Relatório final da III Expedição Científica do Baixo São Francisco
Ano: 2020
RELATÓRIO FINAL JULHO DE 2021 III EXPEDIÇÃO CIENTIFICA (2).pdf
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RELATÓRIO DA III EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA DO
BAIXO SÃO FRANCISCO
ORGANIZAÇÃO:
Prof. Dr. Emerson Soares - UFAL
Prof. Dr. José Vieira Silva – UFAL
Financiadores e patrocinadores:
Maceió - AL
Julho de 2021
O PROGRAMA DAS EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS DO SÃO FRANCISCO
O programa surgiu com o pretexto de bioprospectar, conhecer e divulgar a situação
do Baixo Rio São Francisco, quanto aos aspectos sociais das comunidades ribeirinhas,
comunidade de pescadores, situação da pesca, identificar os impactos e a qualidade da
água do rio, a ictiofauna, problemas ocasionados pelo represamento, assoreamento,
desmatamento, avaliar os poluentes presentes no ambiente aquático e uso de agrotóxicos,
e os efeitos da cunha salina sobre as comunidades ribeirinhas e o ambiente e propor ações
mitigadoras através de programas de educação ambiental.
O intuito do projeto é alavancar na região, uma nova atividade participativa por
intermédio do conhecimento através do monitoramento dos principais indicadores
sociais, econômicos e dos impactos ambientais, assegurando a qualidade e segurança
alimentar. Tem o enfoque de chamar a atenção para a situação do rio, seus problemas e
divulgar para os principais órgãos de fomento e governantes, propondo ações para mitigar
os impactos e degradação da qualidade ambiental.
Avaliando a necessidade de gerar políticas públicas embasadas em dados
científicos, as expedições científicas propõem a elaboração de grande diagnóstico
participativo e multidisciplinar sobre a situação econômica, social e ambiental da região
do Baixo São Francisco, avaliando os impactos da pesca, poluição aquática,
desmatamento e assoreamento, patologias e parasitologia de peixes e crustáceos e índices
de metais pesados e pesticidas e sua influência na qualidade do pescado, determinando o
perfil socioeconômico e a situação da saúde das populações ribeirinhas, adotando
medidas de educação ambiental efetivas, e qualificando o efeito das diversas culturas
intensivas sobre a qualidade de água, para com isso efetivar um programa de
biomonitoramento ambiental da calha principal do rio São Francisco, utilizando de
tecnologias de ponta para determinação de um padrão ambiental com intuito de propor
ações mitigadores para os ecossistemas existentes na região de estudo.
As Expedições Científicas no Baixo São Francisco iniciaram em 2018, onde durante
5 dias, cerca de 40 pesquisadores trabalharam em várias temáticas, como: educação
ambiental, pesca, socioeconomia, ictiofauna, análise de água e de metais pesados,
assoreamento, entre outras, em 5 municípios do Baixo São Francisco (Traipu, Porto Real
do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu), culminando na publicação de um
diagnóstico referente a 2018, e em junho de 2019 a publicação de um artigo científico
sobre os dados desta primeira edição.
Em 2019 foi realizada a II Expedição Cientifica, com 50 pesquisadores e técnicos
de 16 instituições, que durante 10 dias, trabalharam nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio-Propriá, Igreja Nova, Penedo-Neopólis, Piaçabuçu
e foz do São Francisco. Esta expedição teve por objetivo principal, estudar todo o baixo
São Francisco, coletando informações e dados, para de posse dos resultados, propor ações
para mitigar os problemas no rio.
Em 2020, mesmo diante pandemia, o trabalho foi realizado com 53 pesquisadores
em 30 áreas de pesquisa. O projeto e pesquisas desevolvidas conciliou de vez as
expedições e mostrou que é possível fazer ciência sem que nenhum pesquisador ou
tripulante adoecesse, tornando-se como consequência, o maior evento prático científico
do Brasil neste ano.
São análises in loco e laboratoriais, oriundas dos esforços, fomento, apoio e ações
de instituições como a Universidade Federal de Alagoas- UFAL, Comitê de Bacia
Hidrográfica do São Francisco – CBHSF, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
Alagoas- FAPEAL, EMBRAPA- Tabuleiros Costeiros, CODEVASF- 5SR, Universidade
Federal de Sergipe – UFS, EMATER-AL, Universidade Federal da Paraiba- UFPB,
Universidade Federal de Rondônia- UNIR, Secretaria de Meio Ambiente e Recursos
Hídricos de Alagoas - SEMARH-AL, Universidade Federal Rural de PernambucoUFRPE, Instituto de Pesquisa Renato Archer, Ministério da Ciência, Tecnologia e
Inovação-MCTI, Marinha do Brasil e Instituto Federal do Ceará – IFCE, Pedreira Triunfo,
Agência Peixe Vivo, FUNDEPES.
EQUIPE DA 3ª EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Alfredo Borie Mojica
Biólogo Marinho (UNAB, Chile) e Engenheiro de Pesca (UFRPE). Mestre em Ciências
Pesqueiras nos Trópicos (UFAM) e Doutor em Recursos Pesqueiros e Aquicultura
(UFRPE). Experiência na conservação de tartarugas marinhas e genética de populações e
nas áreas de aquicultura e recursos pesqueiros (peixes ornamentais, biologia reprodutiva
e cultivo de peixes amazônicos). Trabalhou com monitoramento da atividade pesqueira
artesanal e com o impacto das hidroelétricas no rio Madeira. Atualmente trabalha com
ecologia acústica aquática, paisagem sonora e bioacústica de peixes marinhos e de água
doce, utilizando o método acústico passivo como sistema de monitoramento.
Ana Karolina Lopes da Silva
Graduanda em Ciências Biológicas modalidade Licenciatura. Atualmente é estagiária do
Laboratório de Ficologia do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade
Federal de Alagoas. Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em Taxonomia de
Criptógamos, atuando principalmente nos seguintes temas: fitoplâncton e taxonomia de
microalgas.
Ana Paula de Almeida Portela da Silva
Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
(2004), mestre em Biologia de Fungos (UFPE- 2007) e doutora em Ciências Biológicas
(UFPE- 2014). Atualmente, é professora adjunta da Universidade Federal de Alagoas
(UFAL), coordenada o Laboratório de Diversidade Microbiana (LABDIMI), desenvolve
atividades na área de Microbiologia aplicada, com ênfase em Micologia. Tem interesse
por fungos de importância agronômica, controle biológico de pragas e Microbiologia
ambiental
Anderson dos Santos
Doutorando em Engenharia Agrícola - Universidade Federal Rural de Pernambuco
(UFRPE), com ênfase em Meteorologia e Sensoriamento Remoto. Mestre em Agricultura
e Ambiente - Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Bacharel em Agronomia, pela
mesma instituição. Tem experiência em agrometeorologia e ecofisiologia, com ênfase em
radiação solar e controle de ambientes; mudança do uso do solo e desertificação,
geoprocessamento e sensoriamento remoto; e impactos das ações antrópicas no meio
ambiente.
Antônio Jackson Borges Lima
Ambientalista. Bancário aposentado do BNB. Palestrante e autor de vários artigos sobre
meio ambiente. Foi Secretário de Meio Ambiente de Traipu e Diretor do sindicato dos
bancários de Alagoas. É Fundador e Diretor do Museu Ambiental Casa do Velho Chico,
em Traipu. Honrarias: Comendador das Águas - Governo de Alagoas; Título de Velho do
Rio/AFBNB; Destaque ambiental/IMA; Título de Cidadão dos Municípios de Traipu/AL,
Gararu/SE, Pão de Açúcar/AL e Cidadão Sergipano. Membro do CBHSF por três
mandatos seguidos.
Aristides Pavani Filho
Graduado (1982) e Mestre (1990) em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de
Campinas. Ingressou no Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer, em
1986. Participou do Projeto Fábrica de Máscaras Litográficas. Chefiou a Divisão de Micro
Sistemas, Coordenou o CSS, CTI-NE, COARE e o Projeto COGNITUS - Petrobras para o
desenvolvimento de Robótica Ambiental, sensores e análise de dados para a Amazônia.
Coordenou os Projetos Dragão do Mar e IRACEMA - Barco Autônomo para
Monitoramento Ambiental entre outros. Atualmente é Assessor do Ministro da Ciência,
Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), e Diretor do Departamento de
Tecnologias Estratégicas e de Produção (DETEP), da Secretaria de Tecnologias Aplicadas
(SETAP) - MCTIC.
Carlos Alberto da Silva
Oceanógrafo, Mestre em Aquicultura, Doutor em Geoquímica Ambiental e pósdoutorados em Gestão/Impacto Ambiental e Piscicultura Marinha. Pesquisador nas áreas
de Sistemas de Produção e Boas Práticas de Manejo em Aquicultura, Contaminação
Ambiental e Piscicultura marinha. Tem experiência na piscicultura e carcinicultura em
sistemas de viveiros e tanques-rede. Atua na Geoquímica com contaminação e
biomagnificação de metais pesados na cadeia trófica.
Damião Assis
Assistente de laboratório, com ampla experiência em zoologia, com ênfase em
microfauna. Desempenha suas funções no laboratório de Bentos Costeiros, da
Universidade Federal de Sergipe, sendo fundamental na manutenção das coleções do
Departamento de Biologia da Universidade. Com especial destaque para a participação
de projetos como: Caracterização Físico-Química das Águas Marinhas, Geológica,
Geoquímica e Biológica dos Sedimentos do Talude de Sergipe e Sul de Alagoas (2013 –
2018), financiados pela Petrobrás.
Daniela Ferreira de Oliveira
Acadêmica do curso de Odontologia pela Universidade Federal de Alagoas - UFAL.
Pesquisadora do programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC UFAL) na área de Dentística e Materiais Dentários. Vinculada ao grupo de Pesquisa
Biomateriais em Odontologia (UFAL). Bolsista do Programa de Educação pelo Trabalho
para a Saúde (PET - Saúde)/ interprofissionalidade (Ministério da Saúde). Monitora da
disciplina de Endodontia de Laboratório (FOUFAL) em 2019. Integrante da Liga
Acadêmica de Endodontia da FOUFAL.
Elica Amara Cecilia Guedes
Possui graduação em Ciencias Biologicas pela Universidade Federal do Rio Grande do
Norte, Mestrado em Botanica pela Universidade Federal Rural de Pernambuco e
Doutorado em Biotecnologia - RENORBIO, pela Universidade Estadual do Ceará, com
área de concentração em Biotecnologia de Recursos Naturais. É professora de nivel
superior da Universidade Federal de Alagoas ministrando aulas para os cursos de
biologia, farmacia, agronomia e zootecnia. Tem experiência na área de Botânica, com
ênfase em Taxonomia de Criptógamos, atuando principalmente nos seguintes temas:
fitoplancton, algas marinhas bentonicas e bioprospecção de extratos de algas.
Emerson Carlos Soares
Engenheiro de Pesca, graduando em Biomedicina, Especialização em Gestão de Recursos
Pesqueiros, Mestre em Biologia de Água Doce, Doutor em Biotecnologia com ênfase em
Aquicultura, Pós-Doutorado em Ciências Marinhas com ênfase em reprodução de peixes.
Finalista do premio espírito público na área de meio ambiente, foi Vice-Coordenador do
comitê cientifico de bacias hidrográficas do Nordeste, Coordenador da força tarefa de
pesquisas do óleo em Alagoas e Coordenador da expedição do São Francisco. Professor
Associado da Universidade Federal de Alagoas.
Emerson Fonseca Oliveira Filho
Graduando em Agroecologia (bacharelado, UFAL). Produtor audiovisual de
documentários. Atualmente está produzindo um documentário sobre a história da
Agroecologia no Estado de Alagoas, envolvendo a Universidade Federal de Alagoas,
IFAL Maragogi, EMATER, SEAGRI, CPT, MST, Instituto Terra Viva, PRONERA,
Coopabacs, AAGRA, Associação Aroeira, Rede Mutum de Agroecologia e agricultores
oriundos da agricultura familiar. Sob orientação do Professor Rafael Navas, trabalha com
levantamentos de campo, sobre socioeconomia de comunidades e agricultura familiar.
Emilly Valentim de Souza
Graduanda em Zootecnia. Bolsista do programa pró-graduando da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL). Colaboradora PIBIC no laboratório de Aquicultura e Análise de
Água (LAQUA) sob orientação da Profª. Drª. Themis de Jesus da Silva. Tem experiência
em microparasitologia da fauna aquática do Brasil e ecotoxicologia, com ênfase nas
enzimas antioxidantes Catalase e Superóxido dismutase, peroxidação lipídica
(Malondialdeído) e teste de micronúcleo.
Ester Milena dos Santos
Mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela UFS na linha de pesquisa em
Planejamento e Gestão Ambiental com ênfase em Recursos Hídricos, apresenta
graduação em Engenharia Ambiental e Sanitária pela UFS. Apresenta alguns estudos e
atuações nas seguintes temáticas: resíduos sólidos, licenciamento ambiental,
geoprocessamento e modelagem ambiental.
José Vieira Silva
Engenheiro Agrônomo, Mestre e Doutor em Fitotecnia pela Universidade Federal do
Ceará (UFC). Perito Criminal na área ambiental pela ANP/DPF. Professor Associado da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL - Campus Arapiraca), nas áreas de Ecofisiologia
Vegetal e Agrometeorologia. Estuda e pesquisa na área de ecofisiologia de plantas
cultivadas e nativas sob condições de estresses (hídrico e salino) e atua na recuperação de
áreas degradadas e educação ambiental. É Pesquisador e Coordenador do Centro de
Referência em Recuperação de Áreas Degradadas (CRAD) do Baixo São Francisco –
UFAL.
Jucilene Cavali
Engenheira Agrônoma, Doutora em Zootecnia. Professora Associada da Universidade
Federal de Rondônia. Atua como docente nos cursos de Engenharia de Pesca e Zootecnia.
Pesquisadora/Orientadora no Programa de Mestrado Acadêmico em Ciências Ambientais
da UNIR-EMBRAPA e no Programa de Doutorado em Sanidade e Produção Animal
Sustentável na Amazônia Ocidental PPGESPA-UFAC. Desenvolve pesquisas em
Mercado de agroindústrias do Pescado (rendimentos de carcaça e qualidade de carnes) e
Manejo de Pastagens na Amazônia.
Juliett de Fátima Xavier da Silva
Engenheira de Pesca pela Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE. Mestre
em Recursos Pesqueiros e Aquicultura - UFRPE. Doutora em Ciências Biológicas UFPE. Atua na área de tecnologia do pescado, com ênfase em enzimologia aplicada a
organismos aquáticos, aproveitamento integral do pescado; e inspeção do pescado.
Atualmente é Professora Adjunta do Curso de Engenharia de Pesca da UFAL – Penedo,
lecionando as disciplinas de: Tecnologia e Inspeção do Pescado, Beneficiamento e
Industrialização do Pescado, Microbiologia Geral e do Pescado, e Instalações Pesqueiras
e Engenharia Sanitária.
Lívia Maria Alves Lino Acioly de Carvalho
Engenheira ambiental e sanitarista, atualmente presidente do Comitê de bacia
hidrográfica do Rio Piauí e superintendente de meio ambiente do Município de Arapiraca.
Lucas Cruz Fonseca
Química Bacharel pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Tecnólogo em Gestão
Ambiental e Especialista em Engenharia Ambiental e Saneamento Básico pela
Universidade Estácio de Sergipe. Experiência em Química Analítica Ambiental,
Recursos Hídricos e em Coleta e Preservação de amostra de água e sedimentos.
Atualmente trabalhando no monitoramento de qualidade da água dos mananciais
superficiais e reservatórios do estado de Sergipe, no Instituto Tecnológico e de Pesquisas
do Estado de Sergipe (ITPS).
Lucas de Oliveira Arruda
Graduando de Zootecnia. Bolsista do programa pró-graduando da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL). Atualmente faz parte da equipe de estudantes do Laboratório de
Aquicultura e Análise de Água (LAQUA). Tem experiência em microparasitologia da
fauna aquática do Brasil e ecotoxicologia.
Manoel Messias da Silva Costa
Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Alagoas (2003).
Mestrado (2008) e Doutorado (2015) em Botânica pela Universidade Federal Rural de
Pernambuco. Experiência na área de Botânica, com ênfase em Taxonomia, Sistemática e
Ecologia de micro e macroalgas. Professor de Nível médio (Estado de Alagoas e Instituto
Federal de Alagoas/IFAL) e Superior (Faculdade Regional Brasileira/UNIRB e Instituto
Federal de Alagoas/IFAL) e Professor Formador I (Bolsista CAPES) de Ensino a
Distância da Universidade Aberta do Brasil (UAB).
Marcus Aurélio Soares Cruz
Engenheiro Civil, Mestre e Doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental,
Pesquisador em Manejo de Bacias Hidrográficas na Embrapa Tabuleiros Costeiros, em
Aracaju, Sergipe. Tem experiência em Hidrologia, Modelagem hidrológica, Impactos
Ambientais e Geotecnologias.
Marco Yves A.V. Praxedes
Graduando em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal de Alagoas, Unidade
Penedo. Tem experiência em biologia reprodutiva de peixes, larvicultura e cultivo de
crustáceos decápodos, com ênfase em camarões de água doce, em marinharia, ecologia e
diversidade de ecossistemas aquáticos continentais. Atualmente integrante da equipe do
Laboratório de Carcinologia e Carcinicultura - LABCCARCI da Universidade Federal de
Alagoas - UFAL.
Milena Dutra da Silva
Doutora em Geografia, Mestre em Botânica e Licenciada em Ciências Biológicas. É
professora adjunta da Universidade Federal da Paraíba, Curso de Ecologia, e se dedica
aos estudos integrados do meio ambiente, com especial atenção aos remanescentes
florestais, utilizando saberes em Botânica, Sensoriamento Remoto, Geoprocessamento e
Ecologia da Paisagem.
Nadjacleia Vilar Almeida
Doutora em Geografia pela UFF (2012) com área de concentração em Ordenamento
Territorial Ambiental, Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (2006) e graduada
em Geografia (Bacharelado e Licenciatura), ambos pela UFPB (2002/2003). Atualmente
é professora adjunta do curso de Ecologia da Universidade Federal da Paraíba (Campus
IV-CCAE), coordenadora do Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento
(LCG/CCAE/UFPB) e do grupo de pesquisa Estudos Geoambientais. Tem experiência na
área de Ciências Ambientais, atuando principalmente nos seguintes temas:
geotecnologias com ênfase no sensoriamento remoto e geoprocessamento, diagnóstico
ambiental de bacias hidrográficas, expansão urbana, ecologia de paisagem e ordenamento
e planejamento ambiental.
Petrônio Alves Coelho Filho
Bacharel em Ciências Biológicas (UFRPE), especialista em ecossistemas aquáticos
(UFPE), Mestre em oceanografia (UFPE) e Doutor em oceanografia biológica (USP).
Possui experiência em estudos da diversidade, conservação e ecologia de ecossistemas
aquáticos, com ênfase nos estudos dos crustáceos decápodos. Professor do curso de
graduação em Engenharia de Pesca da UFAL e dos Programas de Pós-graduação em
Diversidade e Conservação (mestrado) e em Gestão Ambiental (especialização) da
UFAL.
Priscylla Costa Dantas
Engenheira Florestal pela Universidade Federal de Sergipe. Mestre e Doutora em
Entomologia Agrícola pela Universidade Federal de Lavras e Especialização em
Educação Ambiental (com ênfase em espaços educadores sustentáveis) pela Universidade
Federal de Sergipe. Pós-doutorado na modalidade Desenvolvimento Científico Regional
(DCR-Fapeal) pela Universidade Federal de Alagoas. Atualmente Professora substituta
do Centro de Ciências Agrárias (CECA-UFAL) e atua como pesquisadora no Laboratório
de Aquicultura e Análise de água (LAQUA) na área de técnicas histológicas e
histoquímicas de peixes.
Ricardo Araújo Ferreira Junior
Engenheiro Agrônomo, Mestre em Agronomia (Produção vegetal) e Doutor em
Agronomia (Energia na Agricultura). Professor efetivo da UFAL. Ministra as disciplinas
relacionadas à Agrometeorologia e Energia de Biomassa. Tem experiência na área de
Agrometeorologia atuando principalmente nos seguintes temas: medidas e modelagens
agrometeorológicas e radiométricas, Modelagem do Crescimento e Desenvolvimento
Vegetal.
Rômulo André Santos Silva
Graduado em Engenharia de Petróleo, onde atuou como bolsista PROBIC/UNIT em
projetos com ênfase em recursos hídricos, análise de qualidade, plano de segurança da
água e índices de qualidade. Atualmente é mestrando em Engenharia e Ciências
Ambientais pela Universidade Federal de Sergipe - UFS atuando na área de Tecnologia e
gestão ambiental dentro da linha de pesquisa de gestão e monitoramento ambiental, com
estudo que envolve aplicação da cromatografia por troca iônica e estatística multivariada
Silvânio Silvério Lopes da Costa
Doutor em Química (UFBA), com atuação na área de química analítica e ambiental,
especialmente com a avaliação da qualidade de água e sedimentos, em ambientes naturais,
e de material particulado atmosférico, em ambientes urbanos. Atualmente é químico e
membro permanente do programa de pós-graduação em engenharia e ciências ambientais
e do programa de pós-graduação em recursos hídricos, da Universidade Federal de
Sergipe.
Tarita Schnitman
Bacharelado em Administração. Mestrado na Universidade de Haifa-Israel.Doutorado
Sanduíche na University of Melbourne Australia. Doutorado em 2014 USP. Pesquisa
turismo desde 1998. Trabalha com projetos coletivos e governança da água.
Tatiane Luciano Balliano
Graduação em Química, mestrado em físico-quimica e doutorado em física aplicada.
Desenvolve projetos na área de desenvolvimento tecnológico a partir de produtos
naturais, na área de inovação e transferência de tecnologia e empreendedorismo inovador.
Na expedição meu projeto esta voltado para obtenção de extratos de plantas das matas
ciliares do Rio São Francisco
Themis de Jesus da Silva
Licenciada em Ciências Biológicas (UFAM), Mestre em Genética e Evolução (UFSCar)
e Doutora em Biotecnologia (UFAM). Atualmente Professora da UFAL, com experiência
na área de genética (genética molecular e genotoxicidade) e microparasitologia da fauna
aquática do Brasil.
Ubiratan Piovezan
Zootecnista pela UNESP de Jaboticabal em 1995. Participou do Programa PET/CAPEs.
Mestre em Zootecnia pelo programa de Pós graduação em Genética e Melhoramento
Animal da UNESP, em 1998. Doutor em Ecologia pela Universidade de Brasíla - UnB,
em 2004. Pesquisador da Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária desde
2002, possui experiência nas áreas de conservação e uso de animais; ecologia aplicada;
manejo, comportamento e bem estar animal; além de possuir experiência no campo das
relações internacionais, sobre o tema Agricultura. Atual supervisor do Núcleo de Apoio
à Programação da área de PD&I - NAP, também atua como secretário executivo do
Comitê Local de Publicações - CLP e como vice-coordenador da CEUA - Comissão de
Ética no Uso de Animais da Embrapa Tabuleiros Costeiros. Membro de grupo de
especialistas da IUCN desde 2009 - DSG/SSC/IUCN.
Vanildo Souza de Oliveira
Engenheiro de Pesca pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE, 1985),
Mestre e Doutor em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal de Pernambuco.
Especialização em Ciências Pesqueiras no Japão e Pesca de Profundidade na Coréia do
Sul. Atualmente é Professor Associado da UFRPE. Foi consultor da FAO na África e
assessor técnico do CONAMA. Trabalhos realizados com recursos e produção pesqueira,
pesca artesanal e industrial, métodos sustentáveis de pesca.
Vivian Costa Vasconcelos
Engenheira de Pesca com Mestrado em Zootecnia pela Universidade Federal de Alagoas
(2016/ PPGZ- 2019). Atualmente é colaborador/ pesquisador do Laboratório de
Aquicultura e Análises de Água (LAQUA/CECA/UFAL), realizando estudos de
biomonitoramento nos rios do litoral norte de Alagoas, investigando a qualidade de água
e seus efeitos contaminates na saúde de peixes, principalmente na Apa Costa dos Corais
de Alagoas e na região do Baixo São Francisco, com ênfase em estresse oxidativo,
genotoxicidade, histologia, microparasitologia e análises físico/química e microbiológica
de água.
SUMÁRIO
Página
1 - Diagnóstico Ambiental da Mata Ciliar do Baixo São Francisco .....................
14
2 -Variáveis meteorológicas e temperatura da água do rio na 3ª Expedição
Científica do Baixo São Francisco ....................................................................... 53
3 - Identificação de possíveis pontos de lançamento de esgoto sanitário ao longo do
Baixo São Francisco ........................................................................................
63
4 - Mapeamento do turismo coletivo no Baixo São Francisco .............................
72
5 - Arqueologia de ambientes aquáticos: contribuições para a construção de uma
carta arqueológica subaquática do Baixo Rio São Francisco.............................
84
6 - Diagnóstico microbiológico e da qualidade de água nas margens dos municípios
ribeirinhos do Baixo São Francisco.................................................
120
7 - Avaliação de plantas medicinais, macrófitas aquáticas e empreendedorismo
social inovador no Baixo São Francisco............................................................... 137
8 - Construção do mecanismo de controle da qualidade orgânica na associação
Aroeira, Piaçabuçu-AL ........................................................................................ 158
9 - Diagnóstico da condição odontológica e desenvolvimento de ações de promoção
de saúde bucal nas comunidades ribeirinhas do Baixo São Francisco.
165
10 - Educação ambiental nas escolas ribeirinhas do baixo São Francisco em tempos
de COVID ...........................................................................................................
174
11 - Salinidade da água no Baixo Rio São Francisco ..............................................
186
12 - Determinação da qualidade da água para fins de irrigação no Baixo São
Francisco .............................................................................................................. 197
13 - Avaliação do teor de óleos e graxas no Baixo Rio São Francisco .....................
205
14 - Robótica e Modelagem Ambiental: estudos da topologia de fundo do Baixo Rio
São Francisco.................................................................................................
215
15 - Sons biológicos subaquáticos do Baixo rio São Francisco: perspectivas para o
Monitoramento Acústico Passivo (MAP) da biodiversidade e seus ambientes.... 231
16 - Dinâmica fitoplanctônica do Baixo São Francisco ............................................
243
17 - Atividade pesqueira no Baixo São Francisco .....................................................
275
18 - Ictiofauna do Baixo São Francisco: diversidade, biologia reprodutiva e
rendimento por ultrassonografia .......................................................................... 291
19 - Avaliação microbiológica de Oreochromis niloticus, Xiphopenaeus kroyeri e
Macrobrachium sp. comercializados em feiras livres de sete municípios de
Alagoas ................................................................................................................ 322
20 - Níveis de mercúrio em tecido muscular de peixes do Baixo São Francisco ....... 337
21 - Histopatologia do fígado e brânquias de cinco espécies do Baixo São
Francisco............................................................................................................... 353
22 - Peixes como bioindicadores para monitoramento ambiental durante a III
Expedição do Baixo São Francisco ..................................................................... 376
23 - Identificação morfológica de parasitas da fauna aquática do Baixo São
Francisco............................................................................................................... 404
24 - Diversidade e pesca dos crustáceos decápodos no Baixo São Francisco ...........
418
1
Diagnóstico Ambiental da Mata Ciliar do Baixo São
Francisco
Milena Dutra da Silva1, Nadjacleia Vilar Almeida2, Anderson dos Santos3, Ubiratan
Piovezan4, João Thiago Farias 5, Nataniel dos Santos6 e José Vieira Silva7
1
Professora, Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento (LCG), Campus IV, Centro de Ciências
Aplicadas e Educação, Universidade Federal da Paraíba (UFPB);
2
Professora, Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento (LCG), Campus IV, Centro de Ciências
Aplicadas e Educação, Universidade Federal da Paraíba (UFPB);
3
Doutorando em Engenharia Agrícola, Campus I, Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE);
4
Pesquisador, Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária (EMBRAPA) Tabuleiros Costeiros.
5
Técnico, Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (CODEVASF);
6
Graduando em Lic. Ciências Biológicas, Campus Arapiraca, UE Penedo, Universidade Federal de Alagoas
(UFAL);
7
Professor, Centro de Referência em Recuperação de Áreas Degradadas (CRAD), Universidade Federal de
Alagoas (UFAL).
INTRODUÇÃO
A mata ciliar confere recursos fundamentais à manutenção da biodiversidade,
além de ofertar serviços ecossistêmicos que garantem melhores condições ambientais,
influenciando no microclima e nas características do solo (estabilidade, umidade,
deposição de nutrientes etc.). Contribui, também, para a qualidade da água, uma vez que
a vegetação ciliar atua como filtro, evitando a passagem de resíduos tóxicos, decorrentes
do uso de agrotóxicos nas atividades econômicas da vizinhança direta às nascentes e/ou
corpos hídricos (CASTRO et al., 2012).
A redução e, ou remoção da cobertura vegetal, tem elevados ônus ecológicos e
ecossistêmicos. Ao longo dos cursos hídricos do rio São Francisco, a ausência de
vegetação tem proporcionado o carreamento do solo desprotegido para dentro das calhas
dos afluentes e do rio, produzindo o assoreamento. Em consequência disto, a calha do rio
torna-se menos profunda e o espelho d’água mais largo.
A preservação da mata ciliar é urgente, com reverberações econômicas, sociais e
ambientais, havendo dispositivos legais para sua proteção. A Lei Federal 12.651/2012
traz medidas de proteção e define o território como Área de Preservação Permanente
(APP), que tem como função preservar os recursos hídricos (BRASIL, 2012). No entanto,
a Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco tem vivenciado, ao longo do processo
histórico-cultural, a remoção da cobertura vegetal nativa da área ciliar em seu curso
principal e afluentes, exibindo áreas fortemente degradadas. Diante disso, programas de
média e longa duração têm sido desenvolvidos para o diagnóstico, monitoramento e
recuperação de nascentes e cursos hídricos, como os projetos já desenvolvidos pelo
Ministério do Meio Ambiente, Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco,
CODEVASF, e o CRAD. Ainda assim, tais projetos não têm sido suficientes para
sobrepujar as ações de degradação que ali ocorrem.
Na região do Baixo São Francisco (BSF), a degradação ambiental ciliar é
preocupante e crescente, com conflitos ambientais dados pela ocupação da faixa de
proteção ambiental ciliar por usos agropecuários, entre outros, em escala progressiva.
Neste cenário, surge o presente estudo, com a III Expedição Científica do São Francisco,
objetivando realizar diagnóstico ambiental da mata ciliar do BSF.
Os resultados aqui apresentados derivam de métodos e técnicas rápidas e nãodestrutivas. Foram avaliadas a mata ciliar e as demais classes de uso e ocupação do solo
em seu entorno imediato, com fins de determinação da qualidade ambiental da vegetação
ciliar e seu nível de fragilidade.
METODOLOGIA
As análises são apresentadas em diferentes escalas espaciais, partindo de uma
escala de menor detalhamento (abrangendo municípios ribeirinhos) até uma escala de
maior detalhamento (imagens de drone e levantamentos em campo).
Para o diagnóstico ambiental foram selecionados os municípios ribeirinhos do
BSF, à jusante da barragem de Xingó (Figura 1). Para diagnóstico da vegetação ciliar
foram selecionados fragmentos remanescentes de floresta nativa, em áreas ciliares dos
municípios alagoanos da Região do Baixo Rio São Francisco (BSF): Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio e Piaçabuçu (Figura 1). A seleção destes
municípios e remanescentes estudados está fundamentada pela amostra representativa de
diversidade de florestas estabelecidas no BSF: floresta caducifólia (Piranhas a Traipu) e
subcaducifólia (Porto Real do Colégio e Piaçabuçu).
Figura 1. Localização da área de estudo para diagnóstico da vegetação ciliar alagoana na Região
do Baixo Rio São Francisco com destaque para os transectos (T1, T2, T3, T4, T5 e T6), onde
foram realizadas coletas de dados em campo.
Análise Edafoclimática
Análise de solo
Foi realizada amostragem de solo (0-20 cm) nos locais de estudo, com quatro
amostras em cada ponto de caracterização da vegetação (6 transectos), totalizando 24
amostras. As análises estão em andamento e incluirão avaliação de macro e
micronutrientes, bem como a Capacidade de Troca Catiônica e teor de Matéria Orgânica
disponível nas áreas ciliares de cada localidade, que equivale a uma avaliação para uso
agrícola.
Dados de Precipitação estimados pelo CHIRPS
Os dados de precipitação estimados por satélite para os municípios ribeirinhos da
bacia hidrográfica do BSF no período de 2010 a 2020, foram obtidos a partir de coleções
de cenas do satélite Climate Hazards Group InfraRed Precipitation with Station
(CHIRPS). O CHIRPS são novos produtos de precipitação que abrangem as coordenadas
de 50º S–50º N e 180º E–180º W, com resolução espacial de 0,05º (± 5,3 km), e resoluções
temporais diárias a sazonais, disponível mundialmente desde 1981 (Funk et al., 2015). Os
dados
CHIRPS
foram
extraídos
da
plataforma
Google
Earth
Engine
(https://earthengine.google.com/) usando linguagem de programação em JavaScript,
extraindo os dados já no formato .xls, e usando o conjunto de dados desde 1981 da coleção
ee.ImageCollection (“UCSB-CHG/CHIRPS/DAILY”).
Mapa hipsométrico
Para geração do mapa hipsométrico foi utilizado um mosaico digital de dados
altimétricos do projeto Shuttle Radar Topography Mission (SRTM)/ National
Aeronautics and Space Administration (NASA) com resolução espacial de 30 x 30
metros, dos quadrantes SC-24-Z-A, SC-24-Z-B, SC-24-X-C, SC-24-X-D, com auxílio do
software GRASS 7.8.5. Os índices foram definidos, então, a partir da reclassificação de
pixels pelo método de quebras naturais.
Uso e ocupação do solo nos municípios ribeirinhos
Os dados de uso e ocupação do solo foram produzidos pela plataforma
MapBiomas Brasil, referente a coleção 5 (Projeto MapBiomas, 2021), que usa
procedimentos de classificação automática aplicados a imagens de satélite para gerar
dados de cobertura e uso do solo. Esta coleção apresenta alta confiabilidade e inclui dados
anuais de cobertura e uso do solo no período de 1985–2019. Com o objetivo de avaliar o
impacto que as mudanças no uso do solo poderão ter nas variáveis de estado da superfície
terrestre das regiões em estudo, as classes de uso e ocupação do solo foram convertidas
para arquivos vetoriais, com a utilização do software QGIS 3.16.7 (QGIS Development
Team, 2021). Posteriormente, foram extraídos os parâmetros estatísticos da variável
cobertura vegetal, este procedimento forneceu uma base comum para comparação entre
os tipos de cobertura vegetal e o tipo de uso e ocupação do solo.
Estimativa da cobertura vegetal dos municípios ribeirinhos
Com base no NDVI, foi calculada a Cobertura Vegetal (VC) da área de estudo
para o período entre outubro e dezembro de 2020, conforme Gao et al. (2006).
VC = (NDVI - NDVIS) / (NDVIV - NDVIS) × 100
equação (1)
em que, VC é a cobertura vegetal, NDVIS é o mínimo valor de NDVI em área de solo
exposto obtido na área de estudo, e NDVIV é o NDVI é valor máximo do NDVI.
Mapeamento e caracterização dos remanescentes florestais na Área de Preservação
Permanente Ciliar
Com fins de mapear a vegetação ciliar no BSF foram utilizadas imagens de radar
do projeto Shuttle Radar Topography Mission (SRTM), imagens de satélites LANDSAT
e Planet Scope (Licença para Pesquisa) (Planet team, 2017); os dados foram trabalhados
no software livre e gratuito Quantum Gis e nos softwares ArcMap e ArcGis Pro (Licença
do Laboratório de Cartografia e Geoprocessamento-LCG/CCAE/UPB).
Foram delimitadas as Áreas de Preservação Permanente Ciliares (APPCs), de
acordo com o Código Florestal Brasileiro (Lei Federal Nº 12.651, de 25 de maio de 2012)
e com a Resolução CONAMA nº 303/2002. As APPCs foram identificadas com base em
uma análise de proximidade (ferramenta Buffer) que considera as faixas marginais
propostas para cada curso d’água. Na análise aqui apresentada foram considerados 500 m
de faixa de proteção. Os dados foram confirmados em campo, com pontos amostrais nas
diferentes feições ao longo do baixo curso do Rio São Francisco.
Foram utilizados índices de vegetação derivados de imagens multiespectrais de
sensores orbitais e aéreos. O processamento das imagens envolveu a análise visual e
estatística das características espectrais de todas as bandas do sistema selecionado,
separadamente. Para o mapeamento da cobertura vegetal ciliar foram geradas imagens
com valores de reflectância para cada banda analisada. Para obtenção das imagens com
valores de reflectância foram realizadas: 1) calibração radiométrica das imagens para
obtenção da radiância espectral monocromática (Markham e Baker, 1987); e 2) a razão
entre o fluxo de radiação refletida e o fluxo de razão incidente (reflectância) (Allen et al.,
2002). Foram determinados índices de vegetação específicos para a análise das condições
fisiológicas, conteúdo hídrico e teor de pigmentação foliar, a partir dos dados obtidos de
reflectância.
Para o estudo da eficiência fotossintética das folhas foram realizadas análises de
pigmentos foliares, sobretudo clorofila (a e b) através da utilização do “índice de
vegetação pela diferença normalizada” (NDVI, Normalized Difference Vegetation Index)
(Penuelas e Inoue, 1999) das imagens do sensor Planet.
Para o cálculo do NDVI foram utilizadas as regiões do verde e infravermelho
próximo, bandas 2 e 4 da Planet e bandas 4 e 5 do Landsat 8. O NDVI apresenta seus
valores de quantidade e condição da vegetação em uma escala que varia de -1 a 1
(BORATTO, 2013). Para valores negativos de alvo terrestre próximo a zero (0),
representam solo nu ou sem vegetação. Se o valor for maior que zero (0) representa a
vegetação mais densa. O NDVI pode ser calculado pela equação 2:
NDVI = RG -NIR / RG+NIR
equação (2)
RED = Valor de reflectância da banda verde.
NIR = Valor de reflectância da banda do infravermelho próximo;
A partir do NDVI e conhecimento de campo foram definidas classes
fitofisiográficas: áreas não-vegetadas; vegetação rala, vegetação esparsa, vegetação de
transição e vegetação densa, adaptado de Chuvieco (1990) (Tabela 1).
Coleta de dados em campo
Para fins de conhecimento da composição florística da vegetação ciliar do BSF,
foram selecionados os maiores fragmentos de vegetação remanescente e, no interior
destes, foram estabelecidos transectos com até 5 pontos amostrais, com intervalo de 10
m.
Nestes
pontos
foram
capturados
dados
e
informações
florísticas
das
espécies/morfotipos: frequência, altura, CAP (Circunferência a Altura do Peito),
informações morfológicas e fenológicas. Coletas de solo foram efetuadas ao longo dos
transectos para posterior análise no laboratório de solos da Embrapa Tabuleiros Costeiros.
Estes dados serão apresentados no relatório final.
Com fins de obtenção de maior precisão no mapeamento da vegetação, os
fragmentos selecionados para coleta de dados em campo foram mapeados com auxílio de
um drone.
As imagens de alta resolução foram obtidas por meio de um RPAS (Remotely Piloted
Aircraft System), o Phantom 4 PRO, equipado com uma câmera com sensor embarcado
de 20 megapixel e tamanho do CCD de 1”, FOV de 94 °, uma abertura óptica f / 2.8 e
sensores que capturam a radiação eletromagnética nas bandas espectrais RGB (Red,
Green, Blue). O equipamento possui um sistema de estabilização (Gimgal) que evita o
efeito de arrasto e sistema de posicionamento GPS / GLONASS. Para o planejamento de
voo foi criado um arquivo no formato keyhole Markup Language (KMZ) no programa
gratuito, Google Earth, da área de interesse para o sobrevoo e importado para o aplicativo
gratuito DroneDeploy.
Tabela 1. NDVI, classes fitofisiográficas e formações vegetais naturais correspondentes
em Áreas de Preservação Permanentes Ciliares.
NDVI
Fitofisiografia*
Formação Natural**
-0,770 a 0,100
Área não-vegetada
-
0,100 a 0,200
Vegetação rala
Trecho 1
Caatinga hiperxerófila e associações rupestres
Trecho 2
Vegetação herbácea (em lagoas e áreas de inundação correspondem às macrófitas)
Trecho 3
Vegetação herbácea (em lagoas e áreas de inundação, correspondem às macrófitas)
Trecho 4
Vegetação herbácea (em lagoas e áreas de inundação, correspondem às macrófitas)
Mangue (franjas dos bosques)
0,200 a 0,400
Vegetação esparsa
Trecho 1
Caatinga hiperxerófila (em topo de morro/áreas degradadas)
Trecho 2
Vegetação herbácea (recomposição pioneira em áreas degradadas; ou pasto)
Trecho 3
Associações de várzea
Trecho 4
Restinga nos cordões arenosos; Mangue
0,400 a 0,525
Vegetação
transição
0,525 a 0,866
Vegetação densa
de
Trecho 1
Caatinga hiperxerófila (em paredões/áreas preservadas)
Trecho 2
Mata ciliar/galeria
Trecho 3
Caatinga hipoxerófila/Floresta Subcaducifólia; Matas de galeria/ciliares
Trecho 4
Mangue (indivíduos com maior altura, no interior dos bosques);
Trecho 1
Caatinga hiperxerófila (em áreas ciliares)
Trecho 2
Caatinga hipoxerófila; Matas de galeria/ciliares
Trecho 3 (NDVI máximo= 0,695)
Caatinga hipoxerófila; Floresta Subcadufolia; Matas de galeria/ciliares
Trecho 4 (NDVI máximo= 0,695)
Matas de restinga (indivíduos com maior altura, no interior da mata; ou em áreas
ciliares, pouco degradadas).
*Segundo Chuvieco (1990) e Silva et al. (2008); **Classificação baseada em trabalho de
campo.
Os voos foram realizados em condições meteorológicas visuais (Visual Line-OfSight -VLOS) entre às 11:00 e 15:00hs. A altura média do voo foi 100m e a velocidade
de 10 m s-1 com 60% de sobreposição lateral e longitudinal. Esses parâmetros resultaram
em imagens com resolução espacial de 3 cm.
A partir dos ortomosaicos das imagens RGB em alta resolução foi possível
calcular índices de vegetação baseados em RGB no software ArcGis Pro 2.2.0. Os índices
de vegetação calculados foram: Índice de Folha Greean (GLI), Índice de vegetação
resistente à atmosfera na região do visível (VARI) (GITELSON et al.,2003) e Índice de
Vermelhidão (IR) (Escadafal e Huete, 1991).
GLI = (2*RG – RR – RB) / (2*RG + RR + RB)
equação (3)
VARI = (RG – RR) / (RG + RR – RB)
equação (4)
RI= (RR- RG)/(RR+RG)
equação (5)
Onde, RG é a reflectância na região do verde, RR é a reflectância na região do vermelho
e RB é a reflectância na região do azul.
Fauna associada aos ambientes ciliares
Foram consideradas diferentes formas de registro para espécies da fauna nos
ambientes terrestres avaliados durante a III Expedição Científica do rio São Francisco.
Os grupos de espécies de aves e mamíferos de pequeno e médio porte foram foco da
atenção da equipe durante a expedição. Os registros realizados se basearam em capturas
físicas (C), avistamentos (Av), vestígios (V), Informante local (IL), foto/vídeo (Fv), peças
identificadas no Museu de Traipu (MT).
Foram consideradas informações obtidas
durante reuniões realizadas em algumas comunidades ribeirinhas, organizadas pela
equipe de pesquisa em sócio-economia da III Expedição. Quando viável foram realizadas
anotações durante as reuniões sobre as espécies da fauna que ocorrem na região do Baixo
São Francisco, a partir de uma questão aberta feita aos participantes: "quais são as
espécies animais que observam na região, durante o seu dia-a-dia?”. Foram utilizadas em
campo armadilhas fotográficas e armadilhas para captura de pequenos mamíferos
(Autorização para atividade científica SISBIO #76004-1). Consideramos ainda a presença
de indícios indiretos da presença das espécies tais como fezes, tocas, pegadas, marcas em
árvores, carcaças, animais de museu e xerimbabos como evidências da ocorrência de
espécies animais que habitam ambientes ciliares na região do Baixo Rio São Francisco.
Mapeamento do espelho d’água e do assoreamento no Rio São Francisco
O NDWI foi utilizado para extração da área de água de superfície a partir das
bandas refletivas das imagens do satélite Landsat-8 OLI, pelo cálculo da diferença
normalizada entre duas bandas de imagem, conforme a Equação (2), a plataforma Google
Earth Engine foi utilizada na seleção de pixels sem nuvens e geração do mosaico de
imagens utilizado no cálculo do NDWI.
NDWI = (B3 - B5) / (B3 + B5)
equação (2)
em que, B3 e B5 - correspondem às respectivas bandas refletivas do verde e infravermelho
próximo do Landsat-8 de sensor OLI.
O NDWI separa bem corpos de água de outros tipos de cobertura do solo, as áreas
de água geralmente apresentam valores maiores que zero e demais usos do solo como
áreas de vegetação e solo exposto tendem a apresentar forte valor negativo. As imagens
NDWI foram classificadas em água e terra usando um valor limite de 0. Posteriormente
as imagens de NDWI foram utilizadas na quantificação do assoreamento da calha do Rio
São Francisco ao longo da região em estudo.
O total de 500 amostras de treinamento de classificação foram distribuídas
aleatoriamente nas áreas homogêneas representativas. Essas amostras foram classificadas
manualmente com base na interpretação visual como pixels de água ou não e, em seguida,
a matriz de confusão foi calculada comparando a classificação de água com essas
amostras “verdadeiras”, com a utilização do software QGIS 3.16.7 (QGIS Development
Team, 2021).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Análise Edafoclimática
As amostras de solo não tiveram sua análise concluída pelo laboratório até o
término da redação deste relatório.
A análise do relevo (hipsometria) da região ciliar do Baixo São Francisco destaca
dois domínios topográficos (Figura 2), um com altitudes até 150m coincidente com a zona
de clima do tipo AS—tropical e quente, situada a leste de Traipu e Gararu, com verão
seco e inverno com chuvas moderadas; e o domínio topográfico com altitudes entre 150m
a 605m onde uma zona com clima do tipo BSh—semiárido, de baixa latitude e altitude
com balanço hídrico negativo que compreende toda a metade oeste da região em estudo,
partindo de Traipu e Gararu. Quanto à temperatura do ar, as médias anuais variam entre
24 e 26 °C (Alvarez et al., 2013).
Figura 2. Mapa hipsométrico dos municípios ribeirinhos da bacia hidrográfica do BSF.
A espacialização da precipitação média anual da região em estudo do BSF possui
variabilidade espacial com forte correlação com o relevo e com as formações vegetais,
que implicaram na formação de quatro zonas, com comportamentos pluviométricos
distintos (Figura 3) . A pluviosidade anual apresenta os maiores acumulados médios
anuais de precipitação, superiores a 830 mm ano-¹no extremo leste da bacia entre os
municípios de Piaçabuçu, Penedo e Brejo Grande, que compreendem áreas mais próximas
à zona costeira (com baixas altitudes e de topografia plana e suavemente ondulada)
(Figuras 2). As médias de precipitação diminuem na direção oeste, onde os menores
acumulados médios anuais são observados entre os municípios de Piranhas e Traipu, em
Alagoas, e Canindé de São Francisco e Porto da Folha, em Sergipe, com valores que
variam entre 440 e 675 mm (Figuras 3).
Figura 3. Precipitação média anual para o período de 2010 a 2020 na região em estudo do
BSF.
Uso e Ocupação dos solos dos municípios ribeirinhos
Com base na classificação via plataforma MapBiomas, baseada no satélite
Landsat-8, destacou-se o mapa temático do uso e ocupação do solo, sendo as principais
classes representadas na Figura 4. Os avanços da exploração das áreas agrícolas para a
região hidrográfica do BSF, ocorrem principalmente na região leste, com destaque para
os municípios de Igreja Nova e Penedo em Alagoas e Santana do São Francisco em
Sergipe, cuja atividade agrícola ocupa 19,20%, 48,20% e 20,71% da área territorial,
respectivamente. Contudo, a atividade agrícola diminui no sentido oeste até Piranhas,
onde a ocupação do solo por essa atividade é inferior a 1% (Figuras 4e e 4f). O
crescimento da atividade agrícola no sentido leste da região em estudo é favorecido pelos
maior volume pluviométrico, relevo menos acidentado e solos mais desenvolvidos.
Figura 4. Classificação temática do uso e ocupação da terra, para os municípios ribeirinhos que
compreendem a região hidrográfica do BSF. trecho 1 (a), trecho 2 (b), trecho 3 (c), trecho 4 (d),
trecho 5 (e) e trecho 6 (f).
Ao analisar o uso e ocupação do solo do bioma Caatinga, ao longo dos municípios
ribeirinhos na região do BSF, verificou-se maior taxa de ocupação pela vegetação nativa
no lado de Alagoas entre os trechos 1 e 4, com cerca de 37,90% da área territorial,
enquanto no lado de Sergipe apenas 19,67% da área territorial dos municípios ribeirinhos
contidos entre os trechos 1 e 4 correspondem a vegetação nativa (Figuras 4a a 4d). No
entanto, é importante destacar que em ambos os casos as áreas de vegetação mais densas,
ou seja, fitofisionomias com vegetação menos espaçadas, ocorrem nas proximidades das
margens do rio São Francisco, mesmo que de forma descontínua, em regiões de difícil
acesso e relevo mais acidentado.
De maneira geral, as áreas de vegetação nativa estão permeadas por áreas de
vegetação não florestal, que ocupam em média 71% dos solos dos municípios ribeirinhos
dos Estados de Alagoas e Sergipe entre os trechos 1 e 4, decrescendo até foz onde se
verifica ocupação de 64,34% (Figura 4a a 4d). A grande extensão das áreas de formação
vegetal não florestal, pode estar associada à expansão das áreas de pastagens como
resultado da crescente demanda por alimentos para produção animal, o que favorece as
mudanças no uso e ocupação do solo. Além disso, devido ao modo de ocupação da região
do BSF, as próprias cidades, estradas e muitos povoados estão localizados dentro da área
onde esperava-se que houvesse Áreas de Preservação Permanente. Por conseguinte, no
trecho do rio entre Porto Real do Colégio e Piaçabuçu (Foz), onde predomina o bioma
Mata Atlântica, a vegetação nativa ocupa aproximadamente 8,33% do território dos
municípios contidos entre os trechos 5 e 6 (Figuras 4e e 4f).
Cobertura vegetal nos municípios ribeirinhos
A variação na distribuição e volume da precipitação provocam intensas alterações
na dinâmica da cobertura vegetal do solo ao longo da bacia hidrográfica do BSF. A partir
do zoneamento da precipitação (Figura 3), fragmentou-se a análise da cobertura vegetal
em quatro trechos (Figura 5).
Ao analisar os dados de cobertura vegetal, observa-se que ao longo dos trechos 1
e 2, em média, 87,35% e 75,48% da área territorial apresentou de 25% a 50% de cobertura
vegetal, respectivamente, revelando os efeitos dos baixos volumes pluviométricos devido
aos longos períodos de seca sobre a vegetação nativa. Contudo, é importante destacar que
o trecho 2 apresenta maior estado de degradação da vegetação, o que pode ser verificado
pela maior ocorrência de cobertura vegetal na faixa entre 0 e 25% (Figuras 5 e 6a). Com
ênfase ao trecho 1 que está contido exclusivamente no bioma Caatinga, enquanto o trecho
2 conFigura uma zona de transição entre os biomas Caatinga e Mata Atlântica, os baixos
valores de cobertura vegetal podem ser justificados não apenas pelos eventos de seca, mas
pelas características dos solos observados ao longo desse trecho, que de maneira geral,
apresentam-se rasos e com baixa capacidade de armazenamento de água (Pinheiro et al.,
2016; Almeida et al., 2016). Fatores que tornam essa região vulnerável à degradação e
desertificação do solo (Borges et al., 2020).
Figura 5. Condição dos diferentes tipos de cobertura vegetal do agroecossistema presente nos
municípios ribeirinhos que compreendem a região hidrográfica do BSF, no período entre outubro
e dezembro de 2020.
Por outro lado, verifica-se que no trecho 3 houve a maior ocorrência de cobertura
vegetal entre 50% e 75%, com ocupação territorial média de 56,69%. Por conseguinte,
no trecho 4 as classes de cobertura vegetal de 25% a 50% e 50% a 75% tiveram maior
ocorrência, com ocupação territorial de 33,80% e 30,98%, respectivamente (Figuras 5 e
6a). Destaca-se que nos setores 3 e 4 encontra-se a maior incidência da classe de cobertura
vegetal de 75% a 100%, com ocupação média de 5,02% e 12,97%; favorecida pela maior
umidade existente nesses setores (Figura 5). Embora os setores a leste possuam maiores
volumes pluviométricos, esses apresentam elevada degradação da vegetação, com área
de aproximadamente 26402 ha e 7670 ha, dos quais 91,36% e 88,29% correspondem a
áreas antropizadas, principalmente áreas dominadas por agricultura e pastagem; trechos
3 e 4, respectivamente (Figuras 5 e 6a).
Figura 6. Percentual médio de ocupação das classes de cobertura vegetal no período entre outubro
e dezembro de 2020 (a); Cobertura vegetal das principais classes de uso e ocupação do solo
presentes nos municípios ribeirinhos que compreendem a região hidrográfica do Baixo São
Francisco, Brasil (b).
Por conseguinte, neste estudo verificou-se que os menores valores médios de
cobertura vegetal são atribuídos a áreas dominadas por agricultura e formação vegetal não
florestal, (33,52% ± 14,62%) e (34,43% ± 8.00%), respectivamente. Em contrapartida, os
maiores valores médios de cobertura vegetal se destacaram em áreas de vegetação de
caatinga (42,85% ± 10,24%) e vegetação de mata atlântica (63,43% ± 20,65%) (Figura
6b), os maiores valores de desvio padrão observados nas classes agricultura e mata
atlântica estão relacionados à maior heterogeneidade das vegetações que as compõem. A
substituição da vegetação primária por pastagens, culturas agrícolas e ocupação urbana,
bem como o elevado estado de degradação das pastagens, a intensa atividade de pastejo
em áreas naturais e a existência de áreas agrícolas em fase de pousio e de preparo do solo
para o cultivo, impactam a densidade da vegetação (Silveira et al., 2018, Marengo et al.,
2018; Correia Filho et al., 2019; Ferreira et al., 2020).
Remanescentes Florestais na Área de Preservação Permanente Ciliar
Ao analisar os dados de índice de vegetação para a margem ciliar do BSF, em sua
faixa de proteção de 500 m (Área de Preservação Permanente Ciliar – APPC) e sua
vizinhança imediata, observa-se que vegetação apresenta NDVI entre 0,100 e 0,866, com
classes fitofisiográficas variando entre vegetação rala e vegetação densa (Figura 7). Essa
variação é justificada pela densidade de biomassa fotossintetizante relacionada às
características florísticas, fenológicas, nível de degradação ambiental e estágio de
sucessão ecológica do remanescente vegetal.
Figura 7. Classes fitofisiográficas, baseadas em valores de Índice de Vegetação NDVI, na Área
de Preservação Permanente Ciliar da Região do Baixo Rio São Francisco.
Em algumas áreas de maior aridez, como no município de Traipu, valores de
NDVI próximos a 0,866 correspondem a lagos e/ou áreas alagáveis com grande densidade
de macrófitas, sobretudo Pistia stratiotes L. (alface d’água) e, ou, aparente floração de
microalgas, além de áreas com cultivos de copa densa como a mangueira (Mangifera
indica L.). Isto se deve ao teor de pigmentos fotossintetizantes, densidade de cloroplastos
e/ou rugosidade da superfície dos vegetais correspondentes (Ponzoni e Shimabukuro,
2010).
Destaca-se que a distribuição da precipitação é variável no território, com os
maiores valores de NDVI encontrados em fragmentos estabelecidos em áreas com menor
pluviosidade, nos Trechos 1 e 2 (Figura 7). Embora a composição florística reverbere as
condições edafoclimáticas e de disponibilidade hídrica e de nutrientes minerais (Larcher,
2006), sobre estes remanescentes há, ainda, a pressão ocasionada pelo processo históricocultural de uso e ocupação das áreas ciliares convertendo essas a usos urbanos e/ou rurais.
Essas pressões promovem supressão de vegetação nativa ao longo do tempo, e/ou
alterações florísticas (inserção de espécies exóticas), que exibem menores valores de
NDVI, ainda que as condições edafoclimáticas do ambiente sejam favoráveis a uma
composição florística com maior vigor e densidade e, consequentemente, valores
elevados para esse índice de vegetação. Este cenário é evidenciado nos Trechos 3 e 4
(Figura 7).
A vegetação remanescente na APPC no Trecho 1, apresenta valores de NDVI mais
elevados para a caatinga densa, hiperxerófila, localizada em áreas ciliares (NDVI entre
0,525 e 0,866). No entanto, alguns destes fragmentos apresentam forma linear, reduzidos
a árvores enfileiradas, delineando o curso de rios temporários. Fragmentos de caatinga
hiperxerófila também são encontradas em paredões (NDVI entre 0,400 e 0,525), topos de
morros (0,200 a 0,400) e, em menor densidade, com associações rupestres (0,100 a 0,200)
(Tabela 1).
Ao estudar o NDVI em Caatinga aberta e densa no sertão, de Jesus et al. (2021)
apontam que a caatinga densa apresenta maiores valores de NDVI devido as suas
características fenológicas, como a permanência das folhas por período mais longo. Os
autores destacam que esta característica faz da caatinga densa um importante elemento
para a manutenção da umidade e conservação do solo.
As observações efetuadas em campo para o Trecho 1, sobretudo nos fragmentos
remanescentes em Piranhas, Pão de Açúcar e Traipu, evidenciaram que os maiores
valores de NDVI correspondem às áreas com espécies arbóreas e/ou arbustivas que
conseguem manter a folha por mais tempo e que estão estabelecidas em locais de difícil
acesso, quer pelas características do relevo ou pela presença de cercamento. Essas áreas
com maior valor de NDVI, na APPC, apresentam-se fragmentadas.
Em Pão de Açúcar e em Belo Monte, a maior parte dos fragmentos de maior
densidade encontra-se fora da faixa de proteção ambiental. Em Traipu, há um predomínio
de áreas não vegetadas nessa faixa, sobretudo na região ciliar à montante do rio São
Francisco (Figura 8).
Estudo sobre a Caatinga na região ribeirinha do Submédio da BHSF, de 1985 a
2018, aponta a perda de habitat e a fragmentação da vegetação remanescente, com maior
percentual de mudança ocorrido na Caatinga densa (85%), quer pela conversão direta
(caatinga – terras agrícolas) ou pela indireta (caatinga densa- caatinga aberta – terras
agrícolas) (Salazar et al., 2021). A baixa cobertura de remanescente florestal (vegetação
densa) na APPC aqui estudada, é um indicativo de que essa dinâmica também
ocorreu/ocorre na região ribeirinha do Baixo São Francisco.
Figura 8. Classes fitofisiográficas nas áreas ciliares na Região do Baixo São Francisco,
Trecho 1, baseadas em valores de NDVI.
No trecho 2, há um maior vigor nos remanescentes florestais na APPC quando
comparado ao Trecho 1 (Figura 9). Predomina vegetação densa e de transição, porém
fragmentada, correspondendo a caatinga hiperxerófila e matas ripárias (Tabela 1). Os
fragmentos de maior NDVI nos municípios estão sobre relevo de difícil acesso; áreas
mais planas tem vegetação natural substituída por usos urbanos e/ou rurais. Da Silva et
al. (2020), ao estudar uma área de Caatinga e a sua detecção com o uso de índices de
vegetação, aponta que a topografia influencia na distribuição dos remanescentes
florestais, com maiores valores dos índices em áreas ripárias. Adiciona-se a isso, o
apontado por De Lacerda e Barbosa (2021) que, ao analisar a composição arbórea de
matas ripárias na Caatinga, observaram que as condições ambientais em áreas ciliares
propiciam uma maior cobertura vegetal, riqueza e diversidade de espécies. Esses fatores
contribuem para valores elevados de NDVI em matas ripárias.
Figura 9. Classes fitofisiográficas nas áreas ciliares na Região do Baixo São Francisco, Trecho 2,
baseadas em valores de NDVI
Em São Brás observam-se lagoas marginais na faixa de proteção ambiental e,
também, em sua vizinhança imediata. A área ciliar dessas lagoas apresenta-se desnuda ou
com baixa densidade de cobertura vegetal. Ressalta-se a importância ambiental dessas
lagoas para a manutenção da biodiversidade, especialmente de aves aquáticas e para a
ictiofauna, conferindo abrigo, repouso e alimento para peixes que exercem importante
papel na cadeia trófica e para a sustentação pesqueira (Luz et al., 2009).
No Trecho 3, a vegetação apresenta menores valores de NDVI do que nos Trechos
1 e 2. Na APPC do Trecho 3, a vegetação remanescente é predominantemente rala (NDVI
entre 0,100 e 0,200) ou esparsa (0,200 a 0,400) (Figura 10), apresentando-se fragmentada
e imersa em uma matriz agrícola e, ou, entrecortada por usos urbanos. A vegetação
arbórea nativa (vegetação densa e de transição) ocorre em fragmentos pequenos e
isolados, e corresponde às formações caatinga hipoxerófila/ floresta subcaducifólia, em
Igreja Nova; e floresta subcaducifólia /restinga, em Penedo. A escassez de fragmentos
florestais significa a perda de habitat e de biodiversidade, e a precarização dos serviços
ambientais nessas áreas.
Acrescenta-se que, no Trecho 3, as associações vegetais de várzea (macrófitas
e/ou espécies vegetais tolerantes às condições de inundação temporária) apresentam
valores de NDVI em torno de 0,400 e, em algumas áreas colonizadas por aninga
(Montrichardia linifera L.), valores próximos a 0,500 de NDVI. A aninga possui folhas
largas (maiores que 20cm x 15cm) e indivíduos com distribuição adensada o que, aliado
à sua arquitetura fotossintética foliar, produz valores elevados de NDVI.
Figura 10. Classes fitofisiográficas nas áreas ciliares na Região do Baixo São Francisco, Trecho
3, baseadas em valores de NDVI.
A APPC no Trecho 4 se destaca, entre os trechos analisados, por apresentar os
menores valores de NDVI, evidenciando a ausência de remanescentes florestais (Figura
11). Um pequeno fragmento com vegetação densa, na APPC, é encontrado apenas em
Ilha das Flores-SE, porém corresponde a uma área com vegetais introduzidos: mangueiras
(Mangifera indica L.) e outras frutíferas como o côco (Cocos nucifera L.). A vegetação
densa nativa nesse trecho está presente em fragmentos estabelecidos fora da faixa de
proteção. Em Piaçabuçu-AL, valores de NDVI entre 0,525 e 0,695 (Tabela 1),
correspondem às áreas com mata de restinga ciliares, em porções com indivíduos arbóreos
de maior altura. A vegetação de transição, na APPC, corresponde ao mangue (indivíduos
com maior altura); macrófitas, como a aninga, também exibem valores de NDVI
semelhantes a vegetação de transição, demandando trabalho de campo para o
mapeamento adequado com fins de detecção do mangue. Na vizinhança imediata a APPC,
a vegetação de transição corresponde às matas de restinga ciliares.
Figura 11. Classes fitofisiográficas nas áreas ciliares na Região do Baixo São Francisco, Trecho
4, baseadas em valores de NDVI.
A vegetação esparsa no Trecho 4, em Piaçabuçu, corresponde a formação de
restinga estabelecida em cordões arenosos, com indivíduos de baixo porte (juvenis e, ou,
arbóreo-arbustivos) e, em proximidade à foz, ao bosque de mangue. Nas franjas dos
bosques de mangue há uma correspondência com a classe fitofisiográfica vegetação rala.
É provável que isto decorra do efeito background do solo e, ou, espelho d’água sob o
dossel desses indivíduos. Em ambientes ciliares com o predomínio de outras formações
vegetais, a vegetação rala corresponde a uma composição herbácea.
A ausência de fragmentos florestais de maior vigor e densidade, no Trecho 4,
evidencia a perda de habitat e a fragilidade ambiental na APPC desse trecho. Fahrig
(2003), ao analisar a perda de habitat e a fragmentação, aponta que o cenário de perda de
habitat é o que apresenta impactos mais severos à biodiversidade. Além disso, a ausência
de remanescentes florestais, nesse trecho, torna as áreas ciliares ainda mais susceptíveis
às oscilações da maré e, ou, do volume de vazão do rio.
Remanescentes Florestais Ciliares: saúde da vegetação, por teledetecção, e evidências
em campo
Os remanescentes florestais selecionados para avaliação da saúde da vegetação e
verificação dos dados em campo (transectos T1 a T6) apresentam vigor e densidade
variável, com valores de NDVI em correspondência a vegetação esparsa (transectos T1,
T2, T3 e T5) e vegetação de transição (transectos T4 e T6) (Figura 12). Nos transectos
T1 a T4, observa-se aumento da densidade da vegetação em alguns pontos dos transectos,
ou em proximidade destes, como consequência da presença de indivíduos com copa mais
densa, quer pela presença de folhas que ainda não foram descartadas (para o caso de
espécies caducifólias) ou, ainda, pelo contato (sobreposição) de copas de indivíduos
próximos entre si.
Outro fator influente nos valores de vigor e densidade da vegetação é a composição
florística. Observa-se que transectos com densidade de vegetação semelhante entre si,
também partilham conFigurações quanto à composição florística (Quadro 1).
Em Piranhas, a vegetação se caracteriza por uma composição florística de caatinga
arbórea, com espécies heliófitas, adaptadas a baixa disponibilidade hídrica, com destaque
para a ocorrência de imburana (Amburana cearenses (Alemão) A.C. Sm.), braúna
(Schinopsis brasilienses Engl.), catingueira (Poincianella pyramidalis (Tul.) L. P.
Queiroz), entre outras (Quadro 1). A composição florística, com espécies clímax entre as
mais frequentes, indica que esta área está em processo avançado de sucessão ecológica.
Destaca-se que essas espécies, sobretudo a catingueira, mantiveram suas folhas enquanto
outras espécies, em seu entorno, já haviam efetuado o descarte. Adiciona-se que a área
estudada apresenta cercamento, limitando o acesso de caprinos e bovinos, e está no topo
da encosta.
Nos transectos em Pão de Açúcar e Traipu também há espécies heliófitas e
adaptadas à restrição hídrica (Quadro 1 e Figura 13). Em Pão de Açúcar, destacam-se
entre as espécies comumente encontradas, as espécies pioneiras, indicando um quadro
inicial de recuperação ambiental. Trata-se de uma área de encosta (transecto T2) que,
embora cercada, é utilizada para o pastoreio e ou passagem de pessoas para acesso ao rio.
Em Traipu, são encontradas espécies clímax, secundárias e pioneiras (Quadro 1),
indicando um quadro de perturbação em fase de recuperação. Nessa área, encontra-se
evidência de corte de madeira recente. Há presença de cercamento e, no entorno, há uso
rural (plantio e pastoreio).
Figura 12. Saúde da vegetação em remanescentes florestais: vigor e densidade da vegetação,
baseado em valores de NDVI. T1- transecto 1 (em Piranhas); T2- transecto 2 (em Pão de Açúcar);
T3- transecto 3 (em Pão de Açúcar); T4- transecto 4 (em Traipu); T5- transecto 5 (em Porto Real
do Colégio); e T6- transecto 6 (em Penedinho/Piaçabuçu). Os pontos de coleta de dados em campo
nos transectos distam 10m entre si.
As espécies encontradas em Porto Real do Colégio estão em processo de
identificação botânica. A área apresentou 10 morfotipos de espécies arbóreas, com
presença de espécies caducifólias e/ou copa com baixa densidade foliar. A área tem
cercamento, porém com evidência de extração de madeira; no entorno há uso rural para
o plantio de macaxeira.
Em Penedinho/Piaçabuçu, há uma mudança na composição florística quando
comparada às áreas anteriormente descritas. Trata-se de floresta subcaducifólia, de
formação vegetal restinga, sobre cordões arenosos, em propriedade privada e com
cercamento. Entre as espécies comumente encontradas estão pioneiras e secundárias
(Quadro 1).
Quanto à altura e a CAP, as espécies na APPC variaram entre 1,5 m e 16 m de
altura e CAP, entre 0,10 m e 1,60 m (Figura 14). Os maiores valores corresponderam a
vegetais estabelecidos em áreas mais úmidas (Penedinho/Piaçabuçu).
Figura 13. Espécies encontradas na mata ciliar do Rio São Francisco, caatinga alagoana.
Municípios de Piranhas, Pão de Açúcar e Traipu. Fotos: Milena Dutra da Silva, em dezembro de
2020.
Quadro 1. Espécies arbóreas da mata ciliar do Rio São Francisco, em Alagoas.
Nome Popular
Nome Científico
Família
Ocorrência*
Informações Ecológicas ***
Amescla
Protium
heptaphyllum
(Aubl.) Marchand
Burseraceae
Penedinho/
Piaçabuçu
Heliófita; frequente em solos arenosos e/ou em áreas ciliares. Formações florestais primárias ou
secundárias.
Floração: agosto a setembro. Polinização: Morcegos e abelhas. Frutificação: novembro a dezembro.
Dispersão zoocórica: ornitocórica e mirmecórica.
Angico
Anadenanthera
colubrina
(Vell.)
Brenan
Fabaceae
Pão de Açúcar
Heliófita; pioneira ou secundária inicial; grande capacidade de se desenvolver em solos pobres e/ou
erodidos. Floração: outubro a novembro. Polinização: abelhas e insetos pequenos. Frutificação: maio a
junho. Dispersão: autocórica (barocórica).
Braúna
Schinopsis
brasilienses Engl.
Anacardiaceae
Piranhas
Heliófita; espécie clímax; em risco de extinção. Floração: junho a setembro. Polinização: melitofilia.
Frutificação: outubro e novembro. Dispersão: anemocórica.
Catingueira
Poincianella
pyramidalis (Tul.) L.
P. Queiroz
Fabaceae
Piranhas; Pão
de Açúcar; e
Traipu
Heliófita; xerófita; pioneira; endêmica; adaptável aos diferentes solos, incluindo solos pobres e
pedregosos. Floração: outubro a fevereiro. Polinização: melitofilia. Frutificação: dezembro e junho
Dispersão: autocórica (barocórica).
Craibeira
Tabeuia aurea (Silva
Manso) S. Moore
Bignoniaceae
Piranhas; Porto
Real
do
Colégio**
Heliófita; secundária; tolerante a solos salinos; frequente em áreas ciliares. Floração: agosto e setembro.
Polinização: ornitofilia. Frutificação: agosto a outubro. Dispersão: anemocórica.
Cambuí
Myrciaria floribunda
(H.West ex Willd.)
O.Berg
Myrtaceae
Penedinho/
Piaçabuçu
Nativa. Espécie secundária; pode ocorrer em solos arenosos inundáveis e não-inundáveis. Floração:
setembro a janeiro. Polinização: melitofilia. Frutificação: outubro a março. Dispersão zoocórica.
Facheiro
Pilosocereus
pachycladus F. Ritter
subsp.
pernambucoensis (F.
Ritter) Zappi
Cactaceae
Piranhas; Pão
de Açúcar
Heliófita; xerófita; pioneira. Grande capacidade de se desenvolver em solos rasos; espécie chave para a
recuperação de áreas degradadas. Floração: novembro a fevereiro. Polinização: quiropterofilia.
Frutificação: janeiro a abril. Dispersão: zoocórica.
Gulandecarvalho
Calophyllum
brasiliense Cambess.
Calophyllaceae
Penedinho/
Piaçabuçu
Heliófita; ocorre em áreas ciliares encharcadas; em formações florestais pioneiras ou em outros níveis
de sucessão ecológica. Polinização: melitofilia. Frutificação: maio a junho e agosto a novembro.
Dispersão: quiropterocoria; ou hidrocoria (frutos sem endocarpo).
Imburana-decheiro
Amburana cearenses
(Alemão) A.C. Sm.
Fabaceae
Piranhas;
Traipu
Heliófita; espécie clímax; em risco de extinção. Floração: maio a julho. Polinização: melitofilia.
Frutificação: junho a outubro. Dispersão: anemocórica.
Jacarandá
Jacaranda acutifolia
Bonpl.
Bignoniaceae
Penedinho/
Piaçabuçu
Heliófita; pioneira. Floração: agosto a novembro. Polinização: melitofilia. Frutificação: maio a
setembro. Dispersão: anemocórica.
Jatobá
Hymenaea martiana
Hayne
Fabaceae
Penedinho/
Piaçabuçu
Heliófita; espécie clímax, comum em áreas ciliares. Floração: dezembro a fevereiro. Polinização:
quiropterofilia. Frutificação: março a maio. Dispersão: zoocórica
Jurema
Mimosa
tenuiflora
(Wild.) Poir.
Mimosaceae
Pão de Açúcar
Heliófita; pioneira à formação secundária de áreas de várzea e/ou solo úmido e profundo, porém também
se desenvolve sob restrição hídrica; indicada para a recuperação de áreas ciliares degradadas. Floração:
novembro a fevereiro (período de estiagem). Polinização: melitofilia. Frutificação: novembro a fevereiro
(período de estiagem). Dispersão: autocórica
Louro
Cordia
trichotoma
(Vell.) Arrab. ex.
Steud.
Boraginaceae
Penedinho/
Piaçabuçu
Heliófita; espécie secundária. Comum em áreas ciliares, com preferência por solo mais férteis. Floração:
maio a junho. Polinização: abelhas e insetos. Frutificação: julho a setembro. Dispersão: anemocórica.
Mandacaru
Cereus
D.C.
jamacaru
Cactaceae
Pão de Açúcar;
Traipu
Xerófila; pioneira. Floração: novembro a janeiro (logo após as primeiras chuvas). Polinização:
quiropterofilia. Frutificação: janeiro a março. Dispersão: zoocórica.
Mororó
Bauhinia cheilantha
(Bong.) D. Dietr.
Fabaceae
Piranhas; Pão
de Açúcar
Heliófita; pioneira. Floração: maio a agosto. Polinização: quiropterofilia. Frutificação: julho a setembro.
Dispersão: autocórica
Murta Roxa
Myrtus cf. L.
Myrtaceae
Penedinho/
Piaçabuçu
(Informação dependente da confirmação da identificação da espécie.)
Paineira
Ceiba glaziovii
Schum.
K.
Malvaceae
Traipu
Heliófita; secundária; endêmica. Floração: maio a outubro. Polinização: quiropterofilia. Frutificação:
setembro a dezembro. Dispersão: anemocórica.
Pau Ferro
Libidibia ferrea Mart.
ex. Tul.
Fabaceae
Traipu
Heliófita; seletiva xerófita; clímax. Floração: janeiro a março. Polinização: melitofilia. Frutificação:
julho a outubro. Dispersão: zoocórica
Pereiro
Aspidosperma
pyrifolium Mart.
Apocynaceae
Piranhas; Pão
de
Açúcar;
Traipu
Heliófita; secundária. Floração: julho a outubro. Polinização: esfingofilia. Frutificação: julho a
novembro. Dispersão: anemocórica.
Peroba
Aspidosperma
cylindrocarpon
Muell. Arg.
Apocynaceae
Penedinho/
Piaçabuçu
Heliófita; secundária, frequente em áreas ciliares. Floração: setembro a novembro. Polinização: insetos.
Frutificação: agosto a outubro. Dispersão: anemocórica.
Pião roxo
Jatropha
gossypiifolia L.
Euphorbiaceae
Pão de Açúcar
Pioneira, adaptada a uma maior disponibilidade de matéria orgânica no solo. Floração: julho.
Polinização: melitofilia e ornitofilia. Frutificação: setembro a novembro. Dispersão: autocórica.
cf.
Quixabeira
Sideroxylon
obtusifolium (Roem.
& Schult.) T. D. Penn.
Sapotaceae
Pão de Açúcar
Heliófila seletiva; higrófita; comum em áreas ciliares e várzeas úmidas. Floração: outubro a dezembro.
Polinização: abelhas e moscas silvestres. Frutificação: janeiro a abril. Dispersão: ornitocórica.
Umbu
Spondias
Arruda
Anacardiaceae
Traipu
Heliófita; espécie clímax; ocorre em solos diversos. Floração: outubro a janeiro. Polinização: melitofilia.
Frutificação: novembro a março. Dispersão: zoocórica.
Velame
Croton
heliotropiifolius
Kunth
Euphorbiaceae
Pão de Açúcar
Heliófita; pioneira. Polinização: abelhas e moscas silvestres. Dispersão: mirmecórica.
tuberosa
cf.
*Refere-se às áreas em que foram delimitados os transectos. **Avistamento em proximidade às áreas dos transectos, porém não foram incluídas no senso
e análises para a composição florística da referida área. ***Fonte: Santos et al. (2009); EMBRAPA (2021); CNIP (2021).
Figura 14. Altura e CAP de espécies arbóreas estabelecidas em áreas ciliares do Baixo Rio São
Francisco, em Alagoas.
Para evidenciação do efeito background do solo nos índices de vegetação, em
maior escala de detalhamento, foi determinado o RI (índice de vermelhidão), com maiores
valores correspondentes ao solo desnudo. Observa-se que os remanescentes florestais
estudados diferem quanto à cobertura de solo, ainda que apresentem formação vegetal e
composição florística semelhantes (Figura 15).
Remanescentes florestais com vegetação esparsa (T1, T2, T3 e T4) possuem RI
indicativo de solo desnudo e, ou, aparente, sob as copas das árvores. As espécies
encontradas nestes transectos possuem copas abertas e, ou, apresentam declínio na
biomassa fotossintetizante devido ao processo de caducifolia/estágio fenológico. Os
transectos em Pão de Açúcar apresentaram menor quantidade de solo desnudo entre os
transectos com vegetação esparsa. O T2 e o T3 diferem dos demais por apresentar áreas
com comunidade regenerante/juvenis, especialmente de mororó (Bauhinia cheilantha)
(T2) e vegetação herbácea (T3). Nos transectos T5 e T6, há uma maior cobertura do solo
pelas copas das árvores, com efeito background do solo pouco atuante (Figura 15).
Figura 15. Índices de vegetação, baseados em dados RGB, aplicados a remanescentes florestais
em áreas ciliares no Baixo São Francisco. RI - índice de vermelhidão; VARI - Índice de vegetação
resistente à atmosfera na região do visível; e GLI (índice de folha verde).
Escadafal (2017) destaca a importância da observação da influência do solo para a
análise por teledetecção em ambientes áridos, indicando a utilização de índices especializados
e de maior sensibilidade de resposta aos minerais do solo. Esses índices de grande
sensibilidade ao solo, a exemplo do RI, são úteis ao monitoramento dos processos de
degradação ambiental e desertificação. Há que se considerar que valores elevados de RI
indicam solos expostos à radiação e, consequentemente, maior evapotranspiração e
inviabilização de recursos hídricos para a regeneração da vegetação.
Os remanescentes florestais apresentam variação quanto ao nível de estresse,
determinados pelo VARI (Índice de vegetação resistente à atmosfera na região do visível),
com menores valores (estresse) encontrados nos transectos T1, T2, T3 e T4 (Figura 15).
A condição de estresse da vegetação apresenta-se mais severa em Traipu (T4). Nos
transectos T5 e T6, a vegetação exibe menores níveis de estresse, com valores de VARI
superiores a zero (Figura 14). É provável que a disponibilidade hídrica e nutricional do
solo nestes transectos seja superior aos demais.
Avaliando o GLI (índice de folha verde), observa-se que a vegetação
remanescente em Piranhas (T1) e Traipu (T4) exibe folhas em processo avançado de
senescência (Figura 14). Em Pão de Açúcar (T2 e T3), valores de GLI indicam
fotossíntese ativa reduzida, que pode ser indicativo de espécies caducifólias iniciando os
processos fisiológico para o descarte da folha e, ou, redução de pigmentos fotossintéticos
em resposta à deficiência hídrica/nutricional. Nos demais remanescentes florestais a
vegetação apresenta folhas saudáveis e funcionais para a fotossíntese.
Fauna Associada
Durante a III Expedição Científica do São Francisco foram registradas, nas áreas
ciliares, espécies de mamíferos e aves, com destaque para a presença de espécies raras e
ameaçadas de extinção (Quadro 2).
Levantamentos anteriores realizados na margem Sergipana da bacia listaram a
ocorrência de 21 espécies de mamíferos não voadores na região (Tabela 2), sendo oito
delas representantes do grupo dos pequenos mamíferos:
Gracillinanus agilis,
Monodelphis domestica, Callitrix jacchus, Calomys mattevi, Wiedomis pirrihomis, Galea
spixiis, Kerodon rupestres, Thrichomys laurentius; e 13 espécies consideradas mamíferos
de médio e grande portes: Didelphis marsupialis, Euphractus sexcintus, Dasypus sp,
Tamandua tetradactyla, Leopardus pardalis, Leopardus tigrinus, Puma yagouaroundi,
Cerdocyon thous, Lontra longicaudis, Conepatus semistriatus, Procyon cancrivorus,
Mazama goazoubira, Hydrochoeris hydrochaeris (Dias et al. 2017; Dias et al., 2019) .
Coma III Expedição puderam ser confirmadas onze espécies de mamíferos: Galea spixiis,
Kerodon rupestres, Thrichomys laurentius, Didelphis marsupialis, Dasypus sp,
Tamandua tetradactyla, Leopardus tigrinus, Cerdocyon thous, Lontra longicaudis,
Mazama goazoubira, Hydrochoeris hydrochaeris. Além dessas espécies, já listadas para
a região, observamos relatos da presença do macaco do mangue, no município de Brejo
Grande, que pela descrição e área de registro coincide com Sapajos xhantosthernos, cujo
nome comum é macaco prego de peito amarelo ou macaco-do-mangue – espécie
endêmica e ameaçada, de acordo com a classificação do ICMBio - Em Perigo (EN) - A2cd+C2a(i).
Quadro 2. Espécies de aves e mamíferos registradas durante a III Expedição Científica do Rio
São Francisco. As aves listadas foram observadas diretamente em uma lagoa marginal ao rio São
Francisco, no município de Traipu-AL. * - Espécies de mamíferos ameaçadas de extinção; SR –
sem registro
Modo
Registro
Ordem
Família
Espécie
Nome popular
IL, MT
Didelphimophia
Didelphidae
Didelphis marsupialis
saruê
SR
Didelphimophia
Didelphidae
Gracillinanus agilis
cuica graciosa
SR
Didelphimophia
Didelphidae
Monodelphis domestica
rato cachorro
IL
Cingulata
Dasypodidae
Euphractus sexcintus
tatu peba
MT
Cingulata
Dasypodidae
Dasypus novencintus
tatu galinha
MT
Pilosa
Myrmecophagidae
Tamandua tetradactyla*
tamanduá-mirim
MT
Primates
Cebidae
Callitrix jacchus
soín
SR
Carnivora
Felidae
Leopardus pardalis
jaguatirica
MT
Carnivora
Felidae
Leopardus tigrinus
gato do mato
SR
Carnivora
Felidae
Puma yagouaroundi
jaguarundi
MT
Carnivora
Canidae
Cerdocyon thous
raposinha
MT, IL
Carnivora
Mustelidae
Lontra longicaudis*
lontra
SR
Carnivora
Mephitidae
Conepatus semistriatus
cangambá
SR
Carnivora
Procyonidae
Procyon cancrivorus
mão-pelada
MT
Cetartiodactyla
Cervidae
Mazama goazoubira
veado-catingueiro
SR
Rodentia
Cricetidae
Calomys mattevi
camundongo-docampo
SR
Rodentia
Cricetidae
Wiedomis pirrihomis
rato bico-de-lacre
IL
Rodentia
Caviidae
Galea spixiis
preá
IL, MT
Rodentia
Caviidae
Hydrochoeris hydrochaeris
capivara
IL
Rodentia
Caviidae
Kerodon rupestres
mocó
C
Rodentia
Echimyidae
Thrichomys laurentius
punaré
IL
Primates
Cebidae
Sapajus Xanthosternos*
Macaco-do-mangue
Av
Ciconiiformes
Ciconiidae
Mycteria americana
cabeça-seca
Av
Pelecaniformes
Ardeidae
Butorides striata
socozinho
Av
Pelecaniformes
Ardeidae
Ardea alba
garça-branca-grande
Av
Pelecaniformes
Ardeidae
Ardea cocoi
garça-moura
Av
Pelecaniformes
Ardeidae
Egretta thula
garça-branca-pequena
Av
Pelecaniformes
Ardeidae
Bubulcus ibis
garça-vaqueira
Av
Pelecaniformes
Threskiornithidae
Platalea ajaja
colhereiro
Av
Charadriiformes
Jacanidae
Jacana jacana
jaçanã
Av
Charadriiformes
Recurvirostridae
Himantopus mexicans
pernilongo-costasnegras
Av
Charadriiformes
Charadriidae
Vanellus chilensis
quero-quero
Av
Falconiformes
Falconidae
Falco sparverius
quiri-quiri
Av
Falconiformes
Falconidae
Caracara plancus
carcará
Av
Accipitriformes
Accipitridae
Rostrhamus sociabilis
gavião-caramujeiro
Av
Accipitriformes
Accipitridae
Rupornis magnirostris
gavião-carijó
Av
Strigiformes
Strigidae
Athene cunicularia
coruja-buraqueira
Av
Anseriformes
Anatidae
Cairina moschata
pato-do-mato
Av
Anseriformes
Anatidae
Sarkidiornis sylvicola
pato-de-crista
Av
Anseriformes
Anatidae
Dendrocygna viduata
Irerê
Fv
Falconiformes
Falconidae
Falco peregrinus
Falcão peregrino
Mapeamento do espelho d’água e do assoreamento no Rio São Francisco
No período de 2018 a 2019, cerca de 40,49% da área superficial da calha do rio
eram correspondentes a bancos de areia. No entanto, em 2020, o rio apresentou aumento
da superfície de corpos hídricos, proveniente do aumento da vazão média anual na usina
hidrelétrica de Xingó, 1980 m³.s-1 (ANA, 2021), o que ocasionou uma menor exposição
dos bancos de areia, que atingiram apenas 25,44% da área superficial da calha hídrica do
Baixo São Francisco (Figuras 15 e 16).
De maneira geral, as baixas vazões médias anuais praticadas em Xingó, nos anos
de 2018 e 2019, 1311 m³.s-1 e 1094 m³.s-1, respectivamente (ANA, 2021), implicaram
em redução da área superficial dos corpos hídricos ao longo da calha hídrica do BSF, e
consequentemente maior exposição dos bancos de areia e áreas marginais da calha, além
disso, as reduções das vazões nominais diminuem a força de arraste da correnteza do rio,
promovendo a deposição dos sedimentos ao longo do curso hídrico, formando bancos de
areia e ilhas, que agravam as condições já existentes de assoreamento.
