Relatório da II Expedição Científica do Baixo São Francisco
Ano: 2019
RELATORIO II EXPEDIÇÃO CIENTIFICA FINAL 2019.pdf
Documento PDF (30.2MB)
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A capa do relatório foi uma ideia de Emerson Soares em conjunto com
Vanildo Oliveira, Themis Silva e Ricardo Araújo (pesquisadores da expedição).
As ideias foram partilhadas com Emilly e Eduardo, estes dois artistas fizeram toda
arte, trabalho e ajustes, culminando nesta linda figura, estilo “xilogravura
Nordestina”, modelo que representa bem a região, com a figura do pescador,
agricultor, a caatinga e o barco da expedição, navegando nas lindas águas do
“Velho Chico”.
SINOPSES DOS AUTORES
Informações sobre os integrantes da equipe da 2ª Expedição Científica e sobre suas
respectivas formações e áreas de conhecimentos. As atividades desenvolvidas durante a
Expedição deram origem aos dados e relatos que constam deste relatório e que em alguns casos,
corresponderam às ações transversais dentro da formação de cada um.
Área de Conhecimento: Ecologia Acústica
Alfredo Borie Mojica
Universidade Federal de
Alagoas, UE Penedo
Biólogo Marinho (UNAB, Chile) e Engenheiro de Pesca (UFRPE). Mestre em
Ciências Pesqueiras nos Trópicos (UFAM) e Doutor em Recursos Pesqueiros
e Aquicultura (UFRPE). Experiência na conservação de tartarugas marinhas e
genética de populações e nas áreas de aquicultura e recursos pesqueiros (peixes
ornamentais, biologia reprodutiva e cultivo de peixes amazônicos). Trabalhou
com monitoramento da atividade pesqueira artesanal e com o impacto das
hidroelétricas no rio Madeira. Atualmente trabalha com ecologia acústica
aquática, paisagem sonora e bioacústica de peixes marinhos e de água doce,
utilizando o método acústico passivo como sistema de monitoramento.
Área de Conhecimento: Sistemas Elétricos e Engenharia Solar
Graduando de Engenharia de Energia. Pesquisador do Laboratório de Sistemas
Fotovoltaicos da Universidade Federal de Alagoas - UFAL, sob orientação do
Professor Igor Cavalcante Torres. Bolsista do Projeto Prioritário de Eficiência
Energética e Estratégico de Pesquisa e Desenvolvimento da ANEEL (2016).
Allwert H.L. Argôlo Militão
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Aquicultura e recursos pesqueiros
Engenheiro de Pesca pela UFRPE, especialização em Gestão Agroindustrial
pela UFLA, especialização MBA em Economia e Desenvolvimento Regional
pela USP - Ribeirão Preto. Na CODEVASF tem experiência com propagação
artificial de peixes nativos para piscicultura e recomposição da ictiofauna no
baixo São Francisco, e implantação de módulos de tanques-redes no rio São
Francisco para capacitação de pescadores artesanais.
Álvaro de Assis Alves de
Albuquerque CODEVASF
– 5ª SR
Área de Conhecimento: FICOLOGIA- Fitoplâncton
Graduanda em Ciências Biológicas modalidade Licenciatura. Atualmente é
estagiária do Laboratório de Ficologia do Instituto de Ciências Biológicas e da
Saúde da Universidade Federal de Alagoas. Tem experiência na área de
Botânica, com ênfase em Taxonomia de Criptógamos, atuando principalmente
nos seguintes temas: fitoplâncton e taxonomia de microalgas.
Ana Karolina L da Silva
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Análises físico-químicas, determinação de macro e
micro elementos nas águas do rio.
Química pela Universidade Estadual do Ceará, especialista em Engenharia de
Petróleo e Gás. Mestre em Ciências Naturais. Doutoranda em Ciências
Naturais. Trabalhos realizados com produtos naturais na adsorção de metais
pesados e avaliação de qualidade da água.
Ana Lúcia Eufrázio Romão
Universidade Estadual do
Ceará
Área de Conhecimento: Educação Ambiental
Antônio Jackson B. Lima
Diretor do Museu Casa do
Velho Chico
Ambientalista. Bancário aposentado do BNB. Palestrante e autor de vários
artigos sobre meio ambiente. Foi Secretário de Meio Ambiente de Traipu e
Diretor do sindicato dos bancários de Alagoas. É Fundador e Diretor do Museu
Ambiental Casa do Velho Chico, em Traipu. Honrarias: Comendador das
Águas - Governo de Alagoas; Título de Velho do Rio/AFBNB; Destaque
ambiental/IMA; Título de Cidadão dos Municípios de Traipu/AL, Gararu/SE,
Pão de Açúcar/AL e Cidadão Sergipano. Membro do CBHSF por três
mandatos seguidos.
Área de atuação: Robótica Ambiental
Aristides Pavani Filho Diretor
DETEP/MCTIC
Graduado (1982) e Mestre (1990) em Engenharia Elétrica pela Universidade
Estadual de Campinas. Ingressou no Centro de Tecnologia da Informação (CTI)
Renato Archer, em 1986. Participou do Projeto Fábrica de Máscaras
Litográficas. Chefiou a Divisão de Micro Sistemas, Coordenou o CSS, CTI-NE,
COARE e o Projeto COGNITUS - Petrobras para o desenvolvimento de
Robótica Ambiental, sensores e análise de dados para a Amazônia. Coordenou
os Projetos Dragão do Mar e IRACEMA - Barco Autônomo para Monitoramento
Ambiental entre outros. Atualmente é Assessor do Ministro da Ciência,
Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), e Diretor do Departamento
de Tecnologias Estratégicas e de Produção (DETEP), da Secretaria de
Tecnologias Aplicadas (SETAP) - MCTIC.
Área de Conhecimento: Contaminação/Impacto Ambiental e Aquicultura
Carlos Alberto da Silva
EMBRAPA Tabuleiros
Costeiros
Oceanógrafo, Mestre em Aquicultura, Doutor em Geoquímica Ambiental e
pós-doutorados em Gestão/Impacto Ambiental e Piscicultura Marinha.
Pesquisador nas áreas de Sistemas de Produção e Boas Práticas de Manejo em
Aquicultura, Contaminação Ambiental e Piscicultura marinha. Tem
experiência na piscicultura e carcinicultura em sistemas de viveiros e tanquesrede. Atua na Geoquímica com contaminação e biomagnificação de metais
pesados na cadeia trófica.
Área de Conhecimento: Química Analítica - Determinação de elementostraço em sedimentos e peixes.
Carlos Alexandre B. Garcia
Universidade Federal de
Sergipe
Químico Industrial pela Universidade Federal de Sergipe e Doutor em Química
pela Universidade Estadual de Campinas. Professor Titular e Coordenador
Adjunto do Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos da
Universidade Federal de Sergipe. Atua na área de Química, com ênfase em
desenvolvimento de métodos e técnicas espectroanalíticas para determinação
de constituintes inorgânicos em matrizes ambientais.
Área de Conhecimento: Qualidade de água e Sedimentos
Damião Assis Universidade
Federal de Sergipe
Assistente de laboratório, com ampla experiência em zoologia, com ênfase em
microfauna. Desempenha suas funções no laboratório de Bentos Costeiros, da
Universidade Federal de Sergipe, sendo fundamental na manutenção das
coleções do Departamento de Biologia da Universidade. Participou de projetos
de Pesquisa, com especial destaque aos projetos “Caracterização Ambiental
Integrada da Plataforma Continental do Estado de Sergipe e Sul de Alagoas
(2010 – 2012)” e Caracterização Físico-Química das Águas Marinhas,
Geológica, Geoquímica e Biológica dos Sedimentos do Talude de Sergipe e
Sul de Alagoas (2013 – 2018), financiados pela Petrobrás.
Área de Conhecimento: FICOLOGIA- Fitoplâncton
Doutora em Biotecnologia - RENORBIO, pela Universidade Estadual do
Ceará, com área de concentração em Biotecnologia de Recursos Naturais. É
professora Associada IV da UFAL. Tem experiência na área de Botânica, com
ênfase em Taxonomia de Criptógamos, atuando principalmente nos seguintes
temas: fitoplâncton, algas marinhas bentônicas e bioprospecção de extratos de
algas.
Elica Amara Cecilia Guedes
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Aquicultura
Elton Lima Santos
Universidade Federal de
Alagoas
Zootecnista pela Universidade Federal de Alagoas (2005), Mestre (2007) e
Doutor (2010) em Zootecnia (Nutrição Animal) pela Universidade Federal
Rural de Pernambuco. Atualmente é Professor dos cursos de graduação em
Zootecnia e Agroecologia, e nos cursos de Mestrado Profissional em Energia
da Biomassa e Zootecnia do Centro de Ciências Agrárias da Universidade
Federal de Alagoas. Tem experiência na área de Zootecnia, produção e
nutrição de animais não-ruminantes e Piscicultura. Atuando nos seguintes
temas: ingredientes alternativos, aditivos, digestibilidade, manejo alimentar,
piscicultura, desenvolvimento sustentável de assentamentos rurais e
biodigestores rurais.
Área de Conhecimento: Ecotoxicologia aquática, Ictiologia, Pesca, Enzimas,
Qualidade de água
Emerson Carlos Soares
Universidade Federal de
Alagoas
Engenheiro de Pesca, Especialização em Gestão de Recursos Pesqueiros,
Mestre em Biologia de Água Doce, Doutor em Biotecnologia com ênfase em
Aquicultura, Pós-Doutorado em Ciências Marinhas com ênfase em reprodução
de peixes. Finalista do premio espírito público na área de meio ambiente, foi
Vice-Coordenador do comitê cientifico de bacias hidrográficas do Nordeste,
Coordenador da força tarefa de pesquisas do óleo em Alagoas e Coordenador
da expedição do São Francisco. Professor Associado da Universidade Federal
de Alagoas.
Área de Conhecimento: Agroecologia e políticas públicas e territórios
Emerson F. Oliveira Filho
Universidade Federal de
Alagoas
Graduando em Agroecologia (bacharelado, UFAL). Produtor audiovisual de
documentários. Atualmente está produzindo um documentário sobre a história
da Agroecologia no Estado de Alagoas, envolvendo a Universidade Federal de
Alagoas, IFAL Maragogi, EMATER, SEAGRI, CPT, MST, Instituto Terra
Viva, PRONERA, Coopabacs, AAGRA, Associação Aroeira, Rede Mutum de
Agroecologia e agricultores oriundos da agricultura familiar. Sob orientação
do Professor Rafael Navas, trabalha com levantamentos de campo, sobre
socioeconomia de comunidades e agricultura familiar.
Área de Conhecimento: Aquicultura
Graduanda de Zootecnia. Atualmente faz parte da equipe de estudantes do
Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA) como bolsista PIBIC,
tendo como orientador o Professor Elton Lima Santos. Tem experiência em
nutrição de peixes (com ênfase na formulação de ração para peixes) e teste de
micronúcleo.
Elâne Pereira dos Santos
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Ecotoxicologia e microparasitas de peixes.
Emilly Valentim de Souza
Universidade Federal de
Alagoas
Graduanda em Zootecnia. Bolsista do programa pró-graduando da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Colaboradora PIBIC no laboratório
de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA) sob orientação da Profª. Drª.
Themis de Jesus da Silva. Tem experiência em microparasitologia da fauna
aquática do Brasil e ecotoxicologia, com ênfase nas enzimas antioxidantes
Catalase e Superóxido dismutase, peroxidação lipídica (Malondialdeído) e
teste de micronúcleo.
Área de Conhecimento: Biología reproductiva y cultivo de peces marinos
Evaristo Perez Rial Instituto
Español de Oceanografía Vigo
Doctorando en Acuicultura Marina en el Instituto Español de Oceanografía;
Licenciado en Ciencias Del Mar por La Universidad de Vigo, Máster en
Estadística Aplicada por la Universidad de Granada y Técnico Superior en
Producción Acuícola. Más de 12 años de experiência en acuicultura tanto en
empresas privadas como en centros de investigación. Actualmente formo parte
del equipo de investigadores del Instituto Español de Oceanografía en Vigo
donde participo em proyectos multidisciplinares sobre reproducción, cultivo y
efectos ambientales sobre la biologia de peces marinos.
Área de Conhecimento: Engenharia ambiental, epistemologia ambiental,
modelagem ambiental, sensoriamento ambiental, monitoramento ambiental,
controle ambiental e robótica ambiental.
Engenheiro Ambiental pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI),
Mestre em Biologia de Água Doce e Pesca Interior pelo Instituto Nacional de
Pesquisas da Amazônia (BADPI - INPA), Doutor em Biotecnologia pela
Universidade Federal do Amazonas (PPGBIOTEC - UFAM).
Gilberto Schwertner Filho
Instituto Federal do Ceará
Área de Conhecimento: Agroecologia e Monitoramento ambiental
Graduando em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Alagoas, é
atualmente bolsista PIBIC do projeto “A certificação orgânica por controle
social na venda direta: impactos na agricultura familiar de Alagoas”, e,
“Segurança Alimentar e Nutricional em Famílias de Assentamentos Rurais do
Estado de Alagoas”. Possui experiência na agricultura camponesa
agroecológica, e agricultura orgânica.
Guilherme Henrique Netter
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Análises de Metais Pesados em Peixes.
Formação: Graduanda em Química Industrial pela Universidade Federal de
Sergipe e atualmente bolsista do projeto de Ações estruturantes e inovação
para o fortalecimento das cadeias produtivas da Aquicultura no Brasil pela
Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE).
Hortência E.P. de Santana
Universidade Federal de
Sergipe
Área de Conhecimento: Sistemas Elétricos e Engenharia Solar
Igor Cavalcante Torres
Universidade Federal de
Alagoas
Engenheiro Elétrico (2012), Mestre em Energias, na área de conversão
fotovoltaica (2016) e Doutor em Energias, pela Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE). Atuou profissionalmente na concessionária de energia
elétrica, Eletrobrás Distribuição Alagoas (ED-AL) e na companhia de
saneamento do Estado de Alagoas (CASAL). Atualmente é professor
assistente na Universidade Federal de Alagoas, ministrando disciplinas para o
curso de Engenharia de Energias Renováveis, desenvolve pesquisas tanto na
área de simulação de sistemas elétricos de potência, como em modelagem e
medição do recurso solar.
Área de Conhecimento: Aquicultura, recursos pesqueiros e limnologia
Engenheiro de Pesca pela UFRPE (2006), Mestre (2008) e Doutor (2017) em
Recursos Pesqueiros e Aquicultura pela UFRPE. Atualmente é professor da
Universidade Federal de Alagoas. Tem experiência na área de Recursos
Pesqueiros e Engenharia de Pesca, com ênfase em Aquicultura, atuando
principalmente nos seguintes temas: reprodução de peixes, piscicultura,
carcinicultura e ostreicultura.
Iru Menezes Guimaraes
Universidade Federal de
Alagoas
Área de conhecimento: Geoprocessamento e sensoriamento remoto
Tecnólogo em Construção Civil, especialização em Logística Estratégica pela
FADEPE – Faculdade para o Desenvolvimento de Pernambuco - Recife /PE,
Técnico de Estradas formado pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de
Alagoas - Maceió/AL. Na CODEVASF trabalha com levantamentos
topográficos e aerofotogrametria no mapeamento com drones. Tem
experiência em topografia em geral.
João Thiago Gomes de Farias
CODEVASF – 5ª SR
Área de Conhecimento: Agronomia e Recuperação de Áreas Degradadas.
José Vieira Silva
Universidade Federal de
Alagoas
Engenheiro Agrônomo, Mestre e Doutor em Fitotecnia pela Universidade
Federal do Ceará (UFC). Perito Criminal na área ambiental pela ANP/DPF.
Professor Associado da Universidade Federal de Alagoas (UFAL - Campus
Arapiraca), nas áreas de Ecofisiologia Vegetal e Agrometeorologia. Estuda e
pesquisa na área de ecofisiologia de plantas cultivadas e nativas sob condições
de estresses (hídrico e salino) e atua na recuperação de áreas degradadas e
educação ambiental. É Pesquisador e Coordenador do Centro de Referência
em Recuperação de Áreas Degradadas (CRAD) do Baixo São Francisco, da
Universidade Federal de Alagoas.
Área de Conhecimento: Percepções socioambientais dos pescadores
Jucilene Cavali
Universidade Federal de
Rondônia - UNIR
Engenheira Agrônoma, Doutora em Zootecnia. Professora Associada da
Universidade Federal de Rondônia. Atua como docente nos cursos de
Engenharia de Pesca e Zootecnia. Pesquisadora/Orientadora no Programa de
Mestrado Acadêmico em Ciências Ambientais da UNIR-EMBRAPA e no
Programa de Doutorado em Sanidade e Produção Animal Sustentável na
Amazônia Ocidental PPGESPA-UFAC. Desenvolve pesquisas em Mercado de
agroindústrias do Pescado (rendimentos de carcaça e qualidade de carnes) e
Manejo de Pastagens na Amazônia.
Área de Conhecimento: Tecnologia do Pescado.
Juliett de Fátima X. da Silva
Universidade Federal de
Alagoas
Engenheira de Pesca pela Universidade Federal Rural de Pernambuco UFRPE. Mestre em Recursos Pesqueiros e Aquicultura - UFRPE. Doutora em
Ciências Biológicas - UFPE. Atua na área de tecnologia do pescado, com
ênfase em enzimologia aplicada a organismos aquáticos, aproveitamento
integral do pescado; e inspeção do pescado. Atualmente é Professora Adjunta
do Curso de Engenharia de Pesca da UFAL – Penedo, lecionando as disciplinas
de: Tecnologia e Inspeção do Pescado, Beneficiamento e Industrialização do
Pescado, Microbiologia Geral e do Pescado, e Instalações Pesqueiras e
Engenharia Sanitária.
Área de atuação: Ecotoxicologia e microparasitas de peixes.
Graduanda em Zootecnia. Bolsista PIBIC pela Universidade Federal de
Alagoas (UFAL). Atualmente faz parte da equipe de estudantes do laboratório
de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA), tendo como orientadora a
Professora Themis de Jesus da Silva. Tem experiência em microparasitologia
da fauna aquática do Brasil e ecotoxicologia.
Karina Leitão de Oliveira
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Robótica Ambiental e Monitoramento Ambiental
Autônomo
Leonardo Viana Pereira
Universidade Federal de
Alagoas
Bacharel (1996), Mestre (1999) e Doutor (2003) em Física pela Universidade
Federal de Pernambuco, com doutorado-sanduíche no Center for Nonlinear
Studies do Los Alamos National Lab, EUA. Professor no Instituto de
Computação da UFAL. Atua na área de Física da Matéria Condensada e
Computação Científica, Física Computacional e Supercondutividade. Trabalha
com métodos de simulação computacional e computação de alto desempenho.
Participou da Rede Galileu (Petrobras) que instalou o GradeBR/UFAL.
Participa da coordenação das Expedições Científicas ao Baixo São Francisco.
Coordenou a Olimpíada Brasileira de Robótica - OBR em Alagoas de 2015 a
2017.
Área de conhecimento: Microparasitas e ecotoxicologia.
Graduando de Zootecnia. Bolsista do programa pró-graduando da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Atualmente faz parte da equipe de
estudantes do Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (LAQUA). Tem
experiência em microparasitologia da fauna aquática do Brasil e
ecotoxicologia.
Lucas de Oliveira Arruda
Universidade Federa de
Alagoas
Área de Conhecimento: Fotografia e Proteção Ambiental
Márcio José R. Campêlo SOS
Caatinga
Fotógrafo profissional da natureza. Iniciou o trabalho com fotos da natureza
em 2011, em viagem a Mato Grosso do Sul. Desde 2015 está à frente da equipe
de fotografia do Instituto SOS Caatinga, com sede em São José da Tapera.
Realizou vários trabalhos com a equipe da Manefau. Em 2019 participou da
expedição Caminhos do São Francisco. Entre outros trabalhos, também teve
uma importante exposição de seus registros fotográficos que ocorreu no ano
de 2017, no SENAC, de São Bernardo do Campo, em São Paulo, tornando-se
esta uma exposição itinerante.
Área de Conhecimento: Limnologia e Análise de metais-traço
Marcos Vinícius T. Gomes
CODEVASF, 5ª Região
Técnico em Química pela Escola Técnica Federal de Sergipe (1988). Químico
Industrial (2000) e Engenheiro Químico (1999) pela Universidade Federal de
Sergipe (UFS). Mestre em Química (2009) e Doutor em Biotecnologia (2013)
(RENORBIO - UFS). É funcionário concursado da CODEVASF, onde
desenvolve projetos de pesquisa na área de Limnologia. Tem experiência na
área de química, com ênfase em laboratório de limnologia, espectrofotometria
de absorção atômica, cromatografia líquida e gasosa, controle de qualidade em
indústria cerâmica, e monitoramento ambiental.
Área de Conhecimento: Hidrologia, geoprocessamento e qualidade da água.
Engenheiro Civil, Mestre e Doutor em Recursos Hídricos e Saneamento
Ambiental, Pesquisador em Manejo de Bacias Hidrográficas na Embrapa
Tabuleiros Costeiros, em Aracaju, Sergipe. Tem experiência em Hidrologia,
Modelagem hidrológica, Impactos Ambientais e Geotecnologias.
Marcus Aurélio Soares Cruz
EMBRAPA Tabuleiros
Costeiros
Área de Conhecimento: Carcinologia e Qualidade da Água
Graduando em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal de Alagoas,
Unidade Penedo. Tem experiência em biologia reprodutiva de peixes,
larvicultura e cultivo de crustáceos decápodos, com ênfase em camarões de
água doce, em marinharia, ecologia e diversidade de ecossistemas aquáticos
continentais. Atualmente integrante da equipe do Laboratório de Carcinologia
e Carcinicultura - LABCCARCI da Universidade Federal de Alagoas - UFAL.
Marco Yves A.V. Praxedes
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Ficologia - Fitoplâncton
Licenciada em Ciências Biológicas. Tem experiência na área de Botânica, com
ênfase em Taxonomia de Criptógamos, atuando principalmente nos seguintes
temas: fitoplâncton e algas marinhas bentônicas.
Mariana Melo Fireman
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Tecnologia da Informação aplicada ao monitoramento
ambiental
Engenheira Agrônoma, Mestre em Engenharia Agrícola, Doutora em
Engenharia de Alimentos. Tecnologista Plena do Centro de Tecnologia Renato
Archer, Núcleo Nordeste (CTI-NE/MCTIC), Tem experiência em Utilização
de Subprodutos Agrícolas, Agroindústria de Semiárido, Tecnologia da
Informação Aplicada ao Monitoramento Ambiental e às Ciências Agrárias.
Maristela de F. S. de Santana
MCTIC- CTI NE
Área de Conhecimento: Carcinologia – Qualidade da Água
Petrônio
Alves Coelho Filho
Universidade Federal de
Alagoas
Bacharel em Ciências Biológicas (UFRPE), especialista em ecossistemas
aquáticos (UFPE), Mestre em oceanografia (UFPE) e Doutor em oceanografia
biológica (USP). Possui experiência em estudos da diversidade, conservação e
ecologia de ecossistemas aquáticos, com ênfase nos estudos dos crustáceos
decápodos. Professor do curso de graduação em Engenharia de Pesca da UFAL
e dos Programas de Pós-graduação em Diversidade e Conservação (mestrado)
e em Gestão Ambiental (especialização) da UFAL.
Área de Conhecimento: Agricultura Familiar
Agrônomo pela UNESP, Mestre e Doutor em Ecologia Aplicada pela USP.
Professor da Universidade Federal de Alagoas, atuando na temática
socioambiental, com ênfase em agroecologia, políticas públicas e território,
desenvolvendo projetos com agricultores familiares e povos tradicionais.
Rafael José Navas da Silva
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Agrometeorologia
Engenheiro Agrônomo, Mestre em Agronomia (Produção vegetal) e Doutor
em Agronomia (Energia na Agricultura). Professor efetivo da UFAL. Ministra
as disciplinas relacionadas à Agrometeorologia e Energia de Biomassa. Tem
experiência na área de Agrometeorologia atuando principalmente nos
seguintes temas: medidas e modelagens agrometeorológicas e radiométricas,
Modelagem do Crescimento e Desenvolvimento Vegetal.
Ricardo A. Ferreira Junior
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Aquicultura e Análise Limnológica
Graduando em Zootecnia pela Universidade Federal de Alagoas, bolsista
PIBIC e membro do Laboratório de Aquicultura e Análise de água do Centro
de Ciências Agrárias (LAQUA-UFAL).
Ricardo F. Cavalcante Jr
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Análise de metais-traço em amostras ambientais e
alimentos
Silvânio S. Lopes da Costa
Universidade Federal de
Sergipe
Doutor em Química (UFBA), com atuação na área de química analítica,
atuando nos seguintes temas: otimização e desenvolvimento de métodos,
técnicas espectroanalíticas e análise multivariada de dados. Atualmente é
químico e membro permanente do programa de pós-graduação em engenharia
e ciências ambientais e do programa de pós-graduação em recursos hídricos,
da Universidade Federal de Sergipe.
Área de Conhecimento: Tecnologia e Inspeção do Pescado
Graduanda do curso de Engenharia de Pesca modalidade bacharelado.
Atualmente estagiária no laboratório de Tecnologia do Pescado da
Universidade Federal de Alagoas, Unidade Penedo. Com experiência na área
de tecnologia e inspeção do pescado, com ênfase aos aspectos higiênicos e
sanitários da comercialização de pescado em feiras livres.
Tereza Iracema Reis Simões
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: Genética, genotoxicidade e microparasitas de peixes.
Licenciada em Ciências Biológicas (UFAM), Mestre em Genética e Evolução
(UFSCar) e Doutora em Biotecnologia (UFAM). Atualmente Professora da
UFAL, com experiência na área de genética (genética molecular e
genotoxicidade) e microparasitologia da fauna aquática do Brasil.
Themis de Jesus da Silva
Universidade Federal de
Alagoas
Área de Conhecimento: DNA Barcode e Genética de populações
Engenheira de Pesca (Bacharelado) pela Universidade Federal do Amazonas UFAM (2007), Mestre em Ciências Pesqueiras nos Trópicos pela UFAM
(2009), Doutora em Biodiversidade e Biotecnologia pela UFAM (2016) e PósDoutorado em Genética de Populações de peixes de áreas impactadas (rio
Doce). Atua principalmente nas áreas de Genética de Populações, Genética da
Conservação, DNA Barcode, Filogeografia de Characiformes.
Valéria Nogueira Machado
Universidade Federal do
Amazonas
Área de Conhecimento: Tecnologia de Pesca
Vanildo Souza de Oliveira
Universidade Federal Rural
de Pernambuco
Engenheiro de Pesca pela Universidade Federal Rural de Pernambuco
(UFRPE, 1985), Mestre e Doutor em Oceanografia Biológica pela
Universidade Federal de Pernambuco. Especialização em Ciências Pesqueiras
no Japão e Pesca de Profundidade na Coréia do Sul. Atualmente é Professor
Associado da UFRPE. Foi consultor da FAO na África e assessor técnico do
CONAMA. Trabalhos realizados com recursos e produção pesqueira, pesca
artesanal e industrial, métodos sustentáveis de pesca.
Área de Conhecimento: Microparasitas, enzimas e ecotoxicologia
Engenheira de Pesca (2016) e Mestre em Zootecnia (2020) pela Universidade
Federal de Alagoas. Desenvolveu pesquisa no Laboratório de Aquicultura
(LAQUA). Tem experiência na área de Recursos Pesqueiros com ênfase em
tecnologia e industrialização do pescado, aproveitamento integral do pescado,
microparasitologia, enzimologia, análises limnológicas e histologia.
Vivian Costa Vasconcelos
Laboratório de Aquicultura
CECA - UFAL
Área de Conhecimento: Análises de alterações em células animais através de
técnicas histopatológicas e histoquímicas.
Priscylla Costa Dantas
Universidade Federal de
Alagoas
Engenheira Florestal pela Universidade Federal de Sergipe. Mestre e Doutora
em Entomologia Agrícola pela Universidade Federal de Lavras e
Especialização em Educação Ambiental (com ênfase em espaços educadores
sustentáveis) pela Universidade Federal de Sergipe. Pós-doutorado na
modalidade Desenvolvimento Científico Regional (DCR-Fapeal) pela
Universidade Federal de Alagoas. Atualmente Professora substituta do Centro
de Ciências Agrárias (CECA-UFAL) e atua como pesquisadora no Laboratório
de Aquicultura e Análise de água (LAQUA) na área de técnicas histológicas e
histoquímicas de peixes.
Instituições e laboratórios execultores, parceiros e colaboradores:
Caros Leitores,
Eis aqui, a realização de um sonho. Um sonho coletivo, que reuniu várias cabeças
pensantes, das nossas Universidades, de várias cátedras, comandadas pelo nosso querido
Professor Emerson Soares, da Universidade Federal de Alagoas.
O nosso sofrido rio da Integração Nacional, no seu baixo curso, foi o local escolhido,
para a montagem desse laboratório móvel, entre Alagoas e Sergipe.
Foram dez dias navegando nas águas santas, do nosso rio, no período de 19/11 a
28/11/19, a bordo da lancha Magnífica, nossa casa comum, abrigo dos 60 componentes dessa
expedição. Foram estabelecidas 28 áreas de pesquisas, num trabalho sério e inédito, cujo
expediente começava às 05:00 da manhã, e terminava às 22:00 horas, com uma palestra diária.
Foi uma troca de conhecimentos. Os nossos doutores ouviam a voz empírica dos ribeirinhos, e
os nossos ribeirinhos ouviram a voz da sabedoria acadêmica.
O “Velho Chico”, agradece à UFAL, UFS, EMBRAPA, IFCE, MCTI, CTI-Renato
Archer, ao CBHSF, à CODEVASF, à EMATER, e a todas as Prefeituras que nos recepcionou,
pelo belo presente.
Este foi um exemplo concreto, de revitalização e amor pela vida do nosso rio, pois choro
tardio, como afirmamos, numa campanha solitária de 1985, já não adiantará mais nada:
“A pureza de um pingo d´agua do “Velho Chico”, hoje,
Nunca poderá ser igual a de uma lágrima tardia,
Mesmo sincera”
Antonio Jackson Borges Lima
“Esta árvore foi fotografada por Leonardo Viana (pesquisador), na expedição de 2018,
é um símbolo de resistência do Baixo curso do rio São Francisco”.
Na expedição de 2019, já não se encontrava mais no local. Defenda o Velho Chico! A
sobrevivência de muitos depende do rio vivo e saudável.
II EXPEDIÇÃO CIENTIFICA DO RIO SÃO FRANCISCO
EM CORDEL
Como Instituição Parceira
Fazendo esse apanhado
A EMATER esteve presente
de tudo que foi passado
Na primeira e segunda expedição
Na segunda expedição científica
Que mobilizou muita gente
Esse evento foi muito arretado
Tanto do nosso Brasil
E por onde o Barco passou
como de Países diferentes.
Deixou muito aprendizado.
Com Doutores bem letrados
Estando sempre na frente
com os técnicos dando suporte
De muita sabedoria
a EMATER percorreu o rio
Até com os peixes falava
Desde o sul até o norte
Mostrando com simpatia
Com as orientações diversas
Nos tanques rede artesanais
Tornando o evento mais forte.
Como se reproduzia.
Fazendo aqui um recorte
Analista que se garantia
das Cidades visitadas
dentro dos fatos reais
Penedo e Porto Real
analisava nas águas
Tiveram suas paradas
resíduos tóxicos e metais
Igreja Nova, Traipu,
além de outros poluentes
Pão de Açúcar e Piaçabuçú
se descobriu de repente
Também foram contempladas.
muitos coliformes fecais.
Como ponto de partida
Havia ainda muito mais
Piranhas Também entrou
Cientista de renomado valor
Com visitas nas escolas
Mostrando o fundo do rio
O grupo conscientizou
Com equipamentos e robôs
A plantar árvores nativas
estudando o que os peixes comem
Para o Rio ter mais vida e valor
se eles matavam sua fome
sem sofrer nenhum pavor.
Alunos, cientistas e professores
Se envolveram na ação
Também foi apresentado
Participando de pesquisa e palestras
Alguns casos de sucesso
Sobre Conscientização
Na cidade de Traipu
Pra salvar o Velho Chico
O fomento tem progresso
Tem que haver Preservação
Projeto de avicultura
ovinos e suinocultura
Outros Grupos da população
nas famílias dando Certo.
Também foram homenageados
Associações, cooperativas,
foram também repassados
Pescadores e assentados
Muitos aprendizados
Além de receber visitas
nas palestras nas escolas
foram também entrevistados.
com professores letrados
Plantio de espécies Nativas
Tornando as matas mais vivas
Como também foi mostrado.
Depois de tudo passado
nos fica a conclusão
Que o nosso Velho Chico
Necessita de carinho e atenção
para continuar vivo e correndo
Precisa de muita conscientização.
Pois essa expedição
Mostrou para a sociedade
Através de nossos técnicos
um pouco da nossa realidade
se cada um fizer sua parte
Tornamos o Rio mais vivo de verdade
A Biodiversidade tá em perigo
E diminui a cada dia
Precisamos acordar
E diminuir a covardia
Para o São Francisco salvar
Sem ter que remediar
E esta é a causa da nossa alegria.
Toda essa sabedoria
Passada para as crianças
Das comunidades ribeirinhas
Não vai sair da lembrança
A prática dessa expedição cientifica
Vai ficar como herança.
Autor: Isaquiel Dias
(Técnico da EMATER - AL)
Nasceu na cidade de Água Branca- AL, Agricultor filho de agricultor. Formado
Técnico em Agropecuária Ecológica na FNDEP- Rio Grande do Sul, com
Graduação em Tecnólogo na área de Gestão Ambiental pela UNINTER.
Cordelista com algumas criações de temas variados como: Politica, Meio
Ambiente, Racismo e outros assuntos da realidade.
APRESENTAÇÃO
O projeto surgiu com o pretexto de bioprospectar e divulgar a situação do Baixo Rio
São Francisco, quanto aos aspectos sociais das comunidades ribeirinhas, comunidade de
pescadores, situação da pesca, identificar os impactos e a qualidade da água do rio e na
ictiofauna, bem como, problemas ocasionados pelo represamento do rio, assoreamento,
desmatamento, poluentes e uso de agrotóxicos e monitorar os efluentes na região do baixo.
O projeto pretende monitorar os principais indicadores sociais, econômicos e impactos
ambientais, assegurando a qualidade e segurança alimentar. Tem o enfoque de chamar a atenção
para a situação do rio, seus problemas e divulgar para os principais órgãos de fomento e
governantes.
As Expedições Científicas no Baixo São Francisco iniciaram em 2018, onde durante 5
dias, cerca de 40 pesquisadores trabalharam em várias temáticas, como; educação ambiental,
pesca, sócio economia, ictiofauna, análise de água e de metais pesados, assoreamento, etc, em
5 municipios do Baixo São Francisco (Traipú, Porto Real do Colegio, Igreja Nova, Penedo e
Piaçabuçú), culminando na publicação de um diagnóstico referente a 2018,em junho de 2019 e
publicação de um artigo científico sobre os dados desta primeira edição.
Em 2019 foi realizada a II Expedição Cientifica, com 50 pesquisadores e técnicos de 16
instituições, e que durante 10 dias, trabalharam nos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar,
Traipú, Porto Real do Colégio – Propriá, Igreja Nova, Penedo- Neopólis, Piaçabuçú e foz do
São Francisco. Esta expedição teve por objetivo principal, estudar todo o baixo São Francisco,
coletando informações e dados, para de posse dos resultados, propor ações para mitigar os
problemas no rio.
Vale destacar o apoio financeiro e patrocínio oriundos do CBHSF, FAPEAL,
CODEVASF, SEMARH-AL, SECTI-AL, UFAL, Pedreira Triunfo e UNIMED.
O relatório divide-se em quatro partes: Parte 1 – Ictiofauna; Parte 2 – Água; Parte 3 –
Educação Ambiental e Socioeconomia e Parte 4 – Tecnologia e Inovações. Apresenta 430
páginas de rico material coletado, estudado e analisado em campo e laboratório, com intuito de
compreender os efeitos das mudanças ocorridas no baixo curso do rio e propondo sugestões
para melhorias nas políticas públicas. Acreditamos que os dados aqui discutidos nortearão
propostas de manejo e auxiliarão instituições e prefeituras na tomada de decisão com
embasamento científico atual e detalhado.
E vamos a III Expedição Científica do Baixo São Francisco, em outubro de 2020!
Coordenação das Expedições do São Francisco
TRECHOS E PONTOS DE COLETA DA
EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA DE 19 À 27 DE
NOVEMBRO DE 2019
SUMÁRIO
Julho 2020
SUMÁRIO
Parte I – ICTIOFAUNA.................................................................................... 22
Análise da ictiofauna e dos seus aspectos fisiológicos na II Expedição Científica do Baixo São
Francisco para ações de manejo............................................................................ 23
Uso de Micronúcleo a anormalidade nucleares para verificar a saúde dos peixes do Baixo São Francisco
........................................................................................................................................... 51
Identificação morfológica de microparasitas da fauna aquática do Baixo São Francisco
............................................................................................................................... 66
Níveis dos metais mercúrio, cádmio, chumbo, zinco, cobre, cromo, ferro e manganês e do
metaloide arsênio em músculo de peixes do Baixo São Francisco....................... 76
Biomarcadores Oxidativos da Ictiofauna do Baixo São Francisco....................... 104
Avaliação do conteúdo estomacal dos peixes capturados no baixo São Francisco
............................................................................................................................... 118
Caracterização histológica de peixes do Baixo São Francisco: estudo do intestino, fígado e
brânquias............................................................................................................... 126
Diversidade Genética da Ictiofauna do Baixo São Francisco............................... 150
Avaliação da paisagem acústica na região do Baixo São Francisco..................... 166
A pesca no Baixo São Francisco........................................................................... 185
Aspectos higiênicos-sanitários da comercialização de pescado em sete municípios de Alagoas
............................................................................................................................... 224
Parte II – ÁGUA............................................................................................... 247
PARTE I
ICTIOFAUNA
Análise da ictiofauna e dos seus aspectos fisiológicos na II Expedição
Científica do Baixo São Francisco para ações de manejo.
(Ictiofaunal analysis and physiological aspects during the scientific expedition to
management actions in the lower São Francisco)
Emerson Carlos Soares1; Elton Lima Santos1; Álvaro de Assis Alves de Albuquerque5; Emilly
Valentim2; Vivian Costa Vasconcelos3; Ricardo Fabio Teodósio4; Evaristo Pérez Rial2 &
Valéria Nogueira Machado6
1
Professores, LAQUA, CECA. Universidade Federal de Alagoas.
2
Pesquisador e técnico, Centro Oceanográfico de Vigo, Instituto Espanhol de Oceanografia, Espanha.
3
Mestre em Zootecnia, LAQUA, CECA, Universidade Federal de Alagoas.
4
Bolsistas de Iniciação Científica, LAQUA, CECA, Universidade Federal de Alagoas.
5
Técnico, CODEVASF-5SR, Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba.
6
Pesquisadora, Universidade federal do Amazonas.
RESUMO
O Baixo São Francisco é uma das regiões da bacia hidrográfica que mais sofrem com os
impactos causados ações humanas. Problemas como a diminuição da vazão e volume de água,
acúmulo de poluentes, assoreamento, desmatamento e uso de métodos de pesca não permitidos,
contribuem para a diminuição do volume de peixes. Foi observado na expedição cientifica de
2019, um leve aumento de espécies de peixes com relação a 2018, devido o aumento da vazão,
proporcionado pelas hidroelétricas. Contudo, a ictiofauna na região enfrenta sérios riscos de
sobrepesca, substituição de espécies nativas de água doce por espécies exóticas e eurihalinas,
acarretando em futuros riscos de extinção. Conclui-se que medidas urgentes de manejo e
políticas de gestão do uso dos recursos pesqueiros devem ser tomadas para evitar um colapso
da atividade pesqueira no baixo São Francisco.
Palavras chave: Baixo São Francisco, peixes, diversidade, ecologia
ABSTRACT
The lower São Francisco is the a region of basin hidrographic suffer more impacts by human
actions. The problems such as decreased water flow and volume, accumulation of polluents,
silting, desforestation and methods of fishing prohibited, contribute to decrease of captures of
fishes. In the Scientific Expedition 2019, a slight increase in the number of fish species was
observed in comparison with 2018, probably due to the release of the major water volume of
dams (hydroelectric). The ichthyofaunal in region has serious risks of overfishing, replacement
of native freshwater species by exotics species and estuarine, and risks of extinction. Urgent
policies for the management and use of fisheries resources must be taken to avoid a collapse of
the fishing activity in lower São Francisco.
INTRODUÇÃO
O Baixo São Francisco
A bacia hidrográfica do rio São Francisco (BHRSF) está dividida em quatro unidades
fisiográficas: Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco; estando a sua foz e planície
fluviomarinha localizadas nessa região, que divide os estados de Alagoas e Sergipe (Medeiros
et al. 2014). O São Francisco, que se enquadra na tipologia de rio de médio a grande porte,
apresenta relevância ecológica, econômica e social, sendo utilizado para a geração de energia
elétrica, irrigação, navegação, abastecimento de água, aquicultura e pesca (Medeiros et al.
2015).
O Baixo São Francisco é uma das regiões mais conflitantes do Nordeste, devido localizarse em ambiente árido, onde a água é a principal força motriz das comunidades rurais, assim
fatores ligados a pesca e aquicultura, geração de energia elétrica, poluição oriunda dos esgotos
das cidades, assoreamento, uso de agrotóxicos em culturas as margens do rio, desmatamento da
vegetação marginal, avanço da cunha salina, alterações de vazão, endemismo de espécies, entre
outras atividades, refletem diretamente na vida social, econômica e ambiental desta
mesorregião.
Segundo Rodrigues (2014), o crescimento populacional e crescente urbanização, produz
e libera no ambiente dezenas de milhares de compostos químicos. Dentre as áreas que
apresentam maior risco ambiental, destaca-se o entorno dos cursos de água, por onde
substâncias com potencial citotóxico são levadas para rios como o São Francisco aumentando
a poluição devido rejeitos da agricultura, e/ou das cidades marginais a sua calha. Por outro lado,
agrotóxicos quando aplicados sobre os campos de cultivo, atingem os corpos límnicos através
da água da chuva, irrigação ou por percolação no solo, causando eutrofização e intoxicação para
a comunidade aquática (Futon et al. 2001; Cincinelli et al. 2013).
Os municípios localizados no entorno do Baixo São Francisco produzem principalmente
de cana-de-açúcar (34.000 ha) e arroz (1.590 ha) (IBGE, 2014). Por outro lado, Nascimento e
Oliveira (2016), observaram que as áreas dedicadas às pastagens predominaram com cerca de
58,37% do total, enquanto a classe agrícola, ocupa 15,77%. Quanto a vegetação nativa, a área
corresponde a 10,96%, sendo dispersa por toda a área, em pequenos fragmentos e concentrada
na bacia do rio Moxotó. Sabe-se que parte destas culturas utilizam pesticidas como base para o
manejo, entretanto não existem informações a respeito dos principais princípios ativos
utilizados e dos impactos na qualidade da água e as suas consequências para a vida aquática.
O regime de vazões do rio São Francisco nessa região é regido pelos reservatórios
localizados nas partes mais altas da bacia, como as barragens de Sobradinho, Itaparica e Xingó,
cujas afluências foram reduzidas nos últimos anos, devido ao uso inadequado da terra, com
redução da produção de água na bacia e aumento da erosão do solo, bem como sucessivos
períodos de seca (CHESF, 2017). Como consequência, há uma redução gradual dos fluxos
mínimos no rio, com impactos significativos, dentre os quais o avanço da cunha salina na região
da foz.
Associados a esta questão, a menor capacidade depurativa do rio resultado de vazões mais
baixas ao longo de períodos mais longos, contribui significativamente para a manutenção de
poluentes em concentrações prejudiciais à biota, consumo e irrigação de culturas (Medeiros et
al., 2016). Para ser ter uma ideia, a vazão do rio São Francisco foi reduzida drasticamente nos
últimos anos de 1.300 m³/s em 2012 para 550 m³/s em 2017 (Resolução ANA no 1.291/2017),
como efeito imediato foi detectado o aumento da salinidade na foz do São Francisco, onde
Santana et al. (2017), observou concentração média de salinidade entre 0,17 a 28,87 ‰.
Existem várias consequências dessas reduções para o Baixo São Francisco, no entanto, o
avanço da cunha salina sobre o rio trouxe impactos significativos para os ecossistemas e para a
população local, com provável aumento da concentração de poluentes, interferência negativa
em atividades econômicas como a pesca e a rizicultura e pode inviabilizar, em último caso, a
utilização as águas para fins de abastecimento humano. Possivelmente, os efeitos desta
salinização estão promovendo alterações na biota local, com aumento da competição entre
espécies, diminuição dos estoques pesqueiros, desaparecimento de algumas espécies de peixes
e crustáceos, e o surgimento de outros afeitos a ambientes salinizados (Soares et al., 2011;
Gonçalves, 2016; Medeiros et al., 2016; Barbosa & Soares, 2017; Barbosa et al., 2018).
Esse cenário tem mostrado sinais de piora nos últimos anos, e pode ser acelerado à
exploração excessiva de recursos naturais, como a remoção de mata ciliar em rios tributários e
o baixo nível de tratamento de esgoto urbano nos municípios da região, com impactos
agravados pela ocorrência de longos períodos de seca, levando a decisões gerenciais que não
promoveram adequadamente os usos múltiplos da água do rio (Cunha, 2015). A supressão da
vegetação nas margens do rio contribui para o aumento do assoreamento e processos erosivos
do solo, influenciando na diminuição de organismos, por serem importantes redutos de
biodiversidade e indicador de preservação ambiental (Chabaribery et al., 2008; Morais Filho, 2014;
Aparecido et al., 2016).
Já a atividade da pesca do baixo São Francisco, tem acompanhado as mudanças no regime
hidrológico do rio e devido as alterações causadas pelas barragens e hidroelétricas, estas
contribuíram para a redução das áreas de captura e destruição de habitats como as lagoas
marginais, consideradas berçários de muitas espécies aquáticas, que conjuntamente com
métodos de capturas não permitidos, vem ocasionando o declínio da biodiversidade de
organismos aquáticos (Lourenço, 2016).
