente identificadas, e foram mantidas sob
refrigeração em caixas térmicas durante a coleta até o deslocamento para o laboratório
onde foram armazenadas em refrigerador com temperatura de 8°C até o momento da
análise. As análises foram realizadas no Laboratório de Aquicultura e Análises de Água
LAQUA (CECA-UFAL).
As variáveis físico-químicas: condutividade elétrica, potencial de óxido-redução,
oxigênio dissolvido, pH, resistividade, salinidade, totais de sólidos dissolvidos,
temperatura da água e turbidez, foram mensuradas in situ, utilizando a sonda
multiparamétrica (modelo HI 9829, HANNA Instruments), (figura 1).
Figura 1. Análise das vaiáveis físico-químicas e coleta de água da V Expedição Cientifica
do Baixo São Francisco.

Fonte: LAQUA (2023).

Os parâmetros como, amônia (NH3-N), sulfato (SO₄²-), fosfato (PO₄³-), fósforo
(P), nitrito (NO2-N), nitrato (NO3-N), ferro (Fe), manganês (Mn), cobre (Cu), zinco
(Zn), potássio (K), foram analisados através do fotômetro de medição multiparâmetro
(Modelo 83399, HANNA Instruments), (figura 2). Para comparar as variáveis entre as
médias, foi realizada análise de variância (ANOVA) para determinar se houve diferença
significativa entre as medianas dos diferentes grupos.
Figura 2. Análise química das varáveis de água da V Expedição Cientifica do Baixo São
Francisco. Análise microbiológica (Coliformes totais e Escherichia coli)

40

Fonte: LAQUA (2023).

Para as análises de coliformes totais e E. coli as amostras de água foram coletadas
em frascos de polietileno de 250mL sendo então refrigeradas até análise. Em laboratório
realizou-se as análises seguindo o protocolo conforme descrito no kit do AQUATESTE
COLI (ONPG-MUG; LaborClin - BRASIL), registrado na ANVISA sob o número
100.970.10.149. Para isso, a cada 100mL de amostra foi acrescentado um flaconete de
meio de cultura, conforme protocolo da empresa, após a completa diluição, alíquotas
de 20mL foram transferidas para 5 tubos em vidro estéreis (Fluxograma 1).
Fluxograma 1: Substrato para detecção quantitativa e qualitativa de coliformes totais e
E. coli em amostras de água.

Fonte :adaptado, LAQUA, 2021

41

Em seguida, as alíquotas foram incubadas em estufa bacteriológica a 35±0,5°C
durante 24h. A confirmação de positivo nas amostras para coliformes totais foram
verificadas visualmente por desenvolvimento de cor amarela no meio de cultura, sendo
a presença de E. coli detectada pela observação de fluorescência azul esverdeada
emitida pela amostra quando submetida à exposição de luz UV (365nm) em câmara
escura (Figura 3).
Figura 3: Incubação em estufa bacteriológica por 24 horas, em seguida leitura em
câmara escura.

Fonte: LAQUA (2023).

A análise quantitativa foi realizada após a contagem de tubos positivos usando a
tabela de Número Mais Provável/100mL (NMP), (tabela 1), conforme descrito no kit do
AQUATESTE COLI.
Tabela 1: Número mais provável NMP /100mL.

Fonte: AQUATESTE COLI, 2018.

Para os indicadores ambientais e microbiológicos da qualidade de água, foram
preconizados os padrões estabelecidos pela Resolução CONAMA 357/05, em função da
classe do uso que dispõe sobre a classificação de água doce. Bem como a Portaria de
Consolidação nº 5 de 28 de setembro de 2017 e a Portaria Gabinete do Ministro/Ministério
da Saúde Nº 888, de 4 de maio de 2021 que estabelece o padrão microbiológico de
água para consumo humano com ausência em 100mL da amostra para coliformes totais
e E. coli.

42

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Análise dos parâmetros físico-químicos da água
Os parâmetros físicos e químicos são determinados por características próprias
de cada bacia hidrográfica como condições de clima, geologia, relevo, uso, cobertura
vegetal, matéria orgânica e inorgânica na água (SPERLING, 2005).
Cobre (Cu)
O cobre é um componente natural do ambiente aquático e pode ser encontrado
nas formas, coloidal, dissolvido e particulada. Industrialmente o cobre é um dos metais
mais importantes, é um bom condutor de eletricidade usado na confecção de cabos e
fios, e ligas metálicas como latão de bronze (SOUZA et al, 1998). É largamente utilizado
em formulações de fungicidas, bactericidas, algicidas e fertilizantes (BURATINI;
BRANDELLI, 2006).
No presente trabalho os níveis de cobre entre os municípios estudados no Baixo
São Francisco, não apresentaram diferença significativa (p < 0,05), (Tabela 2).
Tabela 2: Análise de variância (ANOVA).

Fonte: LAQUA (2023).

Porém, ao observar as cidades de Propriá (SE) e Igreja nova (AL), pode-se notar
os maiores níveis da variável cobre como mostra o (Gráfico 1).
Segundo Souza (2004), os impactos gerados no meio ambiente através da mineração
de cobre ocorrem principalmente em águas superficiais, subterrâneas e no solo.
Podem levar indiretamente à erosão, destruição das áreas de vegetação, diminuição da
biodiversidade, poluição dos aquíferos e corpos d’água.
A concentração de cobre em ambientes aquáticos não é o único fator que
determina a ocorrência de efeitos adversos. Sua toxicidade varia em função das variações
nas características físico-químicas da água, como por exemplo, compostos orgânicos
dissolvidos, temperatura, pH, partículas suspensas, cátions e ânions inorgânicos,
envolvendo também o que determinam dureza e alcalinidade (GROSELL et al, 2002).
Embora o cobre acabe sendo carreado para a profundidade, depositando-se no
sedimento, é comum encontrar resíduo de cobre dissolvido em águas de reservatórios,
especialmente, em localidades onde a aplicação é mais forte (MOZETO; ZAGATTO,
2006).

43

Gráfico 1: Intervalos de cobre (mg/L) versus município.

Fonte: LAQUA (2023).

O cobre pode afetar o metabolismo dos peixes de diversas formas, sendo
possível várias possibilidades em analisar os efeitos tóxicos deste metal nos organismos
(OLIVEIRA et al, 2018). Para Sampaio (2013), as brânquias dos peixes são a principal via
de absorção de metais, representando ampla área de superfície.
O cobre pode competir com outros cátions na água salgada, minimizando o acúmulo
no ligante biótico e sua toxicidade. Sendo assim, a alta salinidade pode ter um efeito de
defesa contra sua toxicidade (COOPER et al. 2014).
É comumente mais tóxico presente em água doce devido sua capacidade de
concorrer com outros cátions na interação com os sítios sensíveis do organismo. De
acordo com Cooper et al (2014), organismos osmorreguladores absorvem sais em água
doce e excretam sais em água salgada para manter seu equilíbrio osmótico, aumentando
a absorção de cobre em água doce e, assim, sua toxicidade. De acordo com a Resolução
CONAMA 357/2005 o valor máximo permitido do cobre é de 0,009 mg/L para água
doce classe 1 e 2. Os efeitos tóxicos das substâncias dependem de vários componentes,
incluindo a natureza do agente químico, a via e exposição, o local de atuação, vias
metabólicas e a dose (SAMPAIO, 2013).
Condutividade Elétrica (µs/cm)
Esta variável refere-se à capacidade que a água tem de conduzir corrente elétrica
mediante a presença dos íons e tem correlação significativa com aproximadamente
dez outros parâmetros tais como: pH, temperatura, dureza, cálcio, alcalinidade, sólidos
totais, demanda química de oxigênio, cloreto e ferro (PATIL et al.2012). Nas legislações
brasileiras vigentes não se tem um valor superior permitido para esse parâmetro. No
entanto, as variações de valores na condutividade da água podem não causar problemas
imediatos ao ser humano, mas é um indicativo de contaminação do rio por meio de
despejos industriais e até mesmo assoreamento das margens.
Não se tem limite máximo permitido estabelecido para condutividade elétrica
na Resolução CONAMA 357/2005. Segundo Morais (2008), valores acima de 100 μS/
cm indicam ambientes impactados. De acordo com Almeida (2010), quanto maior a
expressão salina de uma solução, maior a condutividade elétrica. Em vista disso, a
medida da condutividade elétrica é um indicador do perigo de salinidade do solo.

44

A condutividade elétrica foi significativa (p < 0,05), em relação aos municípios
estudados no Baixo São Francisco (Tabela 3).
Tabela 3: Análise de variância (ANOVA)

Fonte: LAQUA (2023).

Os maiores valores de condutividade elétrica encontrados neste estudo foram nas
cidades de Traipu (AL) em seguida Piaçabuçu (AL), como mostra o (Gráfico 2). Dados
de Brito et al. (2020 apud VIEIRA, 2010), mostraram que as variações de condutividade
elétrica podem estar relacionadas a presença de efluentes no corpo hídrico e à influência
direta dos períodos chuvosos (SOUZA et al. 2014).
Gráfico 2: Intervalos de condutividade elétrica (µs/cm) versus município

Fonte: LAQUA (2023).

Os solos que têm condutividade elétrica até 250 μS/cm-1, a 25 °C, apresentam
baixo risco de salinização (FIGUEIRÊDO, 2005). Como observado Traipu e Piaçabuçu
apresentaram condutividade elétrica entre 475 e 350 μS/cm, respectivamente, neste
caso ambos apresentaram risco de salinização do solo, pois os valores de condutividade
foram maiores que 250 μS/cm-1.
Sólidos Totais Dissolvidos (TDS)
Os sólidos totais dissolvidos constituem um parâmetro relevante acerca do
ambiente aquático visto que a presença desses sólidos podem ser prejudiciais ao corpo
hídrico e aos peixes (CETESB,2009). Para sólidos dissolvidos totais houve diferença
significativa (p < 0,05), entre os municípios estudados no Baixo São Francisco (Tabela
4).

45

Tabela 4: Análise de variância (ANOVA).

Fonte: LAQUA (2023).

O estudo deste parâmetro está relacionado a danos causados aos peixes e a vida
aquática. Concentração de TDS potencializada por compostos resultante da intervenção
humana, pode causar alterações nas propriedades físicas, químicas e biológicas dos
mananciais. Os sólidos têm capacidade de sedimentar no leito dos rios, acabar com
organismos que disponibilizam alimentos, soterrar os leitos de desova de peixes. Além
de tudo, podem reter bactérias e resíduos orgânicos no fundo dos rios, ocasionando
deterioração anaeróbia, reduzindo o nível de oxigênio nos corpos hídricos (PHILIPPI JR;
ROMERO; BRUNA, 2004).
Os resultados de TDS (Gráfico 3) permite evidenciar a diferença nos municípios
de Traipu em seguida Piaçabuçu em relação as demais cidades.
Gráfico 3: Intervalos de TDS (mg/L) versus município.

Fonte: LAQUA (2023).

Os valores de sólidos totais nos municípios de Traipu e Piaçabuçu apresentaram
maiores concentrações de sólidos totais com relação os demais municípios. Mesmo
com diferenças significativas entres os outros pontos, o TDS estão dentro os limites
preconizados pela Resolução CONAMA 357/2005 para águas doces de classe 2. Segundo
Poleto et al. (2010), estas diferenças podem estar associadas a ausência de mata ciliar
ao redor do rio, uma vez que ela impede a erosão constante e o consequente despejo
de sólidos (SALAMENE et al. 2011).
De acordo com suas características químicas, tamanho e decantabilidade, os
sólidos podem sem agrupados como: sólidos em suspensão, sólidos dissolvidos, sólidos
voláteis, sólidos fixos, sólidos em suspensões sedimentáveis e sólidos em suspensão
não sedimentáveis. Os componentes dissolvidos representam sólidos em solução
verdadeira e constituem a salinidade total das águas (VON SPERLING, 2005). De forma

46

resumida, o que define as várias frações de sólidos presentes na água são as operações
de secagem, calcinação e a filtração. A água com excessivos teores de sólidos dissolvidos
totais não é apropriada, independentemente de seu uso. Quando apresenta menos de
500mg/L é considerada satisfatória para diversos usos, sejam eles domésticos e/ou
industriais. Porém, acima de 1000mg/L apresenta sabor desagradável em decorrência
da presença de minerais que confere esse sabor, o que a torna insatisfatória para vários
usos (CARVALHO, OLIVEIRA, 2003). O valor máximo permitido de TDS em águas doces
de classe 2 é 500 mg/L (CONAMA 357/2005).
Turbidez (FNU)
A turbidez da água está relacionada à presença de materiais sólidos em suspensão
que diminuem a sua transparência. Pode ser ocasionada pela presença de algas,
plâncton, matéria orgânica entre outros parâmetros como o zinco, ferro, manganês e
areia, pode ser decorrente do processo natural de erosão ou de efluentes domésticos e
industriais que provocam elevações na turbidez das águas (MOURA, 2017).
Para turbidez houve diferença significativa (p < 0,05), em relação aos municípios
estudados no Baixo São Francisco (Tabela 4).
Tabela 4: Análise de variância (ANOVA).

Fonte: LAQUA (2023).

Os resultados (Gráfico 4), permite observar variação da turbidez entre os municípios do
Baixo São Francisco.
Gráfico 4: Gráfico de Intervalos de Turbidez (FNU) versus Município.

Fonte: LAQUA (2023).

47

Os valores encontrados para turbidez nos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar,
Traipu e São Brás estão dentro da faixa estabelecida pelo CONAMA 357/05 no valor
máximo de 100 UNT, para corpos de água de classe 2, e pelo Ministério da Saúde da
Portaria 1.469/2000, onde volume máximo permitido em atendimento ao padrão de
aceitação para consumo humano é de 5UT.
Mesmo apresentando características físico-químicas satisfatórias, uma água limpa
e transparente sempre terá unidades de turbidez até 1 UT. Isso acontece provavelmente
devido a tubulações em estado de oxidação e possíveis partículas dessa ferrugem
possam aumentar as unidades de turbidez. Durante o período chuvosos a turbidez
tende a aumentar em consequência de material do solo carregados para dentro do
corpo hídrico (SOUSA et al. 2015).
A alta turbidez diminui a fotossíntese da vegetação enraizada e das algas. Essa
diminuição no desenvolvimento das plantas pode acabar com a produtividade dos
peixes. Brevemente, a turbidez pode interferir nas comunidades biológicas aquáticas.
Além de que, prejudica seu uso a nível doméstico, industrial e recreacional (COMPANHIA
DE TECNOLOGIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL, 2009).
Oxigênio Dissolvido (OD)
O Oxigênio Dissolvido é uma variável analítica usada em várias áreas, tanto na
indústria de alimentos e bebidas usado para monitorar os processos fermentativos
e oxidativos levando em consideração a quantidade presente no meio (NEVARES
et al. 2017; PÉNICAUD et al. 2010) como na aquicultura, utilizada para garantir uma
concentração de oxigênio adequada para o desenvolvimento e sobrevivência dos
peixes (NOOR et al., 2016) e na definição de águas naturais e residuais. O oxigênio
dissolvido é um importante indicador das condições de poluição por matéria orgânica,
e consequentemente à sobrevivência de espécies aeróbias. Quando em concentrações
mais baixas, passa a conferir características indesejáveis ao corpo hídrico, tornando-o
inapropriado ao abastecimento público.
Em vista disso, uma água não poluída deve estar saturada de oxigênio. De outra
forma, níveis baixos de oxigênio dissolvido podem indicar que houve grande atividade
bacteriana decompondo a matéria orgânica lançada no ambiente aquático (MOTA,
2012). De acordo coma análise de variância, o oxigênio dissolvido apresentou diferença
significativa (p < 0,05) entre os municípios estudados no Baixo São Francisco (Tabela
5).
Tabela 5. Análise de variância (ANOVA).

Fonte: LAQUA (2023).

Segundo Collischonn e Dornelles (2013), existe um limite superior no teor de
oxigênio dissolvido de acordo com as condições de temperatura e pressão atmosférica,
denominada concentração de saturação, de acordo com Wef (2006), esta concentração
de saturação tem relação negativa com os sólidos dissolvidos, uma vez que maximiza
conforme haja aumento destes sólidos.
Conforme Farias (2006), o oxigênio dissolvido pode ser influenciado pelo aumento
da turbidez, tanto de águas naturais quanto artificiais, pode também apresentar teores
mais baixos devido a temperatura (águas mais quentes e com maior quantidade de
matéria orgânica), e pela ação antrópica em cursos d’água onde efluentes são lançados
com grande quantidade de matéria orgânica.

48

No (Gráfico 5), pode-se observar variações nos níveis de oxigênio dissolvido
dentre os municípios estudados no Baixo São Francisco.
Gráfico 5: Gráfico de Intervalos de Oxigênio Dissolvido (mg/L) versus Município.

Fonte: LAQUA (2023).

Os municípios de Piranhas e Pão de Açúcar, apresentaram valores insatisfatórios
de acordo com a Resolução CONAMA 357/05. Em contrapartida, os municípios de
Traipu, São Brás, Propriá, Igreja Nova, Penedo, Piaçabuçu e Brejo Grande se destacaram
com concentrações de oxigênio dissolvido acima de 5m/L. Atendendo assim, o que
preconiza a resolução 357/05 do CONAMA de classe 2. Índices fora dos padrões
podem representar má qualidade da água utilizada, ocasionada especialmente pelo
crescimento atípico de microrganismos (FIORESE et al. 2019).
O oxigênio dissolvido é um dos parâmetros mais importantes na produção de
peixes, e de outros organismos aquáticos, e no presente trabalho apresentou valores
satisfatórios em grande parte dos municípios avaliados no Baixo São Francisco. O
monitoramento desta variável na água deve ser uma prática recorrente, uma vez que
este parâmetro tem papel fundamental no desenvolvimento dos organismos aquáticos.
Amônia (NH3)
A amônia é um composto nitrogenado encontrado nos ambientes aquáticos e pode
causar a morte dos peixes em determinadas concentrações. Seus níveis no ambiente
aquícola são preocupantes, uma vez que a presença desses compostos, mesmo em
concentrações baixas, inferiores a 0,5 mg/L, inspira atenção (PILLAY; KUTTY, 2005).
No presente estudo, e de acordo com a análise de variância, a amônia apresentou
diferença significativa (p < 0,05) entre os municípios estudados no Baixo São Francisco
(Tabela 6).

49

Tabela 6. Análise de variância (ANOVA).

Fonte: LAQUA (2023).

Em sistemas com grande fluxo de água, com grandes vazões a remoção desses
compostos é realizada rapidamente, impedindo que os níveis aumentem. Porém, em
casos de sistemas fechados é importante a existência de filtros biológicos, com bactérias
nitrificantes (BALDISSEROTO, 2002).
No (Gráfico 6), pode-se observar uma diferença da concentração de amônia no
município de Traipu em relação aos outros municípios do Baixo São Francisco. Esta
concentração ultrapassa o limite estabelecido pela Portaria 1.469/2000 do Ministério
da Saúde que preconiza 1,5mg/L do valor máximo permitido para água de aceitação ao
consumo humano.
Gráfico 6: Intervalo de Amônia mg/L versus Município.

Fonte: LAQUA (2023).

O íon amônio é oriundo do processo de degradação biológica de matéria
orgânica. Quando a amônia se apresenta em altas concentrações em águas naturais
é um indicativo de contaminação por esgoto bruto, efluentes industriais ou afluxo de
fertilizantes (PARRON et al. 2011). Esse resíduo nitrogenado pode alcançar ligeiramente
teores tóxicos em sistemas mal manejados, causando diminuição da sobrevivência, do
crescimento e até mesmo a morte da biota aquática (URBINATI, CARNEIRO, 2004).
Uma possível explicação para estes resultados, seria uma densidade populacional/
comunidade considerável, próxima ao corpo hídrico, indicando provavelmente despejos
contínuos de esgotos domésticos clandestinos, visto que a amônia é indicadora de
contaminação recente, uma vez que esta variável é a primeira etapa na oxidação dos
derivados inorgânicos do nitrogênio.
Potencial de Redução de Oxidação (ORP)
Esse parâmetro mede a capacidade de redução ou de oxidação da água e
inúmeros fatores externos, pode contribuir para a presença de radicais livres, tendo
como principais: radiação ultravioleta do sol, resíduos de pesticidas e substância tóxicas
presentes mediante despejos domésticos e industriais.

50

De acordo com a análise de variância, não houve diferença significativa (p < 0,05)
para ORP entre os municípios estudados no Baixo São Francisco (Tabela 7).
Tabela 7: Análise de variância (ANOVA)

Fonte: LAQUA (2023).

Mede a intensidade na qual os eletrons são capazes de serem transferidos entre
as espécies que compõem uma solução (SKOOG et al. 2006). Brevemente, podem
indicar a capacidade da água de se livrar de contaminantes (PULE et al. 2017).
O ORP é utilizado como ferramenta no monitoramento de pontos de rede de
abastecimento em circunstancias difíceis de manter o cloro residual, para poder
proceder reforço do fornecimento de cloro a essas áreas (WHITE, 2010). Segundo Yu
(2004), fazer uso do ORP no controle da cloração constante é uma metodologia eficaz,
podendo tornar o processo de desinfecção mais eficiente.
A principal vantagem em utilizar o ORP, é sua funcionalidade, uma vez que a
sonda pode ser inserida diretamente na água que será investigada, sem fazer uso de
reagentes, análises e ou espectrofotométrica (VAN HAUTE et al. 2019).
Nitrito (NO2-N)
O nitrito é instável na presença de oxigênio, e devido a este fato ele é encontrado
em pequena quantidade em águas superficiais. A detecção do íon nitrito indica atividade
biológica ativa influenciada por poluição orgânica.
Conforme Anjos; Luzzi; Storte (2019), a presença de derivados inorgânicos de
nitrogênio é de grande importância, pois, dependendo do derivado identificado e de
suas concentrações, pode-se determinar se a contaminação naquele ambiente aquático
é recente ou não.
De acordo com a análise de variância, não houve diferença significativa (p < 0,05)
para o nitrito entre os municípios estudados no Baixo São Francisco (Tabela 8).
Tabela 8. Análise de variância (ANOVA)

Fonte: LAQUA (2023).

O nitrito reflete o estado de oxidação intermediário do nitrogênio, e pode ocorrer
tanto pela redução de nitrato como pela oxidação de amônio (PARRON; MUNIZ;
PEREIRA, 2011).
O valor máximo permitido para este contaminante segundo a Resolução CONAMA
357/05 e a Portaria 1.469/2000 é de 1,0 mg/L e 1,0 mg/L, respectivamente.
Potássio (K)
Os valores de Potássio não apresentaram diferença significativa (p < 0,05) entre
os municípios estudados no Baixo São Francisco (Tabela 9).

51

Tabela 9. Análise de variância (ANOVA)

Fonte: LAQUA (2023).

O potássio K+ é um elemento necessário em humanos, pois interfere na síntese de
proteínas, auxiliando no crescimento muscular, ele encontra-se largamente distribuído
no meio ambiente. Encontrado em baixas concentrações em águas naturais, dificilmente
alcança níveis que possam ser considerados um risco à saúde humana (efeitos adversos
podem ocorrer em indivíduos susceptíveis). Como sais de potássio são utilizados em
grande escala na indústria e em fertilizantes para a agricultura, descargas industriais e
de áreas agrícolas podem aumentar as concentrações nos mananciais, alterando suas
características físico-químicas (DOVIDAUSKAS et al. 2016).
Fósforo (P) e Fosfato (PO4 3-)
De acordo com a análise de variância, os valores de fósforo e fosfato apresentaram
diferença significativa (p < 0,05) entre os municípios estudados no Baixo São Francisco
(Tabela 10 e 11).
Tabela 10. Análise de variância ANOVA (P)

Fonte: LAQUA (2023).

Em grandes quantidades no ambiente, o fósforo pode causar vários impactos
negativos, principalmente à qualidade das águas. O enriquecimento excessivo
(eutrofização) da água é causado pelo escoamento de fertilizantes agrícolas, águas
pluviais de cidades, detergentes, rejeitos de minas e efluentes (humanos e animais)
(KLEIN et al. 2012).
Tabela 11. Análise de variância ANOVA (PO4 3-)

Fonte: LAQUA (2023).

Os resultados (Gráfico 7), permite observar um aumento do fósforo no município
de Piranhas do Baixo São Francisco.
Gráfico 7. Gráfico de Intervalos de Fósforo (mg/L) versus município

52

Fonte: LAQUA (2023).

A presença do fósforo na água pode estar relacionada tanto a processos naturais,
como carreamento de solo, dissolução de rochas, decomposição de matéria orgânica
como também a processos antropogênicos como uso de pesticidas, fertilizantes,
detergentes além do lançamento de esgotos in natura lançados diretamente na calha
do rio.
O fósforo é essencial ao crescimento dos organismos, o teor existente em um
corpo de água pode ser considerado um fator limitante (PIVELI; KATO, 2005). Tanto
processos naturais como ações antropogênicas podem estar relacionados com a
presença de fósforo. Com exceção de Piranhas, todos os pontos de coleta apresentaram
concentrações similares deste parâmetro. A Resolução CONAMA 357/05 estabelece
para o fósforo total em ambientes lêntico, intermediário e lótico os seguintes valores:
0,020mg/L, 0,025mg/L e 0,1mg/L, respectivamente.
A transferência de fósforo do sistema terrestre para o corpo hídrico acontece
especialmente por duas vias, escoamento superficial e percolação no perfil. As formas
de fósforo que escoam para o ambiente aquático podem ser solúveis e particuladas
(SHARPLEY; HALVORSON, 1994; SHARPLEY et al. 1995), mas, o fósforo particulado está
ligado aos coloides minerais e orgânicos, caracterizando o fósforo com o inorgânico e
orgânico.
Os resultados (Gráfico 8), permite observar um aumento do fosfato no município
de Piranhas do Baixo São Francisco.

53

Gráfico 8. Gráfico de Intervalos de Fosfato (mg/L) versus Município

Fonte: LAQUA (2023).

Um fator importante que pode elevar os níveis de fosfato é o amplo uso de
fertilizantes no plantio de cana de açúcar, os quais são capazes de contaminar águas
superficiais e subterrâneas (PARRON; MUNIZ; PEREIRA, 2011). Quando a concentração
desses nutrientes (fosfatos, especialmente) aumentam nos rios e lagos podem
provocar eutrofização excessiva, em consequência disso, estes nutrientes estimulam
o desenvolvimento de algas e plantas que por sua vez interferem no uso da água para
consumo e/ou recreação, essas concentrações normalmente desordenadas provocam
ondas de crescimento seguidas do consumo exacerbado de oxigênio que pode acarretar
a mortalidade dos peixes (KLEIN et al. 2012).
Sulfato (SO42-)
Houve diferença significativa para os valores de sulfato (p < 0,05) entre os
municípios estudados no Baixo São Francisco (Tabela 12).
Tabela 12. Análise de variância ANOVA
O sulfato é uma variável que ajuda no entendimento sobre efeitos da poluição promovida
por esgotos e efluentes.

Fonte: LAQUA (2023).

54

Gráfico 9. Intervalos de Sulfato (mg/L) versus Município

Fonte: LAQUA (2023).

Foi observado estatisticamente que o município de Piranhas se destacou dos
demais municípios alcançando níveis de concentrações de mais ou menos 28mg/L. Este
valor está abaixo do recomendado pela legislação CONAMA 357/05 e pela Portaria
1.469/2000 do Ministério da saúde que preconizam 250 mg/L de valor máximo permitido.
É importante reforçar que altas vazões podem ter relação na redução e diluição desse
e de outros parâmetros bem como suas concentrações.
Ferro (Fe) e Manganês (Mn)
De acordo com a análise de variância, houve diferença estatística entre os
resultados de Ferro e Manganês (Tabela 13 e 14), em relação aos municípios estudados
no Baixo São Francisco.
Tabela 13. Análise de variância ANOVA (Fe)

Fonte: LAQUA (2023).

55

Segundo a Portaria 1.469/2000 do Ministério da Saúde para que a água seja
aceitável para o consumo humano, ela deve atender alguns requisitos, como por
exemplo, concentrações de ferro devem ser menor que 0,3mg/L. Esta concentração
também se aplica a resolução CONAMA 357/2000. No gráfico 10 pode-se observar um
aumento do nível da variável ferro com maiores índices em Penedo e Piaçabuçu.
Gráfico 10. Intervalos de ferro (mg/L) versus município

Fonte: LAQUA (2023).

Dentre os problemas que acontecem com alta frequência, a maximização de íons
de ferro e manganês na água tem ganhado espaço. De acordo com Moruzzi e Reali
(2012) o ferro e o manganês nas formas Fe2+ e Mn2+ formam compostos solúveis, mas
ao entrarem em contato com o meio oxidante se precipitam na forma de Fe3+ ou Mn4+
formando compostos insolúveis que conferem a água coloração avermelhada para
precipitados de ferro e marrom escuro para os precipitados de manganês, deixando-a
com aparência turva.
Tabela 14. Análise de variância ANOVA (Mn)

Fonte: LAQUA (2023).

56

Segundo Moruzzi e Reali (2012) a presença desses metais pode prejudicar a
confiabilidade da população abastecida no sistema de tratamento público, em razão à
presença de coloração e turbidez.
Gráfico 11. Intervalos de Manganês (mg/L) versus Município.

Fonte: LAQUA (2023).

Como observado no gráfico 11, os municípios apresentaram variações da variável
manganês, mas não excedeu o limite estabelecido em ambas as resoluções. Segundo
a Portaria 1.469/2000 do Ministério da Saúde para que a água seja aceitável para o
consumo humano, ela deve atender alguns requisitos, como por exemplo, concentrações
de manganês devem ser menor que 0,1mg/L. Esta concentração se aplica à resolução
CONAMA 357/2000 para manganês total.
Nitrato (NO3-N)
O nitrogênio e seus derivados inorgânicos são compostos de grande influência para
a saúde humana e largamente encontrados, nos últimos anos, em sistemas aquáticos.
Sua ingestão se dá através de águas de abastecimento ou por alimentos irrigados/
lavados com água contaminada, especialmente, por dejetos humanos provenientes de
residências sem tratamento de esgotos (MELO et al. 2019).
De acordo com a análise de variância, houve diferença estatística do nitrato
(Tabela 15), entre os municípios estudados no Baixo São Francisco.
Tabela 15. Análise de variância ANOVA

Fonte: LAQUA (2023).

57

Acredita-se que o cultivo intensivo de terra, mesmo sem o uso de fertilizantes,
favorece a oxidação para nitrato do nitrogênio reduzido presente na matéria orgânica
decomposta no solo pelo efeito da aeração e da umidade (BAIRD, CANN, GRASSI, 2011).
O nitrato normalmente ocorre em níveis baixos nas águas superficiais, mas pode
alcançar altas concentrações em águas profundas (FREITAS, BRILHANTE, ALMEIDA,
2001). O excesso de nitrato na água de consumo estabelece riscos à saúde, visto que pode
resultar em metaemoglobinemia tanto em bebês, como em adultos com determinada
deficiência enzimática (BAIRD, CANN, GRASSI, 2011).
Gráfico 12. Intervalos de Nitrato (mg/L) versus Município

Fonte: LAQUA (2023).

Como observado no gráfico 12, Traipu apresentou maior concentração de nitrato
em elação aos outros municípios, mas, não excedeu o limite estabelecido em ambas
as resoluções. Segundo a Portaria 1.469/2000 do Ministério da Saúde para que a água
seja potável para o consumo humano, ela deve atender alguns requisitos, como por
exemplo, concentrações de nitrato não devem exceder 10mg/L. Esta concentração se
aplica à resolução CONAMA 357/2000 para o nitrato.
As fontes do nitrato são variadas, e vão desde aplicação de fertilizantes com
nitrogênio, uso de esterco animal em plantações, cultivo do solo, a lançamentos de
efluentes.
Zinco (Zn)
O zinco é um elemento químico natural e geralmente apresenta índices maiores em
águas de rios devido ao escoamento de resíduos naturais como: queima da vegetação,
erosão e devido a ação do homem na utilização de defensivos agrícolas. Esta ação
pode ser denominado poluição, quando esse metal estiver no meio ambiente causando
problemas à saúde humana e danos aos recursos naturais (ROBSON, 1986).
De acordo com a análise de variância, houve diferença estatística do zinco (Tabela
16), entre os municípios estudados no Baixo São Francisco.

58

Tabela 16. Análise de variância ANOVA

Fonte: LAQUA (2023).

Como observado no gráfico 13, Traipu apresentou maior concentração de zinco
se destacando dos demais municípios, porém, não excedeu o limite estabelecido em
ambas as resoluções. De acordo com a Portaria 1.469/2000 do Ministério da Saúde
para que a água seja aceita para o consumo humano, ela deve atender alguns requisitos,
como por exemplo, concentrações de zinco não devem exceder 5mg/L. A Resolução do
CONAMA 357/05 recomenda concentrações de zinco em até 0,18mg/L.
Gráfico 13. Intervalos de Zinco (mg/L) versus Município

Fonte: LAQUA (2023).

Para Marcovecchio (2004), a contaminação aquática é a mais crítica dentro de
estuários e zonas costeiras semifechadas, principalmente quando elas estão próximas a
áreas densamente povoadas ou industriais (SALOMONS, FORSTNER, 1984; LACERDA,
1998). Devido a sua toxidade, metais como, cádmio, cromo, mercúrio, níquel, chumbo,
arsênico, bário, cobre e zinco se destacam. As indústrias metalúrgicas, de tintas, de cloro
e polímeros, usam metais de traço, que, quando lançados irregularmente no ambiente,
contaminam os cursos de águas e lençóis freáticos. A incineração de lixo urbano produz
emissões de gases ricos em metais, especialmente mercúrio, chumbo e cádmio que
podem ser solubilizados pela água contaminando animais aquáticos que fazem parte
da cadeia alimentar.
Análise microbiológica (Coliformes totais e Escherichia coli)
De sessenta amostras de água analisadas, foi observado a presença de coliformes
totais e E. coli em todos os pontos de coleta (Figura 4) indicando contaminação e
comprometendo diretamente a sua potabilidade. Segundo a Portaria de Consolidação
nº 5, de 28 de setembro de 2017 (BRASIL, 2017), os valores do NMP/100mL (Tabela 17)
estão acima do limite preconizado pelo padrão microbiológico de água para o consumo

59

humano que recomenda a ausência de coliformes totais e E. coli em 100mL, ou seja,
todos os pontos amostrados apresentaram qualidade microbiológica insatisfatória.
De acordo com a Portaria Gabinete do Ministro/Ministério da Saúde Nº 888, de 4 de
maio de 2021 (BRASIL, 2021), a água potável deve estar sempre em conformidade com
padrão microbiológico, e a detecção de microrganismos permite considerar esta como
imprópria para o consumo humano.
Figura 4. Amostras em alíquotas de 20mL indicando presença de coliformes totais
(A) e emissão de fluorescência azul esverdeada sob luz ultravioleta (UV), indicando a
presença de E. coli (C).

Fonte: LAQUA (2023).

Como visto em Piranhas, Pão de Açúcar, Traipú, Igreja Nova, Penedo e Brejo
Grande (Tabela 18), ocorreram os maiores índices de contaminação por E. coli (NMP
100/100mL). Segundo o INSTITUTO ÁGUA E SANEAMENTO (2021) estes municípios não
possuem conselho, plano nem política municipal de saneamento, em Piranhas (esgoto
de 16.865 habitantes e o lixo de 2.279 habitantes), Traipú (lixo de 6.420 habitantes) e
Brejo Grande (esgoto de 4.294 habitantes) não são recolhidos devidamente.

60

Tabela 17. Indicadores microbiológicos referente às coletas realizadas em dez pontos do
Baixo São Francisco, analisadas pelo método do Número Mais Provável (NMP/100mL).

Fonte: LAQUA (2023).

61

Em estudos conduzidos por Neves et al (2015), ambientes com alta índice de
urbanização está sujeito a esse tipo de contaminação. Desta forma, a presença de
coliformes totais e E. coli na água, pode ser um indicador de contaminação fecal, e de
doenças de veiculação hídrica como amebíase, giardíase, gastroenterite, os sintomas
geralmente são febres, vômitos intensos, dores abdominais, quadros agudos de diarreia,
podendo levar o indivíduo a óbito em casos mais graves.
Com exceção de Traipú a jusante, foi possível observar em todos os municípios
localizados mais a montante os maiores índices de E. coli, demonstrando que é possível
haver maiores níveis de contaminação na sequência do percurso deste canal. Rodrigues
et al (2009), relata que ambientes aquáticos com fontes de esgoto doméstico ou
presença de animais próximos às margens dos rios notabilizam condições higiênicosanitárias insatisfatória, sendo assim, considerados um risco para a saúde pública.
A vazão é um fator importante na gestão do sistema de saneamento básico com influência
direta na qualidade de água, ela depende de suas condições geológicas como, largura,
inclinação, solo, entre outros. A vazão é determinada pela quantidade de chuvas que
alimenta o rio que faz com que sua capacidade de produzir energia oscile bastante ao
longo dos meses.
Em 2022, houve um aumento da vazão do rio São Francisco de 4.000 m3/s,
ele passou por um processo de “limpeza” melhorando a qualidade de água, e
consequentemente a vida e o ciclo reprodutivo dos peixes nativos da região. Porém,
com o alto índice populacional, e as cidades sem plano de saneamento básico faz com
que os índices de contaminação microbiológica como coliformes totais e E. coli sejam
altos e recorrentes mesmo que o rio tenha passado por este processo de “limpeza”.
Adicionalmente a isto, as cidades localizadas às margens do rio São Francisco produzem
sua cota de poluentes, acarretando a saturação do corpo hídrico.
Com exceção dos municípios de Piranhas a montante e São Brás, os níveis de
coliformes totais foram mais baixos (1,1 NMP 100/100mL), porém, esses valores também
não atendem ao padrão de aceitabilidade e potabilidade segundo as normativas do
Ministério da Saúde já citadas. Uma das hipóteses é que possivelmente, houve a diluição
dos efluentes lançados ao longo da calha do rio e assimilação pela biota aquática. Outros
fatores podem estar correlacionados como o menor aporte de efluentes lançados no rio
por estes municípios, a geomorfologia da região que pode favorecer maior dispersão.
Piaçabuçu também apresentou níveis de contaminação por coliformes totais e E.
coli, uma possível explicação seria a barreira geoquímica do estuário que influencia a
hidrodinâmica da região, e do grande aporte de efluentes juntamente com o adensamento
populacional. Para que este cenário não ocorra, sugere-se que as vazões sejam liberadas
de forma gradual e por um maior espaço de tempo, desta forma a recuperação do
ambiente e da água seria maior com possibilidades na redução de contaminação. 		
Pois uma água de má qualidade pode se tornar um vetor de alta potencialidade
na transmissão de diversos tipos de doenças e enfermidades (ZORZIN et al. 2011).
Os resultados dos indicadores podem estar associados ao lançamento de esgotos
domésticos sem o prévio e adequado tratamento, levando o corpo hídrico a um estado
de eutrofização, devido aos altos teores de nutrientes (GUEDES et al. 2012).
CONCLUSÃO
Por meio dos resultados obtidos neste estudo, foi possível observar que as análises
físico-químicas de amostras de água captadas no Baixo São Francisco revelaram que
o rio apresenta elementos que podem levar a um processo de eutrofização em razão
do acúmulo de nutrientes principalmente o fósforo e o nitrogênio. Contudo, a elevada
presença de coliformes totais e E. coli em todos os pontos avaliados sugere contaminação
fecal das águas do Baixo São Francisco. Isto significa que todas as amostras analisadas
estão totalmente insatisfatórias e fora dos padrões de potabilidade estabelecidos pelas
Portarias vigentes do Ministério da Saúde.

62

Fatores como diminuição da vazão, maior adensamento populacional, ausência
de políticas de educação ambiental, ausência de sistemas de tratamentos de esgotos e
saneamento básico, lançamentos de esgotos in natura e limitação de políticas públicas
voltadas para a questão ambiental, contribuem para este cenário preocupante no quesito
qualidade de água e para possíveis enfermidades decorrentes de microrganismos.
Sendo assim, é importante adotar medidas para um tratamento alternativo e efetivo
para o rio São Francisco, a fim de permitir a prevenção de doenças veiculadas por essa
água, podendo ocasionar graves problemas de saúde pública para a população que faz
uso deste bem.
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4. ECOLOGIA E ANÁLISE DE RISCO DA COMUNIDADE
FITOPLANCTÔNICA DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Taxonomia e Ecologia de Fitoplâncton
Élica Amara Cecília GUEDES-COELHO20
Manoel Messias da Silva COSTA21
Fernando Pinto COELHO22
Ana Karolina Lopes da SILVA23
RESUMO
Estudos com o fitoplâncton contribuem preponderantemente para a compreensão
do funcionamento do sistema aquático, dessa forma, o presente trabalho teve como
objetivos analisar a estrutura da comunidade fitoplanctônica e fatores de risco que esses
organismos ocasionam na qualidade da água. Foram coletadas 33 amostras no período de
03 a 12/11/2022 em oito municípios e foz do Rio São Francisco, obtidas através de arrastos
subsuperficiais, com rede de plâncton (20 µm). As amostras foram acondicionadas
em frascos e preservadas em solução de Transeau devidamente etiquetados. Foram
examinadas alíquotas de 1 mL procedendo-se a análise direta em microscópio óptico
binocular e a identificação baseada em bibliografias pertinentes na área, onde foram
analisados, riqueza de espécies, abundância relativa (%), frequência de ocorrência (%),
diversidade de Shannon (H’), equitabilidade (J), dominância de Simpson (ʎ), densidade
de células (cel.mL-1) e testes estatísticos. Clorofíceas e diatomáceas foram os grupos
dominantes com relação a riqueza de espécies e abundância de células contribuindo na
diversidade de Shannon que apresentaram média diversidade e distribuição equitativa
das espécies. Os resultados encontrados nos municípios do baixo São Francisco para
cianobactérias apresentaram 93,4% acima do limite de tolerância para corpos d’água em
mananciais, demonstrando índice de “risco muito elevado”. A portaria do Ministério da
Saúde com referência de 10.000 cél.mL-1 para cianobactérias, estabeleceu esse parâmetro
como limite de segurança e conferindo riscos à saúde pública e investimentos elevados
na implantação de Estação de Tratamento de Água e nos seus diversos usos múltiplos.
Palavras-chaves: densidade de células, abundância relativa, fatores de risco, microalgas.

20
Professora Doutora, Chefe do Laboratório de Ficologia – LABOFIC, Setor de Botânica, Universidade
Federal de Alagoas/UFAL
21
Professor Doutor, Universidade Aberta do Brasil/UAB e Faculdade Regional Brasileira – UNIRB/Maceió.
22
Professor Doutor, Departamento de Geografia, Universidade Federal de Alagoas – Campus do Sertão/
UFAL.
23
Estudante de Graduação em Ciências Biológicas (Licenciatura), Laboratório de Ficologia – LABOFIC,
Setor de Botânica, Universidade Federal de Alagoas – UFAL.

68

INTRODUÇÃO
O fitoplâncton são organismos que exercem importante função de armazenamento
de gás carbônico (CO2), atuando como fator de mitigação na elevação da temperatura
média global e acrescentando maiores níveis de oxigênio (O2) na atmosfera. Além,
de ser a base da cadeia alimentar em ecossistemas aquáticos, apresentando extrema
importância para toda a comunidade aquática, visto quer, a abundância, riqueza e
biomassa impulsionam a produtividade para os demais níveis tróficos (REYNOLDS,
2006; ESTEVES, 2011).
Dentre os inúmeros organismos que habitam os ambientes aquáticos, a comunidade
fitoplanctônica é constituída por microalgas de diferentes grupos taxonômicos capazes
de realizar fotossíntese e que apresentam um conjunto de formas, cuja variedade,
abundância e distribuição são próprias e dependem da adaptação às características
abióticas, sendo de extrema importância para a compreensão do meio (REVIERS,
2006; REYNOLDS, 2006; RAVEN et al., 2014). Estes organismos, predominantemente
autotróficos, são base da cadeia alimentar em ecossistemas aquáticos, apresenta
extrema importância para toda a comunidade aquática, visto que a abundância, riqueza
e biomassa impulsionam a produtividade para os demais níveis tróficos (PEREIRA e
SOARES-GOMES, 2002).
Devido à sua alta taxa de reprodução e essenciais para a manutenção da vida nos
ambientes lacustres, em estado de desequilíbrio, podendo atingir grandes concentrações,
alterando a coloração da água, gerando impactos negativos para a comunidade aquática
e a saúde humana, em consequência das alterações dos fatores abióticos (disponibilidade
de nutrientes, mudanças climáticas) e bióticos (competição, predação, atividades
antropogênicas) acarretando em florações algais, comprometendo a integridade da
biota e intensificando o processo de eutrofização (ZANATA e ESPÍNDOLA, 2002; CECY
e SILVA, 2004).
Com o aumento da eutrofização em ambientes lóticos advindos de múltiplos
usos, como abastecimento público, lazer, aquicultura e pesca, além de se modificar
rapidamente tanto no tempo como no espaço, tem permitido um rápido crescimento
de algumas espécies de fitoplâncton, principalmente aquelas pertencentes as
cianobactérias (Nostocales, Chroococcales), diatomáceas (cêntricas) e clorofíceas
(Desmidiales) estão se tornando cada vez mais comum e dominante nestes ambientes
quali-quantitativamente implicando em potenciais danos à saúde da população
(PANOSSO et al., 2007; COSTA et al., 2009).
Tais estudos com o fitoplâncton contribuem preponderantemente para a
compreensão do funcionamento do sistema aquático como um todo, devido a sua
contribuição essencial na elaboração da matéria orgânica necessária a sobrevivência
dos organismos herbívoros destes ambientes (ESTEVES e SANT’ANNA, 2006; CÂMARA
et al., 2007).
Dessa forma, o presente relatório tem como objetivos analisar a estrutura da
comunidade fitoplanctônica e fatores de risco que esses organismos ocasionam e
proporcionando importantes informações sobre o ecossistema em estudo como
bioindicadores da qualidade da água.

69

METODOLOGIA
Área de estudo e coleta das amostras
Foram coletadas 33 amostras no período de 03 a 12/11/2022, onde foram
determinados pontos de coleta ao longo do trecho do Baixo São Francisco entre os
Estados de Alagoas e Sergipe, sendo definidos quatro pontos de coletas: Ponto 1
(região próximo a margem do rio, lado de Alagoas), Ponto 2 (região mediana do rio
entre Alagoas e Sergipe), Ponto 3 (região próximo a margem do rio, lado de Sergipe)
e ponto de captação d’água (CAP), tendo como referência os municípios de Piranhas/
AL (PI), Pão de Açúcar/AL (PA), Traipu/AL (TR), São Brás/AL (SB), Igreja Nova/AL (IN)
não possui ponto de captação d’água, Propriá/SE (PR), Penedo/AL (PE), Piaçabuçu/
AL (PU) e dois pontos de coletas na Foz do São Francisco, Ponto 1 (região próximo ao
Estado de Alagoas) e Ponto 2 (região próximo ao Estado de Sergipe).
As amostras foram obtidas através de arrastos horizontais e subsuperficiais,
utilizando-se rede de plâncton com abertura de malha de 20 µm (superfície).
Posteriormente as amostras foram acondicionadas em frascos plásticos de
aproximadamente 250 mL, devidamente etiquetados e preservadas em solução de
Transeau (6:3:1 água destilada, álcool etílico 70%, formol) (BICUDO e MENEZES, 2017),
sendo posteriormente transportados ao Laboratório de Ficologia do Instituto de
Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Análise quali-quantitativa
Para a contagem do fitoplâncton utilizou-se microscópio óptico binocular Zeiss
(Axioscop 40), onde foram analisadas alíquotas de 1 mL em lâmina quadriculada (1000
campos) de acordo com o método de Sedgwick-Rafter (S-R) com aumento de 400
vezes (APHA; AWWA; WEF, 2005; CETESB, 2011).
Após a identificação, foram realizadas contagens dos organismos e calculada a
abundância relativa de cada táxon, utilizado a formula: A=Nx100/n onde, N = n° de
espécies na amostra; n = n° total de espécies, sendo estabelecidos os seguintes critérios:
dominante – ocorrência maior do que 50%; abundante – ocorrência entre 50 e 30%;
pouco abundante – ocorrência entre 30 e 10%; rara – menor de 10% (LOBO e LEIGHTON,
1986).
Para a identificação dos gêneros/espécies foram utilizadas chaves de identificação
específicas de cada grupo algal: diatomáceas (ROUND et al., 1990; MORENO et al., 1996),
cianobactérias (ANAGNOSTIDIS e KOMAREK, 1988, 1990; KOMAREK e ANAGNOSTIDIS,
1998; KOMAREK e ANAGNOSTIDIS, 2005), clorofíceas (BUCHHEIM et al., 2001) e para
os demais grupos taxonômicos foram consultados trabalhos de Bourrely (1970), Streble
e Krauter (1987), Parra e Bicudo (1995) e Bicudo e Menezes (2006). Todos os nomes
científicos das espécies foram checados junto ao banco de dados internacional ITIS
(Integrated Taxonomic Information System) e AlgaeBase (GUIRY e GUIRY, 2014).
Índices ecológicos
A riqueza correspondeu ao número de espécies encontrado em cada amostra.
O índice de diversidade específica foi calculado segundo Shannon (H’) (-∑pi.log2)
(SHANNON e WEAVER, 1963), cujos valores foram enquadrados nas seguintes categorias:
alta diversidade = ≥ 3,0 bits.cel-1; média diversidade = <3,0 ≥ 2,0 bits.cel-1; baixa
diversidade = < 2 >1,0 bits.cel-1; muito baixa diversidade = < 1,0 bits.cel-1 (VALENTIN,
2000). A Equitabilidade (J) foi calculada segundo Pielou (1977), apresentando valores
entre 0 e 1, sendo considerado alto ou equitativo os valores superiores a 0.50, o qual
representa uma distribuição uniforme dos táxons na amostra analisada e dominância de

70

Simpson (ʎ) que varia de 0 a 1 e quanto mais alto for, maior a probabilidade dominância
duas espécies e menor a diversidade de espécies (MAGURRAN, 1988). Para estes
cálculos foi utilizado o programa estatístico PAST (HAMMER et al., 2001).
A frequência de ocorrência (%) foi calculada a partir do número de vezes em que
cada táxon ocorreu nas porções do talo dos hospedeiros, por intermédio da fórmula:
F=P×100/p, onde, P = número de amostras contendo a espécie; p = número total de
amostras, sendo estabelecidos as seguintes categorias: muito frequente – ocorrência em
mais de 70% das amostras; frequente – ocorrência entre 70 e 40% das amostras; pouco
frequente – ocorrência entre < 40 e 20% das amostras e esporádica < 20% (MATEUCCI
e COLMA, 1982).
Análise de Risco
Quando a biota aquática incide em variáveis que podem ser avaliados por critérios
representados por valores que variam de 0 a 1, sendo que quanto maior for o valor,
maior será o impacto. A proporcionalidade relativa ao impacto estima o risco = 100% no
seu valor máximo = 1. Progressivamente a escala proporcional dimensiona risco mínimo
para impactos até 30%, 31-50% risco moderado, 51-70% para risco elevado, 71-100%
para risco crítico ou muito elevado (SOUZA, 2000).
Tratamento estatístico
Para determinar as variáveis mais importantes relacionadas à estrutura da
comunidade fitoplanctônica foi realizada a Análise de Correspondência Canônica (CCA)
integrando as principais variáveis abióticas obtidas pela Análise de Componentes
Principais (PCA) (BINI, 2004). Em conjunto, foi aplicado o teste de correlação de
Spearman, para avaliar a relação das espécies mais abundantes e frequentes com os
principais fatores abióticos. Foi realizado análise de agrupamento (cluster) com base
na densidade de células para verificar diferenças entre os locais de coletas usando o
coeficiente de Bray-Curtis (CLARKE e WARWICK, 2001).
Teste de Levene’s foi utilizado para avaliar a normalidade e homogeneidade de
variância. Análises de variância (ANOVA one way) foram usadas para testar a densidade
de células das amostras coletadas. Teste de comparações múltiplas de Tukey (Tukey’s
pairwise) para densidade e teste Wilcoxon (Wilcoxon pairwise) foram aplicados quando
ocorreram diferenças significativas (P < 0.05). Para construção dos gráficos, tabelas e
procedimentos estatísticos foram utilizados o programa estatístico PAST (HAMMER et
al., 2001) e Microsoft Office Excel (pacote Office 2016).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A comunidade fitoplanctônica esteve distribuída nas divisões Chlorophyta (55 spp.)
correspondendo a 38% dos táxons, Bacillariophyta (49 spp.) com 34%, Cyanobacteria
(31 spp.) totalizando 21%, Dinophyta (6 spp.) com 4% e Euglenophyta (4 spp.) com
apenas 3% (Fig. 1 e Tabela 4). Foram observadas diferenças significativas na riqueza
de espécies entre os pontos de coletas analisados (F = 1,78; df: 32; P = 0,005263), com
maior riqueza no ponto de captação d’água (40 spp.) e com menor riqueza (17 spp.)
nos pontos P2 (Foz) e P3 (São Brás/AL).
Figura 1: Riqueza de espécies fitoplanctônicas do Baixo Rio São Francisco no trecho
entre Piranhas/AL à Foz do São Francisco. (PI) Piranhas/AL, (PA) Pão de Açúcar/AL, (TR)
Traipu/AL, (SB) São Brás/AL, (IN) Igreja Nova/AL, (PR) Propriá/SE, (PU) Piaçabuçu/AL,
(PE) Penedo/AL, (PU) Piaçabuçu/AL, Foz (Foz do São Francisco).

71

As clorofíceas e diatomáceas ocorreram com o maior número de táxons e os
estudos referentes a comunidade fitoplanctônica em ambientes lacustres demonstram
que esses organismos constituem um grupo importante e bastante comum dentro deste
ecossistema, sendo muitas vezes os grupos dominantes (OLIVEIRA e CALHEIROS,
2000; KOMAREK et al., 2003; SHUBERT, 2003; NABOUT et al., 2006).
O grupo das algas verdes pertencentes às Desmidiaceae: Closterium, Cosmarium,
Desmidium, Euastrum, Micrasterias e Staurastrum destacam-se entre os grupos algais,
principalmente pela riqueza específica, que se distribuem de forma cosmopolita, em
águas não contaminadas, sendo abundantes em ambientes lacustres (rios, lagos, lagoas)
oligotróficos e mesotróficos, condições estas que favorecem o desenvolvimento desses
organismos (FELISBERTO e RODRIGUES, 2002; WEHR e SHEAT, 2003; DI BERNARDO
et al., 2010).
Com relação a densidade de células, observou uma variação de de 60 cel.mL-1,
para o grupo das euglenofíceas (Pão de Açúcar e Penedo/AL) a 22480 cel.mL-1 para
as clorofíceas (Piranhas/AL), sendo observadas diferenças significativas no número de
células entre os municípios amostrados. De maneira geral, as clorofíceas contribuíram
com as maiores densidades, porém, nos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, São
Brás, Igreja Nova, observou uma dominância das cianobactérias (Tabela 1 e Fig. 2).
Tabela 1: Densidade total de células (cel.mL-1) do fitoplâncton do Baixo Rio São
Francisco, no trecho de Piranhas/AL à Foz do São Francisco. (-) dados não existentes.

72

Figura 2. Densidade total de células (cel.mL-1) do fitoplâncton do Baixo Rio São
Francisco, no trecho de Piranhas/AL à Foz do São Francisco.

A Portaria nº 578 do Ministério da Saúde, exige monitoramento mensal e que a
densidade de células de cianobactérias presentes nos mananciais de até 10.000 céls.
mL-1. Valores elevados de cianobactérias implicam em monitoramento que deverá ser
realizado semanalmente, devido a possível presença de cianotoxinas, trazendo riscos a
população local, não sendo viável a sua utilização no abastecimento público, recreação
e irrigação, além do risco de bioacumulação em peixes e moluscos bivalves (BRASIL,
2004).
Observando a distribuição do fitoplâncton nos municípios analisados de acordo
com a quantidade de células totais, foram formados dois grupos: Grupo 1 com 78% de
similaridade por apresentaram as maiores densidades variando de 36280 cel.mL-1 no
município de Piaçabuçu a 54740 cel.mL-1 em Pão de Açúcar. O grupo 2 foi formado pelos
municípios que apresentaram similaridade de 68% e densidade variando de 21000 cel.
mL-1 (Traipu) à 28160 cel.mL-1 em Propriá/SE (Fig. 3).
Figura 3: índice de similaridade de Bray-Curtis dos grupos algais distribuídos nos
municípios analisados de acordo com a densidade total de células (cel.mL-1). (FOZ)
foz do São Francisco, (SB) São Brás, (IN) Igreja Nova, (TR) Traipu, (PR) Propriá, (PE)
Penedo, (PU) Piaçabuçu, (PA) Pão de Açúcar, (PI) Piranhas, (CYA) Cyanobacteria, (BAC)
Bacillariophyta, (EUG) Euglenophyta, (DIN) Dinophyta, (CHL) Chlorophyta.

73

Um dos requisitos para tornar uma água potável para abastecer a população é
estar livre de odores e sabores que podem ser danosos a população e as algas presentes
na água antes do processo de purificação são os organismos mais importantes como
causador desses problemas, além disso, deve ser de cor, odor e gosto aceitáveis. A
resolução citada é um amplo acordo intergovernamental que funciona como a Agenda
de Desenvolvimento Pós-2015 (IPEA, 2019). Para a CETESB (2005) quando ocorre uma
dominância e abundância de clorofíceas e diatomáceas, com valores entre > 1000 e <
5000 cel.mL-1, a qualidade da água é classificada de razoável a boa, demonstrando que
o ambiente está em equilíbrio e considerada própria para o consumo e lazer humano.
As algas podem produzir odores típicos, como aromáticos, quando esse odor está
relacionado a um tipo de vegetal, tais como, gerânio, agrião, violeta, melão e pepino,
considerados aromas agradáveis ou podem ocorrer odores desagradáveis, como cheiro
podre, alho, peixe, mofo, óleo de fígado de bacalhau, ervas. No fitoplâncton da bacia
hidrográfica do baixo São Francisco encontramos algas que podem ocasionar odor e
sabor característicos (Tabela 2).

74

Tabela 2: Lista de espécies fitoplanctônicas encontradas no Baixo São Francisco que
provocam odores e sabores na água.

Durante o período estudado foram observadas espécies abundantes que
contribuíram na densidade de células, dentre elas podemos destacar as clorofíceas:
Asterococcus limneticus, Eudorina elegans, Microspora abbreviata, Monactinus
simplex, Pediastrum duplex e Staurastrum leptocladum, seguidos pelas cianobactérias:
Chroococcus dispersus, Dolichospermum spiroides, Microcystis aeruginosa e Raphidiopsis
raciborskii, diatomáceas: Aulacoseira granulata, Surirella elegans e Surirella robusta e
pelos dinoflagelados: Ceratium furcoides e Tripos furca (Tabela 4).
Espécies estas que influenciaram os índices de diversidade de Shannon (H’), que
variaram entre 1,83 bits.cel-1 no ponto 2 da foz do São Francisco a 2,96 bits.cel-1 no ponto
de captação d’água no município de Piranhas (Fig. 4a). Com relação a equitabilidade de
Pielou (J), as amostras analisadas apresentaram valores de equitabilidade acima de 0.50,
mostrando uma distribuição alta e equitativa das espécies (Fig. 4b). Apesar de observar
espécies abundantes (%), não foram observadas espécies dominantes pelo índice de
dominância de Simpson (ʎ) (Fig. 4c).
Quando a diversidade específica de Shannon, equitabilidade de Pielou são
considerados de baixos valores e quando a dominância de Simpson apresenta valores
altos, de acordo com seus índices estabelecidos, refletirá em um desequilíbrio populacional
fitoplanctônico, ao qual está ligado diretamente na abundância de células e na dominância
de poucas espécies (EL-SHEEKH et al., 2003; REYNOLDS, 2006).
Dentre as espécies do fitoplâncton identificadas durante o período de estudo
consideradas muito frequente (MF) e frequentes (F) por estarem presente em mais de
50% das amostradas analisadas foram, as clorofíceas: Eudorina elegans, Micrasterias
dickiei, Monactinus simplex, Pediastrum duplex, Spirogyra sp., Staurastrum leptocladum
e Volvox aureus. As espécies que mais se destacaram no grupo das diatomáceas foram:

75

Aulacoseira granulata, Coscinodiscus radiatus, Eunotia monodon, Fragilaria crotonensis,
Frustulia rhomboides, Iconella linearis, Odontella aurita, Pinnularia platycephala, P. sp.,
Surirella robusta, Terpsinoë musica, Tryblionella hungarica, T. lineatum e Ulnaria ulna.
Entre as cianobactérias podemos destacar, Aphanizomenon flos-aquae, Dolichospermum
spiroides, Limnococcus limneticus, Microcystis aeruginosa e Raphidiopsis raciborskii
(Tabela 4).
Figura 4: (a) Índice de diversidade específica de Shannon, (b) Equitabilidade de Pielou
e (c) Dominância de Simpson do fitoplâncton do Baixo Rio São Francisco, no trecho de
Piranhas/AL à Foz do São Francisco. (FOZ) foz do São Francisco, (SB) São Brás, (IN)
Igreja Nova, (TR) Traipu, (PR) Propriá, (PE) Penedo, (PU) Piaçabuçu, (PA) Pão de Açúcar,
(PI) Piranhas.

76

A concepção dominante vê o risco como “a chance de lesão, dano ou perda”
(WEBSTER, 1983). As probabilidades, magnitudes e consequências dos impactos são
produzidos por processos físicos, químicos, biológicos ou antrópicos, de maneira que
podem ser quantificadas objetivamente pela avaliação de risco (SÁNCHEZ, 2020).
A portaria do Ministério da Saúde com referência de 10.000 cél.mL-1 para
cianobactérias, estabeleceu esse parâmetro como limite de segurança. Os resultados
encontrados nos municípios do baixo São Francisco para cianobactérias apresentaram
93,4% acima do limite de tolerância para corpos d’água em mananciais, demonstrando
índice de “risco muito elevado”. As cianobactérias Chroococcus dispersus (Keissler)
Lemmermann, Dolichospermum spiroides (Klebhan) Wacklin, Hoffmann & Komárek,
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing identificadas no município de Piranhas
apresentam tendência de risco elevado (Fig. 5).
Figura 5: Análise de risco de cianobactérias com maior densidade (Cel.ml-1), Município
de Piranhas, Alagoas.

Sant´Anna et al. (2006) relata que a princípio todas as cianobactérias são
consideradas tóxicas, podendo ocasionar intoxicações no homem em casos de florações
bioativas comprovadas. O predomínio de cepas tóxicas está relacionado à vários fatores
ambientais, Calijuri et al. (2009) destacam as inter-relações competitivas entre populações
e a liberação de toxinas relacionada à presença de algum estressor ambiental.
Foram realizados análise de correspondência canônica (CCA), teste de correlação
de Spearman e análise dos componentes principais (PCA) das cianobactérias mais
abundantes e foram observados que alguns parâmetros físico-químicos contribuíram
com a densidade e abundância de células (Tabela 3, Fig. 6).
Tabela 3: Correlação das cianobactérias mais abundantes e os principais parâmetros
físico-químicos que contribuíram na densidade de células (cel.mL-1) do Baixo Rio São
Francisco, no trecho de Piranhas/AL à Foz do São Francisco.

77

Figura 6. Análise de Correspondência Canônica (CCA) das principais cianobactérias e 12
fatores físico-químicos do Baixo Rio São Francisco, no trecho de Piranhas/AL à Foz do
São Francisco.

Sumário completo dos dados de riqueza, abundância relativa (%) e frequência de
ocorrência (%) encontram-se na tabela 4 em anexo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um dos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) da Agenda 2030 é
garantir a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento básico para a
população - versa ainda que a água para consumo pessoal ou doméstico deve ser livre
de microrganismos, substâncias químicas e riscos radiológicos que constituam ameaças
à saúde humana.
Diante da importância ecológica do fitoplâncton em ambientes lóticos, estudos da
dinâmica dos ecossistemas aquáticos, tornam-se essenciais para o manejo e gerenciamento
dos sistemas hídricos visando à proteção do manancial, e requer conhecimentos sobre
a atuação desses organismos que influenciam diretamente na qualidade da água,
principalmente quando são avaliados a abundância, riqueza, dominância e a frequência
de florações fitoplanctônicas (blooms).
Comparando com os resultados anteriores, com aumento das vazões, fortes
chuvas e enchentes no período de 2022, observamos que as Chlorophyta (clorofíceas)
e Bacillariophyta (diatomáceas) ocorreram com maior riqueza de espécies, porém, no

78

presente estudo constatamos aumento significativos de cianobactérias nos municípios
de Piranhas e Pão de Açúcar ultrapassando o limite de tolerância de células que é de até
10.000 cél.mL-1, demonstrando um índice de “risco muito elevado” (portaria nº 578 do
Ministério da Saúde).
As cianobactérias estão intimamente associadas às condições eutróficas, que
podem se estabelecerem no ambiente causando florações e trazer riscos ecológicos e
efeitos negativos na qualidade da água, gerando inúmeros problemas à saúde pública e
afetando a qualidade da água do manancial.
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82

5. MONITORAMENTO DE PESTICIDAS E TEOR
DE ÓLEOS E GRAXAS NO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: qualidade de água
Mozart Daltro Bispo²³
João Inácio Soletti²³
Sandra Helena Vieira de Carvalho²³
Agda Savina Guimarães Pereira²³
Douglas Alves Damião²³
Emerson Carlos Soares24
Antônio Euzébio Goulart de Sant’Ana25
Henrique Fonseca Goulart26
RESUMO
A presença de pesticidas nos sistemas aquáticos superficiais e subterrâneos tem
sido uma preocupação mundial, haja vista a tendência de acúmulo no organismo aquático
e sedimentos, apresentando riscos à saúde ambiental e humana. Constantemente novas
formulações de pesticidas são apresentadas ao mercado global, sendo amplamente
utilizadas em setores agrícolas e não agrícolas. A dificuldade e o custo das análises para
sua identificação, a ineficiência do tratamento convencional de águas para consumo
humano, aliado a falta de legislação sobre o tema, tem propiciado o seu acúmulo na
biosfera. Este estudo apresenta um comparativo de compostos identificados na
parte do Baixo São Francisco, entre Piranhas e a foz do Rio São Francisco. O trajeto
corresponde a aproximadamente 214 km de extensão, sendo as amostragens de água
realizadas em pontos estratégicos do rio, no período de 03 a 12 de novembro de 2022.
Tais pontos foram revisados, em função dos resultados da coleta do ano anterior (2021),
acrescentando pontos extras, devido à atividade de rizicultura e ao cultivo de camarão,
em alguns municípios. Para o monitoramento analítico foram utilizadas as técnicas de
cromatografia gasosa, acoplada à espectrometria de massa, e análise do teor de óleos
e graxas (TOG). No ano de 2021 foi detectada a presença de 14 pesticidas, dentre as
31 amostras analisadas. Dentre os compostos identificados, 3 são classificados como
extremamente tóxico; 6 são classificados como altamente tóxico; e, 5 são classificados
como medianamente tóxico. Propriá e Penedo foram os que apresentaram maior
diversidade de contaminantes pesticidas, respectivamente, 9 e 10 poluentes. Em 2022
ocorreu o maior índice pluviométrico dos últimos 12 anos, atingindo vazões no Baixo
São Francisco de até cerca de 4.000 m3, reduzindo substancialmente, por diluição, a
quantidade de compostos identificados, quando comparados aos dados obtidos em
2021.
Palavras-chave: cromatografia, extração, TOG, poluentes emergentes.
23
Laboratório de Sistemas de Separação e Otimização de Processos (LASSOP), Centro de Tecnologia,
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
24
Laboratório de Aquicultura (LAQUA), Centro de Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas
(UFAL).
25
Laboratório de Pesquisa em Química de Produtos Naturais (LPQPN), Centro de Ciências Agrárias
(CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
26
Laboratório de Pesquisa em Química de Produtos Naturais (LPQPN), Centro de Ciências Agrárias
(CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

83

INTRODUÇÃO
Os pesticidas são reconhecidamente importantes na proteção de culturas contra
pragas e doenças que interferem diretamente no desempenho da produção de alimentos
e, consequentemente, no abastecimento de alimentos no mundo. Entretanto, nas últimas
décadas, o aumento da concentração dos pesticidas, tem sido observado, devido ao
contínuo desenvolvimento de novas atividades como, por exemplo: carcinicultura, cultivo
do arroz, atividades industriais, agrárias, resíduos hospitalares, esgoto doméstico, novos
fármacos e novos produtos de higiene, limpeza e cosmético, dentre outros, (GEISSEN,
2015).
Uma média de 2 milhões de toneladas anuais de pesticidas foram utilizadas
globalmente, visando o combate de ervas daninhas, insetos e pragas. A classificação
convencional de pesticidas, com base na espécie-alvo, inclui herbicidas, inseticidas e
fungicidas, sendo os dois primeiros, os mais comumente utilizados. Os países consumidores
de pesticidas incluem China, EUA, Argentina, Índia, Japão, Canadá, Brasil, França, Itália e
Tailândia (MORAES, 2019).
Como um dos maiores importadores de agroquímicos e exportadores de produtos
agrícolas do mundo, o Brasil bate recorde de consumo de pesticidas. Uma parte
significativa dos pesticidas usados é produzida na União Europeia, e são considerados
altamente perigosos.
Cerca de 14% do volume total de agrotóxicos exportados pela União Europeia para
os países do Mercosul “Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai” é composto por substâncias
proibidas ou nunca autorizadas na própria União Europeia, embora sejam produzidos e
vendidos por empresas sediadas nesses países. Entre os dez agrotóxicos mais usados no
Brasil, quatro perderam a autorização na União Européia: atrazina, acefato, clorotalonil e
clorpirifós, (MORAES, 2019).
O aumento do uso de agrotóxicos no Brasil encontra-se atrelado ao aumento
das áreas cultivadas com organismos geneticamente modificados. Atualmente, 92% da
soja, 87% do milho e 94% do algodão cultivados no Brasil, são culturas geneticamente
modificadas. O uso dessas substâncias tem impactos severos na saúde da população
brasileira, (CAMPOS, 2012).
Entre 2019 e 2022, houve 14.549 registros de pessoas intoxicadas por agrotóxicos
no Brasil. Este levantamento inédito, realizado pela Agência Pública e Repórter Brasil no
sistema de notificações do Ministério da Saúde, mostra que essas intoxicações levaram a
439 mortes, o que equivale a um óbito a cada três dias. Nesse período, o Brasil apresentou
o maior índice de aprovação de pesticidas, superior a 1.800 novos registros, sendo 33
inéditos e metade deles já proibidos na Europa, (SALLORENZO, 2023)
Não há dados sobre a destinação e comportamento da maioria dos pesticidas,
considerados poluentes emergentes, identificados no meio ambiente, bem como, as
possíveis ameaças à saúde ecológica e humana. Portanto, o desenvolvimento de novas
tecnologias para remediação e tratamento dos recursos hídricos, principalmente para uso
como água potável, tem sido um grande desafio. Em vários casos, falta regulamentação,
para avaliação de impacto de longo prazo, da exposição a baixos níveis de compostos
químicos no meio ambiente, uma vez que as classes da maioria desses compostos ainda
não foram estudadas em detalhes. Isso tem sido atribuído principalmente à falta de
padrões adequados para técnicas de análise instrumental, considerando, principalmente,
as baixas concentrações no meio ambiente, (MONTAGNER et al., 2017).
Para compreender toda a gama dos efeitos dos contaminantes é fundamental
quantificar e monitorar as concentrações dos poluentes na fonte de emissão, nos
compartimentos ambientais, bem como, em organismos vivos (invertebrados, peixes,
dentre outros), (PIZZOCHERO et al., 2019).

84

Outro parâmetro a ser investigado é a presença de óleos e graxas que causam
impactos muito graves nos ecossistemas aquáticos. De acordo com a Agência de Proteção
Ambiental dos Estados Unidos (EPA, 2016), águas oleosas consistem em uma mistura
complexa de água, óleo lubrificante, graxas, produtos de limpeza, além de outros fluidos
e resíduos que possam estar presentes nas áreas de drenagem contaminadas, e sejam
resultantes das atividades de manutenção e limpeza de equipamentos.
O Teor de Óleos e Graxas (TOG) constitui um dos parâmetros ambientais de
grande relevância para localidades onde exista a presença de ambientes sujeitos ao
derramamento ou descarte de óleo, em ambientes aquáticos. Cidades ribeirinhas, com a
presença de embarcações, são suscetíveis a acidentes que provocam o derramamento
de óleo quer seja pelo vazamento em motores, manutenção ou acidentes, bem como, no
descarte em efluentes domésticos.
Classificação dos Pesticidas
A classificação convencional de pesticidas inclui herbicidas, inseticidas, raticidas,
fungicidas e outras classe de compostos. Herbicidas e inseticidas são os tipos de
pesticidas mais utilizados, dominando 47,5% e os últimos 29,5% do consumo total de
pesticidas. Os principais países consumidores de pesticidas incluem China, Estados
Unidos, Argentina, Índia, Japão, Canadá, Brasil, França, Itália e Tailândia, (GEISSEN, 2015).

A Tabela 1 apresenta as classes e alguns dos compostos químicos de inseticida, herbicida
e fungicida.
Os herbicidas são compostos exterminadores de ervas daninhas e normalmente
incluídos em reguladores de crescimento de plantas. Os inseticidas são usados em
fazendas, instalações de armazenamento de alimentos ou hortas domésticas para
controlar insetos. Os fungicidas previnem a infecção por fungos em plantas ou sementes,
que geralmente são aplicados antes do fungo presente ou após o fungo infectar as
espécies de plantas. Além disso, o agrotóxico pode ser classificado com base no modo
de ação sobre as pragas como destruidor, mitigante e repelente (MARCHI, et al., 2008;
GUEDES, et al., 2008)

85

Efeitos a Saúde
Apesar da grande importância dos pesticidas na manutenção da boa qualidade e
proteção das culturas ou matérias-primas, eles representam um alto grau de preocupação
na saúde humana. Isto se deve, pela tendência de acúmulo, junto à membrana celular,
interrompendo o sistema de funcionamento do corpo (SANKHLA et al., 2018; NUNES et
al., 2021).
Os seres humanos são expostos a pesticidas na água principalmente por contato
dérmico e por ingestão (NUNES et al., 2021). Foi comprovado que a exposição à pesticidas
resulta em imunossupressão, interrupção hormonal, redução da inteligência, distorção
reprodutiva e câncer. Os impactos da exposição a pesticidas em humanos podem ser
categorizados em problemas de saúde agudos e problemas de saúde crônicos. Os
problemas crônicos de saúde abrangem efeitos neurológicos, como o início da doença
de Parkinson, redução da capacidade de atenção, distúrbios de memória, problemas
reprodutivos, perturbação do desenvolvimento infantil, defeitos congênitos e câncer. Os
efeitos agudos para a saúde dependem da toxicidade do pesticida e os efeitos mais
comuns são redução da visão, dores de cabeça, salivação, diarreia, náuseas, vómitos,
sibilos, coma e até morte. O envenenamento moderado por pesticidas leva a mimetizar
asma intrínseca, bronquite e gastroenterite, (SANKHLA et al., 2018).
Segundo Nunes et al. (2021), agricultores apresentam alta probabilidade de
induzir câncer de próstata e asma alérgica ou não alérgica devido à exposição frequente
ao pesticida clorado uma importante fonte de contaminação da água. O inseticida é
detectado mais profundamente em ambientes urbanos do que outros tipos de pesticidas,
como herbicidas e fungicidas.
Como medida para proteger a saúde pública, níveis de orientação para pesticidas
na água potável foram implementados pelos governos nacionais. Existem vários valores
de orientação, onde poucos deles são emitidos pela Organização Mundial da Saúde
(OMS) e a Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) que
estabelecem níveis aceitáveis de resíduos de pesticidas.
Os valores de referência podem diferir com base nas condições socioeconômicas,
dietéticas, geográficas e industriais contudo tem como objetivo visar qualidade de
água adequada para consumo a longo prazo (SOLOMON, 2015; SANKHLA et al., 2018).
A falta de dados sobre a ocorrência de contaminantes nas águas inibe a priorização
das substâncias a serem regulamentadas e o estabelecimento de critérios para a água
potável em relação aos riscos associados ao seu consumo (SANKHLA et al., 2018).
Atualmente, no Brasil, existem 380 princípios ativos autorizados pelo Ministério
da Agricultura para defensivos agrícolas utilizados nas lavouras, e 1.670 produtos
fitofarmacêuticos formulados no mercado. O registro de agrotóxicos é regulamentado
pelo Decreto nº 4.074/2002. É uma responsabilidade compartilhada do Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Ministério do Meio Ambiente (MMA)
e Ministério da Saúde (MS). Ainda em março de 2022, MAPA registrou 26 defensivos
agrícolas, sendo três de princípio ativo inédito para uso dos agricultores, dentre eles, a
ametoctradina, fungicida sistêmico, registrado em mistura com o fungicida Dimetomorfe,
para uso na batata, alho, abóbora, abobrinha e chuchu. Além de uma mistura inédita
e quatro registros para uso na produção orgânica (MAPA, 2022). Portanto, são
imprescindíveis o estudo de métodos analíticos químicos, adequados à detecção de
pesticidas e contaminantes emergentes.
O presente trabalho usa uma combinação da técnica de microextração de fase
sólida (SPME) e cromatografia a gás acoplada à espectrometria de massa (GC–MS), como
ferramenta analítica para a triagem de 31 de pesticidas em águas superficiais, coletadas
no Baixo São Francisco. Os objetivos deste estudo foram:
(1) estabelecer um único procedimento de extração utilizando SPME que permita a

86

determinação multirresíduo de compostos selecionados, pertencentes a diferentes
grupos químicos, nas águas superficiais do rio São Francisco;
(2) combinar a etapa de preparação da amostra, com o uso de GC–MS, utilizando o
modo de monitoramento de íons (SIM; Selective Ion Monitoring) e (SCAN; Scanning),
selecionado para a qualificação dos analitos-alvo e investigação de outros possíveis
contaminantes;
(3) aplicar a metodologia desenvolvida para a análise de rotina de amostras de água
do Rio São Francisco, em diferentes estações, no âmbito de um inquérito alargado de
monitorização da qualidade da água, que incluiu 1 amostra (jusante) em 7 municípios na
bacia do rio;
(4) avaliar o risco provocado pelos pesticidas no rio São Francisco.
(5) analisar o teor de óleos e graxas.
METODOLOGIA
O estudo foi realizado no Baixo São Francisco, corresponde à área entre
Piranhas e a foz do rio, entre os estados de Alagoas e Sergipe. O trajeto corresponde
a aproximadamente 214 km de extensão, sendo as amostragens coletadas, em pontos
georreferenciados, no período de 03 a 12 de novembro de 2022, em pontos estratégicos
do Rio (Tabela 2).
As amostras foram recolhidas em recipientes de vidro, devidamente higienizados,
com capacidade de armazenamento de 20 mL, sendo identificadas e posteriormente
armazenadas, à temperatura entre 3 a 6°C.
Tabela 2. Localização dos pontos de coleta de amostra de água, no Baixo São Francisco,
à jusante de cada cidade percorrida, em novembro de 2022.