Figura 15. Ocupação média da área superficial da calha principal do Rio São Francisco
na região do BSF nos setores 1, 2 e 3, para os anos de 2018, 2019 e 2020.
É importante salientar que, de Piranhas a Piaçabuçu, existem locais onde a
presença de bancos de areia depende da largura e profundidade da calha hídrica, de modo
que nos setores mais estreitos e profundos, setores 1 e 2, observa-se pouca ocorrência de
bancos de areia (Figura 15), com ocupação média da calha hídrica de cerca de 23,67% e
36,06%, respectivamente, nos anos de 2018 e 2019 (Figura 17a e 17b); atingindo, no ano
de 2020, área superficial correspondente a apenas 5,72% (setor 1) e 11,84% (setor 2) da
extensão d (Figura 17c). Por conseguinte, o setor 3 chama atenção no terço médio da
região hidrográfica do BSF, por apresentar elevado número de pequenos bancos de areia
nos anos de 2018 e 2019, com área superficial média de 41,49%. Este cenário torna o
leito do rio mais estreito e menos profundo em alguns pontos, ocasionando danos ao
ecossistema e as comunidades ribeirinhas.
Figura 16. Ocupação média da área superficial da calha principal do Rio São Francisco na região
do BSF nos setores 4, 5 e 6, para os anos de 2018, 2019 e 2020.
Além disso, verifica-se maior extensão de bancos de areia à jusante do rio,
correspondente aos setores 4, 5 e 6 (Figura 16). Esses setores estão localizados em uma
região de menor altitude e relevo mais plano (Figura 2), deste modo, os sedimentos
acumulados ao longo dos cursos hídricos e transportados pelo próprio rio são depositados
com maior intensidade nesses setores, onde a velocidade da vazão é naturalmente menor.
Vale salientar que, esses setores apresentaram as menores flutuações nas áreas de bancos
de areia, ao longo dos anos de 2018 a 2020, dos quais o setor 4 apresenta-se mais
susceptível às alterações das vazões nominais em Xingó. Em 2018 e 2019, anos das
menores vazões nominais em Xingó, a área superficial de bancos de areia chegou a ocupar
49,26% da sua calha hídrica, com redução no ano de 2020 (Figura 17). As regiões mais
próximas à foz dependem essencialmente da ocorrência de maiores vazões para arrastar
os sedimentos depositados em bancos de areias formados recentemente, ou para evitar a
sua deposição no leito do rio.
Figura 17. Ocupação (%) da área superficial da calha principal do Rio São Francisco na
região do BSF, para os anos de 2018 (a), 2019 (b) e 2020 (c).
Problemas ambientais encontrados: algumas considerações
As principais atividades desenvolvidas na BHSF, na região do Baixo Curso,
causam impactos significativos na paisagem que reduzem a capacidade de suporte do
ambiente. Os problemas ambientais identificados na Área de Preservação Permanente
Ciliar (faixa de 500 m), e vizinhança imediata, podem ser categorizados em três classes:
(1) impactos causados pela urbanização; (2) impactos ligados à produção animal
(pecuária); e, (3) impactos relacionados à produção vegetal (agricultura e extração
vegetal); a saber:
1. Impactos negativos da urbanização: Desmatamento; Impermeabilização do solo;
Lançamento de Esgotos domésticos (ausência de saneamento básico) no rio.
2. Impactos negativos da pecuária: Desmatamento; Compactação e impermeabilização
do solo; Pastejo Extensivo; Erosão; Redução da biodiversidade.
3. Impactos negativos da agricultura: Desmatamento; Impermeabilização do solo;
Monocultura; Erosão; Fragmentação dos remanescentes florestais; Redução da
biodiversidade.
Vale salientar que espécies clímax, em risco de extinção, como a imburana de
cheiro (Amburana cearenses) e braúna (Schinopsis brasilienses Engl.), foram
encontradas apenas em dois transectos, um no município de Piranhas e o outro em Traipu.
Neste último, registrou-se apenas a A. cearenses. Vestígios de queimadas, extração de
madeira e/ou pastoreio também foram identificados em todos os fragmentos visitados em
campo.
Cinquenta e dois por cento das espécies de mamíferos não voadores listadas para
a região foram confirmadas durante a III Expedição. Um fato digno de nota envolvendo
pássaros foi observado na cidade de Piaçabuçu. Flagramos um grupo de homens atraindo
pássaros com aves em gaiolas e realizando a captura dos pássaros livres com uso de rede
de espera, similar a rede de neblina utilizada em levantamentos científicos. Em pleno dia,
à beira da estrada. A prática não era de conhecimento da nossa equipe e destaca-se por
capturar qualquer espécie que passe pelo local, mesmo que não seja atraída pela ave na
gaiola. Outro conflito velado, que observamos entre população e fauna, foi o representado
pelos pescadores e as lontras da região do BSF. De acordo com relatos de pescadores, as
lontras abrem os covos de pesca para comerem os camarões capturados, com grande
habilidade, trazendo prejuízos aos trabalhadores. Além disso, em vários locais visitados
confirmamos que os trabalhadores e moradores das áreas rurais caçam roedores e outros
vertebrados silvestres, para consumo da família. A busca de evidências científicas da
presença da espécie endêmica de primata S. xanthosternos na região e um diagnóstico da
importância da fauna silvestre para segurança alimentar das populações ribeirinhas na
região do BSF serão desdobramentos naturais desta iniciativa de pesquisa sobre a fauna
na região. Os temas citados serão objeto de questão específica a ser investigada nas
comunidades, juntamente com a equipe de estudos sócio-econômicos em edições futuras
da Expedição.
RECOMENDAÇÕES
A escassez de vegetação nativa na faixa de proteção do rio, reforçada pela
fragmentação da vegetação remanescente, desponta como um cenário alarmante com
vistas à manutenção da biodiversidade, qualidade da água e vitalidade do Rio São
Francisco, bem como da qualidade de vida da população ribeirinha.
Nesse sentido, recomendamos o monitoramento contínuo das áreas ciliares, além
de ações para recuperação ambiental de áreas ciliares do BSF e seus tributários, com
participação de proprietários rurais, poder público e sociedade civil organizada.
Recomenda-se, ainda, a ampliação das análises com fins de diagnóstico e
planejamento ambiental, em nível de bacia, sub-bacia e microbacia nas futuras
expedições. Estudos com enfoque em análise integrada da paisagem e avaliação das
fragilidades potencial e emergente poderão determinar áreas prioritárias para a
recuperação ambiental.
A ausência de ações para deter os impactos negativos nas áreas ciliares poderá
ocasionar danos irreversíveis ao sistema hídrico ambiental.
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Variáveis meteorológicas e temperatura da água do
rio na 3ª Expedição Científica do Baixo São
Francisco
2
Ricardo Araujo Ferreira Junior1, Wesley da Silva Neves2
¹
Professor, Laboratório de Irrigação e Agrometeorologia (LIA), Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
²
Graduando em Engenharia de Energia, Laboratório de Irrigação e Agrometeorologia (LIA), Campus de
Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
RESUMO
As variáveis meteorológicas são fundamentais em várias áreas de interesse da
sociedade, por exemplo na determinação de potenciais uso de energia renováveis (solar e
eólica) e na estimativa da evapotranspiração de cultivos que é uma informação primordial
para uma irrigação com o uso racional da água. A radiação solar é a variável
meteorológica que apresenta maior importância em termo de energia e processos
aquáticos, sendo a responsável pela distribuição de calor na massa de água, participando
também dos processos de evaporação e no processo de estratificação térmica. A
temperatura da água é uma variável importante no controle ambiental, sendo uma resposta
das condições do meio. Assim, este trabalho teve por objetivo monitorar e analisar as
variáveis meteorológicas e a temperatura da água do Baixo São Francisco, durante a
Expedição Científica. As observações foram realizadas com sensores automáticos de
qualidade científica comprovada que estavam conectados a um sistema de aquisição de
dados e tiveram resultados consistentes, porém recomenda-se aquisições de estações
meteorológicas para monitoramentos contínuos nas cidades e povoados situados no
Baixo.
Palavras-chave: dados meteorológicos, Rio São Francisco, recurso naturais.
INTRODUÇÃO
Os processos naturais (biológicos, químicos, físicos e até sociais) que acontecem
em um ambiente, geralmente, são dependentes ou influenciados por pelo menos um
elemento meteorológico. Assim, a mensuração de variáveis meteorológicas de uma
localidade é sempre importante, sendo cada vez mais comum o monitoramento contínuo
em várias localidades do Mundo. Entre essas variáveis, a radiação solar que incide na
superfície tem um destaque, pois, ela é a input de energia nos diversos ambientes e garante
as condições necessárias para a produção primária em um ambiente, ou seja, a produção
de biomassa a partir de componentes inorgânicos (Woodward and Sheehy, 1983). A
radiação solar, também, tem papel econômico no setor energético, sendo cada vez mais
explorada tanto na forma passiva (aproveitamento para iluminação natural) quanto ativa
(aquecimento e eletricidade), vale lembra que a radiação solar é uma fonte de energia
limpa e renovável. Existem evidências que a iluminação natural tem efeito sobre o
comportamento humano, regulando o ciclo biológico, na produção de vitamina D, no
ritmo cardíaco e circulatório.
Vale salientar, que a região do Baixo São Francisco predomina um clima
semiárido, na qual o manejo de água via irrigação é fundamental para a produção vegetal,
que está associada à segurança alimentar e geração de renda dos agricultores rurais
(PBMC, 2012). Nesse cenário, o monitoramento das variáveis atmosféricas tem aplicação
prática na determinação da quantidade de água necessária para os cultivos, otimizando,
assim, o uso desse recurso.
Nesse contexto, as medidas da radiação solar global (total) e outras variáveis
meteorológicas são fundamentais em várias áreas de interesse da sociedade, tais como:
caracterização ambiental, simulações de cenários climáticos futuros, demanda hídrica,
evapotranspiração, planejamento de instalações para o aproveitamento da energia solar,
modelos de crescimento e de produtividade de biomassa etc.
Em superfícies aquáticas, dentre os diversos elementos meteorológicos, a radiação
solar também é o que apresenta maior importância, sendo a responsável pela distribuição
de calor na massa de água, participando também dos processos de evaporação e no
processo de estratificação térmica (Ferreira e Cunha, 2013). A temperatura da água é uma
variável importante no controle ambiental, sendo uma resposta das condições do meio
(Percebon et al., 2005). A variação da temperatura das águas de rios pode ter origem em
processos naturais, como variações (diárias e sazonais) da temperatura do ar e da
incidência da radiação solar e da redução (ou aumento) de vazão, ou processos antrópicos
diretos, como a descarga de efluentes.
Assim, este trabalho teve por objetivo monitorar e analisar as variáveis
meteorológicas e a temperatura da água do Baixo São Francisco, durante a Expedição
Científica.
METODOLOGIA
Na 3ª Expedição Científica do Baixo São Francisco foram observadas as variáveis
meteorológicas: radiação solar, velocidade do vento e a temperatura do ar. Também foi
monitorada a temperatura da água do rio. Todas as medidas supracitadas foram realizadas
com sensores automáticos que estavam conectados a um sistema de aquisição de dados
(Datalogger CR1000, Campbell Scientific) e programados para realizar medidas a cada
10 segundos e armazenadas médias a cada um (1) minuto (Figura 1). O sistema também
foi contemplado por um conjunto de fornecimento energia elétrica, composto por uma
bateria de 12 V e 7 Ah, um módulo fotovoltaico e um controlador de carga. As
observações foram realizadas na embarcação Magnífica, essa foi escolhida por ter um
porte mais alto.
Figura 1. Sistema de observação meteorológica instalado na 3ª Expedição Científica do Baixo
São Francisco.
As observações da radiação solar foram realizadas através de um piranômetro
(modelo CM3, Kipp & Zonen) (Figura 1), o qual foi previamente calibrado por um
piranômetro de segunda classe especificado pelo ISO 9060 (modelo CMP 21, Kipp &
Zonen). As medidas de irradiância solar global (Watt por metro quadrado – W m-2 ou J s1
m-2), com médias de um em um minuto, foram integradas a cada hora (irradiação solar
global horária e diária (Hg, Watt-hora por metro quadrado – Wh m-2).
A temperatura do ar (Ta) foi monitorada por um termômetro (Probe 107,
Campbell Scientific) (Figura 1) instalado no abrigo apropriado para o sensor ser protegido
da incidência de radiação solar. A velocidade do vento foi mensurada por um anemômetro
do tipo de conchas, também instalado no piso superior do barco, conforme é visualizado
na Figura 1.
A temperatura da água do rio foi monitorada através de um termômetro (Probe
107, Campbell Scientific), no qual ficava próximo a superfície da água (completamente
submerso). Vale ressaltar que os sensores de temperatura utilizados são robustos e
precisos, com a capacidade de medir a temperatura do ar, do solo ou da água de -35 a +
50 °C com um erro menor ou igual a 0,01 ºC (Campbell Scientific, 2020). As medições
de temperatura do rio só eram realizadas quando a embarcação estava atracada. Na Figura
2 é possível visualizar o sensor na água do rio.
Figura 2. Monitoramento da temperatura da água do Rio na 3ª Expedição Científica do Baixo São
Francisco.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As informações obtidas, durante o período da expedição científica, resultaram
em índices satisfatórios em relação a radiação solar. As irradiância solar global
apresentaram valores extremos 1412,67 W m -2 (máximo), que ocorreu no sexto dia na
região de Penedo/AL, e 17,50 W m-2 (mínimo) ao final do nono dia, tendo a média do
período de 609,82 W m-2 (Tabela 1). Os gráficos, apresentados nas Figura 3, demostram
a variação da irradiação solar global horária no período de nove dias da Expedição. No
terceiro dia foi observado índices menores de irradiação solar ao longo do dia, este fato
se deve a causas relacionadas a nebulosidade. O sétimo dia e o nono dia da expedição
apresentaram melhores desempenho com relação as médias obtidas, sendo crucial para
uma boa incidência fatores meteorológicos favoráveis como ausência ou pouca
nebulosidade.
Tabela 1. Irradiância solar global na região do baixo São Francisco durante a 3ª Expedição
Científica do Baixo São Francisco.
DADOS
Média (W m-2)
Máximo (W m-2)
Mínimo (W m-2)
01/12/2020
605,59
1306,83
40,05
02/12/2020
627,58
1264,20
26,68
03/12/2020
546,53
1320,79
22,93
04/12/2020
594,03
1350,93
19,99
05/12/2020
612,18
1224,51
45,05
06/12/2020
618,26
1412,67
27,56
07/12/2020
626,31
1212,01
27,56
08/12/2020
612,42
1261,99
47,55
09/12/2020
645,50
1182,61
17,49
Média
609,82
1281,84
30,54
Nas Figuras 4 e 5 estão apresentados os resultados, médios de cada 10 minutos,
da velocidade do vento (m s-1) e da temperatura do ar (°C) durante a 3ª Expedição
Científica do Baixo São Francisco. Os valores da velocidade do vento medidos na
expedição quando a embarcação está em movimento é uma resultante da velocidade da
embarcação e a do vento, nesse caso, não são exatos. Mas continua a tendencia das
expedições anterior de calmaria durante parte do período noturno e maiores velocidades
nas horas mais aquecidas do dia (Figura 4).
Em relação a temperatura do ar, os valores máximos diários tiveram uma
tendencias de diminuição ao longo da expedição (Figura 5), uma vez que o clima vai se
tornando-se úmido com a proximidade do oceano. O valor extremo superior, durante esse
período, foi de 34,8 °C e ocorreu no dia 01/12/2020 em Piranhas, o extremo inferior
também ocorreu em Piranhas com um valor de 23,0 °C. A temperatura média dos valores
observados foi de 27,8 ºC.
Figura 3. Irradiação solar global horária durante a 3ª Expedição Científica do Baixo São
Francisco.
Figura 4. Velocidade do vento, média a cada 10 minutos, durante a 3ª Expedição Científica do
Baixo São Francisco.
Figura 5. Temperatura do ar (°C), média a cada 10 minutos, durante a 3ª Expedição Científica do
Baixo São Francisco.
Nas Figuras 6, 7, 8 e 9 têm-se os resultados do monitoramento da temperatura
da água superficial do rio e da temperatura do ar nos momentos que a embarcação estava
parada durante a 3ª Expedição Científica do Baixo São Francisco. Nesses resultados,
observa-se que a temperatura da água do rio teve pequena variação quando comparada
com a temperatura do ar, sabe-se que isso é devido a propriedade da água (alto calor
específico) que precisar perder (ou ganhar) relativamente mais energia para diminuir (ou
aumentar) sua temperatura.
A temperatura da água máxima na superfície do rio registrada ocorreu no
município de Piaçabuçu - AL, com valor médio de 30 minutos igual à 28,8 °C, ocorrido
entre as 16:00h e 16:30h do dia 07/12/2020. Também, pode-se observar que, entre os dias
de monitoramento, em todos as localidades as temperaturas da água máxima do dia
sempre apresentaram valores acima de 28 °C. Já os valores da temperatura mínima da
água do rio em todos os dias de registros estiveram acima de 27 °C. Mostrando que, nessa
época, tem uma pequena amplitude térmica da água superficial do rio. Assim, a água do
rio, termicamente falando, mostrou-se um ambiente estável durante o período da
Expedição, vale lembrar que grandes variações de temperatura afetam a solubilidade dos
gases na água, influenciando assim a decomposição de matéria orgânica, com
consequente efeito sobre a qualidade do líquido e sobre a vida de organismos aeróbios
aquáticos.
Figura 6. Temperaturas (°C) do ar (A e C) e da água do rio (B e D), média a cada 30 minutos,
durante a 3ª Expedição Científica do Baixo São Francisco, nos municípios de Piranhas-AL (A e
B) e Pão de açúcar-AL (C e D).
Figura 7. Temperaturas (°C) do ar (A e C) e da água do rio (B e D), média a cada 30 minutos,
durante a 3ª Expedição Científica do Baixo São Francisco, nos municípios de Traipu-AL (A e B)
e Porto Real do Colégio-AL (C e D)
Figura 8. Temperaturas (°C) do ar (A e C) e da água do rio (B e D), média a cada 30 minutos,
durante a 3ª Expedição Científica do Baixo São Francisco, nos municípios de Propriá-SE (A e B)
e Penedo-AL (C e D)
Figura 9. Temperaturas (°C) do ar (A e C) e da água do rio (B e D), média a cada 30 minutos,
durante a 3ª Expedição Científica do Baixo São Francisco, nos municípios de Piaçabuçu-AL (A
e B) e Brejo Grande-SE (C e D).
CONCLUSÃO
Importantes observações físicas (atmosfera próxima ao rio e temperatura do rio)
foram realizadas e podem ajudar no entendimento de pesquisas relacionadas as condições
ambientais do Baixo do Rio São Francisco. Todavia, as medições apenas no período da
Expedição não são suficientes para estudos e estimativas de índices ambientais que
servem de subsídios para tomadas de decisões. Sendo assim, recomenda-se aquisições de
estações meteorológicas para monitoramentos contínuos nas cidades e povoados situados
no Baixo.
AGRADECIMENTOS
Agradecimentos à Universidade Federal de Alagoas (UFAL), à Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL), ao Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), entre outras instituições que
contribuíram para a aquisição dos equipamentos utilizados nesse projeto.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMPBELL SCIENTIFIC, Inc, 2020. Página inicial. Disponível
<https://www.campbellsci.com.br>. Acesso em: 29 de mai. de 2020.
em:
FERREIRA, D. M.; CUNHA, C. Simulação numérica do comportamento térmico do
reservatório do Rio Verde. Eng. Sanit. Ambient., v.18, n.1, p.83-93, 2013.
PBMC. Sumário Executivo do Volume 1 - Base Científica das Mudanças Climáticas.
Contribuição do Grupo de Trabalho 1 para o 1o Relatório de Avaliação Nacional do
Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Brasil, Volume Especial para a Rio+20, 34p,
2012.
PERCEBON, C, M, BITTENCOURT, A, V, L, ROSA FILHO, E, F, Diagnóstico da
temperatura das águas dos principais rios de Blumenau, sc, Boletim Paranaense de
Geociências, n, 56, p, 7-19, 2005, Editora UFPR.
WOODWARD F.I.; SHEEHY, J.E. Principles and Measurements in Environmental
Biology. p. 274. 1983.
3
Identificação de possíveis pontos de lançamento de
esgoto sanitário ao longo do baixo São Francisco
Lívia Maria Alves Lino Acioly de Carvalho1; Ester Milena dos Santos2; Nicolli
Albuquerque de Carvalho³; Silvânio Silvério Lopes da Costa 2
1
Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Piauí;
Universidade Federal de Sergipe, Laboratório de Tecnologia e Monitoramento Ambiental;
3
Graduanda em Engenharia Ambiental-Universidade Federal de Alagoas.
2
INTRODUÇÃO
O rio São Francisco é um dos principais rios do Brasil por conta de sua riqueza
econômica, social e cultural. Abrangendo a maior parte do semiárido nordestino, o rio
conhecido como “Velho Chico” percorre seis estados: Minas Gerais, Bahia, Goiás,
Distrito Federal, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (CBHSF, 2016).
A Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco tem como rio principal, o próprio São
Francisco, e divide-se em quatro regiões fisiográficas (CBHSF, 2016).
1. Alto São Francisco: corresponde à área de 235.635 Km² entre 244 municípios nas
unidades federativas de Minas Gerais, Bahia, Goiás e Distrito Federal.
2. Médio São Francisco: corresponde à área de 266.972 Km² entre 92 municípios no
Estado da Bahia.
3.
Submédio São Francisco: corresponde à área de 110.446 Km² entre 92 municípios
nos Estados Pernambuco, Bahia e Alagoas.
4. Baixo São Francisco: corresponde à área de 25.523 Km² entre 78 municípios nos
Estados Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe.
Segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), dos 506
municípios que compõem a bacia, apenas um, Lagoa da Prata (MG), possui 100% do seu
esgoto tratado. Particularmente, o Baixo São Francisco possui inúmeros problemas
socioambientais, porém as questões relacionadas ao esgotamento sanitário são
preocupantes, visto que os índices de coleta de esgoto são baixos nos estados de Alagoas
e Sergipe de, respectivamente, 17,14% e 27,66% (BRASIL, 2020).
De modo geral, a qualidade da água é função das condições naturais e do uso e
ocupação da terra na bacia hidrográfica (VON SPERLING, 2014). Ao longo dos anos, as
atividades antrópicas se intensificam dentro do limite da bacia, resultando em
desequilíbrios nos recursos ambientais. A intervenção desordenada do ser humano na
natureza contribui para sua degradação e afeta a qualidade de vida dos que nele habitam.
Segundo relatório da ONU (UN-Water, 2018, p. 12), a qualidade da água está
sendo reduzida ao longo dos anos, devido à poluição causada por agentes patógenos,
matéria orgânica, nutrientes e salinidade. O impacto das águas superficiais por vários
estressores antropogênicos ameaça o funcionamento, a integridade e os serviços dos
ecossistemas e sua degradação provoca o interesse de compreender como o uso da terra
em uma paisagem afeta a qualidade da água a jusante (MACK et al, 2019; GIRI; QIU;
ZHANG, 2019).
Considerando que, em média, o esgoto é composto por 99,9% de água e 0,1% de
sólidos, com cerca de 75% desses constituídos de matéria orgânica degradável
(NUVOLARI, 2011), a depender das condições hídricas, do local de lançamento e da carga
de aporte, o lançamento in natura pode afetar negativamente o corpo hídrico receptor.
Um exemplo é o rio São Francisco, um dos poucos rios perenes que atravessam a
região nordeste que possui inúmeros usos associados como abastecimento humano,
diluição de efluentes, abastecimento da agricultura irrigada, aquicultura, ecoturismo,
navegação e aproveitamento hidroelétrico. São usos que ao mesmo tempo que requerem
padrões específicos para as atividades também afetam a qualidade e a quantidade das
águas do rio, influenciando na dinâmica dos ecossistemas dependentes deles. Apesar de
ser um corpo d’água em um contexto relevante, as informações relacionadas a
monitoramento ainda são precárias, principalmente na região do baixo (ZELLHUBER;
SIQUEIRA, 2016).
De forma a contribuir com maior conhecimento sobre sua qualidade, a Expedição
do Baixo São Francisco reúne pesquisadores de diversas áreas durante 10 dias que se
dispõem a fazer um levantamento de dados ambientais quanto a área do baixo. Dentre os
aspectos levantados, esse relatório visa identificar as fontes pontuais de poluição de modo
a determinar sua distribuição ao longo do espaço e para apontar alguns impactos
relacionados às cidades ribeiras.
METODOLOGIA
O Baixo São Francisco é uma região fisiográfica da bacia hidrográfica do rio São
Francisco com extensão de 265 km e área de 30.377 km², que corresponde a 5% do total
da bacia e abrange estados como Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia (CODEVASF,
2002). Nessa região o rio perpassa o semiárido, onde predomina vegetação de caatinga,
até a zona da mata, constituída pelo bioma de mata atlântica que inclui vegetação de
restinga e manguezais próximo à foz, onde deságua no Oceano Atlântico.
O objeto deste estudo envolve 08 munícipios alagoanos, localizados às margens
do Baixo São Francisco: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja
Nova, Penedo e Piaçabuçu.
O trabalho de campo ocorreu durante a 3ª Expedição Cientifica do Baixo São
Francisco, sendo realizado de 30/11/2020 a 10/12/2020 com percurso ao longo desse rio,
iniciando em Piranhas e encerrando em sua foz. A atividade consistiu em identificar
fontes de poluição às margens dos municípios supracitados fazendo o percurso com uso
de um barco. As fontes foram identificadas através de registro fotográfico e GPS. Após o
levantamento em campo e pesquisa documental e bibliográfica foi possível elencar alguns
impactos e relacioná-los com os Planos Municipais de Saneamento Básico (PMSBs) de
cada município, sugerindo medidas para a sua implantação. A partir do
georreferenciamento em campo e informações documentais foi possível gerar produtos
cartográficos no software livre QuantumGIS de forma a indicar municípios com
problemas quanto ao saneamento básico.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Quanto à identificação de fontes de poluição foram feitos 88 registros. Muitas
dessas fontes de poluição estão associadas aos locais de lançamento de esgotamento
sanitário (Figura 1).
Reportou-se 02 pontos em Piranhas, 12 em Pão de Açúcar, 03 em Traipu, 09 em
Porto Real do Colégio, 23 em Penedo e por fim, 39 na cidade de Piaçabuçu (Figura 2).
A presença dessas fontes de poluição muitas vezes associadas ao esgoto doméstico
sem o devido tratamento pode ser prejudicial ao corpo hídrico receptor, impactando
negativamente os demais usos próximos. Alguns dos parâmetros que podem indicar ou
atestar degradação da qualidade dos corpos d’água são coloração, odor, eutrofização,
comprometimento de balneabilidade, visual estético, proliferação de vetores, e
comprometimento da fauna e flora (ROSSI et al., 2012).
Os registros fotográficos apontaram uma preocupação quanto ao esgotamento
sanitário e confrontados com os dados do diagnóstico do Sistema Nacional de Informação
sobre o Saneamento Básico (SNIS) evidenciam a necessidade de execução de obras de
sistemas de coleta e tratamento de esgoto sanitário, além de abastecimento de água
tratada.
Figura 1. Alguns pontos registrados ao longo do Baixo São Francisco.
Nota-se que a maior parte dos municípios onde houve registros de possíveis
pontos de lançamento possui plano de saneamento (Tabela 1). Apesar disso, a maioria
não é contemplada com coleta ou tratamento de esgoto, além de apresentar baixos índices
de atendimento de serviço de abastecimento de água. Investimentos em serviços de
saneamento básico resultam em melhor qualidade de água, aumentando sua
disponibilidade diante das previsões de escassez hídrica, bem como promovem saúde e,
consequentemente, qualidade de vida aos moradores das localidades beneficiadas
(FOLLADOR et al., 2015).
Figura 2. Municípios alagoanos e possíveis pontos de lançamento de efluentes.
Tabela 1. Informações sobre alguns serviços de saneamento básico dos municípios do baixo São
Francisco.
ÍNDICE DE
COLETA DE
ESGOTO
SANITÁRIO
2019
(%)*
ÍNDICE DE
TRATAMENTO
DE ESGOTO
SANITÁRIO
2019
(%)*
ÍNDICE DE
ATENDIM.
TOTAL DE
ÁGUA 2019
(%)*
PREST. DE
SERVIÇO*
Piranhas
45,48
100
75,25
CASAL
Pão de
Açúcar
---
---
2,28
CASAL
Traipu
---
---
27,03
CASAL
Porto Real do
Colégio
---
---
---
---
CIDADE
PMSB**
Lei Municipal
Nº 293/2019
Lei Municipal
Nº 541/2020
Elaborado não
regulamentado
Não encontrado
Elaborado não
regulamentado
Elaborado não
Penedo
----98
SAAE
regulamentado
Elaborado não
Piaçabuçu
----56,57
CASAL
regulamentado
Lei Municipal
Propriá (***)
----98,70
DESO
Nº 824/2018
Brejo Grande
Lei Municipal
----83,04
DESO
(***)
Nº 149/2019
Siglas: Companhia de Saneamento de Sergipe (DESO); Companhia de Abastecimento D’Água e
Saneamento do Estado de Alagoas (CASAL); Serviço Autônomo de Água e Esgotamento (SAAE).
*Fonte: Brasil (2020)
**Fonte: Comitê de Bacia Hidrográfica do rio São Francisco e site das respectivas prefeituras.
*** Municípios sergipanos visitados durante a Expedição.
Igreja Nova
---
---
20,30
CASAL
Os registros fotográficos também evidenciaram outros problemas de cunho
socioambiental como a remoção e ocupação de área de mata ciliar, a vulnerabilidade de
residências e da população que reside nas margens, a disposição incorreta de resíduos
sólidos, entre outras questões. Diante do exposto destaca-se a necessidade de ações
integradas para a região do baixo São Francisco.
Em face da necessidade de propiciar a saúde ambiental da bacia hidrográfica,
fundamentada pelo cumprimento da lei federal 11.445/2007, que prevê a elaboração do
PMSB, o CBHSF selecionou, mediante análise de condições ambientais, alguns
municípios das 4 regiões fisiográficas da bacia, para financiar a elaboração de seus
respectivos planos (CBHSF, 2021). Dos oito municípios de foco desse estudo, onde foi
atestada a presença de possíveis fontes poluentes de lançamentos de efluentes, quatro
possuem PMSB (Figura 3).
Figura 3. Municípios alagoanos que margeiam o rio São Francisco e sua situação quanto à
existência de PMSB e possíveis pontos de lançamento.
Os Planos Municipais de Saneamento Básico são um dos principais instrumentos
políticos para a gestão ambiental municipal, além de condição para validade de contratos
de prestação de serviços e para acesso a recursos federais, segundo Pereira e Heller (2015)
impõe desafios a sua implementação seja por recursos tecnológicos, humanos ou
financeiros.
CONCLUSÃO
O lançamento de efluentes em rios, se in natura, pode impactar negativamente a
fauna e flora aquática, bem como os usos dos recursos hídricos, como abastecimento
humano, recreação, dentre outros.
Evidencia-se por meio deste trabalho que, embora expedito, há a necessidade de
um diagnóstico mais detalhado sobre o saneamento básico nos municípios inseridos na
bacia do São Francisco. Através dos registros fotográficos, atestou-se a presença de
possíveis lançamentos de efluentes in natura, sem a outorga de lançamento de efluentes
junto a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
A Lei 11.445/2007 junto a Lei 14.026/2020 desafiam aos gestores públicos a
efetivaram e implantarem metas e programas não só a melhorarem os indicadores dos
serviços de saneamento básico, mas também aumentar a qualidade de vida da população
beneficiada.
Sugere-se que na Expedição do São Francisco seja criada uma equipe específica
para atuar nesse tema, com Plano de Trabalho definido para coleta e análise de amostras
em campo e estudos com foco em relacionar essas informações ao que se é definido com
metas não só nos Planos de Saneamento Básico, mas também os Instrumentos de Gestão
de Bacia Hidrográfica. Como sugestão a equipe poderia ser composta pelos seguintes
profissionais: Engenheiro(a) Sanitarista (01), Engenheiro(a) Químico/Químico (01),
Analista de Geoprocessamento (01), Apoio Técnico (02), Representante da
ANA/Fiscalização (01).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Ministério das Cidades. Sistema Nacional de Informações sobre
Saneamento: diagnóstico dos serviços de água e esgotos. Brasília, DF, 2020.
CBHSF – COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO. Plano
de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco 2016- 2025. Belo
Horizonte:
CBHSF,
2016.
Disponível
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https://cbhsaofrancisco.org.br/documentacao/plano-de-recursos-hidricos-2016-2025/.
Acesso em: 30 jun. 2021.
CODEVASF. Mapeamento temático de uso da terra no Baixo São Francisco. 2002.
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https://cdn.agenciapeixevivo.org.br/media/2019/06/MapeamentoTem%C3%A1tico-de-Uso-da-Terra-no-Baixo-SF.pdf. Acesso em: 14 jan. 2021.
COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO (CBHSF). Planos
Municipais de Saneamento Básico (PMSB’s). 2021. Disponível em:
https://cbhsaofrancisco.org.br/acoes-e-projetos-do-cbhsf/planos-municipais-desaneamento-basico-pmsbs/. Acesso em: 18 jun. 2021.
FOLLADOR, Karine et al. Saneamento básico: meio ambiente e saúde. Revista
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GIRI, Subhasis; QIU, Zeyuan; ZHANG, Zhen. Assessing the impacts of land use on
downstream water quality using a hydrologically sensitive area concept. Journal of
Environmental Management, v. 213, 2018, p. 309-319. Disponível em: https://wwwsciencedirect.ez20.periodicos.capes.gov.br/science/article/pii/S0301479718301828.
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MACK, Leoni et al. The future depends on what we do today – Projecting Europe's
surface water quality into three different future scenarios. Science of The Total
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Acesso em: 12 dez. 2019.
NUVOLARI, Ariovaldo. O Lançamento in natura e seus impactos. In: NUVOLARI,
Ariovaldo (Coord.). Esgoto Sanitário: Coleta, Transporte, Tratamento e Reuso
Agrícola. 2. ed. São Paulo: Blucher, 2011. cap. 7, p. 189-214. ISBN 978-85-212-0568-5.
PEREIRA, Tatiana Santana Timóteo; HELLER, Léo. Planos municipais de saneamento
básico: avaliação de 18 casos brasileiros. Engenharia Sanitária e Ambiental, v. 20, p.
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ROSSI, Wilson et al. Fontes de poluição e o controle da degradação ambiental dos rios
urbanos em Salvador. Revista Interdisciplinar de Gestão Social, v. 1, n. 1, 2012.
UN-Water (org.). Executive Summary – SDG 6 Synthesis Report 2018 on Water and
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VON SPERLING, Marcos. Introdução à qualidade das águas e ao tratamento de
esgotos. 4. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. 472 p. ISBN 978-85-423-0053-6.
ZELLHUBER, Andrea; SIQUEIRA, Ruben. Rio São Francisco em descaminho:
degradação e revitalização. Cadernos do CEAS: Revista crítica de humanidades, n.
227, p. 3-24, 2016.
4
Mapeamento do turismo coletivo no Baixo São
Francisco
Tarita Schnitman1
Graduada em Administração (2002). Mestre em Geografia e Estudos Ambientais – University of Haifa,
Israel (2006). Doutorado Sanduíche – University of Melbourne, Australia (2013). Doutora em Ecologia
Aplicada – ESALQ/USP (2014)
1
RESUMO
O rio São Francisco possui grandiosa relevância para vida dos ribeirinhos que dependem
da sua saúde para colher frutos da irrigação, desenvolver suas atividades comerciais, se
alimentar dos peixes que nele habitam e também para suas atividades de lazer. Esse rio
vem demonstrando que sua capacidade de resiliência e regeneração estão sendo
gravemente afetadas devido ao ser humano e sua necessidade contínua de explorar
territórios e mover a máquina capitalista. Entretanto, este trabalho tem por objetivo
mostrar que através do turismo coletivo algumas alternativas para essa situação podem
ser estimuladas.
INTRODUÇÃO
Turismo no Baixo São Francisco
As duas primeiras Expedições do Baixo São Francisco não contaram com
pesquisa em turismo. Na terceira Expedição houve a oportunidade e foi escolhido mapear
especificamente o turismo coletivo. Tendo como princípio básico que a universidade
pública brasileira possui a função de transformação social e a busca de ferramentas e
soluções para os problemas da sociedade, não foram poucos os motivos para tal escolha.
Partindo da demanda de alternativas de renda por parte das populações locais. Também
pesquisas analisadas, observações de campo em viagem anterior ao entendimento que a
atividade turística pode utilizar a paisagem e as águas do rio São Francisco de forma
menos predatória que outras diversas atividades econômicas. Além disso, o turismo no
Baixo São Francisco pode trazer uma maior conscientização ambiental para moradores e
visitantes sobre a importância da sobrevivência dos peixes e outros seres, a manutenção
da qualidade hídrica e sustentação de vida dos ribeirinhos.
O turismo produz o desenvolvimento de relações sociais, econômicas e políticas
complexas. Um mercado composto por mercadorias, serviços, bens materiais e culturais,
natureza, todos intrinsecamente relacionados. Assim, envolvendo a atividade econômica
de meios de hospedagem, restaurantes, bares, cafés, todo tipo de transporte e sua logística.
Também apresentação artística, artesanato local, gastronomia regional, produtos de
origem, colheitas de produtos, parques, feiras, festivais, atrativos naturais e culturais. Em
2011 a atividade turística contribuiu para a geração de 255 milhões de postos de trabalhos
ou 8,7% dos empregos do mundo (MTUR, 2012). Já em 2019, o turismo gerou 330
milhões de postos (WTTC, 2019). Nesse mesmo ano no Brasil, foram 6,9 milhões de
empregos, ou seja, 7,5% do total de trabalhos gerados no país. Entre julho de 2018 a julho
de 2019, de R$ 136,7 bilhões foram gerados pela atividade turística no Brasil (MTUR,
2021). Em 2016, 10% do PIB do Estado de Alagoas adveio do turismo (IBGE, 2016).
Essas informações servem para ilustrar a importância do turismo na economia global e
brasileira. Em países como França, Estados Unidos e Espanha, a atividade turística é
direcionada por políticas públicas.
O setor é fundamental para a economia, a preservação ambiental e a geração de
postos de trabalho.
Em 1967, as Nações Unidas e o Banco Mundial promoveram o Ano Internacional
do Turismo (CRICK, apud BRITO, 2005) com o objetivo de implementar a atividade
turística nos países em desenvolvimento. Segundo Barreto (2003), na década de 1970, os
organismos internacionais de desenvolvimento identificavam que o turismo estava
destinado a salvar as economias que naquela época eram chamadas de Terceiro Mundo,
e o Brasil era uma delas. Brito (2005) argumenta que, no Brasil, esses projetos
acontecerem numa negociação entre Estado, ONU e Banco Mundial, sem os devidos
estudos de impactos ambientais e sociais.
A atividade turística dependia dos recursos naturais desses países utilizando a
propaganda: sol, praia e pessoas receptivas. As agências planejaram e financiaram
projetos de infraestrutura, sistemas de comunicação, estradas, restauração do patrimônio
histórico e construção de redes internacionais de hotéis. O plano era desenvolvimento
econômico acelerado através da atividade turística. Em muitos casos este projeto
contribuiu para a degradação ambiental e cultural das localidades aqui no Brasil,
favorecendo ainda mais as desigualdades sociais no país.
Na atualidade, o turismo especulativo e massivo dos grandes capitais ocorre em
diversas regiões do Brasil. Ele marginaliza de distintas formas a população local para
alocação de infraestrutura turística. A especulação imobiliária destrói áreas que deveriam
estar destinadas a proteção ambiental. Exemplos ocorrem em núcleos nordestinos como a
praia de Porto de Galinhas – PE. Na Bahia Trancoso, Porto Seguro e Costa de Sauípe. No
estado do Alagoas, por exemplo, trata-se de um mercado consolidado em roteiros sol e praia
que envolve grupos articulados para garantir seus interesses. A iniciativa privada e grandes
corporações também são proprietárias de empreendimentos de grande porte, meios de
transporte, resorts, cadeias de hotéis e operadoras turísticas no país. Esse eixo do turismo é
em grande medida individualista e sem critérios em relação a vida das populações locais e
a saúde dos ecossistemas. O turismo que domina todas as capitais do Brasil, cidades que
são destinos turísticos e localidades remotas encontradas em diversos estados como por
exemplo na Bahia e Amazonas.
Contudo, considera-se bastante importante que pesquisas em turismo realizadas
por universidades tenham como preocupação o desenvolvimento social. O turismo
coletivo proposto nesta pesquisa é uma alternativa aos interesses e especulações de
empreendimentos individualistas. Trata-se aqui de experiências calcadas nas
necessidades locais, de cunho social e na preservação ambiental. Sendo assim, o turismo
coletivo um eixo orientado para a inclusão social e resistência. Como exemplo, esses são
produtos produzidos e serviços realizados por pequenos empreendedores que envolvem
associações e cooperativas. Também comunidades, grupos de bairro, vendedores de uma
praça turística, feirantes e grupos de artesãos. Pressupõe-se que a população local seja
financeiramente beneficiada pela prestação serviços e venda de produtos. Assim sendo,
uma importante ferramenta para reduzir ou combater a pobreza.
O agroturismo no estado de Santa Catarina, por exemplo, se desenvolve integrado
à gestão familiar da propriedade rural ativa, sendo uma perspectiva de complementação
renda para quem vive no campo. Ele incentiva as cadeias produtivas locais através de
arranjos produtivos em torno de doces caseiros, chocolate, queijos, vinhos, hortaliças,
frutas. Os primeiros registros sobre a prática do Turismo de Base Comunitária (TBC) no
Brasil surgiram em comunidades rurais.
Neste trabalho utiliza-se o termo turismo coletivo que é entendido como gestão
participativa e formação de pequenos negócios locais. Os empreendimentos turísticos
produzem sociedade. Os equipamentos típicos do eixo do turismo coletivo são as
pousadas comunitárias, associações de artesãos, roteiros turísticos com visitação a
variadas localidades, atelieres e feiras de artesanatos. Considera-se importante o fomento
ao turismo no Brasil e políticas públicas direcionadas ao setor.
MATERIAL E MÉTODOS
O mapeamento do turismo coletivo proposto neste relatório só foi possível de ser
realizado diante da experiência prévia da pesquisadora que já havia visitado as cidades de
Penedo, Piranhas, Propriá, Piaçabuçu e cidades emissoras de turismo como Aracaju e
Maceió. A linha de pesquisa Turismo na III Expedição Científica do Baixo São Francisco
possui três etapas. A primeira etapa envolveu a coleta de dados de alguns meses anteriores
a Expedição através de pesquisas na internet, ligações telefônicas e pesquisa
bibliográfica. A região foi estudada, os pontos turísticos da região foram mapeados e
também o turismo na região e as organizações coletivas ligadas à atividade turística
existente.
A segunda etapa envolveu o trabalho de campo de algumas horas em cada
localidade durante a Expedição (Tabela 1). Em Piaçabuçu e Penedo foram dois dias de
trabalho de campo. A pesquisadora esteve realizando investigações na cidade de Piranhas
de forma autônoma uma semana anterior a Expedição.
Tabela 1 - Cronograma de Pesquisa em Turismo na Expedição Científica de 2020, com
as localidades pesquisadas.
Localidades
Tempo de trabalho
Penedo
2 dias de campo
Piranhas
1 dia de campo
Pão de Açúcar
1 tarde de campo
Traipú
1 tarde e 1 manhã
Piaçabuçu
2 dias de campo
Brejo Grande
1 dia de campo
O objetivo da pesquisa foi mapear o turismo coletivo no Baixo São Francisco. Os
objetivos específicos seguem abaixo. Catalogar as organizações coletivas ligadas à
atividade turística existentes nas cidades visitadas. Identificar serviços relacionados ao
turismo oferecidos no centro da cidade ou núcleo turístico. Localizar o centro de
informações turísticas. Dentro do curto espaço de tempo realizar conversas informais com
moradores locais.
Observar a limpeza da cidade e pontos turísticos de cada localidade. Na terceira
etapa da pesquisa houve cruzamento dos dados entre informações detectadas nas visitas
de campo, observações, conversas informais com moradores locais e as quase inexistentes
pesquisas governamentais sobre o fluxo turístico e perfil do turista das cidades
contempladas na expedição. O trabalho reúne o mapeamento do turismo coletivo nas
cidades citadas acima que fizeram parte da III Expedição do Baixo São Francisco.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Turismo coletivo
O objeto desta pesquisa é o turismo coletivo. Passeio sem pernoite é classificado
neste trabalho como excursionismo ou visitação, portanto, não é turismo. Também para
a EMBRATUR (2012) – órgão governamental regulamentador do turismo no Brasil, o
turismo: acontece em casos onde o deslocamento de pessoas ocorre por mais de 24 horas,
incluindo o pernoite.
O excursionismo/visitação no Baixo São Francisco é de grande relevância e fonte
geradora de emprego e renda. São serviços e produtos adquiridos pelo visitante de final de
semana, feriado ou período de férias que movimentam de forma importante o comércio
local. Nesta situação estão inclusos os muitos visitantes em Piaçabuçu, Penedo, Traipu, Pão
de Açúcar e Entremontes que não pernoitam. São moradores da região que visitam as
diversas cidades do Baixo São Francisco. Caso emblemático do passeio de final de semana,
passeio de barco, churrasco, peixe frito, refeição gostosa e caprichada, um bom banho de
rio e atividade de lazer. Os visitantes procuram experiências gastronômicas diversas e
atividades de entretenimento no Rio São Francisco.
O comércio local é mobilizado, empregos diretos e indiretos transcorrem. A
visitação/excursionismo usufrui da mão de obra e da infraestrutura da localidade, em
ascensão na região. Atividades de lazer envolvendo o rio São Francisco e demandas por
alimentação são muito importantes para as cidades de Traipú, Pão de Açúcar, Propriá e
Brejo Grande. Muitas pessoas da região frequentam estas localidades em busca de
experiências gastronômicas, relaxamento e contemplação da paisagem. Excursionismo
e visitação são de extrema relevância para a economia local. Pesquisas futuras sobre o
tema são fundamentais. As pesquisas são fonte importante para a gestão pública
compreender a economia da região e elaborar planos de desenvolvimento e políticas
públicas.
Cidades onde predominantemente ocorre excursionismo/visitação foram citadas
acima. Essa distinção é imprescindível por proporcionar o melhor entendimento do
objetivo da pesquisa, mapeamento do turismo coletivo. Abaixo segue a lista de cidades
que possuem potencial para o turismo coletivo ou onde experiências existentes foram
encontradas.
ILHA DO FERRO EM PÃO DE AÇÚCAR
Possui grande potencial para o turismo coletivo. O artesanato de madeira é a
principal atividade econômica desta localidade. O bordado de Boa Noite, trabalho único
no Brasil, é manufaturado por mulheres. Este povoado muito bonito com pessoas
receptivas e carismáticas. Dezenas de casas possuem artesanato. Diversos artesãos foram
visitados. Entretanto, não foi detectada uma infraestrutura completa de alimentação,
hospedagem e outros serviços da atividade turística na localidade.
PENEDO
Cidade completa em infraestrutura turística. Única cidade pesquisada onde dados
oficiais de turismo estão disponíveis. Pesquisas sobre turismo em Penedo também são de
fácil acesso. Ao longo do trabalho de campo foram observados museus, bancos, igrejas,
farmácias, supermercados, bares, restaurantes, atelieres de artistas, lojas de souvenirs,
hospital, passeios, guias, pousadas, hotéis. A cidade de Penedo-AL é uma cidade
portuária e sua história está atrelada a atividade comercial e à exploração do rio São
Francisco.
Tombada como patrimônio histórico e artístico- cultural pelo IPHAN em 1995,
agrega rico valor histórico e patrimônio arquitetônico. Uma herança da época em que o
Rio São Francisco se apresentava como rota principal para os desbravadores europeus. A
cidade prosperou até a segunda metade do século XX quando o transporte fluvial entrou
em decadência com a construção de rodovias e ferrovias em Alagoas (DIÉGUES, 2006).
Também são encontrados diversos ateliers de artistas locais que trabalham com
artesanato. O artesanato em madeira é bastante interessante e procurado por compradores
brasileiros e estrangeiros. Em Penedo, o turista percorre caminhos históricos e desfruta
da aquisição de novos saberes sobre arquitetura e história. Na sua orla, restaurantes e
quiosques valorizam a paisagem do rio São Francisco. Em Penedo é possível comer bem,
saborear os produtos locais e descansar em uma variedade de meios de hospedagem.
Entretanto, o mercado onde o artesanato local é vendido de forma coletiva não estava
aberto nos dias de atividade de campo e a pandemia impossibilitou entrevistas e conversas
com lideranças e associações. A cidade possui uma feira centenária de relação intrínseca
com o rio que apresenta alto potencial turístico.
PIRANHAS
O turismo está consolidado nesta cidade. Muitos excursionistas e turistas foram
observados na visita de campo. No centro histórico estão localizados distintos meios de
hospedagem, restaurantes, bares, sorveteria, foodtrucks, quiosques, o Museu do Cangaço,
Igrejas, diversos pontos turísticos, museu do IPHAN, o mercado de artesanato. Na parte
nova de Piranhas, observou-se bancos, meios de hospedagem e alimentação. Uma estrutura
gastronômica complexa e espaços para apresentações culturais.
Cidade charmosa de grande relevância histórica. Possui tombamento pelo o
IPHAN. Tem sua origem no século XVIII como pouso de viajantes que percorriam a
região. Desde os tempos antigos já oferecia hospedagem aos viajantes. Em 1859 foi
visitada pelo Imperador, onde hoje se encontra pontos turísticos que remetem ao período.
A cidade ganhou visibilidade com a navegação a vapor pelo rio São Francisco e a Estrada
de Ferro de Paulo Afonso que impulsionou a economia local até 1964. Uma relevância
histórica também por ser alvo das estórias do Cangaço e a extermínio do grupo de
Lampião, rei do Cangaço.
Piranhas possui beleza natural do lago da usina da hidrelétrica de Xingó, os
cânions e a paisagem encantadora do rio São Francisco. São diversos atrativos turísticos
nas margens do rio. O ponto de partida das navegações é a cidade de Piranhas. A cidade
possui forte potencial turístico tanto para empreendedorismo individual quanto para o
turismo coletivo. Destino turístico já consolidado, de grande beleza cênica e riqueza
histórica (Figura 1).
Dados sobre o fluxo turístico e infraestrutura turística não foram fornecidos pelos
órgãos públicos. Foram diversas as tentativas de obter essas informações. Cabe citar que
2020 foi ano de pandemia e também período eleitoral, situações que limitaram essa
pesquisa em turismo de forma a impossibilitar reuniões com secretários de turismo. Em
Entremontes, entretanto, houve uma reunião bastante produtiva com as bordadeiras da
Associação de Bordadeiras de Entremontes. Esta iniciativa não estava vinculada a
expedição.
Figura 1. Centro Histórico de Piranhas
O turismo coletivo de Piranhas é composto pela Associação de Bordadeiras de
Entremontes (Figuras 2A e B). Trabalho extremamente relevante e interessante.
Entremontes recebe turistas do Brasil e também do exterior. Seus moradores são bastante
receptivos e carismáticos. Entretanto, não há infraestrutura turística em Entremontes.
Tampouco não foi detectada valorização da Associação de Bordadeiras de Entremontes
na cidade de Piranhas. Conversas informais com moradores de Entremontes e Piaçabuçu
confirmam a citação.
Figura 2 - Placa (A) e Sede (B) da Associação de Bordados de Entremontes, em Piranhas, AL.
A
B
Atividades de esporte e pesca podem ser desenvolvidas no rio São Francisco.
Planejamento, gestão e publicidade necessitam dos olhares atentos da gestão pública e
políticas públicas voltadas para o turismo coletivo na região de Piranhas.
PIAÇABUÇU
Piaçabuçu oferece pequena infraestrutura ao turista, ainda de forma incipiente.
Informações de moradores locais apontam 3 pousadas em Piaçabuçu, 3 restaurantes em
Piaçabuçu. A Associação de Informantes de Turismo possui 12 membros. Dados oficiais
não foram localizados. O trabalho de campo detectou 3 pousadas, farmácias, associação
de pescadores, lojas, orla de beleza única, hospital, 3 restaurantes, muitos lugares que
servem comida caseira e prato feito, posto de combustível, 3 agências de turismo, diversas
padarias.
O equipamento hoteleiro foi visitado durante o trabalho de campo. Os meios de
hospedagem necessitam de cuidados, ampliação e reforma. Conversas informais foram
realizadas com os feirantes localizados na foz do São Francisco, moradores de Piaçabuçu
e pescadores. Durante a Expedição, dezembro de 2020, a cidade estava bastante suja e
descuidada.
A preservação e atenção com a cidade de Piaçabuçu influenciam diretamente na
proteção do rio São Francisco, suas matas ciliares, manguezais e seres que habitam uma
zona ecologicamente importante do rio São Francisco. Áreas de pesca são fundamentais
para a vida dos ribeirinhos. Dentro de tudo, a área de Proteção Ambiental de Piaçabuçu
foi criada de 1983 e protege as tartarugas marinhas e aves migratórias. São áreas alagadas,
florestas de restinga e um mosaico de espécies vegetais e animais. Outra APA também
está localizada em Piaçabuçu, a APA Marituba do Peixe, conhecida como Pantanal
Alagoano. As duas possuem a função de manutenção dos ecossistemas e proteção
ambiental.
Piaçabuçu agrega a Associação Aroeira e Cooperativa Ecoagroextrativista
Aroeira. Também a cooperativa, COOPAIBA, que produz derivados do coco e emprega
muitas pessoas do entorno. As duas cooperativas foram visitadas no trabalho de campo.
Seus produtos são vendidos na sede da Associação Areoeira e na sede da COOPAIBA.
As duas recebem visitantes e estão bem localizadas para atrair turistas.
Piaçabuçu possui grande potencial para o turismo. Sua localização está bem
próxima a foz do rio São Francisco e passeios para a foz saem dos barcos de Piaçabuçu.
A cidade localiza-se a 1 h 55 min (135,6 km) via AL-101 e 2 h 46 min (149,5 km) via
SE-335 e BR-101. A estrada conecta cidades do estado de Alagoas e também do estado
de Sergipe. Esses são dois emissores turísticos em potencial.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Turismo Coletivo e Desenvolvimento Social
A Associação Aroeira foi fundada em 2011, produz produtos comestíveis
diferenciados e regionais que valorizam a importância da preservação ambiental e social.
As experiências de beneficiamento de frutas silvestres e produtos da agrobiodiversidade
revelam o empoderamento das “Mulheres da Aroeira”. Em apenas 10 anos de criação, a
Associação já acumula diferentes iniciativas e projetos que demonstram o
comprometimento dessa organização popular na capacitação das associadas e na
qualificação da unidade de beneficiamento. Uma frente de ação da Associação está na
educação ambiental, capacitação em boas práticas de coleta e utilização dos recursos
naturais e comprometimento com ações de reflorestamento e conservação das áreas
naturais
de
produção
extrativista.
Seus
projetos
incluem
Cozinhar
com
Ecosustentabilidade, em parceria Governo do Estado de Alagoas /Seades com recursos
do Fecoep, e Mulheres: mães que alimentam em parceria com a COOPAIBA,
COOPESCA e a Colônia de Pescadores Z19 de Piaçabuçu.
O Projeto Bosque Berçário das Águas, que será implantado pelo Comitê da Bacia
Hidrográfica do Rio São Francisco e Agência Peixe Vivo. Os projetos da Aroeira incluem
do fomento de tecnologias sociais e energias limpas à geração de renda através do manejo
sustentável dos recursos naturais na região da foz do rio São Francisco. O projeto
Ecocozinha capacitou 50 mulheres para o beneficiamento artesanal de frutas e alimentos
da agrobiodiversidade da foz como pimenta rosa, cambuí, araçá do mato, gajiru, jenipapo,
jamelão, ameixa amarela, mangaba, maçaranduba, tamarindo para produção de pães
caseiros, doces, geléias, biscoitos artesanais, bolos caseiros, trufas gourmets.
Dentro desse escopo, carros de turistas e visitantes, ônibus de excursão podem
comprar souvenirs comestíveis da região com facilidade. O mesmo acontece com a
COOPAIBA que também está aberta a visitas programadas e está localizada a margem
da estrada. As duas possuem grande potencial para receber turistas. Aroeira oferta
alimentação baseada nos seus produtos e venda de souvenirs alimentícios. A COOPAIBA
vende óleo de coco no local. Seria interessante roteiros turísticos de um, dois e três dias
na região de Piaçabuçu. Um deles pode ser visita a COOPAIBA, passeio de barco até a
foz do rio São Francisco, almoço na foz, ao retornar visitar a Associação Aroeira. Este
seria um tour bastante interessante.
Ou seja, Piaçabuçu agrega associação e cooperativas que se inserem na atividade
turística como fornecedores de produtos alimentícios (bolos, geleias, doces, biscoitos,
etc.) e produtos artesanais (Figura 3). As cooperativas podem fazer parte de um roteiro
gastronômico e cultural. O turismo coletivo pode ser fonte de geração de renda para
muitas famílias da região. A riqueza paisagística do entorno, pontos naturais como dunas
e restinga, a história da cidade, a relação dos ribeirinhos com o rio, passeios por
manguezais e a foz do rio São Francisco englobam uma experiência única.
Figura 3. Produtos alimentícios processados vendidos na Associação Aroeira, em Piacabuçu, AL.
O relatório possui considerações sobre o turismo coletivo na região do Baixo São
Francisco. Ocorrências de excursionismo e visitação foram citadas. Considera-se que as
cidades onde ocorre turismo, fonte dessa pesquisa, o turismo coletivo foi encontrado em
diversos níveis em Penedo, Piaçabuçu, Piranhas e Ilha do Ferro. Importante ressaltar que
a preservação ambiental é condição básica, uma vez que a população do destino turístico
depende diretamente da paisagem bem cuidada e da natureza preservada para manutenção
da atividade turística. Os turistas procuram águas limpas e próprias para banho no Baixo
São Francisco. As atividades turísticas envolvem o rio e a sua paisagem, as orlas das
cidades visitadas são cartões postais, de alto valor turístico. Ao pensar a atividade turística
é importante lembrar-se da sua sobrevivência no tempo e a manutenção da cultura local.
O turismo quando bem planejado, favorece a economia local, preservação
ambiental e a qualidade de vida das pessoas. Considera-se que há futuros trabalhos dentro
do turismo coletivo em todas as cidades visitadas. A pesquisa em turismo coletivo por
parte das universidades envolvidas é de alta relevância. Também há espaço para o
empreendedorismo do turismo individualista em todas essas localidades. Entretanto, o
turismo coletivo é o caminho para o desenvolvimento social, a diminuição das
desigualdades e pobreza existentes na região. Este mapeamento abre caminho para
pesquisas no turismo coletivo no Baixo São Francisco e futuras ações de extensão por
parte das universidades participantes.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARRETO, M. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 9, n. 20, p. 15-29, out.
BRITO, F. Os Ecos Contraditórios do Turismo na Chapada Diamantina. Salvador: 2005.
p. 1- 416.
Conselho Mundial de Viagens e Turismo. WTTC https://wttc.org/Research/EconomicImpact ACESSADO: Janeiro de 2021 https://www.gov.br/pt-br/noticias/viagens-eturismo/2019/10/turismo-tem-faturamento-recorde-de-r-136-7-bilhoes-em-2019
Acessado em Janeiro de 2021.
DIÉGUES, M. D., Jr. (2006). O Bangüê nas Alagoas: traços da influência do sistema
econômico do engenho de açúcar na vida e na cultura regional. Maceió: Edufal.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. (2016). IBGE Cidades:
Brasil/Alagoa/Penedo. https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al/penedo/panorama
Ministério do Turismo. Governo Federal https://www.gov.br › turismo. Acessado em
janeiro de 2021.
MOLINA, E.S. Turismo y ecologia. 4th ed. México: Trillas, 1998. p. 1-86. 2003.
5
Arqueologia de ambientes aquáticos: contribuições
para a construção de uma carta arqueológica
subaquática do baixo rio São Francisco
Gilson Rambelli1, Leandro Domingues Duran1, Paulo Fernando Bava de Camargo1,
Luis Felipe Freire Dantas Santos2, Ian Ribeiro Miranda Caires3
1
Professor Adjunto do Departamento de Arqueologia (DARQ) e do Programa de Pós-Graduação em
Arqueologia (PROARQ) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Coordenador do Laboratório de
Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe (LAAA).
2
Doutor em Arqueologia pela Universidade Federal de Sergipe, pesquisador do Laboratório de
Arqueologia de Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe – LAAA/UFS.
3
Mestrando em Arqueologia pelo Programa de Pós-graduação em Arqueologia da Universidade Federal
de Sergipe.
RESUMO
O relatório objetiva apresentar os resultados da Visita Técnica a contextos arqueológicos
de ambientes aquáticos do baixo rio São Francisco, previamente identificados. As ações
ocorreram durante a 3ª Expedição Científica do Rio São Francisco, ocorrida no período
de 01 a 09 de dezembro de 2020, ocasião em que também puderam ser localizados novos
contextos arqueológicos potenciais. Adotou-se, para a pesquisa, metodologia nãointerventiva para a avaliação do potencial arqueológico e a mensuração de impactos
negativos infligidos ao Patrimônio Cultural Subaquático (PCS) da região. Localizado
tanto em zona de interface terra/ água quanto no leito do rio, o PCS do Velho Chico, rio
também chamado pelos povos originários de Opará, vem sendo estudado de acordo com
as normas nacionais de viés conservativo e protetivo, bem como em consonância com as
definições científicas internacionais determinadas pela Convenção da Unesco para
Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático de 2001. Como resultado desse
monitoramento ampliado, obtiveram-se dados que fundamentarão as etapas de pesquisa
futuras, dados esses que permitem estabelecer prioridades de ação. Ademais, novos
contextos arqueológicos potenciais foram localizados, os quais demandarão prospecções
preliminares, a serem realizadas após a obtenção de permissão de pesquisa do órgão
competente, durante nova etapa da Expedição.
INTRODUÇÃO
Este relatório tem como objetivo apresentar os resultados das ações de análise do
contexto arqueológico de ambientes aquáticos do baixo rio São Francisco, durante a 3ª
Expedição Científica do Rio São Francisco, ocorrida no período de 01 a 09 de dezembro
de 2020. Adotamos em nossa postura de pesquisa uma avaliação não-interventiva do
potencial arqueológico e a mensuração de impactos negativos infligidos ao Patrimônio
Cultural Subaquático (PCS) da região, localizado tanto em zona de interface terra/ água
quanto no leito do rio, tendo como base as definições internacionais determinadas na
Convenção da Unesco para Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático de 2001.
Falar da Arqueologia do rio São Francisco é navegar em águas profundas e ainda
pouco conhecidas, principalmente quando tratamos dos contextos localizados nas porções
aquáticas, no entanto, pensar no patrimônio desse rio nos faz refletir sobre a própria
história da Arqueologia brasileira, visto o denso histórico de pesquisas desenvolvidas na
bacia hidrográfica nas últimas décadas. O patrimônio arqueológico da bacia hidrográfica
do São Francisco acaba se cruzando em diferentes momentos com o desenvolvimento e
institucionalização da Arqueologia brasileira, exemplo foram os trabalhos iniciados em
1976 pela Missão Franco-Brasileira no estado de Minas Gerais, (PROUS; JUNQUEIRA;
MALTA, 1984). Devemos pontuar também as pesquisas arqueológicas promovidas pelos
empreendimentos hidrelétricos da CHESF, que foram responsáveis pela realização de
grandes salvamentos arqueológicos, durante a construção dos reservatórios de
Sobradinho, Itaparica e Xingó, sendo o princípio do que atualmente a Arqueologia
desenvolve profissionalmente com o licenciamento ambiental (ETCHEVARNE,1992;
MARTIN, 1998).
Tratando especificamente do contexto arqueológico do baixo rio São Francisco,
com o Salvamento Arqueológico de Xingó, iniciado em 1988 e desenvolvido em boa
parte da década de 1990, foram identificados em torno de 223 sítios arqueológicos, sítios
pré-históricos de arte rupestre e a céu aberto, nas áreas dos estados de Sergipe, Alagoas e
Bahia. Propiciando, assim, uma visibilidade a nível nacional de um passado indígena na
região (SANTOS, 2013). Contudo, somente nos últimos anos pesquisas vêm sendo
realizadas para o mapeamento do patrimônio arqueológico subaquático do baixo São
Francisco, realizadas de forma independente pelo Laboratório de Arqueologia de
Ambientes Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe – LAAA/UFS (SANTOS,
2013), e em parceria com outras instituições, a exemplo do projeto de Fiscalização
Preventiva Integrada da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (BAVA DE
CAMARGO; DURAN; RAMBELLI, 2018). As referidas pesquisas vêm nos propiciando
nos últimos anos a identificação não somente de sítios arqueológicos in situ, mas também
a localização de acervos arqueológicos gerados pela pilhagem dos contextos
subaquáticos, realizados em grande parte por indivíduos das comunidades ribeirinhas que,
por um desconhecimento da legislação patrimonial e de sua preservação, vêm
continuamente realizando a retirada dos objetos dos seus contextos de origem.
Apesar dos estudos sobre o patrimônio cultural subaquático, mesmo que de forma
incipiente, apontarem para um grande potencial arqueológico para o baixo Rio São
Francisco, que pode fundamentalmente corroborar com a construção histórica da região,
também nos faz enxergar a situação de fragilidade do patrimônio arqueológico local.
Portanto, trabalhar com esses sítios e acervos arqueológicos deve ser encarada com uma
tarefa que vá além de uma mera ilustração do passado da região, temos que torná-los
elementos para a construção de um entendimento sobre o caráter predatório destas
práticas para com o patrimônio, buscando atuar de forma conjunta com as comunidades,
tornando-as agentes da preservação do seu passado, sua cultura e seu patrimônio. O
grande problema existente no Baixo São Francisco é o total distanciamento que a pesquisa
arqueológica criou para com os grupos ribeirinhos e indígenas nas últimas décadas, diante
dessa problemática, cada vez mais é pensada uma prática científica que possa remediar
essa questão, assim:
[...] a Arqueologia do Baixo São Francisco poderia tornar-se uma chave decisiva para
se entender não apenas o passado de uma região, mas, sobretudo, para se pensar
alternativas para um futuro de integração, respeito pelas comunidades e
desenvolvimento autossustentado (FERREIRA, 2005, p.64).
Juntando esforços com a 3ª Expedição Científica do Rio São Francisco, buscouse em nossa primeira participação no projeto, através da adoção de uma postura
interdisciplinar com as outras áreas do conhecimento envolvidas, a possibilidade de
ampliação do conhecimento existente sobre os sítios arqueológicos parcialmente ou
totalmente submersos, para que em um futuro próximo, em edições subsequentes do
projeto, seja possível utilizarmos dos dados gerados para o desenvolvimento de um
profícuo trabalho na região, que possa atuar de forma integrativa com as comunidades
locais, possibilitando a construção de uma carta arqueológica subaquática para a região,
uma importante ferramenta de gestão do patrimônio cultural subaquático.
1.1. Introduzindo conceitos e definições
Apesar das divergências conceituais que afligem a Arqueologia de ambientes
aquáticos – subdisciplina dedicada ao estudo dos registros arqueológicos inseridos em
ambientes úmidos, como também os reflexos sociais intrínsecos aos contextos marítimos
e fluviais – ela ainda carrega o estigma de ser um ramo do mergulho, no entanto, as
diferenças impostas pelo ambiente aquático não a descaracterizam como sendo outra
disciplina (BASS, 1969; RAMBELLI, 2002, 2003, 2007, 2008, 2009a, 2009b). Assim,
enquanto uma área do conhecimento integrada às ciências sociais, estamos passíveis à
agregação de diversas teorias sociais, enfrentando as mesmas discussões epistemológicas
que abrangem outras subáreas da Arqueologia. Em vista disso, devemos deixar claro,
constantemente, a inexistência de parâmetros que distinguem essa versão “úmida” do
restante da disciplina Arqueologia.
O uso do termo Arqueologia de ambientes aquáticos, adotado por esta pesquisa, é
uma escolha que, dentro das discussões conceituais deste fazer arqueológico torna-se o
mais abrangente e flexível. Portanto, partilhamos uma postura que se preocupa com a
garantia de uma base sólida e complacente de discussão, que contribua para o
fortalecimento de um corpo conceitual básico, mas que vise não estabelecer linhas
estanques de discussão, sendo assim, não traria limitações ao processo de construção do
pensamento arqueológico, possibilitando uma “melhor compreensão das formas de
interação entre os diferentes ambientes aquáticos e as inúmeras sociedades humanas ao
longo do tempo e do espaço” (DURAN, 2008, p.76). Assim, podemos reafirmar que,
independentemente do ambiente no qual está inserido o sítio arqueológico, o que
estudamos é uma ciência social que encontra sua sustentação teórica na própria teoria
social (SHANKS & TILLEY, 1987; ACUTO & ZARANKIN, 1999; RAMBELLI, 2003,
2006).
Ao estudar a dinâmica da vida social e a produção cultural de indivíduos e
sociedades passadas (SHANKS & TILLEY, 1987; ACUTO & ZARANKIN, 1999;
ZARANKIN, 2002), o arqueólogo se posiciona como agente social em busca de
mudanças sociais, transformando a realidade (MCGUIRE & NAVARRETE, 1999). Ele
procura através da teoria construir uma práxis da Arqueologia que acarrete conhecer,
criticar e transformar o mundo (MCGUIRE, 1999). Essa posição leva em conta a
existência de atores sociais em contextos historicamente determinados por relações
dialéticas econômicas e políticas, que supõe que o arqueólogo, como agente social,
também produz um conhecimento condicionado pelo contexto sócio-histórico de
produção, que é capaz de reverter-se sobre a realidade para transformá-la. Principalmente,
se mantivermos uma posição crítica, frente à realidade, como diante do nosso próprio
conhecimento (MCGUIRE & NAVARRETE, 1999).
Essa perspectiva na prática arqueológica sugere uma posição mais ativa do
pesquisador, pois ele assume o papel de mediador entre os restos de um passado que não
existe mais, e o seu presente. Logo, a sua interpretação do passado, enquanto produção
do conhecimento, não só é subjetiva, carregada de intencionalidade, como varia como
toda interpretação de pesquisador para pesquisador, de tempos em tempos, em um fluxo
contínuo de transformações e mudanças (ACUTO & ZARANKIN, 1999, p.7). É
impossível desentranhar a pesquisa dos interesses sociais contemporâneos (FUNARI,
1998; 2007).
A aceitação dessa concepção de realidade subjetiva, e não mais da realidade
objetiva, deve-se à constatação de que não existe a verdade no passado, pois ela está
localizada no presente, como resultado de uma construção cultural de um determinado
momento, politicamente orientado (FUNARI, 1998, p.7). Assim, a Arqueologia pode e
deve ouvir, através da análise e interpretação da cultura material, as vozes caladas ou
pouco pronunciadas das pessoas comuns em seus cotidianos, dos oprimidos, enfim dos
excluídos do processo elitista de construção da História oficial. Tal privilégio de acesso
às ações e aos conflitos sociais passados, representados, consciente e/ou
inconscientemente, pelos mais diferentes indivíduos de uma sociedade, através da cultura
material, lhe garante o título da mais democrática das ciências sociais (FUNARI, 1998;
1999; 2007; RAMBELLI, 2003; 2006).
Desta forma, podemos ressaltar que os arqueólogos estão muitíssimos conscientes
de que a História é escrita pelos vencedores e que os grupos subalternos podem usar o
passado arqueológico para sustentar, cientificamente, suas reivindicações, escrevendo a
História da dominação e da resistência (FUNARI, 2007).
Uma vez apresentadas as bases teóricas segundo as quais estamos considerando a
ciência arqueológica, e o respectivo papel do arqueólogo na sociedade. Devemos reafirmar
que o principal objetivo do presente projeto é a confecção da Carta Arqueológica
Subaquática para o Baixo Rio São Francisco como uma ferramenta para sensibilizar a
sociedade como um todo, através da Arqueologia de ambientes aquáticos, sobre a
importância dessa cultura material, no caso o patrimônio cultural subaquático, para o
entendimento de nossa diversidade cultural.
A Carta Arqueológica Subaquática servirá como um mecanismo para se conhecer
e garantir a proteção e gestão do patrimônio cultural subaquático de Sergipe. Representa
o primeiro passo para o estabelecimento de uma política de proteção e gestão do
patrimônio arqueológico, pois não é possível gerenciar o que se desconhece
(SCATAMACCHIA & RAMBELLI, 2001). Logo, quando nos referimos à necessidade
da confecção de uma Carta Arqueológica específica sobre o patrimônio cultural
subaquático, não estamos inventando nada de novo. Trata-se de uma tendência da
Arqueologia contemporânea preocupar-se com o inventário dos sítios arqueológicos. É
necessário lembrar, que nos últimos 30 anos foram vários os documentos internacionais
que recomendaram, entre outros aspectos, a necessidade de se conhecer o potencial
patrimonial de cada país, a fim de se poder definir as medidas adequadas para sua
proteção (PUJANTE, 2001).
A sistematização das informações pertinentes a esse patrimônio, através de uma
Carta Arqueológica Subaquática, permite um melhor dimensionamento desses bens
culturais na área de trabalho voltada ao ambiente cultural marítimo, e, também aos
ambientes culturais: fluvial e lacustre; e ajuda na definição de estratégias, de curto e/ou
longo prazo, para o conhecimento aprofundado, para a proteção e para a gestão dos
mesmos. Devemos ressaltar que os programas de Carta Arqueológica são considerados
hoje em dia, em todo o mundo, sistemas de base imprescindíveis para a gestão nesta área
do patrimônio, tanto no plano científico, como no administrativo ou operacional (ALVES,
2001, p.1).
Esses planos se interagem e podem ser compreendidos da seguinte forma: o plano
científico é o inventário que integra a análise exaustiva do sítio e de seu contexto; o
administrativo é o que tem uma orientação meramente protecionista; e o operacional, é o
que inicialmente apresenta um conteúdo superficial, mas posteriormente serve de base ao
científico (FERNÁNDEZ-POSSE-DE & ÁLVARO, 1993; PUJANTE, 2001).
Podemos afirmar que a Carta Arqueológica cumpre os objetivos, como programar
futuras ações arqueológicas, atendendo a critérios de prioridades; contribuir para uma
visão global do conjunto patrimonial, proporcionando as bases para uma investigação
planejada; e principalmente, permitir, através de sua difusão, uma aproximação da
comunidade ao potencial patrimonial regional e/ou nacional. (PUJANTE, 2001).
A importância dos inventários vem sendo contemplada desde a Carta de Paris da
UNESCO, de 1972, e os artigos 29, 30 e 31 já chamavam a atenção dos Estados Membros
para a necessidade de se inventariar, através de documentação e mapas, o máximo
possível, para que poder garantir a proteção dos mesmos. Hoje, a Convenção da UNESCO
para Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático, de 2001, mantém a preocupação de
30 anos e continua incentivando os inventários. Há apenas um ponto de discordância entre
a proposta da Carta Arqueológica Subaquática do Baixo São Francisco, com esta
Convenção da UNESCO de 2001. O Projeto não se restringe ao limite de 100 anos
estabelecido na Convenção para o reconhecimento do patrimônio cultural subaquático,
pois acreditamos que todos os testemunhos de atividades humanas que deixaram vestígios
merecem atenção. Essa linha arbitrária do tempo desconsideraria sítios arqueológicos
preciosismos para a História das dinâmicas náuticas sanfranciscanas, a exemplo dos
remanescentes de canoas de toldas e outras embarcações naufragadas no século XX.
É importante ressaltar, que o tema Carta Arqueológica evoluiu de tal modo devido
a sua importância para as sociedades, que o conceito inventário, hoje, está diretamente
relacionado com a proteção do patrimônio. Pelo menos, esta é a ideia que se mantém
constante em todos os fóruns de debates sobre o assunto, que reúnem especialistas do
mundo (PUJANTE, 2001; RAMBELLI, 2003, 2009).
Hoje o discurso de proteção ao patrimônio arqueológico entre os arqueólogos é
cada vez mais comum no mundo. É quase unânime a posição de que a responsabilidade
do arqueólogo deve ir além da pesquisa, pois ele deve também exercer um papel social
de divulgador e gerenciador do patrimônio arqueológico ampliando o seu campo de
atuação (SCATAMACCHIA & RAMBELLI, 2001, p.116).
Logo, nesse caso, o desenvolvimento da Carta Arqueológica Subaquática
específica para os bens culturais submersos dentro de um projeto de Arqueologia,
pretende contribuir enquanto proposta de aplicação concreta, como um modelo regional,
que possa colaborar futuramente para a realização de um Inventário Nacional do
Patrimônio Cultural Subaquático (RAMBELLI, 2003; 2009).
Mas, cabe chamar atenção, que a ideia de um inventário dos bens culturais
subaquáticos e relacionados aos temas náuticos não representa nenhuma novidade no
cenário nacional. No final da década de 1980, uma proposta de inventário foi sugerida
por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia, por meio do projeto
ARCHENAVE: Centro de Estudos de Arqueologia, História e Etnografia Naval ao
IPHAN. Uma iniciativa que, embora apresentasse uma preocupação bastante interessante
com esta temática no projeto, acabou não se concretizando de fato (AGOSTINHO, 19881989; RAMBELLI, 1998; 2002; 2006; 2007).
É válido destacar que o presente projeto é um desmembramento de um programa
de amplitude maior: a Carta Arqueológica Subaquática de Sergipe: Inventário
Sistemático do Patrimônio Cultural Subaquático, pois pensar em elaborar um
programa que proporcione a gestão e proteção do patrimônio cultural subaquático, no rio
São Francisco, é também colaborar com a concretização do projeto de pesquisa Carta
Arqueológica Subaquática de Sergipe: Inventário Sistemático do Patrimônio
Cultural Subaquático, vinculado ao Laboratório de Arqueologia de Ambientes
Aquáticos da Universidade Federal de Sergipe, possibilitando, deste modo, o
levantamento e inventário do patrimônio cultural subaquático em todo o território
sergipano, servindo como um mecanismo de conhecimento e gestão, bem como dando
voz, através do estudo arqueológico, a um “rico” passado pouco conhecido.
O Projeto acredita que a Arqueologia não pode esquecer da comunicação, levando
em conta que o conhecimento produzido sobre o passado não é privilégio de um pequeno
círculo intelectual, mas que deve ser dividido com toda a população. Assim, os vestígios
arqueológicos têm urgência de passarem do estágio de relato técnico para o significado
de ações que envolvem os atores sociais que as produziram. Isto só pode ser feito com
uma arqueologia interpretativa que ultrapasse o nível descritivo (SCATAMACCHIA &
RAMBELLI, 2001).
Existe uma lacuna muito grande entre o patrimônio arqueológico e as
comunidades. Quando se enfatiza o patrimônio cultural subaquático então, a distância
fica ainda maior. Preocupados com isso, o presente Projeto acredita que a Arqueologia
deve reconstituir e explicar o processo de ocupação que se deu na região, buscando
esclarecer a herança cultural recebida. Mostrando que ela deve ser usada e usufruída pelas
comunidades atuais, mas com o compromisso obrigatório de transmissão para as gerações
futuras (SCATAMACCHIA & RAMBELLI, 2001).
E isso só é possível através do envolvimento direto das pesquisas com o público.
Assim, ao pensarmos no uso social do patrimônio cultural subaquático, que desperta não
só interesse, mas também identidades com as comunidades, pretendemos, com a
participação direta dos alunos engajados ao Projeto, levar as pessoas visitar os sítios da
região, diretamente embaixo d’água, desenvolvendo programas de turismo monitorado e
de gestão do patrimônio cultural subaquático; e para os que não mergulham, programas
de visitação virtual dos sítios, tridimensional.
A criação desses programas monitorados de turismo cultural subaquático
corresponde a uma tendência internacional que permeia, tanto a educação patrimonial,
como a gestão e proteção do mesmo; onde o patrimônio deve ser repensado como um
elemento chave para a sustentabilidade (CAMERON & NOELLE, 2001).
O ponto de partida é o desenvolvimento da Carta Arqueológica Subaquática,
porque só a partir dela se pode fazer o gerenciamento desse patrimônio, avaliando o
estado de conservação do mesmo e os impactos que pode absorver sem danificá-lo, e
desta forma monitorar esse processo de visitação e uso social.
Pontando, aproveitando do aporte interdisciplinar da Expedição Científica do Rio São
Francisco, buscamos somar esforços na consolidação da Carta Arqueológica Subaquática,
para que nos próximos anos, toda essa gama de conhecimentos produzidos sobre esses
bens culturais, possam ser integrados pelas comunidades assentadas às margens do rio.
METODOLOGIA
Por nos encontrarmos ainda em um momento inicial de integração de esforços
com o projeto da Expedição Científica do Rio São Francisco, buscamos a adoção de uma
estratégia de trabalho que ao mesmo tempo em que servisse para um direcionamento das
possibilidades de trabalho a longo prazo com a iniciativa científica, pudesse gerar novos
dados e entendimentos sobre os contextos locais.
Antes de tudo, é muito importante entendermos que o principal pilar para o êxito
em uma pesquisa arqueológica subaquática é o planejamento. Por conta disso, o nosso
principal objetivo na 3ª Expedição, foi obter um entendimento das dinâmicas de pesquisa
da iniciativa científica, para um melhor aproveitamento das potencialidades existentes,
corroborando com o desenvolvimento do projeto de Carta Arqueológica Subaquática para
região, sem perder de vista as peculiaridades que influem nas investigações subaquáticas,
principalmente considerando que será uma parceria científica a longo prazo.
A principal consideração de qualquer projeto de Arqueologia, primeiramente,
deve ser a saúde e a segurança de seu pessoal. Com isso em mente, vale ressaltar que o
objetivo da Arqueologia de campo é o(a) arqueólogo(a)-mergulhador(a) e não o
mergulho, o mergulho é simplesmente um meio de começar a trabalhar. Portanto,
qualquer sistema de mergulho deve permitir o desenvolvimento da atividade com
segurança e com um trabalho arqueológico em um padrão aceitável. Um sistema de
mergulho que requer atenção constante do mergulhador apenas para se manter seguro não
é aceitável e por isso devemos buscar paliativos, a exemplo do emprego de tecnologias
que minimizem a exposição do profissional. Portanto, todo coordenador de projetos de
Arqueologia de ambientes aquáticos precisa ter um entendimento completo dos
problemas arqueológicos e de mergulho (NAUTICAL ARCHAEOLOGY SOCIETY,
2009).
Para definirmos um sistema apropriado de pesquisa, devemos considerar uma
série de fatores, como:
• Condições ambientais do local - incluindo acessibilidade, visibilidade, profundidade,
resistência das marés e temperatura;
• Tipo de trabalho a ser realizado - a escavação deve normalmente ser considerada um
trabalho mais árduo que o levantamento, e é aconselhável usar um sistema de
comunicação mergulhador para mergulhador ou mergulhador para a superfície;
• Tamanho do sítio arqueológico - isso terá um impacto na maneira como os
mergulhadores entram e saem da água, além de influenciar o método de recuperação de
equipamentos ou achados. Além disso, a aptidão de recuperar um mergulhador
incapacitado é essencial;
• Experiência e qualificações dos pesquisadores/mergulhadores - alguns locais são
investigados usando um sistema de mergulho comercial, mas qualificações ou
experiências específicas de mergulho científico são essenciais;
Levando em consideração todos os pontos levantados, buscamos em nossa
primeira participação na iniciativa, compreender o contexto para um pleno
desenvolvimento da pesquisa nas expedições subsequentes. Logo, optamos por uma
abordagem de pesquisa pautada na integração com outras frentes de pesquisa, já
desenvolvidas na expedição, e quando possível a realização de inspeções subaquáticas,
sem qualquer medida de intervenção ou coleta de vestígios, para atualização do
conhecimento sobre a conservação dos contextos arqueológicos já conhecidos.
Nesse sentido, buscando o aproveitamento das potencialidades da expedição e
visando a geração de novos dados para a Carta Arqueológica Subaquática, atuamos
conjuntamente a equipe de levantamento geofísico (batimetria e sonar de varredura
lateral), coordenada pelo pesquisador Gilberto Schwertner, com a utilização do sensor
Starfish 450®, para assim auxiliar na seleção das áreas que poderiam ser levantadas
acusticamente (prática já desenvolvida em edições anteriores), para que assim os dados
pudessem também ser aproveitados em benefício a uma ampliação do conhecimento
arqueológico local.
A partir da análise da grande carga de dados geradas, buscou-se a identificação de
potenciais pontos (anomalias geofísicas), elementos que devido suas características
morfológicas não podem ser considerados como elementos de origem natural.
Posteriormente, os referidos pontos poderão ser verificados nas próximas expedições,
com as devidas autorizações de pesquisa, possibilitando a ampliação do número de sítios
arqueológicos subaquáticos para a região. Ao mesmo tempo, sugerimos o levantamento
geofísico nas áreas dos sítios arqueológicos já conhecidos, para um maior
dimensionamento desses contextos, economizando com isso, através do uso das referidas
tecnologias, uma grande carga de trabalho de investigação direta com a utilização de
mergulho científico.
A prospecção indireta por métodos geofísicos é amplamente aceita pela
comunidade arqueológica e é considerado atualmente como um instrumental básico na
pesquisa arqueológica subaquática, sendo citado pela bibliografia especializada tanto no
âmbito internacional quanto nacional (ARNOLD III & CLAUSEN, 1975; EDGERTON,
1976; BASS, 1988; MAZEL, 1988; ESPANHA, 1988; DELGADO, 1997; NAUTICAL
ARCHAEOLOGY SOCIETY, 2009; RAMBELLI, 1998, 2002, 2003; BAVA DE
CAMARGO, 2002; GREEN, 2004; SOUZA, 2006; DURAN, 2008).
Devemos ainda ressaltar que a utilização de equipamentos geofísicos significa
uma grande economia de tempo nas desgastantes tarefas a serem realizadas embaixo
d'água (MAZEL, 1988:15). Em comparação com os métodos diretos de investigação,
essas técnicas apresentam pelo menos outras duas grandes vantagens; o fato de não serem
afetadas pelas condições de baixa visibilidade que muitas vezes dominam as áreas de
pesquisa e o fato de possibilitarem a formação de uma visão mais completa da totalidade
do espaço investigado.