Dados do início da década de 2010, indicavam a curimatã pacu Prochilodus argenteus
(Characiformes, Prochilodontidae) e o piau Megaleporinus obtusidens (Anostomidae,
Characiformes) como espécies mais abundantes (Barbosa e Soares 2009, Soares et al., 2011),
entretanto relatos de pescadores locais sugerem que desde 2015, estas populações vêm
declinando, e estes indivíduos que juntos, chegaram a representar cerca de 55% das capturas na
microrregião de Penedo, possivelmente não estejam entre as cinco principais espécies
comercializadas (Soares et al., 2011, Barbosa et al., 2017).
Tratando-se de outras atividades agropecuárias na região, verifica-se uma diminuição da
capacidade produtiva dos setores econômicos que dependem da flutuação dos níveis de água
para o seu desenvolvimento adequado, como o cultivo de arroz e a piscicultura, por exemplo; e
logicamente, uma diminuição nos índices de desenvolvimento humano da população da região
(Cunha, 2015). Contudo, a rizicultura, vem sendo substituída gradativamente nos últimos anos
pela carcinicultura, utilizando os mesmos viveiros antes usados no cultivo de arroz, com
pequenas obras de adequação, reforço dos taludes e adequação das comportas de abastecimento
d’água (Barbosa et al., 2018).
Ictiofauna do baixo São Francisco
Marques (1995), trabalhando na região da várzea da Marituba, observou a ocorrência de
21 espécies, com destaque para alguns indívuos como a curimatã-pacú-Prochilodus argenteus,
Megaleporinus obtusidens (piau), Serrassalmus brandtii (pirambeba), Pygocentrus piraya –
piranha, Hoplias sp., Centropomus parallelus- robalo e Pseudoplatystoma corruscanssurubim.
Costa et al (2000), em seus estudos delimitou a ocorrência de 33 espécies nos municípios
ribeirinhos do baixo São Francisco, com destaque para os piaus – Leporinus sp. e Schizodum
sp., e carapebas – Eugerres brasilianus.
Soares et al. (2011), estudando a microrregião de Penedo- AL (baixo São Francisco),
observou a ocorrência de 22 espécies em 2007, 18 espécies em 2008 e 17 espécies em 2009,
das quais cerca de cinco representaram em média 80% da biomassa do pescado desembarcado,
com destaque para a família Prochilodontidae, representada pela xira ou curimatã-pacu
(Prochilodus argenteus) espécie endêmica da bacia, com percentual médio de 40,0%, seguido
da família Anostomidae, tendo os piaus (Megaleporinus reinhardt e Megaleporinus obtusidens)
com 22,0%, alternando-se entre um representante da família Engraulidae, a pilombeta
(Anchoviella vaillanti) com 7% em 2007 e 18% em 2008 e dois representantes da família
Centropomidae, o robalo (Centropomus undecimalis e C. parallelus) com média de 10% para
os três anos analisados, sendo a segunda espécie a mais comum.
Sampaio et al. (2015), estudando a região estuarina do rio São Francisco, afirmou que a
ictiofauna era composta predominantemente por indivíduos em ecofase jovem, de espécies
migrantes. Nestes estudos foram determinados 44 Famílias, 117 táxons: 113 na categoria
espécie, e quatro, na categoria gênero, sendo 44% marinhas-estuarinas (M-E), 41%
dulciaquícolas (D) e 15% marinhas (M).
Nos estudos de Paiva e colaboradores em 2016 (dados ainda não publicados) na planície
fluviomarinha do Rio São Francisco (Penedo- AL até o estuário do São Francisco) foram
coletados 3.772 indivíduos pertencentes a 82 táxons, estando 80 classificados em nível de
espécie, sendo descritos 54 novos registros (NR) de espécies para a Bacia do Rio São Francisco,
todas associadas aos estuários ou de origem marinha.
Soares et al. (2020) trabalhando em 8 municípios do Baixo São Francisco, relatou o
empobrecimento de exemplares nativos na composição das capturas, com 17 espécies
coletadas, constatando o desaparecimento das curimatãs-pacús- P. argenteus e pilombetas –
Anchoviella sp.
MATERIAL E MÉTODOS
Coleta da ictiofauna
Os peixes foram capturados por dois pescadores em duas embarcações com motor de 5
Hp, com uso de malhadeiras com 100 metros e tarrafas de 6 metros, ambas de malha 30, 40 e
50 entre nós opostos, com faina diária de 6 horas. Os peixes capturados foram identificados,
quando possível a nível de ordem, família, gênero e espécie e posteriormente fixados em formol
a 10% e após 48 horas fixados em álcool 70%. A identificação das espécies não realizadas no
barco-laboratório e a confirmação das demais foram feitas no Laboratório de Aquicultura e
Análise de Águas- LAQUA/UFAL, onde estão depositados em frascos de vidro com volume
de 2 e 5 litros para montagem de coleção ictiológica da expedição e analisados por literatura
especializada.
Figura 1. Exemplares capturados para estudo ictiológico.
Figura 2. Aferição de parâmetros morfométricos.
Biologia da reprodução
O desenvolvimento ovariano foi determinado segundo escala de Vazzoler (1995);
Estádio A: Imaturo ou virgem, Estádio B: Em maturação, estádio C: Maduro, Estádio D:
Esvaziado e Estádio E: Repouso.
Figura 3. Observação das gônadas para determinação de estádio de maturação e
desenvolvimento ovariano.
Preparo dos tecidos para análise de enzimas antioxidantes e histopatologias
Preparo das amostras para análises enzimáticas
Ao fim do experimento, os peixes foram mantidos em jejum por 24 horas e
posteriormente submetidos a biometria final. Foram retirados o fígado, músculo e brânquias
dos indivíduos para determinação das análises enzimáticas da catalase (CAT), superóxido
dismutase (SOD), glutationa S-transferase (GST) e o produto da peroxidação lipídica
(malondialdeido). Cada órgão foi homogeneizado a 1:10 (p/v) tampão fosfato 0,1 M (pH 7,5).
Os órgãos foram pesados e embrulhados em papel alumínio, congelados e estocados em freezer
-80°C. Fragmentos do fígado, músculo peitoral e brânquias foram homogeneizados em tampão
fosfato de potássio (pH 7.4) 0.2 M com 1M EDTA e a suspensão centrifugada durante 10
minutos a 4º C a 12.000 rpm, onde o sobrenadante foi utilizado para as análises.
Atividade das enzimas antioxidantes
A atividade da SOD nos tecidos foi mensurada em espectrofotômetro (190-1100 nm do
feixe ((RBC) UV/Vis) baseado na aptidão desta enzima catalisar a reação do superóxido O 2- e
o peróxido de hidrogênio e, assim, diminuir a razão de auto oxidação do pirogalol. Já a atividade
da CAT foi mensurada segundo Aebi (1984) através da taxa de queda da absorbância em 60
segundos do peróxido de hidrogênio (H2O2) (10 mM) 82 em tampão fosfato de potássio 0.2 M
(pH 7.0) e homogeneizado de tecido em espectrofotômetro (λ= 240nm). Para os cálculos foi
utilizado o coeficiente de extinção molar do peróxido de hidrogênio ɛ240 = 36 mol-1 L cm-1.
A atividade da enzima GST foi mensurada de acordo com Habig et al. (1974), através da
formação do conjugado glutationa-2,4-dinitrobenzeno (CDNB) pelo aumento da absorbância
(λ= 340 nm) durante 60 s. O coeficiente de extinção molar do CDNB ɛ340 = 9,6 mM-1 cm-1
foi utilizado para os cálculos.
Malondialdeído (MDA) em ensaio de tiobarbitúrico (TBARS)
Os níveis de malondialdeído (MDA) foram mensurados conforme descrito por Buege &
Aust (1978). O mesmo foi homogeneizado em solução de ácido tricloroacético (15%) /ácido
tiobarbitúrico (0,375%)/ácido clorídrico (0,6% M). A mistura reacional total foi mantida em
banho-maria durante 40 minutos a 90 °C, depois resfriado sobre gelo. Posteriormente as
amostras foram centrifugadas (10 minutos, 15°C, 2.500 rpm), o sobrenadante foi utilizado para
medir a absorbância a 535 nm em espectrofotômetro Biochrom (190-1100nm do feixe (RBC)
UV/Vis) os níveis totais de MDA em cada amostra foi determinado por meio de curva padrão
a partir de concentrações conhecidas de 1,1,3,3-tetramethoxypropane (TMPO).
Análises histológicas
Para realização das análises histológicas, foram retirados fragmentos do intestino médio
de um peixe de cada tratamento no 60° dia de experimento, as amostras foram fixadas em
formol 70% durante 24 horas e posteriormente imersos em álcool 70%. Posteriormente foi
realizada a desidratação em série alcoólica crescente a 70, 80 e 90% (10 minutos cada) e três
banhos de 10 minutos cada em álcool etílico a 99%. As amostras foram infiltradas, à
temperatura ambiente, primeiro em um banho de duas horas com uma mistura de historesina
(Leica®) e álcool (1:1) e depois mantidas imersas em historesina pura por 24h.
O material foi incluído em historesina e transferido para cubas de inox e mantidos em
temperatura ambiente até que os blocos se polimerizassem por completo. Cortes semifinos com
5 μm de espessura foram obtidos em micrótomo rotativo com navalhas de aço inox. Os cortes
foram transferidos para lâminas histológicas, as quais foram colocadas em placa aquecida a 40
°C por 15 minutos para que os cortes fossem distendidos e aderidos à lâmina. Posteriormente,
os cortes foram corados com hematoxilina de Harris, por 30 minutos, lavados em água corrente
por 5 minutos, corados com eosina por 30 segundos e lavados em água corrente. Para proteção
do material, lamínulas foram aderidas às lâminas usando Entellan® (Merck Millipore) como
meio de montagem.
Em seguida, o material foi fotografado em microscópio de luz com câmera digital.
Foram realizadas medições de 20 vilosidades, sendo: alturas, larguras das bases e ápices,
utilizando o programa ProgRes, totalizando 60 medições por tratamento.
Procedimentos para retirada dos tecidos dos peixes
Etapa 1:
Observação
das
característic
as
morfológica
s dos peixes
Etapa 2:
Remoção de
amostras do
tecido
muscular
Etapa 3:
Remoção
das
brânquias,
gônadas,
estômago e
fígado.
*As imagens dos peixes representados na figura acima foram retiradas do software 3D fish anatomy –
biosfera.org
Figura 4. Biometria dos exemplares.
Figura 5. Remoção de tecidos dos exemplares capturados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Entendendo a dinâmica das espécies reofílicas no Baixo São Francisco
A exemplo do médio São Francisco, onde as espécies reofílicas começam o período
reprodutivo em outubro, e logo após a chegada das chuvas, com o aumento do sedimento, os
peixes migram em direção as áreas de confluências e turbulência para desova e retornam
posteriormente as lagoas marginais (Godinho, 2003). No baixo São Francisco, as espécies
médio-migradoras com destaque para Prochilodus argenteus, Metynnis maculatus,
Megaleporinus obtusidens e Schizodum knerii, entre outras, seguem esta dinâmica de interação
entre os habitats (calha do rio, afluentes e lagoas marginais), onde parte do tempo, (seca)
permanecem nas áreas mais marginais, abrigadas ou com diminuição de correntezas, começam
seus períodos reprodutivos a partir de outubro (ainda seca) e contudo na aproximação do
período de chuvas ou trovoadas (fevereiro a maio), intensificam a migração reprodutiva.
Todavia, a região do baixo São Francisco sofre com problemas de diminuição de vazão
patrocinado pelas hidroelétricas de Sobradinho e Xingó, o que proporciona ciclos reprodutivos
artificiais, ou seja, dependendo do ciclo de chuvas nas cabeceiras de afluentes do São Francisco
à montante das represas e em anos de maior ou menor pluviosidade, podem ou não aumentar a
vazão do rio na região do baixo, influenciando no ciclo reprodutivo das espécies de piracema.
As defluências e alterações no fluxo de água, impedimento a migração reprodutiva, alterações
do regime lótico para lêntico, modificação da estrutura da comunidade aquática, poluentes e
contaminantes (agrotóxicos e efluentes domésticos), pesca com apetrechos não permitidos,
captura de exemplares que não atingiram a maturação sexual, diminuição das áreas dos habitats
destes organismos, desmatamento das áreas marginais, diminuição de área de alimentação, e
aumento da intrusão salina estão entre os problemas que impactam a reprodução dos
organismos aquáticos e geração de novos indivíduos (ANA, MMA, Soares et al. 2020) (Figura
6 e 7).
Relatórios da ANA em 1998-1999, já denunciavam o desaparecimento de espécies
quando afirmavam através de estrevistas com pescadores o desaparecimento de pelo menos 12
peixes
tais
como:
Pimelodus
maculatus-mandim,
Steindacherina
elegans-
aragú,
Parauchenipterus galeatus-cumbá, Acestrochynchus lacustris-lambiá, niquim ou pacamom –
Lophiosilurus alexandri, Prochilodus argenteus- curimatã-pacú, Conorhynchus conirostris –
pirá, Pseudoplatystoma corruscans – surubim, pilombeta – Anchoviella lepidentostole, piau –
Schizodon knerii e piaba mantega – Moenkhausia costae.
De acordo com ANA (2003) e PBHSF (2004), os maiores problemas no rio São
Francisco em termos de impactos antrópicos decorrem do lançamento de esgotos domésticos
que depleciam os níveis de oxigênio dissolvido e aumentam a quantidade de matéria orgânica
e de coliformes fecais, despejo de efluentes por atividades mineradoras (cobre, zinco, cádmio,
cromo e chumbo), projetos de irrigação (propiciam aumento de pesticidas e fertilizantes) e
assoreamentos da calha (aumentam a quantidade de sólidos suspensos e turbidez). Estes
impactos adicionados pelo aumento dos períodos de seca e competição com espécies exóticas
faz com que ocorra o desaparecimento de espécies de peixes nativos no baixo São Francisco.
Merece destaque a correlação entre a época de reprodução das espécies de peixes com
o aumento da vazão do Baixo São Francisco. Para entendermos essa situação, os afluentes
intermitentes no baixo contribuem apenas com 5% da água na região, enquanto cerca de 90%
das águas que abastecem a o baixo são oriundas do alto São Francisco, portanto altamente
dependentes do regime de chuvas naquela área da bacia. Antes das barragens, as altas vazões
correspondiam aos meses de dezembro a maio, época de reprodução de grande parte das
espécies de peixes nativas e reofílicas. O baixo São Francisco recebia além do grande aporte de
água oriunda do alto e médio (acima de 4000 m3/s), que enchiam as lagoas marginais do curso
do baixo, com nutrientes, matéria orgânica para fertilização do solo, sedimentos e água nova,
também uma carga adicional de água, quando aumentava o regime pluviométrico na região de
Paulo Afonso-BA à Foz, com período de chuvas concentradas entre março e julho (Fontes,
2011). Nestas condições, os peixes desovavam praticamente durante 6 meses do ano (novembro
a abril).
Atualmente, as enchentes anuais são artificiais e limitadas pelas hidroelétricas, e em
anos de menor índice pluviométrico nos cursos rio acima, afetam drasticamente a reprodução
das espécies no curso rio abaixo, ocasionando a chamada “desova seca”, termo este
denominado, quando os organismos estão maduros, com gônadas em processo de aumento do
volume com produção de ovócitos e espermatozóides, mas não conseguem concluir a etapa
reprodutiva, pois não foram estimulados (hrormônios) o suficiente para o término do ciclo
reprodutivo.
Para entendermos o ciclo reprodutivo das espécies reofílicas, observamos abaixo a figura
6 - período de seca e a figura 7 – período de enchente no baixo São Francisco:
Figura 6. Dinâmica hidrológica e correlação com espécies reofílicas ou migradoras, no período
de seca. (gravura: Emilly Valentim).
Nesta gravura podemos observar uma situação de ausência de chuvas e diminuição de
vazão, bem típica na maior parte do ano na região, temos diversas atividades como a pecuária,
agricultura nas margens da calha do rio, uso de agrotóxicos em alguns tipos de culturas,
lançamentos de esgotos e efluentes das cidades, formação de bancos de areia devido o processo
erosivo nas margens e ausência de vegetação da mata ciliar, que provoca o enfraquecimento do
solo. Neste período, notamos a diminuição do volume de água e áreas, com transformação do
sistema lótico (com maiores correntezas e trocas de água) para lêntico (água mais parada),
diminuindo os habitats para as espécies de peixes, com isso favorecendo as capturas destas,
inclusive com tamanho de captura não permitido pela legislação ambiental e instruções
normativas de defeso (que estão desatualizadas), e com práticas de pesca, em algumas
oportunidades, danosas ao meio ambiente. Grande acúmulo de macrófitas aquáticas, devido o
aumento da carga orgânica, menor capacidade depurativa do rio e concentração de nutrientes
decorrentes da decomposição de materia orgânica, maior volume de esgotos e agrotóxicos, e
diminuição da profundidade, que favorece a influência da radiação solar nas partes mais
profundas do ambiente aquático e ajuda no desenvolvimento destas plantas.
Nota-se que também que parte das espécies migradoras passam parte do tempo em
lagoas marginais e ambientes sem contato com a calha principal do rio, a espera que com o
aumento do volume de água, proporcionado pelo aumento da vazão e de chuvas, possam sair
destes ambientes, eutrofizados ou rico em nutrientes, devido o acúmulo de materia orgânica
durante boa parte do ano e também por lançamentos de dejetos e fertilizantes.
Figura 7. Situação no baixo São Francisco com o período de cheia (gravura: Emilly Valentim).
Na figura 7, observa-se um período de cheia, com aumento da vazão, volume de chuvas
na região, aumento dos níveis de sedimentos do rio, queda de barrancos, maior carga de material
oriundo dos afluentes temporários, com destaque aos rios Traipú, Ipanema, Capiá, Jacaré,
Porucaba, Betume e Piauí. Nesta condição temos uma renovação das águas, e diminuição da
concentração de nutrientes em determinadas áreas, e consequentemente, a calha do rio faz
contato com as lagoas marginais, antes isoladas, desta forma, os peixes reofílicos saem destas
áreas e iniciam o processo de migração reprodutiva com maturação de suas gônadas (orgãos
sexuais masculinos e femininos), para áreas de confluências, em muitos casos, pontos mais
oxigenados e de maior maior turbidez, para gerarem as próximas gerações.
Contudo, após o processo de enchente, novas ilhas são formadas, devido o grande
acúmulo de sedimentos, voltando aos patamares da figura 6.
Como podemos observar, os impactos provocados pelas usinas hidrelétricas, alterando
o sistema lótico para lêntico, refletiram em modificações na estrutura das comunidades de
peixes (Andrade & Araújo, 2011). Entre essas modificações, destacam-se interferência na
composição e comportamento, assim como na migração reprodutiva dos peixes, fazendo com
que algumas entrassem em colapso (Barbosa & Soares, 2009). Diante deste contexto, é
necessário que estratégias eficientes sejam tomadas com relação ao estudo da bioecologia e
identificação das espécies distribuídas no Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco, a fim
de mitigar os efeitos danosos provocados no ambiente pelas ações antrópicas (Ramos, 2001).
Cerca de 70% dos peixes coletados nos meses de outubro de 2018 e novembro de 2019,
estavam com estádio de maturação considerados maduros, com machos espermeando quando
massageados a região abdominal e as fêmeas encontradas estavam na fase de desenvolvimento
ovocitário II, com a presença dos ovócitos com estoque de reserva perinucleolar, com
citoplasma bem definido, nucléolos esféricos e intensamente basófilos (Vazzoler, 1996).
Ictiofauna coletada nas expedições de 2018-2019
Durante a expedição foram coletados cerca de 119 exemplares de peixes em 2018 e 206
exemplares em 2019, apresentados na tabela abaixo:
Tabela 1. Espécies coletadas durante a expedição ao Baixo São Francisco em 2018.
Ordem
Characiformes
Família
Espécie
n
Nome comum
Erythrinidae
Hoplias microcephalus
8
Traíra - N
Serrasalmidae
Metynnis maculatus
9
Pacu-disco - N
Pygocentrus piraya
5
Piranha-preta - N
Serrasalmus brandtii
11 Pirambeba - N
Megaleporinus obtusidens
4
Piau três pintas N
Schizodon knerii
3
Piau-de-vara - N
Prochilodontidae Prochilodus argenteus
1
Curimatã-pacu N
Siluriformes
Ariidae
Cathorops agassizii
10 Bagre-do-mar M
Perciformes
Centropomidae
Centropomus parallelus
8
Robalo - M
Centropomus undecimalis
2
Robalo-flecha M
Anostomidae
Carangidae
Caranx latus
11 Xáreu - M
Gerreidae
Eugerres brasilianus
6
Carapeba - M
Archosargus
probatocephalus
8
Sargo-de-dente M
Cichla monoculus
14 Tucunaré - I
Oreochromis niloticus
10 Tilápia-do-nilo I
Guavina guavina
5
Amoreia - M
Lagocephalus laevigatus
4
Baiacu-arara -M
Cichlidae
Eletridae
Tetraodontiformes Tetraodontidae
N = Nativa; M = Marinha e I = Introduzida; n = número de exemplares coletados.
Tabela 2. Espécies coletadas durante a expedição ao Baixo São Francisco em 2019.
Ordem
Characiformes
Família
Espécie
n
Nome comum
Traíra - N
Erythrinidae
Hoplias microcephalus
2
Serrasalmidae
Metynnis maculatus
65 Pacu-disco - N
Pygocentrus piraya
7
Serrassalmus brandtii
27 Pirambeba - N
Megaleporinus obtusidens
10 Piau três pintas N
Schizodon knerii
35 Piau-de-vara - N
Prochilodontidae
Prochilodus argenteus
Characidae
Colossoma macropomum
Curimatã-pacu –
N
13 Tambaqui- I
Ariidae
Cathorops agassizii
2
Anostomidae
Piranha
verdadeira N
2
Pseudopimelodidae Lophiosilurus alexandrii
2
Bagre-do-mar –
M
Pacamã- N
Mugiliformes
Mugilidae
Mugil curema
2
Tainha- M
Beloniformes
Belonidae
Tylosurus acus acus
1
Agulhão - M
Perciformes
Centropomidae
Centropomus parallelus
3
Robalo - M
Centropomus undecimalis
1
Gobidae
Bathygobius soporator
2
Robalo-flecha –
M
Aimoré- M
Sparidae
Archosargus
probatocephalus
4
Siluriformes
Sargo de dentesM
Carangidae
Trachinotus carolinus
1
Pampo - M
Carangidae
Caranx latus
3
Xáreu - M
Gerreidae
Eugerres brasilianus
7
Carapeba
verdadeira – M
Eucinostomus melanopterus
2
Carapeba - M
Cichlidae
Cichla monoculus
Astronotus ocellatus
5
4
Tucunaré – I
Apaiari - I
Eletridae
Guavina guavina
1
Amoreia - M
Lagocephalus laevigatus
5
Baiacu-arara -M
Tetraodontiformes Tetraodontidae
N = Nativa; M = Marinha e I = Introduzida; n = número de exemplares coletados.
Percentual de Indivíduos- 2018
Lagocephalus laevigatus (baiacú)
Guavina guavina (amoreia)
Oreochromis niloticus (tilápia)
Cichla monoculus (tucunaré)
Archosargus probatocephalus (sargo)
Eugerres brasilianus (carapeba)
Caranx latus (xareu)
Centropomus undecimalis (robalo flecha)
Centropomus parallelus (robalo)
Cathorops agassizii (bagre)
Prochilodus argenteus (curimatã-pacú)
Schizodon knerii (piau branco)
Megaleporinus obtusidens (piau três pintas)
Serrasalmus brandtii (pirambeba)
Pygocentrus piraya (piranha)
Metynnis maculatus (pacú)
Hoplias microcephalus (traíra)
3.4
4.2
8.4
11.8
6.7
5.0
9.2
1.7
6.7
8.4
0.8
2.5
3.4
9.2
4.2
7.6
6.7
0.0
2.0
4.0
6.0
8.0
10.0
12.0
14.0
Figura 8. Percentual de espécies de peixes encontradas na I Expedição Científica- 2018.
Percentual de Indivíduos - 2019
Astronotus ocellatus (apaiarí)
Eucinostomus melanopterus (carapeba)
Trachinotus carolinus (pampo)
Bathygobius soporator (aimoré)
Centropomus undecimalis (robalo flecha)
Centropomus parallelus (robalo)
Lagocephalus laevigatus (baiacú)
Guavina guavina (amoreia)
Tylosurus acus acus (agulhão)
Cichla monoculus (tucunaré)
Archosargus probatocephalus (sargo)
Eugerres brasilianus (carapeba)
Caranx latus (xareu)
Mugil curema (tainha)
Lophiosilurus alexandrii (pacamã)
Cathorops agassizii (bagre)
Colossoma macropomum (tambaqui)
Prochilodus argenteus (curimatã-pacú)
Schizodon knerii (piau branco)
Megaleporinus obtusidens (piau três pintas)
Serrasalmus brandtii (pirambeba)
Pygocentrus piraya (piranha)
Metynnis maculatus (pacú)
Hoplias microcephalus (traíra)
0.0
5.0
10.0
15.0
20.0
25.0
30.0
35.0
Figura 9. Percentual de espécies de peixes encontradas na II Expedição Científica- 2019.
Figura 10. Diversidade de espécies de peixes por localidade em 2019.
O ano de 2018 teve como principais características, a diminuição do volume de chuvas
e uma vazão que ficou próximo a 500 m3/s, que influenciou significativamente no movimento
migratório das espécies reofílicas, no aumento da concentração da carga de efluentes,
decorrente do menor volume de água e menor capacidade depurativa do próprio rio. Estes
fatores associados a vulnerabilidade dos organismos face aos apetrechos de pesca (menos áreas
de refúgio) e condições estressantes de qualidade de água, podem ter contribuído para uma
diminuição dos peixes.
Já em 2019, foram encontradas condições hidrológicas melhores, decorrentes do
aumento do regime chuvoso e da vazão, com aproximadamente 1300 m 3/s, que proporcionou
maiores áreas de refúgio, maior capacidade depurativa do rio e conexão entre os afluentes e
lagoas marginais. O reflexo disso foi a diminuição da cunha salina, aumento de espécies de
água doce e menor quantidade de espécies marinhas do que nas regiões abordadas em 2018.
Os dados observados na figura 10, apresentam Traipú como região de maior diversidade
de espécies de peixes, seguidas por Porto Real-Propriá e Piaçabuçú (não diferiram entre sí,
Teste de Tukey, p < 0,05). Nas outras regiões de coleta foram observados baixa diversidade de
espécies, em comparação com as três regiões acima.
De acordo com estudos realizados por Barbosa & Soares, 2009 e Barbosa & Soares
(2017), A ictiofauna da bacia do rio São Francisco é composta por 32 famílias, 110 gêneros e
241 espécies, pertencentes a sete ordens: Clupeiformes, Characiformes, Siluriformes,
Gymnotiformes, Cypriniformes, Sinbranchiformes e Perciformes. Na distribuição das famílias,
gêneros e espécies, por ordem, destacam-se as ordens Characiformes com 13 famílias, 44
gêneros e 77 espécies e a ordem Siluriformes, com 10 famílias, 47 gêneros e 85 espécies, pela
maior diversidade nestes táxons, demonstrando grande capacidade de dispersão e especiação
desses grupos.
Os mesmos autores concluíram que dentre as espécies nativas da bacia várias espécies
apresentam importância na alimentação humana, por isso alvo de intensa pesca, se destacavam:
curimatãs Prochilodus argenteus, dourado Salminus franciscanus, mandi-amarelo Pimelodus
maculatus, mandi-açu Duopalatinus emarginatus, piaus Megaleporinus spp. e Schizodon
knerii, traíras Hoplias spp., cascudo-preto Rhinelepis aspera, corvinas e piranha Pygocentrus
piraya.
Dados obtidos nos estudos de Soares et al. (2011) na microrregião de Penedo, relataram
predominância de 22 espécies em 2007, 18 espécies em 2008 e 17 espécies em 2009, das quais
cerca de cinco representavam em média 80% da biomassa do pescado desembarcado, com a
curimatã-pacu Prochilodus argenteus, espécie endêmica da Bacia, com percentual médio de
40,0%, seguido da família Anostomidae, tendo os piaus Megaleporinus reinhardt e
Megaleporinus obtusidens com 22,0%, alternando-se entre um representante da família
Engraulidae, a pilombeta Anchoviella vaillanti com 7% em 2007 e 18% em 2008 e dois
representantes da família Centropomidae, o robalo Centropomus undecimalis e C. parallelus
com média de 10% para os três anos analisados.
Ao confrontarmos com os dados atuais obtidos pelas duas expedições cientificas,
percebe-se o empobrecimento de espécies nativas e de água doce na composição das capturas,
com 17 espécies coletadas (2018) com um total de 119 indivíduos capturados e 24 espécies em
2019 com um volume de capturas da ordem de 206 indivíduos, sendo que destas, sete foram
nativas para ambos os anos. Foi constatado o desaparecimento das curimatãs-pacús, pilombetas,
pacamã e piabas- Astyanax bimaculatus e diminuição das carapebas, com prevalência da ordem
Perciformes em detrimento dos Characiformes, outrora mais abundantes, e aumento de espécies
eurihalinas e marinhas e exóticas com relação as nativas.
Permanece o panorama, no qual cerca de 5 ou 6 espécies representam entre 70% a 80%
das capturas na região com destaque para as espécies M. maculatus- pacú, S. knerii – piau
branco ou piau de vara, S. brandtii- pirambeba, C. macropomum – tambaqui, M. obtusidens –
piau três pintas e E. brasilianus- carapeba verdadeira. Contudo em 2018 as três espécies mais
capturadas foram as pirambebas, seguida dos pacus e tucunarés, já em 2019, destacaram-se o
pacú, os piaus e as pirambebas.
Abaixo podemos verificar a descrição das principais espécies de água doce coletadas nas
expedições do Baixo São Francisco:
Figura 11. Serrasalmus brandtii – pirambeba
É uma espécie pertencente a ordem Characiformes, família Serrasalmidae, nativa da
Bacia do São Francisco de desova parcelada, com picos no período chuvoso. Possuem corpo
alto e bastante comprimido lateralmene, com presença de espinho pré-dorsal e quilha ventral
dotada de espinhos. Possui aproximadamente 22 cm de comprimento padrão máximo (Britski
et al., 1988), alimenta-se, quando nas fases juvenis, de insetos, escamas, olhos e nadadeiras e
quando adulto é piscívora (Pompeu 1999), sendo de hábito bentopelágico.
Figura 12. Metynnis maculatus – pacú-disco
É uma espécie pertencente a ordem Characiformes, família Serrasalmidae, subfamília
Serrasalminae. Corpo comprimido e muito alto; uma série de espinhos abdominais, nadadeira
dorsal com mais de 16 raios e pela presença de um espinho pré-dorsal anteriormente
direcionado. Apresentam duas séries de dentes molariformes ou incisiviformes. Tem hábito
comportamental pelágico e alimenta-se de plantas e algas, conferindo hábito alimentar
herbívoro.
Figura 13. Megaleporinus obtusidens – Piau três pintas
Figura 14. Schizodon knerii – piau branco
A família Anostomidae pertence a ordem Characiformes. O M. obtusidens possui corpo
alongado, cobertos por escamas prateadas, nadadeiras peitorais, ventrais e anal, amareladas,
com focinho proeminente, apresentam três máculas no flanco. Já S. knerii possui boca terminal,
corpo coberto por escamas, não possui manchas, com boca terminal e as vezes aparecem faixas
transversais em seu corpo. É de grande importância comercial, com hábito onívoro e quando
juvenis se alimentam de moluscos, invertebrados, matéria vegetal e detritos, combinando com
insetos, sementes, crustáceos e moluscos, como massunis- Anomalocardia brasiliana,
presentes no baixo São Francisco. Com ciclo reprodutivo nos meses de outubro a março e
maturação sexual por volta dos 18 a 20 cm, são peixes de desova total.
Figura 15. Cichla monoculus - tucunarés
O gênero Cichla, do qual fazem parte os tucunarés, pertence à superclasse
Actinopterygii, peixes de nadadeiras raiadas, ordem Perciformes, família Cichlidae. Com cerca
de 7.000 representantes, a ordem Perciformes é caracterizada pela presença de dois espinhos na
porção anterior da nadadeira anal e nadadeira caudal em forma de losango. Apresenta duas
nadadeiras dorsais ou uma dividida em duas porções, sendo a porção anterior com raios duros
e a posterior com raios moles modificados. Apresentam características de um grande predador,
devido à boca grande e protáctil, pré-maxila bastante proeminente, ultrapassando a porção
médio-anterior da região orbital. Possuem coloração amarelo-oliva, com ventre claro ou
avermelhado (dependendo da época de reprodução).
Na Planície Fluviomarinha do Rio São Francisco (de Penedo à Foz), Paiva et al., dados
não publicados) encontrou 31 famílias, sendo descritos 54 novos registros (NR) de espécies
para a Bacia do Rio São Francisco, todas associadas aos estuários ou de origem marinha.
Segundo os mesmos autores, as famílias estuarinas típicas como Carangidae, Clupeidae,
Engraulidae, Gerreidae e Lutjanidae, representadas por Caranx latus, Harengula clupeola,
Anchovia clupeoides, Diapterus rhombeus, Lutjanus jocu, entre outras, foram exclusivas da
subárea I. Além das espécies duciaquícolas, nas subáreas II e III, as espécies marinhasduciaquícolas-estuarinas (MDE) ocorreram em números consideráveis.
Figura 16. Distribuição espacial das espécies dominantes na Planície Fluviomarinha do Rio
São Francisco. a. Centropomus parallelus; b. Centropomus undecimalis; c. Citharichthys
spilopterus; d. Eucinostomus melanopterus; e. Lutjanus alexandrei; f. Lutjanus jocu; g.
Astyanax fasciatus; h. Awaous tajasica; i. Serrassalmus brandtii; j. Leporinus piau; k. Metynnis
maculatus; l. Cichla monoculus; m. Serrassalmus brandtii; n. Metynnis maculatus; o. Cichla
monoculus; p. Awaous tajasica; q. Sciades herzbergii; r. Mugil sp. s. Eugerres brasilianus; t.
Eucinostomus sp.; u. Atherinella brasiliensis (Extraído de Paiva et al., dados não publicados).
Conclusão e perspectivas de pesquisa-ação para melhorias na região do Baixo São
Francisco quanto a ictiofauna.
A ictiofauna no Baixo São Francisco é de pouca diversidade e quantidade, onde cerca
de 6 espécies representam 80% das capturas na região;
Podem ser consideradas espécies quase extintas ou em processo de declínio as
curimatãs-pacús- P. argenteus, pilombetas – Anchoviella sp., surubim –
Pseudoplatystoma corruscans, dourado – Salminus franciscanus, pacamã – L.
alexandrii, pirá - Conorhynchos conirostris e piaba – A. bimaculatus;
A diminuição da vazão, pesca com métodos não permitidos (tamanho de malha,
bombas, bolinhos com uso de formol, etc), represamento da água, desmatamento da
vegetação ciliar, assoreamento, poluição de efluentes da cidades e agrotóxicos,
aliados a diminuição do regime de chuvas, vem prejudicando a reprodução dos
peixes, afetando as migrações reprodutivas de espécies de piracema e esgotando os
estoques pesqueiros;
A grande quantidade de esgotos e lixo jogados na calha do rio, prejudicam a
qualidade de água, o que provoca forte estresse para as espécies, colaborando para
diminuição do alimento natural e diminuição do crescimento e desenvolvimento dos
peixes;
O menor volume de água e maior assoreamento, favorecem a diminuição das áreas
de fugas, menor quantidade de sedimentos, aumento da visibilidade por parte de
peixes carnívoros e predadores, restringindo as áreas de proteção de indivíduos
jovens, favorecendo a predação por organismos adultos e exóticos a bacia (tucunarés,
apaiaris, piranhas, pirambebas, etc), dos organismos jovens e na fase imatura,
colaborando para depleção dos estoques pesqueiros nativos, isso explica a presença
de grande número de peixes exóticos e de hábito alimentar piscívoro, as vezes melhor
adaptados à piora das condições ambientais;
O aumento da cunha salina em períodos de menor vazão e chuvas, diminuem os
habitats de espécies nativas de água doce, aumentando a concorrência por alimento,
por parte de espécies eurihalinas ou marinhas.
Ações de curto e médio prazo para recomposição da ictiofauna no baixo
Atualização urgente das instruções normativas de defeso, visto que estas estão
defasadas e com pouco embasamento científico, com discussão entre pesquisadores,
pescadores, agricultores, comitê de bacia, IBAMA, MMA, ICMBIO, IMA e
Universidades;
Retomada e fortalecimento urgente dos programas de peixamentos (CODEVASF)
com definição de áreas de berçários, onde as espécies nativas reproduzidas em
cativeiro, seriam realocadas em áreas delimitadas e protegidas, durante pelo menos
6 meses, através de acordos de pesca e manejo de áreas a ser definida pelos
pescadores, instituições e pesquisadores;
Investimento imediato por parte das instituições que trabalham com a gestão da água
e setor elétrico (ANA, CBHSF, CHESF, CASAL, etc) em projeto de
biomonitoramento contínuo no baixo São Francisco, para ações como estatística
pesqueira, monitoramento da qualidade de água, análise de poluentes, saneamento
básico, plantio de árvores, manejo do solo, monitoramento hidrológico;
Proteção de áreas de confluência de rios como o; Traipú, Perucaba, Jacaré, Piauí,
Betume e Ipanema, com ações fiscalizatórias e criação dos agentes ambientais
voluntários, onde pessoal da própria comunidade ajuda na fiscalização da região,
tornando-se parte do processo, desta forma o sucesso na proteção de áreas de manejo
serão mais efetivas;
Em termos de estudos da ictiofauna, sugere-se nos estudos futuros delimitação de
sub-áreas por proximidades hidrológicas, ambientes e de espécies: Piranhas à Pão de
Açúcar – área 1; Pão de Açúcar à Traipú – área 2; Traipú à Porto Real – área 3; Porto
Real à Penedo – área 4; Penedo à Piaçabuçú – área 5 e Piaçabuçú à Foz – área 6;
Fortalecimento da EMATER, para o sucesso de ações mais agroecológicas e manejo
de solo para o cultivo nas margens do rio;
Criação de um programa de educação ambiental nas escolas e na comunidade, com
inserção de temas ambientais nos projetos pedagógicos das escolas;
Revisão do período de defeso anual, de acordo com a situação do sistema hídrico,
pois sabe-se que existem cheias artificiais no baixo, que dependem da demanda de
chuvas de cada ano, e estes influenciam nas épocas de reprodução dos peixes
migradores;
Criação do bolsa ambiental, com incentivo àqueles que participam do programa de
agentes ambientais voluntários e ações de conservação na região;
Proteção integral da área da Marituba do Peixe, como importante área de proteção
dos peixes;
Incentivo a programas de cultivo de peixes em tanques-redes, delimitados por ações
de controle as espécies exóticas e fugas de peixes destes sistemas de cultivo;
Como decisão mais drástica; moratória ou fechamento integral de áreas de pesca,
sendo de forma manejada, contudo este tipo de medida tem de contar com apoio da
população, pescadores, instituições e apoio do MAPA-SEAP e Ministério do
Trabalho, para que os recursos cheguem na época correta aos pescadores;
Fortalecimento das bases de pisciculturas da CODEVASF para produção de juvenis
de espécies nativas;
Ações integradas na gestão dos resíduos e dejetos das cidades ribeirinhas para
contenção dos poluentes na água;
Delimitação de uma vazão ecológica mínima, nunca abaixo de 900m /s,
3
principalmente para evitarmos as chamadas “desovas secas”, onde os peixes que
estão em fase reprodutiva maturam suas gônadas (órgãos sexuais), mas não
completam o ciclo reprodutivo, pelas condições ineficientes de estímulos ambientais
em relação a fisiologia e biologia reprodutiva destes organismos;
Planejamento urbano e contenção pelas prefeituras, MP e órgãos ambientais de
fiscalização de áreas de ocupação desordenada às margens do rio e de áreas de
confluências de afluentes e ilhas, além de coibir práticas imobiliária e turística
predatória, plantios e criação de animais, principalmente nas áreas de importância
ecológica.
AGRADECIMENTOS
Em especial a toda equipe da expedição do São Francisco de 2018 e 2019, ao Giselmo
e Ancelmo – Barca “A Magnífica” e “A Maravilhosa”. Aos pescadores Márcio e Rodrigo. Ao
Comitê de Bacia Hidrográfica do São Francisco nas pessoas do presidente Anivaldo Miranda e
professor Melchior Carlos e toda diretoria do baixo. A agência Peixe vivo nas pessoas de
Daniela, Manoel e Rúbia. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas nas pessoas
dos professores Fabio Guedes e João Vicente. A Secretária de Ciência e Tecnologia de AlagoasSECTI- AL. A SEMARH- Secretária de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Alagoas. As
prefeituras de Piranhas, Pão de Açucar, Traipú e Piaçabuçú. A CODEVASF- Companhia dos
Vales do São Francisco e Parnaíba. A EMATER – AL, na pessoa da senhora Rita.
REFERÊNCIAS
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Uso de Micronúcleo e Anormalidades Nucleares para Verificar a Saúde dos
Peixes no Baixo São Francisco
Emilly Valentim de Souza¹, Elâne Pereira dos Santos¹, Karina Leitão de Oliveira¹, Lucas de Oliveira
Arruda¹, Emerson Carlos Soares², Themis de Jesus da Silva³.
1
Graduando em Zootecnia, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de
Alagoas - Laboratório de Aquicultura Análises de Água.
²Professor do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas Laboratório de Aquicultura e Análises de Água.
3
Professora do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas Laboratório de Aquicultura e Análises de Água.
RESUMO
Na região do Baixo São Francisco, além da atividade pesqueira sobexplotada, há o
despejo de esgoto das cidades e a utilização de agrotóxicos em plantações próximas a margem
do rio, que acarretam diversos problemas ao ambiente. Muitos trabalhos utilizando peixes são
realizados para monitorar ecossistemas aquáticos, estes servindo como bioindicador da
qualidade do meio aquático. Assim, objetivou-se avaliar a qualidade da água do Baixo São
Francisco, utilizando os peixes como bioindicadores. Para isso foi utilizado o teste de
micronúcleo e a frequência de anormalidades nucleares. Em relação à frequência média total
de anormalidades e micronúcleo, o município de Piranhas (AL) apresentou uma maior
quantidade, seguida de Porto Real do Colégio (AL), enquanto a piranha verdadeira
(Pygocentrus piraya) apresentou a maior frequência de anormalidades. Os resultados obtidos
podem ser indicativos de alterações na qualidade de água, saúde do rio e dos organismos
aquáticos que vivem neste ambiente.
Palavras chave: Bioindicador, genotoxicidade, mutação
INTRODUÇÃO
O rio São Francisco possui cerca de 2.700 km de comprimento e se estende do estado de
Minas gerais, percorrendo Goiás, Distrito Federal, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, onde
deságua. O Rio percorre cerca de 505 municípios, servindo como fonte principal de renda para
milhares de famílias. Na região do Baixo São Francisco, que se estende do município de
Piranhas-AL à Foz, além da atividade pesqueira sobreexplotada há também o despejo de esgoto
domésticos das cidades e a utilização de agrotóxicos em plantações próximas a margem do rio
(OLIVEIRA & SOUZA, 2010).
O baixo São Francisco possui, além da importância ambiental, extrema importância
econômica para as famílias que vivem as suas margens, que dependem do rio para sobreviver,
destaque-se a pesca, agricultura familiar, turismo e monoculturas. Os impactos gerados pelo
excesso de exploração dos recursos do rio, somados com danos causados pela presença de
atividades humanas ás suas margens, interfere na manutenção dos seus estoques naturais
(BARBOSA & SOARES, 2009).
Os municípios que se destacam no baixo São Francisco são: Penedo, município que tem
grande destaque econômico, possuindo arquitetura colonial, atraindo grande atenção turística,
também é responsável pela criação de tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus), curimatã-pacu
(Prochilodus argenteus) e tambaqui (Colossoma macropomum) (IBGE 2019); Piranhas,
município de caráter econômico turístico, atraindo turistas para os cânions do Rio São
Francisco; Igreja Nova, cidade que tem como destaque econômico o setor agropecuário, sendo
grande produtor de arroz e criação de camarão (IBGE 2017) e Piaçabuçu que é a última cidade
percorrida pelo rio, no lado alagoano, e é um dos principais polos pesqueiros de camarão (IBGE
2019).
O Biomonitoramento é uma ferramenta utilizada para identificar poluentes que afetam o
meio ambiente e pode ser realizado por meio da avaliação de organismos expostos a sistemas
biológicos com a possível presença destes (SILVA et al., 2003). Tais poluentes podem ter
efeitos genotóxicos em peixes e outros organismos aquáticos e tem sido tema de muitos estudos,
principalmente quando se busca estabelecer a resposta de genes a estímulos ambientais
(BÜCKER et al., 2006). Muitos trabalhos utilizando peixes têm sido realizados para monitorar
ecossistemas aquáticos, estes são considerados bons indicadores da qualidade do meio aquático.
Tais organismos, respondem de diferentes maneiras à contaminação, com mudanças na taxa de
crescimento, de maturação sexual e comportamentais, além de possíveis mutações no material
genético (DNA), que podem ser hereditárias, alterações fisiológicas e bioquímicas (distúrbios
na produção de enzimas), comprometimento de diferentes sistemas como o sistema
imunológico.
Assim, foi utilizado o teste do micronúcleo e a frequência de anormalidades nucleares, para
detectar mutação no material genético, nos peixes coletados na II Expedição do Baixo São
Francisco, com o objetivo de avaliar a saúde dos peixes coletados bem como da qualidade da
água do Baixo São Francisco.
METODOLOGIA
1. Captura dos animais
Os animais avaliados foram capturados durante o período de 18 à 28 de novembro de
2019, nos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Penedo, Igreja Nova, Piaçabuçu,
Porto Real do Colégio e Foz (Piaçabuçu). As atividades tiveram início no primeiro dia da II
Expedição do baixo São Francisco, onde foi montado um local para coleta das amostras
biológicas no próprio barco (Figura 1). Com um ciclo de captura e coleta de material biológico
de dez dias, com as coletas sendo realizadas diariamente em dois momentos, no começo da
manhã e final da tarde.
Os animais passaram por uma biometria, onde foi registrado peso, comprimento total e
padrão (Figura 2). Os animais foram, mantidos em caixas com aeração e após a biometria foi
realizada a retirada dos tecidos para análises.