87

Padrões e reagentes
Os compostos utilizados para estudo e identificação foram selecionados a partir
de um levantamento bibliográfico e referente aos principais cultivos da parte baixa do
Rio São Francisco (Piranhas à Foz do Rio São Francisco). Os padrões dos pesticidas, total
de 31 compostos químicos, foram adquiridos da Supelco (USA) em ampola de 1 mL. A
Tabela 3 apresenta alguns dados dos compostos monitorados, tais como: CAS (número
ou registro de composto químico no banco de dados constante na Chemical American
Society); fórmula química e massa molecular.
Tabela 3. Compostos monitorados no Baixo São Francisco (total de 31).

Cada composto foi identificado usando dados espectrais de massa, biblioteca
NIST 14 (NIST / EPA / NIH Mass Spectra Library, versão 2.2, EUA), índices de retenção
linear, dados da literatura e a injeção de padrões. Os índices de retenção linear (LRI)
foram calculados de acordo com a equação de Van den Dool; Kratz (1963) utilizando os
padrões de n-alcanos (C7 – C30) com grau de pureza acima de 99,5%, (Sigma-Aldrich).
Foi utilizado hexano, metanol e acetonitrila com 99% de pureza, da Aldrich, como solventes
para preparo preparadas soluções estoque contendo os pesticidas e armazenadas a –4
°C.
Procedimento de micro-extração de fase sólida (SPME) por headspace (HS)
Para a extração dos contaminantes de interesse, que apresentam pontos de

88

ebulição menor ou igual a 270°C, foi aplicada a técnica de microextração em fase sólida
por headspace (HS). Em detalhe, um frasco de 15 mL foi preenchido com cerca de 5 mL,
avolumado com exatidão, da amostra das água coletadas e homogeneizada, nos pontos
geográficos, listados na Tabela 2, e acrescentado 2 mL de solução aquosa saturada de
NaCl.
O frasco foi equipado com uma válvula ‘mininert’ (Supelco, Bellefonte, PA, EUA). A
extração foi realizada no frasco de headspace (HS), mantido a 70°C, usando uma fibra de
Divinilbenzeno / Carboxen / Polidimetilsiloxano (DVB/CAR/PDMS), de espessura de filme
de 50/30 μm (Supelco, Bellefonte, PA, EUA), alojado em seu suporte manual (Supelco,
Bellefonte, PA, EUA). A amostra foi equilibrada durante 10 min e depois extraída durante
50 min sob agitação constante. Após a amostragem, a fibra SPME foi mantida por 6 min
a 260°C no injetor sem divisão do GC/MS.
Análise de cromatografia gasosa / espectrômetro de massa (GC-MS)
Foi utilizado um cromatógrafo de gás com interface direta com um espectrômetro
de massa de armadilha de íons (Shimadzu, GC-MS-QP2010 Plus, Kyoto, Japan). As
condições foram: temperatura do injetor, 260°C; modo de injeção, sem divisão; coluna
capilar, DB-5, 60 m de comprimento, 0,25 mm de diâmetro interno, espessura de película
de 0,25 µm (Agilent J&W); temperatura do forno, 45°C mantida por 5 min, depois
aumentada para 80°C a uma taxa de 10°C min−1 e para 240°C a 2°C min−1; gás hélio a
uma pressão constante de 100 kpa; temperatura da linha de transferência, 250°C; faixa
de aquisição, 40–500 m/z. Os cromatogramas GC/MS foram monitorados no modo SIM
e SCAN.
Preparo das soluções-padrão
Para a análise qualitativa e quantitativa foram preparadas soluções-estoque dos
padrões, na concentração aproximada de 1 mg L-1, em diclorometano ou acetona, de
acordo com a solubilidade do analito. A partir destas soluções foi preparada uma solução
de trabalho na concentração de 10 μg L-1 com todos os padrões. Para a análise por
HS-SPME/GC/MS, no modo SIM, foram construídas curvas analíticas nas concentrações
entre 0,005 - 10 μg L-1.
Os valores da curva foram determinados e ajustadas pelo valor máximo permitido
segundo a Resolução CONAMA Nº 357, (CONAMA 357, 2005).
Curva de calibração e limites de detecção e quantificação
A linearidade foi determinada pela evolução das curvas de regressão (volume do
pico em função da concentração do padrão adicionado) e expressa pelo coeficiente
de determinação linear (R2). Os limites de detecção (LD) e quantificação (LQ) foram
determinados baseados no desvio padrão da intersecção da curva analítica (s) e da
inclinação da reta (S), Equações 1 e 2, respectivamente.
LD=3,3 s/S			
LQ=10 s/S
		

(1)
(2)

Todas as análises foram realizadas em triplicata, empregando o modo SIM, sendo
utilizados os íons majoritários e secundários.
Procedimento de análise de Teor de Óleos e Graxas (TOG)
Para medir e quantificar a concentração de óleos e graxas nas águas, descritos

89

por órgãos ambientais como Total Oil and Grease (TOG), foi utilizado o analisador
de óleo Horiba® modelo OCMA-350. As medições são baseadas na absorção no
infravermelho na faixa de 3,4 - 3,6 µm. Para a extração de TOG da amostra, o solvente
poli-triclorofluoroetileno (S-316, Horiba®) foi usado em uma proporção de 1:1 segundo
solvente para amostra, de acordo com o manual de instruções HORIBA OCMA-350).
Para melhor confiabilidade dos dados foi realizada a preparação da solução
padrão para calibração do equipamento, segundo as instruções indicadas no manual do
HORIBA OCMA-350. Foi utilizando B-heavy Oil como referência padrão. Foram extraídos
5,6 microlitros do b-heavy usando micro seringa, e colocado em um balão volumétrico
de 25 ml e avolumado com o poli-triclorofluoroetileno (S-316, Horiba®). O equipamento
foi calibrado com a solução padrão com concentração de 200 mg/l. Os resultados foram
interpretados e discutidos baseados nos artigos da Resolução CONAMA, descrita abaixo.
Resolução CONAMA nº 393/2007
Dispõe sobre o descarte contínuo de água de processo ou de produção em plataformas
marítimas de petróleo e gás natural, e dá outras providências.
“Art. 5°. O descarte de água produzida deverá obedecer à concentração média aritmética
simples mensal de óleos e graxas de até 29 mg/L, com valor máximo diário de 42 mg/L.”
Resolução CONAMA nº 274/2001
“Art. 8º. Para as águas de Classe 5, são estabelecidos os limites ou condições seguintes: ”
“i) pH: 6,5 a 8,5, não devendo haver uma mudança do pH natural maior do que 0,2
unidade”
RESULTADOS
Análise Cromatografia
As análises das amostras não apresentaram pico interferentes, conferindo
seletividade ao método desenvolvido, não tendo sido confirmada a presença dos
compostos listados na Tabela 3. Provavelmente, a ele isto se deve à elevada vazão do Rio
São Francisco, no período da coleta. No ano de 2022, ocorreu as maiores vazões dos
últimos 12 anos, tendo, no mês de fevereiro, atingindo uma vazão de máxima de 3.970
m3/s. As Figuras 1 e 2 apresentam os dados hidrológicos na bacia do São Francisco,
fornecido pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (NOS), referentes respectivamente,
aos períodos de 01/01/2021 a 12/11/2022 e, 01/01/2013 à 01/01/2023.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), a previsão de chuvas em
fevereiro de 2021 atingiu recorde marcando história, principalmente nas regiões Norte,
Centro-oeste, Sul e Sudeste. A região Nordeste apresentou chuvas dentro da faixa
normal, e um pouco acima, na parte mais ao norte. As chuvas acabaram gerando um
grande volume de água principalmente ao longo do Rio São Francisco. A Figura 3 ilustra
a estátua de 12 metros da lenda do Nego D’água, construída pelo escultor Ledo Ivo
Gomes de Oliveira localizada no Rio São Francisco entre Juazeiro/BA e Petrolina/PE em
época de seca no ano de 2017, 2020 e após a cheia de 2022.

Figura 1: Dados hidrológicos da vazão (m3/s) na bacia do São Francisco, reservatório
Xingo. Período de 01/01/2021 a 12/11/2022.

90

Figura 2: Dados hidrológicos da vazão em (m3/s) em 01/01/2013 à 01/01/2023 na bacia
São Francisco reservatório Xingo.

91

Figura 3: Fotografias registradas em diferentes épocas de seca e altas chuvas.

Todo o monitoramento analítico foi realizado utilizando a cromatografia gasosa
acoplada à espectrometria de massas. As áreas cromatográficas no modo SCAN é
apresentado na Tabela 4.
Tabela 4: Áreas cromatográficas no Modo SCAN, dos compostos monitorados no Baixo
São Francisco.

Nas 38 amostras coletadas ao longo do Rio São Francisco foram detectados mais
de 100 compostos, porém 7 entre eles se destacaram: inseticida, fungicida, fármacos,
cosméticos, hidrocarbonetos aromáticos e os BTEX (hidrocarbonetos: Benzeno, Tolueno,
Etilbenzeno e Xilenos), os quais podem causar sérios problemas à saúde e ao meio
ambiente.
O tolueno ou metilbenzeno segundo a literatura é um solvente orgânico derivado
do petróleo é utilizado como matéria-prima industrial, é um hidrocarboneto aromático,
incolor com odor característico. Está presente em colas, gasolinas, solventes, agentes de

92

limpeza, na síntese de outros produtos químicos como uretano, poliuretano e benzeno. é
utilizado como solvente para tintas, na produção de explosivos, corantes, medicamentos
e detergentes e como solvente industrial para borrachas e óleos e ainda na produção
de outros químicos (AZEVEDO, 2004). As Figuras 4 e 5 apresentam, respectivamente,
o comparativo das localidades onde o tolueno foi identificado e qualificado, e, o perfil
cromatográfico do município de Piranhas.
Figura 4. Tolueno identificado e qualificado em águas superficiais do Rio São Francisco
com suas respectivas áreas.

Figura 5. Perfil cromatográfico no Modo Scan da amostra de Piranhas.

Foi constatada uma elevada quantidade de tolueno nos municípios de Piranhas e
Propriá. A região de Pão de Açúcar apresentou níveis semelhantes aos registrados em
Chinaré, enquanto as demais localidades, demonstraram áreas mais baixas em relação a
este composto.

93

A maior fonte de exposição ambiental ao tolueno é a produção e uso da gasolina. O
tolueno é rapidamente absorvido pelo trato respiratório e gastrointestinal, e, de forma mais
lenta, através da pele. a exposição pode irritar os olhos, nariz e garganta, causar tonturas,
cefaléia, letargia, inebriação, sonolência, marcha cambaleante, náusea e depressão do
sistema nervoso central, podendo progredir com midríase e insônia em concentrações
acima de 200 ppm. Altas concentrações podem causar delírios e desmaios, e até coma
e morte. os efeitos crônicos podem ocorrer algum tempo após a exposição a tolueno e
podem permanecer por meses ou anos. outros efeitos tais como a exposição repetida,
podem causar danos à medula óssea e redução na contagem das células (FORSTER et.
al., 1994). A exposição prolongada pode causar ressecamento e rachadura da pele, perda
de apetite, náusea e danos aos rins e fígado e ao cérebro. (ALCÂNTARA, 1974)
As Figuras 6 e 7 apresentam, respectivamente, o comparativo das localidades
onde os compostos benzeno, xileno e etilbenzeno, pertencentes ao BTEX, e o perfil
cromatográfico, do município de Penedo, que apresentou maior quantitativo.
Figura 6. Compostos identificados e qualificados como BTEX (benzeno, xilenos e
etilbenzeno) em águas superficiais do Rio São Francisco e respectivas áreas.

Figura 7. Perfil cromatográfico no Modo Scan da amostra de Penedo.

94

Foi observado, por meio das análises realizadas, uma incidência significativa de
BTEX nos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Própria e Penedo, Figura 6. Houve
um aumento significativo em Penedo, em comparação ao ponto de coleta de amostra,
localizado próximo do deságue do rio Boacica. O mesmo ocorreu em Piaçabuçu, próximo
ao deságue do Rio Piauí. Provavelmente, tais reduções se deve à diluição de produtos,
em função da vazão dos afluentes. O ponto extra em Pão de Açúcar apresentou área
superior ao ponto fluviométrico, tendo sido observada uma densa espuma na região,
próxima a margem do rio, Figura 8.
Figura 8. Espuma densa localizada no ponto extra do município de Pão de Açúcar.

Benzeno, etilbenzeno e xileno são compostos químicos com propriedades
distintas e potenciais impactos à saúde. O benzeno, composto volátil e inflamável, é
amplamente utilizado na indústria e está presente em produtos derivados do petróleo,
como a gasolina. Sua exposição crônica está associada a efeitos adversos ao sistema
imunológico e é classificado como carcinogênico para humanos. O etilbenzeno,
encontrado principalmente na produção de estireno, possui efeitos agudos respiratórios
e neurológicos, além de irritações nos olhos e garganta. O xileno, composto isoméricos
do grupo BTEX, é utilizado em fragrâncias sintéticas, tintas e vernizes. Em concentrações
crônicas, pode afetar o sistema nervoso central, causando dores de cabeça, problemas
respiratórios, cardiovasculares e renais. Assim como o etilbenzeno, o xileno é considerado
não carcinogênico para humanos (CETESB, 2016).
A Figura 9 apresenta o comparativo das localidades onde o composto 1,3 diclorobenzeno
foi identificado e qualificado.
Figura 9. 1,3 DicloroBenzeno identificados e qualificados em águas superficiais do Rio
São Francisco com suas respectivas áreas

95

A Figura 10 apresenta o perfil cromatográfico referente ao município de Pão de Açúcar,
que apresentou maior quantitativo do composto 1,3 diclorobenzeno.
Figura 10. Perfil cromatográfico no Modo Scan da amostra de Pão de Açúcar.

A presença significativa do composto 1,3 diclorobenzeno foi constatada nas regiões
de Traipu, Penedo e Pão de Açúcar. Os demais municípios analisados apresentaram áreas
com baixas concentrações em relação a esse composto. O ponto extra localizado no
município de Pão de Açúcar apresentou grande área, podendo ser proveniente da densa
espuma, oriunda do extra de Pão de Açúcar, que pode ter se deslocado ao longo do Rio
São Francisco, e se acumulado em municípios vizinhos, como Traipú.
O 1,3-diclorobenzeno é um líquido volátil não inflamável, amplamente utilizado
na fabricação de herbicidas, inseticidas, corantes e insumos farmacêuticos. Apesar de
não possuir um odor característico, é essencial considerar os riscos associados a esse
composto. A exposição ao 1,3-diclorobenzeno pode ocorrer por inalação, contato dérmico
ou ingestão de alimentos e água contaminados. Essa substância pode causar irritação nos
olhos e no trato respiratório, bem como dores de estômago, náuseas, vômitos e diarreia.

96

Quanto à carcinogenicidade, o 1,3-diclorobenzeno é classificado como não classificável
pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Grupo 3), o que significa que não
há evidências suficientes para determinar se o composto é carcinogênico para os seres
humanos (CETESB, 2012). A Figura 11 apresenta o comparativo das localidades onde do
composto 1 decametilciclopentasiloxano foi identificado e qualificado.
Figura 11. Compostos identificados e qualificados como decametilciclopentasiloxano em
águas superficiais do Rio São Francisco com suas respectivas áreas.

A Figura 12 apresenta o perfil cromatográfico referente ao município de Piaçabuçu, que
apresentou maior quantitativo do composto decametilciclopentasiloxano.
Figura 12. Perfil cromatográfico no Modo Scan da amostra de Piaçabuçu.

97

O composto, cromatograficamente identificado como decametilciclopentasiloxano,
teve sua maior área identificada em Piaçabuçu. Nas demais localidades de análise obtevese uma baixa área em comparação a Piaçabuçu. Os demais pontos de amostragem
tiveram proximidade com seus respectivos pontos fluviométricos. Contudo, o ponto extra
de Piaçabuçu se destacou do ponto fluviométrico provavelmente por ser um ponto de
deságue do Rio Piauí no Rio São Francisco, mostrando que possivelmente o composto
pode ser oriundo desse rio.
O decametilciclopentasiloxano (D5) é um siloxano cíclico amplamente utilizado na
formulação de produtos de consumo e como intermediário industrial. É classificado como
líquido inflamável, apresentando risco de incêndio, além de ser tóxico, especialmente os
pulmões, quando há exposição repetida (PUBCHEM, 2023).
Em 2020, o uso dos silicones D4 (octametilciclotetrasiloxano) e D5
(decametilciclopentasiloxano) em cosméticos enxaguados foi restrito, na União Europeia,
devido aos riscos ambientais relacionados à sua descarga em águas residuais. Esses
silicones são considerados substâncias muito persistentes e bioacumuláveis. (JORNAL
OFICIAL DA UNIÃO EUROPEIA, 2018)
As Figuras 13 e 14 apresentam, respectivamente, o comparativo das localidades onde
o composto Oxima-, metoxi-fenil- foi identificado e qualificado, e o perfil cromatográfico
do município de Chinaré.
A maior concentração do composto oxima-, metoxi-fenil- foi registrada no
município de Chinaré, seguido por Penedo. Dentre os pontos extras destaca-se Piranhas
e Piaçabuçu. Nos demais municípios foi observado um quantitativo significativo de
Oxima-, metoxi-fenil.
Figura 13. Gráfico dos compostos identificados e qualificados como Oxima-, metoxifenil- em águas superficiais do Rio São Francisco com suas respectivas áreas.

98

Figura 14. Perfil cromatográfico no Modo Scan da amostra de Chinaré.

Oxima-, metoxi-fenil-, pode ser usado como constituinte de biocidas, repelentes ou
atrativos de pragas, ou ainda, como reguladores de crescimento de plantas. Sua capacidade
de interferir no desenvolvimento e comportamento de organismos indesejados torna-o
valioso na agricultura, no controle de insetos, no manejo de pragas e na proteção de
culturas. Além disso, pode ser encontrado em formulações de produtos para cuidados
pessoais, como loções e cremes, devido às suas propriedades antimicrobianas e
conservantes.
As Figuras 15 e 16 apresentam, respectivamente, o comparativo das localidades
onde o composto Decanal foi identificado e qualificado, e o perfil cromatográfico do
município de Piranhas.
Figura 15. Compostos identificados e qualificados como Decanal em águas superficiais
do Rio São Francisco com suas respectivas áreas.

99

Figura 16. Perfil cromatográfico no Modo Scan da amostra de Piranhas.

O composto Decanal apresentou uma concentração significativamente elevada
em Piranhas, superando em muito os demais municípios situados ao longo do Rio São
Francisco. Foi também detectado nos pontos de amostragem extra em Penedo, seguido
por Piaçabuçu e Propriá, e em concentrações mais baixas, em todos os municípios
investigados, Figura 15. Este composto é conhecido como decaldeído, sendo utilizado na
indústria de fragrâncias e na fabricação de óleos cítricos sintéticos, devido ao seu aroma
cítrico (PUBCHEM, 2023).
As Figuras 17 e 18 apresentam, respectivamente, o comparativo em área do
Hidroxitolueno Butilado identificado e qualificado, e o perfil cromatográfico do município
de Propriá.
Figura 17. Compostos identificados e qualificados como Hidroxitolueno Butilado em
águas superficiais do Rio São Francisco com suas respectivas áreas.

100

Figura 18. Perfil cromatográfico no Modo Scan da amostra de Propriá.

A presença de Hidroxitolueno Butilado foi identificada exclusivamente no município
de Propriá, principalmente no ponto extra 3 em Propriá, Figura 19.
Figura 19. A Imagem geográfica do ponto extra 03 onde foi identificado e qualificado o
composto Hidroxitolueno Butilado em águas superficiais de Propriá.

O Hidroxitolueno Butilado (BHT) é amplamente utilizado como aditivo alimentar e
industrial devido às suas propriedades antioxidantes. É empregado na indústria alimentícia
como BHT Grau Alimentício e BHT Grau Nutricional, e na indústria industrial como BHT
Grau Técnico, encontrado em plásticos, elastômeros, ceras, óleo para transformadores
elétricos, fluidos hidráulicos e aditivos de combustível. Além disso, é utilizado na prevenção
da formação de peróxido em éter dietílico e outros produtos químicos de laboratório.
O BHT pode estar presente em formulações de aditivos como ingrediente principal ou
como parte de sua composição.
Tal composto apresenta alguns riscos associados ao seu uso. Em altas doses, pode
causar irritação nos olhos e na pele. Além disso, estudos em animais sugerem que o BHT
pode ser tóxico para o fígado e ter efeitos nocivos sobre o sistema reprodutivo. Embora
não haja evidências conclusivas de seus efeitos cancerígenos em humanos, estudos em
animais mostraram que o BHT pode aumentar o risco de desenvolvimento de tumores.
Alguns indivíduos também podem apresentar sensibilidade alérgica ao BHT (TODINI,
2023).

101

A Tabela 5 apresenta a classificação, aplicação e classe toxicológica, segundo
“Resolução da Diretoria Colegiada, RDC 294 (2019), correlacionando com a ocorrência à
jusante das cidades.
Tabela 5 Ocorrência e classificação dos pesticidas e substâncias químicas identificadas
nos 6 municípios do Baixo São Francisco.

Dentre os 7 compostos identificados todos os compostos são classificados como
medianamente tóxico (Classe Toxicológica III).
Análise do Teor de Óleos e Graxas (TOG)
A Tabela 6 apresenta os dados referente às análises realizadas no montante,
jusante e ponto central de cada município, ao longo do Baixo São Francisco. Observase que, mesmo com valores abaixo da resolução, foi identificada a presença de óleos e
graxas em quase todos os pontos analisados. Este fato é preocupante e fundamenta a
necessidade de análises com maior periodicidade do TOG, ao longo do ano. Mesmo com
altas vazões do rio apresentadas nos períodos de coletas, foi identificada a presença
deste contaminantes.
Em vários pontos de coleta foi identificada a presença de óleo a olho nu como,
por exemplo, em Piaçabuçu, sendo na sua maioria advindas de vazamento de motores
de embarcações. Destaca-se que nos anos de 2022 e 2021 também foram identificados
os maiores teores de óleo nesta região. Cidades como Pão de Açúcar e Propriá também
apresentaram teores mais elevados nas avaliações registradas em 2021 e 2022 (SOARES
et al.2022).
Tabela 6. Análise do Teor de Óleos e Graxas no montante, jusante e meio dos municípios
percorridos ao longo do Rio São Francisco.

102

A Figura 20 apresenta o perfil de óleos e graxas ao longo do Baixo São Francisco,
destacando-se uma maior concentração de óleo na região de Piaçabuçu e de Propriá. É
importante salientar que essas análises são pontuais e, por se tratar de contaminantes
que na sua maioria permanecem na superfície do Rio, essas manchas são dissipadas com
bastante intensidade, devido a magnitude do Rio São Francisco. Foi notória a presença
de óleo e graxas em todas as regiões avaliadas.
Figura 20. Perfil do Teor de Óleos e Graxas ao longo do Rio São Francisco por
georreferenciamento topográfico.

103

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O método micro-extração de fase sólida (SPME) e análise de cromatografia
gasosa com espectrometria de massa (GC-MS) utilizada neste trabalho, demonstrou ser
fundamental para determinar a existência de pesticidas no Baixo São Francisco, com
extrema sensibilidade e seletividade, atendendo a requisitos na faixa de μg L-1, mesmo
na presença de matéria orgânica, e em diferentes concentrações.
Nas amostras não foram identificados os compostos com grande toxicidade, apenas
7 deles foram qualificados, dentre eles: inseticidas, fungicidas, fármacos, cosméticos e
hidrocarbonetos. Devido aos efeitos que estes pesticidas podem causar à saúde e ao
meio ambiente, o monitoramento das águas é importante para a qualidade de vida.
Durante as análises dos teores de óleos e graxas (TOG) nas águas do Rio São Francisco,
durante a V Expedição Científica do Rio São Francisco, mesmo com altas vazões
registradas, foi identificado a presença deste contaminante, embora em pequenas
quantidades, porém relevantes. Muito provavelmente, além das contaminações por
despejos lançados diretamente no Rio, quer seja na forma líquida ou mesmo sólidos
com contaminação de óleos, destaca-se a contaminação por vazamento de combustíveis
por embarcações. Outras contaminações, além das advindas por práticas locais como
lavagens de utensílios domésticos, animais e despejos de contaminantes de embarcações
com serviços de restaurante também foram observados. Assim sugerimos que as análises
sejam continuadas com maior periodicidade em pontos críticos das cidades ribeirinhas.
Segundo a Resolução Conama 357 (BRASIL, 2005), o teor de óleos e graxas em água
doce deve ser virtualmente ausente.
Este estudo mostrou-se fundamental para alertar e conscientização da população
e responsáveis pela política pública e meio ambiente. Além disso, a ocorrência de novos
contaminantes “não regulamentados” requer um monitoramento mais constante. Portanto,
este estudo dará subsídios para a implementação de novas políticas e regulamentações
específicas, fundamentais para alcançar e manter o equilíbrio saudável do meio ambiental.
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108

6. AVALIAÇÃO DE GENTOXICIDADE UTILIZANDO PEIXES
COLETADOS DURANTE A V EXPEDIÇÃO DO SÃO FRANCISCO
Themis Jesus Silva27
Edmara Ramos Melo28
Alexandre Santos da Costa29
Emerson Carlos Soares30

RESUMO
A região do baixo Rio São Francisco tem 214 km de extensão, atravessa diversas
cidades e suporta vários problemas causados nas regiões mais acima da bacia, devido
principalmente a ações antrópicas. Tais ações impactam de forma negativa a ictiofauna
desta região. Assim, a qualidade ambiental deste corpo d’água foi avaliada utilizando
os peixes como bioindicadores e um biomarcador do tipo genético. Os peixes foram
coletados durante a V Expedição Científica do Baixo São Francisco, nas cidades de
Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Penedo e Piaçabuçu (AL). O teste do micronúcleo foi
realizado para verificar a frequência das Anormalidades Nucleares Eritrocitárias (ANEs).
Foram coletados espécimes de tucunaré, pirambeba, pacu e piau-branco. As maiores
frequências de ANEs foram observadas em Pão de Açúcar, Piaçabuçu e Piranhas e as
menores em Traipu e Penedo. Em relação a frequência somente de micronúcleos, os
maiores valores foram constatados em Piranhas, Piaçabuçu e Pão de Açúcar. Enquanto
o tucunaré e a pirambeba apresentaram as maiores frequências de ANEs, o pacu e piaubranco tiveram as menores frequências. Os peixes do baixo Rio São Francisco mostramse bioindicadores uteis para verificar a qualidade da água, produzindo informações que
podem ser usadas por diferentes instituições para gerar políticas públicas eficientes com
a escopo de diminuir e/ou eliminar os problemas que atingem este ecossistema.
Palavras-chave: anormalidades nucleares; micronúcleo; piau-branco; tucunaré.

27
Professora, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
28
Mestre em Meteorologia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
29
Graduando em Agroecologia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de
Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
30
Professor, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

109

INTRODUÇÃO
A Região Hidrográfica São Francisco apresenta aproximadamente 638.466 km2
de área que corresponde a 7,5% do território nacional, abrangendo os estados da Bahia,
Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Goiás e Distrito Federal. É subdividida em
quatro unidades hidrográficas: Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco. Um dos
rios mais importantes do Brasil e da bacia hidrográfica, o São Francisco, percorre cerca
de 2.800 km, estende-se de Minas Gerais até o Oceano Atlântico, desaguando entre os
Estados de Alagoas e Sergipe (ANA, 2015).
O Rio São Francisco foi uma das maiores fontes brasileiras de pescados, fornecendo
condições ao desenvolvimento da pesca de subsistência e comercialização com outros
estados do nordeste, bem como os da região Sudeste. Ao longo dos anos, essa situação
se modificou e foram apontadas como causas o uso inadequado do solo, sobrepesca,
destruição de hábitats, o barramento de suas águas e a poluição (GODINHO & GODINHO,
2003).
Zellhuber e Siqueira (2007), mencionaram a poluição presente no Rio São Francisco
como um dos problemas ambientais causado por fatores como ausência de saneamento
básico devido ao lançamento dos esgotos das cidades ribeirinhas (domésticos e
industriais) diretamente nos rios, somado ao escoamento superficial de agroquímicos
provenientes das lavouras próximas às margens do rio, entre outros. Os corpos d’água
são continuamente expostos à pressão provenientes das atividades antrópicas, sendo
assim, realizar o monitoramento ambiental é essencial para manter o seu estado natural
(ZALEWSKA & DANOWSKA, 2017).
Os peixes são os organismos adequados para o monitoramento ambiental,
principalmente quanto à poluição dos ecossistemas aquáticos (RAMSDORF et al.,
2012). Isso se deve a sensibilidade desses organismos aos efeitos da toxicidade de
poluentes mesmo em baixas concentrações, por estarem em contato direto com os
xenobióticos no meio aquático, além de possuírem grande diversidade ecológica, que
implica em apresentarem diferentes estilos de vida e habitat durante seu ciclo de vida
(DEUTSCHMANN et al., 2016; RIBEIRO & AMÉRICO-PINHEIRO, 2018).
Diante do exposto, estudos vêm sendo desenvolvidos utilizando peixes como
bioindicadores da qualidade do ambiente aquático (AL-SABTI e METCALFE,1995;
PANTALEÃO et al., 2006; NWANI et al., 2011; JESUS et al., 2016; LACERDA et al. 2020
entre outros). A exposição dos organismos aquáticos, entre eles os peixes, a substâncias
com ação genotóxica leva a danos ao material genético, que favorecem o aumento do
risco de desenvolvimento de doenças (KURELEC, 1993), alterações no crescimento,
fecundidade e longevidade dos organismos (THEODORAKIS et al., 2000).
Assim, várias técnicas vêm sendo utilizadas para detectar a presença de agentes
genotóxico, entre elas, o teste de micronúcleo, técnica de fácil amostragem, alta
sensibilidade, confiável e rápida análise se comparada a outros teste de danos ao DNA
(CARRASCO et al., 1990; FENECH, 2000; BOLOGNESI e HAYASHI, 2011; MELO et. al.,
2013). Além dos micronúcleos, outras anormalidades nucleares, como núcleo do tipo
blebbed, núcleo do tipo lobed, núcleo do tipo notched e núcleo vacuolizado descritas por
Carrasco et al. (1990) têm sido avaliadas em estudos genotóxicos para testar a exposição
dos organismos.
Deste modo, o presente estudo foi realizado com o objetivo de observar possíveis
efeitos genotóxicos em peixes coletados no Baixo São Francisco, devido a sua relevância
econômica, social e ambiental às comunidades ribeirinhas. E assim, fornecer informações
que possam contribuir na elaboração de medidas de gestão dos impactos ambientais
existentes nesse ambiente de grande biodiversidade e importância social.

110

METODOLOGIA
Captura dos animais
As coletas foram realizadas durante a V Expedição Científica do São Francisco,
durante o período de 03 a 12 de novembro 2022, nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Penedo e Piaçabuçu (Foz) em Alagoas.
Para a captura dos peixes as redes de pesca foram colocadas durante a madrugada
e retiradas pela manhã. Ao chegar na embarcação os animais passaram por biometria
(peso, comprimento total e padrão) e identificação (sexo e espécie). Posteriormente,
foram coletadas as amostras biológicas (sangue).
Anormalidades Nucleares Eritrocitárias (ANE)
A genotoxicidade (dano ao DNA) foi avaliada por meio da visualização de
micronúcleos e outras anormalidades nucleares eritrocitárias (célula com núcleo blebbed;
núcleo com anomalia lobed; alteração nuclear do tipo notched; célula binucleada) através
de esfregaços do sangue dos peixes.
Ainda na embarcação, os esfregaços foram preparados em lâminas de microscópio
utilizando 10 µL da solução de sangue/heparina por lâmina. As lâminas secaram em
temperatura ambiente, foram fixadas em metanol absoluto durante 10 minutos, passaram
por nova secagem durante 24 horas e então coradas com Giemsa 10% diluído em tampão
fosfato salino - PBS (pH 7,4) ao longo de 15 minutos. Preparou-se três lâminas por indivíduo
e as anormalidades foram identificadas em laboratório conforme Carrasco et al., (1990):
- Célula Binucleada (Bin)- células apresentando dois núcleos de tamanhos similares;
- Blebbed (Ble) - núcleo com uma pequena evaginação no envoltório nuclear, formando
uma bolha;
- Notched (Not) - núcleo com uma pequena fenda;
- Lobed (Lob) - núcleo com evaginação no envoltório nuclear maior que blebbed,
formando um lóbulo;
- Micronúcleo (Mn) - fragmentos de DNA não incorporados ao núcleo, formato circular
com tamanho menor que um terço do núcleo principal e coloração semelhante ao núcleo
principal.
No Laboratório de Aquicultura e Análises de Água (LAQUA), utilizando microscópio
óptico (Nikon Corporation, modelo 550S, objetiva 1000X) foi realizada a contagem dos
eritrócitos totais, das anormalidades nucleares eritrocitárias e dos leucócitos presentes
em cada lâmina. Durante a contagem foram registradas 1500 eritrócitos periféricos por
esfregaço sanguíneo, totalizando 4500 células por indivíduo. Posteriormente, realizou-se
registros fotográficos das anormalidades observadas.
O cálculo da frequência de todas as anormalidades nucleares (NWANI et al., 2011)
foram obtidos através da seguinte fórmula:
Frequência de cada ANE (%) = Total de anormalidade por indivíduo/ 1500 * 100
Para avaliar os dados genotóxicos foi realizada uma análise de variância e teste de Tukey
a 95% de confiança no programa Minitab 14.

111

RESULTADOS
As espécies coletadas para a avaliação da genotoxicidade foram: Cichla monoculus
(tucunaré), Metynnis maculatus (pacu), Schizodon knerii (piau branco) e Serrasalmus
brandtii (pirambeba) (Tabela 01). As coletas foram realizadas nos municípios de Piranhas,
Pão de Açúcar, Traipu, Penedo e Piaçabuçu (AL).
Tabela 01: Espécies coletadas durante a V Expedição utilizadas para análises de
genotoxicidade.

Observou-se a presença de micronúcleos, célula com núcleo blebbed, núcleo com
anomalia lobed, alteração nuclear do tipo notched e células binucleadas em todos os
pontos de coleta analisados (Tabela 02).
As maiores frequências de anormalidades nucleares eritrocitárias (ANEs) foram
observadas em Pão de Açúcar, Piaçabuçu e Piranhas, respectivamente, e as menores em
Traipu e Penedo (Figura 01).
Em relação a frequência de micronúcleos, os maiores valores foram constatados
em Piranhas, Piaçabuçu e Pão de Açúcar. E novamente Traipu e Penedo apresentaram as
menores frequências de micronúcleos (Figura 01).
Tabela 02: Frequência de Anormalidades Nucleares Eritrocitárias (ANEs) em peixes
coletados no Baixo São Francisco.

112

Figura 01: Frequência (%) média de anormalidades nucleares eritrocitárias (ANEs) nos
municípios do Baixo São Francisco.

113

A presença de anormalidades em todas as localidades estudadas pode estar
associada à falta de tratamento de esgoto. Ao longo de todo o rio, apenas a cidade de
Lagoa da Prata (MG) tem 100% do esgoto tratado (CBHSF, 2020). Segundo dados do
Atlas Esgotos, elaborado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA),
aproximadamente 80% do esgoto das cidades ribeirinhas do Baixo São Francisco não
são tratados (ANA, 2017).
Associado ao lançamento dos esgotos das cidades ribeirinhas diretamente no
rio, o escoamento superficial de agroquímicos provenientes das lavouras no entorno
contribui para a poluição aquática no Baixo São Francisco, como mencionado por
Zellhuber & Siqueira (2007) e o consequente aparecimento de danos genotóxicos. As
principais atividades humanas que impactam os recursos hídricos e alteram a qualidade
da água são: urbanização, despejo de esgoto sem tratamento, mineração, construção de
represas, atividades industriais, agricultura, pesca e aquicultura, introdução de espécies
exóticas, dentre outras, estas resultam em eutrofização, o aumento da toxicidade das
águas superficiais e subterrâneas, alterações no ciclo hidrológico e na disponibilidade de
água (Tundisi e Tundisi, 2011). Todas essas atividades e suas consequências verificadas no
Baixo São Francisco e que podem estar atuando como agentes genotóxicos.
Além dos impactos citados acima decorrentes de ações antrópicas, no caso
do Rio São Francisco, o represamento das águas e respectivo controle de 98% da
bacia de drenagem reflete no regime hidrológico principalmente na parte inferior da
bacia, modificando as descargas de água, a carga fluvial de matéria em suspensão e
de nutrientes, o qual praticamente extinguiu o padrão sazonal na descarga de água e
materiais associados (KNOPPERS et al., 2006; MEDEIROS et al., 2011, KNOPPERS et al.,
2018).
De acordo com Vega et al. (1998), a concentração de poluentes na água pode
ter influência de condições hidrológicas e climáticas. O represamento da água na Usina
Hidrelétrica de Xingó trazendo diferentes substâncias e poluentes de toda a bacia, pode
explicar as maiores frequências de ANEs nas cidades Piranhas e Pão de Açúcar, além do
despejo das próprias cidades contribuindo para uma maior concentração de agentes
genotóxicos e maiores danos ao DNA dos peixes coletados nestas cidades.
O município de Piaçabuçu, foi o segundo município com as maiores frequências
de ANEs, mesmo com pequeno número de indivíduos coletados. O que pode explicar
tal resultado, além da carga de efluentes da própria cidade de Piaçabuçu, é a grande
variação diária, de alguns parâmetros de água que os peixes coletados neste ambiente
estão sujeitos, entre estes a menor taxa de OD, e níveis elevados de N, P e K (SOARES;
SILVA; NAVAS, 2020; SOARES; SILVA; SILVA, 2022).
A relação das anormalidades com a presença de diferentes poluentes na água
já está bem documentada na literatura, como anormalidades associadas a: poluentes
urbanos ou industriais (OLIVEIRA et al., 2022; ABDEL-KHALEK; DAJEM; MORSY, 2020;
KIRSCHBAUM et al., 2009), metais pesados (PORTO et al., 2005; KIRSCHBAUM et al.,
2009; LACERDA et al., 2020) e agrotóxicos (ANDRADE et al., 2004; LIMA et al., 2018).
Analisando as ANEs por espécies, o tucunaré (C. monoculus) e a pirambeba (S.
brandtii) apresentaram as maiores frequências de ANEs (Figura 02), mesmo quando
ambas apresentaram o menor número de indivíduos coletados (Tabela 01). O tucunaré
também apresentou as maiores frequências de células binucleadas (Bin) e com evaginação
no envoltório nuclear formando um lóbulo (Lob). Enquanto a pirambeba exibiu maior
frequência micronúcleo (Mn).

114

Figura 02: Frequência média de anormalidades nucleares eritrocitárias em peixes
coletados no Baixo São Francisco.
Mn: eritrócito com micronúcleo; Ble.: eritrócito com núcleo blebbed; Lob.: núcleo com anomalia lobed; Not.:
alteração nuclear do tipo notched; Bin.: célula binucleada; ANEs: Anormalidades Nucleares Eritrocitárias
totais (somatório de todas as anormalidades analisadas).

Levando em consideração as espécies, a análise estatística mostrou diferença
significativa (p < 0,05), com o tucunaré diferindo estatisticamente das demais espécies
(Tabela 03).
Tabela 03: Frequência média das Anormalidades Nucleares Eritrocitárias nas espécies
analisadas.

115

Como observado na figura 02, as maiores anormalidades para o tucunaré e
pirambeba podem estar relacionados ao hábito alimentar destas espécies, os mesmos são
carnívoros e possuem maior capacidade de bioacumulação de poluentes como resultado
de biomagnificação (JESUS et al., 2016; LACERDA et al., 2020). A biomagnificação
é o processo pelo qual concentrações mais altas de uma substância (poluentes) são
alcançadas em organismos em níveis tróficos mais altos (NORDBERG et al., 2009), como
no caso do tucunaré e da pirambeba. De acordo com Porto et al. (2005), as frequências
médias de micronúcleos em espécies piscívoras são maiores quando comparadas a
espécies detritívoras e/ou onívoras. Grisolia et al. (2009), encontraram as maiores médias
de Mn nas espécies Cichla temensis (tucunaré) e Hoplias malabaricus (traíra), espécies
piscívoras, corroborando os resultados encontrados neste.
Para Mourão et al (2023), a maior concentração de metais em espécies de peixes
de maior nível trófico (Cichla monoculus e Pterygoplichthys pardalis) é explicado devido
ao processo de biomagnificação. Essa maior concentração de metais e outras substâncias
exógenas em espécies de maior nível trófico podem atuar como causadoras das ANEs.
Associado ao hábito alimentar e consequente biomagnificação, o comportamento
migratório pode ser outro fator que explique os valores obtidos das frequências de ANEs
neste trabalho. Peixes do gênero Cichla não realizam migrações (DOREA e BARBOSA,
2007), são considerados sedentários e podem fechar todo o ciclo de vida, incluindo
os eventos reprodutivos, em uma mesma área da bacia hidrográfica em que vivem
(HILSDORF e MOREIRA, 2008). Da mesma forma a pirambeba, que é considerada uma
espécie que realiza migração de curta distâncias (FIGUEIREDO et al., 2020) ou para
alguns autores uma espécie sedentária (SILVA, 2017), ficando assim como o tucunaré um
maior tempo em um mesmo local e consequentemente um maior tempo em contato com
agentes genotóxicos deste ambiente.
As espécies S. knerii (piau-branco) e M. maculatus (pacu) mostraram as menores
frequências ANEs (Figura 02), o que pode ser explicado pelo hábito herbívoro (ALVIM
e PERET, 2004; BENNEMANN, et al., 2011) de ambas. Devido ao hábito alimentar, os
herbívoros, estão sujeitos a menores taxas de bioacumulação e de biomagnificação, e
consequentemente menores frequências de ANEs, como observado neste.
As consequências dos danos genéticos vão desde a formação de tumores, até alterações
no crescimento, fecundidade e longevidade dos organismos (THEODORAKIS et al.,
2000), o que impacta de forma direta a ictiofauna do baixo São Francisco.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A quantificação das Anormalidades Nucleares Eritrocitárias (ANEs), mostrou-se
eficiente para o conhecimento dos danos genéticos que acometem os peixes do baixo
São Francisco.
As ANEs encontradas neste trabalho mostram que os organismos aquáticos do baixo
Rio São Francisco estão expostos a agentes genotóxicos e que é extrema importância
e urgência a realização do tratamento de esgoto das cidades a margem ou próximas ao
Rio São Francisco, além de um regime hídrico que leve em conta a ictiofauna.
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119

7. POLUIÇÃO HÍDRICA NO BAIXO SÃO FRANCISCO E SEUS
EFEITOS NOS PEIXES ATRAVÉS DA AVALIAÇÃO
ENZIMÁTICA E HISTOPATOLÓGICA
Área de conhecimento: toxicologia ambiental
Maraísa Bezerra de Jesus Feitosa31
Ítala Gabriela Sobral dos Santos32
Maryana Vitória da Paz33
Rafaela Ellen Rocha da Silva34
Lívia Almeida de Souza35
Fábio Francisco da Silva36
Emerson Santos Soares37
RESUMO
Por meio de biomarcadores é possível identificar os efeitos adversos na biota,
através das lesões teciduais e atividade enzimática, por exemplo, porém estes mesmos
marcadores podem refletir uma variação natural no ciclo fisiológico de uma espécie, bem
como exposição a contaminantes. Para investigar esta questão, este trabalho pretende
identificar os parâmetros enzimáticos e histológicos de quatro espécies encontradas no
baixo São Francisco, sendo elas: piau branco, pacu, pirambeba e tucunaré. Os tecidos
utilizados foram brânquias, fígado e músculo para atividade enzimática e peroxidação
lipídica (SOD, GST e MDA) e brânquias e fígado para histologia. A atividade da superóxido
dismutase em brânquias apresentou um pico na cidade de Traipu, o que não foi refletido
nos outros biomarcadores, demonstrando um provável efeito agudo decorrente de algum
contaminante na região. As demais atividades variaram em função de fatores abióticos
e ponto amostral. Na parte histológica, todos os indivíduos analisados apresentaram
lesões com grau de severidade distintas, os mais impactados para ambos os órgãos
foram a pirambeba e tucunaré, destacando o aumento de lesões identificadas comparado
com amostragens das expedições III e IV. É importante ressaltar que a dificuldade de
um monitoramento contínuo, devido a extensão da região investigada e a oscilação da
vazão, interfere na mensuração de fontes pontuais de contaminação, como os pesticidas,
além da determinação de padrões fisiológicos enzimáticos basais. Todavia, os dados
obtidos neste estudo, refletem danos presentes nos peixes, mas também corroboram
para fomentar estudos acerca do monitoramento contínuo e da qualidade ambiental no
Baixo São Francisco nestas espécies.
Palavras-Chave: Estresse oxidativo, histopatologia, efluentes, pirambeba, tucunaré,
necrose
31
Laboratório de Aquicultura e Ecologia Aquática/ Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas – LAQUA/CECA/UFAL, Alagoas, Brasil.
32
*Equal contributors
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*Equal contributors
37
*Equal contributors

120

INTRODUÇÃO
O baixo São Francisco tem aproximadamente 214 km de extensão, e vem sofrendo
danos cumulativos nos últimos anos, principalmente pela descarga de efluentes (SOARES
et al., 2022). A interação e sinergismo de contaminantes refletem ambientes altamente
antropofizados e interferem na disponibilidade significativa do oxigênio molecular
encontrado na água (CHWASTOWSKI et al., 2020). Apesar disto, a presença de oxigênio,
tanto o atmosférico quanto o aquático, vem com seu próprio conjunto de desafios para
seres aeróbicos, sendo o mais importante a formação de espécies reativas derivadas
de oxigênio (ROS) (BIRNIE-GAUVIN et al., 2017). Como esta formação metabólica é
constante, diversos mecanismos evolutivos de contenção celulares foram desenvolvidos
para mitigar estes efeitos, tais como os encontrados em cloroplastos, mitocôndrias e
peroxissomos (DAS et al., 2014). A esta produção basal de ROS chama-se homeostase
redox, ou seja, o equilíbrio dinâmico de reações de transferência de elétrons (LAURINDO,
2018).
No estado de equilíbrio entre pró-oxidantes e antioxidantes, os níveis de dano
oxidativo às biomoléculas são considerados fisiológicos. No entanto, em um desequilíbrio,
os níveis de ROS tornam-se excessivos, ocorrendo o estresse oxidativo, que é definido
como dano macromolecular não fisiológico com interrupção da sinalização e controle
redox (WELKER et al., 2013).
Quando o ROS possui um ou mais elétrons desemparelhados na sua última
camada de valência é chamado de radical livre. Um radical livre é um mediador, como
consequência, possui ou a capacidade de doar este elétron, apresentando atividade
redutora, ou a de sequestrar um elétron de outra substância para se estabilizar, atividade
oxidativa (LAURINDO, 2018).
Fatores físico-químicos da água doce como a salinidade, oxigênio dissolvido,
temperatura, força iônica ou concentração total de minerais iônicos, vem aumentado
em diversas regiões no mundo, decorrentes da contaminação antropogênica e, estes
marcadores interferem a produção de ROS (GRIFFITH, 2017; WELKER et al., 2013),
pois os íons possuem diferentes papéis fisiológicos nos organismos de água doce e
são necessários em diferentes concentrações dentro das células (GRIFFITH, 2017). A
modulação destas concentrações iônicas além de outros compostos dissolvidos na água
também pode interagir com a atividade de diversos componentes celulares, como as
enzimas (ROBILLARD et al., 2003).
Desta maneira, a adaptação bioquímica permite que os organismos emitam
respostas diante das adversidades ambientais, ou seja, que sejam capazes de manter
condições homeostáticas (LUSHCHAK et al., 2005). Esta adaptação pode ocorrer por
diversos mecanismos moleculares que podem ser observados tanto no nível transcricional,
traducional ou proteico (NAVIAUX, 2012). No efeito imediato, a resposta ao estímulo
externo ocorre geralmente pela modulação de processos já operantes na célula, caso o
estímulo persista, a resposta envolve a expressão de genes para mediadores que podem
estar, ou não, ativos, e, se já operantes aumentam sua quantidade (LUSHCHAK et al.,
2005).
Para avaliar estes impactos na biota, é necessário escolher um compartimento, e
os peixes são considerados bons biomonitores para avaliar a qualidade dos ambientes
que estão inseridos, por sofrer os impactos dos contaminantes em diferentes vias,
como através do contato direto com a água e indireto no consumo de presas, podendo
desencadear os processos de bioconcentração e biomagnificação de metais traços
(KROON et al., 2017).
A partir dos bioindicadores, pode ser utilizadas vias complementares como os
biomarcadores como os histopatológicos, que são considerados uma técnica sensível,
eficiente e de baixo custo para o monitoramento da contaminação ambiental pois avalia os
efeitos subletais dos organismos através da identificação de lesões nas células (BERNET

121

et al., 1999; HOOK et al. 2014). O fígado e as brânquias são os órgãos mais utilizados, o
primeiro devido a função de biotransformação de poluentes permite que o fígado possa
excretar substâncias potencialmente tóxicas (BORGES et al., 2018). E as brânquias por
ser o primeiro órgão a ter o contato direto com a água, ou seja, uma rota de entrada
de contaminantes e as lesões neste órgão acarreta em severos danos à vitalidade do
organismo (NYESTE et al., 2019).
Desta maneira, este estudo tem como objetivo avaliar a qualidade ambiental do Baixo São
Francisco através do uso de fígado e brânquias como biomarcadores histopatológicos,
além de investigar biomarcadores enzimáticos em fígado, brânquias e músculo, em quatro
espécies diferentes, visando identificar o status de saúde dos peixes e o diagnóstico
ambiental do Baixo São Francisco.
METODOLOGIA
Captura dos animais
As coletas ocorreram durante a V Expedição Científica do Baixo São Francisco, no
período de 02 a 12 de novembro de 2022, respectivamente nos municípios de Piranhas,
Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Propriá, Penedo e Piaçabuçu. As espécies alvo foram
pirambeba, tucunaré, pacu e piau.
A captura dos peixes ocorreu pela manhã, e foi repetida durante os dez dias de
expedição em cada município visitado. Ao chegar na embarcação-laboratório os animais
eram identificados (sexo e espécie), pesados e mensurados. Em seguida os peixes foram
sacrificados para a retirada de fragmentos de fígado, músculo e brânquias (Figura 01).
Os tecidos foram identificados e armazenados de diferentes formas para atender a cada
técnica e posterior análise em laboratório.
Figura 01: À direita, mesa de trabalho da equipe LAQUA durante a expedição. À esquerda,
detalhe dos cortes de tecido e armazenamento. Vista da mesa de recepção e manejo dos
espécimes coletados durante a V Expedição Científica do Baixo São Francisco.

122

Biomarcadores de estresse oxidativo
Preparo das amostras
Ao chegar no laboratório de aquicultura e ecologia aquática – LAQUA (CECA/
UFAL), os fragmentos de fígado e brânquia foram descongelados a -4 ºC, pesados e
homogeneizados (10:1) em tampão fosfato de potássio salino (PBS, pH 7.4). A mistura
foi centrifugada por 10 minutos a 4ºC, com velocidade de 12.000 rpm. O sobrenadante
resultante foi utilizado para as análises da atividade das enzimas superóxido dismutase
(SOD), glutationa S-transferase (GST), além da peroxidação lipídica (MDA).
Enzima antioxidante SOD
A atividade da SOD foi mensurada nos tecidos através da técnica utilizada por
Dieterich et al. (2000), pela mensuração da auto oxidação do pirogalol (λ= 570nm),
baseado na capacidade desta enzima em catalisar a reação do ânion superóxido (O2●-)
e o peróxido de hidrogênio e, assim, diminuir a razão da auto-oxidação do pirogalol. Os
resultados foram normalizados pela dosagem de proteína, e expressos em U SOD mg
proteína-1.
Enzima antioxidante GST
A atividade da enzima GST foi mensurada de acordo com a metodologia de Habig
et al. (1974), por meio da formação do conjugado glutationa-2,4-dinitrobenzeno (CDNB)
pelo aumento da absorbância (λ= 340 nm) durante 60 segundos. O coeficiente de extinção
molar do CDNB ɛ340 = 9,6 mM cm-1 foi utilizado para os cálculos. Os resultados foram
normalizados pela dosagem de proteína, e expressos em µmol de GS-DNB formado por
minuto por miligramas de proteína.
Determinação da concentração de proteína
A concentração de proteína foi avaliada utilizando um método espectrofotométrico
a 595 nm (Bradford et al., 1976), com corante de Coomassie brilliant blue - G250. A
quantidade de proteína em cada amostra foi estimada por meio da curva de calibração
baseada em diferentes concentrações de albumina bovina, que foi utilizada como padrão.
Malondialdeído (MDA)
Os níveis de MDA foram mensurados como descrito por Buege & Aust (1978). O
mesmo foi homogeneizado em solução de ácido tricloroacético (15%)/ácido tiobarbitúrico
(0,375%)/ ácido clorídrico (0,6% M). A mistura reacional total foi mantida em banho-maria
durante 40 minutos a 90°C e logo após, resfriado sobre gelo. Em seguida, as amostras
foram centrifugadas (5 minutos, 15°C, 14.000 rpm). Ao sobrenadante, em outro tubo, foi
acrescido 500 µL de n-butanol e 50 µL de solução saturada de NaCl, após a agitação curta
em vortex, foi submetido à centrifugação. O sobrenadante foi utilizado para mensurar
os níveis de MDA, na absorbância de 535 nm. Os dados foram normalizados por meio
de curva padrão a partir de concentrações conhecidas de 1,1,3,3-tetramethoxypropane
(TMP) (WALLIN et al., 1993).

123

Biomarcadores histológicos
Processamento histológico
Após a retirada dos órgãos, os mesmos foram acondicionados em tubos de 5mL
contendo formol a 10% , após 24 horas, a solução foi trocada por álcool 70%, para
manutenção da fixação até o processamento no Laboratório Aquicultura e Análise
de Águas (LAQUA) do Centro de Ciências agrárias (CECA-UFAL), onde os estudos
histológicos foram desenvolvidos.
Posteriormente realizou-se a desidratação em série alcoólica crescente a 80 e 90%
(10 minutos cada) e três banhos em álcool etílico a 99% (10 minutos cada). As amostras
em seguida foram infiltradas, à temperatura ambiente, inicialmente em banho contendo
mistura de historesina e álcool (1:1) por duas horas e, a posteriori, imersas em historesina
pura por 24h. Para a inclusão tecidual em historesina foram utilizados moldes de polietileno
(histomold). O material foi mantido em temperatura ambiente, no dessecador, até a
polimerização completa dos blocos. Em seguida, as amostras de ambos os órgãos foram
seccionadas em cortes de 5 μm de espessura e coradas com Hematoxilina de Harris e
Eosina aquosa.
Análise através dos indicadores histopatológicos
As alterações identificadas no fígado foram avaliadas semi-quantitativamente
de acordo com o protocolo adaptado descrito por Bernet et al. (1999). O Índice
Histopatológico do Fígado (IHF) foi calculado para cada peixe, multiplicando o fator de
importância pelo valor de ocorrência de cada alteração. O fator de importância tem como
premissa os níveis de lesões do tecido: (1) mínima - alteração facilmente reversível; (2)
moderada - reversível se o fator de stress for neutralizado; e (3) grave - frequentemente
irreversível, levando assim a uma diminuição da função hepática. E o valor de ocorrência,
corresponde ao nível e extensão das alterações do tecido, sendo estes: (0) inalterado;
(2) ocasional; (4) moderado e (6) grave (lesão difusa). As alterações pela metodologia
supracitada são divididas em quatro categorias: (1) perturbações circulatórias (condição
patológica do fluxo de sangue e tecido), incluindo hemorragia e aneurisma; (2) alterações
regressivas (causa redução ou perda ou a função dos órgãos) que envolvem alteração
do citoplasma, esteatose hepática, necrose, e degeneração vacuolar; (3) alterações
progressivas (aumento da atividade das células ou tecidos) representadas por hipertrofia
e hiperplasia no parênquima hepático; e, (4) inflamação (consequência de outros padrões
de reação), tais como infiltração e parasitas.
Os resultados que serão obtidos a partir do IHF é a representação quantitativa
levando em consideração o nível e a intensidade das lesões encontradas. Com base nisso,
o método recomenda a utilização da frequência das alterações histológicas, calculada a
partir da ocorrência de uma alteração dividida pelo IHF total da amostra multiplicado por
100, em todos os peixes e para cada local.
O Índice de Saúde dos Peixes (ISP) (Zimmerli et al., 2007) foi utilizado para
classificar a gravidade das lesões hepáticas e, se tem como referência, o produto gerado
pelo IHF. Este índice está dividido em cinco classes, como se segue: Classe I (<10),
estrutura do tecido normal/saudável sem deficiências ou alterações patológicas; Classe II
(11-20), estrutura do tecido normal com ligeiras alterações histológicas; Classe III (21-30),
modificações moderadas do tecido normal e morfologia; Classe IV (31-40), alterações
histológicas acentuadas; e Classe V (>40), alterações histológicas graves do tecido
normal e morfologia.
Para as brânquias foi aplicado o protocolo adaptado de alteração histopatológica
da classificação Poleksic & Mitrovic-Tutundzic (1994). Este tem como premissas básicas o
tipo e localização da alteração no tecido branquial danificado, divididos em cinco grupos:

124

a. hipertrofia e hiperplasia dos epitélios branquiais e alterações relacionadas; b. alterações
nas células mucosas; c. parasitas das brânquias; d. alterações nos vasos sanguíneos,
e. fases terminais (necrose). A partir disso, pode ser classificado em quatro classes,
indicando o nível de severidade do dano, sendo estas: 0-10: funcionando normalmente,
11-20: ligeiramente a moderadamente danificado, 21-50: moderadamente a fortemente
danificado e > 100 irreparavelmente danificado.
Análise Estatística
Os resultados foram mostrados como média ± desvio padrão da média. Inicialmente,
para análise enzimáticas, utilizou-se o teste de normalidade de Shapiro-Wilk, para atestar
a normalidade dos dados e, como não houve impedimento para a aplicação de testes
paramétricos, os mesmos foram submetidos ao teste ANOVA de uma via com pós teste
de Tukey. Para tratamento estatístico, será utilizado o software Prism 5.1 (GraphPad,
Califórnia, Estados Unidos). Para efeito estatístico, serão considerados significativos os
valores que apresentarem P< 0,05.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Análise geral
Inicialmente foi possível observar um aumento da quantidade de animais
capturados. Em 2021, foram 84 indivíduos e nesta, 120. São Brás e Propriá se mantêm
como os pontos com o maior número de espécies-alvo. No ano anterior foram coletados
25 Pacus (Metynnis maculatus), 14 Piau - branco (Schizodon knerii), 24 Pirambebas
(Serrassalmus brandtti) e 19 Tucunarés (Cichla monoculus); e com pode-se observar na
tabela 01, houve um aumento das espécies coletadas, com exceção do Tucunaré, que
praticamente manteve os mesmos valores da expedição anterior (SOARES et al., 2022).
Tabela 1: Valores globais das espécies coletadas.

Também merece destaque a quantidade de fêmeas ovadas coletadas neste ano,
o fato pode ser consequência do volume de chuvas na região que pode ter afetado
positivamente o período de desova, o que será melhor investigado.

125

Figura 02: Fotos tiradas dos animais coletados.

Imagens ilustrativas dos animais coletados Fonte: (SOARES et al., 2022)
Tabela 02: Padrões morfométricos dos animais coletados.

126

127

Biomarcadores de estresse oxidativo
Os biomarcadores bioquímicos mais intensamente estudados são as enzimas
envolvidas no processo de detoxificação de xenobióticos e seus metabólitos (KAUR;
JINDAL, 2017). Além destas, estão as que atuam remediando as espécies reativas de
oxigênio (ROS) geradas pelo metabolismo aeróbico e que não são adequadamente
neutralizadas pelos sistemas antioxidantes endógenos (SHI et al., 2022).
Portanto,
parâmetros enzimáticos e antioxidantes, além dos índices de estresse oxidativo
são considerados potenciais biomarcadores e são frequentemente utilizados como
ferramentas de triagem para avaliar os impactos do estresse ambiental (FAHEEM &
PARVEZ LONE, 2017).
Como pode ser visto nos gráficos abaixo, houve um pico de atividade na enzima
SOD em brânquias, em todas as espécies, na cidade de Traipu. Nesta cidade também
houve a detecção de diversos contaminantes, que podem ser vistos no capítulo sobre
os parâmetros físico-químicos da água. Este aumento, muito provavelmente, reflete o
sistema de proteção enzimático, frente ao xenobiótico, visto que a superóxido dismutase
e a catalase são a primeira linha de defesa antioxidante, que podem reduzir de forma
efetiva os níveis de ROS (SUN et al., 2020). Como este reflexo pode ser agudo, não foi
possível identificar aumentos significativos em outras atividades enzimáticas e nem na
peroxidação lipídica.
Apesar disto, era esperado que o efeito cumulativo de contaminantes refletisse
na atividade enzimática nos pontos ao longo do rio, até sua foz. Tal característica pode
ser identificada de forma sutil apenas em SOD de músculo, tecido com propriedade
mais cumulativa (SHAHID et al., 2021). Somando-se a isso, entre os teleósteos, existem
espécies que nadam de forma lenta, outras se movem com extrema velocidade (VÉLEZALAVEZ et al., 2015), portanto, o exercício modula o fluxo de oxigênio que pode acarretar
o desequilíbrio entre pró-oxidantes e antioxidantes, aumentando principalmente a
atividade da SOD muscular.
Na média, os valores enzimáticos encontrados em todas as espécies são próximos,
a espécie que mais destoa dos demais é o pacu, com aumentos significativos de suas
atividades em fígado, tanto para a GST quanto em MDA. Destaca-se que o caracídeo
M. maculatus é um peixe que, segundo uns autores é herbívoro (GOMES et al., 2012;

128

PEREIRA; MOREIRA; BATLOUNI, 2013), segundo outros omnívoro com tendência ao
herbivorismo (FAVARATO et al., 2019), e que está se tornando invasora nos rios onde
foram introduzidos na América do Sul, o que é potencializado pela sua maturação precoce
e reprodução contínua (LANGEANI et al., 2007). Portanto, o aumento desta atividade
pode ser reflexo tanto da alimentação quando posição na cadeia trófica deste espécime.
Figura 03: Avaliação da atividade das enzimas antioxidantes da superóxido dismutase
(SOD), glutationa S-transferase (GST) e peroxidação lipídica (MDA) em brânquias, fígado
e músculo.

Avaliação da atividade das enzimas antioxidantes da superóxido dismutase (SOD), glutationa S-transferase
(GST) e peroxidação lipídica (MDA) em brânquias, fígado e músculo de pacu (círculo amarelo), piau
(quadrado verde), pirambeba (triângulo azul) e tucunaré (triângulo invertido vermelho), coletados durante
a V Expedição Científica do Baixo São Francisco. A atividade de SOD nos tecidos foi expressa em unidade
de SOD por miligramas de proteína. A atividade da glutationa S -transferase foi expressa pela taxa de
aumento da absorbância da formação do conjugado GS-DNB, em µmol por minuto por miligramas de
proteína. A concentração de malonaldeído (MDA) foi expressa em micromols de MDA por miligrama de
tecido. Os dados estão plotados em média ± desvio padrão. Os resultados foram analisados por ANOVA
de uma via seguido do pós-teste de Bonferroni.

129

Dentre os parâmetros físico-químicos avaliados (vide capítulo), pode-se observar
alta concentração de cobre, principalmente em Propriá. Em estudo realizado por Wang
et al. (2022), foi visto que o cobre (Cu2+) modula a atividade imunológica inespecífica em
camarões. Esta atividade se concretiza em outros espécimes já que o cobre participa de
diversos processos imunes, além de estar presente em sítios ativo de diversas enzimas,
entre a elas a Cu-Zn SOD (KEN et al., 2003; SHI et al., 2022; VALKO et al., 2007). 		
No estudo citado, concentrações igual ou superior a 0.1 mg/L de Cu2+ se acumula
no hepatopâncreas, aumenta a taxa de apoptose, além de aumentar a produção de ROS,
CAT e SOD, porém na concentração de 0.15 mg/L há uma queda drástica na atividade
de CAT e SOD. Sob o aspecto histológico, o tratamento a partir de 0.1 mg/L de Cu2+
demonstrou dano branquial severo, com aparecimento de vacúolos e desaparecimento
do tecido conjuntivo (WANG et al., 2022). Apesar de dados preocupantes, já que os
valores encontrados por esta equipe se aproximam das concentrações do estudo citado,
há uma limitação no método utilizado na análise de água para a detecção de cobre. O
kit utilizado pela equipe expedicionária utiliza o método de ácido bicinconinato, porém a
literatura informa que este método é confiável apenas para a detecção de Cu1+ (Smith et
al., 1985). Portanto, o estudo dos tipos de cobre poderá ser aprofundado em pesquisas
futuras.
Em outro trabalho foi visto um aumento da atividade de SOD e CAT, sob baixas
concentrações de cobre (20 a 200 ug/L) em juvenis de peixes (BOARETO et al., 2018).
Vale destacar que a toxicidade de cobre, além de fenol, cloreto de amônia, zinco e
chumbo, segundo Clubb et al. (1975), aumenta à medida que a concentração de oxigênio
dissolvido diminui. Sabendo que o trecho investigado do Baixo São Francisco, segundo
a portaria CONAMA, é de classificação II, logo os valores mínimos de OD preconizados é
5 mg/L, apenas as cidades de Piranhas e Pão de Açúcar apresentaram valores inferiores.
Águas com alta condutividade, como a encontrada em Traipu, são mais produtivas
e, portanto, provavelmente abrigam mais invertebrados (hospedeiros intermediários)
e permitem que os parasitas prosperem instigando o sistema imune do hospedeiro
(DUMBO; GILBERT; AVENANT-OLDEWAGE, 2020). A condutividade elétrica também
fornece uma indicação da quantidade total de sólidos dissolvidos na água, portanto,
altos valores de TDS, que também foi encontrado neste ponto, se correlacionam com alta
condutividade na água (CHANGE; SIWELA; BASOPO, 2023).
Soma-se a isso, o mesmo autor afirma que o pH de águas superficiais, um
outro importante marcador para a vida aquática, afeta a capacidade dos peixes e
outros organismos aquáticos de regular os processos básicos de manutenção da vida,
principalmente as trocas de gases respiratórios. E, como pode ser visto no capítulo de
parâmetros físico-químicos da água, Traipu não apresentou o maior valor de pH (7.85),
porém é a cidade após Pão de Açúcar, onde o pH médio foi de 8.
Além de todos os fatores já citados, Traipu foi o único ponto onde não se coletou o
pacu, talvez pelo aumento da salinidade na região. Enquanto que em Pão de Açúcar não
se coletou o piau, provavelmente pelo baixo OD e alto pH.
Biomarcadores histopatológicos
A partir da análise dos biomarcadores histopatológicos nos animais coletados
foram observados que 100% dos indivíduos amostradas apresentaram alguma lesão,
independente do órgão avaliado, para o fígado foram identificadas onze alterações
histopatológicas (Tabela 03). Levando em consideração, os dados da III e IV expedição
científica foi observado um aumento no número de alterações observadas e severidade
das mesmas para ambos os órgãos ( DANTAS; ARRUDA; SOUZA, 2022).

130

Tabela 03: Classificação das alterações histopatológicas nas brânquias e do fígado em
relação ao tipo, localização e estágio das lesões, em que ocorrem. Modificado de Poleksić
e Mitrovic - Tutundzic (1994) para brânquias (estágio) e Bernet et al. (1999) para fígado
(fator de importância).

Quanto ao índice de alteração histopatológica do fígado (IHF), os peixes Tucunaré
e Pirambebas apresentaram os maiores valores absolutos, mas de maneira geral todas as
espécies oscilaram bastante em relação aos pontos de coleta. A partir do IHF, podemos
classificar o estado de saúde dos peixes por meio das alterações histopatológicas (Fig.
04), conforme proposto por Zimmerli et al. (2007). Para a classe III, consideramos as
modificações moderadas no tecido normal, temos piau branco (Traipu e Penedo) e pacu
(São Brás, Propriá e Penedo). Na Classe IV (31>IHF<40), os peixes começam a apresentar
alterações mais acentuadas, como encontrado em pacu (Piranhas, Piaçabuçu), pirambeba
(Traipu, São Brás, Penedo), tucunaré e piau branco (Piaçabuçu).
A classe V (IHF>40) indica que as alterações histológicas são graves e que está
afetando o tecido normal, este padrão foi detectado que tucunaré (com exceção dos
municípios de Traipu e Piaçabuçu, que esteve abaixo desta classe), pirambeba (Piranhas
e Piaçabuçu) e o piau branco (apenas em Piranhas). Desta maneira, estas espécies estão
mais suscetíveis aos impactos antrópicos localizadas nos municípios supracitados.

131

Figura 04: Índice histopatológico do fígado

Gráfico ilustrativo do índice histopatológico em fígado- IHF. Dados estão demonstrados em média ± desvio
padrão da média. As espécies estão agrupadas por município durante a V expedição científica do Baixo
São Francisco.

De maneira geral o IHF de todas as espécies amostradas variou 20 a 67, sendo
o menor piau branco e o maior tucunaré, respectivamente. Em valores absolutos, o
presente estudo obteve IHF superior ao de Borges et al. (2018) ( IHF: 15,1- 23,1), ao utilizar
a piranha (Serrasalmus rhombeus) como bioindicador de impactos de mercúrio oriundo
de atividade de mineração no Rio Itacaiúnas; Astyanax spp. (HIL <40) do Rio Iguaçu,
submetido a influência de impactos urbanos, industrial e agrícola (FREIRE et al., 2015);
Clarias gariepinus (HIL- 34.8) para avaliar a poluição de rios de regiões da África do Sul
(VAN DYK; COCHRANE; WAGENAAR, 2012). Jabeen et al. (2018) com variação de IHF 40
a 77, após exposição do peixe Cirrhina mrigala a sedimentos contaminados, ficou dentro
dos valores padrões desta pesquisa, mas com o valor máximo superior a este estudo.
Através da frequência de ocorrência das lesões histopatológicas, é possível observar
os padrões destas alterações por municípios, pois o valor de IHF pode não ser elevado,
mas a proporção de necrose seja alta, tornando esta visão de análise complementar para
a avaliação dos impactos nas espécies estudadas, conforme proposto por Bernet et al.
(1999).
De maneira geral, as alterações mais frequentes nas espécies analisadas foram a
vacuolização, necrose e infiltração leucocitária, e as menos frequentes a degeneração
citoplasmática, presença de centro melanomacrófagos e granulomas (Fig. 05). Para o
pacu (Fig. 05-a), foi observado apenas nos indivíduos coletados nos municípios de São
Brás e Propriá apresentaram a alteração granuloma, e consequentemente as maiores
proporções de necrose seguido de Pão de Açúcar dentre os demais municípios. Enquanto,
em Penedo e Piaçabuçu não foi observado a alteração no ducto biliar, adicionalmente em
Penedo ocorreu o menor número de alterações dentre os demais, sendo destacado pelas
alterações principais supracitadas.

132

Figura 05: Frequência de ocorrência das espécies analisadas por município amostrado
na V expedição científica do Baixo São Francisco.

Gráficos ilustrativos sobre a frequência de ocorrência em (A) porcentagens encontradas em Pacu; (B)
porcentagens encontradas em Piau Branco; (C) porcentagens encontradas em Tucunaré; (D) porcentagens
encontradas em Pirambeba. A ocorrência de cada lesão está sinalizada através da cor correspondente que
se encontra abaixo de cada gráfico.

O piau Branco (Fig. 05-b) apresentou uma boa distribuição em relação aos
municípios, podendo ser destacado em Penedo a maior proporção de vacuolização
citoplasmática e ausência de necrose neste ponto, enquanto Piranhas tem o destaque pela
presença de granulomas, centro melanomacrófagos, esteatose hepática e degeneração
citoplasmática.
O tucunaré (Fig. 05-c) apresentou ausência de necrose em Traipu, alta vacuolização
em Penedo, elevada proporção de infiltração leucocitária em Traipu e Propriá. Enquanto,
o granuloma foi observado apenas nos peixes coletados em Piranhas e São Brás. A
pirambeba (Fig. 05-d), não apresentaram esteatose hepática em Piranhas, granulomas
em Piaçabuçu, para Traipu alta ocorrência em granuloma (Fig. 06-e), alteração do
parênquima hepático, vacuolização, e infiltração leucocitária dentre os demais municípios
avaliados.
Figura 06: Alterações histopatológicas identificadas nas espécies analisadas durante a V
expedição científica do Baixo São Francisco.

133

Alterações histopatológicas no fígado e nas brânquias das espécies analisadas, com aumento de 20x
através do microscópio óptico, coradas com H & E. Fígado: [A] Tecido normal; [B] Vacuolização (Vac),
esteatose hepática (ste), infiltração leucocitária (seta vermelha), proliferação da parede do ducto biliar
(seta laranja); [C] congestão (Cong); [D] hipertrofia do ducto biliar (seta vermelha); [E] Granuloma (Gran);
Brânquias: [F] Tecido normal com leve desarranjo lamelar; [G] Trombos (*); [H] Deslocamento do epitélio
branquial (seta roxa); [I] fusão incompleta das lamelas (FI).