Com os dados obtidos através do trabalho conjunto com as outras áreas do
conhecimento que integram a Expedição Científica, buscaremos com o nosso trabalho a
construção de uma Carta Arqueológica Subaquática do Baixo Rio São Francisco, um
programa que proporcione a gestão e proteção do patrimônio cultural subaquático, dando
voz, através do estudo arqueológico, a um “rico” passado pouco conhecido e as
comunidades que convivem com esses patrimônios.
É preciso ressaltar, constantemente, que um programa de carta arqueológica,
como o pretendido com essa pesquisa, “significa o primeiro passo para o estabelecimento
de uma política de proteção e gestão do patrimônio arqueológico, pois não é possível
gerenciar o que se desconhece” (SCATAMACCHIA & RAMBELLI, 2001, p.116 apud
RAMBELLI, 2003). Para assim acabarmos com o descaso do qual sofre o patrimônio
cultural subaquático brasileiro, pois quando distanciados do nosso campo de visão,
acabamos negligenciando com frequência a sua preservação.
Enxergamos na Carta Arqueológica Subaquática para Baixo rio São Francisco,
não apenas uma mera ferramenta de contribuições científicas, mas também como um
instrumento político, capaz de gerar mudanças na estrutura da sociedade brasileira,
conFigurando a maneira como a sociedade civil e o Estado se relacionam com o
patrimônio. Para concretizar essa ação faz-se necessário o estabelecimento de estratégias
de trabalho iniciadas já na atual fase de pesquisa. Portanto, optamos por iniciar com um
estudo de valoração dos sítios arqueológicos de ambientes aquáticos já conhecidos,
trabalho que poderá ser atualizado a cada expedição com a identificação e registro de
novos contextos arqueológicos, por hora focamos nos sítios arqueológicos já conhecidos
e registrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
A - Valoração do Patrimônio Cultural Subaquático do Baixo São Francisco
A lei n°. 7542, de 26/09/1986 (BRASIL, 1986), que trata da exploração de bens
afundados não é um instrumento bem ajustado para tratar das questões inerentes à
Arqueologia subaquática e gerir o Patrimônio Cultural Subaquático (PCS). Entretanto,
houve o desenvolvimento de boas práticas interinstitucionais (Marinha/ IPHAN) na
última década, uma vez que as duas instituições, a partir do momento em que dispuseram
de quadros funcionais conscientes da importância desse patrimônio, fizeram valer a
portaria interministerial (MinC/ MM) nº. 69, de 23/01/1989, criando sinergia para a
proteção do PCS.
A despeito disso, os bens arqueológicos que jazem no leito dos cursos d’água sob
jurisdição brasileira ainda estão ameaçados em função da insegurança jurídica dos
instrumentos legais nacionais (BAVA-DE-CAMARGO, 2015). Soma-se a isso o fato de
que o Brasil não é signatário nem da Convenção da UNESCO para a Proteção do
Patrimônio Cultural Subaquático, nem de seu anexo, que são os instrumentos que
direcionam as ações de salvaguarda do PCS em termos mundiais. A Convenção da
UNESCO é um detalhamento importante da Convenção das Nações Unidas sobre o
Direito do Mar (UNCLOS), concluída em Montego Bay, Jamaica, em 10 de dezembro de
1982. E muito embora o Brasil não tenha assinado a Convenção da UNESCO, ele é
signatário da UNCLOS, colocada em vigor pelo decreto-lei nº. 1530, de 22/06/1995
(BRASIL, 1995), o que demonstra certa incoerência e ausência de pensamento
estratégico.
Abrange também o âmbito científico, transcendendo o plano exclusivamente
jurídico, o fato de que, sem mecanismos legais fundamentais, ajustados para a realidade
brasileira em consonância com as perspectivas mundiais das melhores práticas de gestão
do PCS, não podem ser elaboradas leis e normas nacionais bem ajustadas às situações
comuns verificadas durante pesquisas de Arqueologia subaquática. Exemplo disso é a
própria lei nº. 7542/86 (BRASIL, 1986), a qual tem importantes determinações para a
ordenação da recuperação de bens soçobrados, mas é demasiado simples, permissiva e
ultrapassada para lidar com os bens de interesse arqueológico, fato agravado pelas
alterações feitas pela lei 10.166, de 27 de dezembro de 2000 (BRASIL, 2000), as quais
viabilizam as transações comerciais de bens provenientes de sítios arqueológicos de
naufrágio. E sem leis e normas voltadas para a gestão do PCS, torna-se necessário recorrer
às balizas utilizadas em países culturalmente próximos ao Brasil, que formularam aparato
legal fundamentado na Convenção da UNESCO.
Afirma-se que o problema não é somente relativo às leis e normativas brasileiras,
mas vinculado também à falta de continuidade de políticas públicas que elaborem
instrumentos legais para uma atuação ampla e completa na resolução dos problemas
inerentes ao PCS que jaz nas águas brasileiras. Assim, ao cabo de tão somente quatorze
anos passou-se de uma lei restritiva que estabelecia parâmetros universalistas e públicos
para a gestão do PCS (7542/86), para uma lei que buscou se alinhar com práticas
privatistas e economicistas (10166/00) que acabou por transformar a lei 7542/86 em uma
perversa ferramenta de valorização financeira do PCS ao invés de estabelecer as regras
para o usufruto universal e sustentável do valor cultural dos bens soçobrados. Problema
semelhante e de vital importância para este relatório é encontrado em outra ferramenta
legal brasileira: no decreto-lei nº. 25, de 30 de novembro de 1937, que organiza a proteção
do patrimônio histórico e artístico nacional. Apesar de ser uma lei bastante avançada para
a época, não houve uma continuidade em transformar alguns critérios amplos em
conceitos objetivos para a gestão do patrimônio cultural. Tratando aqui especificamente
daquilo que é importante para este contexto, observa-se que o artigo 1º, ressalta que:
Constitue [sic] o patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e
imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interêsse [sic] público, quer por
sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor
arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico (BRASIL, 1937).
No entanto, 84 anos depois, a ideia de “valor arqueológico” necessitaria
explicação mais densa e ponderada, no sentido de consolidar parâmetros para a valoração
dos bens arqueológicos, que é diferente da valorização dos bens arqueológicos. Ou seja,
faltam ser estabelecidos os critérios não para a determinação do que é arqueológico ou
não (uma construção que depende da subjetividade para qualificar a cultura material),
mas para a comparação do grau de importância que as demandas sociais atribuem aos
diferentes bens arqueológicos e as prioridades em termos de gestão (pesquisa,
conservação, proteção, visitação, dentre outros). E na ausência desses critérios, a
Arqueologia tem se aproveitado dos instrumentos comumente usados no licenciamento
ambiental, os quais não são adequados para esse fim.
A proposta aqui colocada é a de trabalhar com critérios estabelecidos por outros
países, principalmente Portugal, que é signatário da já mencionada Convenção da
UNESCO e que possui grande afinidade cultural com o Brasil, por motivos mais ou
menos óbvios.Note-se que isso não significa curvar-se à legislação estrangeira para
enfrentar problemas nacionais: utiliza-se, aqui, o exemplo de outros países como um
balizador para a criação de parâmetros científicos para a valoração do PCS, os quais são
indicativos e não compulsórios.
Para isso, vai-se utilizar de critérios de valoração cultural adotados em Portugal,
os quais são inspirados na lei nº. 107, de 08/09/2001, que estabelece as bases da política
e do regime de proteção e valorização do patrimônio cultural (PORTUGAL, 2001). O uso
dessa metodologia não normativa para a valoração do PCS produz bons resultados
(BAVA-DE-CAMARGO; FRAGA, 2021, p. 51-62, com referências anteriores), que
permitem estabelecer prioridades de pesquisa a partir da comparação de critérios
mensuráveis.
B - Critérios de Importância
Alguns dos parâmetros constantes no nº. 3 do artigo 2 da lei 107/01 (PORTUGAL,
2001) são: memória, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade –
antiguidade é critério que diminui a importância do patrimônio contemporâneo e
autenticidade se adequa mais às obras de arte. Além desses parâmetros, usam-se outros,
apresentados no artigo 17 da supramencionada lei (PORTUGAL, 2001).
A partir disso, criou-se um sistema de valoração patrimonial simples e objetivo, o
qual possibilita apontar prioridades de gestão, conservação, proteção e pesquisa.
C - Valoração Patrimonial: critérios de Bem Cultural
Ø Memória – mensura a memória coletiva das populações envoltórias e a importância
que elas atribuem ao bem cultural material;
Ø Originalidade – mensura a importância do bem cultural material em relação ao estado
da arte do conhecimento histórico e arqueológico;
Ø Raridade – mensura a importância do bem cultural material em relação a outros bens
culturais materiais similares;
Ø Singularidade – mensura as eventuais qualidades únicas/ especiais do bem cultural
material em relação a outros bens culturais materiais de mesma tipologia;
Valores de 1 a 5 para cada um dos critérios foram atribuídos, mostrados no
quadro abaixo (Quadro 1).
Quadro 1: Valores para os critérios de avaliação
Valor
Memoria (M)
Originalidade (O)
Raridade
(R)
Bastante
comum
Singularidade (S)
1
Desconhecida/
desvalorizada
Pouco significante
2
Valor local
Banal
Comum
Apresenta variantes
3
Valor regional
De acordo com a
época
Avanço
Incomum
Variantes
significativas
Inovação dentro do
sistema
4
Valor nacional
Raro
Igual aos restantes
5
Valor mundial;
Avanço
Único
Grande significado
significativo ou
para a comunidade/
extraordinário
sociedade
Fonte: Adaptado de (BAVA-DE-CAMARGO; FRAGA, 2021, p. 51-62)
Completa
reformulação
D - Valoração Patrimonial: critérios de Importância Científica
A importância científica de um contexto arqueológico é estabelecida a partir de
três critérios. Ordem de importância, conservação e avanço científico.
Ø Ordem de importância – o grau de importância histórica e arqueológica de um bem. A
referência se baseia em modelo difundido no campo da Arqueologia Marítima (BABITS;
TILBURG, 1998; MANDERS; TILBURG, 2012; GREGORY; MANDERS, 2015).
Dividiu-se a importância em cinco níveis (Quadro 2).
Quadro 2: Classificação do patrimônio
Primeira Ordem:
a. Estejam associados a eventos históricos de importância nacional
Patrimônio da Humanidade –
ou internacional;
sítios arqueológicos ou outros
b. Contenham um registo arqueológico único que não exista em
elementos que:
nenhum lugar;
c. Contenham informações históricas ou arqueológicas essenciais
para um entendimento da evolução humana.
Segunda Ordem:
a. Estejam associados a eventos históricos de importância regional;
Patrimônio Regional – sítios
b. Contenham um registo arqueológico que contribua de forma
arqueológicos ou outros
significativa para o enriquecimento da informação arqueológica;
elementos que:
c. Contenham informações históricas ou arqueológicas que possam
dar grande contribuição ao entendimento da evolução humana.
Terceira Ordem:
a. Estejam associados a eventos históricos de importância local;
Patrimônio Local – sítios
b. Representem uma das várias fontes de informação arqueológica;
arqueológicos ou outros
c. Contenham informações históricas ou arqueológicas que
elementos que:
contribuam para o nosso entendimento da evolução humana.
Quarta Ordem:
a. Tenham uma associação com eventos do passado;
Patrimônio geral – sítios
b. Contenham alguma informação arqueológica sobre circunstâncias
arqueológicos ou outros
relacionadas com a atividade humana;
elementos que:
c. Preservem informações históricas ou arqueológicas que se
encontrem reproduzidas e estudadas em outros sítios arqueológicos.
Quinta Ordem:
Embora não apresentem informação arqueológica importante,
Patrimônio educacional – sítios
merecem ser salvaguardados para fins científicos e/ou educacionais.
arqueológicos ou outros
elementos que:
Fonte: Adaptado de (BAVA-DE-CAMARGO; FRAGA, 2021, p. 52)
Ø Conservação – leva em conta a integridade do bem arqueológico, de acordo com a
experiência do pesquisador e seguindo a premissa de que o bem arqueológico se originou
a partir de um bem de uso social, ou seja, que apesar do processo de formação do sítio
arqueológico, um fragmento de utensílio cerâmico estará mais conservado na medida em
que representar mais fielmente o objeto original;
Ø Avanço Científico – reflete a análise da equipe de Arqueologia sobre a contribuição
que o estudo, gestão e preservação do bem arqueológico poderia proporcionar à
comunidade científica.
Os critérios acima são quantificados tal como se observa no quadro abaixo
(Quadro 3).
Quadro 3: Critérios de avaliação qualitativa da importância científica e sua expressão
Quantitativa
Valor
Ordem (O)
Conservação (C)
Avanço Científico
(A)
1
Quinta
Mau
Baixo
2
Quarta
Regular
Médio
3
Terça
Bom
Alto
4
Segunda
Risco potencial
Inovador
5
Primeira
Risco confirmado
Transformador
Fonte: Adaptado de (BAVA-DE-CAMARGO; FRAGA, 2021, p. 51-62)
RESULTADOS PRELIMINARES
O trabalho feito em conjunto com a equipe de levantamento geofísico (topologia) foi
iniciado no município de Piranhas-AL e seguiu até a foz do rio São Francisco. Para
melhor se adaptar a dinâmica da expedição, optamos por adequar nossa estratégia de
trabalho de investigação indireta seguindo dois critérios principais: priorizando áreas
arqueologicamente já conhecidas; e avaliando áreas que teriam um maior potencial de
abrigar vestígios náuticos, devido suas características paisagísticas.
O sonar de varredura lateral (Starfish 450®) é um equipamento fixado em uma
embarcação e emite um feixe lateral de ondas acústicas, a partir de uma frequência de 450
kHz, produzindo uma imagem do fundo, cujo resultado final em muito se assemelha a
uma fotografia aérea. Logo, visando não comprometer o cronograma da expedição, nas
áreas onde não haviam referências de contextos arqueológicos conhecidos, o
levantamento focou na produção de um levantamento contínuo, enquanto realizava-se o
deslocamento até o próximo ponto de parada, assim, para um melhor aproveitamento da
pesquisa, selecionamos os pontos de passagem, com o referido sonar, utilizando como
base a análise das paisagens culturais das margens do rio.
Essa análise em parte era feita de forma planejada, através das análises de imagens
de satélite, definiu-se quais locais tiveram historicamente uma maior atividade portuária,
com o mapeamento de antigas estradas e povoados de maior porte. Dessa maneira nossa
navegação era feita usando com base essas referências, o que nos possibilitou o
mapeamento geofísico tanto de partes das margens sergipanas, como das margens
alagoanas. Outros indícios, que muitas vezes eram identificados durante a navegação,
nos ajudavam na definição das áreas de levantamento acústico, a exemplo de pontos nas
margens com a presença de edificações históricas, como antigas capelas e áreas que ainda
hoje apresentam uma dinâmica portuária, a exemplo de locais de fundeio de embarcações
ribeirinhas. Caso observa-se durante o levantamento a existência de anomalias geofísicas
potenciais, buscou-se uma ampliação do levantamento na área, caso contrário, seguíamos
com a navegação.
Já nas áreas arqueologicamente conhecidas, a dinâmica de trabalho com o
levantamento funcionava de forma distinta, primeiro realizamos uma pré-seleção dos
contextos, focando somente naqueles que por suas características estruturais, seriam
passíveis de leitura com o método geofísico, especificamente os sítios de embarcações
naufragadas.
Os sítios arqueológicos depositários, geralmente localizados em áreas portuárias
edificadas ou em portos naturais (áreas abrigadas), que foram utilizadas para o fundeio
de embarcações e transbordo de pessoas e mercadorias, acolhem vestígios materiais
móveis de pequeno porte resultantes das atividades rotineiras das comunidades fluviais,
descartados voluntariamente ou perdido durante o período de ocupação humana da
paisagem local. Por serem formados por pequenos objetos a sua identificação somente é
possível através da observação arqueológica direta, com utilização de mergulho.
Portanto, o sonar de varredura lateral foi empregado com uma maior ênfase nas
áreas com estruturas de embarcações naufragadas, visto a sua leitura gerar dados
extremamente interessantes e informativos para a investigação arqueológica subaquática.
Assim sendo, com o auxílio de um aparelho GPS orientamos a nossa navegação
objetivando visitar essas áreas, e, consequentemente, realizar o levantamento geofísico
com uma maior ênfase, com o estabelecimento de linhas de aquisição longitudinais à
margem, espaçadas em 10-20 metros ou conforme as condições de navegabilidade.
Como resultado do levantamento indireto realizado entre os dias 01 a 09 de
dezembro de 2020 foram obtidos 424 arquivos de log do software StarFish Scanline®
(.LOGDOC), todos convertidos em arquivo eXtended Triton Format (.XTF), resultando
em mais de 5GB de dados. Os arquivos originais e os arquivos convertidos estão
disponíveis em diretório em nuvem: https://bit.ly/dados_starfish450 .
Tabela 1: Relação dos sítios arqueológicos subaquáticos conhecidos levantados com Sonar de
Varredura Lateral (Datum Sirgas 2000, zona 24 L).
Sítios Arqueológicos
X
Y
Naufrágio Canoa do Sítio Cruz
647489
8928834
Canoa Caiçara/Xokó
678492
8917929
Naufrágio Canoa de Propriá
737751
8870431
Lancha Moxotó
660504
8922592
Naufrágio de Neópolis
765732
8858525
Diante da grande quantidade de dados gerada pela pesquisa, realizamos a análise
de parte dos registros sonográficos. No processo de análise desconsideramos as feições
geomorfológicas observadas pelo sonar de varredura lateral, que são atribuídas a formas
naturais de ocorrência, como rochas e depósitos arenosos, que, consequentemente, neste
momento não corroboram com os objetivos da pesquisa. Atendendo o nosso critério de
análise, buscamos como principais alvos as feições geométricas, de alto contraste de
impedância acústica, formas não reconhecíveis e/ou objetos de origem antrópica, cabendo
a avaliação do seu potencial arqueológico, através de investigação direta com utilização
de arqueólogos-mergulhadores, na próxima expedição científica.
Segue abaixo a relação das anomalias geofísicas identificadas (Tabela 2) e para
ilustrar algumas das anomalias identificadas com sonar de varredura lateral (Starfish
450®), que acreditamos ser possivelmente de origem antrópica, apresentamos algumas
das imagens obtidas (Figura 1, 2 e 3).
Até o presente momento da pesquisa, foram levantados 19 pontos de anomalia que
serão investigados na próxima expedição científica. Contudo, os dados gerados
possibilitaram ainda o apontamento de muitos outros pontos, logo, encaramos esse
trabalho de análise como uma prática contínua em nossa investigação arqueológica,
oportunizando nas próximas edições novas demandas de vistorias subaquáticas,
alimentando perenemente o banco de dados da Carta Arqueológica Subaquático do Baixo
Rio São Francisco.
Tabela 2: Relação das anomalias geofísicas identificadas pelo Sonar de Varredura Lateral (Datum Sirgas
2000, zona 24 L).
Identificação
X
Y
Arquivo (.LOGDOC)
A1
A2
A3
A4
A5
A6
A7
A8
A9
A10
A11
A12
A13
A14
A15
A16
A17
A19
678867
678937
678714
678882
679627
709838
715669
715789
670764
671521
672391
674949
675107
675933
676568
720553
720622
723052
Figura 1: Anomalia geofísica A2.
Figura 2: Anomalia geofísica A3.
8917892
8917972
8917939
8917862
8917629
8898241
8895099
8895255
8921630
8921209
8920680
8918814
8918624
8918501
8918452
8896598
8896595
8894900
060820
060820
063104
063104
063104
092104
101645
104448
050856
050856
050856
054812
054812
054812
054812
085852
085852
090900
Figura 3: Anomalia geofísica A9.
Em relação ao levantamento acústico nas áreas dos sítios arqueológicos
subaquáticos, os dados ainda não apontaram elementos substanciais para um processo e
construção de registros espaciais detalhados sobre os sítios, cabendo em ações futuras a
realização de ações de registro arqueológicos subaquáticos, por meio de técnicas de
planimetria e outras que sejam pertinentes. Também será oportuno o levantamento anual
com sonar de varredura lateral dos contextos arqueológicos, pois esses dados serão
extremamente importantes para o estudo de conservação dos sítios diante as intensas
dinâmicas do Rio São Francisco.
Mapa 1: Distribuição dos pontos de anomalia geofísica no curso do rio.
Mapa 2: Distribuição dos pontos de anomalia geofísica no trecho Pão de Açúcar-Poço Redondo.
Mapa 3: Distribuição dos pontos de anomalia geofísica no trecho Traipu-Gararu.
Além da investigação indireta com o sonar de varredura lateral, realizamos a
investigação direta não-interventiva, com o emprego de técnicas de mergulho científico,
de antigas áreas portuárias, a exemplo do Porto de Piranhas, Porto de Bonsucesso, Porto
de Propriá e o Porto de Piaçabuçu, sendo esse último um ponto que ainda não havia sido
investigado por pesquisas anteriores. Apesar dos nossos esforços não foi possível avança
muito com a investigação devido ao fluxo do rio, que estava alto no período da pesquisa,
gerando intensas correntezas.
Nosso principal objetivo na investigação de áreas portuárias era a reavaliação dos
contextos outrora identificados (BAVA DE CAMARGO; DURAN; RAMBELLI, 2018),
objetivando a coleta de dados para o desenvolvimento de nossa proposta de estudo
preliminar de potencial e vulnerabilidades. No entanto, durante esse processo, como no
caso de Propriá, novos contextos arqueológicos foram identificados, a exemplo dos
remanescentes estruturais de uma canoa de tolda no Porto de Propriá (24 L 737594
8870544). Já o Porto de Piaçabuçu (24 L 780765 8848359), um dos pontos de parada da
expedição, foi um novo contexto arqueológico depositário identificado por nossa
pesquisa, ampliando o quantitativo de antigas áreas portuárias do baixo rio São Francisco
que poderão ser registradas como sítios arqueológicos históricos.
Figura 4: Arqueólogo realizando a investigação direta do sítio arqueológico depositário Porto de
Piranhas.
Figura 5: Arqueólogo realizando registro arqueológico de um fragmento de faiança fina do sítio
arqueológico depositário Porto de Bonsucesso.
Figura 6: Arqueólogo realizando a identificação de uma estrutura de canoa de tolda nas margens
do Porto de Propriá.
Figura 7: Estrutura da proa de uma canoa de tolda nas margens do Porto de Propriá.
Figura 8: Arqueólogo realizando registro arqueológico de um fragmento de faiança fina do sítio
arqueológico depositário Porto de Piaçabuçu.
Aproveitando o cronograma dos pontos de parada da expedição, também tivemos
a grata surpresa de identificar dois contextos arqueológicos de ocupação histórica costeira
na Foz do rio São Francisco (24 L 785274 8840676 & 24 L 785511 8840898), na margem
alagoana, no município de Piaçabuçu, implantados na área de dunas. São dois contextos
de ocupação histórica com uma grande presença de material cerâmico, faianças finas,
vidros e outros materiais. Todos os novos contextos arqueológicos identificados foram
delimitados com GPS, contudo, caberá na próxima expedição a realização de mais
registros que venham a reforça o registro dos sítios no Cadastro Nacional de Sítios
Arqueológicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
Figura 9: Arqueólogo realizando registro arqueológico de fragmentos cerâmicos localizados nas
dunas da Foz do São Francisco.
Todos esses elementos identificados reforçam a necessidade de estudos contínuos
para o Rio São Francisco, a 3ª Expedição Científica possibilitou o levantamento inicial
de dados que fundamenta esse projeto de gestão de um patrimônio regional.
3.1. Resultado da Valoração: Cálculo do Valor Patrimonial
O valor patrimonial (VP) resulta de fórmula simples: VP = (M+O+R+S+O+C+A)
/ 7. Aplicando esses critérios aos remanescentes arqueológicos abordados nesta pesquisa,
obtêm-se resultado expresso de forma sucinta logo abaixo (Tabela 3).
Tabela 3: Valoração do Patrimônio Cultural Subaquático registrado no CNSA/IPHAN.
Denominação
M
O
R
S
O
C
A
VALOR
Canoa do Sítio Cruz
3
3
2
2
3
2
3
2,571
Naufrágio Caiçara/ Xokó
3
3
2
2
3
2
3
2,571
Canoa de Propriá
3
3
2
2
3
2
3
2,571
Vestígios de Canoa na Fazenda Jundiahy
3
3
2
2
3
1
1
2,143
Lancha Moxotó
4
3
3
3
4
3
3
3,286
Naufrágio de Neópolis
5
3
4
3
5
3
4
3,857
De maneira geral, a valoração do PCS atingiu números medianos a altos, tendo
em vista que o máximo seria 5 (Gráfico 1).
Gráfico 1: Valoração do Patrimônio Cultural Subaquático registrado no CNSA/IPHAN.
Valoração dos contextos arqueológicos
1900ral
1900ral
1900ral
1900ral
1900ral
1900ral
M
O
R
S
O
C
A
Canoa do Sítio Cruz
Naufrágio Caiçara/ Xokó
Canoa de Propriá
Vestígios de Canoa na Fazenda Jundiahy
Lancha Moxotó
Naufrágio de Neópolis
Esses valores servem para indicar prioridades em termos de gestão, preservação e
pesquisa e não para hierarquizar a importância dos sítios arqueológicos (Gráfico 2).
Gráfico 2: Valor final do Patrimônio Cultural Subaquático registrado no CNSA/IPHAN.
VALOR
1900ral
1900ral
1900ral
1900ral
1900ral
1900ral
1900ral
1900ral
1900ral
1900ral
Canoa do
Naufrágio
Canoa de
Sítio Cruz Caiçara/ Xokó Propriá
Vestígios de
Canoa na
Fazenda
Jundiahy
Lancha
Moxotó
Naufrágio de
Neópolis
Mapa 4: Localização dos sítios arqueológicos registrados e valorados.
Mapa 5: Localização dos sítios arqueológicos registrados e valorados.
Tem-se, então, três panoramas que podem guiar as próximas ações a serem
desenvolvidas: o Naufrágio de Neópolis desponta como absolutamente prioritário,
seguido de perto pela lancha Moxotó; depois vem o conjunto de três canoas de tolda, que
em função de seu estado de conservação e de sua relativa grande incidência no leito do
rio São Francisco, apresentam uma prioridade gerencial mediana; e a canoa da fazenda
Jundiahy seria a última da lista, em função de seu estado de conservação, exiguidade dos
vestígios e por estar em propriedade privada. Evidentemente essa valoração modifica-se
com o decorrer dos anos, a evolução do conhecimento e das demandas sociais.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Como dito anteriormente no presente relatório, por nos encontrarmos no momento
inicial de integração de esforços com o projeto da Expedição Científica do Rio São
Francisco, buscou-se a adoção de uma estratégia de trabalho que ao mesmo tempo em
que servisse para um direcionamento das possibilidades de trabalho a longo prazo com a
iniciativa científica, enxergasse horizontes de possibilidades para a construção de um
profícuo cenário patrimonial para a região.
Atualmente, a Expedição Científica do Rio São Francisco vem se conFigurando
em uns dos projetos científicos práticos de maior relevância em nosso país, visto o seu
caráter multidisciplinar e a sua ampla abrangência. Tendo isso mente, entendemos que a
Arqueologia de ambientes aquáticos ao mesmo tempo em que se beneficia dessas
idiossincrasias, propiciando a produção de um conhecimento ainda inédito para a região,
como
apresentado
aqui,
extremamente
rica
patrimonialmente,
possibilita
a
instrumentalização de políticas de gestão e uso social do Patrimônio Cultural
Subaquático, que beneficiem diretamente as comunidades locais.
O baixo rio São Francisco possui um relevante contexto histórico e arqueológico
a ser trabalhado. Por isso, torna-se necessário elaborarmos uma metodologia que
possibilite não só o estudo dos sítios arqueológicos, mas também propicie o resgate de
memórias e a inclusão de vozes que, até então, foram ignoradas e excluídas do processo
de construção do passado. A relevância da elaboração de projetos como o da Carta
Arqueológica Subaquática surge da fragilidade ainda existente no que concerne à
preservação dos vestígios arqueológicos do Baixo Rio São Francisco, localizados
parcialmente ou totalmente submersos, e da postura equivocada que, muitas vezes, é
empregada no sentido de resgatar esses vestígios, sendo muito comum na região a
pilhagem dos referidos contextos arqueológicos subaquáticos.
Temos sempre que deixar claro que o patrimônio arqueológico não é propriedade
dos arqueólogos, nem de indivíduos por mais perspicazes e bem equipados que sejam,
nem de departamentos e museus, ou de outras instituições que têm o melhor suporte
financeiro ou tecnológico. Como qualquer outro setor do patrimônio de uma nação, o
arqueológico pertence a todos e está submetido ao controle estatal, pois é somente o
Estado, na representação de todos os seus habitantes que deve, através da
instrumentalização legal e institucional adequada, regular o estudo do mesmo, garantir
sobre todas as coisas sua proteção e a sociabilização da informação produzida pelas
investigações e a consideração das comunidades vinculadas, de alguma maneira aos sítios
arqueológicos (ARDUENGO GARCÍA, 2009).
Portanto, é somente com a realização de uma iniciativa preocupada com essas
condições de integração com grupos locais que poderemos criar um terreno propício para
a conFiguração dos instrumentos políticos que auxiliem na gestão desse patrimônio.
Assim, a realização de pesquisas arqueológicas subaquáticas com essa postura
social/política consciente não só enquadra a Arqueologia regional dentro das perspectivas
internacionais como também representará o primeiro passo para concretização de uma
experiência desse porte no país, tendo em vista que onde a pesquisa arqueológica
subaquática permite a incorporação de múltiplos personagens e múltiplas interpretações.
Atualmente, um dos maiores desafios da Arqueologia contemporânea é o de
dialogar as práticas científicas com os vários contextos sociais onde elas se realizam.
Cada vez mais arqueólogos consideram que o papel da ciência arqueológica não é apenas
o de estudar, reconstruir ou interpretar o passado, mas o de perguntar-se para que e a
quem serve esse conhecimento produzido (NOREÑA CORDONA e PALACIO
SALDARRIAGA, 2007).
Mas, para que a socialização do conhecimento seja possível é fundamental o
dimensionamento dos bens culturais localizados na paisagem sanfranciscana.
Acreditamos que ao somarmos os esforços, a partir da participação da 3ª Expedição
Científica do Rio São Francisco, conseguiremos atingir esse objetivo. Muito mais que
resultados alcançados, o que nos propomos com o presente relatório, foi o de mostrar os
caminhos que foram abertos e que, consequentemente, nortearão os próximos passos para
a pesquisa na região. Na atual fase, buscou-se obter um entendimento das dinâmicas de
pesquisa da iniciativa científica, para um melhor aproveitamento das potencialidades
existentes, que podem corroborar com o desenvolvimento da Arqueologia. Apesar de por
hora termos tido uma maior integração com a equipe de levantamento geofísico
(topologia), cabe reforçar que no processo de construção do conhecimento arqueológico,
muitos outros dados, que são gerados por outras equipes (diferentes especialidades) da
expedição, auxiliarão também na ampliação da nossa produção de conhecimentos sobre
os contextos arqueológicos subaquáticos.
Em relação as escolhas das nossas posturas de pesquisa para as próximas edições,
levando em consideração a intensa mobilidade do projeto no curso do rio, o que não nos
possibilita estacionarmos muito tempo em um mesmo ponto, focaremos na prospecção e
identificação de novos sítios arqueológicos e a sua integração na Carta Arqueológica
proposta. Isso não significa que no futuro não poderemos forcar na investigação
individual de sítios arqueológicos, com a implementação de escavações arqueológicas e
outras técnicas de aprofundamento e registro do patrimônio, que demanda um maior
tempo para serem desenvolvidas.
Entendemos que para essa fase embrionária do projeto, podemos alcançar mais
dados e, consequentemente, obter mais ganhos científicos pensando em levantamentos
mais amplos, aumentando nossas possibilidades futuras de investir maior tempo nos
contextos que possam trazer um maior benefício local. Portanto, pensando nas ações de
curto prazo a serem implantadas na 4ª Expedição Científica do Rio São Francisco (2021),
buscaremos desenvolver, respaldados nas devidas autorizações de pesquisa, as inspeções
subaquáticas das anomalias geofísicas, através da aplicação de técnicas de prospecção
direta com utilização do mergulho, bem como realizar o aprofundamento dos contextos
identificados na atual fase de pesquisa (2020), a fim de realizar o seus registros no
Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos. A partir do momento que novos sítios serão
registrados, continuaremos realizando os estudos de valoração do patrimônio,
possibilitando a definição das estratégias mais adequadas de gestão para cada bem
cultural.
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6
Diagnóstico microbiológico e da qualidade de água
nas margens dos municípios ribeirinhos do Baixo
São Francisco
Vivian Costa Vasconcelos¹, Anita Neves Santisteban 2, Lucas de Oliveira Arruda², Emilly
Valentim de Souza2, Themis Jesus Silva3, Maraísa Bezerra de Jesus Feitosa³, Emerson
Carlos Soares4
1
Mestre em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA),
Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas
(UFAL)
2
Graduandos em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA),
Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas
(UFAL)
³ Bióloga, Doutora em Ciências da Saúde, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água
(LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal
de Alagoas (UFAL).
4
Professor Doutor, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de
Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
RESUMO
A investigação das condições da qualidade de água e microbiológicas, por meio da análise
dos coliformes e microrganismos bioindicadores de possível presença de patógenos,
ajuda compreender a real situação do lançamento de efluentes domésticos e a qualidade
do ambiente. O presente trabalho objetivou analisar os níveis de coliformes totais,
Escherichia coli e qualidade de água, a montante e jusante de dez pontos entre os
municípios de Piranhas- AL e Piaçabuçu-AL (trecho de 240 km), situados no Baixo São
Francisco em 2020. A exemplo do ocorrido nos anos de 2018 e 2019, foi observado
contaminação em todos os pontos de coleta, com significante incremento destes, nas
regiões de Penedo/AL e Piaçabuçu/AL (>8 NMP/100 mL). Baseado, nos 3 anos de coleta,
percebe-se a necessidade urgente de implantar sistemas de tratamentos de efluentes,
esgotamento sanitário e educação ambiental em todos os municípios ribeirinhos
estudados, com intuito de melhorar a saúde dos ecossistemas aquáticos e da população.
Palavras-chave: Saneamento, bioindicadores, Rio São Francisco, saúde pública.
INTRODUÇÃO
O acesso a água potável não é uma realidade para milhões de pessoas no mundo, a
medida que 2,6 bilhões de habitantes não possuem acesso a saneamento básico,
aproximadamente 80% das doenças detectadas em países subdesenvolvidos são
disseminadas através da água contaminada, segundo a Organização Mundial de Saúde
(OMS). A cada ano cinco milhões de pessoas, dois milhões destas são crianças entre 0 a
5 anos, vão a óbito pela falta ou deficiência de saneamento básico (ANDRAUS, 2006).
Em 2010, cerca de 884 milhões de pessoas no mundo não possuía acesso à água potável,
ao monitorar durante cinco anos, os resultados permaneceram inalterados, isto mostra a
necessidade do acesso a benefícios, como aplicação de recursos sanitários pela população
(UNICEF, 2015).
A bacia hidrográfica do rio São Francisco possui uma extensão de 2.863 km 2, tem
sua nascente situada em Minas Gerais, na Serra da Canastra e deságua no Oceano
Atlântico, entre os estados Alagoas e Sergipe. É dividida, em quatro regiões geográficas,
sendo elas: Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco, percorre 505 municípios, em
seis estados, sendo eles Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe,
além do Distrito Federal. Englobando todas essas regiões, possui uma população
ribeirinha de aproximadamente 15 milhões de habitantes (CBHSF, 2014). Esse é um
importante recurso hídrico, sendo essencial para a vida, sua condição de potabilidade
reflete diretamente na saúde e economia por onde passa (ANA, 2019).
Sua população ribeirinha corresponde aproximadamente 15 milhões de habitantes,
desses, 54% se localiza na região do semiárido, aonde há períodos críticos de estiagem e,
além disso, essa bacia possui os reservatórios de Três Marias (Minas Gerais), Sobradinho,
Paulo Afonso e Itaparica na Bahia, e Xingó (entre Alagoas e Sergipe), o que causa uma
diminuição ainda mais significante no volume do rio. Por essa modulação, há quase oito
anos, o rio vem sofrendo com a média das baixas vazões, em decorrências do
armazenamento nos reservatórios. Além da pressão do sistema hidroelétrico, é crescente
a demanda do uso de suas águas para os mais diversos fins, gerando uma preocupação
constante nas estratégias de conservação e utilização das águas (CBHSF, 2014)
Segundo Lustosa et al., (2008) e Cruz et al., (2015), no Baixo São Francisco, há
elevação das atividades agrícolas e turísticas que são condicionados a boa qualidade
ambiental do rio São Francisco, porém são muitos os impactos negativos em toda a sua
extensão, entre os quais destacamos o desmatamento de suas margens, a poluição e as
grandes hidrelétricas, e introdução espécies invasoras.
O rio apresenta um enorme potencial e garante fornecimento de energia elétrica
para diversas regiões, com isso existe a necessidade de conciliar os diversos usos da água
bem como a manutenção da qualidade da mesma para a sobrevivência dos organismos
aquáticos que ali vivem. Com isso, faz-se necessário medidas para o controle da vazão de
água e geração de energia. Atualmente existem instaladas 3 hidrelétricas no Rio São
Francisco, a de Três Marias em Minas Gerais, Sobradinho em Paulo Afonso e Itaparica
na Bahia e Xingó, entre os estados de Alagoas e Sergipe, esse recurso está passando por
situações hidrológicas de vazões e precipitações baixas desde 2013, decorrente dos
volumes de água armazenada nos reservatórios instalados (CBHSF, 2014). O que causa
grande preocupação para a população ribeirinha do Baixo São Francisco, impactada
diretamente por tal situação.
Os ambientes aquáticos sem saneamento são diagnosticados como poluídos e
alterados ecologicamente, os organismos e os seres humanos são prejudicados direta ou
indiretamente, quer seja sua vida ou bem-estar, com danos aos recursos naturais, como a
água e o solo, além de prejudicar as atividades econômicas como a pesca e a agricultura
(NASS, 2002). As atividades antrópicas causam a má qualidade da água, quando as
descargas de efluentes domésticos, industriais, agrícola, carga difusa urbana, são lançados
in natura, se tornam os responsáveis pela poluição desses recursos hídricos (ALVES et
al., 2008).
Os indicadores microbiológicos específicos da água são estudados através de
análises e biomonitoramento, os mais comuns pesquisados pertencem a família
Enterobacteriaceae (MATTOS & SILVA, 2002). Para estudos limnológicos, os
coliformes fecais proveniente de fezes de animais, que se multiplicam com maior
frequência na água, atraem grande atenção da saúde pública, pois estão diretamente
relacionados a várias patologias e são responsáveis pela causa da maioria das doenças
intestinais infecciosas em humanos (ANDRADE, 2008; NASCIMENTO & ARAÚJO,
2013).
Segundo Illi et al. (2003), a análise dos coliformes em ambientes aquáticos,
fornecem informações confiáveis para avaliação dos aspectos sanitários. Estes agem
como indicadores de poluição fecal, pois são presentes no trato intestinal de animais que
eliminam ampla quantidade nas fezes.
Coliforme total é um grupo que inclui bactérias Gram-negativas na forma de
bastonetes, não esporogênicas, aeróbias ou aeróbias facultativas, capazes de fermentar a
lactose com produção de gás, em 24 a 48 horas a 35 o C. Esse grupo inclui as cepas de
Enterobacter e Klebsiella de origem não fecal, e os gêneros, Escherichia, Enterobacter e
Klebsiella, que habitam no trato gastrintestinal, sendo a Escherichia coli indicadora de
contaminação fecal (SILVA, 1997).
Dentre as legislações do Ministério da Saúde que rege a potabilidade de água e
abastecimento, destacam-se a de nº 1.469, de 29 de dezembro de 2000, que fundamenta
responsabilidades do controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano,
determina os níveis de patógenos de acordo com número de amostras em virtude do
número de habitantes e a de nº 2.914 de 12 de dezembro de 2011, que determina a
qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade, ambas as portarias
determinam a ausência de coliformes e E. coli em 100 mL das amostras analisadas.
De acordo com o Diário Oficial da União (2021), que dispõe a portaria de número
GM/MS Nº 888, de 4 de maio de 2021, do ministério da Saúde, essa se aplica em regiões
que possua acima de 20.000 habitantes e dispõe metodologias de coleta e controle da
qualidade da água para consumo humano, que devem ser realizadas na saída dos
tratamentos, sistema de distribuição e pontos de consumo e determina como padrão de
potabilidade ausência de coliformes e E. coli em 100 mL ou em 95% das amostras
analisadas mensalmente, (BRASIL, 2005). Ainda, de acordo com o Ministério da Saúde,
por meio de sua portaria de n° 518/2004, a ausência total de coliformes totais e E. coli na
água, reflete em padrões adequados de potabilidade para consumo humano.
Assim, o presente trabalho teve como objetivo realizar análises microbiológicas de
coliformes totais e E. coli, além do nível de poluição em dez pontos situados ao longo do
Baixo São Francisco durante a III Expedição Cientifica realizada em 2020.
METODOLOGIA
Coleta
As coletas foram realizadas durante a III Edição da Expedição Científica do Baixo
São Francisco, durante o período de 30 de novembro a 10 de dezembro de 2020. As
amostras foram coletadas a montante e a jusante de diversos municípios situados ao longo
do Baixo São Francisco, sendo eles: Piranhas-AL (PI), Pão de Açúcar/AL (PA), Traipu-AL
(TR), Porto real do Colégio/AL (PR), Igreja Nova/AL (IN), Penedo/AL (PE),
Piaçabuçu/AL (PU), Foz do São Francisco e o município de Brejo Grande/SE (BG).
As amostras foram coletadas e acondicionadas em recipientes estéreis, com volume
de 250 mL e posteriormente armazenado em refrigerador em temperatura de 8°C. As
análises foram realizadas no Laboratório de Aquicultura e Análises de Água LAQUA
(CECA-UFAL).
In loco foram analisados alguns parâmetros físico-químicos (pH, oxigênio
dissolvido, temperatura, salinidade, turbidez, potássio, nitrito, amônia, sulfato, fósforo,
ORP e TDS) com auxílio de uma sonda multiparamétrica – HANNA (HI9328) e
fotômetro HANNA (HI3399) (Figura 1) e comprovados em laboratório por
espectrofotometria da marca Merck.
Figura 1: Passos metodológicos da coleta e análise da água. (A) Parâmetros aferidos in
loco Utilização da sonda multiparamétrica. (B) Amostras armazenadas em refrigeração a
8°C. (C) Análises dos parâmetros limnológicos através de fotômetro.
Teste dos tubos múltiplos
Para as análises de coliformes totais e E. coli foi utilizada a técnica do substrato
enzimático ou método do substrato cromogênico AQUATESTE COLI®–ONPG MUG,
registrado na ANVISA sob o número 100.970.10.149, esse é um teste de
presença/ausência, que é adotado pela praticidade de manuseio, baixo custo benefício,
confiabilidade e precisão, além, do rápido tempo de resposta, em função da determinação
simultânea de coliformes totais e E. coli, não havendo necessidade de outros ensaios
confirmativos. Esse método é fundamentado nas atividades enzimáticas específicas dos
coliformes e E. coli, faz uso de ONPG (orto-nitro-fenolgalactopiranosideo) e MUG
(umbeliferol-glucuronidase), dois nutrientes utilizados como fonte de carbono e
metabolizados pelos coliformes totais através da enzima β-galactosidase e para E. coli
pela enzima β-glucuronidase.
Esta técnica determina ausência e presença, e ocorre pela mudança de cor na
amostra após o período de incubação entre 18 a 24horas, a 35ºC em estufa bacteriológica.
Se a cor amarela é observada, significa que coliformes totais estão presentes, se a
fluorescência de cor azul/esverdeada é observada sob luz ultravioleta (UV) em
comprimento de onda de 365 nm (Figura 2), os resultados para E. coli serão positivos, e
expressos como resultados quantitativos baseando-se na Tabela de Número Mais
Provável (NMP) (Tabela 01). As Tabelas para obtenção do NMP de coliformes são
baseadas na aplicação da distribuição de Poisson e correspondem a uma estimativa
estatística de concentração.
Figura 2: Esquema do método de substrato enzimático específico AQUATESTE COLI®–
ONPG MUG para coliformes totais e E. coli, análise realizada utilizando 100 mL da
amostra, divididas em cinco tubos de ensaio de 20mL. Fonte: Vivian Costa Vasconcelos.
Tabela 1: Número mais provável (NMP) para 5 porções de 20 mL, com volume total da
amostra de 100 mL.
Para determinação de E. coli a enzima ß-glucuronidase metaboliza o 4-methylumbelipheril--D-glucuronide (MUG), esta enzima hidrolisa o substrato emitindo
fluorescência sob luz ultravioleta (UV).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foi possível observar a presença de coliformes totais, em todos os pontos de coleta,
com valores acima do limite indicado pela resolução CONAMA n.357, de 17 de maio de
2005. Os resultados das análises microbiológicas, em todos os pontos amostrados,
indicaram a presença de coliformes e E. coli, fora dos padrões estabelecidos pela
legislação vigente (Tabela 02). Foi possível observar in loco problemas vários pontos de
lançamento de efluentes in natura, com despejo de esgoto domésticos e sem tratamento
em vários pontos as margens dos municípios ribeirinhos ao rio São Francisco. Nossos
achados foram semelhantes aos de Rodrigues et al. (2009), que exibiram condições
higiênico-sanitárias insatisfatórias em ambientes aquáticos com derramamento de esgoto
doméstico ou presença de animais próximo às margens dos rios estudados.
Os municípios de Piranhas e Traipu apresentaram níveis de coliformes e E. coli
acima de 8 NMP (Número Mais Provável). Uma das explicações mais plausíveis, pode
estar relacionada com a maior retenção de água, e consequentemente, de nutrientes,
compostos químicos e esgotos domésticos, proporcionada pela usina hidrelétrica de
Xingó, durante os meses de seca. E, logo em seguida, com a primeiras liberações de vazão
durante os meses de outubro e novembro (período úmido e de chuvas a montante de
Xingó), libera em grandes quantidades estes compostos e substâncias, interferindo na
ciclagem de nutrientes e ciclos biogeoquímicos, não dando tempo para os microorganismos e biota aquática, assimilarem estas moléculas. Adicionalmente, as próprias
cidades produzem sua cota de poluentes, acarretando numa saturação do sistema.
Tabela 2: Número mais provável (NMP) encontrado nos locais de coleta: Piranhas,
Traipu, Pão de Açúcar, Igreja Nova, Porto Real do Colégio, Propriá, Penedo, Piaçabuçu,
Foz do São Francisco Brejo Grande.
TABELA NMP (Número mais provável)
Pontos de coleta
Direção
Piranhas/AL
Montante
Piranhas/AL
Jusante
Piranhas/AL
1 km de Piranhas
Traipú/AL
Montante
Traipú/AL
Jusante
Pão de açúcar/AL
Montante
Pão de açúcar/AL
Jusante
Igreja Nova/AL
Montante
Igreja Nova/AL
Jusante
Porto Real do Colégio/AL
Montante
Porto Real do Colégio/AL
Jusante
Propriá/SE
1 Km de Propriá
Penedo/AL
Montante
Penedo/AL
Jusante
Piaçabuçu/AL
Montante
Piaçabuçu/AL
Jusante
Foz/AL
Montante
Foz/AL
Jusante
Brejo Grande/SE
Montante
Brejo Grande/SE
Jusante
Tubos positivos em 100 mL
Coliformes totais e Escherichia Coli
4
4
5
5
4
3
3
5
5
2
2
4
5
5
5
4
0
3
3
4
Número mais provável NMP
NMP/100mL
8
8
>8
>8
8
4,6
4,6
>8
>8
2,6
2,6
8
>8
>8
>8
8
< 1,1
4,6
4,6
8
Os municípios de Pão de Açúcar e Porto Real do Colégio apresentaram os menores
valores de NMP (2,6 NMP/100mL). Uma das hipóteses é que possivelmente, com a
diluição destes efluentes ao longo da calha do rio, e assimilação pela biota aquática, os
coliformes restantes, são oriundos do próprio município (Tabela 2). Contudo, outros
fatores podem estar correlacionados, tais como; menor aporte de efluentes lançados no
rio por estas cidades, geomorfologia da região, que pode favorecer maior dispersão, etc,
portanto, mais estudos necessitam ser realizados para correlacionar estes fatores.
Os municípios de Penedo e Piaçabuçu, mais próximos do estuário, apresentaram
níveis altos de contaminação por coliformes (>8 NMP/100mL). As justificativas para
explicar tais dados devem-se a barreira geoquímica do estuário, que influencia a
hidrodinâmica da região, pela maior quantidade de pontos de lançamentos de efluentes
encontrados nestes dois municípios, possuírem maior adensamento populacional e pela
geomorfologia da região.
Figura 3: Coliformes totais e E. coli presentes nas amostras de Traipu/AL, os cinco tubos
de ensaio, apresentando fluorescência de cor azul/esverdeada sob luz ultravioleta (UV)
em comprimento de onda de 365nm, os resultados quantitativos baseia-se na Tabela de
Número Mais Provável (NMP). Fonte: Vivian Costa Vasconcelos.
As altas concentrações de coliformes totais e E. coli encontradas em Piranhas,
Traipu, Penedo e Piaçabuçu em 2019 (vazão média de 1.500 m3/s), permaneceram altas
em 2020, mesmo com vazão superior (2.600 m3/s), em relação ao ano anterior (Figura 4).
Estes dados justificam a importância urgente de saneamento básico e tratamento dos
efluentes devido a saturação do ecossistema, proporcionado por grandes diminuições de
vazões e acúmulo de nutrientes no sedimento e na coluna da água (Tabela 3).
Os resultados da análise de variância, entre índices de coliformes e vazão, indicaram
diferenças significativas (P = 0,14) (Tabela 3 e Figura 4).
Por outro lado, sugere-se que as vazões sejam liberadas de forma gradativa e por
um maior espaço de tempo, entende-se que desta maneira a recuperação do ambiente e da
água será mais êxitosa, com possível diminuição de enfermidades, pois Zorzin et al.
(2011), considera a água de má qualidade um vetor de alta potencialidade de transmissão
de vários tipos de doenças e enfermidades.
Tabela 3: Coliformes totais e E. coli de 2019 e 2020 em função da vazão.
Os valores de nitrito variaram bastante ao longo do percurso do rio, apresentando
os dois maiores picos em Pão de Açúcar e Traipu, onde os valores encontrados de 46,0
mg/L e 56,0 mg/L, excederam o valor limite para água potável (1,0 mg de NO2) (BRASIL,
2004). O nitrito reflete o estado de oxidação intermediário do nitrogênio, e pode ocorrer
tanto pela redução de nitrato como pela oxidação de amônio (PARRON; MUNIZ;
PEREIRA, 2011).
O sulfato é uma variável que ajuda no entendimento sobre efeitos da poluição
promovida por esgotos e efluentes. Foram observados valores abaixo do indicado pela
legislação que (250 mg/L). É importante reforçar que a alta vazão praticada durante o
período de coleta, pode ter servido para reduzir e diluir a concentração de alguns
parâmetros nas áreas de captação de água, inclusive do próprio sulfato.
Os valores de potássio obtidos nas amostras, apresentaram maior variação nos
municípios de Traipu, Penedo e Piaçabuçu, com valores acima de 8,4 mg/L. Comparandose as áreas de captação de água para abastecimento das cidades, os valores de potássio
encontrados mantiveram-se superior a 4,2 mg/L, com picos de valores 1,0 km antes do
ponto de captação de água da cidade, com destaques para os munícipios de Traipu com
8,4 mg/L, Penedo com 8,6 mg/L e Piaçabuçu com 11,0 mg/L.
Devido ao processo de degradação da matéria orgânica por meio biológico, a
amônia ocorre em baixas concentrações no ambiente de água natural. Podendo encontrar
concentrações maiores em efluentes industriais e esgotos (PARRON; MUNIZ;
PEREIRA, 2011). Os valores de amônia mensurados mantiveram-se dentro dos limites
toleráveis pela lesgilação. Contudo Propriá e Igreja Nova, apresentaram valores mais
significativos, entre 0,71mg/L e 0,34mg/L, respectivamente.
O fósforo é essencial ao crescimento dos organismos, o teor existente em um
corpo de água pode ser considerado um fator limitante (PIVELI; KATO, 2005). Tanto
processos naturais como ações antropogênicas podem estar relacionados com a presença
de fósforo. Com exceção de Propriá, Igreja Nova e Porto Real, que apresentaram
respectivamente valores de 0,15 mg/L, 0,17 mg/L e 0,20 mg/L, todos os outros pontos de
coleta apresentaram valores abaixo de 0,05 mg/L (Tabelas 4 e 5).
Figura 4: Análise microbiológica de coliformes totais e E. coli de 2019 e 2020 em função da vazão. Fonte: Vivian Costa Vasconcelos
Tabela 4: Parâmetros físico-químicos nas margens dos municípios estudados no Baixo Rio São Francisco.
-
Nitrito (NO2 - N)
Id ponto
Piranhas/AL
Pão de Açúcar/AL
Traipu/AL
Porto Real/AL
Igreja Nova/AL
Propriá/SE
Penedo/AL
Piaçabuçu/AL
Foz/AL
Brejo Grande/SE
Parâmetros (mg/L)
Sulfato
Potássio
(SO42-)
(K)
Alcalinidade
(CaCO3)
Amônia
(NH3+)
Fosfato
(PO43-)
Montante
Meio
Jusante
Antes
Jusante
Montante
Jusante
Montante
Jusante
Montante
Jusante
Montante
Montante
Jusante
Antes
Jusante
Montante
Jusante
Montante
2
1
23
46
46
56
1
3
3
13
9
37
1
29
17
22
12
28
11
1
1
< 0,001
< 0,001
1
1
< 0,001
< 0,001
< 0,001
< 0,001
< 0,001
< 0,001
< 0,001
< 0,001
< 0,001
1
82
87
1
7,9
4,2
4,08
5
4,9
8,4
4,6
5,4
4,9
4,4
4,5
5,7
8,6
4
11
5,4
42,6
39
5,1
29
30
31
28
26
30
28
32
25
23
19
30
25
21
25
24
37
40
20
< 0,001
< 0,001
0,07
< 0,001
< 0,001
< 0,001
< 0,01
0,71
0,15
< 0,001
0,34
0,27
0,04
0,06
< 0,001
< 0,001
0,01
< 0,001
< 0,001
< 0,001
0.02
< 0,001
< 0,001
< 0,001
< 0,001
< 0,001
0.15
< 0,001
< 0,01
0.17
0.20
0.05
0.04
< 0,01
0.01
0.02
0.03
0.01
Jusante
20
<0,001
4,8
24
< 0,001
0.01
Tabela 5 – Parâmetros físico-químicos da água obtidos pela sonda multiparamétrica do Baixo Rio São Francisco.
Parâmetros
Id ponto
Montante
Piranhas/AL
Jusante
Ponto do barco
Montante
Pão de
Jusante
açúcar/AL
Ponto do barco
Montante
Traipu/AL
Jusante
Ponto do barco
Montante
Porto Real/AL
Jusante
Ponto do barco
Montante
Igreja Nova/AL
Jusante
Ponto do barco
Montante
Penedo/AL
Jusante
Ponto do barco
Montante
Piaçabuçu/AL
Depois
Ponto do barco
Montante
Foz/AL
Jusante
Ponto do barco
Condutividade
(µs/cm)
ORP
(mV)
O.D
(mg/L)
pH
Resistividade
(MΩ.cm)
Salinidade
(PSU)
TDS
mg/L
Temperatura
(˚C)
Turbidez
(FTU)
69
70
65
63
61
61
72
65
63
83
62
64
68
58
62
76
64
65
88
73
65
267
292
319,6
141.6
181,9
227,6
109,7
138
162
183
194
203
175,9
194,6
200
190,4
185
188,9
204
188,5
197,2
4,6
4,2
4,95
2
2,56
3,43
1,86
2,28
3,06
3,45
3,76
4,57
2
2,46
3
1,89
2,46
2,63
1,69
2,58
3,43
7,34
7,5
7,15
8,11
8,04
7,53
7,8
7,9
7,8
7,6
7,6
7,6
7,69
7,6
7,4
7,5
7,61
6,64
7,69
7,7
7,51
0,0016
0,014
0,015
0,016
0,016
0,016
0,013
0,015
0,016
0,012
0,016
0,016
0,0147
0,0172
0,0161
0,013
0,016
0,015
0,014
0,0137
0,0154
0,023
0,03
0,03
0,03
0,03
0,03
0,03
0,03
0,03
0,04
0,03
0,03
0,04
0,03
0,03
0,03
0,03
0,03
0,04
0,03
0,03
267
35
32
31
31
30
39
33
31
42
31
31
34
29
31
38
32
33
44
36
33
26,5
27,5
25
0,2
25,68
27,4
26,9
26
102
0,9
5,5
3,8
2,6
26,2
45,7
62
26,01
26,51
26,87
26,4
26,68
27,16
26,39
8,4
9
9,7
22
19
6,3
1,385
255
1,49
7,48
0,0007
0,69
694
26,87
726
1,657
235
1,93
7,52
0,0006
0,63
830
28,23
18,2
1,13
223
2,77
7,62
0,0009
0,55
560
26,44
11
*montante e jusante referem-se ao ponto de captação de água de cada município estudado, num distanciamento de 250 metros de cada ponto de amostragem. Ponto barco
refere-se ao ponto de captação de água onde o barco estava localizado naquela cidade. ORP – potencial óxido/redução. OD – Oxigênio dissolvido. PSU - Unidade de
Salinidade Prática. TDS - sólidos totais dissolvidos.
CONCLUSÕES
As análises microbiológicas realizadas neste trabalho demonstraram que as
amostras de água de todos os pontos de coleta analisados, estão fora dos padrões de
potabilidade para consumo humano e outros fins, padrões estabelecidos por diversas
portarias (nº 1.469, de 29 de dezembro de 2000, de nº 2.914 de 12 de dezembro de 2011,
nº GM/MS Nº 888, de 4 de maio de 2021), ambas, determinam a ausência de coliformes
e E. coli em 100 mL das amostras.
Fatores como: diminuição da vazão, maior adensamento populacional, ausência de
políticas de educação ambiental, ausência de sistemas de tratamentos de esgotos e
saneamento básico, lançamentos de esgotos in natura e limitação de políticas públicas
voltadas para a questão ambiental, contribuem o agravamento da qualidade de água e para
possíveis enfermidades decorrentes de micro-organismos.
AGRADECIMENTOS
Gratidão a todas as instituições que colaboraram para a realização dessa terceira
Expedição Científica do Baixo São Francisco, ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São
Francisco (CBHSF), ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Secretária
de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Alagoas (SEMARH-AL), a CODEVASF, a
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL), aos pescadores e toda
tripulação pelo apoio e profissionalismos, ao apoio da Universidade Federal de Alagoas
(UFAL), a equipe de pesquisadores do Laboratório de Aquicultura e Análises de Água
(LAQUA) e a toda equipe de pesquisadores que contribui com esse trabalho.
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7
Avaliação de plantas medicinais, macrófitas
aquáticas e empreendedorismo social inovador no
baixo São Francisco
Tatiane Luciano Balliano1
1
Professora, Instituto de Química e Biotecnologia, Universidade Federal de Alagoas
A – PLANTAS MEDICINAIS
1 - Introdução
A busca por novas moléculas capazes de desempenhar qualquer atividade
biológica tem sido expressiva, tanto pela academia quanto pelas agroindústrias e
corporações farmacêuticas. No entanto, nem sempre é fácil à obtenção de novas
moléculas, seja através da síntese química ou de fontes naturais, e que apresentem os
requisitos necessários para ser um bom candidato para estudos biológicos. Quando se
trata de produtos de síntese, é importante ressaltar, que é necessária muita criatividade,
uma vez que já existem caracterizadas centenas de milhares de moléculas, tornando cada
vez mais difícil a obtenção de compostos totalmente inéditos.
Por outro lado, os produtos naturais - PN, desde tempos remotos vêm sendo
usados para fins medicinais. Na academia, centro de pesquisas e indústrias de
farmacêuticas principalmente, os produtos naturais já foram bastante explorados como
fonte para novas moléculas, no entanto, seu emprego pela indústria de fármacos sofreu
uma queda considerável devido ao avanço tecnológico, pois surgiram técnicas de
varredura teórica de compostos sintéticos a partir de bibliotecas virtuais, que não existiam
para produtos naturais, fazendo com que a descobertas de novos fármacos a partir de
fontes naturais se tornasse inviável do ponto de vista econômico. A evolução do emprego
de PN com fonte de novas moléculas mostra o número de patentes que incluem em suas
reivindicações o uso de produtos naturais como fármacos (em laranja) ao longo dos anos
(Figura 1) (FRANK E.KOEHN E GUY T.CARTER, 2005).
Há um aumento crescente do emprego de PN na química medicinal, no entanto,
fica claro também que à medida que o tempo passa, ocorre uma desaceleração do
crescimento desse uso (Figura 1). Contudo, depois de todos os mecanismos de
modernização das indústrias de fármacos, e com avanço nítido das metodologias de
desenvolvimento e descobertas de novas moléculas, observa-se um investimento no que
diz respeito à criação de abordagens no campo dos PNs, pois já há algum tempo vem
sendo criadas também bibliotecas de compostos proveniente apenas de fontes naturais,
fazendo com que se olhe novamente nessa direção (Figura 2), tornando mais rápido o uso
desses, no planejamento de moléculas bioativas (Alan L. Harvey, RuAngelie Edrada-Ebel
e Ronald J. Quinn, 2015)
Figura 1. Número de patentes que reivindicam o uso de PN como fármacos.
Figura 2. Bases de dados de produtos naturais que podem ser usadas em Screening
Virtual
Neste cenário o Brasil se apresenta em posição vantajosa, pois se somando entre
plantas, fungos e algas, no ano de 2010 foram contabilizadas 41.000 espécies diferentes
até então validada, tornando-o o país com maior biodiversidade do mundo (FORZZA, R.
C. et al., 2010). Muito embora o Brasil apresente em sua flora inúmeras espécies de
plantas com propriedades farmacológicas comprovadas, existem regiões geográficas ao
longo do país em que algumas dessas espécies apresentam propriedades medicinais mais
efetivas, como é o caso das espécies que apresentam taninos e flavonoides em sua
constituição. No caso dessas espécies, quando são avaliadas em regiões de caatinga, as
mesmas apresentam maiores concentrações de alguns metabólitos que entre diversas
aplicabilidades está o seu potencial medicinal. Com base nessas considerações, foi
realizada durante a III expedição do Rio São Francisco, a coleta de espécies de plantas de
maior abundância nas áreas as quais a embarcação ficou atracada e que terão suas
atividades neuroprotetoras, antioxidantes e microbiológicas avaliadas in vitro e in vivo..
Tais regiões de coleta compreenderam áreas que compunha vegetação ciliar do baixo Rio
São Francisco.
2 - Objetivos
2.1 - Objetivo Geral
Realizar coletas de plantas de matas ciliares no percurso do baixo São Francisco para
avaliação das atividades neuroprotetoras, antioxidante e microbiológica considerando tais
plantas como possíveis fitoterápicos.
2.2 - Objetivos Específicos
Obtenção de extratos alcoólicos, hidroalcoólicos e hexânicos das espécies vegetais
coletadas;
Identificação de classes de compostos presentes nas plantas coletadas nas diferentes
localidades;
Estudo da atividade biológica dos extratos das plantas coletadas frente a diferentes
espécies de fungos e bactérias;
Avaliação da atividade neuroprotetora dos extratos das plantas coletadas;
3 - Metodologia
3.1. Análise Fitoquímica da Vegetação
As espécies em estudo aqui descritas foram coletadas em regiões
georreferenciadas. Foram coletadas 12 espécies vegetais diferentes cujas denominações
são: Alecrim de Vaqueiro; Jurema Preta; Velame; Ameixa Brava; Guajiru; Pereiro;
Quixabeira; Candeeiro; Catingueira; Cambuí.
De cada espécie foram coletados galhos e folhas. Dessa forma, todas as partes
foram separadas e secas em local arejado e ao abrigo do sol. Na sequência, cada parte foi
triturada e pré-incubada inicialmente em hexano sob agitação por cerca de 10 minutos,
em seguida, o solvente foi filtrado e o extrato foi conduzido para o rota-evaporador para
concentração dos ativos contidos no solvente. O material vegetal foi novamente
submetido a novo processo de extração utilizando como solvente o etanol a 70%, onde
todo o procedimento anterior foi repetido e os extratos foram obtidos para todas as
plantas, alguns caracterizados parcialmente e atualmente estão sob avaliação de algumas
atividades biológicas.
3.2 - Testes de Matos para identificação de metabolitos
O teste de Matos (1997) foi conduzido para a identificação dos metabólitos
presentes nas folhas das plantas com intuito inicial de descobrir a atividade farmacológica
ali presente. A triagem de classes de metabólitos especiais majoritários é uma das etapas
iniciais da pesquisa química em plantas e possui o objetivo de identificar os constituintes
químicos naturais contidos nas espécies vegetais ou avaliar a sua presença em um
determinado material e, a partir disto, orientar a extração e/ou fracionamento de extratos
no sentido de dedicar maior atenção aos grupos de compostos de maior interesse
farmacológico.
Ameixa Brava
A Ximenia americana L. é conhecida popularmente pelos nomes de ameixa-brava,
ameixa-da-bahia e ameixa-de-espinho e é comumente encontrada na África e na América
do sul, pertencente à família Olacaceae, do gênero Ximenia (Matos, 2007). Apresenta
outros nomes populares como, ambuy, ameixa-da terra, ameixa-do-brasil, limão bravodo-brejo, sândalo-do-brasil, umbu-bravo (PLANTAMED, 2020).
É uma árvore que consegue se manter verde por um período longo de seca,
recuperando suas folhas perto do início da estação chuvosa, sendo encontrada no Brasil
nos estados do Pará, Bahia, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e com muita frequência
no estado do Ceará (Rocha, 2009). A árvore apresenta uma casca avermelhada e lisa, com
pequenas folhas e flores branco-avermelhadas. E sua casca pode ser utilizada com
finalidade medicinal, tais como: inflamações da boca e da garganta, hemorroidas,
menstruação excessiva e prolongada, cicatrização de ferimentos e úlceras (Matos, 2007).
Neste estudo onde se pretende analisar seu potencial medicinal, até o presente
apenas resultados parciais referentes a caracterizações foi obtido.
- Obtenção de extratos de Ameixa brava
Foram separados folhas e caule da planta coletada, colocados para secar ao abrigo
do sol e na sequência foram trituradas ambas as partes. Em seguida foi realizada a
extração com hexano, tanto das folhas quanto do caule, onde neste processo foi
empregado 160 g de folha seca triturada e 250 g de fibra do caule triturado. O extrato das
folhas foi filtrado depois de 30 minutos sob agitação continua e levado para retirada do
solvente no rotaevaporador. O mesmo foi realizado para as filbras de caule.
Alecrim de Vaqueiro
O gênero Lippia possui um grande número de espécies medicinais, como L.
origanoides Kunth, L. alnifolia Schauer e L. thymoides Martius e Schauer, tais espécies
são usadas frequentemente na medicina popular para o tratamento de doenças
microbianas (PASCUAL et al., 2001). No Brasil, L. alnifolia também é conhecido como
alecrim-do-mato; pedrécio; alecrim-de-vaqueiro; As folhas são empregadas como tópico
anti-séptico contra dermatite e caspa, bem como um anti-séptico oral e vaginal e infecções
(AGRA et al., 2008).
Os fungos constituem uma fonte excepcionalmente rica de importantes fármacos,
incluindo: antibióticos antibacterianos (β-lactâmicos, aminoglicosídeos, tetraciclinas,
macrolídeos, glicopeptídeos e estreptograminas), antibióticos antitumorais (antraciclinas,
bleomicinas, actinomicinas, mitomicinas e ácidos aureólicos), agentes redutores do
colesterol sanguíneo (estatinas), agentes imunossupressores (ciclosporina A), entre outros
(NEWMAN; CRAGG; SNADER, 2000; DEMAIN, 1999). Dentre todas as classes de
fungos, uma que merece destaque é a dos fungos endofíticos que são microrganismos que
habitem todo, ou pelo menos um período de seu ciclo de vida, o interior de uma planta
hospedeira e não lhe cause doenças com sintomas aparentes (ZIKMUNDOVA et al.,
2002; TAN; ZOU, 2001), podendo a colonização ser inter ou intracelular, localizada ou
sistêmica (SCHULZ; BOYLE, 2005). devido a grande diversidade química, ineditismo
de moléculas e suas atividades biológicas. O termo endofítico vem sendo usado desde o
começo do século XIX (AZEVEDO, 1999; GIMENEZ et al., 2007) e podem ser
transmitidos de uma geração para outra.
O estudo realizado com a espécie Alecrim de Vaqueiro compreendeu o cultivo de
fungos endofíticos presentes em no caule das amostras coletadas e para tanto, foram
pesados 24g de meio Batata e Dextrose - Difco®, em seguida foi adicionada água
destilada completando-se para o volume total de 1000 mL. Após a preparação do meio, o
mesmo foi distribuído em erlenmeyers de 250 mL contendo 100 mL cada e em
erlenmeyers de 2L contendo 1L cada, em seguida foram vedados com papel alumínio e
papel de filme e autoclavados por 15 minutos a 1 atm, para a esterilização do meio.
Foram pesados 24 g de do meio Difco®, e 18g de ágar (VERTEC, QUÍMICA
FINA), em seguida foi adicionada água destilada até o volume de 1000 mL, o caldo foi
homogeneizado e autoclavado por 15 minutos a 1 atm Após a preparação do caldo, o
mesmo foi distribuído em placas de Petri de 50 mL cada, em um total de 20 placas, após
o resfriamento estas foram lacradas com papel filme e expostas a luz ultravioleta por 15
minutos, para esterilização.
O procedimento de identificação foi realizado em duas etapas, na primeira foram
observadas características macroscópicas como coloração, diâmetro da colônia, textura e
comparadas com a literatura (DOMSCH et al., 1980). A etapa seguinte foi realizar o
microcultivo em lâminas (RIDELL, 1950), onde foram transferidos três segmentos do
fungo a ser identificado e cobertos com lamínulas, sendo retiradas após o tempo de
crescimento do fungo e posterior análise em microscópio óptico Nikon Eclipse E200,
com auxilio de chaves taxonômicas padrão, que descrevem as características
morfológicas microscópicas e macroscópicas pertencentes aos fungos.
O solvente utilizado para extração serão escolhidos por sua polaridade e eficiência
na extração de metabólitos secundários, tais como flavonoides, cumarinas, dentre outros.
O extrato bruto obtido (ACM) será dissolvido em solução dimetilsulfóxido (DMSO) a
10% para análises de atividade antibacteriana.
Os inóculos serão preparados utilizando as cepas de Staphylococcus Aureus
(ATCC25923), S. epidermidis (ATCC14990), Escherichia coli (ATCC14942),
Salmonella entérica (ATCC14028), Enterococcus faecalis (ATTC29212), Klebsiella
pneumoniae (ATTC31488), Pseudomonas aeruginosa (ATTC27853), Shigella flexneri
(ATTC12022) e Enterobacter aerogenes (ATTC13048), em solução salina tamponada
estéril e a suspensão bacteriana foi determinada a partir da turvação do tubo 0,5 da escala
de Mc Farland (1,5 x 108 UFC/mL), diluída numa proporção de 1:10 obtendo assim uma
diluição 107 UFC/mL, com concentração final de bactérias entre 5 x 10 5 UFC/mL e 5 x
104 UFC/poço.
Cerca de 2 mg da amostra será solubilizado em 1 mL água estéril com DMSO a
10% onde obteve-se uma concentração estoque de 2000 μg/mL. Para os testes serão
utilizadas microplacas de poliestireno estéreis com 8 linhas e 12 colunas, num total de 96
orifícios de fundo chato e com tampa. Da solução estoque, 200 µL de cada amostra serão
colocados nos poços da primeira linha e nos demais orifícios foi colocado 100 µL de meio
de infusão de cérebro e coração - BHI (duas vezes). Para se obter a concentração de 1000
µg.mL-1, será transferido para a segunda linha 100 µL de cada amostra em 100 µL de
BHI (duas vezes) e assim por diante até se obter a concentração final de 15,6 µg.mL-1 de
cada amostra. Feita a diluição seriada em triplicata, será adicionado 20 µL do inóculo (1,5
x 106 UFC) de cada bactéria utilizada nos ensaios. Como controle positivo, serão
adicionados 20 µL de cada inóculo em 100 µL de BHI (2x) para controles de crescimento,
para controle negativo 20 µL de DMSO a 10% e20 µL de cada inóculo em 100 µL de
BHI (2x) e para controle de esterilidade 100 µL de meio BHI (duas vezes). As placas
serão incubadas, em estufa bacteriológica, por 24 horas a 35ºC. Para leitura das placas
serão adicionados em cada poço 20 µL (0,5%) de revelador cloreto de 2, 3, 5
trifeniltetrazolium (Sigma) em seguida as placas serão reincubadas por três horas. A
coloração vermelha será interpretada como ausência de inibição. Os testes serão
realizados em triplicata para garantir a eficiência das análises e permitir que os dados
sejam reprodutíveis. O objetivo desse teste é de definir a Concentração Inibitória Mínima,
dos extratos que possuem atividade antimicrobiana, sendo que apenas parte destes estudos
foi finalizado.
Candeeiro
Preparação dos sistemas de extração de solventes
Para a obtenção do extrato total, foram feitos dez ciclos de extração até chegar ao
ponto de exaustão da planta. Esse ponto de exaustão é alcançado quando a solução em
etanol contendo o extrato atinge uma coloração transparente, indicando que já foi extraído
o máximo possível da planta. Ao final das extrações a solução etanólica foi conduzida
para a evaporação utilizando o rota evaporador, em seguida o extrato foi reservado e o
etanol recuperado foi inserido novamente no soluto, esse processo foi repetido dez vezes
(Tabela 1).
Tabela 1: Ciclos de extração da planta e quantidade de soluto e solvente utilizados em
todas as extrações
N° da extração
01
02
03
04
05
06
07
08
09
10
SOLUTO
550,0 g
550,0 g
545,0 g
543,0 g
540,0 g
540,0 g
539,0 g
537,0 g
536,0 g
536,0 g
SOLVENTE
4,150 mL
4,470 mL
1,440 mL
3,630 mL
3,550 mL
3,385 mL
2,880 mL
3,465 mL
3,310 mL
2,930 mL
4 - Resultados Parciais
Até o presente momento, já foram obtidos extratos de 5 das 12 plantas coletadas,
e destes foi realizado o teste de Matos, para a espécie popularmente conhecida como
candeeiro, que são apresentados na sequência.
4.1 Resultados Parciais Referentes À Espécie Candeeiro
Os metabolitos caracterizados pelos testes foram: Alcaloides, Esteroides, Taninos,
Flavonoides, Antocianinas, Chalconas e Compostos fenólicos.
Através desses testes notou-se que as plantas apresentam uma grande variedade
de propriedades medicinais de acordo com a literatura.
4.1.1. Fracionamento do extrato bruto através de diferentes sistemas de solventes
Ao término da rota evaporação, o extrato foi colocado em repouso para evaporar
o resto de solvente, em seguida pesou-se o extrato em uma balança analítica, totalizando
65,34 g de extrato bruto. O extrato bruto foi novamente solubilizado em metanol-água
para iniciar o fracionamento do mesmo e, listado o rendimento em gramas das frações do
extrato com solventes de diferentes polaridades (Quadro 1).
A partir desses dados é possível notar que o extrato da folha de Candeeiro possui
mais compostos apolares, devido às frações hexânicas e acetato de etila serem uma apolar
e uma polar respectivamente elas arrastam os compostos diferentes. Foi possível notar
também que na fase hidroalcóolica ainda restou precipitado, indicando que ainda há
compostos com polaridades superiores a dos solventes empregados nos fracionamentos.
Quadro 1: Frações obtidas dos solventes.
FRAÇÕES
Extrato bruto
Fração hexânica (apolar)
Fração clorofórmica (polar)
Fração acetato de etila (apolar)
Fase hidroalcóolica
PESOS (g)
65,34
19,93
5,99
6,53
12,90
Figura 3: Frações hexânica (A), clorofórmica (B), Acetato de etila (C) e Fase
hidroalcoólica (D).
A
B
C
D
Fonte: o autor, 2021.
4.2 - Resultados Parciais Referentes À Espécie Alecrim de Vaqueiro
- Isolamento dos fungos endofíticos
Após a etapa da preparação do meio sólido em placas de petri e esperado
aproximadamente três dias para a verificação de contaminação por outros fungos ou
bactérias, fez-se a inoculação do fungo em estudo e observou o crescimento micelial em
meio sólido, em seguida procedeu-se o isolamento do material microbiológico por vários
repiques até isolamento de um único microrganismo fúngico. Obtivemos um único fungo
como resultado final (Figura 4, A e B).
Figura 4 - Placa estéril em dez/2020 (A) e inoculação do fungo isolado em dez/2020 (B).
A
B
Fonte: o autor, 2020.
Crescimento micelial e identificação do fungo endofítico isolado da planta Alecrim
de Vaqueiro
O fungo foi isolado em placa de petri contendo meio BDA Difco@ em
temperatura ambiente, após 03 (três) dias de isolamento iniciou o crescimento micelial,
sendo observado a cada dia para a verificação de contaminação por outros
microorganismos. Observou-se que o crescimento micelial é rápido e homogêneo, com
03 (três) dias o fungo começa a apresentar a coloração esbranquiçada e com 07 (sete) dias
a coloração se torna mais intensa de aspecto algodoado (Figura 5A).
Figura 5- Crescimento micelial com coloração esbranquiçada (A). Fungo endofítico
isolado em placa de microcultivo com três dias (B).
A
B
Fonte: o autor, 2020.
Para a identificação fúngica, procedeu-se o cultivo do fungo isolado da espécie
vegetal conhecida popularmente como Alecrim de vaqueiro, conforme recomendado na
literatura (RIDELL, 1950). Foram retirados 03 (três) plugs de comprimento
aproximadamente de 1x1 cm2 da placa de petri com crescimento micelial de 07 (sete) dias
e inoculados em placas de petri estéreis contendo meio BDA Difco@, em cada plug foi
colocado (01) uma lamínula, estas foram retiradas em um esquema de 48 h, 96 h e 144h,
respectivamente para analise em chaves taxonômicas e possíveis identificação (Figura
5B).
Analisando as características morfológicas microscópicas, o fungo apresenta hifas
longas e com septos longos e lisos, sem presença de conídios (Figura 6).
Figura 6: Analise microscópica do fungo endofítico extraído da espécie vegetal Alecrim
de vaqueiro – lâmina com 7 dias. Observado com objetiva de 40x.
Fonte: O autor, 2021.
Extração de metabólitos
O crescimento fungico procedeu-se em 10 (dez) erlermayer de capacidade de 250
mL contendo 100 mL de meio BD Difco® e em 1 (um) erlermayer de capacidade de 2
litros contendo 1 litro de meio BD Difco®, ambos em temperatura ambiente, após 07
(sete) dias de observação para a verificação de contaminação por outros microorganismos
seguiu-se com a inoculação fungica (Figura 7A). Em meio líquido, o fungo endofítico,
identificado como Av apresentou crescimento rápido e homogêneo, em meio comercial
Batata-Dextrose Difco®, (Figura 12 b). Em meio BD Difco®, o fungo produziu uma
grande quantidade de pigmento esbranquiçado durante seu crescimento, permanecendo
intenso após 30 (trinta) dias de cultivo. Após 05 (cinco) dias de incubação, foi possível
observar o crescimento dos micélios, de coloração branca, prosseguindo até os 30 (trinta).
O caldo de cultivo fermentado tem odor semelhante ao solvente acetato de etila.
Figura 7 - A) meio BD® em erlermayer de capacidade de 250 mL; B) Crescimento do
fungo Av em meio liquido Batata-Dextrose (BD) Difco ® com 30 (trinta) dias de cultivo.
A
B
Fonte: O próprio autor
Completado o período de incubação em meio BD, o caldo foi desagregado do
micélio através de filtração (Figura 8A) e submetido à partição líquido-líquido com
solvente orgânico acetato de etila em uma proporção 2:1 por três vezes (Figura 8B). Nesta
sequencia o solvente orgânico será evaporado e seu rendimento de extrato bruto (ACF)
será calculado.
Figura 8 - A – Micelio extraído do caldo de cultivo; B - Partição líquido-líquido com
Acetato de Etila.
A
B
Fonte: O próprio autor
4.3 - Resultados Parcial Referentes à Espécie Ameixa Brava
Durante o processo de rota evaporação do hexano existente no extrato das folhas,
foi observada a formação de cristais transparentes nas paredes do balão de rota
evaporação, dessa forma, experimentos de difração de raios X foram conduzidos,
entretanto, a qualidade dos dados foi muito ruim, comprometendo dessa forma a obtenção
o refinamento matemático dos dados e assim também da estrutura química correta.
Contudo, os cristais foram levados para análise de Ressonância Magnética Nuclear de
campo 600 MHz no IQB da UFAL. Após analise, foi proposta uma estrutura referente a
um triterpeno (Figura 9). Os demais estudos continuam em andamento, entretanto, o
material coletado foi em quantidades muito reduzidas e dessa forma pretende-se realizar
uma recoleta desta espécie na próxima expedição em novembro deste ano.
Figura 9. Estrutura do Triterpeno obtido por RMN H isolado do extrato hexânico de
Ameixa Brava.
5. Perspectivas
As próximas etapas desse trabalho consistirão em realizar o mesmo protocolo de
extração para as demais plantas não apresentadas aqui ainda. Em seguida, os extratos e
frações de extratos serão finalmente encaminhados para os testes biológicos de
neuroproteção, antioxidação e microbiológicos. Além disso, estamos no aguardo que
alguns colaboradores nos enviem resultados de amostras já enviadas.
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em:
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Acesso em: 29 jun. 2021.
B - MONITORAMENTO TECNOLÓGICO DA ESPÉCIE Eichornia
crassipes
INTRODUÇÃO
O monitoramento tecnológico consiste no levantamento de tecnologias
desenvolvidas acerca de um determinado tema. Cada vez é mais frequente, organizações
governamentais, empresas de pequeno, médio e mais comumente grande porte, fazerem
uso do monitoramento tecnológico ou de estudos de prospecção tecnológica, para a
tomada de decisão. Neste contexto, foi realizado um estudo de prospecção tecnológica
em decorrência da observação da presença demasiada da espécie vegetal popularmente
denominada de baronesa, cujo nome científico é Eichornia crassipes, durante muitos
trechos do Rio São Francisco na ocasião da III expedição científica. Considerando essa
constatação e ainda os vários relatos na região nordeste mais frequentemente, de
desordem ambiental envolvendo esta espécie, fez-se necessário um estudo de tecnologias
com intuito de identificar possíveis oportunidades de uso sustentável e inovadora para a
baronesa.
METODOLOGIA
A metodologia para obtenção das informações que serão relatadas aqui, consistiu
na busca estruturada de patentes em escritórios de patentes de 94 países, utilizando como
ferramenta o software Questel Orbit ® da Axonal. A metodologia empregada na busca
limitou-se a uso de uma string que foi o termo “ Eichornia crassipes” nos campos: título,
objeto da invenção, reinvindicações e reivindicações independentes.
RESULTADOS PARCIAIS
Como resultado, foram recuperados 404 documentos que foram analisados
graficamente (Figura 1). O local que mais se deposita patente no mundo relacionada à
baronesa é China, com 204 patentes, seguida da India e da Holanda com 26 e 12 patentes
respectivamente (Figura 1). O Brasil, nem aparece entre 10 maiores produtores de
tecnologias com essa matéria prima, e só tem 02 patentes depositadas até o presente. Isso
significa que o mercado brasileiro tem bastante espaço para inovação com esta matéria
prima, uma vez que a mesma é bastante abundante.
Quando se avalia em quais áreas as tecnologias existentes estão classificadas, é
possível verificar que “tecnologias ambientais” é o setor campeão, seguido pela química
de alimentos e pela química de materiais (Figura 2). Isto indica dessa forma que embora
estas tecnologias já sejam conhecidas, as mesmas não estão protegidas no Brasil e sua
exploração econômica pode ser realizada, oportunizando dessa forma alternativas de
sobrevivência para aqueles que vivem em regiões ribeirinhas.
Figura 1. Localização dos depósitos de patentes no mundo
Figura 2. Áreas tecnológicas de aplicação das patentes depositadas
Observa-se que as tecnologias desenvolvidas estão voltadas majoritariamente
para duas grandes áreas: animais aquáticos em geral e lagostas (Figura 3). Tendo outras
aplicações, entretanto essas duas primeiras compreendem mais de 50% de todas as
tecnologias desenvolvidas nessa temática. Isso significa que existe um campo vasto a ser
explorado e que dependerá principalmente de oportunidades e percepção para
identificação de novos problemas para ser resolvidos com essa espécie vegetal.
Vale ressaltar que existe grande interesse crescente nesta planta e isto pode ser
visto através do gráfico da Figura 4 que mostra os investimentos nessas tecnologias ao
longo do tempo.
Figura 3 - Detalhamento Tecnológico das Patentes
Figura 4 - Investimentos ao longo do tempo
PERSPECTIVAS
Pretende-se finalizar o diagnóstico realizando o levantamento da produção
cientifica e aprofundar um pouco mais os estudos patentários. Ao finalizar este estudo,
pretende-se sugerir algumas tecnologias para serem desenvolvidas com o objetivo de
gerar oportunidades de novos negócios e auxiliar na geração de renda das populações
ribeirinhas.
Pretende-se ainda organizar esses dados de modo estruturado e publicar na forma
de artigo científico na revista GEINTEC de qualis B2.
C - EMPREENDEDORISMO SOCIAL E INOVADOR
RELATO DE CASO – ASSOCIAÇÃO AROEIRA
No que tange o aspecto voltado ao empreendedorismo, foi possível realizar
visitas a dois locais: ASSOCIAÇÃO AROEIRA E COOPAIBA. A Associação aroeira
compreende uma associação de 240 mulheres que se uniram a princípio para trabalhar no
beneficiamento da pimenta de aroeira, entretanto atualmente estão trabalhado em outros
projetos voltados à parte da culinária regional e muito fortemente na produção de bolo de
macaxeira.
Ao realizar a visita ao local de funcionamento da associação foi possível
conhecer as metodologias de produção e a dinâmica de organização daquelas mulheres.
Diagnóstico
Pontos positivos:
Ambiente com grande potencial e força de trabalho;
Espírito de equipe muito presente;]
Equipe muito engajada para atingir os objetivos e cumprir as metas.