Figura 1. Barco utilizado para realização das atividades da Expedição.
Figura 2. Coleta das amostras para analises.
2. Micronúcleo e anormalidades
A genotoxicidade (dano ao DNA) foi avaliada por meio da visualização de micronúcleos
e anormalidades nucleares preparando esfregaços de sangue dos peixes.
Os esfregaços foram preparados em lâminas de microscópio usando 10 µL da solução de
sangue/EDTA 10% por lâmina. A lâmina foi seca em temperatura ambiente, fixada em etanol
absoluto durante 24 horas e corada com Giemsa 10% durante 10 minutos. Foram preparadas
duas lâminas por indivíduo e os micronúcleos e anormalidades foram identificados
(CARRASCO et al., 1990). A frequência de eritrócitos micronucleados (MNE) e de
anormalidades foi calculada com a contagem de 1500 eritrócitos periféricos por lâmina
utilizando microscópio (ampliação de 1000X).
Corpos de cromatina não refrativos, circulares ou ovoides, menores do que um terço do
núcleo principal e apresentando o mesmo padrão de coloração e de focalização do núcleo
principal, foram classificados como micronúcleos (AL-SABTI e MELCALFE, 1995) (Figura
3). As anormalidades nucleares observadas segundo a metodologia de Carrasco et al. (1990)
foram lobed, blebbed, notched, binucleated e células em divisão (Figura 4).
Essas
anormalidades são alterações morfológicas e podem ser do tipo:
- Notched- leve evaginação do envelope nuclear;
- Binucleated - células apresentando dois núcleos de tamanhos similares;
- Lobed - núcleo com evaginação maior que blebbed, apresentando formato arredondado,
como um lóbulo;
- Blebbed - núcleo com um corte no material genético;
Figura 3. Ilustração de micronúcleo em eritrócitos (Baseada nas descrições de
CARRASCO et al. 1990; MATSUMOTO et al. 2006).
Figura 4. Ilustração de anormalidades lobed (a) e blebbed (b) (Baseada nas descrições de
CARRASCO et al. 1990; MATSUMOTO et al. 2006).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram capturados indivíduos das espécies curimatã-pacu (Prochilodus argenteus), pacu
(Metynnis maculatus), piau branco (Schizodon knerii), piau três pintas (Megaleporinus
obtusidens), pirambeba (Serrasalmus branditt), piranha verdadeira (Pygocentrus nattereri),
cascudo (Hypostomus affinis), tucunaré (Cichla monoculus), tambaqui (Colossoma
macropomum), carapeba (Eugerres brasilianus) e sargo (Archosargus probatocephalus).
O teste de micronúcleos e anormalidades é uma técnica que pode ser utilizada em diversos
tipos de populações celulares de forma rápida e simples (HAYASHI et al., 1998), sendo uma
alternativa vantajosa para avaliar as diversas espécies do Rio São Francisco. É uma técnica
rápida, considerada barata e que gera excelente resultado quanto a possíveis alterações no
material genético dos organismos analisados.
Observou-se a presença de micronúcleos em todos os pontos de coleta (Pão de Açúcar,
Traipu, Penedo, Igreja Nova e Porto Real do Colégio), com exceção de Piaçabuçu, no qual não
foram encontrados em nenhum indivíduo analisado (Figura 5). O ponto de Piranhas apresentou
maior frequência de células micronucleadas, seguido de Igreja Nova e Porto Real do Colégio,
mas não houve diferença significativa entre eles. Estudos realizados ao longo dos últimos anos
mostram uma maior frequência de micronúcleos em peixes que estão em áreas próximas a
plantações com risco de contaminação por agrotóxicos e pesticidas (KÖNEN & ÇAVAS et al.,
2008; ÇAVAS, 2011).
Figura 5. Frequência média de micronúcleos dos pontos de coleta da expedição.
Figura 6. Micronúcleo observado em célula de pacu (Metynnis maculatus) capturado no
ponto de Piranhas (1000x).
Na contagem de células com núcleo do tipo blebbed (Figura 9) o ponto que apresentou
maior concentração desta anormalidade foi Porto Real do Colégio, enquanto Igreja Nova e
Piaçabuçu não apresentaram a anormalidade nas células analisadas (Figura 7). Com relação às
células tipo lobed, o ponto que apresentou maior concentração foi Piranhas, enquanto Igreja
Nova e Piaçabuçu não apresentaram tal anormalidade (Figura 8).
Figura 7. Frequência média de blebbed dos pontos de coleta da expedição.
Figura 8. Frequência média de lobed dos pontos de coleta da expedição.
Figura 9. Anormalidades nucleares do tipo blebbed (a) e lobed (b) observado em célula de
piau três pintas capturado em Pão de Açúcar (1000x).
A frequência de células apresentando anormalidades do tipo notched (Figura 9) foi maior
no município de Piranhas, não sendo encontradas nas células dos pontos de Piaçabuçu e Traipu
(Figura 10). Células com núcleo em divisão foram mais frequentes no ponto de Penedo, não
sendo encontradas em Pão de Açúcar, Igreja Nova e Piaçabuçu. Células com núcleos do tipo
binucleated foram encontradas em maior quantidade no ponto Penedo, não sendo encontradas
nos pontos de Igreja Nova, Piaçabuçu e Traipu.
Figura 10. Frequência média de notched dos pontos de coleta da expedição.
Figura 11. Frequência média de células em divisão dos pontos de coleta da expedição.
Figura 12. Frequência média de células binucleated dos pontos de coleta da expedição.
Em relação à frequência média total de anormalidades, o município de Piranhas
apresentou uma maior quantidade de anormalidades, seguida de Porto Real do Colégio, mas
não diferem significativamente (Figura 13). A anormalidade mais frequente encontrada foi o
micronúcleo (Quadro 1). Martins et al. (2017), observaram em tilápias do Nilo (Oreochromis
niloticus) expostas a esgoto bruto e diluído de uma cidade do interior do estado de São Paulo
uma grande quantidade de alterações nucleares em eritrócitos.
Figura 13. Frequência média de anormalidades dos pontos de coleta da expedição.
Quadro 1. Frequência média e desvio das anormalidades em seus respectivos pontos de coleta.
Com a presença de agentes químicos decorrentes do desague de esgoto doméstico,
lixiviação de agrotóxicos e herbicidas, alterações ambientais de salinidade, temperatura e
sedimentos interagindo, há por consequência, a combinação de substâncias e reações que
podem causar alterações na biota aquática de tal ecossistema (AKAISHI et al, 2017), o que
pode ser observado na maior presença de anormalidades em espécies capturados nas cidades
com maior índice populacional.
Foi avaliada também a frequência de anormalidades por espécies capturadas. As espécies
que apresentaram uma menor frequência de anormalidades foram piau três pintas
(Megaleporinus obtusidens) e pirambeba (Serrasalmus branditt). A piranha verdadeira,
Pygocentrus piraya, apresentou uma maior frequência de anormalidades, não apresentando
diferença significativa com relação ao tucunaré, Cichla monoculus, segundo o método LSD de
Fisher a 95% de confiança (Figura 12). Ambas espécies apresentam hábito alimentar carnívoro
e se encontram no topo da cadeia alimentar, estando assim expostas a biomagnificação,
processo no qual há o aumento da concentração de substâncias em organismos vivos de acordo
com a cadeia alimentar. O tucunaré apresenta também o habito territorialista e dominante, com
hábito voraz na busca por alimento (SAMPAIO et al., 2000; SOARES & ARAÚJO-LIMA,
2003) o que faz com que ele fique por mais tempo em um determinado local do rio,
possibilitando uma maior exposição aos agentes nocivos. Enquanto a piranha é considerada um
médio migrador. Os hábitos migratórios limitados de ambas espécies indicam mais um fator de
maior exposição aos compostos nocivos, que pode ter causado a maior presença de
anormalidades.
Figura 14. Frequência média de anormalidades por espécies segundo o método LSD de Fischer.
CONCLUSÃO
Os resultados obtidos apontam possíveis mudanças na qualidade de água o que reflete
na saúde dos organismos que ali vivem, como demonstrado pelo maior número de
anormalidades nas cidades com maior concentração populacional à margem do rio, como
Piranhas, Igreja Nova e Porto Real do Colégio, municípios que além da pesca e agricultura,
possuem também o turismo (Piranhas) como fonte de geração de renda.
Com relação à frequência de anormalidades por espécies pode-se supor que os
organismos reagem de formas diferentes à exposição aos agentes nocivos, essa diferença pode
ser explicada pelos hábitos alimentares e comportamentais. O que explica a diferença na
frequência de anormalidades encontradas nos indivíduos piranha verdadeira (P. piraya) e
tucunaré (C. monoculus), que são animais de hábito alimentar carnívoro, estando no topo da
cadeia alimentar, sendo expostos ao processo de biomagnificação, causando uma maior
exposição aos agentes nocivos e acumulo de material residual, resultando em uma maior
frequência de anormalidades nesses indivíduos.
Tais resultados geram uma preocupação com a saúde do Rio como um todo, mas
principalmente com o estado dos organismos que ali vivem. Os danos aqui observados no
material nuclear, podem de forma direta ou indireta impactar na manutenção e sobrevivência
destas diferentes e importantes espécies (alguma endêmicas) em tal ecossistema.
AGRADECIMENTOS
Nossos sinceros agradecimentos aos pescadores (Rodrigo e Márcio) e aos moradores do Baixo
São Francisco pela acolhida. Nossos agradecimentos pelo apoio, à Universidade Federal de
Alagoas (UFAL), ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), a Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL) e EMATER-AL, entre outras
instituições que contribuíram de alguma forma para a realização deste projeto.
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Identificação Morfológica de Microparasitas da Fauna Aquática do
Baixo São Francisco
Karina Leitão de Oliveira¹; Emilly Valentim de Souza¹; Lucas de Oliveira Arruda¹; Vivian
Costa Vasconcelos²; Emerson Carlos Soares3; Themis de Jesus da Silva4.
¹Graduandos em Zootecnia, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de
Alagoas - Laboratório de Aquicultura.
²Mestre em Zootecnia, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas
- Laboratório de Aquicultura.
³Professor do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas Laboratório de Aquicultura.
4
Professora do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas Laboratório de Aquicultura.
RESUMO
A região do Baixo Rio São Francisco tem aproximadamente 214 km, nesta região são
exercidas diversas atividades econômicas, a maioria ligada à agricultura e pesca. A degradação
ambiental desta região pode afetar o sistema imunológico dos organismos aquáticos e favorecer
o aparecimento de microparasitas, entre os quais, espécies do gênero Calyptospora. Durante a
II Expedição Científica foram capturadas diversas espécies de peixes, entre eles seis tucunarés,
que após a biometria foram dissecados e os órgãos comumente infectados por microparasitas
passaram por uma análise a fresco. Os microparasitas do gênero Calyptospora foram
observados no tecido hepático e vesícula biliar, dispostos em pequenos aglomerados ou
isolados. A identificação morfológica foi possível através da observação dos vacúolos
parasitóforos com quatro esporocistos no centro em formato elipsoidal. Desta forma, é
importante conhecer os microparasitas que infectam as espécies que habitam o Baixo São
Francisco e avaliar os impactos causados pelos mesmos.
Palavras chave: Apicomplexa, Calyptospora, microparasitas, tucunaré.
INTRODUÇÃO
O Rio São Francisco é um dos rios mais importantes do Brasil, possui grande relevância
socioeconômica para o país, segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
CBHSF (2014) o mesmo possui 2.700 km de extensão, nasce na Serra da Canastra em Minas
Gerais, escoando no sentido sul-norte pela Bahia e Pernambuco, chegando ao Oceano Atlântico
entre a divisa de Alagoas e Sergipe. É dividido em alto, médio, submédio e baixo. De acordo
com a Secretaria de Recursos Hídricos (2006), a região do Baixo São Francisco (BSF) tem
aproximadamente 214 km de extensão, passando por 86 municípios, tem início a partir do
município de Paulo Afonso (BA) passa por todo estado de Alagoas e Sergipe até os municípios
de Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE), onde está localizada sua foz.
Nas últimas décadas o BSF vem enfrentando diversas problemáticas, que afetam
diretamente os organismos aquáticos, de acordo com o CBHSF (2016) o rio vem sofrendo
degradações que levam a sérios impactos ambientais, o desmatamento para as monoculturas
compromete a bacia e contribui para o assoreamento, a poluição urbana, industrial, minerária e
agrícola, o uso de agrotóxico em lavouras próximas ao rio, e a construção de barragens e
hidrelétricas que realocam comunidades inteiras e que impedem os ciclos naturais do rio. Além
desses fatores, a pesca predatória e a introdução de peixes exóticos também contribuem para
ocorrência de desequilíbrios ambientais do rio.
O tucunaré (Cichla monoculus) é um peixe exótico do BSF, introduzido pelo homem.
Segundo Santos et al. (2001), é um peixe natural da Bacia Amazônica e representa o principal
grupo de peixes piscívoros da família Cichlidae na América do Sul. O tucunaré (C. monoculus)
é uma espécie sedentária adaptada a ambientes lênticos, e um predador com hábitos diurnos e
se alimenta preferencialmente de peixes, crustáceos, e eventualmente insetos (MÜLLER,
2008),
A poluição que assola os rios atinge diretamente a sanidade e o bem estar dos pescados.
Segundo Eiras (1994), a elevação da poluição nas águas pode estar relacionada com aumento
da frequência de animais atingidos por microparasitas.
Os pescados atingidos por microparasitas tendem a sofrer grande estresse no ambiente,
diminuindo sua expectativa de vida. Os parasitos também possuem uma relevância econômica
que não consiste apenas em seu caráter letal, muitas vezes as parasitoses têm outras
consequências importantes, que não são tão evidentes, como a diminuição da eficiência de
assimilação de alimento, da taxa de crescimento e diminuição do valor do produto final para a
comercialização (EIRAS, 1994). Espécies do gênero Calyptospora são microparasitas de peixes
pertencentes ao Filo Apicomplexa, os microparasitas deste gênero têm como hospedeiro
definitivo os peixes, onde parasitam principalmente o parênquima hepático. Apenas cinco
espécies foram descrita na literatura, sendo que três delas ocorrem em pescados de água doce
do Brasil (WHIPPS et al., 2012).
Os oocistos de Calyptospora sp., quando observados em microscopia de luz (ML),
formam vacúolos parasitóforos com quatro esporocistos, cada um contendo em seu interior dois
esporozoítos. Em muitos casos, são observadas células iniciais do ciclo de vida ou já formando
vacúolos parasitóforos, quando se encontram diferentes fases do ciclo de vida, variando a forma
dos esporocistos, de arredondada a elipsoide (AZEVEDO; MATOS; MATOS, 1995).
A II Expedição Cientifica do Rio São Francisco, abrangeu desde o município de Piranhas
até a sua foz em Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE). Nesta região são exercidas diversas
atividades que movimentam a economia de muitas famílias ribeirinhas que dependem do rio
para sobreviver, dando destaque para atividades como a pesca, agricultura familiar, turismo e
monoculturas. Assim, o presente trabalho teve como objetivo analisar peixes economicamente
importantes e identificar morfologicamente microparasitas da fauna aquática do Baixo Rio São
Francisco e avaliar os possíveis impactos causados pelos mesmos.
METODOLOGIA
As coletas foram realizadas durante a II Expedição do Baixo Rio São Francisco
(Autorização ICMBio – MMA – 56475-10), no período de 18 a 28 de novembro de 2019, em
oito municípios a margem do rio: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Penedo, Igreja Nova, Porto
Real do Colégio/Propriá (SE) e Piaçabuçu/Brejo Grande (SE) (Figura 1).
Com o auxílio de pescadores, foram coletadas várias espécies entre as quais seis
tucunarés (C. monoculus), todos foram examinados em busca de microparasitas. Os animais
passaram por biometria, onde foram pesados e medidos (comprimento total e padrão) (Figura
2).
Após a biometria os peixes foram observados em lupa estereoscópica para ver sinais de
cistos ou descoloração de algum órgão e depois dissecados. Foram retirados pequenos
fragmentos (cerca de 3 mm) de tecidos e/ou órgãos, entre os quais brânquias, fígado, vesícula
biliar, músculo. Cada fragmento foi colocado em lâmina histológica, foi adicionado um pouco
de água destilada na lâmina com ajuda de uma pipeta, processo necessário para o tecido não
desidratar e para melhor aderência da lamínula de vidro, que é colocada por cima da lâmina.
Figura 1. Embarcação usada nas atividades da expedição no
baixo São Francisco.
Figura 2. Local de coleta de dados e de retirada de
material dos peixes, para análise.
Depois de preparadas as lâminas foram observadas e foi realizada a análise a fresco
em microscópio óptico. Quando observado a presença de microparasitas foram realizados
registros fotográficos (1000x) (Figura 3).
Figura 3. Análise a fresco de fragmentos de
órgãos, observados em microscópio óptico.
RESULTADOS
As características morfológicas dos achados observados no microscópio óptico sugerem
que os microparasitas encontrados sejam do gênero Calyptospora, os mesmos foram
encontrados em espécimes de tucunaré (C. monoculus), peixe exótico do BSF. Foram
capturados seis exemplares de tucunarés (C. monoculus), sendo um capturado no ponto de Porto
Real do Colégio, dois em Piranhas, e três em Traipu. Destes espécimes capturados, todos foram
analisados, e cinco apresentaram microparasitas do gênero Calyptospora, uma prevalência de
83,33%. Os órgãos acometidos pelos microparasitas foram vesícula biliar e fígado.
A partir de análises post-mortem dos pescados, foi possível observar com auxílio da
lupa uma tonalidade mais clara em parte do fígado de alguns indivíduos coletados (três dos
cincos infectados), fator que pode ser um indício de infestação por microparasitas, de acordo
com estudos realizados por Lom et al. (1992). No microscópio óptico foi realizada a
visualização e confirmação da presença dos mesmos, os microparasitas foram encontrados no
tecido hepático, na vesicular biliar e na bile, estavam dispostos em pequenos aglomerados ou
isolados (Figura 4).
A identificação dos microparasitas do gênero Calyptospora, foi realizada através da
visualização dos vacúolos parasitóforos, com sua morfologia esférica e dentro deste os quatro
esporocistos (Figura 5). Segundo Eiras et al. (2006), os esporocistos são responsáveis pela
liberação dos esporozoítos vermiformes, essa liberação assegura a contaminação de novos
hospedeiros. Nosso achados são semelhantes aos descritos por Azevedo et al. (1993) e Casal et
al. (2007).
Figura 4. Aglomerado de oocistos do gênero
Calyptospora, parasitando o tecido hepático do
tucunaré (Cichla monoculus (1000x).
Figura 5. Observação a fresco em microscópio óptico
(1000x), de oocistos do gênero Calyptospora isolados,
contendo quatro esporocistos, parasitando vesícula biliar de
tucunaré (Cichla monoculus).
Achado semelhante foi descrito em estudo feito por Casal et al. (2007), nas espécies
Serrasalmus striolatus e Serrasalmus rhombeus, coletadas no estuário do rio Amazonas (PA) e
na lagoa Dois Irmãos (PE), respectivamente, onde foi descrito o microparasita da espécie
Calyptospora serrasalmi. Como nos descritos aqui estes encontravam-se em vários estágios do
ciclo de vida, os oocistos maduros formavam grupos encapsulados que variaram de tamanho e
ocorreram em áreas limitadas.
Figura 6. (a; b) Desenho esquemático da organização morfológica de
um grupo de oocistos. (c) Um oocisto com quatro esporocistos. (d; e)
Esporocistos contendo cada um, dois esporozoítos. Fonte: (CASAL et
al., 2007).
Estudo realizado por Velasco et al. (2012), no rio Tocantins, apontou resultados
semelhantes, oocistos pertencentes ao gênero Calyptospora sp., parasitando o fígado de
espécimes de tucunaré (C. monoculus), que apresentava regiões de coloração diferenciada,
ocupando grandes áreas do órgão.
Békési e Molnár (1991), em inspeção de rotina em reservatórios do Nordeste brasileiro
identificaram a presença de infecção coccidiana grave por Calyptospora tucunarensis em
espécimes de traíra (Hoplias malabaricus) e tucunaré (C. monoculus), o material analisado
indicou degeneração severa e cor amarelada do fígado, que continham massas de oocistos em
focos e tamanhos variados. Estes autores sugeriram que os coccídios ocorrem frequentemente
em peixes do continente Sul-americano.
Azevedo; Matos; Matos (1993) descreveram a morfologia de Calyptospora spinosa,
pela primeira vez na literatura, os microparasitas foram encontrados em espécimes adultas de
Crenicichla lepidota no rio Amazonas (PA). Os oocistos foram encontrados agrupados nos
tecidos do fígado, testículos e ovário, foram encontradas infecções severas no tecido hepático
do hospedeiro, causando hipertrofia e destruição nuclear e citoplasmática.
Segundo Fournie et al. (2000), o modo de transmissão de microparasitas do gênero
Calyptospora, ainda não é bem conhecido, mas a infecção por ingestão tem sido sugerida como
sendo a via mais provável de contaminação. Desta forma é importante continuar o estudo de
microparasitas no baixo São Francisco, pois os mesmos podem atingir espécies endêmicas e
economicamente importantes do rio e comprometer a sobrevivências de tais espécies.
CONCLUSÃO
A presença de microparasitas do gênero Calyptospora em tucunaré (Cichla monoculus)
no BSF pode estar relacionada com algum tipo de desequilíbrio ambiental, como a poluição
que atinge a bacia hidrográfica do Rio São Francisco.
O presente trabalho é de grande importância, pois, foi o primeiro registro deste
microparasita em um peixe do BSF, mesmo que exótico. Assim é necessário entender quais
impactos tais microparasitas têm sobre a saúde dos peixes, seu comportamento, ciclo de vida,
e consequentemente, o impacto para as pessoas que vivem da pesca.
Com tal registro existe a necessidade de aprofundar os estudos e análises nesta linha,
com a finalidade de conhecermos qual espécie de Calyptospora está infectando peixes do São
Francisco. Existe uma pergunta a ser respondida. Estes são da mesma espécie que infectam os
tucunarés da bacia Amazônica?
AGRADECIMENTOS
Nossos sinceros agradecimentos aos pescadores (Rodrigo e Márcio) e aos moradores do
Baixo São Francisco pela acolhida. Nossos agradecimentos pelo apoio, à Universidade Federal
de Alagoas (UFAL), ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), a
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL) e EMATER-AL, entre outras
instituições que contribuíram de alguma forma para a realização deste projeto.
REFERÊNCIAS
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parasite Calyptospora spinosa from the liver of the Amazonian fish, Crenicichla lepidota
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(Apicomplexa, Calyptosporidae) Parasite of Crenicichla lepidota HEKEL, 1840 (Teleostei)
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the liver of tucunare Cichla ocellaris in Brazil. Systematic Parasitology. 18: 127-132, 1991.
CASAL, C.; PADOVAN, I.; MATOS, E.; PADOVAN, P.; MATOS, P.; GUIMARÃES, A.;
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cheung, nigrelli & ruggieri, 1986 (Apicomplexa: Calyptosporidae), a parasite found in two new
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problemas que afetam o Velho Chico. CBHSF. 2016. Disponível em:
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Níveis dos Metais mercúrio, cádmio, chumbo, zinco, cobre, cromo, ferro e
manganês e do metaloide arsênio em Músculo de Peixes do Baixo São
Francisco.
Carlos A. da Silva1, Hortência L. P. de Santana2, Silvânio S. L. da Costa2, Carlos Alexandre B.
Garcia2, Marcus Soares Cruz1
1
Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe;
2
Universidade Federal de Sergipe, Laboratório de Tecnologia e Monitoramento Ambiental, São
Cristóvão, Sergipe.
RESUMO
Os pescados possuem características nutritivas, além de serem apreciados e constituírem parte
importante da dieta de grande parte das populações costeiras e ribeirinhas. O objetivo desse
estudo foi determinar e qualificar as concentrações dos metais mercúrio, cádmio, chumbo,
zinco, cobre, cromo, ferro e manganês e do metaloide arsênio encontradas nos músculos dos
peixes capturados durante a Expedição Científica do baixo rio São Francisco tomando-se como
base os Limites Máximos de Tolerância (LMT). Foram capturadas 15 espécies de peixes por
pescadores locais. A determinação da concentração de mercúrio total foi por espectrofotometria
de absorção atômica utilizando-se o analisador direto de mercúrio. A determinação quantitativa
dos demais elementos, foi por espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado. A
concentração média de arsênio nos peixes foi de 0,17 ± 0,04 mg/kg, acima do LMT de 1,0
mg/kg para o arsênio. A concentração média de zinco foi de 6,01 ± 0,42 mg/kg, portanto
nenhuma das espécies analisadas no presente estudo apresentaram níveis de zinco acima do
LMT de 50 mg/kg. A concentração média de cromo no presente estudo foi de 0,45 ± 0,06
mg/kg, sendo que todas as espécies avaliadas apresentaram concentrações médias de cromo
superiores ao LMT de 0,1 mg/kg. A concentração média de manganês foi de 0,75 ± 0,15 mg/kg
e a média geral da concentração de ferro nas espécies avaliadas foi de 9,64 ± 0,81 mg/kg,
contudo não há na legislação brasileira limites máximos em pescado prescritos para esse Fe e
Mn. A concentração média de cobre encontrado nos peixes foi de 0,38 ± 0,09 mg/kg, os peixes
avaliados nesse estudo apresentaram teores de cobre inferiores ao LMT de 30 mg/kg. A
concentração média de mercúrio total nos peixes foi de 0,08 ± 0,01 mg/Kg, todavia nenhuma
das espécies de peixes analisadas apresentaram concentração de Hg acima do LMT estabelecido
pela legislação brasileira de 0,5 mg/Kg. O chumbo não foi detectado em sete das espécies
analisadas, adicionalmente, nenhuma das espécies de peixes avaliadas no Baixo São Francisco
registraram concentrações de chumbo acima do LMT de 0,3 mg/kg. Todos os exemplares de
peixes analisados apresentaram níveis de cádmio abaixo do limite de detecção de 0,023 mg/kg.
Os metais e o metaloide arsênio presentes nos peixes capturados no baixo São Francisco
apresentaram as concentrações médias na seguinte ordem decrescente: Fe > Zn > Mn > Cu >
As > Hg > Cr > Pb > Cd.
Palavras chave: LMT, risco à saúde.
INTRODUÇÃO
A ingestão de alimentos ricos em nutrientes é um passo fundamental para manter uma
vida saudável. Os pescados possuem características nutritivas, além de serem apreciados e
constituírem parte importante da dieta de grande parte das populações costeiras e ribeirinhas.
A carne de peixe é rica em aminoácidos essenciais, vitaminas, micro e macroelementos,
e ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa n-3 como o ácido docosahexaenóico (DHA) e
o ácido eicosapentaenóico (EPA), e também é baixo em colesterol (GUIL-GUERRERO;
VENEGAS-VENEGAS; RINCON-CERVERA, 2011). Estas características conferem à carne
de peixe a vantagem de se qualificar como um dos alimentos mais saudáveis (STORELLI 2008;
AFONSO et al., 2013; FARRUGIA et al., 2015); seu consumo é benéfico para o crescimento e
desenvolvimento neurológico e reduz o risco de acidente vascular cerebral e a incidência de
doenças cardiovasculares, ao mesmo tempo que melhora a resposta imune (AMIGÓ et al., 2020;
HE 2009; POHLENZ e GATLIN, 2014). Em contraste com as vantagens dietéticas dos peixes,
no entanto, o risco potencial de exposição a contaminantes químicos contidos no peixe também
devem ser considerados, ao avaliar a influência deste alimento na saúde humana (BOSCH et al.
2016).
Dentre estes, os elementos potencialmente tóxicos se destacam devido à capacidade de
acumular nos tecidos dos organismos aquáticos e a possibilidade de atingir humanos por meio
da cadeia trófica causando efeitos perigosos à saúde humana. No Brasil, a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (ANVISA) é a responsável pela fiscalização de contaminantes em
alimentos por meio dos Limites Máximos de Tolerância (LMT) para contaminantes inorgânicos
publicados pela Resolução ANVISA Nº 42 de 29 de agosto de 2013 (ANVISA, 2013). Os
valores do LMT para metais em peixe são: cádmio 0,05 mg/kg e 0,3 mg/kg dependendo da
espécie; chumbo 0,3 mg/kg para todas as espécies e mercúrio 0,5 mg/kg para peixes não
carnívoros e 1, 0 mg/kg para carnívoros, e para o metaloide arsênio 1,0 mg/kg.
O conhecimento sobre o potencial risco do consumo de peixes que possam apresentar
teores de arsênio, cádmio e chumbo acima dos LMT é de suma importância para subsidiar as
agências de saúde e de vigilância sanitária sobre as recomendações dos níveis seguros de
consumo em particular para crianças, mulheres grávidas e também lactantes. Apesar das
incertezas do risco/benefício, a demanda por produtos pesqueiros está aumentando em todo o
mundo enquanto os desembarques de pescado capturados permanecem estáveis (FAO, 2020).
O objetivo desse estudo foi determinar e qualificar as concentrações dos metais mercúrio,
cádmio, chumbo, zinco, cobre, cromo, ferro e manganês e do metalóide arsênio encontradas
nos músculos dos peixes capturados durante a Expedição Científica Velho Chico tomando-se
como base os Limites Máximos de Tolerância.
Área de estudo e metodologia
A área de estudo localiza-se na região do Baixo São Francisco (BSF) entre os estados
de Sergipe e Alagoas. O estudo abrangeu os municípios alagoanos de Traipu, Porto Real do
Colégio, Igreja Nova, Penedo, Neópolis e Piaçabuçu e o município sergipano de Brejo Grande,
percorrendo um trajeto por hidrovia de cerca de 140 km em setembro de 2018. As 15 (quinze)
espécies de peixes (Tabela 1) totalizando 41 (quarenta e um) exemplares foram capturadas
durante a I Expedição Científica em outubro de 2018 por pescadores locais em barcos com
motor de 5 Hp, utilizando-se tarrafas de 6 metros e redes de emalhar de 30, 40 e 50 mm de 100
metros e, dispostas no rio segundo orientação dos pescadores em diferentes estações
georreferenciadas no Baixo São Francisco.
Na II Expedição Científica realizada em novembro de 2019, foram processadas 22 (vinte
e duas) espécies de peixes totalizando 77 (setenta e sete) exemplares. As amostras foram
submetidas ao processo de digestão conforme metodologia apresentada e os extratos
encontram-se conservados a 4°C aguardando análise. Os níveis dos metais nos peixes
capturados na II Expedição não puderam ser quantificados e os resultados incluídos neste
relatório devido ao evento da pandemia da Covid-19 que impõe restrições de distanciamento
social com o fechamento dos laboratórios e desligamento dos equipamentos, além do regime
de teletrabalho do pessoal técnico envolvido nas análises.
Tabela 1. Classificação, habitat, hábito alimentar das espécies de peixes estudadas na I
Expedição Científica do Baixo São Francisco.
Nome vulgar
N
Família
Nome científico
Habitat
Bagre
1
Ariidae
Cathorops agassizii
Bentônico
Hábito
alimentar
Onívoro
Baiacu
1
Tetraodontidae
Lagocephalus laevigatus
Pelágico
Carnívoro
Carapeba
3
Gerreidae
Eugerres brasilianus
Demersal
Carnívoro
Curimatã
pacu
Pacu
1
Prochilodontidae
Prochilodus argenteus
Bentônico
Detritívoro
7
Serrasalmidae
Metynnis maculatus
Bentopelágico
Onívoro
Piau branco
2
Anastomidae
Schizodon knerii
Bentopelágico
Onívoro
Piau pintado
3
Anastomidae
Megaleporinus obtusidens
Bentopelágico
Onívoro
Pirambeba
3
Serrasalmidae
Serrasalmus brandtii
Bentopelágico
Carnívoro
Piranha
vermelha
Robalo
1
Serrasalmidae
Pygocentrus piraya
Pelágico
Carnívoro
4
Centropomidae
Centropomus parallelus
Demersal
Sargo
2
Sparidae
Archosargus probatocephalus
Tilápia
3
Cichlidae
Oreochromis niloticus
Associado a
recifes
Bentopelágico
Piscívoro,
carnívoro
Carnívoro
Traíra
2
Erythrinidae
Hoplias microcephalus
Bentopelágico
Piscívoro
Tucunaré
6
Cichlidae
Cichla monoculus
Bentopelágico
Piscívoro,
Xareú
1
Carangidae
Caranx latus
Associado a
recifes
Carnívoro
Onívoro
N = número de exemplares
Os peixes foram identificados de acordo com Bristski et al. (1988), Barbosa et al. (2017)
e Lessa e Nóbrega (2000). Imediatamente à captura, amostras de músculo dos pescados foram
obtidas a bordo com a retirada de porções da musculatura da região latero-dorsal somando cerca
de 30 g a 150 g dependendo do tamanho do peixe para análise de metais e, posteriormente,
foram transportadas refrigeradas em caixas térmicas até o Laboratório de Estudos e Impactos
Ambientais (LabEIA) da Embrapa Tabuleiros Costeiros, em Aracaju, SE. Todo o material
biológico foi acondicionado em recipientes plásticos previamente imersos em banho ácido de
HNO3 10% v/v por 24 horas e enxaguados com água Mili-Q (18 μΩ), devidamente identificado
e estocado em temperaturas abaixo de -15 °C em freezer até o momento da liofilização.
Previamente a liofilização, as amostras foram mantidas em ultra freezer a -80 ºC para acelerar
esse processo. As amostras congeladas foram liofilizadas por 48 horas utilizando um
liofilizador Liotop modelo L101, vácuo final de 3,7 μHg e posteriormente armazenadas em
freezer a -15°C. Em seguida, foram trituradas em um processador doméstico para obter
amostras homogêneas. Entre cada trituração, o processador foi lavado com solução de ácido
nítrico a 10% v/v e em seguida com água Mili-Q (18 μΩ) para evitar contaminações cruzadas
entre amostras.
A determinação da concentração de mercúrio total foi por espectrofotometria de
absorção atômica utilizando-se o analisador direto de mercúrio (DMA-80, Milestone, Itália) de
acordo com o método USEPA 7473, recomendado pela United States Environmental Protection
Agency (USEPA, 2007). Todas as análises de Hg foram realizadas em triplicata no Centro
Integrado de Recursos Pesqueiros e Aquicultura de Três Marias da CODEVASF.
No processo de digestão das amostras para análise de arsênio, cádmio, chumbo, zinco,
cobre, cromo, ferro e manganês foi utilizado cerca de 0,40 g de músculo liofilizado pesado
diretamente nos tubos de digestão e, em seguida, adicionado 10 mL de ácido nítrico (HNO3) na
concentração de 7 M e 2 mL de peróxido de hidrogênio 30% v/v (H2O2, Merk, EMSURE®)
conforme metodologia adaptada de Jarić et al. (2011). O ácido nítrico PA foi bidestilado em
um purificador de ácido Milestone modelo Duo-Pur. Na digestão das amostras foi utilizado um
micro-ondas Mars na potência de 1.500 W por 40 minutos. Em seguida, as amostras digeridas
foram avolumadas para 15 mL com água Milli-Q Gehaka modelo Master All (1,47 µΩ.cm) e
conservadas a 4 °C até serem analisadas. A determinação quantitativa dos metais, exceto o Hg,
foi por espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado (ICP-MS, Thermo,
Alemanha) no Laboratório de Tecnologia e Monitoramento Ambiental, da Universidade
Federal de Sergipe. Na validação dos métodos analíticos foram utilizados os materiais de
referência certificados de tecido de peixe NIST-1566b e DORM-4, com base nos valores de
recuperação dos analitos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Em relação à precisão e exatidão do método analítico, os valores de recuperação dos
analitos encontram-se dentro da faixa de 85% a 117% aceitável para a análise de elementos
traços (Tabela 2).
Tabela 2. Recuperação percentual nos materiais de referência e limite de detecção dos metais
e metalóide (n= 3).
Elemento Recuperação
Hg
Limite de Detecção
(%)
(mg/kg)
99,86
0,013
As
102,2
0,019
Cd
97,8
0,006
Pb
97,8
0,023
Cu
99,0
0,23
Fe
116, 7
4,21
Mn
85,8
0,43
No cálculo das concentrações médias dos elementos foram consideradas dez espécies
de peixes (Tabela 3), sendo excluídas as cinco espécies que apresentaram um único exemplar
nas amostras. Os valores estão representados em base úmida (mg/kg) para fins de comparação
com os valores publicados pela legislação brasileira.
Tabela 3. Concentrações médias ± desvio padrão dos metais e metalóide (mg/kg peso úmido) em dez espécies de peixes capturados na I Expedição
Científica do Baixo São Francisco.
Espécies
Mercúrio
Arsênio
Carapeba
0,16 ± 0,02
0,20 ± 0,01
Pacu
0,06 ± 0,01
0,18 ± 0,02
Piau branco
0,03 ± 0,005
0,06 ± 0,005
Piau pintado
0,03 ± 0,002
0,05 ± 0,003
Pirambeba
0,05 ± 0,01
0,07 ± 0,00
Robalo
0,12 ± 0,01
0,34 ± 0,02
Sargo
0,15 ± 0,02
0,50 ± 0,29
Tilápia
0,05 ± 0,002
0,10 ± 0,01
Traíra
0,08 ± 0,003
0,11 ± 0,01
Tucunaré
0,09 ± 0,01
0,11 ± 0,01
< LD = menor que o Limite de Detecção
Cádmio
< LD
< LD
< LD
< LD
< LD
Chumbo
Zinco
Cobre
Cromo
Ferro
Manganês
< LD
6,99 ± 1,09
0,34 ± 0,04
1,25 ± 0,09
18,41 ± 1,02
< LD
0,03 ± 0,01
6,30 ± 0,51
0,41 ± 0,04
0,73 ± 0,08
12,95 ± 0,20
0,99 ± 0,20
< LD
6,65 ± 0,46
0,43 ± 0,03
0,19 ± 0,03
6,78 ± 0,37
0,67 ± 0,03
0,03 ± 0,01
6,68 ± 0,33
0,39 ± 0,13
0,33 ± 0,01
9,33 ± 0,83
0,83 ± 0,15
0,027 ± 0,01
8,22 ± 0,23
0,40 ± 0,10
0,75 ± 0,21
11,64 ± 0,38
1,07 ± 0,30
4,54 ± 0,37
< LD
0,31 ± 0,03
6,77 ± 1,86
0,57 ± 0,17
5,96 ± 0,28
0,32 ± 0,25
0,20 ± 0,02
8,32 ± 2,33
0,44 ± 0,21
5,99 ± 0,59
0,45 ± 0,05
0,20 ± 0,03
5,54 ± 0,77
0,72 ± 0,03
7,12 ± 0,09
< LD
0,28 ± 0,01
5,64 ± 0,02
0,82 ± 0,02
8,66 ± 0,28
0,30 ± 0,05
0,27 ± 0,06
11,08 ± 0,34
0,66 ± 0,21
< LD
< LD
< LD
< LD
< LD
< LD
< LD
< LD
< LD
< LD
Arsênio
A concentração média de arsênio nos peixes foi de 0,17 ± 0,04 mg/kg. O menor teor médio
de 0,05 ± 0,003 mg/kg foi detectado no piau pintado capturado em Traipú/AL e o maior de 0,50 ±
0,29 mg/Kg no sargo procedente de Piaçabuçu/AL. Valores acima do LMT de 1,0 mg/kg para o
arsênio (ANVISA, 2013) foram encontrados nos exemplares únicos do baiacu (2,42 ± 0,63 mg/Kg)
e bagre (1,96 ± 0,34 mg/Kg), ambos capturados em Piaçabuçu/AL.
O nível médio de As de 0,17 ± 0,04 mg/kg nos peixes do Baixo São Francisco avaliados
neste estudo são inferiores aos de 0,37 ± 0,32 mg/Kg observados em peixes do Rio Piracicaba, SP
(MECHE et al., 2010). Apesar dos valores médios estarem abaixo do limite de concentração
recomendado de 1,0 mg/kg, a bacia do rio Piracicaba/SP é considerada como área influenciada por
fontes de contaminação devido a descarga contínua de efluentes proveniente da indústria,
agricultura e despejos domésticos (MECHE et al., 2010). Por outro lado, Machado et al. 2017
relataram níveis médios de 0,033 ± 0,005 mg/Kg na ictiofauna no Rio Pardo, SP inferiores aos
deste estudo. Maior amplitude de variação nas concentrações de arsênio de 0,07 a 2,03 mg/kg foram
encontrados em treze espécies de peixes marinhos comercializados em Aracaju, SE (SILVA et al.,
2020).
O arsênio é um semi-metal (metalóide) que ocorre naturalmente na crosta terrestre e obtido
como subproduto do tratamento de minérios de cobre, chumbo, cobalto e ouro. O metalóide é
largamente difundido no ambiente aquático devido a processos naturais como atividades vulcânicas
e intemperismo de rochas, e antropogênicos, especialmente a mineração, queima de combustíveis
fósseis e incineração de lixo (CETESB, 2019; KUMARI et al., 2017), uso de pesticidas, herbicidas
e fungicidas que contém arsênio (BOSCH et al., 2016), além de fundição de cobre e fabricação de
vidro (CASTRO-GONZÁLEZ; MÉNDEZ-ARMENTA, 2008).
Esse metalóide pode ser encontrado nos pescados em diferentes formas químicas podendo
variar grandemente dependendo do organismo, ambiente e região geográfica (MAHER et al.,
2018). As espécies orgânicas como arsenobetaína estão presentes em maiores quantidades acima
de 90% e são consideradas não tóxicas (LIN et al., 2005). Por outro lado, as espécies inorgânicas,
As V e As III, são tóxicas e as principais responsáveis por causar riscos à saúde humana que
incluem doenças cardiovasculares, hepáticas, renais e hematológicas (ATSDR, 2007; SANTOS et
al.; 2013). O arsênio inorgânico em doses crônicas pode provocar irritação do estômago, intestino,
pulmão e pele, bem como decréscimo na produção de células vermelhas e brancas no sangue
(DESESSO, 2001), hiperpigmentação e diabetes (TSENG et al., 2000) e a ingestão de quantidades
significantes deste elemento pode intensificar o desenvolvimento de câncer, em particular, câncer
84
linfático, de pele, pulmão e fígado (ATSDR, 2007, GAO et al., 2018; MUÑOZ et al., 2000).
Arsênio em níveis subletais pode induzir mutação ou danos no DNA dos peixes (AHMED et al.,
2011).
Cádmio
Todos os exemplares de peixes analisados apresentaram níveis de cádmio abaixo do limite
de detecção de 0,023 mg/kg, e portanto apresentaram concentrações de cádmio abaixo do LMT de
0,05 mg/kg publicado pela Resolução Anvisa Nº 42 de 29 de agosto de 2013 (ANVISA, 2013).
Teores de cádmio também não foram detectados em amostras de piaus Leporellus vittatus
e Leporinus octofasciatus e bagre Pimelodus maculatus do rio Pardo, SP (MACHADO et al.,
2017). Por outro lado, Arantes et al. (2016) registraram concentrações de cádmio variando de 0,07
± 0,06 a 0,19 ± 0,15 mg/kg em surubins Pseudoplatystoma corruscans do rio Paraopeba, MG.
Gomes e Sato (2011) encontraram níveis de cádmio em curimatã pacu Prochilodus
argenteus capturados à jusante da represa de Três Marias/MG no Rio São Francisco de 0,26 ± 0,08
mg/kg no período chuvoso e de 0,24 ± 0,04 mg/kg no período seco. No presente estudo, realizado
no Baixo São Francisco no período seco em 2018, o único exemplar de curimatã pacu capturado
apresentou nível de cádmio abaixo do limite de detecção de 0,023 mg/kg. O teor de cádmio das
curimatã pacu à jusante da represa de Três Marias/MG está acima do LMT de 0,05 mg/kg
(ANVISA, 2013) e pode ser atribuído a proximidade de áreas de atividade mineradora industrial
impactada pela descarga de rejeitos da indústria e de esgotos domésticos in natura no município
(GOMES et al., 2010).
O cádmio é encontrado na natureza associado a sulfitos de minérios de zinco, cobre e chumbo
sendo utilizado principalmente como anticorrosivo em aço galvanizado e seus compostos de
cádmio na fabricação de pilhas e baterias recarregáveis de níquel-cádmio, em componentes
eletrônicos e reatores nucleares. É introduzido no meio ambiente através de processos naturais
(emissões vulcânicas e intemperismo das rochas) e antropogênicos como fundição ou
galvanoplastia, queima de combustíveis fósseis, incineração de resíduos domésticos e industriais
e, o uso de fertilizantes fosfatados que contém cádmio (CETESB, 2018).
O cádmio pode ser absorvido pelos peixes por difusão passiva do meio aquático através das
brânquias ou por meio da ingestão dos primeiros elos da cadeia alimentar, microrganismos e
plâncton. Nos tecidos musculares, o cádmio está ligado às proteínas podendo bioacumular devido
a sua taxa de eliminação muito lenta (BOSH et al., 2016). É um metal altamente tóxico que pode
se concentrar no corpo humano por longos períodos de tempo e as implicações de saúde da
85
exposição de cádmio são agravadas pela incapacidade relativa dos seres humanos de excretar
cádmio (DURAL; GÖKSU; ÖZAK, 2007). Efeitos deletérios causados por exposição em longo
prazo ou a altas doses de cádmio foram relatados à causas de insuficiência renal e amolecimento
dos ossos e câncer de próstata (GRAY; HARRINS; CENTENO, 2005). Além de ser classificado
como cancerígeno, seu acumulo está relacionado com o comprometimento das funções renais,
capacidade reprodutiva, disfunção hepática e sistema nervoso (ULLAH et al., 2017; ZHONG et
al., 2018; ZALUAGA RODRIGUÉZ et al., 2015).
Zinco
A concentração média de zinco foi de 6,01 ± 0,42 mg/kg sendo que o menor valor médio
de 4,54 ± 0,37 mg/kg foi observado no robalo e o maior de 8,66 ± 0,28 mg/kg no tucunaré.
Nenhuma das espécies analisadas no presente estudo apresentaram níveis de zinco acima do LMT
de 50 mg/kg previsto na legislação brasileira conforme Decreto n.° 55.871 de 26/03/1965.