Quanto a ocorrência das alterações supracitada pode-se afirmar que a presença do
centro melanomacrófagos, granulomas e o aumento da infiltração leucocitária (Fig. 06-b)
nos componentes do parênquima hepático, que são consideradas resposta inflamatórias
e/ou mecanismo de defesa dos animais mediante aos agentes poluidores presentes na
região, a extensão e severidade varia conforme o comportamento individual de cada
organismo (BERNET et al., 1999). Em geral, as alterações histológicas observadas no
fígado não são de fonte específica, e estão associadas à resposta dos hepatócitos e
de outras células do fígado quando expostas a agentes tóxicos, que podem ser desde
metais traços, a efluentes e pesticidas (CHAVAN; MULEY, 2014).
Ao todo, foram identificadas treze alterações histopatológicas no tecido branquial
(Tabela 03, Fig. 06f-i), dentre estas lesões, vale destacar que, as mais severas para as
brânquias, são as de estágio 2, como a congestão de vasos sanguíneos, aneurisma, a
fusão completa das lamelas secundárias, e a necrose de estágio 3, considerada a alteração
mais severa, por causar dano irreversível quer seja em parte ou na totalidade do tecido
(POLEKSIĆ; MITROVIC- TUTUNDZIC, 1994).
Através do índice histológico das brânquias foi possível observar que os peixes
mais impactados foram a pirambeba em Piranhas, Penedo e Piaçabuçu, e tucunaré em

134

Propriá e Penedo, ambas com IHB>100, em que já é considerado um dano irreparável
ao tecido. Enquanto os menos impactados foram o pacu em Piranhas e piau branco em
São Brás com IHB< 20, indicado que o tecido apresenta as características normais a
levemente alterado, todos os demais peixes analisados independentemente da localização
apresentaram alterações de moderada a severa no tecido branquial, podendo acarretar
negativamente no pleno funcionamento do órgão conforme reportado por Poleksic &
Mitrovic-Tutundzic (1994). O IHB variou de 25 a 143,5 em valores médios, está elevada
amplitude de variação é decorrente da presença da necrose nestes indivíduos. Apesar
disto, os valores do presente estudo, obteve valores inferiores ao do reportado por
Montes et al. (2020) com IHB: 3,6-155, ao avaliarem os efeitos da atividade mineradora
com o Serrasalmus rhombeus no rio Itacaiúnas.
Figura 07: Índice histopatológico das brânquias

Gráfico ilustrativo do índice histopatológico das brânquias- IHB. Dados estão demonstrados em média ±
desvio padrão da média. As espécies estão agrupadas por município durante a V expedição científica do
Baixo São Francisco.

Os peixes quando expostos a condições adversas como exposição a metais,
alterações de pH, ou aumento na concentração de amônia podem acarretar em
ocorrência de aneurismas, fusão de lamelas branquiais, hipersecreção de muco, aumentos
nos processos de apoptose, necrose, dilatação dos espaços intracelulares (VAN DER
OOST.; BEYER; VERMEULEN, 2003; MONTES et al., 2020). Outra alteração relevante,
foi a hipertrofia encontrada nas células mucosas, já que estas células têm como função
primordial a proteção do tecido, logo sua hipertrofia é uma resposta específica do
indivíduo como mecanismo de defesa (DAVID; FONTANETTI, 2009).
Diante do exposto, fica claro que a grande problemática do Baixo São Francisco
é que não se sabe qual a fonte de contaminação é determinante para os impactos nos
órgãos ou se a causa é o sinergismos entre eles, somado a isto, a interferência direta
das vazões, resultando na diluição dos poluentes presentes no ambiente em períodos
incertos durante o ano, isto influencia inclusive na disponibilidade de pesticidas no
ambiente, consequentemente em seus efeitos agudos na biota (SOARES; SILVA; SILVA,

135

2022). Então, os impactos nos peixes amostrados são resultantes destas premissas.
Logo, no retrospecto, a concentração geral da atividade enzimática foi maior do que
a encontrada em 2021, a exceção foi a peroxidação lipídica em músculo que se manteve
constante (SOARES et al., 2022). O destaque comparando com o ano anterior é o aumento
de MDA tanto em brânquias quanto em fígado, e GST em fígado na espécie pacu. Em
2021, a SOD em brânquias se comportou de forma homogênea em todos os pontos entre
todas as espécies, ficando claro que houve a liberação de algum contaminante neste ano
na região de Traipu que elevou este marcador. Também é importante ressaltar que, sob
aspecto histológico, as brânquias podem apresentar impacto menor em relação ao fígado,
exatamente pela interferência das vazões, enquanto o fígado devido a capacidade de
detoxificação, biotransformação pode está refletindo o dano de maior em escala temporal
(BORGES et al., 2018; AMEUR et al., 2015; VAN DER OOST.; BEYER; VERMEULEN, 2003).
Este efeito, demonstra a importância do monitoramento e a utilização de marcadores
enzimáticos e histológicos para detecção de anomalias ambientais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A utilização destes biomarcadores, histopatológicos e antioxidantes, permitiram
uma avaliação mais completa acerca dos impactos a que as espécies estudadas estão
submetidas nos municípios margeados no baixo São Francisco. Mediante às inúmeras
fontes de contaminação disponíveis nas áreas de estudo, foi possível identificar através
das respostas fisiológicas mensuradas pelos marcadores. Como o aumento da atividade
da SOD em brânquias em Traipu, indicando um reflexo protetor contra a ação de um novo
xenobiótico, o que precisa ser melhor investigado. Em adição a isto, os biomarcadores
histopatológicos indicaram que de forma ampla os peixes mais impactados, foram
tucunaré e pirambeba para ambos os órgãos, e os municípios que se destacaram com
o maior número de indivíduos severamente alterado, para o fígado foi Piranhas, Pão de
açúcar e Piaçabuçu, e para as brânquias, Piranhas, Propriá, Penedo, Piaçabuçu. Desta
maneira, esses resultados podem fornecer os subsídios necessários para aumento do
monitoramento ambiental, implantação de planos de manejo e monitoramento ambiental
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Área de atuação: Reprodução de peixes.

140

8. IMPACTOS DA VAZÃO DE ÁGUA NA REPRODUÇÃO
DOS PEIXES DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Jucilene Cavali38
Pedro Nacib Jorge Neto39
Emerson Carlos Soares40
RESUMO
Os estudos em reprodução dos peixes do baixo Rio São Francisco foram
realizados no âmbito da avaliação dos aspectos reprodutivos de machos e fêmeas à
época de defeso (de 1º de novembro a 28 de fevereiro) através da avaliação do sêmen
dos reprodutores em sistema computadorizado de avaliação espermática CASA e do
tamanho da gônada nas matrizes por imagens de ultrassom. Após a sexagem pela
técnica de ultrassonografia e avaliação das respectivas características gonadais, fez-se a
colheita do sêmen, chipagem e soltura dos espécimes no ambiente natural ou necrópsia.
As características reprodutivas de 2022 trouxeram um cenário muito diferente para 95%
das espécimes avaliados em relação as características do ano anterior, 2021. Em 2022 as
fêmeas estavam imaturas e vazias ou em estágio iniciais de maturação e os machos com
gônadas vazias ou atrofiadas; O único espécime apta às desovas no início do período de
defeso e corroborando com o mesmo cenário do ano anterior foi o piau-branco e piautrês-pintas. Oscilação no regime de vazões podem acarretar input reprodutivo induzido
algumas espécies a reprodução fora do período de defeso, ou seja, alterações no regime
de vazão relaciona-se diretamente aos limites do defeso espécie específica no baixo Sio
São Francisco. Artigo (in prepair to Animal Reproduction Journal): Does the water flow
through the hydroelectric power plant affect the reproduction of fish in the lower São
Francisco River?. O projeto de monitoramento dos alevinos introduzidos no baixo do
Rio São Francisco foi iniciado com a aplicação de nanochips interno de 380 exemplares
nas espécies xira e piau-branco, e realizado ensaios com marcador externo para futuros
peixamentos.

38
Universidade Federal de Rondônia, Laboratório de Ciência da Carne – LCC/UNIR e LAQUA/UFAL.
Brasil. jcavali@unir.br
39
Instituto REPROCON,
40
Centro de Ciências Agrarias, Laboratório de Aquicultura e Analise de agua - LAQUA. Universidade
Federal de Alagoas, Brasil.

141

INTRODUÇÃO
A preservação da biodiversidade de peixes no rio São Francisco é de vital
importância para a sustentabilidade ambiental e socioeconômica da região. O
planejamento reprodutivo desempenha um papel essencial nesse contexto, uma vez
que influencia diretamente na manutenção das populações de espécies nativas. Além
disso, a significativa relevância social, econômica e cultural do rio para milhares de
famílias torna imperativa a busca por alternativas que visem aprimorar os sistemas de
produção naturais ou de cultivo, garantindo a biossegurança alimentar e alinhando-se
às políticas públicas do Brasil.
O monitoramento dos aspectos reprodutivos das espécies nativas é um
componente fundamental das estratégias de conservação. Esse monitoramento
abrange o estudo do ambiente, dos impactos ambientais, da diversidade e frequência
das espécies, bem como a análise da fisiologia reprodutiva. O objetivo é identificar os
fatores físico-ambientais que estimulam adequadamente a reprodução, assegurando
processos vitais como a desova e o período de defeso. Nesse contexto, o regime de
vazões e a qualidade da água exercem uma influência direta no modo reprodutivo
das espécies de peixes. Ambientes lóticos com parâmetros limnológicos inadequados
podem impactar negativamente os parâmetros reprodutivos dos peixes (Brandão et al.,
2017).
Quando as condições de vazão, temperatura e oxigênio da água são adequadas, os
períodos reprodutivos das espécies tornam-se mais prolongados, possibilitando desovas
parceladas e picos reprodutivos específicos para cada espécie. Um estudo realizado por
Brandão et al. (2017) avaliou o modo reprodutivo do piau-branco (Schizodon knerii)
em trechos de ambiente lótico do alto rio São Francisco e constatou que ambientes
de água fria com baixos níveis de oxigênio no hipolímio da represa, com estratificação
térmica no verão, resultaram na ausência de desova em fêmeas ou espermiação em
machos de S. knerii, além de fêmeas e machos de menor porte em comprimento total e
peso corporal.
As alterações nos fluxos hidrodinâmicos também desempenham um papel crucial
na conservação das comunidades aquáticas. Estas alterações impactam as espécies de
peixes de maneiras diversas, dependendo de suas estratégias reprodutivas distintas
(Figueiredo et al., 2020). Nesse sentido, Santana et al. (2016) propuseram que as regras
de operação do reservatório considerassem a sazonalidade natural dos fluxos, buscando
atender às demandas do ecossistema aquático e das comunidades costeiras, permitindo
assim que espécies menos tolerantes respondessem aos estímulos necessários em seus
processos reprodutivos.
Diante do atual cenário de riscos à biodiversidade, a formação de um biobanco
de sêmen das espécies nativas do rio São Francisco se torna uma medida indispensável.
Além de representar um seguro genético de longo prazo, essa iniciativa está alinhada
ao moderno conceito de Conservação Única (Pizzutto et al., 2021; Yarto-Jaramillo et
al., 2022), permitindo o intercâmbio de material genético entre ambientes ex situ e in
situ.
Dessa forma, a criação dessas espécies no Ceraqua receberá revigoramento
genético com sêmen de peixes naturais do rio São Francisco, mantendo a qualidade
sanitária do plantel ex situ. Essa abordagem contribuirá significativamente para
assegurar a perpetuação de espécies ameaçadas de extinção no futuro, levando em
consideração as rápidas alterações antrópicas e ambientais características do baixo rio
São Francisco.
A introdução de genética proveniente do rio nas criações de cativeiro pode
trazer benefícios significativos para melhorar a viabilidade dos alevinos destinados ao
repovoamento no rio. No entanto, é importante considerar a influência da epigenética, que
pode levar a uma redução do instinto selvagem ao longo do tempo na população cativa.

142

As populações reproduzidas em cativeiro podem perder características importantes,
como agressividade, vigor e instinto de sobrevivência, devido à ausência de desafios
naturais presentes no ambiente do rio, bem como a resistência sanitária. Portanto, é de
extrema importância selecionar espécimes com maior resistência sanitária e com uma
fisiologia comportamental adequada para enfrentar os desafios existentes no rio. Essa
seleção criteriosa contribuirá para preservar as características essenciais das espécies
nativas, garantindo o sucesso do repovoamento e a adaptação desses peixes quando
reintroduzidos em seu ambiente natural.
Além disso, a ultrassonografia representa uma ferramenta essencial para avaliar
in vivo os aspectos reprodutivos dos peixes, possibilitando a tomada de decisões
científicas quanto à soltura ou amostragem para o abate do pescado capturado. Essa
técnica também viabiliza a sexagem e a determinação da proporção de machos e fêmeas,
bem como o estágio de desenvolvimento gonadal e a definição da época de desova
em relação à pluviosidade e ao período de defeso (que ocorre de 1º de novembro a 28
de fevereiro). No âmbito reprodutivo, a ultrassonografia é uma ferramenta essencial
para determinar a qualidade das matrizes, permitindo a avaliação da maturação
gonadal, a identificação das fases de ovócitos vitelogênicos e a obtenção de índices
gonodossomáticos (Crepaldi e Rotta, 2007).
Para um monitoramento abrangente, é fundamental acompanhar o comportamento
de crescimento, migração reprodutiva e alimentação das espécies. Nesse sentido, os
marcadores externos são empregados para monitorar os locais de reprodução e desova
frequentados por matrizes e reprodutores. É importante ressaltar que a eficácia desses
marcadores é maior quando aplicados em indivíduos juvenis, e a taxa de retenção aumenta
com o tamanho do animal. Contudo, é preciso considerar que o uso desses marcadores
pode impactar negativamente o crescimento dos animais menores (Boaventura et al.,
2019). Apesar disso, a justificativa para a aplicação de qualquer tipo de marcação em
peixes está na identificação, recuperação futura e obtenção de informações valiosas
decorrentes desses procedimentos. A adoção de diferentes sistemas de captura,
marcação e recaptura possibilita a observação de padrões migratórios em peixes.
Portanto, este capítulo tem como objetivo aprofundar a compreensão do
planejamento reprodutivo de peixes no rio São Francisco, enfatizando a importância do
monitoramento dos aspectos reprodutivos e da conservação genética para assegurar
a biodiversidade e a segurança alimentar na região. As informações aqui apresentadas
têm o potencial de subsidiar políticas públicas e ações de manejo que visem à
sustentabilidade dos recursos pesqueiros e à proteção da riqueza natural do rio São
Francisco.
METODOLOGIA
Esta pesquisa foi conduzida com duas categorias de peixes: aqueles mantidos em
cativeiro e os de vida livre. O uso dos peixes no estudo foi autorizado pelo Comitê de
Ética no Uso de Animais da Universidade Federal de Rondônia, seguindo o protocolo nº
024/2021.
A captura dos peixes ocorreu durante uma expedição ao longo do baixo rio
São Francisco, utilizando redes de emalhar para capturá-los. Os peixes foram então
acondicionados em caixas com difusores de ar e eugenol para garantir sua sobrevivência
durante o transporte. Em seguida, os peixes foram sexados por meio de ultrassonografia
e avaliados quanto ao estágio de desenvolvimento gonadal e bem-estar.
Apenas os espécimes que apresentavam natação e movimento opercular
normais foram selecionados para a pesquisa. Esses peixes foram nanochipados com
identificadores eletrônicos intramusculares na região dorsal para fins de identificação
individual. Os indivíduos em estágio avançado de maturação gonadal, identificados pelo
maior volume da gônada, foram devolvidos ao ambiente próximo às áreas de captura.

143

Com base nas características macroscópicas, nas imagens de ultrassom e nas
variações do Índice Gonadossomático (IGS), foram estabelecidos os seguintes estágios
de maturação gonadal para fêmeas e machos: (1) repouso - vazias, desovado para
fêmeas e espermiado para machos , (2) passiveis de identificação por imagens de
ultrassonografia e de pesagem > 1g, e (3) fase avançada de maturação ou espermiando.
Ao todo, foram sexados 53 espécimes para fins de análise.
As tomadas de imagem por ultrassonografia foram realizadas com o ultrassom
modelo EXAGO (IMV Imaging, França), utilizando probes lineares B-Mode em frequências
de ondas sonoras entre 5,0 e 10,0 MHz para peixes pequenos e entre 2,5 e 7,0 MHz para
peixes maiores. A escolha da probe foi feita de acordo com a capacidade de reflexão
de ondas nos tecidos do peixe, o tamanho e composição corporal e a estrutura a ser
visualizada.
No caso dos machos, foram submetidos a uma avaliação quanti-qualitativa do
sêmen. Para as espécies em que foi possível obter sêmen, os espermatozoides foram
avaliados por meio de um sistema computadorizado de avaliação espermática (CASA)
modelo CEROS II (Hamilton Thorne, USA), utilizando o software Animal Breeders II
(versão 1.13.7; Hamilton Thorne, USA). O protocolo utilizado seguiu as adaptações
descritas por Jorge-Neto et al. (2023) em elasmobrânquios. Em resumo, 20 µL de sêmen
foram depositados na tampa de um microtubo, e o extensor de ativação (Actifish, Ref
018274, IMV Technologies France) foi adicionado ao corpo do microtubo para obter
uma concentração de 20x106 espermatozoides/mL. Se a concentração fosse superior a
30 milhões de espermatozoides/mL, a diluição foi repetida para reduzir a concentração
por mL. Em seguida, o tubo foi fechado e agitado duas vezes, e colocado no vórtex
por cinco segundos. Com uma ponta de pipeta de 2-200 µL, 3 µL da diluição foram
rapidamente colocados em uma câmera de uma lâmina Leja (IMV Technologies) e as
imagens foram capturadas em pelo menos seis campos no centro da lâmina Leja. A
ferramenta Live Configuration foi utilizada para ajustar detecção da cabeça conforme
apropriado.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Regime de Defluência no Rio São Francisco no Biênio 2021 – 2022
Durante o biênio 2021-2022, as vazões defluentes do reservatório de Xingó no baixo
curso do rio São Francisco apresentaram variações significativas, com consequentes
impactos nas variáveis limnológicas. Em 2021, a média histórica de defluência no baixo
rio São Francisco foi de 800 m3/s, com valores máximos e mínimos de 4.000 m3/s e 800
m3/s, respectivamente. Observou-se um pico de vazão de 1.400 m3/s em setembro, o
que garantiu constância hídrica e condições ambientais favoráveis no bimestre anterior
ao período de defeso (Gráfico 1).
Por outro lado, em 2022, o regime de vazões foi caracterizado por grandes
oscilações, com picos de 3.900 m3/s e 2.100 m3/s ocorrendo em fevereiro e julho,
respectivamente. A vazão mínima registrada foi de 900 m3/s em outubro, mês que
antecede o período de defeso das espécies de peixes no baixo rio São Francisco.
As mudanças no regime de defluências e suas consequentes alterações nas
condições ambientais justificam as diferenças observadas nos períodos de defeso entre
2021 e 2022 em relação ao comportamento reprodutivo da maioria das espécies de peixes
no baixo rio São Francisco. Em 2021, mesmo com uma menor defluência no rio, 92% das
fêmeas estavam ovadas, sendo que 67% delas estavam em fase de desenvolvimento
ou maturação (Cavali et al., 2022). No entanto, em 2022, apenas aproximadamente
75% das fêmeas estavam ovadas, sendo 40% em estágio inicial e 35% em estágio de
repouso. Em 2022, os machos de todas as espécies avaliadas, exceto o piau-branco e o
piau-três-pintas, estavam inaptos para espermiação, sendo classificados como gônadas

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vazias ou imaturas. Isso sugere que as oscilações no regime de vazões podem induzir
algumas espécies a se reproduzirem fora do período de defeso, o que está diretamente
relacionado aos limites do período de defeso específico para cada espécie no baixo rio
São Francisco.
Comparando os valores médios, máximos e mínimos de seca na bacia do submédio
rio São Francisco entre 2003 e 2018 (Medeiros et al., 2016; Basto et al., 2020), nota-se
que, nesse período, havia uma tendência de redução da vazão com oscilações previsíveis
e constantes, diferente do que ocorreu em 2021 e 2022.
Aspectos como a supressão da vegetação, a regulação das vazões, a vulnerabilidade
do solo e as alterações dos parâmetros físico-químicos da água, todos observados na
área de estudo deste trabalho, têm consequência direta no ecossistema. Essas mudanças
impactam a velocidade do fluxo, a produtividade e a disponibilidade de habitats, o que
pode levar à seleção de espécies mais adaptadas às mudanças ambientais e acelerar os
processos de extinção local.
Gráfico 1: Regime de vazões no baixo rio São Francisco no ano de 2021 e 2022.

Avaliação gonadal de machos
Foram realizadas tentativas de colheitas de amostras de sêmen em 13 espécies
diferentes (Tabela 1). Entre essas espécies, oito foram coletadas no baixo rio São
Francisco e cinco no Centro de Reprodução CERAQUA da Codevasf/Alagoas. Para a
coleta de sêmen, os machos foram suavemente contidos e submetidos à técnica de
extrusão manual, onde uma leve pressão foi aplicada na região ventral próxima à
abertura genital, resultando no sêmen obtido e recolhido em microtubos. Em seguida, o
sêmen foi imediatamente submetido à avaliação por sistema CASA, conforme descrito
anteriormente. Após as colheitas, os peixes foram nanochipados e devolvidos ao
ambiente natural.

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Tabela 1: Espécimes submetidas a colheita de sêmen no baixo rio São Francisco durante
a V Expedição Científica e no Centro de Reprodução CERAQUA/CODEVASF, em
novembro de 2022.

Das oito espécies amostradas na região do baixo Rio São Francisco, apenas o
piau-branco e o piau-três-pintas apresentaram machos com presença de sêmen passível
de colheita na primeira quinzena de novembro, durante o início do período de defeso e
fase reprodutiva. As demais espécies, nativas do rio São Francisco e mais exigentes em
relação à qualidade do habitat, mostraram-se inaptas à espermiação, sendo classificadas
como gônadas vazias ou imaturas (Figueiredo et al., 2020). Notavelmente, o piau-trêspintas e o piau-branco, espécies que realizam migrações mais longas, foram as únicas a
apresentar machos com gônadas contendo espermatozoides durante esse período.
No Centro de Alevinagem CERAQUA, foi possível realizar a colheita de sêmen em
três espécies: piau-verdadeiro, curimatã-pacu e surubim.
Avaliação gonadal de fêmeas
Foram sexados diversos exemplares para verificação da categoria sexual
dessa população, relacionando-a à qualidade ovocitária das fêmeas pelo Índice
Gonadossomático (IGS). Observou-se que, durante o período de defeso, que teve início
em 1º de novembro, e no momento da avaliação dos aspectos reprodutivos de fêmeas
e machos, de 04 a 12 de novembro, apenas as espécies piau-branco e piau-três-pintas
apresentaram fêmeas ovadas em estágio final (Figura 1).
Figura 1: Gonadas maduras de fêmea Megaleporinus obtusidens (Piau-três-pintas) no
Baixo Rio Sao Francisco durante a expedição cientifica, novembro de 2022. Foto CAVALI,
2022

146

Estudos anteriores sobre a espécie pacu-peva no regime hídrico de 2021 (Cavali et
al., 2022) demonstraram que as fêmeas apresentaram maior variação de peso corporal
(40,6 ± 15,0g) em comparação aos machos (41,1 ± 8,5g) da espécie capturados no início
do período de defeso de 2021. Os valores dos IGS variaram de 0,50 a 21,4 para fêmeas
de pacu-peva, coincidindo sua desova com o período de defeso de 2021, e 59% das 35
fêmeas estavam em estágio avançado de maturação gonadal (estágio 3) em 2021.
Outro estudo realizado por Cavali et al. (2020), ao avaliar o modo reprodutivo
do curimatã-piau (ou xira, Prochilodus argenteus), observou que a maioria das fêmeas
avaliadas estava em estágio avançado de maturação sexual no início do defeso,
condizente com o período de defeso estabelecido para a desova nas condições do baixo
do rio São Francisco. No entanto, a desova dessa espécie está diretamente relacionada
às condições ambientais ideais, que oscilam em função da vazão hídrica, sendo
comum encontrar xiras e pioas reabsorvendo suas ovas entre março e abril. Segundo
Boncompagni-Júnior et al. (2013), o índice gonadossomático da xira tem alta correlação
(r = 0,84 para fêmeas e r = 0,95 para machos) com a precipitação pluviométrica.
Uma fêmea de curimatã-pacu apresentou “oócitos empedrados” na gônada
(Figura 2), caracterizado por uma anomalia na forma de concreções de oócitos não
ovulados, lembrando pedras. Essas concreções também foram observadas em tilápias
(Jorge-Neto, P.N., dados não publicados) durante avaliação ultrassonográfica, em uma
proporção semelhante entre as fêmeas que supostamente não ovulavam. Até o momento,
não há histórico que permita determinar a etiologia associada a essa ocorrência, nem se
o desenvolvimento desses corpos duros resulta de fatores externos, ambientais ou se
está relacionado a condições endógenas nos peixes. Além disso, ainda não se sabe se o
desenvolvimento dessas estruturas compromete ou reduz o potencial reprodutivo das
fêmeas. É importante que futuros estudos se aprofundem nesse tema para esclarecer
os possíveis impactos dessas anomalias na reprodução dessas espécies.
Figura 2: Autópsia de verificação de “empedramento” da ova na espécie Metynnis
maculatus (Pacu) no Baixo Rio Sao Francisco durante a expedição cientifica, novembro
de 2022. Foto NACIB, 2022

Desequilíbrio Reprodutivo vs. Predominância de Espécies Carnívoras
O desequilíbrio nas fases de reprodução das espécies onívoras de valor comercial
aos pescadores do baixo Rio São Francisco influencia na competitividade populacional
das espécies. As espécies carnívoras, predadoras e mais resistentes têm se multiplicado
consideravelmente, como é o caso das pirambebas, causando prejuízos aos pescadores
por predarem os peixes ainda nas redes. Figueiredo et al (2020), em estudo sobre
hidrogramas ambientais no baixo curso do rio São Francisco, já destacavam que
atributos ecológicos indicam a predominância de espécies de peixes mais estrategistas,
oportunistas e resistentes aos impactos advindos da regulação da vazão.

147

A perda da sazonalidade, como consequência dessa regulação, afeta vários
aspectos inter-relacionados das comunidades, como o alimento, os movimentos, o
crescimento e as épocas de reprodução. As espécies nativas migratórias, de hábito
alimentar especializado, baixa tolerância a impactos ambientais e taxa de crescimento
lenta, são frequentemente espécies comerciais e estão sendo substituídas ao longo do
tempo por espécies nativas e exóticas caracterizadas como sedentárias, tolerantes aos
impactos, de menor longevidade, rápida produção de biomassa e menos exigentes em
relação à vazão e ao hábito alimentar.
Algumas espécies podem prosperar em condições extremas, devido aos altos
níveis de nutrientes; contudo, tais espécies não são bons indicadores da qualidade do
habitat.
Chipagem de Peixes no Rio São Francisco
O monitoramento das espécies foi iniciado através da fixação de marcadores
internos, os nanochips e microchips, e marcadores externos coloridos de diferentes
tamanhos, implantados nas diferentes espécies de peixes do rio São Francisco.
Os chips foram inseridos em juvenis de 50 a 100 gramas destinados aos peixamentos
realizados pela Codevasf e em peixes adultos capturados aleatoriamente, identificados
e devolvidos ao rio. Todos os peixes foram submetidos a avaliação morfométrica e visual
de sanidade e comportamento. O nanochip ou microchip foi inserido na musculatura
dorsal próximo à nadadeira (Figura 3).
Foram chipados 280 exemplares com os marcadores internos, alevinos de piauverdadeiro com aproximadamente 70g e 18 cm e curimatã-pacu de 55g com 16cm.
Ao longo da Expedição do Rio São Francisco, a Codevasf realizou a soltura de 80 mil
alevinos em três municípios (Piranhas-AL, Propriá-SE e Penedo-AL), representando várias
espécies, como o curimatã-pioa Prochilodus costatus (14.300 exemplares), curimatãpacu Prochilodus argenteus (4.200 exemplares), piau-verdadeiro Megaleporinus
obtusidens (120 exemplares), cari-amarelo Pterygoplichthys etentaculatus (60
exemplares), Pacamã Lophiosilurus alexandri (200 exemplares) e piaba-do-raboamarelo Astyanax bimaculatus (1.800 exemplares).
Figura 3: Aplicação de nanochip e microchip em alevinos de Curimatã-pacu e Piautrês-pintas para soltura no Programa de repovoamento CODEVASF no Baixo Rio Sao
Francisco. Foto CAVALI, 2022

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Marcadores externos – Testes com TAGs
O projeto piloto de monitoramento das espécies através de TAGs, oriundas dos
peixamentos realizados durante as Expedições Científicas a partir de 2023, contará
com o auxílio dos pescadores na coleta dos peixes contendo identificadores externos e
repasse das informações necessárias. Os TAGs são de fácil detecção e dispensam o uso
de equipamentos especiais para a identificação, facilitando o reconhecimento pelos
pescadores e a devolução de informações ao projeto.
Dependendo da espécie de peixe avaliada, TAGs podem ter uma baixa taxa de
retenção, entupimento e captura riscos, influências da natação, crescimento reduzido e
insultos ao local de aplicação, fatores que contribuem para a baixa taxa de recaptura.
O objetivo desse trabalho foi avaliar um novo marcador externo visualmente observável
para peixes, medindo os efeitos da marcação em duas classes de tamanho de peixes
e a influência na taxa de retenção, infecção, rejeição e taxa de sobrevivência. Foram
utilizados 30 espécimes do piau-três-pintas e de curimatã-pacu agrupados em duas
classes de peso corporal (Tabela 2), mantidos em tanques de 5 x 2 metros de sistema
de recirculação de água com temperatura de água controlada de 27,3 °C e OD de 6,6
mg L-1.
Os alevinos foram submetidos a pesagem e medição do comprimento corporal
padrão seguido da aplicação dos TAGs. Os marcadores externos foram inseridos na região
da nadadeira dorsal de forma a atravessar as espinhas da nadadeira intramusculares.
Os resultados mostraram uma taxa de retenção de 100% e uma influência positiva
do marcador sobre a sobrevivência após 30 dias, para os alevinos classificados como
grandes de curimatã-pacu (peso corporal entre 60,1 e 85g) e piau-três-pintas (peso
corporal médio de 32,8g). Já para a espécie piau-três-pintas, os alevinos do grupo mais
leve (10,8 g) apresentaram 86,6% de sobrevivência e 93,3% de retenção dos TAGs, de
forma que a aplicação de marcadores externos não é recomendada para alevinos de
piau-três-pintas abaixo de 10 gramas.
Tabela 2: Média e desvio padrão do peso e comprimento em duas classes de peso de
alevinos para fixação dos marcadores externos.

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Figura 4: Testes de viabilidade de identificadores externos em alevinos de Curimatãpacu e Piau-três-pintas para soltura no Programa de repovoamento CODEVASF no
Baixo Rio Sao Francisco. Foto CAVALI, 2022

Orientação nas Colônias de Pescadores e Recompensa às Informações
Foram realizadas reuniões para apresentar os marcadores externos aos pescadores,
bem como orientá-los sobre a importância desses marcadores e a recompensa
oferecida pela devolução dos TAGs contendo informações como o local/região de
captura, tamanho, peso e outras características visuais (ovada, morta, etc.). Além disso,
disponibilizou-se material didático ilustrativo para facilitar a identificação das cores/
tamanhos dos marcadores por espécies, bem como o número de juvenis de cada espécie
com TAG soltos, além de informações sobre os locais e datas dos peixamentos. Essas
informações também foram atualizadas na página da expedição científica do Rio São
Francisco (@expedição_saofrancisco).
Figura 5: Instruções a identificação de peixes chipados e protocolos do Projeto nas
colônias de pescadores no Baixo Rio Sao Francisco durante a expedição cientifica,
novembro de 2022. Foto CAVALI, 2022

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CONCLUSÃO
Concluímos que as oscilações das vazões em 2022 tiveram um impacto significativo
no padrão reprodutivo das espécies de peixes no baixo rio São Francisco. Essas
oscilações proporcionaram um input reprodutivo meses antes do período de defeso,
o que pode ter induzido algumas espécies a se reproduzirem, como observado nos
machos de curimatã-pacu, que apresentaram gônadas vazias, e nas fêmeas da mesma
espécie, que se encontravam em estágios iniciais ou vazias.
As características reprodutivas em 2022 apresentaram um cenário muito diferente
em relação ao ano anterior, 2021, para 95% das espécies avaliadas. Nesse último ano,
as fêmeas estavam imaturas, vazias ou em estágios iniciais de maturação, e os machos
apresentavam gônadas vazias ou atrofiadas. Destacamos que, durante a avaliação
dos aspectos reprodutivos das fêmeas e machos, realizada entre 4 e 12 de novembro,
observamos apenas as espécies piau-branco e piau-três-pintas com fêmeas ovadas em
estágio final e machos com presença de sêmen. Todas as outras espécies avaliadas
apresentaram-se vazias ou em estágios iniciais de maturação.
Esses resultados sugerem que as alterações no regime de vazão podem influenciar
o início da reprodução fora dos limites do período de defeso reprodutivo dos peixes.
Portanto, é essencial realizar um monitoramento reprodutivo bimestral ao longo do
ano, incluindo o período de defeso, para validar os aspectos reprodutivos avaliados
e garantir a ocorrência da desova em condições ambientais adequadas, assegurando
assim uma maior disponibilidade de alevinos no Rio São Francisco.
Destaca-se que, ao período de defeso iniciado 1º de novembro e o momento
da avaliação dos aspectos reprodutivos de fêmeas e machos, 4º a 12º de novembro,
observamos apenas a espécie Piau com fêmeas ovadas em estágio final e machos com
presença de sêmen. As demais espécies apresentaram-se vazias ou imaturas.
Nas expedições científicas realizadas em novembro, em concordância com o início dos
períodos de defeso, pode-se encontrar, dependendo do regime de vazão prévio, fêmeas
imaturas e vazias ou em estágios iniciais de maturação, bem como fêmeas desovadas e
machos com gônadas vazias ou atrofiadas.
É importante destacar que oscilações no regime de vazões podem levar a um
input reprodutivo, induzindo algumas espécies a se reproduzirem fora do período de
defeso. Portanto, as alterações no regime de vazão estão diretamente relacionadas aos
limites do defeso específico de cada espécie no baixo rio São Francisco.
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9, p. 897404, 2022. DOI 10.3389/fvets.2022.897404

152

ANEXOS
Figura 6: Colheita de sêmen de piau-três-pintas (Megaleporinus reinhardti) no baixo rio
São Francisco durante a V Expedição Cientifica, novembro de 2022. Foto: Pedro Nacib
Jorge-Neto (2022)

Figura 7: Imagens de testes de diluição do sêmen sem diluição (a), diluição adequada
(b) e tempo de motilidade(c) no CEROS II

Figura 8: Colheita de sêmen de Curimatã-pacu (a) e Pacamã (b) e sêmen de tambaqui
(c) no Centro de Alevinagem CERAQUA-CODEVASF. novembro 2022. Foto CAVALI, 2022

153

Figura 9: Imagens das gônadas de macho de Megaleporinus obtusidens (Piau-três-pintas)
em fase não reprodutiva no período de defeso, novembro 2022, baixo Rio SãoFrancisco.
Foto CAVALI, 2022

Figura 10: Identificação do “empedramento” de ova por imagens da ultrassonografia da
gônada do Pacu (Metynnis maculatus) e autópsias de verificação de alterações gonadais
no Baixo Rio Sao Francisco durante a expedição cientifica, novembro de 2022.

154

9. CARACTERÍSTICAS DA ATIVIDADE PESQUEIRA NA
V EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de pesquisa: Pesca
Vanildo Souza de Oliveira41
Rodrigo Victor Marinho de Sá42
RESUMO
Está pesquisa aborda os resultados da V Expedição Científica do baixo São
Francisco. Foram colhidas informações sobre os custos de uma canoa para a pesca,
cujo o preço fica em torno de R$ 4.000,00 já com o motor. Também foi registrado a
construção de canoas com fibra de vidro que é um pouco mais caro, cerca de 6.000,00.
Segundo os pescadores, após as chuvas, voltaram aparecer as espécies que não eram
mais encontradas, isso porque com as chuvas as várzeas encheram possibilitando
assim a reprodução dos peixes, espécies como: pilombeta, xira, piau cutia e mandim.
Já espécies como tubarana, corvina e pirá, eles relataram que continuam sem aparecer.
Segundo os pescadores as cheias de novembro do ano passado, aprofundaram mais o
rio, levando todo o lodo do fundo, assim como grande parte das baronesas, promovendo
também o enchimento em algumas várzeas, que serviram de berçário para os peixes.
Na Cidade de Pão de Açúcar, destaca-se a abundância de pirambebas, chegando as
capturas de: pirambebas, piranhas e pacu disco a alcançarem 91% do total das capturas.
Essas observações de dominâncias, indicando um desequilíbrio entre as espécies, onde
as pirambebas dominam. Essa situação, mostra a necessidade de repovoamento com
grandes predadores de espécies nativas que já não existem mais no baixo São Francisco.
Palavras chaves: Pesca artesanal, Atividade Pesqueira, Coleta de Ictiofauna.
INTRODUÇÃO
As Expedições do baixo São Francisco, cobrem uma área de pesquisa que vai
desde a cidade de Piranha até a cidade de Piaçabuçu, onde é possível observar várias
condições topográficas que afetam as características do rio, e com isso a ocorrência
de certas espécies que são capturadas pela pesca artesanal. Nesse trajeto, é possível
registrar varias fontes de impactos que interfere na atividade pesqueira, desde poluição
de esgoto sanitário a proliferação de macrófitas. Nessa região a pesca é intensa e de
grande potencial, sendo praticada, em sua maioria, por pescadores artesanais e com
muitos pontos de desembarque, embora no município de Piaçabuçu (com 35% do
efetivo de pescadores) apresente alguma atividade semi-industrial (AECID, 2008). A
atividade tem forte componente social, com os diferentes ecossistemas que compõem
a região (estuário, rio e mar), contribuindo para uma oferta diversificada de pescado.
Adicionalmente, a poluição, o desmatamento e o assoreamento, a degradação das lagoas
marginais, presença de espécies exóticas e a pressão pesqueira descontrolada vêm
influenciando negativamente a produção pesqueira na região, bem como na distribuição
espacial das espécies em relação aos ambientes (SOARES et al., 2011).
41
Professor doutor. Departamento de Pesca e Aquicultura (Depaq), Universidade Federal Rural de Pernambuco.
42
Estudante de Engenharia de Pesca. Departamento de Pesca e Aquicultura (Depaq), Universidade
Federal Rural de Pernambuco.

155

Os dados na V Expedição Científica, foram obtidos através de informações em
reuniões nas colônias de pesca, realizadas nas localidades em que foram possíveis,
procurou-se obter informações genéricas a respeito da produção pesqueiras e sobre quais
as principais dificuldades enfrentadas pela atividade pesqueira. Assim que a expedição
chegava em uma localidade, as lideranças eram contactadas para viabilizar os encontros.
A coleta da ictiofauna foi realizada com redes de emalhar com comprimento de malhas,
entre nós, de 50mm, 45mm,35mm e 30mm, tendo 600m de comprimento, cada. As
redes eram colocadas no final da tarde e recolhidas na manhã seguinte, passando em
média 16 horas de pesca. Em cada rede eram registrados o total capturado de cada
espécies, assim como o comprimento da malha da rede. O fato de a Expedição ter um
tempo limitado em cada cidade visitada, e com isso só ser possível a realização de uma
coleta, nos fornece uma possível tendencia pontual sobre as espécies capturadas.
SITUAÇÃO DA ATIVIDADE PESQUEIRA NAS CIDADES E POVOADOS VISITADOS
Cidade de Piranhas
A expedição chegou na cidade de Piranhas no dia 3 de novembro, onde entrevistamos
os pescadores da Colônia Z30 (Figuras 01 e 02), que segundo o presidente tem 242
pescadores que pescam na sua maioria com redes de emalhar e covos. Utilizam canoas
de madeira, cujo o preço fica em torno de R$ 4.000,00 já com o motor. Também foi
registrado a construção de canoas com fibra de vidro é um pouco mais caro, cerca de
6.000,00 (Figuras 03 e 04), no entanto evita toda a questão ambiental de utilização
de madeira e de manutenção que é infinitamente menor. As canoas de madeira são
construídas na própria comunidade, geralmente com pranchas de piqui. Atualmente
existe cerca de 100 embarcações de pesca. Segundo os pescadores, com um ano de
muitas chuvas resultaram em uma maior quantidade de peixes, principalmente a Xira e o
piau. Todos os pescadores, que estão cadastrados na colônia, recebem o seguro defeso
que vai de novembro a fevereiro. Um registro inusitado nesta cidade, veio na rede de
malha 50 mm com fio 0,25mm, um peixe xaréu. Esse peixe é característico do mar, vive
nos oceanos e tem uma enorme capacidade para tolerar uma variação muito grande
de salinidade, sendo classificado como eurialino, normalmente é capturado nas áreas
costeiras e em mar aberto. No entanto, esse indivíduo juvenil com 30cm de comprimento

Figura 01: Colônia de Pescadores da cidade de
Piranhas

156

Figura 02: Visita colônia Z-30 de Piranhas

Figura 03: Canoa revestida com fibra de vidro
em Piranhas

Figura 04: Canoa revestida de fibra de vidro na
cidade de Piranhas

Figura 05 : Juvenil de Xaréu com 30 cm, capturado na cidade de Piranha , em rede de emalhar com fio 0,25 e malha de
50mm.

foi capturado a mais de 200 km da foz, na cidade de Piranhas (Figura 05).
Cidade de Gararu
Na cidade de Gararu, a colônia possui inscritos cerca de 1800 pescadores. Relataram
que o maior problema que eles têm atualmente é a concorrência com a pesca de mergulho
e dizem que esse tipo de pesca é muito danoso para as espécies, pois captura os maiores
reprodutores. Ressaltaram a grande presença de pirambeba nas capturas e que seriam
necessárias mais ações, pelos órgãos competentes, como o repovoamento de espécies
como a xira.
Povoado de São Brás
Em São Brás, segundo os pescadores, após as chuvas, voltaram aparecer as
espécies que não eram mais encontradas, isso porque com as chuvas as várzeas
encheram e possibilitaram a reprodução dos peixes, espécies como: pilombeta, xira, piau
cutia e mandim. Espécies como tubarana, curvina e pirá, eles disseram que continuam
sem aparecer. Uma das espécies que mais reproduziram, segundo os pescadores foram
os piaus, com as seguintes espécies :piau preto, branco, cutia e amarelo. Segundo eles
as cheias de novembro do ano passado, aprofundaram mais o rio, levou grande parte
do lodo (macrófitas) do fundo e as baronesas na superfície, promovendo também o

157

enchimento em algumas várzeas, que serviram de berçário para os peixes.
Cidade de Propriá
Em Propriá, na colônia Z8 a presidente Dilma, relatou que conta com 500
pescadores inscritos , abrangendo :Propriá, Telha, Nossa Senhora de Lurdes, Gararu e
Taioba. A espécie que mais capturam é a pirambeba, dizem que de três partes, duas é de
pirambeba. Registraram que o aragú e o lambiá apareceram bastante depois das cheias.
Em Propriá foi possível visitar o mercado de peixes, onde diferentemente das outras vezes,
havia espécies nativas como os piaus (Figura 06), onde também foi encontrado pela
primeira vez, as três espécies: o preto (três pintas), o cutia (com nadadeiras amarelas) e
o branco (com uma pinta no início da cauda) (Figura 07). Além das espécies de cativeiro:
tilápia e tambaqui (Figura 08). Foi encontrado apenas um peixe dourado a venda, que foi

Figura 06: Bastante piaus a venda no mercado
de Propriá.

Figura 07: As três espécies de piaus, encontradas no mercado de Propriá: o preto (três pintas),
o cutia (com nadadeiras amarelas) e o branco
(com uma pinta no início da cauda).

Figura 8: Peixes de cultivos, presentes em todas
as expedições, tilápia e tambaqui, no mercado
de Propriá

Figura 09: Dourado encontrado no mercado de
Propriá, capturado no médio São Francisco.

158

capturado no médio São Francisco (Figura 09).
Povoado de Chinaré
Em Chinaré, a Colônia de Pescadores registra cerca de 1600 pescadores de vários
municípios próximos (Figuras 10 e 11). Dentre as espécies mais capturadas por eles estão:
pilombeta, piau cutia, aragú e lambia que voltaram a aparecer, assim como o tambaqui
que apareceu, devido ao rompimento de viveiros com as cheias. Também relataram a
presença do peixe panga, provavelmente por esses mesmos motivos. Outra espécie que
vem aparecendo, segundo eles, é o pirarucu nos lagos, certamente por fuga de cativeiros.
Quanto aos aparelhos de pesca, além de redes de emalhar eles pescam com covos para
captura de camarão, usam em média 300 covos com iscas de bolo de arroz, segundo

Figura 10: Reunião com os pescadores divulgando os trabalhos científicos da Expedição.

Figura 11: Reunião com os pescadores divulgando os trabalhos científicos da expedição.

seus relatos em dia de pesca bom 10kg, em dia de ruim 2 kg.
Cidade de Penedo
Na cidade de Penedo, os pescadores relataram o retorno da presença de espécies
como: piau cutia e muitos aragús e lambiás, em função das cheias do ano passado e
desse ano. A Pilombeta retornou forte, segundo os pescadores, 30kg era R$30,00 agora
com maior abundância baixou para R$ 12,00, tem até robalo e piau cutia nas lagoas.
Nessa cidade foi observado uma das necessidades, quanto a assistência técnica, para
a atividade pesqueira no baixo São Francisco, o armazenamento e processamento do
pescado. Encontramos o pescado sendo eviscerado e lavado no porto de Penedo, mesmo
local em que os carros são lavados como mostra a (Figura 12). A falta de assistência
técnicas, para que esses pescadores saibam do risco de contaminação do pescado
durante o processamento, e que podem trazer prejuízos caso vitimize alguém. Parece
permanecer o costume, que lavou nas águas do rio, está purificado, não importa, mesmo

159

Figura 12: Evisceração e limpeza do pescado no porto de Penedo.

que esteja próximo a descargas de esgotos sanitários.
Cidade de Piaçabuçu
Sem dúvida essa é a cidade que recebe o maior número de barcos de pesca de
várias modalidades, tanto do rio, como de água doce (Figura 13). A grande maioria opera
no rio com canoas que pescam principalmente a pilombeta, essa pesca é realizada de
noite onde as redes cruzam o leito do rio, ficando de um lado uma boia luminosa e do
outro a canoa com o pescador com uma lanterna (Figura 14), para auxiliar a navegação.
Essa atividade geralmente acompanha a vazante da maré. Existe também canoas que
pescam na zona estuarina e fora da foz, principalmente de linha de mão e espinhel para
peixes (Figuras 15, 16 e 17). A pesca estuarina ou fora da barra pode ser realizada com
as canoas ou em embarcações motorizadas maiores, que pescam em alto mar, ou fazem
arrasto de camarão. Por essa grande atividade pesqueira na cidade, é possível encontrar
facilmente na rua que margeia o rio em Piaçabuçu, além de frigoríficos de peixes, vários
varais com peixes secando ao sol (Figuras 18 e 19).

Figura 13: Porto de Piaçabuçu, maior concentração de canoas do Baixo São Francisco.

160

Figura 14: Despesca da rede de pilombeta em
Piaçabuçu, após uma noite de pescaria, pescador
usa uma lanterna na cabeça.

Figuras 15: Canoas de pesca na foz do São Francisco.

Figuras 16: Pesca com espinhel na Foz do São
Francisco

Figuras 17: Pesca com espinhel na Foz do São
Francisco.

Figuras 18: Peixes secos e salgados no Porto de
Piaçabuçu.

Figuras 19: Peixes secos e salgados no Porto de
Piaçabuçu.

161

CARACTERISTICAS DAS CAPTURAS COM REDES DE EMALHAR
A cidade de Piranhas
Por ser localizada próxima da barragem de Xingó, possui um ambiente aquático
muito dinâmico, com corredeiras que tende a ser mais um ambiente lótico do que lêntico.
Isso fica claro, com a maior concentração de peixes que se adaptam e esse ambiente
como piaus branco e preto, que juntos representam 61% das capturas (Figura 20). Como
esperado, as pirambebas que se adaptam a ambientes mais lênticos, representaram
apenas 2,9% da captura total (Figura 21)

Figura 20: Abundancia de piaus, nas redes de emalhar na cidade
de Piranhas

Figura 21: Capturas em relação as espécies na cidade de Piranhas.

162

Cidade de Pão de Açúcar,
Com as águas mais lênticas nessa localidade, destaca-se a presença das pirambebas
(Figura 22), seguida pelo pacu, duas espécies de baixo valor comercial, chegando as
capturas de pirambebas (Figura 23), piranhas (Figura 24) e pacus disco (Figura 25) a
alcançarem 91% do total das capturas. Essa grande presença de pirambebas é motivo de
descontentamento por parte dos pescadores, pois além de ter menor valor econômico,
ainda predam as outras espécies de maior valor econômico que ficam presas nas redes
(Figura 26). Realmente a proporção de pirambeba em Pão de Açucar, chama atenção
tornando-se, possivelmente, o ambiente ideal para sua reprodução.

Figura 22: Capturas em relação as espécies na
cidade de Pão de Açúcar.

Figura 23: Pirambeba capturada na rede de
emalhar.

Figura 24: Piranha verdadeira capturada na rede
de emalhar

Figura 25: Pacu disco, capturado na rede de
emalhar.

Figura 26: Espécies predadas, nas redes de emalhar, pelas pirambebas e piranhas.

163

Povoado de Lagoa Comprida
Em Lagoa Comprida foi registrado a mesma tendencia de dominância das espécies
de baixo valor econômico (pirambeba, piranha e pacu), sendo as três equivalentes a 50
% da produção total, seguidos pelos piaus: branco, preto (três pintas) e cutia. Já sendo
registradas, em menor número, presenças de espécies, que não eram encontradas antes
das cheias como: cari, piau cutia e lambiá (Figura 27).

Figura 27: Capturas em relação as espécies na cidade de Lagoa Comprida

Cidade de Propriá
Em Propriá, fica evidente que na medida em que o rio toma aspectos mais lênticos
a pirambeba e o pacu parece dominar o ambiente com suas presenças em maior
quantidade. A proporção de captura das espécies de pirambeba, piranha e pacu chegam
a alcançar 75,9% da captura total (Figura 28). A partir dessa cidade registra-se a presença
de espécies estuarinas como os siris (Figura 29).

Figura 28: Capturas em relação as espécies na
cidade de Propriá.

164

Figura 29: Capturas de siris, em redes de emalhar
na cidade de Propriá.

Cidade de Penedo
A partir da Cidade de Penedo, é possível observar uma menor ocorrência de
pirambebas e piranhas, o que parece ocorrer em função da proximidade com a foz, pois
já ocorre aparecimento de espécies estuarinas em maior número, a exemplo dos siris. No
entanto, espécies onívoras com pacu foi a que apresentou maior ocorrência (Figura 30).

Figura 30: Capturas em relação as espécies na cidade de Penedo.

Cidade de Piaçabuçu
Em Piaçabuçu é possível ver a tendencia de dominância das espécies estuarinas que
juntas representam 52% do total da captura (siri, robalo, pargo e bagre). Destacando-se
entre as espécies de água doce o tucunaré e os piaus em maior abundância e a ausência
de pirambebas (Figura 31).

Figura 31: Capturas em relação as espécies na cidade de Piaçabuçu.

DIVERSIDADE DE ESPÉCIES
Quanto a diversidade de espécies, por local de coleta, houve uma distribuição
homogênea (Figura 32) que variou entre nove e dez espécies capturadas nas redes em
cada localidade. Sendo a dominância, as espécies de água doce desde Piranhas. As
espécies de água salgada só alcançaram mais de 50% (56%) perto da foz em Piaçabuçu.
Observou-se que, o tucunaré (Figuras 33 e 34), parece ter se adaptado em todos os
ambientes, uma vez que foi a única espécie capturada em todas as localidades, tanto nas

165

áreas mais próximas de Xingó, quando nas próximas da foz em Piaçabuçu. Deve-se levar
em consideração, que estamos em um ano com grande aporte de água doce no Rio, o
que pode explicar essa distribuição.

Figura 32: Distribuição das espécies por localidades.

Figura 33: Distribuição da captura do Tucunaré por localidade.

Figura 34: Tucunaré capturado nas redes de emalhar, registrado em todas
as localidades.

166

Impactos ambientais que afetam a atividade pesqueira
Além do assoreamento do leito do rio, a presença de macrófitas no fundo ainda
é o principal impacto que afeta a atividade pesqueira, uma vez que age diretamente
na eficiência de captura das redes de emalhar. Além de causar danos na panagem do
equipamento, resultando nos seguintes transtornos: a rede não toca o fundo, em função
da biomassa das macrófitas, as malhas ficam mais visíveis, pois ficam com materiais
agregados nas malhas, exige grande perda de tempo fazendo a limpeza e reparando
danos na panagem (Figura 35). Outro fator que afeta a atividade é a constante e brusca
diminuição e aumento dos níveis de água no baixo São Francisco, em função da política de
geração de energia da CHESF. Essa variação, além de influenciar na erosão das margens
(Figura 36), causam situações inusitadas as redes são colocadas em uma profundidade
junto as margens, chamados de remansos, e no outro dia as redes estão em terra, pois o
nível baixou bruscamente (Figuras 37 e 38).

Figura 35: Redes de emalhar totalmente cheias
de macrófitas.

Figura 37: Redes de emalhar que ficaram em
terra, devido a diminuição brusca do volume do
rio.

Figura 36: Erosão das margens, causadas
pela variação brusca do volume do rio.

Figura 38 : Redes de emalhar que ficaram em
terra, devido a diminuição brusca do volume do
rio.

167

Ações necessárias para a melhoria da atividade pesqueira no Baixo São Francisco
Como foi visto as colônias de pescadores necessitam de assistência técnica, de
forma a poderem ter mais acesso as políticas públicas e programas especiais do governo
para a atividade.
Apesar de ter melhorado as condições ambientais do rio, com as chuvas, a
proliferação de macrófitas ainda surge como um problema na produção pesqueira,
iniciativas de aproveitamento dessa biomassa já está em andamento, no âmbito dos
projetos sugeridos por essa Expedição, com boas perspectivas de no futuro termos o
problema transformado em solução.
Quanto a rentabilidade da atividade pesqueira, observamos que a predominância
de espécies que não tem valor econômico no total da captura, torna a vida do pescador
muito mais difícil, principalmente, para aqueles que tem essa atividade como única
alternativa de vida. Dessa forma, o repovoamento com espécies carnívoras nativas, com
o objetivo de controlar, principalmente as pirambebas, piranhas e pacus disco, surge
como alternativa, tanto para melhorar o equilíbrio entre as espécies, como em oferecer
espécies de maior valor comercial para a atividade pesqueira.
O Baixo São Francisco diferencia-se do médio e do alto, onde ainda existe
predadores como: surubim e dourado. Enquanto o baixo, por não permitir a piracema
dessas espécies, torna-se o paraíso das pirambebas e piranhas, além do pacu disco.
Portanto, o povoamento com surubins e dourados, grandes predadores (Figura 39),
mesmo que tenham origem em cultivos, não tem impactos genéticos no baixo, porque
não existe mais espécies nativas desses peixes no ambiente. Esses repovoamentos
devem ser feitos periodicamente, uma vez que essas espécies não encontram condições
para se reproduziram no baixo. Iniciativas já estão sendo tomada, no âmbito de projetos
da Expedição, no sentido de isolar um canal, para criação dessas espécies nativas com
a finalidade de repovoamento. No entanto, mais ações serão necessárias pelos órgãos
competentes, no sentido de realizar repovoamento de espécies nativas no Baixo São
Francisco, tanto para a melhoria ambiental, quanto para aumentar a rentabilidade da
atividade pesqueira local.
REFERÊNCIAS
AECID - Agência Espanhola de Cooperação Internacional. Proposta de desenvolvimento
sustentável da pesca e aquicultura Alagoana. Diagnóstico propositivo. Aracaju, 2008.
259 p.
SOARES E.C.S; BRUNO, A.M.S; LEMOS, J.M.; SANTOS, R.B. Ictiofauna e pesca no entorno
de Penedo, Alagoas. Biotemas, v. 24, p. 61-67, 2011.

168

10. PEIXES AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO
DO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: políticas públicas, espécies ameaçadas, conservação.
Luciana Hitomi Hayashi Martins 43
RESUMO
Os Planos de Ação Nacionais para a Conservação das Espécies Ameaçadas de Extinção
(PAN) são instrumentos de conservação idealizados para proteger as espécies ameaçadas
da fauna brasileira. Para os peixes ameaçados do rio São Francisco, foi elaborado o PAN
São Francisco, pactuado junto à sociedade, dentre as ações do plano, as pesquisas
relacionadas à ecologia das espécies contempladas e beneficiadas, suas áreas de
ocorrências e os ambientes onde vivem são importantes para elaboração de estratégicas
prioritárias de conservação nestas regiões. No baixo São Francisco há registos (atuais e/
ou históricos) de três espécies ameaçadas de extinção e uma quase ameaçada, endêmica
da região, foi realizada a atualização dos registros e informações dessas espécies através
de levantamentos de campos em 7 municípios e entrevistas com os pescadores de 9
colônias visitadas, como resultado obteve-se informações não constantes na literatura
sobre as espécies; registro fotográfico, coleta de espécimes e um novo ponto de
ocorrência de uma das espécies (Pseudauchenipterus flavescens), observou-se ainda a
necessidade de atividades e sensibilização das populações tradicionais a respeito das
espécies ameaçadas de extinção e ações para conservação.
INTRODUÇÃO
Os Planos de Ação Nacionais (PANs) são instrumentos de política pública do Ministério do
Meio Ambiente que visam reduzir as ameaças sobre as espécies-alvo, por meio de ações
articuladas por uma rede bastante diversificada de parceiros que atuam em diferentes
frentes: comunicação e sensibilização ambiental, pesquisa, fiscalização, dentre outras.
O Plano de Ação Nacional para Conservação das Espécies Ameaçadas de Extinção
da Fauna Aquática do rio São Francisco - PAN São Francisco, estabelece estratégias
prioritárias de conservação para 12 espécies de peixes que ocorrem na bacia, 6 ameaçadas
de extinção constantes na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção (Portaria
MMA nº 148/2022) e 6 espécies beneficiadas, sendo 5 classificadas na categoria Quase
Ameaçada (NT) e uma espécie ameaçada de extinção na Lista de Espécies Ameaçadas
de Extinção da Fauna do Estado de Minas, conforme Deliberação Normativa COPAM
nº147/2010 (Tabela1).

43

Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade - ICMBio

169

Tabela 1: Lista de espécies contempladas e beneficiadas no PAN São Francisco, nome
popular e status de ameaça na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção. CR
= Criticamente em Perigo, EN = Em Perigo, VU = Vulnerável, LC = Menos Preocupante e
NT = Quase Ameaçada.
A ictiofauna na bacia do rio São Francisco possui registradas cerca de 304 espécies
consideradas válidas, sendo 241 espécies de peixes nativas de água doce, 35 invasoras
e 28 alóctones, introduzidas na bacia (BARBOSA et al., 2017). No baixo São Francisco,
Soares et al. (2022) registaram 49 espécies de peixes para região em 4 expedições
realizadas anualmente de 2018 a 2021. Dentre as 12 espécies do PAN São Francisco, 4
possuem ocorrência (histórica ou atual) no baixo São Francisco. O conhecimento sobre a
ecologia, diversidade e conservação destas espécies é fundamental para implementação
de ações de proteção e preservação que objetivem a melhoria do estado de conservação
de espécies ameaçadas de extinção, espécies deficientes de dados e seus ambientes.
O Baixo São Francisco está localizado em ambiente árido, a água é a principal
força motriz das comunidades rurais. Os municípios localizados no entorno do Baixo São
Francisco produzem, principalmente, cana-de-açúcar e arroz. (SOARES et al., 2022).
O regime de vazões do Rio São Francisco, nessa região, é regido pelos reservatórios
localizados nas partes mais altas da bacia, como as barragens de Três Marias, Sobradinho
e Itaparica. E a Usina Hidrelétrica de Xingó, cujas defluências foram reduzidas nos últimos
anos, impactou severamente o baixo curso do rio São Francisco (CHESF, 2017).
A
diminuição do volume de água prejudicou o abastecimento das lagoas marginais, com
retenção de sedimentos e baixa turbidez da água, responsável por diminuir a acuracidade
visual por espécies predadoras. Adicionalmente, ocorreu impacto sobre as migrações
reprodutivas realizadas pelas espécies reofílicas nativas e, como efeito adicional, acúmulo
de poluentes, assoreamento, desmatamento, uso de métodos de pesca não permitidos
e competição com espécies exóticas, contribuindo para a depleção dos estoques
pesqueiros.
As ameaças que alteram o habitat, por exemplo, impactam a ictiofauna da Bacia do
Rio São Francisco de maneira diversa, mas quando são analisadas e discutidas em conjunto
podem revelar aumento de sua magnitude dado o grau de sinergia e potencialização
que uma ameaça pode ocasionar em outra subsequentemente, de modo cumulativo.
Portanto, é possível e desejável entender as relações entre os impactos e deles com as

170

espécies de peixes ameaçadas de extinção da Bacia do Rio São Francisco para otimizar
esforços e recursos nas ações de conservação deste grupo.
O objetivo deste trabalho durante a V Expedição Científica do Baixo São Francisco,
foi buscar novos pontos de ocorrência das 4 espécies pertencentes ao PAN São
Francisco, Pseudauchenipterus flavescens (Cabacinho), Conorhynchos conirostris (Pirá),
Lophiosilurus alexandri (Pacamão) e Pseudoplatystoma corruscans (Pintado, Surubim),
em especial da espécie Pseudauchenipterus flavescens, rara e endêmica do baixo São
Francisco, com apenas 3 registros.
DESENVOLVIMENTO
Descrição das espécies
Os dados sobre as espécies estudadas foram obtidos através do Sistema de
Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade – SALVE, do Instituto Chico Mendes
de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e levantamento bibliográfico.
Nome científico: Pseudauchenipterus flavescens (Eigenmann & Eigenmann, 1888).
Distribuição geográfica: a espécie é endêmica e conhecida apenas em 3 pontos do baixo
São Francisco, nos estados de Alagoas e Sergipe, Brasil.
História natural: P. flavescens é uma espécie demersal (FROESE & PAULY, 2013), apresenta
hábito estuarino, associada à manguezais, com tolerância à salinidade. A tendência
populacional é desconhecida, são raros os registros para P. flavescens. Faltam estudos a
respeito dos limites de distribuição, tendências populacionais e biologia da espécie.
Ameaças: as ameaças potenciais à espécie são as alterações hidrológicas do rio São
Francisco; a poluição em virtude do despejo de efluentes domésticos, e a degradação
das áreas de mangue na sua foz.
Ações de conservação: espécie é listada como Beneficiada do Plano de Ação Nacional
para a Conservação das Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna Aquática da Bacia
do Rio São Francisco - PAN São Francisco
Status de Ameaça: Quase ameaçada - NT.
Nome científico: Conorhynchos conirostris (Valenciennes, 1840)
Distribuição geográfica: C. conirostris é endêmica do Brasil e ocorria em toda a bacia
do rio São Francisco. Atualmente ocorre de forma mais representativa na região do altomédio rio São Francisco, no trecho a jusante da barragem da UHE Três Marias até o
reservatório da UHE Sobradinho, em Minas Gerais.
História natural: C. conirostris é de grande porte, chega até 100 cm de comprimento
e 13 kg (SATO, 1999). Supõe-se que sua longevidade ultrapasse 10 anos e sua primeira
maturação ocorra com mais de 3 anos (tempo geracional entre 20 e 30 anos). A espécie
realiza migrações reprodutivas, não mantém cuidado parental, apresenta desova total e
ovos pelágicos livres. De acordo com Godinho e Godinho (2018) ao contrário dos peixes
migradores mais conhecidos do rio São Francisco, o pirá não usa lagoas das várzeas
como berçários. Apresenta hábito alimentar bentófago, com ingestão de organismos
diversos que vivem no substrato (RODRIGUES & MENIN, 2005)
Há registros e relatos de declínio populacional de Conorhynchos conirostris em diversos
trechos da bacia, especialmente no baixo rio São Francisco, sem registros da espécie
desde cerca da metade da década de 1980 (GODINHO & GODINHO, 2018), em função da
construção das grandes barragens.
Ameaças: C. conirostris é migradora, afetada pelos barramentos existentes na bacia do
rio São Francisco e não estabelece populações em reservatórios. Na região do médio-alto
São Francisco é alvo de pesca intensiva principalmente durante o período de reprodução.
Já no submédio e baixo São Francisco, além dos barramentos, o controle hídrico também

171

se configura como ameaça principal (BRITO & MAGALHÃES, 2017;2018).
Ações de conservação: Indivíduos de C. conirostris foram mantidos em cativeiro pela
CODEVASF, onde realizaram reproduções induzidas. Exemplares oriundos da reprodução
em cativeiro foram usados em reintroduções (“peixamentos”) em diversas áreas da bacia,
mas sem acompanhamento a posteriori. Há necessidade de monitorar a pesca sobre a
espécie e usar os dados obtidos para manejo (cotas de captura, tamanhos mínimos e
máximos etc) para conservação efetiva.
Em 2016 a CODEVASF em Porto Real do Colégio (AL) realizou a desova induzida da
espécie com posterior peixamento dos alevinos no baixo São Francisco entre Propriá (SE)
e Porto Real do Colégio (AL). O monitoramento da pesca e entrevistas com pescadores
na região ainda não registraram a captura de espécimes (M. Brito com. pess. 2018).
A espécie está contemplada no Plano de Ação Nacional para a Conservação das Espécies
Ameaçadas de Extinção da Fauna Aquática da Bacia do Rio São Francisco - PAN São
Francisco
Status de Ameaça: Em Perigo - EN.
Nome científico: Lophiosilurus alexandri Steindachner, 1876
Distribuição geográfica: Lophiosilurus alexandri é endêmica da bacia do rio São Francisco.
Na bacia do rio Doce é decorrente de translocação ocorrida entre as décadas de 1970 e
1980.
História natural: L. alexandri é uma espécie sedentária e piscívora que normalmente
habita ambientes lênticos (GUIMARÃES-CRUZ et al., 2009). Atinge até 72 cm, possui ovos
adesivos e o macho apresenta cuidados parentais. Segundo Tenório (2003), a espécie
possui peso comumente entre 0,8 a 2,0 kg, atingindo um máximo de 8 kg. Responde bem
ao manejo reprodutivo, embora apresente baixa fecundidade (PEDREIRA et al., 2008).
Ameaças: As principais ameaças a L. alexandri são a pesca comercial intensiva e as
modificações no seu hábitat, como aumento de profundidade, alterações sedimentológicas,
entre outros, ocasionadas principalmente pelos barramentos. Embora seja altamente
valorizada na pesca, é raramente capturada em alguns pontos de sua distribuição. A
espécie é considerada extinta em algumas áreas, principalmente em reservatórios de
hidrelétricas, que alteraram substancialmente a estrutura de seu habitat original, embora
o assoreamento da calha possa beneficiar a espécie criando habitat adicional.
Ações de conservação: Lophiosilurus alexandri é listada como espécie-alvo do Plano
de Ação Nacional para a Conservação das Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna
Aquática da Bacia do Rio São Francisco - PAN São Francisco
Status de Ameaça: Vulnerável - VU.
Nome científico: Pseudoplatystoma corruscans (Spix & Agassiz, 1829)
Distribuição geográfica: Pseudoplatystoma corruscans está distribuída nas bacias dos
rios São Francisco, Paraná, Paraguai e Uruguai, na Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e
Uruguai.
No Brasil, ocorre nas bacias dos rios São Francisco, Paraná, Paraguai e Uruguai, desde o
estado da Bahia ao estado do Rio Grande do Sul.
História natural: P. corruscans é uma espécie de grande porte que habita trechos
profundos e de remanso dos grandes rios, ocorre também em reservatórios. Contudo,
vale destacar que não existe registro de que complete seu ciclo de vida em reservatórios.
De acordo com Resende et al. (1995), a espécie é ictiófaga, alimentando-se de diversos
tipos de presas, incluindo a traíra (Hoplias malabaricus). P. corruscans realiza grandes
migrações, percorrendo até 274 km, incluindo migração reprodutiva, alimentar e de
refúgio no rio São Francisco (GODINHO et al., 2006). A espécie apresenta fecundação
externa e desova total no período de novembro a fevereiro (CREPALDI et al., 2006), ou
seja, na estação chuvosa (GODINHO et al., 2006). Áreas de várzea e lagos são os locais
mais importantes para a desova (GODINHO et al., 2006). Resende et al. (1995) observaram

172

que há segregação espacial por tamanho durante o período da vazante: indivíduos jovens
são encontrados nos rios menores, de águas rasas e nos braços abandonados do próprio
rio, enquanto os adultos são encontrados apenas no leito principal dos rios maiores.
Já na época das cheias, jovens e adultos são encontrados em corixos, vazantes e áreas
marginais alagadas.
Bacia do rio São Francisco: Historicamente, Pseudoplatystoma corruscans habitava toda
a bacia do São Francisco. Atualmente, a pesca comercial da espécie não vem sendo
registrada pelas associações locais de pescadores no sub-médio e baixo cursos desse
rio (DANTAS et al., 2013), e segundo relatos dos pescadores locais, a espécie não é mais
encontrada na porção baixa da bacia, a jusante da barragem de Xingó (NESTLER et al.,
2012; NOGUEIRA & SÁ, 2015). Segundo relato dos pescadores, a quantidade de surubins
capturados na bacia do rio São Francisco, assim como o tamanho médio vem diminuindo
drasticamente nos últimos anos. Fato este que levou vários pescadores a mudarem de
atividade ou a direcionarem a pescaria para espécies de menor porte (D. Crepaldi, com.
pess., 2019).
Ameaças: As principais ameaças a P. corruscans são os barramentos, que provocam
fragmentação, redução de habitat e alteração do fluxo hídrico; a hibridização da espécie
com congêneres, provocada por soltura/escape na natureza de híbridos cultivados em
piscicultura; e poluição. Além disso, a sobrepesca e as PCHs instaladas e previstas para
a região representam ameaças adicionais. O cruzamento com outras espécies como P.
reticulatum e P. faciatum pode produzir híbridos férteis até a terceira geração, podendo
cruzar com parentais em ambiente natural, causando a extinção da espécie.
Ações de conservação: P. corruscans é listada como espécie-alvo do Plano de Ação
Nacional para a Conservação das Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna Aquática
da Bacia do Rio São Francisco - PAN São Francisco
Status de Ameaça: Vulnerável - VU.
Coleta de dados
Junto com a equipe responsável pela coleta e identificação da ictiofauna foi
realizado o acompanhamento do registro dos peixes coletados nos 7 (sete) pontos da
expedição. As redes de emalhar foram colocadas na água ao entardecer e recolhidas
ao amanhecer, permanecendo em média 12 horas de pesca, com a finalidade de obter
registros de ocorrência das espécies de peixe ameaçadas de extinção.
Informações históricas de ocorrência e de conhecimento sobre as espécies
estudadas foram colhidas através de entrevistas individuais com pescadores das colônias
de cada município visitado. Para tanto, com o auxílio de fotos dos peixes (Anexo A),
foram elaborados questionários com perguntas sobre o tempo exercido na atividade
e periodicidade da pesca; a ocorrência das espécies de interesse e seus usos, e o
conhecimento que os pescadores possuíam sobre a lista de espécies ameaçadas de
extinção e as causas e ameaças aos peixes estudados (Anexo B).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Coleta de informações
A abordagem através de entrevistas é utilizada como estratégia de coleta de
dados em pesquisas qualitativas, pressupõe que, se as perguntas forem formuladas
corretamente, então as expressões das experiências dos entrevistados refletirão sua
realidade (BORGATTI, 1998; ALBUQUERQUE et al., 2014; MILLER & GLASSNER, 2016). As
entrevistas permitiram a coleta de relatos detalhados pelos participantes, pensamentos,
atitudes, crenças e conhecimentos sobre os usos e interações entre plantas e animais,
como dos 4 peixes deste estudo.

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O conhecimento tradicional permite entender processos ecossistêmicos em escalas
temporais ou espaciais dificilmente observados na pesquisa científica convencional
(HUNTINGTON, 1999), já que é originado por interações diárias com o meio ao longo de
anos (FABRICIUS & KOCH, 2004). Dessa forma, pode auxiliar na orientação de esforços
para proteção de habitats, no planejamento de ações de conservação em nível de
espécie (BROOK & MCLACHLAN, 2008), como também na obtenção de informações
sobre ecologia alimentar, distribuição e reprodução de espécies elusivas (FRANZINI et
al., 2013).
Dos 10 (dez) municípios visitados pela expedição, em 9 (nove) foram realizadas
conversa e entrevistas com os pescadores pertencentes as colônias. Dentre os participantes
das entrevistas, houve prévia seleção de pescadores mais antigos na atividade pela
possibilidade da obtenção de informações históricas sobre as espécies. Houve diálogo
com 230 (duzentos e trinta) pescadores, sendo destes, entrevistados individualmente 45
(quarenta e cinco).
A abordagem foi realizada de diversas maneiras; visita às colônias de pescadores
(Figura1), recepção dos pescadores no barco de pesquisa, visita à casa dos pescadores
(Figura 2) e durante a recepção dada pelos representantes dos municípios aos
expedicionários; frequentemente foi feito o contato inicial com o presidente/representante
da colônia de pesca de cada município, solicitando a permissão para realizar o estudo.
Figura 1: Fachada de algumas colônias de pesca visitadas durante a V Expedição Científica
do Baixo São Francisco, novembro de 2022. Colônia de Pescadores Z-30 em Piranhas/AL
(à esquerda) e Colônia de Pescadores Z-8 de Propriá/SE (à direita).

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Figura 2: Entrevistas com os pescadores da Colônia Z-20 no barco da expedição em Pão
de Açúcar/AL e visita a casa de um dos entrevistados no município de São Brás/AL (V
Expedição Científica do Baixo São Francisco, novembro de 2022).

No município de Traipu/AL não foi possível realizar o estudo, neste dia, dois municípios
foram percorridos pela expedição (Gararu/SE e Traipu/AL), houve desarticulação, os
pescadores ficaram de visitar o barco-laboratório, mas não compareceram. No aguardo
da visita, não fomos até a colônia.
Dos 45 pescadores entrevistados, 34 (75,55%) disseram que desconheciam
Pseudauchenipterus flavescens, na literatura não foi encontrado o nome popular para
espécie além de “Bagre”, em conversa com os pescadores da Expedição, Márcio, que
reside em Neópolis/SE, disse conhecer a espécie como cabaço ou cabacinho e que ocorre
na região mais próxima ao mar. Então, após visualizar a fotografia e fazer as perguntas
do questionário aos entrevistados, foi perguntado “E “cabacinho”, você conhece?”, caso
a resposta fosse positiva, foi perguntado se a espécie da foto era o cabacinho. Dos 11
entrevistados que disseram conhecer P. flavescens, em 6 a identificação foi considerada
equivocada do peixe, pois citaram o tamanho de um palmo e meio ou peso de 1,5 kg e a
espécie adulta possui de 10 a 12 cm, como nome popular, os citados disseram conhecer
como: bagre, mandim, joão mole e cumbá. Para a pesquisa, a única fotografia da
espécie encontrada foi de um exemplar tombado no Museu de Zoologia Comparada, da
Universidade de Harvard, no qual o espécime apresenta cor branco/amarelada devido ao
método de preservação utilizado (formol), a qualidade da imagem pode ter contribuído
para que os pescadores entrevistados confundissem a espécie como o bagre amarelo,
o mandim ou o cumbá. Dos outros 5 (10,5%) pescadores que responderam conhecer a
espécie, 1 foi em Penedo/AL, e disse que viu faz 10 anos, com a cheia que trouxe fartura de
peixes à região, em São Brás/AL, 2 conheciam a espécie, mas que não ocorria na região,
apenas no mar e estuário, e 2 em Brejo Grande/SE conheciam a espécie e disseram
que ocorre na região, embora que em 2022 ainda não haviam coletado nenhum. No
município de Piaçabuçu/AL, onde foi registrado o novo ponto e único de todo percurso

175

da expedição, durante as entrevistas nenhum pescador disse conhecer a espécie (4
entrevistados individualmente e conversa com mais 16 pescadores). Após visualização
do desenho e da foto de P. flavescens (Anexo A e Figura 3), no dia seguinte, um dos
pescadores entrevistados trouxe 3 espécimes até o barco-laboratório.
Figura 3: Diálogo com o grupo de pescadores e entrevistas em Piaçabuçu/AL durante a
V Expedição Científica do Baixo São Francisco, novembro de 2022.