Pontos negativos:
Muito trabalho e poucas abordagens tecnológicas ou de automação
Sugestões
Na ocasião da visita foi feita a sugestão de se trabalhar com processo diferente
do que estava sendo realizado e testar congelamentos de massas para os bolos de
mandioca obedecendo alguns procedimentos, mas com o objetivo principal de escalonar
e escalabilizar a produção e o negócio.
Resultados
As sugestões foram testadas e as amostras de massas foram congeladas e testadas
por um período de 08 e de 15 dias respectivamente a fim de verificar se o produto obtido
conservaria as mesmas características de sabor e qualidade, havendo assim uma
constatação positiva.
Passos em andamento
Confecção em andamento de patente de invenção considerando a proteção do
processo inovador.
Visita realizada em Maio/2021
Nesta visita, foi verificada que a associação tem algumas limitações relacionadas
ao atendimento de demanda de mercado no que diz respeito a pimenta de aroeira e este é
o motivo que impede atualmente processos de exportação de expansão de vendas. Eles
apontam que uma máquina de separação colorimétrica os ajudaria a resolver este
problema. Outros elementos serão trabalhados no decorrer do tempo ate a próxima
expedição, tais como o registro da marca, o posicionamento de mercado, apresentação de
produto. Além disso, precisara ser trabalhado isso para os demais itens que compõem
atualmente o portfolio de produtos da associação.
RELATO DE CASO – COOPAIBA
Foi realizada a visita também à cooperativa de beneficiamento de côco localizada
também em Piaçabuçu. Trata-se de um ambiente já com uma estrutura bem maior e mais
bem equipada que o relato anterior, pois possuem muitas máquinas e muitos funcionários.
Após acompanhar toda a linha de produção, foi possível verificar uma lacuna muito
interessante que está relacionada para a produção do óleo de côco. Nesta cooperativa o
óleo de côco ainda não é comercializado industrialmente e o mecanismo de venda é
apenas o varejo local.
Pontos fortes: Muitas máquinas, funcionários, boa matéria prima;
Pontos fracos: Equipe desqualificada e com baixa capacidade de resolver problemas na
linha de produção.
Sugestões
Não concluídas ainda por falta de oportunidade de negociação.
Visita realizada em Maio/2021
Em visita realizada em maio de 2021, foi tentado estabelecer contrato de compra
do óleo de côco dessa cooperativa a partir de negociação com uma empresa, entretanto,
embora a cooperativa tenha proposto se reunir com a empresa que por sua vez, se
deslocou ate Piaçabuçu, não foi possível estabelecer qualquer contrato, pois a própria
cooperativa não enviava alguém responsável pelas vendas para as reuniões, muito menos
apresentou qualquer proposta de contrato, dessa forma entendemos que não há interesse
no comercio deste produto em nível industrial e sendo assim dei por finalizado esse case
da copaíba. Não faremos outras visitas por entendermos que há contribuições a serem
feitas da nossa parte.
8
Construção do mecanismo de controle da qualidade orgânica
na associação Aroeira, Piaçabuçu-AL
Fabiano Leite Gomes¹, Emerson Oliveira²
¹Pesquisador na EntoAgro, Engenheiro Agrônomo, Dr.
²Bacharelando em Agroecologia, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade
Federal de Alagoas (UFAL)
RESUMO:
O extrativismo é uma estratégia fundamental para promover a conservação da
biodiversidade, além de ampliar a dimensão social da promoção da geração de renda,
organização associativa, formação continuada-contextualizada, inclusão de gênero,
soberania alimentar, comercialização em circuitos curto. As atividades da IV Expedição
do Baixo São Francisco (BSF) acontecem na associação Aroeira, localizada no município
de Piaçabuçu, Estado de Alagoas. Fundada em meados do ano 2010, constituídas em sua
maioria por mulheres, quais possuem cerca de 80 famílias associadas entre-as pescadoras,
artesãs, agricultoras e extrativistas, quais se organizam à cerca da coleta, processamento
e comercialização da Schinus terebinthifolia (nome comuns: aroeira-vermelha, aroeirapimenteira), além das frutas nativas da restinga da foz do Rio São Francisco (cajá
amarelo, mangaba, jenipapo, massaranduba, cambuí, ingá, araçá, Ouricuri, caju, manga,
araticum cagão, cruiri, ameixa do mato, coco). O que define a atividade é a conservação
dos recursos naturais, a manutenção do ecossistema, assim como a diversidade biológica
que se desenvolve no ambiente local e a região em que está inserido, respeitando a
singularidade cultural. O extrativismo sustentável também pode ser orgânico, sendo esta
uma estratégia fundamental para promover a conservação da biodiversidade, além de
ampliar o valor de mercado. O objetivo do acompanhamento técnico e da pesquisa açãosocioambiental é construir as bases do mecanismo de controle da qualidade orgânica para
os membros fornecedores-coletores, levantamento fitossociológico participativo das
áreas de coleta das extrativista e fortalecer o empreendimento agroindustrial na dinâmica
do processamento dos produtos da sociobiodiversidade. A metodologia para o estudo
adotou-se o processo de mobilização e sensibilização do grupo Aroeira, a definição do
referencial teórico – produtos da sociobiodiversidade, visto que algumas categorias
teórico-práticas norteiam essa investigação/intervenção tais como: participação,
desenvolvimento sustentável, agroecologia, agricultura orgânica, mecanismo de controle
da qualidade orgânica, economia solidária, enfim as temáticas que fazem parte das metas
a desenvolvidas no âmbito das formações. A construção participativa do estudo permite
o alinhamento mútuo da pesquisa-ação-participativo e o público beneficiário, valorando
e reconhecendo a realidades e necessidades locais. As formações em mecanismo de
controle da qualidade orgânica aconteceram em oficinas moduladas em encontros
mensais (realizados em março, abril, maio e junho) e continuadas à posteriori, nas bases
da dialógica participativa e emancipatório das vozes do campo, qual esse processo e que
ações promovem a educação contextualizada ao processo construtivista e transversal. O
resultado será o cadastro da associação aroeira no cadastro nacional de produtores e
extrativistas orgânicos por meio do mecanismo do organismo de controle social (OCS)
para à venda direta no âmbito do mercado institucional (Programa Nacional da
Alimentação Escolar – PNAE e Programa de Aquisição de Alimentos – PAA) e
comercialização nas feiras livres municipais, construção e implantação do plano de
manejo extrativista dos produtos da sociobiodiversidade e afins.
INTRODUÇÃO
A presente pesquisa-ação dar-se no espaço-tempo de uma formação continuada
em mecanismo de controle da qualidade orgânica no território do Baixo São Francisco
(BSF), Estado de Alagoas. A atividade proposta é a construção da certificação
participativa e o controle social da atividade das mulheres extrativistas da Associação
Aroeira, localizado no município de Piaçabuçu promovida pela IV Expedição BSF.
Buscou-se a mobilização e sensibilização do público beneficiário junto a associação para
os processos de construção e diálogos de saberes e construção do conhecimento
agroecológico e articulação dos membros que atuam na dimensão ambiental para o
extrativismo sustentável nas premissas da Agroecologia.
O território do BSF foi marcado pela devastação do bioma Mata Atlântica, desde
a extração do pau-brasil no período colônia e, posteriormente, o plantio da cana-deaçúcar, coqueiros e pecuária extensiva até os dias atuais, com a predominância da
concentração fundiária; O setor agropecuário marginaliza as famílias extrativista e de
trabalhadoras/es dificultando o acesso à coleta dos frutos da sociobiodiversidade.
A associação Aroeira caracteriza-se pela participação e envolvimento das
mulheres na ruptura do machismo arcaico domiciliar, que saem através da organização
associativa se reunir, capacitar e empreender em grupo para a comercialização direta e
beneficiamento da produção, quais têm conseguido acessar políticas públicas à exemplo
do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
As atividades do marco legal da agricultura orgânica no Brasil está alicerçada na
Lei n° 10.831/03, o decreto Nº 6.323/07, que regulamenta a lei dos orgânicos no Brasil,
como também outros regulamentos entraram em vigor, como as inúmeras instruções
normativas (IN’s).
Com a criação da Comissão da Produção Orgânica (CPOrg) no estado de Alagoas
na data de 12 de março de 2012, constitui-se o espaço visando a consolidação de ações,
programas, eventos entre outros, visando expandir a agricultura orgânicos nos diversos
territórios alagoanos; com a constituição da CPOrg demandas das organizações diversas
chegaram à Superintendência Federal de Agricultura, Pecuária e Abastecimentos de
Alagoas (SFA/AL) do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) para
o cadastramento do Organismo Controle Social (OCS) e do Organismo Participativo de
Acreditação da Qualidade Orgânica (OPAC).
O objetivo é construir a partir da formação continuada nos Mecanismo de Controle
da Qualidade Orgânica a partir do Organismo Controle Social (OCS) e do Organismo
Participativo de Acreditação da Qualidade Orgânica (OPAC) e demandas pelo
cadastramento na Divisão de Política, Produção e Desenvolvimento Agropecuário
(DPDAG) da SFA/AL do MAPA no território do BSF.
METODOLOGIA
A metodologia para o estudo adotou-se o processo de mobilização e sensibilização
do grupo Aroeira, a definição do referencial teórico – produtos da sociobiodiversidade,
visto que algumas categorias teórico-práticas norteiam essa investigação/intervenção tais
como: participação, desenvolvimento sustentável, agroecologia, agricultura orgânica,
mecanismo de controle da qualidade orgânica, economia solidária, enfim as temáticas que
fazem parte das metas a desenvolvidas no âmbito das formações. A construção
participativa do estudo permite o alinhamento mútuo da pesquisa-ação-participativo e o
público beneficiário, valorando e reconhecendo a realidades e necessidades locais.
RESULTADOS
As formações foram realizadas em módulos com encontros mensais, ora
quinzenais, visando promover o tempo-escola e o tempo-comunidade na pedagogia da
alternância. As atividades iniciaram em março do corrente ano e seguem ao longo do ano
na pesquisa-ação-participativa valorando e reconhecendo os saberes locais em rede com
as bases científicas (Quadro 1). As ilustrações apresentam os registros fotográficos e os
convites digitais para publicitar o chamamento das extrativistas da associação Aroeira e
nas mídias diversas dos parceiros (Figura 1, 2, 3, 4 e 5)
A Divisão de Política, Produção e Desenvolvimento Agropecuário (DPDAG), é o
setor responsável para receber os formulários conforme modelos sugeridos nos Anexos
V, VI e VII, da Instrução Normativa n° 19, de 28 de maio de 2009, no Artigo 99, para o
cadastramento da OCS, junto à Superintendência Federal de Agricultura, Pecuária e
Abastecimentos de Alagoas (SFA/AL) do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento).
Quadro 1 - Formação continuada em Mecanismo de Controle da Qualidade Orgânica na
Associação Aroeira, Piaçabuçu-Alagoas.
Módulos
Carga
horária
(horas)
04
Data
Educador
24/03/2021
Fabiano Leite
Gomes e Emerson
Oliveira
1. Finalidade da Certificação; 2.
Surgimento da certificação orgânica; 3.
Conceito de SPGs; 4. Histórico da
certificação participativa.
1. Princípios dos SPG’s
04
14/04/2021
04
28/04/2021
1. Legislação Brasileira da AO; 2.
Conformação de OPACs; 3. Conformação
de OCS.
Extrativismo sustentável orgânico e a IN nº
17
04
12/05/2021
04
16/06/2021
Bases Introdutórias do Mecanismo de
Controle para a Garantia da Qualidade
Orgânica no Brasil (Certificação por
Auditoria, Sistema Participativa de
Garantia (SPG) e Organismo de Controle
Social (OCS).
Fabiano Leite
Gomes e Emerson
Oliveira
Fabiano Leite
Gomes e Emerson
Oliveira
Fabiano Leite
Gomes e Emerson
Oliveira
Figura 1: Módulo I - Bases Introdutórias do Mecanismo de Controle para a Garantia da Qualidade
Orgânica no Brasil (Certificação por Auditoria, Sistema Participativa de Garantia (SPG) e
Organismo de Controle Social (OCS), 24 de março de 2021.
Figura 2: Módulo II - 1. Finalidade da Certificação; 2. Surgimento da certificação orgânica; 3.
Conceito de SPGs; 4. Histórico da certificação participativa. 14 de abril de 2021.
Figura 3: Módulo II - Princípios dos SPG’s, 28 de abril de 2021.
O cadastramento da OCS possibilita ao agricultor familiar comercializar seus
produtos diretamente ao consumidor (venda direta) e participar de Programas
Governamentais como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e Programa
de Aquisição de Alimentos (PAA), venda institucional.
No estado de Alagoas existem 19 OCS, totalizando 105 cadastros de agricultores
familiares, além de 6 organizações certificadas por auditoria, sendo uma delas composta
por 13 agricultores familiares da Zona da Mata e as demais iniciativas privadas de
empresários de acordo com a Lei n° 10.831/03, o Decreto Nº 6.323/07 e demais
regulamentos da produção orgânica em vigor.
Figura 4: Módulo III - 1. Legislação Brasileira da AO; 2. Conformação de OPACs; 3.
Conformação de OCS, 12 de maio de 2021.
Figura 5: Módulo IV - Extrativismo sustentável orgânico e a IN nº 17, 16 de junho de 2021.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As formações continuadas seguem no segundo semestre do ano corrente para a
conclusão dos módulos, ao passo, que estamos articulando o grupo Aroeira no Sistema
Participativo de Garantia (SPG) Bem Viver, como também, o cadastro no sistema
nacional de produtoras/es de alimentos orgânicos (SFA/AL e MAPA).
Diagnóstico da condição odontológica e
desenvolvimento de ações de promoção de saúde
bucal nas comunidades ribeirinhas do Baixo São
Francisco
9
Daniela Ferreira de Oliveira¹; Christiane Cavalcante Feitoza²
¹ Discente do curso de Odontologia da Universidade Federal de Alagoas - FOUFAL
² Professora Adjunta da Universidade Federal de Alagoas – UFAL, campus Arapiraca
RESUMO
Doenças bucais podem ser evitadas por meio de medidas preventivas e de promoção e
educação em saúde. Os ribeirinhos do Baixo São Francisco apresentam uma baixa
condição socioeconômica, e por esse motivo infelizmente muitas vezes não conseguem
ter acesso a uma saúde bucal de qualidade. Pesquisadores da Universidade Federal de
Alagoas em parceria com outras universidades e órgãos ambientais inovaram com ações
de promoção da saúde bucal voltadas para a comunidade ribeirinha das cidades do Baixo
São Francisco, tendo o objetivo de relatar uma experiência vivenciada nas comunidades
ribeirinhas durante a III Expedição Científica do Baixo São Francisco, entre os dias 29 de
novembro a 10 de dezembro de 2020. O estudo observacional do tipo pesquisa-ação pode
ser desenvolvido através da articulação da equipe de coordenação da Expedição,
professores, secretários de educação, meio ambiente e saúde, com a equipe da EMATER
e dos municípios. Cartazes e atividades recreativas foram utilizadas juntamente com a
distribuição de kits de higiene oral. Também foi realizada uma análise da condição bucal
das crianças dos municípios visitados. Com isso, foi possível constatar a presença de
diversas maloclusões e de dentes cariados, assim como perda de elementos dentais de
forma precoce. Diante de uma população que se encontra em vulnerabilidade social, este
estudo contribuiu com uma visão sobre a experiência dos cirurgiões dentistas, que deve
ser considerada parte interessada e importante na implementação e sustentabilidade do
programa de saúde bucal para a população ribeirinhas.
INTRODUÇÃO
A Odontologia é a especialidade que estuda as estruturas da boca e regiões
adjacentes, suas doenças e tratamentos. Dentre as enfermidades mais frequentes estão a
cárie, a doença periodontal e a má oclusão. É uma área que mesmo com todos os avanços
do Sistema Único de Saúde (SUS), ainda enfrenta inúmeras dificuldades.
Muitas doenças bucais podem ser evitadas por meio de medidas preventivas e de
promoção e educação em saúde. A Promoção da Saúde (PS) exige a compreensão da
relação do ser humano com sua história, suas crenças e hábitos, relações com o mundo,
com seu ambiente sociocultural, suas necessidades e direitos. Trabalhar educação em
saúde é contribuir para que através do conhecimento motivacional ocorram pequenas
mudanças na vida das pessoas, o que pode levar ao bem-estar físico e emocional do
indivíduo e contribuir também para uma melhor relação entre o profissional da saúde e o
sujeito que está sendo beneficiado com a ação.¹
Os programas de Promoção de Saúde Bucal seguem como base um serviço de
saúde democrático, universal, integral e igualitário. A Odontologia, por muito tempo
dedicou-se à elaboração e aprimoramento de técnicas operatórias e não conseguiu
concentrar esforços na área de prevenção e promoção da saúde. Com a chegada do
cirurgião-dentista ao Programa Saúde da Família, uma nova perspectiva foi gerada sobre
um modelo de atenção e acesso às ações de saúde bucal, propiciando uma atenção integral
aos indivíduos.²
Infelizmente, o acesso à saúde bucal não chega a todas as comunidades. O termo
ribeirinho designa qualquer população que vive às margens de rios. Os ribeirinhos do
Baixo São Francisco apresentam uma condição socioeconômica e cultural muito pobre,
sobrevivem e sustentam suas famílias com a pesca e agricultura, que dependem
diretamente do Rio São Francisco. Este rio apresenta diversas funções para a comunidade
que se forma às suas margens, atuando como fonte de renda, barreira geográfica e ponte
ambiental, restringindo e ao mesmo tempo criando formas de interação.³
Partindo desse preâmbulo, a III Expedição Científica do São Francisco, realizada
em dezembro de 2020, por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas em
parceria com outras universidades e órgãos ambientais, neste ano, inovou com ações de
promoção da saúde bucal voltadas para a comunidade ribeirinha das cidades do Baixo
São Francisco. O objetivo foi levar esperança a estes menos favorecidos, mostrando que
são importantes e que a sociedade também olha por eles, através do compartilhamento de
forma lúdica de informações sobre a prevenção das doenças bucais para despertar a
importância do autocuidado quanto à saúde da boca e saúde geral.
METODOLOGIA
Este trabalho caracteriza-se como qualitativo, observacional, com metodologia de
pesquisa-ação, ou seja, além do objeto de estudo e pesquisa, ações educativas foram
desenvolvidas diariamente entre os dias 01/12/2020 à 09/12/2020, em prol da sociedade,
cujo público-alvo foi a comunidade ribeirinha do Baixo São Francisco. O cenário de
atuação foi as escolas públicas e associações dos moradores dos municípios de Alagoas:
Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, São Brás, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo,
Piaçabuçu e em Sergipe, Brejo Grande.
Esta pesquisa-ação em promoção de saúde bucal foi coordenada por uma
profissional de Odontologia e por uma acadêmica do mesmo curso da UFAL; contou com
o apoio da equipe da III Expedição do Baixo São Francisco, que nas edições anteriores
perceberam a necessidade de se fazer algo a mais por esse público, indo além das ações
socioambientais e vislumbraram a possibilidade de integrar ações de saúde, neste ano,
Saúde Bucal.
A dinâmica para organizar as ações aconteceu através da articulação entre a
coordenação da Expedição, com os professores, secretários de educação, meio ambiente
e saúde, com a equipe da EMATER de cada município. Assim, através de prévias reuniões
virtuais devido à pandemia da COVID-19, planejaram-se as possibilidades de atividades
a serem aplicadas em cada comunidade, levando-se em consideração as peculiaridades de
cada região, a forma de acesso às escolas e à associação de moradores. Ao atracar em
cada município, a equipe da EMATER, juntamente com os motoristas da Universidade
Federal de Alagoas e da Universidade Federal de Sergipe ficaram também com a
incumbência de levar a equipe da expedição até as unidades acolhedoras da ação.
Como ferramentas auxiliares no desenvolvimento das ações foram utilizados
vídeos educativos de saúde bucal, cartazes com tópicos sobre como manter um sorriso
saudável, placas personalizadas foram utilizadas em gincanas educativas de mitos e
verdades na Odontologia, onde foram feitas perguntas como: Meu dente já nasceu
cariado? Escova de cerdas duras são melhores para escovar os dentes? Quanto mais creme
dental na escova de dente melhor é a escovação? Minha gengiva sangrou, devo parar de
escovar? Todas essas perguntas tiveram por finalidade aguçar a curiosidade das crianças
e dos pais e, consequentemente, interagir com os ribeirinhos e sanar dúvidas frequentes
sobre a Odontologia. Foram também disponibilizadas atividades de caça-palavras,
palavras cruzadas e pinturas com a temática em questão: saúde bucal, cárie e placa
bacteriana, hábitos alimentares e sua relação com a doença cárie, hábitos de higiene bucal.
No âmbito da pesquisa, foi feito um levantamento do tipo de oclusão, da
incidência de cárie dentária e perda de primeiros molares permanentes nas crianças das
instituições de 2-14 anos, seguindo todo o protocolo de biossegurança (Álcool em gel
70%, luvas, máscaras e abaixadores de língua descartáveis). O exame clínico foi realizado
individualmente seguindo um odontograma adaptado, em uma sala reservada para a
consulta de cada criança, onde os responsáveis presentes foram esclarecidos e receberam
um termo de consentimento livre e esclarecido.
Esta ação também foi contemplada com cinco mil kits de higiene bucal,
instrumentos indispensáveis para o autocuidado da boca, doados pela Colgate-Palmolive,
que foram distribuídos após as atividades educativas, em todos os pontos visitados pela
Expedição. Cada kit era composto por uma escova dental, um creme dental e um folheto
educativo. As crianças que não puderam comparecer à ação, devido ao período de
pandemia, tiveram
os kits entregues
aos
representantes
escolares
que
se
responsabilizaram em entregar junto com as atividades didáticas ou cestas básicas cujos
responsáveis iam buscar mensalmente nas escolas.
RESULTADOS
As ações de promoção da saúde bucal desenvolvidas durante a III expedição do
Baixo São Francisco surgiram da necessidade de traçar um perfil das condições
odontológicas das crianças dessas comunidades ribeirinhas, promover ações que
pudessem disponibilizar boas lições à população e estimular mudanças de hábitos para
prevenção das doenças bucais, sensibilizando gestores e profissionais da odontologia e
educação para a importância do investimento e valorização da Saúde Bucal.
Durante as visitas, observou-se o contexto geral das famílias de cada município
ribeirinho visitado. Em grande parte das cidades, foi possível ver que as casas são
construídas em alvenaria e o esgoto é coletado por meio de fossas sépticas ou a céu aberto,
tendo como destino final o rio. Segundo relatos dos professores das instituições visitadas,
as crianças são de origem familiar humilde e frequentam a escola para terem ao menos
uma refeição garantida, a merenda escolar, visto que muitas famílias não têm condições
de oferecer as três refeições diárias mínimas. Com a pandemia, tal condição tornou-se
mais crítica, e em alguns municípios, as cestas básicas para auxílio alimentar estão sendo
distribuídas aos responsáveis.
Com relação às atividades assistenciais desenvolvidas nas comunidades, tivemos
uma experiência satisfatória com todas elas. Durante cada visita foi possível interagir com
as crianças, pais e professores e saber das dificuldades enfrentadas pela população. A
experiência obtida durante essa série de atividades foi fundamental para uma formação
diferenciada de todos os expedicionários, desenvolvendo um aprimoramento científico,
técnico e humano.
Cada escola e associação receberam positivamente as atividades; os alunos se
reuniram mantendo o distanciamento social, o uso de máscara e álcool gel, no pátio das
escolas na espera de nossa apresentação. A presença de alguns pais também foi observada,
o que tornou as atividades ainda mais dinâmicas.
Inicialmente realizava-se uma palestra com os alunos e professores acerca de
dicas como manter um sorriso saudável; nessa palestra deixava-se claro para os ouvintes
a importância do uso correto da escova de dente, do fio e do creme dental, a importância
de abandonar hábitos deletérios para a saúde bucal e como também acrescentar na rotina,
hábitos que proporcionam uma melhor qualidade na saúde oral (Figura 1A). As gincanas
de mito e verdade foram acompanhadas com perguntas que pudessem despertar o saber
dos estudantes e sanar suas curiosidades, onde as crianças interagiram para justificar sua
resposta de mito ou verdade e ganharam brindes como camisa, canetas e blocos de notas,
o que estimulava ainda mais a participação de cada ribeirinho (Figura 1B).
Figura 1 - Palestra de promoção e prevenção a saúde bucal para a comunidade
Quilombola do município de Brejo Grande, SE (A). Entrega de prêmios para as crianças
da escola Messias Calumby, em Piaçabuçu, AL (B).
A
B
O ensino da técnica de escovação foi ilustrado com auxílio de bocas em
manequins e escovas dentais; devido ao período de pandemia não foi possível realizar o
monitoramento de escovação entre os alunos, contudo alguns foram convidados para
demonstrar nos manequins a forma que realizavam a escovação em casa (Figura 2A). Os
alunos também tiveram a oportunidade de realizar atividades de caça-palavras e palavras
cruzadas com temas relacionados à odontologia (Figura 2B); em algumas cidades onde
as escolas dispunham de projetor multimídia, como data show, foi possível proporcionar
para as crianças uma sessão cinema, com um vídeo educativo curto que relatava a
importância de desenvolver todos os processos relacionados a higiene bucal, desde
escovar os dentes após cada refeição, ao uso do fio dental e realizar a escovação da língua.
Os filmes do Dr. Dentuço e da Dra. Escovita (Colgate) foram os escolhidos para as
sessões pipocas” (Figura 3).
Figura 2 - Ensino de técnica de escovação em manequim com as crianças de Brejo
Grande, SE (A). Estudante do Município de Pão de Açúcar, AL, desenvolvendo
atividades recreativas de caça-palavras (B).
A
B
Além da parte educativa, foi possível realizar um levantamento piloto das
condições odontológicas das crianças de cada município, onde avaliou-se o perfil oclusal
das crianças, a incidência de cárie e a perda de dentes decíduos de forma prematura ou
ainda, dos próprios dentes permanentes. A avaliação foi realizada dentro de uma sala,
com apenas um dentista e uma acadêmica de Odontologia e as crianças eram chamadas
individualmente para a consulta, respeitando as diretrizes do Conselho Nacional de Saúde
(Figura 4). Ao final de cada atividade nas escolas, a equipe fazia a distribuição de kits de
higiene bucal para as crianças e para os adultos que se fizeram presente nas palestras e
essa distribuição de kits aconteceu em todas as cidades visitadas (Figura 5).
Figura 3 - Sessão de cinema educativo na Escola Municipal de Chinaré, Igreja Nova, AL.
Figura 4: Avaliação da dentição dos alunos da cidade de Chinaré, Igrela Nova, AL.
Figura 5: Entrega de kits de higiene oral para a população do município de São Brás, AL.
Como resultado parcial, pode-se identificar a presença de diversas más oclusões
na maioria dos participantes. Com relação à perda precoce de elementos dentais,
infelizmente, constatou-se nessa amostra de mais de 100 crianças, com idade entre 2-14
anos, que mais de 50% tem ou já tinham tido cárie dentária e que, no grupo dos ribeirinhos
entre 8-10 anos, mais de 40% já haviam perdido pelo menos 1 primeiro molar permanente
ou já o apresentava muito destruído por cárie. Vale ressaltar, que o ser humano apresenta
4 primeiros molares permanentes e que estes erupcionam por volta dos 6 anos de vida e
devem permanecer na boca durante toda a vida. Tal condição de doença bucal nos dias
atuais ainda é uma realidade, principalmente em regiões que se encontram em
vulnerabilidade social, como as comunidades visitadas ao longo do Velho Chico.
CONCLUSÃO
Diante de uma população que se encontra em vulnerabilidade social, este estudo
contribuiu com uma visão sobre a vivência dos expedicionários que deve ser considerada
extremamente importante na implementação e sustentabilidade do programa de saúde
bucal para a população ribeirinhas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DOMINGOS P, RICCI-DONATO H, NONATO C, GUTIERRE G, SIGNORI J.
Trabalhos voluntários em programas de Saúde bucal: relato de experiência obtida no
projeto “sorriso Caiçara”. Journal of Research in Dentistry. 2019; 7(1);1-6.
JÚNIO J, VIEIRA L, LIMEIRA M, GOMES M, ARAÚJO M, OLIVEIRA D, CHACON
L, MACENA M, RODRIGUES R. Práticas educativas em Saúde bucal direcionadas aos
usuários do restaurante popular da cidade de Patos-PB. Revista Brasileira de Extensão
Universitária. 2017; 8(2);67-74.
SANTOS C, XAVIER A, ARAKAWA-BELAUNDE A, BASTOS R. Promoção da
Saúde da população ribeirinha da região Amazônica: relato de experiência. Rev.CEFAC.
2015;17(5),1521-1530.
10
Educação ambiental nas escolas ribeirinhas do baixo
São Francisco em tempos de COVID.
José Vieira Silva1, Antônio Jackson Borges Lima2
1
2
Professor Associado, PPGAA / CRAD. Campus Arapiraca. Universidade Federal de Alagoas.
Fundador e Gestor do Museu Ambiental Casa do Velho Chico. Traipu - Alagoas.
RESUMO
As atividades de educação ambiental realizadas durante a 3ª Expedição Científica do
Baixo São Francisco, em 2020 foram desenvolvidas em escolas públicas de ensino
fundamental e médio das comunidades ribeirinhas. Devido às recomendações e
protocolos adotados em tempos de pandemia, as visitas às escolas foram somente com a
presença de professores e diretores e teve como finalidade fazer o levantamento de
demandas sobre o desenvolvimento de futuras ações de educação ambiental que
estivessem diretamente ligados aos problemas ambientais do Rio São Francisco. Foram
realizadas reuniões também com gestores públicos municipais e das áreas correlatas de
atuação com a educação. Já conhecida à realidade local a partir das expedições anteriores,
no ano de 2020 foram doados notebooks e Datashow para duas escolas ribeirinhas, como
parte de um projeto piloto que será desenvolvido no ano de 2021.
INTRODUÇÃO
Os problemas ambientais mais severos do BSF que foram encontrados nas
Expedições de 2018 e 2019 e decorrem das condições sócio-econômicas críticas e
adversas, onde a população ribeirinha residente utiliza, em grande escala, os recursos
naturais locais como fonte de subsistência. Isto tem gerado uma pressão antrópica muito
grande sobre as áreas de Caatinga e dos recursos hídricos, com diferentes níveis de
importância ecológica, conservação e degradação. De maneira geral, ao longo dos
tempos, as áreas de Caatinga do BSF e mesmo as áreas das regiões de transição e de mata
atlântica têm sido negligenciadas do ponto de vista ambiental, de forma que a devastação
atinge proporções alarmantes. E este fato tem se agravado devido ao elevado grau de
degradação nas áreas de preservação permanentes (APPs), matas ciliares e nascentes,
tanto dos seus afluentes de 1ª e 2ª ordem, como do próprio Rio São Francisco.
Os indicadores socioeconômicos do BSF apresentam um PIB baixo e os Índices de
Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios são classificados como baixos (0,45 a
0,599, grande maioria) e médios (entre 0,6 e 0,699, poucos). O Alagoano do BSF tem um
salário médio mensal inferior ao salário mínimo nacional e renda per capita média mensal
por pessoa da família inferior a R$ 200,00 (IBGE, 2021). Outro ponto indicador, que é
reflexo direto da distribuição de renda e muito preocupante, diz respeito ao Índice IDEB,
das séries iniciais e finais do ensino primário, onde os valores médios da última avaliação,
divulgada em 2017, foram considerados preocupantes e muito baixos e estão entre 3 e 5
(INEP, 2021).
As expedições científicas no Baixo São Francisco (BSF) realizadas nos anos de
2018 e 2019 permitiu-nos conhecer e vivenciar a realidade e os desafios da educação nas
escolas públicas e privadas das comunidades ribeirinhas. É um desafio que vai muito além
dos conteúdos programáticos e planejamentos pedagógicos, pois são limitantes em
decorrência da infraestrutura de apoio, disponibilidade de recursos e, sobretudo, pelas
dificuldades de inclusão digital.
As abordagens de educação ambiental adotadas durante as expedições no Baixo São
Francisco foram voltadas para uma integração de conteúdos técnico-científicos no contexto
das escolas ribeirinhas. Este modelo já utilizado com sucesso em comunidades ribeirinhas
do Brasil e em diferentes regiões do mundo (América do Norte, África, Ásia e Oceania),
consiste em inserir e executar os planejamentos pedagógicos de forma enfática, onde os
governos, das três esferas, garantam os recursos nos seus planos plurianuais (SORRENTINO
et al, 2005; LIMA, ANDRADE, 2010; CUTTER-MACKENZIE, 2011; JACOBI, 2013;
NWACHUKWU, 2014; ROSA, et al, 2015; BERCHEZ et al, 2016; NOGUEIRA, SOUZA,
2019; EMAS, 2020).
No Brasil, a educação ambiental foi incluída pela primeira vez no Plano Plurianual
do governo federal através da Lei nº 9.276, de 9 de maio de 1996. Esta previa a promoção
da educação ambiental através da divulgação e uso de conhecimento sobre tecnologias de
gestão sustentável dos recursos naturais. Com a Lei n° 9.795, de 27 de abril de 1999, que
dispõe sobre a educação ambiental, foi instituída a Política Nacional de Educação
Ambiental, que permitiu o governo federal oficializar o entendimento de educação
ambiental:
”Entende-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a
coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e
competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do
povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade". (BRASIL, 2005).
Mesmo com todo aparato moderno de Leis sobre Educação ambiental, pode-se
perceber na prática que há uma enorme negligência quanto à sua aplicação e execução
prática, principalmente nos locais onde ocorrem as mais demandas e carências.
Independente da esfera das escolas públicas, municipais ou estaduais, ao se fazer uma
análise conjuntural das condições encontradas nas escolas ribeirinhas do BSF, constata-se
que muito pouco mudou em relação à adoção de uma matriz didática pedagógica voltada à
educação ambiental nestas escolas.
Com este contexto posto, as percepções levantadas durante as expedições científicas
no BSF apontam para a existência de problemas ambientais comuns aos demais locais do
mundo. No entanto, no BSF, a realidade da educação ambiental nas escolas ribeirinhas é
bastante destoante, uma vez que a execução dos conteúdos e temáticas ambientais do
contexto pedagógico ainda está distante de serem vivenciados na prática educativa local
(SILVA, VIEIRA, RIAL, 2020; SILVA, CAMPELO, RIAL, 2020).
Há uma grande lacuna entre os conteúdos dos planejamentos pedagógicos e o
contexto ambiental local. E isto constitui uma das maiores limitações quanto à adoção de
uma política de ensino de conteúdos ambientais mais abrangentes e associados às
realidades locais. Com isto em mente, o conteúdo deste material visa retratar um pouco
da realidade encontrada nas escolas públicas e privadas visitadas durante as duas
Expedições.
METODOLOGIA DE TRABALHO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM
TEMPOS DE COVID
A 3ª Expedição Científica do Baixo São Francisco ocorreu no período de 30 de
novembro a 10 de dezembro de 2020, no meio de uma pandemia de COVID-19. Neste
período foram seguidos todos os procedimentos de distanciamento, proteção e de higiene
recomendados para se evitar o contágio e a transmissão do vírus. Estes procedimentos
foram mantidos ao longo de toda a expedição e durante as visitas aos municípios e
comunidades, e seguidos à risca. As escolas visitadas foram dos municípios de Piranhas,
Pão de Açúcar, Traipu, São Brás (parada extra), Porto Real do Colégio, Igreja Nova
(Chinaré), Penedo, Piaçabuçu e em Sergipe, Brejo Grande (associação / quilombola).
As atividades de educação ambiental foram realizadas durante a 3ª Expedição
Científica do Baixo São Francisco, em escolas públicas e particulares de ensino
fundamental e médio das comunidades ribeirinhas. Devido às recomendações e
protocolos adotados em tempos de pandemia, as visitas e reuniões nas escolas foram
realizadas somente com a presença de professores e diretores. Estas reuniões tiveram
como finalidades fazer os levantamentos de demandas de cada localidade sobre o
desenvolvimento de futuras ações de educação ambiental e que estivessem diretamente
ligados aos problemas ambientais locais em relação ao rio.
Como as aulas presenciais estavam suspensas e ocorrendo somente no modo online, foi relatada uma grande dificuldade de adaptação, tanto de professores, diretores e
principalmente dos alunos mais carentes, por falta de recursos de informática e de
telefonia para acesso à rede mundial de computadores e internet.
Além das reuniões com os professores e diretores de escolas, foram realizadas
reuniões com gestores e secretários municipais de áreas correlatas à educação para se
conhecer a atual situação das políticas públicas adotadas pelos municípios para a
educação em tempos de pandemia. Na sua totalidade, foi percebida uma dificuldade muito
grande dos gestores para adequação dos orçamentos às novas realidades de pandemia e
para garantir um ensino com uma qualidade mínima aceitável.
Em decorrência do conhecimento da realidade local a partir das expedições
anteriores, no ano de 2020 foram planejadas e implantadas as primeiras ações
permanentes efetivas de educação ambiental decorrentes da Expedição, com a doação de
dois (2) notebooks e um (01) datashow para duas escolas ribeirinhas, como parte de um
projeto piloto que será desenvolvido no ano de 2021.
RESULTADOS
De forma geral, mesmo em tempos de pandemia de COVID, as reuniões nas escolas
das comunidades ribeirinhas permitiram uma grande integração expedição-comunidades.
Esta integração resultou conhecimento da realidade local ainda maior, dada às condições
de pandemia, bem como ver quais os desafios para enfrentar ou superar os problemas para
uma nova abordagem dos problemas ambientais enfrentados pelas comunidades, em
relação ao rio. Além disso, foi possível conhecer quais recursos já existem e estão
disponíveis nas escolas e a forma como poderão utilizados para melhorar o nível de
conscientização dos ribeirinhos para superar os problemas de degradação do rio.
De todas as reuniões, foi possível perceber que o grau de dificuldade quanto à
disponibilidade de infraestrutura e de recursos financeiros para a educação ambiental são
ainda maiores do que os observados nos anos de 2018 e 2019. Portanto, os desafios para
os gestores públicos também serão maiores, assim como deveremos pensar em novas
alternativas e parcerias para o desenvolvimento de novas ações inovadoras para levar
educação ambiental aos ribeirinhos.
– Principais eixos de trabalho para a Educação Ambiental
Com o advento da pandemia de COVID, a realidade das comunidades ribeirinhas
do Baixo São Francisco requer uma atenção ainda mais diferenciada pelos órgãos
governamentais. Mesmo dispondo do recurso básico mais importante, a água, estas
comunidades continuam a viver em um estado de pobreza extrema, com grande escassez
de recursos básicos para alimentação e com sérios problemas de degradação ambiental.
Um dos pontos de maior limitação, e o principal gargalo identificado nas duas expedições
científicas (2018 e 2019), foi o baixo nível educacional da população em geral. Em 2020,
com as limitações impostas pela pandemia, esta situação se tornou ainda mais grave, o
que não é diferente da realidade causado por diversos fatores inerentes ao sistema
educacional brasileiro, em todo o território Nacional (Silva et al., 2020).
Dentre os pontos identificados como sérios limitantes para uma ação efetiva de
educação ambiental em curto prazo estão:
- Baixa qualidade do ensino nas escolas ribeirinhas, principalmente nas séries
iniciais do ensino fundamental: isto ocorre em função das limitações de recursos
financeiros locais e das deficiências inerentes ao suporte educacional para inclusão digital
e tecnológica disponibilizada para estas escolas ribeirinhas.
- É urgente a inserção das escolas no contexto de desenvolvimento tecnológico e
digital que permitam as mesmas o acesso às informações universais disponíveis no mundo
digital e a difusão destas como ferramentas de ensino, aprendizagem e desenvolvimento
humano e social.
- Realização de qualificação continuada com cursos e metodologias voltadas para
educação ambiental integrada para professores, coordenadores, diretores e funcionários
das escolas visitadas.
- Atualização de recursos didáticos e de suporte como biblioteca, brinquedoteca e
outros suportes afins com temas sobre educação ambiental que permitam ampliar ou
mesmo ser a única fonte de recursos a ser consultada pelos estudantes. Para isso faz-se
necessário à disponibilização de recursos financeiros que possam fomentar a aquisição de
materiais de informática e audiovisuais, materiais didáticos, multimídia, brinquedos
pedagógicos, literatura educacional e similar atualizados pode ser somente um ponto
levantado para melhorar a qualidade do ensino e a educação ambiental das escolas
ribeirinhas.
– Questões a serem superadas pelas ações de educação ambiental
Com as três Expedições foi possível identificar que:
- Existe uma lacuna enorme ou mesmo falta absoluta de programas de educação
ambiental mais amplo no âmbito das comunidades ribeirinhas. Estas ações precisam fazer
parte da matriz educacional, de caráter permanente ou mesmo eventual e que tratem das
questões que atingem ou que provocam os problemas de degradação na bacia do rio.
- Há uma dissociação enorme entre os problemas ambientais que ocorrem no rio e
a realidade vista pelos ribeirinhos de forma geral, inclusive por gestores públicos e
educadores. Desta forma, torna-se difícil a conscientização da população e das
comunidades ribeirinhas, que são usuárias diretas das águas e dos serviços ambientais
ofertados pelo o Velho Chico.
- A falta de saneamento básico para a quase totalidade dos municípios da bacia do
Velho Chico, é outro ponto que pesa em muito para a ineficiência ou menor alcance das
ações de educação ambiental. Isto precisa ser trabalhado mais nas escolas, para que os
alunos saibam da importância do tratamento dos esgotos e da coleta de lixo, e poderem
associar seu lixo e seu esgoto com os problemas de poluição do rio.
- Realização de eventos locais tradicionais que possam ser associados com a
temática ambiental, como corrida de canoas, festas de padroeiros, peixamentos e outros
mais.
- Superação da cultura do vitimismo, pois há um forte traço cultural presente nestas
populações no que diz respeito a esperar que o poder público constituído resolva todos
seus problemas, inclusive aqueles de cunho pessoal. Esta cultura do vitimismo tem
mascarado e desvirtuado completamente o papel que cada indivíduo precisa assumir
perante os compromissos e obrigações inerentes à resolução da questão ambiental do rio.
- As políticas sociais e ambientais, no âmbito das esferas federal, estadual e
municipal, assim como das ações de agências públicas e privadas, não apresentam
capilaridade ou acolhida no âmbito das comunidades ribeirinhas, que estão alheias aos
problemas ambientais atuais e aos fatos causadores dos mesmos. É perceptível que há
esforços de uns poucos ativistas e defensores do Velho Chico, porém a extensão dos
problemas ambientais e sociais, em muito suplantam as ações desenvolvidas pelos mesmos.
- Dados Gerais das Escolas visitadas na 3ª Expedição Científica
No contexto geral, as escolas visitadas nas diferentes cidades foram:
Cidade: PIRANHAS – AL
- Escola Centro Municipal de Ensino Professor Ivan Fernandes Lima
Cidade: PÃO DE AÇÚCAR – AL
- Unidade Municipal de Ensino Bráulio Cavalcante
- Centro Educacional Opção – CEO
- Escola Primeiros Passos
Cidade: TRAIPU – AL
- Escola Municipal de Educação Básica Francisco Mangabeira
- Escola Estadual Moreno Brandão
Cidade: PORTO REAL DO COLÉGIO – AL
- Escola Municipal de Ensino Fundamental Prof Ernande de Figueiredo Magalhaes
Cidade: IGREJA NOVA (Povoado do CHINARÉ) – AL
- Escola Municipal de Educação Básica General Artur da Costa e Silva
Cidade: PENEDO - AL
- Escola Municipal de Educação Básica Professor Douglas Apratto Tenório
Cidade: PIAÇABUÇU – AL
- Grupo Escolar Municipal Messias Calumby
- Registros de algumas atividades relacionadas à educação ambiental desenvolvidas durante a
3ª Expedição Científica do BSF, em 2020.
Lançamento do livro “O Baixo São Francisco – Características Ambientais e Sociais”,
com o exemplar entregue e dedicado à EMATER, em Piranhas – AL.
Peixamento realizados em Piranhas – AL, Equipe da EMATER de apoio logístico
em ação conjunta da CODEVASF com a em terra às ações de Educação Ambiental,
Expedição.
em Piranhas - AL.
Reunião com os professores e diretores da Escola Municipal de Ensino Professor Ivan
Fernandes Lima, em Piranhas - AL
Reunião com os professores e diretores das escolas Unidade Municipal de Ensino
Bráulio Cavalcante, Centro Educacional Opção – CEO e Escola Primeiros Passos, em
Pão de Açúcar – AL.
Reunião com os professores e diretores da Escola Municipal de Educação Básica
Francisco Mangabeira e Escola Estadual Moreno Brandão, em Traipu – AL.
Reunião com gestores públicos, professores e diretores da Escola Municipal de Ensino
Fundamental Prof Ernande de Figueiredo Magalhaes, em Porto Real do Colégio – AL.
Entrega de equipamentos de informática (notebook e datashow) para a Escola
Municipal de Educação Básica General Artur da Costa e Silva para uso nas atividades
de educação ambiental, no povoado Chinaré, em Igreja Nova - AL.
Reunião com os professores, coordenadores e Diretor da Escola Municipal Professor
Douglas Apratto Tenório, com inclusão de alunos especiais nas atividades, em Penedo,
AL.
Reunião com professores, coordenadores e Direção e entrega de um notebook para
educação ambiental para a Escola Municipal de Educação Básica Messias Calumby, de
Piaçabuçu, AL.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Assim como verificado nas Expedições Científicas dos anos anteriores, é possível
afirmar de maneira ainda mais categórica e assertiva, que a pandemia só aumentou a enorme
lacuna ou distância que existia na abordagem entre os problemas ambientais atuais
encontrados na região do Rio São Francisco e o envolvimento das comunidades ribeirinhas
na busca de soluções locais.
Também é possível constatar que a educação ambiental, nas comunidades ribeirinhas
e escolas visitadas, continuam sendo tratada de forma superficial, seja no dimensionamento
de projetos pedagógicos, ou na falta de políticas públicas com estímulos e recursos oficiais
(federal, estadual e municipal) para desenvolvê-las de maneira efetiva. Com a pandemia foi
possível constatar que nem mesmo as poucas ações isoladas foram realizadas pelas
comunidades ribeirinhas.
Percebe-se ainda que exista uma grande dissociação por parte dos gestores públicos,
com relação aos problemas das áreas ambiental e afins com a política educacional vigente,
porém atribuem muitos problemas do dia-a-dia à falta de educação não formal das pessoas.
E para fins de planejamento futuro, por parte dos agentes públicos do baixo São
Francisco, é fortemente recomendado que desenvolvam uma política de educação ambiental
séria e focada nos problemas e nas questões diretas do dia-a-dia da degradação ambiental do
rio e como superá-las.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- BERCHEZ, F.A.S.; ET AL.. Marine and coastal environmental education in the context
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11
Salinidade da água no Baixo Rio São Francisco
Marcus Aurélio Soares Cruz1, Carlos Alberto da Silva1, Silvânio Silvério Lopes da
Costa2, Carlos Alexandre Borges Garcia2, Robson Dantas Viana1, Petrônio Alves
Coelho Filho3, Marco Yves de Aguiar Vitório Praxedes3, Lucas Cruz Fonseca4
1
Embrapa Tabuleiros Costeiros, 2Universidade Federal de Sergipe, 3Universidade Federal de Alagoas,
4
Instituto Tecnológico e de Pesquisas do Estado de Sergipe.
RESUMO
Visando fortalecer o diagnóstico das mudanças na qualidade das águas e monitorar
aspectos sócio-ambientais, foi realizada a III Expedição Científica do Baixo Rio São
Francisco, abrangendo uma área de 25.500 km 2, a qual possibilitou a coleta de amostras
de água superficial e com profundidade, em 27 pontos de amostragem. Os valores de
salinidade encontrados sugerem que entre os municípios de Piranhas-AL e Neópolis-SE
as águas podem ser classificadas como água doce, não apresentando restrição de uso para
irrigação de culturas. Já para os pontos de amostragem identificados pelos municípios de
Piaçabuçu-AL e Brejo Grande-SE, as águas em profundidade podem ser classificadas
como salobras. Também é possível destacar que as águas mais profundas apresentaram
maior teor de sais, devido ao avanço da cunha salina, que apresenta maior densidade que
a água doce. Os resultados encontrados demonstraram forte influência da água do mar,
que tem avançado, adentrando ao rio São Francisco, impactando diretamente na qualidade
da água e na biodiversidade deste importante rio brasileiro.
Palavras-chave: cunha salina, efeito da maré, qualidade da água.
INTRODUÇÃO
Um dos principais problemas enfrentados pela população na região do Baixo São
Francisco (BSF) está relacionado à presença excessiva de sais em decorrência da entrada
das águas do oceano na calha do rio São Francisco. A intrusão salina associada à poluição
hídrica vem afetando negativamente as atividades econômicas da região, podendo vir a
inviabilizar, em último caso, a utilização das águas para fins de abastecimento humano,
com prejuízos não restritos apenas aos municípios ribeirinhos à calha do rio São Francisco
(Gonçalves, 2016; Medeiros et al., 2016), mas a todos os municípios que utilizam essas
águas para fins de abastecimento, como é o caso do município de Aracaju-SE. Esse
cenário tem mostrado sinais de piora nos últimos anos, e pode ser associado à exploração
excessiva de recursos naturais, como a remoção de mata ciliar em rios tributários e ao
baixo nível, ou não realização, de tratamento de esgoto urbano nos municípios da região,
com impactos agravados pela ocorrência de longos períodos de seca, levando a decisões
gerenciais que não promoveram adequadamente os usos múltiplos da água do rio (Cunha,
2015).
O regime de vazões do rio São Francisco nessa região é regido pelos reservatórios
localizados nas partes mais altas da bacia, como as barragens de Sobradinho, Itaparica e
Xingó, cujas afluências foram reduzidas nos últimos anos, devido ao uso inadequado da
terra, com redução da produção de água na bacia e aumento da erosão do solo, bem como
sucessivos períodos de seca (CHESF, 2017). Como consequência, há uma redução
gradual dos fluxos mínimos no rio, com impactos significativos, dentre os quais o avanço
da cunha salina na região da foz, causando a salinização das águas utilizadas para
abastecimento e atividades agrícolas, com alterações na biota local e diminuição dos
estoques pesqueiros, resultando no desaparecimento de algumas espécies de peixes e
crustáceos, e o surgimento de outros afeitos a ambientes salinizados. Associados a esta
questão, a menor capacidade depurativa do rio, resultado de vazões mais baixas ao longo
de períodos mais longos, contribui significativamente para a manutenção de poluentes em
concentrações prejudiciais à biota, consumo e irrigação de culturas (Medeiros et al.,
2016).
Assim, verifica-se uma diminuição da capacidade produtiva dos setores
econômicos que dependem da flutuação dos níveis de água para o seu desenvolvimento
adequado, como o cultivo de arroz e a piscicultura, por exemplo; e logicamente, uma
diminuição nos índices de desenvolvimento humano da população da região (Cunha,
2015).
Este estudo buscou caracterizar a atual situação da presença de sais nas águas do
rio São Francisco por meio de análises de amostras coletadas ao longo de pontos
localizados em diferentes municípios da região do Baixo São Francisco.
MATERIAL E MÉTODOS
A área de estudo localiza-se na região do Baixo rio São Francisco (BSF) entre os
estados de Sergipe e Alagoas, cobrindo uma área de 25.500 quilômetros quadrados, onde
vive uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes, dos quais 440.000 residem em
áreas ao longo do rio São Francisco. O estudo abrangeu os municípios alagoanos de
Piranhas, Pão de Açúcar, Belo Monte, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova,
Penedo, Neópolis e Piaçabuçu e os municípios sergipanos de Propriá e Brejo Grande,
conforme pontos de coleta referenciados na Figura 1.
Figura 1 – Localização dos pontos de coleta de amostras de água do rio na região do
Baixo rio São Francisco
Foram selecionados vinte e sete pontos para coleta de amostras de água de forma
aleatória, buscando representar o comportamento médio das seções de medição do rio
presentes em cada município. Assim, foram realizadas coletas próximas às duas margens
e em um ponto intermediário, priorizando os horários de maré alta (Figura 1). A seguir,
está disposta a Tabela descritiva dos pontos de coleta de amostras de água, com
coordenadas geográficas no Datum WGS1984 (Tabela 1).
As amostras de água foram coletadas na superfície e fundo utilizando-se garrafa
de Van Dorn. A água foi transferida a bordo para garrafas de polietileno de 500 mL
previamente limpas com detergente neutro e, em seguida, em banho ácido de HNO 3 10%
v/v por 24 horas e enxaguados com água Mili-Q (18 μΩ), devidamente identificadas,
transportadas refrigeradas em caixas térmicas até o laboratório e estocadas em
temperaturas abaixo de -15 °C em freezer até o momento da análise (Figura 2). As
análises dos íons sódio (Na), cloreto (Cl), cálcio (Ca) e magnésio (Mg) na água foram
feitas em cromatógrafo de íons no laboratório da Companhia de Saneamento de Sergipe
(DESO). Os parâmetros físico/químicos pH, temperatura da água, condutividade elétrica,
sólidos totais dissolvidos e salinidade foram medidos in situ por meio da utilização de
uma sonda multiparamétrica modelo YSI EXO1, cedida pelo Instituto Tecnológico e de
Pesquisas do Estado de Sergipe (ITPS). A análise estatística dos dados foi realizada por
meio do programa R e foram produzidos mapas utilizando o software livre QGIS.
Tabela 1 – Localização dos pontos de coleta de amostras de água no BSF
Município
Piranhas/AL
Pão de Açúcar/AL
Belo Monte/AL
Traipu/AL
Propriá/SE
Igreja Nova/AL
Penedo/AL
Piaçabuçu/AL
Brejo Grande/SE
Ponto
PI1
PI2
PI3
PA1
PA2
PA3
BM1
BM2
BM3
TR1
TR2
TR3
PR1
PR2
PR3
IN1
IN2
IN3
PE1
PE2
PE3
PU1
PU2
PU3
FOZ1
FOZ2
FOZ3
Longitude
-37.751278
-37.749750
-37.749370
-37.447327
-37.449494
-37.450444
-37.244480
-37.244013
-37.247284
-37.006143
-37.005506
-37.006676
-36.836774
-36.831299
-36.827987
-36.672528
-36.661799
-36.660687
-36.582383
-36.580135
-36.571452
-36.430666
-36.431902
-36.442632
-36.398627
-36.407867
-36.410863
Latitude
-9.624347
-9.624700
-9.626304
-9.750914
-9.752503
-9.753866
-9.889896
-9.892764
-9.892921
-9.971428
-9.972609
-9.974881
-10.192243
-10.206496
-10.212273
-10.266311
-10.268844
-10.271721
-10.299611
-10.306073
-10.327155
-10.412070
-10.426152
-10.423743
-10.476388
-10.481488
-10.485840
Figura 2 – Procedimentos de coleta de amostras de água e medição na III Expedição do
Baixo Rio São Francisco em novembro de 2020.
A avaliação da condição ambiental e de usos múltiplos das águas foi realizada por
meio da comparação aos limites estabelecidos pela Resolução CONAMA nº 357, de 17
de março de 2005; pela Portaria de Consolidação nº 5 de 28/09/2017 do Ministério da
Saúde sobre padrões de potabilidade, e limites estabelecidos pelo documento da FAO
relacionado ao uso para irrigação (Ayers & Westcot, 1994) (Tabela 2).
Tabela 2. Limites comparativos para avaliação ambiental e de usos múltiplos para os
parâmetros medidos nas amostras de água coletadas no Baixo São Francisco e suas
respectivas fontes de consultas.
Parâmetro
pH
SDT
Na+
Ca++
Mg++
Limites
6,0 a 9,0
Águas doces < 0,5 ‰
0,5 ‰ < Águas salobras < 30,0‰
30,0‰ > Águas salinas
Nenhuma < 0,7
0,7 < Moderada < 3,0
Severa > 3,0
2000,0 mg/L
900,0 mg/L
400,0 mg/L
60,0 mg/L
Cl Na+
Cl -
1000,0 mg/L
200,0 mg/L
250,0 mg/L
Salinidade
CE (dS.m-1)
Restrição para irrigação
Fonte
CONAMA 357/05
FAO
(Ayers & Westcot, 1994)
Portaria 05/2017 MS
Potabilidade
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As águas coletadas, tanto em superfície quanto no fundo, da localidade de
Piranhas at Neópolis/Penedo foram enquadradas como “águas doces” (águas com
salinidade igual ou inferior a 0,5 ‰) segundo a resolução CONAMA nº 357, de 17 de
março de 2005 (Tabela 2). A salinidade média foi 0,04 ± 0,005 ‰ e valores mínimos de
0,00‰ e máximos de 0,04‰ (Tabela 3). Os valores de Condutividade Elétrica (CE)
apresentaram média de 0,085 ± 0,01 dS/cm e de Sólidos Dissolvidos Totais (SDT) de
55,43 ± 6,22 mg/L, estando as águas classificadas como de nenhuma restrição ao seu uso
para fins de irrigação de culturas segundo a FAO (Tabela 2).
Tabela 3. Parâmetros ambientais medidos nos pontos coletados de Piranhas/AL até
Neópolis-SE durante a II Expedição no Baixo rio São Francisco (Média ± Desvio Padrão,
Mínimo e Máximo)
Param.
Temp
Unid.
°C
Média
28,32
D.P.
pH
CE
SDT
Sal
Na
Ca
Mg
Cl
dS/cm
mg/L
ppt
mg/L
mg/L
mg/L
mg/L
7,68
0,085
55,43
0,04
5,45
11,99
2,90
5,30
1,04
0,22
0,010
6,22
0,005
4,88
0,31
0,72
7,55
Min.
27,53
6,62
0,002
1,00
0,00
3,04
11,00
2,23
1,55
Max.
37,48
8,50
0,097
63,00
0,04
33,79
12,79
7,10
50,35
Os níveis de sódio (Na+) das águas superficiais e de fundo dos pontos no trecho
em questão apresentaram concentração média de 5,45 ± 4,88 mg/L e valores mínimos de
3,04 mg/L e máximos de 33,79 mg/L. Esses valores da concentração de sódio na água
encontram-se abaixo do limite de potabilidade de 200 mg/L definido para esse parâmetro
pela Portaria de consolidação nº 5 de 28/09/2017 do Ministério da Saúde, sendo viável
para o consumo humano, e portanto, sem possíveis implicações também para o uso em
irrigação de culturas (Tabela 2). Da mesma forma, as concentrações médias de cálcio
(Ca++) (11,99 ± 0,31 mg/L), magnésio (Mg++) (2,90 ± 0,72 mg/L) e cloreto (Cl-) (5,30 ±
7,55 mg/L), mostraram-se inferiores aos limites relativos ao uso para irrigação, bem como
aos padrões de potabilidade, no caso do cloreto.
Nos pontos de amostragem no rio São Francisco nos municípios de Piaçabuçu e
Brejo Grande, as águas coletadas em superfície (Tabela 4 e Figura 3A) foram enquadradas
também como “águas doces” (águas com salinidade igual ou inferior a 0,5 ‰), com
valores médios de 0,06‰ ± 0,07, no entanto com valores máximos em Brejo Grande se
aproximando do limite para águas salobras. Tal fato pode estar relacionado à
profundidade da cunha salina no momento das medições, que normalmente se localiza
em camadas mais profundas dos corpos d’água. Para as medições em profundidade
(Tabela 5), as águas nestes locais foram enquadradas como “águas salobras” (águas com
salinidade superior a 0,5 ‰ e inferior a 30 ‰), conforme a resolução CONAMA nº 357, de
17 de março de 2005 (Tabela 2). A salinidade das águas de fundo variou de 0,04‰ a
24,11‰ (Figura 3B), no trecho do rio São Francisco na localidade de Piaçabuçu/AL a Brejo
Grande/SE. Os valores mínimos ocorreram em Piaçabuçu e podem estar relacionados aos
locais da coleta, que provavelmente estariam sob influência de águas locais em menores
concentrações de sais.
Tabela 4. Análise estatística dos parâmetros medidos em amostras superficiais nos
municípios de Piaçabuçu e Brejo Grande na II Expedição do Baixo rio São Francisco
Param
Temp
Unid.
°C
Média
28,53
D.P.
pH
CE
SDT
Sal
Na
Ca
Mg
Cl
dS/cm
mg/L
ppt
mg/L
mg/L
mg/L
mg/L
7,76
0,136
88,29
0,06
46,09
12,56
9,40
76,41
0,34
0,16
0,137
89,14
0,07
81,20
1,76
11,66
139,14
Min.
28,01
7,54
0,087
56,00
0,04
3,83
10,86
2,69
3,70
Max.
28,98
8,38
0,590
383,00
0,28
253,99
16,80
38,37
431,77
Tabela 5. Análise estatística dos parâmetros medidos em amostras em profundidade nos
municípios de Piaçabuçu e Brejo Grande na II Expedição do Baixo rio São Francisco
Para
m
Tem
p
Unid.
°C
Média
28,34
D.P.
0,36
Min.
27,84
Max.
28,98
pH
7,8
0
0,2
3
7,4
8
8,3
8
CE
SDT
Sal
Na
Ca
Mg
Cl
dS/cm
mg/L
ppt
mg/L
mg/L
mg/L
mg/L
3,853
2504,67
2,34
15,0
0
26,31
279,08
9,800
6370,16
6,15
171,9
5
303,9
3
7,56
42,39
499,74
0,087
56,00
0,04
3,93
6,65
2,72
3,54
38,09
2
24760,0
0
24,1
1
812,1
3
35,8
4
108,5
2
1346,9
1
As águas amostradas no fundo apresentaram maiores teores de sais devido à
presença da cunha salina, que apresenta maior densidade que a água doce, se distribuindo
assim, abaixo de águas superficiais de menores salinidades e densidades.
Figura 3 – Variação da salinidade nas amostras de águas de superfície (A) e
profundidade (B) coletadas na III Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco.
A
B
Segundo a classificação da FAO (Tabela 2), as águas profundas na região de Brejo
Grande e Piaçabuçu estariam impróprias para uso em irrigação de culturas em geral
durante a ocorrência de maré alta, em decorrência da ocorrência de concentrações acima
do recomendado para CE, SDT, Na+, Mg++ e Cl-. Considerando as concentrações médias
e máximas elevadas de sódio e cloreto, as águas na região de Brejo Grande e Piaçabuçu
são, portanto, também restritas a utilização do ponto de vista de potabilidade, reguladas
pela Portaria do Ministério da Saúde.
Os maiores valores de concentração das variáveis relacionadas à salinidade, foram
registradas nas amostras em profundidade em Brejo Grande, os valores máximos que
atingiram, por exemplo, salinidade de 24,11‰, muito acima do limite de 0,5‰ para água
doce(Tabela 2); ainda considerando a restrição ao uso da água em atividades agrícolas
(Tabela 2), valores máximos de: CE de 38,0 dS.m -1 (limite de 3,0 dS.m-1), SDT de
24760,0 mg/L (limite de 2000,0 mg/L), concentrações de Na + (812,0 mg/L próximo do
limite de 900 mg/L) , Mg++ (108,52 mg/L >> 60 mg/L) e Cl- (1346,91 mg/L >> 1000
mg/L). Em relação às restrições ao uso para abastecimento humano (Tabela 2): valores
máximos de Na+ (812,0 mg/L >> limite de 200 mg/L) e Cl - (1346,91 mg/L >> 250 mg/L),
esses valores acima do limite ressaltam o alto grau de influência da cunha salina na região,
principalmente nas águas em profundidade.
CONCLUSÕES
Com a variação da vazão das águas na região do baixo São Francisco, a qualidade
das águas também é afetada. Com isso se observou que as águas do São Francisco,
principalmente em profundidade, nos municípios de Piaçabuçu-AL e Brejo Grande-SE,
já se encontram em processo de salinização, essa mudança de água doce para água
salobra, provoca mudanças também na biodiversidade e, consequentemente, interfere nas
atividades sócio-econômicas dos ribeirinhos.
Faz-se de extrema relevância o estabelecimento de uma rede de monitoramento
da qualidade das águas, relativa aos teores de sais, associada à variação horária das marés
na região do Baixo rio São Francisco, de forma a um melhor entendimento das relações
entre as vazões do rio, regidas pelas liberações dos reservatórios e o alcance da cunha
salina a longo de seu curso.
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12
Determinação da qualidade da água para fins de
irrigação no Baixo São Francisco
Lucas Cruz Fonseca1; Rômulo André Santos Silva2; Ester Milena dos Santos2; Marco
Yves Aguiar Vitório Praxedes3; Douglas Cruz Santos4; Silvânio Silvério Lopes da
Costa2
1
Instituto Tecnológico e de Pesquisas do Estado de Sergipe;
Universidade Federal de Sergipe, Laboratório de Tecnologia e Monitoramento Ambiental;
3
Universidade Federal de Alagoas, Laboratório de Carcinologia e Carcinicultura;
4
Companhia de Saneamento de Sergipe.
2
RESUMO
A determinação da qualidade dos recursos hídricos disponíveis para seus diversos
usos é de fundamental, tanto para quem faz uso desses recursos, bem como para uma boa
conservação dos mesmos. Visando fortalecer esse diagnóstico e monitorar aspectos sócioambientais, foi realizada a III Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco
possibilitando a coleta de amostras de água superficial e em profundidade, em 27 pontos
de amostragem, partindo da cidade de Piranhas-AL até sua foz. Para determinar a
qualidade da água para fins de irrigação foi utilizado a Relação de Adsorção de Sódio
(RAS) e a Condutividade Elétrica (CE), determinadas em todos os pontos coletados, tanto
na superfície quanto em profundidade. Notando que há pouca variação em seus resultados
no decorrer de todo baixo São Francisco, todos os pontos sendo classificado como tipo
C1S1, com exceção de um ponto de amostragem em sua foz que apresentou os maiores
resultados tanto de cátions como de condutividade. Os resultados encontrados
demonstram que as águas do São Francisco são de ótima qualidade para uso na irrigação,
apresentando uma água pouco salina e com baixo risco a sodificação.
INTRODUÇÃO
A água é um recurso que está diretamente ligado à sobrevivência do homem,
influenciando em suas condições de saúde, econômicas e sociais. É um recurso
indispensável para a agricultura, onde a irrigação é o setor responsável pelo uso de 66,1%
da água potável consumida anualmente no país (ANA, 2019).
O rio São Francisco (BSF) é a principal fonte de água para os municípios
ribeirinhos, na região do Baixo, onde grande parte dos habitantes utiliza a água para
diversos fins como, pesca e recreação, também o uso através da captação para consumo
humano e para irrigação, muitas dessas captações feitas através de bombas instaladas nas
margens do rio e a água utilizada sem nenhum tratamento prévio.
A Razão de Adsorção de Sódio (RAS) é um importante índice de qualidade da
água para irrigação, em relação a presença do íon sódio, e é a melhor característica para
avaliar o problema de sódio nos solos, levando em consideração também as concentrações
dos íons cálcio e magnésio, expressando a possibilidade da água provocar a sodificação
do solo (FAGERIA, 1989).
Das principais propriedades que determinam a qualidade da água para irrigação,
a quantidade de sais solúveis é um fator limitante ao desenvolvimento da grande maioria
das culturas (BERNARDO, 1987). A influência desses sais pode ser expressa através da
RAS. Quem introduziu o conceito de RAS como índice para classificar a irrigação foi
RICHARDS em 1954, e ainda continua sendo um importante meio para determinar a
qualidade da água usada para irrigação.
Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo analisar e determinar a
qualidade da água da região do BSF para fins de irrigação com o auxílio da RAS e
classificar os riscos de seu uso com base na metodologia proposta por Richards, visando
disponibilizar informação para que possa ser feito um melhor uso da água utilizada.
METODOLOGIA
Para a elaboração do estudo, foram coletadas amostras em vinte e sete pontos de
amostragem espalhados na região do BSF, entre os estados de Sergipe e Alagoas,
abrangendo os municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Belo Monte, Traipu, Porto Real
do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu no estado de Alagoas e os municípios de
Propriá, Neópolis e Brejo Grande no estado de Sergipe (Figura 1).
As amostras foram coletadas próximas às duas margens e na região mais central
do rio, em cada ponto foi efetuada a coleta superficial e com profundidade, na coluna
d’água, com auxílio de garrafa de Van Dorn. A água coletada foi transferida para frascos
de polietileno de 500 mL previamente limpos, devidamente identificados, armazenados
em caixa térmica contendo gelo e transportada até a embarcação principal, onde foram
filtradas em filtros de 0,45 µm e congeladas até o momento de análise (Figura 2).
Para a medida de condutividade elétrica (CE) foi utilizada a sonda multiparâmetro
YSI EXO1 (Figura 2), a determinação foi executada in loco no momento da amostragem.
A determinação dos cátions foi feita em cromatógrafo íons no laboratório da Companhia
de Saneamento de Sergipe (DESO).
Figura 1. Localização dos pontos de amostragem.
Fonte: Relatório da II expedição do baixo São Francisco
Figura 2. Imagens representativas das atividades de campo.
Como indicativo de qualidade de água para irrigação as amostras serão
classificadas quanto ao Perigo de Salinidade, com base na CE e o Perigo de Sodificação
(Alcalinização), com base na Relação de Adsorção de Sódio (RAS), que é obtida através
da equação a seguir:
𝑁𝑎+
𝑅𝐴𝑆 =
√
𝐶𝑎
2+ +
𝑀𝑔2+
2
Onde a concentração dos cátions precisa ser expressa em miliequivalente por
litro (meq/L). E através do diagrama apresentado na Figura 3 é possível indicar o
melhor uso da água, segundo (RICHARDS, 1954):
C1 - Água de baixa salinidade (com menos de 250 micromhos/ cm de condutividade
elétrica): pode ser usada para irrigação na maior parte dos cultivos em quase todos os
tipos de solo, com pouca probabilidade de desenvolver problemas de salinidade;
C2 - Água de salinidade média, com conteúdo de sais entre 250 e 750 micromhos/cm:
pode ser usada sempre que houver um grau moderado de lixiviação. Plantas com
moderada tolerância aos sais podem ser cultivadas, em muitos casos, sem necessidade de
práticas especiais de controle da salinidade;
C3 - Água com alta salinidade, com conteúdo de sais de 700 a 2.250 micromhos/cm: não
pode ser usada em solos com drenagem deficiente e mesmo com drenagem adequada,
podem ser necessárias práticas especiais para controle de salinidade e só deve ser aplicada
para irrigação de plantas tolerantes aos sais;
C4 - Água com salinidade muito alta, com mais de 2.250 micromhos/cm: não pode ser
usada em condições normais, apenas ocasionalmente, em circunstâncias muito especiais,
tais como em solos muito permeáveis e plantas altamente tolerantes aos sais.
S1 - Água com baixo teor de sódio: pode ser usada para irrigação em quase todos os solos,
com pouco perigo de desenvolvimento de problemas de sodificação;
S2 - Água com teor médio de sódio: estas águas só devem ser usadas em solos de textura
arenosa ou em solos orgânicos de boa permeabilidade, uma vez que em solos de textura
fina (argilosos) o sódio representa perigo;
S3 - Água com alto teor de sódio. Pode produzir níveis tóxicos de sódio trocável na maior
parte dos solos, necessitando assim de práticas especiais de manejo tais como: drenagem,
fácil lavagem, aplicação de matéria orgânica;
S4 - Água com teor muito alto de sódio. É geralmente inadequada para irrigação exceto
quando a salinidade for baixa ou média ou o uso de gesso ou outro corretivo torne possível
o uso dessa água.
Figura 3. Diagrama para classificação de águas para irrigação (RICHARDS, 1954)
Fonte: Embrapa, 2001
RESULTADOS ESPERADOS
A classificação quanto ao perigo de salinidade e o perigo de sodificação da água
foram determinados através da CE e do cálculo da RAS obtidas para cada ponto de
amostragem, para a classificação foi utilizado o diagrama apresentado na Figura 3.
Os resultados das RAS e CE obtidas para cada ponto, superficial e fundo, estão
apresentados na Tabela 1, onde é possível notar que durante todo o trajeto percorrido no
baixo São Francisco não houve uma grande variação na condutividade elétrica e que
manteve uma média de 86,4 µS/cm até os pontos em Piaçabuçu (PU-01, 02 e 03), visto
que nos pontos da Foz foram obtidos valores muito altos de condutividade no ponto FOZ01, o que pode ser justificado pela proximidade com a água salina do mar.
Tabela 1: Resultados de RAS e Condutividade Elétrica (CE) para todos os pontos.
Município
Piranhas
Pão de Açúcar
Belo Monte
Traipu
Propriá
Igreja Nova
Penedo
Piaçabuçu
Brejo Grande
PI-01
RAS
Superfície
0,25
PI-02
0,42
0,27
86
86
PI-03
0,28
0,26
86
86,1
PA-01
PA-02
PA-03
BM-01
0,25
0,43
0,26
0,75
0,25
0,28
0,25
1,03
86,3
86,8
86,9
86,4
86,3
86,8
87
86,4
BM-02
0,43
0,26
86,3
86,3
BM-03
0,25
0,23
86,7
86,7
TR-01
TR-02
TR-03
PR-01
0,26
0,22
0,41
0,28
0,32
0,41
0,25
0,28
87,1
86,5
86,3
86,4
87,4
86,3
86,3
86,4
PR-02
0,4
0,37
86,3
86,3
PR-03
0,29
0,27
86,1
86,1
IN-01
IN-02
IN-03
PE-01
0,27
0,26
0,28
0,3
-0,47
0,28
0,43
86,1
86,1
86
89,4
86,1
86,1
86,1
89,2
PE-02
0,35
0,26
86,4
86,4
PE-03
2,65
0,25
86,5
86,5
PU-01
PU-02
PU-03
FOZ-01
0,32
0,27
0,26
2,22
2,99
0,27
0,26
15,7
92,6
87,3
86,9
122,8
92,7
87,4
86,9
38058,6
FOZ-02
7,81
0,57
114,3
114,8
FOZ-03
0,37
0,44
94
96,4
Ponto
RAS Fundo
0,26
CE Superfície
CE Fundo
(µS/cm) a 25 ºC (µS/cm) a 25 ºC
86
86
Para os cálculos da RAS foram utilizados os valores de Cálcio, Magnésio e Sódio
obtidos por cromatografia iônica. Os resultados de cálcio foram os que apresentaram uma
menor variação com média de 12,31 mg/L, e mediana de 12,01 mg/L, já os resultados de
sódio foram os que apresentaram uma maior variação, tendo como valor médio de 27,42
mg/L, porém uma mediana de 4,08 mg/L, isso é devido ao ponto em profundidade em FOZ-
01 que apresentou concentração de 812,13 mg/L, sendo o maior valor dentre todas as
amostras. Vale ressaltar que os resultados obtidos foram para uma vazão média de 2300
m3.
Para os resultados obtidos, utilizando a metodologia de Richards é possível
classificar todos os pontos, com exceção do FOZ-01 fundo, como sendo tipo C1S1, o que
indica uma água de baixa salinidade e baixo teor de sódio, o ponto FOZ-01 fundo é
classificado como tipo C4S4 indicando uma salinidade muito alta, bem como um teor de
sódio muito alto.
CONCLUSÃO
A partir dos resultados obtidos foi possível notar que tanto a RAS quanto a CE
não apresentaram grandes variações, com exceção do ponto 01 da Foz, o que de certa
forma é esperado devido à proximidade com o mar. Todas as amostras de Piranhas a
Piaçabuçu bem como os pontos 02 e 03 da Foz apresentaram classificação Tipo C1S1, o
que indica que a água do São Francisco pode ser utilizada sem risco de salinização ou
sodificação do solo, podendo ser aplicada a quase qualquer solo e a praticamente qualquer
cultura.
Sabendo a importância da irrigação e necessidade de uma boa fonte de água para
a agricultura, o monitoramento dos recursos hídricos disponíveis para tal uso é de extrema
importância, fazendo uso de índices como a RAS.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERNARDO, S. Manual de irrigação. 4. ed. Viçosa: UFV, Imprensa Universitária, 1987.
p. 488
BRASIL. AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS. Ministério do desenvolvimento
Regional. Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil. Informe Anual, Brasília, 2019.
Disponível
em
<http://conjuntura.ana.gov.br/static/media/conjunturacompleto.bb39ac07.pdf > Acesso em 20/01/2021.
CORDEIRO, G. G. Qualidade de Água para Fins de Irrigação (Conceitos básicos e
práticos). Embrapa Semi-Árido. Petrolina, 2001.
CRUZ, M. A. S.; SILVA, C. A.; COSTA, S. S. L.; GARCIA, C. A. B.; VIANA, R. D.;
FILHO, P. A. C.; PRAXEDES, M. Y. A. V.; A Salinidade da Água no Baixo Rio São
Francisco. In: Relatório da II expedição do baixo São Francisco. 2020. P. 339.
FAGERIA, N. K.. Solos tropicais e aspectos fisiológicos das culturas. Brasília:
EMPRAPA-DPU. 1989 .
RICHARDS, L. A. Diagnosis and improvement of saline and alkali solis. Washington:
United States Salinity Laboratory. (USDA: Agriculture Handbook, 60). 1954.
13
Avaliação do teor de óleos e graxas no Baixo Rio São
Francisco
João Inácio Soletti1, Sandra Helena Vieira de Carvalho1,
Mozart Bispo Daltro2
1
2
Professores, (LASSOP) - Centro de Ciência e Tecnologia, Universidade Federal de Alagoas
Bolsista Pós-Doctor, (LASSOP) - Centro de Ciência e Tecnologia, Universidade Federal de Alagoas
RESUMO
O descarte de óleo proveniente de combustíveis fósseis de forma inadequada pode
provocar inúmeros problemas ambientais, muito deles irreversíveis. O monitoramento do
teor de óleos e graxas (TOG) em águas é de grande importância, principalmente em
função do seu uso, identificando e quantificando possíveis poluentes derivados, ou não,
do petróleo. Amostras de águas foram coletadas de diferentes pontos do Rio São
Francisco, sendo analisadas a fim de determinar as concentrações de óleos e graxas
presentes na água. A técnica aplicada foi a de espectrometria na região de infravermelho,
utilizando o equipamento HORIBA OCMA-350. Em alguns pontos de coleta foi
detectada uma concentração de aproximadamente 40 mg/L de TOG.
INTRODUÇÃO
Qualquer atividade que cause impactos ao meio ambiente seja por poluição das
águas, do solo, do ar, deve ser incluída no monitoramento ambiental. Desta forma, podese prevenir e controlar a poluição, os acidentes e emergências ambientais, promovendo a
manutenção da qualidade dos recursos naturais.
A presença de óleos e graxas causa impactos muito graves nos ecossistemas
aquáticos. O plâncton, base da cadeia alimentar dos organismos marinhos, são os
primeiros a serem contaminados e contaminam o restante dos animais que deles se
alimentam. No caso do petróleo, no derramamento em grandes extensões, os fitoplânctons
e as algas, responsáveis pela produtividade de alimento na cadeia alimentar aquática, não
sobrevivem, devido ao bloqueio da entrada de luz pela camada de óleo que flutua na
superfície. Outro problema é a impregnação do óleo nos animais, impedindo a respiração
em peixes, o voo em aves e o controle de temperatura em mamíferos.
De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, 2016),
águas oleosas consistem em uma mistura complexa de água, óleo lubrificante, graxas,
produtos de limpeza, além de outros fluidos e resíduos que possam estar presentes nas
áreas de drenagem contaminadas, e sejam resultantes das atividades de manutenção e
limpeza de equipamentos.
O Teor de Óleos e Graxas (TOG) constitui um dos parâmetros ambientais de grande
relevância para localidades onde exista a presença de ambientes sujeitos ao derramamento
ou descarte de óleo, em ambientes aquáticos. Cidades ribeirinhas, com a presença de
embarcações, são suscetíveis a acidentes que provocam o derramamento de óleo quer seja
pelo vazamento em motores, manutenção ou acidentes, bem como, no descarte em
efluentes domésticos.
Existem várias legislações aplicáveis à problemática do lançamento de efluentes
oleosos ao meio ambiente. Alguns artigos de leis e resoluções associados ao tema são
apresentados a seguir:
- MARPOL 73/78, Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios,
adotada em 1973 e posteriormente emendada pelo Protocolo de 1978. Tem por propósito
o estabelecimento de regras para a completa eliminação intencional do descarte de óleo e
outras substâncias danosas oriundas de navios, bem como a minimização da descarga
acidental daquelas substâncias no ar e no meio ambiente.
- Lei N°9478, de 6 de agosto de 1997. Dispõe sobre a política energética nacional, as
atividades relativas ao monopólio do petróleo, e institui o Conselho Nacional de Política
Energética e a Agência Nacional do Petróleo, além de outras providências. Destaca-se,
nesta lei, o seu artigo primeiro, inciso quarto, que trata da proteção ao meio ambiente e
promoção da conservação da energia.
- Lei N°9966 de 28 de abril de 2000. Dispõe sobre a prevenção, o controle e a
fiscalização da poluição causada por lançamento de óleo e outras substâncias nocivas ou
perigosas em águas, sob jurisdição nacional e dá outras providências.
Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA N°357, de 17 de
março de 2005. Dispõe sobre a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais
para o seu enquadramento, bem como, estabelece as condições e padrões de lançamentos
de efluentes, e dá outras providências. Considera que a saúde e o bem-estar humano, bem
como, o equilíbrio ecológico aquático, não devem ser afetados pela deterioração da
qualidade das águas. Alterada pela Resolução 410/2009 e pela 430/2011
- Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA N°430, de 13 de
maio de 2011 dispõe sobre as condições e padrões de lançamento de efluentes,
complementa e altera a Resolução CONAMA N°357, de 17 de março de 2005.
- Portaria N°422, de 26 de outubro de 2011 do Ministério do Meio Ambiente. Dispõe
sobre procedimentos para o licenciamento ambiental federal de atividades e
empreendimentos de exploração e produção de petróleo e gás natural no ambiente
marinho e em zona de transição terra-mar.
Apesar dos gravíssimos danos causados pelo derramamento de óleos em ambientes
aquáticos, ainda são poucos os estudos publicados que ressaltam o impacto do lançamento
de óleos e graxas em rios e oceanos. De uma forma geral, isto se deve à falta de
monitoramento deste parâmetro, bem como, a dificuldade de acesso aos dados
monitorados. Além disso, é difícil mensurar os potenciais impactos, visto que muitos dos
seus efeitos são sinérgicos, e os poluentes podem sofrer bioacumulação ao longo da
cadeia trófica, ao longo do tempo.
Neste trabalho foi identificada a necessidade de um maior rigor no monitoramento
das águas do Rio São Francisco, de forma que seja possível prever potenciais danos
relacionados à presença de óleo. O monitoramento deve ser mais efetivo principalmente
em regiões com maior concentração de embarcações, como Penedo, Piaçabuçu e
Piranhas, dentre outras cidades ribeirinhas. Este estudo teve início na III expedição do
Rio São Francisco, e recomenda-se a ampliação dos estudos, com divulgação dos dados
obtidos, de forma a se obter uma base de dados coesa, para análise dos impactos atuais e
futuros.
METODOLOGIA
Algumas análises foram realizadas durante a expedição, sendo parte delas
realizadas no Laboratório de Sistema de Separação e Otimização de Processos (LASSOP)
situado no Centro de Tecnologia (CTEC), da Universidade Federal de Alagoas.
Para quantificar a concentração de óleos e graxas nas águas, descritos por órgãos
ambientais como Total Oil and Grease (TOG), foi utilizado o analisador de óleo Horiba®
modelo OCMA-350. As medições são baseadas na absorção no infravermelho na faixa
de 3,4 - 3,6 µm. Para a extração de TOG da amostra de PW, o solvente politriclorofluoroetileno (S-316, Horiba®) foi usado em uma proporção de 1:1 segundo
solvente para amostra, de acordo com o manual de instruções HORIBA OCMA-350.
Coleta das amostras
As amostras de águas foram coletas durante a “Expedição Rio São Francisco”, onde
sendo identificadas de acordo com o local de origem.
Uso do equipamento para determinação de TOG: HORIBA OCMA-350
Inicialmente foi realizada a calibração do equipamento segundo as instruções
indicadas no manual, utilizando a referência padrão do equipamento (B-heavy Oil).
Foram adicionados 5,6 L do B-heavy Oil em um balão volumétrico de 25 mL, e
avolumado com o solvente poli-triclorofluoroetileno (S-316, Horiba®). O equipamento
foi calibrado com a solução padrão com concentração de 200 mg/L.
A extração de fase orgânica da água ocorre pelo uso de solvente apropriado, no
caso o poli-triclofluoretileno, nome comercial S-316, que consegue extrair
hidrocarbonetos (óleos e graxas) da água ou do solo. Os hidrocarbonetos absorvem
energia infravermelha a um comprimento de onda específico, e a quantidade de energia
absorvida é proporcional à concentração de óleo/graxa no solvente (BATIRA, 2014). Para
a extração, utiliza-se a proporção de 1:1, ou seja, 5 ml da amostra de água acidificada
(pH 2) e 5 ml do solvente. A solução é agitação, decantada, sendo retirada uma alíquota
da fase sobrenadante, para análise do teor de óleos e graxas por espectrometria no
equipamento HORIBA OCMA-350 (Figura 1).
Figura 1 - Análise de TOG durante a III Expedição do Rio São Francisco.
Fonte: Autor (2020)
RESULTADOS
Durante a expedição do Rio São Francisco foi visualmente observada a presença
de óleo nas regiões ribeirinhas em algumas cidades visitadas pela expedição. Destaca-se,
a presença de óleo na região de Piaçabuçu (Figuras 2). Episódio semelhante também foi
observado em Penedo. Provavelmente a presença deste óleo é decorrente do vazamento
de combustível de embarcações pesqueiras que ficam atracadas no Rio, bem como, do
despejo de efluentes que são lançados diretamente no Rio, inclusive pelas embarcações,
sem tratamento prévio.
Em Penedo foi observada a prática da lavagem de carros (Figura 3), de animais e
lavagem de roupa, dentre outras atividades.
Figura 2 – Manchas de óleo no Rio são Francisco, em Piaçabuçu.
Fonte: Autor (2020)
Figura 3 – Lavagem de automóveis nas margens do Rio São Francisco, em Penedo
Fonte: Autor (2020)
Os resultados das análises de teor de óleo e graxas (TOG), realizadas a bordo da
expedição (em diferentes locais e horários) foram realizadas em amostras coletadas em
locais de banhistas e uso da água para recreação, incluindo banho (Tabela 1).