Concentração média de zinco de 5,77 ± 3,73 mg/kg em peixes do rio Pardo, SP
(MACHADO et al., 2017) e de 6,82 ± 3,00 mg/kg no rio São Francisco no trecho do Reservatório
da Usina Hidrelétrica da CEMIG até a foz do rio Abaeté (LABARRÈRE et al., 2012) são similares
as obtidas nesse estudo. Teores superiores de 17,81 ± 4,23 mg/kg a 21,71 ± 6,28 mg/kg foram
observados em surubins Pseudoplatystoma corruscans do rio Paraopeba, MG (ARANTES et al.,
2016). Dalzochio et al. (2017) registraram teores variando de 3,09 ± 3,87 mg/kg a 16,87 ± 12,58
mg/kg em lambaris Bryconamericus iheringii capturados no Rio Ilha, RS.
O zinco é um metal de cor branco-azulada encontrado na natureza principalmente sob a
forma de sulfetos, associado ao chumbo, cobre, prata e ferro. O zinco possui propriedade
anticorrosiva e tem larga aplicação na construção civil, na indústria automobilística e de
eletrodomésticos, destacando-se o seu uso na galvanização como revestimento protetor de aços
estruturais, folhas, chapas, tubos e fios (JESUS, 2001). As fontes antropogênicas ao meio ambiente
são mineração, produção de aço, ferro e zinco, queima de combustíveis fósseis, incineração de
resíduos e uso de fertilizantes e agrotóxicos contendo zinco (CETESB, 2018).
O zinco é um micronutriente essencial para todos os organismos com múltiplas funções
bioquímicas e desempenha papel vital no metabolismo de lipídios, proteínas e carboidratos, já que
é um componente ativo ou cofator de importantes sistemas enzimáticos; em particular nas sínteses
e metabolismo de ácidos nucléicos e proteínas (WHO/FAO, 1998). Peixes com um teor médio de
zinco de cerca de 3 a 5 mg/kg é uma boa fonte para este elemento essencial
86
(OEHLENSCHLAGER, 2002). A deficiência em zinco provoca transtornos como falta de apetite,
retardo do crescimento, declínio de defesa imunológica, lesões de olhos e pele, mau funcionamento
de cicatrização de feridas e dermatites (CETESB, 2018). A ingestão diária recomendada (IDR) de
zinco pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária é de 4,1 mg/dia para crianças de 1 a 3 anos e
de 7,0 mg/dia para adultos (ANVISA, 2005).
Chumbo
O chumbo não foi detectado em sete das espécies analisadas, sendo que duas, pacu Metynnis
maculatus e piau pintado Megaleporinus obtusidens, apresentaram teores de 0,03 ± 0,01 mg/kg e
a pirambeba Serrasalmus brandtii de 0,027 ± 0,01 mg/kg. Nenhuma das espécies de peixes
avaliadas no Baixo São Francisco registraram concentrações de chumbo acima do LMT de 0,3
mg/kg (ANVISA, 2013). Arantes et al. (2016) reportaram níveis de Pb variando de 0.94 ± 0.98 a
3.31 ± 4.64 mg/kg em surubins Pseudoplatystoma corruscans do rio Paraopeba, MG.
Teores de Pb de 2,69 mg/kg em Leporinus sp. e 0,66 mg/kg em Serrasalmus spilopleura
foram observados no rio Piracicaba, SP (MECHE et al., 2010), os quais são superiores aos das
espécies da mesma família Anastomidae e Serrasalmidae avaliadas nesse estudo, respectivamente.
Segundo os autores acima, os valores elevados de Pb nos peixes do rio Piracicaba podem estar
relacionados ao alto grau de poluição naquele ambiente. Similarmente, níveis elevados chumbo de
1,97 ± 0,10 mg/kg foram observados em carpa Cyprinus carpio de ambiente exposto às emissões
de efluentes da indústria de couro no rio Guarapuava, PR (REPULA et al., 2012).
O chumbo é encontrado naturalmente nas rochas e solos, onde a erosão e lixiviação
contribuem para sua entrada no ambiente aquático. É amplamente utilizado na indústria de
produção e reciclagem de baterias, tintas e vidros e, no passado, a combustão da gasolina aditivada
com chumbo foi considerada a fonte predominante do metal para a atmosfera (VON STORCH et
al., 2003). A deposição atmosférica é a principal rota de entrada do chumbo nos oceanos. A forma
divalente Pb II é absorvida nas brânquias, entra na corrente sanguínea do peixe e acumula nos
tecidos do animal, sendo o consumo de pescado importante rota de exposição em humanos e
encontrado especialmente nos tecidos musculares dos peixes (NUSSEY et al., 2000).
O chumbo é considerado um elemento não essencial, acumulando-se nos dentes, ossos,
fígado, rim, baço, órgãos vitais como pulmão e cérebro e atravessa a barreira hematoencefálica e a
placenta, podendo causar muitos efeitos nocivos, como neurotoxicidade, nefrotoxicidade e danos
nos sistemas hematológicos, cardiovasculares e reprodutivos (GARZA; VEGA; SOTO, 2006;
GARCÍA-LESTÓN et al., 2010). Os sintomas do envenenamento por chumbo são dor de cabeça,
87
irritabilidade, dor abdominal e vários sintomas relacionados ao sistema nervoso (CASTROGONZÁLEZ; MÉNDEZ-ARMENTA, 2008.).
Cromo
A concentração média de cromo no presente estudo foi de 0,45 ± 0,06 mg/kg. Os menores
e maiores teores médios encontrados no tecido muscular dos peixes foram de 0,19 ± 0,03 mg/kg
no piau branco e de 1,25 ± 0,09 nas carapebas. Todas as espécies avaliadas apresentaram
concentrações médias de cromo superiores ao LMT de 0,1 mg/kg prescrito no Decreto n.55.871 de
26/03/1965 para qualquer alimento.
Concentrações similares de Cr variando de 0.42 ± 0.32 a 0.54 ± 0.42 mg/kg foram
observados por Arantes et al. (2016) em surubins Pseudoplatystoma corruscans do rio Paraopeba,
MG. Em relação a tilápia Oreochromis niloticus, o nível médio de cromo de 0,20 ± 0,03 mg/kg é
inferior a de 0,37 mg/kg na mesma espécie do rio Piracicaba, Brasil (MECHE et al., 2010). Repula
et al. (2012) reportaram concentrações médias elevadas de cromo de 0,75 ± 0,06 mg/kg em Tilapia
rendalli de ambiente exposto às emissões de efluentes de curtume da indústria de couro no rio
Guarapuava/PR, Brasil.
Baggio e Horn, (2010) relataram que os teores de Cr nos sedimentos de fundo do rio do
Formoso – MG ultrapassaram os valores de referência estabelecidos pela Resolução CONAMA
344/2004 (CONAMA, 2004). Segundo os pesquisadores, a presença de Cr naquele ambiente está
associada aos resíduos metalorgânicos gerados pela agricultura comercial praticada na região e
também associada ao material de origem do solo. Este mecanismo de acúmulo de metais em
sedimentos pode estar contribuindo e influenciando uma maior biodisponibilidade de cromo no
Baixo São Francisco conforme os níveis desse metal acima do LMT encontrados nos peixes
avaliados. Estudos indicam que teores de cromo no ambiente aquático podem estar relacionado ao
uso indiscriminado no manejo agrícola de fertilizantes fosfatados devido à presença desse metal na
sua formulação (MENEZES, 2014).
O cromo (Cr) ocorre naturalmente em rochas e no solo, animais e plantas, apresentando
valências +3 e +6. O metal é utilizado na galvanoplastia, curtimento de couro, ligas metálicas ácidoresistentes, tintas anticorrosivas, em operações de cromagem (ácido crômico) e na impregnação de
madeira (ATSDR, 2009). O Cr III (cromo trivalente), o mais importante para a saúde humana em
pequenas quantidades, apresenta função vital no metabolismo de carboidratos, tolerância à glicose
e síntese de glicogênio, atuando como cofator para o hormônio insulina (WHO/FAO, 1998).
Estudos sobre o Cr VI (cromo hexavalente), a forma tóxica carcinogênica e mutagênica, apontam
88
que os compostos de cromo (VI) podem aumentar o risco de câncer de pulmão (ISHIKAWA et al.,
1994). A maior parte do cromo liberado na água deposita-se nos sedimentos e apenas uma pequena
porcentagem pode estar presente na água na forma solúvel e insolúvel (ATSDR, 2009).
No ambiente aquático, o cromo existe como cromato e é assimilado pelo fitoplâncton por
difusão passiva. No processo de bioacumulação, o cromo dissolvido, suspenso na água ou contido
no sedimento é absorvido pelos organismos, particularmente os peixes, através das brânquias e do
trato digestivo (MIRANDA FILHO et al., 2011). A saúde dos peixes também pode ser afetada pela
exposição ao cromo e sua presença junto com outros metais foi relacionada ao aumento do nível
de glicogênio em diferentes órgãos dos peixes, indicando estresse devido à exposição ao metal
(JAVED; USMANI 2011).
Manganês
A concentração média de manganês foi de 0,75 ± 0,15 mg/kg, sendo o menor valor de 0,44
± 0,21 mg/kg detectado no sargo pescado em Piaçabuçu/AL e o maior na pirambeba de 1,07 ± 0,30
mg/kg capturado em Traipu/AL. Não há na legislação brasileira limites máximos em pescados
prescritos para esse metal.
Medeiros et al. (2012) relataram teores de Mn variando de 0,07 a 7,3 mg/kg em peixes
comercializados no mercado de Niterói, RJ. Os níveis de Mn de 0,72 ± 0,03 mg/kg observados para
a tilápia são superiores aos reportados de 0,39 ± 0,03 mg/kg na mesma espécie no mercado de
Gaza, Palestina (ELNABRIS; MUZYED; EL-ASHGAR, 2013). Nos sargos capturados no BSF,
as concentrações médias de Mn de 0,44 ± 0,21 mg/kg são similares aos dos peixes do mesmo
gênero Archosargus rhomboidalis de 0,36 ± 0,01 mg/kg amostrados na Baía de Todos os Santos,
BA (SILVA et al., 2016).
O manganês (Mn) é um metal cinza claro e ocorre combinado com outras substâncias, como
o oxigênio, enxofre e cloro. O Mn inorgânico (retirado de rochas) é usado na fabricação de ligas
metálicas, especialmente aços, em pilhas, palitos de fósforo, vidros, fogos de artifício, na indústria
química de couro e têxtil, e como fertilizante. As formas orgânicas são usadas em fungicidas e
inibidores de fumaça, entre outros usos (CETESB, 2018). Processos de escoamento superficial e
lixiviação do solo facilitado pelas atividades agrícolas podem liberar Mn aos corpos de água,
enquanto as fontes antropogênicas incluem os agrotóxicos. No ambiente aquático, o manganês
pode acumular-se em alguns organismos, como algas, moluscos e alguns peixes, mas a
biomagnificação na cadeia alimentar parece não ser significativa, pois a bioacumulação do
manganês é maior em níveis tróficos inferiores do que nos superiores (CETESB, 2018). É um
89
elemento essencial para os seres humanos e deficiência de Mn causa anormalidades esqueléticas e
reprodutivas (SIVAPERUMAL; SANKAR; NAIR, 2007) e, por sua vez a ingestão excessiva de
Mn pode resultar em distúrbios neurológicos (MORENO et al., 2009). Como cofator ou
componente de vários sistemas enzimáticos chaves, o manganês é essencial na formação de ossos,
regeneração de células sanguíneas, metabolismo de carboidratos e o ciclo reprodutivo (WHO/FAO,
1998).
Ferro
A média geral da concentração de ferro nas espécies avaliadas foi de 9,64 ± 0,81 mg/kg. O
menor valor médio de 5,54 ± 0,77 mg/kg foi encontrado nas tilápias provenientes de Neópolis/SE
e o maior de 18,41±1,02 mg/kg nas carapebas capturados em Brejo Grande/SE. A legislação
brasileira não estabelece valores do LMT para os níveis de ferro.
Medeiros et al. (2012) relataram teores de ferro variando de 0,4 mg a 26,1 mg/kg em peixes
comercializados no mercado de Niterói, RJ. Teores de ferro de 18,88 ± 5,12 mg/kg em curimatã
pacu Prochilodus argenteus do rio Abaeté, MG afluente do Alto Rio São Francisco
(PASCHOALINI et al., 2019) são similares ao do único exemplar dessa espécie capturado durante
a expedição no Baixo São Francisco em 2018. Em contraste, concentrações elevadas de ferro de
318,43 ± 116,73 mg/kg foram encontradas na mesma espécie no rio Paraopeba, considerado
impactado por efluentes da mineração, curtumes, e despejos urbanos e rurais (ARANTES et al.,
2016).
No meio aquático, o ferro ocorre principalmente em águas subterrâneas devido à dissolução
do minério pelo gás carbônico da água, formando o carbonato ferroso que é solúvel e encontrado
em águas de poços contendo elevados níveis de concentração de ferro. Nas águas superficiais, os
níveis de ferro aumentam no período chuvoso devido ao escoamento superficial e lixiviação dos
solos. As contribuições antropogênicas são provenientes do lançamento de efluentes da indústria
metalúrgica e do processo de decapagem que realiza a limpeza da camada de ferrugem de artefatos
e peças construídos com esse metal.
O ferro no corpo humano está associado ao transporte de oxigênio através da hemoglobina,
sendo considerado um dos elementos mais importantes para o ser humano (SOUZA et al., 2009),
bem como componente essencial de vários sistemas enzimáticos, incluindo os citocromos,
catalases e peroxidases (WHO/FAO, 1998). Deficiência nos níveis adequados de ferro em humanos
causa anemia, redução da capacidade física no trabalho e afeta negativamente as defesas
imunológicas contra doenças. Os grupos com maior risco de deficiência de ferro são lactentes,
90
crianças, adolescentes, e mulheres em idade fértil, especialmente mulheres grávidas. Nos bebes em
amamentação, o suprimento adequado de ferro é muito importante
para o adequado
desenvolvimento do cérebro e outros tecidos, como músculos, que são diferenciados no início da
vida (WHO/FAO, 1998). A ingestão diária recomendada (IDR) de ferro pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária é de 6,0 mg/dia para crianças de 1 a 3 anos, de 14,0 mg/dia para adultos e de
27,0 mg/dia para gestantes (ANVISA, 2005).
Cobre
A concentração média de cobre encontrado nos peixes foi de 0,38 ± 0,09 mg/kg e os
menores e maiores valores foram de 0,30 ± 0,05 mg/kg em tucunarés e 0,62 ± 0,03 mg/kg em piau
branco, ambas espécies capturadas em diversos pontos do Baixo São Francisco. Todos os peixes
avaliados nesse estudo apresentaram teores de cobre inferiores ao LMT de 30 mg/kg estabelecido
no Decreto n.55.871 de 26/03/1965.
Em relação a tilápia, os níveis de cobre de 0,45 ± 0,05 mg/kg são inferiores aos reportados
de 0,64 ± 0.08 mg/kg por Elnabris, Muzyed e El-Ashgar (2013) na mesma espécie no mercado de
Gaza, Palestina. Teores similares aos do sargo de 0,32 ± 0,25 mg/kg foram obtidos em peixes do
mesmo gênero Archosargus rhomboidalis de 0,21 ± 0,02 mg/kg (SILVA et al., 2016). Uma maior
variabilidade nos teores de cobre de 0,03 a 23,5 mg/kg foram registrados em peixes
comercializados no mercado de Niterói, RJ (MEDEIROS et al., 2012).
O cobre é um metal avermelhado que ocorre naturalmente em rochas, solo, água,
sedimentos e, em níveis baixos no ar. É utilizado diretamente ou em liga na fabricação de fios,
chapas, tubos e outros produtos metálicos. Na agricultura, seus compostos são usados no tratamento
de doenças de plantas e água para consumo e como conservantes para madeira, couro e tecidos
(ATSDR, 2004). No metabolismo humano é um metal essencial de numerosos sistemas
enzimáticos de oxidação e está intimamente involucrado no metabolismo de ferro em consequência
na síntese e manutenção de células vermelhas do sangue (WHO/FAO, 1998). Seu nível é facilmente
regulado pelo metabolismo, o que dificulta muito a sua bioacumulação (PEREIRA et al., 2010).
Distúrbios gastrointestinais agudos como náuseas e vômitos, que geralmente ocorrem logo
após a ingestão e não são persistentes, tem sido relatado em humanos após a ingestão de grandes
quantidades de sais de cobre em água potável ou bebidas (ATSDR, 2004).
Mercúrio
91
A concentração média de mercúrio total nos peixes foi de 0,08 ± 0,01 mg/Kg, com o menor
e maior nível encontrados de 0,03 ± 0,003 mg/Kg nos piaus e de 0,16 ± 0,02 mg/Kg em carapeba.
Nenhuma das espécies de peixes analisadas apresentaram concentração de Hg acima do LMT
estabelecido pela legislação brasileira de 0,5 mg/Kg para não carnívoros e 1,0 mg/Kg para
carnívoros (ANVISA, 2013).
Os resultados do presente estudo estão de acordo com os valores médios nos pescados do
rio Jaguaribe, CE que variaram entre 0,013 ± 0,002 e 0,256 ± 0,198 mg/kg em treze diferentes
espécies (MOURA; COSTA; LACERDA, 2018). Os níveis de Hg nos robalos do BSF de 0,12 ±
0,02 mg/kg são similares aos do rio Jaguaribe de 0,124 ± 0,038 mg/kg nos exemplares de maior
porte. Os sargos capturados no BSF com 0,15 ± 0,00 mg/kg apresentaram níveis inferiores aos de
0,228 ± 0,114 mg/kg em peixes do mesmo gênero Archosargus spp. Entretanto, em carapebas os
teores de 0,16 ± 0,02 mg/kg foram superiores aos de 0,079 ± 0,081 mg/kg para a mesma espécie
amostrada no Rio Jaguaribe, CE. Em relação a tilápia e tucunaré, os valores observados no presente
estudo de 0,05 ± 0,00 mg/kg e 0,09 ± 0,01 mg/k são superiores aos de 0,005 ± 0,0027 mg/kg e
0,0248 ± 15.5 mg/kg nas mesmas espécies do rio Jaguaribe/CE, respectivamente (COSTA;
LACERDA, 2014).
Apesar das baixas concentrações de Hg relatadas acima, ao longo das últimas décadas,
diversos trabalhos têm registrado altos níveis de mercúrio na água e na fauna do rio Madeira e
outros afluentes da bacia do Amazonas, os quais decorrem principalmente dos impactos causados
pela mineração do ouro na região (SOARES et al., 2018; DE QUEIROZ et al., 2019).
Teores de Hg acima dos registrados nesse estudo foram reportados para a ictiofauna do rio
Purus, AC (0,577 ± 0,424 mg/Kg) (CASTRO et al., 2016); rio Tapajos, PA (0,339 ± 0,260 mg/Kg)
(LINO et al., 2018) e rio Madeira, AM (0,856 ± 0,479 mg/Kg) (BASTOS et al., 2015). ARANTES
et al. (2016) registraram teores de Hg variando de 0,35 ± 0,17 a 0,41 ± 0,18 mg/kg em surubins
Pseudoplatystoma corruscans do rio Paraopeba, MG.
As contribuições naturais do Hg para o ambiente são originadas da atividade vulcânica e
incêndios florestais, enquanto que as antropogênicas mais significativas incluem a mineração, a
queima de combustíveis fósseis e a fundição de Pb, Cu e Zn (BOENING, 2000). A contaminação
com Hg é mais grave do que os outros metais devido a sua elevada toxidade e alta dissipação via
atmosférica sendo considerada uma das principais vias de dispersão do Hg para o ambiente
(WANGA et al., 2004) podendo atingir áreas remotas por todo planeta. Diversas formas do
mercúrio ocorrem naturalmente sendo mais comum o mercúrio metálico, sulfeto de mercúrio,
92
cloreto de mercúrio e metilmercúrio (ACQUAVITA; BETTOSO, 2018). Em peixes carnívoros, a
forma orgânica, representa cerca de 90% do mercúrio total (LI; WANG, 2019; MALINOWSKI,
2019) e considerada a principal delas em termos de efeitos tóxicos para saúde humana (JEWETT;
DUFFY, 2007). A bioacumulação no fitoplâncton é o processo inicial de transferência deste metal
ao longo da cadeia alimentar aquática. Nos elos sucessivos, a dieta é um componente decisivo nos
mecanismos de amplificação do teor de Hg em tecidos animais. O consumo de peixes é o principal
meio de contaminação de Hg pelos humanos (ANUAL et al., 2018; BONSIGNORE et al., 2013).
A exposição do homem ao mercúrio pode provocar danos no sistema nervoso central e
cardiovascular, distúrbios gastrointestinais, renais, dermatológicos e imunitários, bem como
implicação na formação do feto em mulheres grávidas (AHMAD et al., 2014; ZAHIR et al., 2005).
Conclusões
Os metais e o metalóide arsênio presentes nas quinze espécies de peixes avaliadas no Baixo
São Francisco apresentaram as concentrações médias na seguinte ordem decrescente: Fe > Zn >
Mn > Cu > As > Hg > Cr > Pb > Cd. O ferro foi o metal mais abundante, seguido do zinco, no
tecido muscular dos peixes estudados.
As concentrações de mercúrio, cádmio e chumbo encontradas no tecido muscular dos
peixes não apresentam risco à saúde humana associado ao consumo dessas espécies com base nos
Limites Máximos de Tolerância (LMT) prescritos pela ANVISA.
Os níveis de cromo acima do LMT registrados em todas as espécies estudadas indicam que
o ambiente aquático está impactado por esse metal, expondo risco à saúde da população da região
do Baixo São Francisco que frequentemente consomem essas espécies.
Concentrações de arsênio acima do LMT foram detectadas em duas espécies: baiacu
Lagocephalus laevigatus e bagre Cathorops agassizii capturados na localidade de Piaçabuçu/AL
onde o Rio São Francisco sofre influência da maré, podendo apresentar potencial risco à saúde
humana associado ao consumo desses pescados. A ocorrência de exemplares únicos dessas
espécies na amostragem dos peixes, bem como em outras: curimatã pacu Prochilodus argenteus,
piranha vermelha Pygocentrus piraya e xareú Caranx latus resultam em baixa precisão dos
resultados analíticos do arsênio e dos metais avaliados para essas espécies.
Em trabalhos futuros, é recomendável a ampliação do universo amostral com um maior
número de indivíduos por espécie objetivando melhor precisão e exatidão dos resultados. Em face
aos dados apresentados, é necessária a continuidade desse trabalho em diferentes épocas do ano
93
(verão e inverno) e análise de metais nos diferentes compartimentos ambientais, água e sedimento,
para evidenciar possíveis inter-relações com as pressões antropogênicas e os processos
geoquímicos presentes na região do Baixo São Francisco.
AGRADECIMENTOS
Ao CNPq/MAPA, processo 180547/2019-4, pela bolsa ITI-A e a CODEVASF pela realização das
análises de mercúrio.
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103
Biomarcadores Oxidativos da Ictiofauna do Baixo São Francisco
Vivian Costa Vasconcelos1; Emerson Carlos Soares1; Themis de Jesus da Silva1; Anyta
Santistebam2; Emilly Valentim3
RESUMO
A exposição de a poluentes ocasiona consequências nos níveis de organização biológica, celular e
efeitos nos organismos, populações ou em todo ecossistema. Essas alterações bioquimicamente
apresentam vantagens como biomarcadores oxidativos, que são considerados como as primeiras
respostas às mudanças ambientais possíveis de serem detectadas e quantificadas. Esses
biomarcadores são mais sensíveis as alterações nos níveis e na atividade das enzimas de
biotransformação e nas espécies de EROS, alterando as concentrações de antioxidantes nãoenzimáticos e pode causar danos associadas ao estresse oxidativo. O presente trabalho teve como
objetivo identificar respostas de biomarcadores de estresse oxidativo no peixe no Baixo São
Francisco. Para avaliar a exposição de peixes a poluentes presentes no Rio São Francisco, foi
realizado coletas em pontos distintos do Baixo São Francisco. Aas análises enzimáticas mensuradas
no fígado obtiveram maiores atividades de SOD em Porto Real do Colégio/AL, já com relação a
CAT e MDA, os peixes capturados em Piranhas/AL apresentaram valores mais elevados. Os
resultados enzimáticos mesurados em brânquias, obtiveram maiores atividades de SOD nos
exemplares de Traipú/ AL, enquanto dados mais elevados de MDA, foram observados em Igreja
Nova/AL.
Palavra chave: Biomarcadores, ictiofauna, enzimas, peixes.
INTRODUÇÃO
O crescimento demográfico implica no aumento da demanda por recursos naturais,
produção de compostos químicos e a utilização dos mesmos, esses fatores tem causado grandes
impactos ambientais sobre os ecossistemas, essas condições somando com a deficiência de
políticas públicas e a falta de saneamento básico implica no aumento da produção de esgotos
domésticos in natura e cargas industriais para os ambientes aquáticos (Chiarello et al., 2017). De
acordo com (MINISTÉRIO DA SAÚDE 2016) esse contexto corrobora com a geração de impactos
para os ecossistemas e estão relacionados a um problema de saúde pública.
Os corpos hídricos recebem, consecutivamente cargas de produtos químicos exógenos ou
xenobióticos, liberados pela população urbana, ribeirinha e indústrias, com o passar dos anos além
das cargas orgânicas convencionais, outros tipos de poluentes orgânicos como pesticidas
organoclorados, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, bifenilas policloradas, dioxinas e
furanos, estão sendo produzidos e liberados nos ambientes aquáticos (Van der oost et al., 2003),
esses compostos químicos em contato com os organismos aquáticos são captados e desempenham
104
efeitos negativos em sua fisiologia, podendo causar danos no ciclo de vida e sobrevivência das
espécies (Valavanidis et al., 2009)
Entre a diversidade de substâncias que contaminam os rios do Brasil os efluentes
domésticos e pesticidas são os mais representativos, na classe de pesticidas neonicotinóides se
destacou no mercado desde o surgimento dos piretróides, sendo os mais utilizados na prevenção e
controle de pragas e os neonicotinóides são utilizados em pragas de pulgões e moscas (Chiarello,
2016; Pires, 2013; Tomizawa & Casida, 2005).
De acordo com (CONAMA 420/09) a inclusão de substâncias químicas derivadas de
atividade antrópica, como uso de agrotóxicos, remédios, cosméticos e metais em ecossistemas
aquáticos, pode gerar risco à saúde e contaminação nos ambiente (Gomis, et al., 2014) esses
contaminantes são citados com plastificantes, hormônios, pesticidas, nanopartículas, compostos
farmacêuticos e seus subprodutos da biotransformação, o contato desses compostos com os
organismos aquáticos tem como consequência o estresse oxidativo, que ocorre quando há uma
produção em excesso de espécies reativas de oxigênio (ERO) (Nishida, 2011), que é a resposta do
sistema antioxidante em relação a situações de exposição a substâncias (Cotinguiba, 2013)
A catalase é uma enzima que do sistema de defesa antioxidante e apresenta alta atividade
quando organismos estão sob estresse oxidativo, por este motivo é um importante biomarcador em
atividade de monitoramento e a mesma age na oxidação de compostos hidrogenados (metanol,
etanol, ácido fórmico e fenóis, com o consumo de peróxido), o mais utilizado para estudos da
atividade da CAT é baseado na geração do oxigênio na reação e medida do declínio na
concentração de peróxido de hidrogênio (reação), (COGO et al., 2009)realizada por
espectrofotometria no ultravioleta em comprimento de onda de (λ= 240nm).
2H2O2 → 2H2O + O2
A SOD pertence ao grupo das metaloenzimas que desenvolve ação antioxidante central, é
indicada por sua presença em todos os organismos aeróbicos examinados, esta enzima catalisa a
conversão do ânion reativo superóxido (O2 − •) em peróxido de hidrogênio (H2O2) (Halliwell &
Gutteridge, 2005)
2 O2 − • + 2H+ → O2 + H2O2
A peroxidação lipídica em porções biológicas, o método TBARS é um dos mais utilizados
em tecidos de peixes que, este quantifica a formação de malondialdeído (MDA) que é um dos
produtos finais da degradação do lipídio, reagindo com ácido tiobarbitúrico (Hermes-lima, 2004).
Segundo (Stegeman et al., 1992). A peroxidação lipídica é eficiente para ser utilizada como
105
biomarcador, além de possuir potencial para quantificar a toxicidade de um determinado composto
químicos.
A normativa de N° 84, de 15 de outubro de 1996, artigo 3°, do Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais – IBAMA considera os agrotóxicos potenciais de periculosidade
ambiental (PPA) fundamentado nos parâmetros de persistência, transporte, bioacumulação,
toxicidade a diversos organismos, potencial mutagênico, teratogênico, carcinogênico, pois esses
compostos químicos são definidos tóxicos com capacidade de oferecer o risco aos seres humanos
e ao ecossistema. Diante deste cenário, se faz necessário avaliar o diagnóstico da contaminação em
corpos hídricos que é relevante para diagnosticar o impacto decorrente de contaminantes e
determinar métodos de prevenção. Portanto o presente trabalho teve como objetivo identificar
respostas de biomarcadores de estresse oxidativo em peixes capturados em diversos pontos do
Baixo São Francisco.
METODOLOGIA
As coletas foram realizadas em municípios que fazem parte do Baixo São Francisco, sendo
eles: Piranhas/AL, Traipú/AL, Porto Real do Colégio/AL, Igreja/AL, Propriá/SE, Penedo/AL,
Piaçabuçú/AL e Foz, entre 18 a 27 de novembro de 2019, os peixes foram coletados com auxílio
de tarrafas (seis metros), em seguida foram retirados o fígado e brânquias dos indivíduos para
determinação das análises enzimáticas da catalase (CAT), superóxido dismutase (SOD) e o produto
da peroxidação lipídica (malondialdeido), em seguida armazenado em nitrogênio líquido. As
análises foram realizadas no Laboratório de Aquicultura e Análise de água UFAL/CECA.
Eutanásia e preparo das amostras
Foi realizada a eutanásia, por meio de decapitação seguida de inserção de agulha metálica
na porção cerebral, em seguida realizado a dissecção dos peixes, recolhendo-se fígados e brânquias
e armazenados em nitrogênio líquido até o momento das análises.
Para o preparo dos homogenatos, os órgãos foram pesados e homogeneizado a 1:10 (p/v)
em tampão fosfato de potássio com pH 7.4, em seguida as amostras foram centrifugadas durante
10 minutos, a 4ﹾC em rotação de 12.000 rpm, o sobrenadante foi utilizado para mensurar a atividade
das enzimas.
Atividade das enzimas e MDA
Superóxido dismutase
106
A atividade se SOD foi quantificado a partir da amostra dos órgãos após a dissecação
brânquia e fígado foi mensurada em espectrofotômetro (190-1100nm do feixe (RBC) UV/Vis)
baseado na aptidão desta enzima catalisar a reação do superóxido O2 - e o peróxido de hidrogênio
e, assim, diminuir a razão de auto oxidação do pirogalol.
Catalase
A determinação da cinética enzimática da enzima catalase (CAT) foi realizada por meio da
quantificação do consumo de H2O2, a atividade da CAT foi mensurada conforme o protocolo de
Aebi (1984) através da taxa de queda da absorbância em 60 segundos do peróxido de hidrogênio
(H2O2) (10 mM) em tampão fosfato de potássio 0.2 M com pH 7.0 e homogeneizado de tecido em
espectrofotômetro (λ= 240nm). Para os cálculos foi utilizado o coeficiente de extinção molar do
peróxido de hidrogênio ɛ240 = 36 mol-1 L cm, os resultados foram expressos na unidade
internacional de atividade enzimática (U) e em função da quantidade de proteína (U CAT/mg de
tecido).
Malondialdeído (MDA) / Ensaio de Tiobarbitúrico (TBARS)
O sobrenadante resultante foi utilizado para as análises de malondialdeído (MDA),
conforme o protocolo de Buege & Aust (1978). O sobrenadante do tecido foi homogeneizado em
solução de ácido tricloroacético (15%) / ácido tiobarbitúrico (0,375%) / ácido clorídrico (0,25 M).
A mistura reacional total foi mantida em banho-maria em ebulição durante 40 minutos a 90 °C,
resfriado sobre gelo. Posteriormente as amostras foram centrifugadas (10 minutos, 15°C, 2.500
rpm), o sobrenadante foi utilizado para medir a absorbância a 535 nm em espectrofotômetro
BIOCHROM WPA LIGHTWAVE ll (RBC) UV/Vis), 190-1100nm, os níveis totais de MDA em
cada amostra foi determinado por meio de curva padrão a partir de concentrações conhecidas de
1,1,3,3-tetramethoxypropane (TMPO) (Figura 1)
Curva padrão/fígado
Curva padrão/brânquia
1.000
1.000
y = 0.1877x + 0.026
R² = 0.9743
0.800
0.600
y = 0.2033x + 0.0349
R² = 0.986
0.800
0.600
0.400
0.400
0.200
0.200
0.000
0.000
0
2
4
6
0
2
4
6
Figura 1. Curva padrão das amostras de fígado e brânquia com valores de Y e R 2 para calcular a
quantificação da peroxidação lipídica.
107
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram mensuradas a atividade de SOD, CAT e MDA em 76 amostras de fígado e 76
amostras de brânquia, coletados nos diversos pontos do Baixo São Francisco, essas amostras foram
adquiridas de várias espécies que estão descritas na tabela abaixo (Tabela 1).
Tabela1. Espécies e amostragem coletadas na região do baixo são Francisco para análises de
estresse oxidativo.
Pontos
Piranhas/AL
Amostras
1 ao 14
N ﹾde amostras
14
Pão de açucar/AL
15 ao 24
10
Traipú/AL
25 ao 35
11
Propriá/SE
36 ao 50
15
Igreja nova/AL
51 ao 57
7
Penedo/AL
58 ao 66
9
Piaçabuçu/AL
67 ao 76
10
Total de amostras
Espécie
Schizodon knerii
Pygocentrus piraya
Cichla monoculus
Astronotus ocellatus
Metynnis maculatus
Cichla monoculus
Serrasalmus brandtii
Hoplias microcephalus
Schizodon knerii
Cichla monoculus
Metynnis maculatus
Prochilodus argenteus
Serrassalmus brandtii
Colossoma macropomum
Metynnis maculatus
Serrasalmus brandtii
Schizodon knerii
Serrasalmus brandtii
Metynnis maculatus
Schizodon knerii
Metynnis maculatus
Serrasalmus brandtii
Eugerres brasilianus
Caranx latus
Archosargus
probatocephalus
Megaleporinus obtusidens
Tylosurus acus acus
Centropomus parallelus
Nome comum
N ﹾde indivíduos
Piau-de-vara
11
Piranha verdadeira
2
Tucunaré
1
Apaiari
3
Pacu-disco
2
Tucunaré
2
Pirambeba
1
Traíra
1
Piau-de-vara
2
Tucunaré
1
Pacu-disco
4
Curimatã-pacu
1
Pirambeba
3
Tambaqui
10
Pacu-disco
2
Pirambeba
3
Piau-de-vara
2
Pirambeba
1
Pacu-disco
4
Piau-de-vara
2
Pacu-disco
5
Pirambeba
2
Carapeba
4
Xáreu
2
Sargo de dentes
Piau três pintas
peixe agulha
robalo
1
1
1
1
76
Baseando-se nos resultados do relatório de parâmetros físico-químicos da água, da
expedição 2019, que revelou maiores níveis de potássio na região de Igreja nova e Piranhas, fósforo
em Porto Real do Colégio e Penedo, sulfato em Penedo e os maiores níveis de coliformes fecais
em Penedo, Propriá e Piaçabuçu; Esses resultados coincidem com o aumento das atividades
enzimáticas nesses mesmo pontos.
Superóxido dismutase (SOD)
Os resultados de SOD mensurados no fígado apresentaram níveis maiores da atividade desta
enzima, nos organismos analisados em Porto Real do colégio/AL (P < 0,05).
Foram observadas maiores atividades de SOD, no fígado dos peixes capturados em Porto
Real, Penedo e Igreja Nova, com relação aos indivíduos de Pão de Açúcar, Traipú, Piaçabuçú e
108
Piranhas (estas últimas não obtiveram diferenças significativas uma das outras), contudo Porto Real
se destacou com maiores níveis de SOD (Tabela 2).
Tabela 2. Médias da atividade antioxidante de SOD em peixes coletados em diversos pontos do
Baixo São Francisco.
Localidade
Porto Real
Penedo
Igreja nova
Pão de Açúcar
Traipú
Piaçabuçu
Piranhas
N Média Agrupamento
10 121.48 A
8 104.70 A
B
7 98.93 A
B
8 97.98
B
10 97.37
B
8 94.55
B
12 90.96
B
Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Podemos observar no gráfico abaixo que Porto Real, se destacou com maiores níveis de
SOD (Figura 2)
Figura 2. Figura. Atividade de SOD (U SOD mg/tecido) mensuradas em fígado de peixes da região
do baixo São Francisco.
.
Solé et al., (2011) afirma em seus estudos que o tecido hepático é o principal orgão de
desintoxicação de substâncias químicas, onde a maioria dos poluentes se acumulam, podendo
ocorrer danos, uma vez que os poluentes induzem a toxicidade, causando o stress oxidativo,
decorrente do aumento de radicais livres de oxigênio.
109
Os resultados de SOD mensurados nas brânquias, apresentaram níveis maiores da atividade
nos organismos analisados em Traipú/AL (P < 0,05) (Tabela 3)
Tabela 3. Médias da atividade antioxidante de SOD em brânquias de peixes coletados em diversos
pontos do Baixo São Francisco
Localidade
Traipú
Penedo
Porto Real
Pão de Açúcar
Igreja nova
Piranhas
Piaçabuçu
N Média Agrupamento
10 113.9 A
8 107.6 A
B
13 98.52 A
B
7 96.7 A
B
6 87.3 A
B
12 76.67
B
5 71.00 A
B
Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Figura 3. Atividade de SOD (U SOD mg/tecido) em brânquia de peixes da região do Baixo São
Francisco.
Segundo Lopez-Lopez (2013), a brânquia é o principal órgão afetado pelos poluentes, pois
estão expostas diretamente aos contaminantes do meio ambiente. Portanto, alterações de
compostos com níveis mais elevados, podem comprometer a saúde dos organismos aquáticos,
inibindo o seu desenvolvimento.
Em relação a presença de contaminantes, Van der oost et al., (2003) relata que a atividade
da SOD tende a ser maior em peixes de locais poluídos, sugerindo que sua atividade pode ser usada
para medir a severidade do impacto ambiental.
Catalase
110
A catalase mensurada no fígado dos organismos foi significativa (P < 0,05) entre os pontos
analisados. Foi possível observar que sua atividade mensurada no fígado dos peixes foi maior nos
exemplares coletados nos municípios de Piranhas e Pão de Açúcar (Tabela 4).
Tabela 4. Médias da atividade antioxidante de CAT mensurada em fígado de peixes coletados em
diversos pontos do Baixo São Francisco
Localidade
N Média Agrupamento
P1 - Piranhas
12 9.320 A
P2 - Pão de Açúcar
9 5.848 A
B
P6 - Penedo
5 5.810 A
B
P4 - Porto Real/Propriá 6 5.747 A
B
P3 - Traipú
8 4.037
B
P7 - Piaçabuçu
7 3.829
B
P5 - Igreja Nova
3 2.230
B
Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Piranhas obteve os maiores índices da atividade da catalase, não obtendo diferenças em
relação aos exemplares estudados de Pão de Açúcar, Penedo e Porto Real do Colégio. Essas todas
diferiram de Traipú, Piaçabuçú e Igreja Nova (Figura 4).
Figura 4. Atividade de CAT (µ Cat/ mg tecido) mensurada em fígado de peixes da região do Baixo
São Francisco.
Alguns contaminantes como cobre e nitrito em altas concentrações podem inibir a atividade
da CAT em peixes (Lackner, 1998). Esses fatores corroboram com os resultados presente neste
111
trabalho, pois houve altas concentrações de nitrito de acordo com os resultados das análises de água
da expedição de 2019, nos pontos de Igreja Nova, Piaçabuçu e Traipú e nesses mesmos pontos foi
observado a diminuição da atividade da catalase mensurada no fígado. Por outro lado, dependendo
da espécie de peixe ou hábito alimentar, estes podem bioacumular mais nutrientes em seus tecidos,
causado pelos maiores níveis de estresse e inibindo certas funções fisiológicas.
Malon de aldeído (MDA)
Para resultados de MDA mensurados no fígado, foi possível visualizar maior atividade de
MDA no fígado dos peixes capturados em Piranhas (Tabela 5).
Tabela 5. Médias da atividade antioxidante de MDA mensurada em fígado de peixes coletados em
diversos pontos do Baixo São Francisco.
Espécie
Piranhas
Propriá- Porto
Real
Penedo
Piaçabuçu
Traipú
Pão de Açúcar
Igreja Nova
N Média
Agrupamento
12 61.26 A
11 51.76 A
B
6
8
10
9
6
50.74 A
45.99 A
42.28
38.03
35.46
B
B
B
B
B
Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Os peixes capturados em de Piranhas, Propriá e Penedo obtiveram índices similares
e mais elevados de MDA (Figura 5).
112
Figura 5. Atividade de MDA (µ mol/ mg tecido) mensurada em fígado de peixes da região do
Baixo São Francisco.
Para os resultados de MDA mensurados em brânquias, foi possível observar, que que a
atividade da peroxidação lipídica foi maior nos exemplares coletados em Igreja Nova, Penedo,
Piaçabuçu e Pão de Açúcar (Tabela 6).
Tabela 6. Médias da atividade antioxidante de MDA mensuradas em brânquia de peixes coletados
em diversos pontos do Baixo São Francisco.
Municípios
N Média Agrupamento
Igreja Nova
7 38.61 A
Penedo
9 38.29 A
Piaçabuçu
7 37.78 A
Pão de Açúcar
8 36.34 A
Propriá-Porto Real 12 30.62 A
B
Piranhas
11 29.61 A
B
Traipú
8 19.56
B
Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Como demostra o gráfico abaixo, exemplares capturados em Igreja Nova, Penedo, Piaçabuçu
e Pão de Açúcar obtiveram maiores atividades de MDA nas brânquias, esses mesmos pontos
apresentaram níveis mais altos de sulfato, nitrito, sódio manganês e potássio de acordo com o
relatório de análises de água da II Expedição Científica, como esses compostos podem ser
indicativos de ambientes eutrofizados ou com indícios de poluição, pode haver correlação entre a
atividade de MDA com a presença dos mesmos (Figura 6).
113
Figura 6. Atividade de MDA (µ mol/ mg tecido) mensurada em brânquia de peixes da região do
baixo São Francisco.
Os peixes apresentam níveis de peroxidação lipídica semelhantes a outros vertebrados,
porém, esse processo pode apresentar modificações dependendo do hábito alimentar da espécie,
visto que a peroxidação lipídica tende a ser menor em peixes herbívoros do que nas espécies
onívoras (Lackner, 1998). Essa justificativa pode explicar o comportamento da MDA em relação
aos indivíduos coletados, uma vez que ocorreu variação em termos de espécies (com variados
hábitos alimentares) entre os pontos estudados. Ademais, os peixes também fazem médias
migrações e se deslocam para lugares mais distantes dos pontos onde foram encontrados, desta
forma, o contato do organismo com a substância ou fonte poluidora, pode ter ocorrido em região
diferente de onde os exemplares foram coletados.
Os indicadores de estresse oxidativo são essenciais em estudos de monitoramento
ambiental, com finalidade de demonstrar o estado redox celular, e pode fornecer inúmeras
informações, servindo de ferramenta complementar, sendo necessária em trabalhos de
biomonitoramento ambiental.
Podemos entender que os peixes são ótimos bioindicadores de impacto ambiental e
dependendo do seu comportamento, hábitat e hábito alimentar poderemos inferir ou correlacionar,
através das enzimas antioxidantes, o estado trófico e qualidade ambiental do ambiente.
114
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Pires, E. P. (2013)Toxicidade de Hydroxymethylfurfural e Thiamethoxam para Apis mellifera
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BRASIL, CONAMA 420/09. Dispõe sobre critérios e valores orientadores de qualidade do solo
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Renováveis que estabelece procedimentos a serem adotados junto ao Instituto Brasileiro do Meio
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em
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/mma_ibama/1996/prt0084_15_10_1996.html
Acesso:
116
Avaliação do Conteúdo Estomacal dos Peixes Capturados no Baixo São
Francisco
Elton Lima Santos1; Ricardo Fabio Teodósio2; Elâne Pereira do Santos2
1
Professor Associado, LAQUA-CECA, Universidade Federal de Alagoas
2
Bolsistas de Iniciação Científica, LAQUA-CECA, Universidade Federal de Alagoas
INTRODUÇÃO
Nos últimos anos os estudos relacionados ao Rio são Francisco têm se intensificado, pois
sua grande dimensão torna este ambiente, vulnerável diretamente a ação antropogênica. Na bacia
hidrográfica do São Francisco, particularmente no baixo São Francisco, o rio se encontra em
avançado estado de interferência humana e consequentemente, a degradação deve ser estudada,
visto o impacto sobre a macrofauna existente. Para a compreensão destes ecossistemas um dos
caminhos pode ser o estudo da utilização dos alimentos pelas espécies de peixes, pois as
informações disponíveis são ainda escassas, principalmente quanto à origem das fontes de
alimentos e as relações com as áreas adjacentes.
A presença de organismos sensíveis a alterações antropogênicas é uma condição
frequentemente observada em ambientes considerados menos alterados (Araújo, 1998). De acordo
com Lyons et al. (1995), os ambientes aquáticos com boas condições de integridade possuem
estrutura trófica é equilibrada, com ampla gama espécies de peixes nativas de várias classes de
tamanhos. Entretanto, à medida que a influência antrópica aumenta, as espécies mais sensíveis
começam a diminuir e a estrutura trófica é alterada, ocorrendo seu desbalanceamento.
117
Assim, o objetivo desta pesquisa foi verificar as variações qualitativas e quantitativas das
espécies de peixes e dos recursos alimentares consumidos pelas mesmas, durante a II Expedição
cientifica do baixo São Francisco.
MATERIAL E MÉTODOS
O estudo foi realizado no Rio São Francisco, entre os municípios de Piranhas e Piaçabuçu,
no Estado de Alagoas. As amostragens foram desenvolvidas no curso inferior do rio, onde foram
estabelecidos pontos ao longo da vazão da extensão do rio. As coletas ocorreram diariamente, em
horários distintos, no período diurno, durante o período de embarcação da II Expedição Científica
do Baixo São Francisco, em novembro de 2019.