Quanto ao uso de P. flavescens (cabacinho) relataram: venda e consumo próprio.
É uma espécie com valor baixo no mercado, então alguns pescadores acabam utilizando
para consumo. Um pescador declarou não ter uso e que quando pesca algum, devolve
para o ambiente. O método de coleta da espécie, segundo citaram, pode ser pescada na
linha ou com rede usada para Pilombeta, entretanto disseram que quando pescada na
rede, as nadadeiras enroscam na trama da malha e demandam muito tempo para tirar os
peixes, além de estragar a rede. Também pontuaram que a espécie ocorre mais no verão
e que fica mais próxima a margem do rio, e onde há pesca de camarão, porque, segundo
os pescadores, se alimenta das cascas do camarão.
Sobre o estado de conservação, desconhecem a classificação como Quase
Ameaçada e quais as ameaças e motivos para tal status. Citaram o avanço da cunha
salina nos municípios de Piaçabuçu/AL e Brejo Grande/SE, e a qualidade da água como
hipótese para possível ameaça à espécie.
Por se tratarem de espécies com ameaças e importância similares, as perguntas sobre
Conorhynchos conirostris (pirá), Lophiosilurus alexandri (pacamão), Pseudoplatystoma
corruscans (pintado ou surubim) foram realizadas junto.
A Figura 4 mostra as respostas dos entrevistados sobre a ocorrência das 3 espécies
ameaçadas de extinção de grande porte (pacamão, pirá e pintado) na região, e Figura
5 representa as repostas dos pescadores de cada município sobre a ocorrência dessas
espécies.
Figura 4: Respostas dos pescadores entrevistados sobre a ocorrência de C. conirostris
(pirá), L. alexandri (pacamão), P. corruscans (pintado ou surubim) na região do baixo São
Francisco, novembro de 2022.

176

Figura 5: Respostas dos pescadores entrevistados sobre a ocorrência de C. conirostris
(pirá), L. alexandri (pacamão), P. corruscans (pintado ou surubim) na região do baixo São
Francisco, em cada município visitado durante a expedição, novembro de 2022.

Das espécies de grande porte, o Pacamão foi o que apresentou mais dados de
ocorrência nas respostas dos entrevistados (30), seguido do Pintado (17) e apenas 4
pescadores relataram a presença do Pirá na região, além disso, do total de 45 pescadores
entrevistados, 25 (55,55%) disseram nunca terem visto o Pirá, 7 (15,55%) desconhecem o
Pacamão e 3 (6,66%) o Pintado.
De acordo com os entrevistados, o Pacamão ocorre no baixo São Francisco e
é pescado uma vez por ano, observamos que não há consenso no nome popular de
L. alexandri e outra espécie de Lophiosilurus que ocorre na região, alguns chamam
de “nikim” e também de “pacamão”, outros diferenciam como “pacamão da areia” e

177

“pacamão da pedra”, tendo o nome e a diferenciação entre as duas espécies variado
pacamão/nikim de município para município e também para os pescadores da mesma
cidade. Foi frequente nas entrevistas, pescadores ao ver a fotografia do L. alexandri
dizerem “Este não é o Pacamão, é Nikim” e outros discordarem. Além disso, alguns
consideram espécies diferentes um peixe da mesma espécie em diferentes estágios de
desenvolvimento (adulto - pacamão e juvenil-nikim).
É importante a diferenciação das espécies para além da obtenção de dados da
pesca e para conservação do pacamão, a espécie Lophiosilurus fowleri não está na lista
de espécies ameaçadas de extinção, dessa forma, não há restrição para sua captura.
Em relação ao pintado, apenas 3 entrevistados não conheciam a espécie, resposta muito
comumente obtida foi que antigamente, cerca de 20 anos, era encontrado com facilidade
na região grandes exemplares, e que agora, raramente é visto e quando capturado, possui
tamanho bem pequeno. A CODEFASF faz constantes ações de soltura de peixes, de
acordo com alguns entrevistados, os exemplares que aparecem são destas ações.
Em relação à economia dos pescadores e importância das 3 espécies de peixes,
100% disseram que são importantes pelo alto valor de mercado e procura, em especial
do pintado e do Pacamão, com preço médio de R$25,00 o quilo.
Quando perguntados se sabiam que o pirá, o pacamão e pintado estão ameaçados de
extinção, 27 (60%) disseram saber, e o motivo principal da resposta foi a ocorrência delas
na região “estão ameaçadas porque não são mais encontradas aqui”, além deste motivo/
justificativa, os outros mais citados foram: pesca, pesca com arpão, pesca no período de
defeso, qualidade da água, barramento; seguido de mudança no ambiente, quantidade
de água no rio e aumento da salinidade da água (nos 2 municípios mais próximos da foz).
Destaca-se a “não ocorrência das espécies” e a atividade de pesca sendo mais citadas
como motivadoras na categorização destas espécies como ameaçadas de extinção,
antes dos barramentos e da qualidade da água. Sabe-se que os barramentos impactam
fortemente as 3 espécies: o pirá e o pintado são espécies migradoras e necessitam de
trechos de curso livres no rio para completar seu ciclo de vida, e o pacamão é impactado
diretamente com as alterações do ambiente. As respostas refletem a visão mais micro e
local das ameaças às espécies.
No que se refere ao perfil dos entrevistados, a maioria declarou que começou a
pescar quando criança, em média com 12 anos, entre 5 e 15 anos, exercendo a profissão
desde então, a média de idade dos pescadores entrevistados foi de 49,5 anos (variando
de 27 a 76 anos), no exercício da atividade de pesca 37,42 anos (em média), lembrando
que no diálogo prévio com os grupos de pescadores, foi solicitado que as entrevistas
individuais fossem realizadas com os mais antigos na atividade, do total de entrevistados,
7 (15,5%) foram mulheres e 38 (84,4%) homens, é comum na atividade de pesca o homem
pegar os peixes e as mulheres fazerem a manipulação. A frequência relatada da pesca
foi diariamente com descanso no final de semana, muitos complementaram ainda que
necessitaram diminuir a frequência da pesca para 3 ou 2 vezes na semana e exercerem
outra atividade para complementar a renda (agricultura, por exemplo).
Coleta dos peixes
Nenhuma espécie de interesse foi coletada nos 7 (sete) pontos onde as redes foram
montadas pelos pescadores da equipe da expedição.
Durante as conversas e entrevistas com os pescadores de cada município visitado,
além da aplicação do questionário sobre as espécies, foi solicitado que, caso vissem
alguma delas, que levassem ao barco de pesquisa para realização do registro.
Um dos pescadores em sua atividade, após ser entrevistado no dia anterior, coletou
3 exemplares de Pseudauchenipterus flavescens, nas coordenadas: -10,40786115 lat;
-36,43579511 long, no município de Piaçabuçu, e levou até o barco-laboratório, onde
foram identificados, fotografados (Figura 6) e fixados em formol 10% para confirmação da

178

identificação a posteriori. Também foi coletada amostra da nadadeira caudal, preservada
em álcool absoluto, para estudo genético da espécie.
Figura 6: Pseudauchenipterus flavescens coletado por pescadores do município de
Piaçabuçu/AL, local de novo registro de ocorrência da espécie, novembro 2022.

Além dos exemplares trazidos pelos pescadores, por articulação do Prof Alfredo
Borie-Mojica (UFAL/Penedo) e sua aluna Marise Santos (UFAL/Penedo), moradora do
município e filha de pescador, foi possível obter mais alguns exemplares de P. flavescens e
informações sobre a espécie. Como os peixes já haviam sido manipulados para consumo
(retirada de alguns órgãos e nadadeiras), optou-se por não fixá-los ou utilizá-los na
pesquisa.
CONCLUSÃO
Os resultados alcançados durante a V Expedição Científica sobre as espécies em
extinção do baixo São Francisco, foram: para Pseudauchenipterus flavescens (cabacinho
ou cabaço), o registro de nova localidade de ocorrência, registro fotográfico in vivo da
espécie e informações sobre usos, nome popular, ameaças e conhecimento dos pescadores
sobre a conservação, esses dados não são encontrados na literatura; para Conorhynchos
conirostris (pirá), Lophiosilurus alexandri (pacamão) e Pseudoplatystoma corruscans
(pintado), as informações obtidas sobre dados históricos e atuais de ocorrência, usos,
relevância local e para economia dos pescadores, ameaças e conservação das espécies
serão importantes para promover ações de conservação para região, de forma a atuar na
minimização das ameaças e buscar soluções de modo a contribuir na atividade pesqueira
do baixo São Francisco buscando a sustentabilidade.

179

Os registros de ocorrência de espécies raras só foram possíveis com o auxílio da
expertise dos pescadores da região, sem o conhecimento e as informações do cotidiano
dos que habitam a área, muitos aspectos e elementos que ajudam na compreensão dos
processos ecossistêmicos em escalas temporais ou espaciais, dificilmente poderiam ser
observados na pesquisa científica convencional em apenas uma coleta.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados do novo ponto de ocorrência da espécie Pseudauchenipterus flavescens
(cabacinho) registrado durante a expedição serão inseridos no SALVE/ICMBio (Sistema
de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade), as informações desta e das demais
espécies pesquisadas serão incluídas na base de dados do PAN São Francisco com o
intuito de focar ações e políticas públicas para região do baixo São Francisco.
Por tratar-se de uma espécie rara, que só ocorre no baixo São Francisco e com
poucos dados na literatura, é necessário ampliar o conhecimento sobre P. flavescens.
Em posse de fotografias da espécie não fixada, a realização de novas entrevistas com
os pescadores da região pode trazer melhores resultados, a pesquisa realizada pode
ter sido prejudicada pela dificuldade de identificação do peixe pelos pescadores. No
âmbito desta ação, a distribuição de cartazes nas colônias de pescadores do Baixo São
Francisco pode auxiliar na coleta de informação e atentar para existência da espécie na
região (Figura 7).
Figura 7: Proposta de cartaz com imagem in vivo de Pseudauchenipterus flavescens para
auxiliar na divulgação da ocorrência de peixe raro na região e na coleta de informações
sobre a espécie.

180

A ocorrência das espécies Lophiosilurus alexandri (pacamão) e Pseudoplatystoma
corruscans (pintado) no baixo São Francisco subsidia e reforça a importância da inclusão
de trechos do rio e afluentes nas Áreas Estratégicas para conservação do PAN São
Francisco. O relato frequente da ocorrência do Pacamão no baixo São Francisco mostra
a importância de focar ações para conservação e recuperação desta espécie na região.
A ambiguidade observada durantes as atividades de pesquisa de campo em relação
ao Lophiosilurus alexandri (pacamão) e o Lophiosilurus fowleri (bagre-sapo), mostrou a
importância da elaboração de atividade ou material para disseminar a informação entre
os pescadores, que pode ser através de cartilhas e cartazes ou palestras, indicando as
diferenças entre as duas espécies que ocorrem no baixo, estando o L. alexandri ameaçado
de extinção e o L. fowleri não, esta ação pode evitar que os pescadores sejam autuados
em ações de fiscalização e também contribuirá para conservação do pacamão.
Notas morfológicas de L. fowleri para diferenciar de L alexandri, os espécimes
atingem comprimento máximo de 40,5 cm (enquanto que L alexandri, atinge até 72cm), a
cabeça é grande, com olhos pequenos e barbilhões curtos, sendo a boca quase tão larga
quanto a cabeça. É mais esbelto e possui a cabeça mais achatada que outras espécies
do gênero, além de quase não possuir manchas no ventre. Os jovens costumam ser mais
claros e mais alaranjados que os adultos. Duas faixas negras correm transversalmente no
corpo e as nadadeiras ímpares são de cor escura.
Ainda na esfera da conservação, observou-se que há necessidade de divulgação de
informações e sensibilização da população ribeirinha acerca da preservação e proteção
das espécies ameaçadas de extinção. Diante disso, em janeiro de 2023, na chamada
interna de projetos do ICMBio, foi proposto a elaboração de um guia/cartilha “Guia de
peixes ameaçados de extinção do baixo São Francisco e ações de conservação para
pescadores” para distribuição nas colônias do baixo São Francisco. O projeto foi aprovado
e encontra-se em andamento.
Tendo o Pacamão e o Pintado grande importância para economia dos pescadores
na região (espécies de grande porte e com alto valor na pesca comercial), é pertinente
a promoção da discussão sobre a elaboração dos Planos de Recuperação delas. O Plano
de Recuperação do Pintado, que entrou para Lista Vermelha de espécies ameaçadas de
extinção em 2022 (Portaria nº 148/22, anexo da Portaria nº 445/14), entrou em vigou
em janeiro de 2023 (Portaria MMA nº 355/23), em seu diagnóstico, observou-se que a
pesca não era a ameaça responsável pelo risco de extinção da espécie, e sim a presença
de barragens de empreendimentos hidrelétricos e a competição com peixes híbridos no
ambiente. Assim, a pesca sustentável do pintado está permitida, desde que obedecidas
as normas de ordenamento vigentes, incluindo o período de defeso.
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ANEXOS
Imagens dos peixes utilizadas nas entrevistas com os pescadores do baixo São
Francisco durante a expedição, novembro 2022.

183

184

185

186

11. QUALIDADE MICROBIOLÓGICA DE PESCADOS
VENDIDOS EM FEIRAS LIVRES DE OITO
MUNICÍPIOS DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Tecnologia e Microbiologia do pescado
Juliett de Fátima Xavier da Silva44
Ana Paula de Almeida Portela da Silva45
Heloísa de Carvalho Matos46
Rykelly Bezerra Santos47
RESUMO
Este trabalho teve como objetivo realizar análise microbiológica de pescados
comercializados em feiras livres e/ou mercados públicos de oito Municípios do Baixo São
Francisco, durante a V Expedição do São Francisco. Foram coletadas amostras de tilápia
(Oreochromis niloticus) e de camarão (Litopenaeus vannamei e Macrobrachium sp), in
natura ou salgado seco, e transportadas para o Laboratório de Tecnologia do Pescado –
LATEPE/UFAL para processamento. Foram realizadas análises para detectar: Escherichia
coli, coliformes totais, Staphylococcus aureus e fungos. Foi detectada a presença de
E. coli, coliformes totais e Staphylococcus aureus em todas as amostras, sendo que os
peixes comercializados em todas as feiras livres/mercados estavam com valores de E. coli
dentro do limite permitido pela legislação vigente; por outro lado, a amostra de camarão
de Piaçabuçu estava acima do limite permitido. S aureus também foi identificada em
todas as amostras de peixes e camarões comercializados porém, apenas as amostras de
peixes de Penedo, Traipu e São Brás estavam acima do limite tolerável pela legislação.
Todas as amostras analisadas tiveram a presença de bolores, porém em níveis aceitáveis,
segundo a legislação vigente, abaixo de 104 UFC/g. As amostras de Penedo, Piranhas,
Traipú, Igreja Nova e Propriá foram as mais abundantes quanto ao número de bolores,
variando de 7,40 x 101 à 6,41x102 UFC/g. Condições higiênico-sanitárias inadequadas
podem favorecer a contaminação dos alimentos por microrganismos. Desta forma,
recomenda-se a oferta de cursos e/ou palestras de capacitação sobre boas práticas de
manipulação do pescado para feirantes, visando assegurar um pescado de qualidade
para consumo.
Palavras-chave: Microbiologia do Pescado; Boas Práticas de Manipulação; Microrganismos
Mesófilos.

44
Docentes do curso de Engenharia de Pesca/ UFAL/ Campus Arapiraca/ Unidade Educacional Penedo,
Av. Beira Rio, s/n, Centro Histórico, CEP: 57200-000;
45
Docentes do curso de Engenharia de Pesca/ UFAL/ Campus Arapiraca/ Unidade Educacional Penedo,
Av. Beira Rio, s/n, Centro Histórico, CEP: 57200-000;
46
Bióloga da UFAL/ Campus Arapiraca/ Unidade EducacionalPenedo;
47
Graduanda em Engenharia de Pesca da UFAL/Campus Arapiraca/ Unidade Educacional Penedo

187

INTRODUÇÃO
As Doenças transmitidas por alimentos (DTA’s) são provocadas pelo consumo
de alimentos e/ou água contaminados, deliberado pela Organização Mundial de Saúde
(OMS) como um dos principais problemas de saúde pública global; calcula-se que causam
doenças em uma a cada 10 pessoas e causam 33 milhões de mortes por ano (AMARAL et
al., 2021). Dentre os alimentos envolvidos nos surtos de DTA’s, no Brasil, de 2009 a 2019,
os pescados (frutos do mar e produtos processados) corresponderam a 2,18% (AMARAL
et al., 2021).
O pescado é um alimento de alto valor proteico, aminoácidos essenciais e ácidos
graxos poli-insaturados; baixo teor de gordura, e fonte de minerais, principalmente
cálcio e fósforo, vitaminas A, D e complexo B (EVANGELISTA-BARRETO et al., 2017).
Apesar das suas ótimas características nutricionais é muito perecível e frequentemente
é comercializado em feiras livres, em condições higiênico-sanitárias inadequadas,
podendo se deteriorar e se contaminar com bactérias e fungos, decorrendo em prejuízos
à saúde humana. O comércio informal do pescado gera diversas preocupações, pois
tanto comerciantes quanto consumidores, muitas vezes, não conhecem os cuidados para
higienização e conservação dos alimentos e os possíveis riscos de doenças relacionadas
à proliferação de microrganismos (OLIVEIRA, et al., 2019).
Dentre os microrganismos, as bactérias são consideradas índices de sanidade e
sua presença pode indicar que as condições de conservação da matéria-prima estão
impróprias, representando condições higiênico-sanitárias inadequadas. A legislação
brasileira, INSTRUÇÃO NORMATIVA N° 60, DE 23 DE DEZEMBRO DE 2019, preconiza
limites para Estafilococos coagulase positiva/g, Salmonella/25g e Escherichia coli/g,
para diferentes categorias de pescado (BRASIL, 2019).
Por outro lado, assim como as bactérias, a investigação de fungos é imprescindível,
pois podem propiciar alterações no odor e sabor dos alimentos, causando diferentes
graus de deterioração através de uma contaminação cruzada, acarretando perigo a
saúde humana, principalmente pela produção de micotoxinas (OLIVEIRA et al., 2019).
Micotoxinas são metabólitos secundários com diferenciadas estruturas químicas e
propriedade biológica; podem estar bioacumuladas no pescado e causar efeitos diretos
no animal e indiretos, no consumidor; ao serem ingeridas podem causar micotoxicoses
em animais e no homem, com efeitos carcinogênico, nefrotóxico e teratogênico (ATAYDE
et al., 2014; BARRETO et al., 2016).
Desta forma, é importante fazer uso de boas práticas de manipulação, procedimento
padrão de higienização e análise de perigos e pontos críticos de controle, visando manter
a qualidade do pescado fresco como um alimento seguro ao consumidor (FAO, 1997;
SANTOS et al., 2019; SANTOS et al., 2021).
Assim, o presente estudo objetivou pesquisar bactérias Escherichia coli, Coliformes
termotolerantes e Staphylococcus aureus, além de bolores em pescados comercializados
em feiras livres/mercados públicos de oito Municípios do Baixo São Francisco, durante a
V Expedição do São Francisco.
METODOLOGIA
O presente trabalho foi desenvolvido nas feiras livres dos Municípios de Pão de
Açúcar, Piranhas, Traipu, São Brás, Propriá, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu, no período
de 03 de novembro a 12 de novembro de 2022.
Foram obtidas amostras de tilápia (Oreochromis niloticus), sendo inteira (Igreja
Nova e Traipu), em postas (São Brás) e filés (Pão de Açúcar, Piranhas, Penedo,
Piaçabuçu e Propriá) processadas in loco (Figura 1), e amostras de camarão marinho
(Litopenaeus vannamei) fresco e cozido em salmoura em Penedo e Propriá, e Piaçabuçu,
respectivamente. E camarão de água doce (Macrobrachium sp), cozido em salmoura em

188

Igreja Nova e Piranhas (Figura 2). As amostras foram acondicionadas em sacos plásticos
estéreis e transportadas em caixa isotérmica com gelo para o Laboratório de Tecnologia
do Pescado – LATEPE da Universidade Federal de Alagoas – UFAL para iniciar as análises
microbiológicas.
Figura 1: Tilápia (Oreochromis niloticus) comercializada nas feiras dos Municípios de
Igreja Nova (A), Traipu (B), São Brás (C), Piranhas (D), Pão de Açúcar (E) e Piaçabuçu (F).

Figura 2: Camarão marinho fresco (Litopenaeus vannamei) comercializado nas feiras de
Penedo (A) e Propriá (B) e camarão de água doce cozido na água e sal (Macrobrachium
sp) em Igreja Nova (C) e Piranhas (D).

189

QUANTIFICAÇÃO DE MICRORGANISMOS ESPECÍFICOS E PROCESSAMENTO PARA
ISOLAMENTO DE FUNGOS FILAMENTOSOS
A identificação e quantificação de Escherichia coli, Coliformes termotolerantes
e Staphylococcus aureus foi realizada através de placas estéreis para detecção e
quantificação microbiológica em matérias primas tipo CompactyDry EC (E. Coli e
Coliformes) e CompactyDry XSA (S. aureus) da Nissui Pharmaceutical®.
A primeira etapa da análise consistiu na preparação e diluição das amostras
coletadas, onde 25 g de cada amostra foi homogeneizada em 225 mL de água peptonada
a 0,1%, referente à solução mãe (Figura 3), e realizadas diluições seriadas de 10-1 até 10-3.
Em seguida utilizou-se a técnica de plaqueamento em superfície (spread-plate), no qual
1 mL de cada diluição foi inoculada em superfície em placas CompactDry, incubadas a
33°C ± 1,0 de 24 a 48 h, o resultado foi expresso em unidades formadoras de colônias
por grama de amostra (UFC/g). A inoculação dos fungos foi realizada com 1 mL de
cada diluição em placa de Petri contendo Ágar Sabouraud Dextrose (SDA-Himedia®)
suplementado com Tetraciclina a 0,1 μg/mL-1, para evitar crescimento bacteriano (SILVA
et al., 2007). Em seguida, as placas foram incubadas a 25 ± 2ºCe monitoradas por até 12
dias para a observação do crescimento e posterior isolamento dos fungos. A purificação
dos fungos ocorreu por meio de repiques sucessivos em SDA (Himedia®). Uma vez
purificados, os isolados foram preservados, sob refrigeração, para posterior identificação
por taxonomista da Micoteca (URM/UFPE).
Figura 3: Amostras homogeneizadas em água peptonada (solução mãe). A: Piranhas, B:
Piaçabuçu, C: Igreja Nova, D: Propriá – AL.

CONFECÇÃO DE DISTRIBUIÇÃO DE CARTILHAS EDUCATIVAS
Adicionalmente ao trabalho de coleta e processamento de amostras de pescado,
foi confeccionada uma cartilha contendo informações e ilustrações sobre as boas práticas
de manipulação do pescado. A cartilha foi entregue aos feirantes no momento da coleta,
com a explicação da mesma.

190

RESULTADOS E DISCUSSÕES
Contagem padrão de Bactérias Aeróbias Mesófilas (CPBAM) Viáveis
Na Tabela 1 encontram-se as quantificações de Escherichia coli, Coliformes
termotolerantes e Staphylococcus aureus UFC/g nas amostras de peixe e camarão
comercializados nas feiras livres após 24 horas.
Tabela 1: Quantificação de Escherichia coli (EC), Coliformes termotolerantes (C) e
Staphylococcus aureus (SA) UFC/g nas amostras de peixe e camarão após 24 horas.

A presença de Escherichia coli foi observada em grande parte das amostras
analisadas, havendo uma variação de 1,67 x 102 a 3,1 x 102 UFC/g nos peixes (Figura 4) e
4,6 x 101 a 2,0 x 102 nos camarões (Figura 5). Houve também a presença de Coliformes
termotolerantes com variação de 2,8 x 103 a incontáveis UFC/g nos peixes (Figura 6) e
3,8 x 101 a 6,2 x 103 UFC/g nos camarões. Coliformes termotolerantes são os principais
responsáveis pelas doenças diarreicas e são considerados sinais de contaminação fecal,
evidenciando condições higiênico-sanitárias inadequadas. De acordo com Amaral et al.,
(2021), dentre os 10 principais agentes etiológicos envolvidos nos surtos de DTA’s no
período de 2009 a 2019, a bactéria Escherichia coli representou 29% do total, seguida
pela Salmonella e Staphylococcus aureus, com 17% e 16%, respectivamente.
Figura 4: Culturas de Escherichia coli e coliformes totais isoladas de amostras de peixes
(Oreochromis niloticus) comercializados em feiras livres (A = 10-1 – Pão de Açúcar), (B =
10-2 – Igreja Nova), (C = 10-2 - Piranhas); (D = 10-2 - Penedo).

191

Figura 5: Culturas de Escherichia coli e coliformes totais isoladas de amostras de camarões
comercializados em feiras livres (A = 10-1 – Piranhas), (B = 10-1 – Piaçabuçu), (C = 10-2 –
Igreja Nova); (D = 10-2 - Propriá).

Figura 6: Culturas de coliformes totais isoladas de amostras de peixes (Oreochromis
niloticus) comercializados em feiras livres (A = 10-3 – Propriá), (B = 10-2 – Piaçabuçu), (C
= 10-3 – São Brás); (D = 10-3 - Traipu).

Apesar da identificação de Escherichia coli e Coliformes, os peixes comercializados
em todas as feiras livres/mercados estavam com valores dentro do limite permitido pela
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) que preconiza limite tolerável de 5x102
UFC/g de Escherichia coli/g para pescados (peixes, crustáceos, moluscos) e miúdos (ovas,
moela, bexiga natatória) crus, temperados ou não, frescos, resfriados ou congelados não
consumidos crus. Por outro lado, a amostra de camarão de Piaçabuçu estava acima do
limite tolerado de 102 UFC/g de Escherichia coli/g para pescados (peixes, crustáceos,
moluscos) e miúdos (ovas, bexiga natatória) salgados ou salgado secos, anchovados ou
em salmoura, o que indica condições higiênicas insatisfatórias, devido à contaminação
microbiana de origem fecal e a eventual presença de organismos patogênicos.
A presença de Staphylococcus aureus, espécie do grupo da coagulase positiva,
também foi identificada em todas as amostras de peixes e camarões comercializados
nas feiras. Porém, apenas as amostras de peixes de Penedo, Traipu (Figura 7) e São
Brás estavam acima do limite tolerável pela ANVISA, de 103 UFC/g de Estafilococos
coagulase positiva/g para pescados (peixes, crustáceos, moluscos) e miúdos (ovas,
moela, bexiga natatória) crus, temperados ou não, frescos, resfriados ou congelados. A
legislação não menciona o limite de Estafilococos coagulase positiva/g para produtos
salgados. É importante ressaltar que mesmo que a maioria das amostras estejam dentro

192

do limite preconizado pela legislação, os valores encontrados, devem ser considerados,
pois é indicativo de ausência de boas práticas de manipulação e pode se tornar um risco
potencial para a saúde pública dos consumidores.
Figura 7: Culturas de Staphylococcus aureus isoladas de amostras de peixes (Oreochromis
niloticus) comercializados em feiras livres (A = 10-1 – Penedo), (B = 10-1 – Traipu).

Contagem e Isolamento de Fungos filamentosos
Foram obtidas 13 amostras de pescado (peixe e camarão), das 8 cidades visitadas
pela IV Expedição Científica do São Francisco. Em todas as amostras houve crescimento
fúngico. Na Tabela 2, estão quantificadas as Unidades Formadoras de Colônia (UFCs),
por cidade/diluição.
Tabela 2: Quantificação de Unidades Formadoras de Colônia (UFCs) em amostras de
pescado de feiras livres, em Alagoas e Sergipe.

193

No total, foram isoladas 20 culturas fúngicas de todas as cidades amostradas,
conforme pode ser visualizado o aspecto macroscópico das colônias abaixo (Figura 6).
Todos os isolados foram levados à Micoteca (URM/UFPE) para identificação a nível de
espécie. As amostras de peixe obtidas dos municípios de Penedo, Piranhas e Traipú foram
as mais abundantes quanto ao número de bolores; quanto à presença de fungos no
camarão, Penedo, Piranhas, Igreja Nova e Propriá, tiveram maior número de bolores. Pão
de Açúcar, Piaçabuçu e São Brás foram os municípios com menos isolados encontrados.
A legislação em vigor não especifica o número máximo de UFCs de fungos filamentosos
(bolores) e leveduras no pescado e nem em outras carnes, nem a taxa de metabólitos
produzidos por eles, mas como referência utiliza-se o padrão permitido para produtos
alimentícios com condições de atividade de água similares, que é de no máximo 104
UFC/g (RDC nº 12, BRASIL 2001; IN º 60, BRASIL, 2019). Deste modo, os resultados
encontrados neste trabalho demonstram níveis de contaminação aceitáveis porém, os
municípios de Penedo, Piranhas, Traipú, Igreja Nova e Propriá necessitam de atenção
especial, por estarem com altos índices de fungos no pescado comercializado. As
condições higiênico-sanitárias durante a manipulação estão fortemente relacionadas à
contaminação por microrganismos (OLIVEIRA, et al., 2019).
Dentre os gêneros de fungos isolados, estavam presentes Aspergillus e Penicillium,
conhecidamente produtores de micotoxinas, dentre outros. De modo semelhante, amostras
de camarão Macrobrachium amazonicum, oriundas de feiras, no estado do Pará/Brasil,
também continham fungos filamentosos, dentro os mais frequentes estavam Aspergillus
Micheli (29%) e Penicillium Link (22%) (OLIVEIRA et al., 2019). Estes gêneros estão
entre os mais estudados como produtores de toxinas. Dentre as principais micotoxinas,
destacam-se aflatoxina, ocratoxina e fumonisina (SUN et al., 2015; MUNAWAR et al.,
2019), todas com potencial de causar efeito hepatotóxico, carcinogênico, nefrotóxico e
teratogênico, em animais e humanos.
Figura 6: Isolados de fungos filamentosos isolados do pescado das cidades visitadas.
A- Propriá; B- Traipú; C- Piaçabuçu; D- Igreja Nova; E- Penedo; F- Piranhas; G- Pão de
Açúcar; H- São Brás.

194

Confecção e Distribuição de Cartilhas
A cartilha educativa contendo informações sobre as boas práticas de manipulação
do pescado (Figura 7) foi construída com o objetivo de fortalecer o trabalho junto aos
feirantes no momento da coleta de amostras, de forma clara e ilustrada. O material consta
de texto com linguagem apropriada para o público feirante, imagens ilustrativas sobre
acondicionamento e conservação do pescado no gelo, lavagem das mãos e limpeza do
local de trabalho.
A medida que o material foi distribuído, também havia o diálogo com os feirantes
explicando a cartilha, orientando e tirando dúvidas (Figura 8). Recomenda-se ainda
a necessidade de reforço junto às prefeituras e secretarias dos municípios visitados,
a necessidade da manutenção da qualidade e da inocuidade do pescado, além de
condições apropriadas de trabalho. Desta forma, será possível garantir um pescado de
mais qualidade e seguro que chegará até ao consumidor final.
Figura 7: Cartilha Boas Práticas de Manipulação do Pescado para Feirantes.
Fonte:https://ufal.br/ufal/pesquisa-e-inovacao/programas/expedicao-cientifica-do-rio-sao-francisco/
publicacoes/cartilhas-educativas/cartilha-pescado-expedicao-cientifica.pdf/view.

Figura 8: Confecção e distribuição de Cartilha de Boas Práticas de Manipulação do
Pescado para Feirantes, em Penedo/AL.

195

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A avaliação microbiológica do pescado comercializado nas feiras livres/mercado em
questão constatou condições higiênicas sanitárias insatisfatórias e risco de contaminação
dos pescados nos locais avaliados. Esse risco pode ser diminuído pela adoção de boas
práticas de manipulação e reestruturação do espaço físico de comercialização de modo
a atender à legislação vigente. Considera-se urgente a adoção de cursos de capacitação
para a manipulação e processamento do pescado, além do cumprimento das exigências
legais para funcionamento, associados à fiscalização pelos órgãos competentes.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Universidade Federal de Alagoas (UFAL), ao Comitê da Bacia
Hidrográfica do São Francisco (CBSF), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
Alagoas (FAPEAL), a Companhia de Desenvolvimento do Vale São Francisco (CODEVASF)
e a todas as instituições que apoiaram o projeto para que a V Expedição Científica do
Baixo São Francisco pudesse acontecer.
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197

12. MONITORAMENTO ACÚSTICO PASSIVO (MAP)
NO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Ecologia Acústica.
Alfredo Borie-Mojica48
RESUMO
A ferramenta acústica vem permitindo o monitoramento de diversos ecossistemas e
organismos, entretanto, em aguas continentais as informações ainda são escassas.
Assim, este capítulo, trata de sons gravados entre a região de Piranhas e a foz do rio
São Francisco, utilizando dois sistemas de gravação (portátil e autônomo). O sistema
portátil à deriva foi por primeira vez utilizado na V expedição Científica, este sistema
permitiu realizar gravações cobrindo uma área maior, mas com menor resolução temporal.
Durante as gravações à deriva (sistema portátil) e estacionários (hidrofone autônomo),
foram detectados diversos tipos de sons biológicos, principalmente emitidos por peixes
e crustáceos, este sons forma esporádicos na maioria dos locais de gravação, exceto
na região da foz a partir de Piaçabuçu, que aprestou maior diversidade acústica. Foram
recorrentes sons de alimentação, assim como, agregação de peixes na região de Traipu.
Sendo também identificados os sons da pirambeba, que não tinham sido detectados nas
expedições anteriores. Também começaram a ser detectada maior ocorrência de bombas
de abastecimento de agua. Deste modo, o Monitoramento Acústico Passivo (MAP)
permitiu o acompanhamento de sons previamente detectados em campanhas anteriores
assim como avaliar novas detecções de sons biológicos a antrópicos, demonstrado a
importância desta ferramenta.
Palavras-chave: ecologia acústica, bioacústica, rio, nordeste.
INTRODUÇÃO
A ecologia acústica é uma recente área de pesquisa da ecologia e é uma disciplina
que tem como objeto de estudo o campo sonoro, em todos os seus aspectos ecológicos,
físicos, sociais e culturais. A ecologia acústica tem perspectiva macro, e foca em todo o
arranjo complexo de sons biológicos e outros sons ambientais que ocorrem em um local,
sejam geológicos ou antropogênicos (WRIGHTSON, 2000). A sonoridade do ambiente
pode revelar muito mais sobre o equilíbrio da biodiversidade. A utilização desse tipo
de ferramenta para a medição da biodiversidade é conhecida como ecologia acústica
(soundscape ecology) (HARRIS E RADFORD, 2014).
Para ouvir os sons dos diferentes ambientes utiliza-se a ferramenta de acústica
passiva. Nos ambientes terrestres esta ferramenta já é bastante difundida, mas nos
ambiente aquáticos esta sendo aplicada muito recentemente, devido às próprias
características desse ambiente, uma vez que se precisa de uma maior logística, mas
principalmente de equipamentos especializados para isso, como hidrofone, e isso só veio
acontecer nos últimos anos e ainda assim, são de alto custo.

48

198

Universidade Federal de Alagoas, UE Penedo

A acústica passiva é um método observacional, não invasivo e não destrutivo,
que se baseia em ouvir os sons de diferentes organismos. 1. Contribui para avaliar a
qualidade e biodiversidade em diversos ambientes aquáticos. 2. Permite avaliar aspectos
comportamentais (reprodutivos, alimentares, territorialista, predação). 3. Permite Avaliar
distribuição espaço-temporal das diferentes espécies (ROUNTREE, 2006; GANNON
2008; LUCZKOVICH et al., 2008).
Os trabalhos com acústica passiva foram iniciados no baixo rio São Francisco na
primeira expedição realizada no final de 2019, onde foi feito o levantamento da paisagem
acústica da região do baixo, onde foram encontrados; 21 sons biológicos (18 peixes e 3
crustáceos) e 3 tipos de ruídos de embarcações; a região de Piaçabuçu com características
acústicas estuarinas, consequência da diminuição da vazão e aumento da cunha salina;
detecção de camarões em período crepusculares; descobertas de mecanismos sonoros
em 4 espécies de peixes (BORIE-MOJICA, 2020, 2022).
Nas ultimas edições vem sendo realizado o Monitoramento Acústico Passivo
(MAP) no baixo rio São Francisco, buscando enriquecer o banco de dados acústicos das
expedições cientificas, através de novas descobertas e monitorando as detectadas com
relativa ocorrência, por sua vez realizando esforços por identificar a fonte dos sons a
nível de grupo taxonômico e espécies quando possível.
METODOLOGIA
Os sons forma gravados durante a V Expedição Cientifica no baixo rio São Francisco
realizada entre os dias 3 e 12 de novembro de 2022. Foram realizadas gravações nas
regiões de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Penedo, Piaçabuçu e foz do rio São
Francisco,
Para as gravações forma utilizando dois sistemas de gravação, à deriva e estacionário.
Na deriva foram realizadas gravações utilizando um sistema portátil, constando de um
hidrofone AS-1 (Aquarian áudio), conectado a um amplificador e por sua vez ligado a
um gravador digital (Zoom H5), onde também foi utilizada uma caixa de som JBL Flip 3
(Figura 1). Este sistema de gravação permitiu gravar, ouvir e detectar em tempo real os
sons subaquáticos. O AS-1 é adequado para medições absolutas de som subaquático.
Apresenta uma Faixa linear de amostragem de 1Hz a 100kHz ±2dB.
Nss gravações à deriva e de forma estacionaria foi utilizado o aplicativo gratuito
GeoTracker, para georreferenciar pontos e transectos. Durante as derivas o motor da
embarcação era desligado.
O monitoramento com o sistema estacionário foi avaliada utilizando um gravador
subaquático do modelo SoundTrap (ST) 300 (Ocean Instrument, New Zealand). O ST é
destinado para o uso geral de medições de ruído aquáticos, com uma gama de 20 Hz a
60 kHz, com frequência de amostragem 48 kHz, 16 bits.
Estes sistemas permitiram avaliar os padrões sonoros biológicos e antrópicos sazonais e
temporais que ocorrem nos durante o período de estudo. O ST foi fixado a um cabo de
polietileno e ancorado a uma poita de cimento e foram utilizadas boias para a armação
do equipamento no fundo.
Para a caracterização acústica foram utilizados parâmetros com duração do som
em segundos (s), e frequência baixa, alta e máxima em Hertz (Hz). Os sons foram avaliados
nos programas Audacity e Raven Pro1.6, com o auxilio de oscilogramas e espectrogramas.
Figura 1: Sistemas de gravação utilizados no Monitoramento Acústico Passivo (MAP) A.
unidade portátil de gravação subaquática utilizado nas derivas. B Gravador autônomo
subaquático SoudTrap 300.

199

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados apresentados do neste relatório fazem parte de novos registos
detectados ao logo da V Expedição Cientifica no baixo rio São Francisco realizada entre
os dias 3 e 12 de novembro de 2022, assim como o monitoramento acústico de sons
detectados nas expedições anteriores (2019, 2020, 2021).
Durante as gravações à deriva (sistema portátil) e estacionários (hidrofone
autônomo), foram detectados diversos tipos de sons biológicos, sendo recorrentes sons
de alimentação. Assim como, agregação de peixes e sons da pirambeba, que não tinham
sido detectados nas expedições anteriores. Também começaram a ser detectada maior
ocorrência de bombas de abastecimento de agua.
Na região de Piranhas foi possível novamente detectar esporadicamente sons
característicos de peixes (Figura 2.) com frequências menores a 2 kHz, com diferentes
tipos (Figura 2A.), som tipo proquilodontídeos, formado por trens de pulsos (Figura 2B.)
e figuras de passagem de ar, tipo bexiga (Figura 2C.).
Na região de Pão de Açúcar houve maior detecção de sons biológicos durante a
deriva na margem de SE, na encosta rochosa do morro. Na margem oposta, percebeu-se
um tipo de ruído característico de bombas para abastecimento de agua. As duas margens
apresentaram padrões opostos de assinaturas acústicas. As derivas realizadas na margem
de Sergipe e Alagoas na região de Pão de Açúcar (linhas azuis), com seus respectivos
espectrogramas e espectros de energia (linha vermelha), mostram espectro de energia
com diferente padrão acústico (Figura 3). Em ambas as margens foram observadas a
presença de sons antrofônicos de grande energia, como bombas e embarcações (balsa
de transporte e barcos de pesca), podendo ter impacto negativos nos sons biofônicos
dessa região. Neste caso, a ferramenta acústica também pode ajudar a localizar e mapear
sons antrofônicos, como as das bombas de sucção para abastecimento de agua.

200

Na região de Traipu foram feitas gravações no final de tarde e pela manhã em
ambas as margens do rio São Francisco (lado de Sergipe e Alagoas) (Figura 4.). Dois
tipos de sons formam comumente detectados nas duas margens do rio na localidade.
No final da tarde (16hh:35mm) de 05 de novembro de 2022, na margem de Sergipe foi
detectada uma agregação de peixes (Figura 5 A) em um local do tipo barranco, com uma
duração de 76,2 milissegundos (Tabela 1) e de banda de frequência entre 200 e 1500 Hz
(Figura 5 B).
Um segundo som com bastante ocorrência nas gravações foi detectado no dia
seguinte pela manha no mesmo local e na margem posterior. Segundo o pescador e
mergulhador Marcio, que acompanhou a coleta e que estava ouvindo os sons em tempo
real, associou este tipo de som à alimentação de peixes (Figura 6).
São Brás apresentou padrões similares de energia acústica nos espectrogramas
(Figura 7) nos três lugares amostrados: Lagoa Comprida, remanso e margem. Nesses
lovais foram detectados sons biológicos esporádicos, com característicos de peixes. Na
região de Penedo, estas características acústicas biológicas também foram detectadas em
campanhas anteriores. Nos três locais com gravações à deriva além dos sons biológicos
foi possível detectar bombas elétricas de abastecimento de agua (Figura 8).
Foi possível detectar o som da pirambeba (Serrasalmus brandtii) capturada
com rede de emalhar. Isto pode ser de grande relevância uma vez que esta espécie
pode estar representada por um 80% das capturas em varais regiões do baixo rio São
Francisco. Outro fator importante vem sendo observado recentemente e divulgado na
mídia são os ataques de pirambebas a banhistas em praias dessas regiões. Assim, a
ferramenta acústica passiva pode contribuir para identificar áreas de maior ocorrência
desta espécies e monitorar as populações. Uma vez que, os sons das piranhas vêm sendo
documentado recentemente nas regiões Norte e Sudeste do Brasil (RAICK et al., 2020a,
2020b; ROUNTREE e JUANES, 2020; ).
Figura 2: Espectrogramas de frequência de sons característicos de peixes detectados na
região de Piranhas.

201

Figura 3: Derivas realizadas na margem de Sergipe e Alagoas na região de Pão de
Açúcar (linhas azuis), com seus respectivos espectrogramas e espectros de energia
(linha vermelha).

Figura 4: Espectrogramas de frequência da região de Traipu. A. margem oposta durante
o final de tarde. B. manhã margem oposta e C. manhã na margem do lado de AL.

202

Figura 5: A. sons de agregação de peixes e deriva na região de Traipu (margem oposta
durante o final de tarde). B. magnificação do oscilograma (acima) e espectrograma
(abaixo) de três pulsos.

Tabela 1: Caracterização dos sons de agregação de peixes detectados durante a deriva
na região de Traipu.

203

Figura 6: Oscilograma (acima) e Espectrograma (abaixo) de sons de alimentação
detectados na região de Traipu.

Figura 7: Espectrogramas de frequência da região de São Bras. A. Lagoa Comprida . B.
ambiente de remanso e C. margem do lado de AL.

204

Figura 8: Espectrogramas de frequência da região de Penedo

Figura 9: A. sons de pirambeba capturada em rede de emalhar na região de Piaçabuçu. B.
oscilograma (acima) e espectrograma (abaixo) de três pulsos.

205

A foz do rio vem se caracterizando por uma grande ocorrência de sons biológicos,
este ambiente é de grande importância ecológica uma vez que serve de berçário para
muitas espécies, que utilizam esse ambiente para reprodução e posterior desenvolvimento,
além de ser uma importante área de alimentação. A grande diversidade de sons
encontrados nas expedições anteriores, pode estar diretamente relacionado com o
aspectos ecológicos que apresenta esta região. Um dos sons característicos detectado
na região é apresentado na figura 10, com quatro pulsos compostos por dois harmônicos
cada um, sendo um com aproximadamente 250 Hz e outro 500 Hz, podendo ser produzido
por bagres. Na figura 10, o tipo de som analisado neste estudo pode ser descrito como
um som curto, e de frequência multi-harmônica, com 5 linhas harmônicas, dentro de uma
banda de frequência entre 0,3 e 0,6 Hz. Este tipo de som é comumente encontrado em
numerosos bagres (Siluriformes), emitindo sons através de mecanismos estridulatórios
ou musculo sonoro. Os sons estridulatórios são não harmônicos com uma ampla gama
de frequências, desde menos de 100 Hz até mais de 8000 Hz (TAVOLGA, 1971).
Na segunda classe, a produção sonora resulta da vibração rítmica da bexiga natatória
por deformação de sua parede sob a ação dos chamados “músculos tamboriladores”
(DEMSKI et al., 1973; LOESSER et al., 1997). Esses músculos produzem sons característicos
reconhecíveis por sua estrutura harmônica porque possuem frequências fundamentais,
geralmente de 50 a 300 Hz dependendo da espécie em que são encontrados. Estes
valores foram similares ao encontrados no presente trabalho.
Figura 10: Tipo de som característico de peixes detectado na região da foz do são
Francisco.

206

Figura 11: Espectrograma de frequência de sons gravados no SounsTrap e analisados no
programa Audacity. Região de Piranhas e Piaçabuçu respectivamente.

207

CONCLUSÃO
Durante a V Expedição Cientifica no baixo São Francisco e com a utilização da
metodologia de deriva, foi possível obter registros acústicos inéditos como sons de
alimentação, agregação de peixes e produção de sons da pirambeba (S. brandtii). Além
de detectar uma maior ocorrência de bombas para captação de agua.
REFERENCIAS
BORIE-MOJICA 2019. Avaliação da paisagem acústica do baixo rio São Francisco. Em:
O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS 398 p. Edufal,
Maceió, AL.
BORIE-MOJICA 2022. Monitoramento Acústico Passivo (MAP) do rio são Francisco. Em:
O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS v.2, 492 p.
Edufal, Maceió, AL.
GANNON, Damon P. Passive acoustic techniques in fisheries science: a review and
prospectus. Transactions of the American Fisheries Society, v. 137, n. 2, p. 638-656, 2008.
HARRIS, Sydney A.; RADFORD, Craig A. Marine soundscape ecology. In: INTER-NOISE
and NOISE-CON Congress and Conference Proceedings. Institute of Noise Control
Engineering, 2014. p. 5003-5011.
LUCZKOVICH, Joseph J.; MANN, David A.; ROUNTREE, Rodney A. Passive acoustics as
a tool in fisheries science. Transactions of the American Fisheries Society, v. 137, n. 2, p.
533-541, 2008.
RAICK, Xavier et al. Use of bioacoustics in species identification: Piranhas from genus
Pygocentrus (Teleostei: Serrasalmidae) as a case study. PLoS One, v. 15, n. 10, p. e0241316,
2020.
RAICK, Xavier et al. Yellow‐eyed piranhas produce louder sounds than red‐eyed piranhas
in an invasive population of Serrasalmus marginatus. Journal of Fish Biology, v. 97, n. 6,
p. 1676-1680, 2020.
ROUNTREE, Rodney A. et al. Listening to fish: applications of passive acoustics to fisheries
science. Fisheries, v. 31, n. 9, p. 433-446, 2006.
ROUNTREE, Rodney A.; JUANES, Francis. Potential for use of passive acoustic monitoring
of piranhas in the Pacaya–Samiria National Reserve in Peru. Freshwater Biology, v. 65, n.
1, p. 55-65, 2020.
WRIGHTSON, Kendall. An introduction to acoustic ecology. Soundscape: The journal of
acoustic ecology, v. 1, n. 1, p. 10-13, 2000.
TAVOLGA, W.N., 1962. Mechanisms of the sound production in Ariid catfishes Galeichthys
and Bagre. Bulletin of the American Museum of Natural History, 124: 1-30

208

SOLOS, MANGUEZAIS E ECOLOGIA

209

13. ESTUDOS DOS SOLOS DAS CIDADES RIBEIRINHAS
Área de conhecimento: Química dos Solos.
Tatiane Luciano Balliano 49
Douglas Damião50
RESUMO
A região do Baixo São Francisco (BSF) apresenta planaltos, depressões, baixadas,
várzeas, dunas, restingas, mangues, florestas e caatingas, sendo reconhecidas sete
unidades de paisagem ali ocorrendo: Depressão Sertaneja, Bacia Sedimentar, Planalto
da Borborema, Superfícies Dissecadas Diversas, Superfícies Retrabalhadas, Tabuleiro
Costeiro e Baixada Litorânea. Com base na diversidade dos processos de gênese dos
quais derivam, os solos da região têm potencial para apresentar desde alta até baixa
fertilidade natural. Considerando que informações sobre as aptidões dos solos são
fundamentais ao desenvolvimento regional, foi realizada uma análise descritiva do perfil
de fertilidade e de solos amostrados em Piranhas-Al, Pão de Açúcar-Al, Traipu-Al, São
Brás-Al, Igreja Nova -Al, Penedo-Al e Brejo Grande-SE. Os resultados demonstram que, de
modo geral, os solos avaliados possuem baixa fertilidade, havendo locais apresentando
altas concentrações de Na e pH menor do que 8,5, indicando solos potencialmente
salino-sódicos. As possíveis alternativas de produção para a região devem incluir etapas
de correção da fertilidade do solo a fim de viabilizar o seu uso para fins agrícolas. Vale
considerar que as análises de solos variando a profundidade da coleta não resultou até o
presente momento em valores que se diferenciem dos achados até o presente, o que se
leva a compreensão de que os parâmetros de fertilidade não são afetados pela variação
de profundidade do solo. Com base nos achados, as avaliações para descrever os solos
do BSF deverão ser continuadas a fim de que se alcance a finalização das análises de
todo o material coletado.
Palavras-chaves: Solos; Baixo São Francisco; Nutrição de solos.

49
Universidade Federal de Alagoas – UFAL; Instituto de Química e Biotecnologia – IQB; E-mail: tlb@
qui.ufal.br. Laboratório de Bioprocessos, Cristalografia e Modelagem Molecular - LaBioCriMM
50
Universidade Federal de Alagoas – UFAL; Estudante do curso de Química Bacharelado; E-mail: douglas.damiao@iqb.ufal.br

210

INTRODUÇÃO
A região do Baixo São Francisco (BSF) encontra-se localizada entre as coordenadas
geográficas de 8º e 11º de latitude sul e 36º e 39º de longitude oeste, constituindo-se na
porção mais oriental da bacia, ocupando uma extensão territorial de 30.377 km2, o que
equivale a 5% de toda a área da bacia hidrográfica e à menor porção das quatro subdivisões
do curso do rio (CBHSF, 2016). O BSF inicia em Paulo Afonso-BA, e estende-se até a foz
entre Piaçabuçu-AL e Brejo Grande-SE com áreas nos estados da Bahia, Pernambuco,
Alagoas e Sergipe. No estado de Sergipe abarca quatorze munícipios: Amparo de São
Francisco, Brejo Grande, Canhoba, Cedro de São João, Ilha das Flores, Japoatã, Malhada
dos Bois, Muribeca, Neópolis, Pacatuba, Propriá, Santana do São Francisco, São Francisco
e Telha, enquanto que no estado de Alagoas engloba onze municípios: Delmiro Gouveia,
Olho D’água do Casado, Piranhas, Pão de Açúcar, Belo Monte, Traipu, São Brás, Igreja
Nova, Porto Real do Colégio, Penedo e Piaçabuçu.1,2
Em 2017 o IBGE publicou dados do censo que registrou uma população total de
281.762 habitantes nas cidades ribeirinhas de Alagoas, onde predominam as atividades
de pesca, agricultura e pequenos comércios locais. O mesmo ocorre para as cidades
da margem sergipana que compõem o Baixo São Francisco1,2. Para o desenvolvimento
da região é importante que se conheça a “saúde” do Rio São Francisco, bem como, a
fertilidade e manejo do solo ao longo de suas margens, assim como a aptidão de tais áreas
para a agricultura. Este trabalho tem como objetivo, portanto, descrever características
físico-químicas de solos em diferentes localidades ao longo do Baixo Rio São Francisco,
considerando amostras coletadas em diferentes horizontes., São reportados dados
de fertilidade com base em análise de Macro e Micronutrientes de interesse agrícola e
análises de granulometria do solo.
Os Tipos de Solo
De acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos da Embrapa, 20183,
solos podem ser definidos como “uma coleção de corpos naturais, constituídos por partes
sólidas, líquidas e gasosas, tridimensionais, dinâmicos, formados por materiais minerais e
orgânicos que ocupam a maior parte do manto superficial das extensões continentais do
nosso planeta, contêm matéria viva e podem ser vegetados na natureza onde ocorrem e,
eventualmente, terem sido modificados por interferências antrópicas”.
O BSF apresenta uma diversidade muito grande do seu quadro natural. Compreende
paisagens com planaltos, depressões, baixadas, várzeas, dunas, restingas, mangues;
florestas, caatingas; solos de alta e baixa fertilidade natural, profundos, rasos; relevo
plano, pouco movimentado e movimentado; clima quente e úmido, quente e seco. Com
efeito, podem ser observadas seis grandes Unidades de paisagem, à saber: Depressão
Sertaneja, Bacia Sedimentar, Planalto da Borborema, Superfícies Dissecadas Diversas,
Superfícies Retrabalhadas, Tabuleiro Costeiro e Baixada Litorânea (EMBRAPA,2000)
Na natureza ocorrem muitos tipos de solos. Considerando um conjunto de variáveis
que interferem em sua constituição, as possibilidades de uso são intrinsecamente
dependentes de características dos solos, tais como, material de origem, clima, relevo,
organismos vivos e tempo cronológico. Além disso, os solos apresentam camadas que se
formam pela ação conjunta de processos físicos, biológicos e químicos, diferenciando-se
uns dos outros por apresentarem colorações, texturas e teores de argilas diferenciadas.
Tais camadas são denominadas de “horizontes”. De acordo com as propriedades
resultantes do processo de gênese do solo, na região deste estudo os solos podem ser
classificados conforme apresentação da tabela 1.

211

Tabela 1: Classificação dos solos presentes na região do baixo rio São Francisco, de
acordo com propriedades resultantes do processo de gênese.

212

As unidades da paisagem e os solos típicos do BSF
Depressão Sertaneja
Abrange sertão alagoano, sertão sergipano e centro norte baiano com características
de NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado rochosa
suave ondulado e ondulado + PLANOSSOLO HÁPLICO Eutrófico solódico arenosa/média,
arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco e A moderado suave ondulado + PLANOSSOLO
NÁTRICO Órtico típico arenosa/média, arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco e A
moderado suave ondulado.
PLANOSSOLO HÁPLICO Eutrófico solódico arenosa/média, arenosa/argilosa e
média/argilosa A fraco plano e suave ondulado + NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico
arenosa e média A fraco pedregosa suave ondulado + PLANOSSOLO NÁTRICO Órtico
típico arenosa/média, arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco plano e suave ondulado.
NEOSSOLO REGOLÍTICO Distrófico fragipânico arenosa cascalhenta A fraco plano e
suave ondulado + NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico arenosa e média A fraco rochosa
suave ondulado e ondulado + PLANOSSOLO NÁTRICO Órtico típico arenosa/média e
arenosa/argilosa A fraco plano e suave ondulado.
LUVISSOLO CRÔMICO Órtico vertissólico média/argilosa A fraco pedregosa
suave ondulado e plano + NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico arenosa e média A
fraco pedregosa suave ondulado + PLANOSSOLO HÁPLICO Eutrófico solódico arenosa/
média, arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco plano e suave ondulado.
Tabuleiros Costeiros
ARGISSOLO VERMELHO-AMARELO Eutrófico típico média/argilosa A moderado
suave ondulado e ondulado + NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico média A moderado
suave ondulado e ondulado.
LATOSSOLO VERMELHO-AMARELO Eutrófico típico média A moderado e A fraco
plano e suave ondulado + ARGISSOLO VERMELHO-AMARELO Eutrófico latossólico
média A fraco plano e suave ondulado + LATOSSOLO VERMELHO Eutrófico típico média
A moderado e A fraco plano e suave ondulado.
LATOSSOLO AMARELO Distrófico típico média A moderado plano e suave ondulado
+ ARGISSOLO AMARELO Distrófico típico arenosa/média e média/argilosa A moderado
e A proeminente plano e suave ondulado + PLANOSSOLO HÁPLICO Eutrófico solódico
arenosa/média, arenosa/argilosa e média/argilosa A moderado plano e suave ondulado
PLINTOSSOLO PÉTRICO Concrecionário argissólico média muito cascalhenta/
argilosa muito cascalhenta A moderado ondulado e suave ondulado +S ARGISSOLO
VERMELHO-AMARELO Distrófico típico média/argilosa A moderado e A proeminente
ondulado e suave ondulado + PLANOSSOLO HÁPLICO Eutrófico solódico arenosa/
média, arenosa/argilosa e média/argilosa A moderado suave ondulado
ARGISSOLO AMARELO Distrocoeso fragipânico arenosa/média A fraco álico plano
+ ESPODOSSOLO FERRI-HUMILÚVICO Órtico típico arenosa A fraco e A moderado
plano.
GLEISSOLO HÁPLICO Tb Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano + GLEISSOLO HÁPLICO Ta Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano + GLEISSOLO HÁPLICO Ta Distrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano ESPODOSSOLO FERRI-HUMILÚVICO Órtico dúrico arenosa e média A moderado
plano + ARGISSOLO AMARELO Distrófico fragipânico média/argilosa A moderado plano
+ ARGISSOLO ACINZENTADO Distrófico típico arenosa/média A moderado plano

213

Planalto da Borborema
O sul de Alagoas pertence a esta região e apresenta ARGISSOLO VERMELHOAMARELO Eutrófico típico e chernossólico média/argilosa A moderado e A chernozêmico
forte ondulado e ondulado + NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico arenosa e média A
moderado rochosa forte ondulado e montanhoso + NEOSSOLO LITÓLICO Chernossólico
típico arenosa e média A chernozêmico rochosa forte ondulado e montanhoso
CAMBISSOLO HÁPLICO Tb Eutrófico latossólico média A moderado e A
chernozêmico forte ondulado e ondulado + ARGISSOLO VERMELHO-AMARELO Eutrófico
típico e chernossólico média/argilosa A moderado e A chernozêmico forte ondulado e
ondulado + NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico média A moderado forte ondulado
e montanhoso + NEOSSOLO LITÓLICO Chernossólico típico média A chernozêmico
rochosa forte ondulado e montanhoso
NEOSSOLO REGOLÍTICO Eutrófico fragipânico e típico arenosa cascalhenta e
arenosa A fraco plano e suave ondulado + NEOSSOLO REGOLÍTICO Distrófico fragipânico
e típico arenosa A fraco plano e suave ondulado + NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico
arenosa e média A fraco rochosa suave ondulado
Superfícies Dissecadas Diversas
Ocorre nos sertões das Alagoas e de Sergipe, NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico
típico arenosa e média A fraco e A moderado rochosa ondulado e forte ondulado +
LUVISSOLO CRÔMICO Órtico vertissólico e típico média/argilosa A fraco e A moderado
suave ondulado e ondulado + PLANOSSOLO HÁPLICO Eutrófico solódico arenosa/média,
arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco e A moderado suave ondulado e ondulado
PLANOSSOLO HÁPLICO Eutrófico solódico arenosa/média, arenosa/argilosa e média/
argilosa A fraco e A moderado plano e suave ondulado + NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico
típico e fragmentário arenosa e média A fraco e A moderado não álico plano e suave
ondulado
LUVISSOLO CRÔMICO Órtico vertissólico média/argilosa A fraco e A moderado
suave ondulado + NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A
moderado rochosa suave ondulado e ondulado + PLANOSSOLO HÁPLICO Eutrófico
solódico arenosa/média, arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco e A moderado plano
e suave ondulado
Superfícies Retrabalhadas
Ocorre nos litorais de Alagoas e Pernambuco, LUVISSOLO CRÔMICO Órtico
típico média/argilosa A fraco e A moderado pedregosa ondulado e forte ondulado +
NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado pedregosa
forte ondulado e ondulado + ARGISSOLO VERMELHO-AMARELO Eutrófico típico média/
argilosa A fraco e A moderado ondulado
PLINTOSSOLO PÉTRICO Concrecionário argissólico média muito cascalhenta/
argilosa muito cascalhenta A moderado ondulado e suave ondulado + ARGISSOLO
VERMELHO-AMARELO Distrófico típico média/argilosa A moderado e A proeminente
ondulado e suave ondulado + PLANOSSOLO HÁPLICO Eutrófico solódico arenosa/
média, arenosa/argilosa e média/argilosa A moderado suave ondulado
ARGISSOLO VERMELHO-AMARELO Eutrófico saprolítico e abrúptico arenosa/
média, arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco e A moderado suave ondulado +
NEOSSOLO LITÓLICO Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado pedregosa
suave ondulado e ondulado + PLANOSSOLO HÁPLICO Eutrófico solódico arenosa/
média, arenosa/argilosa e média/argilosa A fraco suave ondulado e plano

214

LATOSSOLO AMARELO Distrófico típico média A moderado plano e suave
ondulado + NEOSSOLO QUARTZARÊNICO Órtico típico arenosa A fraco e A moderado
plano e ondulado.
GLEISSOLO HÁPLICO Ta Distrófico típico argilosa A moderado plano + GLEISSOLO
MELÂNICO Ta Distrófico típico argilosa A húmico plano + NEOSSOLO FLÚVICO Ta
Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado plano suave ondulado.
NEOSSOLO FLÚVICO Ta Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado
plano + NEOSSOLO FLÚVICO Tb Eutrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado
plano + GLEISSOLO HÁPLICO Ta Eutrófico típico média e argilosa A fraco e A moderado
plano.
Bacias Sedimentares
NEOSSOLO QUARTZARÊNICO Órtico típico arenosa A fraco e A moderado plano
e suave ondulado
NEOSSOLO LITÓLICO Distrófico típico arenosa e média A fraco e A moderado
forte ondulado e montanhoso + AFLORAMENTOS DE ROCHAS.
Baixada Litorânea
NEOSSOLO QUARTZARÊNICO Órtico típico arenosa A fraco e A moderado
suave ondulado + ESPODOSSOLO FERRI-HUMILÚVICO Órtico típico arenosa A fraco, A
moderado e A proeminente plano e suave ondulado
NEOSSOLO FLÚVICO Tb Distrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano + NEOSSOLO FLÚVICO Ta Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano + GLEISSOLO HÁPLICO Ta Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano
GLEISSOLO HÁPLICO Tb Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano + GLEISSOLO HÁPLICO Ta Eutrófico típico indiscriminada A fraco e A moderado
plano + GLEISSOLO HÁPLICO Ta Distrófico típ
O mapa apresentado na Figura 1 demonstra a distribuição espacial dos tipos de solo
ao longo da região do baixo rio São Francisco e das cidades visitadas pela expedição.
Figura 1: Mapa das cidades que compõe o trajeto da Expedição Científica do Baixo São
Francisco

215

É importante considerar que há uma variedade de classes de solos, mesmo dentro
de uma mesma unidade de paisagem, resultado da variação do material de origem
(rochas) e relevo, principalmente. Deste modo, serão reportados aqui, de forma preliminar,
aspectos da fertilidade e características químicas dos solos que compõem a região do
BSF.
Desenvolvimento (Metodologia e Resultados)
Foram feitas as coletas de cem (100) amostras de solos, obtidas a partir de um
transecto traçado num percurso reto de 20 metros, onde foram retiradas amostras
de solos em profundidade de 20 cm, 40 cm, 60 cm 80 cm e 100 cm de 4 buracos
espaçados de 5 metros ao longo do transecto. Das amostras coletadas foram realizadas
análises químicas de solo, considerando cinco (5) cidades diferentes, com o objetivo
de aprofundar o conhecimento sobre a composição química relacionada à fertilidade
dos solos e verificar se em termos de profundidade se observaria algo inesperado. Para
tanto, realizaram-se análises qualitativas e quantitativas dos elementos de interesse,
considerando valores médios para os quatro pontos de cada transecção. As análises de
fertilidade consideraram a utilização dos solos a princípio para fins agrícolas.
As avaliações relacionadas à fertilidade dos solos amostrados foram realizadas no
laboratório de solo, água e planta do centro de ciências agrárias da Universidade Federal
de Alagoas, em Maceió. A avaliação do potencial hidrogeniônico dos solos foi feita por
meio de eletrodo combinado imerso em suspensão solo: líquido (água, KCl ou CaCl2), na
proporção 1:2,5. Para a determinação do P foi utilizado espectrômetro de emissão ótica
com plasma indutivamente acoplado (ICP-OES). A leitura pode ser feita diretamente no
extrato obtido com a solução Mehlich-1.
A avaliação do potencial hidrogeniônico dos solos foi feita por meio de eletrodo
combinado imerso em suspensão solo:líquido (água, KCl ou CaCl2), na proporção 1:2,5.
Para a determinação do P foi utilizado espectrômetro de emissão ótica com plasma
indutivamente acoplado (ICP-OES). A leitura pode ser feita diretamente no extrato
obtido com a solução Mehlich-1.
Al3+, Ca2+ e Mg2+ - cátions trocáveis – para avaliação de cátions trocáveis utilizouse uma solução extratora, com o método do KCl 1 mol L-1. Esses cátions adsorvidos
foram então analisados por métodos volumétricos, de emissão ou absorção atômica.
Para determinação do alumínio trocável, foi realizada a extração com solução KCl 1 mol
L-1 e determinação volumétrica com solução diluída de NaOH.
Cálcio + magnésio trocáveis – ambos determinados por complexometria. Extração
com solução de KCl 1 mol L-1 e determinação complexométrica em presença dos
indicadores negro de eriocromo e murexida ou calcon.
Potássio e sódio trocáveis estimados pelo Princípio Extração com solução Mehlich-1 e
posterior determinação por espectrofotometria de chama.
Além destas análises ainda encontra-se em andamento experimentos de
granulometria do solo e de difração e emissão de raios X que são fundamentais para
concluir um diagnóstico do perfil mineralógico dos solos dessa região. Análises de
microscopia com polarizadores também serão conduzidas para melhor verificação
morfológica associada à mineralogia do solo.
A análise granulométrica pretende quantificar a distribuição por tamanho das
partículas individuais de minerais do solo que são os grãos de minerais individualizados,
fragmentos de rocha não alterada ou parcialmente alterada (podendo conter mais de um
mineral), concreções, nódulos e materiais similares cimentados, conforme definidos pelo
Vocabulário de Ciência do Solo (materiais que não podem ser desagregados senão por
aplicação de elevada energia, como pancada com martelo). O procedimento operacional
visa a ruptura dos agregados do solo e a individualização dessas partículas, por meio de
uma combinação de energia mecânica e química, com a formação de uma suspensão

216

estabilizada, e a quantificação após a separação das frações.
Os resultados da análise química demonstraram baixas quantidades de matéria
orgânica, se comparadas as de solos considerados férteis com relação a este parâmetro,
inclusive se for comparada a análises de anos anteriores que mesmo sendo baixa ainda
se mostrava mais alto que esses valores atuais (Figura 2.).
Figura 2:. Percentual de matéria orgânica presente nas amostras de solo de cada cidade

A figura 3 apresenta as medidas de pH para o solo de todas as cidades mostrando
que em vários locais seria recomendado abordagens de correção de acidez para então
possibilitar atividades agricultáveis. Nos resultados obtidos os valores de pH situaramse no intervalo de 4,54 – 6,68 e é importante considerar que em torno de 5 pode haver
presença de alumínio trocável e o pH em torno de 7 sugere a presença de calcário.5
Figura 3: Potencial hidrogeniônico(pH) das amostras coletadas em cada cidade

217

Embora os estudos de granulometria não tenham sido finalizados, alguns resultados
podem ser observados conforme o quadro na figura 6. Apenas duas cidades foram
analisadas do ponto de vista de granulometria, e deu-se início prioritariamente às cidades
de Pão de Açúcar e Piranhas pelo fato de que estudos anteriores realizados por este
mesmo grupo, já mostrou que estas duas cidades apresentam perfis mineralógicos que
merecem atenção pela presença de maior concentração de fósforo e consequentemente
de uns blends minerais, além de alta concentração de silicatos de altíssimo nível de
pureza. No entanto, a figura 5 traz informações que mostram que a profundidade de
coleta é irrelevante para essa informação o que induz ao pensamento de que a presença
de minerais também não se apresente com tantas variações no que diz respeito à
profundidade de coleta.
Figura 5: Estudo de granulometria dos solos coletados

218

CONCLUSÕES
De modo geral, pode-se afirmar que os solos estudados possuem baixa fertilidade,
havendo locais que apresentaram altas concentrações de Na juntamente com pH menor
do que 8,5, o que é um indicador de solos salino-sódicos, de acordo com os preceitos
de interpretação de resultados de análises de solos4. Sob o ponto de vista da utilização
dessas áreas para finalidade agrícola, haveria necessidade de ações prévias para a
correção de aspectos ligados à fertilidade dos solos, tais como o pH e a concentração
de macro e micronutrientes interessantes à nutrição de plantas. A adoção de ações
prévias de correção da fertilidade do solo seria condição necessária ao desenvolvimento
de atividades agrícolas ordinárias, rentáveis, nesta região. Dada a grande variação dos
resultados observados até o presente momento, as avaliações para descrever os solos
do BSF deverão ser continuadas a fim de que se alcance um esforço amostral mais
representativo para toda a região do BSF.
É importante considerar ainda que todas as observações são realizadas com base
apenas em cinco cidades que de todas que foram visitadas foram as que possibilitaram
as coletas de solo considerando a profundidade, ou seja, junto a todas essas observações
faz-se necessário pontuar que no baixo são Francisco em algumas cidades há problemas
de fertilidade por solos rasos o que impossibilita o cultivo de algumas culturas agrícolas
sendo necessário um planejamento adequado para a agricultura de cada cidade.
Outro ponto a ser considerado é que quase todos os parâmetros que são monitorados
anualmente apresentaram valores alterados no que diz respeito à viabilidade nutricional
se apresentando de forma a dificultar as atividades de agricultura. Parâmetros como
teor de matéria orgânica se apresentou em menor quantidade, também o pH do solo em
algumas regiões chegou atingir valores abaixo de 5, implicando em uma elevada acidez
e necessidade de correção. Contudo, recomenda-se o contínuo monitoramento caso haja
interesse na manutenção da saúde destes solos.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos ao laboratório de solos, água e plantas da Universidade Federal de
Alagoas e à Fapeal por custear as bolsas dos estudantes de iniciação científica dos nosso
laboratórios.
REFERÊNCIAS
Plano de desenvolvimento do território do Baixo São Francisco. Disponível
em:
<https://www.se.gov.br/uploads/download/filename_novo/1280/
cd568a56b5c7dbd802e2b0164ee3c887.pdf>. Acesso em: 10 de junho de 2023.
Rio São Francisco em Alagoas. Disponível em: <https://dados.al.gov.br/catalogo/ne/
dataset/rio-sao-francisco-em-alagoas>. Acesso em: 10 de junho de 2023.
Humberto Gonçalves dos Santos et al. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos.
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Embrapa Solos. 5ª ed. 2018. Brasília, Distrito
Federal.
Sobral, L. F. Barreto M. C. V. Silva, A. J. Anjos, J.L. Guia prático para interpretação de
resultados de análises de solos – Aracaju : Embrapa Tabuleiros Costeiros, 2015. 13 p.
(Documentos / Embrapa Tabuleiros Costeiros, ISSN 1678-1953; 206). Disponível em:
https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1042994/1/Doc206.
pdf, Acesso em: 10 de junho de 2023.

219

Aspectos Ambientais Acesso em: Disponível em: <https://www.agencia.cnptia.embrapa.
br/gestor/territorio_sisal/arvore/CONT000fckg3dhc02wx5eo0a2ndxyp2o8858.html>.
Acesso em: 10 de junho de 2023.
Introdução à Fertilidade do Solo. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/
bitstream/CPATSA/35800/1/OPB1291.pdf Acesso em: 10 de junho de 2023.
ANEXOS

220

221

222

14. FRAGILIDADE AMBIENTAL DAS ÁREAS CILIARES DO RIO
SÃO FRANCISCO: UM DIAGNÓSTICO ECODINÂMICO E DOS
REMANESCENTES FLORESTAIS
Área de Conhecimento: Geoprocessamento e Mata Ciliar
Nadjacleia Vilar Almeida51;
Milena Dutra da Silva52;
Jessyca Janyny Maia53;
David Luiz Santos54;
Rafaella Silva Leal55;
João Thiago Farias56;
José Vieira Silva57
RESUMO
A partir da análise integrada da vulnerabilidade geológica, geomorfológica,
pedológica, da pluviosidade, da cobertura vegetal e do uso e ocupação da terra é
possível determinar a intensidade da fragilidade ambiental. Na V Expedição Científica
do São Francisco, foram adotados métodos e técnicas em geoprocessamento, botânica
e de estudos diagnósticos para o planejamento ambiental, objetivando determinar a
intensidade da fragilidade ambiental das áreas ciliares do rio São Francisco e de seus
afluentes, estabelecidos entre Piranhas e Piaçabuçu. As análises apontam o predomínio
das classes de fragilidade ambiental moderada e forte, sobretudo na foz dos afluentes,
dificultando o abastecimento hídrico adequado do rio São Francisco. As áreas ciliares
são escassas quanto a mata ciliar; os remanescentes encontrados sugerem um quadro de
perturbação ambiental. Recomenda-se a ação coordenada de planejamento ambiental
para as áreas ciliares do rio São Francisco e de seus afluentes, com fins de impedir que a
fragilidade ambiental atinja níveis ainda mais severos e irreversíveis.
Palavras-chave: vulnerabilidade
ambientais; Baixo São Francisco.

ambiental;

assoreamento;

mata

ciliar;

impactos

51
Professora Associada da UFPB, Campus CCAE/Departamento de Engenharia e Meio Ambiente; Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento - LCG. E-mail: nadja.almeida@academico.ufpb.br;
52
Professora Adjunta da UFPB, Campus CCAE/Departamento de Engenharia e Meio Ambiente, Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento - LCG;
53
Estudante de Ecologia/DEMA/CCAE/UFPB e bolsista PIBIC/UFPB, Laboratório de Cartografia e
Geoprocessamento - LCG;
54
Estudante de Ecologia/DEMA/CCAE/UFPB e bolsista PIBIC/UFPB, Laboratório de Cartografia e
Geoprocessamento - LCG;
55
Servidora técnica de geoprocessamento, Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento - LCG/
DEMA/CCAE/UFPB;
56
Servidor técnico de topografia, CODEVASF;
57
Professor Associado da UFAL, Campus Arapiraca.