Tabela 1 - Teor de óleo e graxas em diferentes localidades
Data
Local
Horário (h)
TOG (mg/L)
06/12/20
Barcas /Penedo
14:00
< 0,1
09/12/20
Foz do Rio
12:00
< 0,1
09/12/20
Penedo após captação de
12:00
< 0,1
12:00
< 0,1
água da cidade
09/12/20
Penedo antes captação
de água da cidade
07/12/20
Piaçabuçu saída esgoto
15:00
0,3±0,1
07/12/20
Piaçabuçu banho
15:30
0,6±0,1
07/12/20
Piaçabuçu parada barco
14:00
0,7±0,1
Fonte: Autor (2020)
É importante salientar que a depender da vazão do rio, da estagnação da água, da
proximidade de efluentes, dentre outros parâmetros, a amostra pode apresentar um maior
ou menor teor de óleo. As análises foram realizadas em duplicata, durante a expedição,
logo após coleta.
Não foi observada a presença de óleo no período de coleta das amostras em
Penedo e na Foz do Rio São Francisco. Em Piaçabuçu, as análises indicaram um
quantitativo representativo. Segundo o CONAMA 430, o teor de óleos e graxas em água
doce deve ser virtualmente ausente. Em Penedo, devido à dispersão do óleo no rio e a
ausência visual de óleo no momento da coleta, não foi possível detectar o óleo via análise.
De um modo geral, as águas da região ribeirinha das cidades, tem sido utilizada
como Classe 2, segundo a Resolução CONAMA 357, a saber:
III - classe 2: águas que podem ser destinadas: a) ao abastecimento para consumo
humano, após tratamento convencional; b) à proteção das comunidades aquáticas; c) à
recreação de contato primário, tais como natação, esqui aquático e mergulho, conforme
Resolução CONAMA n° 274, de 2000; d) à irrigação de hortaliças, plantas frutíferas e
de parques, jardins, campos de esporte e lazer, com os quais o público possa vir a ter
contato direto; e e) à aqüicultura e à atividade de pesca.
O uso pela população da região ribeirinha na área central das cidades, observada
durante a II Expedição, corresponde a Classe 2 da água, requer uma qualidade de forma
a permitir a recreação e outras atividades. No Capítulo III do CONAMA 357, referente
às condições e padrões de qualidade das águas, dentre os parâmetros estudados, o pH da
água deve estar entre 6 a 9.
Os resultados de pH e do teor de óleo e graxas (TOG) das amostras coletadas
durante a III Expedição do Rio São Francisco, período 30 de novembro a 10 de dezembro
de 2020, em diferentes locais e horários, onde a primeira coluna apresenta as cidades onde
as coletas foram coletadas as margens do Rio São Francisco; a segunda e terceira colunas
apresentam, respectivamente, o pH da amostra coletada e após acidificação, conforme
procedimento de análise; e, a última, o teor do TOG (Tabela 2).
As amostras foram coletadas a jusante das cidades, sentido a foz. Assim sendo,
tais amostras apresentam contaminação de efluentes domésticos, e/ou águas pluviais
provenientes das cidades. Em alguns casos, as amostras foram coletadas em área mais
próxima a saída de dejetos daqueles coletados nas cidades mencionadas (Tabela 1).
Tabela 2 – Análise do Teor de Óleos e Graxas (TOG) em diferentes localidades do
Baixo São Francisco
Amostras
pH
TOG (mg/L)
Pão de Açúcar
8,91
10,2 ± 0,3
Penedo
7,35
13,9 ± 2,1
iranhas
7,62
6,2 ± 0,3
Piaçabuçu
8,71
19,8 ± 1,8
Porto Real do Colégio
9,13
30,5 ± 2,3
Igreja Nova
9,18
26,5 ± 3,3
Traipu
9,14
26,2 ± 1,2
Brejo Grande
8,11
7,7 ± 1,0
Foz do São Francisco
7,34
10,6 ± 0,7
Fonte: Autor (2020)
Foram observados níveis variáveis de contaminação nas amostras (Tabela 2). Em
geral, as análises de TOG apresentaram elevados valores, chegando a 30 mg/L. Todas as
análises foram realizadas em duplicata. A amostra coletada em Porto Real do Colégio foi
a que apresentou maior concentração do teor de óleos e graxas. Na escala de
contaminação esta amostra foi seguida pelas coletadas em Igreja Nova e Traipu. O mesmo
ocorreu para estas amostras, relativo a análise de pH. Além disso, a amostra coletada em
Pão de Açúcar, também apresentou pH elevado, embora dentro da faixa de condições de
lançamento de efluente e uso até Classe 3 do CONAMA 357. Na realidade, não se trata
de descarte de efluente e sim qualidade da água ribeirinha, em área metropolitana. Para
estas cidades, no momento da coleta da amostra, a qualidade da água estava em desacordo
com o teor máximo de teor de óleos e graxas (TOG) e pH para descarte em corpo receptor,
o que é mais agravante.
Segundo o Artigo 16 da Resolução CONAMA Nº 430 DE 13/05/2011 publicado
no Diário Oficial de União (DOU) em 16 de maio de 2011, que dispõe sobre as condições
e padrões de lançamento de efluentes, complementa e altera a Resolução nº 357, de 17 de
março de 2005, do Conselho Nacional do Meio Ambiente-CONAMA:
Art. 16. Os efluentes de qualquer fonte poluidora somente poderão ser lançados
diretamente no corpo receptor desde que obedeçam as condições e padrões previstos
neste artigo, resguardadas outras exigências cabíveis:
I - condições de lançamento de efluentes:
a) pH entre 5 a 9;
e) óleos e graxas:
1. óleos minerais: até 20 mg/L;
2. óleos vegetais e gorduras animais: até 50 mg/L;
Além disso, caso o TOG presente seja proveniente de resíduo de óelo combustovel
dos barcos, que também deve ser considerado, pode causar vários problemas ambientais
e de saúde humana, uma vez que o óleo combustível é uma mistura complexa que contém
uma variedade de espécies de toxicidade comprovada, incluindo compostos orgânicos
voláteis (VOCs), PAH, sulfeto de hidrogênio e metais potencialmente tóxicos, podendo
ser de várias origens (barcos, restaurantes, turismo e cidades).
A gravidade da exposição ocorre por ingestão, absorção pela pele intacta e
inalação. Os riscos toxicológicos envolvidos são graves, agudos e crônicos, com atenção
especial às frações tóxicas do óleo que podem levar à morte por envenenamento,
principalmente quando associadas a compostos aromáticos. Tais concentrações devem
ser consideradas, pois sabemos que as amostras não são água de campos de produção de
petróleo ou próximo de indústrias.
CONCLUSÃO
O resultado das análises do teor de óleo e graxas nas águas do baixo São Francisco,
durante a III Expedição, indicaram, na região ribeirinha utilizada para banho e recreação,
a presença de óleo em pequenas quantidades, porém relevantes, em algumas cidades. Em
Piaçabuçu e em Penedo foi detectada a presença visual do óleo. Em alguns pontos de
Piaçabuçu, a análise detectou presença de teor de óleos e graxas, mesmo não havendo
uma presença visual do óleo. Segundo o CONAMA 357, o teor de óleos e graxas em água
doce deve ser virtualmente ausente.
O uso pela população da região ribeirinha na região central da cidade, observada
durante a II Expedição, corresponde a Classe 2 da água, e segundo o CONAMA 357,
referente às condições e padrões de qualidade das águas. Além do teor de óleos e graxas,
dentre os parâmetros estudados, o pH da água deve estar entre 6 a 9.
Foram também coletadas amostras a jusante das cidades, onde há maior
probabilidade de contaminantes dos dejetos, provenientes de efluentes domésticos e
resíduos carreados por águas pluviais. Neste caso, as amostras apresentaram expressiva
contaminação na faixa de 6 a 30 mg/L relativo ao teor de óleos e graxas (TOG),
apresentando, em alguns casos, pH acima de 9, ou seja, em desacordo até mesmo com as
condições de lançamento de efluentes.
É importante salientar a necessidade de uma periodicidade das análises, em pontos
críticos das cidades ribeirinhas, a serem identificados. Isto se deve a grande variação do
teor de óleos e graxas, em função de descarte de efluentes, vazão do rio, águas pluviais,
despejos, dentre outros fatores que levam a diluição ou acúmulo do óleo e outros
contaminantes.
Como sugestão, manter uma continuidade das análises de água, como também que
sejam analisadas as areias de regiões próximas às cidades ribeirinhas, a fim de se verificar
a contaminação do solo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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de separação por biosorção. Dissertação (Mestrado em Engenharia Química),
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Resolução CONAMA Nº 393/2007 - "Dispõe sobre o descarte contínuo de água de
processo ou de produção em plataformas marítimas de petróleo e gás natural, e dá outras
providências" - Data da legislação: 08/08/2007 - Publicação DOU nº 153, de 09/08/2007,
pág. 72-73.
Resolução CONAMA Nº 357/2005- "Dispõe sobre a classificação dos corpos de água e
diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e
padrões de lançamento de efluentes, e dá outras providências" - Data da legislação:
17/03/2005 - Publicação DOU nº 053, de 18/03/2005, págs. 58-63
14
Robótica e Modelagem Ambiental: estudos da
topologia de fundo do Baixo Rio São Francisco
Carlos Eduardo de Carvalho1; Aristides Pavani Filho2; Gilberto Schwertner 3
Doutorando Universidade Federal do Ceará – UFC. Campus do Pici, Fortaleza/CE
Doutorando Universidade Federal da Bahia – UFBA. iGEo, Salvador/BA
3
Docente/Pesquisador Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará – IFCE. Campus
Camocim, Camocim/CE
1
2
RESUMO
Sistemas sonar de varredura lateral (side scan) são equipamentos utilizados por mais de
60 anos para captar informações da morfologia de fundo de rios, lagos e oceanos. O
desenvolvimento de pesquisas na bacia hidrográfica do rio São Francisco sobre as
relações da dinâmica eco-hidrológica, da avaliação ambiental integrada e das
condicionantes socioambientais contribuirão significativamente para a construção de
cenários e de alternativas à tomada de decisão, para tanto se faz necessário a concepção
de modelos ambientais robustos e acoplados ao Sistema de Informação Geográfica (SIG)
da Expedição Científica do Rio São Francisco. Na III edição da expedição, conforme os
resultados dos testes executados na II edição da expedição, foi utilizado o sensor Starfish
450®, que tem a possibilidade de cobrir uma profundidade maior que 100 metros a partir
da frequência de 450 KHz. O sistema side scan foi instalado em embarcações de apoio às
embarcações principais da expedição. Para o pós-processamento das informações, os
arquivos de Log do sistema foram convertidos em .XTF, e desenvolvidos mapeamentos
por meio de rotinas computacionais na linguagem Python3 e R 3.6. A partir da junção da
camada de informações batimétricas krigada com a camada de modelo digital de elevação
(MDE) obteve-se perfis tridimensionais de trechos de rio.
Palavras-chave: Side scan, batimetria, mapas 3D, USV - Unmanned Surface Vehicles.
INTRODUÇÃO
Sistemas sonar de varredura lateral (side scan) são equipamentos utilizados por mais
de 60 anos para captar informações da morfologia de fundo de ambientes marinhos e fluviais
(CHESTERMAN et al., 1958, UCHIMOTO et al., 2020). Aplicações comuns incluem
monitoramento da biodiversidade de produtores (GREENE et al., 2018), mapeamento do
habitat (LUCAS et al., 2020), mapeamento geológico em profundidade (KHABUEV et al.,
2020) e aplicações em pesca e prospecção de recursos (LUCCHETTI, 2018).
Side scan emite feixes de energia acústica ao fundo do mar, lago ou rio. É
normalmente formado por: (1) uma unidade que capta e armazena dados do sonar, (2) sistema
de cabos para transmissão das informações, (3) transdutor na subsuperfície capaz de emitir e
receber energia acústica (BUSCOMBE, 2017). O side scan é uma alternativa de excelente
custo benefício para gerar mapas de varredura de fundo em ambientes marinhos e límnicos
com baixa profundidade (GREENE et al., 2018; BENNET et. al., 2019).
Em estudos preliminares ocorridos durante a I e a II Expedição Científica do Rio São
Francisco, Schwertner et al. (2020a e 2020b) analisaram com side scan as principais
topologias de fundo obtidas durante o trajeto de navegação da embarcação principal da
expedição. A partir destas informações, inferiu-se sobre padrões que evidenciam
características geomorfológicas, presença de cardumes, formação de bancos de macrófita e
resíduos antrópicos (SCHWERTNER et al., 2020b), demonstrando a viabilidade da
utilização de side scan para aumentar as possibilidades de agregar informações aos modelos
ambientais. O foco na III Expedição Científica do Rio São Francisco foi a aquisição via side
scan de informações topológicas de fundo do rio para quantificação de um perfil batimétrico
do baixo rio São Francisco, desde o porto de Piranhas - AL até a foz do rio.
O rio São Francisco é um dos mais importantes cursos de água da América do Sul
e o 25° maior rio do planeta (TAN & SHENG, 2003), seu curso naturalmente perene
atravessa uma das regiões semiáridas com um dos menores Índices de Desenvolvimento
Humano (IDH) do mundo (VIEIRA et al., 2015). Na região do Baixo Rio São Francisco
sua profundidade média é de 4 m, com no máximo 22 m no canal principal. O curso
inferior do rio é marcado pela presença de ilhas, e a largura do canal vária entre 0,6 km e
2 km (PAIVA et al., 2020). A pesca na região do baixo Rio São Francisco é uma das mais
importantes do Brasil, pois é a fonte de renda para muitas famílias (SOARES et al., 2019
e 2020), no entanto, impactos no uso da terra decorrentes da agricultura e transposição do
rio ameaçam a qualidade e quantidade de água para as atividades humanas e a
biodiversidade (TEIXEIRA et al., 2020). O desenvolvimento de pesquisas na bacia
hidrográfica do rio São Francisco sobre as relações da dinâmica eco-hidrológica, da
avaliação ambiental integrada e das condicionantes socioambientais contribuirão
significativamente para a construção de cenários e de alternativas à tomada de decisão,
para tanto se faz necessário a concepção de modelos ambientais robustos e acoplados ao
Sistema de Informação Geográfica (SIG) da Expedição Científica do Rio São Francisco.
A utilização de informações obtidas via side scan, tanto como base para
construção de modelos ambientais mais realísticos para a criação de densa malha de
informações georreferenciadas, quanto na prospecção e validação aspectos e
características ambientais relevantes, serão fundamentais para a espacialização
multidimensional dos resultados das expedições.
METODOLOGIA
Na III edição da expedição, conforme os resultados dos testes executados na II
edição da expedição (Schwertner et al., 2020a e 2020b), foi utilizado o sensor Starfish
450®, que tem a possibilidade de cobrir uma profundidade maior que 100 metros a partir
da frequência de 450 KHz (STARFISH, 2010). A visualização, a avaliação e o tratamento
preliminar de dados foi realizada em tempo real utilizando-se o software StarFish
Scanline® (tritech.co.uk/support-software/starfish-seabed-imaging-systems-scanline Figura 1). Posteriormente as saídas log do software StarFish Scanline® foram convertidas
em eXtended Triton Format (XTF), e todas as noites durante a expedição, foram
realizadas cópias de segurança dos arquivos adquiridos de dia, em HDs Externos e em
nuvem no seguinte endereço eletrônico:
https://drive.google.com/drive/folders/1k_cBl60PtSty7mYfNsli_gA4ZqGnKh5z?usp=sharing.
Figura 1 - Sistema side scan Starfish 450®.
Alguns arquivos de trechos da navegação que denotam interesse foram analisados
previamente pela equipe de pesquisa no barco de apoio com o software DeepView FV
(deepvision.se/products/sonar-software), que possibilitou visualização das informações
com mais resolução do que com o software StarFish Scanline®.
O sistema side scan foi instalado em embarcações de apoio às embarcações principais
da expedição. Durante os deslocamentos de Piranhas à Propriá foi utilizada a embarcação
catamarã “Comendador do Rio” (Figura 2a), cedida para integrar à Expedição pelo
representante do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, Sr Antônio Jackson.
Em Propriá, trocou-se de embarcação, pois não foi possível passar pela ponte de Propriá
devido ao mastro de vela do catamarã e ao rio estar mais cheio. De Propriá até Penedo
utilizou-se a lancha da CODEVASF (Figura 2b). De Penedo até a região estuarina, contouse com apoio de lancha da Marinha do Brasil (Figura 2c). Captaram-se informações via side
scan no sentido da navegação das embarcações de Piranhas à Foz do Rio São Francisco.
Figura 2 - Percurso e Embarcações de apoio.
a.
b.
c.
d
.
Para o pós-processamento das informações dos arquivos .XTF, foram
desenvolvidas rotinas computacionais na linguagem Python 3 e R, utilizando-se as
bibliotecas complementares. O desenvolvimento das rotinas computacionais foi no IDE
Spyder (Figura 03a - spyder-ide.org), R (Figura 03c - rstudio) e, em nuvem, com acesso
ao grande potencial de processamento do GPU da Google, no notebook Collaboratory ou
"Colab" (Figura 3b - colab.research.google.com).
Figura 3 - Ambientes computacionais de desenvolvimento.
a.
b.
c.
Os mosaicos georreferenciados a partir das informações em .XTF foram criados
com as ferramentas software Global Mapper posteriormente e acopladas ao SIG no
software QGIS
e R (Figura 4a - qgis.org). Para a transcrição em camada de
compatibilidade com SIG, as informações vetoriais podem ser convertidas em .SHP e
.KML a partir dos plugins no QGIS. As informações topológicas de interesse serão
convertidas em imagens raster no formato .GeoTIFF, para visualização no QGIS ou no
Google Earth (google.com/earth). Foi utilizada uma camada de informação de modelo
digital e elevação (DEM) da região hidrográfica do baixo rio São Francisco, com base em
SRTM/TOPODATA (Figura 4b, 30 m de resolução espacial - dsr.inpe.br/topodata) e
ALOS PALSAR (Figura 4c, 12,5 m de resolução espacial asf.alaska.edu/datasets/derived-data-sets/alos-palsar-rtc/alos-palsar-radiometric-terrain-correction).
Para complementar a krigagem das informações batimétricas que comporão
modelo preliminar tridimensional da referida região hidrográfica. Para remover o ruído
das informações do side scan foi executado um filtro de vizinhança suavizando os picos
pela média dos oito pixels adjacentes. Para a krigagem, removeu-se a região mais baixa
do raster de elevação, da qual não se tem dados de batimetria. Em seguida, amostrou-se
aleatoriamente 50000 pixels do raster de elevação e dos dados georreferenciados do side
scan. A kigagem ordinária foi realizada em ambiente R utilizando a biblioteca de
geoestatística multivariada gstat (PEBESMA, 2004). Para facilitar o processamento e
calcular o tempo de execução, foi utilizada apenas uma varredura do side scan com
largura de cerca de 2 km, bem como um recorte do raster com largura igual e comprimento
de 7 km. Todos esses procedimentos computacionais foram executados em processador
Core i5, memória 8GB, Linux Mint.
Figura 4 - Software de SIG QGIS e MDEs.
a.
b.
c.
RESULTADOS
Entre os dias 01/12/2020 e 09/12/2020 foram obtidos 424 arquivos de log do
software StarFish Scanline® (.LOGDOC), todos convertidos em arquivo eXtended
Triton Format (XTF), resultando em mais de 5 GB de dados. Os arquivos originais e os
arquivos convertidos estão disponíveis em diretório em nuvem:
https://drive.google.com/drive/folders/1k_cBl60PtSty7mYfNsli_gA4ZqGnKh5z?usp=sha
ring.
-
Apoio às atividades de mergulho científico:
Complementarmente, em apoio aos estudos de arqueologia de ambientes
aquáticos, em que se aplicaram também atividades de mergulho científico (Figura 5),
executou-se transectos captando-se informações de fundo em locais de naufrágios e sítios
arqueológicos submersos já mapeados e em locais cujas características alóctones fossem
representativas para os estudos arqueológicos ou em locais onde tenha sido observado,
via amostragem do side scan em tempo real, alguma feição ou anomalia de interesse, e,
também, apoio com ROV (veículo remotamente controlado) em locações onde o
mergulho apresentasse risco de operação.
Figura 5 - Atividades de mergulho científico.
Com as imagens GeoTIFF a equipe de arqueologia de ambientes aquáticos poderá
visualizar as áreas de estudo no SIG em camadas de informações georreferenciadas,
podendo utilizar-se dos modelos digitais de elevação e de outras imagens orbitais com as
mais diferentes resoluções espaciais aumentando as possibilidades de inferências
alóctones aos sítios específicos.
-
Apoio às atividades terra-ar:
Desenvolve-se o pós-processamento das informações buscando-se utilizar
ferramentas e formatos de arquivos com alta capacidade de integração com SIG da
Expedição. Possibilitando ampliar análises ambientais da equipe que desenvolve
pesquisas às margens do rio. Por exemplo, a identificação de vegetação submersa pode
estar associada a desbarrancamento (Figura 6ª), e a evidência de remobilização de
sedimentos que pode estar associada a processos erosivos marginais (Figura 6b). Com a
integração das informações obtidas por meio do side scan ao SIG, e, com a sobreposição
das informações geográficas poder-se-á ampliar avaliações.
Figura 6 - Screenshot software DeepView FVside scan.
a.
-
b.
Apoio na espacialização das informações das pesquisas aquáticas:
A demanda para integração das informações obtidas via side scan é abrangente no
tocante às pesquisas relacionadas à água. Diversas inferências poderão ser desenvolvidas,
como por exemplo, a identificação de cardumes ou áreas com maior adensamento de
ictiofauna, integrando informações obtidas via sonar fishfinder (Figura 7), estas
informações batimétricas obtidas ao longo do trajeto de navegação da embarcação
principal poderão integrar a grade de krigagem dos modelos batimétricos.
Figura 7 - Screenshot software DeepView FVside scan.
a.
b.
Figura 8 - Screenshot software DeepView FVside scan.
a.
b.
As informações topológicas (Figuras 8a e b) poderão servir de subsídio para uma
série de caracterizações ambientais quando associadas a informações de área de vida,
correlação à captura de determinadas espécies, pela maior ou menor profundidade,
presença de rochas, bancos de areia ou de macrófita, entre tantas inferências possíveis.
-
Desenvolvimento de rotinas computacionais:
Para ampliar essas oportunidades de PD&I, estão em desenvolvimento rotinas
computacionais específicas para obtenção de informações e identificação de anomalias
em tempo real ou pós-processadas com as informações georreferenciadas (Figura 9), além
da possibilidade de produção de mosaicos especializados para integrar ao SIG da
expedição, como auxiliar a equipe de mergulho da arqueologia de ambientes aquáticos na
localização e validação de sítios de pesquisa.
-
Modelagem ambiental
Para melhor visualização dos dados de fundo do rio estimou-se a profundidade
ao longo do percurso utilizando densidade de kernel (Figura 10). No entanto, buscou-se
refinar essa estimativa através de interpolação em um projeto-piloto. O diferencial
destes desenvolvimentos com informações de topologia de fundo obtidas por side scan,
é a possibilidade de composição de modelos multidimensionais a partir da junção da
camada de informações batimétricas krigada com a camada de modelo digital de
elevação (MDE), obtendo-se perfis tridimensionais destes trechos de rio (Figura 11). A
partir desta superfície de informações espaciais, podem-se relacionar outras camadas de
informações, iniciando-se a composição de um banco de informações ambientais
passíveis de dinamizar cenários para o auxílio à tomada de decisão. A partir desses
desenvolvimentos iniciais, poderão ser paulatinamente inseridas mais informações ao
modelo, até se ter dados suficientes para que a interpolação represente
significativamente a topologia da região hidrográfica do baixo rio São Francisco.
Figura 9 - Mosaicos e rotinas computacionais em desenvolvimento na linguagem Python.
O tratamento de dados resultante retornou arquivos sem picos ou vales
(suavizados), no entanto, outros métodos de filtragem e remoção de ruídos devem ser
testados para melhorar a qualidade das imagens side scan, como o filtro de vizinhança
gaussiano. Esses métodos de processamento de sinais podem ser testados quando a
capacidade de processamento for aprimorada. A amostragem aleatória de pontos em todas
as imagens side scan e MDE resultou em uma Tabela com 10000 pixels (Figura 12).
Finalmente, o tempo necessário para processamento e krigagem dos dados para as
condições de teste (raster de 2x7 km, com 5000 amostrados) foi de 2,5 horas, dessa forma
estima-se que para processar toda a bacia, considerando
que a bacia possui um
comprimento de 242 km e mantendo largura de 7 km, serão necessários 12 dias de
processamento contínuo com as mesmas capacidades computacionais.
Figura 10 - Profundidade Estimada por Densidade de Kernel.
Figura 11 - Modelo 3D trecho profundo do rio.
Figura 12 - Amostragem e concatenação de pontos.
a.
b.
c.
Das paletas testadas para melhor visualizar os dados de altimetria/batimetria
(Figura 13) selecionada foi a GMT Globe composta por 256 cores e estilizada utilizando
o QGIS (Cpt-City) (Figura 13). Em seguida, para evidenciar o comportamento da
variável elevação traçou-se um perfil de elevação perpendicular ao leito do rio (Figura
14).
Figura 13 - Amostragem e concatenação de pontos.
Alto
Baixo
Figura 14 - Perfil de inclinação altimetria/batimetria.
a
.
z
’
b
.
z’
z’’
z’
’
Figura 15 – Primeira análise batimétrica com uso de sidescan.
-
Perspectivas futuras: monitoramento autônomo e modelo impresso 3D.
Na I etapa da expedição testou-se IRACEMA (Figura 16a), um veículo autônomo
de superfície (USV - Unmanned Surface Vehicles) desenvolvido pelo Núcleo Nordeste
do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI-NE). Tal embarcação
apresentou demandas de desenvolvimento, sendo uma dessas de grande importância, que
é a logística para deslocamento de uma embarcação daquele porte. O desenvolvimento
ou aquisição de embarcação autônoma de menor porte (exemplo, Figura 16b o
SONOBOT5
evologics.de/sonobot-5-system
e
Figura
16c
o
HyDrone®
seafloorsystems.com/usv) para o monitoramento ambiental ativo no rio São Francisco
ampliaria superlativamente a capacidade de aquisição e atualização de informações e
modelos ambientais. E neste USV de menor porte, considerar a utilização de sistema
sonar ecobatímetro multifeixe e de sistema perfilador hidroacústico de correntes (ADCP
- Acoustic Doppler Current Profiler) para aumentar a robustez da modelagem ambiental.
Figura 16 - Embarcações robóticas para o monitoramento ambiental autônomo.
CONCLUSÕES
A missão foi bem equalizada na III Expedição, os problemas ocorridos, como, por
exemplo, a necessidade de troca de embarcação, foram bem assimilados. Para esta
questão logística houve a necessidade do desenvolvimento de um suporte “universal”
para acoplamento do transdutor nas diferentes embarcações de apoio. Problemas com
eventual desacoplamento ou instabilidade do transdutor, resultaram em perda da
qualidade dos sinais. As variações de velocidade nas embarcações, por situações de
navegabilidade e eventual presença de ondas (principalmente na região estuarina)
também resultaram na perda de qualidade em alguns sinais. As rotinas computacionais
foram efetivas ao converter os arquivos .xtf provenientes de softwares prioritários,
contudo utilizou-se um conjunto de linguagens e plataformas que pode comprometer a
unificação do código, para perspectivas futuras é necessário unificar o código em uma
linguagem e plataforma, criando funções para resolução dos problemas e otimizando o
tempo de processamento. Com a necessidade de um perfil de fundo do rio com maior
acurácia, também é necessário buscar amostras em todo o espelho de água, pois as atuais
amostras representam apenas uma faixa estreita. As próximas expedições devem
incorporar essa amostragem. Finalmente, há a oportunidade de inserir informações
georreferenciadas para modelagem e elaborar um SIG do baixo São Francisco que deverá
incorporar aspectos relacionados a poluição, assoreamento, hidrologia, biodiversidade e
arqueologia.
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15
Sons biológicos subaquáticos do baixo rio São
Francisco: perspectivas para o Monitoramento
Acústico Passivo (MAP) da biodiversidade e seus
ambientes
Alfredo Borie-Mojica e Elen Santos Silva
Universidade Federal de Alagoas, UE Penedo
RESUMO
A acústica passiva tornou-se uma ferramenta eficiente para detectar sons
biológicos e antropogênicos na região do baixo rio São Francisco, onde foi predominante
a produção de sons característicos de pelo menos 2 tipos de crustáceos e 18 tipos de peixes
em sete locais de coleta de Piranhas à foz. Os sons de P. argenteus ocorreram
praticamente em todas as localidades e foram compostos por pulsos individuais ou trem
de pulsos com média de duração e número entre 0,4 segundos e 10,8 pulsos, e pico de
frequência em 397,5 Hz, sendo raramente detectados sons longos, o que caracterizaria
indivíduos machos sexualmente maduros, não sendo entradas agregações reprodutivas.
Foi detectado a ocorrência de estalos de camarões (espécies comumente encontradas em
ambientes estuarinos e marinhos) em todas as coletas a partir de Porto Real do Colégio,
incluindo a foz onde houve maior ocorrência, podendo indicar ampla tolerância e
sobrevivência em água doce ou baixa salinidade, ou espécie ainda não descrita. Com isto,
recomendam-se maiores esforços de coleta utilizando de forma complementar a acústica
passiva como sistema de monitoramento, junto com a continuidade de ações locais de
repovoamento de espécies nativas ao longo do baixo rio São Francisco.
INTRODUÇÃO
Monitorar alterações dos ambientes e seus habitantes é uma necessidade crítica de
gestão e um desafio tecnológico considerável. Em muitos habitats aquáticos, o
monitoramento a médio e longo prazos é uma tarefa desafiadora e, nesse sentido, o
método acústico passivo pode ser um meio eficaz para avaliar a atividade biológica
(produzidos por organismo aquáticos) e antrópica (produzidos através de diferentes
embarcações) em locais onde o monitoramento contínuo por métodos de pesquisa
tradicionais é impraticável.
método acústico passivo, que se baseia em ouvir os sons produzidos por organismos
sonoros, possibilitando a utilização dos sons como verdadeiros marcadores naturais das
espécies, uma vez que são espécie-específicos. A acústica passiva também provê
benefícios importantes para a investigação científica já que é uma ferramenta
observacional não invasiva e não destrutiva, com uma capacidade de monitoramento
remoto permanente ou de longa duração e fornece importantes informações sobre padrões
diários e sazonais (ROUNTREE et al., 2006).
O monitoramento acústico subaquático apresente uma abordagem viável, não
invasiva e amplamente inexplorada para monitorar ecossistemas de água doce,
fornecendo informações sobre os três principais elementos ecológicos dos ambientes
aquáticos - (1) peixes, (2) macroinvertebrados e (3) processos físico-químicos - bem como
fornece dados sobre os níveis de ruído antropogênico (LINKE et al., 2018). A importância
ecológica da paisagem acústica em água doce está apenas começando a ser reconhecida
pela sociedade. Os cientistas estão começando a aplicar os métodos de Monitoramento
Acústico Passivo (MAP), bem estabelecidos nos sistemas marinhos, aos sistemas de água
doce, para mapear padrões espaciais e temporais de comportamentos associados aos sons
biológicos, bem como os impactos do ruído sobre eles (ROUNTREE et al., 2019).
O baixo rio São Francisco vem enfrentando problemas ambientais com fortes
consequências sociais e econômicas (SOUZA E LEITÃO, 2000), causadas por diversos
fatores, entre eles: diminuição do seu volume e velocidade, contaminação e sobrepesca
(MARTIN et al., 2011, ZELLHUBER et al., 2016), afetando a biodiversidade de peixes
(GOMES e BRITO, 2017, Soares et al., 2020) e crustáceos (MONTENEGRO et al.,
2001), a sua distribuição e a atividade pesqueira com a diminuição e até extinção de
algumas espécies comerciais.
No Brasil, pesquisas da passagem acústica utilizando a ferramenta acústica
passiva em águas continentais são recentes e escassas. Assim, o objetivo deste trabalho
pioneiro foi utilizar a acústica passiva para avaliar a paisagem acústica e a produção de
sons biológicos e antrópicos na região do baixo São Francisco. O objetivo deste trabalho
foi detectar e caracterizar sons biológicos de peixes e crustáceos, como também ruídos
antropogênicos produzido por embarcações.
METODOLOGIA
Os sons subaquáticos foram coletados durante a III Expedição Científica no baixo
Rio São Francisco entre 30 de novembro e 10 de dezembro de 2020. Os locais amostrados
foram: Piranhas, Pão de Açúcar, Porto Real do Colégio, Penedo (confluência com o rio
Boacica), Piaçabuçu (confluência com o rio Piauí) e foz.
Os dados acústicos foram obtidos utilizando um gravador subaquáticos do modelo
“SoundTrap (ST) 300” (Ocean Instrument, New Zealand). O STD é destinado para uso
geral de medições de ruído aquáticos com uma gama de 20 Hz a 60 kHz, com frequência
de amostragem 48kHz, 16 bits. Este sistema permitiu avaliar os padrões sonoros
biológicos e antrópicos sazonais e temporais, juntamente com as temperaturas que
ocorrem nos locais durante o período de estudo. O ST foi fixado a um cabo de polietileno
e ancorado no fundo utilizando uma garateia, foram utilizadas boias para armação do
equipamento no fundo (Figura 1.). As gravações ocorreram em áreas de com
profundidades de 1 a 6 metros e foram realizadas no final da tarde até o início da manhã
do dia seguinte (entre as 17:00 e 06:30 hrs.), devido a maior ocorrência de sinais acústicas
nesse horário.
Após o recolhimento do hidrofone (ST) em cada ponto, os dados foram
descarregados em um computador portátil, onde foi feita uma avaliação utilizando
programa de áudio Audacity® (www.audacityteam.org), onde foi determinado o tempo
inicial e final de cada evento sonoro passível de ser ouvido, assim como a alta e baixas
frequência e frequência central (frequência de maior energia).
Os diferentes tipos de sons foram detectados e selecionados manualmente no
Audacity através do espectrograma em escala logarítmica, frequência mínima e máxima
de 100 e 48000 Hz respectivamente, com janela Hann de tamanhão 2048.
O programa Raven Pro 1.6 (Cornell Lab.) foi utilizado para avaliar os tipos de sons
detectados, individualizados e selecionados, sendo efetuados cortes de diferentes
comprimentos nas gravações para logo serem gerados oscilogramas e espectrogramas. Os
sons também foram filtrados seguindo a banda de frequência que apresentavam para as
análises de parâmetros acústicos como: Frequência mínima (Hz), Frequência máxima (Hz),
Pico da frequência (Hz), Duração do som (seg.), número de pulsos por som e Taxa de
pulsação (pulsos/seg.).
O programa Raven Pro 1.6 (Cornell Lab) foi utilizado para avaliar os tipos de sons
detectados onde forma efetuados cortes de diferentes comprimentos (duração) nas
gravações para serem gerados oscilograma, espectrogramas, e espectros de potência.
Foram medidos parâmetros acústicos como: Duração do trem de pulsos, Número
de pulsos, Taxa e pulsação (pulsos/seg), Frequência máxima (peak freq.), Frequência
mínima (low freq.), Pico da frequência (peak freq.)
Figura 1. Momento do lançamento do hidrofone SoundTrap na área de confluência dos
rios São Francisco e Piauí (divisa entre os municípios de Penedo e Piaçabuçu), acoplado
ao sistema de ancoragem e armação com boias.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados ressaltam a importância da utilização da acústica passiva como
ferramenta observacional, não invasiva e não destrutiva, e também como sistema de
monitoramento da fauna aquática na região do baixo rio São Francisco.
Os sons biológicos no baixo rio São Francisco foram compostos principalmente
por cliques e estalos de camarões, com padrões similares aos encontrados no ano anterior
nas mesmas localidades, diferentes tipos de sons característicos de peixes e sons
antropogênico, como embarcações.
No caso do curimatã-pacu (P. argenteus), sabe-se que espécies do mesmo gênero
foram grandes agregações reprodutivas, onde os machos produzem sons para atraia as
fêmeas, iniciando o processo da desova. Durante as expedições cientificas no baixo São
Francisco realizadas nas campanhas de 2019 e 2020 não foi possível localizar tais
agregações, e sim sons individuais de alguns poucos organismos (BORIE-MOJICA,
2019), principalmente na região de Piranhas (Figura 2). Estes sons apresentaram uma
banda de frequência média entre 1132 e 244 Hz (Tabela 1.).
Figura 2. Tipos de sons produzidos por diferentes exemplares de P. argenteus na região
de Piranhas. Windows size 2048
Tabela 1. Parâmetros acústicos dos sons (n=25) característicos de P. argenteus detectados
na localidade de Piranhas. DP=Desvio padrão.
Média
DP
Frequência Frequência Pico da Duração
Taxa de
n de
mínima
máxima frequência do som
pulsação
pulsos/som
(Hz)
(Hz)
(Hz)
(seg.)
(pulsos/seg.)
244.7
1132.0
397.5
0.355
10.8
30.8
38.2
127.7
98.6
0.200
10.0
16.5
Os sons em algumas espécies da família Prochilodontidae, como P. magdalenae
no rio Magdalena, na Colômbia (MUÑOZ-DUQUE et al., 2021) e P. nigricans, no rio
Madeira (BORIE et al., 2019), podem estar compostos por pulsos individuais ou trem de
pulsos, com similares características as encontradas no baixo rio São Francisco. Pulsos
individuas foram comumente encontrados em todos os pontos de coleta. Sons longos,
compostos por vários trens de pulsos foram detectados raramente nas diferentes
localidades. A dispersão logarítmica do numero de pulsos e lusos por segundo pode
indicar indivíduos em diferentes estágios reprodutivos (Figura3).
Figura 3. Relação logarítmica do numero de pulsos e pulsos/segundo de sons
característico do gênero Prochilodus.
60
pulsos/seg.
50
40
30
y = 16.725ln(x) - 3.9553
R² = 0.576
20
10
0
0
5
10
15
20
25
30
35
40
n de pulsos
Uma das características secundarias utilizadas para a seleção de machos aptos para
o processo de reprodução induzida e extrusão são os sons produzidos pelos machos (obs.
pessoal). Resultados preliminares mostram que machos de P. argenteus utilizados na
reprodução induzida com hormônios podem produzir sons mais longos, com maior
número de pulsos e variação temporal no intervalo entre pulsos, com frequências menores
a 500 Hz (Figura 4). Esta complexidade acústica que pode estar relacionado com o estado
de maturação sexual por parte dos machos. Isto vem permitindo comparar os sons
emitidos em ambientes controlados, com os sons detectados na natureza, indicando a
ocorrência de alguns exemplares desta espécie.
O fato de não detectar essas agregações pode estar relacionado a falta de condições
ambientais favoráveis pra o processo reprodutivo, o que possivelmente levou a um
declínio da população destas espécies em particular. Segundo Arantes et al. 2010,
modificação de porções de rios pode ter um impacto negativo no processo reprodutivo de
peixes migradores de água doce. Portanto, maiores esforços precisam ser realizados para
aumentar a área de cobertura da coleta de dados, juntamente com um maior número de
coletas durante o período reprodutivo descrito para este gênero ou espécies. Assim, fazse extremamente necessário a continuação das ações de repovoamento (“peixamento”)
desta e de outras espécies de importância comercial para a pesca artesanal.
Figura 4. Som de um exemplar de P. argenteus após o processo de indução reprodutiva
hormonal.
Nas áreas de confluências do rio São Francisco com o rio Boacica (Figuras 5)
assim como na foz (Figura 6) também foi possível detectar sons característicos de
crustáceos com frequências entre 4 e 7 kHz, e diferentes tipos de peixes com frequências
menores a 2 kHz, sendo na foz, sons de peixes com frequências menores a 1 kHz.
Também foi possível detectar os sons de outras espécies de peixes com diferentes padrões
acústicos de frequência e variações temporais do trem de pulsos em diferentes localidades
(Figura 7).
Figura 5. Sons de peixes e crustáceos detectados na confluência dos rios Boacica e São
Francisco, próximo a cidade do Penedo.
A produção de sons característicos de crustáceos, como os camarões se fez
presente na maioria das localidades (Figura 8), assim como ocorreu no ano anterior
(BORIE-MOJICA, 2019). O aumento na quantidade de macrófitas pode estas
favorecendo as populações de camarões encontrados na região.
Figura 6. Diferentes tipos de sons característico de peixes detectados na foz do rio São
Francisco.
Figura 7. Sons individuais característicos de peixes detectados nas regiões do baixo São
Francisco.
O camarão-canela (Macrobrachium acanthurus), é um animal encontrado na
bacia do rio São Francisco, com relevante interesse comercial devido ao porte e boa
aceitação no mercado (NEW, 1995). Segundo Coelho e Lima (2003), o camarão-canela
é uma das espécies mais abundantes no rio São Francisco, mas sua exploração ainda se
baseia na pesca artesanal, praticada por ribeirinhos e servindo para fins de subsistência
dessas comunidades. Resultados preliminares da produção de sons durante atividade
alimentar do camarão-canela em cativeiro mostram padrões similares aos encontrados no
ambiente natural.
Figura 8. Som característico de camarão detectado na região de Pão de Açúcar. a.
oscilograma e espectrograma (abaixo). b. maximização dos três últimos pulsos. Windows
size 512.
Os sons característicos de camarões, sendo camarão-de-estalos, característico de
ambientes estuarinos, apresentou ampla banda de frequência entre 1.2 e 12.4 kHz e pico
de frequência médio de 4,1 kHz. Já a espécie de camarão que foi predominante na região
do baixo São Francisco emitiu cliques com banda de frequência entre 4,5 e 6,8 kHz e pico
de 5,5 kHz, em média com uma maior duração (Tabela 2).
Tabela 2. Parâmetros acústicos dos sons característicos de camarões detectado no baixo
rio São Francisco. DP=Desvio padrão.
Camarão-deestalo
Camarão I
Frequência
mínima (Hz)
Frequência
máxima (Hz)
Pico da
Duração do som
frequência (Hz)
(mseg.)
Média
1256.4
12435.8
4171.9
4.7
DP
473.4
2523.1
1445.9
1.7
Média
4549.8
6852.2
5540.6
16.9
DP
104.8
63.0
337.9
0.5
Como era esperado, a área da foz apresenta características acústicas similares às
encontradas em outras regiões estuarinas do nordeste brasileiro (BORIE-MOJICA in
prep.), com som de estalos principalmente produzidos por crustáceos (Figura 8). Na foz
foram detectados sons característicos do câmara-de-estalo, provavelmente do gênero
Alpheus (Figura 9). Em água doce, os sons biológicos utilizaram frequências que
variavam de 3 kHz a cerca de 14 kHz (GILES et al., 2005). Camarões do gênero Alpheus,
que produz sons de estalos com uma ampla faixa de frequências entre ~ 1 e 15 kHz
(SCHMITZ, 2002; COQUEREAU et al. 2016). O estalo do camarão da família Alpheidae
produz o principal componente acústico com frequências acima de 2 kHz, e com
intensidades mais altas no início e no final da noite no ambiente marinho (LAMMERS e
MUNGER, 2016).
Figura 9. Sons característicos de camarão-de-estalo, provavelmente do gênero Alpheus
detectados na região da foz do rio São Francisco.
Inesperadamente também foram detectados sons característicos do camarão-deestalo a partir da localidade de Porto Real do Colégio. Este tipo de sons é comumente
encontrado em ambientes estuarinos. Embora exista uma única espécie registrada em
água doce, Alpheus cyanoteles encontrado na Malásia (YEO E NG, 1996), outras espécies
de camarão-de-estalos podem sobreviver em baixas salinidades, mesmo sendo mais
abundantes em ambientes marinhos e estuarinos. Assim, ainda são necessários maiores
esforços de coleta de dados sobre as espécies de camarões, e com isso poder infere sobre
a possível origem dos sons detectados que ocorrem na região.
As principais embarcações detectadas ao longo de todo o baixo rio São Francisco
foi a de canoas motorizadas utilizadas pelos ribeirinhos como meio de transporte e
atividades de pesca. Durante a passagem, estes ruídos podem mascarar completamente o
espectro acústico dos sons biológicos detectados.
A ferramenta acústica permitiu avaliar a ocorrência de sons biológicos, assim
como sons antropogênicos, como é o caso das embarcações a motor, sejam lanchas, balsas
ou canoas motorizadas utilizadas na pesca artesanal. Além de avaliar a qualidade do
ambiente, como o caso da região de Paiaçabuçu, onde na expedição anterior (BORIEMOJICA, 2019) foi detectado um ambiente com características estuarinas.
Sugere-se a realização de maiores esforços utilizando a acústica passiva, que irão
também permitir, a localização e mapeamento de áreas prioritárias para conservação e
essenciais para as diversas espécies do baixo rio São Francisco. Com tudo, ainda a
metodologia acústica passiva utilizada durante as expedições cientificas no baixo rio São
Francisco podendo ser replicada nas regiões do submédio, médio e alto para avaliar
ambientes, a ocorrência de diversas espécies e agregações reprodutivas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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O BAIXO SÃO FRANCISCO: CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS 398
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MONTENEGRO, S. C. S., NORDI, N., & MARQUES, J. G. W. (2001). Contexto
cultural, ecológico e econômico da produção e ocupação dos espaços de pesca pelos
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MUÑOZ-DUQUE, S., LÓPEZ-CASAS, S., RIVERA-GUTIÉRREZ, H., & JIMÉNEZSEGURA, L. Bioacoustic characterization of mating calls of a freshwater fish
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PEREIRA ARANTES, F., BATISTA DOS SANTOS, H., RIZZO, E., SATO, Y., &
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ROUNTREE, R. A.; GILMORE, R. G.; GOUDEY, C. A.; HAWKINS, A. D.;
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ROUNTREE, RODNEY A.; BOLGAN, MARTA; JUANES, FRANCIS. How can we
understand freshwater soundscapes without fish sound descriptions?. Fisheries, 2019,
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ROUNTREE, RODNEY A.; JUANES, FRANCIS; BOLGAN, MARTA 2019.
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YEO, D.C.J. AND NG, P.K.L.1996. A new species of freshwater snapping shrimp
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redescription of Alpheus paludicula Kemp, 1915. Raffles Bulletin of Zoology, 44: 37-63.
16 Dinâmica Fitoplanctônica do Baixo São Francisco
Élica Amara Cecília Guedes1; Manoel Messias da Silva Costa2; Ana Karolina Lopes da
Silva3; Mariana Melo Fireman4;
Professora Doutora, Chefe do Laboratório de Ficologia – LABOFIC, Setor de Botânica, Universidade
Federal de Alagoas – UFAL.
2
Professor Doutor, Setor de Biologia, Instituto Federal de Alagoas – IFAL.
3
Graduanda em Ciências Biológicas, Estagiária do Laboratório de Ficologia – LABOFIC, Setor de
Botânica, Universidade Federal de Alagoas – UFAL.
4
Graduada em Ciências Biológicas, Estagiária do Laboratório de Ficologia – LABOFIC, Setor de Botânica,
Universidade Federal de Alagoas – UFAL.
1
RESUMO
Para avaliar o grau de contaminação de ambientes aquáticos, são estudadas comunidades
biológicas que possam atender como bioindicadores aquáticos, dentre elas estão o
fitoplâncton, consideradas bons indicadores de alterações no meio, além de possuírem
ampla distribuição no planeta. É de extrema importância para a compreensão do meio,
uma vez que dentro de cada ambiente existe um conjunto de formas fitoplanctônicas, cuja
variedade, abundância e distribuição são próprias e que se adaptam bem às características
abióticas. Foram analisadas 43 amostras, durante o período de 30 de novembro a 10 de
dezembro de 2020, em oito municípios (Alagoas e Sergipe) a margem do rio e na Foz do
São Franciso: Piranhas (AL), Pão de Açúcar (AL), Traipu (AL), Penedo (AL), Igreja
Nova (AL), Propriá (SE), Piaçabuçu (AL), Brejo Grande (SE). As amostras foram obtidas
através de arrastos horizontais superficiais, com rede de plâncton com malha de 20 µm
em cinco pontos distintos: próximos as margens do São Francisco entre os estados de
Alagoas e Sergipe (Pontos 1 e 3), parte mediana do rio (Ponto 2) e antes e após da
captação d’água (Pontos 4 e 5). As amostras foram acondicionadas em frascos e
preservadas em solução TRANSEAU (6:3:1 água destilada, álcool etílico 70%, formol),
devidamente etiquetados, sendo posteriormente transportados ao Laboratório de
Ficologia do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS) da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL). Foram examinadas alíquotas de 1 ml procedendo-se a análise direta
em microscópio óptico binocular Zeiss (Axioscop 40) utilizando câmara de SedgwickRafter, sendo a identificação das espécies, baseada em bibliografias pertinentes na área.
Foram realizadas as seguintes análises: Riqueza de Espécies, Abundância Relativa (%),
Frequência de Ocorrência (%), Diversidade de Shannon (H’), equitabilidade (J),
Dominância de Simpson (ʎ) e Densidade de Células (cel.mL-1). A comunidade
fitoplanctônica do presente estudo esteve distribuída nas divisões Cyanobacteria,
Bacillariophyta, Euglenophyta, Dinophyta, Rhodophyta e Chlorophyta. Durante o
período estudado foram observadas espécies dominantes, que influenciaram na densidade
de células, na abundância relativa, diversidade e equitabilidade: Cylindrospermopsis
raciborskii (58,8%), Aulacoseira granulata (45,9%), Microcystis aeruginosa (36%),
Arthrospira platensis (31%), Pediastrum simplex (31%), Aulacoseira granulata var.
angustissima (26%), Actinastrum hantzschii (25,4%), Anabaena spiroides (22,8%),
Ceratium furca (19,9%), Oedogonium sp. (18,7%) e Scenedesmus ellipticus (18,5%),
espécies estas que estão associadas a ambiente eutrofizados e/ou acidificados. Persistindo
nessa mudança na vazão e despejos indiscriminados de efluentes domésticos, o ambiente
sofrerá enormes consequências, com o surgimento de cianobactérias potencialmente
tóxicas.
Palavras-chave: densidade, abundância, ambiente lótico.
INTRODUÇÃO
O ambiente aquático é essencial na manutenção dos ecossistemas do planeta e na
existência humana, pois a água possui importância primordial para a vida, pois nenhum
processo metabólico ocorre sem a sua ação direta ou indireta (ESTEVES, 2011). Um
ecossistema que não tenha sofrido influência direta ou indireta do ser humano, como
exemplo a contaminação dos ambientes aquáticos, aliadas ao desmatamento,
contaminação de lençol freático e introdução de espécies exóticas, resultam na
diminuição da diversidade de hábitats e na perda da biodiversidade (GOULART &
CALLISTO, 2003).
Dentre os inúmeros organismos que habitam os ambientes aquáticos, a comunidade
fitoplanctônica se constitui como uma das mais importantes, em sua grande maioria,
dotados de pigmentos fotossintetizantes e constituindo o primeiro elo das cadeias
alimentares aquáticas, são responsáveis pela produtividade primária e refletem com
fidelidade os impactos antrópicos aquáticos, uma vez que dentro de cada ambiente existe
um conjunto de formas fitoplanctônicas, cuja variedade, abundância e distribuição são
próprias e dependem da adaptação às características abióticas, sendo de extrema
importância para a compreensão do meio (REYNOLDS, 2006; RAVEN et al., 2014).
Comunidades de microalgas são consideradas bons indicadores de mudanças
ambientais, sua distribuição e a dinâmica dos recursos, em ambientes aquáticos, têm sido
afetadas pela alteração climática e pela atividade humana indiscriminada (SHOUBAKY,
2013).
Tais estudos com o fitoplâncton contribuem preponderantemente para a
compreensão do funcionamento do sistema como um todo, devido a sua contribuição
essencial na elaboração da matéria orgânica necessária a sobrevivência dos organismos
herbívoros destes ambientes (ESTEVES & SANT’ANNA, 2006; CÂMARA et al., 2007).
Com o aumento da eutrofização em ambientes lóticos advindos de múltiplos usos,
como abastecimento público, lazer, aquicultura e pesca, além de se modificar
rapidamente tanto no tempo como no espaço, tem permitido um rápido crescimento de
algumas espécies de fitoplâncton que estão se tornando cada vez mais comum e
dominante nestes ambientes, tanto qualitativamente quanto quantitativamente,
implicando em potenciais danos à saúde da população (PANOSSO et al., 2007; COSTA
et al., 2009).
Assim, o presente trabalho objetivou levantar informações sobre a dinâmica da
comunidade fitoplanctônica e a partir de então, realizar a análise de como esses
organismos fotossintetizantes podem desempenhar papel de bioindicadores da qualidade
da água no ecossistema em estudo.
METODOLOGIA
As coletas foram realizadas durante a III Expedição do Baixo Rio São Francisco
(Autorização MMA/ICMBio – 75591-1), onde foram analisadas 43 amostras durante o
período de 30 novembro a 10 de dezembro de 2020, onde foram determinados pontos de
coleta ao longo do trecho Baixo São Francisco e oito municípios e na foz: Piranhas (AL),
Pão de Açúcar (AL), Traipu (AL), Penedo (AL), Igreja Nova (AL), Propriá (SE), Piaçabuçu
(AL), Brejo Grande (SE). Os pontos de coletas foram designados da seguinte forma: (1)
margem dos municípios do estado de Alagoas, (2) porção mediana entre os estados de
Alagoas e Sergipe, (3) margem dos municípios do estado de Sergipe, (4) antes da captação
de água e (5) após a captação de água nos municípios do estado de Alagoas.
As amostras foram obtidas através de arrastos horizontais e subsuperficiais,
utilizando-se rede de plâncton com abertura de malha de 20 µm. Após as coletas, as
amostras foram acondicionadas em frascos de plásticos de aproximadamente 100 mL,
devidamente etiquetados e preservadas em solução TRANSEAU (6:3:1 água destilada,
álcool etílico 70%, formol), sendo posteriormente transportados ao Laboratório de
Ficologia do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS) da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL).
A composição do fitoplâncton foi determinada a partir da análise de montagens
lâmina-lamínulas (lâminas temporárias), visualizadas sob um microscópio óptico
binocular Zeiss (Axioscop 40). Para o estudo quantitativo, foram analisadas alíquotas de
1 mL, de acordo com o método de Sedgwick-Rafter (S-R) (APHA; AWWA; WEF, 2005;
CETESB, 2011).
Para a identificação taxonômica dos gêneros e/ou espécies, foram consultados
trabalhos específicos na área: Bourrely (1970), Streble & Krauter (1987), Anagnostidis
& Komarek (1990), Parra & Bicudo (1995), Moreno et al. (1996) e Komarek &
Anagnostidis (1998). Foi utilizado o Sistema de Classificação de Round et al. (1990) para
enquadramento taxonômico das diatomáceas, o de Anagnostidis & Komarek (1988) e
Komarek & Anagnostidis (2005) para Cyanobacteria, Buchheim et al. (2001) para
Chlorophyta e o Sistema de Van den Hoek et al. (1995) para os demais grupos
taxonômicos (Euglenophyta, Dinophyta e Rhodophyta). Todos os nomes científicos de
espécies foram checados junto ao banco de dados internacional ITIS (Integrated
Taxonomic Information System) e ALGAEBASE (GUIRY & GUIRY, 2014).
Após a identificação, foram realizadas contagens dos organismos e calculada a
abundância relativa de cada táxon, utilizado a formula: A=Nx100/n onde, N = n° de
espécies na amostra; n = n° total de espécies, sendo estabelecidos os seguintes critérios:
dominante – ocorrência maior do que 50%; abundante – ocorrência entre 50 e 30%; pouco
abundante – ocorrência entre 30 e 10%; rara – menor de 10% (LOBO & LEIGHTON,
1986).
A frequência de ocorrência (%) foi calculada a partir do número de vezes em que
cada táxon ocorreu nas porções do talo dos hospedeiros, por intermédio da fórmula:
F=P×100/p, onde, P = número de amostras contendo a espécie; p = número total de
amostras, sendo estabelecidos as seguintes categorias: muito frequente – ocorrência em
mais de 70% das amostras; frequente – ocorrência entre 70 e 40% das amostras; pouco
frequente – ocorrência entre < 40 e 20% das amostras e esporádica < 20% (MATEUCCI
& COLMA, 1982).
A riqueza correspondeu ao número de espécies encontrado em cada amostra. O
índice de diversidade específica foi calculado segundo Shannon (H’) (-∑pi.log2)
(Shannon, 1963), cujos valores foram enquadrados nas seguintes categorias: alta
diversidade = ≥ 3,0 bits.cel-1; média diversidade = <3,0 ≥ 2,0 bits.cel-1; baixa diversidade
= < 2 >1,0 bits.cel-1; diversidade muito baixa = < 1,0 bits.cel-1 (VALENTIN, 2000). A
Equitabilidade (J) foi calculada segundo Pielou (1977), apresentando valores entre 0 e 1,
sendo considerado alto ou equitativo os valores superiores a 0.50, o qual representa uma
distribuição uniforme dos táxons na amostra analisada e dominância de Simpson (ʎ)
(MAGURRAN, 1988). Para estes cálculos foi utilizado o programa estatístico PAST
(HAMMER et al., 2001). Teste de Levene's foi utilizado para avaliar a normalidade e
homogeneidade de variância. Análises de variância (ANOVA two way) foram usadas
para testar a ri q u e z a d e e s p é c i e s e densidade de células das amostras coletadas.
Teste de comparações múltiplas de Tukey (Tukey’s pairwise) para riqueza e teste
Wilcoxon (Wilcoxon pairwise) foram
aplicados
quando
ocorreram
diferenças
significativas (P < 0.05). Para todo os procedimentos estatísticos foram utilizados os
programas estatísticos PAST (HAMMER et al., 2001).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A comunidade fitoplanctônica do presente estudo esteve distribuída nas divisões
Cyanobacteria, Bacillariophyta, Euglenophyta, Dinophyta, Rhodophyta e Chlorophyta.
As divisões com maior representatividade de riqueza de espécies foram Chlorophyta (31
spp.) no município de Igreja Nova (AL), Bacillariophyta (26 spp.) em Igreja Nova (AL)
e Brejo Grande (SE) e Cyanobacteria (11 spp) no município de Penedo (AL) (Figura 1 e
Tabela 1). Houve o aparecimento de uma nova espécie de rodofícea microscópica
(Glaucosphaera vacuolata) nos municípios de Pão de Açúcar-AL, Traipu-AL, Igreja
Nova-AL, Propriá-SE e Brejo Grande-SE e praticamente o desaparecimento de espécies
de Euglena sp., onde esteve presente apenas no município de Igreja Nova-AL, sendo a
maioria dessas espécies, indicadores de ambientes eutrofizados. Esse fato pode ter
ocorrido com o aumento da vazão do São Francisco (2020).
Em todas as amostras analisadas foram observados uma maior predominância de
Chlorophyta e Bacillariophyta (Tabela 1). Porém, houve uma diminuição na riqueza de
espécies, em cerca de 30% do número de táxons, quando comparados aos estudos
realizados na II Expedição. Possivelmente com a diferença da vazão de 1.300 m 3/s (2019)
para aproximadamente 2.600 m3/s (2020), houve uma enorme alteração na comunidade
fitoplânctonica, com tendência ao surgimento de espécies que se adaptam a um aporte
maior de nutrientes (cianobactérias e algas filamentosas). Persistindo na diminuição e
aumento na vazão e despejos indiscriminados de efluentes domésticos, o ambiente sofrerá
consequências, tais como, o surgimento de cianobactérias potencialmente tóxicas
(Cylindrospermopsis raciborskii, Lyngbia sp., Microcystis aeruginosa, Oscillatoria sp.)
e a presença de algas verdes filamentosas que pode indicar ambientes eutrofizados
(Spirogyra sp., Oedogonium sp., Stigeoclonium sp.).
Figura 1. (A) Riqueza de espécies e desvio padrão e (B) distribuição percentual do fitoplâncton do Baixo
São Francisco (Alagoas e Sergipe). (PI) Piranhas-AL, (PA) Pão de Açúcar-AL, (TR) Traipu-AL, (IN), (PE)
Penedo-AL, (IN) Igreja Nova-AL, (PR) Propriá-SE, (PU) Piaçabuçu-AL, (BG) Brejo Grande-SE, FOZ (Foz
do São Francisco).
Tabela 1. Riqueza de espécies do fitoplâncton do Baixo São Francisco (Alagoas e Sergipe). (PI) PiranhasAL, (PA) Pão de Açúcar-AL, (TR) Traipu-AL, (IN), (PE) Penedo-AL, (IN) Igreja Nova-AL, (PR) PropriáSE, (PU) Piaçabuçu-AL, (BG) Brejo Grande-SE, FOZ (Foz do São Francisco), (-) dados não existentes.
*diferenças significativas pelo Wilcoxon (Wilcoxon pairwise) (P < 0.05).
DIVISÃO
CYANOBACTERIA
BACILLARIOPHYTA
EUGLENOPHYTA
DINOPHYTA
RHODOPHYTA
CHLOROPHYTA
TOTAL
ANOVA
PI
10
17
3
15
45
PA
8
18
2
1
23
52
TR
7
18
2
1
25
53
PE
11
20
2
22
55
IN
10
26
1
2
1
31
71
PR
7
22
2
1
23
55
PU
9
22
2
22
55
BG
7
26
2
1
23
59
FOZ
6
20
3
19
48
Sum of sqrs
df
MS
F
P
4719.2
8
943.841
196
*
Estudos referentes a comunidade fitoplanctônica em ambientes aquátcos tropicais
demonstram que clorofíceas e diatomáceas constituem um grupo importante dentro deste
ecossistema, por apresentarem altas taxas de reprodução e a capacidade de adaptação em
diversos nichos ecológicos, principalmente sob os aspectos físico-químicos da água. De
com a CETESB (2005) quando ocorre uma dominância e abundância de clorofíceas e/ou
diatomáceas, com valores entre > 1000 e < 5000 cel.mL-1, a qualidade da água é
classificada de razoável a boa, demonstrando que o ambiente está em equilíbrio e
considerada própria para o consumo e lazer humano.
Em relação a densidade oscilou de 2 cel.mL-1, na divisão Euglenophyta (amostra
de Igreja Nova-AL) a 508 cel.mL-1 na divisão Cyanobacteria (amostra de Piranhas) (Figura
2 e Tabela 2).
Figura 2. (A) Densidade de células (cel.mL-1) e (B) distribuição percentual (%) do fitoplâncton do Baixo
São Francisco (Alagoas e Sergipe). (PI) Piranhas-AL, (PA) Pão de Açúcar-AL, (TR) Traipu-AL, (IN), (PE)
Penedo-AL, (IN) Igreja Nova-AL, (PR) Propriá-SE, (PU) Piaçabuçu-AL, (BG) Brejo Grande-SE, FOZ (Foz
do São Francisco).
Tabela 2. Densidade de células (cel.mL-1) do fitoplâncton do Baixo São Francisco (Alagoas e Sergipe PI)
Piranhas-AL, (PA) Pão de Açúcar-AL, (TR) Traipu-AL, (IN), (PE) Penedo-AL, (IN) Igreja Nova-AL, (PR)
Propriá-SE, (PU) Piaçabuçu-AL, (BG) Brejo Grande-SE, FOZ (Foz do São Francisco), (-) dados não
existentes. *diferenças significativas pelo Wilcoxon (Wilcoxon pairwise) (P < 0.05).
DIVISÃO
PI
PA
TR
PE
IN
PR
PU
BG
FOZ
CYANOBACTERIA
508
314
202
127
202
166
174
153
193
BACILLARIOPHYTA
118
286
439
375
499
486
329
563
315
EUGLENOPHYTA
-
-
-
-
2
-
-
-
-
DINOPHYTA
102
126
86
34
33
34
19
27
11
RHODOPHYTA
-
16
27
-
17
40
-
20
-
CHLOROPHYTA
272
258
246
464
247
274
478
237
481
TOTAL
1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000 1000
ANOVA
Sum of sqrs
df
MS
F
P
1.25185E06
8
250370
27.08
*
Apesar de uma diminuição na densidade de células, devido ao aumento da vazão e
possivelmente os organismos ainda não terem se estabelecidos no ambiente, algumas
espécies consideradas potencialmente tóxicas, principalmente nas amostras coletadas em
Piranhas-AL e Pão de Açúcar-AL, antes e após a captação de água e despejos de efluentes,
dentre elas, podemos destacar: Cylindrospermopsis raciborskii (58,8%), Microcystis
aeruginosa (36%), Anabaena spiroides (22,8%) e espécies biondicadoras de ambientes
eutróficos: Aulacoseira granulata (45,9%), Arthrospira platensis (31%), Aulacoseira
granulata var. angustissima (26%), Actinastrum hantzschii (25,4%), Ceratium furca
(19,9%), Oedogonium sp. (18,7%) e ambientes acidificados: Pediastrum simplex (31%) e
Scenedesmus ellipticus (18,5%) e ver Tabelas em anexos).
Durante o período estudado foram observadas espécies dominantes, que
influenciaram na densidade de células, na abundância relativa, diversidade e
equitabilidade: Cylindrospermopsis raciborskii (58,8%), Aulacoseira granulata (45,9%),
Microcystis aeruginosa (36%), Arthrospira platensis (31%), Pediastrum simplex (31%),
Aulacoseira granulata var. angustissima (26%), Actinastrum hantzschii (25,4%), Anabaena
spiroides (22,8%), Ceratium furca (19,9%), Oedogonium sp. (18,7%) e Scenedesmus
ellipticus (18,5%) (Figura 3).
Figura 3. Principais espécies do fitoplâncton do Baixo São Francisco (Alagoas e Sergipe) presentes nas
amostras coletadas na III Expedição (2020). (A) Cylindrospermopsis raciborskii, (B) Aulacoseira granulata,
(C) Microcystis aeruginosa, (D) Arthrospira platensis, (E) Pediastrum simplex, (F) Scenedesmus ellipticus, (G)
Aulacoseira granulata var. angustissima, (H) Actinastrum hantzschii, (I) Anabaena spiroides, (J) Ceratium
furca, (K) Oedogonium sp.
Dentre as espécies do fitoplâncton identificadas durante o período de estudo,
foram consideradas muito frequentes (MF) as espécies que estiveram presentes em mais
de 70% das amostras analisadas: Actinastrum hantzschii, Anabaena spiroides,
Aphanizomenon flos-aquae, Arthrospira platensis, Aulacoseira granulata, A. granulata
var. angustíssima, Ceratium furca, C. fusus, C. lineatum, Chroococcus dispersus, C.
limneticus, Closterium moniliferum, Coelastrum microporum, Coscinodiscus radiatus,
Cyclotella meneghiniana, Cymbella tumida, Dolichospermum circinale, Epithemia
adnata, E. zebra, Eudorina elegans, Fragilaria crotonensis, F. virescens, Frustulia
rhomboides, Glaucosphaera vacuolata, Gomphonema olivaceum, Gonatozygon
brebissonii, Gyrosigma acuminatum, Hyalotheca dissiliens, Kirchneriella elongata, K.
obesa, Meridion circulare, Micractinium pusillum, Microcystis aeruginosa, Microspora
sp., Monoraphidium contortum, Nitzschia fruticosa, N. hungarica, Odontella aurita,
Oedogonium braunii, O. sp. Oscillatoria curviceps, Pediastrum duplex, P. simplex,
Phormidium sp., Pinnularia gibba, P. sp., P. viridis, Rhopalodia gibba, Scenedesmus
bijugus, S. ellipticus, Spirogyra sp., S. sp1., S. sp2., Staurastrum johnsonii, S.
leptocladum, S. sebaldi, Surirella elegans, S. guatimalensis, S. robusta, Terpsinoë
musica, Tryblionella hungarica, Ulnaria ulna e Volvox aureus (ver Tabelas em anexos).
Após as análises do fitoplâncton III Expedição (2020), observamos que a
diversidade (média a alta diversidade) e equitabilidade (equitativos) estiveram em
equilíbrio, quando comparados a expedição anterior (II Expedição/2019). Quando a
diversidade de Shannon (H’) e equitabilidade (J’) são considerados de baixos valores de
acordo com seus índices estabelecidos, refletirá em um desequilíbrio populacional
fitoplanctônico, ao qual está ligado diretamente na abundância de células e na dominância
de poucas espécies.
Sumário completo dos dados de riqueza, abundância relativa (%), frequência de
ocorrência (%) e dos índices ecológicos (diversidade de Shannon, Equitabilidade e
Dominância encontram-se nas Tabelas em anexos - ver Tabelas em anexos).
CONCLUSÃO
Diante da importância ecológica, o fitoplâncton é considerado um dos melhores
indicadores da qualidade biológica da água, sendo bastante utilizado na classificação do
estado trófico de massas d’águas, principalmente quando são avaliadas a abundância (%),
riqueza e dominância, a intensidade e frequência de florações fitoplanctônicas (blooms),
tornam-se essenciais para o manejo e gerenciamento dos sistemas hídricos visando à
proteção do manancial, e requer conhecimentos sobre a atuação desses organismos que
influenciam diretamente na qualidade da água.
Através dos resultados obtidos nessa III Expedição em comparação com a II
Expedição, ainda foi possível observar que as Chlorophyta (algas verdes) e
Bacillariophyta (diatomáceas) estiveram com maior riqueza de espécies, abundância e
densidade de células, aos quais dominaram em praticamente todo os pontos de
amostragem, porém, com diminuição de espécies desses dois grupos e o surgimento de
uma espécie de rodofíceas e o desaparecimento de espécies de euglenofíceas. Porém, foi
possível observar que espécies de cianobactérias potencialmente tóxicas, Anabaena
spiroides, Cylindrospermopsis raciborskii, Lyngbya sp., e Microcystis aeruginosa, estiveram
presentes em abundância de células, principalmente nos locais de captação e despejos de
efluentes domésticos, causam enormes prejuízos a toda a cadeia trófica aquática.
Quando são observados altos valores com relação a abundância e densidade de
cianobactérias em ambientes aquáticos, pode estar intimamente associada a condições
eutróficas, causando prejuízos ao manancial e oferecendo riscos à saúde pública,
investimentos elevados na implantação de Estação de Tratamento de Água (ETA), além
do risco de bioacumulação de toxinas em peixes, crustáceos e bivalves, torna-se
impróprias para o consumo humano.
Com o aumento da vazão entre as expedições de 2019 (1.300 m3/s) e de 2020
(2.600 m3/s), ocorreu uma enorme alteração na comunidade fitoplânctonica, com
tendência ao surgimento de espécies que se adaptam melhor a maior disponibilidade de
nutrientes (cianobactérias e algas verdes filamentosas). Persistindo nessa mudança na
vazão e despejos indiscriminados de efluentes domésticos, o ambiente sofrerá enormes
consequências, com o surgimento de cianobactérias potencialmente tóxicas.
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TABELAS ANEXAS
Tabela A. Percentual de distribuição do fitoplâncton na região do município de Piranhas-AL (Baixo Rio São Francisco). (AR) Abundância relativa da superfície (%),
(PI 1) região de Alagoas, (PI 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PI 3) região de Sergipe, (PI 4) antes da captação d’água, (5) após a captação d’água, (FO) categorias de
frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Anabaenopsis raciborskii Woloszynska
Aphanizomenon flos-aquae Ralfs ex Bornet & Flahault
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann
Cuspidothrix tropicalis (Horecká & Komárek) Rajaniem, Komárek, Willame, Hrouzek, Kastovská, Hoffmann & Sivonen
Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya & Subba Raju
Lyngbia sp.
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Oscillatoria curviceps Agardh ex Gomont
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen
Bellerochea malleus (Brightwell) Van Heurck
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Eunotia monodon Ehrenberg
Fragilaria virescens Ralfs
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Hydrosera triquetra Wallich
Melosira octogona Schmidt
Navicula lanceolata Ehrenberg
Nitzschia graeffii Grunow ex Cleve
Nitzschia hungarica Grunow
Odontella aurita (Lyngbye) Agardh
Pinnularia viridis (Nitzsch) Ehrenberg
Pleurosigma angulatum (Quekett) Smith
Pleurosira laevis (Ehrenberg) Compère
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Compère
PI 1
AR
PI 2
AR
PI 3
AR
PI 4
AR
PI 5
AR
9,7
1,8
4,5
16,5
12,9
10,0
31,0
16,0
5,4
0,8
2,7
1,8
3,1
11,5
58,8
13,6
1,2
36,0
3,2
6,0
4,5
0,3
3,9
0,5
2,0
1,5
0,2
1,1
0,5
0,8
16,0
1,4
1,8
0,3
0,2
0,6
0,2
0,2
0,3
0,2
4,1
0,2
0,2
19,5
1,5
2,4
0,4
3,5
0,4
0,8
0,4
0,4
3,4
3,0
0,4
1,9
2,3
0,6
0,2
0,8
0,3
0,8
0,4
0,6
0,6
F.O
MF
PF
E
MF
E
E
E
E
MF
MF
MF
E
F
E
MF
E
F
E
E
E
PF
F
PF
E
PF
MF
MF
DINOPHYTA
Ceratium furca (Ehrenberg) Claparède & Lachmann
Ceratium fusus (Ehrenberg) Dujardin
Peridinium bipes Stein
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Closterium acutum Brébisson
Coelastrum reticulatum (Dangeard) Senn
Desmodesmus brasiliensis (Bohlin) Hegewald
Eudorina elegans Ehrenberg
Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas
Oedogonium braunii Kützing ex Hirn
Pediastrum boryanum (Turpin) Meneghini
Pediastrum duplex Meyen
Pediastrum simplex Meyen
Spirogyra sp.1
Spirogyra sp.2
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Staurastrum sebaldi Reinsch
Volvox aureus Ehrenberg
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade (J)
Dominância de Simpson (ʎ)
14,3
0,5
8,9
1,5
PI 1
AR
PI 2
AR
0,3
2,4
0,5
5,3
0,2
11,6
1,9
0,2
PI 3
AR
5,0
1,2
0,2
1,5
19,9
0,8
0,4
PI 4
AR
4,2
0,8
0,8
5,3
PI 5
AR
1,2
0,3
0,8
16,0
3,8
11,2
2,7
2,4
5,9
5,4
1,8
3,8
0,8
0,4
2,43
0,74
0,13
2,4
2,2
0,3
1,1
4,8
2,0
1,1
2,72
0,81
0,09
3,0
0,5
0,2
1,84
0,64
0,24
0,3
4,6
1,9
0,0
2,60
0,78
0,10
1,57
0,59
0,37
MF
MF
PF
F.O
MF
E
E
E
F
F
MF
PF
MF
E
E
PF
MF
MF
F
Tabela B. Percentual de distribuição do fitoplâncton na região do município de Pão de Açúcar (Baixo Rio São Francisco). (AR) Abundância relativa da superfície (%),
(PA 1) região de Alagoas, (PA 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PA 3) região de Sergipe, (PA 4) antes da captação d’água, (PA 5) após a captação d’água, (FO)
categorias de frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanocapsa delicatissima West & West
Aphanocapsa planctonica (Smith) Komárek & Anagnostidis
Chroococcus limneticus Lemmermann
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont
Gloeocapsa sp.
Oscillatoria princeps Vaucher ex Gomont
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen
Aulacoseira granulata var. angustissima (Müller) Simonsen
Campylodiscus noricus Ehrenberg ex Kützing
Cymbella tumida (Brébisson) Van Heurck
Epithemia zebra (Ehrenberg) Kützing
Fragilaria crotonensis Kitton
Fragilaria virescens Ralfs
Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Hydrosera whampoensis (Schwarz) Deby
Meridion circulare (Greville) Agardh
Nitzschia fruticosa Hustedt
Surirella guatimalensis Ehrenberg
Surirella robusta Ehrenberg
Terpsinoë musica Ehrenberg
Tryblionella hungarica (Grunow) Frenguelli
Ulnaria ulna (Nitzsch) Compère
DINOPHYTA
Ceratium furca (Ehrenberg) Claparède & Lachmann
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
RHODOPHYTA
PA 1
AR
PA 2
AR
PA 3
AR
PA 4
AR
PA 5
AR
7,8
6,1
3,2
6,1
10,2
0,4
2,7
0,7
2,4
22,8
9,6
2,4
11,2
11,2
11,6
11,6
1,0
5,5
15,7
0,8
8,8
35,2
11,6
11,6
0,1
0,2
1,6
0,8
4,7
0,8
0,8
0,8
1,6
1,6
0,4
10,2
10,2
0,1
0,2
0,4
2,3
0,6
0,1
0,1
1,4
0,2
1,5
0,1
11,2
11,2
0,1
3,4
1,6
0,3
2,7
0,2
0,4
0,8
2,6
0,4
0,1
0,1
0,2
2,7
0,1
1,0
0,1
0,2
0,1
0,2
1,9
0,1
1,0
4,2
10,2
0,4
11,2
0,7
11,6
0,8
5,5
1,6
0,8
0,0
2,4
0,8
5,5
5,5
0,8
4,0
0,8
1,6
1,6
3,2
5,6
F.O
MF
F
E
MF
MF
F
E
PF
MF
F
PF
PF
MF
MF
E
F
F
E
F
MF
F
MF
MF
MF
MF
MF
MF
MF
Glaucosphaera vacuolata Korshikov
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Ankistrodesmus fusiformis Corda
Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs
Coelastrum microporum Nägeli
Cosmarium margaritatum (Lundell) Roy & Bisset
Desmidium baileyi (Ralfs) Nordstedt
Dimorphococcus lunatus Braun
Eudorina elegans Ehrenberg
Kirchneriella elongata Smith
Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius
Kirchneriella obesa (West) West & West
Micractinium pusillum Fresenius
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová in Fott
Pediastrum argentinense Bourrelly & Tell
Pediastrum simplex Meyen
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
Spirogyra sp.
Staurastrum aculeatum Meneghini ex Ralfs
Staurastrum johnsonii West & West
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Staurastrum sebaldi Reinsch
Volvox aureus Ehrenberg
Xanthidium antilopaeum Kützing
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade (J)
Dominância de Simpson (ʎ)
PA 1
AR
PA 2
AR
1,5
PA 3
AR
0,8
0,4
1,0
0,3
0,2
0,4
0,7
0,1
0,2
1,1
0,2
0,2
1,0
0,3
0,5
0,5
10,2
0,3
1,4
0,1
2,0
3,4
0,3
2,90
0,80
0,07
0,1
0,6
1,1
0,4
0,1
11,2
1,0
0,2
3,0
7,1
1,5
0,4
0,2
2,73
0,76
0,09
2,4
PA 4
AR
PA 5
AR
3,1
0,8
1,6
0,8
PF
0,8
3,4
0,1
0,8
1,6
0,7
0,8
0,8
0,1
11,6
1,6
11,0
0,8
2,4
8,0
1,6
0,8
0,8
3,2
1,6
0,8
2,66
0,81
0,11
2,47
0,77
0,16
0,6
7,8
1,3
0,6
2,69
0,76
0,09
F.O
MF
PF
PF
MF
E
E
E
MF
E
PF
MF
E
F
PF
MF
F
F
PF
MF
MF
F
MF
E
Tabela C. Percentual de distribuição do fitoplâncton na região do município de Traipu (Baixo Rio São Francisco). (AR) Abundância relativa da superfície (%), (TR 1)
região de Alagoas, (TR 2) região entre Alagoas e Sergipe, (TR 3) região de Sergipe, (TR 4) antes da captação d’água, (TR 5) após a captação d’água, (FO) categorias de
frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Chroococcus limneticus Lemmermann
Merismopedia elegans Braun ex Kützing
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont
Oscillatoria princeps Vaucher ex Gomont
Phormidium sp.
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen
Aulacoseira granulata var. angustissima (Müller) Simonsen
Coscinodiscus sp.
Epithemia zebra (Ehrenberg) Kützing
Fragilaria crotonensis Kitton
Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Hydrosera whampoensis (Schwarz) Deby
Meridion circulare (Greville) Agardh
Nitzschia fruticosa Hustedt
Pinnularia sp.
Surirella guatimalensis Ehrenberg
Surirella linearis Smith
Surirella robusta Ehrenberg
Terpsinoë musica Ehrenberg
Tryblionella hungarica (Grunow) Frenguelli
Ulnaria ulna (Nitzsch) Compère
DINOPHYTA
Ceratium furca (Ehrenberg) Claparède & Lachmann
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
RHODOPHYTA
Glaucosphaera vacuolata Korshikov
TR 1
AR
TR 2
AR
TR 3
AR
TR 4
AR
TR 5
AR
0,3
16,3
1,0
8,9
0,7
6,0
1,0
12,4
2,0
12,2
14,5
2,0
1,3
0,1
0,3
0,3
13,9
13,9
2,2
0,3
1,3
0,3
13,8
11,3
1,2
6,7
0,2
0,3
16,3
16,3
1,1
1,0
0,8
0,7
0,2
0,3
0,2
1,1
0,7
0,3
7,3
1,7
0,6
0,4
0,1
0,6
0,1
2,5
1,2
0,7
8,0
1,1
1,0
0,3
0,6
1,0
0,6
1,4
7,4
3,4
12,1
10,1
3,8
1,9
2,2
0,2
0,6
0,3
0,1
1,0
6,5
4,1
2,6
4,1
2,6
3,9
1,3
18,4
11,8
2,6
1,3
F.O
MF
MF
E
F
F
PF
PF
F
F
F
F
F
MF
MF
F
PF
PF
MF
MF
PF
PF
MF
PF
MF
F
4,1
3,9
2,0
4,1
1,3
3,9
PF
MF
6,6
MF
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Ankistrodesmus fusiformis Corda
Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs
Coelastrum microporum Nägeli
Desmidium grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary
Dimorphococcus lunatus Braun
Eudorina elegans Ehrenberg
Kirchneriella elongata Smith
Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius
Kirchneriella obesa (West) West & West
Micractinium pusillum Fresenius
Microspora sp.
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová in Fott
Oocystis lacustris Chodat
Pandorina morum (Müller) Bory
Pediastrum argentinense Bourrelly & Tell
Pediastrum simplex Meyen
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
Scenedesmus crassus Chodat
Spirogyra sp.
Staurastrum johnsonii West & West
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Staurastrum sebaldi Reinsch
Staurodesmus convergens (Ehrenberg ex Ralfs) Lillieroth
Volvox aureus Ehrenberg
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade (J)
Dominância de Simpson (ʎ)
TR 1
AR
TR 2
AR
TR 3
AR
TR 4
AR
TR 5
AR
2,3
0,2
0,7
0,5
0,2
0,2
0,3
2,2
0,1
0,1
0,1
2,8
0,1
0,1
0,4
0,1
0,1
3,3
0,6
1,7
0,6
1,0
0,6
6,1
1,3
0,2
0,5
0,5
0,8
0,2
0,2
0,2
10,3
0,3
1,0
0,3
2,1
0,2
0,3
0,2
2,90
0,80
0,07
1,1
0,3
0,1
0,1
0,6
0,1
2,6
2,0
2,0
6,1
2,6
2,6
5,3
18,4
8,2
18,4
5,3
2,0
2,0
1,3
1,3
1,3
2,66
0,81
0,11
2,47
0,77
0,16
0,4
0,3
0,1
11,8
0,1
8,1
0,1
0,6
0,6
4,4
1,1
0,6
0,4
2,9
0,6
2,73
0,76
0,09
0,3
2,69
0,76
0,09
F.O
MF
F
F
F
PF
PF
F
F
F
F
MF
MF
MF
PF
PF
PF
MF
F
E
MF
MF
MF
F
E
PF
Tabela D. Percentual de distribuição do fitoplâncton na região do município de Penedo (Baixo Rio São Francisco). (AR) Abundância relativa da superfície (%), (PE 1)
região de Alagoas, (PE 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PE 3) região de Sergipe, (PE 4) antes da captação d’água, (PE 5) após a captação d’água, (FO) categorias de
frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanizomenon flos-aquae Ralfs ex Bornet & Flahault
Aphanocapsa planctonica (Smith) Komárek & Anagnostidis
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann
Dolichospermum circinale (Rabenhorst ex Bornet & Flahault) Wacklin, Hoffmann & Komárek
Eucapsis densa Azevedo, Sant'Anna, Senna, Komárek & Komárková
Meridion circulare (Greville) Agardh
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Oscillatoria curviceps Agardh ex Gomont
Pseudanabaena catenata Lauterborn
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen
Bellerochea malleus (Brightwell) Van Heurck
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Epithemia adnata (Kützing) Brébisson
Fragilaria virescens Ralfs
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Navicula elegans Smith
Nitzschia fruticosa Hustedt
Nitzschia hungarica Grunow
Odontella aurita (Lyngbye) Agardh
Pinnularia alpina Smith
Pinnularia gibba (Ehrenberg) Ehrenberg
Pinnularia major (Kützing) Rabenhorst
Pinnularia viridis (Nitzsch) Ehrenberg
Surirella elegans Ehrenberg
Surirella linearis Smith
Surirella robusta Ehrenberg
Surirella tenera Greg
Terpsinoë musica Ehrenberg
PE 1
AR
PE 2
AR
PE 3
AR
0,4
0,8
0,2
2,4
0,4
5,6
7,3
0,8
1,7
1,9
0,4
0,6
0,2
0,6
1,9
0,4
0,4
5,4
4,7
11,8
0,8
3,0
1,3
0,8
5,8
2,3
2,3
0,8
0,8
0,4
1,2
6,6
3,1
0,4
1,6
1,6
1,6
0,7
1,5
1,1
0,8
0,4
1,3
1,3
1,9
2,1
9,3
1,7
0,6
0,6
0,8
0,0
0,0
4,2
0,4
1,3
PE 4
AR
PE 5
AR
1,9
1,8
0,9
0,9
8,0
1,9
1,8
0,5
1,4
45,9
0,5
3,2
0,9
3,3
0,5
0,9
3,2
1,8
0,5
0,0
5,0
0,9
11,3
1,9
0,5
9,9
0,5
0,5
0,5
F.O
F
MF
E
F
MF
PF
E
F
MF
PF
E
MF
E
F
MF
F
F
F
PF
MF
MF
E
E
E
MF
PF
E
PF
E
MF
Ulnaria ulna (Nitzsch) Compère
TÁXONS
DINOPHYTA
Ceratium furca (Ehrenberg) Claparède & Lachmann
Ceratium fusus (Ehrenberg) Dujardin
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Asterococcus limneticus Smith
Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs
Coelastrum reticulatum (Dangeard) Senn
Cosmarium quadrum Lundell
Desmidium baileyi (Ralfs) Nordstedt
Desmodesmus brasiliensis (Bohlin) Hegewald
Desmodesmus communis (Hegewald) Hegewald
Desmodesmus maximus (West & West) Hegewald
Eudorina elegans Ehrenberg
Gonatozygon brebissonii De Bary
Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas
Oedogonium sp.
Pediastrum duplex Meyen
Pediastrum simplex Meyen
Scenedesmus ellipticus Corda
Sphaerozosma laeve (Nordstedt) Thomasson
Spirogyra sp1.
Spirogyra sp2.