Para análise dos itens alimentares foram realizadas comparações qualitativa e quantitativa
dos percentuais de ocorrência e dos pesos por espécie e no total dos peixes, em cada trecho de
coleta. Seguiu-se a metodologia de avaliação e análise do conteúdo estomacal dos peixes,
constando da combinação dos métodos de frequência de ocorrência e do método volumétrico,
adaptado de Kawakami & Vazzoler (1980).
Foram analisados os estômagos de amostras de peixes por ponto de coleta e por espécie,
totalizando 113 exemplares. Para a análise do conteúdo estomacal, foram determinados a
frequência volumétrica através de observação ocular in loco, a presença do item alimentar e o
índice de repleção. O índice de repleção do estômago foi determinado com base na avaliação
quantitativa de alimento no estômago, expresso em porcentagem (Namora, 2003).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Estão expressos abaixo na tabela 1, os dados observados das amostras de peixes capturadas
durante a II Expedição Cientifica do baixo São Francisco, assim como os valores médios dos
índices de repleção do estômago.
Tabela 1 – Dados coletados para avaliação de conteúdo estomacal dos peixes capturados durante a
II Expedição Cientifica do baixo São Francisco.
Classe de comprimento
Classe de peso
(g)
(cm)
Espécies
total
padrão
28,0-28,5
24,0-23,5
Total de
exemplares
(n)
IR
n (% de
enchimento)
n=2 (0%)
Tucunaré
260-310
4
n=2 (100%)
118
n=8 (0%)
Piau
branco
28,2-39,0
25,6-34-5
305-1000
19
n=6 (25%)
n=4 (50%)
n=1 (75%)
n= 1 (0%)
Piau três
pintas
27,4-32,0
23,0-27,8
245-580
4
n=2 (25%)
n=1 (50%)
n= 25 (0%)
Pacu
13,6-20,8
11,0-14,0
75,0-140,0
42
n=10 (25%)
n=3 (50%)
n=4 (75%)
n= 7 (0%)
Tambaqui
20,3-30,0
17,2-25,0
230,0-595,0
13
n= 3 (25%)
n= 3 (50%)
n= 8 (0%)
Pirambeba
16,2-22,5
14,0-20,0
95,0-260,0
14
n= 3 (25%)
n= 2(50%)
n=1 (75%)
Carapeba
15,0-17,8
13,3-14,0
70,0-90,0
5
n= 4 (25%)
n= 1(50%)
Algumas espécies foram encontradas apenas em um dos pontos de coleta, já outras espécies
foram amostradas em pequeno número, a exemplo do curimatã-pacu (n=1), Piranha (n=2), traíra
(n=1), robalo (n=1), xaréu (n=1), cará-açu (n=3), robalo (n=1), gobide (n=1), sargo de dente (n=1),
pampo (n=1).
A espécie com maior número de espécies amostradas foi o pacu, entretanto foi a espécie
em que também foi verificado uma maior taxa de retenção de 0%, o que pode ser devido ao aumento
da vazão do rio durante o período da expedição, dissipando o principal alimento para essas espécies,
diminuindo a produção e alimentação de fitoplâncton. Já nos animais onde foi possível observar e
analisar o conteúdo estomacal, foi verificado a forte presença de fitoplâncton na forma de algas na
sua composição, sendo em muitos casos corresponder a totalidade do conteúdo, apesar que também
foram verificadas restos em decomposição de partes de insetos e moluscos, em menor proporção.
As mesmas observações podem ser refletidas também para as espécies de piau branco e piau três
pintas capturadas, onde a maior parte da composição estomacal foi composta por algas. Restos de
materiais vegetais não identificados também foram observados.
119
As figuras abaixo, expressam a abertura do estômago através de corte longitudinal e
identificação dos componentes por frequência dos itens e percentual.
Figura 1 (A e B) – procedimentos durante a análise do conteúdo estomacal dos peixes capturados.
As espécies avaliadas e capturadas durante a Expedição, são de certo modo, as espécies de
maior importância socioeconômica para a região do Baixo São Francisco, sendo uma das principais
espécies de peixes capturadas e consumidas pela população ribeirinha do Rio São Francisco. O
conhecimento do perfil de alimentação natural ao qual essas espécies estão sendo submetidas é de
grande pertinência para a avaliação das condições de equilíbrio ecológico ao qual essas espécies se
encontram, e consequentemente ao equilíbrio ecológico do Rio.
As categorias tróficas identificadas demonstraram uma dieta composta por diferentes e
variados itens ao longo das diversas localidades de coleta. Para diversas espécies de peixes foi
registrado insetos, camarão, outros invertebrados, peixes e partes, material digerido, detritos,
sedimentos, material vegetal, moluscos e algas. Quanto a guilda de animais carnívoros predominou
o item peixes e escamas, camarões e moluscos.
Há de se ressaltar a grande quantidade de algas, como componente estomacal dos peixes,
desse modo, vale destacar que durante o período da Expedição houve um aumento da vazão ou
volume de água proveniente da abertura das comportas das hidrelétricas a jusante do Rio.
Obviamente isso veio a interferir diretamente sobre a composição alimentar e do conteúdo
estomacal observado in loco dos peixes, principalmente levando em consideração as espécies com
hábito alimentar consideradas onívoras-planctofaga. Nesses casos pode-se destacar as espécies de
peixes como o Piau branco, o piau três pintas e o pacu.
Deste modo, Santos (2014) afirma que a mudança no volume de água ao que os
reservatórios são considerados um fator relevante quando relacionado à estrutura trófica, podendo
ocasionar de forma significativa nas mudanças na dieta natural dos peixes, uma vez que as
variações hidrológicas afetam a disponibilidade dos recursos alimentares.
120
No entanto, foi possível observar também que o conteúdo estomacal também foi
influenciado pelo local em que os peixes foram capturados, pois existem espécies que foram
encontradas em maior abundância mais a jusante da foz do rio, destaca-se as espécies de carapeba,
ao qual só foram encontradas em Piaçabuçu e de acordo com a avaliação preliminar in loco do
conteúdo estomacal, quase na sua totalidade foram encontrados detritos minerais, provando assim
a alta capacidade dessa espécie de procurar alimentos, sendo validado por sua anatomia funcional
da boca proeminente virada para baixo, que é uma adaptação para este tipo de procura de alimento.
Vale ainda ressaltar a pequena presença de restos do que parecem ser poliquetas, corroborando a
afirmação anterior, já que as oligoquetas vivem enterradas no substrato do fundo do rio.
Algumas espécies que não são nativas, ou seja, exóticas e que são predadores carnívoras
vorazes também foram capturadas e analisadas a composição estomacal, a exemplo do tucunaré.
Ao qual foram observados no conteúdo estomacal dessa espécie a presença de pequenos peixes e
crustáceos, revelando a forte ameaça que essa espécie pode ter sobre a sobrevivência e
desenvolvimento de formas jovens de peixes e camarões nativos do rio São Francisco, podendo
inclusive desequilibrar a teia alimentar de muitas outras espécies. No entanto também foram
observados para a espécie tucunaré estomago vazios, o que pode ser devido a rápida digestão, ou a
falta de alimento. Da mesma forma ocorreu em relação a espécie de peixe pirambeba, que também
é uma espécie carnívora e que também foram encontrados restos de crustáceos e pequenos peixes,
além de estômagos vazios.
Figura 2 (A e B) – Visão detalhada do conteúdo estomacal dos peixes in loco.
O tambaqui é considerado uma espécie de peixe não endêmica e exótica do Rio São
Francisco, sendo originalmente proveniente da bacia hidrográfica amazônica, mesmo sendo umas
121
das principais espécies de peixes produzidas e consumidas a partir da piscicultura no Brasil,
inclusive no estado de Alagoas, perdendo apenas para a tilápia. Foram capturados tambaquis
apenas na região próxima ao Município de Porto Real do Colégio, o que desperta curiosidade, pois
foram realizados vários pontos de coleta a jusante e a montante deste local e não foram encontrados
tambaqui nas capturas. Dos tambaquis em que o índice de repleção do estomago não estava em
0%, ou seja, vazio, foram encontrados principalmente restos de crustáceos, conchas de gastrópodes
e de massunin, que não bivalves comuns na região, além de detritos e material vegetal não
identificáveis.
Tabela 2. Presença dos itens alimentares das principais espécies de peixes coletadas durante II
Expedição Cientifica do baixo Rio São Francisco.
Espécies de peixes
Itens
alimentares
tucunaré
Piau Piau três
branco pintas
pacu
tambaqui pirambeba carapeba
Algas e
fitoplâncton
-
+
+
+
+
-
+
poliquetas
-
-
-
-
-
-
+
Detritos e
sedimentos
-
+
+
+
+
-
+
Partes de
insetos
-
+
-
+
-
-
-
Material
vegetal
-
+
+
+
+
-
-
Crustáceos
+
-
-
+
+
+
-
Peixes
+
-
-
-
-
+
-
Escamas
+
-
-
+
-
+
-
conchas de
moluscos
-
-
-
+
+
+
-
Material
não
identificável
+
+
+
+
+
+
+
Assim, a verificação e análise do conteúdo estomacal dos peixes, baseando-se na dieta
natural dos peixes capturados durante a II Expedição Cientifica no baixo Rio São Francisco,
122
apresenta de forma genérica que os principais itens alimentares explorados por essa comunidade
de peixes baseia-se em algas, vegetais, insetos e crustáceos, para a maior parte das espécies,
apontando indícios de que a onivoria possa ser o principal comportamento trófico desta
comunidade. Entretanto a exceção se faz para as espécies comprovadamente carnívoras, como as
espécies: tucunaré, pirambeba e traíra, ao qual os principais itens alimentares presentes foram
partes de peixes e crustáceos. Não obstante a essas informações, foram verificadas que as espécies
que possuíam uma maior abrangência e variedade de itens alimentares foram as que foram
coletadas em maior quantidade e com maior facilidade durante o período de coleta.
De forma geral, o estudo do conteúdo estomacal dos peixes e dos seus hábitos alimentares
se mostram de extrema importância para a amplitude do entendimento da dinâmica do rio São
Francisco, no seu espaço e distribuição temporal e espacial das espécies. Esses estudos podem
servir como uma valiosa ferramenta de estratégias de manejo sustentável de espécies com potencial
uso na aquicultura ou para a conservação de espécies nativas do Rio São Francisco.
Oliveira (2015) destaca e reconhece que há esforços científicos focados nesta questão no
estudo e que nas últimas décadas tem ocorrido um aumento nos estudos relacionados à alimentação
natural de peixes, sendo mais intensificados para as regiões norte, sul e sudeste do Brasil. No
entanto, a maior parte do conhecimento relacionado à dieta e habito alimentar de peixes no Brasil
se concentra para espécies de maior interesse comercial, sendo os estudos sobre a fisiologia,
alimentação e possíveis protocolos de manejo de criação e nutricional de peixes nativos ainda
repelidos a poucos estudos.
Deste modo, em se tratando de pesquisas com manejo nutricional e alimentação de espécies
nativas do Rio São Francisco, o conjunto de informações cientificas é ainda mais escassa. Vale
destacar a baixa quantidade de peixes capturados durante a expedição de curimatã-pacu, ou até
mesmo a ausência de captura de peixes como o surubim, fato que é corroborado por relatos
informais de pescadores e da população, ao longo de todo o rio. Espécies como o curimatã-pacu e
o surubim, que são espécies nativas, possuem grande importância na cadeia trófica do rio, são
espécies de peixes de ampla aceitação pelo mercado consumidor, sendo assim promissoras para a
aquicultura. Entretanto, medidas de estimulo ao cultivo e para o estudo de protocolos de criação
dessas espécies, dentre outras, devem ser implementados, para tal o conhecimento de dietas que
possam ser sustentáveis economicamente e ecologicamente, perpassam pelo estudo da dieta natural
desses animais.
Um outro aspecto a ser considerado ainda, é que a avaliação do conteúdo estomacal dos
peixes, pode ser também um instrumento balizador na avaliação da condição ecológica do Rio,
dentre os seus diversos, de equilíbrio ecológico com a população ribeirinha e o seu uso como forma
123
racional ou sobre explorado. Fato esse a ser relatado, visto que em um dos animais analisados foi
encontrado uma grande quantidade de plástico e material laminado, quando da análise do conteúdo
estomacal. Esse evento leva a reflexão de como o Rio São Francisco está sendo utilizado, e que
deve atenção da população e das autoridades competentes.
REFERÊNCIAS
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Dissertação de Mestrado (Ciências Naturais), Mossoró-RN, Universidade do Estado do Rio Grande
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SANTOS, N.C.L.; MEDEIROS, T.N.; ALROCHA, A.A.F.; DIAS, R.M.; SEVERI, W. Uso de
recursos alimentares por Plagioscions squamosissimus – piscívoro não-nativo no reservatório de
Sobradinho-BA, brasil. Boletim Instituto de Pesca, v. 40, n. 3, p. 397-408, 2014.
124
Caracterização Histológica de Peixes do Baixo São Francisco: Estudo do intestino,
fígado e brânquias.
Priscylla Costa Dantas1
1Centro de Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas
INTRODUÇÃO
A bacia do Rio São Francisco está entre as maiores da América do Sul, possui variadas
feições geográficas e sua área engloba importantes biomas como Caatinga, Cerrado e Mata
Atlântica (Langeani; Souza; Christofoletti, 2009; Belei et al., 2016), o que lhe confere uma rica e
diversificada ictiofauna, com ocorrência de inúmeras espécies endêmicas (Barbosa et al., 2017),
muitas delas de importância ambiental, social e econômica.
Apesar dos inúmeros problemas ocasionados pelo represamento do rio, sucessivos
barramentos, salinidade e poluentes na região do Baixo São Francisco, a pesca ainda é uma das
atividades de subsistência mais importantes. Em levantamentos realizados por Barbosa e Soares
(2009), Soares et al. (2011) e Barbosa e Soares (2017), os autores constataram abundância de
espécies nativas de grande importância na alimentação humana e alvo de pesca intensiva.
De acordo com dados obtidos do Relatório da II Expedição Científica do Baixo São
Francisco, entre as espécies coletadas, pode-se destacar as endêmicas pirambeba Serrasalmus
brandtii (Characiformes, Serrasalmidae) e pacu-prata Myleus micans (Characiformes,
Serrasalmidae), as espécies nativas piau-verdadeiro Megaleporinus obtusidens, piau-branco
Schizodon knerii. (Characiformes, Anostomidae), as espécies introduzidas tucunaré Cichla
monoculus, acará-boi Astronotus ocellatus (Perciformes, Cichlidae), tambaqui Colossoma
macropomum (Characiformes, Serrasalmidae) e a espécie marinha carabepa Eugerres brasilianus
(Perciformes, Guerreidae) (Relatório da expedição, 2019).
Ainda segundo o relatório, foi evidenciado o empobrecimento de algumas espécies nativas
na composição das capturas, sendo constatado a diminuição de curimatãs-pacús e pilombetas, onde
ocorreu aumento de espécies da ordem Perciformes e de espécies eurihalinas, marinhas e exóticas
com relação as nativas (Relatório da expedição, 2019).
A diversidade de peixes nativos com diferentes hábitos e comportamento alimentar,
apresentam-se como uma vasta área de estudo, principalmente no que se refere às características
125
morfofisiológicas (Rodrigues; Navarro, Menin, 2006). O trato digestório dos Teleósteos de água
doce atrai atenção de pesquisadores devido ao elevado grau de variações estruturais que possibilita
a compreensão dos mecanismos de ingestão, digestão e absorção dos alimentos (Menin, 1988;
Ferreira et al., 2013; Santos et al., 2015).
Os peixes dulcícolas, em sua maioria, possuem hábito alimentar generalista, pouco
especializado, uma condição necessária para ingerir, digerir e absorver os diferentes tipos de
alimentos, explorando uma grande diversidade de itens alimentares disponíveis (Rotta, 2003). A
morfologia do sistema gastrointestinal de peixes permite relacionar o hábito alimentar natural ao
longo do seu desenvolvimento, já que eles possuem estruturas especificas envolvidas no processo
digestivo (Morais et al., 2014; Alabssawy; Khalaf-Allah; Gafar, 2019).
Morfologicamente, um intestino típico do teleósteo é uma estrutura tubular que começa na
boca e termina no ânus. Ao ser ingerido, o alimento é processado na boca e levado ao esôfago, que,
com auxílio da mucosa secretora, transporta para o estômago. O estômago atua na digestão dos
alimentos, uma função que é completada no intestino. O intestino é o principal órgão de absorção
de nutrientes, geralmente auxiliado pelos cecos pilóricos, que são apêndices que servem para
aumentar a área superficial do intestino. O alimento não digerido é levado para o reto e expelido
pelo ânus (Rotta, 2003; Day, Tibbetts; Secor, 2014; Gu et al., 2014).
O trato digestório dos peixes possui importantes glândulas anexas, constituídas pela
vesícula biliar, o pâncreas e o fígado (Rotta, 2003) e é compartilhado com o sistema respiratório,
principalmente pela presença das brânquias e das valvas orais que estão envolvidas na mecânica
respiratória (Rodrigues; Menin, 2006).
O canal alimentar dos peixes é um dos principais sistemas que possui interação direta com
o meio ambiente (Purushothaman et al., 2016). Esses organismos aquáticos são sensíveis à
exposição a produtos químicos e acumulam poluentes diretamente através da água ou pela ingestão
de outros organismos contaminados (Matsumoto et al., 2006). Os peixes, mais que outros
vertebrados, respondem prontamente à complexidade ambiental (Joblin, 1995), que podem resultar
em alterações que prejudicam a realização de suas funções fisiológicas e efeitos adversos a curto,
médio ou longo prazo.
Os peixes têm sido amplamente utilizados em estudos experimentais, tanto em avaliações
de saúde dos ecossistemas aquáticos como em estudos toxicológicos (Castaño et al., 2008;
Fontanetti et al., 2012; Yancheva et al., 2015; Wolf e Wheeler, 2018; Al-Otaibi et al., 2018). Os
estudos são realizados através de análises histológicas, histoquímicas e histopatológicas (Rocha et
al., 2010; Pinheiro et al., 2017), sendo o intestino e as brânquias importantes órgãos acumuladores
de poluentes que os transferem para o fígado para serem biotransformados por meio de enzimas e
126
então ser excretados (Heath, 1997). Diante disso, é importante ressaltar que a histopatologia é um
método eficaz para detectar os diversos efeitos da exposição aguda ou crônica nos vários tecidos e
órgãos (Hinton et al., 1992).
Devido
à
escassez
de
pesquisas
relacionadas
às
adaptações
nas
estruturas
anatomohistológicas do trato digestivo, bem como às alterações patológicas relacionadas com a
contaminação ambiental, a investigações sobre a morfologia das células do intestino, das brânquias
e do fígado dos peixes do Baixo São Francisco são indispensáveis para a compreensão de
intoxicações celulares em organismos aquáticos que podem propiciar subsídios para importantes
pesquisas sobre detecção de impactos ambientais.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram analisadas histologicamente amostras de tecidos do fígado, brânquias e intestino de
30 diferentes peixes pertencentes a nove espécies, coletadas em sete pontos da região do Baixo São
Francisco. As espécies estudadas incluem a Cichla monoculus (Tucunaré), Schizodon knerii (Piau
branco), Megaleporinus obtusidens (Piau 3 pintas) coletados no município de Piranhas, Metynnis
maculatus (Pacu), Serrasalmus brandtii (Pirambeba) coletados em Pão de Açucar, C. monoculus e
Astronotus ocellatus (Acara-boi) coletados em Traipu, Colossoma macropomum (Tambaqui) e S.
brandtii coletados em Propriá, S. knerii e M. maculatus coletados em Igreja Nova, S. knerii e M.
maculatus coletados em Penedo e M. obtusidens e Eugerres brasilianus (Carapeba) coletados em
Piaçabuçu.
Após captura, peixes coletados foram identificados, dissecados e os intestinos, fígados e
brânquias, fixados em formol a 10% e após 48 horas fixados em álcool 70% e levados para o
Laboratório Aquicultura e Análise de Águas (LAQUA) do Centro de Ciências agrárias (CECAUFAL), onde os estudos histológicos foram desenvolvidos.
Para realização das análises histológicas, foram retirados fragmentos do intestino médio,
do fígado e das brânquias e acondicionados em tubos de eppendorf de 2mL Posteriormente
realizou-se a desidratação em série alcoólica crescente a 80 e 90% (10 minutos cada) e três banhos
de 10 minutos cada em álcool etílico a 99%. As amostras foram infiltradas, à temperatura ambiente,
primeiro em um banho de duas horas com uma mistura de historesina (Leica®) e álcool (1:1) e
depois mantidas imersas em historesina pura por 24h. O material foi incluído em historesina e
transferido para moldes de polietileno (histomold) e mantidos em temperatura ambiente até a
polimerização completa dos blocos. Cortes semifinos com 5 μm de espessura foram obtidos em
micrótomo rotativo com navalhas de aço inox.
127
Os cortes foram transferidos para lâminas histológicas, que foram colocadas em placa
aquecida a 40 °C por 15 minutos para que as secções de historesina ficassem distendidas e aderidas
à lâmina. Posteriormente, os cortes foram corados com hematoxilina de Harris, por 30 minutos,
lavados em água corrente por 5 minutos, corados com eosina por 30 segundos e lavados novamente.
Para proteção do material, lamínulas foram aderidas às lâminas usando Entellan® (Merck
Millipore) como meio de montagem. Em seguida, o material foi fotografado em microscópio de
luz com câmera digital seguindo o protocolo vigente do laboratório de microscopia/CECA.
Nos estudos histopatológicos, algumas lâminas foram separadas antes de serem coradas e
realizados testes por meio da reação do reativo de Schiff (PAS). As reações de PAS permitem
evidenciar a presença de polissacarídeos neutros, que possuem grupo glicol em suas estruturas.
Posteriormente, as lâminas foram fotografadas em microscópio de luz e realizada a análise das
estruturas celulares do intestino, fígado e brânquias dos peixes.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Análise histológica dos órgãos das espécies coletadas no Baixo São Francisco
Fígado
De maneira geral, a análise do fígado das espécies de peixes estudadas possui as
características gerais encontradas na maioria dos Teleósteos. O parênquima hepático é composto
basicamente por hepatócitos com formato poliédrico, podendo ser de oval a polígonos irregulares,
com bordas distintas e estão dispostos radialmente em torno da veia central com uma dupla camada
celular delimitada por sinusóides (capilares sanguíneos de pequeno calibre) formando os cordões
de hepatócitos (Figura 1A). Os sinusóides são capilares que ocupam o espaço entre as placas de
hepatócitos. Segundo El-Bakary e El-Gamma (2010), a estrutura hepatócito-sinusoidal é
fisiologicamente importante, não apenas porque os hepatócitos ocupam grandes moléculas do
sinusóide, mas também porque um grande número das macromoléculas são secretadas nesses
vasos.
Os hepatócitos possuem citoplasma claro, com um núcleo, geralmente esféricos, basófilos,
centrais ou levemente periféricos com quantidades variáveis de heterocromatina. Apresentam
nucléolo único evidente e central (Figura 1B).
128
Figura 1. Fotomicrografia do tecido hepático de peixes. HE, obj. 40x. A) Hepatócitos de Pirambeba com
aspecto normal, mostrando núcleo arredondado e basófilo (cabeça de seta). B) Tecido hepático de Tunucaré
com aspecto uniforme e pequenos vasos sinusóides entre os hepatócitos (seta). Espécimes coletados em
Propriá e
Dentre os resultados encontrados, foi constatado que as espécies C. monoculus, S. knerii,
A. ocellatus e E. brasilianus possuem a porção exócrina do pâncreas associada ao fígado, comum
em peixes, e chamado hepatopâncreas. Uma característica marcante são as “ilhas” de tecido
pancreático comumente encontradas dispersas no tecido hepático de algumas espécies de peixes.
Este tecido pode ser diferenciado do tecido hepático por apresentar ácinos pancreáticos, em arranjo
acinar e também pelo septo de tecido conjuntivo separando-o dos hepatócitos (Genten; Terwinghe;
Danguy, 2009).
Em nenhuma das espécies aqui estudadas foi possível constatar as tríades portais, as quais
são constituídas por ramificações da veia porta, da artéria hepática e ducto biliar, características
típicas do fígado dos mamíferos. Segundo Bruslè e Anadon (1996), as tríades portais são
indistintas, podendo ser ausentes em algumas espécies de teleósteos. No entanto, estudando tecido
hepático do fígado de Oreochromis niloticus Figueiredo-Fernandes et al. (2007) constataram a
frequente a presença dos pancreócitos.
A histologia do parênquima hepático revelou alterações celulares de diversos graus nos
peixes. A análise microscópica mostrou que 93% dos exemplares estudados apresentaram alguma
alteração hepáticas. Os diagnósticos hepáticos incluíram infiltração leucocitária, vacuolização dos
hepatócitos, dilatação dos vasos sinusóides, congestão, necrose, presença de centros de
melanomacrófagos (CMM) e melanomacrófagos livres (FIGURAS 3). A tabela 1 demonstra quais
os tipos de alterações celulares encontrados em cada uma das espécies amostradas nos diferentes
pontos de coleta. Das espécies de peixes estudados, todas apresentaram alguma manifestação
patológica no fígado, mesmo em grau leve.
129
Tabela 1. Alterações histológicas encontradas na análise de fígados dos peixes coletados
Ponto de
coleta
Nome comum
Nome científico
Alteração histológica
Tucunaré
Cichla monoculus
Infiltração de leucocitária
Piau branco
Schizodon knerii
Infiltração leucocitária
Piau 3 pintas
Megaleporinus
obtusidens
Vacuolização
Piranhas
Infiltração leucocitária
Pacu
Metynnis
maculatus
Vacuolização
Pirambeba
Serrasalmus
brandtii
Infiltração leucocitária
Tucunaré
Cichla monoculus
Vacuolização
Acará-boi
Astronotus
ocellatus
Necrose
Tambaqui
Colossoma
macropomum
CMM e melanomacrófagos
livres
Pirambeba
Serrasalmus
brandtii
------
Piau Branco
Schizodon knerii
vacuolização
Pacu
Metynnis
maculatus
congestão
Piau Branco
Schizodon knerii
congestão
Pacu
Metynnis
maculatus
Vacuolização
Pão de Açúcar
Traipu
Propriá
Igreja Nova
Penedo
Piau 3 pintas
Megaleporinus
obtusidens
Congestão
Eugerres
brasilianus
----
Piaçabuçu
Carapeba
Necrose (leve)
CMM
As amostras de Tucunaré apresentaram alterações nas coletas dos municípios de Piranhas
e Traipu, os espécimes possuíam infiltração de leucócitos, vacuolização dos hepatócitos e presença
de centro de melanomacrófagos (Figura 2 A-B). O acúmulo de leucócitos, principalmente
neutrófilos e células derivadas de monócitos, é uma característica importante da reação
inflamatória (Bechara; Szabó, 2009). Ainda segundo os autores, os leucócitos possuem capacidade
130
de incorporar e degradar bactérias, complexos imunes e restos de células necróticas, e as suas
enzimas contribuem de outras formas com a resposta defensiva do hospedeiro.
As amostras de Tambaqui coletadas em Propriá também apresentaram infiltração de
leucócitos e a presença de melanomacrófagos livres no tecido hepático (Figura 2C). O
melanomacrófago é uma categoria de macrófago muito comum nos peixes. Os melanomacrófagos
estão localizados próximos às regiões portais e apresentam-se livres ou organizam-se formando
centros melanomacrófagos (CMM). Segundo Hartley et al. (1996), os CMM são elementos críticos
do sistema imune de peixes, incluindo resposta imune contra materiais de origem externa. Doria et
al. (2017) associaram a alta prevalência e intensidade de centros de melanomacrófagos como
indicador de implicação sanitária nos peixes e de condições de estresse ambiental.
Na análise do parênquima hepático da Pirambeba coletada em Pão de açúcar, do Tucunaré
e Acará-boi coletados em Traipu, as alterações histológicas que prevaleceram foram a presença de
infiltrações leucocitárias, vacúolos e dilatação dos vasos sinusóides (Figura 2D, E, F). A
vacuolização de hepatócitos é uma resposta inespecífica de peixes devido a condições tóxicas
(Roberts, 1978; Giari et al., 2007). A indução de vacuolizações em peixes tem sido demonstrada
in vivo após exposição a certos pesticidas (Braunbeck et al, 1998). Contudo, Archa, Hubert e PfholLeszkowicz (2003) sugerem que a vacuolização pode estar relacionada uma dieta não balanceada,
com excesso de triglicerídeos ou deficiência de proteínas mas acreditam que provavelmente seja
ocasianada pela disrupção enzimática da regulação lipídica causada por intoxicação. Apesar da
presença de vacúolos, não foram identificados depósitos de glicogênio no citoplasma dos
hepatócitos em nenhuma das espécies
A amostra do fígado do Acará-boi apresentou graves alterações no parênquima hepático,
demonstrando tecido com necrose e dilatação severa do sinusóides (Figura 2F). A necrose é o
estágio final, mais severo, de alteração tecidual (Noga, 1996). A congestão de sinusóides e
pequenos vasos fazem o fluxo sanguíneo da veia porta hepática e artéria hepática para a veia central
bastante difícil. Isso pode ser responsável pela degeneração celular e necrose no fígado dos peixes
(Faccioli et al., 2014).
A necrose hepática é uma manifestação irreversível e considerada o ponto final das
alterações celulares, sendo uma consequência comum de inflamações, de processos degenerativos,
infiltrativos e circulatórios. Esta alteração está intimamente correlacionada a exposição crônica a
irritantes, poluentes e metais pesados (Mela et al., 2013, Strzyzewska et al., 2016; Lehmann, 2018).
Neste trabalho, várias das lesões observadas conhecidas como hepatodistrofias, a exemplo
de congestão e necroses estão relacionadas aos processos de intoxicação sendo a extensão e
131
gravidade da lesão proporcional ao tipo, duração, severidade da agressão e estado fisiológico da
célula envolvida (Robbins; Cotran, 2005).
Figura 2. Fotomicrografias das alterações histopatológicas observadas nos peixes do baixo São Francisco.
HE, obj. 40x. A-B) Parênquima hepático (H) de Tucunaré com congestão vascular (Co) na área do tecido
pancreático (P), apresentando vacúolos e centro de melanomacrófagos (CMM). C) Tecido do Tambaqui
com infiltração leucocitária (IL) e presença de melanomacrófagos livres (seta). D) Parênquima hepático da
Pirambeba apresentando vacúolos (cabeça de seta) e dilatação do sinusóides. E) Infiltração leucocitária (IL),
presença de grandes vacúolos (V), e sinusóides (setas) no tecido do Tucunaré, F) Tecido hepático do Acará-
132
boi apresentando dilatação severa no sinusóide (D) ao redor do pâncreas (P), vacúolos (V) e necrose (cabeça
de seta).
Brânquias
As brânquias dos peixes analisados neste estudo apresentaram morfologia similar à descrita
para a maioria dos teleósteos dulcícola, nos quais se observam lamelas primárias e secundárias. As
lamelas possuem número variável e estão ancoradas nos filamentos branquiais e apresentam-se
paralelas entre si. Os arcos branquiais possuem fileiras de filamentos contendo lamelas secundárias,
dispostas em ambos os lados da lamela primária e representam a superfície de troca gasosa
(FIGURA 3A).
Os filamentos branquiais possuem um suporte cartilaginoso central onde se encontram
vasos que compreendem o seio venoso central. A lamela primária possui o epitélio recobrindo as
extremidades distais, o epitélio é contínuo e rico em células secretoras de muco (Figura 3D). Os
filamentos branquiais apresentam um epitélio estratificado, constituído por diversos tipos de
células, entre os quais se podem distinguir os eritrócitos, células pilares, células mucosas e células
de cloreto (FIGURA 3B). O esqueleto cartilaginoso sustenta a lamela primária e possui uma matriz
extracelular bem marcada contendo em seu interior numerosos condrócitos (Figura 3C).
As lamelas secundárias apresentam espaços interlamelares bem definidos, contendo
camadas de células do epitélio intimamente ligadas às demais células das lamelas conferindo um
aspecto uniforme e contínuo. Os resultados demostraram o arranjo das numerosas lamelas
secundárias em forma de fio paralelo (Figura 3D).
Os peixes possuem estruturas que os permitem executar uma extração de oxigênio
dissolvido na água para utilização em suas reações metabólicas (Holden; Layfield; Matthews,
2012). As brânquias exercem funções vitais nos teleósteos, tais como respiração, osmorregulação
e excreção e ainda constituem o sítio de tomada e depuração de contaminantes (Meyers; Hendricks,
1985; Pacheco; Santos, 2002). As células secretoras produzem muco composto por diferentes
categorias de mucopolissacarídeos que formam uma camada protetora às lamelas secundárias e
protegem o organismo contra agressões ambientais. Outro tipo celular presente neste filamento são
as células de cloreto responsável pela receptação adequada de sal (Holden; Layfield; Matthews,
2012). Mumford et al. (2007) e Genten et al. (2009), mencionaram a presença de células
caliciformes, responsáveis pela secreção de muco as quais não foram observadas nas amostras
estudadas.
133
Figura 3. Fotomicrografias de secções longitudinais das brânquias de peixes. [HE, obj. A-D10x; B-C 40x.]
A) Histologia das brânquias de Piau 3 pintas indicando a lamela primária (LP), as lamelas secundárias (LS),
células pilares (P), eritrócitos no seio venal da lamela primária. B) Brânquias de Tucunaré mostrando o seio
venoso central (SVC), presença das células pilares (cabeça de seta), células de cloreto (seta vermelha),
espaço interlamelar uniforme (S), Células epiteliais (Ce), matriz extracelular (M). C) Brânquias de Pacu,
observar a matriz extracelular (M) revestindo os condrócitos (C). D) Brânquias de Piau branco, detalhe no
epitélio que recobre a extremidade distal da lamela primária (Ep), rico em células secretoras de muco (setas)
e nas lamelas secundárias disposta paralelamente (P). Espécies coletadas em Piaçabuçu, Traipu, Igreja Nova
e Piranhas respectivamente.
A análise microscópica deste trabalho mostrou que 53% dos exemplares estudados
apresentaram alguma alteração branquial. Os resultados histológicos indicaram danos nas
estruturas branquiais de C. monoculus, M. maculatus, S. brandtii, C. macropomum, S. knerii e E.
brasilianus, como fusão lamelar, desarranjo dos capilares, hiperplasia e hipertrofia das lamelas
secundárias, diminuição do espaço interlamelar e aneurisma. A tabela 2 apresenta os tipos de
alterações ocorridas em cada espécies/ponto de coleta.
Tabela 2. Alterações histológicas encontradas na análise de brânquias dos peixes coletados no
Baixo São Francisco (HE)
134
Ponto de
coleta
Nome comum
Nome científico
Alteração histológica
Tucunaré
Cichla monoculus
Fusão lamelar
Piranhas
Hipertrofia
Hipertrofia
Piau branco
Schizodon knerii
------
Piau 3 pintas
Megaleporinus
obtusidens
------
Pacu
Metynnis
maculatus
Hiperplasia na lamela
secundaria
Pirambeba
Serrasalmus
brandtii
Fusão lamelar
Tucunaré
Cichla monoculus
------
Acará-boi
Astronotus
ocellatus
------
Tambaqui
Colossoma
macropomum
Aneurisma/hipertrofia
Pirambeba
Serrasalmus
brandtii
Hiperplasia severa
Piau Branco
Schizodon knerii
Diminuição do espaço
interlamelar
Pacu
Metynnis
maculatus
-------
Piau Branco
Schizodon knerii
-------
Pacu
Metynnis
maculatus
Hiperplasia
Piau 3 pintas
Megaleporinus
obtusidens
------
Carapeba
Eugerres
brasilianus
Hiperplasia/aneurisma
Pão de Açúcar
Traipu
Propriá
Igreja Nova
Penedo
Piaçabuçu
A histologia das brânquias do Tucunaré coletado no município de Piranhas e da Carapeba
coletada em Piaçabuçu apresentou resultado similar, com hiperplasia e aneurisma nas lamelas
135
secundárias. Contudo, no Tucunaré também foi observada fusão lamelar, sendo a espécie que mais
apresentou alterações histopatológica dentre as analisadas no estudo (Figura 4A-B).
A espécie de Pacu coletado em Penedo mostrou sinais de fusão das lamelas associadas a
hiperplasia epitelial, semelhante às amostras de Tambaqui coletados em Propriá, além de
desarranjo na organização das lamelas secundárias (Figura 4C, 5E). Segundo Rigolim-Sá (1998),
a proliferação do epitélio respiratório, assim como a hiperplasia maciça e fusão lamelar, dentre
outras mudanças, são mecanismos de defesa das brânquias, que promovem o aumento da barreira
água-sangue.
As observações microscópicas realizadas nas amostras de Pirambeba e Piau Branco
coletados em Propriá e Igreja nova, respectivamente, evidenciaram hiperplasia e diminuição da
região interlamelar (Figura 5D, E), caracterizada por multiplicação celular sobre a superfície
respiratória dos peixes, podendo causar deslocamento do epitélio respiratório (Machado, 1999),
como observado no Pacu coletado em Penedo (Figura 4F). A fusão das lamelas secundárias e
hiperplasia interlamelar são fenômenos examinados quando a exposição a fatores irritantes é
crônica (Strzyzewska et al., 2016), causando diminuição das superfície respiratória-excretora das
brânquias, prejudicando sua função.
Respostas histopatológicas nas brânquias funcionam como mecanismos de defesa, pois
diminuem a área de superfície vulnerável da brânquia e podem aumentar a barreira de difusão ao
poluente (Erkmen; Kolankaya, 2000; Garcia-Santos et al., 2007). Contudo, ao dificultar o acesso
do poluente prejudica a realização de trocas gasosas (Mcdonald; Wood, 1993).
É sabido que ocorre aplicação excessiva de produto químicos na agricultura da região do
Baixo São Francisco, onde diversos agentes considerados tóxicos são despejados nos rios e corpos
d´água e encontrarem-se dissolvidos na água. Tais compostos inevitavelmente entrarão em contato
com os filamentos branquiais e com as lamelas respiratórias e, em altas concentrações, poderão
alterar a morfologia normal das brânquias (Luvizotto, 1994)
Diferentes cenários relativos a fatores ambientais podem ter interferido nos resultados do
presente trabalho. Alterações histopatológicas verificadas nas brânquias dos peixes coletados na
região do São Francisco assemelham-se a alterações comumente relacionadas à exposição a
contaminantes de efluentes antropogênicos (Lehmann, 2018), e as anormalidades observadas nas
brânquias podem refletir os impactos biológicos de mistura de poluentes presentes nessas áreas.
136
Figura 4. Fotomicrografia das alterações celulares encontradas nas brânquias dos peixes coletados no Baixo
São Francisco. HE, obj. 40x. A) Tecido branquial de Tucunaré, apresentando hiperplasia (HP), fusão das
lamelas secundárias (F) e dois aneurismas (*). B) Carapeba com hiperplasia (HP) e diversos aneurismas
(setas). C) Tambaqui mostrando desarranjo dos capilares (D) e fusão lamelar (setas) D) Piau Branco com
hiperplasia (HP). E) Pirambeba com hiperplasia (HP) e fusão lamelar (F). F) Pacu com hiperplasia (HP) e
deslocamento epitelial (setas). Espécimes coletados em Piranhas, Piaçabuçu, Propriá, Igreja Nova, Propriá
e Penedo, respectivamente.
Análise histoquímica PAS do fígado e brânquias
137
A análise histoquímica detectou que somente as brânquias apresentaram reação positiva ao
reativo de Schiff (PAS), isso ocorre pela provável produção de mucosubstâncias pelas células. As
amostras que reagiram positivo ao PAS foram Tunucaré e Piau branco coletados em Piranhas, Pacu
coletado em Pão de Açúcar e o Tambaqui coletado em Propriá. Não foram observadas diferenças
na intensidade de reação ao PAS, todas as amostras se mantiveram moderadas (FIGURA 5A-D).
Lima et al. (2009) e Díaz, García e Goldemberg (2005) verificaram característica
semelhante encontrada nas brânquias de Steindachnerina brevipinna (Characiformes, Curimatidae)
e Cynoscion guatucupa (Perciformes, Sciaenidae), sugerindo que esse resultado indica um controle
na acidez do conteúdo da secreção mucosa. Contrapondo-se a esse resultado, Breseghelo et al.
(2004) e Reis (2009) afirmam que maior produção de glicoproteínas pelas células mucosas ocorre
em situações de maiores stress, já que o muco contribui para proteção do animal quanto às
flutuações dos parâmetros físicos, químicos e biológicos do ambiente aquático.
É importante ressaltar que as amostras analisadas dos peixes Tucunaré (Figura 5A), Pacu
(Figura 5C) e Tambaqui (Figura 5D) coletados em Piranhas, Pão de Açúcar e Propriá,
respectivamente, apresentaram outras alterações celulares nas brânquias, além da reação PAS
positivo, sugerindo que tais espécies entraram em contato com substâncias tóxicas ou agentes
irritantes como pesticidas orgânicos, metais pesados ou despejos industriais.
Apesar de terem sido observado vacúolos nas amostras do fígado de algumas espécies de
peixes, nenhum dos constituintes do parênquima hepático apresentou reação positiva para PAS. A
ausência de glicogênio nos vacúolos dos hepatócitos demostrado pelo método PAS sugere que a
vacuolização pode estar relacionada com um processo degenerativo, pois os vacúolos normalmente
contêm glicogênio e lipídeos que atuam como reserva de glicose para fornecer energia para os
animais em situações de stress (Camargo; Martinez, 2007).
Mesmo não sendo possível observar os sinais de estresse aos quais peixes foram submetidos
no seu habitat, sabe-se que alterações na biologia das células e tecidos ocorrem quando animais
são submetidos a um grau importante de estresse em longo prazo (Mallatt, 1985; Reis, 2009).
138
Figura 5. Alterações histoquímicas em brânquias dos peixes coletados no Baixo São Francisco.
Reação positiva ao PAS (setas). Obj, 40x. A) Tucunaré. B) Piau Branco. C) Pacu. D) Tambaqui.
Espécimes coletados em Piranhas, Pão de Açúcar e Tambaqui.
Intestino
Nas análises histológicas do intestino dos peixes foi verificada uma elevada diversidade
morfológica entre as espécies. O epitélio obedece a arquitetura básica das camadas histológicas
que compõem o tubo digestório: mucosa, submucosa, muscular e serosa (Díaz et al., 2006) (Figura
6A). Os peixes analisados demonstraram um variado padrão no arranjo das vilosidades. Foi
observado epitélio intestinal do tipo simples ou estratificado contendo vilosidades revestidas por
um epitélio cilíndrico constituído por células epiteliais cilíndricas, colunares (ou enterócitos) e
células caliciformes. A camada muscular possui o arranjo organizacional estruturado em três
túnicas diferentes: muscular longitudinal interna, muscular circular interna que reveste
internamente o epitélio e muscular longitudinal externa (Figura 6B-H).
As características morfológicas do sistema digestivo dos peixes acham-se em estreita
dependência com a natureza dos alimentos, as características do habitat, o estado nutricional e o
estádio de desenvolvimento do indivíduo, manifestados, especialmente nesse aparelho, por
adaptações e modificações (Seixas Filho et al., 2000; Ferreira et al., 2013)
139
As amostras do epitélio intestinal do Pirambeba (Figura 6B), Tambaqui (Figura 6C),
Tucunaré (Figura 6E) e Piau 3 pintas (Figura 6F) apresentaram grande número de células
caliciformes, bem desenvolvidas e coloração basófila. As células caliciformes são tipos celulares
que apresentam algumas variações fenotípicas durante sua diferenciação e estabelecem como
principal atividade metabólica a produção de mucossubstâncias (Góes; Taboga, 2005). O muco
secretado pelas células caliciformes recobre o epitélio intestinal em toda extensão do tubo
digestivo, forma a primeira linha de defesa da mucosa (Junqueira; Carneiro, 1999), também são
responsáveis também pela lubrificação do epitélio (Díaz et al., 2008) e conferem proteção química
contra a agressão ocasionada por antígenos e toxinas (Gaudier et al., 2009; Melo et al., 2012).
Variações na estrutura das vilosidades da mucosa ao longo do intestino dos peixes foram
relatadas para espécies de hábito alimentar onívoro como Colossoma macropomum (Mori, 2016)
e Piaractus brachypomus (De Oliveira et al., 2019), herbívoro Schizodon knerii (Dos Santos et al.,
2015) e onívoro com tendência alimentar à carnivoria Cichlasoma orientale (Silva, 2015). Rotta
(2003) ressalta que um padrão elaborado de vilosidades potencializa a capacidade secretora e
absortiva dos nutrientes ingeridos.
Os resultados apresentados indicam amplas variações na morfologia do intestino, que
relacionam-se diretamente às suas funções, o que retrata a elevada diversidade dos teleósteos e suas
diferentes posições na cadeia trófica (Diaz, 2003).
140
Figura 6. Histologia do intestino de peixes coletados no Baixo São Francisco mostrando a diversidade
estrutural das espécies. HE, obj. 40x. A) Camadas histológicas do epitélio de Piau Branco: mucosa (Mu),
submucosa (S), camada muscular (M) e serosa (Se), detalhe nas vilosidade (V), B) Pirambeba, C) Tambaqui,
D)Tucunaré, E)Tucunaré, F)Piau 3 pintas, G)Pacu, H) Carapeba. Abrev. Vilosidades (V), Lumen (L),
Camada muscular (M), Camada muscular circular interna (Mc), Camada muscular longitudinal externa
(Ml). Lâmina própria (*), Células caliciformes (setas). Espécies coletadas em Igreja Nova, Pão de açúcar,
Propriá, Traipú, Piranhas, Piaçabuçu, Penedo e Piaçabuçu, respectivamente.
CONCLUSÃO
Dentre os espécimes analisados, 93% presentaram algum tipo de alteração no paquênquima
hepático e 53% apresentaram alterações branquiais. O tecido intestina se mostrou semelhante ao
141
de outras espécies de peixes teleósteos, entretanto, diferenças no arranjo das vilosidades foram
observadas.
Esses resultados permitiram concluir que através da histopatologia é possível avaliar se os
organismos aquáticos passaram por algum evento com agentes estressantes. Através das alterações
histopatológicas encontradas nos peixes coletados no Baixo São Francisco, verificou-se que a
maioria dos peixes coletados, não estavam saudáveis.