223

INTRODUÇÃO
A paisagem é formada por um conjunto de elementos naturais e humanos que
estão interconectados e são interdependentes, promovendo uma constante troca de
energia e matéria entre eles. Nessa paisagem, os humanos participam ativamente da
sua reconfiguração, como consequência do uso e/ou exploração dos recursos naturais.
Nessa perspectiva a paisagem assume uma conotação holística e sistêmica (ALMEIDA,
2012).
Analisar as relações entre a resistência natural dos ambientes e a intensidade das
alterações provocadas pelo homem é um percurso viável para compreender, de forma
integrada, a funcionalidade dos sistemas ambientais e o seu status (ALMEIDA, 2012;
ALMEIDA et al. 2018). Nessa perspectiva, a teoria da ecodinâmica proposta por Jean
Tricart (1977), traz valiosas contribuições para determinação de unidades ecodinâmicas,
identificando e ressaltando as vulnerabilidades diante das intervenções humanas
no ambiente. Baseia-se, principalmente, na morfodinâmica (relação pedogênese
e morfogênese), que é influenciada por características do clima, da topografia, do
material rochoso, da cobertura vegetal e uso da terra. A partir das formulações teóricometodológicas elaboradas por Tricart (1977) e aplicadas por vários autores como Crepani
et al (2001), Ross (1994), Almeida (2012) e Almeida et al. (2018) é possível analisar, de
modo integrado, o nível de vulnerabilidade aos processos erosivos dos ambientes naturais
e/ou a fragilidade ambiental.
Ross (1994) estabeleceu parâmetros metodológicos para a análise empírica da
fragilidade dos ambientes naturais e antropizados. Dentro dessa análise, foi incluída uma
classificação dos graus de instabilidade das unidades ecodinâmicas, que variam desde
uma instabilidade muito forte até muito fraca. Essa abordagem também foi estendida
para incluir unidades ecodinâmicas de instabilidade potencial, com o intuito de prever
a capacidade de suporte do ambiente considerando suas características naturais
(Declividade, Pedologia) e possíveis ações humanas (Uso e Ocupação do solo).
A fragilidade potencial caracteriza-se por ser natural do ambiente, representada
nesse relatório pelas características naturais dos geocomponentes Geologia,
Geomorfologia, Pedologia, Pluviosidade e Cobertura Vegetal e, a fragilidade emergente
consiste no resultado da relação entre as características naturais e as formas de uso e
ocupação da terra. A análise integrada da fragilidade potencial e emergente resulta na
fragilidade ambiental das áreas ciliares do baixo rio São Francisco.
Considerando os conflitos socioambientais que ocorrem nas áreas ciliares do
Rio São Francisco e seus afluentes (SILVA et al., 2022), e que o uso e/ou exploração
indiscriminada dos recursos naturais aumentam a fragilidade dos ambientes, causando
danos aos ecossistemas que podem ser irreversíveis, desponta a necessidade de
diagnosticar a fragilidade ambiental nessas áreas.
O rio São Francisco é o terceiro maior rio do Brasil e é considerado um dos mais
importantes do Nordeste pela sua extensão e importância para o desenvolvimento de
diversas atividades socioeconômicas como: agricultura irrigada, geração de energia,
pecuária, indústria extrativista e de transformação, mineração, pesca e aquicultura, entre
outras atividades (CBHSF, 2016). A região do Baixo São Francisco é considerada umas
das regiões mais conflitantes do Nordeste, com diversos conflitos de uso do recurso
hídrico e do solo, impactos ambientais diversos e os piores indicadores socioeconômicos
da bacia do rio São Francisco (SOARES et al., 2020).
Assim, diante da problemática apresentada, o objetivo deste relatório foi identificar,
a partir das características ecodinâmicas da geologia, geomorfologia, pedologia,
pluviosidade e cobertura e uso da terra, a fragilidade ambiental das áreas ciliares do rio
São Francisco e de alguns dos seus principais afluentes, no baixo curso.

224

METODOLOGIA
A área de estudo corresponde às áreas ciliares do rio São Francisco na Bacia
Hidrográfica do Baixo São Francisco (BHBSF), a jusante da barragem hidrelétrica de Xingó
até a foz do rio (Figura 1). Foram considerados, também, as áreas ciliares dos afluentes
do rio São Francisco, selecionados pela relevância para compreensão de fenômenos e
processos locais e em correspondência às campanhas da V Expedição Científica do São
Francisco, a saber: em Alagoas, o rio Boa Vista (município de Piranhas), rio Tapuio (Pão
de Açúcar), rio Traipu (Traipu), rio Poção (São Brás), rio Boacica (Igreja Nova), e rio
Perucaba (Penedo); e em Sergipe, o riacho Jacaré (Telha).
Para fins de análise ambiental das áreas ciliares foram considerados perímetros
distando 500 m, 1.000 m e 1.500 m a partir da margem dos rios. Para obtenção de
dados ambientais em campo e análise da vegetação remanescente, foram selecionadas
áreas com matas circunscritas nos perímetros citados, nas quais foram estabelecidas as
unidades amostrais ciliares: T1- no rio Boa Vista; T2- rio Tapuio; T3 - rio Traipu; T4 - rio
Poção; T5 - riacho Jacaré; T6- rio Boacica; e T7 - rio Perucaba (Figura 1).
Figura 1: Áreas ciliares na Bacia Hidrográfica do Baixo São Francisco e localização das
unidades amostrais para dados coletados em campo. T1- no rio Boa Vista; T2- rio Tapuio;
T3 - rio Traipu; T4 - rio Poção; T5 - riacho Jacaré; T6- rio Boacica; e T7 - rio Perucaba.

Com fins de diagnose ecodinâmica (fragilidade ambiental potencial) foram
realizados mapeamentos temáticos referentes aos componentes geoambientais
(Geomorfologia, Pluviosidade e Uso e Cobertura da terra) na BHBSF, fundamentados
em dados e documentos oficiais disponibilizados pelo INDE (Infraestrutura Nacional
de Dados Espaciais, Governo Federal do Brasil) e do Banco de Dados de Informações

225

Ambientais (BDIA). A partir de então, as categorias mapeadas foram classificadas quanto
a vulnerabilidade ambiental (categoria ecodinâmica), seguindo a metodologia proposta
por Tricart (1977) e adaptada por Crepani et al (2001), Almeida (2012) e Almeida et al.
(2018) (Tabela 1).
Tabela 1:
Classificação para avaliação da fragilidade ambiental das categorias
ecodinâmicas.

A escala de valores de vulnerabilidade e a classificação da categoria ecodinâmica
foi aplicada para cada componente geoambiental, conforme fluxo processual adaptado
de Almeida (2012) (Figura 2).
Figura 2: Etapas metodológicas para determinação da vulnerabilidade ambiental. Fonte:
Adaptado de Almeida (2012).

226

As características geomorfológicas foram extraídas e analisadas a partir de imagens
de radar (SRTM – Shuttle Radar Topography Mission58), disponibilizadas pelo TOPODATA
59
e USGS Earth Explorer (U.S. Geological Survey) , para obtenção de dados de amplitude
altimétrica, declividade e densidade de drenagem. A definição das classes de densidade
de drenagem foram realizadas segundo a classificação de Florenzano (2008) e os valores
de vulnerabilidade de acordo com Crepani et al (2001).
A partir dos valores de vulnerabilidade de cada componente geomorfológico
(amplitude altimétrica, declividade e densidade de drenagem) foi efetuado um
conjunto de técnicas de geoestatísticas e de geoprocessamento para determinação da
vulnerabilidade geomorfológica, utilizado a equação proposta por Crepani et al (2001)
(Equação 1).
R=G+A+D/3

(equação 1)

Onde: R = Vulnerabilidade para o tema Geomorfologia; G = Vulnerabilidade
atribuída ao Grau de Dissecação (densidade de drenagem), A = Vulnerabilidade atribuída
à Amplitude Altimétrica; e, D = Vulnerabilidade atribuída à Declividade.
Para elaboração do mapa pedológico, os dados foram adquiridos através do Banco
de Dados de Informações Ambientais (BDIA). A vulnerabilidade pedológica foi atribuída
conforme Crepani et al (2001), Almeida (2012) e Almeida et al (2018).
Para elaboração do mapa de intensidade pluviométrica foram considerados os
dados do Instituto Nacional de Meteorologia do Brasil (INMET), de postos pluviométricos
dentro e no entorno da BHBSF. A intensidade pluviométrica foi calculada a partir da média
anual de pluviosidade dividida pelo número de meses chuvosos (número de meses com
pluviosidade acima da média). Em seguida, os dados pluviométricos foram submetidos
a interpolação krigagem, conforme Silva (2011); os valores de intensidade pluviométrica
distribuídos pela área de estudo foram classificados quanto à vulnerabilidade, de acordo
com Crepani et al (2001).
Para análise ecodinâmica a partir do mapeamento de uso e ocupação da terra
na BHBSF, bem como da cobertura vegetal, foram utilizados os dados do MapBiomas,
Coleção 7.1, obtidos a partir de imagens do satélite Landsat, correspondentes ao ano de
2021 (Projeto MapBiomas, 2022).
Seguindo os procedimento descritos por Almeida et al (2018), a partir dos valores
de vulnerabilidade para cada componente geoambiental, as cartas foram integradas,
recebendo um valor final, resultante da média aritmética dos valores individuais segundo
uma equação matemática (Equação 2), que busca representar a posição desta unidade
dentro da escala de vulnerabilidade natural à perda de solo. O resultado da integração
reflete o grau de vulnerabilidade e a fragilidade ambiental da BHBSF.
FAmb=G+Gm+P+IP+CS/5

(equação 2)

Onde: FAmb= Fragilidade Ambiental; G= Geologia; Gm= Geomorfologia; P=
Pedologia; IP= Intensidade Pluviométrica; e CS= Cobertura Vegetal e Uso da terra.
As operações de reclassificação e integração foram realizadas utilizando o recurso
de análise espacial e foi dividida em três etapas: 1- Operação de ponderação para geração
do raster com os valores de vulnerabilidade natural à perda de solo para cada classe dos
componentes geoambientais; 2- Operação de média aritmética para gerar outro raster
que contenha os valores médios de fragilidade potencial e emergente; e 3- Operação
de simbolização, para geração do mapa temático de fragilidade ambiental da BHRSF
expressa em categorias morfodinâmicas.
58
59

http://www.dsr.inpe.br/topodata/
EarthExplorer (usgs.gov)

227

Em campo foram efetuados levantamentos para confirmação de mapeamento de rios
e riachos e obtenção de dados de uso e ocupação das terras (Figura 3), conforme
categorias de análise para o planejamento ambiental de Santos (2004).
Para obtenção de dados referentes às florestas ciliares remanescentes, foram
estabelecidos transectos paralelos aos cursos hídricos distando, em média, 10 metros das
margens dos rios e riachos, nas unidades amostrais T1 a T7; para essa análise excetua-se a
unidade T6, pela ausência de florestas ciliares nos perímetros estabelecidos. Os transectos
incluíam 5 pontos, distando 10 metros entre si. Nos pontos dos transectos, em um raio
de 3 metros, foram coletados os dados de ocorrência de espécies/morfotipos arbóreos,
altura das árvores e circunferência à altura do peito (CAP); e coleta de serrapilheira para
cálculo de estocagem, com uso de quadrats de 40cmX40cm. As coletas foram efetuadas
sob autorização para atividades com finalidade científica de número 85802-1, ICMBio/
MMA.
Figura 3: Levantamento de dados nas áreas ciliares de rios e riachos afluentes do Rio
São Francisco. A- entrada da equipe na mata ciliar; B- estabelecimento dos transectos
e mensuração da vegetação arbórea; C- coleta de serrapilheira; D- coleta de dados de
altitude, temperatura, umidade e luminosidade; E- preenchimento de planilha de campo;
F- sobrevoo com drone para confirmação de dados de uso e ocupação em áreas de
difícil acesso; e G- tabulação e processamento de dados na embarcação da V Expedição
Científica do São Francisco. Fonte: Acervo LCG/UFPB (2022).

Nas unidades amostrais foram coletados dados de altitude, temperatura, umidade
e luminosidade, com a utilização de termohigrômetro e luxímetro. Para uma análise
sistemática e exploratória de todos os dados obtidos em campo, foi aplicada a análise
de componentes principais (PCA), no programa RStudio com os Pacotes FactoMineR,
dplyr e ggplot2. As variáveis consideradas para a PCA foram os dados de serrapilheira
(folha, fruto, flor, caule e miscelânea- fragmentos não identificáveis), dados abióticos
(luminosidade, umidade, altitude e temperatura) e dados vegetacionais (números de
indivíduos, altura da árvore e CAP).

228

QUAL O NÍVEL DE VULNERABILIDADE DAS ÁREAS CILIARES DO RIO SÃO FRANCISCO
E SEUS AFLUENTES?
As áreas ciliares do rio São Francisco e de seus afluentes, na região do baixo curso,
apresentam fragilidade ambiental classificada como baixa, moderada e alta (Figura 4).
Ao longo do curso hídrico principal, as áreas de moderada fragilidade são predominantes
nas áreas de descarga dos afluentes e nas áreas ciliares mais próximas à foz do São
Francisco, na altura do município de Porto Real do Colégio até Piaçabuçu.
A moderada fragilidade ocorre, principalmente, em função da elevada declividade,
da alta densidade de drenagem, do material rochoso que apresenta litologias
características de elevada vulnerabilidade e, principalmente, devido a presença dos
Neossolos e as subordens Litólicos, Flúvico e Regolíticos. Os neossolos são solos pouco
desenvolvidos constituídos por material mineral ou orgânico com menos de 20 cm de
espessura, não apresentando nenhum tipo de horizonte B diagnóstico (EMBRAPA, 2018).
Predomina nas áreas ciliares do baixo São Francisco o neossolo litólico cuja o alto nível
de erodibilidade foi comprovado por Santiago et al (2016) e Thoma et al (2022).
Associada a essa configuração de fragilidade potencial está a ausência de mata
ciliar (desmatamento) e uso intenso dos recursos como os principais fatores indutores da
moderada instabilidade e, consequentemente, da alta fragilidade emergente. Resultados
semelhantes de fragilidade ambiental foram encontrados por Martins et al (2018) ao
analisar a bacia do rio Peruaçu no médio curso do rio São Francisco, os autores destacam
que ao incluir as características de uso e cobertura que representam às interferências
antrópicas, a maior parte da bacia é classificada como de fragilidade alta.
Em uma distância de até 1,5 km das margens do rio principal e de seus afluentes
(Figura 4), e/ou das nascentes dos rios e riachos, não se encontram áreas estáveis e/
ou de fragilidade muito baixa, indicando a fragilidade ambiental potencial e emergente
desses ambientes aos processos erosivos.
Destaca-se que o trecho do rio São Francisco aqui analisado abriga um histórico
de diminuição e oscilação da vazão que, de acordo com Teixeira et al. (2020), se dá em
consequência do controle de vazão, associada à hidrelétrica, e às mudanças de uso e
ocupação da terra. Nesse cenário, em que a vazão do curso principal é frequentemente
alterada, amplia-se a importância da vazão dos rios e riachos afluentes, bem como da
estabilidade ambiental de suas áreas ciliares, a fim de que o curso principal do rio São
Francisco possa ser abastecido, em contribuição às qualidades ambientais requeridas
para viabilizar o equilíbrio hidroambiental do rio.
Ao analisar a foz dos afluentes, observa-se que nessas áreas a fragilidade ambiental
é alta nos rios Boa Vista (Piranhas), Tapuio (Pão de Açúcar), rio Traipu (Traipu) e Boacica
(Igreja Nova); e moderada para a foz do rio Perucaba (Figura 4). Para Almeida (2012), as
categorias de média estabilidade e moderada instabilidade demandam especial atenção,
com fins de se evitar o desequilíbrio ambiental e conversão a um status de instabilidade
e alta fragilidade irreversível.
Figura 4: Vulnerabilidade ambiental das Áreas ciliares na Bacia Hidrográfica do Baixo
São Francisco e localização das unidades amostrais para dados coletados em campo. T1no rio Boa Vista; T2- rio Tapuio; T3 - rio Traipu; T4 - rio Poção; T5 - riacho Jacaré; T6- rio
Boacica; e T7 - rio Perucaba.

229

230

Já na foz do rio Poção (São Brás/AL) e do riacho Jacaré (Telha/SE) são encontradas
áreas de baixa fragilidade ambiental (Figura 4). O quadro é justificado por características
geomorfológicas e geológicas. No rio Poção, as características que atenuam o quadro
de fragilidade ambiental potencial são a baixa declividade e baixa amplitude, e o solo
(luvissolo); para o riacho Jacaré, a classificação está associada a baixa declividade, a
densidade de drenagem e baixa amplitude altimétrica e ao solo (luvissolo), com ênfase
nas características geomorfológicas. Ainda que a foz dos afluentes do rio Poção e do
riacho Jacaré sejam de baixa fragilidade, grande parte de seus cursos têm fragilidade
ambiental alta, o que indica a vulnerabilidade desses ambientes às mudanças no uso e
ocupação sem o devido planejamento ambiental.
O QUE INDICAM O USO E OCUPAÇÃO E OS IMPACTOS AMBIENTAIS NAS ÁREAS
CILIARES?
Analisando os dados sobre uso, ocupação e impactos ambientais registrados em
campo, observa-se que no entorno do rio Boa Vista (Piranhas) (T1) a produtividade
aparente média está associada à agricultura temporária e a pastagem nativa não
melhorada.
É evidente o risco de deslizamento, de erosão do tipo ravina (Figura 5A), erosão
na base das encostas (Figura 5B) e o consequente assoreamento do rio, com acúmulo de
sedimentos em sua calha (Figura 5C). A disponibilidade da água é baixa, aparentemente
imprópria para o uso humano. A intensidade média do uso da terra é comprovada pelo
registro de evidências de queimada, extração de areia e presença do gado bovino (Figura
5D).
Figura 5: Rio Boa Vista, afluente do rio São Francisco, em Piranhas/Alagoas. A- erosão do
tipo ravina; B- erosão na base das encostas; C- assoreamento, com depósito de sedimento
na calha do rio; D- pisoteio de gado bovino na calha do rio. Fonte: Acervo LCG, novembro
de 2022.

231

No entorno da unidade amostral do rio Tapuio (Pão de Açúcar) (T2), a produtividade
aparente e intensidade de uso média está associada à pastagem nativa, não melhorada, e
a abertura de clareira. Foram registrados processos erosivos em diferentes níveis (laminar,
ravina, voçoroca, assoreamento) (Figura 6A-B). A disponibilidade da água é alta e,
aparentemente, o uso é limitado para agricultura e dessedentação animal, aparentemente
imprópria para o consumo humano.
Figura 6: Rio Tapuio, afluente do rio São Francisco, em Pão de Açúcar/Alagoas. A- erosão
do tipo ravina; B- assoreamento, com depósito de sedimento na calha do rio. Fonte:
Acervo LCG, novembro de 2022.

Em vizinhança à unidade amostral do rio Traipu (Traipu) (T3), a produtividade
aparente é média, com destaque para pecuária extensiva. No entanto, a ausência e/ou
baixa cobertura vegetal nativa condiciona o alto risco de deslizamento e de inundação.
Figura 7: Pecuária extensiva na área ciliar do rio Traipu, afluente do rio São Francisco, em
Traipu/Alagoas. Fonte: Acervo LCG, novembro de 2022.

232

Foram registrados processos erosivos em diferentes níveis (laminar, ravina,
voçoroca, carreamento, desmoronamento e assoreamento) (Figura 8A), com destaque
para o assoreamento de todo o leito do rio Traipu (Figura 8B-C). Com a destruição
da ponte que permitia a travessia do rio por pedestres e veículos, devido a erosão
potencializada por enxurradas ocorridas no período chuvoso, as pessoas têm efetuado a
travessia diretamente pela calha do rio, com evidências de intervenção como o depósito
de sedimento e/ou atuação para composição de uma espécie de estrada vicinal dentro
da calha do rio (Figura 8D). A disponibilidade da água é média e aparentemente o
uso é limitado para agricultura e dessedentação animal (Figura 8C), com indicações
macroscópicas de que seja imprópria para o consumo humano.
Figura 8: Rio Traipu, afluente do rio São Francisco, em Traipu/Alagoas. A- erosão do
tipo desmoronamento; B- assoreamento, com depósito de sedimento na calha do rio; Cassoreamento, com depósito de sedimento na calha do rio; D- utilização do assoreamento
da calha do rio como estrada vicinal. Fonte: Acervo LCG, novembro de 2022.

Na área ciliar do rio Poção (São Brás) (T4), a produtividade aparente e a intensidade
de uso da terra é alta, com destaque para pecuária extensiva (Figura 9A). Entretanto, a
presença de remanescentes florestais nas margens do rio reduz os processos erosivos para
o tipo laminar e ravina (Figura 9B). A disponibilidade da água é baixa e, aparentemente, o
uso é limitado para agricultura e dessedentação animal, com indicações macroscópicas
de que seja imprópria para o consumo humano.
Figura 9: Rio Poção, afluente do rio São Francisco, em São Brás/Alagoas. Fonte: Acervo
LCG, novembro de 2022. A- gado bovino em áreas ciliares; B- erosão do tipo ravina em
áreas com vegetação remanescente em estágio inicial de sucessão ecológica.

233

No riacho Jacaré (Telha) (T5), a produtividade aparente e a intensidade de uso da
terra é alta, com destaque para fruticultura (Figura 10A), a lavoura perene (Figura 10B),
práticas de irrigação, consórcio de culturas (Figura 10C) e a pastagem nativa melhorada
com rotação. A prática de manejo e o nível tecnológico utilizado reduzem os riscos de
surgimento de processos erosivos, sendo registrado apenas a erosão laminar e algumas
ravinas. A disponibilidade da água é alta com captação da água para irrigação. A ausência
de vegetação nativa aumenta o risco de inundação.
Figura 10: Riacho Jacaré, afluente do rio São Francisco, em Telha/Sergipe. A- Fruticultura;
B- Plantio de capim; C- Psicultura. Fonte: Acervo LCG, novembro de 2022.

234

No entorno do rio Boacica (Igreja Nova) (T6) a produtividade aparente e a
intensidade de uso da terra são altas com destaque para a agricultura permanente,
temporária (Figura 11A) e pecuária (Figura 11B). Os processos erosivos são marcados pela
erosão laminar e ravinas. A disponibilidade da água é alta com captação da água para
irrigação (Figura 11C). Em alguns trechos do rio são observados bancos de sedimento
com colonização de herbáceas invasoras (Figura D). A ausência de floresta nativa nas
margens do riacho amplia o risco de inundação.
Figura 11: Rio Boacica, afluente do rio São Francisco, em Igreja Nova/Alagoas. A- cultivo
de arroz; B- presença de gado bovino nas margens do rio; C- captação da água do rio
para irrigação; D- bancos de sedimento com colonização de herbáceas invasoras. Fonte:
Acervo LCG, novembro de 2022.

No entorno da unidade amostral do rio Perucaba (Penedo) (T7), a produtividade
aparente e a intensidade de uso da terra são médias, com destaque para a agricultura
permanente e intensiva (Figura 12). Os processos erosivos são marcados pela erosão
laminar e ravinas. A disponibilidade da água é alta com captação da água para irrigação.
A presença de vegetação nativa nas margens do riacho diminui o risco de inundação.
Figura 12.: Cultivo de cana-de-açúcar em proximidade às áreas ciliares do rio Perucaba,
afluente do rio São Francisco, em Penedo/Alagoas. Fonte: Acervo LCG, novembro de
2022.

235

COMO ESTÃO OS REMANESCENTES FLORESTAIS CILIARES?
As áreas ciliares apresentam vegetação nativa escassa e, quando florestada,
em baixa densidade. A diversidade de espécies das áreas ciliares estudadas é baixa,
totalizando apenas 24 espécies (Tabela 2). Foram encontradas espécies clímax,
secundárias e pioneiras, indicando um cenário de degradação recente (Tabela 2).
Tabela 2: Espécies lenhosas da mata ciliar de afluentes do Rio São Francisco, na região
do baixo curso. T1- unidade amostral no rio Boa Vista; T2- rio Tapuio; T3 - rio Traipu; T4 rio Poção; T5 - riacho Jacaré; e T7 - rio Perucaba.

236

237

238

Ao analisar a diversidade e abundância de espécies arbóreas observa-se que nas
áreas ciliares do rio Boa Vista (unidade amostral T1 com 8 espécies arbóreas) e rio do
Tapuio (T2, 11 espécies arbóreas) são encontradas as maiores diversidades de espécies.
Nessas unidades também são encontradas as maiores abundâncias, sendo 61 indivíduos
em T1 e 53 em T2 (Figura 13). Importante destacar que as análises de mata ciliar excetuam
a unidade amostral T6, rio Boacica (Igreja Nova), pela ausência de área florestada no
perímetro delimitado para estudo.
Figura 13: Diversidade e abundância de espécies arbóreas da mata ciliar de afluentes do
Rio São Francisco, na região do baixo curso. T1- unidade amostral no rio Boa Vista; T2rio Tapuio; T3 - rio Traipu; T4 - rio Poção; T5 - riacho Jacaré; T6- rio Boacica; e T7 - rio
Perucaba.

239

As árvores variam em relação à Circunferência à Altura do Peito (CAP) e à altura
(Figura 14). Aparentemente a variação da altura acontece tanto em função da variação
da disponibilidade hídrica e de nutrientes, como também em consequência da idade e
características específicas das diferentes espécies.
Figura 14: Altura média das árvores da mata ciliar de afluentes do Rio São Francisco, na
região do baixo curso.

Ao analisar os dados bióticos e abióticos referentes à mata ciliar, de forma
integrada, observou-se que nos remanescentes com plantas de maior altura e CAP a
umidade relativa foi maior e a temperatura do ar foi menor (Figura 15). Tais características
podem favorecer os processos de sucessão ecológica, beneficiando o estabelecimento
de espécies não heliófitas.
Figura 15: Gráfico de análise de componentes principais envolvendo dados botânicos
e abióticos (altitude, temperatura, luminosidade e umidade relativa do ar) das matas
ciliares de afluentes do Rio São Francisco, na região do baixo curso.

240

Em áreas com maior número de indivíduos houve uma maior quantidade de
estocagem de serrapilheira (Figura 15). Isso se deve ao fato do levantamento de dados
de campo ter ocorrido e posterior ao período de caducifolia, sobretudo nas unidades
amostrais circunscritas na caatinga. Esse fato também justifica o comportamento
diretamente proporcional entre luminosidade e presença de frutos na serrapilheira.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A vulnerabilidade ambiental encontrada na BHBSF, nas áreas ciliares do rio São
Francisco e de seus afluentes, amplia a preocupação quanto à fragilidade ambiental
dessas áreas quanto aos processos erosivos que, diante do uso e ocupação sob ausência
de um planejamento ambiental adequado, podem comprometer a qualidade da água, à
navegabilidade e os ecossistemas aquáticos e de transição.
A escassez da mata ciliar, a baixa diversidade e abundância de espécies arbóreas,
a baixa estocagem de serrapilheira, entre outros fatores associados, correspondem a um
cenário de perturbação, em fase inicial de recuperação.
O diagnóstico aqui apresentado aponta para a necessidade de ações de
planejamento ambiental coordenadas para as áreas ciliares do rio São Francisco e de
seus afluentes, com fins de promover a conservação do solo e visando o abastecimento
adequado do rio principal.

241

Recomendam-se ações de fiscalização das Áreas de Preservação Permanente,
desenvolvimento de ações de educação ambiental e de formação continuada para o
reflorestamento e a recuperação ambiental das áreas ciliares, além de capacitação para
manejos sustentáveis voltadas às atividades rurais exercidas.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à UFPB, pela concessão de bolsas de Iniciação Científica e pelo
suporte para o deslocamento da equipe da UFPB/CCAE; à CODEVASF pelo suporte
logístico e concessão de uso de drone para realização dos trabalhos de campo.
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244

15. ESTRUTURA FITOSSOCIOLÓGICA E DENSIDADE
POPULACIONAL DO CARANGUEJO-UÇA NO BOSQUE
DE MANGUE DA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO
Alexandre Oliveira60
Gabriela Maria Cota dos Santos61
Jessyca Janyny de Oliveira Saraiva Maia62
David Luiz do Nascimento Santos 63
Nadjacleia Vilar Almeida64
Milena Dutra da Silva65
INTRODUÇÃO
Os Manguezais são ecossistemas costeiros comuns de regiões com clima tropical
e subtropical e sujeito ao regime das marés e da conexão dos ambientes de água doce e
marinho, (SCHAEFFER-NOVELLI; VALE; CINTRÓN, 2015) sendo considerados indicadores
de mudanças climáticas regionais e globais (LIMA; OLIVEIRA, 2011).
Os manguezais ocupam uma área de cerca de 137.760 km2, distribuídos em 118
países. Essa estimativa diminui com o aumento da latitude, exceto entre 20° e 25° de
latitude norte, onde se localizam os Sundarbans, a maior área de manguezais do mundo,
localizado na divisa entre o estado indiano de Bengala Ocidental e Bangladesh (GIRI et
al., 2011; BUNTING et al., 2018).
Este ecossistema pode ser encontrado em quase todo o litoral brasileiro, desde
o Oiapoque (04º 30’ N) até a Lagoa de Santo Antônio (28º 28’ S) (SOARES et al., 2012;
CAVANAUGH et al., 2018), sendo que levantamentos mais recentes sobre a área de
cobertura dos manguezais no Brasil indicam uma área entre 962.683 e 1,071,083.74 ha,
o que representa cerca de 7,0 a 8,9% do total mundial da área de ocorrência desse
ecossistema (MAGRIS; BARRETO, 2010; BRASIL, 2010; GIRI et al., 2011; SOARES et al.,
2012 ).
O manguezal pode ser estruturado como feições conectadas de acordo com
características específicas de cada zona, sendo classificadas como apicum, bosque
de mangue e lavado (SCHAEFFER-NOVELLI; VALE; CITRÓN, 2015). Essas regiões são
resultado da influência em relação à linha d’água, constituindo formações de vegetação
de mangue peculiares à periodicidade das inundações (ALMEIDA et al., 2014).

60
Professor Associado, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Laboratório de Pesquisas
em Estuários e Manguezais (LAPEM), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
61
Graduanda em Agroecologia, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade
Federal de Alagoas (UFAL).
62
Graduanda em Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
63
Graduando em Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
64
Professora Adjunta, Departamento de Engenharia e Meio Ambiente, Universidade Federal da Paraíba
(UFPB).
65
Professora Adjunta, Departamento de Engenharia e Meio Ambiente, Universidade Federal da Paraíba
(UFPB).

245

A dinâmica da vegetação de mangue pode mudar através do tempo com as mudanças na
quantidade de inundações marinhas por mudanças no uso e ocupação de uma determinada
bacia e influxo de água doce proveniente dos rios, sendo excelentes bioindicadores pois
respondem aos gradientes de inundação, de nutrientes e de salinidade (SCHAEFFERNOVELLI; VALE; CINTRÓN, 2015). Tal heterogeneidade parece ser uma resposta à
interação de vários fatores abióticos e antrópicos que atuam em diferentes escalas
locais e/ou regionais (microescala e mesoescala) e temporais (BERNINI; REZENDE, 2010;
CUNHA-LIGNON et al., 2011).
A vegetação apresenta baixa diversidade, uma vez que poucas espécies conseguem
se adaptar às oscilações da maré e salinidade, ao substrato inconsolidado e pouco
oxigenado (CUNHA-LIGNON et al., 2011; LONDE et al.,2013; OLIVEIRA; TOGNELLA, 2014).
Nos manguezais brasileiros ocorrem três gêneros, Rhizophora L., Laguncularia C.F. Gaertn
e Avicennia L. com um total de seis espécies: Rhizophora mangle L. (Rhizophoraceae),
Rhizophora harrisonii Leechm. (Rhizophoraceae), Rhizophora racemosa G.Mey.
(Rhizophoraceae), Laguncularia racemosa (L.) C.F. Gaertn. (Combretaceae), Avicennia
schaueriana Stapf and Leechm. ex Moldenke (Acanthaceae) e Avicennia germinans (L.) L.
(Acanthaceae) (GONÇALVEZ et al.,2018; INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO
E BIODIVERSIDADE, 2018).
Em Alagoas, os manguezais ocorrem ao longo de todas as áreas estuarinas, rios e
canais com ligações com os corpos d’água das principais lagunas costeiras (CORREIA;
SOVIERZOSKI, 2009; NEVES, 2014; RODRIGUES, 2015; SILVA; BARROS; OLIVEIRA,
2020), assim como em Sergipe (SANTOS, 2013). São hábitats de diversas populações,
pois possui condições ideais de reprodução e desenvolvimento de diversas espécies de
peixes, crustáceos e moluscos, além de ser considerado um dos ambientes naturais mais
produtivos do planeta (BERNINI et al., 2014; BLOTTA et al., 2016).
A dinâmica do manguezal é diretamente influenciada pela interação da biota e das
características ambientais. Os padrões edáficos e geomorfológicos, composição vegetal
e fatores abióticos atuam sobre a abundância e distribuição espacial dos microrganismos,
bem como daqueles que constituem a meio e macrofauna (SCHAEFFER-NOVELLI,
1995; NETTO; GALLUCCI, 2003). O tamanho e a dominância relativa vegetal mostram
associação com a presença e densidade de crustáceos braquiúros que escavam galerias
no sedimento (AMOROUX; TAVARES, 2005), sendo importantes componentes dos
manguezais (NICOLAU; OSHIRO, 2007)
Dos animais que o manguezal abriga, os caranguejos se destacam pela quantidade
e diversidade apresentada, isso os torna alvo da exploração econômica. Dentre os
caranguejos, Ucides cordatus (Linnaeus, 1763) se destaca por seu grande valor econômico
(IVO et. al., 2000; BOTELHO; SANTOS 2002). O caranguejo-uçá é um dos crustáceos
de maior importância econômica e social encontrados, principalmente, no Nordeste do
Brasil (ARAÚJO; CALADO, 2008)
A ocorrência do caranguejo-uçá está limitada à costa oeste do Oceano Atlântico,
partindo da Flórida, passando pelo Golfo do México, Antilhas, norte da América do Sul,
Guianas, até chegar ao Brasil (MELO, 1996), No Brasil sua distribuição acompanha à dos
manguezais, sendo Laguna, no estado de Santa Catarina, seu limite de distribuição austral
(COELHO; RAMOS, 1972; SCHAEFFER-NOVELLI et al., 1990; CASTRO et al., 2008).
Dentre os principais recursos utilizados pelas comunidades ribeirinhas estão os
peixes, crustáceos e moluscos, respectivamente, em grau de exploração, sendo a pesca
de crustáceos equivalente a aproximadamente 30% das pescarias de alto valor no mundo
(SMITH; ADDISON, 2003). É uma atividade importante para diversos países, considerada
como uma das mais valiosas do planeta (TULLY, 2003).
O estabelecimento de um método indireto pode ser mais adequado nos estudos
de estrutura populacional (JORDÃO; OLIVEIRA, 2003), Dentre as vantagens do estudo
da dinâmica populacional de U. cordatus através da medição da abertura das tocas,
destacam-se a rapidez e consequente aumento do número amostral; a realização de

246

amostragens não-destrutivas, importante quando o trabalho envolve espécies ameaçadas
e a possibilidade de se conseguir medidas relativas de todos os indivíduos dentro das
unidades amostrais, o que é raramente possível quando a remoção dos caranguejos é
necessária (SCHMIDT et. al., 2008).
Sendo assim, torna-se o objetivo deste trabalho a caracterização estrutural do
bosque de mangue e da dinâmica populacional do caranguejo-uçá do Manguezal da Foz
do Rio São Francisco.
METODOLOGIA
Fitossociologia
Para a caracterização e estudo dos bosques de mangue da Foz do Rio São Francisco
foi selecionada uma área amostral, na qual foram mensurados e analisados parâmetros
fitossociológicos da vegetação, bem como aspectos populacionais do caranguejo-uçá.
As amostragens ocorreram no mês de novembro de 2022, no período matutino, durante
a baixa-mar de quadratura. As coletas foram registradas no formulário para Coleta de
Material Botânico nº 80978-1.
A área amostral foi escolhida conforme a representatividade da habitat, aliado a
melhor logística possível para a realização das atividades (Figura 1).
Figura 1: Área de estudo (10º 29’ 38’’ S; 036º 25’ 20’’ W) do manguezal do estuário da
Foz do Rio São Francisco.

O estudo da vegetação seguiu a metodologia sugerida por Schaeffer-Novelli e
Cintrón (1986). Para o transecto de estudo, foram demarcados três parcelas, denominadas
franja, bacia e interior. A parcela denominada franja, corresponde à zona do bosque de
mangue mais próxima do canal estuarino e sob maior influência da variação de maré;
bacia correspondente à zona média do bosque e parcela interior caracterizada por ser a
zona mais distante da linha d’água, cada parcela medindo 400m2, distanciados em 10 m
entre si, perpendiculares à margem do rio (Figura 2).
Figura 2: Diagrama das parcelas para o estudo dos estrutura fitossociológica do
manguezal do estuário da Foz do Rio São Francisco.

247

As árvores foram identificadas ao nível de espécie, sendo que para cada espécie
arbórea foram mensuradas altura (estimativa visual) e circunferência (auxílio de fita
métrica) (Figura 3) para a obtenção do Perímetro à Altura do Peito (PAP). Posteriormente
estes valores foram transformados em em Diâmetro à Altura do Peito (DAP). Foram
considerados para a contagem de indivíduos adultos todos os organismos com DAP
maior ou igual a 2,5cm.
Figura 3: Medida do DAP em exemplar de Rhizophora mangle no manguezal do estuário
da Foz do Rio São Francisco.

O cálculo dos parâmetros estruturais mencionados por parcela, espécie e
classe diamêtrica, seguiu a metodologia de Schaeffer-Novelli e Cintrón, (1986). Foram
mensurados Diâmetro da Altura do Peito (DAP); Altura das árvores; Densidade, Densidade
Relativa (DR); Área Basal (AB) e Área Basal Relativa (ABR).

248

Dinâmica populacional caranguejo-uçá
A estimativa da densidade do caranguejo-uçá Ucides cordatus (Figura 4) na área
amostral foi determinada pela totalização das galerias abertas com atividade biogênica
(lama fluída e/ou fezes próximas à abertura da toca), presentes nos quadrados de
amostragem. As coletas foram realizadas sob permissão do ICMBio (Licença Permanente
para Coleta de Materia Zoológico nº 20291-5).
Figura 4: Exemplar de Ucides cordatus (caranguejo-uçá) no manguezal do estuário da
Foz do Rio São Francisco.

Os quadrados utilizados totalizavam área de 25m2 (5m X 5m). A primeira área
foi iniciada a 10m após o corpo d´água (área de franja do bosque), sendo a segunda
posicionada (área de bacia do bosque) a 10m de distância da primeira área (Figura 5).
Figura 5: Diagrama das áreas para o estudo da estrutura populacional do caranguejo-uçá
no manguezal do estuário da Foz do Rio São Francisco.

249

As medidas das tocas foram mensuradas com auxílio de paquímetro digital. Foram
realizadas duas medidas para cada toca, sendo que o valor registrado era sempre o
menor entre eles. Este valor foi então adicionado na equação:
Comprimento do Caranguejo = -5,739 + (1,265 * Diâmetro da toca);
relacionando o tamanho do individuo com o diâmetro da abertura da galeria (SCHMIDT
et al., 2008)
As galerias do caranguejo-uçá foram diferenciadas das demais espécies pela
posição oblíqua de sua abertura em relação à superfície do sedimento, conforme descrito
por COSTA (1979). As galerias com dupla abertura foram identificadas, mas somente
foram medidas as que apresentaram sinais de atividade biogênica.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Fitossociologia
Durante o estudo da estrutura vegetal do manguezal da Foz do Rio São Francisco,
realizado em 11 de novembro de 2021, foram amostrados indivíduos de Rhizophora mangle
L. (Figura 6), Laguncularia racemosa (L.) Gaertn (Figura 7). Nesta área amostral também
foram registrados indivíduos de Avicennia germinans (L.) L. Foram observadas árvores
mortas e cortadas, fora da área amostrada, indicando ação antrópica.
Figura 6: Pesquisadora entre indivíduos de Rhizophora mangle no manguezal do estuário
da Foz do Rio São Francisco.

250

Figura 7: Exemplar de Laguncularia racemosa no manguezal do estuário da Foz do Rio
São Francisco.

Nas parcelas amostradas também foram observadas várias plântulas, em diversas
fases de desenvolvimento, tanto de R. mangle quanto L. racemosa.
Os parâmetros fitossociológicos demonstram totalidade de organismos vivos
em relação às árvores mortas (Tabela 1), influenciando diretamente nos valores dos
parâmetros medidos. Não houve ocorrência de indivíduos mortos em nenhuma das
feições amostradas nesta campanha, indicando uma área bem preservada. Os valores de
área basal indicam maior quantidade de organismos na feição Franja, indicando maior
reposição de indivíduos, devido a própria dinâmica estrutural dos manguezais. Este
fato é característico das áreas de Franja dos manguezais, sujeitos a maior dinâmica do
ambiente, pois está sujeito às variações de maré e taxas de nascimento de plântulas.
Tabela 1: Parâmetros fitossociológicos do bosque de mangue do estuário da Foz do Rio
São Francisco.

251

Valores bem superiores na Densidade (Tabela 1) de troncos na feição Franja são
justificados pela maior ocorrência da espécie R. mangle, árvore esta que tem como
característica múltiplos troncos, diferentemente de L. racemosa, com maior ocorrência
na feição Bacia, que possui muito menos ramificações e geralmente apenas um tronco
principal.
Os valores de DAP (Tabela 1) indicam superioridade da feição Bacia em relação
às outras feições, indicando indivíduos maiores e mais largos, devido, provavelmente,
aos indivíduos da Bacia serem mais velhos estando numa região mais estável e menos
propensa à grande dinâmica que ocorre mais próxima ao principal corpo d’água que
banha o bosque. A feição Interior apresentou os menores valores dos parâmetros
fitossociológicos devido a maior salinidade dos sedimentos e características ontogênicas
dos organismos nesta feição. A salinidade e temperatura tendem a ser tensores ambientais
que influenciam no crescimento dos organismos.
Dinâmica populacional caranguejo-uçá
Foram amostradas 366 tocas do caranguejo-uçá na feição Franja. Pela equação
utilizada para estimar os tamanhos dos caranguejos através do tamanho da abertura das
tocas, os organismos amostrados foram classificados em juvenis e adultos (Tabela 2).
Tabela 2: Distribuição de juvenis e adultos do caranguejo-uçá da feição Franja no
manguezal do estuário da Foz do Rio São Francisco.

Os indivíduos juvenis representaram 69,67% do total de tocas amostradas,
enquanto os adultos representaram 30,33%. Estes valores indicam os organismos estão,
na feição Franja, em sua maioria em estádio imaturo de desenvolvimento e pertencentes
ao estoque juvenil, apontando um potencial extrativista futuro de aproximadamente
70%. Portanto, esta feição possui indivíduos juvenis, inapropriados para a captura, pois a
exploração de organismos menores que os tamanhos comerciais recomendados (60mmtamanho comercial) (BLANKENSTEYN; CUNHA FILHO; FREIRE, 1997; IVO et al., 2000;
MORAES; NUNESMAIA; PINHEIRO, 2015).
Em relação a Densidade, os quadrados amostrais apresentaram diferença entre
todos os quadrados amostrados (Tabela 3). A densidade média foi de 3,00²1,9 ind/m².
Tabela 3: Média de indivíduos (m2) do caranguejo-uçá na feição Franja no manguezal do
estuário da Foz do Rio São Francisco.

252

A frequência das classes de tamanhos apresentou um pico de maior ocorrência no
intervalo de tamanho 40-50mm e 50-60mm (Figura 8).
Figura 8: Distribuição de frequência nas classes de tamanho do caranguejo-uçá na feição
Franja do manguezal do estuário da Foz do Rio São Francisco.

A frequência de tamanhos apresentada pela feição Franja corrobora o alto valor de
densidade de juvenis. As menores classes de tamanho com maior frequência de ocorrência
encontradas na feição Franja, pode estar relacionada ao comportamento reprodutivo da
espécie, pois os organismos recém assentados irão povoar as áreas mais próximas à
água, já que a desova de U. cordatus é realizada em águas mais salinas (BLANKENSTEYN;
CUNHA FILHO; FREIRE, 1997; IVO et al., 2000, MORAES; NUNESMAIA; PINHEIRO, 2015). Os
tamanhos encontrados estão, na sua grande maioria, fora dos tamanhos permitidos para
a captura. Segundo a Portaria número 034/03-N do IBAMA de junho de 2003, é proibida
a captura, manutenção em cativeiro, transporte, beneficiamento e industrialização de
qualquer indivíduo da espécie Ucides cordatus cuja largura de carapaça seja inferior a
6,0cm nos estados do Nordeste e Norte.

253

Foram amostrados, por questões logísticas, apenas dois quadrados na feição Bacia. Isto
influenciou diretamente no valor total de tocas amostradas que foi foram amostradas
121 tocas do caranguejo-uçá. Pela equação utilizada para estimar os tamanhos dos
caranguejos através do tamanho da abertura das tocas, os organismos amostrados foram
classificados em juvenis e adultos (Tabela 4).
Tabela 4: Distribuição de juvenis e adultos do caranguejo-uçá da feição Bacia do
manguezal do estuário da Foz do Rio São Francisco.

Os indivíduos juvenis representaram 73,55% do total de tocas amostradas,
enquanto os adultos representaram 26,45%. Nesta feição, o valor de porcentagem de
juvenis também foi mais alta em relação ao valor de porcentagem de adultos. Os valores
obtidos também indicam área predominantemente de indivíduos juvenis (MORAES;
NUNESMAIA; PINHEIRO, 2015).
Em relação a Densidade, os quadrados amostrais apresentaram diferença entre
todos os quadrados amostrados (Tabela 5). A densidade média foi de 2,0²0,7ind/m².
Tabela 5: Média de indivíduos (m2) do caranguejo-uçá na feição Bacia do manguezal do
estuário da Foz do Rio São Francisco.

A densidade (ind/m2) da feição Bacia foi menor do que a apresentada pela Franja,
indicando uma menor quantidade de organismos na área. Isto pode estar relacionado
ao maior tamanho dos organismos na feição Bacia, levando, consequentemente, a uma
menor densidade, já que organismos maiores são mais territorialistas (COSTA, 1979;
PINHEIRO; HATTORI, 2006), aumentando a competição intraespecífica.
A frequência das classes de tamanhos apresentou um pico de maior ocorrência
no intervalo de tamanho 40-50mm e 50-40mm, assim como observado na feição Franja
(Figura 9).
Figura 9: Distribuição de frequência nas classes de tamanho do caranguejo-uçá na feição
Bacia do manguezal do estuário da Foz do Rio São Francisco.

254

A frequência de ocorrência da feição Bacia (Figura 9) demonstram que os
organismos presentes nesta área são em sua maioria das classes de tamanho inferiores
ao tamanho mínimo permitido para a captura (Portaria número 034/03-N do IBAMA de
junho de 2003).
Os valores de densidade (ind/m2) foram superiores aos observados por Schmidt
(2006) em manguezais da Canavieiras, Bahia e Duarte et al. (2014) em manguezais da
Juréia e Cubatão, São Paulo. Porém, foram inferiores aos valores encontrados por Paiva
(1987) nos estuários de Sergipe, Lima, Mochel e Castro (2010) nos manguezais do Norte
Maranhense e Silva (2014) no estuário do Rio Coruripe, Alagoas. Assim, podemos sugerir
que a densidade possa diminuir conforme o aumento da latitude.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O bosque de mangue da Foz do Rio São Francisco apresentou as três espécies
mais frequentes do ecossistema manguezal, Rhizophora mangle, Laguncularia racemosa,
e Avicennia germinans apresentando bons valores dos parâmetros fitossociológicos.
Os valores de densidade (ind./m2) e frequência das classes de tamanho do
caranguejo-uça Ucides cordatus, indicam que esta área apresenta, neste período do ano,
estoque juvenil, portanto, não recomendada para a captura dos caranguejos. O potencial
extrativista imediato esteve sempre em torno de 30%, enquanto o potencial extrativista
futuro beirou os 70%.
Ficou constatada o desmatamento para fins de carcinicultura, principalmente nas
áreas da margem oposta a que foi realizada a coleta, evidenciando que o manguezal
ainda corre riscos de ações antrópicas que desestabilizam o ambiente. Vale ressaltar que
o Manguezal é área de preservação ambiental em toda a sua extensão (art. 4º, incisos VI
e VII, da Lei n. 12.651/2012).
Por fim, faz-se necessário a implementação de programas de monitoramento das
populações tanto no habitat natural quanto nos locais de desembarque do pescado, com
objetivo de realizar estimativas periódicas da densidade populacional. Vale frisar que há
necessidade da intensificação da fiscalização, principalmente no período da andada.
Além disso, práticas de educação e sensibilização ambiental dos pescadores, das
comunidades ribeirinhas e principalmente nas escolas do sistema público de ensino, são
ferramentas importantes na prática da informação sobre a exploração sustentável dos
recursos pesqueiros.

255

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259

16. PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS (PANC)
NO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Etnobotânica
Gabriela Maria Cota dos Santos66
Carolina Rafaela da Silva67
Domênica Didier Foerster68
Patrícia Muniz de Medeiros69
RESUMO
O processo de globalização contribuiu para que as dietas humanas se
homogeneizassem ao ponto de se encontrarem pouco diversas e pouco saudáveis, a
exemplo dos padronizados e onipresentes fast-foods. Na contrapartida desse movimento,
as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC), plantas pouco consumidas ou
pouco conhecidas pela maioria das pessoas, têm sido indicadas como alternativas para
a promoção da diversificação, segurança e soberania alimentares, sendo encontradas
essencialmente no repertório da cultura popular de comunidades tradicionais. Dessa
maneira, a abordagem de PANC durante a 5ª edição da Expedição Científica do Baixo
São Francisco realizou uma busca inicial por tais espécies em 8 municípios do Baixo São
Francisco, de maneira a observar parte da potencialidade alimentícia da região.
Palavras-chave: Plantas alimentícias atípicas; Etnobiologia; Soberania Alimentar;
Conhecimento biocultural.

66
Estudante de Bacharelado em Agroecologia (CECA/UFAL), integrante do Laboratório de Ecologia,
Conservação e Evolução Biocultural (LECEB/UFAL);
67
Estudante de Bacharelado em Engenharia Florestal (CECA/UFAL), integrante do Laboratório de
Ecologia, Conservação e Evolução Biocultural (LECEB/UFAL) e estagiária da Secretaria do Meio Ambiente e
Recursos Hídricos (SEMARH);
68
Técnica da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH);
69
4Professora adjunta do CECA/UFAL e coordenadora do Laboratório de Ecologia E Conservação e
Evolução Biocultural (LECEB/UFAL)

260

INTRODUÇÃO
As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) são recursos alimentícios
vegetais que se encaixam em pelo menos um dos seguintes critérios: I) ser pouco
consumido pela maioria das pessoas em determinado contexto socioambiental, por
mais que seja bastante conhecido; II) ser pouco conhecido pela maioria das pessoas
em determinada região, por mais que seja bastante consumido em outra; III) possui
parte-planta pouco consumida ou pouco conhecida pela maioria das pessoas, por mais
que detenha parte-planta convencional (a exemplo da bananeira, que possui parteplanta fruto convencional, mas seu coração - ou suas brácteas - é pouco utilizado como
alimento), (KINUPP & LORENZI, 2014).
Dessa maneira, é de se esperar que o país que detém a maior biodiversidade do
planeta, o Brasil, também detenha notável variedade de espécies alimentícias. Porém, a
acompanhar as tendências do sistema agroalimentar globalizado, as dietas das famílias
brasileiras se caracterizam pela baixa diversidade e baixo teor nutricional. Nesse sentido,
dietas pouco diversas se vinculam a baixa nutrição, pois a adequação nutricional dietética
é formada justamente pela composição de nutrientes encontrados em diferentes
alimentos, sob diferentes concentrações (TARDIDO & FALCÃO, 2006).
Soma-se a isso, o fato da industrialização ter proporcionado refeições desbalanceadas,
seja em formato fast-food, seja em formato de abastecimento doméstico via alimentos
processados não perecíveis, para todos os contextos socioeconômicos (FRENCH, 2001).
Mesmo assim, os índices de insegurança alimentar se agravam ao ser realizado recorte
para a realidade rural (IBGE, 2020).
Realidade esta em que as PANC acabam desempenhando papel singular, por
exemplo, enquanto famine foods ou emergency foods (“alimentos da fome” ou “alimentos
emergenciais”), sendo recursos acessados em períodos de escassez de alimentos mais
populares em função da exposição a eventos climáticos/ambientais atípicos, como cheias,
secas, queimadas (JACKSON, 2020), e mais recentemente, a pandemia (GALINDO, 2022).
Apesar do termo, tais recursos não são necessariamente condicionados à fome, mas
intimamente ligados à insegurança alimentar (MULLER & ALMEDON, 2008) no sentido
das populações não poderem escolher/acessar suas principais culturas alimentícias para
consumo.
Para melhor compreensão desta conjuntura, uma área do conhecimento que se
propõe, em diferentes segmentos (como etnobotânica, etnonutrição) a investigar a
relação entre as pessoas e a biota, é a etnobiologia. Através de abordagens do gênero
se pôde observar que as comunidades tradicionais desempenham papel fundamental
na indicação e na conservação da biodiversidade, o que inclui recursos como as Plantas
Alimentícias Não Convencionais (MENEZES et al, 2019). Sendo tais populações, assim,
público-alvo importantíssimo para o estabelecimento das PANC em cadeias produtivas
locais (pelo seu potencial de enriquecer, em diversidade e nutricionalmente, as
refeições), cabendo à promoção de iniciativas dessa natureza o poder de garantir não
só complemento de renda a muitas famílias, como também o de promover alimentação
biodiversa, além de estreitar o caminho em direção à segurança e soberania alimentar e
nutricional.
Nesse sentido, a oportunidade de trazer à V Expedição Científica do Baixo São
Francisco abordagem relacionada às PANC buscou, inicialmente, listar espécies indicadas
por comunidades, como espécies frutíferas florestais, e observar outras já consolidadas
como PANC, como na categoria de “espécies daninhas” - referenciada pela Agroecologia
como espécies espontâneas (ALTIERI, 2012). As idas a campo foram realizadas através
de uma parceria entre o Laboratório de Ecologia, Conservação e Evolução Biocultural
(LECEB/UFAL) e o setor de Recursos Sólidos da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos
Hídricos do estado de Alagoas (SEMARH).

261

METODOLOGIA
Foram visitadas 6 comunidades tradicionais (sendo consideradas tradicionais
aquelas que se encaixam no conceito atribuído pela Lei 11.326/2006 - BRASIL, 2006 - e
pelo Decreto 6.040/2007 - BRASIL, 2007 -, a se considerar povos indígenas, quilombolas,
assentados da reforma agrária, ribeirinhos, caiçaras, entre tantos outros) e 1 comunidade
rural, cujas visitas-guiadas foram realizadas através de liderança comunitária ou morador/a
indicado/a pela comunidade ou pelo município (via Emater ou Secretaria de Agricultura
correspondente).
Em cada comunidade, buscou-se registrar a ocorrência de espécies não
convencionais atribuídas pelos próprios moradores (e registradas enquanto etnoespécies,
ou seja, nome tradicional reconhecido e utilizado por determinado grupo) a partir de:
a) coleta de coordenada geográfica da comunidade em questão;
b) registro fotográfico, de usos e de tipo de ocorrência;
c) coleta de material botânico de espécie cuja identificação fosse incerta ou que tivesse
material fértil.
Com relação aos registros fotográficos, todos os moradores/as fotografados/as
assinaram termo de autorização de uso de imagem. Além disso, o tipo de ocorrência
indicado se relaciona com a forma como o indivíduo se estabeleceu no local, não
necessariamente sobre seu tipo de ocorrência no Brasil (se é naturalizado/introduzido ou
se é nativo), este último foi indicado na fase de identificação/caracterização de espécies.
A Figura 1 indica a metodologia aplicada nas visitas a campo. Em função do pouco tempo
de visita em cada comunidade, não foi possível fazer registros em toda extensão territorial
das comunidades, assim, a ocorrência de PANC relatada na V Expedição não reflete a
diversidade de PANC do Baixo São Francisco, mas sim, o esforço amostral de espécies
que se configuram como tal na região. Também pelo mesmo motivo (visitas curtas),
foi utilizada a abordagem antropológica da observação direta, incorporada também à
etnobiologia, para registro dos usos das partes-planta. Ou seja, diferentemente do que
seria a abordagem da observação participante, as pesquisadoras não se introduziram no
cotidiano da comunidade para registrar tais usos (CAMPOS & ALBUQUERQUE, 2021).
Figura 1: Diagrama de metodologia para registro de ocorrência de PANC na V Expedição
Científica do Baixo São Francisco.

262

A autorização para coleta de material biológico foi solicitada pelo SISBIO,
cuja comprovação se deu pelo número 85823-1 de registro para coleta fora de áreas
caracterizadas como Unidade de Conservação (UC).
Uma vez coletadas as plantas, estas foram prensadas em exsicatas para secagem
em estufa por 3 dias a 60 ºC no LECEB. As exsicatas foram encaminhadas para os/as
pesquisadores/as do Herbário MAC do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas e para o
herbário do IPA (Instituto Agronômico de Pesquisa de Pernambuco) para identificação
específica.
Uma vez identificadas, as espécies foram caracterizadas com relação à espécie
(ou apenas à família, para os casos em que houve dificuldade na identificação), tipo
de ocorrência no Brasil com base na Flora e Funga do Brasil (2023) e potencialidades
enquanto recurso alimentício.
RESULTADOS
Caracterização das áreas de estudo
Sob a compreensão de que a Expedição percorre a região do Baixo São Francisco,
as áreas de estudo variaram entre os biomas caatinga e mata atlântica. Assim, foi possível
observar nos territórios de coleta de material biológico ambientes correspondentes à
Figura 2: 2a - Caatinga, 2b - Mata atlântica, 2c - Área de ecótono: transição entre caatinga
e mata atlântica na restinga alagoana, 2d - Ecossistema conhecido localmente como o
“Pantanal alagoano”.
Figura 2: Diferentes ambientes encontrados nas áreas de amostragem de PANC

2A - Caatinga, em Gararu/SE, fonte: CBHSF/Edson Oliveira (2022), 2B - Mata atlântica, em Igreja Nova/AL,
fonte: Autores (2023), 2C - Restinga alagoana, em Piaçabuçu/AL, fonte: Autores (2023), 2D - “Pantanal
alagoano”, em Piaçabuçu/AL, fonte: Autores (2023).

Sendo assim, segundo o IBGE (2022) pode-se destacar que as principais formações
florestais dessas áreas são as de:
- Olho d’Água do Casado (AL) e Porto da Folha (SE): Savana-estépica arborizada e
savana-estépica florestada;
- Gararu (SE): Agropecuária, área antrópica dominante, de vegetação pretérita savanaestépica;

263

- São Brás (AL): Agropecuária e área de ecótono, de contato entre savana-estépica e
floresta estacional;
- Propriá (SE): Área antrópica dominante em tensão ecológica, agropecuária e área de
ecótono, de contato entre savana e floresta estacional;
- Igreja Nova (AL): Pecuária (pastagens) e agricultura com culturas cíclicas, de vegetação
pretérita floresta estacional semidecidual;
- Penedo (AL): Agricultura com culturas cíclicas, de vegetação pretérita floresta estacional
semidecidual;
- Piaçabuçu (AL): Formação pioneira com influência marinha arbórea e agropecuária.
Enquanto que os aspectos pedológicos desses territórios, também segundo o IBGE
(2022), são caracterizados por:
- Olho d’Água do Casado (AL): Planossolo háplico eutrófico;
- Porto da Folha (SE), Gararu (SE): Neossolo litólico eutrófico;
- São Brás (AL): Luvissolo crômico órtico;
- Propriá (SE): Neossolo regolítico eutrófico;
- Igreja Nova (AL) e Penedo (AL): Plintossolo pétrico concrecionário;
- Piaçabuçu (AL): Espodossolo ferrihumilúvico órtico
Tais informações são vinculadas diretamente aos tipos de espécies encontradas
em cada comunidade ou ponto de amostragem. Todavia, para além de espécies de
ocorrência natural, em virtude da intensa intervenção antrópica na região é inevitável
encontrar espécies exóticas, introduzidas pelos mais diferentes motivos e que, por vezes,
acabam se naturalizando fortemente na biocultura dos sistemas socioecológicos locais.
Registros de ocorrência de PANC no Baixo São Francisco
54 registros de ocorrência foram feitos (a incluir mesmas espécies observadas
em mais de uma comunidade), com cerca de 43 etnoespécies PANC observadas nas
8 visitas em campo (Quadro 1, Figura 3). O número de observações variou entre 5 e
10 etnoespécies por comunidade, sendo importante mencionar que em duas delas (em
Piaçabuçu e em Penedo) muitas PANC frutíferas relatadas pelos moradores não foram
encontradas em campo, sendo interessante a volta para tais municípios em busca de seu
registro. Ainda mais quando a literatura tem indicado as PANC frutíferas florestais como
detentoras de forte potencial à aceitação pelo público consumidor (GOMES, 2020). Um
mosaico com a parte alimentícia de algumas das etnoespécies encontradas está exposto
na Figura 4.
Cerca de 20 amostras, sob a forma de exsicata, foram secadas e encaminhadas
para herbário para identificação da espécie, mas em virtude da falta de material fértil
(flores e frutos) em grande parte das amostras, nem todas puderam ser identificadas em
família e em espécie.
Quadro 1: Visitas-guiadas em busca de PANC na V Expedição Científica do Baixo São
Francisco, em 2022.

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Quadro 2: Etnoespécies de PANC registradas durante a V Expedição Científica no Baixo
São Francisco

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267

Figura 3: Mapa de localização dos pontos de amostragem recolhidos nas comunidades
visitadas durante a V Expedição Científica do Baixo São Francisco.

Figura 4: Mosaico de PANC no Baixo São Francisco.

268

Observação direta na relação PANC-moradores
Casos atípicos - Uma indicação foi atribuída à Babosa, Aloe vera, cujo relato se
associou à ocorrência da espécie em forma de plantio herdado de outra geração de
moradores.
Casos repetidos - Algumas etnoespécies apareceram em mais de uma comunidade,
tais como a Macambira (2), a Quixabeira (2), o Juá (3) em áreas sertanejas, de caatinga,
já o Coco ouricuri (2) e a Massaranduba (2) em áreas de ecótono ou de mata atlântica.
Porém, em virtude do baixo número amostral, tanto de moradores acessados com relação
à comunidade, quanto de comunidades com relação à região, tais repetições não podem
exatamente indicar maior distribuição ou disponibilidade espacial dessas PANC para o
Baixo São Francisco se comparadas às demais (incluídas as demais não captadas pelo
registro durante a Expedição).
Relatos associados - Algumas ocorrências chamam atenção em meio aos relatos
dos moradores locais. Entre elas, a ocorrência da leguminosa Algaroba que, apesar do
caráter exótico, sua presença foi atribuída à distribuição zoocórica, ou seja, as sementes
da árvore são plantadas através dos dejetos do gado bovino - presença frequente no
cenário sertanejo, por ser fonte de renda para muitas famílias -, que encontra nas vagens
da Algaroba uma alternativa de alimento, e ao longo do trânsito dentro dos lotes, acaba
por propagar também a leguminosa. Outra forrageira também indicada para consumo
humano foi a Palma.
Apesar do Juá ser bastante conhecido pelo uso enquanto “pó dental”, houve relato
da produção de licor oriundo do fruto. Tal observação pode ser um interessante indicativo
para popularização de espécies como o Juá, que apesar de serem alimentícias, possuem
sabor ácido.
Uso para além do alimentício foi observado para o Araticum taia, cuja casca foi
apontada para elaboração de esteira.
O Caatingueiro foi a espécie da caatinga com mais partes-planta relatadas para
uso alimentício (casca, folhas e talo), e além disso, foi indicada como “mata sede”, o que
fortalece o potencial dessa espécie em contexto semiárido.
Foi possível observar também o valor que as comunidades locais dão às espécies
arbóreas nativas. A exemplo de uma das ocorrências do Coco ouricuri, que foi encontrado
sozinho em meio à área agrícola como atitude de respeito do agricultor com relação à
planta.
Apenas uma espécie foi indicada como alimentícia não convencional sem registro
de nome popular através de morador local, sendo atribuída na literatura como “Trapiá”.
Identificação e caracterização de espécies
As espécies listadas variaram de plantas frutíferas florestais conhecidas, mas pouco
exploradas, como Cajá e Seriguela - que além de possuírem frutos comestíveis, possuem
folhas de mesmo potencial -, a espontâneas exóticas, como Amaranthus e a Beldroega
- comumente associadas a “ervas daninhas”, sendo assim, subvalorizadas enquanto
alimento.
Espécies associadas pelos autores
Algumas espécies mais populares, e que não dispunham de material fértil ou que
o material se encontrava em péssimas condições para produção de exsicata, foram
reconhecidas pelas pesquisadoras e listadas no Quadro 3. Por outro lado, as PANC que
não puderam ser identificadas em herbário (estéreis), coletadas em campo (ou em
função de condições ruins para coleta, como com fungos, úmidas, desfolhadas, ou em
função das áreas de amostragem coincidirem com áreas protegidas) ou reconhecidas

269

pelos autores a nível de espécie se mantiveram no estudo enquanto “etnoespécie”, não
sendo associadas a informações na literatura.
Quadro 3: Espécies associadas pelos autores

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Espécies identificadas em herbário
Quadro 4: Espécies identificadas pelo Herbário MAC e pelo IPA

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Figura 5: PANC registradas no município de Olho d’Água do Casado (AL)

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Figura 6: PANC registradas no município de Porto da Folha (SE)

Figura 7: PANC registradas no município de Gararu (SE)

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Figura 8: PANC registradas no município de Propriá (SE)

Figura 9: PANC registradas no município de São Brás (AL)

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Figura 10: PANC registradas no município de Igreja Nova (AL)

Figura 11: PANC registradas no município de Penedo (AL)

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Figura 12: PANC registradas no município de Piaçabuçu (AL)

Oficina de culinária PANC
Nas intermediações da Associação Aroeira/Cooperativa Ecoagroextrativista
Aroeira de Piaçabuçu (COOPEARP), a equipe da SEMARH promoveu uma oficina culinária
com as mulheres extrativistas que administram o empreendimento, de forma a estimular
novos preparos a partir da biodiversidade local, a ampliar o repertório de preparo destes
produtos pelas populações tradicionais. A oficina culinária se expandiu para uma sessão
de exposição e degustação de PANC dos biomas caatinga e mata atlântica. E Piaçabuçu
sendo um dos últimos pontos de atividade da Expedição, a oficina pôde contar com a
visita dos/as expedicionários/as.
Sendo Piaçabuçu um hotspot de biodiversidade, e ainda, área de ecótono (ou seja,
de transição entre os dois biomas alagoanos), a oficina, enquanto ferramenta de estímulo
e aperfeiçoamento de práticas (TEIXEIRA, 2012), serviu como ferramenta de ênfase às
riquezas locais, ao promover a reflexão de que a conservação dos recursos do município
é importante para a manutenção das fontes de renda das famílias extrativistas.
Figura 13: Oficina de Culinária PANC com agroextrativistas da Associação Aroeira/
COOPERARP e com exposição aos expedicionários.

280

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pode-se perceber o potencial das PANC observadas na região do Baixo São
Francisco diante dos 54 registros realizados em apenas 10 dias de Expedição, com
visitas breves a 8 municípios abastecidos pelo Velho Chico. Ao se considerar que existe
subamostragem das alternativas alimentícias deste território, pode-se associar as PANC
como “ouro comestível” subestimado que possui aptidão para mudar a realidade de
muitas famílias, seja a nível de segurança alimentar, seja a nível de exploração de novos
nichos de cadeia produtiva.
Para trabalhos futuros na região que pretendam abordar aspectos relacionados às
PANC, sugere-se envolver estudos etnobiológicos, de etnonutrição e afins, que, orientados
por hipóteses, possam compreender a inter-relação estabelecida entre as PANC e as
comunidades ribeirinhas do Velho Chico, como também indicar os melhores caminhos
para que o “ouro comestível” possa ser melhor aproveitado localmente e incorporado
nas cadeias produtivas locais.
O caráter incipiente e generalista da abordagem relacionada às PANC permitirá,
a curto prazo, a elaboração de uma cartilha sobre as PANC do Baixo São Francisco,
que será distribuída às comunidades e municípios visitados pela Expedição Científica do
Baixo São Francisco.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos aos moradores e lideranças das comunidades: Assentamento Gastone
Beltrão (Olho d’Água do Casado/AL), Comunidade Quilombola Mocambo (Porto da
Folha/SE), Acampamento Nossa Senhora Aparecida (Gararu/SE), Acampamento Santo
Antônio (Propriá/SE), Cajaíba (Igreja Nova/AL), Assentamento Novo Horizonte (Penedo/
AL) e Assentamento Fazenda Paraíso (Piaçabuçu/AL) pelo acolhimento e guia durante
as visitas em campo. Agradecemos também aos técnicos da EMATER de Olho d’Água
do Casado (AL), Penedo (AL) e às Secretarias de Agricultura dos municípios de Gararu
(SE), Propriá (SE) e Igreja Nova (AL) pela acessibilidade, facilitação e orientação às
visitas-guiadas. Por último e não menos importante, agradecemos à Associação Aroeira/
COOPEARP pelo carinho de sempre e por ceder o espaço à Oficina PANC.
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Mestrado. 2012. Disponível em: https://recil.ensinolusofona.pt/handle/10437/2711. Acesso
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Ethnopharmacology of Wild Plants. CRC Press, 2021. p. 218-233.

285

PATRIMÔNIO E POVOS ORIGINÁRIOS

286

17. CARTA ARQUEOLÓGICA SUBAQUÁTICA: AS AÇÕES NA
5ª EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA NO RIO SÃO FRANCISCO
Área do conhecimento: Ciências Humanas
Gilson Rambelli70
Paulo Fernando Bava de Camargo71
Luis Felipe Freire Dantas Santos72
Priscyla Fernanda Oliveira Viana73
Darly Anderson Calumby dos Santos74
RESUMO
O presente relatório tem como objetivo apresentar os resultados das ações de
Arqueologia subaquática realizadas no baixo rio São Francisco, durante a 5ª Expedição
Científica do Rio São Francisco. Dando continuidade à estratégia de pesquisa de
avaliação não-interventiva do potencial arqueológico (sem escavação e sem coleta
amostral) e a mensuração de impactos negativos, que eventualmente estariam sendo
infligidos ao Patrimônio Cultural Subaquático (PCS) da região, na edição de 2022, foi
dando um enforque a região da foz do rio São Francisco, onde novos contextos de
ocupação humana foram identificados.
INTRODUÇÃO
Este relatório preliminar tem como objetivo apresentar os resultados das ações de
Arqueologia subaquática 75 realizadas no baixo rio São Francisco, durante a 5ª Expedição
Científica do Rio São Francisco, ocorrida no período de 03 a 12 de novembro de 2022.
Buscou-se para a 5ª Expedição, para determinados contextos arqueológicos ao longo
do baixo Rio São Francisco, a continuidade da estratégia de pesquisa de avaliação
não-interventiva do potencial arqueológico (sem escavação e sem coleta amostral)
e a mensuração de impactos negativos que eventualmente estariam sendo infligidos
ao Patrimônio Cultural Subaquático (PCS) da região, tendo como base as definições
internacionais determinadas na Convenção da Unesco para Proteção do Patrimônio.

70
Doutores em Arqueologia. Professores Adjuntos do Departamento de Arqueologia (DARQ) e do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PROARQ) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Coordenadores do Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe (LAAA).
71
Doutores em Arqueologia. Professores Adjuntos do Departamento de Arqueologia (DARQ) e do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PROARQ) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Coordenadores do Laboratório de Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe (LAAA).
72
Doutor em Arqueologia, pesquisador do LAAA-UFS e pós-doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PROARQ) da Universidade Federal de Sergipe (UFS).
73
Mestrandos em Arqueologia pelo Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PROARQ) da Universidade Federal de Sergipe (UFS), pesquisador do LAAA-UFS.
74
Mestrandos em Arqueologia pelo Programa de Pós-Graduação em Arqueologia (PROARQ) da Universidade Federal de Sergipe (UFS), pesquisador do LAAA-UFS.
75
A pesquisa arqueológica subaquática foi autorizada pela portaria IPHAN/ DEPAM/ CNA nº. 61, de
01 de outubro de 2021, publicada no Diário Oficial da União, nº. 188, de 04 de outubro de 2021, Seção 1, p.
308 (processo nº. 01450.002827/2021-55).

287

Cultural Subaquático de 2001 (ORGANIZAÇÃO, 2001). Também foi integrada
a expedição ações voltadas a divulgação científica do projeto junto as comunidades
locais, por meio da distribuição de cartilha sobre o tema e pela produção e divulgação
de vídeos nas redes sociais.
METODOLOGIA
Os objetivos específicos desta pesquisa, no que tange aos contextos arqueológicos,
envolveram: (1) a averiguação do estado de conservação de sítios arqueológicos
submersos previamente cadastrados (RAMBELLI et al., 2020; BAVA-DE-CAMARGO
et al., 2019, com referências anteriores) e a obtenção de mais informações sobre
eles (dimensões, tipologia, vestígios materiais móveis e estruturas, dentre outros);
(2) a localização de novos sítios arqueológicos a partir de prospecção extensiva; (3)
Integração dos dados levantados com as informações coletadas anteriormente nas 3ª e
na 4ª. Expedição Científica. Destaca-se que esses objetivos foram cumpridos através de
técnicas arqueológicas associadas ao mergulho autônomo científico (principalmente
NAUTICAL, 2009; GREEN, 2004; RAMBELLI, 2002) e técnicas tradicionais de prospecção
terrestre (RENFREW & BAHN, 2008).
Figura 1: Arqueólogo se preparando para realizar mergulhos de averiguação arqueológica
no Naufrágio da Moxotó. Fonte: LAAA/UFS, 2022.

288

Para atingir esses objetivos, implementou-se uma metodologia relativamente
simples e há muito consagrada: a Carta Arqueológica Subaquática (citando apenas
bibliografia nacional, BITTENCOURT et al., 2018; RAMBELLI, 2008; RAMBELLI; GUSMÃO,
2015; RIOS; VALLS, 2010; e SANTOS, 2013, com referências anteriores, especificamente
sobre o rio São Francisco), instrumento com origem no levantamento geográfico que
visa a localização, a identificação tipológica, cronológica e o dimensionamento de
contextos arqueológicos submersos, não se atendo a estudos pormenorizados em um
primeiro momento.
Pretendendo já nas próximas edições da expedição efetivar esse primeiro passo
em prol de uma integração das comunidades ribeirinhas com a implementação de ações
de Educação Patrimonial alinhadas às iniciativas consolidadas pelo projeto., buscou-se
na presente edição da expedição a adoção de estratégias integrativas por meio da
comunicação e divulgação científica. Iniciativas de comunicação e educação tornam-se
um dos instrumentais mais preciosos na preservação do patrimônio cultural subaquático
para as próximas gerações, pois são elas que contribuirão para uma mudança gradativa
de mentalidades, como de sensibilização da sociedade para com as questões voltadas
ao patrimônio. “Através da educação patrimonial o cidadão torna-se capaz de entender
sua importância no processo cultural em que ele faz parte, cria uma transformação
positiva entre a relação dele e do patrimônio cultural” (CARVALHO; FUNARI, 2009: 5).
RESULTADOS OBTIDOS
De início, foram realizados mergulhos no sítio arqueológico Porto de Piranhas (AL)
no dia 03 de novembro, acompanhando o talude para oeste. O objetivo da atividade foi a
averiguação da área para identificação de novas estruturas que compunham o contexto
de uso da área em séculos anteriores. Apesar do esforços empregados, não observouse novos dados que se somem a ficha de registro do referido sítio arqueológico.
Figura 2: Arqueólogos averiguando o sítio arqueológico Porto de Piranhas. Fonte: idem.

289

No segundo dia, 04 de novembro, no povoado Bom Sucesso (SE), município de
Poço Redondo, vistoriou-se o sítio arqueológico da lancha Moxotó (1917) (AMORIM,
s.d.), como o objetivo de monitorar suas condições de conservação. Como resultado das
inspeções arqueológicas subaquáticas, podemos observar que as mudanças no nível
das águas, com as constantes alterações de vazão da Hidrelétrica de Xingó, propiciou o
deslocamento de sedimentos no sítio, evidenciando partes estruturais, outrora cobertas
por sedimentos, e cobrindo outras partes.
Figura 3: Arqueólogo realizando investigações no sítio arqueológico de naufrágio da
Lancha Moxotó. Fonte: idem

Figura 4: Entrevista com o Sr. Jackson Borges sobre a história do naufrágio da lancha
Moxotó. Fonte: idem.