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Staurastrum rotula Nordstedt
Staurastrum sebaldi Reinsch
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade (J)
Dominância de Simpson (ʎ)
7,4
PE 1
AR
9,2
PE 2
AR
12,7
PE 3
AR
6,4
PE 4
AR
3,8
PE 5
AR
2,7
0,8
4,3
0,2
3,8
0,8
1,8
0,9
MF
F
11,7
11,0
2,6
0,7
0,9
0,4
0,4
9,3
1,4
19,2
1,4
1,9
MF
E
E
PF
E
PF
PF
E
PF
PF
PF
PF
MF
F
F
F
PF
F
MF
MF
E
MF
0,4
0,2
0,4
0,4
1,7
0,5
0,8
0,9
4,3
31,9
0,2
18,7
12,3
0,8
12,2
10,1
0,4
0,2
1,9
1,6
1,9
2,1
0,4
0,2
2,85
0,78
0,09
2,55
0,77
0,14
0,9
1,4
8,3
3,7
1,9
2,8
16,4
3,8
0,8
3,0
1,7
3,2
2,8
2,8
0,5
1,9
0,4
2,84
0,83
0,08
0,5
2,25
0,69
0,23
0,5
2,67
0,81
0,10
MF
F.O
Tabela E. Percentual de distribuição do fitoplâncton na região do município de Igreja Nova (Baixo Rio São Francisco). (AR) Abundância relativa da superfície (%), (IN
1) região de Alagoas, (IN 2) região entre Alagoas e Sergipe, (IN 3) região de Sergipe, (IN 4) antes da captação d’água, (IN 5) após a captação d’água, (FO) categorias
de frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanizomenon flosaquae Ralfs ex Bornet & Flahault
Aphanocapsa delicatissima West & West
Aphanocapsa grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann
Chroococcus limneticus Lemmermann
Dolichospermum circinale (Rabenhorst ex Bornet & Flahault) Wacklin, Hoffmann & Komárek
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont
Phormidium sp.
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen
Aulacoseira granulata var. angustissima (Müller) Simonsen
Caloneis amphisbaena (Bory) Cleve
Cymbella tumida (Brébisson) Van Heurck
Epithemia adnata (Kützing) Brébisson
Epithemia zebra (Ehrenberg) Kützing
Fragilaria crotonensis Kitton
Fragilaria virescens Ralfs
Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni
Gomphonema gracile Ehrenberg
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Hydrosera whampoensis (Schwarz) Deby
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula lanceolata Ehrenberg
Nitzschia fruticosa Hustedt
Nitzschia hungarica Grunow
Odontella aurita (Lyngbye) Agard
Pinnularia gibba (Ehrenberg) Ehrenberg
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
IN 1
AR
IN 2
AR
IN 3
AR
0,7
0,3
0,2
IN 4
AR
IN 5
AR
6,7
1,2
0,7
2,7
9,0
10,8
10,1
13,4
0,1
0,1
4,0
0,1
0,2
10,1
13,4
13,4
10,8
10,8
10,1
10,1
0,4
0,2
2,7
0,3
1,6
3,7
2,3
0,1
2,3
0,7
1,5
2,8
0,2
1,1
0,1
0,1
0,5
0,4
0,2
0,7
4,5
0,5
0,1
1,9
0,4
0,9
0,1
0,3
0,2
3,5
3,0
3,3
0,9
4,9
0,1
2,1
0,3
6,7
3,7
1,3
3,7
3,7
3,7
14,8
1,3
2,7
12,0
1,3
5,3
F.O
F
E
E
E
E
F
E
F
PF
F
F
F
E
PF
PF
F
F
E
MF
PF
F
F
F
MF
PF
MF
PF
E
MF
PF
Surirella guatimalensis Ehrenberg
TÁXONS
Surirella robusta Ehrenberg
Surirella spiralis Kützing
Terpsinoë musica Ehrenberg
Tryblionella hungarica (Grunow) Frenguelli
Ulnaria ulna (Nitzsch) Compère
EUGLENOPHYTA
Euglena fusca (Klebs) Lemmermann
DINOPHYTA
Ceratium furca (Ehrenberg) Claparède & Lachmann
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
RHODOPHYTA
Glaucosphaera vacuolata Korshikov
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Ankistrodesmus fusiformis Corda
Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs
Coelastrum microporum Nägeli
Cosmarium margaritatum (Lundell) Roy & Bisset
Desmidium baileyi (Ralfs) Nordstedt
Desmidium grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary
Desmodesmus armatus (Chodat) Hegewald
Eudorina elegans Ehrenberg
Golenkinia radiata Chodat
Gonatozygon brebissonii De Bary
Kirchneriella elongata Smith
Kirchneriella obesa (West) West & West
Micractinium pusillum Fresenius
Microspora sp.
Oocystis lacustris Chodat 1897
Pediastrum argentinense Bourrelly & Tell
Pediastrum duplex Meyen
Pediastrum simplex Meyen
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
Scenedesmus disciformis (Chodat) Fott & Komárek
Scenedesmus ellipticus Corda
Spirogyra sp1.
0,5
IN 1
AR
1,5
0,4
1,9
5,3
0,3
IN 2
AR
1,2
0,2
0,8
3,8
10,8
0,7
IN 3
AR
1,3
0,1
0,2
4,3
7,7
F
IN 4
AR
3,7
0,1
0,5
1,2
1,5
2,7
0,8
2,8
2,9
1,6
1,0
2,5
3,8
0,2
0,2
5,2
0,1
0,4
0,2
0,2
0,0
0,1
0,2
0,6
0,1
1,2
0,1
0,3
0,1
0,1
0,1
0,1
0,3
0,3
1,0
0,1
0,4
0,2
0,2
1,1
0,8
0,1
0,1
13,4
0,1
10,8
0,5
0,1
0,5
3,7
3,7
IN 5
AR
1,3
F
PF
F
F
MF
5,3
PF
2,7
MF
MF
F
3,7
9,3
3,7
1,3
18,5
20,0
18,5
11,1
16,0
0,6
0,6
0,2
0,3
0,1
0,1
10,1
0,6
F.O
MF
PF
F
PF
E
E
F
PF
F
PF
PF
F
E
F
F
PF
PF
PF
MF
PF
E
F
E
Spirogyra sp2.
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Staurastrum arctiscon (Ehrenberg ex Ralfs) Lundell
Staurastrum gracile Ralfs ex Ralfs
Staurastrum johnsonii West & West
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Staurastrum sebaldi Reinsch
Staurastrum setigerum Cleve
Stigeoclonium sp.
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade (J)
Dominância de Simpson (ʎ)
1,3
IN 1
AR
0,1
0,4
0,9
1,7
1,1
2,84
0,75
0,09
1,3
IN 2
AR
1,5
IN 3
AR
F
IN 4
AR
IN 5
AR
F.O
1,3
PF
E
F
MF
PF
E
E
0,2
0,2
1,6
3,02
0,78
0,07
0,4
0,9
0,4
0,2
0,3
3,06
0,77
0,07
2,37
0,90
0,12
2,50
0,86
0,11
Tabela F. Percentual de distribuição do fitoplâncton na região do município de Propriá (Baixo Rio São Francisco). (AR) Abundância relativa da superfície (%), (PR 1)
região de Alagoas, (PR 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PR 3) região de Sergipe, (PR 4) antes da captação d’água, (PR 5) após a captação d’água, (FO) categorias de
frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanocapsa delicatissima West & West
Aphanocapsa grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Chroococcus limneticus Lemmermann
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont
Phormidium sp.
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen
Aulacoseira granulata var. angustissima (Müller) Simonsen
Caloneis amphisbaena (Bory) Cleve
Coscinodiscus sp.
Cymbella tumida (Brébisson) Van Heurck
Epithemia zebra (Ehrenberg) Kützing
Fragilaria crotonensis Kitton
Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Hydrosera whampoensis (Schwarz) Deby
Meridion circulare (Greville) Agardh
Nitzschia fruticosa Hustedt
Pinnularia sp.
Pleurosigma sp.
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Surirella guatimalensis Ehrenberg
Surirella linearis Smith
Surirella robusta Ehrenberg
Terpsinoë musica Ehrenberg
Tryblionella hungarica (Grunow) Frenguelli
Ulnaria ulna (Nitzsch) Compère
DINOPHYTA
PR 1
AR
PR 2
AR
PR 3
AR
PR 4
AR
0,3
1,0
0,2
9,1
11,4
2,1
8,3
0,5
0,2
0,3
7,4
5,6
0,1
0,1
1,1
0,7
1,8
12,0
2,8
0,1
11,4
11,4
0,9
0,2
1,0
0,6
0,8
0,9
0,1
0,2
0,5
3,8
0,6
0,1
0,3
1,4
2,0
3,4
7,3
16,0
16,0
0,2
0,8
0,5
0,5
0,5
2,9
0,2
0,5
0,5
5,4
2,6
0,3
0,5
1,0
0,2
2,9
0,8
11,0
PR 5
AR
1,1
11,4
6,3
1,7
1,4
13,8
7,4
1,1
2,2
0,7
1,0
1,0
1,5
2,4
0,1
0,3
0,1
4,7
3,2
0,3
0,1
0,7
2,4
0,1
5,4
9,3
1,1
7,4
1,1
13,1
1,8
7,1
0,4
1,1
1,7
1,1
0,4
2,8
1,8
2,3
8,5
1,7
1,1
1,7
8,5
3,9
4,0
4,5
F.O
MF
E
F
MF
MF
F
MF
MF
F
PF
PF
MF
MF
F
MF
MF
MF
F
MF
MF
MF
E
PF
F
PF
MF
PF
MF
MF
Ceratium furca (Ehrenberg) Claparède & Lachmann
TÁXONS
DINOPHYTA
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
RHODOPHYTA
Glaucosphaera vacuolata Korshikov
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Ankistrodesmus fusiformis Corda
Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs
Coelastrum microporum Nägeli
Desmidium baileyi (Ralfs) Nordstedt
Desmidium grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary
Desmodesmus armatus (Chodat) Hegewald
Eudorina elegans Ehrenberg
Golenkinia radiata Chodat
Kirchneriella elongata Smith
Micractinium pusillum Fresenius
Microspora sp.
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová in Fott
Pandorina morum (Müller) Bory
Pediastrum simplex Meyen
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
Spirogyra sp.
Staurastrum arctiscon (Ehrenberg ex Ralfs) Lundell
Staurastrum johnsonii West & West
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Staurastrum sebaldi Reinsch
Staurodesmus convergens (Ehrenberg ex Ralfs) Lillieroth
Volvox aureus Ehrenberg
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade (J)
Dominância de Simpson (ʎ)
0,5
PR 1
AR
PR 2
AR
0,6
PR 3
AR
0,4
PR 4
AR
PR 5
AR
F.O
3,5
2,4
4,3
0,4
0,6
MF
5,1
2,2
5,2
1,4
2,8
MF
3,8
0,3
0,3
0,2
0,1
0,6
3,0
0,6
0,6
0,5
0,0
0,5
2,5
4,0
0,6
0,1
0,2
0,1
0,3
0,3
0,2
0,2
0,2
1,9
2,6
0,3
0,9
0,3
0,7
0,1
0,1
1,1
0,4
0,7
0,7
2,8
0,6
0,6
0,6
3,4
0,2
11,4
0,3
1,0
0,1
0,5
2,5
0,2
0,2
0,3
13,8
8,5
1,8
2,1
14,8
2,8
3,4
1,4
0,6
1,1
2,94
0,77
0,08
2,89
0,77
0,09
0,3
0,4
2,9
0,1
0,1
11,0
0,3
4,1
0,1
1,3
2,0
0,4
0,1
0,2
3,16
0,81
0,06
MF
F
MF
F
PF
F
E
F
PF
MF
MF
MF
F
F
MF
MF
MF
PF
F
MF
MF
F
E
2,94
0,86
0,07
2,92
0,86
0,08
4,6
0,8
2,2
1,4
0,2
F
1,7
0,6
Tabela G. Percentual de distribuição do fitoplâncton na região do município de Piaçabuçu (Baixo Rio São Francisco). (AR) Abundância relativa da superfície (%), (PU
1) região de Alagoas, (PU 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PU 3) região de Sergipe, (PU 4) antes da captação d’água, (PU 5) após a captação d’água, (FO) categorias
de frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanizomenon flos-aquae Ralfs ex Bornet & Flahault
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann
Dolichospermum circinale (Rabenhorst ex Bornet & Flahault) Wacklin, Hoffmann & Komárek
Eucapsis densa Azevedo, Sant'Anna, Senna, Komárek & Komárková
Komvophoron schmidlei (Jaag) Anagnostidis & Komárek
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Oscillatoria curviceps Agardh ex Gomont
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen
Bellerochea malleus (Brightwell) Van Heurck
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cyclotella meneghiniana Kützing
Cyclotella nana Hustedt
Epithemia adnata (Kützing) Brébisson
Euglena gracilis Klebs
Fragilaria virescens Ralfs
Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula exigua Gregory
Nitzschia fruticosa Hustedt
Nitzschia hungarica Grunow
Odontella aurita (Lyngbye) Agardh
Pinnularia gibba (Ehrenberg) Ehrenberg
Pinnularia viridis (Nitzsch) Ehrenberg
Surirella elegans Ehrenberg
Surirella linearis Smith
Surirella robusta Ehrenberg
Terpsinoë musica Ehrenberg
PU 1
AR
PU 2
AR
PU 3
AR
0,7
14,2
4,7
0,3
0,5
17,4
0,7
0,4
0,4
8,6
1,0
2,4
1,4
1,4
14,2
0,1
0,7
0,3
17,4
0,6
1,6
0,4
0,1
0,1
0,3
0,2
0,2
0,3
PU 4
AR
PU 5
AR
7,5
4,3
11,9
1,7
1,7
0,4
1,0
0,3
8,6
0,2
2,7
0,7
0,3
0,3
1,5
1,1
1,5
2,6
10,4
2,6
0,3
0,7
0,2
0,7
0,4
0,9
0,9
2,4
0,3
0,7
0,5
0,3
4,3
4,3
4,3
0,3
0,6
0,2
0,4
0,3
0,2
3,0
7,8
4,5
4,3
6,9
1,7
0,9
F.O
E
MF
F
MF
F
E
E
F
E
F
PF
MF
PF
E
MF
E
F
F
PF
PF
PF
PF
F
MF
F
E
MF
PF
F
PF
Ulnaria ulna (Nitzsch) Compère
DINOPHYTA
Ceratium furca (Ehrenberg) Claparède & Lachmann
Ceratium fusus (Ehrenberg) Dujardin
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs
Coelastrum microporum Nägeli
Cosmarium reniforme (Ralfs) Archer
Gonatozygon brebissonii De Bary
Hyalotheca dissiliens Brébisson ex Ralfs
Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas
Mougeotia scalaris Hassall
Oedogonium sp.
Pediastrum duplex Meyen
Pediastrum simplex Meyen
Pleodorina japonica Nozaki
Scenedesmus ellipticus Corda
Sphaerozosma laeve (Nordstedt) Thomasson
Spirogyra sp1.
Spirogyra sp2.
Staurastrum diacanthum Lemaire
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Staurastrum sebaldi Reinsch
Staurastrum setigerum Cleve
Staurastrum trifidum Nordstedt
Volvox aureus Ehrenberg
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade (J)
Dominância de Simpson (ʎ)
7,5
4,2
8,6
0,7
0,6
1,7
0,3
2,1
0,1
14,2
0,4
0,1
6,8
0,2
0,2
0,3
0,3
0,5
0,9
2,4
14,2
0,5
17,4
0,3
17,4
8,6
0,6
1,4
0,2
0,0
0,1
0,2
8,6
8,6
8,6
14,2
0,9
2,1
1,1
1,2
1,4
0,4
0,7
0,3
0,2
0,1
2,53
0,72
0,11
2,43
0,69
0,13
6,0
MF
3,0
1,7
MF
F
25,4
9,5
0,9
0,9
MF
MF
MF
E
MF
MF
E
F
F
F
F
E
MF
E
MF
PF
E
F
PF
PF
E
PF
1,5
7,5
0,9
0,9
13,4
31,0
0,3
0,4
0,3
4,3
0,1
0,4
1,2
0,2
0,3
0,1
3,07
0,80
0,06
6,0
8,6
4,5
2,6
2,6
2,28
0,89
0,13
2,48
0,82
0,14
Tabela H. Percentual de distribuição do fitoplâncton na região do município de Brejo Grande (Baixo São Francisco). (AR) Abundância relativa da superfície (%), (BG
1) região de Alagoas, (BG 2) região entre Alagoas e Sergipe, (BG 3) região de Sergipe, (BG 4) antes da captação d’água, (BG 5) após a captação d’água, (FO) categorias
de frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanocapsa delicatissima West & West
Aphanocapsa grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Chroococcus limneticus Lemmermann
Merismopedia tenuissima Lemmermann
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Phormidium sp.
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Simonsen
Aulacoseira granulata var. angustissima (Müller) Simonsen
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cymbella tumida (Brébisson) Van Heurck
Entomoneis alata (Ehrenberg) Ehrenberg
Epithemia zebra (Ehrenberg) Kützing
Eudorina elegans Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni
Gomphonema gracile Ehrenberg
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Gomphonema sphaerophorum Ehrenberg
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Hydrosera whampoensis (Schwarz) Deby
Meridion circulare (Greville) Agardh
Neidium affine (Ehrenberg) Pfitzer
Nitzschia fruticosa Hustedt
Pinnularia sp.
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Surirella guatimalensis Ehrenberg
Surirella linearis Smith
Surirella robusta Ehrenberg
Surirella striatula Turpin
BG 1
AR
BG 2
AR
0,3
0,1
0,4
5,2
0,1
3,2
0,5
0,1
12,9
12,9
0,9
0,1
0,5
2,2
0,9
0,1
0,6
0,1
0,3
9,1
9,1
1,0
0,3
0,3
3,2
1,3
1,3
0,4
0,1
0,1
8,4
8,4
1,9
0,3
0,3
4,6
1,8
1,1
1,0
0,1
0,1
0,3
0,5
0,2
0,3
0,3
7,4
2,2
0,3
0,3
2,1
BG 3
AR
BG 4
AR
0,3
0,3
0,1
9,1
9,1
0,4
0,1
0,2
9,1
1,7
0,1
0,1
0,9
0,7
BG 5
AR
8,4
0,1
8,4
0,6
0,4
8,4
1,9
0,6
6,1
1,9
0,2
1,3
10,0
8,4
1,9
1,0
25,1
0,3
13,3
26,0
6,0
0,3
5,2
0,3
0,6
0,6
1,6
0,3
0,3
1,6
0,3
0,3
7,8
1,9
0,6
15,3
0,6
0,6
0,3
0,6
F.O
F
F
PF
MF
PF
MF
F
MF
MF
MF
F
F
MF
MF
F
MF
PF
MF
PF
MF
PF
MF
PF
MF
MF
MF
F
PF
MF
PF
Terpsinoë musica Ehrenberg
TÁXONS
BACILLARIOPHYTA
Tryblionella hungarica (Grunow) Frenguelli
Ulnaria ulna (Nitzsch) Compère
DINOPHYTA
Ceratium furca (Ehrenberg) Claparède & Lachmann
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
RHODOPHYTA
Glaucosphaera vacuolata Korshikov
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Ankistrodesmus fusiformis Corda
Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs
Coelastrum microporum Nägeli
Cosmarium margaritatum (Lundell) Roy & Bisset
Desmidium baileyi (Ralfs) Nordstedt
Desmidium grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary
Kirchneriella elongata Smith
Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius
Kirchneriella obesa (West) West & West
Micractinium pusillum Fresenius
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová in Fott
Oocystis lacustris Chodat
Pediastrum argentinense Bourrelly & Tell
Pediastrum simplex Meyen
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
Scenedesmus ellipticus Corda
Spirogyra sp.
Staurastrum hexacerum Wittrock
Staurastrum johnsonii West & West
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Staurastrum sebaldi Reinsch
Staurastrum setigerum Cleve
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade (J)
Dominância de Simpson (ʎ)
BG 1
AR
BG 2
AR
0,2
BG 3
AR
2,2
12,9
1,9
9,1
8,4
1,9
3,4
0,4
3,2
0,5
2,5
0,5
2,4
0,3
2,1
2,6
2,4
6,5
9,1
0,2
0,2
0,5
6,9
0,6
0,3
0,4
0,3
0,1
0,3
0,4
0,6
0,1
0,1
0,2
0,2
0,2
0,3
0,1
0,2
12,9
0,3
9,1
0,1
0,5
0,3
0,1
0,6
0,6
0,1
2,87
0,74
0,08
0,2
0,4
3,6
0,6
0,1
2,93
0,75
0,07
E
BG 4
AR
BG 5
AR
F.O
3,6
6,5
MF
MF
F
MF
F
3,4
2,3
0,3
0,2
0,3
0,6
0,3
0,2
0,2
0,9
1,9
0,3
23,2
4,1
2,8
5,2
3,6
0,4
0,2
0,3
0,3
8,4
0,3
1,2
0,2
0,2
0,9
0,2
0,1
3,03
0,79
0,06
0,3
0,3
1,6
2,39
0,73
0,14
2,43
0,76
0,13
MF
E
PF
F
E
PF
F
MF
F
F
MF
PF
F
E
MF
MF
E
MF
PF
MF
MF
F
F
Tabela I. Percentual de distribuição do fitoplâncton na Foz Baixo Rio São Francisco. (AR) Abundância relativa da superfície (%), (FOZ 1) região de Alagoas, (FOZ 2)
região entre Alagoas e Sergipe, (FOZ 3) região de Sergipe, (FO) categorias de frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Aphanizomenon flos-aquae Ralfs ex Bornet & Flahault
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann
Dolichospermum circinale (Rabenhorst ex Bornet & Flahault) Wacklin, Hoffmann & Komárek
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Oscillatoria curviceps Agardh ex Gomont
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Bellerochea malleus (Brightwell) Van Heurck
Biddulphia pulchella Gray
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cyclotella meneghiniana Kützing
Entomoneis alata (Ehrenberg) Ehrenberg
Epithemia adnata (Kützing) Brébisson
Fragilaria virescens Ralfs
Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni
Gyrosigma attenuatum (Kützing) Rabenhorst
Navicula elegans Smith
Nitzschia hungarica Grunow
Odontella aurita (Lyngbye) Agardh
Pinnularia viridis (Nitzsch) Ehrenberg
Pseudo-nitzschia multiseries (Hasle) Hasle
Surirella elegans Ehrenberg
Surirella linearis Smith
Surirella robusta Ehrenberg
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Compère
DINOPHYTA
Ceratium furca (Ehrenberg) Claparède & Lachmann
Ceratium furcoides (Levander) Langhans
Ceratium fusus (Ehrenberg) Dujardin
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
FOZ 1
AR
FOZ 2
AR
FOZ 3
AR
0,3
11,3
3,5
0,5
11,3
0,1
0,7
12,0
0,5
0,6
0,5
0,2
1,8
12,6
1,0
0,3
MF
MF
MF
MF
F
F
11,3
0,2
0,3
6,1
0,1
0,2
1,1
2,4
0,5
0,1
12,0
0,2
12,6
12,0
1,4
12,6
0,8
0,1
0,6
0,1
0,4
0,2
1,2
0,2
0,3
0,6
0,3
3,4
0,1
1,7
F.O
0,5
0,4
0,3
1,4
1,5
1,1
0,6
1,6
0,1
0,9
MF
F
PF
MF
MF
F
MF
MF
MF
F
F
PF
MF
F
PF
MF
PF
F
MF
MF
MF
PF
MF
MF
1,6
0,5
0,1
0,2
0,1
0,1
1,5
0,5
0,3
0,1
0,3
0,3
0,4
11,3
12,0
12,6
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs
Coelastrum microporum Nägeli
Desmidium baileyi (Ralfs) Nordstedt
Euastrum denticulatum Gay
Gonatozygon brebissonii De Bary
Hyalotheca dissiliens Brébisson ex Ralfs
Micrasterias radiosa Ralfs
Mougeotia scalaris Hassall
Oedogonium sp.
Pediastrum duplex Meyen
Pediastrum simplex Meyen
Radiococcus polycoccus (Korshikov) Kostikov, Darienko, Lukesová & Hoffmann
Scenedesmus ellipticus Corda
Spirogyra sp1.
Spirogyra sp2.
Staurastrum diacanthum Lemaire
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Staurastrum sebaldi Reinsch
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade (J)
Dominância de Simpson (ʎ)
FOZ 1
AR
FOZ 2
AR
FOZ 3
AR
0,2
0,1
0,4
11,3
1,0
11,3
0,4
0,1
0,1
12,0
12,0
1,1
12,0
1,5
0,8
0,2
0,1
0,1
0,5
1,0
0,7
0,2
0,2
0,2
0,5
0,5
2,79
0,75
0,09
2,55
0,72
0,10
0,1
12,6
12,6
12,6
0,6
1,1
0,3
0,1
0,3
2,41
0,70
0,11
F.O
PF
MF
PF
PF
MF
F
F
F
MF
F
MF
PF
MF
PF
F
F
F
PF
17
Atividade pesqueira no Baixo São Francisco
Vanildo Souza de Oliveira1, Alex Souza Lira2
1
2
Professor Doutor, Departamento de Pesca-Universidade Federal Rural de Pernambuco
Mestre em Recursos Pesqueiros
RESUMO
O presente relatório descreve os dados da III expedição Cientifica do São Francisco, no
que se refere a pesca artesanal. Os impactos da pandemia na atividade pesqueira, impactos
do aumento da vazão nas capturas e dados econômicos. Analisa as espécies capturadas
com redes de emalhar e contribui para batimetria das cidades de Piranhas até Piaçabuçu.
Também são propostas ações para os órgãos gestores.
INTRODUÇÃO
A expedição foi realizada com a vazão do Rio em torno de 2.880 m 3/s, portanto
com características bem diferentes das condições normais, principalmente nos últimos
seis anos. Foram realizadas entrevistas com os presidentes de colônias com o objetivo de
avaliar a situação da pesca nessas condições, assim como os impactos causados pela
pandemia, no que se refere a comercialização do pescado e geração de renda para os
pescadores nesse período.
Outra atividade durante a expedição foi realização da batimetria no percurso
traçado pela embarcação. Com o aumento do volume o trajeto de Penedo para a cidade
de Piranhas foi mais fácil, uma vez que a navegabilidade foi beneficiada pelo alto volume.
Tanto a profundidade como o tipo de fundo, bem como possíveis concentrações de peixes
foram registrados em uma ecossonda colorida conectada a um GPS, fornecendo assim
também a posição do barco.
METODOLOGIA
Na captura dos peixes foram usadas redes de emalhar com comprimento de malhas
de 35, 40, 45 e 50 mm, com fios de 30 e 35 mm de diâmetro. Os lances foram realizados
no período da tarde e recolhimento ao amanhecer. Na batimetria foi utilizado uma
ecossonda colorida com frequência de 50 e 200 khz.
RESULTADOS
De uma forma geral, durante o trajeto foram observados os impactos antrópicos,
tais como assoreamento das margens, agora agravados pelo grande volume de agua
(Figura 1)
Figura 1: Áreas assoreadas nas margens do rio.
Áreas destinadas ao lazer também foram afetadas, uma vez que quando o volume
aumentou os bares e comercio que ao longo do tempo, foram sendo construídos nas
margens com um rio com menor volume. Assim, Inviabilizando essa atividade econômica
em alguns lugares. (Figura 2).
Figura 2: áreas de comercio e turismo invalidade pela água.
A atividade pesqueira foi afetada em algumas cidades, quando do fechamento do
comercio no auge da pandemia. Nem todos os pescadores receberam o auxilio
emergência, tendo dificuldade de viabilizar a comercialização do pescado. Todos viram
com bons olhos o aumento do volume do rio, pois possibilita uma maior área para a
reprodução dos peixes, apesar de alguns pescadores acharem que com o volume maior os
peixes desaparecem, porque tem umas áreas maior para se esconder, diminuindo assim a
produção pesqueira. Na realidade o volume maior e a invasão das áreas de margens mais
baixas formando lagoas, enriquecem de uma forma geral a produção primaria
contribuindo com uma água mais rica, sendo assim de grande importância principalmente
para os peixes jovens (alevinos). Essas áreas alagadas com esse volume gera um local
muito importante para a reprodução de certas espécies, por serem calmas e protegidas
(Figura 3)
Figura 3: Lagoas formadas nas margens, em função do aumento de vazão.
Esse aumento de vazão consequentemente terá impacto na produção da icitiofauna
do rio. Com a água mais rica em nutrientes, possivelmente, nos próximos meses teremos
um o reflexo na produção pesqueira. Lamentavelmente, não poderemos constatar esse
impacto, uma vez que não temos estatística pesqueira que nos possibilite monitorar o
aumento da atividade pesqueira em consequência desse aumento de vazão. É fácil
localizar nas margens alevinos de varia espécies de peixes (Figura 4).
Figura 4: Cardumes de alevinos nas margens do rio.
A outa atividade que foi impactada foi a piscicultura, tendo sido registrado
depoimentos de que o aumento repentino levou alguns tanques de cultivo. No entanto,
esse tipo de atividade pode acompanhar o nível, quando do aumento do volume,
deslocando os tanques. Essa atividade de cultivo de tilapia (Figura 5) tem bons resultados,
uma vez que já tem sua cadeia produtiva já consolidada, rações para toda a fase , assim
como a comercialização. È uma solução para a produção de pescado primacialmente
quando a pesca artesanal diminui. Além da tilápia outra espécie bastante cultivada é o
tambaqui. Essas espécies aparecem em quase todos os mercados públicos de peixes.
As atividades pesqueiras que foram mais registradas são a pesca com redes de
emalhar (Figura 6) e covos para captura de camarão (Camarão canela e o Pitu) (Figura
7), onde são usados como iscas bolinhos do farelo de arroz como iscas nos covos (Figura
8). As embarcações são canoas entre três e quatro metros, com motor de rabeta de fácil
manobra para as fainas de pesca.
Figura 5: fazenda de tilápia em tanques rede.
Figura 6: Canoa com motor de rabeta, pescando com redes de emalhar.
Figura 7: Canoa com covos para a pesca de camarão.
Figura 8: Bolinhos de farelo de arroz, utilizados como isca nos covos.
As espécies de peixes mais capturadas foram: piau, pirambeba e pacu (Figura 9).
Também foram capturadas, em menor quantidade, a xira, tucunaré, oscar e carí. A xira
ou curimatã sem duvida é o peixe mais apreciado no baixo são Francisco, sendo uma das
maiores solicitações dos pescadores sobre o programa de repovoamento da CODEVASF.
Figura 9: As três espécies mais capturadas nas redes de emalhar: piau, pirambeba e pacu.
Um dos fatores mais impactantes na atividade pesqueira é a proliferação de
macrófitas aquáticas no fundo do rio, que forram todo o fundo impedindo que a rede toque
o fundo. As macrófitas também se emalham nas redes, aumentando a visibilidade, dessa
forma diminuindo a captura (Figura 10).
Figura 10: Macrófitas aquáticas, emalhadas nas redes, no recolhimento da rede.
- Situação da Atividade Pesqueira
Em função da pandemia os encontros com os presidentes de colônias foram
limitados. A pandemia foi uma das causas que afetaram, principalmente na
comercialização do pescado. Outra preocupação foi a falta de espécies de valor
econômico que desapareceram do rio, sendo necessário um programa de repovoamento
das espécies em um tamanho maior dos alevinos para o aumento da sobrevivência e a
participação dos pescadores na escolha da localização desses povoamentos.
- Análise das Capturas
Quando analisamos a presença das espécies em proporção de ocorrência,
observamos que 63% da captura é composta apenas por duas espécies de baixo valor
econômico: Pirambeba e Pacu (Gráfico 1). O que explica as precárias condições
econômicas da maioria dos pescadores.
Gráfico 01: Composição da porcentagem de captura das espécies.
Os peixes de maior valor comercial representam apenas 15% das espécies
capturadas. Isso mostra a necessidade dos órgãos governamentais que fazem o
repovoamento de peixes, estimular a reprodução de espécies de alto valor econômico,
como a Xira, para gerar uma maior renda para os pescadores.
Em função do grande volume do rio, os pescadores explicam a diminuição do
pescado devido ao avanço da água inundando a vegetação das margens do rio, criando
assim, mais lugares para o peixe se esconder, onde as redes não tem acesso.
Quanto a eficiência de captura das redes de emalhar observamos que o maior
número de indivíduos foi capturado nas malhas menores, 35 e 40 mm (Gráfico 2). O que
pode significar que a maioria da ictiofauna capturada é composta de peixes que dominam
o ambiente com tamanho pequeno como a Pirambeba e o Pacu (67%) da captura.
Gráfico 2: Composição do número de captura nas redes de emalhar, por comprimento de
malha.
- Análises Batimetricas por Meio da Ecossonda
Em cada ponto marcado, a ecossonda registrou: latitude, longitude, profundidade e
temperatura da água na superfície. No gráfico do percurso que foi registrado da cidade de
Piranhas a cidade de Piaçabuçu, podemos observar que a batimetria demostra uma tendência
de diminuição no sentido da foz. As maiores profundidades foram obtidas próximas a usina
de Xingó, devido à grande velocidade da água nessa área, provocando assoreamento no fundo
do rio caracterizando essa área com fortes turbulência e redemoinhos. Na medida em que se
distancia da represa a batimetria diminui, resultando em uma menor velocidade do rio
meandrando até a foz (Gráfico 3). Esse declínio da batimetria também é observado no
(Gráfico 4), onde os perfis ” a, b e c “, são mostrados em detalhes. Com a diminuição do
volume, liberado por Sobradinho, a tendência é que a navegação seja mais preocupante em
função da diminuição da profundidade no sentido da foz. Dessa forma, o assoreamento das
margens corrobora para cada vez mais essa área diminua seu calado. Ressaltando que esses
dados foram obtidos com 2.800 m3/s. Com a continua diminuição do volume atinge
diretamente a navegação além dos impactos na ictiofauna.
Gráfico 03: Variação da batimetria em função da coloração e perfil de todo o trajeto, a
partir da cidade de Piranhas até Piaçabuçu.
Gráfico 04: Perfil batimétrico detalhado em três áreas, entre as cidades de Piranhas e
Piaçabuçu.
- Analise dos Dados do Monitor Ecossonda Colorida
As primeiras análises da batimetria, mostram informações interessantes referentes
ao comportamento dos peixes, demostrando haver uma maior atividade noturna do que
diurna, isso pode ser explicado pelos fatores como: habito alimentar e proteção. Com uma
água tão transparente, sem sedimentos como a do baixo São Francisco, a atividade noturna
parece ser mais segura dos predadores (Figuras 11a e 11b).
As informações da ecossonda, revelam características do fundo do rio com a vasão
de 2.800 m3/s, ou seja, uma vazão ideal. Alguns aspectos são importantes de registro,
como a grande profundidade registrada em frente a cidade de Piranhas, justamente por
está próxima da represa a água age com grande força de assoreamento no fundo. Na frente
de Piranhas rapidamente alcança-se os 60 metros de profundidade (Figura 12A) com um
talude vertical com queda rápida de profundidade (Figura 12B).
Figura 11: Registro de grande atividade de peixes no período noturno (A) e registro de
baixa atividade de peixes no período diurno (B).
A
B
Figura 12:. Registro de grande profundidade (A) e talude com subida rápida (B).
A
B
Outros aspectos importantes foram os registros dos vórtices (redemoinhos), que
podem ser perigosos, principalmente para banhistas e pequenas embarcações (Figuras 13
A e B). No fundo do rio foi também foi observado varias formações que podem ser
sedimentos (areia fina), registrando uma turbulência no fundo do rio (Figuras 13 C e D).
Outros registros importantes foram os “Cabeços”, elevações que podem ser de
areia ou pedras, o que torna muito perigoso para a navegação, principalmente as maiores
de transporte. Na foto observamos um cabeço a 4,3 m da superfície (Figura 14). Há
também registros de “Cabeços” no fundo do rio a 2m e 6m da superfície, respectivamente
(Figuras 15 A e B).
Figura 13 - Registros de turbulências geradas no fundo do rio.
A
B
C
D
Figura 14: Registro de “Cabeços” no fundo do rio a 4,3 m da superfície.
Figura 15: Registro de “Cabeços” no fundo do rio a 2 m e 6 m da superfície,
respectivamente.
A
B
Um registro importante, foi a alta concentração de macrófitas no fundo do rio
(Figura 16), principalmente nas margens, pois modificam o habitat do fundo impactando
assim, espécies muitas vezes endêmicas. Também atrapalham a atividade pesqueira, pois
as redes não alcançam o fundo, além de danificá-los.
Figura 16: Registro de macrófitas no leito do rio.
PROPOSTA PARA AÇÕES PELAS INSTITUIÇÕES DE GESTÃO PUBLICA NO
BAIXO SÃO FRANCISCO.
1- Quanto à gestão dos recursos e atividades pesqueiras, sugere-se que seja criado um
consorcio entre as prefeituras do baixo São Francisco - CONPRESF, juntamente com a
CODEVASF e Universidades. No sentido de montar uma rede de coletores (profissionais
habilitados), para fazer o controle de desembarque pesqueiro (estatística pesqueira), assim
como prestar assistência técnica aos pescadores do baixo SF.
2- Quanto aos problemas causados pelas macrófitas aquáticas, elas podem ser uma fonte de
matéria orgânica aproveitável para varias finalidades, Segundo SOARES (2020), a
inserção de macrófitas aquáticas como fertilizantes já vem sendo estudada e desenvolvida
em reservatório. O de Santana em Piraí, no Rio de Janeiro, afirma que o uso destas
recupera grandes quantidades de nutrientes para o solo, promovendo o crescimento de
plantas nativas e cultivadas, possibilitando o seu uso como adubo orgânico. Além disso,
o uso da biomassa pode promover expressivos ganhos ambientais e sociais, e também
amenizar a parte econômica, garantindo sustentabilidade no processo (CEIVAP, 2012).
Segundo Yamauchi (2014), tal método serve de auxílio a solos degradados, já que o
mesmo se caracteriza por dispor de baixos índices de nutrientes, matéria orgânica e
características físicas, que impossibilita o desenvolvimento das plantas. Dessa forma, é
essencial o discernimento dos atributos químicos destas a serem usufruídos, assim como
sua consequência no solo após incorporação. Podendo ser constatado que o acréscimo de
matéria orgânica altera de forma positiva a fertilidade do solo, sendo capaz de melhorar
as propriedades químicas até mesmo de áreas severamente degradadas. Dessa forma
sugere-se a criação de um Projeto Piloto no Baixo São Francisco, com o objetivo de
revitalização do solo, no caso o semiárido das margens do rio - Projeto “PRÓ-SOLO”,
(EMBRAPA, CODEVASF, UNIVERSIDADES). O projeto piloto trabalharia para
revitalizar os solos dos assentamentos de agricultores. Com o acompanhamento dos
órgãos de pesquisa. O projeto tem que constar de métodos de extração das macrófitas do
rio, que pode ser com uma rede de material sintético com lastros e flutuadores que
facilmente cercaria umas áreas e seria puxada para a margem, mecanicamente (trator das
prefeituras), em seguida seria triturado em uma forrageira e transferida em caminhões
para os devidos lugres pré-estabelecidos no projeto. O aproveitamento dessas macrofitas,
além de ser uma solução para produção agrícola e na atividade pesqueira, seria um grande
beneficio na qualidade da água do rio, pois essas macrofitas além de modificar o habitat
dos peixes consomem o oxigênio da agua.
3 Apesar da variação do volume ter um impacto direto na navegação e ictiofauna do rio, essa
regulação é feita pela politica de gestão da CHESF, que tem a prioridade de geração de
energia.
BIBLIOGRAFIA
SOARES, P. V. P.; FERREIRA, L. R. L.; SANTOS, E. C.; LIMA, M. L. F.
Potencialidade do uso de macrófitas aquáticas como adubo em meios de culturas:
solução para redução dos efeitos causados pela eutrofização do rio são Francisco. Belo
Horizonte, III Simpósio da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, 2020, 8p.
18
Ictiofauna do Baixo São Francisco: diversidade,
biologia reprodutiva e rendimento por
ultrassonografia
Emerson Carlos Soares1; Jucilene Cavali2; Elton Lima Santos1; Ceilda Inocêncio3
1
Professores, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
2
Professora, Laboratório de Ciência da Carne (LCC-UNIR), Campus Presidente Médici (DZO),
Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
3
Bolsista Iniciação Científica Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de
Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
RESUMO
A avaliação da ictiofauna no Baixo São Francisco é de suma importância e serve de
indicador da qualidade dos ecossistemas. Em 2020 foram avaliados aspectos da
abundância e diversidade de espécies, biologia reprodutiva e qualidade do músculo dos
exemplares capturados. Foi usado a técnica da ultrassonografia na maturidade gonadal e
fase ovocitária das espécies em período de defeso no baixo Rio São Francisco, praticandose a soltura ao ambiente de matrizes em estágio reprodutivo avançado de forma a garantir
sua multiplicação. Foi encontrada uma diversidade de 19 espécies, que obtiveram
comprimentos médios padrão superior aos valores encontrados em 2018 e similar aos
exemplares capturados em 2019. O rendimento muscular do pescado está relacionado a
alimentação disponível no rio e convertida quanti-qualitativamente nos tecidos
depositados no pescado passiveis a ser avaliado por ultrassonografia assim como as
características reprodutivas. Dos indivíduos avaliados, 85% estavam em estágio avançado
de maturação, corroborando com o quadrimestre de defeso da pesca de novembro a
fevereiro.
INTRODUÇÃO
Ictiofauna do baixo
A ictiofauna na região do baixo do curso do rio São Francisco é influenciada por
uma série de fatores, dentre estes destacam-se o ritmo das vazões da hidroelétrica de
Xingó, cada vez mais artificiais e de menor volume, influenciada pelas políticas de
flexibilizações, por intermédio de portarias e instruções normativas que visam a geração
de energia elétrica, transposição e irrigação.
Adicionalmente a supressão da vegetação ciliar, a vulnerabilidade do solo e a as
alterações dos parâmetros físico-químicos da água, que conjuntamente com o
assoreamento, mudanças hidrológicas (sistema lótico para lêntico), aumento de poluentes,
pressão pesqueira e disputa de territórios proporcionada pelas espécies exóticas e
marinhas e de hábito alimentar carnívoro, bem como, a ausência de planejamento urbano
nas margens do rio com a especulação imobiliária, trazem danos irreparáveis para as
espécies nativas (SILVA ET AL., 2020; DANTAS ET AL., 2020; SOARES ET AL.,
2020; FIGUEIREDO ET AL., 2020).
Essa mudanças que atingem as lagoas marginais (berçários naturais de espécies
nativas) e as regiões mais próximas a foz, com o aumento da cunha salina, modifica a
paisagem e altera os nichos tróficos, modificando o habitat e o tipo de água, tendo
consequência direta no ecossistema, através de mudanças na velocidade do fluxo, na
produtividade e na disponibilidade de habitats, que tendem a selecionar espécies mais
adaptadas às mudanças ambientais, podendo acelerar os processos de extinção local
(FIGUEIREDO ET AL, 2020; CRUZ ET AL., 2020).
Quanto a diversidade ictiofaunística no baixo curso do rio, apesar das limitações
de estudos sobre a ictiofauna, Marques (1995), trabalhou na região da várzea da Marituba,
observando cerca de 21 espécies, com destaque para alguns indivíduos como a curimatãpacú-Prochilodus argenteus, Megaleporinus obtusidens (piau), Serrassalmus brandtii
(pirambeba), Pygocentrus piraya – piranha, Hoplias sp., Centropomus parallelus- robalo
e Pseudoplatystoma corruscans- surubim.
Costa et al (2000), em seus estudos delimitou a ocorrência de 33 espécies nos
municípios ribeirinhos do baixo São Francisco, com destaque para os piaus – Leporinus
sp. e Schizodum sp., e carapebas – Eugerres brasilianus.
Soares et al. (2011), estudando a microrregião de Penedo- AL (baixo São
Francisco), observou a ocorrência de 22 espécies em 2007, 18 espécies em 2008 e 17
espécies em 2009, das quais cerca de cinco representaram em média 80% da biomassa do
pescado desembarcado, com destaque para a família Prochilodontidae, representada pela
xira ou curimatã-pacu (Prochilodus argenteus) espécie endêmica da bacia, com
percentual médio de 40,0%, seguido da família Anostomidae, tendo os piaus
(Megaleporinus reinhardt e Megaleporinus obtusidens) com 22,0%, alternando-se entre
um representante da família Engraulidae, a pilombeta (Anchoviella vaillanti) com 7% em
2007 e 18% em 2008 e dois representantes da família Centropomidae, o robalo
(Centropomus undecimalis e C. parallelus) com média de 10% para os três anos
analisados, sendo a segunda espécie a mais comum.
Sampaio et al. (2015), estudando a região estuarina do rio São Francisco, afirmou
que a ictiofauna era composta predominantemente por indivíduos em ecofase jovem, de
espécies migrantes. Nestes estudos foram determinados 44 Famílias, 117 táxons: 113 na
categoria espécie, e quatro, na categoria gênero, sendo 44% marinhas-estuarinas (M-E),
41% dulciaquícolas (D) e 15% marinhas (M).
Nos estudos de Soares et al. (2020), na planície fluviomarinha do Rio São
Francisco (microrregião de Penedo e foz) foram coletados 3.772 indivíduos pertencentes
a 82 táxons, estando 80 classificados em nível de espécie, sendo descritos 54 novos
registros (NR) de espécies para a Bacia do Rio São Francisco, todas associadas aos
estuários ou de origem marinha. Nestes mesmos estudos trabalhando em 8 municípios do
Baixo São Franciscofoi relatado o empobrecimento de exemplares nativos na composição
das capturas, com 17 espécies coletadas, constatando o desaparecimento das curimatãspacús- P. argenteus e pilombetas – Anchoviella sp.
Já Figueiredo et al. (2020), registrou 37 espécies, 7 ordens, 15 famílias, sendo 20
espécies nativas de água doce, 7 introduzidas e 10 marinhas. A ordem Characiformes foi
a mais representativa.
Avaliação reprodutiva e qualidade da carne da ictiofauna
A ultrassonografia é uma técnica não invasiva que permite a avaliação física do
pescado sem a necessidade de abatê-lo. Empregada em pesquisas em todo o mundo
devido ao seu caráter não destrutivo, simples, preciso e informatizado, além de
possibilitar a análise de amostras visivelmente opacas sem a necessidade de preparações
laboratoriais específicas, tem sido comparada a técnica da tomografia computadorizada
na eficácia de diagnóstico de algumas patologias em peixes (GUMPENBERGER et al.
2004).
As aplicações do ultrassom na piscicultura abrangem as áreas de reprodução
animal, diagnóstico de doenças e avaliação de características de qualidade e rendimento
de carcaça, com importância relevante nas pesquisas correlatas (NOVELO; TIERSCH,
2012). No âmbito reprodutivo pela ultrassonografia determina-se a qualidade das
matrizes através da maturação gonadal e de ovócitos, fases de ovocitos vitelogênicos e
índices gonodossomaticos (CREPALDI; ROTTA 2007). A técnica permite a seleção de
esturjões fêmeas 100% maduros para extrusão dos ovócitos, o monitoramento de
batimentos cardíacos e comportamento respiratório de filhotes de espécies vivíparas
como raias e tubarões.
A técnica possibilita estimar a composição química da carne através das
proporções dos tecidos que compõem a carcaça (SANT ́ANA, et al 2019); detectar
nematóides na musculatura de peixes e presença de espinhas “y” para programas de
melhoramento genético (PERAZZA et al, 2017). Bons rendimentos musculares e de filés
relacionam-se a animais bem alimentados com satisfatório ganho de peso corporal; A
qualidade física é dada pela textura da carne que envolve tipos e feixes de fibras
musculares passíveis pela ultrassonografia e a coloração da carne.
Dados morfométricos da ictiofauna
Existem dois tipos de morfometria, a morfometria tradicional que consiste em um
conjunto de métodos da estatística multivariada que utiliza medidas lineares como
comprimentos, larguras, ângulos ou razões obtidas a partir de estruturas dos organismos
(Fornel & Cordeiro- Estrela, 2014), e existe a morfometria geométrica que foi descrita
por Strauss e Bookestein (1982), que visa detectar sistematicamente as diferenças na
forma em direção obliqua, tal como em direções horizontais e verticais, usando um
sistema de medida que geralmente assegura a cobertura uniforme do limite de
conFiguração da espécie e por isso é altamente sensível a mudanças no tamanho e forma
do corpo, sendo muito poderosa à descrição morfológica (Rodrigues, 2010).
A morfometria tem o objetivo de levantar informações quantitativas sobre o
desenvolvimento do ciclo de produção, sendo importante para tipificar os peixes e
padroniza-los.
METODOLOGIA
Os peixes foram capturados por pescadores em duas embarcações com motor de
5 Hp, com uso de malhadeiras com 100 metros e tarrafas de 6 metros, ambas de malha
30, 40 e 50 entre nós opostos, com faina diária de 6 horas. Os exemplares capturados
foram identificados, quando possível a nível de ordem, família, gênero e espécie e
posteriormente fixados em formol a 10% e após 48 horas fixados em álcool 70%. A
identificação das espécies não realizadas no barco-laboratório e a confirmação das demais
foram feitas no Laboratório de Aquicultura e Análise de Águas- Laqua/Ufal, onde estão
depositados em frascos de vidro com volume de 2 e 5 litros para montagem de coleção
ictiológica da expedição e analisados por literatura especializada.
A morfometria foi realizada através de um paquímetro digital e ictiômetro
milimetrado e o peso com o uso de uma balança digital.
As variáveis observadas foram: peso (P), comprimento total (CTO), comprimento
padrão (CPA), comprimento do tronco (CTR = CTO - CCA), altura do corpo (ACO),
largura do corpo (LCO), comprimento da cabeça (CCA), altura da cabeça (ACA),
comprimento da nadadeira peitoral (CNP), comprimento da nadadeira anal (CNA), altura
da nadadeira anal (ANA), diâmetro do olho (DOL), largura da boca (LBO), circunferência
(CIM).
Quanto a avaliação da biologia reprodutiva, os espécimes de pescado coletados
foram avaliados in vivo através da técnica de ultrassonografia e também pela técnica de
massagem abdominal (presença de sêmen e ovócitos), conjuntamente com observação da
papila urogenital e presença de dimorfismo sexual.
Os peixes amostrados foram capturados nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Propriá, Neópolis, Penedo e Piaçabuçu, sob protocolo do Comitê de Ética
Animal – CEUA número 037/2020 e licença SISBIO.
Cerca de 140 indivíduos foram analisados e determinados pela escala de
desenvolvimento ovariano, segundo Vazzoler (1996); Estádio A: imaturo ou virgem,
Estádio B: em maturação, estádio C: Maduro, Estádio D: Esvaziado e Estádio E:
Repouso.
Por outro lado, 37 exemplares foram avaliados através da ultrassonografia. Para
isso, os animais foram acondicionados em caixas com água afim eliminar qualquer
interferência do ar na imagem gerada, proporcionando uma maior nitidez e as imagens
ultrassonograficas tomadas com probe posicionada a 2cm do peixe. Utilizou-se o
ultrassom modelo EXAGO IMV, probes lineares B-Mode em freqüências de ondas
sonoras entre 5,0 a 10,0 Mhz (detalhes e peixes pequenos) e 2,5 e 5,0 Mhz (peixes
grandes). A opção da probe esteve diretamente relacionada a capacidade de reflexão de
ondas no tecido do peixe, ao tamanho e composição corporal e a estrutura a ser
visualizada.
Foram tomadas imagens da região ventral afim de se identificar a fase de maturação
gonadal; e na região dorsal, na altura da nadadeira dorsal, afim de se estimar a avaliação
dos rendimentos musculares. Espécimes em estágio avançado de maturação foram
devolvidas ao ambiente. Utilizou-se tecnologia prática, não invasiva, portátil e eficiente
para a avaliação ictiológica no Rio São Francisco durante a expedição cientifica.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Ictiofauna coletada nas expedições de 2018-2019-2020
Durante a expedição foram coletados cerca de 119 exemplares de peixes em 2018
(Tabela 1), 206 exemplares em 2019 (Tabela 2) e 165 exemplares em 2020 (Tabela 3).
Tabela 1. Espécies coletadas durante a expedição ao Baixo São Francisco em 2018.
Ordem
Characiformes
Família
Erythrinidae
Serrasalmidae
Espécie
Hoplias microcephalus
Metynnis maculatus
Pygocentrus piraya
n
8
9
5
Serrasalmus brandtii
Megaleporinus obtusidens
11
4
Schizodon knerii
3
Prochilodontidae
Prochilodus argenteus
1
Siluriformes
Ariidae
Cathorops agassizii
10
Perciformes
Centropomidae
Centropomus parallelus
Centropomus undecimalis
8
2
Carangidae
Gerreidae
Caranx latus
Eugerres brasilianus
Archosargus
probatocephalus
Cichla monoculus
Oreochromis niloticus
11
6
8
Guavina guavina
Lagocephalus laevigatus
5
4
Anostomidae
Cichlidae
Tetraodontiformes
Eletridae
Tetraodontidae
14
10
Nome comum
Traíra - N
Pacu-disco - N
Piranha-preta N
Pirambeba - N
Piau três pintas
-N
Piau-de-vara N
Curimatã-pacu
-N
Bagre-do-mar M
Robalo - M
Robalo-flecha M
Xáreu - M
Carapeba - M
Sargo-de-dente
-M
Tucunaré - I
Tilápia-do-nilo
-I
Amoreia - M
Baiacu-arara M
N = Nativa; M = Marinha e I = Introduzida; n = número de exemplares coletados.
Em 2020, as espécies mais capturadas, foram: pirambeba (Serrasalmus brandtii),
pacu (Metynnus maculatus), tucunaré (Cichla monoculus), sarapó (Eingenmannia
trilineata), piranha vermelha (Pygocentrus piraya) e traíra (Hoplias microcephalus),
juntas estas 6 espécies representaram aproximadamente 71% do volume de capturas
(Tabela 3).
Como podemos observar, com exceção do pacu (onívoro), há uma predominância
de espécies carnívoras e mais sedentárias ou territorialistas, o que é preocupante, pois
mostra que as relações tróficas não estão equilibradas, e possivelmente, favorece o
aumento da predação de espécies nativas.
A novidade é a descoberta de uma espécie que não havia ainda sido citada em
artigos científicos da região. A presença do sarapó da espécie Eingenmannia trilineata,
peixe da ordem Gimnotiformes (peixe elétrico), originário da bacia do Rio ParanáParaguai, de hábito bentopelágico (FISHBASE) (Figura 1). Contudo, mais estudos serão
realizados para fins científicos de comprovação.
Tabela 2. Espécies coletadas durante a expedição ao Baixo São Francisco em 2019.
Ordem
Hoplias microcephalus
Metynnis maculatus
2
65
Pygocentrus piraya
7
Serrassalmus brandtii
27
Megaleporinus obtusidens
10
Schizodon knerii
35
Prochilodontidae
Prochilodus argenteus
2
Characidae
Ariidae
Colossoma macropomum
Cathorops agassizii
13
2
Pseudopimelodidae
Lophiosilurus alexandrii
2
Nome
comum
Traíra - N
Pacu-disco N
Piranha
verdadeira N
Pirambeba N
Piau três
pintas - N
Piau-de-vara N
Curimatãpacu – N
Tambaqui- I
Bagre-do-mar
–M
Pacamã- N
Mugiliformes
Mugilidae
Mugil curema
2
Tainha- M
Beloniformes
Perciformes
Belonidae
Centropomidae
Tylosurus acus acus
Centropomus parallelus
Centropomus undecimalis
1
3
1
Gobidae
Sparidae
Bathygobius soporator
Archosargus
probatocephalus
2
4
Agulhão - M
Robalo - M
Robalo-flecha
–M
Aimoré- M
Sargo de
dentes-M
Carangidae
Carangidae
Gerreidae
Trachinotus carolinus
Caranx latus
Eugerres brasilianus
1
3
7
Eucinostomus
melanopterus
Cichla monoculus
Astronotus ocellatus
Guavina guavina
Lagocephalus laevigatus
2
Characiformes
Família
Erythrinidae
Serrasalmidae
Anostomidae
Siluriformes
Cichlidae
Tetraodontiformes
Eletridae
Tetraodontidae
Espécie
n
5
4
1
5
Pampo - M
Xáreu - M
Carapeba
verdadeira –
M
Carapeba - M
Tucunaré – I
Apaiari - I
Amoreia - M
Baiacu-arara M
N = Nativa; M = Marinha e I = Introduzida; n = número de exemplares coletados
Por outro lado, o menor volume de capturas e de diversidade de espécies ocorridos
durante a III Expedição Científica com relação ao ano de 2019, pode ser explicado pelo
aumento da vazão e maior aporte de água (vazão média de 2.600 m 3/s), ao qual
proporcionou um defeso artificial, devido à grande quantidade de sedimento e maiores
áreas de refúgio, dificultarem as capturas e a predação.
Tabela 3. Espécies coletadas durante a expedição ao Baixo São Francisco em 2020.
Ordem
Characiformes
Família
Erythrinidae
Serrasalmidae
Espécie
Hoplias microcephalus
Metynnis maculatus
Pygocentrus piraya
Siluriformes
Hipostomidae
Hipostomus sp.
Schizodon knerii
Perciformes
Centropomidae
Centropomus parallelus
Centropomus undecimalis
Carangidae
Cichlidae
Eletridae
Caranx latus
Cichla monoculus
Astronotus ocellatus
Geophagus brasiliensis
Guavina guavina
n Nome comum
10 Traíra - N
18 Pacu-disco - N
10 Piranha
verdadeira - N
7 Peixe cachorro
-N
48 Pirambeba - N
8 Piau três pintas
-N
2 Cascudo - N
5 Piau-de-vara N
3 Robalo – M
4 Robalo Flecha M
5 Xáreu - M
14 Tucunaré – I
6 Apaiari – I
7 Cará
3 Amoreia – M
Acestrorhynchidae
Acestrorhynchus lacustres
Anostomidae
Serrassalmus brandtii
Megaleporinus obtusidens
Sternopygidae
Eigenmannia trilineata
12 Sarapó – N
Engraulidae
Anchoviella lepidentostole
3
Gymnotiformes
Clupeiformes
Pilombeta- N
N = Nativa; M = Marinha e I = Introduzida; n = número de exemplares coletados
Figura 1. Exemplares de sarapó ou tuvira – Eingenmannia trilineata.
Foto: Emerson Soares.
Nas gravuras que apresentam a situação de seca e com maior volume de água
(Figuras 2 e 3) podemos observar uma situação de ausência de chuvas e diminuição de
vazão, bem típica na maior parte do ano na região, temos diversas atividades como a
pecuária, agricultura nas margens da calha do rio, uso de agrotóxicos em alguns tipos de
culturas, lançamentos de esgotos e efluentes das cidades, formação de bancos de areia
devido o processo erosivo nas margens e ausência de vegetação da mata ciliar, que
provoca o enfraquecimento do solo.
Figura 2. Dinâmica hidrológica e correlação com espécies reofílicas ou migradoras, no
período de seca.
Gravura: Emilly Valentim
Neste período, notamos a diminuição do volume de água e áreas, com
transformação do sistema lótico (com maiores correntezas e trocas de água) para lêntico
(água mais parada), diminuindo os habitats para as espécies de peixes, com isso
favorecendo as capturas destas, inclusive com tamanho de captura não permitido pela
legislação ambiental e instruções normativas de defeso (que estão desatualizadas), e com
práticas de pesca, em algumas oportunidades, danosas ao meio ambiente. Grande
acúmulo de macrófitas aquáticas, devido o aumento da carga orgânica, menor capacidade
depurativa do rio e concentração de nutrientes decorrentes da decomposição de materia
orgânica, maior volume de esgotos e agrotóxicos, e diminuição da profundidade, que
favorece a influência da radiação solar nas partes mais profundas do ambiente aquático e
ajuda no desenvolvimento destas plantas.
Figura 3. Situação no baixo São Francisco com o período de cheia
Gravura: Emilly Valentim.
Nota-se que também que parte das espécies migradoras passam parte do tempo
em lagoas marginais e ambientes sem contato com a calha principal do rio, a espera que
com o aumento do volume de água, proporcionado pelo aumento da vazão e de chuvas,
possam sair destes ambientes, eutrofizados ou rico em nutrientes, devido o acúmulo de
materia orgânica durante boa parte do ano e também por lançamentos de dejetos e
fertilizantes.
Na Figura 3, observa-se um período de cheia, com aumento da vazão, volume de
chuvas na região, aumento dos níveis de sedimentos do rio, queda de barrancos, maior
carga de material oriundo dos afluentes temporários, com destaque aos rios Traipú,
Ipanema, Capiá, Jacaré, Porucaba, Betume e Piauí. Nesta condição temos uma renovação
das águas, e diminuição da concentração de nutrientes em determinadas áreas, e
consequentemente, a calha do rio faz contato com as lagoas marginais, antes isoladas,
desta forma, os peixes reofílicos saem destas áreas e iniciam o processo de migração
reprodutiva com maturação de suas gônadas (orgãos sexuais masculinos e femininos),
para áreas de confluências, em muitos casos, pontos mais oxigenados e de maior maior
turbidez, para gerarem as próximas gerações.
Contudo, após o processo de enchente, novas ilhas são formadas, devido o grande
acúmulo de sedimentos, voltando aos patamares do período seco (Figura 2).
Como podemos observar, os impactos provocados pelas usinas hidrelétricas,
alterando o sistema lótico para lêntico, refletiram em modificações na estrutura das
comunidades de peixes (Andrade & Araújo, 2011). É necessário que estratégias eficientes
sejam tomadas com relação ao estudo da bioecologia e identificação das espécies.
Correlacionando a ictiofauna com a vazão, é possível observar altas correlações
através de um modelo GLM - regressão linear (r = 0,8975). Nas Figuras abaixo é possível
perceber que a abundância de peixes depende do que acontece dois anos antes com a
vazão, para efeito de estudos correlacionamos a média de vazão trimestral, à vazão
determinada pela resolução 2081 da ANA- Agência Nacional de Águas e a vazão
ecológica.
Podemos observar que em 2018 a vazão do biênio, variou de 555 m 3/s a 738 m3/s,
com média de 615 m3/s, praticamente a metade da vazão já flexibilizada, exigida na
resolução da ANA 2081 (1.100 m3/s). Após anos de maior retenção de água, os efeitos
foram drásticos para a ictiofauna, onde foram observadas uma diversidade de 17 espécies,
das quais 7 delas eram de origem marinha e/ou eurialina. Os comprimentos médios padrão
foram significantes menores (Teste de Bonferroni, p<0,05), do que os encontrados nos
anos seguintes, para a maioria das espécies nativas da bacia (Eugerres brasilianus,
Hoplias microcephalus, Megaleporinus obtusidens e Schizodon knerii, por exemplo)
(Figuras 4 e 5)
Em 2019, a vazão do biênio variou de 577 m 3/s a 913 m3/s, com média de 703
m3/s (400 m3/s do que o recomendado na já resolução flexibilizada pela resolução 2081 e
pouco mais da metade da vazão ecológica, que é de 1.300 m 3/s). O efeito desta pequena
melhora na vazão foi sentida nos indicadores de capturas e morfológicos dos peixes.
Houve aumento significativo na diversidade de espécies com 24 representantes (sendo 12
espécies marinhas) contabilizadas, no volume de capturas e nos comprimentos médios
padrão com relação a 2018 (Figuras 6 e 7).
Na expedição de 2020, a vazão do biênio (2019 e 2020), as vazões mínimas e
máximas aplicadas foram de 732 m3/s a 2040 m3/s, com média de 1.117 m3/s, ainda se
comportou abaixo dos 1.300 m3/s recomendados com vazão ecológica, mas dentro do
previsto na resolução 2081 da ANA. Os resultados deste melhor aporte de água foram a
diminuição na diversidade de espécies, 19 representantes, dos quais 3 desta são de origem
marinha ou eurialina e menor volume de capturas (165 exemplares capturados, enquanto
em 2019 foram 206 indivíduos). A explicação para estes dados serem menores, mesmo
com maior vazão se devem as seguintes características: o maior volume de água
proporciona um defeso natural para as espécies, que conseguem transitar em locais de
maior profundidade da coluna da água e menor visibilidade de predação (maior aporte de
sedimento), com maior segurança sem serem capturadas pelos aparelhos de pesca.
A outra observação é que nos anos anteriores 2018 e 2019, ocorreu maior
quantidade de espécies de origem marinha (7 e 12 espécies, respectivamente), enquanto
em 2020, apenas foram observados 3 representantes deste tipo de ambiente. Isso se deve
a retração da cunha salina, devido ao aumento da vazão, fazendo com que espécies
costeiras, não penetrassem continente adentro.
Por outro lado, foi registrado o aparecimento do pacamã – L. alexandrii, da
pilombeta - Anchoviella lepidentostole e do cascudo - Hipostomus sp., aumento das
capturas da curimatã-pacu – P. argenteus, e a ocorrência nova na bacia, da tuvira ou
sarapó – E. trilineata. Paralelamente os comprimentos médios padrão foram
significativos (Teste de Bonferroni, p<0,05) em relação as capturas de 2018 para as
espécies de piau M. obtusidens e S. Knerii e robalos (C. undecimalis e parallelus) (Figuras
8 e 9).
Figura 4. Vazões aplicadas no biênio 2017 e 2018.
1400
1300
Vazão média (m3/s)
1200
1100
1000
900
800
700
738
664
600
593
555
577
593
603
601
500
400
1 trimestre 2017 2 trimestre 2017 3 trimestre 2017 4 trimestre 2017 1 trimestre 2018 2 trimestre 2018 3 trimestre 2018 4 trimestre 2018
Período
Vazões trimestrais (m3/S)
Vazão Ecológica (m3/s)
Vazão Res. 2081 (m3/s)
Figura 5. Abundância de peixes comerciais capturados na I Expedição Científica em 2018.
16
40
31.3
Número de indivíduos
25.8
10
24.7
25.0
23.7
16.1
14.1
9.5
11.4
30
27.6
23.5
8
4
30.5
28.5
12
6
35
30.7
25
22.4
16.2
20
15
12.7
10
2
5
0
0
Espécies
Média de Comprimento Padrão
Número de indivíduos
Comprimento padrão (cm)
14
Figura 6. Vazões aplicadas no biênio 2018 e 2019.
1400
1300
Vazão média (m3/s)
1200
1100
1000
913
900
804
800
700
600
806
732
577
593
603
601
500
400
1 trimestre 2018 2 trimestre 2018 3 trimestre 2018 4 trimestre 2018 1 trimestre 2019 2 trimestre 2019 3 trimestre 2019 4 trimestre 2019
Período
Vazões trimestrais (m3/S)
Vazão Ecológica (m3/s)
Vazão Res. 2081 (m3/s)
Figura 7. Abundância de peixes comerciais capturados na II Expedição Científica em 2019.
70
60.0
50.0
50
40.0
33.0 33.5
40
29.2
26.3
30
27.4
19.8
13.7
10.0
10
12.5
26.0
24.1
18.5
17.1
20
32.3
11.5
13.6
30.0
30.0
25.0
18.5
20.0
16.9
12.5
10.0
6.5
0
-
Espécies
Média de Comprimento Padrão
Número de indivíduos
Comprimento padrão (cm)
Número de indivíduos
52.0
50.7
60
Figura 8. Vazões aplicadas no biênio 2019 e 2020.
2200
2040
Vazão média (m3/s)
2000
1800
1600
1502
1400
1200
1200
1000
800
732
804
806
913
945
600
400
1 trimestre 2019 2 trimestre 2019 3 trimestre 2019 4 trimestre 2019 1 trimestre 2020 2 trimestre 2020 3 trimestre 2020 4 trimestre 2020
Período
Vazões trimestrais (m3/S)
Vazão Ecológica (m3/s)
Vazão Res. 2081 (m3/s)
Figura 9. Abundância de peixes comerciais capturados na III Expedição Científica em 2020.
60
40.0
34.2
50
40
30
30.6
30.0
27.1
24.3
18.5
24.7
23.2
21.4
25.0
20.2
19.0
18.0
14.0
20
35.0
32.8
10.5
12.1
20.0
15.0
10.0
10
5.0
0
0.0
Espécies
Média de Comprimento Padrão
Número de indivíduos
Comprimento padrão (cm)
Número de indivíduos
28.6
32.8
Foram tomadas medidas morfométricas das espécies abaixo (Tabela 4). Todos os
dados obtidos foram submetidos a análise de variância e regressão ao nível de 5% de
probabilidade, utilizando-se o programa estatístico computacional SISVAR – Sistema de
análises estatística (FERREIRA 2011). Os resultados da morfometria das pirambebas
(Tabela 5) e Tucunarés (Tabela 6) capturadas no baixo rio São Francisco. É possível
observar que não teve diferença significativa nos resultados da morfometria dos
Tucunarés que foram capturados na III expedição no baixo são Francisco.
Tabela 4. Média dos pesos e comprimentos dos peixes capturados.
PEIXES
Tucunaré
Piau
Pacu
Pirambeba
Piranha vermelha
Curimatã- pacu
Oscar ou Apaiarí
Total
TOTAL DE PEIXES
15
4
11
32
4
7
5
PESO (kg)
0,292
0,671
0,068
0,133
0,401
0,294
0,279
78
CTO (cm)
28,67
37,25
14,05
19,89
25,63
23,85
24,00
Tabela 5. Morfometria das Pirambebas (Serrasalmus brandtii)
PIRAMBEBA
PI
PA
PONTOS
TR
PR
Peso (Kg)
0,18
0,12
0,12
0,15
0,10
0,14
47,08
0,407
0,03
CTO (cm)
20,41
19,20 19,60 20,90
19,20
20,13
16,04
0,9443
6,67
CPA (cm)
18,04
16,50 17,00 17,90
17,70
17,50
15,3
0,9402
5,80
CTR (cm)
14,72
13,71 14,16 15,32
14,18
14,93
16,85
0,9162
5,02
ACO (cm)
8,55
6,69
7,51
8,00
7,53
7,53
21,99
0,6476
5,98
LCO (cm)
2,09
1,84
1,89
2,14
1,78
1,90
21,83
0,7289
7,11
CCA (cm)
5,69
5,49
5,44
5,58
5,02
5,20
17,39
0,8856
4,74
ACA (cm)
3,87
3,77
3,46
3,54
3,48
3,00
18,76
0,4832
5,65
CNP (cm)
3,31
3,02
3,00
3,02
2,95
2,90
17,87
0,8848
5,41
CNA (cm)
5,92
b
5,71
ab
a
3,00
5,70
ab
4,84
ab
5,03
ab
27,79
0,314
19,43
ANA (cm)
2,48
2,00
2,14
2,16
1,77
2,35
31,26
0,6448
10,38
DOL (cm)
1,21
1,48
1,27
1,38
1,32
1,20
17,44
0,4122
5,76
LBO (cm)
1,88
1,74
1,61
1,94
1,62
1,55
23,72
0,6232
7,84
CIM (cm)
20,00
17,00 17,30 19,40
17,40
17,50
17,08
0,543
6,26
VARIÁVEIS
PE
PU
CV%
TESTE F
DESVIO
PADRÃO
Comprimento total (CTO); comp. padrão (CPA); comp. do tronco (CTR); altura do corpo (ACO); largura do corpo
(LCO); comp. da cabeça (CCA); altura da cabeça (ACA); comprimento da nadadeira peitoral (CNP); comprimento da
nadadeira anal (CNA); altura nadadeira anal (ANA); diâmetro do olho (DOL); largura da boca (LBO); circunferência
(CIM), Piranhas (PI), Pão de Açúcar (PA), Traipu (TR), Porto Real do colégio (PR), Penedo (PE), Piaçabuçu (PU).
Tabela 6. Morfometria dos Tucunarés (Cichla monoculus)
TUCUNARÉ
PONTOS
VARIÁVEIS
CV% TESTE F
DESVIO
PADRÃO
PI
PA
PR
PE
PU
BG
Peso (Kg)
0,38
0,42
0,26
0,15
0,26
0,26
67,26
0,7096
0,10
CTO (cm)
30,25
29,83
28,00
24,50
28,50
29,67
16,67
0,8272
2,12
CPA (cm)
26,00
26,00
24,00
20,75
24,13
24,33
17,11
0,7969
1,92
CTR (cm)
21,50
20,50
20,70
18,10
21,05
22,37
12,57
0,6483
1,44
ACO (cm)
7,20
6,61
6,30
4,80
6,03
6,34
21,84
0,6264
0,80
LCO (cm)
3,15
2,88
2,80
2,35
2,80
2,88
13,73
0,5152
0,26
CCA (cm)
8,75
9,34
7,30
6,40
7,45
7,30
30,43
0,7664
1,08
ACA (cm)
4,45
4,71
4,00
2,70
3,55
3,67
28,38
0,4608
0,72
CNP (cm)
5,60
5,32
4,90
4,15
4,95
5,07
15,83
0,5839
0,49
CNA (cm)
5,75
5,08
2,60
2,15
2,78
2,53
29,66
0,0178
1,53
ANA (cm)
3,90
3,18
2,10
2,60
2,70
2,87
21,69
0,2604
0,61
DOL (cm)
1,50
1,43
1,50
1,45
1,43
1,47
12,26
0,995
0,03
LBO (cm)
2,90
2,23
2,00
1,90
2,18
--
27,87
0,0015
0,39
CIM (cm)
17,80
17,67
17,00
13,75
16,75
--
21,29
0,0002
1,65
Comprimento total (CTO); comp. padrão (CPA); comp. do tronco (CTR); altura do corpo (ACO); largura do corpo
(LCO); comp. da cabeça (CCA); altura da cabeça (ACA); comprimento da nadadeira peitoral (CNP); comprimento da
nadadeira anal (CNA); altura nadadeira anal (ANA); diâmetro do olho (DOL); largura da boca (LBO); circunferência
(CIM), Piranhas (PI), Pão de Açúcar (PA), Porto Real do colégio (PR), Penedo (PE), Piaçabuçu (PU), Brejo Grande
(BG).
Os dados morfométricos serão importantes para manutenção do banco de dados
das espécies capturadas e para efeitos comparativos ao longo dos anos de estudos.
Ultrassonografia na biologia reprodutiva
A
avaliação
reprodutiva
das
características de desenvolvimento gonadal das
espécies
e
maturidade
ovocitária
é
de
fundamental importância para identificar a fase
reprodutiva de espécies específica em seu
respectivo período de defeso validando assim,
hipóteses de pescadores sobre a necessidade de
prolongamento do período de defeso para
reprodução satisfatória de algumas espécies.
As 37 fêmeas capturadas em 2020 estavam, em sua maioria ovadas, 92% dos
espécimes coletadas sendo 82% em estágio avançado de desenvolvimento gonadal,
corroborando com o quadrimestre de defeso da pesca de novembro a fevereiro.
Através da ultrassonografia pode-se identificar a fase de maturação ovocitária do
Bagre Branco, Genidens barbus, comprimento total 55 cm e 1,54 kg. Capturado na região
de Piaçabuçu foram quantificados 38 ovos de 1,1 cm médios de diâmetro e outros 2
estágios da maturação ovocitária (Figura 10).
Os bagres apresentam importante característica de resistência ás oscilações
hídricas, em geral conseguem suportar baixos níveis de oxigênio, possuem estruturas
respiratórias diferenciadas (Figura 10c), reproduzem-se em aguas mais quentes e paradas,
característica das aguas sob baixa vazão como as do baixo rio são Francisco, além de
desovas em áreas estuarinas, o que justifica sua ocorrência no Municipio de Piaçabuçu,
área de maior salinidade (CRUZ et al, 2020). Contudo, o G. barbus consta na lista do
Ministério do Meio Ambiente como espécie em perigo (EN) de extinção pois apresentam
baixa fecundidade comparado a outros teleósteos, de 32 a 272 ovócitos e maturação
sexual aos 8,5 a 9 anos.
Figura 10. Ovos maduros na cavidade abdominal e bexiga natatória do bagre branco em imagens
de ultrassonografia (a) e em secção corporal transversal; (b) bexiga natatória (c) Fotos Cavali J,
2020; e secção transversal ilustrada em mesa digitalizadora (d) Foto Silva J.V, 2020.
c)
Segundo Mendonça, Balanin, Garrone-Neto (2020) o número de ovos produzidos
a)
pelos Genidens cresce linearmente (8 a 52 por ciclo) em função do tamanho corporal (22
a 47cm), do peso total e do peso das gônadas onde grandes ovócitos representam alto
esforço reprodutivo. Os machos desta espécie possuem cuidado parental e realizam a
incubação orofaringeana de ovos e alevinos (MACIEL, VAZ-DOS-SANTOS, VIANNA
2018) nestas regiões estuarinas.
A avaliação do Hipostomus sp (Figura 11) corroborou com dados de Bueno,
Oliveira, Chellappa (2017) com 25% dos ovocitos vitelogênicos maduros de 3mm de
diâmetro médio e outras três fases de ovócitos vitelogênios para a prolífera desova
b)
a)
parcelada da espécie (ZAWADZKI, 2019).
A pilombeta-branca, Anchoviella lepidentostole, é de grande relevância na
manutenção da cadeia alimentar, especialmente por servir de alimento para diversas
espécies piscívoras. Já esteve entre as três espécies mais abundantes no Rio São
Francisco, microrregião de Penedo (BARBOSA, SOARES, 2009). A espécie é muito
apreciada na culinária pelo sabor característico, especialmente quando na fase reprodutiva
em função do aumento no teor de gordura visceral e intramuscular (Figura 12).
Contrapondo a redução de umidade dos tecidos, os teores de proteína (17,1% vs 19,4%),
lipídios (3,5% vs 6,7%), minerais e fósforo aumentam consideravelmente para machos e
fêmeas com o avanço dos estágios gonadais comparado a fase gonadal imatura
(GIAMAS, VERMULM JR, TAKINO, 1985) sendo tanto mais saborosa quanto de maior
valor nutricional, nutrientes ou kcal/100g de matéria seca, pondo a pilombeta em
condição de vulnerabilidade a extinção.
Figura 11. Posicionamento ventral de probe para tomada de imagens ultrassonográficas (a) na
avaliação da cavidade ovocitária (b) do cascudo (Hipostomus sp) (c) no Baixo São Francisco.
Fotos Cavali, 2020.
Através da ultrassonografia é possível identificar o par do musculo sonoro (Figura
13a,b seta azul), bastante desenvolvido na maioria dos machos de Cianidios em fase de
reprodução, além das estruturas de testículos (Figura 13a, seta verde) evidenciadas pelas
imagens da ultrassonografia. O musculo sonoro é importante para atrair a fêmea da
pescada amarela e desenvolve-se em sincronia com as gônadas nos machos (BORIE;
BATALHA; CHAO, 2018).
Figura 12. Imagem longitudinal (b) e transversal (c) por ultrassonografia e seção corporal
transversal (d) da Anchoviella lepidentostole. Fotos Cavali, 2020
Figura 13. Detalhes do músculo sonoro do Macrodon ancylodon macho, observado por
ultrassonografia (a) e validado em secção corporal transversal (b). Fotos Cavali, 2020
A técnica de ultrassonografia é utilizada na reprodução e permite avaliar a
qualidade de matrizes, a exemplo da Xira ou curimatã-piau, Prochilodus argenteus
(Figura 14a) uma das espécies mais apreciadas pelos pescadores do Rio São Francisco,
pelo tamanho, média 8 kg, e qualidade da carne. As imagens permitem estimar o tamanho
da maturação gonadal (média 90 cm2 em fêmeas) (Figura 14b, c) e a biomassa de ovos.
O emprego da ultrasonografia para avaliação e detecção do estágio de maturação
gonadal pode gerar melhorias nos índices reprodutivos em protocolos de desova induzida
em peixes de piracema, uma vez que pode ser possível a identificação do momento exato
de início do protocolo de indução. A técnica permite monitorar a eficiência de desova
induzida (total ou parcial) (Figura 14d) nos centros de reprodução de alevinos, a qualidade
da matriz quanto a condição corporal e a eficiência reprodutiva (tamanho da maturação
gonadal, biomassa e maturidade de ovos, resposta hormonal).
Figura 14. Prochilodus argenteus em estágio avançado de maturação (a), imagens da
ultrassonografia no sentido longitudinal (b) e transversal (c). Resíduo de desova parcial após
extrusão (d). Fotos Cavali, J, 2020.
Em sua maioria as fêmeas avaliadas estavam em estágio avançado de maturação
sexual estando condizente ao período de defeso estabelecido para a desova nas condições
do baixo do rio são Francisco. Contudo, a desova desta espécie está diretamente
relacionada as condições ambientais ideias que oscilam em função da vazão hídrica sendo
comum encontrar xiras e pioas reabsorvendo suas ovas entre março/abril (CAVALI et al,
2019). Segundo Boncompagni Jr (2013) o índice gonadossomático da Xira tem alta
correlação (r = 0,84 fêmeas e r = 0,95 machos) com a precipitação pluviométrica.
Avaliando matrizes de Piau foi possível observar relação das doses hormonais ao
estágio de maturação gonadal e que a aplicação de doses hormonais em matrizes em
estágio avançado provoca “empedramento de ovócitos”, observado pelas imagens de
ultrassom, impedindo a extrusão dos ovos e podendo levar a morte das matrizes.
Comportamento semelhante foi relatado ao Piaractus mesopotamicus (KURADOMI,
FORESTI, BATLOUNI, 2017). Para tanto, sugere-se a seleção de matrizes de qualidade
e o monitoramento no manejo reprodutivo através da técnica de ultrassonografia.
Avaliação do rendimento muscular e presença de espinhas
Alguns constituintes corporais, como gorduras e água, podem ser determinados
pela mensuração da velocidade de propagação das ondas de baixa intensidade geradas
pelo ultrasson possibilitando fornecer informações sobre a concentração, localização,
composição estrutural e física de componentes específicos dos tecidos corporais.
Bosworth et al. (2001) comparam imagens transversais de ultrassom de 30 bagresdo-canal, 535 a 967 gramas, às medições nos cortes transversais musculares obtendo altas
correlações entre as medidas da área da musculatura desses peixes (r= 0,84 a 0,94).
Crepaldi et al (2008) avaliaram 34 surubins híbridos de 2,5kg e 1,5 kg em três regiões
corporais definindo pontos que melhor se correlacionaram aos rendimentos de carcaça
sendo possivel selecionar potenciais reprodutores por meio de avaliação por
ultrassonografia.
Bons rendimentos em tecido muscular estão relacionados a qualidade da
dieta/alimentação disponivel, a idade e a fase reprodutiva da espécie em função das
alterações fisiologicas. As imagens ultrassonográficas tomadas nos espécimes do Rio São
Francisco apresentaram grande variação quanti-qualitativa da musculatura devido a
diversidade de espécies e respectivo habito alimentar. Espécies de hábito alimentar
especialista como os carnívoros e pouco migradoras a exemplo do Pacamã, Lophiosilurus
alexandri, espécie nativa endêmico da bacia do Rio São Francisco, tendem a maior
susceptibilidade a restrição alimentar em ambientes com baixa disponibilidade de
alimentos vivos (TAKATA et al., 2014) o que dificulta a sobrevivencia das larvas nas
aguas do Rio São Francisco, apesar deste ser adaptado à baixa frequência alimentar (DOS
SANTOS et al., 2016). A espécie é classificada como vulnerável pela Portaria N° 445 no
Ministério do Meio Ambiente (BRASIL, 2014).
A musculatura do Pacamã apresenta-se bem definida nas imagens tomadas por
ultrassonografia podendo-se identificar os miótomos (Figura 15c) e ausência de espinhos
intramusculares. A espécie é muito apreciada na culinária regional por apresentar cortes
grandes, alto rendimento de filé, carne de textura macia e muito saborosa.
O índice gonodossomatico desta espécie varia de 2 a 3% em espécime de 2 kg de
peso corporal (Figura 15b). A temperatura ideal da agua para o desenvolvimento de
juvenis pacamãs 30,6 g é de 27,8 °C (COSTA et al., 2016). Temperaturas superiores a
29,4°C promovem o aumento do número de células vermelhas do sangue e do pigmento
responsável pelo transporte de oxigênio, provavelmente devido aos menores níveis de
oxigênio dissolvido na água. Tais características alteram a cor da carne em função da
concentração de mioglobina muscular.
Figura 15. Avaliação da Pacamã, Lophiosilurus alexandri (a) fêmea e estágio avançado de maturação (b),
e musculatura do macho (c). Fotos Cavali, J. 2020.
As condições do ambiente, como temperatura e oxigênio disponível, além da
alimentação disponível, influenciam no eficiência metabólica e deposição de tecidos na
carcaça. Os pacamãs provenientes do rio São Francisco apresentaram teor de proteínas de
17%, lipídeos 1,44 ± 0,72 % melhor razão n-6/n-3 (0,67 ± 0,04); maiores teores de EPA
(3,74 ±1,25) e DHA (6,52 ± 2,85) e teor de ácido oléico acima de 20% (C18:1) comparado
aos de cultivo com 2,66±0,36% de lipídios (SANT ́ANA, et al 2019).
A ultrassonografia permite determinar o conteúdo corporal dos peixes através da
opacidade dos tecidos substituindo métodos laboratoriais onerosos e destrutivos para a
determinação de componentes centesimais. Crepaldi; Rotta (2007) avaliou o conteúdo de
umidade dos filés e a influência da gordura, umidade e sólidos não gordurosos na
velocidade do ultrasom em tecidos de bacalhau do Atlântico (Gadus morhua), concluindo
que a velocidade do ultrassom cai linearmente com o aumento da umidade dos filés.
Para o tambaqui os estudos têm sido direcionados à acurada estimativa que
correlacione (r = 0,61) a musculatura da secção medial corporal, o número e distância
entre as costelas ao maior rendimento de carne para programas de melhoramento genético
(PERAZZA et al, 2015). Considerando a herdabilidade média 0,16 a peixes de ganho
genético anual de 4,971%, estima-se aumentar a média da área muscular de 5,82cm2 na
geração parental para 6,687 cm2 na F1, e ganhos significativos em quantidade de carne
no lombo do tambaqui (PERAZZA et al, 2017). Assim como, na identificação através da
ultrassonografia, de matrizes sem a presença das espinhas intramusculares “Y”, que
permite eficiência de 13% de rendimento de filé no processamento industrial.
Através da avaliação da papila urogenital, massagem abdominal e escala de
Vazoller, aproximadamente 85% dos exemplares capturados em 2020 estavam em
processo reprodutivo, em estádio de maturação considerados maduros, com machos
espermeando quando massageados a região abdominal e as fêmeas encontradas estavam
na fase de desenvolvimento ovocitário II, com a presença dos ovócitos com estoque de
reserva perinucleolar, com citoplasma bem definido, nucléolos esféricos e intensamente
basófilos (Vazzoler, 1996). Esta taxa de indivíduos em período reprodutivo foi
aproximadamente 15% maior que o ano de 2019 e aproximadamente 20% maior em
relação aos indivíduos investigados em 2018.