É de extrema importância estudos sobre a histologia do fígado, brânquias e intestino das
espécies do Baixo São Francisco, que analisem, em sua extensão, os órgãos que tem contato direto
com agentes contaminantes. Todas essas informações mostradas no estudo são essenciais para
subsidiar trabalhos de manejo das espécies e para o conhecimento do status sanitário dos peixes da
região.
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Diversidade Genética da Ictiofauna do Baixo São Francisco
Valéria Nogueira Machado1; Themis de Jesus da Silva2; Emilly Valentim3; Ricardo
FabioTeodósio3; Evaristo Pérez Rial4; Emerson Carlos Soares2
1
Pesquisadora, Universidade Federal do Amazonas
2
Professores Associados, CECA- LAQUA, Universidade Federal de Alagoas
3
Bolsistas de Iniciação Cientifica, LAQUA,Universidade Federal de Alagoas
INTRODUÇÃO
Desde suas cabeceiras, na Serra da Canastra em Minas Gerais, até sua foz no oceano
Atlântico, o rio São Francisco percorre cerca de 2.700km levando água e vida a região do semiárido
brasileiro, e exatamente por esse motivo costumam compará-lo ao rio Nilo na África (Alves &
Leal, 2010). O São Francisco atravessa regiões com condições naturais das mais diversas e possui
nove barragens para geração de energia elétrica sendo elas: Usina de Três Marias, Usina de
Sobradinho, Usina Itaparica, Usina Moxotó, Usina Paulo Afonso I, Usina Paulo Afonso II, Usina
Paulo Afonso III, Usina Paulo Afonso IV e Usina de Xingó (Godinho & Godinho, 2003).
Tradicionalmente o rio é dividido em quatro segmentos: o alto, que compreende a região da
nascente até Pirapora com uma extensão de 630 km; o segmento médio, que vai de Pirapora a
Remanso com um percurso de 1.090 km; o trecho submédio, de Remanso até a cachoeira de Paulo
Afonso com 686 km e o baixo São Francisco, que se estende do complexo de Paulo Afonso até sua
foz, compreendendo o segmento mais curto do rio com apenas 274 km (Paiva, 1982).
Os diferentes segmentos do São Francisco apresentam diferentes características físicoquímicas de suas águas e diferentes características geomorfológicas. O segmento superior é
caracterizado por águas rápidas, frias e oxigenadas; o curso médio por correr em uma região de
planalto, apresenta menor velocidade de correnteza e está sujeito a grandes cheias; o submédio está
praticamente barrado onde a velocidade das águas foi drasticamente reduzida e o baixo, por se
tratar de um trecho de planície e também pela redução da velocidade das águas no trecho submédio,
é mais lento e encontra-se sob forte influência das águas marinhas (Sato & Godinho, 1999).
Além dos barramentos do rio para geração de energia, o que causa um grande impacto na
dinâmica das espécies de peixes do São Francisco, as mesmas também são afetadas pela poluição
das águas causadas principalmente por esgotos domésticos e agrotóxicos que são carreados ao rio
através da lixiviação do solo. Todas essas alterações na dinâmica e qualidade das águas do São
148
Francisco exigem adaptações das espécies de peixes ao ambiente alterado. Um exemplo de como
a redução da vazão do rio altera a dinâmica dos peixes é o desaparecimento ou a diminuição drástica
de espécies migradoras no baixo São Francisco como a curimatã-pacu Prochilodus argenteus e o
piau Megaleporinus obtusidens (Barbosa et al. 2017). A redução da vazão do rio também permite
o avanço das águas salgadas do oceano Atlântico rio adentro (Barbosa& Soares, 2009), reduzindo
assim, a área de vida de espécies dulciaquícolas na porção baixa do rio São Francisco.
A ictiofauna da bacia hidrográfica do rio São Francisco é relativamente bem conhecida.
Embora algumas regiões concentrem maior número de estudos como a região da usina hidrelétrica
de Três Marias e a sub-bacia do rio das Velhas, a bacia como um todo já foi bem estudada,
sobretudo com respeito a sua composição ictiofaunística e a biologia das espécies (Britski et al.
1984; Britski, 2010; Barbosa & Soares, 2009; Alves & Pompeu, 2011; Barbosa et al. 2017;
Godinho & Godinho, 2003). Recentemente, Silva (2017) realizou um levantamento do nível de
conhecimento da ictiofauna da bacia do São Francisco objetivando uma padronização da
nomenclatura das espécies de peixes dessa bacia antes da efetivação da transposição das águas
desse rio para bacias adjacentes.
Embora por tantas modificações no curso do São Francisco, sua ictiofauna seja
relativamente bem conhecida, estudos que avaliem as relações filogenéticas das espécies, a
diversidade genética, sua estrutura populacional, bem como seus padrões biogeográficos são
poucos (Costa-Sá et al. 2012), restringindo-se a alguns gêneros ou espécies de interesse econômico
como Prochilodus argenteus e P. costatus (Melo et al. 2013) e Pseudoplatystoma corruscans
(Souza et al. 2010). Apenas um estudo molecular conduzido por Carvalho et al. (2011), utilizando
a metodologia do DNA Barcode foi mais abrangente. O autor analisou a diversidade dentro de 101
espécies morfológicas, oriundas principalmente do médio e alto curso do rio São Francisco, e
encontrou nove táxons com diversidade genética intraespecífica profunda, sugerindo a presença de
diversidade críptica dentro dessas espécies. Além disso, também foram observados alguns táxons
com linhagens estruturadas no rio Paraopeba, sugerindo possíveis Unidades Evolutivas
Significantes (ESU) para esse tributário do São Francisco.
Análises de diversidade genética e estruturação populacional das espécies são úteis para
identificar a diversidade íctica da bacia, assim como diagnosticar espécies mais vulneráveis aos
impactos gerados pelas varias alterações ambientais decorrentes dos múltiplos usos das águas do
São Francisco. O objetivo desse trabalho, portanto foi gerar códigos de barra de DNA para as
espécies de peixes do baixo rio São Francisco e, analisar comparativamente com o restante da bacia
a diversidade taxonômica desse rio.
MATERIAL E MÉTODOS
149
Coleta dos peixes e extração do DNA
Durante a segunda expedição cientifica ao baixo rio São Francisco foram coletadas amostras de
tecido muscular de 25 espécies de peixes. O percurso amostrado compreendeu cerca de 240 km
entre
a
cidade
de
Piranhas
e
a
foz
do
rio.
A
identificação
taxonômica das espécies foi feita por especialistas e com uso de chaves dicotômicas, literatura
especializada, e comparação com exemplares depositados em museus e coleções científicas. Todas
as coletas foram realizadas com autorização do IBAMA/MMA XXXXX.
As amostras coletadas foram enviadas a Coleção de Tecidos de Genética Animal da
Universidade Federal do Amazonas onde foram tombadas.
Quando foi possível, foram utilizadas cinco amostras por espécie para as analises genéticas.
O DNA foi extraído para todas as amostras a serem utilizadas nas análises de Barcoding.
Em seguida, foi checada a qualidade do DNA, e a região barcode do gene mitocondrial citocromo
oxidase subunidade I (COI) foi amplificada usando a combinação dos iniciadores COIFishF.2 (5’TTRTGGRGCTACAAICCICC-3’) e COIFishR.1 (5’-TACTTCIGGGTGICCRAAGAAYCA-3’)
(Colatreli et al., 2012). Os amplicons obtidos foram então purificados e sequenciados
bidirecionalmente no sequenciador automático ABI 3500 (Applied Biosystems).
Delimitação de espécies e distâncias genéticas
As sequencias foram alinhadas utilizando a ferramenta de alinhamento MAFFT,
implementada no software Geneious 7.0.6 (Kearse et al., 2012) e editadas manualmente. Estas
foram então traduzidas em aminoácidos hipotéticos para verificação de inserções, deleções e
códons de parada inesperados.
Para determinar as relações filogenéticas entre as espécies e populações de peixes coletados
foi utilizada a metodologia do DNA Barcode (Hebert et al., 2004) que usa o gene COI + árvore de
neighbor-joining + modelo evolutivo Kimura - 2 - parâmetros. Entre os métodos que usam
distâncias genéticas, o neighbor-joining é um dos mais usados, principalmente por causa da sua
eficiência computacional, especialmente quando a quantidade de sequências analisadas é muito
grande. Este método funciona em passos, minimizando a soma dos comprimentos dos ramos a cada
passo do processo de agregação (“clusterização”) das sequências (Kumar et al., 2008).
Para as análises de delimitação das espécies baseadas nos princípios da coalescência, o
banco de dados de sequências foi reduzido a haplótipos únicos usando a função hapCollapse
(http://github.com/legalLab/protocols-scripts). Em seguida, foram geradas árvores filogenéticas
ultramétricas no programa BEAST 2.6.2 (Bouckaert et al., 2014) sob o modelo de substituição de
nucleotídeos TIM3 + G inferido como o melhor modelo de evolução molecular no próprio BEAST
2.6.2. O relógio molecular utilizado foi o strict clock e o modelo evolutivo coalescente de tamanho
150
populacional constante. Foram executadas três corridas independentes de 20.000.000 de gerações
de MCMC com árvores e parâmetros amostrados a cada 2.000 gerações e, após verificar a
convergência, as corridas foram combinadas no LogCombiner 2.5.1 (Rambaut; Drummond, 2018).
A convergência dos parâmetros e o tamanho efetivo da amostra (ESS> 200) foram verificados no
Tracer 1.7 (Rambaut et al., 2018). Uma árvore de máxima credibilidade do clado foi obtida após o
burn-in de 1.000 árvores usando TreeAnnotator (Bouckaert et al., 2014).
Foram utilizados quatro métodos de delimitação de espécies de um único locus utilizando
as sequências geradas neste projeto e as sequências do médio e alto rio São Francisco provenientes
do trabalho de Machado et al. (2018) e Carvalho et al. (2011). Os métodos de delimitação utilizados
foram: (1) GMYC, o modelo coalescente geral de Yule (Fujisawa; Barraclough, 2013); (2)
bGMYC, uma implementação bayesiana do GMYC (Reid; Carstens, 2012); (3) local minima
(locMin), uma otimização de limite de distância e abordagem de agrupamento do pacote de
software spider_1.3-0 (Brown et al., 2012); e (4) mPTP, o método de processo de árvore de poisson
(Zhang et al., 2013). Todas as análises foram realizadas no R v3.6.1. (R Development Core Team,
2011). As metodologias seguiram os padrões preestabelecidos em Machado et al. (2018).
Distância e diversidade genética
As distâncias genéticas inter e intraespecíficas (máxima e mínima) das amostras utilizadas
foram calculadas através de matrizes de distâncias-p utilizando o pacote ape no programa R v3.6.1.
(R Development Core Team, 2011).
RESULTADOS
Foram
sequenciados
em
média
630
pares
de
base
do
gene
mitocondrial
Citocromo c oxidase subunidade I para 54 espécimes de peixes pertencentes a 19 espécies
nominais, cinco táxons identificados apenas no nível de gênero e um no nível de família (Tabela
01). O número de indivíduos por espécie variou de um (ex. Hoplias malabaricus, Prochilodus
costatus e Eugerres brasilianus) a oito em Schizodon knerii e Serrasalmus brandtii. Foram
adicionadas ao banco de dados 465 sequencias baixadas do Bold (Barcode of Life Data System)
provenientes dos trabalhos de Machado et al. (2018) e Carvalho et al. (2011). Essas sequências são
provenientes
principalmente
da
porção média e alta da bacia do São Francisco.
O banco de dados total consistiu de 519 sequencias, sendo que apenas uma delas (Eugerres
brasilianus) foi menor que 500 pares de bases. Nenhuma deleção, inserção ou códon de parada
inesperado foi observado.
151
A média de divergência genética variou de 0% a 13.9% (média de 0.8%) dentro
das espécies e de 0% a 21.73% (média de 10.0%) entre as espécies (Tabela 02). A análise de
Neighbor-Joining
mostrou
que
muitas
trabalho
formaram
grupos
monofiléticos,
(69.4%)
das
espécies
e
puderam
usadas
ser
nesse
discriminadas
corretamente (Tabela 02). No entanto, alguns táxons (11), se mostraram parafiléticos e
apresentaram altos valores de divergência intraespecífica. Dentro das 84 espécies e morfotipos que
puderam ser discriminados, 11 apresentaram valores de divergência interespecífica menor que 2%
(valor de corte adotado aqui para delimitação de espécies). No entanto esses valores ainda
permitiram a discriminação entre espécies, uma vez que as mesmas formaram coesivos grupos
monofiléticos.
Tabela 1. Locais de amostragem das espécies de peixes coletadas no baixo rio São Francisco com seus
respectivos números de amostras e sequências do gene mitocondrial COI.
Espécie
Pontos de coleta no baixo São Francisco
Piranhas
Schizodon knerii
11
Megaleporinus obtusidens
9
Pão de
Açúcar
Traipu
Porto Real do
Colégio
Penedo
Igreja
Nova
1
2
1
2
3
Hoplias microcephalus
2
Total
amostras/sequen
cias COI
Piaçabuçu
Foz
17/8
1
15/4
1
1/1
Pygocentrus piraya
2
2/2
Serrasalmus brandtii
7
19
1
6
5
1
Metynnis maculatus
1
8
2
8
6
14
1
40/8
40/4
Colossoma macropomum
6
6/0
Prochilodus argenteus
1
1/1
Cichla monoculus
1
Astronotus cf. ocelatus
2
1
1
5/5
3
3/0
Loricariidae
1
1/0
Hypostomus sp.
6
6/3
Eleotris pisonis
2
Eugerres brasilianus
1
2/2
5
1/1
Caranx latus
1
1/1
Archosargus probatocephalus
1
1/1
Strongylura sp.
1
1/1
Centropomus parallelus
1
1/1
Bathygobius cf. saporator
1
1/1
Sciades sp.
4
1
5/3
152
Eucinostomus melanopterus
1
1/1
Mugil curema
1
1/1
Trachinotus goodei
1
1/1
Trachelyopterus cf. galeatus
1
Sphoeroides testudineus
1/1
3
3/3
Os resultados das análises mostraram que a maioria das espécies sequenciadas (69.4%)
formaram grupos monofiléticos, indicando a correta identificação taxonômica das amostras através
das análises do DNA barcode (Figura 1, Tabela 2). Entre os métodos de delimitação de espécies,
locMin foi aquele que identificou um maior número de linhagens/clusters enquanto mPTP foi mais
conservador delimitando um menor número de linhagens.
As análises de delimitação usando sequencias de COI geradas a partir da coleta de peixes
na segunda Expedição ao baixo rio São Francisco, e sequências das porções média e alta desse rio
obtidas de Machado et al. (2018) e Carvalho et al. (2011), revelaram que todas as espécies
exclusivas de água doce coletadas na porção baixa do São Francisco não compõem linhagens
diferentes daquelas ocorrendo nos trechos mais altos do rio. Todos os espécimes das 13 espécies
de água doce da porção baixa formaram grupos coesos com os espécimes da parte superior
mostrando que essas populações não se encontram diferenciadas ao longo da calha principal do rio
São Francisco (Figura 1).
Distância e diversidade genética
As análises de distância e diversidade genética mostraram variáveis níveis de distância
genética interespecífica (de 0 até 21.73%) (Tabela 2). Dentro das espécies a diversidade genética
variou de 0.0 a 13.97%, indicando alta variabilidade dentro de algumas delas, como Astyanax
bimaculatus, Eigenmannia virescens, Synbranchus marmoratus entre outras. No entanto, a alta
variabilidade genética observada em algumas espécies se deve a diversidade críptica não detectada
em estudos anteriores. Não levando em conta espécies com um único espécime, particularmente
baixos níveis de diversidade intraespecífica foram encontrados em Serrasalmus brandtii,
Pygocentrus piraya, Crenicichla lepidota, Hoplias malabaricus, Leporinus piau e Prochilodus
costatus. Enquanto outras espécies como Astyanax bimaculatus, Imparfinis minutus e Pimelodella
vittata mostraram altos níveis de diversidade genética intraespecífica (Tabela 2).
A partir dos resultados desse trabalho foi possível observar que algumas espécies são
compostas por dois ou mais grupos separados por altos níveis de divergência genética (ex.
Gymnotus carapo, Synbranchus marmoratus, Astyanax bimaculatus), variando de 4,6% até 13,9%
no gene COI. Essa diversidade foi observada apenas na porção alta da bacia.
153
154
Figura 1. Delimitação de espécies baseada em DNA barcode-COI (651 pb) dos peixes do rio São
Francisco. Cores iguais representam a mesma espécie.
155
DISCUSSÃO
A bacia do rio São Francisco é uma bacia altamente alterada pelos múltiplos usos de suas
águas. Embora apresente uma riqueza relativamente pequena de espécies de peixes, mostra um alto
grau de endemismo dessas espécies. Diversos estudos permitiram, ao longo dos anos, uma
caracterização da ictiofauna dentro da bacia, assim como a relação histórica de algumas espécies
de peixes com populações de bacias vizinhas. No entanto uma caracterização da diversidade
genética dessa ictiofauna bem como uma analise da estrutura das populações de peixes ao longo
dessa bacia ainda é incompleta.
Nosso estudo aumentou a amostragem molecular da ictiofauna do rio São Francisco uma
vez que foram gerados códigos de barra de DNA (barcodes) para espécies coletadas na porção
baixa desse rio. Essas novas sequencias associadas ao banco de dados de Carvalho et al. 2011 da
porção media alta e alta do rio São Francisco e de Machado et al. 2018 da porção media alta,
permitiu uma analise mais completa da ictiofauna desse rio.
Nossas analises mostraram que as espécies ocorrendo no baixo São Francisco não formam
linhagens diferenciadas do restante da bacia. Esse resultado já foi observado por Carvalho et al.
(2011) analisando populações de peixes para a porção alta do rio, e isso parece ser um padrão
dentro da calha do São Francisco. No entanto, foi possível detectar ao longo da bacia espécies com
fortes indícios de diversidade críptica, apresentando distâncias genéticas compatíveis com níveis
interespecíficos. Imparfinis minutus, por exemplo, apresentou duas linhagens ocorrendo na bacia
do rio das Velhas (alto São Francisco) com uma divergência de 9% entre elas. Synbranchus
marmoratus (muçum) também apresentou duas linhagens divergentes dentro da bacia com
distância genética entre elas de 8,2%, um forte indicativo da existência de duas espécies dentro
desse táxon ocorrendo no rio Paraopebas (alto rio São Francisco).
A maioria das espécies utilizadas nesse estudo apresentou apenas uma linhagem ocorrendo
na bacia do rio São Francisco, isso inclui todas as espécies coletadas na parte baixa do rio. Espécies
com linhagens divergentes foram observadas apenas nos tributários da parte alta da bacia, o que
mostra que mesmo muito barrado e poluído, a troca de material genético entre as espécies de peixes
ao longo de toda a calha do São Francisco não foi interrompida. No entanto, a porção baixa do rio
sem duvida é a mais afetada por todas as alterações na bacia. As populações das espécies ocorrendo
nessa região não tem a opção de fuga da poluição e da intrusão salina, uma vez que os tributários
do baixo São Francisco não são perenes e as lagoas marginais também são profundamente afetas
com a redução da vazão. Embora haja a troca de material genético ao longo de todo rio, a tendência
das populações do baixo é o endocruzamento, o que diminui o potencial genético das espécies
156
podendo levar a redução drástica das populações locais, o que já tem sido observado para algumas
espécies como a curimatã-pacu Prochilodus argenteus e o piau Megaleporinus obtusidens.
Os resultados desse trabalho, portanto, indicam possíveis eventos de especiação em curso
ou concretizadas ocorrendo nos tributários da parte alta da bacia do São Francisco, mas também
mostram a redução da diversidade genética das espécies em direção à parte baixa, uma vez que
para a maioria das espécies coletadas no baixo São Francisco a diversidade foi baixa. Isso evidencia
a singularidade da região estudada e consequentemente agrava os impactos gerados pela poluição
e intrusão salina sobre a ictiofauna.
Tabela 2. Estatísticas do conjunto de dados discriminadas por espécie incluindo: contagem
individual, número de espécimes utilizados, tamanho da sequencia do gene COI em pares de base,
máxima divergência intraespecífica (distância p), divergência interespecífica mínima (distância p),
espécies mais próximas filogeneticamente e monofilia dos táxons.
Espécie
Indivíduos
Tamanho
da
sequencia
(bp)
Max_intra (%)
Min_inter
Espécies mais
(%)
próximas
Monofilético?
Acestrorhynchus
lacustris
5
651
0
18,641
Triportheus guentheri
Sim
Acinocheirodon
melanogramma
4
651
0,346
7,527
Odontostilbe sp.
Sim
Apareiodon
ibitiensis
1
651
0
12,289
Parodon hilarii
Singleton
Archosargus
probatocephalus
1
594
0
14,757
Cichla monoculus
Singleton
Astyanax
bimaculatus
22
651
13,978
0
Astyanax bimaculatus
lacustris; Astyanax cf.
fasciatus; Astyanax sp.
Sim
Astyanax
bimaculatus
lacustris
4
651
0,461
0
Astyanax bimaculatus
Sim
Astyanax cf.
fasciatus
5
651
0
0
Astyanax bimaculatus;
Astyanax sp.
FALSE
Astyanax rivularis
2
651
0
0,307
Astyanax sp.
6
651
1,571
0
Australoheros
facetus
5
651
0,154
Bathygobius cf.
soporator
1
594
Bergiaria
westermanni
2
Brycon
orthotaenia
5
Astyanax sp.
Sim
Astyanax rivularis;
Astyanax bimaculatus;
Astyanax cf. fasciatus
Sim
15,63
Cichla monoculus
Sim
0
17,508
Pareiorhina sp.
Singleton
651
0
4,608
Pimelodus fur
Sim
651
0,333
0
Brycon sp.
Sim
157
Brycon sp.
3
595
0,168
0
Brycon orthotaenia
Sim
Bryconops affinis
3
651
0
17,358
Odontostilbe sp.
Não
Bunocephalus sp.
4
651
0,307
15,825
Sciades sp.
Sim
Callichthys
callichthys
1
651
0
17,358
Pseudoplatystoma
corruscans
Singleton
Caranx sp.
1
594
0
14,141
Trachinotus goodei
Singleton
Centropomus sp.
1
594
0
18,966
Serrasalmus brandtii
Singleton
Cetopsorhamdia
iheringi
3
651
0,159
15,054
Cetopsorhamdia sp.
Sim
Cetopsorhamdia
sp.
5
651
0,922
15,054
Cetopsorhamdia
iheringi
Sim
Characidium
lagosantense
2
651
0
4,916
Characidium zebra
Sim
Characidium sp.
2
651
0
10,138
Characidium zebra
Sim
Characidium
zebra
4
651
1,382
4,916
Characidium
lagosantense
Sim
Cichla monoculus
5
595
0,174
14,757
Archosargus
probatocephalus
Sim
Compsura
heterura
2
651
0,461
6,605
Serrapinnus piaba
Sim
Conorhynchos
conirostris
6
611
0,655
14,239
Lophiosilurus
alexandri; Pimelodus
pohli
Sim
Corydoras garbei
1
651
0
15,975
Tetragonopterus
chalceus
Crenicichla
lepidota
6
651
0,161
21,739
Eugerres brasilianus;
Australoheros facetus
Sim
Curimatella
lepidura
6
651
0,614
9,677
Steindachnerina
elegans
Não
Cyphocharax
gilbert
3
651
0,461
11,433
Curimatella lepidura
Sim
Eigenmannia
virescens
6
651
8,602
16,59
Pimelodus pohli;
Hisonotus sp.
Sim
Eleotris pisonis
2
594
0,673
18,182
Rhamdia quelen;
Bathygobius cf.
soporator
Sim
Eucinostomus
melanopterus
1
594
0
17,677
Pseudopimelodus
charus
Singleton
Eugerres
brasilianus
1
468
0
18,162
Prochilodus costatus
Singleton
Franciscodoras
marmoratus
1
651
0
14,286
Pseudopimelodus
charus
Singleton
Geophagus
brasiliensis
1
651
0
16,134
Cichla monoculus
Singleton
Gymnotus carapo
4
651
4,608
16,743
Rineloricaria sp.;
Pimelodus maculatus
Sim
Harttia cf.
torrenticola
6
651
0,168
7,629
Harttia sp.
Sim
Harttia leiopleura
7
651
0,307
6,298
Harttia novalimensis
Sim
Singleton
158
Harttia
novalimensis
4
651
0
6,298
Harttia leiopleura
Sim
Harttia sp.
3
651
0
7,629
Harttia cf. torrenticola
Sim
Hemigrammus cf.
gracilis
1
651
0
13,21
Hemigrammus
marginatus
Singleton
Hemigrammus
marginatus
4
651
0,307
13,21
Hemigrammus cf.
gracilis
Sim
Hemipsilichthys
sp.
5
651
0,307
7,834
Pareiorhina sp.
Sim
Hisonotus sp.
3
651
0,307
13,323
Parotocinclus sp.
Sim
Hoplias
intermedius
1
651
0
11,379
Hoplias malabaricus
Singleton
Hoplias
malabaricus
11
651
0,672
11,379
Hoplias intermedius
Sim
Hoplosternum
littorale
6
651
0,154
18,28
Callichthys
callichthys;
Serrapinnus piaba
Sim
Hyphessobrycon
santae
5
651
0
15,515
Oligosarcus
Não
Hypostomus
alatus
4
651
0,792
0,345
Hypostomus sp.
Sim
Hypostomus sp.
4
580
2,414
0,345
Hypostomus alatus
Não
Imparfinis
minutus
6
651
9,063
15,975
Pseudopimelodus
charus;
Pseudopimelodus sp.
Sim
Knodus
moenkhausii
10
651
0
10,427
Planaltina myersi
Sim
Leporinus piau
11
651
0
7,527
Leporinus taeniatus
Não
Leporinus
taeniatus
5
651
0,317
7,527
Leporinus piau
Sim
Lophiosilurus
alexandri
3
651
0,324
10,906
Pseudopimelodus
charus
Sim
Megaleporinus
macrocephalus
1
651
0
9
Megaleporinus
reinhardti
Singleton
Megaleporinus
obtusidens
1
595
0
0
Megaleporinus sp08
Singleton
Megaleporinus
reinhardti
5
651
1,167
6,298
Megaleporinus
obtusidens;
Megaleporinus sp08
Sim
Megaleporinus
sp08
6
651
0
0
Megaleporinus
obtusidens
Não
Metynnis
lippinconttianus
4
595
0
12,069
Serrasalmus brandtii;
Pygocentrus piraya
Sim
Microglanis
leptostriatus
5
651
0,461
12,56
Pseudopimelodus
charus
Não
Microlepidogaster
sp.
2
645
0
4,186
Parotocinclus sp.
Sim
Moenkhausia
costae
1
651
0
17,358
Hemigrammus cf.
gracilis
Singleton
159
Moenkhausia
sanctaefilomenae
5
651
0,307
17,665
Astyanax bimaculatus;
Hemigrammus cf.
gracilis
Sim
Mugil sp.
1
594
0
17,508
Myleus micans
Myleus micans
7
651
0,493
12,882
Pygocentrus piraya
Sim
Neoplecostomus
sp.
7
651
0,632
7,373
Pareiorhina sp.
Sim
Odontostilbe sp.
10
651
0,614
7,527
Acinocheirodon
melanogramma;
Serrapinnus piaba
Sim
Oligosarcus
2
651
0
3,994
Oligosarcus sp.
Sim
Oligosarcus sp.
2
651
0
3,994
Oligosarcus
Sim
Sim
Singleton
4
651
0,307
16,283
Astyanax bimaculatus
lacustris; Oligosarcus
sp.; Astyanax
bimaculatus;
Roeboides xenodon;
Oligosarcus; Astyanax
rivularis; Astyanax sp.
Otocinclus
xakriaba
2
651
0
15,361
Hisonotus sp.
Sim
Pamphorichthys
hollandi
6
651
2,458
0
Pamphorichthys sp.
Sim
Pamphorichthys
sp.
1
651
0
0
Pamphorichthys
hollandi
Pareiorhina sp
2
651
0
7,373
Neoplecostomus sp.
Sim
Parodon hilarii
3
651
0
12,289
Apareiodon ibitiensis
Sim
Parotocinclus sp.
2
651
0
4,186
Microlepidogaster sp.
Sim
Phalloceros uai
8
651
0
17,358
Pamphorichthys
hollandi
Não
Phenacogaster
franciscoensis
1
651
0
16,283
Piabina argentea;
Tetragonopterus
chalceus
Singleton
Piabarchus
stramineus
4
651
8,141
3,84
Piabina argentea
Sim
Piabina argentea
3
651
5,837
3,84
Piabarchus stramineus
Sim
Piaractus
mesopotamicus
5
609
0
13,937
Pygocentrus piraya
Sim
Pimelodella
vittata
6
651
8,602
11,25
Rhamdia quelen
Sim
Pimelodus fur
3
651
0
4,455
Pimelodus maculatus
Sim
Pimelodus
maculatus
5
651
0,322
4,455
Pimelodus fur
Sim
Pimelodus pohli
4
651
0,922
4,608
Pimelodus fur
Sim
Planaltina myersi
6
651
0,922
10,427
Piabina argentea;
Knodus moenkhausii
Sim
Poecilia sp.
5
651
2,151
13,21
Pamphorichthys
hollandi
Não
Prochilodus
argenteus
11
651
0,614
1,61
Prochilodus costatus
Sim
Orthospinus
franciscensis
Singleton
160
Prochilodus
costatus
9
651
0,168
1,61
Prochilodus argenteus
Sim
Pseudopimelodus
charus
2
651
0,322
0,307
Pseudopimelodus sp.
Não
Pseudopimelodus
sp.
1
651
0
0,307
Pseudopimelodus
charus
Singleton
Pseudoplatystoma
corruscans
4
651
0,322
11,521
Pimelodus pohli
Sim
Pterygoplichthys
etentaculatus
7
651
0
5,042
Hypostomus alatus;
Hypostomus sp.
Sim
Pygocentrus
piraya
17
651
0,517
4,138
Serrasalmus brandtii
Sim
Rhamdia quelen
6
651
0,478
11,25
Pimelodella vittata
Sim
Rhinelepis aspera
1
648
0
15,878
Leporinus piau
Rineloricaria sp.
2
651
0
15,888
Harttia sp.
Sim
Roeboides
xenodon
4
651
0,307
13,671
Tetragonopterus
chalceus
Sim
Salminus
franciscanus
8
600
0,167
5,333
Salminus hilarii
Sim
Salminus hilarii
2
651
0,154
5,333
Salminus franciscanus
Sim
Schizodon knerii
15
651
0,172
12,721
Leporinus taeniatus
Sim
Sciades sp.
3
594
3,535
14,912
Trachelyopterus cf.
galeatus
Sim
Serrapinnus piaba
5
651
1,382
6,605
Compsura heterura
Sim
Serrasalmus
brandtii
23
651
0,558
4,138
Pygocentrus piraya
Sim
Sphoeroides
testudineus
3
594
0,505
16,498
Hoplias malabaricus
Sim
Steindachnerina
elegans
3
651
0
9,677
Curimatella lepidura
Sim
Sternopygus
macrurus
4
651
0,154
17,665
Steindachnerina
elegans; Eigenmannia
virescens
Sim
Strongylura sp.
1
594
0
18,35
Cichla monoculus
Stygichthys
typhlops
5
651
0,154
15,668
Astyanax bimaculatus;
Astyanax bimaculatus
lacustris
Singleton
Singleton
Sim
3
651
8,295
19,508
Prochilodus
argenteus;
Trachelyopterus
galeatus; Roeboides
xenodon
Tetragonopterus
chalceus
2
651
0
13,671
Roeboides xenodon
Sim
Trachelyopterus
cf. galeatus
1
570
0
1,754
Trachelyopterus
galeatus
Singleton
Trachelyopterus
galeatus
2
651
0,154
1,754
Trachelyopterus cf.
galeatus
Sim
Trachinotus
goodei
1
594
0
14,141
Caranx sp.
Synbranchus
marmoratus
Sim
Singleton
161
Trichomycterus
brasiliensis
4
651
1,075
7,68
Trichomycterus
reinhardti
Sim
Trichomycterus
reinhardti
3
651
0
7,68
Trichomycterus
brasiliensis
Sim
Trichomycterus sp
1
651
0
10,445
Trichomycterus
brasiliensis
Singleton
Triportheus
guentheri
1
651
0
15,668
Prochilodus argenteus
Singleton
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Avaliação da Paisagem Acústica na Região do Baixo Rio São Francsico
Alfredo Borie-Mojica1
1 Universidade Federal de Alagoas - UFAL, Unidade Acadêmica Penedo/AL
a.borie@gmail.com
RESUMO
A paisagem acústica do Baixo rio São Francisco foi avaliada utilizando o método acústico passivo
efetuando gravações subaquáticas entre as ~17:00 e 06:00 h em sete locais entre Piranhas e a foz do
rio, onde foram detectados diferentes tipos de sons biológicos (biofônicos) e antropogênicos
(antrofônicos). Os sons predominantes nessas localidades, exceto na foz foram característicos de sons
emitidos por camarões, que ocorreram principalmente no final da tarde e início da manhã. Os valores
médios das altas e baixas frequências foram de 8,4 ± 0,8 e 3,7 ± 0,3 kHz respectivamente, e frequência
central de 5,5 ± 0,09 kHz. Além deste tipo de som, na região de Piaçabuçu e estuário foram
identificados outros dois tipos de sons de camarões com banda de frequência entre 1 a 15 kHz,
podendo chegar a 40 kHz e 0,5 e 10 kHz respectivamente. Na área de Piaçabuçu, a paisagem acústica
apresentou características similares a ecossistemas estuarinos. Esporadicamente foi possível também
detectar sons de peixes com baixas frequências (entre 0,2 e 1,5 kHz), principalmente na região de
Piaçabuçu e estuário, em Piranhas foi detectado um tipo de som similar ao encontrado em espécies do
gênero Prochilodus. Também foram detectados ruídos antropogênicos de diferentes embarcações com
ampla banda de frequência (entre 0,2 e 15 kHz), podendo mascarar sons biológicos. Estes resultados
indicar que a acústica passiva pode ser utilizada como ferramenta de monitoramento das atividades
biológicas e antrópicas, assim como as condições em ambientes de águas continentais e estuarinas.
ABSTRACT
The soundscape of lower São Francisco river was evaluated using the passive acoustic method,
making underwater recordings between ~17:00 and 05:00 h at seven locations between Piranhas and
the mouth of the river, where different types of biological sounds (biophonic) and anthropogenic
164
(anthrophonic) were detected. The predominant sounds in these locations except at the mouth were
characteristic of sounds emitted by shrimp, which occurred mainly in the late afternoon and early
morning. The average values of the high and low frequencies were 8.4 ± 0.8 and 3.7 ± 0.3 kHz
respectively, and the central frequency was 5.5 ± 0.9 kHz. In addition to this type of sound, in
Piaçabuçu and estuary regions have been identified two other types of shrimp sounds with a frequency
band between 1 to 15 kHz, reaching 40 kHz and 0.5 and 10 kHz respectively. In the Piaçabuçu area,
the soundscape presented similar characteristics to estuarine ecosystems. Sporadically it was also
possible to detect fish sounds with low frequencies (between 200 and 1500 Hz), mainly in the
Piaçabuçu and mouth region, in Piranhas a type of sound similar to that found in species of the genus
Prochilodus was detected. Anthropogenic noises were also detected from different vessels with a wide
frequency band (between 0.2 and 15 kHz), which can mask biological sounds. These results indicate
that passive acoustics can be used as a tool for monitoring biological and human activities, as well as
conditions in continental and estuarine environments.
INTRODUÇÃO
Monitorar alterações dos ambientes e seus habitantes é uma necessidade crítica de gestão e um
desafio tecnológico considerável. Em muitos habitats marinhos, o monitoramento a médio e longo
prazos é uma tarefa desafiadora e, nesse sentido, a paisagem acústica pode ser um meio eficaz para
avaliar a atividade biológica e antrópica em locais onde o monitoramento contínuo por métodos de
pesquisa tradicionais é impraticável.
A paisagem acústica é o conjunto de sons de um determinado ambiente (Farina et al., 2011), e
pode ser útil como um indicador confiável de tipo de habitat e potencialmente transmitir informação
de qualidade do habitat (Lillis et al. 2014), sendo aplicada a qualquer ecossistema, fornece
informações valiosas sobre sinais acústicos naturais que ocorrem em diversos ecossistemas
(Staaterman et al., 2013). Para estudar a paisagem acústica e os sons que a compõem, recentemente
vem sendo utilizado o método acústico passivo, que se baseia em ouvir os sons produzidos por
organismos sonoros, possibilitando a utilização dos sons como verdadeiros marcadores naturais das
espécies, uma vez que são espécie-específicos. A acústica passiva também provê benefícios
importantes para a investigação científica já que é uma ferramenta observacional não invasiva e não
destrutiva, com uma capacidade de monitoramento remoto permanente ou de longa duração e fornece
importantes informações sobre padrões diários e sazonais (Rountree et al., 2006). Estudos utilizando
a acústica passiva vem permitindo avaliar a paisagem acústica subaquática em diversos ecossistemas,
principalmente marinhos, como o de aguas profundas (Wall et al., 2014), costeiros temperadas
165
(Radford et al 2008, 2010, Butler et al., 2016) e tropicais, incluindo recifes de corais (Bertucci et al.,
2015; Staaterman et al., 2013).
Diversos organismos aquáticos são capazes de emitir sons para a comunicação associados a
diferentes tipos de comportamentos (Tyack 1998). O conjunto destes sons permite definir a paisagem
acústica de diversos ambientes, indicando o grau de diversidade de espécies, o estado de conservação
do ambiente, além de ser útil para avaliar a distribuição dos organismos (Pijanowski et al., 2011;
Farina & Pieretti, 2012). Em ambientes marinhos predominam os sons biológicos (biofônicos)
produzidos por diversas espécies de mamíferos aquáticos (Janik et al., 2005), peixes (Amorim et al.,
2006; Kaatz, 2010), crustáceos (Boon et al., 2009), equinodermos (Radford et al., 2008) e moluscos
(Lilis et al., 2016). Dentre eles, os sons dos peixes (mais de 800 espécies) estão chamando a atenção
devido a sua relação com diversos comportamentos, como, reprodução (cortejo e desova) e
alimentação (Tricas e Boyd., 2014; Ladich 2014). Alguns peixes sonoros podem formar agregações e
produzir grande eventos do tipo coros. Investigar o comportamento dos peixes é especialmente difícil
porque eles raramente podem ser vistos e contados. Neste caso, um dos maiores desafios para o estudo
das populações de peixes é a capacidade de coletar dados sobre grandes escalas espaciais e temporais,
sem se intrometer nas vidas destes animais.
O monitoramento acústico subaquático apresente uma abordagem viável, não invasiva e
amplamente inexplorada para monitorar ecossistemas de água doce, fornecendo informações sobre os
três principais elementos ecológicos dos ambientes aquáticos - (1) peixes, (2) macroinvertebrados e
(3) processos físico-químicos - bem como fornece dados sobre os níveis de ruído antropogênico
(Linke et al., 2018). A importância ecológica da paisagem acústica em água doce está apenas
começando a ser reconhecida pela sociedade. Os cientistas estão começando a aplicar os métodos de
Monitoramento Acústico Passivo (MAP), bem estabelecidos nos sistemas marinhos, aos sistemas de
água doce, para mapear padrões espaciais e temporais de comportamentos associados aos sons
biológicos, bem como os impactos do ruído sobre eles (Rountree et al., 2019). Sabe-se que em águas
continentais, peixes de importância comercial da família Prochilodontidae, Curimatidae e Sciaenidae
emitem sons durante o período reprodutivo (Borie et al., 2014; 2019), além dos peixes, crustáceos,
principalmente camarão são um componente importante da paisagem acústica aquática.
O baixo rio São Francisco vem enfrentando problemas ambientais com fortes consequências
sociais e conomicas (Souza e Leitão, 2000), causadas por diversos fatores, entre eles: diminuição do
seu volume e velocidade, contaminação e sobrepesca (Martin et al., 2011, Zellhuber et al., 2016),
afetando a biodiversidade de peixes (Gomes e Brito, 2017, Soares et al., 2020) e crustáceos
(Montenegro et al., 2001), a sua distribuição e a atividade pesqueira com a diminuição e até extinção
de algumas espécies comerciais.
166
No Brasil, pesquisas da passagem acústica utilizando a ferramenta acústica passiva em águas
continentais são recentes e escassas. Assim, o objetivo deste trabalho pioneiro foi utilizar a acústica
passiva para avaliar a paisagem acústica e a produção de sons biológicos e antrópicos na região do
baixo São Francisco.
Lacunas de conhecimento, incluindo ruído de fundo, variação espaço-temporal e a necessidade
de repositórios de coleta de referência. Esses desafios precisam ser superados antes que todo o
potencial da acústica passiva na detecção dinâmica de processos biofísicos possa ser realizado e usado
para informar profissionais e gestores da conservação.
MATÉRIAL E MÉTODOS
Na II Expedição Científica do Baixo São Francisco, realizada entre os dias 18 e 26 de novembro
de 2019, foram feitas gravações subaquáticas para avaliar a paisagem acústica nas localidades de
Piranhas (9°37'37"S, 37°45'10"O), Pão de Açúcar (9°45'0"S, 37°26'55"O), Traipu (9°58'38"S,
36°59'51"O), Porto Real do Colégio (10°12'28"S, 36°49'33"O), Penedo (10°17'29"S, 36°35'20"O),
Piaçabuçu (10°24'27"S, 36°26'9"O), pertencentes ao estado de alagoas, incluindo gravação na foz do
rio São Francisco (10°28'48"S, 36°24'22"O).
A paisagem acústica foi avaliada utilizando um gravador subaquáticos do modelo “SoundTrap
(ST) 300” (Ocean Instrument, New Zealand). O STD é destinado para uso geral de medições de ruído
aquáticos com uma gama de 20 Hz a 60 kHz, com frequência de amostragem 48kHz, 16 bits. Este
sistema permitiu avaliar os padrões sonoros biológicos e antrópicos sazonais e temporais, juntamente
com as temperaturas que ocorrem nos locais durante o período de estudo. O ST foi fixado a um cabo
de polietileno e ancorado a uma poita de cimento, foram utilizadas boias para armação do equipamento
no fundo.
O tipo de substrato de fundo em Piranhas e Pão de Açúcar fundo de pedra; Traipu, fundo de
areia (2m), com macrófitas fanerógamas. Em penedo foi instalado em fundo de areia próximo a ilha
em frene a rampa da balsa e em Piaçabuçu próximo do porto. Na foz do rio São Francisco foi realizada
uma deriva por 25 minutos na embarcação com motor desligado. As gravações ocorreram em áreas
de com profundidades de 1 a 6 metros e foram realizadas no final da tarde até o início da manhã do
dia seguinte (entre as 17:00 e 06:30 hrs.), devido a maior ocorrência de sinais acústicas nesse horário.
Após o recolhimento do hidrofone (ST) em cada ponto, os dados foram descarregados em um
computador portátil, onde foi feita uma avaliação utilizando programa de áudio Audacity ®
(www.audacityteam.org), onde foi determinado o tempo inicial e final de cada evento sonoro passível
167
de ser ouvido, assim como a alta e baixas frequência e frequência central (frequência de maior
energia).
O programa Raven Pro 1.6 (Cornell Lab) foi utilizado para avaliar os tipos de sons detectado
onde forma efetuados cortes de diferentes comprimentos (duração) nas gravações para serem gerados
oscilograma, espectrogramas, e espectros de potência.
Figura 1. Locais de gravação acústica subaquática na região do baixo São Francisco.
168
Figura 2. Sistema de gravação, hidrofone SoundTrap 300, boia e ancoragem. Foto e desenho:
Alfredo Borie-Mojica
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Durante a II Expedição Científica na região do Baixo São Francisco realizada no mês de
novembro de 2019, foram detectados diferentes tipos de sons que fizeram parte da paisagem acústica
da região, principalmente característicos de camarões em todos os locais de coleta entre o município
de Piranhas e a foz, localizada no município de Piaçabuçu. Nas localidades do baixo São Francisco,
os valores médios das altas e baixas frequências foram de 8432 ± 809 e 3706 ± 372 Hz
respectivamente, e frequência central de 5569 ± 95 Hz (Figura 3). Além deste tipo de som, na região
de Piaçabuçu e Foz foram identificados outros dois tipos de sons de camarões com banda de frequência
entre 1 a 15 kHz, podendo chegar a 40 kHz e 0,5 e 10 kHz respectivamente (Figura 4). No início da
gravação nessas localidades também foi possível detectar sons característico de peixes com pico de
frequência de ~500 Hz e 1700 Hz (Figura 5 e 6).
Em água doce, os sons biológicos utilizaram frequências que variavam de 3 kHz a cerca de 14
kHz (Giles et al., 2005). Camarões do gênero Alpheus, que produz sons de estalos com uma ampla
faixa de frequências entre ~ 1 e 15 kHz (Schmitz, 2002; Coquereau et al. 2016). O estalo do camarão
da família Alpheidae produz o principal componente acústico com frequências acima de 2 kHz, e com
intensidades mais altas no início e no final da noite no ambiente marinho (Lammers e Munger, 2016).
Esse tipo de comportamento parece ocorrer também em camarões de água doce no rio Baixo rio São
169
Francisco. Mergulhos livres feitos em áreas de pedras na região de Pão de Açúcar foram observadas
as espécies de camarão-pitu (Macrobrachuium carcinus) e sapateria (Macrobrachuium Olfersii).
Resultados preliminares mostram a produção de sons do camarão-canela (Macrobrachium
acanthurus) durante atividade alimentar em condições controladas, com características acústicas
similares as encontradas no ambiente natural (Borie et al., in prep.)
O camarão canela, é
um
animal
encontrado na
bacia
do
rio
São Francisco, com
relevante interesse comercial devido ao porte e boa aceitação no mercado (New, 1995). Segundo
Coelho e Lima (2003), M. acanthurus é uma das espécies mais abundantes no rio São Francisco, mas
sua exploração ainda se baseia na pesca artesanal, praticada por ribeirinhos e servindo para fins
de subsistência dessas comunidades. Seleções de 2, 1 segundos das horas de maior energia acústica
dos sons característicos de camarão detectados entre Piranhas e Piaçabuçu mostram um perfil espectral
similar, sendo o som produzido muito provavelmente pela mesma espécie, como maior energia
acústica na região de Porto Real do Colégio. Em Piaçabuçu foi observado uma sobreposição de som,
sendo também identificados estalos de camarões (Figura 7).