290

No período da tarde, já em Pão de Açúcar (AL), realizamos a captação de material
audiovisual para produção de conteúdo de divulgação científica para as redes sociais,
onde conversamos com o ambientalista e memorialista local, Sr. Jackson Borges, que
nos relatou sobre a história do naufrágio da lancha Moxotó (1917) e a repercussão do
evento na memória do baixo Rio São Francisco.
Figura 5: Cartilha produzida por meio da parceria da Expedição Científica do Baixo
São Francisco com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal).
Disponível
em:
https://ufal.br/ufal/pesquisa-e-inovacao/programas/expedicaocientifica-do-rio-sao-francisco/publicacoes/cartilha-arqueologia-subaquatica.pdf/view

Figura 6: Divulgação das atividades de pesquisa e da cartilha para a Colônia de Pesca
em Gararu/SE. Fonte: idem.

291

No dia 05 de novembro, em Gararu (SE), foi realizada a divulgação das atividades
de pesquisa arqueológica para os membros da Colônia de Pesca local, onde também
foi divulgada a cartilha produzida em parceria com a 5ª Expedição, que teve sua versão
impressa integrada aos kits didáticos distribuídos para as escolas da região. Ainda
na tarde do presente dia, no município de Traipu (AL), realizou-se um mergulho na
localidade onde foi identificada a âncora de pedra no ano anterior. Contudo, devido à
forte correnteza, não foi possível obtermos novos resultados que ajudem na delimitação
e expansão do conhecimento sobre o sítio arqueológico.
No dia seguinte, 06 de novembro, no município de São Brás (AL), demos
continuidade a captação de materiais audiovisuais para produção de conteúdo de
divulgação científica para as redes sociais, no dia gravou-se conteúdos introdutórios
sobre as ferramentas utilizadas pela Arqueologia subaquática.
No dia 07 de novembro foi publicado nas redes sociais (Instagram e TikTok) o
primeiro conteúdo audiovisual produzido durante a 5ª expedição, intitulado “Moxotó
(1917): O Titanic do Sertão – Parte I”, atualmente com mais de 6 mil visualizações no
Instagram (https://bit.ly/3GcvqyG).
Figura 7: Arqueólogo, Gilson Rambelli, gravando conteúdo audiovisual no município de
São Brás (AL). Fonte: idem.

292

Ainda no dia 07 de novembro, no município de Propriá (SE), gravamos uma
entrevista com o Sr. João Bonfim, antigo navegador do baixo rio São Francisco, que nos
contou sobre as atividades náuticas no passado e o papel das canoas de tolda no fluxo
de pessoas e mercadorias.
Figura 8: Entrevista com o Sr. João Bonfim no dia 07 de novembro em Propriá (SE).
Fonte: idem.

Avançando para o sexto dia, em Neópolis (SE), realizou-se mergulhos no entorno
da antiga área portuária da cidade com objetivo de localizar uma antiga âncora,
existente na paisagem submersa, conhecida por mergulhadores locais. No entanto, não
foi localizada a referida âncora, ficando a sua localização para futuras empreitadas.
No dia 09 de novembro, realizou-se captação de imagens e a pós-produção do conteúdo
audiovisual “Moxotó (1917): O Titanic do Sertão – Parte II”, publicado nas redes sociais
no dia 10 de novembro, atualmente com mais de 6 mil visualizações no Instagram
(https://bit.ly/3jmgLYG).
Figura 9: Vídeo “Moxotó (1917): O Titanic do Sertão – Parte II”, publicado nas redes
sociais no dia 10 de novembro. Fonte: idem.

293

Nos dias 10, 11 e 12 de novembro, enquanto a equipe embarcada desenvolvia
atividades ligadas a divulgação científica do projeto, foi designada a uma equipe de
terra o trabalho de mapeamento dos contextos arqueológicos costeiros, por meio
levantamento prospectivo (não- interventivo) na região da foz do Rio São Francisco,
especificamente, nos municípios de Brejo Grande (SE) e Piaçabuçu (AL). A atividade
teve como objetivo caracterizar e delimitar os sítios arqueológicos outrora identificados
na foz do Rio São Francisco, em edições anteriores da expedição, como levantar
nossos contextos existentes na localidade. Para atingir tal objetivos, realizou-se o
caminhamento intensivo no intuito de identificar, analisar, registrar e georreferenciar os
vestígios arqueológicos localizados.
A metodologia utilizada para realização da pesquisa arqueológica é relativamente
simples e bastante eficaz, trata-se de um levantamento prospectivo não-interventivo
que tem como objetivo caracterizar e delimitar os sítios arqueológicos identificados na
foz do Rio São Francisco. Para atingir tal objetivos, propomos fazer o caminhamento
intensivo no intuito de identificar, analisar, registrar e georreferenciar os vestígios
arqueológicos encontrados na foz.
A delimitação do sítio, se sucedeu tendo como delimitador a própria materialidade,
isto é, após realizar o caminhamento intensivo e identificar, na superfície, a concentração
dos vestígios arqueológicos, fomos marcando no aparelho GPS, os pontos de
concentração de materialidade, e partir disso, definir os limites do sítio arqueológico.
Posteriormente, processamos os dados obtidos do campo em um programa chamado
QGIS, onde foi possível gerar a poligonal do sítio. Cabe enfatizar que todos os sítios
arqueológicos identificados durante a pesquisa foram georreferenciados.
O uso das geotecnologias é imprescindível para o desenvolver da pesquisa
arqueológica, principalmente, o SIG (Sistema de Informações Geográficas) que é uma
ferramenta de tratamento e processamento de dados geográficos. Tal ferramenta
foi fundamental na presente pesquisa, pois utilizamos o GPS, modelo eTrex 10 para
registrar o caminhamento e marcar os pontos onde havia concentração de vestígios
arqueológicos.
Após a etapa de campo, transferimos as informações para o
computador e processamos os dados no software QGIS, onde foi possível gerar um
mapa com as informações obtidas durante os três dias da pesquisa. O mapa contribuirá,
indubitavelmente, na interpretação do contexto arqueológico.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
A princípio, o levantamento prospectivo na região foz do Rio São surge com a
proposta de avaliar o potencial arqueológico atrelado ao contexto do Farol do Cabeço.
O estudo arqueológico contribuirá imensuravelmente para a pesquisa que já está em
processo de construção por um dos pesquisadores do Laboratório de Arqueologia de
Ambientes Aquáticos, que trata, especificamente sobre o Farol do Cabeço. Somandose a isso, o levantamento também faz parte do grande plano de trabalho que vem sendo
desenvolvido em toda a região do Baixo Rio São Francisco.
Iniciamos a pesquisa de campo na região da foz com o intuito de encontrar o
Posto Fiscal e visitar a área onde está localizado o antigo povoado Cabeço e Farol do
Cabeço, atualmente imersos. Sendo assim, pegamos um barco e seguimos em direção
a Ilha de Arambipe, que fica localizado no município de Brejo Grande (SE), próximo ao
povoado Saramém. Chegando na Ilha identificamos o Posto Fiscal, que é basicamente,
uma casa branca com detalhes azuis, construída em cima de uma base feita de pedras
para que possa ficar mais alta, tanto por conta do nível do rio, como para se ter uma
visão privilegiada da região. Assim, a casa encontra-se em um local estratégico, ao lado
do riacho Parapuca e com vista panorâmica para a foz.
Figura 10: Posto Fiscal que fiscalizava as embarcações que passavam pela Foz do Rio
São Francisco. Fonte: idem.

294

Aparentemente, o Posto Fiscal passou por algumas reformas, pois é possível ver
alguns fragmentos de material construtivo, como telhas e tijolos, espalhados no entorno
da área. Na própria estrutura é possível observar que há presença de cimento novo,
destoando da original, o que indica que de fato houve uma reforma.
O Posto Fiscal era a base de chefatura da polícia que fiscalizavam as embarcações
que passavam, trazendo mercadorias, como arroz, sal e madeira. Em alguns casos, as
embarcações, possivelmente as canoas de toldas, adentrava no riacho Parapuca que dá
acesso aos povoados Carapitanga, Ponta dos Mangues, Costinha, Ilha do Sá e Ilha do
Capim.
Figura 11: Posto Fiscal antes dos processos de reforma que levaram a atual configuração
arquitetônica. Fonte: Capitania dos Portos de Sergipe.

295

Figura 12: Riacho Parapuca, onde entravam as embarcações para os povoados. Fonte:
idem.

Nas proximidades do Posto Fiscal, no lado direito, encontramos uma chapa de
ferro que aparenta ser parte de alguma embarcação naufragada por perto e o mar foi
trazendo para perto da areia. Durante a análise do remanescente, decidimos tirar as
medidas da peça, assim, a chapa de ferra tem aproximadamente 125 centímetros de
largura e 45 centímetros de comprimento (125 x 45 cm).
A seguir imagem do remanescente da embarcação 1:
Figura 13: Remanescente da embarcação 1, chapa de ferro. Fonte: idem.

296

Após registro do Posto Fiscal e do remanescente, seguimos em direção da fazenda
Arambipe que aparenta ser uma antiga casa de engenho, com vários anexos, como
capela, galpão, a casa grande centralizada, a torre e outros cômodos que apresentam
ser uma estrutura do período colonial. Antes de adentramos na fazenda, passamos por
uma casa que indicar ser uma casa, onde os guardas ficavam, possivelmente um anexo
do Posto fiscal.
Em seguida, realizamos uma prospecção na beira do rio, seguindo em direção ao
mar, na foz do Rio São Francisco, sentido Farol do Cabeço, para vermos se identificávamos
vestígios durante o caminhamento. Destarte, o resultado foi positivo, pois encontramos,
dispersos, várias concentrações de vestígios arqueológicos, sendo eles materiais
construtivos, cerâmica, louça e vidro. Os fragmentos de louça encontrados durante a
prospecção referem-se a uma faiança inglesa de fabricação Davenport, do século XIX.
Figura 14: Louça inglesa Davenport, 1860. Fonte: idem.

Os vestígios arqueológicos encontrados na beira do rio, próximo a foz,
possivelmente devem ser remanescentes do antigo povoado Cabeço, que foi imundado
com o avanço do mar, após a construção da Usina Hidrelétrica do Xingó, visto que, a
materialidade encontra-se nas proximidades do Foral do Cabeço.
No segundo dia de campo, saímos com destino a Piaçabuçu (AL), do outro lado da foz
do Rio São Francisco para realizar a delimitação dos sítios arqueológicos identificados
pela equipe do LAAA, na expedição do ano anterior (RAMBELLI, BAVA-DE-CAMARGO,
SANTOS, 2021), como também para prospectar a área no intuito de encontrar outros
sítios.
No percurso, durante a ida Dunas de Piaçabuçu, identificamos, a princípio um
remanescente de madeira, em um riacho que passavam entre as dunas. No momento
presente, ao evidenciar a peça, a interpretação foi de que ser uma caverna de alguma
embarcação fluvial e, provavelmente, pode ser uma área de estaleiro, devido ao seu
contexto e a sua localização, próximo ao rio. Vale lembrar que fizemos o registro
fotográfica, o georreferenciamento e realizamos as medidas da peça, sendo assim, o
remanescente de madeira tem um comprimento de 125 centímetros e a largura de 40
centímetros (125 x 40 cm).
Figura 15: Arqueóloga realizando o registro de uma estrutura de madeira associada a
antigas atividades náuticas na foz do São Francisco. Fonte: idem.

297

Após finalizar o registro, continuamos nossa caminhada até as dunas e logo em
seguida, avistamos três barras de ferro, paralelas e equidistante, aproximadamente por
200 metros. Assim, nos aproximamos de cada barra de ferra, evidenciamos, fizemos
todo o registro fotográficos e georreferenciamos. Diante da análise, acreditamos
ser telégrafos que foram instalados para se comunicarem entre si e/ou com outras
comunidades.
Figura 16: Telégrafo e a arqueóloga georreferenciamento do objeto. Fonte: idem.

298

Ao chegarmos nas dunas, onde estão localizados os dois sítios arqueológicos,
decidimos fazer um caminhamento intensivo na área no intuito de observar a
concentração dos vestígios para podermos caracterizá-los e em seguida delimitar o
sítio com base na própria materialidade, partindo do princípio de que os limites da
concentração de vestígios é o define o tamanho do sítio arqueológico.
No primeiro sítio, nomeando de Sítio Arqueológico Dunas de Piaçabuçu 1 está
localizado na duna mais próxima do rio. Nele podemos evidenciar uma concentração
significativa de cerâmica e ferro, além desses vestígios, há presença louça, vidro e
material construtivo (tijolos e telhas). Notamos que esse sítio, em específico, apresenta
ter a maior concentração de vestígios arqueológicos em relação aos outros dois sítios
dunares.
Figura 17: Estudante de arqueologia fazendo o registro fotográfico dos vestígios. Fonte:
Idem.

O Sítio Arqueológico Dunas de Piaçabuçu 2, fica localizado em uma outra duna,
um pouco mais à frente da anterior. Neste sítio, observamos que há uma presença
considerável de materiais domésticos, como louças e vidro, em maior quantidade,
sendo que os vidros são frascos de remédio e garrafa de vidro, e em menor quantidade
cerâmica, alumínio, material construtivo e seixos.
Figura 18: Fragmentos de vidro do Sítio Dunas de Piaçabuçu 2. Fonte: Idem.

299

Após a caracterização e delimitação dos dois Sítio arqueológicos, decidimos
continuar com a nosso caminhamento, intensificando ainda mais a prospecção na
área. O resultado foi mais uma vez positivo, pois identificamos, entre as dunas, uma
concentração pequena de materiais históricos, como vidro, louça e cerâmica. Assim,
resolvemos fazer a delimitação da área e considerá-lo como Sítio Arqueológico Dunas
de Piaçabuçu 3.
Figura 19: Fragmentos de cerâmica identificado no Sítio Arqueológico Dunas de
Piaçabuçu 3. Fonte: Idem.

300

Dando sequência as prospecções arqueológicas na foz do São Francisco, nas dunas
de Piaçabuçu/AL, outros contextos foram identificados. O primeiro contexto, trata-se de
uma concentração bastante significativa de fragmentos arqueológicos, é imensurável a
quantidade de cerâmica, louça (séc. XX), vidro, metal e material construtivo.
Figura 20: Arqueóloga analisando os vestígios arqueológicos do antigo
povoado Pontal da Barra. Fonte: Idem.

Diante do levantamento documental e dos diálogos com os moradores do
povoado Saramém, é bem provável que seja vestígios domésticos das casas dos antigos
moradores que habitavam as margens da foz do Rio São Francisco, no povoado Pontal
da Barra. Além das casas, identificamos também a antiga igreja do povoado e mais uma
concentração de materiais históricos beirando a praia.
Continuando a prospecção nas margens da foz do Rio São Francisco, conseguimos
encontrar a antiga Torre da Atalaia que servia para observar a movimentação das
embarcações, tanto mar quanto no rio. A Torre foi destruída com o avanço do nível do
mar, restando-lhe apenas as bases de toda a estrutura, a qual foi possível identificar,
devido a maré baixa. A seguir imagem da base parcialmente emersa:
Figura 21: As bases da Atalaia antiga. Fonte: Idem.

301

Por fim e tão interessante quanto os demais contextos, foi o último vestígio
arqueológico encontrado nas margens da foz, o terceiro remanescente de madeira. A
peça que apresenta ser de uma embarcação recente, possivelmente um deck, localizada
na parte da proa.
Ao encontrá-la, decidimos primeiro fazer a limpeza, depois uma breve escavação,
retirando um pouco da areia nas laterais para podermos evidenciar melhor a peça e em
seguida, tiramos as medidas e elaboramos um croqui inserido todos os detalhes que
havia na madeira. Assim, o remanescente é formado, na face superior, por três camada
de madeira mais fina, entre essas madeiras há presença de esponjas, e uma camada de
madeira mais grossa, na face inferior, que serve como base estrutural da peça. Ela mede
130 centímetros de altura e 170 centímetros de comprimento (130 x 170 cm).
Figura 22: Arqueóloga tirando as medidas do remanescente da embarcação 3. Fonte:
Idem.

Como mencionado na metodologia, no findar da pesquisar processamos todos os
dados obtidos durante a etapa de campo e elaboramos um mapa com as informações
dos Sítios Arqueológicos. Assim, podemos ver, detalhadamente, através do mapa, a
localização de cada Sítio identificado na foz do Rio São Francisco, visto que todos eles
foram georreferenciada. Sem contar que é possível perceber o potencial arqueológico
associado ao contexto da arqueologia de ambientes aquáticos.
A seguir imagem do mapa do levantamento prospectivo na foz do Rio São Francisco:
Figura 23: Mapa do Levantamento Prospectivo na Foz do Rios São Francisco. Fonte:
Idem.

302

Diante do potencial arqueológico resultado do levantamento prospectivo na
região, compreende-se a importância da pesquisa para mostra a diversidade de
ocupação, que vai desde antes do surgimento do Farol Cabeço até os dias atuais, tendo
o ambiente aquático como um grande demarcador. Por fim, espera-se aprofundar as
discussões a respeito de tais contextos, sabendo que se trata de uma ocupação que
remete ao final do século XIX e início XX.
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em Arqueologia) – Programa de Pós-Graduação em Arqueologia da Universidade
Federal de Sergipe, Laranjeiras, 2013.

304

18. INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS E DESENVOLVIMENTO LOCAL. PONDERAÇÕES PARA AUXÍLIO À COMUNIDADES E
PREFEITURAS MUNICIPAIS A PARTIR DA OBSERVAÇÃO
DA REGIÃO DO BAIXO SÃO FRANCISCO.
Área de conhecimento: Propriedade Intelectual, Inovação e Desenvolvimento Regional
Alexandre Guimarães Vasconcellos76
Tatiane Luciano Balliano77
RESUMO
As indicações geográficas (IGs) são um importante instrumento para o
desenvolvimento regional, na medida que atestam a origem de produtos e serviços que
se tornaram conhecidos e que possuem diferenciais que atraem os consumidores. A
identificação da origem em produtos e serviços que gozam de boa reputação costuma
agregar valor aos mesmos, aumentar de forma consistente a arrecadação de tributos
e atrair maior interesse para as regiões reconhecidas, com desdobramentos positivos
no turismo e na sofisticação das relações de consumo, como o estabelecimento de
rotas temáticas nas regiões com IGs reconhecidas. Estas potencialidades das IGs têm
levado prefeituras de diversos municípios brasileiros a buscarem ativamente este
reconhecimento por parte do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Este
estudo se baseia em metodologia de pesquisa-ação desenvolvida ao longo dos anos
de 2021-2023 com base nas Expedições Científicas do Rio São Francisco e visa, a partir
das visitas à comunidade da Ilha do Ferro envolvidas como o artesanato em madeira e
o bordado boa noite e outras ao longo do Baixo São Francisco, apresentar proposições
para as prefeituras auxiliarem os produtores e prestadores de serviço a construírem
a reputação do seu saber-fazer associado à localidade. A conclusão dessa etapa da
pesquisa é que o passo de construção e consolidação da reputação dos produtos é
de fundamental importância e deve ser dado pela comunidade, apoiada pelo poder
público, para suporte a todos os outros passos necessários para o reconhecimento de
uma IG pelo INPI.
Palavras-chave: indicação geográfica,
sustentabilidade, governança.

desenvolvimento

regional,

prefeitura,

76
Pesquisador Classe Especial III, Divisão de Pós-graduação e Pesquisa da Academia de Propriedade
Intelectual, Inovação e Desenvolvimento do Instituto Nacional da Propriedade Industrial. E-mail: alexguim@
inpi.gov.br
77
Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Instituto de Química e Biotecnologia, Coordenadora do
Mestrado Profissional em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação – PROFNIT/UFAL, Email: tlb@qui.ufal.br.

305

INTRODUÇÃO
Tem-se como um dos marcos mais antigos do sistema de Indicação Geográfica no
mundo o Vinho do Porto, da região do Porto, em Portugal. A região do douro já havia
se tornado conhecida e alcançado grande destaque na produção de vinhos no início
do século XIX e o produto ali produzido tinha grande reputação e valor. No entanto,
comerciantes de outras partes, tentando se aproveitar dessa reputação, misturavam
o vinho da região com outros menos nobres, ou até mesmo chamavam falsamente
bebidas produzidas em outras regiões de “Vinho do Porto” buscando se aproveitar
da reputação já construída pela região. Essa situação causava grande prejuízo aos
produtores da região do douro que se esforçavam e conseguiam produzir um vinho que
já era reconhecido como de altíssima qualidade pelos consumidores de diversas partes
do mundo. Foi então que Marquês do Pombal, de maneira brilhante em 1756, criou um
sistema de regras para garantir a procedência e a qualidade do Vinho do Porto, tornando
essa denominação de origem perceptível e identificável pelos consumidores por meio
de um selo visual associado ao produto. Ao mesmo tempo, buscou coibir dentro e fora
de Portugal as falsas indicações geográficas, de maneira a evitar que todo o trabalho de
construção da reputação dos vinhos do país fosse maculado por oportunistas (Soeiro,
2023).
É digno de nota que as principais ideias utilizadas pelo Marquês do Pombal
servem de base para o sistema de Indicações Geográficas até hoje, como por exemplo,
a delimitação das áreas de cultivo abarcadas pelo reconhecimento através dos “Marcos
Pombalinos”, que hoje se inserem dentro do requisito de delimitação da área da IG
especificada pelo nome geográfico, e o regramento obrigatório partilhado por todos
os produtores da região dignos da utilização do selo de identificação da origem do
produto, hoje denominado “Caderno de Especificações Técnicas”.
Essa pequena história serve de introito para a questão central dessa pesquisa que é dar
suporte informacional para as comunidades envolvidas com a geração de produtos e
prestação de serviços na mesorregião do Baixo São Francisco e para as prefeituras que
as apoiam.
A partir da pesquisa de Lacerda et al (2022) verificou-se a existência do interesse
de prefeituras municipais da região em se buscar o reconhecimento de indicação
geográfica para produtos específicos. No entanto, aclarar o caminho das etapas
relacionadas à construção da reputação dos produtos e serviços, que antecede a busca
pelo reconhecimento de uma IG, torna-se imprescindível.
Dessa forma, o objetivo principal do trabalho é identificar e sistematizar na forma
de proposições os passos que podem ser dados pelas comunidades e pelas prefeituras
que as apoiam para construir a reputação dos produtos e serviços da região, de maneira
a justificar, no futuro, a necessidade do reconhecimento de uma IG.
Apesar de terem sido pensadas a partir da pesquisa realizada no âmbito
das Expedições do Baixo São Francisco, as proposições formuladas na parte final
do capítulo têm caráter mais universal e podem ser utilizadas por comunidades e
prefeituras em outros locais do país visando aperfeiçoar suas produções e serviços,
tornarem-se conhecidas agregando valor aos mesmos e, finalmente, após passarem a
ser identificadas pelos consumidores pelos seus bons produtos e/ou serviços, buscarem
obter o reconhecimento da IG pelo INPI, de maneira a conseguir transmitir de forma
clara para os consumidores o local de origem do produto e, ao mesmo tempo, impedir
que terceiros se aproveitem indevidamente da reputação conquistada pelas regiões.

306

METODOLOGIA
Explicação da metodologia conforme definido em Lacerda et al (2022):
Esta pesquisa utiliza como metodologia técnicas de pesquisa participativa e, em
especial, pesquisa-ação. Conforme definido por Thiollent (1985), a pesquisa-ação é um
tipo de investigação social com base empírica que é concebida e realizada em estreita
associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo no qual os
pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão
envolvidos de modo cooperativo ou participativo.
O planejamento da pesquisa-ação difere significativamente de outros tipos de
pesquisa. Não apenas em virtude de sua flexibilidade, mas, sobretudo, porque, além
dos aspectos referentes à pesquisa propriamente dita, envolve também a ação dos
pesquisadores e dos grupos interessados, o que ocorre nos mais diversos momentos
da pesquisa. Daí porque se torna difícil apresentar seu planejamento a partir de fases
ordenadas temporalmente (Gil, 1991).
Na pesquisa-ação ocorre um constante vaivém entre as fases, que é determinado
pela dinâmica do grupo de pesquisadores em seu relacionamento com a situação
pesquisada. Assim, o que se pode, à guisa de delineamento, é apresentar alguns
conjuntos de ações que, embora não ordenados no tempo, podem ser considerados
como etapas da pesquisa-ação (Gil, 1991).
São eles, segundo Gil (1991):
a)
fase exploratória;
b)
formulação do problema;
c)
construção de hipóteses;
d)
realização do seminário;
e)
seleção da amostra;
f)
coleta de dados;
g)
análise e interpretação dos dados;
h)
elaboração do plano de ação;
i)
divulgação dos resultados.
Dessa forma, o conjunto da pesquisa-ação se serve de uma metodologia
sistemática, não necessariamente linear, que tem a perspectiva de transformar as
realidades observadas, a partir de sua compreensão, conhecimento e compromisso
para a ação dos agentes envolvidos na pesquisa. Portanto, o objeto da pesquisa-ação é
indissociável de seu contexto e os pesquisadores envolvidos devem estar muito cientes
disso e próximos da realidade estudada para não correr o risco de ao tentar analisar um
conjunto de variáveis isoladas sem considerar o contexto, esvaziá-la.”
Desenvolvimento:
a)
Fase exploratória:
A fase exploratória da pesquisa foi constituída pelas visitas de campo ocorridas durante
a IV Expedição Científica do Rio São Francisco, realizada no período de 01 a 10 de
novembro de 2021, e na V Expedição Científica do Rio São Francisco, realizada no
período de 02 a 11 de novembro de 2022, onde foram visitadas algumas associações de
produtores e mantidas conversas com representantes das prefeituras sobre maneiras de
se apoiar o desenvolvimento regional sustentável. Também foi identificado o interesse
de algumas prefeituras em conhecer mais sobre o sistema de indicações geográficas
e sobre a viabilidade de se utilizar o reconhecimento das IGs como instrumento de
apoio aos sistemas produtivos locais, em especial, o bordado boa noite desenvolvido

307

na Ilha do Ferro. A conclusão da primeira fase da pesquisa publicada em 2022 (Lacerda
et al, 2022) apontou que embora o bordado boa noite da Ilha do Ferro já tivesse se
tornada conhecido em várias regiões do Brasil, o que é o principal requisito para o
reconhecimento de uma IG, a organização das bordadeiras na localidade ainda era
incipiente, não havendo ainda o despertar coletivo da necessidade do reconhecimento
de uma IG para a proteção do saber-fazer local contra a utilização indevida do nome da
localidade em bordados feitos em outras regiões.
b) Formulação do problema:
Foi identificado que embora existisse o interesse continuado de algumas prefeituras
na busca do reconhecimento de IGs, fazia-se ainda necessário um trabalho de base
explicativo sobre o momento adequado de se requerer o reconhecimento e, ainda mais
importante que isso, de esclarecimento dos passos necessários e possíveis estratégias
para a construção da reputação dos produtos, o que já poderia imediatamente beneficiar
os produtores.
c) Construção de hipóteses:
A principal hipótese levantada é que na ausência de um trabalho de base junto às
comunidades e prefeituras para auxiliá-las a construir e consolidar a reputação dos
seus produtos, todo o trabalho para ajudá-las a requerer um reconhecimento de IG seria
inócuo.
d) Realização de encontros:
A partir da hipótese construída com base na conclusão do trabalho desenvolvido no
âmbito da IV Expedição Científica do BSF (2021), foi necessário retornar à campo durante
a V Expedição do BSF para encontrar os produtores, identificar suas vulnerabilidades,
necessidades manifestas, expectativas e desejos relacionados ao desenvolvimento de
seus ofícios. Além disso, conversando-se com representantes da prefeituras, identificouse pontos estratégicos onde as prefeituras poderiam contribuir substancialmente para
apoiar o saber-fazer de suas localidades e auxiliar na construção da reputação de seus
produtos.
e) Seleção de caso:
Para essa etapa da pesquisa, voltou-se o olhar para o artesanato em madeira da Ilha do
Ferro. Esse artesanato é desenvolvido na Ilha há bastante tempo e teve como grande
pioneiro e difusor o senhor Fernando Rodrigues, falecido em 2009, conhecido como o
guardião da memória dessa arte na Ilha do Ferro e tido como principal responsável por
ter transformado a Ilha do Ferro em um dos mais expressivos e importantes polos de
produção de arte popular no Brasil. Junto com o artesanato em madeira, a Ilha do Ferro
já é bastante conhecida também pelo bordado boa noite, classificado como Patrimônio
Cultural Regional e especificamente tratado no trabalho de Lacerda (2022).
Caminhando-se pelas ruas da Ilha do Ferro observam-se várias placas do Programa
Alagoas Feito à Mão e, conversando-se com os artesãos, percebe-se uma forte adesão
ao mesmo.
Segundo as informações presentes no site do programa (Alagoas Feito à Mão,
2023): “As ações desenvolvidas pelo programa Alagoas Feita à Mão, executado pelo
Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e
Turismo (Sedetur), são dedicadas ao mapeamento, curadoria, apoio à comercialização,
promoção e preservação das técnicas utilizadas na produção artesanal genuinamente
alagoana, com foco na manutenção da identidade cultural e artística do estado. Como
mais um braço do programa, e resultado de todo o trabalho desenvolvido, nasce a
Galeria Alagoas Feita à Mão.”

308

O programa também conta com uma galeria virtual que visa oferece uma
experiência direcionada para quem quer ter contato direto com o artesão, facilitando o
processo de aquisição e compra.
Interessante notar que a própria galeria virtual do Alagoas Feito à Mão trás um
conjunto de princípios que podem servir de base para pensar a manutenção da cultura
viva artesanal das regiões e relações comerciais justas que ajudem a perpetuar o saberfazer de forma sustentável. São elas:
•
“A valorização do feito à mão faz parte da valorização da nossa cultura e arte;
•
Cada produto artesanal é único e que por trás de cada produção existem um ou
mais artesãos que se dedicam diariamente para desenvolver peças criadas através de
técnicas que foram transmitidas por gerações;
•
Cada criação artesanal é especial por carregar a personalidade do seu autor e
contar uma história;
•
A geração de renda através da atividade artesanal mantém viva tradições;
•
Fazemos parte de um movimento que acredita no comércio justo;
•
É nosso dever fazer a ponte entre produtor e consumidor.”
f) Coleta dos dados:
Em seguimento às atividades de pesquisa desenvolvidas na IV Expedição Científica do
Baixo São Francisco, realizada em novembro de 2021, esse relatório trata dos dados
obtidos, análises efetuadas e primeiros desdobramentos decorrentes da V Expedição.
As seguintes atividades foram previstas no plano de trabalho da V Expedição:
1) Avanço da pesquisa-ação sobre o potencial de indicações geográficas na região do
Baixo São Francisco, com destaque para o bordado boa noite da Ilha do Ferro.
A pesquisa consolidada envolveu:
1.1) Reunião preliminar de informações que apontam que a Ilha do Ferro se tornou
conhecida como local de produção do bordado boa noite.
1.1) Defesa da dissertação da aluna Camila Lacerda durante a V Expedição no dia 04
de novembro por videoconferência e com participantes in loco no Município de Pão de
Açúcar.
1.2) Ida à Ilha do Ferro para atividades de empreendedorismo junto à comunidade e
roda de conversa sobre a importância das Indicações Geográficas para a valorização
dos produtos regionais.
1.3) Ida à Comunidade Indígena Aconã para identificação da situação ambiental, de
saúde e escolar e construção de propostas para auxiliar na melhoria da qualidade de
vida na comunidade.
1.4) Ida à Associação Aroeira em Piaçabuçu para identificar os avanços na área de
cultivo e conversar sobre o potencial das indicações geográficas para a valorização dos
produtos regionais produzidos.
2) Estudo do potencial de inovação em bioprodutos.
No que tange à pesquisa-ação sobre o potencial da Indicação Geográfica na
Ilha do Ferro foi produzido um capítulo de livro onde foram levantadas relevantes
informações em veículos de comunicação que apontam o alcance da notoriedade do
bordado produzido na região. Esse trabalho de base é fundamental para dar suporte
a um futuro pedido de reconhecimento de uma indicação geográfica, pois segundo os
artigos 176, 177 e 178 da Lei 9.279 de 1996 observam-se: “ Art. 176. Constitui indicação
geográfica a indicação de procedência ou a denominação de origem.

309

Art. 177. Considera-se indicação de procedência o nome geográfico de país,
cidade, região ou localidade de seu território, que se tenha tornado conhecido como
centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação
de determinado serviço.
Art. 178. Considera-se denominação de origem o nome geográfico de país, cidade,
região ou localidade de seu território, que designe produto ou serviço cujas qualidades
ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio geográfico, incluídos
fatores naturais e humanos.”
Por força da lei fica claro que a Indicação Geográfica só pode ser reconhecida
quando a localidade tenha se tornado conhecida na produção ou fabricação de
determinado produto e, no caso específico, reunir elementos de prova nesse sentido é
o trabalho mais importante a ser feito.
Essa etapa do trabalho foi consolidada no capítulo de livro produzido por Lacerda,
Balliano e Vasconcellos (2022).
Durante a V Expedição o trabalho avançou com a defesa da dissertação de
mestrado da aluna Camila Lacerda, orientada em conjunto pela Profa. Dra. Tatiane
Luciano Balliano e pelo Prof. Dr. Alexandre Guimarães Vasconcellos.
Primeiro plano de ação:
A partir do estudo realizado com êxito e aprovação unânime da banca, que contou
com conversas com Secretários e servidores da Prefeitura de Pão de Açúcar, visitas
de campo e a realização prévia de oficinas com as bordadeiras, onde foram passadas
as primeiras noções do que é uma Indicação Geográfica e uma Marca Coletiva e da
visita do Prof. Alexandre à localidade no dia 04 de novembro de 2022 com conversas
com várias bordadeiras e artesãos de peças em madeira, formulou-se uma carta de
recomendação ao Prefeito de Pão de Açúcar e Autoridades com a expectativa de
dinamizar a valorização sustentável das atividades artesanais da Ilha do Ferro.
A carta apresentou o seguinte teor:
Excelentíssimo Prefeito e Autoridades Competentes,
No dia 04 de novembro de 2022, no âmbito da V Expedição Científica do Baixo
São Francisco, a então agora mestra Camila Lacerda defendeu sua dissertação de
mestrado intitulada: “ESTUDO DA VIABILIDADE DA INDICAÇÃO GEOGRÁFICA DO
BORDADO BOA NOITE PRODUZIDO NA ILHA DO FERRO NO SERTÃO DE ALAGOAS”.
Este trabalho teve como objetivo central trazer à tona os elementos-chave referentes
às possibilidades de uma indicação geográfica para o bordado Boa Noite produzido
pelas bordadeiras da Ilha do Ferro situada no município de Pão de Açúcar. Entretanto,
no decorrer do estudo, muitos elementos marcantes foram destacados, não somente
relativos ao bordado, bem como, referentes à prática do artesanato em madeira. Diante
disso e da avaliação da banca examinadora do referido trabalho, resolvemos pontuar
alguns aspectos que são passíveis de atenção e que estão no caminho da valorização
sustentável dessas atividades artesanais tão promissoras para a comunidade da Ilha do
Ferro, para a região do Baixo São Francisco e para o estado de Alagoas. São eles:
1. Elaboração e execução de um projeto arquitetônico com melhoramentos relacionados
ao design do prédio onde fica localizada a cooperativa das bordadeiras, para que
represente em sua estrutura, decoração e arquitetura o ambiente cultural ali existente, a
história e a identidade do Bordado Boa Noite. Essa ação contribuirá para o conforto no
local de trabalho das bordadeiras, para o associativismo e para reforçar a notoriedade
alcançada pelo Bordado Boa Noite, podendo inclusive ser um polo de visitação para

310

todos os interessados na arte desenvolvida na ilha;
2. Sustentabilidade da matéria-prima do pau pereiro utilizado no artesanato em madeira,
com distribuição e cultivo de mudas de plantas e campanhas de conscientização para a
preservação e manutenção da espécie vegetal, tanto na ilha quanto em todo o município;
3. Criação de associação unificada com foco no saber-fazer da Ilha do Ferro, englobando
tanto as bordadeiras quanto os artesãos;
4. Oficinas de treinamento promovidas pelo poder público e Sebrae criando modelo
de negócio a fim de otimizar o tempo de entrega das encomendas, inclusive com a
remodelação das peças do bordado;
5. Rotas de acesso à ilha com estrutura adequada para recepção de turistas;
6. Ações sociais voltadas à conscientização das crianças e adolescentes sobre a
importância dos trabalhos artesanais desenvolvidos na ilha, com o propósito de
reconhecimento, valorização e manutenção das artes ali praticadas aliadas ao princípio
da sustentabilidade;
7. Promover maior interação das bordadeiras do Boa Noite com bordadeiras de outras
regiões, como as do Bordado Filé da região das Lagoas de Mundaú e Manguabá, para
visualização dos benefícios da Indicação Geográfica já reconhecida.
Fazemos votos de que o diagnóstico realizado na pesquisa da Mestra Camila Lacerda,
junto com a atuação do poder público e todos os atores sociais envolvidos possa se
desdobrar em ações em continua parceria que contribuam para a agregação de valor
aos produtos artesanais da Ilha do Ferro, para a preservação e valorização da identidade
dos produtos e da cultura local, para a melhoria da qualidade de vida na região e para
a sustentabilidade ambiental. Colocamo-nos à disposição. Atenciosamente, “
O documento produzido tem total relação com a metodologia de pesquisaação utilizada na pesquisa que conforme definido por Thiollent (1985), é um tipo de
investigação social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação
com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo no qual os pesquisadores e
os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo
cooperativo ou participativo.
Como destaque especial para o futuro das pesquisas na Ilha do Ferro está a
construção da visão de sustentabilidade da utilização das matérias-primas entre todos
os atores sociais envolvidos e ações locais, em especial na multiplicação, uso em
programas de reflorestamento e disponibilização da árvore do pereiro, pois de nada
adianta o reconhecimento da atividade artesanal da região se o aumento da demanda
implicar na própria destruição dos recursos naturais envolvidos.
Nesse sentido, a visita à comunidade da Ilha do Ferro no dia 04 de novembro de
2022, foi fundamental para compreender como a comunidade está envolvida em torno
dos ofícios de produção do bordado boa noite e do artesanato em madeira.
Verificou-se que apenas 12 mulheres estão organizadas em Cooperativa (Art-Ilha) e que
a maioria das mulheres prefere trabalhar em casa, coordenando o trabalho do bordado
com os afazeres domésticos. Observou-se que muitas prezam por essa liberdade
de local e horário para realização do trabalho do bordado. Além disso, ficou clara a
opção das mulheres pela venda direta das peças ao consumidor em suas casas e que a
participação em um local de produção como a cooperativa, que envolve custos, seria
uma despesa a mais a ser considerada.
No que tange ao ofício do artesanato em madeira, verificou-se que a atividade
é desempenhada predominantemente por homens. Diz-se aqui predominantemente,
e não exclusivamente, pois, recentemente, uma mulher da comunidade passou a fazer
peças assinadas com seu estilo próprio.
Esse trabalho é normalmente feito em oficinas onde os artesãos dividem ferramentas e
maquinários:

311

Figura 1: Oficina de trabalho onde homens partilham ferramentas e maquinário para a
produção do artesanato em madeira. Local: Ilha do Ferro.

Figura 2: Cadeira com formato zoomórfico produzida na Ilha do Ferro. Detalhe para a
presença de assinatura na peça.

312

Figura 3: Cadeira produzida e à venda na Ilha do Ferro. Destaque para a informação de
que cada artesão define o preço de sua peça e a coloca diretamente à venda.

Figura 4: Artesanato em madeira fabricado e vendido na residência do artesão na Ilha
do Ferro. Destaque para a peculiaridade das peças que seguem uma perspectiva autoral
bastante distinta das peças que costumam ter a identidade da Ilha do Ferro.

313

Figura 5: Loja de grife de roupas em Paraty, Rio de Janeiro, em que o branding da loja
se concentra em peças de madeira de pereiro oriundas da Ilha do Ferro, Alagoas.

Pelas informações e figuras acima expostas fica claro que o artesanato em madeira
da Ilha do Ferro já se tornou conhecido e apreciado em muitos lugares. No entanto, a
identificação da origem como elemento de diferenciação das peças não foi observada
em nenhum local onde as peças foram localizadas fora de seu local de origem na Ilha do
Ferro. Talvez os artesãos da Ilha do Ferro ainda não se deem conta do valor que poderia
ser adicionado ao seu artesanato em função da identificação de seu local de origem.
Outro ponto que merece destaque é que a madeira do pereiro, que é utilizada em
grande medida e que caracteriza, por seu “esgalhamento”, os traços característicos do
artesanato em madeira da Ilha do Ferro, está vulnerável por sua crescente utilização,
sem que tenha sido identificado, até o presente momento, iniciativas para a produção
sustentável desta nobre matéria-prima.
Dessa forma, em poucas palavras, a conclusão do diagnóstico do potencial
de Indicação Geográfica para o artesanato em madeira da Ilha do Ferro é que
qualquer iniciativa por parte da comunidade e do poder público da região para o seu

314

reconhecimento deverá vir acompanhada, de maneira indissociável, de um plano de
manejo dos estoques naturais das árvores do pereiro na região e, além disso, de um
trabalho de produção sustentável da espécie na região. É digno de ênfase que a questão
da necessidade do plantio do pereiro na região para alimentar a cadeia de suprimentos
do artesanato em madeira na Ilha do Ferro deve ser observada como uma oportunidade
ímpar de surgimento de um novo nicho de mercado ainda inexplorado na região.
Além de ser um potencial negócio, o plantio comercial sustentável do pereiro necessitará
para o seu êxito de profissionais habilitados em diversos campos, dentre eles: o da
agronomia, produção florestal, biologia, administração de empresas, marketing, vendas,
entre tantos outros.
Para a VI expedição, nosso grupo de pesquisa concentrará os esforços, de acordo
com o plano de trabalho que será apresentado, em pesquisar e tentar desenvolver
estratégias para articular o caminho para o futuro reconhecimento de uma IG para o
artesanato em madeira da Ilha do Ferro com propostas para a produção sustentável da
árvore do pereiro na região.
Sobre a interação com a comunidade indígena Aconã:
No que tange ao trabalho de interação e familiarização com a comunidade
indígena Aconã, iniciada durante a IV expedição, constatou-se um grande avanço nas
conversas com o Cacique Saraiva, sua filha Suriana, o Pajé Reinaldo e o Sr. Rafael. Uma
relação de confiança e amizade se estabeleceu a partir da ação solidária da expedição
em atender à demanda de água, alimentos e ações de saúde durante a emergência
de chuvas na região que tornou a estrada intransitável. A proximidade tornou-se tão
grande que fomos convidados pelo Cacique a visitar a Aldeia na Expedição de 2022
e partilhar o almoço com sua família. Além disso, fomos convidados a visitar a terra
sagrada dos Aconãs, onde acontece a celebração do Ouricuri. Destaca-se que esta área
sagrada não costuma ser aberta a não preparados e não índios, e o convite que nos foi
feito e relatado por eles baseou-se nessa atmosfera de pertencimento e familiaridade.
Ao longo das conversas e dos relatos nos foi dito que as crianças mais velhas
estudam em Pão de Açúcar e que uma vã da prefeitura os leva para a escola. No entanto,
os mais novos não dispõem de nenhum acesso à escola fora da aldeia e o domicílio
de um parente que era usado como escola para eles não está mais disponível pois o
parente casou e precisou da casa. Sendo assim, as crianças pequenas não dispõem de
nenhum espaço formal para seus estudos. Além disso, como nos comunicou o senhor
Rafael, os jovens estão perdendo contato com a língua e, até o momento, não existe
nenhum ação ou projeto visando esse resgate cultural.
Como desdobramento da V Expedição está a tentativa de compreender as
dificuldades que estão obstaculizando a construção de uma escola indígena na aldeia.
Além do conforto físico que um espaço adequado proporciona, uma escola pensada na
concepção educacional deles poderá ser um local de transmissão cultural valioso, onde
estejam presentes a língua, os hábitos e os costumes próprios.
Em relação à pesquisa sobre inovação em bioprodutos e ida à Associação Aroeira
para reflexões sobre o potencial de IG para a pimenta-rosa em Piaçabuçu, verificamos
que foram conseguidos avanços em relação à produção de mudas na cooperativa, à
utilização do microtrator e o cultivo de espécies. No entanto, a construção que serviria
ao banco de sementes ainda está inoperante e esforços devem ser envidados para que
entre em operação.
A pimenta-rosa produzida pela associação necessita de um trabalho de divulgação
para se tornar mais conhecida dentro e fora da região. A construção dessa reputação é
peça chave para nortear um eventual pedido de reconhecimento de uma IG no futuro.
A pesquisa com os bioprodutos está se desenvolvendo além da expedição. Apesar da
Profa. Tatiane não ter podido participar da expedição em função de estar acometida

315

por Covid, fui convidado para participar do projeto de pesquisa com a jurema-preta e
um trabalho conjunto já está sendo escrito para a apresentação em um congresso da
área.
REFERÊNCIAS
Alagoas Feito à Mão. Website, 2023. Disponível em: https://alagoasfeitaamao.com.br/
BRASIL – Lei de Propriedade Industrial – Lei nº 9.279, de 14 de maio de 1996. Disponível
em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9279.htm>. Acesso em: 09 de abril
2022.
Lacerda, C. M. ESTUDO DA VIABILIDADE DA INDICAÇÃO GEOGRÁFICA DO BORDADO
BOA NOITE PRODUZIDO NA ILHA DO FERRO NO SERTÃO DE ALAGOAS. Dissertação
de Mestrado. PROFNIT, Alagoas; 2022.
Lacerda, C., Balliano, T. L., Vasconcellos, A.G. INDICAÇÕES GEOGRÁFICAS NA
REGIÃO DO BAIXO SÃO FRANCISCO: PROSPECÇÃO DE CAMPO PARA AVALIAÇÃO
DO POTENCIAL PARA NOVOS RECONHECIMENTOS, COM DESTAQUE PARA A ILHA
DO FERRO. In: O Baixo São Francisco: características ambientais e sociais (volume II).
Emerson Carlos Soares, José Vieira Silva e Themis Silva [orgs.]. Maceió, AL; EDUFAL;
2022.
Soeiro, A. Factores históricos e razões de fundo. Website. Disponível em: https://
agriculturaemar.com/indicacoes-geograficas-e-denominacoes-de-origem-protegidasporque-protegidas-para-que-protegidas-quais-e-como/
THIOLLENT, M. Metodologia de pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 1985.

316

19. ANTROPOLOGIA EM EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS: RELATO
DE UMA EXPERIÊNCIA NO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Antropologia dos territórios tradicionais
Ulisses Neves Rafael78
RESUMO
A tradição de pesquisa de campo na antropologia encontra nas expedições
científicas do século XIX um importante impulso. Na atualidade, esse tipo de atividade
tem se tornado cada vez mais escassa, razão pela qual a presença antropológica na V
Expedição Científica do Baixo São Francisco se apresenta com momento privilegiado
para o desenvolvimento de uma perspectiva analítica sobre uma área investigativa
extremamente complexa e diversificada em termos socioculturais. Nesta experiência,
buscou-se traçar um mapa das comunidades tradicionais situadas no circuito da
Expedição, ampliando significativamente o arco de abrangência da categoria para incluir
territórios, cuja regulação envolveu procedimentos técnicos e jurídicos na tramitação do
seu reconhecimento e titulação, como no caso de sociedades indígena e quilombolas.
A pesquisa também incorporou agrupamentos envolvidos em processos recentes de
ocupação, como integrantes de acampamentos e assentamentos de reforma agrária
organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), além de
comunidades constituídas de pescadores e de artesãos tradicionais.
Palavras-chave: Territórios tradicionais; Comunidades originárias; Artesãos; Colônias de
pescadores; Celebrações.

78
Professor titular do Departamento de Ciências Sociais e membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia, ambos da Universidade Federal de Sergipe.

317

INTRODUÇÃO
Este relatório propõe apresentar o levantamento geral acerca da participação
antropológica na V Expedição Científica do Baixo São Francisco, ocorrida entre os dias
03 e 12 de novembro de 2022, a qual percorreu durante dez dias, nove municípios situados
nas duas margens do rio, quais sejam, do lado alagoano: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu,
São Braz, Penedo e Piaçabuçu, e do lado sergipano, os municípios de Gararu, Propriá e
Brejo Grande.
O curto espaço de tempo disponível para permanência em cada município e a
extensa área de 250 km coberta pela expedição, teve efeito decisivo sobre a abordagem
adotada, a qual consistiu basicamente em rápidas incursões às comunidades envolvidas
e a realização de entrevistas dirigidas com um número reduzido de interlocutores chave,
cuja presença na localidade se destacava pelo grau de participação na vida social local e
pela influência sobre os demais integrantes do grupo selecionado.
A ênfase maior recaiu sobre populações tradicionais, aqui entendidas como comunidades
locais mobilizadas em torno da luta comum pelo direito à terra, “que expressa uma
identidade coletiva reivindicada com base em fatores pretensamente primordiais, tais como
uma origem ou ancestrais em comum, hábitos, rituais ou religiosidade compartilhados,
vínculo territorial centenário, parentesco social generalizado, homogeneidade racial,
entre outros (ARRUTI, 2006, p. 38-39).
A partir dessa perspectiva, buscou-se traçar um mapa das comunidades tradicionais
situadas no circuito da Expedição, ampliando significativamente o arco de abrangência
da categoria para incluir, populações envolvidas em “processo de territorialização”, termo
utilizado para se referir ao “conjunto de procedimentos e efeitos por meio dos quais um
‘objeto político-administrativo’, tal como os ‘grupos indígenas’ e também ‘imigrantes’,
‘assentados’ ou ‘comunidades remanescentes de quilombolas’, convertem-se em uma
coletividade organizada, unificada por meio de uma identidade própria, por uma série
de mecanismos que decidem sobre a representação, assim como por uma série de
reestruturações das suas formas culturais” (ARRUTI, 2006, p. 41). Assim sendo, além dos
territórios, cuja regulação envolveu procedimentos técnicos e jurídicos na tramitação do
seu reconhecimento e titulação, como no caso de sociedades indígena e quilombolas; a
pesquisa também incluiu agrupamentos envolvidos em processos recentes de ocupação,
como integrantes de acampamentos e assentamentos de reforma agrária organizados pelo
Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), além comunidades constituídas
de pescadores e de artesãos tradicionais.
As informações obtidas através do levantamento bibliográfico preliminar foram
complementadas, durante a participação na Expedição, com a realização de levantamentos
antropológicos através de incursões nos municípios previamente selecionados pelos
organizadores da atividade. A ênfase maior recaiu, como já dito, sobre as comunidades
tradicionais, entre as quais a aldeia indígena dos Wakóna (ou Aconã, conforme Hohenthal,
1960); e as comunidades quilombolas Tabuleiro dos Negros e Oiteiro em Penedo/AL
e Brejão dos Negros em Brejo Grande/SE. Além desses territórios de remanescentes,
foram abarcados também pelo primeiro inquérito social, as colônias de pescadores dos
municípios de Piranhas, Pão de Açúcar e Piaçabuçu em Alagoas, e de Gararu em Sergipe,
onde observamos os modos de fazer coletivos; bem como o Assentamento Gastone
Beltrão (Chico Mendes) no município de Olho d’Água do Casado/AL e o Acampamento
Estrela, em Propriá/SE, com a finalidade de acompanhar as formas de exploração do
ecossistema, principalmente no que diz respeito ao registro dos saberes tradicionais
inscritos nos usos e consumo das chamadas Plantas Alimentícias Não Convencionais
(PANC). Por fim, fizemos também uma breve incursão ao povoado Ilha do Ferro situado
na mesorregião sertão alagoano e pertencente ao município de Pão-de-Açúcar/AL, a fim
de observar as especificidades do trabalho artístico ali encontrado, como as esculturas
em madeira, inspiradas na fauna e na flora locais e que deram notoriedade ao povoado,

318

juntamente com o bordado Boa-Noite (Cf. ROCHA, 2017).
No tocante às comunidades quilombolas, particularmente, chama a atenção à
ênfase que os moradores emprestam à realização de celebrações como marcadores
de diferenças e como espaços de fronteiras, que demarcam, distinguem, separam e
permitem contatos entre moradores e visitantes79 . O motivo para escolha desse recorte
específico relacionado às festas religiosas decorre do significado e da importância que
essas expressões coletivas privam nos discursos nativos, ocupando também um lugar
especial no calendário das atividades sociais de todo o Baixo São Francisco. Por exemplo,
o ciclo de celebrações do Bom Jesus dos Navegantes, que acontece na maioria dos
municípios da região, cada qual se alternando numa data específico do mês de janeiro,
de modo a não comprometer o fluxo dos devotos e dos competidores das tradicionais
corridas de canoas, apresenta-se como elemento crucial para o apaziguamento dos
conflitos internos. Remanescentes que já obtiveram reconhecimento oficial de seus
direitos territoriais, situações de conflito interno que se apresentem cotidianamente e
que resultem em disputas simbólicas são dirimidas por ocasião das celebrações religiosas
e das festas populares.
Na sequência, será apresentado um panorama das principais comunidades visitadas
em função da questão sociológica específica que resulta da condição de existência da
população residente. Contudo, antes dessa apresentação, faz-se necessária uma rápida
incursão pelo tema das expedições científicas e sobre a importância que elas possuem
na constituição da antropologia como disciplina científica no mundo e seu papel na
consolidação de uma ciência antropológica brasileira.
PANORAMA DAS EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS NO SÃO FRANCISCO
O panorama das expedições científicas que percorreram o rio São Francisco ocupa
um interesse particular neste relatório. Entre as referências que mais regularmente
despontam estão as dos naturalistas alemães Spix e Martius que realizaram a viagem ao
longo do São Francisco, desde a parte alta do sertão, os Gerais, na altura da localidade
hoje conhecida como Januária, mas se afastando constantemente de suas margens para
explorar regiões mais distantes, como por exemplo, a capital da Bahia, entre outras, até
retornar a algum trecho adiantado do rio, como o município de Juazeiro/BA, com destino
a Oeiras, antiga capital do Piauí.
Durante a Viagem pelo Brasil (1817-1820), título do livro publicado em 1823, os
naturalistas alemães foram anotando as formas estranhas de árvores, de folhagem, de
frutas e de plantas de comprovada propriedade terapêutica, além de toda variedade
de gêneros e de espécies das classes superiores do reino animal, como os mamíferos,
os grandes anfíbios, jiboias e jacarés, diferentes espécies de abelhas e toda uma gama
de curiosidades zoológicas; sem deixar de fora aquilo que eles chamavam “agradáveis
distrações”, para se referir às formas de sociabilidades e costumes associados às “festas
da igreja” (SPIX & MARTIUS, 2017, p. 126).
Tendo sido recomendado por Von Martius e outros pesquisadores estrangeiros,
em 1838, o botânico escocês George Gardner também empreendeu uma viagem pelas
79
O uso que se faz aqui da ideia de celebrações inspira-se nas orientações do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) que define a atividade como: rituais e festas que marcam a vivência
coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras práticas da vida social (CELEBRAÇÕES,
2004). No próprio portal do IPHAN encontra-se definição mais completa: Celebrações são ritos e festividades que marcam a vivência coletiva de um grupo social, sendo considerados importantes para a sua cultura,
memória e identidade, acontecem em lugares ou territórios específicos e podem estar relacionadas à religião,
à civilidade, aos ciclos do calendário etc. São ocasiões diferenciadas de sociabilidade que envolvem práticas
complexas e regras próprias para a distribuição de papéis, preparação e consumo de comidas e bebidas, produção de vestuário e indumentárias, entre outras manifestações culturais. http://portal.iphan.gov.br/fototeca/
detalhes/15/fototeca-registro-de-celebracoes

319

províncias do Norte para explorar as suas riquezas botânicas da região. A experiência
resultou na publicação da obra, Viagem ao interior do Brasil: principalmente nas províncias
do Norte e nos distritos do ouro e do diamante durante os anos 1836 -1841, publicada
em 1846, na Inglaterra, e somente traduzida para o português em 1942. Interessa, aqui,
destacar o trecho da viagem realizada ao rio São Francisco, aonde chega proveniente
de Maceió, numa jangada fretada para levá-lo ao longo da costa até “a pequena aldeia
chamada Peba, situada acerca de cinco léguas ao norte da embocadura do Rio São
Francisco” (GARDNER, 1942, p. 89). A partir desse trecho, a distância de 18 km até
Piaçabuçu foi percorrida em carro de boi. Para perfazer o leito do rio até Penedo,
Gardner alugou uma canoa grande. A viagem a partir daí, que tinha por destino
a grande cachoeira de Paulo Afonso, precisou ser interrompida na altura da Ilha de São
Pedro onde a comitiva foi atingida por uma forte tempestade, e Gardner foi acometido
por febres e forte ataque de disenteria. Nessas condições, o grupo precisou retornar a
Penedo.
Em 1859, Avé-Lallemant também realizou viagem solitária pelas províncias da
Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Resultou desse périplo a publicação em 1860 do
livro intitulado Viagem pelo Norte do Brasil. Interessa, aqui, destacar as passagens e as
menções ao rio São Francisco, ao qual acessou através de Penedo, aonde chegou, vindo
a cavalo, desde Alagoas, atual, Marechal Deodoro/AL. O percurso no Baixo foi feito por
canoa: “barcos fluviais compridos, bem construídos. de fundo chato, cerca de 40 pés
de comprimento, 6 de largura e 2 de fundo. Na proa, uma espessa coberta de folhas de
palmeira” (AVÉ-LALLEMANT, 1961, p. 304).
Quase na mesma época, o Imperado Dom Pedro II também realizou uma viagem
exploratória pelo Baixo São Francisco a bordo do vapor “Pirajá”, navio pioneiro na
navegação na região. Segundo Abelardo Duarte, “a aventura imperial abriu caminho à
navegação à vapor (...) embora somente em 3 de agosto de 1867 – decorridos oito anos
da viagem imperial – se verificaria a inauguração da navegação a vapor no São Francisco
desde o Penedo até Piranhas” (DUARTE, 2010, p. 76). A comitiva composta pelo vapor
real Apa; pelo vapor Pirajá que antecedia o pavilhão imperial, e pelos vapores Amazonas
e o Gonçalves Martins, alcança a foz do São Francisco no dia 14 de outubro de 1859,
sendo ali recepcionada pela canhoneira à hélice Iguatemi e pelo o brigue-escuna Xingu,
ambos pertencentes à estação naval de Pernambuco; a canhoneira a vapor Itajahy (da
estação da Bahia); o vapor Valeria, proveniente da capital de Sergipe; a catraia Piauitinga
e finalmente o vapor de reboque Aracaju, comandado por Manoel Francisco dos Santos,
da Associação Sergipense. A primeira parada acontece na de Piaçabuçu, “província de
Alagoas”, onde o Imperador foi recebido “com laços de diversas cores atados em varas
e uma música de rebecas e outros instrumentos vindos de Penedo” (BEDIAGA, 1999, p.
20). No percurso até a Cachoeira de Paulo Afonso, o Imperador percorreu as localidades
hoje conhecidas como Penedo, onde se demorou mais tempo, Propriá, Porto Real do
Colégio, Traipu, Pão de Açúcar e Piranhas, a partir de onde faz o caminho até Paulo
Afonso a cavalo, acompanhado por mais de 140 cavaleiros.
Importante destacar que, antes dessa viagem, o Imperador havia incumbido o
engenheiro Fernando Halfeld a tarefa de fazer uma vistoria acerca das condições de
navegação sobre as águas do rio São Francisco e seus afluentes, “analisando légua por
légua (...), desde a Cachoeira da Pirapora até ao Oceano Atlântico (HALFELD, 1860, p. 1).
Por fim, tem-se os inquéritos ecológicos e sociológicos que o antropólogo americano
Donald Pierson, juntamente com sua equipe de cientistas sociais da Escola Livre de
Sociologia e Política, empreendeu ao longo de dois meses, entre fins de abril e começo
de junho de 1950, uma série de levantamentos sociais em dez cidades situadas ao longo
do rio, desde a área das cabeceiras, em Minas Gerais (Alto do Vale), até a área de cultivo
de arroz no trecho perto da foz. Para dar conta dessa extensa área, Pierson selecionou em
cada uma das cinco áreas do Vale do São Francisco, cinco pares de localidades diferentes.
Coube ao “Baixo”, porção navegável de Piranhas até o mar, a escolha do município de

320

Passagem Grande e do vilarejo de Cuscuzeiro, ambos localizados na margem esquerda do
rio, estando o último um pouco mais perto da Foz. Trata-se de nomes fictícios utilizados
com a finalidade de proteger o anonimato dos moradores, embora sobre Passagem Grande
se costuma dizer que corresponde hoje à cidade de Piaçabuçu, no Estado de Alagoas (Cf.
MAIO et al. 2013, p. 275). Resultou dessa experiência o volumoso material finalizado em
1959, mas só publicado em 1972, dividido em três tomos e intitulado O homem no Vale do
São Francisco. O primeiro volume trata basicamente das características físicas da região,
incluído aí também o tipo de clima, estação, vegetação e espécies animais nativas, além
do levantamento histórico sobre os principais grupos originários. O segundo tomo trata
da gente, em termos das características populacionais, tipos de hábitos alimentares,
habitação, vestuário, doenças e formas de sobrevivência. Particularmente, nos interessa
o terceiro volume, pois se aproxima mais do intento relatado neste relatório, qual seja,
a análise dos aspectos sociais e culturais das comunidades, a saber: etiqueta, família,
compadrio, rituais, cerimônias e crenças, comportamento político, entre outros.
Na sequência, vão ser apresentados os resultados das visitas realizadas durante
os dez dias da V Expedição realizada em novembro último. Segue-se o fluxo do rio no
trecho do Baixo São Francisco, começando pelo relato da conversa com duas lideranças
do assentamento Gastone Beltrão, situado no município de Olho d’Água do Casado/AL e
como parâmetro comparativo, será trazida a experiência junto ao acampamento Estrela,
no Município de Propriá/SE. Em seguida, será tratada a visita ao povoado Ilha de Ferro,
município de Pão de Açúcar/AL, segunda parada da Expedição e as entrevistas com
os artesãos da comunidade. A terceira abordagem será sobre a comunidade indígena
dos Aconã, situada no município de São Braz/AL. Continuando, serão apresentados três
territórios quilombolas situados, dois deles, no município de Penedo/AL e um terceiro no
município de Brejo Grande/SE. Por fim, as informações vão girar em torno das atividades
pesqueiras desenvolvidas ao longo do percurso realizado pela Expedição, com especial
atenção aos pescadores das colônias de Pão de Açúcar/ AL, Gararu/SE e Piaçabuçu/AL.
TERRITÓRIOS DE OCUPAÇÃO RECENTE
Famílias assentadas e acampadas
O assentamento Gastone Beltrão (Chico Mendes) se localiza no município de Olho
d’Água do Casado/AL situado na microrregião alagoana do Sertão do São Francisco e
dentro do perímetro do semiárido brasileiro. Embora fora do roteiro da Expedição, que
previa apenas os municípios localizados às margens do rio, a visita ao assentamento se
mostrou extremamente útil, pois possibilitou compreender as dinâmicas socioculturais em
territórios que foram ou estão em processo declarado de disputa fundiária. O acesso ao
local foi facilitado pela presença do engenheiro da antiga EMATER que presta assistência
técnica às comunidades locais80 . No local, encontravam-se José da Silva Santos, mais
conhecido como Zé Neto, jovem liderança do Movimento dos sem Terra no Alto Sertão e
José Wellington dos Santos.
Zé Neto tem 29 anos e durante a entrevista falou de sua entrada no Movimento,
desde os 15 anos, trajetória esta marcada pelo preconceito. Falou da situação dos
assentamentos em Alagoas e sobre o crescimento da participação das mulheres na luta
pela terra, a exemplo da liderança feminina no assentamento vizinho, Nova Esperança.
Quanto às formas de exploração da terra, falou do plantio de feijão, do milho e da palma,
principalmente, voltada para a criação do gado leiteiro. No assentamento, também se
verifica a criação de galinhas, porcos e ovelhas. Atualmente, vem se desenvolvendo no
80
Imprescindível o apoio prestado pelos técnicos em agropecuária na maioria dos municípios visitados.
Particularmente de extrema importância para esta pesquisa, foi o apoio de Nicolas em Olho d’Água do Casado, Josival Moreira (Val) e Jorge Luiz em Propriá e, principalmente Cinthia Cristina, Antonio César e Darlan
em Igreja Nova e Penedo. A todos um agradecimento especial.

321

local a apicultura e a fabricação do mel.
José Wellington dos Santos, por sua vez, contou que aderiu ao MST em 2003.
Desde então, a sua trajetória tem sido marcada por processos constantes de ocupação
e expulsão. Encontra-se assentado no Gastone Beltrão desde 2006 onde há 12 famílias,
cada qual ocupando um lote de 14 hectares indivisíveis e não podendo ser transmitida
aos herdeiros.
A proximidade do rio não é suficiente para suprir o problema decorrente da falta
d’água. Outra ameaça constante diz respeito ao fato de os assentamentos, principalmente
o Nova Esperança, estarem localizados em área, atualmente, muito valorizada
turisticamente, pela proximidade do Portal dos Cânions, os quais têm atraído a atenção
de especuladores, interessados na compra de lotes, gerando inúmeros conflitos entre
assentados e não assentados.
Para efeito de comparação, importante citar a visita ao acampamento Estrela,
no município de Propriá-SE. Também lá, o acesso foi possibilitado pelos técnicos em
agropecuária e contratados da EMATER Josival Moreia (Val) e Jorge Luiz. Eles prestam
à comunidade assistência às famílias cadastradas no Programa de Fortalecimento da
Agricultura Familiar, orientando, avaliando e encaminhando integrantes das unidades
cadastradas para obtenção do financiamento, sobretudo em áreas mais carentes com
os acampamentos do MST. Nesses casos, o limite individual é de R$ 6.000 (seis mil
Reais) e o limite por família de R$ 18.000 (dezoito mil Reais), podendo ser pago em até
2 anos, com direito a um desconto de 25% sobre cada parcela da dívida antecipada e de
40% para os empreendimentos situados no semiárido, como é o caso do Acampamento
Estrela.
Antônio César Teodoro Santos é um dos agricultores que exploram economicamente
a unidade. Na tarefa por ele utilizada, embora ainda não demarcada, encontram-se
vários tipos de fruteiras e de animais como galinhas, pato e porco e comercializa o mel
produzido no seu apiário. Ali, também existe um poço onde são criados peixes como
tilápia, tambaqui e tambacu. Antônio conhece bem a região, pois trabalhou durante 20
anos para famílias abastadas da região. O lugar onde se encontra o acampamento era
uma mineradora, hoje, abandonada. Junto com ele estão instaladas ali 150 famílias.
Embora o aspecto da área explorada seja o mais promisso do acampamento,
Antônio lembrou que, quando a situação da área for regularizada, ele não tem nenhuma
garantia de que poderá assegurar as benfeitorias já realizadas, caso elas extrapolem os
limites estabelecidos na divisão dos lotes. Não foi possível obter qualquer informação
acerca da relação desses trabalhadores rurais com o rio São Francisco.
Uma comunidade artesã
A Ilha do Ferro é um povoado do município de Pão de Açúcar/AL, segunda parada
da Expedição e do qual está distante 15 Km. O acesso ao povoado continuava complicado
por conta das fortes chuvas que caíram no último inverno e que destruíram a ponte sobre
o riacho Grande, a única que permite a ligação com a sede do município81 .
O povoado ganhou maior notoriedade desde que a produção artesanal local passou
a ser noticiada na mídia alagoana e nacional, e a ser exibida em feiras e exposições fora do
estado. A modalidade mais conhecida é o bordado conhecido por “Boa-noite”, praticada
eminentemente pelas mulheres da comunidade e cuja denominação advém, de uma flor
nativa da Ilha do Ferro. A origem se perde no tempo, mas para alguns estudiosos, sua
introdução na comunidade foi feita por intermédio da artesã dona Ernestina, nos idos
dos anos 1940, que o teria aprendido em Sergipe (ROCHA, 2017, p. 399)82 .
81
A visita ao povoado Ilha do Ferro foi acompanhada pelo assessor da Secretaria Municipal do Trabalho e da Assistência Social de Pão de Açúcar, Luiz Rodrigues Silva.
82
Entre as principais exposições de que o bordado Boa-Noite da Ilha do Ferro foi objeto, contam a da
Sala do Artista Popular do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP (Cf. http://portal.iphan.

322

A outra modalidade artesanal de grande reputação na localidade e fora dali são as
esculturas, produzidas com vestígios de madeira encontrados na região inspiradas nos
temas da fauna e da flora locais.
Com pouco mais de 400 habitantes, além de principal polo artesanal no Estado,
o povoado também tem se tornado importante polo de atração de artistas plásticos e
colecionadores, que acorrem ao local, não apenas para passagens rápidas em casas de
temporada, mas também para fixar residência permanente, como a museóloga Carmem
Lucia Dantas que também já foi secretária de Cultura do Estado de Alagoas e publicou
diversas obras sobre aspectos da cultura e do folclore alagoano. Na conversa obtida,
ela revelou ter sido a primeira organizadora, junto como fotógrafo Celso Brandão, da
primeira de exposição fora do Brasil para promoção do artesanato da Ilha do Ferro.
Não sequência da visita à ilha, que não é ilha, a visita aconteceu ao ateliê de
Dedé, que não foi encontrado no local, tendo deixado seu filho Ítalo para cuidar do
estabelecimento, o qual, apesar da pouca idade, já produz seus próprios trabalhos.
O primeiro artesão entrevistado foi José Alvaci, mais conhecido como Zé Crente,
o qual informou que começou a trabalhar com esculturas por influência do pai que
construía barcos. Essa associação da atividade artística com a construção naval, remete
inevitavelmente à proximidade do rio São Francisco com suas histórias de naufrágios, de
fluxo de passageiros e de corridas de barcos à vela, categoria de transporte característica
do Baixo antes do advento das embarcações a motor. “Esse passado naval explica o grande
número de artesãos que começaram a vida nos muitos estaleiros ao longo dos povoados
ribeirinhos. Muitos também eram os construtores das armações de madeira, estruturas
depois ‘tapadas’ com barro, originando as casas de taipa, cobertas originalmente com
palha” (ALAGOAS, 2022, p. 129).
Embora disponha de imóvel próprio com uma grande área construída, José Alvaci
prefere trabalhar sob a sombra de uma árvore, no pátio lateral de sua casa, aproveitando
vários tipos de madeira, especialmente, o mandacaru, mais facilmente encontrado na
região, além de outras espécies comuns como a catingueira e a algaroba, embora, às
vezes, quase sempre ele precise pagar pelas espécies mais raras que já não são mais
encontradas ali, como a seriguela, o pereiro e o coveiro. Com essa matéria prima, Zé
Crente, o nome pelo qual é conhecido no local, e municiado das ferramentas apropriadas
(o machado, a grosa, o serrote e os enxós) produz suas figuras antropomórficas inspiradas
na fauna e flora locais, santaria e outras figuras mais bem adaptadas ao desenho dos
galhos, raízes e troncos, além de peças do mobiliário doméstico que ele se gaba de
já ter exibido no programa Encontro com Fátima Bernardes da TV Globo. A atividade
artística, quase sempre, termina contaminando os membros das famílias, independente
do sexo e da idade, como acontece na casa de Zé Crente, cujos filhos, além de ajudá-lo
na produção, fabricam e comercializam suas próprias peças, cada qual com seu próprio
estilo e as quais comercializam nos seus próprios ateliês. De um modo geral, conforme a
crônica especializada, o material criado pelos artesãos da Ilha do Ferro:
São peças orgânicas que, além do apelo realista, trafegam pelo fantástico, pelo
bestiário criado na cultura popular, pelas manifestações de um folclore vivo, que se
materializa e se reinventa em cada pedaço de madeira encontrado na natureza. É essa
diversidade em formas, cores e texturas que faz da Ilha do Ferro um enclave único nos
domínios da arte popular de Alagoas (ALAGOAS, 2022, p. 131).
Na sequência, visitamos o ateliê de Mestre Aberaldo, talvez o artista mais importante
da Ilha. Como em vários outros casos na comunidade, sua habilidade com a madeira tem
início por influência da própria família, cujos antepassados eram exímios carpinteiros,
como seu avô e seu pai, mestres na construção de casas, currais, carros de boi, mas
principalmente, de canoas de tolda. Ele informa que começou construindo canoas de
gov.br/noticias/detalhes/2808/bordados-da-ilha-doferro-estao-em-exposicao-no-rio-de-janeiro, bem como a
organizada pela Casa Museu do Objeto Brasileiro, intitulada: “Boanoite, Ilha do Ferro”, cujas imagens encontram-se disponíveis em https://acasa.org.br/exposicoes/boa-noite-ilha-de-ferro-2013/

323

brinquedo, estendendo a variedade de objetos para os bonecos e ex-votos. Como em
outros relatos obtidos, o tipo de madeira mais comumente trabalhada é o mulungu e a
imburana, espécie mais rara, mas ainda encontrada na região.
A atividade artesã surge como alternativa ao trabalho na roça e à própria construção
de barcos, às quais a maioria desses artesãos foi forçado em razão do baixo nível de
instrução e do fato de terem sido inicialmente forçados a abandonar mais cedo os bancos
da escola para ajudar os pais no trabalho na roça e na pesca.
No amplo terreno onde se localiza sua oficina, que o Mestre Aberaldo divide com
sua esposa, Dona Vana e dois dos seus quatro filhos, eles construíram uma pousada
para receber “amigos de Maceió”, como eles chamam os artistas e colecionadores que
costumam frequentar a comunidade e que antes se hospedavam nas casas das famílias
locais. Muito recentemente, o casal recebeu a visita do apresentador Luciano Huck, que se
hospedou nas instalações da pousada, quando realizava reportagem para o seu programa
de TV. D. Vana, que também é artesã, conta que sua função consiste na confecção de
panos de prato, descanso de copo e jogo americano com o Bordado Meia-Noite, uma
tradição que pratica desde os 10 anos de idade e que herdou de sua mãe, que por sua
vez recebeu de sua avó.
A visita foi concluída com a ida ao ateliê de Yang da Paz, jovem artesão dono de
estilo próprio expresso nas figuras dos bailarinos longilíneos feitas de galhos de pereiro,
craibeira, mulungu e umburana aproveitados da natureza.
Uma Comunidade Indígena
Seguindo a viagem rio abaixo, a Expedição aportou no município de São Braz/AL,
a partir de onde foi possível acessar a aldeia dos Aconã, que está situada no município
vizinho de Traipu, também em Alagoas. A dificuldade de encontrar referências históricas
sobre o grupo talvez advenha do fato de sua origem estar associada a outras comunidades
indígenas alagoanas. Hohenthal Jr. no artigo as tribos indígenas do médio e baixo São
Francisco faz menção a existência dessa etnia:
Aconãs (Acconans, Iakóna, Jaconans, Nacônã, Uacona, Wakóna). Localizados no
baixo São Francisco em 1746(62), foram mencionados por Aires de Casal como morando
no distrito de Lagoa Comprida, umas poucas léguas ao oeste de Penedo, no ano de 1817.
Martius os classifica como Cariri, embora não haja prova disso. Carlos Estevão menciona
sobreviventes (Nacônã, Uacona), morando em Pôrto Real do Colégio lá por 1937. O autor
encontrou em 1952 descendentes índios que se chamavam Wakóna ou “Shucurú-Carirí”
em Colégio, e também na serra da Cafurna, que se eleva atrás da cidade de Palmeira dos
Índios, no Estado de Alagoas (HOHENTHAL Jr., 1960, p. 48).
Os registros históricos, porém, não se fazem acompanhar de referências mais
recentes. A confusão acerca das suas origens também pode estar associada à dificuldade
dos próprios membros da comunidade de reconstituírem os inúmeros processos de
dissolução pelos quais passaram, bem como sobre os percursos realizados até onde se
encontram atualmente, ocupação recente que remonta ao ano de 2003.
Antes de chegar à Reserva Indígena atual, os Aconã residiram com outros grupos
étnicos, como os Karapotó, Ceococes e Prakiós no aldeamento Kariri-Xocó, na Rua
dos Caboclos, logradouro da periferia de Porto Real do Colégio/AL, onde estavam
misturados com moradores não indígenas, e impedidos de plantar suas roças e vivenciar
seus costumes tradicionais. Lembrando que, oficialmente, aquelas denominações étnicas
e seus respectivos territórios foram extintos em 1873 e seus antigos habitantes foram
considerados integrados à sociedade nacional. Somente em 1978, os indígenas ocuparam
as terras da antiga Fazenda Modelo, da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São
Francisco e do Parnaíba (CODEVASF), também conhecida por Sementeira, e exigiram a
demarcação da área como seu território tradicional. Entre os anos de 2000 e 2005,
verifica-se o processo de demarcação da TI Kariri-Xokó, a qual acontece em meio a forte

324

contestação por parte dos fazendeiros da região. É também nesse mesmo período que
acontece o levantamento e a demarcação da reserva indígena dos Aconã.
A própria história do pajé José Inaldo, mais conhecido por Nino, é reveladora dos
fluxos entre diversas comunidades indígenas. Quando o seu pai, conhecido por Chicão,
separou-se de sua mãe, recorreu, com três dos seus filhos menores, aos parentes Pankararu,
os quais moravam antigamente “em certas ilhas do médio São Francisco, sob a jurisdição
de várias missões, durante o século XVIII, antes de mover-se para sua localidade atual de
Brejo dos Padres, Pernambuco” (HOHENTHAL JR. 1960, p. 55). O próprio Nino, o mais
velho dos filhos, por sua vez, foi levado por sua mãe para morar em Maceió, quando tinha
apenas 8 anos de idade. Até que seu avô materno, Plácido Campos foi buscá-los um ano
depois, para com ele viver na aldeia dos Tingui-Botó, localizada na região agreste do
estado de Alagoas, no município de Feira Grande. Nino viveu entre os Tingui-Botó até
retornar a Porto Real do Colégio/AL para reencontrar seu pai e seus irmãos menores.
Chicão não se demorou muito entre os Cariri-Xocó, tendo seguido sua sina aventureira,
fazendo pelo menos um filho em cada aldeia por onde passava. Atualmente, ele mora em
Wassú-Cocal, município de Joaquim Gomes/AL, onde teve 5 filhos, a mais nova inclusive,
com um ano de idade, apesar de Chicão já estar com a idade de 70 anos. Os demais filhos
são de Brejo dos Padres/PE (Kalancó); Joaquim Gomes/AL (Wassú-Cocal); Palmeira dos
Índios/AL (Xucuru-Kariri); São Sebastião/AL (Karapotó); Tacaratu (Pankararu), entre
outras localidades que o filho Nino não soube precisar. Trata-se de um difusor da tradição
indígena pela região do Baixo, atualizando, talvez, a memória da Missão de Colégio/AL
que reunia no mesmo aldeamento várias etnias.
Por sua vez, Pai Plácido, como também era chamado pelos netos, foi casado com
Porfiria, com quem teve 9 filhos, sendo 5 homens e 4 mulheres, umas das quais veio a se
casar com José Saraiva, que se tornaria o cacique dos Tingui-Botó e, posteriormente, dos
próprios Aconã. O cacique Saraiva se casou com Maria Cícera e com ela teve 13 filhos,
sendo 8 mulheres, uma das quais, Solange Saraiva, que é a esposa do Pajé Nino. O casal
não teve filhos.
Andrade é o motorista da unidade e integrante da etnia Karapotó, cuja origem
remonta ao convívio em aldeamentos junto aos Kariri-Xocó. Ele reconstituiu a longa
trajetória dos antepassados de sua própria etnia, a qual também envolve processos
cercados de conflitos, rupturas e mudanças. Segundo Andrade, os indígenas que se
recusaram a abdicar de sua identidade étnica, durante a convivência em Porto Real do
Colégio/AL, recorreram a regiões mais afastadas do rio São Francisco, no município
de São Sebastião/AL. Ali, o grupo também enfrentou embates com fazendeiros locais
tendo que, por isso, fugir para procurar abrigo novamente em Colégio/AL, desta feita,
submetendo-se e abdicando de sua identidade para se misturar aos Kariri-Xocó. Entre
os Aconã, Andrade afirma não encontrar resistência quando assume sua identidade
Karapotó, mesmo depois de ter vivido como Kariri-Xocó e apesar de também se declarar
Aconã.
Devido às desavenças internas entre Kariri-Xocó e Tingui-Botó, em 2003, os Aconã,
com a mediação da FUNAI, optaram pela mudança para território próprio, sob a alegação
de que constituíam uma etnia antiga localizada em registros históricos antigos, embora
fossem dados como desaparecidos para os órgãos oficiais do Governo. A mudança
definitiva acontece no ano de 2003, depois do levantamento feito nos anos anteriores,
Atualmente, na reserva indígena de 627,78 hectares, onde residem 35 famílias. Apesar
de terem conseguido a criação da Reserva Indígena, a comunidade ainda se ressente de
maior falta de assistência por parte da FUNAI. Solange Saraiva, filha do Cacique José
Saraiva, agente indígena de saúde da comunidade e Andrade, motorista da unidade,
manifestaram preocupação com a demora na demarcação de suas terras por parte da
FUNAI, além da falta de assistência do órgão que não assegura a infraestrutura necessária
para o funcionamento das atividades básicas. A aldeia não dispõe, por exemplo, de um
prédio apropriado para as crianças estudarem.