CONCLUSÃO
A diminuição da vazão, pesca com métodos não permitidos, represamento da água,
desmatamento da vegetação ciliar, assoreamento, poluição de efluentes da cidades e
agrotóxicos, aliados a diminuição do regime de chuvas, vem prejudicando a reprodução
dos peixes, afetando as migrações reprodutivas de espécies de piracema e esgotando os
estoques pesqueiros;
A maior vazão proporcionada em 2020, permitiu o aparecimento de espécies que estavam
sumidas nos desembarques pesqueiros de anos anteriores, com exemplares nativos de
tamanhos superiores ao ano de 2018 e 2019;
A vazão aplicada de em média dois anos antes tem resultados significativos para a
diversidade de espécies;
As maiores vazões aplicadas no ano de 2020 proporcionou defeso natural para as espécies
de peixes, com possibilidades de refletirem em melhores indicadores de produtividade
para o ano de 2021;
Ocorreu um aumento significativo de peixes maduros em 2020, quando relacionados aos
dois anos anteriores;
A ultrassonografia permite avaliar in vivo as características reprodutivas e estimar
rendimentos musculares os quais se correlacionam aos aspectos comportamentais e
nutricionais espécie-específico de peixes do Rio São Francisco.
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19
Avaliação microbiológica de Oreochromis niloticus,
Xiphopenaeus kroyeri e Macrobrachium sp
Comercializados em feiras livres de sete municípios
de Alagoas
Juliett de Fátima Xavier da Silva¹, Ana Paula Portela1, Heloísa de Carvalho Matos2,
Valdenia Tavares da Silva3
1
Docentes do curso de Engenharia de Pesca da Universidade Federal de Alagoas, Campus Arapiraca,
Unidade Educacional Penedo, Av. Beira Rio, s/n, Centro Histórico, CEP: 57200-000;
2
3
Bióloga da Universidade Federal de Alagoas, Unidade Educacional Penedo;
Estudante do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Alagoas,
Unidade Educacional Penedo
RESUMO
Este estudo teve a finalidade de investigar as condições microbiológicas de amostras de
tilápia (Oreochromis niloticus) e de camarões Xiphopenaeus kroyeri e Macrobrachium
sp comercializados em feiras livres de sete Municípios de Alagoas, durante a III
Expedição do São Francisco. Bactérias mesófilas são consideradas índices de sanidade e
sua presença pode indicar que as condições de conservação da matéria-prima estão
impróprias, representando condições higiênico-sanitárias inadequadas. Micotoxinas
podem estar bioacumuladas no pescado e causar efeitos diretos no animal e indiretos, no
consumidor. As análises foram realizadas mediante a determinação da contagem padrão
de bactérias aeróbicas mesófilas e fungos filamentosos, com base no método descrito pela
American Public Health Association – APHA. Os resultados mostraram que as amostras
de pescado analisadas pela contagem padrão de bactérias mesófilas estavam dentro dos
níveis máximos recomendados pela International Commissionon Microbio-logical
Specifications for Foods (ICMSF). A amostras analisadas apresentaram o número de
UFCs de fungos filamentosos dentro do limite aceitável (RDC nº 12, BRASIL 2001; IN
º 60, BRASIL, 2019). Os fungos filamentosos foram encontrados em maior abundância
nas amostras dos municípios de Pão de Açúcar, Penedo e Igreja Nova. O substrato peixe
com maior presença de fungos foi o de Penedo; e o substrato camarão com maior presença
de fungos foi o de Pão de Açúcar. Os gêneros fúngicos Aspergillus e Penicillium foram
os mais frequentes nas amostras. Portanto, faz-se necessário a adoção de boas práticas de
manipulação do pescado uma vez que os produtos são comercializados em condições
higiênico-sanitárias inadequadas, assim como uma maior fiscalização durante a venda
desses alimentos pelos órgãos competentes.
Palavras-chave: Qualidade do pescado; Fungos filamentosos; Bactérias Mesófilas.
INTRODUÇÃO
O pescado é considerado saudável devido ao seu alto valor proteico, aminoácidos
essenciais e ácidos graxos poli-insaturados, além do baixo teor de gordura saturada; de
fácil digestão e fonte de minerais, principalmente cálcio e fósforo, vitaminas A, D e
complexo B, o que o torna um produto de alto valor nutricional (EVANGELISTABARRETO et al., 2017). Entretanto, a alta perecibilidade do pescado fresco favorece o
crescimento microbiano devido a suscetibilidade à autólise; à oxidação de gorduras; ao
pH próximo à neutralidade; elevada atividade de água nos tecidos e alto teor de nutrientes
facilmente utilizáveis pelos microrganismos (OGAWA e MAIA, 1999). É facilmente
encontrado em feiras livres, porém, as condições higiênico-sanitárias, muitas vezes, são
insatisfatórias, podendo causar deterioração e contaminação.
Dentre as espécies mais apreciadas em feiras livres comercializadas no Baixo São
Francisco destaca-se as tilápias (Oreochromis niloticus), o camarão sete barbas
(Xiphopenaeus kroyeri) e o camarão de água doce (Macrobrachium sp) (SIMÕES et al.,
2020). A tilápia é a espécie de água doce cultivada em território nacional, responsável por
57% de toda a piscicultura brasileira em 2019, com produção de 432.149 t, consolidando
o Brasil na 4ªposição entre os maiores produtores de tilápia no mundo (PEIXE BR, 2020).
O camarão sete barbas é muito apreciado e utilizado na preparação de pratos
típicos da culinária baiana, e segundo Santos (2010) responde por 70% da produção
capturada do nordeste brasileiro. O camarão Macrobrachium amazonicum (HELLER,
1862), é a espécie de água doce com maior incidência no Brasil (PILLEGI, 2013,
OLIVEIRA et al., 2019), portanto também muito utilizado na culinária brasileira
(BARRETO et al., 2016; COSTA et al., 2016).
Apesar das feiras livres serem um dos principais espaços de comercialização
varejista (JESUS, SANTOS e CARVALHO, 2018), nestes centros, os produtos estão
expostos a várias situações que propiciam a sua contaminação, das quais podem ser
citadas: a contaminação por meio de manipulação inadequada, exposição dos produtos
em bancas e barracas sem refrigeração e sem proteção contra insetos, bem como o seu
acondicionamento e armazenamento em condições inapropriadas (SILVA JÚNIOR et al.,
2017), tornando-se um ambiente propício para a contaminação por microrganismos como
bactérias e fungos, decorrendo em prejuízos à saúde do consumidor.
Entre as espécies bacterianas que fazem parte da microbiota natural do pescado e
que são patogênicas ao homem destacam-se Salmonella sp., E. coli patogênica,
Sthapylococcus coagulase (+), Vibrio sp e Clostridium botulinum (FRANCO e
LANDGRAF, 1996).
A legislação brasileira, a RDC n. 12 preconiza somente limites para algumas
bactérias patogênicas como estafilococos, coliformes termotolerantes e Salmonella sp para
pescado in natura, resfriado ou congelado (BRASIL, 2001). Entretanto, assim como as
bactérias, a investigação de fungos é imprescindível, pois podem propiciar alterações no
odor e sabor dos alimentos, causando diferentes graus de deterioração através de uma
contaminação cruzada acarretando perigo a saúde humana principalmente pela produção
de micotoxinas (BARRETO, 2016, OLIVEIRA et al., 2019).
As micotoxinas, ao serem ingeridas podem causar micotoxicoses em animais e no
homem, com efeitos carcinogênico, nefrotóxico e teratogênico (ATAYDE et al., 2014).
No entanto, não existe legislação para a presença desses metabólitos em pescado
destinados ao consumo humano a nível mundial. Os níveis máximos legislados são
estabelecidos apenas para rações e matérias-primas empregadas diretamente ou como
ingrediente de rações destinadas a animais (FAO, 1997).
Portanto, objetivou-se com este estudo, avaliar a presença de bactérias mesófilas
e fungos filamentosos em tilápia (Oreochromis niloticus), camarão sete barbas
(Xiphopenaeus kroyeri) e camarão de água doce (Macrobrachium sp) comercializados
nas feiras livres dos Municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do
Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu.
METODOLOGIA
O presente trabalho foi desenvolvido nas feiras livres dos Municípios de Piranhas,
Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu, no
período de 30 de novembro a 10 de dezembro de 2020.
Foram obtidas seis amostras de filés de tilápia (Oreochromis niloticus)
processadas in loco em todas as feiras mencionadas anteriormente, e apenas uma amostra
de posta da feira de Traipu (Figura 1); uma amostra de filé de camarão sete barbas
(Xiphopenaeus kroyeri) da feira de Piaçabuçu (Figura 2A); uma amostra de camarão de
água doce (Macrobrachium sp) in natura da feira de Penedo (Figura 2B); uma amostra
de camarão de água doce defumado da feira de Pão de Açúcar (Figura 3), e três amostras
de camarão de água doce cozido na água e sal das feiras de Piranhas, Igreja Nova e Porto
Real do Colégio (Figuras 4 A, B e C). As amostras foram acondicionadas em sacos
plásticos estéreis e transportadas em caixa isotérmica para o Laboratório de Tecnologia
do Pescado – LATEPE da Universidade Federal de Alagoas – UFAL para iniciar as
análises microbiológicas.
Figura 1 – Tilápia (Oreochromis niloticus) comercializada nas feiras dos Municípios de Piranhas (A), Pão
de Açúcar (B), Traipu (C), Porto Real do Colégio (D), Igreja Nova (E) e Piaçabuçu – AL (F).
Fonte: As autoras, 2020.
Figura 2 – Filé de camarão espigão (Xiphopenaeus kroyeri) comercializado na feira de Piaçabuçu – AL (A)
e camarão de água doce (Macrobrachium sp) in natura comercializado na feira de Penedo – AL (B).
(A)
Fonte: As autoras, 2020.
(B)
Figura 3 - Camarão de água doce (Macrobrachium sp) defumado da feira de Pão de Açúcar – AL.
Fonte: As autoras, 2020.
Figura 4 – Camarão de água doce (Macrobrachium sp) cozido na água e sal das feiras dos Municípios de
Piranhas (A), Igreja Nova (B) e Porto Real do Colégio – AL (C)
Fonte: As autoras, 2020.
A partir das amostras obtidas, foram realizadas análises para determinação da
contagem padrão de bactérias mesófilas e identificação de fungos.
- ANÁLISES MICROBIOLÓGICAS
- Contagem padrão de Bactérias Aeróbias Mesófilas (CPBAM) Viáveis
A contagem padrão de bactérias aeróbias mesófilas (CBAM) foi realizada com base
no Método da American Public Health Association (APHA) para a análise de alimentos,
descrito no Compendium of Methods for the Microbiological Examination of Foods
(MORTON, 2001). A primeira etapa da análise consistiu na preparação e diluição das
amostras coletadas, onde 25 g de cada amostra (Figura 6a) foi homogeneizada em 225
mL de água peptonada a 0,1%, referente à solução mãe (Figura 6b), e realizadas diluições
seriadas de 10-1 até 10-3. Em seguida utilizou-se a técnica de plaqueamento em
profundidade (pour-plate), com uso de Ágar Padrão para Contagem (PCA), no qual 1 mL
de cada diluição foi inoculada em profundidade em placas estéreis incubadas a 30 °C ±
1,0 de 24 h. O resultado foi expresso em unidades formadoras de colônias por grama de
amostra (UFC/g).
Figura 6 – Amostras de camarão e peixe para a elaboração da solução mãe (a). Amostras homogeneizadas
em água peptonada (solução mãe). A: Piaçabuçu, B: Pão de Açúcar, C: Igreja Nova, D: Piaçabuçu – AL
(b).
(a)
(b)
Fonte: As autoras, 2020.
- Processamento para Isolamento de Fungos Filamentosos
Processamento das amostras: Após lavagem superficial das amostras, foram
transferidas 25g de cada amostra para um becker contendo 225 mL de água peptonada
(0,1%) que correspondeu à solução original. A partir desta, foi retirado 1mL que foi
transferido para um tubo de ensaio contendo 9mL de água peptonada (0,1%) (diluição 101
) e assim sucessivamente, até a diluição 10 -3. Foi inoculado 1mL de cada diluição em
placa de Petri contendo Ágar Sabouraud Dextrose (SDA-Himedia®), suplementado com
Tetraciclina a 0,1 μg/mL-1, para evitar crescimento bacteriano (SILVA et al., 2007).
Todos os plaqueamentos foram realizados em triplicata, utilizando a técnica de
plaqueamento em superfície (spread plate). Em seguida, as placas foram incubadas a 25
± 2ºC e monitoradas por até 12 dias para a observação do crescimento e posterior
isolamento dos fungos. A purificação dos fungos ocorreu por meio de repiques sucessivos
em SDA (Himedia®).
Identificação dos isolados: Uma vez purificados, os isolados foram analisados
macroscopicamente, quanto a morfologia da colônia, e microscopicamente por meio de
observação de microestruturas, em microscópio óptico. Todos os isolados estão
preservados, sob refrigeração, para posterior identificação das espécies, por taxonomista
da Micoteca (URM/UFPE).
RESULTADOS
- Contagem padrão de bactérias aeróbicas mesófilas
As variações das contagens de bactérias aeróbias mesófilas em UFC/g nas sete
amostras de peixe e seis amostras de camarão foram significativas entre os municípios
pesquisados (Tabela 1).
Tabela 1 – Quantificação de bactérias aeróbicas mesófilas, em amostras de pescado de feiras livres, em
Alagoas.
Local de coleta
Mesófilas Peixe
*(UFC/g)
Mesófilas Camarão
*(UFC/g)
Piaçabuçu
5,3 x 103
7,0 x 103
Pão de Açúcar
67 x 103
25 x 103
Penedo *
INC
76 x 103
Piranhas
57 x 103
41 x 103
Igreja Nova
17 x 103
55 x 103
P. R. Colégio
4,0 x 103
81 x 103
Traipu
*INC
-
* Nº UFC = número de unidades formadoras de colônia; *INC = Incontável.
As amostras de peixes apresentaram uma variação de 5,3 x 103 a 67 x 103 UFC/g,
e as amostras de camarão apresentaram uma variação de 7,0 x 103 a 81 x 103, valores estes
que não puderam ser comparados com a legislação vigente (BRASIL, 2001), devido a
mesma não determinar os limites de tolerância para a contagem padrão de bactérias
mesófilas, apenas para bactérias patogênicas como Salmonella sp./25g, Coliformes
termotolerantes 45 °C/g e Estafilococos coagulase positiva/g. Porém ressalta-se a
importância da pesquisa quantitativa desses microrganismos, pois indicam as condições
higiênico-sanitárias do pescado.
Entretanto, International Commissionon Microbio-logical Specifications for
Foods (ICMSF, 1986) recomenda contagem máxima de bactérias mesófilas e
psicrotróficas de 107 UFCg-1. Segundo Jay (2005) e Forsythe (2002), contagens acima de
106 UFC/g por amostra, podem ser responsáveis pelo desencadeamento de doenças de
origem alimentar. De acordo com os resultados obtidos, todas as amostras (100%)
apresentaram níveis inferiores a 106 UFC/g.
Souza et al., (2015) detectaram contagens de bactérias aeróbias mesófilas entre
2,7 x 10 a 3,6 x 10 UFC/g em sushis. Esses autores consideram que as bactérias mesófilas
3
5
são índices de sanidade e sua presença indica que as condições de conservação da matéria
prima são impróprias. Podendo ocorrer à contaminação excessiva da matéria-prima
devido às condições inadequadas de limpeza e sanitização durante a preparação,
estocagem ou transporte.
Nas amostras de peixes in natura e camarões também foram isoladas e verificados o
crescimento das bactérias aeróbicas mesófilas (Figuras 7 e 8).
Figura 7 - Culturas de bactérias aeróbicas mesófilas isoladas de amostras de peixes in natura de feiras livres,
em Alagoas. (A = 10-1, B = 10-2 - Igreja Nova/AL); (C = 10-1- Piranhas/AL) e ( D = 10-2 – Pão de Açúcar/AL),
(E = 10-1 – Porto Real do Colégio/AL), (F = 10-1 – Traipu/AL), (Figura D e E aumentadas 10x).
Fonte: As autoras, 2020.
A presença de bactérias aeróbicas mesófilass em peixes in natura podem
possivelmente estar associados à microbiota do pescado, os peixes de águas tropicais tendem
a ter uma microbiota mais rica m bactérias mesófilas Gram positivas (JAY, 2005). O pescado
de água doce possui microbiota semelhante ao marinho, porém no pescado fluvial percebese uma maior presença de bactérias da família Aeromonadacea e Enterobacteriaceae,
principalmente coliformes fecais, provavelmente devido à poluição fecal dos mananciais
continentais. Além das condições de conservação inadequada, ou seja, produtos não
acondicionados em gelo, e à ausência de limpeza e desinfecção das superfícies e materiais
utilizados no corte dos produtos.
Figura 8 - Culturas de bactérias aeróbicas mesófilas isoladas de amostras de camarões de feiras livres, em
Alagoas. (A = 10-1, B = 10-2, C = 10-3- Piranhas/AL); ( D = 10-2 – Pão de Açúcar/AL), (E = 10-1 – Porto
Real do Colégio/AL), (Figura C e D aumentadas 10x).
Fonte: As autoras, 2020.
As bactérias mais associadas à microbiota dos camarões marinhos são:
Pseudomonas, Acinetobacter e Moraxella, predominantes na deterioração da carne, além
do o Vibrio parahaemolyticus, capaz de causar doença veiculada ao pescado (JAY, 2005).
Já os camarões de água doce são mais contaminados com bactérias fecais.
A presença de sal nos camarões defumados comercializados na feira de Pão de
Açúcar, bem como os níveis reduzidos de água nos próprios camarões defumados e nos
camarões cozidos comercializados nas feiras de Piranhas, Igreja Nova e Porto Real do
Colégio, não foram capazes de evitar o crescimento bacteriano nas amostras. Visto que
esses produtos estavam expostos para a venda em recipientes plásticos sem qualquer tipo
de higienização ou proteção para o pescado, deste modo, sendo um dos elementos que
condicionam a propagação desses microrganismos. Mesmo o sal diminuindo a atividade
de água no produto e promovendo a desidratação das células das bactérias, quando os
critérios higiênico-sanitário não são atendidos na elaboração, estocagem e
comercialização dos produtos, é possível ocorrer a contaminação e a multiplicação de
bactérias halotolerantes e indicadoras de ausência de higiene e de manipulação
inadequada como o Staphylococcus aureus, assim como a proliferação de
microrganismos halófilos (DA SILVA et al., 2020).
Mesmo não existindo um padrão especifico na legislação vigente para a contagem
padrão de bactérias mesófilas, a identificação pode servir de critério para avaliar a
qualidade sanitária do pescado comercializado nas feiras livres. Vale ressaltar que
também é de suma importância a investigação de bactérias indicadoras de contaminação
fecal como os Coliformes termotolerantes com destaque para Escherichia coli e
Salmonella sp e de microrganismos indicadores de manipulação inadequada como o
Staphylococcus aureus, , pois a presença desses microrganismos evidenciam práticas de
higiene inadequadas e fora dos padrões requeridos para o processamento de alimentos
(SOUZA et al., 2015).
- Processamento para Isolamento de Fungos Filamentosos
Foram obtidas 13 amostras de pescado (peixe e camarão), das 7 cidades visitadas
pela III Expedição Científica do São Francisco. Em todas as amostras houve crescimento
fúngico, exceto nos plaqueamentos realizados com amostras das cidades de Porto Real
do Colégio e Traipu. Nestas placas, aconteceu acelerado crescimento bacteriano que,
possivelmente, impediu o crescimento de fungos e foram quantificadas as Unidades
Formadoras de Colônia (UFCs), por município (Tabela 2).
Tabela 2 – Média de Unidades formadoras de colônia (UFC/g) de fungos filamentosos em amostras de
pescado de feiras livres, em Alagoas.
Local de coleta
Peixe (UFC/g)
Camarão *(UFC/g)
Piaçabuçu
3,3x101
3,7x101
Pão de Açúcar
3,7 x 101
1,5x103
Penedo
2,2x102
4,2x102
Piranhas
3,0x101
3,7x101
3,7x101
Igreja Nova
* Nº UFCs = número de unidades formadoras de colônia.
3,8x102
Foram isolados 57 culturas de fungos filamentosos provenientes de feiras livres.
As amostras obtidas dos municípios de Pão de Açúcar, Penedo e Igreja Nova foram as
mais abundantes quanto à presença de fungos filamentosos; Piaçabuçu e Piranhas foram
os municípios com menos isolados encontrados. O substrato peixe com maior presença
de fungos foi o de Penedo; e o substrato camarão com maior presença de fungos foi o de
Pão de Açúcar.
Do total de isolados obtidos (14 culturas), foram identificados 3 gêneros e 5 isolados
ainda sem identificação. Dentre os fungos identificados, os mais frequentes foram do
gênero Penicillium sp (6 isolados, 42,8%), Aspergillus sp (2 isolados, 14,3%) e Rhizopus
sp (1 isolado, 7,1%). Todos os isolados serão preservados, sob refrigeração, para posterior
identificação da espécie, por taxonomista da Micoteca (URM/UFPE). Nas Figuras 9 e 10,
estão algumas colônias e estruturas reprodutivas visualizadas em isolados.
Embora não exista legislação específica que preconize o número máximo de UFCs
de fungos filamentosos (bolores) e leveduras no pescado e nem em outras carnes, nem a
taxa de metabólitos produzidos por eles, pode-se considerar como referência o padrão
permitido para produtos alimentícios com condições de atividade de água similares, que
é de no máximo 104 UFC/g (RDC nº 12, BRASIL 2001; IN º 60, BRASIL, 2019). Deste
modo, os resultados encontrados neste trabalho demonstram níveis de contaminação
aceitáveis porém, o município de Pão de Açúcar necessita de atenção especial, por estar
próximo ao limite recomendado na legislação.
Figura 9- Isolados de fungos filamentosos purificados de amostras de pescado de feiras livres, em Alagoas.
Fonte: As autoras, 2020.
Semelhante ao encontrado neste trabalho, em estudos realizados com amostras
de camarão Macrobrachium amazonicum, em Santarém/PA, os gêneros de fungos
filamentosos mais frequentes foram Aspergillus Micheli (29%) e Penicillium Link
(22%); e as amostras oriundas de feiras apresentaram maior percentual de contaminação
(58%) em relação às provenientes dos supermercados (42%) (OLIVEIRA et., 2019).
Figura 10 - Culturas e estruturas reprodutivas de fungos filamentos (aumento 10x), isolados de amostras de
pescado de feiras livres, em Alagoas. (A e B= Rhizopus sp.Isolado de Igreja Nova/AL); (C e D= Aspergillus
sp. Isolado de Piaçabuçu/AL).
Fonte: As autoras, 2020.
A presença de microrganismos no pescado é preocupante devido às toxinas
produzidas que podem causar diminuição do crescimento, queda na alimentação, aumentar
a suscetibilidade à doenças, além do efeito de bioacumulação dessas toxinas no tecido
muscular, podendo causar contaminação humana indireta (ATAYDE et al., 2014).
Dentre os fungos, espécies toxigênicas pertencentes aos gêneros Aspergillus,
Penicillium e Fusarium são as principais responsáveis pela síntese de toxinas. Dentre as
principais micotoxinas, destacam-se aflatoxina, Ocratoxina e fumonisina (SUN et al.,
2015; SCHMIDT-HEYDT et al., 2012; MUNAWAR et al., 2019, apresentando efeito
hepatotóxico, carcinogênico, nefrotóxico e teratogênico, em animais e humanos.
CONCLUSÕES
Os resultados demonstram a importância de investigar a presença de
microrganismos no pescado comercializado em feiras livres, buscando garantir condições
apropriadas de manuseio e conservação do mesmo.
Mesmo não existindo um padrão especifico na legislação vigente, as amostras
analisadas de contagem padrão de bactérias mesófilas estavam dentro dos níveis máximos
recomendados pela International Commissionon Microbio-logical Specifications for
Foods (ICMSF). Contudo foi possível identificar níveis de contaminação, mesmo que
aceitáveis, e, portanto é imprescindível que haja maior critério dos métodos de higiene
utilizados na comercialização, além de normas para a venda do pescado em feiras livres.
A maior ocorrência dos gêneros fúngicos Aspergillus e Penicillium, conhecidos
como potenciais produtores de micotoxinas, serve de alerta para a necessidade de ações
de educação e saúde junto à comunidade pesqueira e de feirantes, dos municípios de
Alagoas. O município de Pão de Açúcar, principalmente, por estar próximo ao limite
aceitável de bolores recomendados, visando às boas práticas de conservação e manuseio
e a promoção da saúde do consumidor final.
É importante salientar que o consumo de pescados contaminados é um importante
veículo de infecções e intoxicações alimentares, evidenciando a necessidade de
treinamentos para os manipuladores através de cursos de capacitação de boas práticas de
manipulação do pescado. Assim como uma maior fiscalização durante a comercialização
desses alimentos pelos órgãos competentes.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Universidade Federal de Alagoas (UFAL), ao Comitê da Bacia
Hidrográfica do São Francisco (CBSF), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de
Alagoas (FAPEAL) e a todas as instituições que apoiaram o projeto para que a III
Expedição do São Francisco pudesse acontecer.
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simultaneous determination of multiple mycotoxins in fresh fish and dried seafoods. Journal of
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20
Níveis de mercúrio em tecido muscular de peixes do
Baixo São Francisco
Carlos A. da Silva1, 2Hortência L. P. de Santana, 2Ester Milena dos Santos, 2Romulo
André Santos Silva, 3Marcos Vinícius Teles Gomes, 2,4Carlos Alexandre B. Garcia,
1
Marcus Soares Cruz, 2,4Silvânio S. L. da Costa
1
Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe;
Laboratório de Tecnologia e Monitoramento Ambiental, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão,
Sergipe;
3
Codevasf 5ª Superintendência Regional – Alagoas;
4
Departamento de Química, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, Sergipe.
2
INTRODUÇÃO
Na busca por hábitos alimentares mais saudáveis e sustentáveis, o consumo de
peixes é considerado essencial para alcançar esse objetivo (DEBOER, SCHÖSLER E
AIKING, 2020). Esses animais são fontes de proteína de alta qualidade, e ao contrário do
que ocorre nas carnes vermelhas possuem baixa concentração de gorduras saturadas e são
ricos em ômega 3, vitaminas e minerais essenciais na dieta humana (DOMINGO et al.,
2007; NESTEL et al., 2020). Segundo a Associação Americana do Coração (AHA) - do
inglês, American Health Association - ingerir pelo menos duas porções de peixe na
semana pode melhorar a saúde do coração e reduzir o risco de doenças cardíacas,
sobretudo doença arterial coronariana e acidente vascular cerebral (RIMM et al., 2018;
LI et al., 2020).
Os ácidos graxos ômega 3 de cadeia longa, ácido eicosapentaenóico (EPA) e ácido
docosahexaenóico (DHA), encontrados nos pescados são vitais para manutenção da saúde
humana, sendo responsáveis por reduzir a pressão arterial e frequência cardíaca, melhorar
a função dos vasos sanguíneos, diminuir os níveis de triglicerídeos e aliviar inflamações no
corpo, além de poderem ajudar no desenvolvimento neurológico (MOZAFFARIAN e
RIMM, 2006; LIN et al., 2019; JAMSHIDIA et al., 2020; NESTEL et al., 2020). E, embora
esses nutrientes possam ser encontrados em alimentos de origem vegetal, nenhum é tão
completo quanto ao disponível nos peixes (NESTEL et al., 2020).
Por outro lado, ainda que este alimento contenha nutrientes essenciais e promova
os benefícios supracitados, há também uma preocupação quanto a serem uma potencial
fonte de contaminantes, como mercúrio, cádmio, chumbo e arsênio, prejudiciais aos seres
vivos (DOMINGO et al., 2007; CASTRO-GONZÁLEZ e MÉNDEZ-ARMENTA, 2008;
FERNANDES et al., 2012). Embora trate-se de metal extremamente tóxico, o mercúrio
mesmo a níveis tão baixos quanto da ordem do pico-grama por grama, não apresenta
informações totalmente conhecidas sobre a ciclagem e sua transformação no ambiente e
na cadeia trófica.
As contribuições naturais do Hg para o ambiente são atividade vulcânica e incêndios
florestais, enquanto que as antropogênicas mais significativas incluem a mineração, a
queima de combustíveis fósseis e a fundição de Pb, Cu e Zn (BOENING, 2000). Diversas
formas do mercúrio ocorrem naturalmente sendo mais comum o mercúrio metálico, sulfeto
de mercúrio (HgS), cloreto de mercúrio (HgCl2) e metilmercúrio ([CH3Hg]+)
(ACQUAVITA et al., 2018). A contaminação com Hg é muito mais grave do que com
outros metais devido a sua alta dissipação via atmosférica sendo considerada uma das
principais vias de dispersão do Hg para o ambiente (TRAVNIKOV; RYABOSHAPKO,
2002) podendo atingir áreas remotas por todo planeta.
Pequenas concentrações de mercúrio são potencializadas pela capacidade de
metilação de certos microorganismos, majoritariamente por bactérias sulfato redutoras, e
sucessivas transferências tróficas da forma orgânica, que podem transformar o mercúrio
inorgânico em formas orgânicas sendo a mais importante o metilmercúrio (MeHg) que
pode biomagnificar no topo da cadeia trófica (MALVANDI; ALAHABADI, 2019). Em
peixes carnívoros, o MeHg, representa cerca de 90% do mercúrio total (MALINOWSKI,
2019) e é considerada a principal delas em termos de efeitos tóxicos para saúde humana
(JEWETT; DUFFY, 2007).
A acumulação do mercúrio em solução pelos organismos unicelulares e o
fitoplâncton efetua-se primeiro pela difusão passiva das formas neutras e o transporte
ativo das formas ionizadas através das membranas celulares (MOYE et al, 2002). A
bioacumulação no fitoplâncton é o processo inicial de transferência deste metal ao longo
da cadeia alimentar aquática. Nos elos sucessivos, a dieta é um componente decisivo nos
mecanismos de amplificação do teor de Hg em tecidos animais.
O aspecto preocupante é a capacidade do Hg de se acumular nos organismos ao
longo da cadeia alimentar e apresentar elevadas concentrações podendo magnificar-se no
topo da cadeia. Um aumento na concentração do Hg é observado a partir de peixes
planctônicos em direção aos peixes carnívoros, sendo que os consumidores de topo de
cadeia tais como tucunaré, pirarucu e atum, apresentam os maiores teores de Hg
(ADAMS, 2004; LACERDA, 1994 et al; MAURICE-BOURGOIN, et al, 2001).
Os níveis elevados de mercúrio encontrados em peixes de alto nível trófico tem
causado muita preocupação devido aos graves problemas de toxidade deste metal em
seres humanos causados pelo consumo de pescado contaminado. A exposição do homem
ao mercúrio está associada ao desenvolvimento de distúrbios neurológicos,
gastrointestinais, renais, dermatológicos, cardiovascular e imunitários, e implicação na
formação do feto em mulheres grávidas (AHMAD et al., 2015; JEWETT; DUFFY, 2007;
ZAHIR et al, 2005). O consumo de peixes é o principal meio de absorção de Hg pelos
humanos (ANUAL et al, 2018; BONSIGNORE et al., 2013).
A relação risco-benefício do consumo de pescado ocorre principalmente porque
grandes taxas de resíduos e poluentes derivados das atividades antropogênicas são
diariamente despejados ou descartados em ambientes aquáticos, deixando-os sujeitos a
presença de enormes quantidades de substâncias tóxicas, que são bioacumuladas nos
organismos e passadas através da cadeia alimentar (SCHENONE, VACKOVA e
CIRELLI, 2014; SROY et al., 2021). Os teores encontrados nos animais expostos a esse
meio dependem de fatores como comprimento, hábitos alimentares, nível na cadeia
trófica, tempo de vida, localização geográfica e espécie.
Deste modo, diversas legislações e organizações buscam avaliar e estabelecer
limites de concentrações seguros de serem consumidos sem causar danos à saúde dos
indivíduos (SCHENONE, VACKOVA e CIRELLI, 2014). No Brasil, a Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (ANVISA) responsável pela fiscalização de contaminantes em
alimentos, determinou na Resolução ANVISA Nº 42 de 29 de agosto de 2013 o Limite
Máximo de Tolerância (LMT) de mercúrio em peixes de 0,5 mg/kg para não carnívoros
e 1,0 mg/kg para carnívoros (ANVISA, 2013).
O conhecimento sobre o potencial risco do consumo de peixes que possam
apresentar teores de mercúrio acima dos LMT é de suma importância para subsidiar as
agências de saúde e de vigilância sanitária sobre as recomendações dos níveis seguros de
consumo em particular para crianças, mulheres grávidas e também lactantes.
Adicionalmente, como apenas o LMT não é suficiente para caracterizar o potencial perigo
a saúde humana, neste trabalho também será calculada o quociente de risco (QR) proposto
pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (USEPA, 1989) para o mercúrio
que associam os teores encontrados com a frequência de ingestão de pescado e tamanho
da porção ingerida. Assim, o objetivo dessa pesquisa é determinar os níveis de mercúrio
presentes na carne (tecido muscular) das mais variadas espécies de peixes capturados ao
longo do percurso do Baixo São Francisco e averiguar se estão dentro dos limites
permitidos pela legislação brasileira.
METODOLOGIA
A área de estudo localiza-se na região do Baixo São Francisco (BSF) entre os
estados de Sergipe e Alagoas, abrangendo uma extensão do rio São Francisco de cerca de
140 km entre os municípios alagoanos de Pão de Açúcar, Piranhas, Traipu, Porto Real do
Colégio, Igreja Nova, Penedo, Piaçabuçu e os municípios sergipanos de Brejo Grande e
Propriá, além da foz na divisa entre os dois estados, conforme os pontos de coleta
referenciados (Figura 1).
Figura 1 - Localização dos pontos de coleta de peixes na região do Baixo São Francisco.
Fonte: Dados dos autores (2020).
A coleta dos peixes (Figura 2) foi conduzida pelos pesquisadores com auxílio dos
pescadores locais em barcos com motor de 5 Hp, utilizando-se tarrafas de 6 metros e redes
de emalhar de 30, 40 e 50 mm de 100 metros e, dispostas no rio segundo orientação dos
pescadores em diferentes pontos de coleta no BSF. Os peixes foram identificados de
acordo com Britski et al. (1988), Barbosa et al. (2017) e Lessa e Nóbrega (2000).
Figura 2. Exemplar de robalo Centropomus parallelus coletado na III Expedição do BSF.
Logo após a captura e identificação dos peixes, ainda a bordo foram retiradas
porções do músculo da região laterodorsal de cada exemplar cuja quantidade variou entre
10g – 150g a depender do tamanho do animal (Figuras 3 e 4).
Figura 3. Estação de trabalho a bordo durante a III Expedição do BSF.
As amostras foram acondicionadas em coletores plásticos e refrigeradas (Figura 5), sendo
posteriormente transportadas em caixas térmicas para o Laboratório de Estudos e
Impactos Ambientais (LabEIA) na Embrapa Tabuleiros Costeiros, em Aracaju, SE, e
mantidas em freezer a -15 ºC. Todo o material utilizado para coleta e armazenamento das
amostras foram previamente lavados com detergente neutro, imersos em banho ácido de
HCl 10% v/v por 24 horas e enxaguados com água ultrapura (18 μΩ).
Figura 4. Biometria e filetagem dos peixes coletados.
Figura 5. Amostras de pescados úmidas etiquetadas e armazenadas em coletores plásticos.
Dando sequência ao procedimento, as amostras foram separadas em grupos de
acordo com as espécies, pesadas e estocadas em ultra freezer a -80 ºC por 24 h para então
serem liofilizadas por 48 h utilizando o liofilizador Liotop modelo L101, vácuo final de
3,7 μHg. Em seguida, foram trituradas em um mixer doméstico e passadas por peneiras
de nylon a fim de se obter um material homogêneo (Figura 6). Vale assinalar que para
evitar a contaminação cruzada entre espécies a cada trituração todo material foi lavado
conforme descrito em Silva et al, 2019.
Figura 6. A: Trituração e peneiramento de amostras liofilizadas de pescados. B: Amostras
acondicionados em sacos plásticos.
As etapas do processo de análise e a determinação da concentração de mercúrio total
deu-se por espectrometria de absorção atômica, utilizando-se o analisador direto de Mercúrio
(DMA-80, Milestone, Itália), de acordo com o método Usepa 7473, recomendado pela United
States Environmental Protection Agency (USEPA, 2007) (Figura 7).
Figura 7. Fluxograma das etapas do processo de análise de mercúrio total em peixes.
As concentrações médias de mercúrio de cada espécie foram utilizadas para
estimar o quociente de risco (QR), associado ao consumo de pescado. A equação (1) para
esse cálculo foi proposta pela Usepa (1989):
onde FE é a frequência de exposição (365 dia ano-1); DE é duração de exposição (70 anos)
equivalente à estimativa média da vida humana; TI é a taxa de ingestão de pescado (36 g
pessoa-1 dia-1); C é a concentração do metal no peixe (µg g-1) (USEPA, 1989); DOR é a
dose oral de referência do Hg = 0,5x10-3 µg g-1 dia-1 (USEPA, 2010); PMC é o peso
médio corporal de um adulto (70 Kg); TE é o tempo médio de exposição para não
cancerígeno (365 dia ano-1 x DE).
Na avaliação de risco, é assumido que a ingestão oral do contaminante é igual à
dose absorvida pelo organismo humano e que, ao cozinhar o peixe, não se altera a
concentração ou a toxidade do contaminante (USEPA, 1989). É definido que, para valores
de QR < 1, não há risco apreciável para determinado poluente, e se o QR for > 1, há um
risco iminente ao continuar consumindo peixe com essa frequência (STORELLI, 2008).
RESULTADOS
No estudo das concentrações de mercúrio presentes nos peixes do Baixo São
Francisco coletados nas Expedições Científicas do Baixo São Francisco em 2018, 2019 e
2020 foram analisadas 13 (treze) espécies de peixes (Tabela 1).
A maior concentração de mercúrio observada nos peixes do Baixo São Francisco
(BSF) foi de 0,27 mg/Kg no bagre Cathorops spixii, espécie invasora marinha capturada
na região da foz do rio São Francisco e a menor de 0,004 mg/Kg no pacu-disco Metynnis
maculatus, espécie nativa de hábito alimentar onívora e de ampla ocorrência ao longo do
BSF. Os resultados do presente estudo estão de acordo com os valores encontrados nos
peixes do rio Jaguaribe, CE que variaram entre 0,013 ± 0,002 e 0,256 ± 0,198 mg/kg em
treze diferentes espécies (MOURA et al., 2018).
Os peixes piscívoros tucunaré e robalo e os peixes carnívoros piranha verdadeira
e pirambeba, de elevado nível trófico, apresentaram as maiores concentrações de Hg do
que os onívoros e detritívoros. Nos piscívoros, o maior teor de Hg de 0,18 mg/kg foi
encontrado no tucunaré e nos carnívoros foi de 0,19 mg/kg observado na piranha
verdadeira (Figura 8).
Tabela 1. Classificação, habitat e hábito alimentar dos peixes coletados no Baixo São
Francisco nas Expedições Científicas em 2018, 2019 e 2020.
Nome vulgar
Apaiari ou Oscar
Família
Cichlidae
Nome científico
Astronotus ocellatus
Habitat
Bentopelágico
Hábito
alimentar
Onívoro
Bagre
Ariidae
Cathorops agassizii
Bentônico
Onívoro
Curimatã-pacu (xira)
Prochilodontidae
Prochilodus argenteus
Bentopelágico
Detritívoro
Pacu-disco
Serrasalmidae
Metynnis maculatus
Bentopelágico
Onívoro
Piau branco
Anastomidae
Schizodon knerii
Bentopelágico
Onívoro
Piau tres pintas
Anastomidae
Megaleporinus obtusidens
Bentopelágico
Onívoro
Pirambeba
Serrasalmidae
Serrasalmus brandtii
Bentopelágico
Carnívoro
Piranha verdadeira
Serrasalmidae
Pygocentrus piraya
Pelágico
Carnívoro
Robalo
Centropomidae
Centropomus parallelus
Demersal
Piscívoro
Sargo-de-dente
Sparidae
Archosargus
Associado a
Carnívoro
probatocephalus
recifes
Tambaqui
Characidae
Colossoma macropomum
Bentopelágico
Onívoro
Tilápia
Cichlidae
Oreochromis niloticus
Bentopelágico
Onívoro
Tucunaré
Cichlidae
Cichla monoculus
Bentopelágico
Piscívoro
Figura 8. Níveis de Hg (mg/kg peso úmido) e nível trófico em treze espécies de peixes do
Baixo São Francisco coletados nas Expedições científicas em 2018, 2019 e 2020.
Com esses dados, foi possível observar uma tendência geral do aumento da
concentração de mercúrio com o nível trófico já que o mercúrio se acumula ao longo da
cadeia alimentar (AHMAD et al., 2015; SILVA et al, 2021).
Em relação aos peixes piscívoros tucunaré e robalo (Figuras 9 e 10) e carnívoros
piranha vermelha e pirambeba (Figuras 11 e 12) foi observado uma correlação positiva
entre a concentração de Hg e o peso corporal dos exemplares coletados..
Figura 9. Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido muscular
de tucunaré Cichla monoculus.
450
400
Peso (g)
350
R² = 0.7767
300
250
200
150
100
0.04
0.05
0.06
0.07
Hg (mg/kg)
0.08
0.09
Figura 10. Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido
muscular de robalo Centropomus parallelus
330
280
Peso (g)
R² = 0.8074
230
180
130
0.02
0.04
0.06
0.08
0.1
0.12
0.14
0.16
0.18
Hg (mg/kg)
Em relação aos peixes onívoros pacu-disco e piau tres pintas (Figuras 13 e 14) não
foi observado nenhuma correlação entre a concentração de Hg e o peso corporal dos
exemplares coletados.
Figura 11. Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido
muscular de piranha verdadeira Pygocentrus piraya
1750
1500
Peso (g)
1250
R² = 0.8374
1000
750
500
250
0
0.035
0.085
0.135
Hg (mg/kg)
0.185
Figura 12. Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido
muscular de pirambeba Serrasalmus brandtii
250
Peso (g)
200
150
R² = 0.7016
100
50
0
0.075
0.085
0.095
0.105
Hg (mg/kg)
0.115
0.125
0.135
Figura 13. Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido
muscular de pacu-disco Metynnis maculatus.
130
110
Peso (g)
90
R² = 0.0379
70
50
30
10
0.00
0.01
0.01
Hg (mg/kg)
0.02
0.02
Figura 14. Relação entre a concentração de mercúrio e o peso corporal em tecido
muscular de piau tres pintas Megaleporinus obtusidens.
1000
850
Peso (g)
700
R² = 0.0161
550
400
250
100
0
0.02
0.04
0.06
0.08
Hg (mg/kg)
Os resultados permitiram avaliar se os peixes capturados na região do Baixo São
Francisco estão de acordo com os parâmetros da legislação brasileira em relação aos LMT
do mercúrio. Todos os exemplares das treze espécies avaliadas apresentaram
concentrações de mercúrio abaixo do LMT de 0,5 mg/kg para espécies não carnívoras e
1,0 mg/Kg para carnívoros (ANVISA, 2013). Esta análise é de fundamental importância
para que tanto a população ribeirinha, que dependem da ingestão direta dessa valiosa
fonte de proteína para sua segurança alimentar, quanto à oferta desse pescado aos demais
consumidores via comercialização, ambos tenham acesso às informações sobre os
potenciais benefícios e riscos aos quais estão sendo expostos.
Em relação ao Quociente de Risco (QR) do mercúrio associado ao consumo de
pescado, nenhuma das espécies avaliadas apesentaram QR > 1 que significa que não
apresentam potencial risco para a saúde humana (Figura 15).
Figura 15. Quociente de risco do mercúrio em treze espécies de peixes do Baixo São
Francisco.
Sargo-de-dente
Piranha verdadeira
Pirambeba
Robalo
Tucunaré
Oscar
Bagre
Tambaqui
Tilápia
Piau branco
Pacu-disco
Piau três pintas
Xira
0
0.1
0.2
0.3
Carnívoro
Piscívoro
Detritívoro
Onívoro
0.4
0.5
QR para mercúrio
CONCLUSÕES
O mercúrio avaliado nos peixes do Baixo rio São Francisco coletados nas
Expedições Científicas de 2018, 2019 e 2020 apresentaram concentrações médias na
seguinte ordem decrescente: Bagre > Pirambeba > Sargo-de-dente > Piranha verdadeira
> Robalo > Tucunaré > Tilápia > Oscar > Piau branco > Piau três pintas > Tambaqui >
Pacu-disco > Xira
Os níveis de mercúrio encontradas no tecido muscular dos peixes não apresentam
risco à saúde humana associada ao consumo dessas espécies com base nos Limites
Máximos de Tolerância.
No geral, espera-se que o conjunto das observações realizadas pelas demais áreas
de pesquisa que integram a Expedição permita a construção de um panorama amplo da
saúde do rio e da ictiofauna, associando aspectos fisiológicos e histológicos examinados
em diferentes órgãos dos peixes juntamente com os parâmetros físicos e químicos da
água, solo e sedimentos. Assim, pode-se rastrear a origem de possíveis contaminantes e,
consequentemente, oportunizar a busca por soluções viáveis e medidas mitigadoras
desses impactos.
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21
Histopatologia do fígado e brânquias de cinco
espécies do Baixo São Francisco
Priscylla Costa Dantas1; Themis Jesus Silva1; Emerson Carlos Soares1; Lucas de
Oliveira Arruda2; Lívia Almeida de Souza2; Emilly Valentim de Souza2; Anderson
Rodrigues Sabino3
1
Professora, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias
e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
2
Graduandos em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus
de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
3
Doutorando em Agronomia, Laboratório de Ecologia e Comportamento de Artrópodes
(LECOM), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de
Alagoas (UFAL)
RESUMO
O Baixo São Francisco possui cerca de 214 km de extensão, percorrendo 86 municípios,
tendo seu início no município de Paulo Afonso (BA), passando por Alagoas e Sergipe até
a foz, onde desagua entre os municípios de Piaçabuçu e Brejo Grande. Essa região
apresenta grande importância ambiental e econômica, possuindo alta atividade agrícola,
pesqueira e turística. Contudo, as ações antrópicas causadas pela expansão demográfica
e industrial causam impactos ambientais graves, advindos principalmente de fontes
poluidoras como efluentes agrícolas, industriais e domésticos. Os peixes são organismos
que podem responder efetivamente à presença de poluentes e recebem atenção especial
em estudos ecotoxicológicos por serem considerados bioindicadores de qualidade
ambiental, e através de marcadores histopatológicos é possível para avaliar o efeito tóxico
dos poluentes no ambiente aquático. Devido à escassez de informações sobre alterações
celulares nos peixes do Baixo São Francisco, a pesquisa objetivou investigar o fígado e
as brânquias e identificar respostas através de biomarcadores histopatológicos nos peixes
que habitam essa região. Foram analisadas amostras de tecido de Cichla monoculus
(tucunaré), Metynnis maculatus (pacu), Serrasalmus brandtii (pirambeba), Astronotus
ocellatus (oscar) e Pygocentrus pyraia (piranha vermelha) coletados em sete pontos do
Baixo São Francisco. A análise histopatológica demonstrou que em 100% das amostras
analisadas, os peixes possuíam algum tipo de alteração patológica, seja no fígado ou nas
brânquias. As lesões totais encontradas nos órgãos foram mais pronunciadas no Tucunaré
coletado em Piranhas, Pirambeba de Porto Real, Pirambeba de Penedo e no Tucunaré de
Porto Real, respectivamente. Em comparação aos dados obtidos na II Expedição
Científica, foi observado um aumento na ocorrência e grau de severidade nas patologias
por espécies analisada. Os achados histopatológicos podem ser induzidos pela presença
de poluentes na água, podendo acarretar prejuízos à habilidade dos peixes realizar suas
funções fisiológicas quando expostos a períodos curtos, e levar à morte de indivíduos se
houver longos períodos de exposição. Portanto, podemos afirmar que os peixes coletados
no Baixo São Francisco passaram por períodos de estresse causados por agentes externos
ocasionando processos inflamatórios e diversas patologias graves.
Palavras-chave: histologia; patologias; órgãos-alvo; contaminantes.
INTRODUÇÃO
A expansão demográfica e populacional, aliada ao crescente desenvolvimento
industrial ocorrido nas últimas décadas, ocasionou impactos ambientais de diversos níveis
nos ambientes aquáticos (INSTITUTO NACIONAL DO SEMIÁRIDO, 2012). Os rios
localizados em áreas com alta urbanização estão entre os ecossistemas mais atingidos pela
contaminação resultante das ações antrópicas (PAUL; MEYER, 2001). O impacto no meio
aquático advém de diversas fontes poluidoras como efluentes agrícolas, industriais e
domésticos (LIEBEL; TOMOTAKE; OLIVEIRA RIBEIRO, 2013).
A bacia hidrográfica do rio São Francisco possui 2.700 km de extensão,
representando cerca de 8% do território brasileiro, sendo habitada por mais de 18 milhões
de pessoas e é dividida em Alto, Médio, Submédio e Baixo (CBHSF, 2014). O Baixo São
Francisco é uma região que possui cerca de 214 km de extensão, percorrendo 86
municípios, tendo seu início no município de Paulo Afonso (BA), passando por Alagoas
e Sergipe até a foz, onde desagua entre os municípios de Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande
(SE) (Ibama, 2006). A região do Baixo apresenta grande importância ambiental e
econômica, possuindo uma alta atividade agrícola, pesqueira e turística. A atividade
agrícola próxima às margens gera a lixiviação de agrotóxicos para o rio, o que, em
conjunto com o despejo de esgotos domésticos das cidades, gera grandes impactos à saúde
do rio (BARBOSA; SOARES, 2009).
A região do Baixo São Francisco é uma das que mais sofrem com os impactos
ocasionados pelas ações antrópicas. Os cursos d’água e seu entorno apresentam maior
risco ambiental devido aos poluentes gerados pelas cidades que estão à sua margem.
Apesar da pesca ainda estar entre as atividades de subsistência mais importantes, segundo
os dados do II Relatório da Expedição Científica do Baixo São Francisco (2020) foi
observado empobrecimento de algumas espécies nativas durante as coletas pelo baixo
curso sendo constatado a diminuição de curimatãs-pacus e pilombetas. Esse fato pode ser
explicado pelo lançamento de efluentes sem tratamento nos corpos d’água, causando a
poluição hídrica da bacia (ANA, 2019).
A presença da atividade antrópica próxima às margens é responsável por impactos
ambientais que geram alterações às condições naturais dos rios e causam danos àquele
ecossistema e, por consequência, danos à saúde, segurança e bem-estar da população ali
existente (GOULART; CALLISTO, 2003). O despejo de esgoto doméstico, a descarga
de resíduos junto a falta de monitoramento da qualidade de águas lançadas pelos efluentes
indicam que a contaminação dos corpos d’água seja um subproduto da presença da
atividade antrópica (REZA; SINGH, 2010). O biomonitoramento é uma forma de avaliar
os impactos causados por ela, através dele são realizados estudos que buscam quantificar
os danos causados ao ambiente e gerar ações que reduzam os efeitos da atividade humana
sobre os ecossistemas (BARBOUR et al., 1999; SILVA et al., 2003).
Os bioindicadores, segundo Frontalini e Coccioni (2011) são organismos que
podem responder efetivamente à presença de poluentes. Os peixes vêm recebendo atenção
especial em estudos ecotoxicológicos por serem considerados bons indicadores de
qualidade ambiental, estando presentes em diversos ambientes, possuindo uma grande
distribuição geográfica e participando de diversos níveis da cadeia alimentar. Esses
organismos são frequentemente expostos aos poluentes em baixas concentrações,
sofrendo, portanto, efeitos subletais. Diversos estudos utilizando os peixes como
bioindicadores têm sido realizados, pois eles respondem de diferentes formas a ambientes
contaminados, auxiliando na identificação e fornecendo dados sobre as condições
ambientais através dos biomarcadores (BERTOLETTI, 1990).
Biomarcadores são alterações bioquímicas, celulares, moleculares, mudanças
fisiológicas nas células, mudança nos fluídos corpóreos, nos órgãos ou tecidos de um
organismo que podem ser utilizados como evidências da exposição a contaminantes
ambientais. Eles são importantes fornecedores dos efeitos de poluentes ambientais
mediante a mensuração de reações biológicas (LAM; GRAY, 2003).
Biomarcadores histopatológicos vem sendo utilizados em estudos de campo para
avaliar o efeito tóxico dos poluentes no ambiente aquático, e têm a capacidade de
diferenciar lesões nos órgãos, induzidas por doenças e outros fatores do meio ambiente,
daquelas provocadas pela exposição aos poluentes (SCHWAIGER et al., 1997;
COOMBS et al., 2011).
O estudo histopatológico vem sendo bastante utilizado na avaliação de peixes
expostos a contaminantes, sendo uma excelente ferramenta em estudo de campos e
ensaios laboratoriais (TEH et al., 1997).
As alterações histológicas são bons
biomarcadores para identificação de danos causados pela exposição a ambientes
contaminados, podendo identificar alterações na função fisiológica e bioquímica dos
indivíduos (HINTON et al., 1992). A histopatologia estuda danos e alterações a nível
celular dos tecidos, sendo uma ótima ferramenta para identificar problemas em órgãosalvo específicos, incluindo brânquias e o fígado, que são responsáveis por funções vitais,
como respiração, e o acúmulo e biotransformação de xenobióticos nos peixes.
(GERNHOFER et al., 2001; DE LA TORRE et al., 2005).
As brânquias são órgãos que, por sua estrutura delicada e localização em contato
direto com a água, apresentam as primeiras reações aos processos de contaminação. Os
danos causados nas brânquias durante o processo respiratório podem comprometer sua
estrutura e função e pode causar alterações fisiológicas e afetar a sobrevivência do
organismo (MACHADO, 1999).
O fígado é outro órgão de extrema importância para o biomonitoramento. Por ser o
primeiro órgão na biotransformação de xenobióticos e excreção de alguns metais, suas
células são expostas a altos níveis de componentes químicos nocivos presentes no
ecossistema (HEATH, 1987; HINTON; LAURÉN, 1990). Os hepatócitos apresentam
funções vitais para o funcionamento metabólico dos organismos e sua exposição a níveis
elevados de toxinas podem afetar as funções do fígado e comprometer sua saúde (PARISPALACIOS et al., 2000).
A contaminação hídrica do Rio São Francisco é um desafio que envolve relações
complexas devido às múltiplas fontes de poluição que comprometem a qualidade da água
e consequentemente a saúde dos peixes (RODRIGUES et al., 2004). Com auxílio da
histopatologia é possível analisar os efeitos da exposição de peixes a contaminantes,
fornecendo subsídios para diagnósticos de impactos ambientais, além de auxiliar no
estudo da relação direta entre os agentes e os efeitos celulares e teciduais por eles
provocados (CENGIZ; UNLU, 2006).
Devido à escassez de informações sobre alterações patológicas celulares causadas
pela contaminação ambiental nos peixes do baixo São Francisco, a pesquisa objetivou
investigar a morfologia das células do fígado e das brânquias e identificar respostas
através de biomarcadores histopatológicos em amostras dos peixes que habitam essa
região. Esses estudos são indispensáveis para o entendimento da contaminação em
organismos aquáticos e podem fornecer importantes subsídios para pesquisas sobre
detecção de impactos ambientais.
MATERIAL E MÉTODOS
- Preparação das amostras
Durante as coletas realizadas na III Expedição Científica do São Francisco,
amostras de peixes foram separadas para análises histopatológicas. No critério de escolha
das espécies, tiveram prioridade as que foram capturadas e analisadas na II Expedição
Científica do São Francisco, realizada em 2019, para que os resultados pudessem ser
comparados e fosse possível identificar alguma alteração no intervalo de um ano.
Foram coletadas amostras de 39 indivíduos de cinco espécies, em seis pontos da
região do Baixo São Francisco. Na escolha das espécies a serem estudadas, foram
incluídas a Cichla monoculus (tucunaré), Metynnis maculatus (pacu), Serrasalmus
brandtii (pirambeba), Astronotus ocellatus (oscar) e Pygocentrus pyraia (piranha
vermelha) coletados nos municípios de Piranhas, Pão de açúcar, Traipu, Porto Real do
Colégio, Penedo e Piaçabuçu.
Após captura, peixes coletados foram identificados, dissecados e os fígados e
brânquias (Figura 1), fixados em formol a 10% e após 24 horas fixados em álcool 70% e
levados para o Laboratório Aquicultura e Análise de Águas (LAQUA) do Centro de
Ciências agrárias (CECA-UFAL), onde os estudos histológicos foram desenvolvidos.
Figura 1. Separação das amostras de brânquias e fígado para análise histopatológica.
Fonte: Lucas Arruda (2020).
- Análises histológicas das brânquias e fígado
Para realização das análises histológicas, foram retirados fragmentos do fígado e
das brânquias e acondicionados em tubos de eppendorf de 2mL, onde posteriormente
realizou-se a desidratação em série alcoólica crescente a 80, 90% e 99%. As amostras
foram infiltradas, primeiro em um banho de 24h em uma mistura de historesina (Leica®)
e álcool (1:1) e depois mantidas imersas em historesina pura por mais 24h. O material foi
incluído, transferido para moldes de polietileno e mantidos em temperatura ambiente até
a polimerização completa dos blocos. Cortes semifinos com 5 μm de espessura foram
obtidos em micrótomo rotativo com navalhas de aço inox. Os cortes foram corados com
hematoxilina de Harris e eosina e realizada a montagem das lâminas com balsamo do
Canadá como meio de montagem. Em seguida, o material foi fotografado em microscópio
de luz com câmera digital e as fotomicrografias analisadas.
- Interpretação dos resultados
Foram analisadas três lâminas com cinco secções de 5μm de cada peixe, para cada
espécie. Desta forma foi analisado um total de 117 lâminas e 585 cortes histológicos. Para
avaliação da histopatologia foi utilizado o protocolo para avaliação de poluição aquática
proposto e padronizado por Bernet et al. (1999). As lesões patológicas de cada órgão são
classificadas de acordo com cinco padrões de reação. Em cada padrão de reação está
incluso diversas alterações que consideram as unidades funcionais do órgão.
Os distúrbios circulatórios (padrão de reação 1) são resultantes de uma condição
patológica do fluxo de sangue e fluidos teciduais, como hemorragia, hiperemia,
aneurisma e edema intercelular. As alterações regressivas (padrão de reação 2) são
definidas como processos eu levam a redução da função ou perda do órgão, como atrofias,
alterações nucleares, alteração na arquitetura do tecido e arranjo celular, e necrose, na
qual é considerada uma patologia grave, alteração irreversível causada pela morte celular.
As alterações progressivas (padrão de reação 3) nas quais provocam um aumento
atividade celular no tecido, como hiperplasia e hipertrofia. A inflamação (padrão de
reação 4), geralmente associado à migração de leucócitos para o meio extravascular,
como infiltração leucocitária e exsudados, e o neoplasma (padrão de reação 5), onde
ocorre proliferação descontrolada de células e de tecido, e pode ser tumores benignos ou
malignos.
Segundo o protocolo, para quantificação das alterações é determinado o fato de
importância (w) para cada lesão de acordo com sua importância patológica, e sua
relevância depende da forma como afeta a função do órgão e o grau de reversibilidade.
Desta forma as alterações foram classificadas previamente em três fatores de importância.
A cada alteração descrita nos padrões de reação é atribuído um fator:
1- A alteração é facilmente reversível ao fim da exposição à substância tóxica.
Possui importância patológica mínima.
2- A alteração é potencialmente reversível se a exposição ao agente causador for
interrompida. Possui importância patológica moderada.
3- A lesão é grave, geralmente irreversível, levando à perda parcial ou total da
função do órgão. Possui importância patológica acentuada.
Além disso é utilizado o parâmetro pontuação (α), no qual a cada amostra é
atribuída um valor, que varia de 0 a 6, de acordo com a extensão ou ocorrência de cada
alteração. O score (pontuação) sugerido pelos autores (0) sem alteração, (1-2) ocorrência
leve, (3-4) ocorrência moderada e (5-6) ocorrência severa. A partir desses valores foi
possível obter o índice de alterações histopatológicas (IH) de cada amostra através da
multiplicação de w por α para cada alteração e a soma do total de alterações para cada
amostra.
Quando a análise foi realizada em apenas um órgão, foi utilizado o seguinte
índice:
Índice do órgão (I org) – representa o grau de dano a um órgão. Um alto índice
indica um alto grau de dano.
I org = ∑pr ∑alt (a org pr alt x w org pr alt)
Onde: org = órgão (constante); pr = padrão de reação; alt = alteração; a = pontuação; w =
fator de importância.
Quando vários órgãos foram examinados, outro índice pôde ser calculado, o Índice
total (Tot-I), que representa uma medida geral do estado de saúde, baseado nas alterações
histológicas.
Tot-I = ∑ ∑ ∑ (a org pr alt x w org pr alt)
org pr alt
Após essa interpretação, foi desenvolvida uma Tabela de trabalho própria para este
estudo, com as principais alterações encontradas nos fígados e brânquias dos peixes, a partir da
qual procedeu-se a análise dos órgãos. Com a quantificação das lesões, foi possível aplicar
análises estatísticas para comparar os índices entre as diferentes espécies (Tabela 1).
- Análise estatística
Foram calculados os índices individuais por órgão e o índice total de patologias
por espécie. Para avaliação desses resultados, os dados foram analisados estatisticamente,
onde os municípios que possuíam apenas duas espécies de peixes, foi usado o teste T com
o auxílio do programa estatístico SigmaPlot 12.0. Para os demais municípios índices de
lesões histopatológicas de fígado e brânquias foram comparadas utilizando o teste
Kruskal-Wallis com o auxílio do programa estatístico Assistat 7.7.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
- Morfologia padrão do fígado e brânquias
Em geral, a arquitetura do tecido hepático encontrado nos peixes analisados é
semelhante ao das espécies de Teleósteos, que possui como característica cordões de
hepatócitos com formato poligonal, núcleos centrais apresentando nucléolos
proeminentes, dispostos em fileiras entre capilares sinusoides e vasos sanguíneos
distribuídos irregularmente entre os hepatócitos. Além de células de tecido pancreático
exócrino, as quais apresentam arranjo acinar, caracterizando o hepatopâncreas, comum
entre esses animais (GENTEN; TERWINGHE; DANGUY, 2009) (Figura 2A).
Figura 2. Fotomicrografias da arquitetura com padrão normal dos tecidos dos peixes. A) Tecido hepático
(H) do Pacu com cordões de hepatócitos com aspecto normal, células poligonais com núcleo
arredondado central (ponta de seta) e vasos sinusoides distinguíveis (seta vermelha). B) Brânquias de
Pacu com lamelas primárias (LP) sem alterações, contendo lamelas secundárias (LS) dispostas em
ambos os lados do filamento primário. [Obj. 40x, HE]. Fonte: Elaborada pelos autores (2020).
O padrão normal das arquiteturas das brânquias está mostrado na Figura 2B.
Observa-se o padrão descrito por Fanta et al. (2003), com arcos branquiais contendo o
filamento primário dispostos paralelamente, cada um composto por lamelas respiratórias
(secundárias), alinhada em ambos os lados, que representam a superfície de troca gasosa,
como é comum nos Teleósteos.
- Análises histopatológicas
Os estudos histopatológicos revelaram diferenças nos tipos e gravidade das lesões
dos órgãos entre os peixes coletados nos seis municípios do baixo São Francisco. Foi
observado que em 100% das amostras analisadas, os peixes possuíam algum tipo de
alteração patológica, seja no fígado ou nas brânquias. O grau de severidade e a ocorrência
das lesões totais nos órgãos foram mais pronunciadas no tucunaré coletado em Piranhas,
pirambeba de Porto Real, pirambeba de Penedo e no tucunaré de Porto Real,
respectivamente, conforme evidenciado no Índice Total de Patologias (BERNET et al.,
1999) mostrado no gráfico 1. Alterações significativas comuns a várias espécies foram
encontradas, como vacuolização e degeneração do citoplasma dos hepatócitos, infiltração
de leucócitos no tecido pancreático, fusão lamelar, deslocamento do epitélio lamelar,
necrose, entre outros. Essas alterações morfológicas podem ser induzidas pela presença de
poluentes na água, podendo acarretar prejuízos à habilidade dos peixes realizar suas funções
fisiológicas quando expostos a períodos curtos, e levar à morte de indivíduos se houver
longos períodos de exposição (JOBLING, 1995; MELETTI et al., 2003).
O Baixo São Francisco é uma região bastante impactada pela poluição causada
pelas descargas de esgotos domésticos das cidades que o margeiam. Além disso, sofre de
problemas relacionados ao uso de agrotóxicos em lavouras ao longo das margens dos rios
e o descarte de efluentes de atividades industriais na água (SOARES et al., 2020).
Segundo Yamamoto et al. (2016) resíduos industriais podem liberar metais pesados e
hidrocarbonetos aromáticos nos rios, essas substâncias potencialmente tóxicas podem
acumular nos organismos aquáticos, levando à ocorrência de patologias nos órgãos.
Em comparação aos dados obtidos na Expedição Científica anterior, foi observado
um aumento na ocorrência e severidade de patologias por espécies analisada. Em 2019,
93% dos peixes apresentaram lesões no fígado, entre eles o tucunaré coletado em Piranhas
e Traipu, a pirambeba coletada em Pão de Açúcar e o oscar coletado em Traipu,
entretanto, a maioria de grau leve. Entre as alterações, houve predominância de
vacuolização dos hepatócitos, infiltrado leucocitário, e a necrose foi observada somente
na espécie de oscar (DANTAS, SOARES, SILVA, 2020). Nos dados analisados no
presente trabalho, todos os peixes apresentaram lesões hepáticas, sendo identificado a
necrose, tipo de lesão mais severa e irreversível no tucunaré e pacu de Piranhas, no
tucunaré de Pão de Açúcar, Porto Real e Piaçabuçu e na pirambeba de Penedo.
Gráfico 1. Comparação das alterações patológicas totais (fígado + brânquias) entre as espécies e
os pontos de coleta de acordo com o índice de patologias proposto por Bernet et al. (1999).
Pirambeba
Tucunaré
Pacu
Oscar
Piranha Vermelha
100
índice total de Patologias
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
Pão de Açúcar
Penedo
Piaçabuçu
Piranhas
Porto Real
Traipu
Pontos de coleta
Fonte: Priscylla Dantas
Em relação às alterações nas brânquias, também houve aumento na ocorrência
entre as espécies analisadas. Em 2019, 53% das espécies apresentaram alguma
modificação branquial, prevalecendo a hiperplasia. Nos dados de 2020, dentre as cinco
espécies analisadas, de todos os pontos, somente o Pacu não apresentou alteração
branquial severa.
Apesar das alterações terem sido observadas em todas as amostras hepáticas, e na
maioria das amostras branquiais, e muitas espécies possuírem o índice total maior
(Gráfico 1) muitas delas não diferiram estatisticamente entre si em relação ao índice dos
órgãos (Tabela 1).
A - Fígado
Dentre as amostras analisadas, a severidade e frequência das lesões no fígado foi
maior na pirambeba coletada no município de Penedo, seguida do oscar de Penedo, do
tucunaré coletado em Piranhas e também em Porto Real do Colégio (Tabela 1). As
principais alterações histopatológicas encontradas no fígado dos peixes estão resumidas
na Tabela 2.
Tabela 1. Índices de alterações histopatológicas observadas nas espécies coletadas nos seis
municípios do Baixo São Francisco
Espécie
Pirambeba
Tucunaré
Pacu
Oscar
Piranha Vermelha
Espécie
Pirambeba
Tucunaré
Espécie
Pirambeba
Tucunaré
Espécie
Pirambeba
Tucunaré
Pacu
Espécie
Pirambeba
Tucunaré
Pacu
Oscar
Espécie
Pirambeba
Piranha Vermelha
Penedo
Índice do Fígado
Índice da Brânquia
52,7 ± 2,9 a
32,6 ± 2,6 a
24,0 ± 0,0 ab
36,6 ± 2,4 a
27,3 ± 3,3 ab
36,0 ± 1,1 a
38,6 ± 5,5 ab
34,7 ± 5,5 a
19,4 ± 1,7 b
26,6 ± 1,7 a
P < 0,05
P > 0,05
Pão de Açúcar
Índice do Fígado
Índice da Brânquia
18,6 ± 1,3 b
36,0 ± 2,0 a
31,4 ± 4,0 a
42,6 ± 3,7 a
P = 0,041
P = 0,189
Piaçabuçu
Índice do Fígado
Índice da Brânquia
31,3 ± 3,5 a
45,3 ± 4,6 a
30,0 ± 3,0 a
40,6 ± 1,7 a
P = 0,789
P = 0,403
Piranhas
Índice do Fígado
Índice da Brânquia
26,6 ± 2,4 ab
45,4 ± 3,3 a
33,3 ± 1,3 a
57,3 ± 5,45 a
17,3 ± 0,6 b
0,0 ± 0,0 b
P < 0,05
P < 0,05
Porto Real
Índice do Fígado
Índice da Brânquia
31,3 ± 1,7 a
56,0 ± 1,1 a
32,6 ± 4,6 a
51,4 ± 1,7 ab
29,3 ± 3,3 a
23,3 ± 5,3 b
6,0 ± 0,0 a
42,0 ± 3,4 ab
P > 0,05
P < 0,05
Traipu
Índice do Fígado
Índice da Brânquia
20,6 ± 5,9 a
47,4 ± 5,8 a
20,6 ± 5,8 a
54,0 ± 6,1 a
P = 1,000
P = 0,473
Fonte: Priscylla Dantas
A análise microscópica do tecido hepático dos peixes, revelou que todos os
espécimes apresentaram mais de um sinal de alteração celular no órgão (Tabela 1). As
alterações patológicas mais evidentes foi a vacuolização (Figura 3A, C) e degeneração do
citoplasma (Figura 3D, E), infiltração de leucócitos no tecido hepático (Figura 3D),
deformação do contorno celular (Figura 3D, E, F), dilatação dos vasos sinusoides (Figura
3A), e em algumas espécies, necrose (3B, E, F).
No presente estudo, a alteração celular mais comumente observada nos peixes foi a
vacuolização citoplasmática dos hepatócitos. A presença de hepatócitos aumentados, com
aspecto de “inchado” e vacúolos citoplasmáticos arredondados de cor clara como
observado no fígado do tucunaré (Figura 3C) é caracterizado como esteatose hepática,
ocorrendo em alguns casos, o deslocamento do núcleo para a periferia da célula.
Tabela 2. Principais alterações observadas no fígado dos peixes amostrados e seus
correspondentes fatores de importância (w) (Bernet et al., 1999).
Característica examinada
Núcleo na periferia da célula
Perda do contorno celular
Deformação nuclear
Vacuolização citoplasmática
Degeneração do citoplasma
Rompimento celular
Infiltração leucocitária
Dilatação dos sinusoides
Necrose
Hiperemia
Fator de importância (w)
2
1
2
1
1
1
2
1
3
1
Fonte: Priscylla Dantas
Nos tecidos hepáticos de peixes com início de necrose, os citoplasmas se
apresentam vacuolizados, com coloração pálida e núcleo deslocado da região central
(PINHEIRO et al., 2017). Esse tipo de alteração celular é considerada reversível, pois, a
célula agredida mantem-se viva, apesar de sofrer alterações funcionais e morfológicas,
recuperando-se quando o estímulo agressor cessa (KUMAR; ABBAS; FAUSTO, 2015).
Banee et al. (2013) observaram vacuolização citoplasmática e degeneração dos
hepatócitos em truta arco-íris Oncorhynchus mykiss exposta a 0,2mL/L do inseticida
organofosforado diazinon por 28 dias. Segundo Saraiva et al. (2015) e Vreys et al. (2019),
as alterações histológicas mais encontradas em fígado de peixes expostos a pesticidas são
degeneração vacuolar, perda do limite da célula, alteração da arquitetura do tecido e
necrose. Todas essas hepatodristrofias foram evidenciadas nas análises dos peixes
coletados no Baixo São Francisco.
Dentre todas as espécies analisadas, o tucunaré foi o que apresentou mais pontos
de necrose severa em seu tecido (Figura 3C-E), seguido da pirambeba (Figura 3A, F),
além de desarranjo da estrutura cordonal, demonstrando alteração na arquitetura do tecido
hepático. Nesses peixes, pôde ser observado deformação e clareamento nuclear,
degeneração do citoplasma, perda do limite celular, em geral associado a infiltração de
leucócitos, que demonstrando sinal de inflamação. Essas alterações morfológicas em
conjunto caracterizam a necrose.
Akaishi et al. (2004) observaram perda do limite celular e a desorganização do tecido
hepático em indivíduos expostos a contaminantes derivados do petróleo. De acordo com estes
autores, esta característica sugere alterações drásticas na distribuição de organelas que podem
ter consequências graves para o funcionamento do fígado. De acordo com Rocha et al. (2010),
a necrose pode ter várias causas, como a conversão de um contaminante em um metabólito
tóxico que pode incluir radical livre ou oxigênio reativo. Estes levam a lesão peroxidativa dos
lipídios da membrana e consequentemente a necrose.
O infiltrado leucocitário no tecido hepático foi uma alteração observada em todas
as espécies analisadas e é considerada uma resposta inflamatória produzida em defesa de
agentes tóxicos ou patógenos. O processo de inflamação é caracterizado pela a liberação
de líquido, e células dos vasos para o tecido lesionado e possui função de manter
integralidade do tecido quando estímulos internos (físico, químicos ou parasitos) afetam
o tecido (PINHEIRO et al., 2017). Portanto, podemos afirmar que os peixes coletados no
Baixo São Francisco passaram por períodos de estresse causados por agentes externos e
durante o processo inflamatório, correu o comprometimento do fluxo venoso e os
leucócitos se acumularam no tecido lesado. Entretanto, a infiltração de leucócitos
apresenta grau de reversibilidade considerado moderado, de acordo com o fator de
importância (w) Tabelado por Bernet et al. (1999), com potencial de reversão ao fim da
exposição ao agente estressor, diferente do que ocorre com a necrose, que causa grande
impacto à saúde do organismo.
Esses dados sugerem que as alterações encontradas nos peixes do Baixo São
Francisco podem estar relacionadas à resposta a exposições crônicas de diversos
agroquímicos, metais pesados e águas residuais (TRONCOSO, et al., 2012;
RAUTENBERG, et al., 2015), como ambientes que sofrem com alto impacto ecológico.
Figura 3. Alterações patológicas encontradas no fígado dos peixes coletados no baixo São
Francisco. A) Pirambeba coletada em Penedo apresentando dilatação dos vasos sinusoides
(círculos), necrose multifocal (setas pretas), e hepatócitos com citoplasma mais claro e núcleo
pálido (seta vermelha). B) Oscar coletado em Penedo com áreas necrosadas no tecido hepático
(setas) e ocorrência de oocisto de parasita (*). C) Tucunaré de Piranhas com alta vacuolização
(seta vermelha) hepática, congestão vascular (Cg) e núcleos na periferia da célula (cabeça de seta).
D) Tucunaré de Porto Real com degeneração citoplasmática e perda do limite celular (círculos),
núcleos na periferia da célula (cabeça de seta), vacuolização (seta) e infiltrado leucocitário (IF).
E) Degeneração vacuolar severa (seta) no Tucunaré de Pão de Açúcar e congestão dos capilares
sinusoides (círculo). F) Pirambeba de Porto Real apresentando áreas em processo de necrose
(círculos). [Obj. 40x: A, C-F; Obj. 10x: B, HE]. Fonte: Elaborada pelos autores (2020).
B - Brânquias
As principais alterações observadas nas brânquias dos peixes coletados no baixo
São Francisco consistiram principalmente em hiperplasia das células epiteliais, com
proliferação desordenada de células no espaço interlamelar, que, em muitas espécies,
ocasionou fusão lamelar completa ou incompleta das lamelas secundárias. As espécies
mais afetadas por essas lesões foram o tucunaré coletado no município de Piranhas, a
pirambeba coletada em Porto Real, a piranha vermelha coletada em Traipu e o tucunaré
de Porto Real (Tabela 1). As principais alterações histopatológicas encontradas nas
brânquias dos peixes estão resumidas na Tabela 3.
O deslocamento do tecido epitelial das lamelas secundárias (Figura 4A, C, D) foi
observado majoritariamente de forma severa nas espécies analisadas. Somente a espécie
de pacu não apresentou patologia braquial (Figura 2B) ou foi observada apenas em grau
leve. Essa alteração possui fator de importância (w) = 1, portanto facilmente reversível
no estágio em que foi observado nessa espécie.
O levantamento do epitélio lamelar observado nos peixes analisados neste
trabalho é considerado por Thophon et al. (2003) como o primeiro sinal de patologia
branquial e caracteriza-se pela elevação de uma lâmina contínua do epitélio de
revestimento das lamelas para longe do sistema de células pilares, aumentando assim a
distância entre o meio externo e o sangue, comprometendo a função respiratória do órgão.
De acordo com Bernet et al. (1999), o desprendimento epitelial é uma alteração
regressiva, que possui a finalidade de reduzir a função do órgão lesionado, e desta forma,
diminuir a contaminação do animal pela substância tóxica a que está exposto.
Tabela 3. Principais alterações observadas nas brânquias dos peixes e seus correspondentes
fatores de importância (w) (Bernet et al., 1999).
Característica examinada
Hipertrofia
Hiperplasia
Desarranjo lamelar
Fusão lamelar completa
Fusão lamelar incompleta
Deslocamento epitelial
Espessamento tecido proliferativo
Aneurisma
Fonte: Priscylla Dantas
Fator de importância (w)
1
2
2
2
2
1
2
1
O desprendimento do epitélio lamelar está relacionado à exposição a metais
pesados, como citado por Cantanhêde et al. (2016) na espécie de robalo Centropomus
undecimalis exposta a níveis de mercúrio e chumbo acima dos permitidos por lei
(Resolução CONAMA 357/2005), por Figueiredo- Fernandes et al. (2007) para
Oreochromis niloticus após exposição ao cobre e Bomfim Jesus et al. (2011) ao estudar
a traíra Hoplias malabaricus exposta a cloreto de mercúrio (HgCl2). Os metais pesados
são relatados como responsáveis por doenças em peixes, redução da defesa imunológicas
e patologias nos órgãos que podem ser fatais (MENESES, 2008).
A hiperplasia das lamelas secundárias foi uma alteração observada com frequência
nos peixes analisados. As pirambebas coletadas em Porto Real (Figura 4B), Traipu
(Figura 4E) e Piranhas (Figura 4F) apresentaram hiperplasia severa em grande parte do
tecido branquial analisado, com ocorrência de fusão lamelar ocasionado pela proliferação
desordenada das células. Segundo Erkem e Kolankaya (2000), a hiperplasia possui função
de defesa ao aumentar a distância que as substâncias presentes na água têm que percorrer
para alcançar a corrente sanguínea. É importante ressaltar que o processo hiperplásico
observado nos peixes aqui analisados, causado pela proliferação descontrolada de células
no espaço interlamelar (Figura 4B-F) pode levar as brânquias a fusão parcial ou completa,
que compromete a passagem de água entre as lamelas e prejudica a respiração.
As alterações encontradas nas brânquias das espécies coletados no Baixo São
Francisco foram comumente encontradas em peixes submetidos a água antropizada
(PEREIRA et al., 2020; SHAHID et al., 2020; LASSEN, 2021). Vários autores
propuseram diferentes funções às lesões, como Mallat (1985), que atribui um caráter
protetor à fusão lamelar, uma vez que essa modificação diminui a superfície branquial.
Porém, pode diminuir a capacidade do órgão em realizar as trocas gasosas. Cerqueira e
Fernandes (2002) afirmam que as alterações são respostas de defesa do tecido branquial
que ajudam a barrar a entrada de substâncias tóxicas e podem auxiliar na prevenção dos
danos causados pela exposição direta.
Os tucunarés coletados em Porto Real (Figura 4D), as piranhas de Pão de Açúcar
e Penedo e o oscar de Penedo apresentaram aneurismas de vários tamanhos nas lamelas.
O aneurisma é uma lesão importante e representa um tipo de alteração vascular nos
filamentos branquiais (CASTANHÊDE et al., 2014). O aneurisma geralmente resulta do
colapso do sistema de células pilares, que prejudica a integridade vascular com a liberação
de grande quantidade de sangue, empurrando o epitélio lamelar para fora, causando
hemorragias (HINTON; LAUREN, 1990; CASTANHÊDE et al., 2016). Segundo
Poleksic e Mitrovic-Tutundzic (1994) essa lesão é considerada severa e não permite a
restauração da estrutura branquial, mesmo em caso de melhoria da qualidade da água. As
alterações encontradas nos peixes coletados no Baixo São Francisco podem estar
relacionadas à exposição a metais pesados, pois Soares et al. (2020) demonstraram
valores de arsênio e cromo acima do Limite Máximo Tolerado (LMT) em peixes
capturadas na região.
São inúmeros os problemas de degradação ambiental que acometem o Baixo São
Francisco e estão diretamente relacionados ao aumento de patologias nos tecidos do
fígado e brânquias dos peixes. A redução drástica da vazão que vem ocorrendo nos
últimos anos ocasiona impactos significativos na capacidade de purificação do rio, uma
vez que menores vazões por longos períodos contribuem significativamente para a
manutenção das concentrações de poluentes (MEDEIROS et al., 2016).
A condição de menor vazão liberada no Baixo São Francisco compromete a
qualidade da água e a saúde dos peixes, pois influencia na diluição dos diversos agentes
químicos estressantes presentes nos efluentes domésticos, resíduos industriais,
fertilizantes e agrotóxicos, arrastados para o corpo d’água. Tais resultados demostram que
é necessário, no Baixo São Francisco, além da manutenção de um maior volume de água,
a promoção um aumento considerável no tratamento de efluentes, pois, em casos de baixa
vazão, o rio não têm água suficiente para diluir os efluentes lançados.
Associado ao problema redução da vazão do rio está a degradação da mata ciliar
e o uso abusivo de agrotóxicos. De acordo com Soares et al. (2020), nos municípios de
Porto Real do colégio, Penedo e Piaçabuçu ocorre a utilização de muitos insumos como
fertilizantes químicos solúveis, inseticidas, herbicidas, raticidas nas plantações
localizadas às margens do rio. A lixiviação desses agroquímicos, principalmente em
períodos chuvosos, tendem a contaminar as águas superficiais, em alguns casos também
as subterrâneas, caracterizando o rio como destino final de alguns produtos químicos, o
que pode levar à contaminação de nascentes (RAMOS., 2020). Portanto, a soma desses
fatores favorece o processo de degradação da qualidade da água e desencadeiam
alterações histopatológicas nos organismos aquáticos, podendo inclusive ser responsável
pelo desaparecimento de várias espécies importantes ecológica e economicamente para a
região.
Figura 4. Patologias observadas nas brânquias de peixes coletados no Baixo São Francisco. A)
Brânquias de tucunaré com deslocamento do epitélio lamelar (seta vermelha) e fusão inicial das
lamelas secundárias (ponta de seta). B) Pirambeba com hiperplasia (HP) severa nos filamentos
primários dispostos paralelamente, fusão completa das lamelas secundárias (seta). C) Piranha
com deslocamento epitelial (seta) e fusão inicial das lamelas secundárias (Fi). D) Tucunaré
apresentando aneurisma (A), deslocamento epitelial (setas vermelhas) e espessamento
descontrolado do tecido proliferativo (*), que ocasiona fusão das lamelas secundárias (seta preta).
E) Pirambeba com hiperplasia (HP), fusão completa de lamelas (F) e desarranjo da estrutura
braquial (D). F) Pirambeba com hiperplasia (HP) severa e fusão (F) completa das lamelas
secundárias. As amostras foram coletadas nos municípios de Piranhas, Porto Real, Traipu, Porto
Real, Traipu e Piranhas, respectivamente. [Obj. 40x: A, C-F; Obj. 10x: B, HE]. Fonte: Elaborada
pelos autores (2020).
CONCLUSÕES
Este estudo levou a seis conclusões que são relevantes para a avaliação da
sanidade dos peixes que habitam o Baixo São Francisco, e dos muitos problemas por ele
acometido:
Os peixes coletados na III Expedição científica apresentaram maior ocorrência e
severidade nas alterações patológicas no fígado e nas brânquias em relação à II
Expedição;
Os espécimes de tucunaré e pirambeba coletadas nos municípios de Piranhas,
Penedo e Porto Real do Colégio foram as que mais apresentaram patologias severas e
irreversíveis, como a necrose;
As patologias encontradas nos peixes são relacionadas à contaminação aquática
decorrente de efluentes domésticos e industriais, agrotóxicos e fertilizantes, os quais os
peixes estão expostos cronicamente;
A redução da vazão no Baixo São Francisco compromete capacidade de
purificação do rio e contribui significativamente para a manutenção das concentrações de
poluentes, tornando o ambiente propício a exposições agudas a contaminantes;
A exposição crônica a estressores químicos presentes na água comprometem a
sanidade de populações de peixes endêmicos e exóticos, acarretando desaparecimento de
espécies importantes do Baixo São Francisco;
As alterações histopatológicas como as encontradas no fígado e brânquias das
espécies do Baixo São Francisco são frequentemente estudadas em peixes coletados em
ambientes naturais poluídos para avaliar a presença de contaminantes e a degradação do
ambiente aquático e podem ser utilizados como biomarcadores através do cálculo das
lesões histológicas nos tecidos.