Nesse sentido, a paisagem acústica em diversos ecossistemas acústicos torna-se mais complexa
no período noturno (Ruppé et al., 2015, Van Oosterom et al., 2016, Rice et al., 2017). A produção de
sons dos camarões ocorre principalmente à noite também revela picos crepusculares (Schmitz, 2002).
Na região do baixo São Francisco, os sons foram emitidos principalmente durante o início da noite
(18:00 h) e início do amanhecer (05:30 h), e duração média (tempo total) de 10 horas e 40 minutos,
exceto na localidade de Piaçabuçu, sendo detectado apenas no início da manhã. Em Traipu os sons
não foram contínuos durante a noite, ocorrendo apenas no início da tarde e manha (Tabela 1).
Camarões apresentam hábitos crípticos, com intensa atividade ao entardecer e início da noite,
permanecendo durante o dia em abrigos formados por pedras, buracos ou entre as vegetações
submersas (Mossolin e Bueno, 2003). Pescadores indicam que o horário de maiores capturas do
camarão pitu (Machrobraquium carcinus) e camarão canela (Macrobrachium acanthurus) ocorre
durante o início e final da noite.
Paiaçabuçu, localizada a 10 km da foz, apresentou uma paisagem acústica composta por sons
biológicos característicos de ecossistemas estuarinos, similares aos encontrados no estuário do rio
Maracaipe, PE (Borie et al., in prep.). Isto provavelmente ocorre devido a introdução da cunha salina
marina, já que ao longo dos anos, houve uma redução relevante da vazão do rio e que vem mudando
o ambiente e a biodiversidade aquática da região. Durante o final de tarde na foz foi possível detectar
uma cacofonia similar a encontrada em Piaçabuçu, apresentando maior densidade sonora e energia
acústica.
170
Foi possível avaliar a ocorrência de sons provavelmente produzidos por peixes, pelas
características acústicas. Na região de Piranhas, foi possível identificar um tipo de som similar aos
sons (chamados) relacionados com comportamentos reprodutivos encontrados em peixes do gênero
Prochilodus de importância comercial (Borie et al. 2019, Smith et al., 2018, Godinho et al., 2017),
com banda de frequência entre 200 e 500 Hz e vários pulsos com variação de energia, sendo o primeiro
emitido com baixa energia antes do chamado principal (Figura 8). Segundo Barbosa e Soares 2009,
na Bacia do São Francisco existem cinco espécies do gênero Prochilodus, sendo duas introduzidas (P.
brevis e P. lineatus), duas endêmicas (P. argenteus e P. costatus) e uma nativa (P. vimboides), destas,
P. argenteus é considerada de grande valor, por constituir como item alimentar e fonte de renda de
comunidades de pescadores do Baixo São Francisco, ainda sendo possível ser encontrado nas feiras
principalmente na região de Piranhas e Pão de Açúcar (obs. pessoal).
Ambientes estuarinos apresentaram níveis de pressão sonora significativamente mais altos na
faixa de frequência de 2-23 kHz. Diferenças espectrais entre habitats. Pesquisas de propagação sonora
passivas descobriram que as características acústicas distintas na faixa de frequência de 2-23 kHz,
com níveis de fonte efetivos de 108,8 a 120,0 dB re 1 µPa @ 1 me. Estudos de caracterização da
paisagem sonora sugere que a heterogeneidade espacial no som ambiente pode servir como um
indicador confiável do tipo de habitat e potencialmente transmitir informações sobre a qualidade do
habitat a organismos dispersantes (Lillis et al., 2014).
Foram detectados com maiores ocorrências sons antropogênicos de embarcações na região de
Penedo, principalmente da balsa (Figura 3) que faz a travessia Penedo AL/Neópolis SE, caracterizado
por picos de alta frequência e intervalos de tempos similares. Também foram detectados sons de
pequenas embarcações pesqueiras do tipo canoa motoriza e de turismo que utilizam motor de popa,
no caso de Piranhas, com frequências entre 0,2 e 15 kHz (Figura 9), esses sons ocorreram
principalmente no início da manhã, sobrepondo os sons emitidos pelos crustáceos. Essa sobreposição
das embarcações pesqueiras durante os horários de maior energia acústica. Assim, pode ocorrer um
declínio significativo na biodiversidade e biofonia com o aumento dos níveis de som ambiente dos
ecossistemas de água doce, juntamente com um aparente alta exposição temporal ao ruído
antropogênico em todos os habitats (Rountree et al., 2019).
Assim como foi possível encontrar uma diversa cacofonia de sons biológicos e antrópicos no
Baixo rio São Francisco, isto parece ser um componente importante em sistemas de água doce em
diversas regiões, habitats de água doce em regiões temperadas contém uma grande variedade de
espécies biológicas não identificadas. Sons de peixes constituem um importante elemento não
reconhecido anteriormente como componente da paisagem sonora de água doce, ocorrendo em mais
locais (39%). Ruídos antropogênicos dominam a paisagem sonora representando 92% da paisagem
171
sonora em porcentagem relativa de tempo. O alto potencial impactos negativos destes ruídos nas
paisagens sonoras de água doce é sugerido por a sobreposição espectral e temporal com a biofonia,
quanto maiores níveis de ruídos em relação à biofonia com observações de um declínio significativo
na ocorrência, número, porcentagem de tempo e diversidade da biofonia entre locais com níveis
ambientais mais altos (Rountree et al., 2019).
Inclusive, estudos em riachos indicam uma paisagem sonora única, com a maioria exibindo
variação diurna nos padrões acústicos. Nesses locais, foram identificados cinco grupos distintos com
características acústicas semelhantes. A maior diferença nas paisagens sonoras do fluxo foi observada
durante o dia, com variação significativa nas paisagens sonoras, tanto entre as horas como entre os
locais (Decker et al., 2020).
As paisagens sonoras estuarinas são acusticamente ricas e os padrões sonoros desses sistemas
são pouco estudados. Os dados acústicos revelaram que os níveis de pressão sonora (banda larga,
baixa e alta frequência) variavam espacial e temporalmente, exibindo padrões rítmicos distintos. As
taxas de detecção acústica e a diversidade de sons biofônicos (por exemplo, camarão, peixe e golfinho)
e sons antrofônicos (por exemplo, barulho de barco) foram maiores perto da foz do rio e diminuíram
em direção às cabeceiras. A paisagem sonora exibia fortes padrões temporais de estalos de camarão
(gênero Alpheus e Synalpheus), cantos e cantos de peixes, vocalizações de golfinhos e ruído de
embarcação. Dependendo da espécie, determinadas variáveis (ou seja, localização, mês, duração do
dia, fase lunar, dia / noite, maré e anomalia de temperatura) influenciaram a produção sonora.
(Monczak et al., 2019).
A análise da energia acústica revelou um forte ritmo circadiano em uma lagoa costeira do sul
do Brasil e uma diferenciação espacial impulsionada pela baixa frequência (< 100 Hz). O componente
biofônico da paisagem sonora foi dominada por peixes e crustáceos com maior atividade na foz da
lagoa durante novembro. Esta área também foi o mais afetado pelo ruído humano (Ceraulo et al.,
2020).
172
Figura 3. Espectrogramas da paisagem acústica em localidades do baixo rio São Francisco (de
piranhas a foz). AF, Alta Frequência (Hz); BF, Baixa Frequência (Hz).
Tabela 1. Horário de detecção (hh:mm) e frequências (Hz) dos sons de estalos característicos de
invertebrados bentônicos nas diferentes localidades, exceto Traipu e Foz.
Localidades
Alta
Baixa
Frequência
Hora início Hora fim Tempo total Frequência Frequência
Central (Hz)
(Hz)
(Hz)
Piranhas
18:06
06:19
10:43
7634
4060
5568
Pão de Açúcar
17:52
05:47
10:57
9335
3157
5429
Porto Real do Colégio
17:45
05:19
11:08
9277
3495
5694
Penedo
18:15
05:36
09:51
7951
3939
5596
Piaçabuçu
03:09
04:39
01:30
7965
3877
5557
173
Figura 4. Oscilograma, espectrograma e espectro de potência respectivamente de dois tipos de sons
de camarão detectados na região de a. Piaçabuçu e b. Foz do rio são Francisco.
Figura 5. Espectrograma e espectro de potência da região de Piaçabuçu (x) cliques de camarão, e
sons característico de peixes (* e seta)
174
Figura 6. Espectrograma e espectro de potência da região da Foz, a seta indica a
ocorrência de sons emitidos por peixes e (+) estalos de camarões.
175
Figura 7. Espectrogramas e espectros de potência de 2,1 segundos de sons característicos de
camarões nas diferentes localidades.
176
Figura 8. Pulsos acústicos, oscilograma e espectrograma respectivamente de um tipo de som
característico de peixes.
177
Figura 9. Espectrograma e espectro de potência de embarcações detectadas na região de Piranhas
CONCLUSÃO
A paisagem acústica no baixo São Francisco foi composta principalmente por sons
característicos de crustáceos bentônicos de pelos menos três espécies diferentes, além de sons
esporádicos de peixes e ruídos antrofônicos de diferentes embarcações, emitidos por diferentes tipos
de embarcações. Na área de Piaçabuçu a cacofonia teve similaridade com ambientes estuarinos, sendo
detectada uma maior complexidade sonora, e uma paisagem acústica contendo diversas fontes
biológicas. Apesar do pouco conhecimento que se tem sobre componentes biológicos de paisagens
acústicas de água doce em regiões tropicais, esforços sistemáticos para identificar e catalogar sons de
peixes e invertebrados são criticamente necessários para promover o Monitoramento Acústico Passivo
(MAP), para suas aplicações de conservação, manejo de ecossistemas e pesca.
PERSPECTIVAS E SUGESTÕES
O método acústico passivo se mostrou bastante eficiente para avaliar a paisagem acústica na
região do baixo São Francisco, podendo ser utilizado como uma ferramenta complementar para o
monitoramento de atividades biológicas e antrópicas, e também para avaliar sobre o tipo e qualidade
do ambiente. Ainda assim, para entender melhor a dinâmica da paisagem acústica no baixo São
Francisco ainda precisam ser realizados diversos esforços, tanto a jusante como a montante da
178
hidroelétrica de Xingó, juntamente na região da foz e áreas costeiras adjacentes, como outras regiões
do médio, submédio e alto São Francisco, para então detectar e identificar as fontes sonoras de
organismos aquáticos a nível de espécies e avaliar seus comportamentos relacionados com a atividade
acústica.
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A Pesca no Baixo São Francisco
Vanildo Souza de Oliveira1; Ticiano Rodrigo de Almeida Oliveira2; Igor da Mata-Oliveira3
1
Laboratório de Pesca Sustentável (LAPESU), Departamento de Pesca e Aquicultura (DEPAq),
Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
2
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA), Universidade Federal
de Sergipe (UFS).
3
Laboratório de Investigação e Manejo da Pesca (IMAP), Universidade Federal de Alagoas (UFAL),
Unidade Penedo.
INTRODUÇÃO
A região do Baixo São Francisco (BSF) representa apenas cerca de 7% da extensão total do
rio, que corresponde aos 214 km finais. Se estende desde a UHE de Xingó até a foz, entre os estados
de Sergipe e Alagoas. Observa-se, portanto, considerável variação nas condições físicas do rio, o
que se reflete na tradicional e diversificada atividade pesqueira local, naturalmente adaptada às
condições ambientais e espécies capturadas em cada trecho. Os territórios da pesca artesanal
representados em vários ambientes demonstram essa verdadeira diversidade ecológica.
A ocupação territorial no Baixo São Francisco tem uma estreita ligação com a atividade da
pesca artesanal. Isso pode ser evidenciado em vários estudos que mencionam essa atividade como
tendo sido inicialmente praticada por índios e, depois, por colonizadores e negros quilombolas
(MOTT, 1975; RIEPER, 2001; CARVALHO, 2003 apud Silva, 2014). Atualmente são mais de 20
municípios ribeirinhos, totalizando cerca de 450.000 habitantes (Nascimento, 2013). Rezende &
Oliveira (2015) estimaram entre 16.500 e 19.000 pescadores no BSF, representando cerca de 4%
da população total. No entanto, a pesca artesanal nas suas águas, considerada fonte de alimento e
sustento para as populações locais, tem sofrido intenso declínio nas últimas décadas. Várias e
múltiplas são as pressões econômicas, ecológicas e culturais a que esta atividade está submetida, o
que tem afetado enormemente a sua manutenção (ANA, 2007). O Baixo São Francisco vem
sofrendo com a interrupção das variações naturais do nível d’água e do comportamento migratório
dos peixes, promovidas por hidroelétricas que criaram barreiras e alteraram o sistema hídrico do
rio, influenciando na “piracema” (SATO; GODINHO, 2003). Apesar da ausência de estatística
pesqueira consistente, a pesca no rio São Francisco mostra sinais evidentes de queda (GODINHO;
183
GODINHO, 2003). Se antes a Bacia do São Francisco era uma importante fonte de pescado para o
Nordeste e outras regiões do Brasil, hoje amarga um grave processo de extinção de parte
significativa de sua ictiofauna, como o surubim e o pirá.
A pesca está em franca decadência por várias razões: os barramentos, a poluição oriunda
dos esgotos domésticos e de atividades agrícolas, a incompatibilidade entre a operação das
barragens e as necessidades ecológicas. A pesca na região sofre, ainda, com a incipiência e
dispersão de informações (CBHSF, 2004). Além disso, a falta de gestão contribui com um contínuo
e acelerado processo de degradação ambiental. Ações antrópicas de cunho não sustentável
prejudicam e alteram de forma negativa os territórios de trabalho dos pescadores artesanais (LIMA,
2020)
Nesse sentido, as Expedições Científicas na região tiveram o objetivo de analisar a situação sobre
a realidade atual da tradicional atividade pesqueira na região.
METODOLOGIA
As Expedições Científicas do Baixo São Francisco ocorreram entre 15 e 20 de outubro de
2018 e entre 18 e 27 de novembro de 2019. No que diz respeito à pesca, foram coletadas diversas
informações ambientais, técnicas, ecológicas e econômicas.
A embarcação da Expedição fez o percurso inicial, da cidade de Penedo até a cidade de
Piranhas, retornando para a foz do o rio realizando coletas nas seguintes cidades de Piranhas, Pão
de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Propriá, povoado de Xinaré em Igreja Nova, Penedo,
Piaçabuçu e na foz.
Impactos ambientais, tanto naturais quanto antrópicos sobre rio foram feitos a partir de
observações e registros fotográficos durante as viagens de deslocamento entre municípios. Em
seguida, as fontes de alterações no rio foram analisadas, relacionando com os seus possíveis
impactos sobre a pesca.
Nas paradas em cada município, foram feitas entrevistas nas colônias de pescadores, feiras
e pontos de desembarque, nas quais foram coletadas informações sobre as principais características
da pesca, como o número de pescadores, principais artes de pesca, embarcações e recursos
capturados, custos operacionais e preços de comercialização de pescado.
As informações sobre a situação da atividade pesqueira foram obtidas através de entrevistas
com os presidentes de Colônias dos pescadores em cada cidade. Os principais temas abordados
foram: espécies mais capturadas, espécies menos capturadas, espécies que não são mais capturadas,
184
período de pesca, materiais de pesca, tipos de embarcações, custos das embarcações e custos dos
materiais de pesca.
Na segunda Expedição Científica do São Francisco foi também realizada uma prospecção
pesqueira em cada local de parada, procedendo-se com amostragens da ictiofauna capturada com
redes de emalhar, para análise das espécies capturadas e suas abundâncias, através de coletas dos
exemplares.
As redes foram colocadas em três sistemas, de acordo com o tempo de permanência em
cada cidade: de 14 às 18h, de 18 às 5h da manhã e na Foz, em função da força da corrente, a rede
foi colocada e despescada em seguida.
Foram utilizados 4 tipos de redes de emalhar de fundo, com as seguintes características:
1. malhas de 50mm nó a nó, com fio de nylon de 0,25 mm de diâmetro;
2. malha de 45 mm nó a nó com fio de nylon de 0,25 mm de diâmetro;
3. malha de 40 mm nó a nó com fio de nylon de 0,30 mm de diâmetro
4. malha de 25 mm nó a nó com fio de nylon de 0,30 mm de diâmetro.
Para o cálculo da Captura por Unidade de Esforço (CPUE) kg/m2/hora, foi considerado o
coeficiente de entalhamento horizontal de 50% e o vertical 60%. Em função da dinâmica de
deslocamento entre as cidades visitadas, a duração da permanência das redes na água variou da
seguinte forma: lances à tarde (2h), lances noturnos (final de tarde até a manhã seguinte com média
de 15horas), e na foz do Rio, com recolhimento após o lançamento, em função das fortes correntes
na área (40 minutos).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
IMPACTOS AMBIENTAIS E ANTRÓPICOS QUE AFETAM A PRODUÇÃO PESQUEIRA
Assoreamento do rio
Durante o percurso de Penedo até Piranhas foram registrados vários impactos ambientais
com evidentes prejuízos para a produção pesqueira do rio. O desmatamento das margens foi a ação
mais percebida durante o percurso (Figura 1). A redução da mata ciliar com consequente
assoreamento das margens carregam matéria orgânica para o leito modificando, assim, o habitat do
fundo do rio, o que é fatal para determinadas espécies endêmicas.
185
Figura 1. Assoreamento das margens do rio. Foto: Vanildo S. Oliveira
Nas áreas em que a vegetação das margens foi mantida não foram observados sinais
assoreamento e sim uma aparente atividade pesqueira (Figura 2), com presença de canoas de pesca
e de redes de emalhar em atuação no rio (boias de garrafas PET) (Figura 3).
Figura 2. Margens com florestas nas margens preservadas. Foto:Vanildo S. Oliveira
Figura 3. Presença de atividade pesqueira nas margens com vegetação. Foto: Vanildo S. Oliveira
186
Macrófitas no fundo e superfície do rio
Também foram observados grande presença de macrófitas aquáticas, tanto na superfície
como espécies submersas Egeria Densa (Élodea) e representantes da família Poacea. Essa
macrófita traz grandes prejuízos para a atividade pesqueira, uma vez que modifica o substrato do
fundo, formando uma cobertura vegetal que impede as redes de chegarem ao fundo. Também causa
transtornos para a utilização de redes de emalhar, pois essas macrófitas emalham nas redes
aumentando seu peso, fazendo com o pano da rede assente sobre o fundo, comprometendo
gravemente a produtividade do aparelho de pesca (Figura 4).
Além disso, a presença da macrófita baronesa Eichhornia crassipes, na superfície é
prejudicial tanto para a navegação como para a atividade de pesca, pois ocupa a superfície e tem
alto consumo de oxigênio da água, competindo assim com os organismos aquáticos (Figura 5).
Figura 4. Macrófitas no fundo do rio, emalhadas nas redes. Foto: Vanildo S. Oliveira.
Figura 5. Macrófitas flutuantes. Foto: Vanildo S. Oliveira
Despejo de esgotos não tratados
187
Outro grande impacto na biota do rio é a marcante falta de saneamento básico nas cidades
ribeirinhas, causando grandes danos ao ecossistema aquático. Esse fato gera consequências tanto
para a população, quanto para ictiofauna, com a água poluída trazendo grandes prejuízos para a
atividade pesqueira. Dependendo da concentração de dejetos orgânicos (Figura 6), aliado à
diminuição do volume da vazão do rio, a concentração de poluentes pode alterar o desenvolvimento
de vários organismos aquáticos. Também pode que resultar em contaminação direta a população,
através de lavagem de roupa com águas possivelmente contaminadas ou durante atividades de lazer
(Figura 7).
Figura 6. Despejo de esgoto diretamente no rio. Foto: Vanildo S. Oliveira
Figura 7. Utilização do rio para atividades de lazer. Foto: Vanildo S. Oliveira
Uso da água para atividade de Irrigação
Foram observados vários pontos de retirada de água para irrigação, destacando-se as casas
de bombas de irrigação para o platô de Neópolis. Também foi registrado bombas para projetos de
médio e pequeno porte (Figura 8). A agricultura irrigada traz impactos para vida aquática,
principalmente quando realizada próxima da margem, como da retirada de água para o cultivo de
arroz, em função da utilização de agrotóxicos, que são carrilhados para o rio causando danos a
ictiofauna.
188
Figura 8. Bombas de retirada de água para a irrigação. Foto: Vanildo S. Oliveira
Criação de gado nas margens do rio
A pecuária foi uma atividade observada em vários pontos durante o trajeto até Piranhas.
Indiretamente, ela resulta em efeitos de assoreamento do rio, uma vez que a mata ciliar é retirada
para a plantação do pasto o que, como mencionado acima, gera impactos para a ictiofauna e
atividade pesqueira, com o aumento do assoreamento (Figura 9).
Figura 9. Criação de gado nas margens do Rio. Foto: Vanildo S. Oliveira
Criação de peixes em tanques rede
Essa atividade é recente no rio, e aparece como alternativa para a produção de pescado. No
entanto, o fato da maioria dos piscicultores cultivarem espécies como a tilapia e tambaqui, traz
preocupações ambientais, quanto a introdução dessas espécies no ambiente. Por outro lado, com a
falta da produção de pescado natural do rio, as espécies exóticas, atualmente, representam grande
parte da produção de pescado ofertada nas feiras e mercados das cidades ribeirinhas (Figuras 10 e
11).
189
Figura 10. Criação de peixes em gaiolas. Fonte: Vanildo S. Oliveira
Figura 11. Produção de peixes em gaiolas. Fonte: Vanildo S. Oliveira
SITUAÇÃO DA ATIVIDADE PESQUEIRA
Piranhas
Piranhas (Figura 12) é uma cidade histórica localizada logo abaixo da Hidroelétrica de
Xingó, no Alto Sertão alagoano. Nesse trecho, o rio apresenta pedras no leito do rio e correnteza
mais forte (Figura 13), o que dificulta inclusive a navegação em tempos de baixa vazão do rio. Essa
forte correnteza pode explicar que essa área, seja uma das mais abundantes em número de espécies,
segundo os pescadores.
Figura 12. Cidade de Piranhas, primeira parada da Expedição. Foto: Vanildo S. Oliveira
190
Figura 13. Proximidades da cidade de Piranhas, corredeiras e pedras. Foto: Vanildo S. Oliveira
A colônia de pescadores local possui hoje 225 pescadores registrados. No entanto, o número
de pescadores em atividade varia em função do volume de água liberado pela CHESF, que
influencia diretamente na produção pesqueira.
As tarrafas são muito comuns em Piranhas, com malhas que variam de 8 a 12 cm, e são
dirigidas principalmente para a pesca de piau bambá e carí. As redes de emalhar caracterizam-se
pela predominância das malhas de comprimento 12 e 14 cm, e por suas espécies alvos, bambá e
piau. Linha de mão e vara e anzol, que antigamente eram dirigidas para a captura de dourados,
tubaranas, atualmente possuem tucunarés e piaus como alvo. Os covos locais são fabricados em
telas de polietileno, taliscas de madeira ou de cano de PVC e de garrafas PET. Jererés (fabricados
em linhas de algodão) são dirigidos para a pesca do camarão pitu.
As redes custam em torno de R$ 120,00 por peça, já confeccionadas. Os covos para captura
de camarão canela (Macrobrachium amazonicum) custam cerca de R$ 60,00 cada.
O comprimento das embarcações dos pescadores entrevistados em Piranhas, varia entre 4 a
8,3 metros (Figura 14). Cada canoa de pesca custa em torno de R$2.500,00 a R$3.000,00 (Figura
16), construídas com pranchas de madeira de pequi, com média de 6m. São movidas a velas, motor
de rabeta (Figura 15) ou remo. Um motor de rabeta que custa cerca de R$ 1.000,00.
191
Figura 14. Embarcação típica da pesca do Baixo São Francisco (Foto: Priscila Rezende).
Figura 15. Embarcação a motor de rabeta. Foto: Vanildo S. Oliveira
O preço atual do pescado na feira da cidade varia de acordo com as espécies: curimatã
(xira) R$13,00, cari 9,00, piau e pirambeba 12,00. O camarão pitu já foi a principal atração
gastronômica da cidade, no entanto, segundo relatos, depois da construção da barragem a produção
caiu muito, e outros peixes como capadinho, pirá e pacamão não são mais encontrados.
Pão de Açúcar
O município de Pão de Açúcar (Figura 16) fica 38,5 km a jusante de Piranhas.
192
Figura 16. Pão de Açúcar – AL. Foto: Vanildo S. Oliveira
A Colônia de Pescadores Z-20 possui cerca de 450 pescadores associados, e entre 200 a
250 canoas de pesca. As espécies mais capturadas são: piau, piranha, curimatã bambá, pacu, piaucutia, piau-preto, piau-branco, piranha, pirambeba, traíra, peixe-cachorro.
As redes de emalhar são os aparelhos de pesca mais utilizados, com fios 0,30, 0,35, e 0,40 mm de
diâmetro, para captura de xira (malha 14 cm) e piau (malha 10 cm) nós opostos. A malha 14 cm também
é chamada pelos pescadores da região de “mão de trevessa”, dado ao fato de seu comprimento se
estender de um lado a outro da mão do pescador – essa denominação é comum na região.
Quando a rede de emalhar é lançada sendo levada, a deriva, pela correnteza a pesca é
denominada de “caceia” (Figura 17), quando é fixa na margem, denomina-se “travessia”, são
colocadas em lugares protegido das fortes correntes do centro do rio, esta área é denominada de
“Remanso” (Figura 18).
193
Figura 17. Pesca denominada “Caceia”, a canoa deriva com a rede.
Figura 18: Pesca denominada “Travessia”, a rede fica fixa.
Além da rede de emalhar, também utilizam tarrafa e groseira (espinhel), para captura de
traíra, mandi amarelo, robalo e piranha. Peixes como xira, piau, tucunaré e cari, também são
capturados com tarrafas de malhas 10 e 12 cm de comprimento, nó a nó oposto. Foi verificado
entre os pescadores entrevistados que a groseira é, também, muito popular. Sua utilização se dá,
principalmente, na modalidade groseira do chão, tendo como alvo a captura de piaus.
A pesca de linha de mão caracteriza-se pelo uso de linhas que variam de 0,40 a 1,00 mm de
diâmetro. Destinada, principalmente, a captura de piau, tubarana, robalo e mandi, podem ser
194
aplicados diferentes métodos como o corrico (pesca com o barco em movimento) ou de arremesso
(pescador sentado em embarcação presa ao porto, à margem ou emerso em águas rasas).
Vara e anzol é destinada à captura de piranha, pacu, xira e tubarana. A minhoca é a isca
mais usada, seguido pelo caramujo e de peixes pequenos.
Os covos utilizados no município são fabricados, principalmente, com varas de marmeleiro
e equipados com iscas de coco e pedaços de peixe, aparelhando assim, a pesca do camarão pitu.
As embarcações utilizadas pelos pescadores apresentam de 7 a 8,8 m. São principalmente
movidas a motor, e algumas a remo. Em Pão de Açúcar foi observada maior presença de motores
de centro (Figura 19).
Figura 19. Foto de barco a motor de centro. Foto: Igor da Mata.
A comercialização do pescado é direta ao público. Demostrando que a produtividade do rio
já foi maior no passado, existem relatos que há 17 anos capturavam 200 kg de pilombeta por lance
e surubim com até 17 kg, hoje não tem mais.
Traipú
Cerca de 53km abaixo de Pão de Açúcar, localiza-se o município de Traipu (Figura 20). O
significado do nome Traipu tem duas versões: segundo uns, quer dizer “muito peixe”, segundo
outros, “olho d’água do monte”.
195
Figura 20. Traipu – AL. Foto: Vanildo S. Oliveira
Segundo os registros da Colônia de Pescadores Z-18, existem cerca de 330 pescadores
filiados em Traipu.
Os peixes mais capturados são: piau, tucunaré, piranha e pirambeba. A xira raramente
aparece, assim como tubarana ou dourada. A tilápia também é capturada, principalmente na Lagoa
do Cabaceiro.
A rede de emalhar é o apetrecho mais usado, com a seguinte faina de pesca: sair à noite e
voltar de manhã quando pescam de “caceia”, e na “travessia” deixa de manhã e recolhe a tarde.
Uma pescaria boa, segundo relatos, é em torno de 50 a 70 kg.
A tarrafa local possui malhas que variam entre 1,5 e 10 cm (nós opostos), pescam
principalmente piau, mas antigamente capturavam também xira e pilombeta em grande quantidade.
A linha de mão com iscas artificiais também é comum para captura de tucunaré, piranha, e
antigamente, tubarana.
Os covos são encontrados na Lagoa do Cabaceiro, cuja operação, destina-se a pesca de
camarão que, segundo um dos pescadores entrevistados, são exóticos, tendo se propagado na lagoa
após a fuga de um criatório (Figura 21).
196
Figura 21. Camarões da Lagoa do Cabaceiro. Foto: Ricardo Anderson Pereira.
A compra de equipamentos de pesca é realizada diretamente pelos pescadores, custando
uma rede de emalhar em torno de R$ 350,00. Em Traipu, os pescadores utilizam embarcações de
madeira cujo comprimento varia entre 6 e 8 m, movidas principalmente a motor ou remo. Os
pescadores locais relataram também, que dentre os problemas do rio estão as macrófitas (lôdo) no
fundo, que representam um grande entrave para a atividade pesqueira. Atualmente o cultivo de
tilápia, em tanques rede, produz cerca de 500 a 600 kg por mês, sendo R$10,00 reais o quilo. Essa
produção supre a demanda por pescado nas feiras.
Há 15 anos foram capturados camurupim com 15 kg, xira de 5 a 7 kg e capturavam entre 6
a 8 kg de pitu (camarão canela) com cinco dúzias de covo e atualmente não se captura mais com
essa abundância. Para eles os problemas que causam a baixa produção pesqueira são o
assoreamento e a construção da barragem, resultando na diminuição do volume da vazão. Outras
duas práticas também foram citadas como causadoras a danos ao meio ambiente: a pesca com arpão
e a pesca com veneno.
Porto Real do Colégio
Porto Real Colégio (Figura 22) possui duas entidades representativas dos pescadores. A
Colônia de Pescadores Z 35 chegou a possuir, em 2017, 2.100 associados. Devido a conflitos e
disputas na Colônia, foi formada a Associação de Pescadores de Porto Real do Colégio, fundada
em 1995, que conta hoje com cerca de 500 associados com forte atuação à garantia do segurodefeso para seus associados.
197
Figura 22. Porto Real do Colégio - AL. Foto: Vanildo S. Oliveira
As principais artes de pesca usadas pelos pescadores de Porto Real do Colégio são: redes
de emalhar, voltadas para a captura de xira e piaus, jereré, que pode ser confeccionado com pano
de mosqueteiro, para saburica, carazinho e piau, tarrafa, para piaus e xira (malhas de 2 e 3 cm),
vara e anzol, linha de mão, covos e rede de calão. Entre as principais espécies alvo relatadas pelos
pescadores, destacam-se piaus, xira, tucunaré, pilombeta, traíra e o camarão pitu, embora a maioria
seja cada vez menos presente nas capturas.
A atividade pesqueira tem sido alternada entre peixes e à captura do siri, que representou
grande volume de capturas nos últimos anos, motivada principalmente pela queda dos estoques
pesqueiros, e consequentemente, das capturas, de curimatã-pacú (Prochilodus argenteus), uma das
espécies outrora, mais abundantes no Baixo São Francisco e pilombeta (Engraulidae) com último
registro de captura ocorrido em 2012 na área do município.
Os entrevistados relataram uso de bombas e bolinhos de arroz embebidos em formol
(métodos proibidos em legislação ambiental), o que possivelmente aliado a outros fatores, vem
contribuindo com o declínio da atividade comprovada pelo desaparecimento de espécies como
mandi (Rhandia sp. e Pimelodella sp.), caboge (Oxidoras niger), cascudo (Hipostomus sp. e
Pimelodus spp.), pilombeta (Engraulidae) e curimatã-pacú ou xira (P. argenteus) e com avanço da
salinidade continente adentro, aumento das capturas do xaréu (Caranx latus), peixe
predominantemente marinho/estuarino.
As embarcações dos pescadores do município de Porto Real do Colégio possuem comprimento
entre 4 a 7 metros, movidos exclusivamente a remo ou propulsionadas por motor de rabeta.
Propriá
198
Propriá (Figura 23) é um importante município sergipano, o qual já foi destacado como
importante centro econômico no estado e no Baixo São Francisco. A ponte da BR 101 sobre o Rio
São Francisco conecta Sergipe e Alagoas por rodovia.
Figura 23. Propriá – SE e a ponte da BR 101 sobre o rio São Francisco. Foto: Vanildo S.
Oliveira
O piau, xira, tucunaré, piranha e robalo são os principais peixes capturados. Também foram
mencionados cari, dourado, pilombeta entre outros. Não foi possível contato com a colônia de
pescadores local. Sabe-se que a pesca local é diversificada. Nove apetrechos de pesca foram
registrados em Propriá. A pesca com redes de emalhar predomina, com malhas de 2 a 15 cm,
dirigidas principalmente a pesca de xira, piau e tilápia. Na pesca com tarrafas são pescados xiras
piaus e tilápias, em malhas que podem variar entre 2 a 13 cm. Covos, para a pesca de piaus e
camarões são confeccionados com talas de taboca ou em varas de marmeleiro. Com vara e anzol
são pescados robalos, dourados e tucunarés. Linha de mão é dirigida à pesca de tucunaré, robalo e
piranha. Jereré, rede de arrasto de croa, grosseira e cuvu também foram registrados.
As embarcações observadas na pesquisa medem entre 6,5 a 8 m. São movidas a motor, à
vela e a remo. Em Propriá foi possível registrar o capricho das pinturas das embarcações. Além de
proporcionar beleza, as pinturas são marcas de identificação para os pescadores do mesmo modo
que o nome o é para a Capitania dos portos, pois dificilmente haverá duas iguais (Figura 24). Para
além de dar beleza a embarcação, as pinturas proporcionam maior durabilidade e valor agregado.
199
Figura 24. Pintura típica de canoa Barco caprichosamente pintado. Foto: Artur Bruno .
Povoado Xinaré
No município de Igreja Nova, o povoado Xinaré (Figura 25) representa o principal contato
do mesmo com o Rio São Francisco.
Figura 25. Entrada ribeirinha do povoado Xinaré, Igreja Nova – AL. Foto: Vanildo S. Oliveira
A Colônia Z-32 registra 80 associados no povoado de Xinaré, no entanto ela abrange 42
distritos, envolvendo cerco de 1.100 pescadores. Nos relatos durante a expedição no município de
Igreja Nova, os associados informaram que a colônia tem forte atuação na garantia do segurodefeso e que dos seus 1.100 sócios ativos, 300 pescadores não tinham recebido o seguro-defeso em
2018, ocasionados em parte, pelas dificuldades de acesso ao sistema Prev Web, pertencentes ao
200
INSS, possivelmente pela inconsistência no tipo de habitat de pescarias (por exemplo: pescarias
em ambientes estuarinos e marinhos, entretanto os mesmos pescam no rio e em lagoas marginais).
Cinco artes de pesca foram registradas. A rede de espera (rede de emalhar) é usada para
capturar xira, piau, piranha e traíra. A rede de emalhar com malhas de 40 e 45 mm nó a nó, fio 0,25
e 0,30 mm é adquirida por R$ 150,00 a 200,00. Na pesca com caceia antes só se capturava xirá,
agora é só piau. Mas houve pescadores reclamando da diminuição dos piaus nas capturas também.
Uma pescaria boa é considerada quando se captura 10kg.
Entre os que afirmam pescar apenas no rio (São Francisco), o cará foi a espécie mais
representativa nas capturas, seguida por piaba, xira, piau e traíra. Outra importante modalidade é a
pesca de camarão com covos (Figuras 26, 27 e 28).
Figura 26. Pesca de camarão com covos no povoado de Xinaré. Foto: Vanildo S. Oliveira
Figura 27. Pesca de camarão canela com covos, no Baixo São Francisco. Foto: Vanildo S.
Oliveira
201
Figura 28. Captura do camarão canela com covos no Baixo São Francisco. Foto: Vanildo S.
Oliveira
O uso do jereré é justificado pela abundância do cará e traíra, suas especies alvo, que são
capturadas junto à vegetação. Vara de bambu e anzol também são usados na captura de cará, alem
de piabas e piranhas. Linha de mão e tarrafa também foram mencionadas. Áreas repletas de
vegetação limitam o uso desses aparelhos – os anzois da linha de mão podem se prenderem nos
ramos e galhos e a roda da tarrafa tem seu fechamento prejudicado pela presença das plantas nas
quais os peixes se abrigam. Nos riachos as principais espécies capturadas são piaba, cará e traíra.
O tucunaré é pescado com tarrafa, mas é muito predador das outras espécies.
As espécies que não ocorrem mais são: cumbá (peixe de couro), xira e tubarana. Os
pescadores anseiam por peixamento de xira e piau cutia, por parte da CODEVASF.
A maioria dos pescadores utilizam barcos de madeira movido a remo. Muitos não utilizam
embarcação. Esse quadro pode ser explicado pelo fato de o Município contar com diversas lagoas
e o Rio Boacica que não é navegável em metade de seu trecho, principais locais de pesca dos
entrevistados. Uma canoa com motor custa em média R$ 5.000,00.
A exemplo do ocorrido nos estudos de Lima et al. (2010) e Soares et al. (2011), há forte
presença do atravessador na comercialização do pescado onde o preço pode variar de R$ 10,00/kg
na venda direta ao consumidor e por R$ 5,00/kg ao atravessador, chamado na região de cambista.
Penedo
Penedo (Figura 29) é a maior, mais antiga e mais tradicional cidade do Baixo São Francisco.
202
Figura 29. Penedo - AL. Foto: Vanildo S. Oliveira.
A colônia tem cerca de 1.000 pescadores associados. Seis artes de pesca foram registradas
em Penedo. A rede de emalhar predomina entre os pescadores entrevistados. A tarrafa, cujo
principal comprimento de malha é o de 3 cm é dirigida para a captura da xira. A linha de mão é
voltada para as capturas de robalos, piranhas e piaus. A grosseira, cada vez menos usada, é dirigida,
principalmente, para a pesca de piranhas. Rede de arrasto e vara anzol, segundo os pescadores não
são utilizados na pesca comercial.
Soares et al (2011) descrevem a composição das espécies desembarcadas na cidade de
Penedo, registrando 22 espécies, entre as quais predominou a xira (percentual médio de 40%) e do
piau (22%).
No presente trabalho, os principais recursos pesqueiros foram xira e piau são as principais
espécies capturadas pelos pescadores, seguidos por tucunaré, tilápia, piranha e camurim.
Segundo os pescadores, a xira está cada vez mais rara nas capturas. Piau cutia, tubarana e
surubim desapareceram. Segundo eles, os surubins ficam mais acima em maiores profundidades
perto da barragem de Xingó. Atualmente estão capturando muitas espécies do mar como: carapeba,
curimã, xaréu, robalo, camurim e camurupim.
Os pescadores entrevistados em Penedo usam embarcações de madeira com comprimento
médio de 7,48m, com 0,9 a 1m de largura, construídas com madeira denominada de “Loro canela”,
e movidas a motor de rabeta. Custam cerca de R$ 5.000,00. Uma canoa de madeira tem duração
média de 12 anos.
203
Uma pescaria boa é quando capturam de 10 a 12 kg. Os preços dos peixes variam em função da
espécie, um quilo de piau preto custa R$ 12,00, e do piau branco R$ 8,00, enquanto o quilo da xira
chega a custa R$ 20,00.
Piaçabuçu
O município de Piaçabuçu (Figura 30) é considerado o principal polo pesqueiro da região.
Com 17.203 habitantes, e IDH de 0,57 (IBGE, 2019), o município não difere tanto dos demais da
região, mas destaca-se pela pluriatividade pesqueira, sendo esta realizada nas águas do estuário e
da costa, mobilizadas pela alteração da salinidade e diversidade de ambientes (salinos, estuarinos
e dulciaquícolas). É considerado o maior produtor pesqueiro de camarões marinhos e peixes de
Alagoas.
Figura 30. Porto de Piaçabuçu – AL. Foto: Vanildo S. Oliveira.
Cerca de 2.500 pescadores são registrados na Colônia. No rio e estuário, estima-se que
atuam 800 embarcações. As redes de emalhar são os principais aparelhos de pesca, com destaque
para as redes para pilombeta, seguidas pelas redes para carapeba e robalos, cada uma com
dimensões e materiais específicos. A faina de pesca no rio, tem a saída à noite e retornam de
madrugada, os que pescam no mar saem e passam o dia todo.
Também são encontrados na região grosseiras para bagre e tubarões, covo, jereré (para a
pesca de camarão miúdo) e a linha de mão e tarrafa.
Os barcos utilizados pelos pescadores possuem comprimento médio de 7,2 metros e são
movidos, principalmente por motor de rabeta. A canoa com motor fica em torno de R$ 6.000,00.
204
Em Piaçabuçu, a principal espécie capturada é a pilombeta, dos pescadores entrevistados.
No entanto, os dados levantados na região indicam quedas nas capturas da pilombeta, um dos
recursos que chegou a representar cerca de 18% das capturas na mesorregião de Penedo
equivalendo a terceira espécie mais capturada (Soares et al., 2011), praticamente desapareceu da
região, e como possíveis causas, a pouca vazão do rio e elevados índices de contaminantes
provenientes de esgotos das cidades podem ter contribuído para esta diminuição. Assim como
observado nos outros municípios, os pescadores relataram queda nas capturas de curimatã-pacú e
piaus, bem como do robalo (Centropomus sp.), e aumento nas capturas de siris (Calinectes sp.) e
camuripin (Megalops atlanticus).
As espécies do rio praticamente sumiram, inclusive a pilombeta espécie que tinha uma
pesca tradicional na cidade, agora não mais porque a salinidade está muito alta. Atualmente só
capturam espécies do mar, curimã, carapeba e robalo.
Os peixes de água doce só aparecem quando ocorre uma grande chuva. Em 2000 a água era
doce ainda, havia muita pilombeta, realizavam lances de rede que capturavam cerca de 300kg. O
peixe mandi faz 15 anos que não aparece assim como o surubim todos desaparecidos. Informaram
que as áreas, tanto do rio como estuário, não foram atingidas pelo desastre do óleo.
Uma pesca boa no rio é quando capturam de 20 a 30 kg, no inverno podem capturar até
80kg.
Adicionalmente, os entrevistados relataram algumas modalidades de pescarias que
prejudicam a ictiofauna e contribuem com a sobrepesca dos principais estoques, tais como: pesca
de batida, arrasto, arpão, rede de cerco ou lambuda (malha inferior a permitida pelos órgãos
ambientais), além de competição com pescadores de outras regiões, implantação de cooperativa,
necessidade de capacitação em mecânica e manutenção de motores e cuidados com o descarte
adequado de óleo dos motores das embarcações de maior porte, exigindo para o sucesso da
atividade, medidas protetivas de espécies com aumento da fiscalização. Ações para conter roubos,
drogas e violência nas comunidades de pescadores e diminuição com atrasos no pagamento no
seguro-defeso, foram citadas como empecilhos para a atividade de pesca em Piaçabuçú.
Há registros de atividades oficiais esporádicas de peixamento no rio, porém estas ações estão
muito aquém do mínimo necessário para que se permita recompor a fauna piscosa do rio, bem como
seu equilíbrio ambiental. Com o agravamento do assoreamento e redução da vazão do rio nos últimos
anos, tem aumentado os problemas ambientais e, consequentemente, reduzido à disponibilidade de
peixes, tanto em número quanto em relação à quantidade de espécies existentes e que povoam o rio.
205
PROSPECÇÃO PESQUEIRA
As atividades de prospecção pesqueira ocorreram nos pontos conforme indicado nas figuras 31 a
40 e na Tabela 1.
Figura 31. Localização dos pontos de coletas no baixo São Francisco. Fonte: Google Earth 2020
Tabela 1: Localização dos pontos de coleta em cada cidade.
Cidades e Povoados
Pontos
Latitude (S)
Longitude (W)
coletados
Piranhas
P1
09o 37’ 39,64’’
037o 45’ 24,15’’
Piranhas
P2
09o 37’ 41,04’’
037o 45’ 26,87’’
Piranhas
P3
09o 37’ 37,94’’
037o 45’ 01,33’’
Piranhas
P4
09o 37’ 37,77’’
037o 45’ 00,32’’
Pão de Açúcar
PA1
09o 45’ 27,77’’
037o 26’ 28,58’’
Pão de Açúcar
PA2
09o 45’ 30,26’’
037o 26’ 25,56’’
Traipú
TP1
09o 58’ 51,46’’
037o 00’ 30,23’’
Traipú
TP2
09o 58’ 50,84’’
037o 00’ 25,22’’
Porto Real do Colégio
TPC1
10o 11’ 21,06’’
036o 50’ 30,35’’
Propriá
PRO1
10o 12’ 26,71’’
036o 50’ 01,94’’
Propriá
PRO2
10o 12’ 26,89’’
036o 49’ 59,47’’
Xinaré
XI
10o 26’ 30,39’’
036o 39’ 53,54’’
206
Penedo
PE1
10o 16’ 45,54’’
036o 35’ 05,41’’
Penedo
PE2
10o 16’ 44,26’’
036o 35’ 06,18’’
Penedo
PE3
10o 16’ 41,51’’
036o 35’ 07,46’’
Piaçabuçu
Pl1
10o 24’ 12,20’’
036o 26’ 19,08’’
Piaçabuçu
Pl2
10o 24’ 10,85’’
036o 26’ 18,99’’
Foz (Piaçabuçu)
FOZ1
10o 28’ 40,68’’
036o 24’ 22,46’’
Foz (Piaçabuçu)
FOZ2
10o 28’ 43,39’’
036o 24’ 17,77’’
Figura 32. Localização dos pontos de coletas na cidade de Piranhas. Fonte: Google Earth 2020
207
Figura 33. Localização dos pontos de coletas na cidade de Pão de Açúcar. Fonte: Google Earth
2020
Figura 34. Localização dos pontos de coletas na cidade de Traipu. Fonte: Google Earth 2020
Figura 35. Localização dos pontos de coletas na cidade de Porto Real do Colégio. Fonte: Google
Earth 2020
208
Figura 36. Localização dos pontos de coletas na cidade de Propriá. Fonte: Google Earth 2020
Figura 37. Localização dos pontos de coletas na cidade de Xinaré. Fonte: Google Earth 2020
209
Figura 38. Localização dos pontos de coletas na cidade de Penedo. Fonte: Google Earth 2020
Figura 39. Localização dos pontos de coletas na cidade de Piaçabuçu. Fonte: Google Earth 2020
210
Figura 40. Localização dos pontos de coletas na Foz do São Francisco. Fonte: Google Earth
2020
As redes de emalhar mais utilizadas nas estações, em função das condições e tempo em que
a Expedição permaneceu em cada cidade, foram as de 40, 45 e 50mm. No entanto, só foi possível
realizar análise de abundância relativa (CPUE) do total de captura nas redes de 40 mm com
diâmetro do fio 0,25mm e de 45mm com fio de 0,30mm (Figura 41).