325

Outro tipo de problema reportado foram os conflitos com invasores na reserva para
caçar espécies mais cobiçadas que recorrem a área mais preservada para se proteger, ou
para roubar madeira de lei, como o cedro, que são conservadas na área da reserva, cujos
contornos não são cercados.
A comunidade sobrevive basicamente das atividades agrícolas, cujos principais
produtos são milho, feijão, mandioca, arroz, abóbora e batata para consumo próprio.
Também criam alguns tipos de animais como gado, galinha e porco. As fruteiras mais
comuns são manga e goiaba. Por fim, a comunidade produz artesanato, tipo pulseiras,
cocares e brincos, feitos de sementes e penas de aves (gavião, carcará, garça etc.) que
não são comercializados.
Por fim, os visitantes foram levados para conhecer a mata sagrada onde são
realizados os rituais secretos do Ouricuri, uma marca indelével da identidade indígena. A
permissão dada pelo Cacique representou um voto de grande confiança da comunidade
ao grupo de pesquisadores da Expedição que visitavam a comunidade. A viagem foi feita
na carroceria de um caminhão e no caminho já se podia notar a diferença na paisagem,
em termos da preservação da mata nativa pertencente à reserva indígena, comparada a
dos terenos vizinhos. No local, apresenta-se o espaço onde acontecem os rituais durante
os fins de semana de recolhimento, os quais acontecem duas vezes por mês. Trata-se
de uma grande área descampada, cercada por construções de adobe onde as famílias
se acomodam durante os períodos de recolhimento. Nesse espaço aberto, segundo foi
informado, acontecem as danças sagradas. Não nos foi permitido fotografar o espaço,
embora de forma espontânea os poucos indígenas que acompanharam a visita tenham
dançado, a título de demonstração, um pouco do toré, modalidade de dança e canto
de caráter mais público. O segredo é um dos ensinamentos que vêm sendo passado de
geração a geração e que talvez explique a permanência desses rituais no tempo.
Territórios tradicionais Quilombolas
Tabuleiro dos Negros
No dia seguinte à visita aos Acunã, a Expedição aportou no povoado Chinaré,
pertencente ao município de Igreja Nova/AL, de onde, com o auxílio dos agentes
técnicos do Instituto de Desenvolvimento e Inovação Rural Sustentável de Alagoas
(antiga EMATER), Cinthia Cristina e Darlan Thomas, além do funcionário da Prefeitura de
Igreja Nova/AL, o engenheiro agrônomo Antonio César, foi possível acessar o Quilombo
Tabuleiro dos Negros, situado a uma distância de 15 km, percorridos por uma estrada de
terra.
O Quilombo pertence ao município de Penedo/AL de cuja sede está distante outros
15 km, e faz fronteira com a comunidade originária Alecrim dos Negros, também conhecida
como Sapé, pertencente ao município de Igreja Nova/AL. Apenas uma rua separa os
dois municípios e seus respectivos quilombos. Trata-se das primeiras comunidades
quilombolas visitados durante todo o percurso da Expedição, embora existissem outras
durante o trajeto.
O líder da associação do Tabuleiro dos Negros é Cícero dos Santos, mas foi Maria
Quitéria, coordenadora da Associação de Mulheres Agricultoras Quilombolas Pescadoras
do Povoado Sapé — Mulheres Guerreiras (MG), quem prestou as primeiras informações
sobre a comunidade onde nasceu e se criou, cuja certificação foi dada pela Fundação
Cultural Palmares através da Portaria nº 25/2007, de 13/03/2007. A conversa com ela
girou em torno das dinâmicas religiosas no Quilombo. Ela informa que o padroeiro da
comunidade é São Pedro, cujos cultos são realizados na capela existente ao lado de sua
casa. O campo religioso local conta ainda com três outras denominações evangélicas e
um terreiro de umbanda liderado por Valdemir Santos, mais conhecido no local como Pai
Pitô e situado no vizinho Quilombo Sapé. Contudo, a maior rivalidade enfrentada pelo

326

catolicismo na comunidade é interna. Além das celebrações em homenagem ao padroeiro,
organizadas pela família Vital, existe também a devoção à Nossa Senhora do Rosário
em igreja própria, cujas celebrações sempre coincidiam com o período carnavalesco:
“independente da data que caísse”, razão pela qual eram conhecidas como “festa de
fevereiro”.
Quitéria costuma recorrer às memórias da infância para descrever a opulência
desses festejos que foram introduzidos na comunidade pelos seus antepassados e
mantidas por seu pai, Cazuza Pereira. A festa consistia na realização de novenas na
Igreja de devoção à Nossa Senhora do Rosário, além das brincadeiras que aconteciam
no Largo da Capela, tais como os “botequins famosos”; os leilões; as bancas de pescaria;
as corridas de argolinhas (cavalhadas); as pegas de boi, e; os folguedos populares,
principalmente o reisado, as bandas de pífanos e as dramatizações. O ponto alto dessas
comemorações, segundo Quitéria, eram as comidas comercializadas na ocasião, entre as
quais se encontrava tapioca, cocada, sucrilho e malcasada, entre outras.
Existe uma certa mística nas retóricas vigentes e não descabidas, que buscam
relacionar os festejos recentes à devoção passada das Irmandades dos Homens Pretos
de Penedo/AL, talvez a mais antiga de que se tem notícia em Alagoas e de onde, nas
palavras de Quitéria, muitos dos antigos confrades foram “chutados pelos brancos de lá”,
antes de buscarem refúgio na atual localidade, mesmo tendo trabalhado para a construir
a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, sede da Irmandade. São esses “refugiados” que
irão fundar no Tabuleiro dos Negros, as capelas de Nossa Senhora do Rosário e de São
Pedro. Curiosamente a “lavagem do Rosário”, no adro da igreja de mesmo nome, continua
sendo realizada até hoje na cidade, exatamente na sexta-feira que antecede o início do
carnaval e com a participação dos integrantes das casas de culto de matriz africana
locais e de municípios próximos.
A literatura corrente sobre o assunto costuma relacionar uma série de atos litúrgicos
realizados por ocasião dessas celebrações, as quais envolvem a realização de missas,
terços, novenas, ladainha e procissões nos templos consagrados ao santo de devoção,
além dos ruidosos festejos profanos nos pátios dos templos religiosos, tais como visto
por Quitéria em sua mocidade (Cf. SANT’ANA, 1989).
Toda essa movimentação da “festa de fevereiro” no Tabuleiro dos Negros, talvez
seja a razão da rivalidade com os devotos do padroeiro São Pedro, cujos festejos sempre
estiveram a cargo da família Vital, também quilombolas. Os Pereira, devotos de Nossa
Senhora do Rosário e responsáveis pela organização dos festejos em sua homenagem,
também enfrentaram resistência por parte da agência oficial, cujo representante na
comunidade tentou trocar a data das comemorações, despertando a revolta entre os
devotos da Santa, conforme depoimento obtido em outra ocasião de outra interlocutora:
“(o padre) não quer mais considerar fevereiro o dia de Nossa Senhora do Rosário, ele quer
que seja no [dia] 7 de outubro!!!”. (D. Alva apud MENDES, 2017, p. 188). Além desses dois
templos religiosos, existe também no entorno, a Capela de Santo Antonio, cuja devoção,
por enquanto, está afastada dessas disputas no interior do catolicismo.
Quitéria também mostrou a Palmeira, símbolo do Quilombo. Ela informou que esse
tipo de árvore representa as lutas dos quilombolas em várias comunidades. O engenheiro
agrônomo Antonio Santos, que mais cedo havia informado ser remanescente quilombola,
uma vez que passara sua infância no sítio da família no Tabuleiro dos Negros, também
fez menção ao significado dessa de árvore que nas rotas de fugas dos escravizados,
servia como ponto de vigilância e de orientação para os refugiados entre os tabuleiros
de capim.
Quanto à sua ligação com o São Francisco, Quitéria informa que ela advém das
atividades que o próprio pai desenvolvia e que dependiam da proximidade do rio, como a
pesca e o plantio de arroz, principalmente, nas quais ela acompanhava o genitor desde a
infância. Dessa maneira, o São Francisco assume esse aspecto afetivo, porquanto remete
a essa memória e ligação com o pai. Daí seu interesse em fundar com outras moradoras

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da comunidade a Associação de Mulheres Agricultoras Quilombolas Pescadoras do
Povoado Sapé — Mulheres Guerreiras (MG).
Quilombo Oiteiro
Também em Penedo/AL, situado no subúrbio da cidade, encontra-se o Quilombo
Oiteiro, cujos contornos se confundem com o emaranhado de ruas e casas do bairro
Senhor do Bonfim, causando confusão entre os próprios moradores da região, muitos
dos quais relutam em reconhecer seu local de moradia como pertencente a um quilombo
urbano, inclusive, para escapara das práticas de racismo contra seus moradores. O nome
do Quilombo advém de sua localização em ponto mais alto da cidade o que garantiu
um lugar de refúgio mais seguro para negros escravizados em fuga. Sua incorporação à
malha urbana se dá após a construção da Rodovia Mário Freire Leahy, sendo o acesso ao
litoral, concorreu para diminuir as distâncias e o isolamento da comunidade com relação
ao resto da cidade.
A certificação do território como comunidade quilombola foi feita através da
Portaria n° 29/2006/FCP, de 13/12/2006 e onde residem 184 famílias dedicadas à
agricultura de subsistência com a plantação de feijão, mandioca, milho e inhame, mas
principalmente, a pesca: “Para complementação da renda, as mulheres fazem bordado,
crochê, costura e peças artesanais da palha e madeira” (PROGRAMA, 2020, p. 6).
A visita ao bairro enfatizou o levantamento das expressões religiosas da comunidade,
razão pela qual foram consultados dois babalorixás. O primeiro deles se chama Francisco
Moura de Faria, mais conhecido na cidade como Bobô, uma variação da palavra iorubá,
Mutalambô, que na tradição Ketu corresponde a Oxóssi, o orixá da caça e da fartura
(SILVA JUNIOR, 2013, p. 14). Bobô é responsável pelo Ylê Axé Sessu Omim Odé Akuerã,
embora seu maior reconhecimento na comunidade advenha do fato de ele organizar a
Lavagem do Adro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. O monumento não integra
o conjunto arquitetônico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (IPHAN), embora prive de estimado valor simbólico para a comunidade local
em decorrência do aspecto histórico. A construção do templo por escravos foi iniciada
em 1634 e só concluída no século XIX, para abrigar a Irmandade de Nossa Senhora do
Rosário dos Homens Pretos. Dessa maneira, a escolha desse templo para a celebração
de abertura do carnaval de Penedo/AL não é aleatória. Importante destacar também o
reconhecimento adquirido pelas religiões de matrizes africana na sociedade mais ampla,
uma vez que, tendo abandonado temporariamente os circuitos privados das celebrações
cotidianas, ganham as áreas mais públicas do espaço urbano, inclusive, protagonizando
a abertura dos festejos carnavalescos na cidade.
A préstito costuma se concentrar na Praça Clementino Monte, situada no centro
histórico de Penedo/AL e é formado por integrante de diversos terreiros da cidade e de
municípios vizinhos. Na hora aprazada, os filhos e as filhas de santo, todos de branco,
principalmente as mulheres que se vestem como baianas, percorrem em fila dupla o
trajeto até a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário. O cortejo é acompanhado por
carros de som e trios elétricos, onde inclusive, alguns iniciados na religião afro dançam
com a indumentária dos seus orixás. No caminho, a marcha faz uma parada no Beco da
Preguiça, antiga rua da Penha por conta da capela de mesmo nome situada na extremidade
oposta do logradouro. A origem para os nomes da atual rua quarenta e três são diversos
e controversos, embora nenhuma das versões resulte de pesquisa historiográfica ou de
qualquer outra natureza. Depois dessa etapa, o préstito retorna ao Estreito do Rosário,
nome antigo da rua Barão do Rio Branco que termina em frente à Igreja de Nossa Senhora
do Rosário, em cuja calçada tem início a outra etapa da lavagem. Nessa ocasião, todo o
Largo, que compreende a lateral e a frente da Igreja, está tomado de pessoas de todas as
orientações religiosas. O cheiro de alfazema se espalha no ambiente enquanto se ouvem
os sons de atabaques que ecoam a partir do grupo postado no alto do trio Elétrico e

328

acompanhando no chão pelos cânticos entoados por adeptos da religião. Terminada a
cerimônia, os filhos e as filhas de santo se recolhem ao terreiro do Pai Bobô no Oiteiro
ou às suas próprias casas, enquanto o Largo passa a ser ocupado pelos foliões que
transitam acompanhando os blocos carnavalescos, numa clara demonstração da mistura
entre o sagrado e o profano, característica dominante nas antigas festas de devoção de
Nossa Senhora do Rosário realizadas pela Irmandade dos Homens Pretos de Penedo/AL,
a mais antiga de Alagoas.
O segundo Babalorixá entrevistado foi Jackson dos Anjos da Silva que, além de
liderança religiosa, é também mediador cultural no Quilombo Oiteiros. Nessa função,
organiza o principal evento da comunidade, a Lavagem da Igreja do Senhor Bonfim
construída pelos próprios moradores da comunidade e de onde advém o nome do Bairro.
O local é conhecido na cidade pela quantidade de expressões artístico culturais que se
apresentam nas celebrações religiosas e festas populares que acontecem na comunidade
como a capoeira, o guerreiro, o pastoril e a baianada, muitos dos quais, provavelmente,
remanescentes do tempo em que a área começou a ser ocupada por escravos refugiados.
Portanto, tais expressões costumam marcar presença nas festividades locais como o Dia
do Folclore, o Dia da Consciência Negra e, principalmente, a Lavagem do Bonfim que,
normalmente, acontece quinze dias antes do início do carnaval.
O evento, criado recentemente, consiste basicamente na realização do cortejo pela
principal rua do bairro, até o cruzeiro de Cristo, localizado no Mirante do Bonfim, na
entrada do Quilombo. Ali, encontra-se uma imagem de Cristo Crucificado, situada no
auto de um pedestal, o qual se pode acessar por meio de escadas laterais. Na ocasião,
apenas um dos filhos de santo sobe para lavar a base da imagem. Os demais se postam
embaixo, na altura do mirante o qual também lavam com água perfumada e flores que
foram trazidas pelos fiéis durante o trajeto. Na sequência, o cortejo, ainda acompanhado
de grupos folclóricos e de capoeira, segue em direção à Capela do Senhor do Bomfim,
situada na outra extremidade do Bairro, onde será realizada outra etapa da lavagem.
Depois de encerrar a parte religiosa da celebração, iniciam os festejos carnavalescos
com blocos de sujos, transformando o lugar, que até então, estivera envolto em uma aura
sagrada, numa contagiante algazarra. Os adultos participam da brincadeira, mas são as
e adolescentes quem mais se divertem.
A ligação do Bairro com o São Francisco já foi mais intensa. Antigamente, boa
parte dos moradores da comunidade dependiam de atividades desenvolvidas em função
do rio, como a pesca e o cultivo do arroz, inclusive, no período de cheias, as suas águas
atingiam as imediações da comunidade, a ponto de seus moradores apanharem ali
mesmo as embarcações que faziam a travessia para o estado de Sergipe.
Quilombo Brejão dos Negros
A última visita no percurso da Expedição foi ao município de Brejo Grande no
Estado de Sergipe e onde se localiza o território quilombola que agrega as comunidades
de Brejão dos Negros, Fazenda Resina, povoado Carapitanga e a sede de Brejo Grande.
Todo o território se encontra certificado, através da Portaria n° 38930/2006 embora
somente em Brejão se verificou o cadastramento das famílias que se autodefinem como
remanescentes de quilombo. Foram destinadas a esta última comunidade específica 469
hectares das terras que antes integravam a Fazenda Batateira, que, por sua vez, é um
desmembramento da Fazenda Capivara (São Francisco), que fora desapropriada em
março de 2011 por intermédio da Reforma Agrária. A condição étnica de Brejão dos Negros
atendia às exigências de preferência legal para ocupação desse tipo de terras públicas
pertencentes à união, conforme normas do Programa Brasil Quilombola, que estabelece
um conjunto de direitos às comunidades que se autodefinem enquanto “remanescentes
das comunidades de quilombos”. Segundo Bomfim, a garantia de acesso à terra para
o agrupamento do Brejão, as Batateiras vão se tornar um símbolo da luta, “é o núcleo

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representativo da questão quilombola na região” (BONFIM, 2017, p. 190).
As sedes que formam o conjunto do município, apesar da certificação paralela,
aguardam até hoje a demarcação das áreas pendentes e o cadastramento das famílias
por pautarem suas reivindicações em torno da luta pela terra, dependendo, portanto,
de processos mais complexos que envolvem pedidos de desapropriação por parte do
INCRA sobre o qual recai a responsabilidade de selecionar os beneficiários e assentar as
famílias. A situação do agrupamento Resina, ilustra bem a complexidade dessa situação.
Uma vez situada nos limites da Fazenda Capivara, território localizado às margens do rio
São Francisco, cercado de extensa mata, mananciais, lagoas e alagados, a regularização
fundiária torna-se objeto de cobiça e acirrada disputa e arrasta-se por mais tempo.
Segundo Bonfim, “a propriedade se torna uma peça importante em torno da ‘luta pela
terra’ na região” (BONFIM, 2017, p. 74).
De todo modo, as lembranças que permeiam a memória desses processos
estão longe da nostalgia quase romântica encontrada no Tabuleiro dos Negros ou da
efervescência festiva do Quilombo Oiteiro. Em Brejo Grande/SE, quase toda recordação
é dolorosa, uma vez que envolve episódios de violência, fuga, abandono e descaso. O
percurso realizado pela família de Clesivaldo Félix Santos, por exemplo, liderança local
com quem foi feita a primeira entrevista, traduz um movimento quase generalizado
entre os moradores mais antigos dos quilombos que chegaram ao local “corridos de
algum lugar”. Esses antepassados costumavam se estabelecer em barracões construídos
com palha de coqueiro na beira do rio, vivendo de favores ou com a anuência de algum
latifundiário. Mesmo escapando dos antigos patrões, essas famílias tinham que se
submeter ao sistema de meia na plantação de arroz. Embora “livres de apanhar”, não
tinham garantia de sobrevivência no final da safra. Nessas fases, a pesca se apresentava
como alternativa econômica mais estável para os moradores locais, cuja região oferece
uma grande variedade de espécies nativas.
A presidente da Associação Remanescente de Quilombola Dom José Brandão
de Castro, Maria José Bezerra dos Santos, mais conhecida como Dona Deca, além
de quilombola também se declara colonizada, ou seja, credenciada na colônia de
pescadores do município, que é uma característica dos moradores da sede do Quilombo,
dada a proximidade do rio. Seu depoimento também foi fundamental para acompanhar
o processo de luta pela terra, iniciado ainda em 1985, com o incentivo do Padre Luiz
Rodrigues e, continuada, já em 2003, com o apoio prestado pelo Padre Isaias Nascimento,
proveniente da paróquia de Propriá/SE onde atuava à frente das Comunidades Eclesiais
de Base (CEBs). Inspirado na Teologia da Libertação, ele retoma em Brejo Grande/SE o
processo de luta pelo direito à terra em nome dos menos favorecidos.
Durante muito tempo, as campanhas política assumiram caráter fundiário,
aproximando suas pautas das campanhas dos trabalhadores sem-terra que visavam
à reforma agrária. É nessa condição que, pelo menos os moradores na sede de Brejo
Grande/SE, acamparam durante quase 90 dias no Saramém, povoado construído para
acomodar os moradores do antigo Cabeço e de onde foram expulsos pelo prefeito do
município de Brejo Grande/SE, buscando na sequência, abrigo às margens da rodovia que
liga o povoado à sede do município. As campanhas são lembradas por todos com pesar,
dadas as situações de penúria e insegurança enfrentadas pelos que estavam na linha de
frente do movimento. São comuns os relatos de ameaças, perseguições e humilhações
sofridas por todos que ocupavam as terras abandonadas e impingidas por fazendeiros,
jagunços e policiais locais.
Do ponto de vista judicial, o antropólogo Wellington de Jesus Bonfim (2017)
reconstitui com precisão as etapas da judicialização da questão, a qual envolve a
intervenção do Ministério Público Federal, do Ministério Público do Estado de Sergipe e
da Procuradoria Geral de Justiça, através da Curadoria dos Direitos Humanos, Controle
Externo da Atividade Policial & Conflitos Agrários, além dos religiosos da Teologia da
Libertação. “Presidida pelo ouvidor agrário nacional e desembargador Gercino José da

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Silva Filho, o litígio foi classificado como ‘conflito agrário’ (BONFIM, 2017, p, 142-143).
À medida que os processos corriam na justiça, a questão assumiu uma feição mais
étnica. Por esse motivo, foi recomendado pelo MPF a realização de laudo antropológico
por servidores da autarquia federal com a finalidade de produzir Relatório Técnico de
Identificação e Delimitação (RTID), o qual só foi concluído em 2013.
Na sede Santa Cruz, onde se situa o Quilombo Brejão dos Negros, conversamos com
Izaltina, que complementou as informações prestadas sobre a formação do Quilombo
e o papel de Igreja nesse processo. Um nome novo aparece para identificar o lugar,
antigamente chamado de refugo, por ter sido escolhido por negros escravizados para
se esconder. Ficou evidente em seu discurso que o fato de o agrupamento ter obtido
o reconhecimento desejado, não traz aos quilombolas no seu cotidiano a tranquilidade
desejada. Os relatos sobre perseguição, ameaças e acusações continuam por parte das
autoridades locais e grandes proprietários de terras da região, apesar da regularização
avançada do território.
O esforço empreendido em tais campanhas deixa exauridos os envolvidos nos
processos, como se pode depreender do discurso de Eneas Rosa dos Santos que se
encontra à frente do agrupamento Resina, cujo relato, tanto do passado como do
presente, remete constantemente a situações de exploração por parte dos patrões e de
conflitos decorrentes da luta pelo direito à permanência na terra. Eneas fala também dos
processos ininterruptos de expulsão e de indignação por parte dos trabalhadores rurais
que recorrem ao movimento organizado como forma de enfrentamento dos fazendeiros
e dos empreendimentos turísticos na região. O nível de perseguição enfrentado por
Enéas e seus companheiros chegou ao ponto de ter ele mesmo recorrido ao Programa
de Proteção às Vítimas e Testemunhas (Provita), embora também possam sempre contar
com a parceria do Ministério Público Federal (MPF), na pessoa da Procuradora Lívia
Tinoco, responsável pela política quilombola; o pessoal do Movimento Nacional dos
Direitos Humanos (MNDH/SE) e a Cáritas Diocesana, entidade ligada à Igreja Católica e
naquela comunidade representada pelo Padre Isaías Nascimento.
Segundo o parecer técnico conclusivo, dado pela antropóloga Ana Lídia Nauar
Pantoja, servidora pública lotada na Superintendência Regional do INCRA em BelémSR01, as localidades situadas no conjunto compreendido pelo Quilombo Brejão dos
Negros (Resina, Saramém, Carapitanga e Guaratuba) são predominantemente habitadas
por pescadores.
Incluindo os quilombolas, cerca de 90% dos moradores têm o mar, o mangue e a
mata como fonte de alimentação e renda. Do mar e rios retiram o pescado, do mangue
vêm os caranguejos e da mata as frutas e a criação de abelhas. Os quilombolas não
concordam com a devastação ambiental que está acontecendo no local e no âmbito do
território pleiteado (...). A maior preocupação da comunidade é o aumento acelerado
do desmatamento dos manguezais, transformando-se em fazendas de Camarões. Quem
ocupa e se acham donos, proíbem e ameaçam os habitantes quilombolas a adentrarem
para catação de crustáceos necessários à sobrevivência, inclusive coma construção de
cercas (NAUAR, 2013, p. 9).
Tal constatação revela a necessidade e a importância da demarcação desses
territórios tradicionais como alternativa de conservação e preservação das áreas que
formam a bacia do São Francisco.
Comunidades de pescadores
Durante todo o percurso, apesar do recorte sobre algumas comunidades específicas
como descritas até aqui, a Expedição permitiu que ao longo dos dez dias, fosse feito
contato com grupos de pescadores, embora em três localidades, particularmente, a
abordagem se deu de forma mais direta e mais demorada. Trata-se dos municípios de Pão
de Açúcar e Piaçabuçu/AL, situados na margem esquerda do leito do rio e o município
de Gararu, situado na margem sergipana. Nessas três localidades, foi possível acessar

331

as respectivas colônias e conversar com os pescadores sobre os desafios que profissão
apresenta, dificuldades com a atividade e as expectativas futuras.
Colônia de Pescadores e Pescadoras Z-20/Pão de Açúcar/AL
A Colônia foi fundada em 1980. Não foi possível visitar os pescadores na sede
situada no centro de Pão de Açúcar/AL, uma vez que eles foram convidados para visitar as
embarcações da Expedição que estavam aportadas na Praia da Bomba. O encontro com
os pescadores aconteceu na magnífica, a maior das embarcações. O objetivo era fazer
uma demonstração das técnicas de implantação de chips nos peixes para monitoramento
das espécies feito pelas equipes responsáveis pela prospecção ambiental e pesqueira.
Enquanto isso acontecia, foram entrevistadas três pescadoras e um pescador aposentado.
Importante destacar que embora a atividade pesqueira seja exercida por mulheres ao
longo de todo o baixo São Francisco, muitas das quais se declarem colonizadas, esse foi
o único trecho em que a prioridade da abordagem obedeceu a esse recorte de gênero.
Talvez porque em Pão de Açúcar/AL é que se verificou essa presença mais efetiva no
desempenho da atividade.
Os depoimentos dessas mulheres reportam sempre às dificuldades com a atividade
pesqueira, sobretudo em função do gêmero, o que exige, muitas vezes, que elas sejam
acompanhadas pelos maridos e filhos em suas excursões pelo rio. Além de pescadores,
duas das pescadoras entrevistadas também são cambistas, ou seja, comercializam o
peixe pescado no mercado. Na maioria dos casos, a pesca realizada pelas mulheres é feita
como vara e anzol, embora, às vezes, mas raramente, usem também a rede. A atividade
é realizada em botes a motor e o período preferido é a lua nova, que torna o ambiente
mais escuro. Todas afirmaram que só pescam entre março e outubro, uma vez que entre
novembro e fevereiro é o período da piracema, quando todos os pescadores colonizados
recebem o seguro defeso, equivalente a quatro meses de salário-mínimo.
Nesse trecho do rio, observou-se o maior número de queixas com relação à
qualidade das águas e sobre o comprometimento dos recursos naturais envolvidos no
perímetro do rio, o que afeta significativamente a atividade da pesca artesanal nas suas
águas, fonte de alimento e sustento imprescindível para as populações locais.
Esse tipo de reclamação fica mais evidente no discurso de seu Claudionor Feitos, hoje
com 68 anos, mas que já pesca desde os 7 anos de idade. Ele não pode estudar, pois
precisava ajudar seu pai na pesca. Sempre usou o “pano”, que é como eram conhecidas
as embarcações à vela na região. Ele informou que com a introdução do motor nas
embarcações, a partir do ano de 2004, as coisas melhoraram, mas a qualidade das
águas não acompanha os avanços tecnológicos, o que compromete a sobrevivência
das espécies nativas na região. Ele contou, ainda, que, no passado, pescava-se muito
surubim, tubarana, corvina e pescada, espécies desaparecidas daquele trecho. Hoje só
se encontra peixes de menor valor comercial, razão pela qual, seu Claudionor se mostrou
muito preocupado com as gerações futuras, pois apesar da propalada riqueza do rio,
hoje, muitas famílias passam fome mesmo residindo nas proximidades do rio.
Colônia de Pescadores e Aquicultores Z-18/Gararu/SE
A entidade sindical foi criada em 26/06/2007, e os integrantes da Expedição foram
recepcionados por vários moradores locais, a maioria pescadores e por uma banda de
música da cidade. Depois do discurso de boas-vindas, realizado na própria orla do rio,
pelo prefeito, a comitiva se dirigiu ao Clube Municipal para a realização de palestras
sobre o monitoramento dos peixes do Velho Chico.
Enquanto a palestra acontecia, foi realizada uma entrevista com Aragão Brito,
comerciante local e proprietário rural que explora a apicultura, o qual também se queixou
da precariedade do trabalho na pesca e da necessidade de criar alternativas de emprego

332

que não acomodem os moradores em torno de políticas públicas e programas de renda
voltados para as populações ribeirinhas, inclusive, questionando a eficácia do auxílio
defeso.
Também entrevistamos o vereador Josivaldo da Silva Melo, que nasceu e criou-se
no povoado Genipatuba, município de Gararu/SE e situado à margem do São Francisco.
Valdinho como também é conhecido na região, é pescador desde os 12 anos, assim como
todos de sua família, os quais adquiriram a habilidade com o pai. Informou que costumava
apanhar pitu, niquim, pintado, dourado, piaba e camarão, este último já desaparecido,
mas que, hoje, pesca mais xira, piau, piaba, embora mais raramente, pilombeta, que
reapareceu recentemente etc. Ele fez menção à escassez de peixes no rio na atualidade
e o desaparecimento de algumas espécies, inclusive, em decorrência da ação do homem.
Culpa os gestores por isso e acredita que somente um projeto educacional nas escolas
poderia reverter a situação descrita. Entre as causas apontadas estão o tempo escasso,
a insuficiência de água, além da própria ação do homem que envolve uso de veneno nas
plantações e métodos predatórios de pesca.
Colônia de Pescadores Z-19/Américo Pereira de Brito - Piaçabuçu
À medida que se percorre o rio no sentido da foz, observa-se que as queixas sobre
a escassez de peixes e a qualidade das águas vão diminuído. Foi o que se verificou
na Colônia de Pescadores de Piaçabuçu/AL. No local, a entrevista aconteceu como os
pescadores Adielson dos Santos, José Ataíde, conhecido como Maribondo e Vanderson
Santos, vulgo Pitão. Aprenderam a atividade com os pais e praticam a pesca desde a
infância o que prejudicou a continuidade dos estudos. Além da pesca, dedicam-se também
a atividades extras para complementação da renda, como é o caso de Maribondo, que
também fabrica remos e canoas de madeira. Na ocasião, também foi entrevistada D.
Zezé, merendeira, embora também se declare colonizada. A única mulher contactada
na ocasião, dedica-se ao fabrico de malhas para pesca de camarões (puçá) e de peixes
(malha trinta), além de também trabalhar limpando peixes.
Na colônia de Piaçabuçu/AL, obtiveram-se informações sobre a realização dos
festejos em homenagem ao Bom Jesus dos Navegantes, padroeiro de quase todos
os municípios do Baixo São Francisco, os quais disputam em termos de ostentação e
grandiosidade das procissões. Em Piaçabuçu, por exemplo, a festa acontece no quarto
domingo de janeiro. A ordem das comemorações nos municípios do Baixo São Francisco
que homenageiam o padroeiro nos domingos do mês de janeiro é a que segue: Neópolis/
AL, Penedo/AL, Pão de Açúcar/AL; Ilha da Flores/SE, Piaçabuçu/SE, Propriá/SE e Brejo
Grande/SE. Às vezes, as celebrações extrapolam o mês de janeiro e estendem-se até
março. Além da procissão, que percorre vastas extensões do rio com a imagem do
padroeiro, as comemorações também incluem as corridas de barcos e canoa, competições
que atraem moradores e concorrentes de várias localidades ribeirinhas do São Francisco.
O trajeto das corridas no trecho de Piaçabuçu/AL, sai do Cabeço até o Porto da Banca
no município. Os vencedores são premiados com troféus e dinheiro.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É chegado o momento de encerrar este relato e a impressão que ressalta, destoa
do que havia sido dito na introdução acerca do curto espaço de tempo disponível
para permanência em cada comunidade e da dificuldade de abarcar tantas expressões
socioculturais encontradas ao longo dos 250 km da área coberta pela Expedição. À
medida que o relato vai se construindo, percebe-se que é possível selecionar comunidades
estratégicas, representativas de um certo conjunto de modos de vida e de visões de
mundo coletivas dessa população ribeirinha e com isso, realizar uma leitura significativa
do conjunto.

333

Ao longo da Expedição, algumas tendências são mais flagrantes aos olhos do
antropólogo. Nos trechos iniciais, por exemplo, despontam mais queixas associadas
à qualidade de vida das águas do São Francisco e sobre o desaparecimento das
espécies nativas responsáveis pelo sustento das populações locais. Todos clamam por
Políticas Públicas capazes de reverter esse quadro que promete se agravar ainda mais,
comprometendo o destino de gerações futuras.
Outro aspecto que ressalta e que se relaciona particularmente aos territórios
tradicionais, diz respeito às retóricas de perdas, de resistência e de lutas cotidianas para
assegurar a essas populações originárias e quilombolas o direito à terra. Trata-se de
percursos históricos árduos, mas coroados de conquistas e reconhecimentos legais, que
dão a outras populações em processos semelhantes de combate, esperanças de dias
melhores.
Um terceiro aspecto a destacar, e que escapa um pouco a esse cotidiano de
denúncias, lutas e resistências diz respeito ao aspecto festivo presente em todas essas
comunidades ribeirinhas. O circuito de festas do Bom Jesus dos Navegantes, por
exemplo, mobiliza inúmeras comunidades situadas ao longo do Vale do São Francisco,
apresentando-se como verdadeiro patrimônio imaterial dessas populações tradicionais
que habitam suas margens.
Enfim, a investida antropológica na Expedição faz perceber que a riqueza do
São Francisco não reside apenas nos seus elementos naturais, representados pelas
condições climáticas, os tipos de relevos ou pela fauna e flora localizadas na região,
mas principalmente, pelas dinâmicas socioculturais produzidas a partir do encontro, das
trocas e da convivência dos ribeirinhos que residem nas imediações do rio ou moradores
que habitam áreas mais afastadas do leito. Daí a importância desse aporte antropológico
para entendimento desse aspecto fundamental na compreensão da manutenção do rio.
REFERÊNCIAS
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Ministério da Educação e Cultura, 1961, 1º Volume.
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1999.
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fundiária de Território Quilombola: o caso da comunidade Brejão dos Negros/SE. São
Cristóvão: UFS, 2017. Tese (Doutorado em Sociologia)
CELEBRAÇÕES e saberes da cultura popular: pesquisa, inventário, crítica, perspectivas.
Rio de Janeiro: Funarte, 2004. (Encontros e estudos 5). disponíveis online: http://www.
cnfcp.gov.br/pdf/Patrimonio_Imaterial/Patrimonio_Imaterial_Legislacao/CNFCP_
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ao Penedo e outras cidades sanfranciscanas; à Cachoeira de Paulo Afonso, Maceió, Zona
Lacustre e região norte da Província (1859/1860). Maceió: Imprensa Oficial Graciliano
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GARDNER, George. Viagem ao interior do Brasil, principalmente nas províncias do Norte
e nos distritos do ouro e do diamante nos anos de 1836-1841. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1942.

334

HALFELD, Henrique Guilherme Fernando. Atlas e Relatório concernente à exploração
do Rio São Francisco desde a cachoeira de Pirapora até o Oceano Atlântico levantado
por ordem do Governo de S. M. I. o Senhor Dom Pedro II pelo Engenheiro Civil Henrique
Guilherme Fernando Halfeld em 1852, 1853 e 1854 mandado lithografar na Lithographia
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HOHENTHAL JR, Wilhelm D. As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco. Revista
do Museu Paulista, v. 12, p. 37-71, 1960.
MENDES, Dulce Santoro. Com um te botaram com dois eu te tiro! Um estudo sobre
as benzedeiras e dos benzedeiros moradores das comunidades quilombolas de Igreja
Nova – Alagoas. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2017. (Tese de
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PANTOJA, Ana Lídia Nauar. Relatório Antropológico. Território Remanescente de
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SANT’ANA, Moacir Medeiros de. Mitos da escravidão. Maceió: Secretaria de Comunicação
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dos festejos da Lavagem do Rosário Largo em Penedo, Alagoas. São Cristóvão:
Universidade Federal de Sergipe, 2013. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social)
SPIX, F., Johann Baptist von & MARTIUS, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil
(1817-1820). Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2017. Vol. 2.

335

20. O FUTEBOL DE MENINAS RIBEIRINHAS: IMAGINÁRIO,
POSSIBILIDADES, SONHOS E DESEJOS
Área de conhecimento: Esporte e Sociedade.
Silvan Menezes dos Santos83
Leonea Vitória Santiago84
José Cícero Pereira da Silva85
Marisa Alves Feitosa86
Rayane Janine Lessa Santos87
Rose Tatyanne de Souza Tavares88
Thayná Patricio dos Santos89
Vanessa Higino dos Santos90
Gustavo Gomes de Araujo91
RESUMO
Este trabalho é parte do projeto Academia & Futebol do Instituto de Educação Física e
Esporte da Universidade Federal de Alagoas, que tem como objetivo geral promover o
desenvolvimento do futebol de mulheres no estado de Alagoas. Em busca de realizar a
interiorização de tal intento na região, esta pesquisa passou a integrar o Programa de
Expedições Científicas do Baixo Rio São Francisco. Assim, então, alicerçados no desafio
de lidar com as contradições socioculturais do relacionamento do Brasil com o futebol, o
objetivo do presente estudo foi compreender a relação de meninas ribeirinhas do Baixo
Rio São Francisco com este fenômeno esportivo. Desenvolvemos um estudo descritivo e
exploratório, com abordagem quanti-qualitativa dos achados. Ele foi organizado em um
processo metodológico misto, com três frentes de produção e recolhimento de dados.
Realizamos uma observação participante por meio da organização de festivais de futebol
em cada cidade alagoana visitada pela V Expedição. Aplicamos entrevistas baseadas na
confrontação imagética das meninas ribeirinhas com duas fotografias, uma do jogador
de futebol, Neymar Junior, e outra da futebolista alagoana, Marta Silva. Finalmente, a
terceira estratégia foi a realização de entrevistas semiestruturadas, com perguntas sobre
os hábitos de vida das meninas/adolescentes e sobre os sonhos de uma carreira futura.
Identificamos, no geral, que existe na região o desejo e uma boa relação com a prática do
futebol. Contudo, ela sofre com um processo de semiformação da cultura futebolística,
tanto com relação ao imaginário construído, como no que diz respeito às possibilidades
e condições de prática.
Palavras-chave: esporte, cidadania, formação humana, ídolos esportivos.

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Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)
Instituto de Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL)

INTRODUÇÃO
Este trabalho é parte do projeto guarda-chuva Academia & Futebol do Instituto de
Educação Física e Esporte da Universidade Federal de Alagoas (IEFE/UFAL), que tem
como objetivo geral promover o desenvolvimento do futebol de mulheres no respectivo
estado. Como forma de realizar uma primeira aproximação para a interiorização de tal
intento na região, esta pesquisa passou a integrar o Programa de Expedições Científicas
do Baixo Rio São Francisco. Assim, então, alicerçados no desafio de lidar com a relação do
Brasil e o futebol como “veneno remédio” (WISNIK, 2008), o objetivo do presente estudo
foi compreender a relação de meninas ribeirinhas do Baixo São Francisco, de 7 a 17 anos
de idade, com o futebol e difundir a cultura futebolística entre as meninas e mulheres
da região como fenômeno educacional, especialmente como forma de educação para o
lazer e de educação para a saúde.
Percursos e estratégias metodológicas
O projeto Academia & Futebol participou da V Expedição realizando um estudo
descritivo e exploratório, com abordagem quanti-qualitativa dos achados da pesquisa.
Ela foi organizada em um processo metodológico misto, que mobilizou três frentes de
produção e recolhimento de dados.
Participaram do estudo 389 crianças, sendo 219 meninas e 170 meninos, com média
de 55 por cidades visitadas. No entanto, como participantes constituintes do corpus
de análise o público-alvo foram as alunas matriculadas regularmente nas escolas dos
seguintes municípios de Alagoas: Piranhas (Povoado Entremontes), Pão de Açúcar, Traipu,
São Brás, Igreja Nova (Povoado Chinaré), Penedo e Piaçabuçu. Assim, o quantitativo, por
cidade, de meninas envolvidas nos festivais e, em parte, das entrevistas pode ser visto na
tabela 1. Foram 196 no total.
Tabela 1: Número de meninas participantes por cidade

A primeira via de ação metodológica foi um procedimento de observação
participante, em que as/os pesquisadoras/es executaram intervenções de festivais
futebolísticos com meninas de cidades ribeirinhas em busca de identificar a relação delas
com a bola e com o jogo, bem como as condições para a prática em cada localidade.
A operacionalização das intervenções aconteceu de acordo com o ambiente e os
sujeitos, tendo distribuição das atividades por aproximadamente 90 min por dia. Com
base nesses critérios, os conteúdos abordados foram os fundamentos técnicos básicos,
jogos e brincadeiras de bola com os pés, circuitos e jogos reduzidos relacionados ao
futebol. Na sequência do texto descrevemos, detalhadamente, como ocorreram estas
atividades nas sete cidades pelas quais passamos.
Para o processo de análise dos dados consideramos três aspectos. Foram eles:
níveis de desempenho do futebol (GARGANTA et al, 2013), a disposição do ambiente

337

e a sua imprevisibilidade e a presença ou não de profissional de Educação Física no
contexto. Segundo Garganta et al (2013), a avaliação do nível de desempenho de
jogadoras/es de futebol é realizada de acordo com os seguintes indicadores: relação
com a bola; identificação com o objetivo do jogo; organização posicional nas diferentes
fases e momentos do jogo; dinâmica coletiva.
Quatro professoras-avaliadoras, organizadoras das intervenções por meio dos
festivais realizados, emitiram pareceres independentes acerca do nível de desempenho
coletivo das meninas ribeirinhas em cada cidade. Estas avaliações foram confrontadas e
a atribuição de nível de cada localidade foi definida por maioria simples. Nos casos em
que houve empate, o supervisor das práticas e orientador do estudo emitiu parecer de
desempate.
A segunda estratégia metodológica se tratou de entrevistas baseadas na
confrontação imagética das meninas ribeirinhas com duas fotografias. Individualmente,
apresentamos a cada uma delas uma imagem do jogador brasileiro de futebol de maior
destaque na contemporaneidade, o Neymar da Silva Santos Júnior, e outra fotografia
da alagoana Marta Vieira da Silva, uma das maiores jogadoras da história do futebol de
mulheres. O intuito foi identificar se e como estas duas figuras futebolísticas da atualidade
fazem parte do imaginário das meninas ribeirinhas.
Registramos 3 horas e 10 minutos de gravações em áudio e vídeo, entre os dias
3 e 12 de novembro de 2022. Entrevistamos 221 crianças e adolescentes de 6 a 18 anos,
sendo 196 meninas e 25 meninos. Nesta contagem estão duas mulheres adultas, com 23
e 30 anos de idade, que quiseram participar do estudo. As entrevistas com os meninos
foram excluídas do corpus de análise, pois o foco do estudo foi o futebol de mulheres.
Finalmente, a terceira estratégia metodológica foi a realização de entrevistas
semiestruturadas com as meninas e adolescentes ribeirinhas com idades compreendidas
entre 07 e 17 anos, e totalizou ao final da expedição com 35entrevistadas. São alunas
matriculadas regularmente nas escolas dos seguintes municípios: - Pão de Açúcar, Traipu,
São Brás, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu.
A realização das entrevistas se deu de modo aleatório, com perguntas de partida
sobre os hábitos de vida das meninas/adolescentes e em seguida sobre o sonho de
uma carreira futura. As entrevistas assumiram um papel investigativo cujo propósito
foi compreender os sentidos e formatos subjetivos, elaborados pelo grupo estudado. E
assim, a partir dos discursos circulantes entre o grupo, nos aproximamos das crenças e
valores orientadores das condutas do dia a dia.
As categorias levantadas sugiram após a escuta dos discursos circulantes, tais
como: escolaridade, profissão, sonhos e desejos.Realizamos, assim, análise de conteúdo
deste material(GUERRA, 2006).
Na sequência do texto descrevemos como foram organizadas e como ocorreram as
experiências com os Festivais de Futebol Feminino nas sete cidades ribeirinhas alagoanas
visitadas pela V Expedição. Isto dará suporte para melhor visualização dos achados do
estudo.
Festivais de futebol das meninas ribeirinhas
Em Piranhas, trabalhamos no povoado de Entremontes, que fica há cerca de 25
minutos do centro comercial da cidade, em um trajeto de estrada de terra até o local de
intervenção por meio de uma van.
Para a nossa intervenção, trabalhamos com 44 crianças e adolescentes,
acompanhadas por professoras/es da escola local e região, sendo 24 meninos e 20 meninas.
O público-alvo nesta cidade foram crianças e adolescentes, com a faixa etária entre 08 e
17 anos. Inicialmente, dividimos o campo em 3 estações (1° estação: adolescentes de 12 à
17 anos; 2° estação: crianças do gênero feminino de 08 à 11 anos; 3° estação: crianças do
gênero masculino de 08 à 11 anos).

338

Na 1° estação houve a experimentação dos fundamentos técnicos básicos do futebol,
a partir do passe, condução, chute e cabeceio; 2° estação foi abordado atividades
lúdicas baseadas nos fundamentos técnicos básicos do futebol, por exemplo, “bobinho”,
estações com circuito para o desenvolvimento do passe, condução, recepção e no final
um jogo reduzido entre duas equipes; 3° estação a priori teve atividades com ênfase
mais nos fundamentos técnicos básicos do futebol, como o drible, domínio e condução
com a prática do jogo “pega-pega” com bola, posteriormente foi aplicado situações com
sistema de jogo 1x1, 2x1, 2x2 para o desenvolvimento do raciocínio e tomada de decisão.
O tempo total de contato e trabalho com todos(as) durou aproximadamente 90 min.
Imagem 1: Espaço destinado para a prática no Povoado Entremontes - Piranhas/AL

Imagem 2: Meninas e meninos ribeirinhos durante o festival em Entremontes - Piranhas/
AL

339

Na cidade de Pão de açúcar, localizada aproximadamente 84 km de Piranhas. A
prática da atividade se constituiu com 49 adolescentes do gênero feminino, com faixa
etária 13 à 17 anos, supervisionadas pelos professores da escola local e povoados vizinhos.
As adolescentes chegaram padronizadas com os uniformes de seus determinados times
escolares/amadores, com perspectiva de que seria realizada uma seletiva, mas, o objetivo
principal do projeto é difundir a cultura futebolística entre as meninas e mulheres da
região como fenômeno educacional, especialmente como forma de educação para o
lazer e de educação para a saúde.
O espaço foi dividido em 2 estações para a execução das atividades. O grupo
da 1° estação realizou atividades lúdicas e de aquecimento explorando os fundamentos
técnicos básicos do futebol, condução de bola de um ponto para o outro, condução e
controle de bola com mãos dadas, “bobinho” e jogo reduzido por equipes 5x5. O grupo
da 2° estação propôs atividades de “altinhas” e “bobinho” e com variações.O tempo total
de contato e trabalho com as adolescentes durou 2h.
Imagem 3: Espaço destinado para a prática em Pão de Açúcar/AL

Imagem 4: Meninas ribeirinhas participando do festival de futebol em Pão de Açúcar/AL

340

Em Traipú, a cidade possui áreas esportivas (quadra de futsal, campo de futebol).
O ambiente para a prática foi o campo gramado de futebol local, com uma estrutura em
fase de construção, mas estava apropriado para a prática das atividades. Além disso,
havia uma praça próxima com capacidade de lazer educacional.
Estiveram presentes, 19 adolescentes do gênero feminino, e 100 crianças e
adolescentes do gênero masculino, com faixa etária de 11 à 18 anos. Destacando que, o
nosso público-alvo eram as meninas. Devido ao quantitativo de meninos, as atividades
foram iniciadas com eles, enquanto aguardávamos a chegada das meninas. A princípio,
dividimos o campo em 3 estações para os meninos (1° estação: de 11 à 14 anos; 2° estação
e 3° estação: 15 à 18 anos).
As atividades tinham o objetivo de desenvolver os fundamentos básicos do futebol.
Na 1° estação utilizamos uma estrutura mais técnica dos fundamentos, por exemplo,
chute ao gol, condução individual e em duplas com finalização ao gol, domínio de bola,
defesa x ataque e jogos reduzidos 3x3 e 5x5. A 2ª estação foi utilizado um jogo reduzido
condicionado 7x7 + 7 apoios com “travinhas” dando ênfase ao ensino dos princípios
táticos gerais: Superioridade numérica, inferioridade numérica e igualdade numérica. A
3° estação iniciou com um jogo reduzido com ênfase na marcação a partir da divisão
de duas equipes (8 adolescentes em cada equipe), onde a estação foi dividida em duas
partes. Quando uma das equipes estava com a posse de bola, três marcadores da equipe
adversária disponibilizavam para marcar no campo do adversário. Na segunda atividade
da estação, a quantidade de jogadores foi dividida em partes iguais, o objetivo da
atividade era finalizar no gol, mas para isso os jogadores precisariam passar pelos “portais”
identificados por “travinhas” (localizadas nas laterais do campo), em cada campo tinha
duas traves para o jogador fazer o gol. Em sequência, houve a última atividade utilizando
a variação do jogo reduzido objetivando o gol.Posteriormente, ocorreu o jogo 11x11 com
todos os integrantes das atividades participando, com as regras oficiais.
Em relação às meninas, produzimos atividades lúdicas com implementação de
fundamentos. Trabalhamos com essa proposta por conta do pouco contato com a bola.
Devido ao grupo ser reduzido, as propostas ocorreram com todas em um único grupo.
Desenvolvemos, a priori, condução e domínio de bola, passe com condução de bola em
movimentação. No final, ocorreu o jogo, utilizando algumas regras básicas. O tempo total
de contato e trabalho com as crianças e adolescentes dos dois gêneros durou 3h.
Imagem 5: Projeto Academia & Futebol atuando na cidade de Traipú/AL

341

Imagem 6: Meninas ribeirinhas participando do festival de futebol em Traipú/AL

Na visita a São Brás, o espaço para o festival era próximo a uma escola, na beira
do rio São Francisco, areado e que não possuía estrutura adequada para uma prática de
qualidade. O quantitativo de crianças e adolescentes do gênero feminino foi de 35, com
idade de 7 à 15 anos. As meninas foram divididas para duas estações, sendo a primeira
estação as adolescentes e segunda estação as crianças.
A primeira estação se deu por atividades para o desenvolvimento dos fundamentos
técnicos básicos do futebol, como passe, domínio, movimentação e cabeceio. Ao final,
houve um jogo reduzido 5x5. A segunda estação consistiu em brincadeiras com foco
no trabalho em equipe, no lúdico, nos fundamentos técnicos básicos do futebol e nas
tomadas de decisão. Inicialmente foi aplicado uma brincadeira de “queimado” dividindo
duas equipes de maneira adaptada.Após isso foi aplicada uma brincadeira de “jogo-davelha”, cujo as bolas de iniciação e as bolas de beach soccer eram respectivamente o
“X e O”, onde as praticantes passavam por uma fila de cones conduzindo a bola ao final
e colocando em um dos quadrados para marcar o local. No final, foi proposto um jogo
de 9x9, composto por goleira e com regras oficiais do 11x11. O tempo total de contato e
trabalho com as crianças e adolescentes durou 90 min.
Imagem 7: Interação da população com o festival de futebol em São Brás/AL

342

Imagem 8: Meninas ribeirinhas participando do festival de futebol em São Brás/AL

Na cidade de Igreja Nova, a comunidade local era aconchegante e participativa,
possuía escola, praça e uma quadra esportiva. O espaço das atividades aconteceu no
campo gramado de futebol que apresentava as demarcações próximas a de um oficial.
A quantidade de meninas que participaram foram exatamente 16, com faixa etária de 9
à 18 anos. Devido a quantidade menor do grupo, fizemos as atividades em conjunto que
consistia em primeiramente um aquecimento para verificar o contato com a bola que
as mesmas tinham, em círculo as meninas tocavam a bola uma para a outra. A segunda
atividade foi para desenvolver os fundamentos técnicos básicos do futebol, dando ênfase
ao passe de curta e longa distância, domínio, recepção e condução. No final houve o
jogo com as regras. O tempo total de contato e trabalho com as crianças e adolescentes
durou 90min.
Imagem 9: Festival de futebol de meninas no povoado Chinaré em Igreja Nova/AL

343

Imagem 10: Menina ribeirinha participante do festival de futebol no povoado Chinaré em
Igreja Nova/AL

O município de Penedo tem uma forte cultura local e turística, possuindo casas de
artesanato, igrejas, museu, praças, teatro, dentre outros. O Sport Clube Penedense é o
mais antigo do Estado e um dos primeiros Clubes do Brasil. As atividades ocorreram no
campo de futebol society e suas demarcações.
No campo, estavam presentes 30 adolescentes do gênero feminino, com idade
de 13 à 17 anos. As atividades foram desenvolvidas em dois grupos iguais. No primeiro
momento foi “pega-pega” com condução de bola. Logo após, juntou os dois grupos para
um “rouba bandeira” com variações. Para o encerramento, houve o jogo de futebol com
as regras. O tempo total de contato e trabalho com as adolescentes durou 60min.
Imagem 11: Projeto Academia & Futebol realizando o festival em Penedo/AL

344

Imagem 12: Festival de futebol de meninas ribeirinhas em Penedo/AL

A cidade de Piaçabuçu é pioneira no ecoturismo e turismo de aventura, localizada
na região da foz do rio São Francisco. O ambiente de intervenção foi um campo gramado
de futebol local, com demarcações apropriadas para jogos.
Imagem 13: Monitora do Academia & Futebol realizando dinâmica com os meninos
ribeirinhos em Piaçabuçu/AL

345

Imagem 14: Encerramento do Projeto Academia & Futebol na V Expedição do Baixo São
Francisco em Piaçabuçu/AL

Participaram 50 crianças e adolescentes do gênero feminino 46 do gênero
masculino, com faixa etária de 11 à 15 anos. Incialmente, dividimos o campo em 4 estações
para os meninos (2 estações com meninas e 2 estações meninos). A 1° e 2° estação com
as meninas trabalhamos com o “rouba bandeira” e “pega-pega” com condução de bola, e
no final foi realizado jogo reduzido com as regras. A 3° estação foi realizada com “pegapega” com variações e o jogo reduzido 1x1, depois houve o jogo utilizando a metade do
campo com as regras. A 4º estação, com os meninos, foi trabalhado atividades envolvendo
os fundamentos técnicos básico do futebol, como o passe, cabeceio e a movimentação,
logo depois, aconteceu um jogo reduzido com as regras. O tempo total de contato e
trabalho com as crianças e adolescentes dos dois gêneros durou 60 min.
Achados do estudo
A relação com o jogo e as condições para a prática
Identificamos na região do Baixo São Francisco uma elevada variação do nível
de desempenho para com o futebol. Conforme consta na tabela 2, encontramos desde
grupos de meninas em nível básico (Traipu, São Brás e Piaçabuçu), em nível elementar
(Piranhas e Penedo), até localidades com nivelamento intermédio (Pão de açúcar e Igreja
Nova).
Garganta et al (2013, p. 247) defendem que “os níveis de desempenho surgem
como referências orientadoras do processo de ensino e treino, permitindo identificar
contextos e gerar adequadas estratégias de atuação”. Ademais, os autores asseveram
a necessária plasticidade quando da aplicação deste tipo de avaliação qualitativa e
interpretativa, pois em cada situação haverá, frequentemente, interações entre níveis
individuais e coletivos. Por conta disso, inclusive, metodologicamente utilizamos o tipo
de avaliação às cegas das professoras-pesquisadoras executoras dos festivais com as
crianças ribeirinhas. Desta forma, buscamos melhor balizar a avaliação deste nivelamento
interativo existente em cada cidade visitada pela expedição.

346

A tipologia dos níveis de desempenho, segundo Garganta et al (2013), em linhas gerais,
caracteriza-se do seguinte modo:
a)
Nível básico – a obsessão pela bola: as/os jogadoras/es aglomeram-se em torno da
bola, gerando uma desorganização posicional e funcional do jogo.
b)
Nível elementar – iniciação ao jogo: as noções de posição e função (defensiva e
ofensiva) começam a aparecer, contudo erros técnicos não provocados ainda ocorrem
com frequência, implicando na fluidez do jogo.
c)
Nível intermédio – desenvolvimento da organização posicional: neste caso as
ações individuais e coletivas começam a estar mais sincronizadas e coesas, dando mais
dinâmica ao jogo nas suas diferentes fases e momentos.
d)
Nível de especialização – refinamento da dinâmica coletiva: a especialidade técnicotática das/dos jogadoras/es, bem como o entendimento da coletividade necessária na
produção do jogo, conduz a sua jogabilidade para um nivelamento mais aprimorado,
complexo e de alto grau de dificuldade.
A partir desses pressupostos, identificamos que o contexto futebolístico do Baixo São
Francisco apresenta uma elasticidade com relação aos níveis de desempenho apresentado
pelas meninas em cada cidade. Isto denota, desta forma, o caráter assistemático do
desenvolvimento do futebol de meninas e mulheres na região. Tal multiplicidade de
nivelamento é um indicativo de que cultura futebolística desta localidade, assim como
nos termos de Damo (2008), está a mercê do “dom” daquelas que possuem as técnicas
corporais adequadas ao futebol incorporadas, adquiridas “naturalmente”, e não pela
existência de um sistema de centros, políticas e ações de formação futebolista para elas.
Tabela 2: Número de meninas participantes por cidade analisada e variáveis consideradas
para análise.

Com relação aos ambientes ofertados para a prática do futebol das meninas,
também nos deparamos com variação de imprevisibilidade. Piranhas, Traipu, Penedo e
Piaçabuçu disponibilizaram campos oficiais para a realização dos festivais. Igreja Nova,
por sua vez, ofertou um campo adaptado, com marcações e tamanho improvisados, bem
como solo irregular. Por outro lado, Pão de Açúcar e São Brás realizaram os festivais de
futebol das meninas na areia das praias da beira do Rio São Francisco.
Segundo Galatti et al (2014), a imprevisibilidade, juntamente com a complexidade e
a subjetividade, são os pilares estruturantes do modelo emergente de ensino do esporte,
que visa a formação de jogadoras/es por meio do jogo. Com base nestes elementos,
entende-se ser possível formar para a compreensão mais ampla da jogabilidade do
esporte e para a inteligência tático-técnica de resolução de problemas e de criação de
soluções, permanentemente necessárias nas situações a cada novo momento jogado.

347

No caso do presente trabalho, no entanto, a imprevisibilidade mapeada nos espaços de
jogo disponibilizados para os festivais de futebol das meninas ribeirinhas é paradoxal.
Se por um lado podemos considera-la como potencial formativo de novas jogadoras, tal
como nos termos de Galatti et al (2014), por outro revela a precarização das experiências
esportivas destas comunidades, marginalizando-as, sobretudo, no acesso ao esporte
como direito social.
Especialmente em Pão de Açúcar e São Brás, mas também no povoado Chinaré, em
Igreja Nova, o espaço não adequado ou adaptado para o jogo e para o desenvolvimento
do futebol de meninas acaba por se configurar como um obstáculo para torna-las cada
vez mais capazes para a prática. Ainda que não seja um empecilho, mas dificulta jogá-lo
com liberdade e autodeterminação, como princípios de uma experiência humana digna
e boa, expressiva do exercício de cidadania, tal como preconizam Korsakas et al (2021).
Finalmente, as cidades de Pão de Açúcar, Traipu, São Brás e Igreja Nova conduziram
as meninas ribeirinhas para os festivais sob a orientação de profissionais de Educação
Física. Em contraponto, Piranhas, Penedo e Piaçabuçu as levaram para participação
nas atividades supervisionada por outros mediadores, que não se apresentaram como
professores da área.
O imaginário futebolístico das meninas ribeirinhas
No geral, conforme gráfico 1, 84,69% das crianças reconheceram a imagem do
jogador de futebol, Neymar Júnior, restando 15,30% delas que não o identificaram a
partir da fotografia apresentada. Por outro lado, no caso da jogadora alagoana Marta, a
maior parte delas não a reconheceu, contabilizando 58,67%, tendo as outras 41,32% que
a nomearam assim que confrontadas com a imagem.
Gráfico 1: Reconhecimento da Imagem da/do atleta

348

A imagem do jogador Neymar Júnior foi reconhecida por mais de 60% das crianças
em praticamente todas as cidades. Conforme ilustra o gráfico 2, a exceção foi a cidade
de Piranhas, onde o menor percentual (56,52%) foi observado. A cidade de Traipu foi a
localidade na qual todas as entrevistadas o reconheceram (100%).
No caso da jogadora Marta, a situação foi oposta ao que verificamos sobre o
jogador da seleção brasileira de futebol masculino. A imagem dela foi reconhecida por
mais de 50% das crianças de apenas duas cidades, Penedo (52,17%) e Pão de açúcar
(72,73%). A cidade com o índice mais reduzido de reconhecimento da atleta alagoana foi
São Brás, onde 4,55% das crianças a identificaram pela imagem apresentada.
Gráfico 2: Reconhecimento da imagem da/do atleta por cidade alagoana da expedição

O reconhecimento da imagem do Neymar Júnior, em comparação a da Marta, foi
superior em todas as cidades alagoanas do baixo São Francisco visitadas pela Expedição.
A diferença foi menos elástica no município de Pão de açúcar (25%). Por sua vez, São
Brás foi o local em que se explicitou a maior distância entre ele e ela (72,72%).
Partimos do entendimento de cultura esportiva de Pires (2002), de que ela se define
pelos códigos, símbolos e pelos modos de ser e estar esportivamente, os quais são
mediados, sobretudo, pelas ações, dinâmicas e estratégias da mídia. Nesse sentido, a
identificação e reconhecimento, ou não, dos referenciais esportivos mobilizados neste
estudo exploratório, são indícios da mediação cultural realizada pela comunicação de
massa no esporte da região do Baixo São Francisco.
Em especial, a baixa média do reconhecimento da jogadora alagoana Marta em
relação ao jogador Neymar revelam a sub-representação do futebol de mulheres no
imaginário coletivo de meninas ribeirinhas das localidades estudadas. A invisibilização
desta manifestação esportiva feminina é histórica no Brasil e no mundo (GOELLNER,
2005a; 2005b; GOELLNER; KESSLER, 2018), porém os avanços conquistados na última
década nesta questão não se mostraram em tendência de equalização nestes primeiros
achados do Baixo São Francisco.
Os achados do estudo em tela revelam o resultado da semiformação esportiva
promovida pelos meios de comunicação de massa (PIRES, 2002), que veiculam uma

349

versão fragmentária e pouco diversa da multiplicidade prática do esporte e das marcas
sociais nele manifestas. Todavia, é também fruto da ausência de políticas públicas
focalizadas no referido território para a formação, incorporação e desenvolvimento da
cultura esportiva e do futebol de mulheres. A negligência da mídia, do Estado e do poder
público, de modo geral, faz das margens do Baixo Rio São Francisco uma localidade
marginal no processo de globalização da cultura, jogando estas meninas, crianças e
adolescentes, para a periferia do acesso à cultura e ao esporte como direitos humanos
fundamentais.
Os sonhos e a prospecção de vida das meninas ribeirinhas
As categorias levantadas sugiram após a escuta dos discursos circulantes, tais
como: escolaridade, profissão, sonhos e desejos. O objeto desta técnica é a palavra; isto
é, o modo individual e atual da linguagem proferida pelas meninas. A análise de conteúdo
avalia os sentidos, procurando admitir aquilo que está contido nas palavras (GUERRA,
2006).
As nuvens de palavras foram elaboradas a fim de apresentar a visualização dos
dados sob a forma de palavras, expressões dos sentidos, obtidos em respostas de frases
curtas.
Figura 15: Nuvem de palavras que determinam a escolaridade e profissão

Os dados apontam que a escolaridade influencia diretamente na profissão e
perspectiva futura de empregabilidade.O sentido de ser professora, enfermeira, policial
federal, doutora, médica, jogadora de futebol entre outras profissões, está relacionado
com as oportunidades apresentadas. A escola preocupada com o ensino aprendizagem,
podeproduzir outras afetações e diálogosno seu cotidiano. Educar não é transmitir e
ensinar conteúdos, para educar é necessário articular a ideia de transformar, associada
ao uso das diferentes linguagens existentes no universo da escola.
Diante dos repertórios de palavras produzidos pelas meninas ribeirinhas, pode-se
inferir a necessidade de diálogo entre Educação, Educação Física e Esporte nos parece
fecundo para refletir sobre as dimensões expressivas e educativas presentes no universo
das atividades corporais, especialmente direcionadas para a escolaridade e profissões.

350

Figura 16: Nuvem de palavras que expressam os sonhos e desejos

Essa nuvem possibilitou a identificação do repertório de palavras, viabilizou a
análise de produção de sentidos das meninas ribeirinhas, sobre os seus sonhos e desejos.
Defender a sociedade, ajudar a família, cuidar dos animais, ser famosa, ser jogadora
de futebol, conhecer a universidade, entre outras palavras expressas, apontam para a
influência do território na formação das identidades das meninas.
A formação da personalidade associa diretamente o gosto ao prazer. Sendo o gosto
de cariz individual, e simultaneamente partilhado com o tecido social. A personalidade
influencia a construção das identidades coletivas, fomenta a sociabilidade por afinidades,
gera pertencimentos a grupos sociais.
Fortalecer as dimensões que compõem, portanto, o conjunto de conhecimentos
e o trabalho pedagógico da Educação Física na escola, a partir da identificação dos
sonhos e desejos das crianças e jovens. Os dados acenaram compossibilidades para a
produção social de novas subjetividades, novos sonhos e desejos. A escola pode tornarse um lugarde potencialização dos sonhos e desejos das crianças e jovens.
A Figura 3 demonstra o resumo dos principais achados. Nenhuma cidade foi classificada
no nível de desempenho Especialização. As duas melhores cidades que tiveram melhor
desempenho (intermédio) contavam com o profissional de Educação Física. As duas
cidades com maior número de participantes foram Piaçabuçu e Pão de Açúcar, com
destaque para a primeira que demonstrou maior apoio e proximidade dos Gestores
Públicos com a Expedição. No entanto, o Piaçabuçu foi o município com menor nível
de desempenho e sem profissional de Educação Física. No geral, o reconhecimento do
Neymar foi maior em relação a Marta e nenhum município teve o reconhecimento da Marta
superior ao Neymar. As nuvens de palavras indicam maior proporção de meninas que
sonham em conhecer a Universidade e se tornarem jogadoras de futebol. O município de
Pão de Açúcar foi o que mais se destacou em todas as avaliações, ocupando as primeiras
posições em todos os itens. Vale ressaltar que Pão de Açúcar contou com um profissional
de Educação Física engajado com a prática do Futebol de Mulheres. Paradoxalmente,
São Brás e Traipu, apesar da presença dos profissionais de Educação Física, tiveram
baixo nível de desempenho e baixo número amostral durante a Expedição.

351

Figura 17: Resumo dos Principais Achados em Figura.

CONCLUSÕES
Consideramos que as cidades do Baixo São Francisco apresentam potencial
espacial para o desenvolvimento do futebol de meninas nas localidades, necessitando,
sobretudo, universalizar a disponibilidade de profissionais de Educação Física formados
para a atuação na área e construir mais espaços específicos para a prática da modalidade,
com direitos de uso reservados a elas. Assim, entendemos que os níveis de desempenho,
relativamente avançados das meninas da região para com o futebol, poderão se
desenvolver ainda mais.
Com relação ao imaginário futebolístico presente na região, identificamos a
marginalização das meninas ribeirinhas no processo de globalização deste fenômeno
esportivo. Isso se manifesta, sobretudo, no não reconhecimento da imagem da jogadora
Marta, uma alagoana, conterrânea, idolatrada mundialmente pelo futebol, a qual,
majoritariamente, elas não tiveram o direito de conhecê-la, mesmo que pela mediação
das mídias.
No diálogo entre Educação, Educação Física e Esporte, nos parece fecundo refletir
sobre as dimensões expressivas e educativas presentes no universo das atividades
corporais, especialmente direcionadas para a escolaridade e profissões. Mostrou-se
necessário otimizar as dimensões que compõem, portanto, o conjunto de conhecimentos
e o trabalho pedagógico da Educação Física na escola, a partir da identificação dos
sonhos e desejos das crianças e jovens. São possibilidades para a produção social de
novas subjetividades, novos sonhos e desejos naquela região.
A compreensão sobre corpo, os movimentos, os gestos e os comportamentos das
meninas ribeirinhas (crianças/adolescentes), foram observados através da prática do
futebol, onde surgiram manifestações de expressões culturais. A linguagem do corpo
esteve como instrumento na construção de saberes, ações, sentidos, valores, condutas e
relações humanas.
Para dar continuidade às ações de intervenção do projeto Academia & Futebol,
sugerimos o desenvolvimento de um projeto ampliado de formação humana, que aprecie
as possibilidades da dimensão corporal e as linguagens que dela emanam. São candentes
aprofundamentos teórico/metodológicos para a identificação e interpretaçãodas atitudes
e das representações relacionadas ao corpo e suas dimensões no sentido de podermos
falar em desenvolvimento humano, educacional e esportivo do Baixo São Francisco.

352

AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e ao Ministério do
Esporte, que por meio do Projeto Academia & Futebol, viabilizaram o desenvolvimento
deste trabalho na V Expedição Científica do Baixo São Francisco.
REFERÊNCIAS
DAMO, A. S.. Dom, amor e dinheiro no futebol de espetáculo. Revista Brasileira de Ciências
Sociais, v. 23, n. 66, p. 139–150, fev. 2008.
GALATTI, L. R. et al.. Pedagogia do esporte: tensão na ciência e o ensino dos jogos
esportivos coletivos. Revista da Educação Física / UEM, v. 25, n. 1, p. 153–162, jan. 2014.
GARGANTA, J. et al. Fundamentos e práticas para o ensino e treino do futebol. In:
TAVARES, F. (Ed.). JogosDesportivosColetivos:ensinar a jogar. Portugal: Editora FADEUP,
2013, p. 199-264.
GOELLNER, S. V. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. Revista
Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 19, n. 2, p. 143–151, 1 jun. 2005a.
GOELLNER, S. V. Mulher e esporte no Brasil: entre incentivos e interdições elas fazem
história. Pensar a Prática, v. 8, n. 1, p. 85–100, 15 nov. 2005b.
GOELLNER, S. V.; KESSLER, C. S. A sub-representação do futebol praticado por mulheres
no Brasil. Revista USP, n. 117, p. 31–38, 6 ago. 2018.
GUERRA, I. C. Pesquisa qualitativa e análise de conteúdo: sentidos e formas de uso.
Estoril: Principia, 2006.
KORSAKAS, P.; RIZZI, E. G.; TSUKAMOTO, M. H. C.; GALATTI, L. R. Entre Meio e Fim: Um
Caminho para o Direito ao Esporte. LICERE - Revista do Programa de Pós-graduação
Interdisciplinar em Estudos do Lazer, [S. l.], v. 24, n. 1, p. 664–694, 2021. DOI: 10.35699/24476218.2021.29534. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/licere/article/
view/29534. Acesso em: 10 jun. 2023.
PIRES, G. D. L. A Educação Física e o discurso midiático: abordagem crítico-emancipatória.
Ijuí: Unijuí, 2002.
WISNIK, J. M. Venenoremédio: o futebol e oBrasil. São Paulo: Companhia das Letras,
2008.