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22
Peixes como bioindicadores para monitoramento
ambiental durante a III Expedição do Baixo São
Francisco
Emilly Valentim de Souza1, Karina Leitão de Oliveira Rodrigues de Morais1, Elâne
Pereira dos Santos1, Themis Jesus Silva2, Vivian Costa Vasconcelos3, Maraísa Bezerra
de Jesus Feitosa4, Emerson Carlos Soares5
1
Graduandos em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de
Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
2Professora, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
3Mestre em zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias
e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
4Bióloga, Doutora em Ciências da Saúde, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA),
Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
5
Professor, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de Engenharias e Ciências
Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
RESUMO
No Baixo São Francisco a economia das comunidades ribeirinhas está vinculada,
principalmente, às atividades da agropecuária e pesca tradicional, mas já pode ser
observado o crescimento da aquicultura, turismo e lazer nessa região. Estas atividades
somadas com o despejo no rio de efluentes não tratado, desmatamento das matas ciliares,
entre outros, tem causado sérios danos a este tão rico ecossistema. A presença de diversos
compostos residuais afeta as condições de qualidade da água e, consequentemente, a
saúde dos organismos nela presentes e dos ribeirinhos. A avaliação deste impacto pode
ser realizada através do biomonitoramento, uma alternativa eficiente para identificar
vários tipos de xenobióticos, este é realizado por meio da avaliação de organismos
expostos a sistemas biológicos com possível presença de contaminantes. Diversos
trabalhos utilizando peixes são realizados com esta finalidade, estes servem como
bioindicador da qualidade do meio aquático. Assim, objetivou-se avaliar a qualidade da
água do Baixo São Francisco, utilizando os peixes como bioindicadores. Para isso foram
utilizados biomarcadores genético (teste de micronúcleo e frequência de anormalidades
nucleares) e bioquímico (avaliação de estresse oxidativo através das enzimas
antioxidantes SOD e GST e peroxidação lipídica - MDA). Foram realizadas coletas nos
municípios de: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Penedo, Brejo
Grande e Piaçabuçu. A atividade enzimática mostrou comportamentos distintos entre os
órgãos investigados, com o município de Traipu demonstrando os menores valores. O
teste de micronúcleo e anormalidades apontou diferença significativa entre os pontos,
com Brejo Grande e Penedo apresentando uma maior frequência de anormalidades. Os
resultados obtidos podem ser indicativos de alterações na qualidade de água,
comprometendo a saúde do rio e dos organismos aquáticos presentes nesse ecossistema.
Palavras chave: Biomonitoramento, estresse oxidativo, genotoxicidade.
INTRODUÇÃO
A bacia hidrográfica do Rio São Francisco possui grande relevância econômica e
social para o país, possuindo uma grande extensão, cerca de 2.700 km, o velho Chico
banha 505 municípios ao longo de sete estados, tem sua nascente na Serra da Canastra
em Minas Gerais, desce em direção à Bahia e Pernambuco, chegando finalmente ao
Oceano Atlântico entre Alagoas e Sergipe, onde tem sua foz. A bacia do Rio São
Francisco é dividida em quatro regiões fisiográficas: alto, médio, submédio e baixo
(CBHSF, 2014), sendo esta última, a região onde foi realizada a III expedição científica.
No Baixo São Francisco a socioeconômica das comunidades ribeirinhas é
principalmente vinculada às atividades da agropecuária e pesca tradicional, porém notase um crescimento expressivo da aquicultura, turismo e lazer nessa região (CBHSF,
2014). De acordo com a Secretaria de Recursos Hídricos (2006), a região do Baixo São
Francisco tem aproximadamente 214 km de extensão, passando por 86 municípios, tendo
início no município de Paulo Afonso (BA) percorrendo todo estado de Alagoas e Sergipe,
chegando até os municípios de Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE), onde deságua.
De acordo com Zellhuber e Siqueira (2007), várias problemáticas contribuem para
a degradação acelerada do rio, que desde os anos 70 vem enfrentando uma célere e
desenfreada maximização da agricultura intensiva, além deste, outros problemas estão
associados à deterioração do rio, como o desmatamento do cerrado e de matas ciliares
que funciona como filtro natural para possíveis resíduos de agroquímicos como
agrotóxicos e fertilizantes.
A bacia ainda sofre com superexploração das águas pela irrigação na agricultura,
mineração e siderurgia, com o assoreamento, com a construção de barragens e
hidroelétricas, e falta de saneamento básico que lança efluentes industriais e domésticos
sem nenhum tipo de tratamento diretamente no rio, esses e outros fatores comprometem
diretamente a qualidade da água, prejudicando os seres que ali vivem, bem como as
comunidades que tiram do rio renda para sobreviver (ZELLHUBER; SIQUEIRA, 2007).
Segundo Vasconcelos (2012), a contaminação por agroquímicos, mineração e
efluentes na água pode causar um acumulo de poluentes nos peixes, através da ingestão
de organismos aquáticos contaminados ou pela água contaminada. O biomonitoramento
é uma alternativa eficiente para identificar vários tipos de xenobióticos que contaminam
o meio ambiente, é realizado por meio da avaliação de organismos expostos a sistemas
biológicos com possível presença de contaminantes (SILVA et al., 2003).
Segundo Frontalini e Coccioni (2011), bioindicadores são organismos que podem
responder de forma efetiva à presença de poluentes ambientais, sendo importantes na
identificação das condições ambientais através dos biomarcadores, que foram definidos
por Lam e Gray (2003), como alterações bioquímicas, celulares, moleculares ou
mudanças fisiológicas nas células, fluidos corpóreos, tecidos ou órgãos de um organismo
que podem ser evidências de exposições e efeitos de xenobióticos. A presença de
xenobióticos no ambiente pode causar mudanças nos peixes nos seus diferentes níveis de
organização biológica. Assim, os peixes são considerados excelentes bioindicadores das
condições ambientais (FREITAS; SOUZA, 2009).
Uma das formas de identificar a presença de agentes genotóxicos é o teste de
micronúcleo (MN), que é utilizado por ser uma técnica confiável, rápida e barata. De
acordo com Obiakor et al. (2012), micronúcleo é um biomarcador do tipo genético e,
origina-se como resultado de aberrações cromossômicas, que podem ser irreversíveis e
herdados pelas progênies, sendo capaz de ocasionar diminuição na taxa reprodutiva dos
animais, levando a uma diminuição da diversidade de espécies do ecossistema afetado.
Marques et al. (2009), ponderam que outras anormalidades nucleares resultantes de danos
análogos, tais como, fragmentos, células binucleadas e bilobadas, também precisam ser
consideradas para uma avaliação mais detalhada da exposição destes organismos aos
contaminantes genotóxicos. A formação de núcleos bilobados, por exemplo, pode indicar
o início de alterações no metabolismo celular (WASIELESKY et al., 2015).
Corpos de cromatina não refrativos, circulares ou ovoides, menores do que um
terço do núcleo principal e apresentando o mesmo padrão de coloração e de focalização
como o núcleo principal, são classificados como micronúcleos (AL-SABTI e
METCALFE, 1995). Carrasco et al. (1990), classificaram outras anormalidades nucleares
eritrocitárias (ANE) além do micronúcleo, como: lobed, blebbed, notched e binucleada
(Figura 1).
Anormalidades nucleares descritas por Carrasco et al. (1990):
- Binucleated - células apresentando dois núcleos de tamanhos similares,
- Blebbed - núcleo com uma pequena evaginação no envoltório nuclear, formando uma
bolha,
- Notched - núcleo com uma pequena fenda (invaginação),
- Lobed - núcleo com evaginação no envoltório nuclear maior que blebbed, formando um
lóbulo.
Figura 1: Ilustração de anormalidades nucleares eritrocitárias.
Fonte: Emilly Valentim, baseado em Carrasco et al. (1990).
As enzimas antioxidantes são também biomarcadores (bioquímico) de grande
importância, pois apresentam resultados significativos para indicar as condições de um
determinado ecossistema. A enzima superóxido dismutase (SOD) pode ser considerada
uma das defesas antioxidantes mais importantes no processo de neutralização de espécies
reativas de oxigênio (EROs), pois catalisa a destruição do radical ânion superóxido (O2●-),
convertendo-o em oxigênio (O ) e peróxido de hidrogênio (H O ). A presença da enzima
2
2
2
SOD favorece essa dismutação tornando a reação de primeira ordem, eliminando a
necessidade da colisão entre as moléculas (BARREIROS et al., 2006).
A Glutationa S-Transferase (GST) também é uma enzima antioxidante de grande
importância e tem como função principal atuar no processo de biotransformação e
eliminação de xenobióticos em defesa da célula contra o estresse oxidativo. A GST
pertence a um grupo de enzimas multifuncionais responsáveis por catalisar a ação
nucleofílica da forma reduzida da glutationa (GSH) a compostos que apresentam um
carbono, um nitrogênio ou um átomo de enxofre eletrofílico (HAYES et al., 2005).
O malondialdeído (MDA) também é um biomarcador bioquímico, sendo resultado
final do processo de peroxidação lipídica, e através dele pode-se obter o índice de
peroxidação lipídica de diversos organismos. É bastante utilizado na indústria alimentícia
para calcular a peroxidação lipídica de alimentos (JANERO, 1990). Atualmente vem
sendo bastante utilizado em conjunto com a atividade das enzimas antioxidantes em
trabalhos sobre estresse oxidativo (VAN DER OOST et al., 2003). Porém, em animais
aquáticos, há pouca informação sobre o metabolismo do MDA.
Portanto, através da utilização de biomarcadores genéticos e bioquímicos,
objetivou-se avaliar a influência antropogênica nas espécies de peixes coletadas em
diferentes pontos do Baixo São Francisco, a fim de realizar um diagnóstico ambiental da
região e gerar dados confiáveis, que sejam utilizados como ferramenta para a melhoria
das políticas públicas de proteção para o Baixo São Francisco, suas espécies e
principalmente a população ribeirinha.
METODOLOGIA
- Captura dos animais
As coletas foram realizadas durante a III Expedição Científica do Baixo São
Francisco, durante o período de 30 de novembro a 10 de dezembro de 2020, nos
municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Penedo, Brejo
Grande e Piaçabuçu (Foz). Vários espécimes de peixes com potencial bioindicador foram
capturados ao longo de todo trecho.
Determinou-se um ciclo diário de captura dos peixes, as redes eram lançadas
durante a madrugada e retiradas pela manhã, este ciclo foi repetido durante os dez dias de
expedição. Ainda na embarcação-laboratório foi realizada a biometria (peso,
comprimento total e padrão), identificação dos peixes (sexo e espécie). Foram coletados
fragmentos de fígado e brânquia (Figura 2A) e sangue da região do opérculo/brânquia
para realização do esfregaço (Figura 2B).
- Marcadores de estresse oxidativo e genotóxico
Metodologia realizada no Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA)
do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA - UFAL).
a) Preparo das amostras
Fragmentos de fígado e brânquia (100 mg) dos peixes foram homogeneizados em
tampão fosfato de potássio (pH 7.4) 0.2 M e a suspensão centrifugada por 10 minutos a
4ºC, com velocidade de 12.000 rpm. O sobrenadante resultante foi utilizado para as
análises da atividade das enzimas Superóxido Dismutase (SOD), Glutationa S-transferase
(GST) e Peroxidação lipídica (MDA).
Figura 2: Coletas das amostras para análise e de sangue e preparo de esfregaço sanguíneo..
A
B
b) Atividade enzimática
A atividade da SOD foi mensurada nos tecidos em espectrofotômetro (λ= 570nm)
(DIETERICH et al. 2000) baseado na capacidade desta enzima em catalisar a reação do
superóxido e o peróxido de hidrogênio e, assim, diminuir a razão de auto-oxidação do
pirogalol. Os resultados foram expressos em U SOD mg proteína-1.
A atividade da enzima GST foi mensurada de acordo com a metodologia de Habig
et al., (1974), por meio da formação do conjugado glutationa-2,4-dinitrobenzeno (CDNB)
pelo aumento da absorbância (λ= 340 nm) durante 60 segundos. O coeficiente de extinção
molar do CDNB ɛ340 = 9,6 mM cm-1 foi utilizado para os cálculos.
c) Peroxidação lipídica (MDA)
Os níveis de MDA foram mensurados como descrito por Buege e Aust (1978). O
tecido foi homogeneizado em solução de ácido tricloroacético (15%) /ácido tiobarbitúrico
(0,375%)/ácido clorídrico (0,25 M). A mistura reacional total foi mantida em banhomaria durante 40 minutos a 90°C e logo após foi resfriado em gelo. Em seguida, as
amostras foram centrifugadas (10 minutos, 15°C, 2.500 rpm), o sobrenadante usado para
mensurar a absorbância a 535nm em espectrofotômetro (190-1100nm do feixe (RBC)
UV/Vis), os níveis totais de MDA em cada amostra foram determinado por meio de curva
padrão a partir de concentrações conhecidas de 1,1,3,3-tetramethoxypropane (TMPO).
- Anormalidades Nucleares Eritrocitárias (ANE)
A genotoxicidade (dano ao DNA) foi avaliada por meio da visualização de
micronúcleos e outras anormalidades nucleares através de esfregaços do sangue dos
peixes.
Os esfregaços foram preparados em lâminas de microscópio utilizando 10 µL da
solução de sangue/EDTA 10% por lâmina. A lâmina foi seca em temperatura ambiente,
fixada em etanol absoluto durante 24 horas e corada com Giemsa 10% durante 40
minutos. Foram preparadas duas lâminas por indivíduo e as anormalidades foram
identificadas conforme descrito por (CARRASCO et al., 1990). A frequência das
anormalidades foi calculada com a contagem de 1500 eritrócitos periféricos por lâmina,
totalizando 3000 eritrócitos por indivíduo, utilizando microscópio (objetiva 1000X).
Foram também realizados registros fotográficos das anormalidades mais frequentes. Esta
última etapa (análise microscópica) realizada no Laboratório de Aquicultura e Análise de
Água (LAQUA) do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA - UFAL).
- Análise Estatística
Para avaliar os dados genotóxicos foi realizada uma análise de variância e método
de Tukey a 95% de confiança.
Para avaliar os dados enzimáticos foram analisados utilizando o teste ANOVA de
uma via com pós teste de Tukey. Para tratamento estatístico, a análise dos resultados
obtidos foi processada em software Prism 5.1 (GraphPad, Califórnia, Estados Unidos).
Para efeito estatístico, foram considerados significativos os valores que apresentarem P<
0,05.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O diagnóstico ambiental foi realizado através de marcadores de dano oxidativo e
genotóxico. Durante a expedição foram capturados indivíduos das espécies pirambeba
(Serrasalmus branditt), curimatã-pacu (Prochilodus argenteus), pacu (Metynnis maculatus),
piau três pintas (Megaleporinus obtusidens), piranha vermelha (Pygocentrus piraya),
tucunaré (Cichla monoculus) e oscar (Astronotus ocellatus). Os animais que foram coletadas
foram utilizados tanto para análise enzimática quanto genotóxica.
A intensa atividade econômica sobre o Rio São Francisco vem exercendo uma
pressão ascendente sobre os recursos naturais e hídricos, principalmente nas áreas de
irrigação intensiva, além das áreas afetadas por poluição de origem diversa. Outra área de
grande preocupação é o impacto da regulação da vazão do rio (principalmente para
geração de energia hidrelétrica) nos processos hidro-, geo- e morfológicos do rio e a
cascata de consequências sedimentológicas, químicas e biológicas dessas mudanças no
estuário, litoral e ambiente marinho (OFFICE FOR SUSTAINABLE DEVELOPMENT
& ENVIRONMENT, 2005)
Os resíduos tóxicos de efluentes industriais, processos de drenagem agrícola,
derramamento de resíduos químicos e esgotos domésticos contribuem para a
contaminação dos ecossistemas aquáticos com elevado número de agentes tóxicos, como
metais, pesticidas, além de outros compostos orgânicos e inorgânicos, impactando-os nos
organismos aquáticos que dependem deste meio (RIBEIRO; BARCELOS; D’ARCE,
2014). Para identificar o impacto destes agentes nos organismos aquáticos e sua
biomagnificação surge o biomonitoramento ou monitoramento biológico que pode ser
definido como o uso sistemático de respostas biológicas para avaliar mudanças no
ambiente utilizando entre outros meios a resposta de animais imersos nesse meio
(DALZOCHIO et al., 2016).
Mesmo sem a intervenção humana ambiental, os organismos aquáticos
desenvolveram ao longo da sua evolução barreiras físicas e químicas para impedir a
propagação de doenças. Os obstáculos físicos iniciais a estes agentes são as mucosas das
brânquias, pele, sistema digestivo e trato genito-urinário (BOLS et al., 2001;
CONTRERAS et al., 2020). Além disso, o fígado de peixes produz compostos humorais
como proteínas do sistema complemento e proteínas de fase aguda da resposta
inflamatória que promovem a primeira barreira contra o agente patógeno (BILLERTAKAHASHI; URBINATI, 2014).
Além disso, o descarte de poluentes no meio aquático tem o potencial de causar
estresse oxidativo nestes organismos (TANG et al., 2021). Considerando a inflamação
como o último componente da imunidade inata, podemos inferir que a inflamação é um
complexo de eventos moleculares e celulares projetados para limpar o tecido lesado
(BOLS et al., 2001). Essa limpeza pode ser mediada pelas espécies reativas de oxigênio
ou nitrogênio por isso a utilização destes marcadores como ferramenta para
biomonitoramento ambiental é tão importante.
Somando- se a isso, em ambientes aquáticos a disponibilidade de oxigênio pode
ser drasticamente reduzida (hipóxia) ou até mesmo ausente (anóxia), e variar tanto
sazonalmente quanto diariamente, em virtude, tanto da poluição quando da interferência
da maré, o que ocasiona o estresse oxidativo (DONAGHY et al., 2015). Devido a essa
cascata de eventos investigamos a atividade das enzimas antioxidantes de dois órgãos
chaves, as brânquias, responsável pela captação de oxigênio e trocas gasosas, e fígado
como principal órgão de detoxificação.
Diferente do que aconteceu em 2019, foi realizada uma captura maior dos
indivíduos das espécies pirambeba (Serrasalmus branditt) e tucunaré (Cichla
monoculus), por esse motivo, foi feita inicialmente a análise enzimática em brânquias
(Figura 4) e fígado (Figura 5) nestes dois espécimes. Os valores da SOD das pirambebas
coletadas em Porto Real foram menores do que os encontrados em outros pontos Os
municípios de e Traipu, Piaçabuçu, Piranhas e Penedo têm valores enzimáticos similares.
Em Pão de Açúcar foi observado o maior valor de SOD.
A atividade da enzima glutationa S-transferase (GST), como pode ser visto na
Figura 4C, na pirambeba, e no tucunaré Figura 4D, foi diferente entre as espécies
avaliadas. Na pirambeba coletado em Pão de Açúcar, destaca-se os maiores valores
encontrados, seguido por Piaçabuçu. Em tucunaré podemos observar que os últimos
pontos, Piaçabuçu e Brejo Grande tiverem valores aumentados deste marcador.
A peroxidação lipídica é um marcador que reflete a degradação de oxidativa a lipídios
das membranas celulares. E reflete a perda da capacidade da membrana de manter a célula
viável, o que, em excesso, pode levar a doenças e morte do animal. A pirambeba, apenas no
município de Piranhas, apresentou valor maior que os demais, demonstrando que neste ponto
o impacto ambiental está causando diminuição da integridade celular. Já em Pão de açúcar,
tanto em pirambeba quanto em tucunaré observou-se uma leve diminuição neste marcador.
Os demais pontos não foram diferentes entre si.
Figura 4: Avaliação das atividades das enzimas antioxidantes, superóxido dismutase (SOD) e
glutationa S-transferase (GST), como também da peroxidação lipídica (MDA) em brânquias de
pirambeba (A, C, E) e tucunaré (B, D, F). As atividades das enzimas foram mensuradas em
brânquias de pirambeba e tucunaré coletadas no Baixo São Francisco durante na III Expedição.
A atividade de SOD foi expressa em unidade de SOD por miligrama de proteína. A atividade de
GST em fígado foi expressa através do coeficiente de extinção molar do CNDB. A concentração
de malonaldeído (MDA) está expressa em nanomols. Os resultados foram analisados utilizando
o teste ANOVA de uma via com pós teste de Tukey, com intervalo de confiança de 95%. ( #P<0,05;
##
P<0,01: quando comparado a Piranhas, *P<0,05: quando comparado a Penedo, γP<0,05 ou γ γ γ
P<0,0001: quando comparado a Pão de Açúcar; фP<0,05 ou фффP<0,001: quando comparado a
Porto Real).
A
B
C
D
E
F
É possível observar na Figura 05, as atividades enzimáticas e a peroxidação
lipídica mensurada no fígado da pirambeba e do tucunaré. A SOD não mostrou nenhuma
diferença entre os pontos analisados de ambas espécies.
Figura 05: Avaliação das atividades das enzimas antioxidantes da superóxido dismutase (SOD) e
Glutationa S-transferase (GST), como também da peroxidação lipídica (MDA) em fígado de
pirambeba (A, C, E) e Tucunaré (B, D, F). As atividades das enzimas foram mensuradas em fígado
de pirambeba e tucunaré coletados no Baixo São Francisco durante na III Expedição. A atividade
de SOD foi expressa em unidade de SOD por miligrama de proteína. A atividade de GST em
fígado foi expressa através do coeficiente de extinção molar do CNDB. A concentração de
malonaldeído (MDA) está expressa em nanomols. Os resultados foram analisados utilizando o
teste ANOVA de uma via com pós teste de Tukey, com intervalo de confiança de 95%. (#P<0,05;
##
P<0,01: quando comparado a Piranhas, *P<0,05 ou ***P<0,001: quando comparado a Penedo;
ф
P<0,05 ou ффP<0,01: quando comparado a Porto Real).
A
B
C
D
E
F
Na Figura 5 C, mostra que a atividade da GST no fígado da pirambeba em Pão de
Açúcar, Traipu e Piaçabuçu foi menor do que os outros pontos, o que não foi visto em
tucunaré.
A peroxidação lipídica (Figura 5 E e F) avaliada em Pirambeba não apresentou
diferença entre os pontos, já no tucunaré coletado em Penedo apresentou o maior
valor. Avaliando a peroxidação em pirambeba e tucunaré observamos que em Pão de
Açúcar há uma ligeira diminuição deste marcador em brânquias (Figura 4), o que não foi
visto em fígado (Figura 5). Porém em fígado de tucunaré houve aumento da peroxidação
apenas em penedo dentre todos os pontos analisados.
Ao avaliar o tucunaré não foi identificada diferença entre os pontos testados na SOD
de brânquias e fígado, nem em GST do fígado. As diferenças encontradas entre as respostas
das espécies podem ser tanto pela característica fisiológica quanto pelos hábitos alimentares.
Apesar das diferenças observadas na GST de brânquias, isso não foi visto em fígado,
demonstrando que as brânquias, por estarem em contato direto com os compostos e estar em
contato direto com a água, sofrem mais com a poluição ambiental.
A pirambeba (Serrasalmus brandtii) foi coletada em todos os pontos (municípios)
e, por ser uma espécie endêmica, pode ser utilizada como um ótimo bioindicador das
condições de saúde do rio. O tucunaré (Cichla monoculus), apesar de ser uma espécie
exótica, foi também encontrado na maioria dos pontos de coleta, ultrapassando a
quantidade de pontos de coleta da expedição anterior (SOARES et al., 2020), o que faz
dele outro bom bioindicador.
Pode-se observar a atividade da SOD em brânquias, que apresentou diferenças
significativas entre os grupos (Figura 6). Os animais coletados em Brejo Grande têm uma
média para SOD mais elevada do que a encontrada nos outros pontos. O mesmo ocorre
quando comparamos os animais encontrados em Piaçabuçu.
A atividade da SOD encontrada em fígado dos peixes, onde ressalta-se que nos
animais coletados em Traipu a SOD em fígado foi mais baixa do que a encontrada em
Porto Real, Penedo, Piaçabuçu e Pão de Açúcar (Figura 7). Enquanto, em Piranhas foi
significativamente menor do que Porto Real, Penedo, Pão de Açúcar e Piaçabuçu.
Figura 6: Avaliação da atividade das enzimas antioxidantes da superóxido dismutase (SOD). A
atividade da enzima foi mensurada em brânquias de peixes encontrados no Baixo São Francisco
durante na III Expedição. A atividade de SOD em brânquias foi expressa em unidade de SOD por
miligrama de proteína. Os resultados foram analisados utilizando o ANOVA com pós teste de
Tukey, com intervalo de confiança de 95% (F(6, 64) = 8.28, p=0,000). As médias que não
compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Figura 7: Avaliação da atividade das enzimas antioxidantes da superóxido dismutase (SOD). A
atividade da enzima foi mensurada em fígado de peixes encontrados no Baixo São Francisco
durante na III Expedição. A atividade de SOD em fígado foi expressa em unidade de SOD por
miligrama de proteína. Os resultados foram analisados utilizando o ANOVA com pós teste de
Tukey, com intervalo de confiança de 95% (F(6, 64) = 4.90, P=0,000).
Apesar de Piranhas ser o primeiro ponto de coleta, após a represa e, por isso, ser
o primeiro a receber a descarga de contaminantes que antes estavam estocados, a enzima
SOD dos animais encontrados aqui não divergiram muito da maioria dos outros pontos.
Isso, precisa ser melhor aprofundado pois, nos eventos que acarretam a formação de
espécies reativas de oxigênio, o ânion superóxido, O2•-, é o primeiro radical formado e a
enzima superóxido dismutase (SOD) o catalisa através da dismutação em H 2O2. A SOD
em brânquias da pirambeba não foi diferente da encontrada em Piaçabuçu, que foi o
penúltimo ponto avaliado. Enquanto a atividade da SOD em fígado de pirambeba em
Piranhas foi similar aos vistos em Porto Real e Traipu, demonstrando que apesar da
represa conter os poluentes, eles devem ou estar diluídos ou a velocidade da água deve
ajudar a lavar estes contaminantes do ambiente, por isso a necessidade de investigação.
Vale ressaltar que os resultados mostrados aqui podem ser efeito desses contaminantes
na enzima, que pode estar com sua atividade reduzida ou bloqueada, este fato deve ser
melhor investigado futuramente.
A atividade da GST em brânquias, onde foi possível identificar diferenças
significativas apenas entre Traipu e Piranhas, Traipu e Porto Real do Colégio (Figura 8).
Da mesma forma, os valores encontrados de GST em fígado, apresentaram o mesmo
comportamento (Figura 9).
Figura 8: Avaliação da atividade da enzima antioxidante Glutationa S-transferase (GST). A
atividade da enzima foi mensurada em brânquias de peixes encontrados no Baixo São Francisco
durante na III Expedição. A atividade de GST em brânquias foi expressa através do coeficiente
de extinção molar do CNDB. Os resultados foram analisados utilizando o ANOVA com pós teste
de Tukey, com intervalo de confiança de 95% (F(6, 51) = 4.45, P=0,001).
Quando analisados em conjunto, os animais coletados em Piranhas apresentam
baixo índice de GST em brânquias e alto índice em fígado. A GST é uma enzima
importante do processo de limpeza do organismo contra agentes invasores. Os substratos
mais comuns das glutationa transferases podem incluir: haletos de alquila, epóxidos,
compostos α, β-insaturados (como quinonas, iminoquinonas, aldeídos, cetonas, lactonas
e ésteres), haletos de arila e nitro aromáticos. Alguns destes são altamente genotóxicos,
encontrados em agroquímicos, e sua detoxificação pode ser controlada pela ação de GSTs
(HUBER; ALMEIDA; DE FÁTIMA, 2008).
Figura 9: Avaliação da atividade da enzima antioxidante Glutationa S-transferase (GST). A
atividade da enzima foi mensurada em fígado de peixes encontrados no Baixo São Francisco
durante na III Expedição. A atividade de GST em fígado foi expressa através do coeficiente de
extinção molar do CNDB. Os resultados foram analisados utilizando o ANOVA com pós teste
de Tukey, com intervalo de confiança de 95% (F(6, 46) = 4.94, P=0,001).
Um aumento na atividade hepática da GST já foi reportado em vários estudos após
a exposição de peixes a contaminantes orgânicos, ao sedimento coletado em locais
poluídos ou mantidos em locais impactados (CAMARGO; MARTINEZ, 2006;
GALLAGHER; GROSS; SHEEHY, 2001).
A atividade da GST nas brânquias dos peixes coletados em Piranhas, tanto
pirambeba quanto tucunaré apresentou baixos índices deste marcador, em Pão de Açúcar
volta a crescer, cai em Traipu, Porto Real e Penedo, e volta a subir em Piaçabuçu e Brejo
Grande. Este comportamento precisa ser melhor investigado. Em fígado, a resposta é
completamente diferente, demonstrando a correlação e importância da GST neste órgão.
Piranhas, como esperado, demonstra altos índices deste agente detoxificador. Pão de
Açúcar e Traipu em queda, Porto Real e Penedo em alta em ambas as espécies. No entanto
em Piaçabuçu, a pirambeba teve índices baixos de GST em fígado enquanto que em
tucunaré os valores permaneceram iguais aos pontos anteriores. No presente trabalho a
GST encontrada em fígado e brânquias se comportaram de maneira distinta em todos os
pontos, o que precisa ser melhor investigado.
Para aprofundar este entendimento e, avaliar a defesa antioxidante em peixes,
também foi realizado o teste de MDA, marcador de peroxidação lipídica (Figuras 10 e
11). Apesar da determinação de malonaldeído, ser um indicador de peroxidação lipídica
com pouca especificidade, os dados de MDA tornam-se significativos quando usados em
conjunto (HILL; SINGAL, 1996). Foi possível observar que a peroxidação lipídica em
brânquias e fígado é maior em Piranhas, Penedo e Porto Real, já Traipu apresentou os
menores índices.
Figura 10: Avaliação da peroxidação lipídica em brânquias. Foi mensurada em fígado de peixes
encontrados no Baixo São Francisco durante na III Expedição. A concentração de malonaldeído
(MDA) está expressa em nanomols Os resultados foram analisados utilizando o ANOVA com
pós teste de Tukey, com intervalo de confiança de 95% (F(6, 46) = 3.63, P=0,006).
Figura 11: Avaliação da peroxidação lipídica em fígado. Foi mensurada em fígado de peixes encontrados
no Baixo São Francisco durante na III Expedição. A concentração de malonaldeido (MDA) está expressa
em nanomols Os resultados foram analisados utilizando o ANOVA com pós teste de Tukey, com intervalo
de confiança de 95% (F(6, 42) = 6.11, P<0,001)
Com estes dados em conjunto, foi possível visualizar que Traipu apresentou os
menores valores de SOD, GST e MDA tanto em brânquias quanto em fígado dos peixes
encontrados. Estes dados são divergentes do ano passado, já que Traipu apresentou o
maior valor de SOD e o menor valor de MDA em brânquias. Apesar deste ponto está no
‘meio’ do rio, Traipu apresenta desde as expedições anteriores valores altos de coliformes
e, além disso, nesta expedição, antes de Traipu foram observados os menores valores de
ORP (potencial óxido/redução) e oxigênio dissolvido. O grupo coliforme é formado por
um número de bactérias que inclui os gêneros Klebsiella, Escherichia, Serratia, Erwenia
e Enterobactéria. Já foi identificado em outros estudos que a carga bacteriana, medida
por coliformes fecais, afeta o metabolismo do estresse oxidativo e a resposta imune inata
(DAUTREMEPUITS et al., 2009), por isso não podemos inferir se o que vemos aqui é
uma diminuição da atividade enzimática por diminuição de produção de espécies reativas
ou por causa da modulação através dos coliformes ou pelo próprio oxigênio disponível
no ambiente que pode estar atuando na diminuição ou na inativação da atividade
enzimática.
Traipu apresenta fundo de areia, assoreamento, com macrófitas. Já em Porto Real,
os pescadores entrevistados no ano de 2019 relataram uso de bombas e bolinhos de arroz
embebidos em formol (métodos proibidos pela legislação ambiental). O escoamento dos
produtos químicos agrícolas usados nas culturas de cana-de-açúcar, arroz, horticultura, o
descarte do azoto da cana e principalmente os pontos de despejo do esgoto urbano nas cidades
de Traipu, Porto Real do Colégio, Neópolis, Piaçabuçu e Penedo (dados de 2019), podem
corroborar com os nossos achados. Portanto os valores enzimáticos amenos encontrados
nesta localidade podem ter sido ocasionados pelo sinergismo do alto índice de coliformes,
pelo uso de agentes tóxicos, além do descarte de esgoto.
Ainda, pode-se visualizar na comparação de todos os indivíduos que Traipu
apresentou o menor índice de malonaldeído de todos os pontos, o que nos demonstra que,
mesmo com os valores baixos de SOD, o sistema antioxidante de defesa está sendo apto
a proteger a integridade das membranas celulares. Já em Porto Real do Colégio, ponto
seguinte ao de Traipu, houve um aumento de SOD e GST em fígado o que refletiu nos
valores de MDA sendo muito próximo ao encontrado em Piranhas.
Como as espécies reativas de oxigênio podem causar pelo menos 100 diferentes
tipos de lesões ao DNA, incluindo modificações de base, quebras de fita simples, dupla e
ligações cruzadas (XU et al., 2015). A exposição continuada à essa substância podem
causar também alterações a nível celular, atingindo o material genético e comprometendo
o funcionamento das células, podendo se estender e atingir tecidos e órgãos, causando
danos teciduais, reduzindo a reprodução por atingir células reprodutivas (WHITE &
RASMUSSEN, 1998).
Para investigar a genotoxicidade do ambiente foi avaliada a frequência média de
micronúcleos e anormalidades nucleares encontradas em eritrócitos dos peixes
capturados. Foram avaliados cerca de 70 animais (os mesmos utilizados nas enzimas),
sendo contabilizados cerca de 200 mil eritrócitos.
A presença de anormalidades foi confirmada em todos os pontos de coleta (Figura
12). Os pontos que apresentaram uma maior frequência média de anormalidades foram
Penedo, Brejo Grande e Porto Real do Colégio, apresentando resultados similares nos
dados estatísticos. Pão de Açúcar e Traipu obtiveram as menores frequências de
anormalidades. Piaçabuçu e Piranhas obtiveram desempenhos similares, com valores
acima de Pão de Açúcar e Traipu e abaixo dos demais pontos (Figura 13).
Figura 12: Anormalidades observadas em eritrócitos de Serrasalmus branditt coletada no ponto
de Penedo. A) Vacúolo; B) Blebbed; C) Notched.
.
Figura 13: Frequência média de Anormalidades Eritrocitárias nos diferentes pontos de coleta
A presença de anormalidades em todos pontos de coletas pode estar associada a
presença dos efluentes não tratados das cidades e a lixiviação de compostos químicos
residuais das culturas que percorrem o rio próximo às suas margens. Cidades com um
maior índice populacional, como Penedo, podem apresentar uma maior frequência de
anormalidades nos indivíduos avaliados devido a maior ação antrópica sobre o rio.
Del-Guercio et al. (2016), buscando avaliar os potenciais genotóxico e mutagênico
do efluente doméstico de uma cidade do interior de São Paulo, utilizaram peixes da
espécie tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) como biomarcadores, como ocorreu nos
resultados obtidos neste trabalho, constataram a presença de diversas anormalidades
como micronúcleo, lobed, blebbed e notched.
Não foi observada a presença de micronúcleo em todos os pontos avaliados.
Apenas o ponto de Brejo Grande apresentou diferença significativa na frequência de
micronúcleos avaliados, possuindo a maior quantidade de micronúcleos contabilizados
(Figura 14). Não foram encontrados micronúcleos nos indivíduos dos pontos de Pão de
Açúcar e Porto Real do Colégio. Nos demais pontos foram contabilizados em baixa
quantidade, não apresentando diferença significativa com os demais pontos (Figura 15).
Figura 14: Anormalidades observadas em eritrócitos de Cichla monoculus coletada no ponto de
Brejo Grande. A) Vacúolo; D) Micronúcleo
.
O teste do micronúcleo é uma das análises mutagênicas bastante utilizadas, com
diversos estudos realizados ao longo dos anos que mostram a relação entre a maior
frequência de micronúcleos em peixes de áreas próximas a plantações com risco de
contaminação por agrotóxicos e pesticidas (KÖNEN & ÇAVAS et al., 2008; ÇAVAS,
2011).
Figura 15: Frequência média de micronúcleos nos diferentes pontos de coletas
Além do ambiente, características fisiológicas, morfológicas, comportamentais e
alimentares podem ser responsáveis pela frequência de micronúcleos e anormalidades
nucleares nos peixes. Considerando esses fatores, foi realizada também uma avaliação
separada das espécies analisadas nos pontos de coleta. A espécie que apresentou maior
frequência de anormalidades foi a pirambeba (S. branditt), seguida do tucunaré (C.
monoculus). As espécies curimatã-pacu (P. argenteus), piranha vermelha (P. piraya) e
piau três pintas (M. obtusidens) apresentaram valores semelhantes. As espécies oscar (A.
ocellatus) e pacu (M. maculatus) apresentaram as menores frequências de anormalidades
(Figura 16).
Figura 16: Frequência média de anormalidades eritrocitárias nas diferentes espécies analisadas.
A pirambeba (S. branditt) e o tucunaré (C. monoculus) são espécies que
apresentam um hábito alimentar predominantemente carnívoro, estando no topo da cadeia
alimentar, ficando expostas ao processo de biomagnificação. Além do alto nível trófico
na cadeia alimentar, são espécies que realizam pouca ou nenhuma migração (LIMA et al.,
2018). As espécies carnívoras possuem maior capacidade de bioacumulação de poluentes
em seus tecidos (LACERDA et al., 2020). O tucunaré é considerado um animal
territorialista (SOARES et al., 2007), ficando por mais tempo em uma determinada região
do rio, sendo assim um bom bioindicador das condições de um determinado ecossistema.
A pirambeba é considerada um pequeno migrador, não percorrendo longas distâncias ao
longo do rio, o que também coloca a espécie como um bom indicador das condições
ambientais. Por estas espécies apresentarem este comportamento mais sedentário ficam
consequentemente mais expostos aos contaminantes do habitat em que vivem.
A frequência média de anormalidades observadas no tucunaré foi semelhante aos
valores observados em indivíduos da mesma espécie analisados em 2019 (SOUZA et al.,
2020). A frequência média de anormalidades na pirambeba se mostrou maior que os
dados anteriores, indicando uma maior exposição desses indivíduos à presença de
xenobióticos, resultando no aumento dos danos a seu material genético.
CONCLUSÃO
A atividade das enzimas antioxidantes pode ser elevada ou inibida dependendo do
tipo e concentração da substância tóxica. Mas, os resultados deste trabalho demonstram
que a direção e magnitude da resposta de biomarcadores de estresse oxidativo variam
entre espécies, tecidos e entre diferentes misturas complexas de contaminantes, mais que
isso, mostra que a atividade detoxificadora do sistema, apesar de encontrar-se em plena
atividade pode não estar sendo capaz de suportar a demanda.
Os dados apresentados da degradação oxidativa dos lipídios, são de grande
importância, pois tal evento tem como consequência a deterioração celular, que pode
acarretar no aparecimento de doenças, diminuição do crescimento e da capacidade
reprodutiva da espécie e até levar a morte do animal.
O teste de micronúcleo e outras anormalidades nucleares mostrou-se adequado
para a avaliação da genotoxicidade nas espécies analisadas, além de revelar as condições
ambientais do ecossistema avaliado. Analisando a frequência de anormalidades por
espécies, pode-se supor que os organismos reagem de formas diferentes à exposição aos
agentes nocivos, essa diferença pode ser explicada pelos hábitos alimentares e
comportamentais, como pôde ser observado nas espécies tucunaré e pirambeba, que
apresentaram diferença significativa no total de anormalidades observadas quando
comparadas com as demais espécies.
Os resultados obtidos pelos diferentes biomarcadores utilizados podem ser
indicativos de alterações na qualidade da água, que comprometem a saúde do rio e dos
organismos aquáticos presentes nesse ecossistema, bem como de toda a população que
utiliza o rio. Assim, é de extrema importância a continuidade das análises bem como a
identificação das causas de tais alterações, para combater as mesmas e minimizar seus
efeitos no Velho Chico e sua população.
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Tabela 1: Análise de variância
Fonte
LOCALIDADE
Erro
Total
GL
6
58
64
SQ (Aj.)
107.3
125.2
232.5
QM (Aj.)
17.882
2.159
Valor F
8.28
Valor-P
0.000
Tabela 2: Médias da atividade antioxidante de SOD em brânquias coletados em diversos pontos
do Baixo São Francisco.
LOCALIDADE
P8 - BREJO GRANDE
N
3
Média
13.28
Agrupamento
P7 - PIACABUÇU
8
9.981
B
P2 - PÃO DE ACÚCAR
8
9.653
B
C
P1 -PIRANHAS
12
8.525
B
C
P5 - PENEDO
11
8.288
B
C
P4 - PORTO REAL
15
7.846
C
P3 - TRAIPU
8
7.535
C
A
As médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Tabela 7: Análise de variância
Fonte
GL
SQ (Aj.)
QM (Aj.)
Valor F
Valor-P
LOCALIDADE
Erro
Total
6
58
64
32.58
64.23
96.81
5.430
1.107
4.90
0.000
Tabela 8: Médias da atividade antioxidante de SOD em fígado coletados em diversos pontos do Baixo São
Francisco.
LOCALIDADE
N
Média
Agrupamento
P5 - PENEDO
11
9.414
A
P7 - PIACABUÇU
8
9.381
A
B
P4 - PORTO REAL
15
9.206
A
B
P2 - PÃO DE ACÚCAR
8
9.143
A
B
P8 - BREJO GRANDE
3
8.399
A
B
C
P1 -PIRANHAS
12
8.066
B
C
P3 - TRAIPU
8
7.414
As médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Tabela 9: Análise de variância
C
Fonte
GL
LOCALIDADE
Erro
Total
6
41
47
SQ (Aj.)
QM (Aj.)
1300.5
622.1
1922.6
Valor F
216.75
15.17
Valor-P
14.28
0.000
Tabela 10: Médias da atividade antioxidante de GST em brânquias de peixes coletados em diversos pontos
do Baixo São Francisco
LOCALIDADE
N
Média
Agrupamento
P8 - BREJO GRANDE
3
21.30
A
P7 - PIACABUÇU
8
15.54
A
P2 - PÃO DE ACÚCAR
8
14.41
A
P5 - PENEDO
6
7.625
B
P3 - TRAIPU
7
7.062
B
P4 - PORTO REAL
10
5.972
B
P1 - PIRANHAS
6
3.414
B
As médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Tabela 11: Análise de variância
Fonte
GL
SQ (Aj.)
QM (Aj.)
LOCALIDADE
Erro
6
40
2747
3705
Total
46
6452
Valor F
457.84
92.63
Valor-P
4.94
0.001
Tabela 12: Médias da atividade antioxidante de GST em fígado de peixes coletados em diversos pontos do
Baixo São Francisco.
LOCALIDADE
P1 - PIRANHAS
P4 - PORTO REAL
P8 - BREJO GRANDE
P5 - PENEDO
P2 - PÃO DE ACÚCAR
P7 - PIACABUÇU
P3 - TRAIPU
N
8
10
2
7
7
6
7
Média
34.03
31.08
29.34
24.50
20.44
18.23
11.46
Agrupamento
A
A
A
B
A
B
A
B
A
B
B
As médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Tabela 13: Análise de variância
Fonte
GL SQ (Aj.) QM (Aj.) Valor F Valor-P
LOCALIDADE 6
0.8324
0.13873
3.63
0.006
Erro
40
1.5291
Total
46
2.3614
0.03823
Tabela 14: Médias da atividade antioxidante de MDA em brânquias de
peixes coletados em diversos pontos do Baixo São Francisco
LOCALIDADE
N Média Agrupamento
P1 - PIRANHAS
8 2.3561
A
P4 - PORTO REAL
15 2.2330
A
B
P5 - PENEDO
5 2.1959
A
B
P7 - PIACABUÇU
4 2.0854
A
B
P8 - BREJO GRANDE
3 2.0570
A
B
P2 - PÃO DE ACÚCAR 6 1.9899
B
P3 - TRAIPU
B
6 1.9726
As médias que não compartilham uma letra são significativamente
diferentes.
Tabela 15: Análise de variância
Fonte
GL SQ (Aj.) QM (Aj.) Valor F Valor-P
LOCALIDADE 6
2.155
0.35916
Erro
36
2.116
0.05879
Total
42
4.271
6.11
0.000
Tabela 16: Médias da atividade antioxidante de MDA em fígado de peixes
coletados em diversos pontos do Baixo São Francisco
LOCALIDADE
N Média
Agrupamento
P5 - PENEDO
6
2.8382
A
P1 - PIRANHAS
6
2.763
A
B
P4 - PORTO REAL
7
2.535
A
B
P2 - PÃO DE ACÚCAR
6
2.3142
P8 - BREJO GRANDE
3
2.2858
P7 - PIACABUÇU
8
2.2823
C
P3 - TRAIPU
7
2.2747
C
C
C
B
As médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
C
23
Identificação Morfológica de Parasitas da Fauna
Aquática do Baixo São Francisco
Karina Leitão de Oliveira¹; Emilly Valentim de Souza¹; Lucas de Oliveira Arruda¹;
Vivian Costa Vasconcelos²; Emerson Carlos Soares3 Priscylla Costa Dantas4, Themis
Jesus Silva4
¹Graduandos em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA),
Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas
(UFAL)
²Mestre em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus
de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
³Professor, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de
Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
4
Professora, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), Campus de
Engenharias e Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
RESUMO
O Rio São Francisco é um dos rios brasileiros com mais importância social e
econômica para a região Nordeste do país, sendo de grande relevância para dezenas de
atividades que são desenvolvidas através desta grande bacia. A poluição que assola os
rios acarreta sérios prejuízos para a sanidade dos organismos aquáticos, deixando-os
vulneráveis a uma grande variedade de doenças. A má qualidade da água compromete o
bem-estar desses animais, podendo reduzir a habilidade de manutenção da homeostase ou
provocar enfermidades que levem à morte. As coletas foram realizadas durante a III
Expedição do Baixo Rio São Francisco, foram coletadas várias espécies de peixes, entre
eles: o tucunaré (Cichla monoculus), a pirambeba (Serrasalmus brandtii), oscar
(Astronotus ocellatus) e a piranha vermelha (Pygocentrus piraya). Os animais foram
submetidos à análise a fresco e histológica. Os microparasitas do gênero Capyptospora
foram encontrados infectando o fígado, a vesícula biliar, além de serem encontrados
flutuando na bile, a prevalência de microparasitas nos peixes analisados a fresco foi de
61,64%. Através dos achados histológicos foi possível confirmar que as lesões
observadas no fígado dos peixes correspondiam a agregações parasitárias de
Capyptospora sp., ocupando grande áreas do órgão, causando patologias moderadas
como alteração da arquitetura normal do tecido hepático e severa degeneração do
hepatopâncreas, caracterizando processos de necrose. A análise histológica das brânquias
ainda evidenciou que as espécies pirambeba, tucunaré e piranha vermelha, estavam
infectadas com o ectoparasita Monogenea. Desta forma, é importante conhecer os
parasitas que infectam as espécies que habitam o Baixo São Francisco e avaliar os
impactos causados pelos mesmos.
Palavras-chave:
ectoparasitas.
Apicomplexa,
Calyptospora,
Monogenea,
microparasitas,
INTRODUÇÃO
O Rio São Francisco é um dos rios brasileiros com mais importância social e
econômica para a região Nordeste do país, sendo de grande relevância para dezenas de
atividades que são desenvolvidas através desta grande bacia. Segundo o Comitê da Bacia
Hidrográfica do Rio São Francisco (2014), o mesmo possui cerca de 2.700 km de
extensão, tendo sua nascente na Serra da Canastra em Minas Gerais, percorre o sentido
sul-norte pela Bahia e Pernambuco, chegando ao Oceano Atlântico entre a divisa de
Alagoas e Sergipe.
O Rio São Francisco foi subdividido em quatro regiões fisiográficas: alto, médio,
submédio e baixo. O Baixo São Francisco (BSF) tem aproximadamente 214 km de
extensão, banhando cerca de 86 municípios, tem início a partir do município de Paulo
Afonso (BA) corta todo estado de Alagoas e Sergipe, quando finalmente chega até os
municípios de Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE), onde está localizada sua foz
(SECRETARIA DE RECURSOS HÍDRICOS, 2006).
O Baixo São Francisco vem sofrendo sérios danos nos últimos anos, segundo
Andrade et al. (2004), a exploração descontrolada dos recursos naturais do rio, a
utilização incorreta dos solos, o desmatamento de matas ciliares, o uso irracional de
agroquímicos, vêm provocando inúmeros problemas ambientais, que alteram a qualidade
e quantidade de água da bacia hidrográfica. Além do saneamento inexistente nas cidades
ribeirinhas e os efluentes industriais que contribuem para um processo acelerado de
degradação ambiental (CBHSF, 2016).
A poluição que assola os rios acarreta sérios prejuízos para a sanidade dos
organismos aquáticos, deixando-os vulneráveis a uma grande variedade de doenças. A
má qualidade da água compromete o bem-estar desses animais, podendo reduzir a
habilidade na manutenção da homeostase ou provocar enfermidades que levem à morte.
O estresse resultante pode causar distúrbios no estado fisiológico dos peixes, levando à
baixa resistência a doenças, particularmente as infecciosas e parasitárias (BERNET et al.,
1999; BALDISSEROTTO et al., 2010).
Os peixes, como a maioria dos vertebrados, são organismos suscetíveis a infecção
parasitária, onde a maioria das espécies serve como hospedeiro de um ou mais parasitos
(HOSHINO, 2013). Segundo Eiras (1994) e Kubtiza e Kubtiza (2004), a contaminação
das águas pode estar diretamente correlacionada com aumento da frequência de peixes
atingidos por parasitas e, já que o ambiente aquático de certa forma é bastante
homogêneo, facilitaria a propagação e distribuição desses organismos, uma vez que eles
possuem vários mecanismos de transmissão.
Os parasitos podem ser patogênicos aos peixes, pois costumam infectar órgãos
importantes como fígado, brânquias, mesentério, provocando extensas patologias e até
mesmo a perda da função do órgão (OKUMURA, 1999). A patogenicidade dos distintos
parasitas de peixes varia entre as espécies e depende da intensidade e prevalência do
parasitismo, do órgão afetado, da presença de outras infecções coexistentes e dos fatores
ambientais (EIRAS, 2004).
Parasitas monogenéticos são platelmintos que estão entre as parasitoses mais
comuns e acometem peixes de vida livre ou cultivados, dulcícolas ou de água salgada. A
classe Monogenea pertence a um grupo de ectoparasitos diversificados que
desenvolveram diferentes estratégias de fixação durante sua evolução (JERÔNIMO et al.,
2016). São altamente específicos quanto ao hospedeiro e observados vivendo em
brânquias, nadadeiras, cavidade oral de peixes (THATCHER, 2006).
Os microparasitas do gênero Calyptospora pertencem ao Filo Apicomplexa, tem
como hospedeiro definitivo os peixes, onde se instalam principalmente no fígado e na
vesícula biliar. A literatura descreve cinco espécies identificadas, sendo que três delas
ocorrem em pescados de água doce do Brasil (WHIPPS et al., 2012). Segundo Azevedo
(2003), a atividade parasitária desses organismos é potencialmente patogênica em peixes,
o que sugere considerar que as lesões nos órgãos dos hospedeiros podem prejudicar seu
desenvolvimento, tornando-os suscetíveis a outras infecções e à predação.
A importância de se estudar parasitos de peixes, especificamente em espécies do
Baixo São Francisco está principalmente no fato de este constituir um recurso econômico
importante, além de amplamente consumido pela população ribeirinha. Diante disso, o
presente trabalho teve como objetivo analisar os peixes e identificar morfologicamente
parasitas da fauna aquática do Baixo Rio São Francisco. Além de avaliar os possíveis
impactos causados pelos mesmos, bem como comparar os resultados obtidos com os da
II expedição Baixo São Francisco, afim de verificar o potencial patológico desses
parasitos, contribuindo para o conhecimento acerca de mudanças na sanidade dos peixes.
METODOLOGIA
As coletas foram realizadas durante a III Expedição do Baixo Rio São Francisco
(Autorização MMA/ICMBio - 75591-1) durante o período de 30 de novembro a 10 de
dezembro de 2020, em oito municípios a margem do rio: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu,
Penedo, Igreja Nova, Porto Real do Colégio/Propriá (SE) e Piaçabuçu/Brejo Grande (SE)
(Figura 1A).
Com o auxílio de pescadores profissionais, foram coletadas várias espécies de
peixes, entre eles: o tucunaré (Cichla monoculus), a pirambeba (Serrasalmus brandtii),
oscar (Astronotus ocellatus) e a piranha vermelha (Pygocentrus piraya). Os peixes
passaram por biometria, onde foram pesados e medidos (comprimento total e padrão)
(Figura 1B).
Figura 1. Barco laboratório utilizado n edição (A), biometria no tucunaré (Cichla monoculus) (B).
A
B
Após a biometria, os peixes foram dissecados e os órgãos inspecionados
macroscopicamente à procura de sinais de cistos ou descoloração de algum órgão. Foram
retirados pequenos fragmentos (cerca de três milímetros) de tecidos, entre os quais
brânquias, fígado e vesícula biliar. Os fragmentos foram colocados em lâminas de vidro,
foi adicionado um pouco de água destilada na lâmina com ajuda de uma pipeta, processo
necessário para o tecido não desidratar e para melhor aderência da lamínula.
Posteriormente, as lâminas com o material biológico passaram por uma análise
minuciosa em busca dos microparasitas. Todas as análises foram feitas com tecido
biológico fresco ainda no barco laboratório com auxílio de microscópio óptico. Quando
observado a presença de microparasitas foram realizados registros fotográficos (objetiva
100x).
Para realização da análise histológica, os tecidos que continham sinais de
parasitismo foram separados e fixados em formol a 10% e após 24 horas fixados em álcool
70% e levados para o Laboratório Aquicultura e Análise de Águas (LAQUA) do Centro
de Engenharias e Ciências agrárias (CECA-UFAL), onde os estudos histológicos foram
desenvolvidos. Realizou-se a desidratação do tecido em série alcoólica crescente a 80,
90% e 99%. As amostras foram infiltradas em uma mistura de historesina (Leica®) e
álcool (1:1) e depois mantidas imersas em historesina pura por mais 24h. O material foi
incluído, transferido para moldes de polietileno e mantidos em temperatura ambiente até
a polimerização completa dos blocos. Cortes semifinos com 5 μm de espessura foram
obtidos em micrótomo rotativo com navalhas de aço inox. Os cortes foram corados com
hematoxilina de Harris e eosina e as lâminas montadas com bálsamo do Canadá como
meio de montagem. Em seguida, o material foi fotografado em microscópio de luz com
câmera digital e analisado.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados obtidos durante a III expedição científica do Baixo São Francisco
mostraram dados preocupantes em relação à II expedição, nesta apenas o tucunaré (C.
monoculus) peixe carnívoro e exótico do BSF, apresentou os microparasitas do gênero
Calyptospora na vesícula biliar e no fígado. Enquanto na III expedição houve ocorrência
desses microparasitas em mais duas espécies além do tucunaré, na pirambeba (S. brandtii)
peixe nativo no BSF, onívoro com tendência carnívora e o oscar (A. ocellatus) peixe
onívoro e exótico do rio. Além disso, foi encontrado ectoparasitas da classe dos
monogenéticos parasitando as brânquias do tucunaré, pirambeba e piranha vermelha (P.
piraya).
Foram analisados um total de 23 peixes sendo: dois exemplares de tucunaré e dois
de pirambeba em Pão de Açúcar; três exemplares de oscar em Porto Real; quatro
exemplares de pirambebas, dois de Tucunaré e um de piranha vermelha em Penedo, três
exemplares de pirambeba e dois de Piranha em Traipu, dois exemplares de tucunaré em
Piaçabuçu e dois exemplares de Tucunaré em Piranhas (Tabela 1). Deste total, dez
espécimes apresentaram infecção por microparasitas do gênero Calyptospora e sete
apresentaram o ectoparasita Monogenea parasitando as brânquias.
Tabela 1: Cidades e número de espécies capturadas e infectadas.
Cidade
Espécie capturadas
Espécie infectadas
(Calyptospora)
Espécie parasitada
(Monogenea)
Pão de
Açúcar
Porto Real
Penedo
Piaçabuçu
Traipu
Piranhas
TOTAL
Tucunaré = 2
Pirambeba = 2
Oscar = 3
Pirambeba = 4
Tucunaré = 2
Piranha = 1
Tucunaré = 2
Pirambeba = 3
Piranha = 2
Tucunaré = 2
23
Tucunaré = 1
Pirambeba = 1
Oscar = 1
Pirambeba = 4
Tucunaré = 2
Piranha = 1
Tucunaré = 1
10
Pirambeba = 2
Piranha = 2
Tucunaré = 2
7
Os microparasitas foram encontrados infectando o fígado, a vesícula biliar, além
de serem encontrados flutuando na bile (Figura 2). O fígado de alguns espécimes estava
com uma coloração opaca e foi possível visualizar pequenos cistos de Calyptospora sp.
que se agrupavam por todo órgão (Figuras 3A-D). A espécie C. monoculus exibiu a bile
com uma coloração amarela intensa, indicativo de infecção. A prevalência de
microparasitas nos peixes coletados foi de 61,64%.
Figura 2. Aglomerados de Calyptospora encontrados nos órgãos dos peixes coletados no baixo
São Francisco. A) Parasitismo no tecido hepático de S. brandtii (Objetiva 100x). B) Parasitismo
no tecido biliar de C. monoculus (Objetiva 20x) Fonte: Elaborada pelos autores (2020).
Os microparasitas foram visualizados tanto em oocistos isolados (Figuras 3C, 4B)
como em grupos, essa tendência de se apresentarem de forma distribuída de maneira
agregada no hospedeiro é uma característica comum em infecções de parasitas (ZUBEN,
1997). Contudo, alta densidade populacional de parasitos pode provocar lesões pouco
severas como as inflamações observadas no tucunaré (Figura 3B) e na pirambeba (Figuras
4A, C) em que foi encontrado infiltrado leucocitário no tecido hepático ou de gravidade
acentuada como a necrose observada no oscar (Figura 3D) e na pirambeba (Figura 4B).
Figura 3. Cortes histológicos do fígado das espécies coletadas infectados com Calyptospora sp.
A) Hepatopâncreas (HP) de Tucunaré com aglomeração severa de oocistos (Oo) disseminados
próximo a vasos sanguíneos (seta vermelha), esporocistos (seta preta). B) Tecido pancreático
(HP) de Tucunaré com vacúolos parasitóforos bastante pronunciados, hepatócitos normais (H).
C) Tucunaré com aglomerados de ooscistos (Oo) por toda extensão do tecido hepático (H) e cisto
isolados (cabeça de seta). D) Grandes regiões do hepatopâncreas (HP) do Oscar com ooscistos
agrupados (Oo) e focos de necrose (setas). Peixes coletados em Pão de Açúcar, Piaçabuçu, Penedo
e Porto Real, respectivamente. [Obj. 40x: A, B, D; Obj. 20x: C. HE]. Fonte: Elaborada pelos
autores (2020).
A presença de infiltrados leucocitário em torno dos ooscistos é característica de
um processo inflamatório leve, isso pode ser explicado pela presença de aglomerados de
ooscistos de Calyptospora sp. próximos a vasos sanguíneos (Figura 3A). Segundo
Bechara e Szabó (2009) essa reação inflamatória ocorre porque os leucócitos possuem
capacidade de incorporar e degradar complexos imunes e restos de células necróticas, e
suas enzimas contribuem de outras formas com a resposta defensiva do hospedeiro.
Figura 4. Fotomicrografias do tecido hepático infectado com ooscistos de Calyptospora sp. A)
Pirambeba com hepatócitos (H) apresentando infiltrado leucocitário (seta vermelha) em torno do
aglomerado de oocistos (Oo) e presença de dilatação dos vasos sinusoides. B) Pirambeba com
tecido hepático (H) com oocistos em pequenos grupos (Oo), isolados (círculos), dilatação de
sinusoides (cabeça de seta), focos de necrose (seta vermelha), detalhe nos esporoscistos (setas
pretas) dentro do vacúolo. C) Grandes vacúolos parasitóforos (Oo) causando desarranjo nos
hepatócitos (H) de Pirambeba e infiltração de leucócitos (seta). D) Piranha vermelha com grandes
regiões do hepatopâncreas (HP) com aglomeração de oocistos (Oo) e degeneração do tecido
(setas). Espécies coletadas em Pão de Açúcar, Penedo, Piranhas e Traipu, respectivamente. [Obj.
40x, HE]. Fonte: Elaborada pelos autores (2020).
A identificação dos microparasitas do gênero Calyptospora, foi realizada através
da visualização dos vacúolos parasitóforos (Figura 3A, B; 4C, D), pois microparasitas
deste gênero possuem uma morfologia esférica e dentro deste possui quatro esporocistos,
como foi descrito por Casal et al. (2007). Segundo Eiras et al. (2006), os esporocistos são
responsáveis pela liberação dos esporozoítos vermiformes, essa liberação dos
esporozoítos possibilita a contaminação de novos hospedeiros, começando assim um
novo ciclo.
Através dos achados histológicos foi possível confirmar que as lesões observadas
no fígado dos peixes analisados correspondiam a agregações parasitárias de Capyptospora
sp. ocupando grande áreas do órgão (Figura 4D), causando patologias moderadas como
alteração da arquitetura normal do tecido hepático (Figura 4A, B) e severas como
degeneração do hepatopâncreas (Figura 4D), caracterizando processos de necrose.
Descrições patológicas provocada pelo parasitismo de Calyptospora sp.
semelhantes às evidenciadas neste trabalho foram encontradas por Videira et al. (2013)
no acará Aequidens plagiozonatus que habitavam rios do Pará. Os autores encontraram
vacúolos parasitóforos por toda extensão do fígado e tecido pancreático. Achados
semelhantes foram descritos por Albuquerque e Brasil-Sato (2009) em um estudo
realizado no reservatório de Três Marias em Minas Gerais, onde os microparasitas do
gênero Calyptospora estavam parasitando o fígado e o intestino dos peixes coletados,
cerca de 10% dos peixes coletados estavam infectados com o coccídeo.
De acordo com Velasco et al. (2012), fígado com mudança na coloração como
observado no presente trabalho está relacionado com infecções mais intensas e são causadas
pela degeneração do tecido hepático. A degeneração do parênquima hepático causada por
Calyptospora sp. também foi encontrada em análise histológica realizada por Oliveira et al.
(2021) em Serrasalmus rhombeus, a piranha negra, oriunda de Ipixuna do Pará. Os danos
causados pelo Calyptospora sp. tornam-se mais evidentes em nível celular, com alteração
da morfologia das células adjacentes aos oocistos (AZEVEDO et al., 1993), como
identificado em nos peixes coletados no baixo São Francisco.
O modo de transmissão de microparasitas do gênero Calyptospora, ainda não é
bem conhecido, mas a infecção por ingestão é considerada a via mais provável de
contaminação Fournie et al. (2000). Desta forma é importante continuar o estudo de
microparasitas no baixo São Francisco, pois é preciso conhecer melhor o seu ciclo de
vida, bem como as consequências das infecções causadas por este coccídio, pois os
mesmos podem atingir espécies endêmicas e economicamente importantes do rio e
comprometer a sobrevivências de tais espécies.
A análise histológica das brânquias evidenciou que as espécies de pirambeba
coletada no município de Traipu (Figura 5A), tucunaré coletado em Piranhas (Figura 5B)
e a piranha vermelha coletada em Penedo (Figura 5C) e Traipu (Figura 5D) estavam
infectadas com o ectoparasita Monogenea.
Figura 5. Fotomicrografias das brânquias parasitadas com Monogenea encontradas nos peixes coletados no
baixo São Francisco. A) Pirambeba com o ectoparasita (seta) fixado à lamela secundária. B) Tucunaré
parasitado por Monogenea (seta), evidenciando processo hiperplásico (setas vermelhas) entre as lamelas
secundárias (LS). C) Piranha com lamela secundária (LS) parasitada (seta). D) Piranha parasitada com
Monogenea (seta) com hiperplasia e aumento da proliferação celular (HP) nas lamelas secundárias (LS).
[Obj. 100x: A; Obj. 40x: B, C, E. HE]. Peixes coletados em Traipu, Piranhas, Penedo e Traipu,
respectivamente. Fonte: Elaborada pelos autores (2020).
Os Platelmintos da classe Monogenea são parasitas comuns em brânquias que
afetam a saúde do hospedeiro (IVERSEN; CHITTY; METER, 1971). Os monogenéticos
são vermes hermafroditas achatados dorsoventralmente e caracterizam-se pela presença
de um órgão de fixação posterior, o haptor, equipado com ganchos, âncoras e ventosas
(EIRAS et al., 2010). Dependendo do grupo, esses organismos se alimentam de sangue
ou de células epiteliais, são ectoparasitas importantes e contribuem com epizootias,
causando a mortalidade do hospedeiro por se fixarem num órgão sensível como as
brânquias.
A ação patogênica dos monogenéticos está relacionada principalmente à sua forma
de fixação no hospedeiro, onde ocasionam lesões que podem dilacerar os órgãos, induzir
inflamações, causar proliferação epitelial, edemas e até necrose (JERÔNIMO et al.,
2016).
Na análise das brânquias da pirambeba observa-se dilaceração do epitélio de fixação
(Figura 5A), com desorganização estrutural das lamelas secundárias. As brânquias do
tucunaré (Figura 5B) e da piranha (Figura 5D) apresentaram respostas proliferativas
relacionadas ao parasitismo do Monogenea, com espessamento do tecido proliferativo
lamelar. De acordo com Eiras (1994), a patogenia provocada pelos monogenéticos é
variável com as espécies e com o local de fixação, onde pode ocorrer lesões de gravidade
pouco acentuada, aumento na frequência respiratória até hipersecreção de muco nas
brânquias, o que poderia levar os animais à morte por asfixia.
O diagnóstico histopatológico das brânquias de piranha (Figura 5D) revelou
hiperplasia lamelar, com ocorrência de fusão completa das lamelas secundárias. A fusão
das lamelas é decorrente da hiperplasia das células epiteliais das lamelas e filamentos
branquiais. Apesar de ser considerado um mecanismo de defesa a agentes externos, essa
alteração prejudica a passagem da água entre as lamelas, o que dificulta a função
respiratória do órgão (CANTANHÊDE et al., 2014).
Kaur e Shrivastav (2014) encontraram patologias semelhantes às do presente
trabalho nas carpas Labeo rohita e Hypophthalmichthys moltrix capturadas em lagoas,
incluindo múltiplas infecções branquiais, danificação dos tecidos e deformações
celulares. A doença parasitária Monogeníase foi relatado por Malta et al. (2001) em
cultivo de tambaquis Colossoma macropomum, e por Cardoso (2014) no saramunete
Pseudupeneus maculatus capturados no litoral do estado de Pernambuco.
São diversos os fatores atribuídos pelos pesquisadores à incidência de parasitismo
por monogenéticos (temperatura, pH, concentração de matéria orgânica na água).
Segundo Soleng, Jansen e Bakke (1999), a temperatura da água condicionada à
pluviosidade influencia na abundância desses paratisos. Para Mo (1997), a temperatura
da água é um fator abiótico que conduz a mudanças comportamentais nos parasitos e
altera as respostas dos peixes à infecção. Esses resultados vão de encontro ao de Cardoso
(2014), em que a sazonalidade não influenciou na infestação parasitária por Monogenea
em Pseudupeneus maculatus.
Segundo Eiras (1994) e Batista e Boijink (2012) a maioria das espécies de
monogenoides possui seu padrão anual de infecção bem definido, com aumento no
número de parasitos durante os meses do verão. Entretanto, algumas espécies desse
helminto ocorrem durante todo o ano, fato que pode estar associado ao seu ciclo direto,
pois esses parasitos não necessitam de hospedeiro intermediário para causar infecção,
permitindo assim infestações contínuas.
A presença de parasitas (monogenéticos e coccídeo) como os encontrados nas
espécies do baixo São Francisco, se associada a altos índices de prevalência nas espécies,
pode estar relacionado um ambiente poluído, uma vez que estes parasitos atuam como
indicador de alteração ambiental e têm sua população aumentada devido ao estresse do
hospedeiro e às condições do meio em que vivem.
CONCLUSÃO
A presença de microparasitas do gênero Calyptospora na pirambeba (Serrasalmus
brandtii), no tucunaré (Cichla monoculus), e no oscar (Astronotus ocellatus), e do
ectoparasita Monogenea na pirambeba, no tucunaré e na piranha (Pygocentrus piraya)
pode estar relacionada com algum tipo de desequilíbrio ambiental, como a poluição
(esgoto agroquímicos) que atinge a bacia hidrográfica do Rio São Francisco, deixando
tais espécies sob condições de estresse e mais suscetíveis a infecções, que podem
comprometer a sobrevivência e manutenção destas no ambiente em estudo.
AGRADECIMENTOS
Nosso agradecimento a Profª. Dra. Gabriela Tomas Jerônimo (UFAM) pela ajuda
com a identificação do ectoparasita. Nossos sinceros agradecimentos aos profissionais da
pesca pelo apoio e aos moradores do Baixo São Francisco pela acolhida. Nossos
agradecimentos pelo apoio, à Universidade Federal de Alagoas (UFAL), ao Comitê da
Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), a Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de Alagoas (FAPEAL), entre outras instituições que contribuíram para a
realização deste projeto.
REFERÊNCIAS
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Calyptosporidae) in forage characid fish from the Três Marias Reservoir, São Francisco Basin,
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ANDRADE, P. L. V.; BOTELHO, S. A.; DAVIDE, A. C.; FERREIRA, E. Estudo das nascentes
da bacia hidrográfica do ribeirão Santa Cruz, Lavras, M.G.; Scientia Forestalis, nº65, p.197-206,
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AZEVEDO, C.; MATOS, E. Fine structure of Henneguya pilosa sp. n. (Myxozoa: Myxosporea),
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AZEVEDO, C.; MATOS, P.; MATOS, E. Morphological data of Calyptospora spinosa n.
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24
Diversidade e pesca dos crustáceos decápodos no
Baixo São Francisco
Petrônio Alves Coelho Filho, Marcos Yves Praxedes, Alex Pereira Gonçalvez, Felipe
Pedrosa
Laboratório de Carcinologia do Curso de Engenharia de Pesca. Universidade Federal de Pernambuco,
Unidade Penedo.
RESUMO
Este relatório apresenta os resultados preliminares sobre o estudo da biodiversidade e
pesca dos crustáceos no Baixo São Francisco durante a III Expedição Científica do Baixo
São Francisco, buscando com isso ampliar o conhecimento desse importante recurso
econômico, social, ambiental e cultural. As amostragens foram realizadas entre 29 de
novembro e 15 de dezembro de 2020 em oito áreas de amostragem distribuídas no baixo
Rio São Francisco entre Piranhas/AL e Piaçabuçu/AL. Foram identificadas 09 espécies
nos 08 pontos de coletas, com uma abundância total de 953 indivíduos pertencentes a 9
espécies, dos quais 715 foram capturados por meio de coleta manual e por puçá, 228
através dos covos. Os camarões M. jelskii e M. acanthurus estavam presentes em quase
todos os pontos de coleta, enquanto que Panopeus sp foi o táxon que menos ocorreu,
sendo apenas registrado 01 indivíduos em Penedinho; A baixa ocorrência de tal táxon é
explicada devido a associação com o local específicos, normalmente regiões estuarinas.
M. jelskii foi a espécie que se destacou com maior abundância e frequência sendo
observado 656 indivíduos capturados em 06 dos 08 pontos de coleta. A CPUE para o
camarão M. acanthurus foi de 1,65 ± 1,11 camarões/covo e 10,38 ± 6,34 gramas/covo, e
para o camarão-pitu M. carcinus foi 0,44 ± 0,29 camarões/covo e 8,78 ± 3,44
gramas/covo., valores considerados muito baixos.
Palavras-chave: camarão, biodiversidade, CPUE.
INTRODUÇÃO
O Baixo São Francisco é uma das regiões mais conflitantes do Nordeste, devido
localizar-se em ambiente árido, onde a água é a principal força motriz das comunidades
rurais, assim fatores ligados a pesca e aquicultura, geração de energia elétrica, poluição
oriunda dos esgotos das cidades, assoreamento, uso de agrotóxicos em culturas as
margens do rio, desmatamento da vegetação marginal, avanço da cunha salina, alterações
de vazão, endemismo de espécies, entre outras atividades, refletem diretamente na vida
social, econômica e ambiental desta mesorregião.
Esse cenário tem mostrado sinais de piora nos últimos anos, e pode ser acelerado
à exploração excessiva de recursos naturais, como a remoção de mata ciliar em rios
tributários e o baixo nível de tratamento de esgoto urbano nos municípios da região, com
impactos agravados pela ocorrência de longos períodos de seca, levando a decisões
gerenciais que não promoveram adequadamente os usos múltiplos da água do rio. Além
disto, a supressão da vegetação nas margens do rio contribui para o aumento do
assoreamento e processos erosivos do solo, promovendo a formação de bancos de areia
na calha do rio ou contribuindo para a redução das áreas de captura e destruição de
habitats como as lagoas marginais, consideradas berçários de muitas espécies aquáticas,
que conjuntamente com métodos de capturas não permitidos, vem ocasionando o declínio
da biodiversidade de organismos aquáticos.
Dentre as espécies animais representados no Baixo São Francisco, destacamos os
crustáceos pela importância nos processos ecológicos dos ambientes aquáticos, pois
atuam em diferentes níveis da cadeia trófica desses ambientes, quer como herbívoros,
predadores, necrófagos ou presas de outros grupos (BENETTON et al., 1990;
MAGALHÃES et al., 1999). Algumas espécies têm como função o controle da vegetação
aquática, muitos são bons indicadores ambientais para metais, chuva ácida, aquecimento
global, etc. Os crustáceos são especialmente sensíveis à contaminação ambiental e sendo
considerados típicos organismos bioindicadores. Além do citado, os camarões
palemonídeos de água doce (especialmente o gênero Macrobrachium) são uma das
principais fontes de renda das famílias ribeirinhas, e são responsáveis por produzirem
anualmente milhares de toneladas de proteína que sustentam populações rurais locais
(OVERAL 2001).
Este relatório apresenta os resultados preliminares sobre o estudo da
biodiversidade e pesca dos crustáceos no Baixo São Francisco durante a III Expedição
Científica do Baixo São Francisco, buscando com isso ampliar o conhecimento desse
importante recurso econômico, social, ambiental e cultural.
METODOLOGIA
- Definição das áreas de coleta
As amostragens foram realizadas entre 29 de novembro e 15 de dezembro de 2020
em oito áreas de amostragem distribuídas no baixo Rio São Francisco entre Piranhas/AL
e Piaçabuçu/AL (Figura 1), levando em consideração áreas tradicionais de pesca,
características dos bióticos aquáticos (vegetação, tipo de substrato, regiões lóticas e
lênticas).
Figura 1: Distribuição dos pontos de coleta realizadas durante o monitoramento da
carcinofauna no Baixo São Francisco.
- Metodologia de captura:
A equipe utilizou como meio flutuante um barco com casco de alumínio de 6m de
comprimento, dotado com motor de popa de 15Hp (Figura 2). Durante as amostragens para
o estudo da carcinofauna, os dados abióticos foram aferidos em campo com o auxílio de
uma sonda multi parâmetros. A profundidade local foi aferida com o auxílio de uma
ecossonda manual.
Figura 2 – Meio flutuante utilizado com covos no convés
Apesar dos crustáceos poderem estar presentes em quase todo o leito do rio, os
pontos escolhidos de coleta foram nas áreas que geralmente eram utilizadas pelos
pescadores locais, ou seja, locais com maiores chances de captura. Para melhor
caracterizar a carcinofauna realizadas coletas manuais além dos seguintes apetrechos:
Armadilhas de fundo (“covo”) com isca (Figuras 3 e 4); puçá (Figura 5). Os espécimes
capturados foram em campo acondicionados em potes ou sacos plásticos, rotulados e
fixados com solução formalina a 4% para posteriores estudos em laboratório. Em seguida,
foram acondicionados em potes ou vidros, rotulados e preservados com álcool a 70%.
Para determinação da composição específica da carcinofauna, foram utilizados todos os
indivíduos capturados em todos os apetrechos de pesca.
- Análise faunística
As espécies foram identificadas até o nível específico com o auxílio da
bibliografia pertinente (Holthuis, 1952; Melo, 2003) a luz de microscópio binocular e
estéreo-microscópio, adotando-se a classificação proposta por de Grave e Fransen (2011).
Em seguida, foram acondicionados em potes ou vidros, rotulados e preservados com
álcool a 70%. Para determinação da composição específica da carcinofauna, foram
utilizados todos os indivíduos capturados em todos os apetrechos de pesca.
Figura 3 – Armadilha de fundo para captura de camarões (covo). Observa-se em detalhe
exemplares de Macrobrachium carcinus capturados e o recipiente plástico perfurado para
acondicionamento da isca.
Figura 4 - Recolhimento da linha de armadilhas (grosseiras de covos)
Figura 5 – Coleta de crustáceos feito com puçá em áreas marginais do Baixo São
Francisco.
RESULTADOS PRELIMINARES E COMENTÁRIOS
- Parâmetros Ambientais
Os valores analisados da temperatura, oxigênio dissolvido, condutividade, pH,
sólidos dissolvidos e salinidade da água, nos locais de captura estão descritos na Tabela
01. Dos parâmetros aferidos, merecem destaque a temperatura, condutividade, sólidos
dissolvidos e salinidade da água, por apresentarem variações temporais e/ou espaciais,
possivelmente decorrente das constantes variações de vazão sofrido no período de coleta.
Tendo início dia 08 de dezembro de 2020 um aumento de vazão média diária de
Hidrelétrica de Xingo, no município de Canindé de São Francisco, a qual era de 200 m³/s,
passando de 2.600 m³/s por 2.800 m³/s, de acordo com a Carta Circular SOO-053/2020,
atendendo a diretriz do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
A temperatura da água apresentou um valor médio de 27,65±0,44 ºC entre os
pontos, variando de 27,02 ºC em Piranhas a 28,8 ºC Penedinho. A temperatura é
considerada por muitos como a característica mais importante do meio aquático, a
variação térmica, influencia grande parte dos outros parâmetros físico-químicos da água
tais como: a densidade, viscosidade, pressão de vapor e solubilidade dos gases dissolvidos
(TUCCI, 2004).
Quanto a condutividade elétrica observada no período de coleta apresentou uma
média de 125,43±0,16 mS.cm-1, sendo possível notar uma tendência de que quanto mais
próximo da foz do rio São Francisco maiores os valores de condutividade elétrica; o maior
valor observado foi em Potengi com 334,15 mS.cm -1 o ponto mais próximo a foz e o
menor na região de Porto Real 78,3 mS.cm-1.
As concentrações de sólidos totais dissolvidos (TDS) apresentaram o mesmo
padrão espacial da condutividade, com valores mais elevados quando se aproxima da
região da foz do Rio são Francisco, sendo aferido o menor valor em na região de Traipu
com 66,55 e o maior na região de Potengi com 188,9 mg/L.
- Análise da biodiversidade
Foram identificadas 09 nos 08 pontos de coletas, com uma abundância total de
953 indivíduos, dos quais 715 foram capturados por meio de coleta manual e por puçá,
228 através dos covos. Dentre as 09 espécies de crustáceos foi possível observar que 04
espécies pertencentes a Infraordem Caridea e 05 espécies pertencentes a infraordem
Brachyura (ver sinopse taxonômica abaixo).
Entre as espécies que mais ocorreram, M. jelskii e M. acanthurus estavam
presentes em quase todos os pontos de coleta, enquanto que Panopeus sp foi o táxon que
menos ocorreu, sendo apenas registrado 01 indivíduos em Penedinho; A baixa ocorrência
de tal táxon é explicada devido a associação com o local específicos, normalmente regiões
estuarinas. M. jelskii foi a espécie que se destacou com maior abundância e frequência
sendo observado 656 indivíduos capturados em 06 dos 08 pontos de coleta.
SINOPSE TAXONÔMICA
Infraordem Brachyura
Superfamília Portunoidea Rafinesque, 1815
Família Portunidae Rafinesque, 1815
Callinectes bocourti A. Milne Edwards, 1879 - Nome vulgar= siri
Família Sesarmidae Dana, 1851
Armases rubripes Rathbun,1897- Nome vulgar= Marinheiro
Familia Ocypodidae Rafinesque, 1815
Uca sp. Nome vulgar= Chama-maré
Família Panopeidae Ortmmann, 1893
Panopeus sp. H. Milne-Edwards, 1834
Infraordem Caridea Dana, 1852
Superfamília Palaemonoidea Rafinesque, 1815
Família Palaemonidae Rafinesque, 1815
Subfamília Palaemoninae Rafinesque, 1815
Macrobrachium acanthurus (Wiegmann, 1836) - camarão-comum
Macrobrachium carcinus (Linnaeus,1758) - Nome vulgar= camarão-pitu
Macrobrachium jelskii (Miers, 1877) - Nome vulgar= saburica
Macrobrachium olfersii (Wiegmann, 1836) - Nome vulgar= aratanha
Gênero: Potimirim Holthuis, 1954
Potimirim potimirim (Müller, 1881) - Nome vulgar= saburica
CAPTURA POR UNIDADE DE ESFORÇO (CPUE)
- Macrobrachium acanthurus (camarão comum)
Foram utilizados 160 covos, resultando em uma captura de 1.660 indivíduos e
uma biomassa total de 1.038,29 g. Com isso, para toda a região estudada, a CPUE foi
1,03 ± 0,88 camarões/covo e 6,48 ± 4,36 gramas/covo. Quando levado em consideração
apenas os locais onde os camarões ocorreram a captura (de Belo Monte a Potengi), a
CPUE subiu para 1,65 ± 1,11 camarões/covo e 10,38 ± 6,34 gramas/covo.
A área de pesca que apresentou a maior CPUE foi Penedinho com 2,35
camarões/covo e 11,86 gramas/covo, e Traipu com 1,9 camarões/covo e 18,34
gramas/covo. Já Potengi correspondeu a menor CPUE com apenas 0,8 camarões/covo e
3,98 gramas/covo (Figura 6).
Figura 6 – CPUE (camarão/covo) e CPUE (grama/covo) dos camarões Macrobrachium
acanthurus coletados no Baixo São Francisco.
CAMARÃO/COVO
2.5
2
1.5
1
0.5
GRAMAS/COVO
0
TRAIPU
PORTO R.
COLÉGIO
PENEDO
PENEDINHO
POTENGI
TRAIPU
PORTO R.
COLÉGIO
PENEDO
PENEDINHO
POTENGI
20
18
16
14
12
10
8
6
4
2
0
- Macrobrachium carcinus (camarão-pitu)
Foram coletados 62 indivíduos de M. carcinus em 160 covos, totalizando uma
biomassa de 1.230 g. A CPUE foi de 0,395 ± 0,21 camarão / covos e
7,69 ± 3,98 gramas / covos. Quando analisado somente nos locais onde os camarões
ocorreram (excluindo Potengi), a CPUE subiu para 0,44 ± 0,29 camarões/covo e 8,78 ±
3,44 gramas/covo.
Apesar da maior CPUE por indivíduo ter sido registrada em Penedo, com 1,1
camarão/covo, foi em Porto Real de Colégio onde se obteve a maior CPUE por peso, com
20,68 gramas/covo (Figura 7). Este resultado está associado ao tamanho corporal dos
camarões pitus coletados, onde em Penedo os camarões coletados registraram a menor
média de peso (9,19 ± 4,97 g), frente a Porto Real do Colégio que apresentou a maior
média (28,31 ± 9,48 g).
Figura 7 – CPUE (camarão/covo) e CPUE (grama/covo) dos camarões Macrobrachium
carcinus coletados no Baixo São Francisco.
1.2
CAMARÃO/COVO
1
0.8
0.6
0.4
0.2
0
PIRANHAS
PÃO DE
AÇÚCAR
BELO
MONTE
TRAIPU
PORTO R.
COLÉGIO
PENEDO PENEDINHO POTENGI
PIRANHAS
PÃO DE
AÇÚCAR
BELO
MONTE
TRAIPU
PORTO R.
COLÉGIO
PENEDO PENEDINHO POTENGI
25
GRAMAS/COVO
20
15
10
5
0
Tabela 1 – Média e desvio padrão da temperatura, oxigênio dissolvido, pH, TDS, salinidade e condutividade da água nas 8 áreas de estudo.
27,41±0,055
Oxigênio
dissolvido
(%)
82,65±1,48
Oxigênio
Condutividade
dissolvido
pH
(mS.cm-1)
-1
(mg.L )
6,75±0,28
98,2±0,42
7,48±0,12
7,7±2,69
27,5±0,28
84,95±3,61
7±0,78
93,6±5,66
Belo monte
6,1±2,83
27,4±0,28
88,7±2,42
7,15±0,29
Traipu
6,1±3,61
27,40
88,7±0,14
Porto r. Colégio
7,1±2,55
27,75±0,21
Penedo
6,75±2,45
Penedinho
Potengi
Profundidade
(m)
Temperatura
ºC
Piranhas
9,6±1,27
Pão de açúcar
Ponto
Salinidade
TDS
(mg.L-1)
0,04
78,57±0,33
7,3±0,06
0,04
81,35±1,63
290,23±2,19
7,54±0,27
0,10
182,55±7,11
7,16±0,53
290,23±6,01
7,54±0,04
0,10
182,55±0,46
80±0,42
6,68±0,66
79,35±1,48
7,53±0,13
0,04
68,7±0,14
27,75±0,25
87,45±10,75
6,97±1,04
130,15±51,85
7,33±0,28
0,06±0,02
101,88±23,18
5,2±2,97
28,5±0,42
89,05±19,16
7,90±0,15
119,6±35,50
7,38±0,06
0,06±0,01
78,58±15,17
6,1±3,39
27,4±0,14
88,7±1,27
7,16±0,21
290,23±62,12
7,54±0,06
0,1±0,01
182,55±8,98
Penedinho
45
56
47
39
02
07
135
01
08
07
129
06
13
30
31
22
108
01
16
03
95
07
05
Potengi
Penedo
Traipu
Belo Monte
Porto Real do
Colégio
Macrobrachium
acanthurus
Macrobrachium
carcinus
Macrobrachium jelskii
Macrobrachium
olfersii
Potimirim potimirim
Panopeus sp.
Callinectes bocourti
Armases rubripes
Uca sp.
Pão de
Açúcar
ESPÉCIES
Piranhas
Tabela 2 - Composição taxonômica e abundância dos crustáceos
110
04
09
08
01
02
01
03
03
03
CONCLUSÃO
Foram identificadas 09 espécies nos 08 pontos de coletas, com uma abundância
total de 953 indivíduos pertencentes a 9 espécies, dos quais 715 foram capturados por
meio de coleta manual e por puçá, 228 através dos covos. Os camarões M. jelskii e M.
acanthurus estavam presentes em quase todos os pontos de coleta, enquanto que
Panopeus sp foi o táxon que menos ocorreu, sendo apenas registrado 01 indivíduos em
Penedinho; A baixa ocorrência de tal táxon é explicada devido a associação com o local
específicos, normalmente regiões estuarinas. M. jelskii foi a espécie que se destacou com
maior abundância e frequência sendo observado 656 indivíduos capturados em 06 dos 08
pontos de coleta. A CPUE para o camarão M. acanthurus foi de 1,65 ± 1,11
camarões/covo e 10,38 ± 6,34 gramas/covo, e para o camarão-pitu M. carcinus foi 0,44
± 0,29 camarões/covo e 8,78 ± 3,44 gramas/covo, valores considerados muito baixos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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