353

EDUCAÇÃO AMBIENTAL E
SANEAMENTO RURAL

354

21. AÇÕES GERAIS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS
ESCOLAS RIBEIRINHAS DO BAIXO SÃO FRANCISCO
José Vieira Silva92
RESUMO
As ações de educação ambiental no contexto do programa de Expedições
Científicas do Baixo São Francisco se iniciaram em 2018, com a prospecção de público
e das atividades em que poderiam ser desenvolvidas. Identificado o público alvo e as
demandas, em 2019 foram desenvolvidas ações em escolas públicas de ensino fundamental
e médio das comunidades ribeirinhas, onde o foco central foi o trabalho com plásticos e
resíduos sólidos. Em 2020, devido às recomendações e protocolos adotados em tempos
de pandemia, as visitas às escolas foram somente com a presença de professores, diretores
e gestores municipais. A partir de 2021, foi iniciado o projeto piloto e, intensificado em
2022, o trabalho de doação de materiais escolares para crianças e de livros didáticos,
notebooks, datashows e caixas de som para as escolas ribeirinhas. Em 2022, em parceria
com a CODEVASF, foi doada uma sala de informática com impressora para a escola
municipal situada no Povoado Chinaré, em Igreja Nova. Além disso, outras atividades de
educação ambiental foram desenvolvidas em parceria com o SESC-DF e SEMARH-AL em
oito (8) dos dez (10) municípios visitados pela a Expedição em 2022.
Palavras-chave:
INTRODUÇÃO
As condições sócio-econômicas e ambientais no Baixo São Francisco (BSF)
apresentam problemas que são persistentes, ao ponto de, em muitas situações, serem
críticos, adversos e limitantes ao uso dos recursos naturais pela população ribeirinha
residente. De certa forma, a resolução destes problemas envolve um contexto
multidisciplinar de conhecimentos e de ações governamentais transversais.
No que tange ao contexto do conhecimento básico, a educação ambiental de
crianças, jovens e adultos tem sido apontado como a saída mais eficaz visando a
resolução de problemas ambientais a curto, médio e longo prazo. Por outro lado, é
perceptível também que, apesar de todo esforço de professores e gestores de escolas
públicas, o ensino sobre a temática ambiental tem sido pontual e sem muito foco no
conhecimento da realidade local e na resolução de problemas atuais, bem como na
prevenção de problemas futuros.
Mesmo após conhecer e vivenciar a realidade e os desafios da educação nas
escolas públicas e privadas das comunidades ribeirinhas no período de 2018 a 2021,
estes foram agravados pelo período pandêmico. São desafios que vão muito além dos
conteúdos programáticos e planejamentos pedagógicos, pois ainda são limitantes em
decorrência da precária infraestrutura de apoio, disponibilidade de recursos financeiros
e, sobretudo, pelas dificuldades de acessos aos conteúdos disponíveis em meios digitais.

92
as.

Professor Associado IV, PPGAA / CRAD-UFAL. Campus Arapiraca. Universidade Federal de Alago-

355

As abordagens de educação ambiental adotadas durante as Expedições Científicas
no Baixo São Francisco foram sempre pensadas e voltadas para uma integração de
conteúdos técnico-científicos e práticos desenvolvidos no contexto das realidades das
escolas ribeirinhas. Este é um modelo aprimorado, em função dos problemas locais
levantados pelas Expedições anteriores, e já utilizados com sucesso em comunidades
ribeirinhas de outras regiões do Brasil e em diferentes regiões do mundo (América do
Norte, África, Ásia e Oceania). Porém, há uma percepção de que a adoção de políticas
públicas, ambiental e educacional, nas três esferas de poderes ainda é deficitária em
relação à atenção que deveria ser dada.
Nas cinco edições das Expedições até então, foi possível constatar que a inserção
e execução dos planejamentos pedagógicos municipais não ocorreram de forma a levar
em consideração as questões ambientais locais. A melhoria do ensino, assim como a
resolução de problemas ambientais e educacionais requer que os governos das três
esferas de poder garantam os recursos em seus planos plurianuais.
Os avanços são mínimos ou mesmo insignificantes, mesmo no país existindo uma lei
específica que trata da questão da educação ambiental, Lei n° 9.795, de 27 de abril de
1999, que dispõe sobre a educação ambiental institui a Política Nacional de Educação
Ambiental. Esta lei permitiu que o governo federal oficializasse o entendimento de
educação ambiental:
”Entende-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo
e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e
competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do
povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade”. (BRASIL, 2005)
No BSF há uma enorme negligência quanto à sua aplicação e execução prática de
políticas de educação ambiental, principalmente nos locais onde ocorrem as maiores
demandas e carências. Independente da esfera das escolas públicas, municipais ou
estaduais, ao se fazer uma análise conjuntural das condições encontradas nas escolas
ribeirinhas do BSF, constata-se que muito pouco mudou em relação à adoção de uma
matriz didática pedagógica voltada à educação ambiental nestas escolas e com foco
nos problemas locais.
Como já levantados em estudos e relatórios anteriores, ainda há uma grande
lacuna entre os conteúdos dos planejamentos pedagógicos aplicados ao contexto
da realidade ambiental local. Percebe-se que há uma dissociação enorme entre os
problemas da realidade local e os conteúdos abordados nas escolas ribeirinhas. Esta é
uma das maiores limitações quanto à adoção de uma política de ensino com conteúdos
ambientais mais abrangentes e associados à resolução dos problemas.
As percepções levantadas durante as expedições científicas no BSF apontam
para a existência de problemas ambientais comuns aos demais locais do mundo. No
entanto, no BSF, a realidade da educação ambiental nas escolas ribeirinhas é bastante
destoante, uma vez que as execuções dos conteúdos e temáticas ambientais do contexto
pedagógico ainda estão bem distantes de serem vivenciados na prática e dentro do
contexto local.
A EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA E AS ESCOLAS RIBEIRINHAS
A Expedição Científica do Baixo São Francisco (BSF) é uma iniciativa coordenada
pela Universidade Federal de Alagoas e contou no ano de 2022 com a participação
direta de 27 instituições do Brasil. As atividades desenvolvidas durante as expedições
abrangeram 35 áreas de pesquisas, que vão desde a parte de pesquisa científica dos
bioindicadores para monitoramento ambiental até levantamento das condições sociais
e hidroambientais do rio.

356

As ações ambientais da Expedição, desde seu princípio, têm focado no
levantamento dos problemas locais, que vêm gerando uma pressão antrópica muito
grande sobre a vegetação nativa e os recursos hídricos, impactando fortemente nos
diferentes níveis de importância ecológica, conservação e degradação ambiental. De
maneira geral, no BSF, ao longo dos tempos, as áreas de Caatinga do BSF e mesmo as
áreas das regiões de transição e de mata atlântica têm sido negligenciadas do ponto
de vista do gerenciamento ambiental, de forma que a devastação atinge proporções
preocupantes, tanto do lado de Alagoas quanto de Sergipe. E este fato tem se agravado
devido ao elevado grau de degradação nas áreas de preservação permanentes (APPs),
matas ciliares e nascentes, tanto dos seus afluentes de 1ª e 2ª ordem, como do próprio
Rio São Francisco.
Quando estes problemas ambientais, que foram identificados pela a Expedição,
são levados para conhecimento de alunos, professores e gestores públicos, a surpresa e
constatação maior é que simplesmente desconhecem as causas e os efeitos dos mesmos.
Ou seja, o desafio para contornar tais problemas ambientais é muito maior do que
possa ser dimensionado na teoria. Mas também há o lado bom desta história toda, que
fica por conta da aceitação da população em geral e professores quanto ao processo
de conscientização e desenvolvimento de ações e atividades educacionais focadas
em difundir o conhecimento que levam à conscientização ambiental e resolução dos
problemas. A população se empenha em participar, no entanto, os gestores públicos,
nem tanto assim.
Em 2022, o Estado de Alagoas possuía o menor IDHM (Índice de Desenvolvimento
Humano Municipal) médio do Brasil, com 0,683, enquanto o Estado de Sergipe,
este valor era de 0,702 (AtlasBrasil, 2022). Os indicadores socioeconômicos do BSF
apresentam um PIB baixo e os Índices de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM)
são classificados como baixos (0,45 a 0,599, grande maioria) e médios (entre 0,6 e
0,699, alguns poucos). Outro ponto indicador, que é reflexo direto da distribuição de
renda e do desenvolvimento humano e muito preocupante nos dois Estados, diz respeito
ao Índice IDEB, das séries iniciais e finais do ensino primário, onde os valores médios da
última avaliação, divulgada em 2021, foram considerados preocupantes e muito baixos
e estão entre 3 e 5,2 (Quadro 1).
Quadro 1: Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) dos municípios
visitados pelas V Expedição Científica do Baixo São Francisco no ano de 2022.

Dentre as inúmeras atividades desenvolvidas, ocorreram também estudos sobre
os aspectos ambientais do saneamento básico das comunidades ribeirinhas e visitas às
escolas destas comunidades para tratar de educação ambiental e, posteriormente, visita
dos alunos aos ginásios poliesportivos e espaços onde foram montadas e desenvolvidas
as atividades da Expedição pelo SECS-DF e SEMARH-AL.

357

PROBLEMAS A SEREM SUPERADOS E OBJETIVOS DO PROJETO DE EDUCAÇÃO
AMBIENTAL NO BSF
A realidade das comunidades ribeirinhas do Baixo São Francisco requer uma
atenção diferenciada pelos órgãos governamentais uma vez que, mesmo dispondo do
recurso básico mais importante, a água, estas comunidades continuam a viver em um
estado de pobreza extrema e com sérios problemas de degradação ambiental. Um dos
pontos de maior limitação, e o principal gargalo identificado nas expedições científicas
anteriores (2018 a 2021), foi o baixo nível educacional da população em geral, causado
por diversos fatores inerentes ao sistema educacional brasileiro, em todo o território
Nacional.
Os pontos identificados como sérios limitantes do desenvolvimento sustentável
são os mesmos levantados em expedições anteriores e ocorre principalmente nas séries
iniciais do ensino fundamental. Dentre estes estão à baixa qualidade do ensino nas
escolas públicas ribeirinhas por falta de qualificação docente, material didático de
apoio e prioridade das gestões municipais. Isto ocorre também em decorrência das
limitações de recursos financeiros locais e da deficiência do suporte educacional para
inclusão digital e tecnológica destas escolas ribeirinhas. É premente a necessidade de
qualificação continuada dos professores e da inserção destas escolas em um contexto de
desenvolvimento tecnológico que permitam as mesmas a terem o acesso às informações
universais disponíveis no mundo digital e a difusão destas como ferramentas de ensino,
aprendizagem e desenvolvimento humano e social.
Visando sedimentar a participação dos parceiros do Projeto de Expedição
Científica do Baixo São Francisco, o SESC-DF e a SEMARH-AL estiveram presentes nas
ações desenvolvidas em oito dos dez municípios visitados no ano de 2022.
DADOS GERAIS DAS ESCOLAS
Informações básicas das escolas que foram visitadas em 2022, em cada ponto
de parada, e que foram contempladas com as novas ações de apoio educacional na 5ª
Expedição Científica do Baixo São Francisco. Estas informações consistem da matrícula
INEP, desempenho IDEB, séries atendidas, turno(s), número de alunos matriculados,
número de professores, número de pessoas de apoio e endereço completo.
Cidade: PIRANHAS - AL
- Escola Municipal de Ensino Fundamental Frei Damião
Matrícula INEP: 27004210
IDEB 2019/2021: 4,0/4,3
Séries atendidas: 1º ao 5º ano
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 170
Nº de Professores: 12
Nº de Pessoas de apoio: 04
Endereço: Comunidade Passagem do Meio, S/N Zona Rural. 57460-000, Piranhas - AL.
Cidade: PÃO DE AÇÚCAR – AL
- Unidade Municipal de Ensino Ronalço dos Anjos
Matrícula INEP: 27006530
IDEB 2019/2021: 4,9/5,3
Séries atendidas: Educação infantil ao 5º ano
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 134
Nº de Professores: 07

358

Nº de Pessoas de apoio: 04
Endereço: Rua Maestro Nozinho s/n. Bairro Cohab. CEP: 57400-000. Pão de Açúcar AL
Cidade: GARARU – SE
- Escola Municipal Padre Jose Thomas de Aquino Menezes
Matrícula INEP: 28000846
IDEB 2019/2021: INSE 2 – abaixo da média Nacional – sem classificação.
Séries atendidas: Ensino Infantil, Fundamental, Anos Iniciais e Finais (ER e EJA)
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 233
Nº de Professores: 22
Nº de Pessoas de apoio: 07
Endereço: Rua 15 de Marco, Sn Centro. 49830-000 Gararu - SE.
Cidade: TRAIPU - AL
- Escola Municipal de Educação Básica Agapito Rodrigues de Medeiros
Matrícula INEP: 27022102
IDEB 2019/2021: 4,0/4,2
Séries atendidas: 1º ao 5º ano
Turno(s): Matutino / Vespertino / Noturno
Nº de Alunos Matriculados: 397
Nº de Professores: 25
Nº de Pessoas de apoio: 08
Endereço: Rua Vereador João Cavalcante, s/n. Bairro Centro. CEP 57370-000. Traipu –
AL.
Cidade: SÃO BRÁS – AL
- Escola Municipal de Ensino Fundamental Jose Araújo de Carvalho
Matrícula INEP: 27021530
IDEB 2019/2021: 4,0/6,7
Séries atendidas: Ensino Infantil e Ensino Fundamental
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 171
Nº de Professores: 12
Nº de Pessoas de apoio: 04
Endereço: Povoado Lagoa Comprida, S/N Zona Rural. 57380-000. São Brás - Al.
Cidade: PROPRIÁ – SE
- Escola Municipal de Educação Infantil Padre Luiz Henrique
Matrícula INEP: 28013778
IDEB 2019/2021: Sem avaliação IDEB – não se aplica
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 425
Nº de Professores: 22
Nº de Pessoas de apoio: 06
Rua Monsenhor José Curvelo Soares, 345 Diocesano. 49900-000 Propriá - SE.
- Escola Agrícola Prefeito Geraldo Sampaio Maia
Matrícula INEP: 28029917
IDEB 2019/2021: 0,0/4,1
Séries atendidas: Ensino Fundamental. Atendimento Educacional Especializado
Turno(s): Matutino e Vespertino

359

Nº de Alunos Matriculados: 167
Nº de Professores: 13
Nº de Pessoas de apoio: 06
Povoado São Vicente, S/N. Zona Rural. 49900-000 Propriá - SE.
Cidade: IGREJA NOVA (CHINARÉ) – AL
- Escola Municipal de Educação Básica General Artur da Costa e Silva
Matrícula INEP: 27044904
IDEB 2019/2021: 7,3/5,0
Séries atendidas: Educação Infantil; 1º ao 5º ano e EJA
Turno(s): Matutino, Vespertino e Noturno
Nº de Alunos Matriculados: 187 (infantil ao 5º ano) e 61 (EJA)
Nº de Professores: 12
Nº de Pessoas de apoio: 11
Diretora: Vânia Santos Menezes
Endereço: Povoado Chinaré. CEP 57280-000. Igreja Nova - AL
Cidade: PENEDO - AL
- Escola Municipal de Educação Básica Professor Douglas Apratto Tenório
Matrícula INEP: 27045226
IDEB 2019/2021: 5,5/6,1
Séries atendidas: 1º ao 5º ano
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 175
Nº de Professores: 13
Nº de Pessoas de apoio: 12
Endereço: Rua do Fogo, S/N – Bairro Santo Antônio, CEP 57200-000. Penedo – AL.
Cidade: PIAÇABUÇU – AL
- Grupo Escolar Municipal Messias Calumby
Matrícula INEP: 27045927
IDEB 2019/2021: 5,0/5,2
Séries atendidas: 1º ao 5º ano
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 173
Nº de Professores: 11
Nº de Pessoas de apoio: 04
Endereço: Rua Antônio Machado Lemos, s/n. Brasília. CEP 57210-000. Piaçabuçu- AL.
Cidade: BREJO GRANDE – SE
- Escola Municipal José Moacyr Mendonca
Matrícula INEP: 28012747
IDEB 2019/2021: 3,2/3,7
Séries atendidas: Ensino Fundamental, Anos Iniciais e Finais (Ensino regular e EJA)
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 397
Nº de Professores: 44
Nº de Pessoas de apoio: 10
Endereço: Rua Juvina Tojal, 413 – Centro. Brejo Grande / SE

360

DOAÇÕES PARA AS ESCOLAS RIBEIRINHAS EM 2022
No contexto da educação ambiental, as visitas às escolas das comunidades
ribeirinhas visaram à realização de doação de kits de livros didáticos com abordagem
exclusiva voltada para o contexto ambiental e que pudessem ser replicados nas salas
de aulas (Figura 1). Além disso, foi realizada a doação de equipamentos de informática
(notebook e Datashow) e caixas de som portáteis, todos destinados ao uso no
desenvolvimento e realização de atividades de educação ambiental (Quadro 2; Figura
2). Tais materiais visam atender as demandas de um público estudantil infantil e juvenil,
das séries iniciais e do ensino primário, das escolas ribeirinhas do Baixo São Francisco.
Figura 1: Participação do Magnifico Reitor da UFAL na visita à UMEF Frei Damião, situada
na Comunidade Passagem do Meio, em Piranhas, AL.

Quadro 2: Escolas municipais do BSF que receberam doações de livros e equipamentos
multimídia durante a Expedição Científica de 2022.

Ao todo foram doados 10 kits de livros didáticos, 04 notebooks e 05 datashows,
além de duas caixas de som amplificadas.
Figura 2: Materiais didáticos (livros) e de multimídia doados às escolas ribeirinhas do
BSF no ano de 2022, no âmbito da Expedição Científica

361

362

REGISTROS DE ALGUMAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS DURANTE A V EXPEDIÇÃO
CIENTÍFICA, EM 2022.
Figura 3: Mesa de abertura e público presente no Auditório Miguel Arcanjo, Piranhas
– AL e equipe da Vª Expedição Científica do Baixo São Francisco, na saída oficial de
Arapiraca, AL, em 02 de novembro, e no encerramento em Penedo, dia 13 de novembro
de 2022.

363

Figura 4: Visitação de alunos das escolas públicas do BSF ao Oceanário do SESC-DF.

Figura 5: Atividade de Educação Ambiental com alunos de escolas públicas, desenvolvida
pela SEMARH-AL.

364

Figura 6: Equipe de saúde com ações de educação com crianças de escolas públicas
do BSF. Alunos de escolas públicas em visita aos barcos e participação das atividades
de educação ambiental.

365

Figura 7: Momentos de integração de parte da equipe da V Expedição Científica do
BSF com as comunidades ribeirinhas.

366

Figura 8:Participação efetiva dos alunos das escolas ribeirinhas do BSF nas atividades
desenvolvidas no âmbito da V Expedição Cientifica em parceria com as escolas públicas.

367

Figura 9: Apresentação à comunidade ribeirinha do biodigestor desenvolvido pelo
Professor Eduardo Lucena (UFAL).

368

OUTRAS ATIVIDADES SOCIAIS DESENVOLVIDAS NO BSF
Figura 10: Doação de Equipamentos agrícola (patrulha mecanizada - microtrator) para
associações comunitárias de produtores rurais, em parceria com a CODEVASF e de
PEVs para coleta seletiva de lixo em parceria com a SEMARH-AL.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
No contexto geral da V Expedição Científica do Baixo São Francisco, foram
11 escolas contempladas diretamente de alguma forma com as ações de doação de
equipamentos multimídia e livros para educação ambiental. Todas receberam kits
de livros para educação ambiental, quatro (4) delas receberam datashows, cinco (5)
receberam Datashow e duas (2) receberam caixas de som amplificadas. A Escola do
Chinaré recebeu uma sala de informática, com 12 computadores e uma impressora laser.
No geral, a estimativa é que estas doações contemplaram diretamente mais de cinco
mil alunos e 300 professores de escolas públicas ribeirinhas.

369

Além disso, nas ações presenciais desenvolvidas em parceria com a SEMARH-AL e
SESC-DF, receberam a visita de mais de dois mil alunos de escolas públicas ribeirinhas e
cerca de 150 professores, além de pais de alunos e pessoas das comunidades ribeirinhas.
Além disso, em parceria com a CODEVASF, foram doados duas patrulhas
mecanizadas, que contemplaram duas associações de produtores rurais, de Piranhas e
São Brás.
REFERÊNCIAS
MIRANDA, F.. Os estados brasileiros com os maiores IDHs. 2022. https://socientifica.
com.br/estados-brasileiros-com-os-maiores-idh/. Acesso em 07/jun/2023.
- ATLAS BRASIL. Alagoas em números. http://www.atlasbrasil.org.br/perfil/uf/27.
Acesso em 07/jun/2023.

370

22. EDUCAÇÃO AMBIENTAL - SEMARH/AL
RESUMO
O presente relatório visa descrever as atividades desenvolvidas em Educação
Ambiental pela SEMARH - Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos
Hídricos durante a V Expedição Científica do Baixo São Francisco – ciência, educação
e saúde, realizada no período de 03 a 12 de novembro de 2022, nos municípios de
Piranhas/AL, Pão de Açúcar/AL, Traipu/AL, Penedo/AL, Piaçabuçu/AL e Brejo Grande/
SE, com mais de 1.300 estudantes da rede pública municipal e estadual com idade de 4
a 15 anos. A participação da escola é importante, pois pode proporcionar ao estudante,
um entendimento mais amplo sobre temas relacionados ao meio ambiente, os cuidados
com a água, o descarte correto dos resíduos sólidos, entre outros, contribuindo para
formar cidadãos conscientes e sensibilizados, para que sejam multiplicadores na
comunidade em que vivem.
INTRODUÇÃO
As atividades em Educação Ambiental realizadas pela SEMARH nas escolas que fazem
parte da região da bacia hidrográfica do Rio São Francisco tiveram como temática “Meio
Ambiente e Água”, objetivando sensibilizar os estudantes a reconhecer a importância
do meio ambiente, identificar-se como parte integrante e agente transformador de
mudanças e atitudes, através das atividades desenvolvidas para melhorar a qualidade
de vida, saúde coletiva e do planeta.
Foram realizadas ações em espaço aberto através de sete oficinas de educação
ambiental como: dinâmica de integração, seguida pela mandala do conhecimento com
uma roda de conversa sobre desmatamento, queimadas, perigo dos plásticos para a
vida aquática com perguntas geradoras, oficina de plantoterapia, trilha ecológica, jogo
da memória sobre o desperdício de água, pinturas com tinta guache e lápis de giz cera
com imagens da fauna e flora local, além da exposição das atividades.
RESULTADOS
Durante o período de ocorrência da V Expedição Científica do Baixo São Francisco,
esta secretaria atuou em seis municípios, partindo do sertão ao litoral, atendendo ao
público com idade de 4 a 15 anos, sendo 126 estudantes em Piranhas/AL, 269 em Pão de
açúcar/AL, 126 em Traipu/AL, 370 em Penedo/AL, 407 em Piaçabuçu/AL e 15 em Brejo
Grande. Os indivíduos passavam pela dinâmica de integração e eram posteriormente
designados a no mínimo uma das demais atividades.
Figura 1: Distribuição espacial dos atendimentos prestados pela Equipe de Educação
Ambiental da SEMARH/AL

371

RECOMENDAÇÕES/SUGESTÕES
A equipe de Educação Ambiental da SEMARH faz as seguintes recomendações:
- Distribuir lanche saudável para os estudantes;
- Limpeza do local da atividade;
- Entrega de cronograma para a equipe das escolas participantes contendo horário,
quantidade de alunos e o local;
- Mínimo de 02 (duas) camisas para equipe.
Sugestão:
Distribuir garrafas unidade ou copos ou canecas personalizadas e confeccionadas com
material ecológico para os participantes da expedição, tendo em vista evitar resíduos.
E todo resíduo produzido durante a expedição que possa ser reutilizado ou reciclado,
seja entregue a cooperativas ou associações de catadores de materiais recicláveis.
EQUIPE/SEMARH
A equipe de Educação Ambiental da SEMARH foi coordenada por Valdenira Chagas
com o apoio das assessoras técnicas Iara Lins, Liara Santos, Maria Domênica Didier e as
estagiárias Mariana Barbosa e Carolina Rafaela Silva.

372

Figura 2: Equipe Técnica SEMARH/AL: Mariana, Carolina, Iara, Valdenira e Liara.
(Esquerda) Figura 3: Equipe Técnica SEMARH/AL: Domênica, Liara, Sec. Executiva
Amélia, Iara, Carolina e Mariana. (Direita)

Figura 4: Dinâmica de integração em Piranhas. Figura 5: Dinâmica de integração em Piaçabuçu.

Figura 6 e 7: Trilha Ecológica em Traipu.

373

Figura 8: Mandala do conhecimento em Penedo.

Figura 10: Equipe SEMARH/AL na Oficina de
Plantoterapia em Piranhas.

Figura 12: Plantoterapia em Piranhas.

374

Figura 9: Mandala do conhecimento em
Traipu

Figura 11: Plantoterapia em Piaçabuçu

Figura 13: Jogos da memória em Penedo.

Figura 14: Pintura a lápis cera da fauna e flora
regional em Penedo.

Figura 15: Pintura a lápis cera com pequenos
da fauna e flora regional em Penedo.

Figura 16: Pintura a tinta guache da fauna e
flora regional em Traipu.

Figura 17: Pintura a tinta guache da fauna e
flora regional em Pão de Açúcar.

Figura 18: Exposição das atividades em Pão de Açúcar.

375

23. PARTICIPAÇÃO DO OCEANÁRIO MÓVEL DO SESC DF
PROJETO AS MARAVILHAS DO FUNDO DO MAR
CIDADES VISITADAS - DIÁRIO DE BORDO DA EXPEDIÇÃO
DIA 3 - 03/11/2022 (quinta-feira)
-A abertura aconteceu em Piranhas (Alagoas);
-Cerimônia oficial de abertura da expedição, com a presença de diversas autoridades,
entre reitores de universidades da região e o ministro da ciência, tecnologia e inovação;
-Realização de atendimento com o Oceanário no Centro Cultural Miguel Arcanjo, em
que foram recebidas diversas escolas da região;
-Lançamento do trailer do filme ‘O Imperador e o Rio’, que trazia relatos da população
ribeirinha sobre a importância da conservação do Rio São Francisco;
-Número de atendimentos: 125;
-Número de sessões: 10.

376

DIA 4 - 04/11/2022 (sexta-feira)
-Atendimento em Pão de Açúcar (Alagoas);
-Realização de atendimento com o Oceanário no ginásio de esportes Dr Atila P. Machado,
em que foram recebidas diversas escolas da região;
-Número de atendimentos: 269;
-Número de sessões: 14.

DIA 5 - 05/11/2022 (sábado)
-Atendimento em Traipu (Alagoas);
-Realização de atendimento com o Oceanário no Centro Multieducacional, em que
foram recebidas diversas escolas da região;
-Palestra sobre Arqueologia Subaquática, ministrada pelo professor Gilson Rambelli;
-Número de atendimentos: 126;
-Número de sessões: 10.

377

DIA 6 - 06/11/2022 (domingo)
-Atendimento em São Brás (Alagoas);
-Realização de atendimento com o Oceanário no Mercado Municipal (ao lado do Museu
Velho Chico), em que foram recebidas diversas escolas da região;
-Número de atendimentos: 177;
-Número de sessões: 10.

378

DIA 7 - 07/11/2022 (segunda-feira)
-Atendimento em Propriá (Sergipe);
-Realização de atendimento com o Oceanário no ginásio da Escola Agrícola de Educação
Integral Geraldo Sampaio Maia, em que foram recebidas diversas escolas da região;
-Número de atendimentos: 118;
-Número de sessões: 8.

DIA 8 - 08/11/2022 (terça-feira)
-Atendimento em Igreja Nova (Alagoas) - Povoado de Chinaré;
-Realização de atendimento com o Oceanário na Escola Municipal de Educação Básica
General Arthur da Costa e Silva, em que foram recebidas diversas escolas da região;
-Número de atendimentos: 125;
-Número de sessões: 8.

379

DIA 9 - 09/11/2022 (quarta-feira)
-Atendimento em Penedo (Alagoas);
-Realização de atendimento com o Oceanário no Ginásio da Secretaria de Educação,
em que foram recebidas diversas escolas da região;
-Número de atendimentos: 370;
-Número de sessões: 14;
-Palestra sobre Poluentes Emergentes no Rio São Francisco, com os professores Johnny
e Sandra Carvalho;
-Palestra sobre Fossas Agroecológicas, com o professor Eduardo Lucena.

380

DIA 10 - 10/11/2022 (quinta-feira)
-Atendimento em Piaçabuçu (Alagoas);
-Realização de atendimento com o Oceanário no Ginásio Poliesportivo, em que foram
recebidas diversas escolas da região;
-Número de atendimentos: 407;
-Número de sessões: 16.

RESUMO DOS NÚMEROS DE ATENDIMENTOS
Público atendido: 1.717 pessoas
Total de sessões de cúpula: 90
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Expandir os limites de atuação do Sesc Oceanário para além do Distrito Federal
é realmente dar mais dinamicidade e importância para o caráter itinerante do projeto.
Transitar entre as escolas das regiões administrativas do Distrito Federal é sempre
se deparar com uma situação nova e particular. Entretanto, a V Expedição Científica
do Baixo São Francisco possibilitou a itinerância do projeto para além do território já
estabelecido e ampliou os locais de atuação entre 10 municípios de estados diferentes
(Alagoas e Sergipe) percorrendo mais de 250 km e proporcionando atendimento para
quase 2 mil pessoas.

381

Levar a divulgação científica juntamente com a educação ambiental para a
população que possui contato direto com o Baixo São Francisco estendeu nossas
possibilidades de atuação e, até mesmo, nos permitiu ter ações mais concretas mediante
às questões ambientais, principalmente as que estão relacionadas à poluição. A
proximidade com o rio nos permitiu ter um diálogo mais direcionado e interligado com
várias áreas do conhecimento presentes na Expedição como a Engenharia Ambiental,
a Agronomia e Agroecologia, Antropologia, Engenharia Química, entre outros campos
de atuação. Tal transversalidade enriqueceu a mediação e expandiu a experiência do
público com as temáticas supracitadas.
O Sesc Oceanário potencializou a discussão sobre o meio ambiente com ações de
educação ambiental utilizando a ludicidade dos produtos audiovisuais em formato 360°,
além de trazer à luz a discussão sobre os oceanos articulada com os grandes problemas
ambientais. Houve a oportunidade de destacar o Baixo São Francisco, que tem uma
relação direta com o mar e como é importante a conscientização das populações que
estão em suas proximidades. Os plásticos e o descarte de rejeitos ganharam muita
notoriedade nas conversas com o público, fazendo-nos ter um olhar mais direcionado e
articulado com as realidades culturais e sociais da população do Baixo São Francisco.
Assim, o Sesc Oceanário possibilitou não só uma aproximação com as questões
ambientais mais emergentes mas, também, a aproximação entre a educação e as
produções científicas por meio de ações pautadas diretamente com os novos resultados
das pesquisas sobre meio ambiente. Articular isso com a Expedição Científica do Baixo
São Francisco é aumentar as nossas possibilidades de atuação, dar maior notoriedade
para a ciência e popularizar o saber científico para comunidades em vulnerabilidade
econômica e social, as quais podem mudar a dinâmica de seu arranjo social em virtude
desses novos conhecimentos que adentram em seus cotidianos.

382

24. FOSSAS AGROECOLÓGICAS PARA O TRATAMENTO DE
EFLUENTES SANITÁRIOS E PROJETO ECOSABÃO EM
ESCOLAS MUNICIPAIS DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Área de conhecimento: Engenharias – Engenharia Sanitária
Eduardo Lucena Cavalcante de Amorim93
José Vieira Silva94
Fernanda Santana Peiter95
Dayana de Gusmão Coêlho96;
Sayonara Esther da Silva Ferreira97
RESUMO
Durante o desenvolvimento da V Expedição Científica do Baixo São Francisco
diversas atividades foram realizadas, dentre elas destaca-se a implantação de fossas
agroecológicas em escolas municipais para tratamento do esgoto sanitário, bem como
a oficina para produção de sabão a partir de óleo residual de fritura. Os esgotos gerados
de atividades humanas são normalmente tratados por sistemas convencionais, como as
fossas sépticas, que se instaladas de maneira equivocada podem provocar impactos
ambientais e à saúde humana. Além disso, a atividade turística de gastronomia gera
resíduos que se forem lançados no meio ambiente de forma inadequada podem gerar
impactos ambientais. Um exemplo desses resíduos seria o óleo residual de frituras. Diante
do exposto, a utilização de “Fossas Agroecológicas” e a produção de produtos de limpeza
podem ser alternativas viáveis para resolver parte do problema supramencionado.
Nesse sentido foram visitados os municípios de Piranhas-AL, Pão de Açúcar-AL e Igreja
Nova-AL para verificação e acompanhamento das fossas agroecológicas construídas
durante a IV Expedição Científica em escolas municipais para o tratamento do esgoto
sanitário. Além disso, foram construídas mais duas fossas agroecológicas em uma escola
localizada no povoado de Piau, Piranhas-AL. Nos dias 17 e 18 de novembro de 2022 foi
realizada uma oficina na Escola Ronalço dos Anjos, em Pão de Açúcar, para capacitar a
comunidade para produzir sabão em barra e líquido a partir de óleo residual de frituras.
Diante dessas realizadas durante a expedição, despertou interesse da comunidade em
buscar alternativas ambientais mais sustentáveis, bem como o poder público.
Palavras-chave: tecnologia social, impactos ambientais, resíduos, esgoto sanitário, óleo
residual.

93
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383

INTRODUÇÃO
O presente relatório visa apresentar as ações realizadas no âmbito da V
Expedição Científica do Rio São Francisco realizada entre 02 e 12 de novembro de 2022,
especificamente a implantação de fossas agroecológicas para tratamento do esgoto
sanitário em Escolas municipais em municípios do baixo São Francisco, bem como a
realização de oficina para capacitação da comunidade para produção de sabão a partir
de óleo residual de fritura.
Os efluentes e resíduos gerados de atividades sanitárias humanas são normalmente
tratados por sistemas convencionais, como as fossas sépticas, que se instaladas de
maneira errada podem provocar impactos ambientes e à saúde humana. O lançamento
de esgoto em córregos e rios é uma das principais causas da degradação de mananciais
de água potável, sendo desejável a pesquisa de formas eficientes de tratamento do
esgoto domiciliar in loco e reuso.
O custo elevado e a falta de mão de obra qualificada para a construção correta
de sistemas convencionais, aliado à falta de infraestrutura em sistemas de esgotamento
sanitário nas zonas rurais dos municípios brasileiros, são fatores que agravam o problema
fora do meio urbano.
A região do baixo São Francisco possui afluentes importantes, a situação dos
domicílios sem tratamento de esgoto se apresenta como uma questão imperativa, pois
o lançamento de efluentes sanitários não tratados diretamente no leito do rio é um dos
principais problemas que a bacia enfrenta.
Diante do exposto, a utilização de “Fossas Agroecológicas” pode ser uma
alternativa viável para resolver parte do problema supramencionado, pois beneficiará
escolas e comunidades da zona rural de municípios da região do baixo São Francisco,
onde não há a viabilidade de se instalar um sistema coletivo de esgotamento sanitário,
esta solução individual surgiria como uma alternativa viável, pois além de apresentar
baixo custo quando comparado a outras tecnologias, o processo construtivo permite a
aplicação de resíduos sólidos que outrora teriam destinação inadequada, como pneus
e resíduos da construção civil.
As “Fossas Agroecológicas (Bacias de Evapotranspiração)” é na verdade uma
solução que vem sendo amplamente divulgada pela Empresa de Assistência Técnica
e Extensão Rural de Minas Gerais (EMATER/MG), fruto de estudos deste órgão, e da
Dissertação de Mestrado de Adriana Galbiati (GALBIATI, 2009), denominada de Tanque
de Evapotranspiração (TEvap).
O TEvap, também conhecido como Fossa Verde, Fossa de Bananeiras ou
Fossa Agroecológica, é um sistema alternativo destinado ao tratamento de efluentes
domiciliares, que visa suprir a carência de coleta e tratamento dos esgotos em áreas
rurais. Segundo Vieira (2010) o TEvap é uma tecnologia proposta por permacultores
para tratamento das águas negras e consiste em um sistema plantado, onde ocorre a
decomposição anaeróbia da matéria orgânica, mineralização e absorção dos nutrientes
e da água pelas raízes, cuja ideia original é atribuída ao permacultor americano Tom
Watson.
Segundo Galbiati (2009) não é possível medir o desempenho do TEvap através
do conceito de “eficiência” utilizado para se comparar a qualidade entre o afluente e
efluente do sistema, pois se trata de um sistema fechado e não deve produzir efluente
(quando mantido adequadamente). Em seu estudo, no entanto, coletou-se amostra do
esgoto tratado, onde observou-se que houve “boa remoção de sólidos suspensos totais,
turbidez, DQO e DBO”. Ainda, segundo a autora, o TEvap “é uma alternativa viável e
importante para o tratamento de esgotos urbanos, periurbanos e rurais, podendo ser
aplicado tanto em pequenos quintais, quanto em áreas maiores.”
Neste ínterim, e conhecendo a fundo a tecnologia, a Equipe da Expedição Científica
do Rio São Francisco corrobora com o pensamento de que há inúmeros benefícios na

384

construção de TEvap ou Fossas Agroecológicas em escolas e comunidades rurais, pois
alinha-se perfeitamente com os projetos indicados pelo Plano de Recursos Hídricos da
Bacia em seu Eixo V – Biodiversidade e Requalificação Ambiental, sendo perfeitamente
justificável sua implantação, pois além de trazer benefícios diretos a qualidade de vida
dos beneficiários, promoverá a revitalização da bacia do “velho chico”.
OBJETIVOS
Objetivo Geral
Evitar o lançamento de esgoto sanitário e óleo residual de frituras não tratado
em corpos hídricos e consequentemente a degradação ambiental da Bacia Hidrográfica
do Rio São Francisco (BHRSF), a partir da construção de sistemas sustentáveis de
tratamento de efluentes sanitários e produção de sabão em escolas municipais na
BHRSF.
Objetivos Específicos
- Construção de Bacias de Evapotranspiração para o tratamento de águas escuras;
- Construção de Círculos de Bananeira para tratamento de águas cinzas;
- Realização de capacitação de equipe técnica das prefeituras para construção dos
sistemas de tratamento;
- Promoção do acesso ao Saneamento Básico (eixo esgotamento sanitário) em áreas da
BHRSF, conforme prevê a Lei do Saneamento (Lei nº 11.445/2007);
- Tratar os esgotos sanitários provenientes de escolas municipais de municípios
localizados na BHRSF;
- Evitar a contaminação da água, do solo e do lençol freático;
- Produção de sabão a partir de óleo residual de frituras;
- Realização de ações de educação ambiental em escolas com a finalidade de difundir
a tecnologia de tratamento de esgoto e sensibilização dos impactos causados do
lançamento indevido no Rio São Francisco.
METODOLOGIA
Ações pré-expedição
Antes da realização da V Expedição Científica do Rio São Francisco foram
realizadas visitas e oficinas em escolas para a construção de fossas agroecológicas.
Os municípios e escolas que foram contemplados com as fossas agroecológicas foram:
Piranhas-AL e São Brás.
Ações durante a expedição
Durante a Expedição foram realizadas ações de educação ambiental, nas
escolas citadas anteriormente, integrada à entrega de novas fossas agroecológicas e
acompanhamento das fossas construídas durante a IV Expedição com a finalidade de
emponderar a comunidade escolar do sistema de tratamento de esgoto da escola.
Ações pós-expedição
Após a Expedição às ações de capacitação e acompanhamento da operação e
monitoramento das fossas agroecológicas continuam sendo realizadas. Além disso, o
acompanhamento da conclusão das obras de fossas agroecológicas e mobilização de

385

outros municípios para construção do sistema de tratamento de esgoto em escolas.
Também foi realizada uma oficina para capacitar a comunidade de Pão de Açúcar para
a produção de sabão a partir de óleo residual de frituras.
Construção das Fossas agroecológicas
A opção pela implantação das Bacias de Evapotranspiração (BET), para o
tratamento de águas escuras, em conjunto com Círculos de Bananeira (CB), para o
tratamento de águas cinzas, utilizou não só o critério ambiental, por se tratarem de
solução sustentável e barata para o tratamento de esgoto em zona rural, mas também
condições hidrogeológicas locais verificadas em visita a campo.

A Figura 1 e a Figura 2 ilustram seções transversais e longitudinais do BET.
Figura 1: Seção transversal do BET.

Figura 2: Seção longitudinal do BET.

386

O dimensionamento do Círculo de Bananeiras é empírico e, segundo Leal (2016)
- EMATER/MG, deve ser escavado um círculo de 1,40 m de diâmetro e 0,60 m de
profundidade, formando um cilindro no solo (V = π X 0,72 X 0,60 = 0,92 m3), conforme
esquema apresentado na Figura 3.
Figura 3: Desenho esquemático do círculo de bananeiras.

Por fim, na Figura 4, apresenta-se uma planta esquemática para implantação do
conjunto BET, CB, CG e CPs.
Figura 4: Planta esquemática do BET com o CB.

387

Oficina de sabão ecolegal
A Associação Brasileira de Normas Técnicas ¬ ABNT ¬ define o lixo como os “restos
das atividades humanas, considerados pelos geradores como inúteis, indesejáveis ou
descartáveis, podendo-se apresentar no estado sólido, semi-sólido ou líquido, desde
que não seja passível de tratamento convencional.” Desta forma, este representa uma
séria ameaça à vida no planeta por dois motivos fundamentais: sua quantidade e seus
perigos tóxicos. Os óleos vegetais são amplamente e universalmente consumidos para
o preparo de alimentos em residências, estabelecimentos industriais e comerciais de
produção de alimentos.
No entanto, devido ao seu caráter aglutinante, o óleo despejado nos ralos das pias
causa, além de problemas de higiene e mau cheiro, o entupimento de canos de esgoto,
bem como o mau funcionamento das estações de tratamento. Ao atingir córregos e
riachos, o óleo interfere na passagem da luz e dificulta a oxigenação da água. Ao chegar
ao mar, o óleo vegetal sofre decomposição por microrganismos e se transforma em
metano, que retém vinte vezes mais energia que o dióxido de carbono.
Uma alternativa para tentar minimizar o impacto que esse tipo de resíduo causa é
o reaproveitamento dos óleos vegetais utilizados nos processos de fritura. A reciclagem
é uma forma interessante e eficiente de gerir os resíduos.
A produção de sabão artesanal é a maneira mais fácil, rápida e econômica de reciclar o
óleo residual, pois é facilmente degradado por bactérias e tem tempo de permanência
ambiental inferior a um dia. Sua ocorrência em sistemas aquáticos não corresponde a
um problema ambiental.
Nesse contexto, foi criado o projeto de extensão a “Oficina Sabão ECOLEGAL”
com o objetivo de minimizar o impacto ambiental, promover a conscientização dos
alunos e da comunidade sobre os benefícios da reciclagem do óleo vegetal usado, bem
como auxiliar em projetos sociais e de geração de renda com a fabricação de sabão em
comunidades carentes.
RESULTADOS OBTIDOS
Ações durante a expedição
Durante o desenvolvimento da V Expedição Científica do Baixo São Francisco
diversas atividades foram realizadas, dentre elas destaca-se a implantação de fossas
agroecológicas em escolas municipais para tratamento do esgoto sanitário, bem
como a oficina para produção de sabão a partir de óleo residual de fritura. Os esgotos
gerados de atividades humanas são normalmente tratados por sistemas convencionais,
como as fossas sépticas, que se instaladas de maneira equivocada podem provocar
impactos ambientais e à saúde humana. Além disso, a atividade turística de gastronomia
gera resíduos que se forem lançados no meio ambiente de forma inadequada podem
gerar impactos ambientais. Um exemplo desses resíduos seria o óleo residual de
frituras. Diante do exposto, a utilização de “Fossas Agroecológicas” e a produção de
produtos de limpeza podem ser alternativas viáveis para resolver parte do problema
supramencionado.
Nesse sentido foram visitados os municípios de Piranhas-AL, Pão de AçúcarAL e Igreja Nova-AL para verificação e acompanhamento das fossas agroecológicas
construídas durante a IV Expedição Científica em escolas municipais para o tratamento
do esgoto sanitário (Figura 5). Além disso, foram construídas mais duas fossas
agroecológicas em uma escola localizada no povoado de Piau, Piranhas-AL. Nos dias 17
e 18 de novembro de 2022 foi realizada uma oficina na Escola Ronalço dos Anjos, em Pão
de Açúcar, para capacitar a comunidade para produzir sabão em barra e líquido a partir
de óleo residual de frituras. Diante dessas realizadas durante a expedição, despertou

388

interesse da comunidade em buscar alternativas ambientais mais sustentáveis, bem
como o poder público.
Figura 5: Implantação das fossas agroecológicas na Expedição Científica do Baixo São
Francisco.

Além disso, durante a Expedição Científica foi exposto um modelo em escala
piloto de um biodigestor, o qual poderia ser aplicado para tratamento de diversos
resíduos agroindustriais visando a produção de biogás e biofertilizante (Figura 6).
Figura 6: Exposição do biodigestor durante a V Expedição Científica do Baixo São
Francisco.

Ações pós-expedição - Projeto Ecosabão legal
Para o desenvolvimento da oficina a comunidade realizou a coleta de óleo residual
de fritura no município de Pão de Açúcar.
Visando atingir a população que residisse na região, com implicações econômicas,
sociais e ambientais; a oficina foi realizada com os professores da Escola Municipal
Ronalço dos Anjos e comunidade próxima.
Para atingir o objetivo, a oficina foi estruturada em duas modalidades: teórica e
prática. Ao longo da modalidade teórica foi explorada a poluição, de uma maneira geral,
e o impacto da mesma sobre o meio ambiente e a sociedade. Em seguida, o assunto
foi detalhado, buscando-se focar, exclusivamente, na poluição das águas causada
pelo descarte incorreto de óleo de cozinha. Posteriormente, foi apresentada a receita
de sabão e os cuidados que se deve ter durante a produção e, finalmente, realizado
uma análise de custo/benefício dessa receita, indicando a vantagem econômica de se
produzir o sabão e apresentando a possibilidade de venda. Já a modalidade prática,
demonstrou a produção de sabão de uma maneira dinâmica, ensinando os participantes

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a fazê-lo com total segurança e garantia de resultados.
Foram elaborados uma apresentação, em slides, Figura 7 com objetivo apresentar
os prejuízos que o descarte incorreto de óleo usado pode trazer para o meio ambiente
e para a sociedade, os mecanismos químicos básicos que envolvem a produção e ação
dos sabões, fornecer a receita a ser utilizada.
Figura 7: Apresentação em power point.

Para tanto, identificou-se uma necessidade de desenvolver um material impresso
semelhante, a cartilha, para ser distribuído entre os participantes das oficinas, de forma
a auxiliar o acompanhamento, conforme apresentado na Figura 8.
Figura 8: Cartilha com as etapas da produção de sabão em barra.

390

A ação foi realizada nos dias 17 e 18 de novembro de 2022 na “Escola Municipal
de Ensino Ronalço dos Anjos” do município de Pão de Açúcar/AL. Participaram como
expositores os coordenadores, colaboradores e alunos envolvidos no projeto.
No dia 17 de novembro de 2022, Figura 9, a equipe do projeto realizou uma capacitação
de educação ambiental com atividades lúdicas sobre descarte de resíduos sólidos e
poluição ambiental. Nesse contexto, foram apresentadas as alternativas para o descarte
correto dos resíduos, em especial sobre o óleo residual de fritura.
Figura 9: Palestra de Educação Ambiental.

As atividades de educação financeira foram realizadas no dia 18 de novembro de
2022 após a prática da produção de sabão, na qual foram levantados os custos fixos e
variáveis para produção e venda do sabão em barra, Figura 10.
Figura 10: Palestra de Educação Financeira.

391

A solução foi vertida na vasilha plástica para passar pelo processo de
branqueamento e secagem, Figura 12 e 13. A avaliação do produto foi realizada após
um tempo total de 12 horas.
Figura 11: Produção de sabão em barra na oficina.

Figura 12: Sabão em barra antes da secagem.

Figura 13: Produção de sabão líquido.

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Dessa forma, a reciclagem de óleo de fritura através da produção de sabão caseiro
além de ser simples, minimiza os impactos ambientais e proporciona uma melhoria na
qualidade de vida das pessoas de comunidades carentes.
A oficina foi de extrema importância no que diz respeito à conscientização
ambiental e à motivação das pessoas da comunidade. A oficina obteve um alcance c
total de 40 pessoas, que participaram da oficina, com uma excelente interação entre os
estudantes e coordenadores do projeto de extensão com os participantes, integrando
assim a universidade e a comunidade.
CONCLUSÕES
As expedições científicas do baixo São Francisco vêm observando e atuando com
ações para auxiliar a resolução da problemática da baixa cobertura de tratamento de
esgotos. Deste modo, a V Expedição Científica do São Francisco foi essencial para dar
os primeiros passos no sentido da concretização de ações voltadas à resolução desses
problemas, partindo da implantação de fossas agroecológicas como uma alternativa de
tratamento viável para as águas residuárias domésticas na região.
O projeto envolveu a participação de profissionais técnicos, mas, principalmente,
da população beneficiada com as fossas agroecológicas, que esteve presente nas diversas
atividades de educação e conscientização ambiental. De modo geral, as construções
das fossas agroecológicas em escolas contempladas apresentaram execuções simples e
eficazes, capazes de atender às demandas de carga poluente geradas nas comunidades
ribeirinhas e na zona rural. Sendo assim, essa opção de tratamento pode ser difundida
para os demais municípios. Com isso, o comitê da Bacia Hidrográfica do rio São
Francisco lançou edital para construção desse sistema de tratamento de esgoto, visando
contemplar ações de saneamento rural.
O Projeto Sabão Ecolegal atuou na promoção do desenvolvimento socioambiental
de Pão de Açúcar e suas ações, portanto, se mostraram essenciais em uma sociedade
cujo comportamento frente ao meio ambiente tem se mostrado inadequado. Neste
contexto, a educação ambiental como ferramenta transformadora, auxiliou a comunidade
envolvida a modificar o seu comportamento na busca de uma maior segurança ambiental
e propôs, também, uma forma de obter maior segurança financeira, com a economia no
orçamento ou mesmo com a geração de receitas proporcionada pelo sabão produzido.
Por fim, ressalta-se que o tratamento dos efluentes sanitários é imprescindível para
evitar mais prejuízos ambientais, sociais e econômicos em uma região já tão afetada
pela baixa disponibilidade hídrica.
REFERÊNCIAS
CBHSF. Plano de recursos hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco 20162025. 2016. Disponível em: <http://bit.ly/2Qaxuvp>. Acesso em: 20 mai. 2019.
GALBIATI, A. F. Tratamento domiciliar de águas negras através de tanque de
evapotranspiração. 2009. 52 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Tecnologias Ambientais,
Centro de Ciências Exatas e Tecnologia, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul,
Campo Grande, MS, 2009.
VIEIRA, I. Bacia de evapotranspiração. Criciúma: Setelombas, 2010. Disponível em:
<http://bit.ly/2VQPbX0>. Acesso em: 20 mai. 2019.
LEAL, J.T.C.P. Círculo de bananeiras para tratamento de efluentes rurais. Belo Horizonte:
EMATER-MG, 2016. 5 p.

393

ORMONDE, K.X.O. O passo a passo da construção de um tanque de evapotranspiração.
2014. Disponível em: <http://bit.ly/2Im8jT3>. Acesso em: 25 maio 2019.

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COMUNICAÇÃO

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25. AÇÕES DE COMUNICAÇÃO NA 5ª EXPEDIÇÃO:
ESTRATÉGIAS E RESULTADOS
Área de conhecimento: Comunicação, Divulgação Científica
Rose Mary Ferreira Pereira Gomes98
Thyeres de Medeiros Lima Rolim99
Iara Maria Melo Nascimento100
Emerson Fonseca Oliveira Filho101
Edson Oliveira102
RESUMO
A 5ª Expedição Científica do Baixo São Francisco, realizada de 3 a 12 de novembro
de 2022, ampliou as ações desenvolvidas nas edições anteriores e consolidou as
perspectivas de atuação na tríade Ciência, Educação e Saúde, na região do Baixo São
Francisco. Com a responsabilidade de divulgar esse programa, os parceiros envolvidos
e as ações realizadas, a equipe de comunicação fez uso das ferramentas digitais para
alcançar a sociedade, ao tempo que intermediou a relação dos pesquisadores com a
mídia, como forma de promover a divulgação científica. Os dados obtidos revelam que
o Instagram continua sendo o meio mais eficaz de alcance, em detrimento do Facebook,
e que o vídeo continua a ser o recurso mais eficiente. O clipping (acompanhamento das
notícias veiculadas) confirmou a ampliação da influência da Expedição e a importância
do envolvimento com outros veículos de comunicação. Assim, podemos constatar
que, no período de julho de 2022 a maio de 2023, a visibilidade da Expedição e dos
seus principais investidores - MCTI, CBH São Francisco, Codevasf, Semarh-AL e Fapeal
- aumentou, quantitativa e qualitativamente, atraindo novas parcerias e projetos, que,
certamente, gerarão melhorias ambientais, sociais e econômicas para o Velho Chico e a
população ribeirinha.
Palavras-chave: comunicação, Instagram, divulgação científica, mídia.

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Jornalista e servidora da Assessoria de Comunicação da UFAL;
Jornalista e bolsista da Fapeal, no período de 01/07/2022 a 28/02/2023;
Estudante de Jornalismo (UFAL) voluntária na Expedição;
Estudante de Agroecologia (CECA/UFAL) e voluntário na área de audiovisual na Expedição;
Fotógrafo do CBH São Francisco.

INTRODUÇÃO
Os pontos altos da 5ª Expedição Científica do Baixo São Francisco, para a
comunicação social, foram a participação de 66 pesquisadores embarcados, de 35 áreas
de pesquisa, com destaque para a terceira embarcação, a Indiana, mais conhecida como
“barco da saúde”, que proporcionou aos ribeirinhos atendimento médico especializado e
realização de exames bioquímicos e de prevenção ligados à saúde da mulher (papanicolau)
e à do homem (PSA). A inauguração do Museu Ambiental Casa do Velho Chico, em
São Brás-AL, e a atuação do projeto Academia e Futebol, que utiliza o futebol como
ferramenta estratégica de inclusão e cidadania, também contribuíram para geração de
novas pautas para a imprensa local e nacional.
Três novas áreas científicas foram incorporadas à edição 2022 da Expedição:
Antropologia, com visitação a oito comunidades tradicionais; Poluentes Emergentes
(microplástico), por meio da parceria com o Instituto de Estudos do Mar Almirante
Paulo Moreira (IEAPM); e Conservação de Espécies Ameaçadas da Fauna Aquática,
através da parceria com o ICMBio e que resultou no registro de ocorrência da espécie
Pseudauchenipterus flavescens (cabacinho), um peixe raro, endêmico, quase ameaçado
de extinção e que só ocorre no Baixo São Francisco.
A comunicação dessa 5ª edição pôde ser melhor planejada e executada, tendo em
vista o envolvimento e o trabalho ao longo de todo o ano, inclusive com a atuação de um
bolsista da área financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas
(Fapeal), o que permitiu o acompanhamento e divulgação das participações da Expedição
na 19ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), em Brasília; das reuniões com
diferentes Ministérios, em Brasília, para angariar recursos e apoio; do lançamento do
segundo volume do e-book “O Baixo São Francisco: características ambientais e sociais”,
em agosto de 2022; dos preparativos para a edição de 2022; e da Expedição em si, que,
não à toa, superou as edições anteriores em número de coletas e ações.
Ao todo, foram 250km percorridos, ao longo de sete municípios alagoanos
(Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Igreja Nova/Chinaré, Penedo e Piaçabuçu)
e três sergipanos (Propriá, Gararu e Brejo Grande), além da foz do Rio São Francisco.
Entre investidores e parceiros, 27 instituições envolvidas na 5ª Expedição. Cerca de 1.500
amostras coletadas para análise nas áreas de histopatologia, genotoxicidade, microplástico,
qualidade da água, Teor de Óleos e Graxas (TOG), enzimas, fitoplâncton etc. Um novo sítio
arqueológico foi descoberto pela equipe de Arqueologia Subaquática da Universidade
Federal de Sergipe (UFS). 300 peixes foram chipados, entre xiras e piaus, em uma ação
de monitoramento de um projeto de pós-doutorado. Na área de pesca artesanal, houve
registro de cinco novas espécies de peixes, e 403 peixes e crustáceos capturados para
análise. Na área da saúde pública, 6 mil exames foram realizados, 500 pacientes foram
triados, 110 consultas médicas foram efetivadas e 45 casos de complexidades foram
encaminhados para o Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal de Alagoas
(UFAL); além da realização de 500 exames de saúde bucal, em média, em alunos da rede
pública municipal e da entrega de 700 kits com escova e creme dental, sendo a maioria
da Colgate, uma nova parceira desse trabalho.
A educação ambiental aconteceu em cerca de 15 escolas, com a atuação do SESC
do Distrito Federal, que trouxe o oceanário móvel e recebeu mais de 2 mil visitas; da
SEMARH-AL com oficinas educativas lúdicas; do protótipo de biodigestor, apresentado
pelo professor Eduardo Lucena (CTEC/UFAL), capaz de transformar lixo orgânico em
gás metano; e da doação de kits escolares, juntamente com 14 computadores, uma
impressora e quatro projetores multimídia, como recursos capazes de proporcionar um
melhor rendimento no ensino.
O saneamento rural continuou a ser trabalhado com a implantação de fossas
agroecológicas, uma tecnologia social de baixo custo e que, além de fazer o tratamento
adequado das águas escuras (provenientes de vasos sanitários) e das águas cinzas

397

(oriundas das pias), ainda gera frutos, como bananas e mamões, nas plantações feitas na
parte superior das fossas.
Com tantas informações, publicações e produção audiovisual, foi criada uma
página no portal da Ufal, para servir como um repositório, onde estão reunidos os
dados e trajetória do programa de Expedições Científicas do Baixo São Francisco de
2018, quando iniciou, até a atualidade: ufal.br/expedicao-sao-francisco. Nela, é possível
encontrar apresentações realizadas, palestras, documentários, notícias veiculadas no
portal da UFAL e enviadas como release, as cartilhas educativas já produzidas, e-books,
artigos científicos, instituições envolvidas, dentre outras funcionalidades.
A ampla repercussão da Expedição nos meios de comunicação foi resultado da
atuação da equipe de Comunicação da Expedição - Rose Ferreira, Thyeres Medeiros
(bolsista), Iara Melo, Emerson Oliveira e Edson Oliveira -, da Assessoria de Comunicação
da UFAL e da TV Gazeta/Globo, através da participação integral e fundamental dos
repórteres Amorim Neto, Aldo Correia e do estagiário Paulo Lima.
Em relação aos desafios, a conectividade (internet limitada ou ausente) continuou
a ser um ponto fraco, tendo em vista que o sinal era instável, mesmo em lugares com wifi, o que proporcionou falhas na transmissão das palestras científicas, por exemplo, além
de prejudicar o trabalho de comunicação nas redes sociais.
De todo modo, podemos considerar a comunicação realizada ao longo do ano de
2022 e durante a 5ª Expedição como bem-sucedida e eficaz, tendo como parâmetro a
repercussão local, nacional e internacional, seja por meio dos portais da UFAL (www.ufal.
br), da Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior
(ANDIFES) e do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF); de dezenas
de sites de notícias, jornais impressos e revistas, a exemplo da Revista Travessia, do CBH
São Francisco, e da Revista Saber Ufal nº 5, recém publicada; de telejornais locais e
nacionais, como o Jornal Hoje, o Jornal Nacional e o Hora 1, da TV Globo; e por meio de
interesse e convites recorrentes para entrevistas em diferentes meios de comunicação,
reuniões com representantes da Campanha Mares Limpos, ligada à ONU Meio Ambiente,
palestra na 19ª SNCT, através do Ministério da Ciência, Tecnologias e Inovações (MCTI),
e da exibição do trailer do filme “O Imperador e o Rio”, que está sendo produzido pela
Aventuras Produções, produtora premiada internacionalmente, e que foi apresentado no
Los Angeles Brazilian Film Festival.
METODOLOGIA
A comunicação da Expedição foi realizada em duas vertentes: uma voltada ao
Jornalismo e à Assessoria de Comunicação, no sentido de produção de matérias e de
reportagens, contato com a imprensa, realização de entrevistas e gerenciamento do perfil
@expedicao_saofrancisco no Instagram e Facebook; e outra relacionada à divulgação
científica, por buscar comunicar temas científicos, através dos pesquisadores envolvidos,
de forma inteligível, por meio de uma linguagem acessível à população em geral.
Mas, para comunicar de forma eficaz e ampliar o alcance das ações da Expedição,
foi necessário criar uma identidade visual, que até então não existia. Por meio da parceria
com a Agência Peixe Vivo e a Tanto Expresso, o programa científico ganhou essa identidade
e teve sua marca patenteada pela UFAL, como forma de garantir os diretos autorais não
só sobre a marca, como também sobre o modelo de realização, sendo referência para
as demais regiões do Rio São Francisco e até para a Universidade Estadual do Mato
Grosso do Sul (UEMS), que idealiza realizar uma expedição no Rio Paraguai em 2023.
Assim, a identidade visual da Expedição permitiu uma uniformidade e profissionalização
da comunicação do evento, através dos elementos gráficos e audiovisuais produzidos.
Os recursos digitais de transmissão ao vivo; criação e publicação de vídeos
didáticos; e gravação de podcasts foram amplamente utilizados para divulgar a ciência
e aproximar os pesquisadores do público em geral, seja por meio do esclarecimento de

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dúvidas, curiosidades ou explicações sobre suas áreas de atuação. Assim, as palestras
científicas, que são realizadas durante a Expedição, foram transmitidas pelo perfil @
ufaloficial no Instagram; publicamos vídeos explicando, por exemplo, como a água é
tratada e utilizada nas embarcações; e tivemos participação periódica em programas
de rádio e TV, com posterior publicação dos arquivos na sessão “Expedição na Mídia”
da página interna da Expedição no portal da UFAL, em uma parceria quinzenal com
o Programa Mobiliza Brasil da TV Farol, que também é transmitido simultaneamente
para as Rádios Farol FM 90.1 e Francês FM 99.1, além de ser disponibilizado no canal do
YouTube da Rádio TV Farol Maceió.
A curadoria do que seria publicado ou publicizado foi realizada levando em
consideração as especificidades do veículo de comunicação utilizado, a relação com
possíveis datas comemorativas ou mês temático, e os princípios da comunicação de
ciência/divulgação científica. BURNS et al (2003) definem comunicação de ciência como
o uso de habilidades apropriadas, meios, atividades e diálogo para produzir na sociedade
determinadas respostas ou reações, que são reunidas sob o rótulo das vogais AEIOU –
Awareness, Enjoyment, Interest, Opinion-forming e Understanding.
Awareness refere-se à uma consciência, a não ser ignorante a respeito de algo, de ter
familiaridade com o processo de produção científica;
Enjoyment está relacionado à afetividade, a perceber a ciência como algo bom e
prazeroso, não como algo entediante, que só interessa a poucos estudiosos;
Interest é o interesse, é querer saber mais sobre algo, nesse caso a ciência, ao ponto de
envolver-se voluntariamente;
Opinion-forming é o intuito da comunicação de ciência que está relacionado à
formação de opinião, à tomada de decisões com base no conhecimento científico, em
leis e teorias testáveis e fundamentadas, não em subjetividades; e
Understanding, que tem a ver com a compreensão, algo que se desenvolve a respeito
de um assunto, ação ou processo baseado em princípios comumente aceitos. Aqui, é
importante salientar que essa resposta não se apresenta de forma binária (ter ou não ter),
mas revela níveis de compreensão em relação ao conteúdo, processo e fatores sociais
que envolvem a ciência.
Dessa forma, a ciência é um empreendimento social (MILLAR, 1996), e comunicála, no sentido de torná-la acessível, é uma obrigação de cientistas, instituições de ensino
e pesquisa e poder público. É nessa direção que as ações de comunicação da Expedição
seguem.
RESULTADOS
A 5ª Expedição esteve presente nos meios de comunicação locais e nacionais, em
diferentes plataformas: sites e portais de notícias, TVs, publicações impressas, rádios e
podcasts e nas redes sociais, nomeadamente Instagram, Facebook e YouTube.
No período de 1º de julho de 2022 a 31 de maio de 2023, foram contabilizadas,
aproximadamente, 120 matérias em sites e portais de notícias; 36 exibições em canais
abertos e fechados de TV; cinco publicações impressas (revistas); 11 entrevistas em
programas de rádio ou em podcasts; e produção e publicação de 191 posts no feed e 953
stories, totalizando 1.144 publicações nas redes sociais (gráfico 1), além das transmissões
ao vivo das palestras científicas que, juntas, contabilizam mais de 11.500 contas alcançadas.
Gráfico 1: Distribuição da comunicação da 5ª Expedição por plataforma

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Redes sociais
Atualmente, a Expedição está presente no Instagram (@expedicao_saofrancisco),
no Facebook (@expsaofrancisco) e no YouTube, em uma playlist do canal da Ufal (@
ufaloficial).
Instagram
No período de 1º de julho de 2022 a 31 de maio de 2023, o perfil @expedicao_
saofrancisco no Instagram teve um aumento de 1.618 seguidores, com pico no período da
Expedição (novembro de 2022), conforme demonstra o gráfico 2. Em maio de 2023, o
perfil atingiu 3 mil seguidores (figura 1).
Gráfico 2: Variação do número de seguidores no Instagram, com evidente pico durante
a 5ª Expedição.

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Figura 1: Grade do perfil @expedicao_saofrancisco no Instagram

Com, atualmente, 3.033 seguidores, o perfil tem um público majoritariamente
feminino (57,8% de mulheres), na faixa etária entre 25 e 44 anos, conforme indica o
gráfico 3. Os seguidores são principalmente de Maceió-AL, mas com destaque também
para Penedo, Arapiraca, Aracaju e Igreja Nova. Os principais países são Brasil (97%) do
público, seguido de Portugal, Espanha, Estados Unidos e Nigéria.
Gráfico 3: Perfil dos seguidores da Expedição no Instagram nos parâmetros gênero e
idade

401

As publicações feitas nesse período alcançaram 117.758 mil contas, representando
um aumento de 61,3% no Instagram e de 32,7mil% no Facebook, em relação ao período
imediatamente anterior (gráfico 4). As publicações com maior alcance foram em vídeo,
por meio de transmissões ao vivo e reels.
Gráfico 4: Evolução do alcance das redes sociais (Instagram e Facebook) no período
analisado

As publicações com maior alcance no Instagram utilizaram-se da ferramenta vídeo
- reels. Isso nos permite concluir que é necessário uma continuidade dessa estratégia.
A publicação com maior alcance foi feita no dia 10 de fevereiro de 2023 (figura
2). Trata-se de um vídeo de curta duração com uma dica de enfeite carnavalesco
biodegradável, feito com folhas de árvores, como possibilidade de substituição do glitter
(que é feito com plástico e, consequentemente, polui as águas e o meio ambiente). A
publicação, que também foi a mais comentada e com maior número de salvamentos (93)
e compartilhamentos (346), teve 44.475 visualizações, alcançando 41.827 contas, sendo
a maioria de não seguidores, o que demonstra a eficácia da temática e da ferramenta
utilizada [dados coletados em 10 jun. 2023].
Figura 2: Publicação resultante de curadoria e originária do perfil @blog.estefi.machado
no Instagram

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A segunda publicação com maior alcance foi a reportagem exibida no Jornal
Nacional, no dia 26 de dezembro de 2022. Publicado nas redes sociais da Expedição em 5
de janeiro de 2023, o vídeo trata sobre poluentes emergentes no Velho Chico, mostrando
a extrema necessidade de saneamento básico na região (figura 3). O vídeo teve 21.868
visualizações e alcançou 21.094 contas, sendo a maioria também de não seguidores.
Figura 3: Reportagem exibida no Jornal Nacional sobre poluentes emergentes

Transmissões ao vivo:
Durante os 10 dias da 5ª Expedição, foram realizadas quatro transmissões ao vivo,
sendo três pelo perfil @ufaloficial no Instagram (palestras científicas) e uma pelo perfil
@expedicao_saofrancisco no Instagram (cerimônia de encerramento).
A primeira palestra foi realizada no dia 5 de novembro, na cidade de Traipu-AL. A
transmissão foi realizada pelo perfil @ufaloficial no Instagram e não ficou salva para
acesso posterior, por conta da oscilação do sinal da internet, que provocou instabilidades
na transmissão e “quedas”. Sendo assim, a palestra “Velho Chico submerso: Arqueologia
Subaquática no Rio São Francisco”, com o Dr. Gilson Rambelli, da UFS, foi exibida de
forma fragmentada, em três partes.
O segundo dia de palestras aconteceu no dia 9 de novembro, em uma sala de
reuniões do Hotel São Francisco, em Penedo-AL. A transmissão foi realizada pelo perfil @
ufaloficial no Instagram e ficou salva para acesso posterior neste link. As palestras desse
dia foram: “Poluentes Emergentes”, com o Dr. João Soletti e a Dra. Sandra Carvalho, da
UFAL; e “Fossas agroecológicas: tecnologia social aplicada no Baixo São Francisco”, com
o Dr. Eduardo Lucena, da UFAL. As estatísticas da publicação indicam 2.951 visualizações,
5.719 contas alcançadas e 205 interações com o conteúdo, conforme demonstra a figura
4:
Figura 4: Dados da transmissão do segundo dia de palestras noturnas da Expedição

403

A terceira transmissão foi realizada no encerramento da 5ª Expedição, no Teatro
Sete de Setembro, em Penedo-AL, pelo perfil @expedicao_saofrancisco. O vídeo foi salvo
e publicado, para acesso posterior, aqui. O post obteve 2.533 visualizações, alcançou
5.904 contas e teve 242 interações com o conteúdo (figura 5).
Figura 5: Dados da transmissão da cerimônia de encerramento da 5ª Expedição

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Ao todo, as transmissões ao vivo, realizadas no âmbito da 5ª Expedição, obtiveram
5.484 visualizações, alcançaram 11.623 contas e tiveram 447 interações com o conteúdo.
Facebook
A página no @expsaofrancisco no Facebook foi criada para aperfeiçoar o
gerenciamento e vincular as redes sociais da Meta Business, a saber: Instagram, Facebook
e Whatsapp.
Diferentemente do Instagram, o formato que promoveu maior alcance médio nas
publicações foi o de imagem fixa (carrossel ou foto individual). A publicação com maior
alcance (figura 6) foi um respost (quando republicamos um conteúdo de outro perfil com
o devido crédito) da Associação dos Municípios Alagoanos (AMA), no dia 19 de abril - Dia
dos Povos Indígenas:
Figura 6: Carrossel de imagens mostra dados relevantes à presença indígena em Alagoas

E a segunda publicação com maior alcance no Facebook (figura 7) foi o do anúncio
da parceria da Expedição com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
realizada no dia 17 de maio de 2023:
Figura 7: Parceria com IBGE teve destaque no Facebook da Expedição

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YouTube
Por se tratar de um programa científico da UFAL, optou-se por criar uma playlist
das Expedições Científicas do Baixo São Francisco no canal @ufaloficial, ao invés de criar
um canal próprio. A playlist conta, atualmente, com oito vídeos que mostram, por meio
do audiovisual, a trajetória das Expedições desde 2018, quando aconteceu a primeira
edição.
O documentário da 5ª Expedição teve, desde a sua publicação em 29 de janeiro de
2023, 1.069 visualizações, com 5.528 impressões, valor em alta em relação aos demais
vídeos do canal da @ufaloficial no YouTube (gráfico 5).
Gráfico 5: Evolução no número de visualizações do documentário “O Baixo São Francisco:
vivências e desafios”

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A maior parte dos espectadores veio através de link divulgado no WhatsApp,
seguida do Instagram e do portal ufal.br (gráfico 6). Outros dados relacionados ao
público que chamam a atenção estão relacionados à maior parte do público pertencer à
idade entre 45 e 54 anos, ser do gênero masculino (72,96%) e ser do Brasil (73,5%).
Gráfico 6: Dados demonstram um perfil diferente do público do documentário da
Expedição no YouTube, em relação ao Instagram

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Clipagem
A seguir, apresentaremos o resultado do processo de monitoramento, análise e
arquivamento das menções feitas à Expedição na mídia local e nacional, em veículos de
comunicação virtuais, eletrônicos e impressos. A esse processo, denominamos clipping
ou clipagem. A seguir, no quadro 1, apresentamos a repercussão geral da Expedição nos
meios de comunicação:
Quadro 1: panorama geral de inserções da Expedição na mídia

A seguir, nos quadros 2, 3 e 4, detalhamos a clipagem de acordo com os veículos
de comunicação:
Quadro 2: Acompanhamento das notícias relacionadas à Expedição nas TVs

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Quadro 3: acompanhamento das notícias relacionadas à Expedição nos sites e portais
de notícias

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Quadro 4: acompanhamento das notícias relacionadas à Expedição em rádios e podcasts

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao analisar o trabalho de comunicação realizado nas redes sociais, percebemos
que três publicações com maior alcance no Instagram foram realizadas em colaboração
com o perfil @ufaloficial, reforçando a importância da parceria entre perfis afins e com
credibilidade, com o objetivo de aumentar o alcance e o engajamento do público.
Os posts com maior destaque foram publicados na ferramenta reels do
Instagram. Essa constatação corrobora a importância do reels como estratégia com
maior possibilidade de entrega aos usuários e o quanto vídeos curtos, atraentes e bem
elaborados tendem a se projetar mais nessa rede social que supervaloriza a beleza das
publicações, sejam em imagens ou em vídeos (MANOVICH, 2017).
Acreditamos que a escolha pelo Instagram, como rede social preferencial, e da
comunicação virtual tenham contribuído para uma efetiva e abrangente comunicação de
ciência, tendo em vista que a ciência precisa se fazer presente onde as pessoas estão,
e estudos, como o de Martin e MacDonald (2020), mostram que as redes sociais têm
bastante potencial, inclusive por permitirem um modelo participativo de comunicação, no
qual o cientista/pesquisador pode interagir com o público, esclarecer dúvidas e mostrar
o que faz (MARTIN E MACDONALD, 2020).
Os desafios da 5ª Expedição, na área da Comunicação, continuaram sendo
a conectividade limitada ou ineficiente, que dificultam muito o trabalho on-line e até
mesmo a comunicação com a imprensa; e a quantidade ainda reduzida de profissionais
de comunicação envolvidos, embora a equipe tenha crescido em relação à 4ª edição..
Nesse sentido, a parceria com a Agência Peixe Vivo, que permitiu a integração do
fotógrafo Edson Oliveira à equipe de comunicação da Expedição, foi essencial, porque
nos permitiu ter fotos profissionais de todos os dias, facilitando a disponibilidade de
material para redes sociais, portais e revistas.
Diante dos resultados obtidos e relatados nesse documento, consideramos que a
comunicação realizada durante a 5ª Expedição foi bem-sucedida, superou as expectativas
e a última edição, tendo como referência a repercussão local, nacional e internacional.
Para a 6ª Expedição, a expectativa é de aprimoramento dos trabalhos; maior
integração e aproximação com a mídia, para além da TV Gazeta/Globo; e amadurecimento
da comunicação interna.

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REFERÊNCIAS
BURNS, T. W., O’CONNOR, D. J., & STOCKLMAYER, S. M. Science communication: A
contemporary definition. Public Understanding of Science, v. 12, n. 2, p. 183–202, 2003.
https://doi.org/10.1177/09636625030122004.
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MANOVICH, Lev. Instagram and Contemporary Image, 2017. Disponível em: http://
manovich.net/index.php/projects/instagram-and-contemporary-image. Acesso em: 22
fev. 2022.
MARTIN, C., & MACDONALD, B. H. Using interpersonal communication strategies to
encourage science conversations on social media. PLoS ONE, v. 15, 2020. https://doi.
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Acesse esta e outras publicações em:
https://ufal.br/expedicao-sao-francisco

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