A rede com abertura de malha maior (45mm entre nós), apresentou uma abundância maior
nas capturas, provavelmente devido ao fato de que a presente prospecção ter sido realizada no
período de defeso, quando os indivíduos adultos estão mais ativos. Aliado ao diâmetro do fio da
rede mais fino, o que torna ela, principalmente em águas com pouca turbidez como o baixo, menos
visível e consequentemente com maior eficiência de captura.
Figura 41. Captura por unidade de esforço – CPUE, por rede de emalhar.
Quando analisamos a abundância por espécies, observamos que quatro se destacam em toda a área
CPUE (ind./m2/h)
de estudo (Figura 42).
0.0200
0.0180
0.0160
0.0140
0.0120
0.0100
0.0080
0.0060
0.0040
0.0020
0.0000
211
Figura 42. Abundância relativa por espécie.
A pirambeba foi a espécie mais abundante, na captura com rede de emalhar (Figura 43). No
entanto, a espécie não tem grande valor econômico, além de ser um carnívoro voraz, que chega a
prejudicar parte das capturas (Figura 44). Sua maior abundância foi observada entre as cidades de
Piranhas e Pão de Açúcar, declinando no sentido da foz (Figura 45).
Figura 43. Pirambeba capturada com rede de emalhar. Foto: Vanildo S. Oliveira
Figura 44. Predação causada pela pirambeba. Foto: Vanildo S. Oliveira
212
Figura 45: Abundância relativa da pirambeba por localidade.
O segundo recurso pesqueiro mais abundante foram os piaus (Leporinus spp.) (Figura 46),
que apresenta uma boa aceitação e um bom valor comercial, como foi descrito, esses valores variam
de acordo com a espécie. Sua maior abundância foi constatada na cidade de Piranhas declinando
bruscamente em direção a foz (Figura 47). Essa maior abundância nas cidades mais próximas da
barragem de Xingó pode ser explicada, por dois fatores: o aumento da vazão promovido pela
CHESF durante a expedição, e a subida da espécie na época da reprodução.
Essas informações são muito importantes, pois corroboram como sendo esta a melhor
época (defeso) para proteger essa espécie. Essa espécie parece ter características eurialinas, pois
ocorreu até Piaçabuçu onde existe grande influência da água do mar. Isso corrobora com os relatos
dos pescadores ao longo do Baixo São Francisco, que sempre mencionaram esse recurso pesqueiro
como um dos principais na região.
Figura 46. Piau capturado na rede de emalhar. Foto: Vanildo S. Oliveira
213
Figura 47. Abundância relativa do piau por localidade.
O pacu foi a terceira espécie mais abundante (Figura 48), ocorrendo entre Pão de Açúcar e
Penedo, com maior pico em Propriá (Figura 49). Não tem grande valor econômico, mas é apreciado
pela população.
Foto 48. Pacu capturado na rede de emalhar. Foto: Vanildo S. Oliveira
214
Figura 49. Abundância relativa do pacu por localidade.
A quarta espécie mais abundantes foi o Tucunaré (Figura 50), espécie carnívora com valor
comercial e bastante apreciado pela população. Têm hábitos de guardar a prole na boca e devorar
as outras espécies, o que segundo os pescadores contribui fortemente para a diminuição de outras
espécies. Apresentou sua maior abundância em Porto da Real do Colégio, não sendo mais capturada
rio abaixo na expedição (Figura 51), pois a espécie parece ser bastante sensível às variações de
salinidade, por ser uma espécie característica de água doce.
Figura 50. Tucunaré capturado na rede de emalhar. Foto: Vanildo S. Oliveira
215
Figura 51. Abundância relativa do tucunaré por localidade.
Quanto a frequência de ocorrência acumulada, as quatro espécies mais abundantes
(pirambeba, piau, pacu e tucunaré), representam cerca de 76,6% do total das capturas. Os principais
peixes carnívoros de água doce representaram 40,1% (traira, tucunaré, pacamão, piranha e
pirambeba). As espécies marinhas representaram 5,3%, sendo todos carnívoros (Figura 52). Apesar
de todos os danos ambientais que o rio sofre, a presença de carnívoros é um bom sinal, pois eles
têm um papel muito importante, principalmente no caso do controle de espécies exóticas, como a
tilápia que está sendo cultivada amplamente, e quando soltas podem causar danos ao ambiente
nativo. Não foi registrada captura de tilápias nas pescarias, um sinal aparente que esses predadores
são fundamentais.
robalo
bagre
caranha
Espécies
pargo
tabaqui
cara
pacu
pacamom
tucunare
arenga
piau
0
5
10
15
20
Porcentagem (%)
25
30
Figura 52. Distribuição de porcentagem de frequência das espécies capturadas.
216
CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES
A região do Baixo São Francisco apresenta uma série de impactos ao longo do curso, com
alterações bastante visíveis sobre o rio. A redução das áreas de pesca, por outras atividades tem
sido atestada na região. O aumento da poluição do rio, o desmatamento das matas ciliares, a grande
descarga de esgotos e a baixa vazão de suas águas, devido ao represamento da hidroelétrica de
Xingó, tem causado assoreamento, formação de bancos de areia, destruição de habitats importantes,
como as lagoas marginais, com efeitos muitas vezes devastadores sobre os recursos pesqueiros.
Além da evidente total falta de gestão das atividades antrópicas ao longo desse trecho, é
preciso também avaliar os efeitos de todas as ações à montante da região. Para tal, se faz necessário
e urgente que o rio receba a devida atenção do Estado brasileiro, através de um detalhado estudo e
monitoramento de todos os impactos para que sejam, dessa forma, retomadas ações rigorosas de
revitalização do rio, as quais sempre foram abandonadas, sacrificando os reais interesses da
sociedade em detrimento do custo político da gestão ambiental e do ordenamento das atividades
econômicas.
Os impactos causados pelo assoreamento só podem ser minimizados com fiscalização
eficiente. A implantação de programas de reconstituição de matas ciliares e de educação ambiental,
principalmente junto às associações de criadores de gado, prefeituras e indústrias seriam as
primeiras recomendações. A legislação florestal é clara, mas a fiscalização precisa receber
condições políticas, jurídicas, financeiras e de capital humano.
O saneamento básico de água e esgoto precisa passar a ser encarados como prioridades pela
gestão pública federal e municipal, bem como por organizações da sociedade civil organizada e
moradores, pois afeta não apenas os organismos aquáticos, mas a todos nós, milhões de pessoas
usuários do rio ao longo da bacia do rio São Francisco.
Os impactos causados por macrófitas, tanto no fundo como na superfície do rio, devem ser
motivos de elaborações de soluções, por parte das autoridades competentes, no sentido de
desenvolver projetos de aproveitamento dessas toneladas de materiais orgânicas, uma vez que o rio
está margeado por solo com predominância areno-argiloso, ou seja, pobre/rochoso e cristalino,
especialmente no sertão, onde essa matéria orgânica poderá ser aproveitada (adubos, cobertura de
solo entre safra, complemento de ração, ou mesmo complementação, in natura, como alimento para
o gado). A execução de projetos pilotos transformaria esse problema em solução.
217
A população ribeirinha tem a proteína do pescado como parte importante de sua
alimentação, sendo a Xira (curimatã pacu), a espécie atualmente mais valorizada e apreciada no
baixo SF. Segundo os pescadores ela é o filé da pesca. Dessa forma, a continuidade e ampliação de
programas de repovoamento dessa espécie atendem aos anseios dos pescadores, os quais elogiam
essa ação e enfatizam que a liberação de indivíduos com maior tamanho, possibilita a sobrevivência
em um ambiente com tantos predadores.
Como o processo de migração das grandes espécies foi interrompido com o barramento do
rio, as iniciativas de reintroduzir espécies que raramente ocorrem, ou desapareceram do baixo SF,
devem ser continuadas e ampliadas, com o objetivo de recompor os estoques pesqueiros.
É marcante a carência de Programas de Assistência Técnica às Colônias e pescadores, no
sentido de realização de boas práticas de pesca e conservação do pescado.
A pesca no rio sofre influência direta da intensidade da vazão. Em época de chuvas, as
condições melhoram sensivelmente para a produção pesqueira. No entanto, em período de seca
interanual, como na última com duração de seis anos, a produção de pescado ficou bastante
prejudicada, sendo muitas vezes necessário importar peixes para ser atender à demanda nas feiras.
O repovoamento e cultivo de peixes nativos, desenvolvidos dentro dos padrões de
sustentabilidade, podem ser alternativas para suprir a necessidade de pescado nesses períodos.
Dessa forma, estímulos a projetos que visem o cultivo e desenvolvimento da cadeia produtiva de
espécies nativas devem ser estimulados pelas autoridades governamentais.
As coletas realizadas das espécies foram pontuais, o que permite apenas apontar as
condições momentâneas da situação da pesca, demostrando algumas tendências de resultados e
comportamentos. Por este motivo, é fundamental a realização de um programa de monitoramento
contínuo, com vistas ao acompanhamento da atividade e de possíveis alterações, garantindo
condições para observações mais amplas, significativas e aleatórias para análise de padrões da
pesca.
REFERÊNCIAS
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sustentável da pesca e aquicultura alagoana. Diagnóstico propositivo. Aracaju, 2008. 259 p.
218
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condições que possibilitem a aplicação desse instrumento na bacia hidrográfica do rio São
Francisco. Agência Nacional de Águas. Relatório Final. Ref: SCO1157/2007. AS-1710/2007.
PROJETO: 704BRA2041 ANA Prodoc. Dezembro/2007. 243 p.
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Francisco. Profile of the fish fauna of the São Francisco river basin Article, January 2017 DOI:
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REZENDE, P. C. OLIVEIRA, I. M. Descrição socioeconômica dos pescadores no baixo São
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Nordeste-Brasil.
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219
Aspectos Higiênico-Sanitários da Comercialização de Pescado em Sete
municípios de Alagoas
Tereza, Iracema Reis Simões¹, Jhennipher da Silva Pereira¹, Juliett de Fátima Xavier da Silva¹.
1
Laboratório de Tecnologia do Pescado (LATEPE), Universidade Federal de Alagoas, Campus Arapiraca,
Unidade Penedo, Av. Beira Rio, s/n, Centro Histórico, CEP: 57200-000, Penedo, AL, Brasil.
RESUMO
O presente estudo objetivou relatar a qualidade higiênico-sanitária do pescado comercializado em
feiras livres/mercado público de sete municípios do Baixo São Francisco. Para isso, foram
aplicados questionários tipo Check-List elaborados com base na legislação vigente. Para a
avaliação das características organolépticas e frescor do pescado foi utilizado o método de índice
de qualidade - MIQ. A pesquisa identificou problemas higiênico-sanitários nas feiras livres e
mercados, tais como as más condições das bancas, equipamentos e utensílios, dos comerciantes
(vestuário inadequado e nas práticas de manipulação) e dos produtos comercializados (temperatura
e armazenagem inadequada). Assim, as feiras possuem estruturas inapropriadas para a
comercialização, desencadeando agentes que interferem diretamente na boa qualidade do pescado,
sendo, portanto de suma importância à adequação das instalações e a correta manipulação e oferta
do pescado.
Palavras chave: Produtos pesqueiros, qualidade, venda.
ABSTRACT
The objective of this study was to report the hygienic-sanitary condition of fish commercialization
in street and markets in the seven municipalities of Lower São Francisco. Thus, a checklist protocol
based on specific legislation was used. To evaluate the fish organoleptic characteristics and
freshness, the quality index method (QIM) was used. The research identified sanitary-hygienic
problems in the street markets, such as the bad condition of stalls, equipment and utensils, traders
(inappropriate clothing and handling practices) and marketed products (inappropriate temperature
and storage). It can be concluded that the street markets had inadequate sanitary conditions for fish
marketing and needs to reconstruct and modernize its infrastructure, as it shows no suitable
conditions to serve as a retail outlet for fish.
Keywords: Fishery products, quality, sale.
220
INTRODUÇÃO
As feiras livres são apontadas como um dos principais espaços de comercialização varejista
devido às variadas formas de apresentação que o produto é disponibilizado para a venda (JESUS,
SANTOS e CARVALHO, 2018).
No Brasil, as feiras livres foram introduzidas pelos portugueses durante o período colonial,
sendo o modelo de mercado periódico mais antigo e tradicional do país, exercendo grande
importância no desenvolvimento econômico, social e cultural (SILVA JUNIOR, FERREIRA e
FRAZÃO, 2017).
Existe uma preferência do consumidor pelas feiras livres e mercados públicos devido à oferta
de produtos com um preço mais acessível, e devido ao conceito de que os alimentos ali
comercializados são sempre frescos e de qualidade superior (SILVA JÚNIOR et al., 2017),
incluindo o pescado fresco, condição preferencial pela maioria dos consumidores (JESUS et al.,
2018).
Entretanto, vale ressaltar que nestes centros de comercialização, os produtos estão expostos a
várias situações que propiciam a sua contaminação, das quais podem ser citadas: a contaminação
por meio de manipulação inadequada, exposição dos produtos em bancas e barracas sem
refrigeração e sem proteção contra insetos, bem como o seu acondicionamento e armazenamento
em condições inapropriadas, tornando-se um ambiente propício para incorporar externamente
materiais estranhos de origem biológica ou não (SILVA JÚNIOR et al., 2017), o que pode refletir
diretamente na saúde do consumidor.
Os problemas de saúde ocasionados pelo consumo de pescado quase sempre estão relacionados
a práticas inadequadas de armazenamento e comercialização, em feiras livres ou mercados
municipais, devido ao não cumprimento do trinômio tempo, temperatura e higiene, razão pela qual
a segurança alimentar vem ganhando espaço e atenção global, face à ocorrência de doenças
veiculadas por alimentos (EVANGELISTA-BARRETO, DAMACENA, CARDOSO, MARQUES
e SILVA, 2017).
Segundo o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal RIISPOA (2017), Subseção VI, Art. 205, entende-se por pescado os peixes, os crustáceos, os
moluscos, os anfíbios, os répteis, os equinodermos e outros animais aquáticos usados na
alimentação humana. O pescado é um alimento de excelente valor nutritivo devido as suas
proteínas de alto valor biológico, vitaminas e ácidos graxos insaturados (EVANGELISTABARRETO et al., 2017). Entretanto, é um alimento bastante perecível, por ser muito suscetível à
autólise; à oxidação de gorduras; à ação bacteriana; por apresentar pH próximo à neutralidade;
221
elevada atividade de água nos tecidos e alto teor de nutrientes facilmente utilizáveis pelos
microrganismos (OGAWA e MAIA, 1999). Das alterações que caracterizam a deterioração do
pescado estão aquelas relacionadas às características organolépticas do pescado fresco. Por esta
razão necessita de condições sanitárias adequadas desde a captura, manipulação até a
comercialização.
Deste modo, a aplicação de métodos que investiguem a qualidade de produtos pesqueiros
comercializados em feiras livres/mercados públicos, proporciona levantamentos de informações
para o setor, tais como os problemas, dificuldades e desafios. Este tipo de informação é de grande
importância, para se ofertar produtos de boa qualidade, saudáveis e seguros aos consumidores,
principalmente por serem ofertados frescos. Por estes motivos o objetivo deste trabalho foi avaliar
a condição higiênico-sanitária de sete feiras livres em Municípios do Baixo São Francisco.
METODOLOGIA
O presente trabalho foi desenvolvido nos Municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto
Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu (Figura 1), no período de 17 a 27 de novembro
de 2019. A pesquisa foi exploratória e fundamentou-se em análise qualitativa e investigativa, por
meio da observação e avaliação da realidade, para tanto foram elaborados questionários do tipo
Check-List adaptados da:
- Portaria nº 368, de 04 de setembro de 1997, do Ministério da Agricultura Pecuária e
Abastecimento (BRASIL, 1997), que regulamenta as normas das condições higiênico-sanitárias e
da avaliação da estrutura física de comercialização do pescado, sendo avaliados os seguintes itens:
Condições Ambientais e Edificações, Condições Higiênicas dos Utensílios e Equipamentos, Perfil
dos Manipuladores, Condições do Pescado e Destino dos Resíduos Orgânicos (lixo);
- Resolução RDC nº 275, de 21 de Outubro de 2002 (BRASIL, 2002), que dispõe sobre o
Regulamento
Técnico
de
Procedimentos
Operacionais
Padronizados
aplicados
aos
Estabelecimentos Produtores/Industrializadores de Alimentos e a Lista de Verificação das Boas
Práticas de Fabricação em Estabelecimentos Produtores/Industrializadores de Alimentos;
- Resolução RDC 216, nº de 15 de Setembro de 2004 da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (BRASIL, 2004), que dispõe sobre o Regulamento Técnico de Boas Práticas para Serviço
de Alimentação, e;
- Portaria nº 326, de 30 de julho de 1997 da Secretária de Vigilância Sanitária do Ministério
da Saúde (BRASIL, 1997), que dispõe sobre o Regulamento Técnico Sobre as Condições
Higiênico-Sanitárias
e
de
Boas
Práticas
de
Fabricação
para
Estabelecimentos
Produtores/Industrializadores de Alimentos.
222
- Portaria n° 185, de 13 de maio de 1997, Regulamento Técnico de Identidade e
Qualidade de Peixe Fresco.
Tais questionários enfatizaram o recebimento e exposição do pescado à venda, higiene do
manipulador e dos materiais e utensílios, além da infraestrutura das instalações/edificações.
Figura 1 – Locais da pesquisa: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio,
Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu - AL.
Os questionários (ANEXO 1) foram aplicados durante a II Expedição nos dias em que
ocorrem as feiras nos referidos municípios, avaliando os seguintes pontos: perfil socioeconômico,
aspectos gerais higiênico-sanitários, requisitos e aspectos higiênicos dos funcionários e aspectos
gerais sobre a comercialização. Para mensurar a temperatura foi utilizado termômetro
infravermelho digital.
Para avaliar características organolépticas do pescado, utilizou-se o método de índice de
qualidade (MIQ). Amostras de peixe foram avaliadas de acordo com o protocolo de avaliação da
corvina (Micropogonias furnieri) adaptado de Teixeira et al. (2009), sendo avaliados os atributos:
Aspectos gerais, olhos, e brânquias (ANEXO 2), com escala de pontuação (escores) de 0 a 2 para
cada atributo. Amostras de camarão foram avaliadas de acordo o protocolo de avaliação de
Litopenaeus vannamei adaptado de Oliveira, Freitas, Clemente e Mársico (2009), sendo avaliados
os atributos: Aroma, cor, melanose, aderência da carapaça e aderência ao corpo (ANEXO 3), com
escala de pontuação de 0 a 2 para cada atributo. O total de pontuação de cada protocolo variou 0 a
22 (limite de aceitabilidade) para peixes e de 0 a 10 (limite de aceitabilidade) para camarão,
considerando a menor pontuação (zero) para o pescado fresco, e a partir de 22 pontos (peixe) ou
10 pontos (camarão), para estado de deterioração ou deteriorado, impróprio para a comercialização.
223
Para a análise dos dados foi utilizado estatística descritiva qualitativa e quantitativa,
utilizando o Programa Microsoft Excel 2016®.
RESULTADOS
Perfil socioeconômico
Os dados sobre feirantes envolvidos com a comercialização de pescado são deficientes e
não mantem atualização ordenada. Para potencializar a expectativa de sucesso na organização de
politicas públicas habilitadas em melhorar as condições de trabalho dos feirantes é primordial que
se tenha conhecimentos seguros sobre a cadeia produtiva e os trabalhadores envolvidos. Portanto,
fazem-se essenciais, elementos e informações sobre as características socioeconômicas, assim
como a caraterização dos aspectos higiênico-sanitários das feiras, para entender seus anseios e
perspectivas de melhorias na atividade.
Foram entrevistadas (Figura 2) ao todo 39 pessoas que desenvolvem alguma atividade
relacionada com a venda de pescado, das quais, 59% eram do sexo masculino e 41% (Figura 3),
sendo um homem e três mulheres em Piranhas, seis homens e duas mulheres em Pão de Açúcar,
quatro homens e duas mulheres em Traipu, cinco homens e uma mulher em Porto Real do Colégio,
três homens e duas mulheres em Igreja Nova, um homem e três mulheres em Penedo e um homem
e cinco mulheres em Piaçabuçu, esta última mais associada ao beneficiamento do pescado (Figura
4).
Figura 2 – Coleta de informações qualitativas em entrevistas com os feirantes de Igreja Nova
– AL (A, B), Traipu (C).
Fonte: Muniz (2019).
224
Figura 3 – Divisão por sexo de feirantes de pescado nos Municípios de Piranhas, Pão de Açúcar,
Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu – AL.
41%
Masculino
59%
Feminino
Figura 4 - Atividade do processamento de filetagem do camarão espigão
(Xiphopenaeus kroyeri) em Piaçabuçu – AL.
Fonte: Simões (2019).
A atividade de feirante ocupa jovens e idosos com idade entre 18 e 72 anos. A média é de
45 anos, idade que compreende a faixa etária de 41 a 51 anos, representando 26,2% dos
entrevistados (Figura 5).
Figura 5 - Faixa etária dos feirantes de pescado Municípios de Piranhas, Pão de Açúcar,
Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu – AL.
225
35
28,95 %
30
26,32 %
23,68 %
25
%
20
15
13,16 %
10
7,89 %
5
0
18 a 29 anos
30 a 40 anos 41 a 51 anos
52 a 62 anos
62 a 72 anos
Outra característica é o elevado índice de baixa escolaridade. Apenas 26,3% possuem o
ensino médio completo, 47,4% possuem o fundamental incompleto, 13,2% o médio incompleto,
7,9% não são alfabetizados, e 2,6% possuem nível superior e técnico (Figura 6).
Figura 6 – Escolaridade dos feirantes de pescado Municípios de Piranhas, Pão de Açúcar,
%
Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu – AL.
50.0
45.0
40.0
35.0
30.0
25.0
20.0
15.0
10.0
5.0
0.0
Fundamental
Médio
Incompleto Incompleto
Médio
completo
Não
alfabetizado
Superior
Completo
Ensino
Técnico
Do total dos feirantes, 44,7% estão envolvidos na atividade por falta de opção e 50,0% por
influências dos pais (Figura 7), o que demonstra uma estagnação de grande parte desses
trabalhadores e uma falta de perspectiva de mudanças.
Figura 7 – Motivos para ingressar na atividade de comercialização do pescado.
226
Influência dos Pais
Falta de opção
Outros
Mudança
0.0
10.0
20.0
30.0
40.0
50.0
60.0
%
Os feirantes possuem em média 20,6 anos de serviço, 34,2 trabalham exclusivamente com
a venda do pescado, porém devido à necessidade de complementar a renda familiar, alguns
possuem outras fontes de renda, 7,9% recebem aposentadoria, 15,8% trabalham na pesca, 10,5%
recebem o seguro defeso, 5,3 trabalham com processamento do pescado, e 21,1% realizam outros
serviços (Figura 8).
Figura 8 – Porcentagem de outras fontes de renda dos feirantes de pescado Municípios de
Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu
– AL.
40.0
35.0
30.0
%
25.0
20.0
15.0
10.0
5.0
0.0
Aposetadoria
Vendas
Pesca
Seguro Defeso Processamento Outros Serviços
do Pescado
Em relação ao estado civil, 58% são casados, com família composta por 2 a 10 membros,
29% são solteiros e 13% mantem outros tipos de relacionamento. Essas famílias sofrem impacto
considerável dos programas de transferência de renda, uma vez que 68% de todos os entrevistados
afirmaram que recebem algum tipo de benefício do governo (Figura 9).
227
Figura 9 – Porcentagem dos feirantes de pescado nos Municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu – AL que recebem
algum benefício governamental.
Recebem Auxílio
do Governo
32%
68%
Não Recebem
Auxilio do
Governo
Aspectos higiênico-sanitários/Instalações das feiras livres
Quanto aos aspectos gerais do ambiente da feira, não foram observadas instalações
sanitárias em 100% delas, mesmo parte do comércio, sendo realizado em mercados públicos.
A disponibilidade de água utilizada pelos feirantes foi constatada em todas as bancas, porém
apenas Piranhas, Pão de Açúcar, Porto Real do Colégio, Igreja Nova e Penedo possuíam água
potável, enquanto em Traipu e Piaçabuçu os feirantes utilizavam água do rio. Em todas as feiras, o
mesmo recipiente de água (balde) era destinado à limpeza do pescado, utensílios e mãos. Essa
condição dificulta a higienização dos manipuladores, utensílios e produto. Além disso, o
compartilhamento de um único recipiente de água para o uso durante a comercialização do pescado
é uma ação que possibilita a contaminação cruzada e, portanto permite risco à saúde do consumidor.
A falta de organização e de higiene nas bancas de pescado foi observada em todos locais
amostrados, inclusive os feirantes manipulavam o pescado e dinheiro ao mesmo tempo. A RDC nº
216 (BRASIL, 2004) preconiza que a higienização das mãos dos manipuladores deve ocorrer antes
e após o início das atividades, depois da interrupção da manipulação e quando se julgar necessário.
Verificou-se que 15,8% das vias de acesso às feiras (Figura 10) são de solo de barro e 84,2%
são pavimentadas, sem limitação de acesso, apenas com circulação de pessoas e alguns ciclistas.
Existem apenas instalações elétricas em 57% das feiras (Piranhas, Igreja Nova, Penedo e
Piaçabuçu), porém com iluminação sem proteção, oferecendo risco de acúmulo de sujidade e
quebras acidentais.
Figura 10 – Adequação das feiras livres as vias de acesso
228
%
90.0
80.0
70.0
60.0
50.0
40.0
30.0
20.0
10.0
0.0
Pavimentada
Não Pavimentada
Vias de acesso
Em relação à conduta pessoal, 100% dos feirantes mantinham as unhas aparadas, as
mulheres mantinham os cabelos presos, e os homens cabelos curtos. O uso da vestimenta está
apresentado na figura 11, e demonstra que 59% dos feirantes não usam nenhum equipamento de
uso pessoal; apenas 16% usam avental (Figura 12); 5% usam apenas botas ou avental e óculos, e
3% usam apenas boné ou avental e botas, ou avental e boné, ou avental, touca e óculos.
Figura 11 – Equipamentos de uso individual (EPI) utilizados pelos feirantes de pescado nos
Municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo
e Piaçabuçu – AL.
Avental
16%
3%
Avental e Botas
3%
Avental e Boné
5%
59%
3%
3%
5%
3%
Avental e Óculos
Avental, Touca e
Óculos
Figura 12 – Uso de avental pela feirante no Município de Penedo – AL.
229
Fonte: Albuquerque (2019).
Os feirantes adquirem o pescado de aquicultores ou pescadores da região de forma irregular,
pois 39,5% são recebidos em sacos de nylon reaproveitados, em temperatura ambiente e toda a
pesagem e separação são feitas no chão; 36,8% são recebidos frescos, ou seja, acondicionados em
gelo; 36,8% congelados e 13,2% salgados e secos (Figura 13). A Resolução da ANVISA RDC nº
216/2004, preconiza que a recepção da matéria prima deve ser realizada em área protegida e limpa
(BRASIL, 2004). Já a Portaria da ANVISA SVS/MS nº 326, de 30 de julho de 1997, determina
que devam ser utilizados controles adequados para evitar a contaminação química, física ou
microbiológica, ou por outras substâncias indesejáveis. Também, devem ser tomadas medidas de
controle com relação à prevenção de possíveis danos, contribuindo para a proteção contra a
contaminação das matérias primas e danos à saúde pública (BRASIL, 1997).
Figura 13 – Natureza do pescado recebido pelos feirantes nos Municípios de Piranhas, Pão
de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu – AL.
Sem gelo
Fresco
Congelado
Salgado e seco
0.0
10.0
20.0
30.0
40.0
50.0
%
230
Com relação aos equipamentos e utensílios, em nenhum dos pontos de comercialização
utilizavam-se caixas isotérmicas novas, limpas e em bom estado de conservação. A figura 14
mostra como o pescado era comercializado nas feiras, 79% estavam expostos em mesas de madeira;
às vezes cobertas por toalhas de plástico; 13% em caixas isotérmicas sem gelo; 3% em bandejas
plásticas sem gelo; e 5% sobre superfícies não apropriadas como papelões (Figura 15), à
temperatura ambiente, em média 23,6℃ (Figura 16), sem conservação em gelo e sem proteção,
estando sujeito ao contato com vetores, sujidades, manuseio dos consumidores, e outras possíveis
fontes de contaminação. Durante a comercialização, 5,3% do pescado eram armazenados em
bandejas plásticas sem gelo; e 47,4% em caixa isotérmica com e sem gelo, apenas 7,9% levavam
o pescado para a sua residência ou para local de processamento, onde eram congelados a -20℃ em
freezer doméstico (Figura 17 e 18).
Figura 14 – Pescados expostos à venda. A: Porto Real do Colégio - AL, B: Igreja Nova AL, C: Pão de Açúcar - AL, D: Penedo – AL.
Fonte: Simões (2019).
Figura 15 – Formas de exposição do pescado comercializado nos Municípios de Piranhas,
Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu – AL.
231
3%
5%
Mesa
13%
Caixa Isotérmica
Bandeja Plástica
Outros
79%
Figura 16 – Mensuração da temperatura do pescado com termômetro infravermelho.
Fonte: Xavier Silva (2019).
Figura 17 – Tipos de armazenamentos do pescado comercializado nos Municípios de
Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu
– AL.
232
Caixa Isotérmica sem gelo
Caixa Isoérmica com gelo
Freezer
Bandejas Plásticas
0.0
10.0
20.0
30.0
40.0
50.0
%
Figura 18 – Armazenamento do pescado no Município de Piaçabuçu – AL.
Fonte: Simões (2019).
O pescado in natura deve estar sempre acondicionado em caixas térmicas recoberto por
gelo, de preferência em escamas, permanecendo assim, durante todo o tempo de exposição para
venda, ou pode estar no interior de expositores refrigerados, acondicionados em recipientes
plásticos de fácil limpeza e higienização. A Portaria SVS/MS nº 326, de 30 de julho de 1997
(BRASIL, 1997), determina que todo o equipamento e utensílio utilizado nos locais de
manipulação de alimentos devem ser confeccionados de material que não transmitam substâncias
tóxicas, odores e sabores, que sejam não absorventes e resistentes à corrosão, e capaz de resistir a
repetidas operações de limpeza e desinfecção. As superfícies devem ser lisas e isentas de
rugosidade e frestas e outras imperfeições que possam comprometer a higiene dos alimentos e
sejam fontes de contaminação.
As espécies de pescado mais comercializadas nos Municípios de Piranhas, Pão de Açúcar,
Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova Penedo e Piaçabuçu – AL são demostradas na tabela
1:
233
Tabela 1 - Preço médio (R$) e espécies (nomes vulgares) comercializadas nos Municípios de
Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu – AL.
PIRANHAS
PÃO DE
TRAIPU
AÇÚCAR
PORTO
IGREJA
REAL DO
NOVA
PENEDO
PIAÇABUÇU
COLÉGIO
Pescado
R$
Pescado
/kg
Acará
5,00
R$
Pescado
/kg
Acará
10,00
R$
R$
Pescado
/kg
Bagre
15,00
Pescado
/kg
Corvina
14,00
R$/
Pescado
kg
Camarão
30,00
de rio -
R$
Pescado
/kg
Tam-
8,00
R$
/kg
Corvina
10,00
Filé de
20,00
baqui
salgado e
seco
Camarão de
30,00
Camarão
rio - salgado
de rio -
e seco
salgado e
30,00
Cari
8,00
Curima-
12,00
Cavalinha
12,00
Tilápia
10,00
tã
camarão
espigão
seco
Camarão de
10,00
Corvina
13,00
água doce in
Tamba-
7,00
Panga
12,00
Corvina
14,00
-
-
cu
natura
Cascudo
Filé de
45,00
camarão
rosa
10,00
Curimatã
16,00
Tamba-
9,00
Pescada
10,00
Curimatã
15,00
9,00
Piau
9,00
Curimatã
16,00
-
-
Pescada
10,00
qui
Corvina
8,00
Pacu
5,00
Tilápia
salgada e
seca
Piau
8,00
Piau
10,00
-
-
Piaba
10,00
Manjuba
4,00
-
-
-
-
Pirambeba
9,00
Piranha
4,00
-
-
Piranha
9,00
Merluza
15,00
-
-
-
-
Tilápia
11,00
Tilápia
10,00
-
-
Tamba-
8,00
Piau
10,00
-
-
-
-
8,00
Sardinha
8,00
-
-
-
-
-
-
-
-
cu
Tucunaré
9,00
Traíra
10,00
-
-
Tambaqui
-
-
-
-
-
-
Tilápia
9,00
Tambaqui
-
-
-
-
-
-
Tucuna-
9,00
Tilápia
10,00
-
-
-
-
-
Traíra
8,00
-
-
-
-
ré
-
-
-
-
-
-
-
Entre as espécies de peixes mais valorizadas destaca-se a curimatã (Prochilodus argenteus),
a corvina (Micropogonias furnier), a tilápia (Oreochromis niloticus), o piau (Leporinus sp.), o
tucunaré (Cichla ocellaris), e o tambaqui (Colossoma macropomum) com uma média de preço de
R$14,33; R$11,80; R$9,60; R$9,25; R$9,00; e R$8,25 respectivamente. Em Piaçabuçu, se
comercializa em maior quantidade o filé de camarão espigão (Xiphopenaeus kroyeri) e do rosa
(Farfantepenaeus sp) com valores de R$20,00 e R$45,00, respectivamente. Apenas em Porto Real
do Colégio vende-se panga (Pangasius sp.) com preço de R$12,00. Em Piranhas, Pão de Açúcar e
234
Igreja Nova vende-se camarão de rio (Macrobrachium sp.) salgado e seco com preço médio de
R$30,00, e este último município também é o único que comercializa curimatã salgada e seca por
R$16,00 e merluza (Merluccius sp.) por R$12,00. As espécies menos valorizadas são o pacu
(Piaractus mesopotamicus) e a manjuba (Anchoviella sp.), comercializadas por R$5,00 e R$4,00,
respectivamente. De todas as espécies, a tilápia, o tambaqui e a curimatã são as que representaram
o maior quantitativo semanal de vendas, com média de 356,66 kg, 272,50 kg e 70 kg vendidos por
semana, respectivamente.
Quanto ao tipo de beneficiamento realizado na comercialização do pescado, 34% eram
eviscerados e cortados em posta; 26% eram processados em filé, 5% salgado e seco; e apenas 1%
permanecia inteiro, porém descamados (Figura 19). O peixe era manipulado na maioria das vezes
em mesas de madeira, cortados com facas e facões, e cepos (apoio em madeira para o
processamento do pescado) (Figura 20), as escamas eram retiradas com descamadores, todos os
feirantes embalavam o produto em sacos plásticos. Fatores como tempo de armazenagem;
temperatura imprópria, manipulação e processamento com higiene inadequada, podem favorecer a
proliferação de microrganismos. Esses fatores podem estar presentes em toda a cadeia de produtiva
desde a captura ou despesca, passando pelo processamento e comercialização, até a mesa do
consumidor, tornando-o um risco para a saúde.
Figura 19 – Formas de beneficiamento do pescado nos Municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu – AL.
Filé
26%
34%
Salgado e Seco
Inteiro
5%
Posta
1%
Eviscerado
34%
Figura 20 – Cepo (apoio em madeira para o processamento do pescado).
235
Fonte: Simões (2019).
O esquema do Método do Índice de Qualidade (MIQ) desenvolvido para o peixe e camarão
inteiro obteve uma soma total dos pontos no valor 22 e 10, respectivamente, descrevendo atributos
de aspectos gerais, olhos, e brânquias para peixes; e aroma, cor, melanose, aderência da carapaça
e aderência ao corpo para camarão. A soma total dos escores do MIQ originou o Índice de
Qualidade (IQ), em que o valor zero, ou próximo à zero, representa o pescado recémcapturado/despescado, ou seja, de melhor qualidade sensorial quanto ao frescor. Pressupõe-se no
MIQ que os escores para todos os atributos de qualidade aumentem com o tempo de estocagem
(dias) em gelo, porém, neste caso, o MIQ foi pontuado unicamente em cada feira, e com o pescado
exposto a temperatura ambiente. Os valores médios encontrados do MIQ do peixe e do camarão
foram 4,31 e 4,54, respectivamente (tabela 2 e 3), estes resultados indicam que o pescado já não se
encontrava com as características organolépticas de pescado fresco, porém estava dentro do limite
de índices de qualidade aceitáveis para o consumo humano, com variação de 0 a 6 para camarão
inteiro (OLIVEIRA et al., 2009) e de 0 a 8 para peixe (TEIXEIRA et al., 2009).
Tabela 2 – Valores médios para os atributos de qualidade avaliados pelo esquema do MIQ para
peixe inteiro exposto a temperatura ambiente.
Atributos
Aspecto
Escore
Pontuação (média das feiras)
0-2
0,03
superficial
236
Aspectos gerais
Olhos
Brânquias
Muco
0-2
0,28
Rigidez
0-2
0,69
Firmeza da pele
0-2
0,59
Escama
0-2
0,69
Transparência
0-2
0,03
Pupila
0-2
0,37
Forma
0-2
0,27
Cor
0-2
0,34
Forma
0-2
0,21
Odor
0-2
0,86
0-22
4,31
Índice de Qualidade
Tabela 3 – Valores médios para os atributos de qualidade avaliados pelo esquema do MIQ para camarão inteiro
exposto a temperatura ambiente.
Atributos
Escore
Pontuação (média das feiras)
Aroma
0-3
0,98
Cor
0-1
0,76
Melanose
0-2
0,8
Aderência da carapaça
0-2
1,0
Aderência da cabeça ao corpo
0-2
1,0
Índice de qualidade
0-10
4,54
Após o beneficiamento do pescado, os resíduos eram descartados no chão, facilitando a
atração de pragas como insetos e roedores, vetores de enfermidades, ou de animais domésticos que
circulam livremente entre feirantes e consumidores. Ao final, as bancas eram lavadas apenas com
água, os resíduos eram varridos do chão e depositados em cestos de lixo sem tampa, para serem
recolhidos pela equipe de coleta de lixo dos municípios, seguido de lavagem das vias por carros
pipas. A Portaria SVS/MS nº 326 (1997) preconiza a remoção das sujidades, todas as vezes que
sejam necessárias, no mínimo uma vez por dia, e os recipientes utilizados para o seu
armazenamento que tenham entrado em contato com os lixos devem ser limpos e desinfetados.
237
Apesar de nenhum feirante nunca ter participado de curso de capacitação sobre boas práticas de
higiene, manipulação e beneficiamento do pescado, todos demonstraram interesse.
CONCLUSÕES
Os aspectos higiênico-sanitários observados nas feiras livres e mercados que comercializam
pescado fresco nos Municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja
Nova, Penedo e Piaçabuçu – AL indica que, os produtos comercializados podem ofertar risco à
saúde do consumidor, pois apresentam condições impróprias e desconformes com alguns padrões
para manipulação de alimentos. Desta forma é imprescindível a utilização das boas práticas de
manipulação, principalmente no que diz respeito a uma administração que vistorie a organização
das feiras/mercados e ao cumprimento às normas sanitárias.
O método de índice de qualidade (MIQ) demostrou que o pescado estava dentro do limite de
índices de qualidade aceitáveis para o consumo humano, entretanto, é necessárias análises físicoquímicas e microbiológicas para um completo diagnóstico sobre qualidade do pescado
comercializado nestas feiras livres.
SUGESTÕES
Para a afirmação da qualidade das mercadorias comercializadas nas feiras livres, recomendase uma modificação completa da infraestrutura da feira, adaptando as instalações às condições
higiênico-sanitárias como prevê a legislação brasileira; regulação do vestuário dos manipuladores
de alimentos; uso obrigatório de EPI; emprego de utensílios e equipamentos conforme as normas
técnicas; controle severo de resíduos, vetores e pragas; realização de cursos de capacitação que
abordem o manuseio higiênico-sanitário e beneficiamento de pescados, e fiscalização efetiva por
parte da vigilância sanitária.
1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017 do Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento. Regulamenta a Lei nº 1.283, de 18 de dezembro de 1950, e a Lei nº 7.889, de 23
de novembro de 1989. Inspeção industrial e sanitária de produtos de origem animal. Diário Oficial
da União; Brasília de 29 de março de 2017.
BRASIL. Portaria nº. 368, de 04 de setembro de 1997 da Secretaria de Vigilância Sanitária do
Ministério da Saúde. Regulamento técnico sobre as condições higiênico-sanitárias e de boas
práticas de fabricação para estabelecimentos/industrializadores de alimentos. Diário Oficial da
União, Brasília, 8 de setembro de 1997.
BRASIL. Portaria Nº326, 30 de julho de 1997 da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério
da Saúde. Regulamento técnico sobre as condições higiênico-sanitárias e de boas práticas de
238
fabricação para estabelecimentos produtor e/industrializador de alimentos. Diário Oficial da União,
Brasília, 14 de janeiro de 2019.
BRASIL. Portaria Nº185, de 13 de maio de 1997 do Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento. Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Peixe Fresco. Diário Oficial
da União, Brasília, 19 de maio de 1997.
BRASIL. Resolução-RDC n. 275, de 21 de outubro de 2002 da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária do Ministério da Saúde. Regulamento técnico de procedimentos operacionais
padronizados aplicados aos estabelecimentos produtores/industrializadores de alimentos e a lista
de verificação das boas práticas de fabricação em estabelecimentos produtores/industrializadores
de alimentos. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 de outubro 2002.
BRASIL. Resolução-RDC nº 216, de 15 de setembro de 2004 da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária do Ministério da Saúde. Regulamento Técnico de Boas Práticas para Serviços de
Alimentação. Diário Oficial da União; Brasília de 16 de setembro de 2004.
EVANGELISTA-BARRETO, N. S.; DAMACENA, S. S., CARDOSO, L. G., MARQUES, V. F.,
Silva, I. P. Condições higiênicos sanitárias e grau de frescor do pescado comercializado no mercado
de peixe em Cachoeira, Bahia. Revista Brasileira de Higiene e Sanidade Animal, v.11, n.1, p.
60-74, 2017.
JESUS, T. B.; SANTOS, T. N.; CARVALHO, C. E. V. Aspectos da comercialização do pescado
em feiras livres do município de Feira de Santana – BA. Revista Gestão e Sustentabilidade
Ambiental, v.7, n.2, p.159-179, 2017.
OGAWA, M., Características específicas do pescado, In: OGAWA, M.; MAIA, E. L. Manual de
Pesca. São Paulo: Livraria Varela, cap.2, p.09-15, 1999.
OLIVEIRA, V. M.; FREITAS, M. Q.; SÉRGIO; CLEMENTE, C. S; MÁRSICO, E. T.. Método
do índice de qualidade (MIQ) desenvolvido para camarão (Litopenaeus vannamei) CULTIVADO.
Rev. de Ciên. da Vida, RJ, EDUR. v. 29, n. 1, jan-jun, p. 60-71, 2009.
SILVA JUNIOR, A. C. S.; FERREIRA, L. R.; FRAZÃO, A. S. Avaliação da condição higiênicosanitária na comercialização de pescado da feira do produtor rural do buritizal, Macapá-Amapá.
LifeStyle Journal, São Paulo, v. 4, n. 1, p. 71-81, 2017.
TEIXEIRA, M.S.; BORGES, A.; FRANCO, R.M.; SAO CLEMENTE, S.C.; FREITAS, M.Q.
Método de índice de qualidade (QIM): desenvolvimento de um protocolo sensorial para corvina
(Micropogonias furnieri). Revista Brasileira de Ciência Veterinária, Niterói, v.16, n.2, p.83-88,
2009.
ANEXOS
Anexo 1 - Questionário Socioeconômico
239
240
Anexo 2 - Protocolo de avaliação sensorial para peixes – Método de índice de qualidade
(MIQ)
Anexo 3 - Protocolo de avaliação sensorial para Crustáceos – Método de índice de
qualidade (MIQ)
241
PERCEPÇÃO DOS PESCADORES SOBRE AS MUDANÇAS NO BAIXO DO RIO SÃO
FRANCISCO
Jucilene Cavali¹; Alfredo Leandro Borie Mojica2
1Universidade Federal de Rondônia, UNIR. jcavali@unir.br
2Universidade Federal de Alagoas, Brasil.
RESUMO
O objetivo com este estudo foi avaliar a percepção ambiental, socioeconomica e cultural dos
pescadores frente as mudanças ambientais no litoral Sul do Rio São Francisco. A pesquisa foi
desenvolvida por meio de entrevistas semiestruturadas a pescadores de 7 municipios e povoados
sediandos as margens do Rio São Francisco, no trecho de Piranhas à Foz do Rio São Francisco,
aplicadas durante a II Expedição Cientifica embarcada do Rio São Francisco. Na percepção dos
pescadores as mudanças ambientais são consequências da redução da vazão de agua do Rio São
Francisco progressiva nos ultimos 12 anos, o que culmina em mudanças na quantidade e
diversidade de espécies de peixes, no aumento de croas, ilhas, aguas rasas, paradas e quentes;
diversidade e aumento de macroalgas e parasitos. Percepção qualitativa da agua são percebidos
pelos pescadores na cidade de Piaçabuçu devido ao avanço da cunha salina maritima sobre o Rio.
Na parcepção dos pescadores além do desaparecimento de algumas espécies importantes e
dominancia de espécies invasoras mais agressivas, ocorreram mudanças no tamanho dos peixes e
tempo a maturidade ou idade reprodutiva más não perceberam mudanças sensoriais e nos
rendimentos de cortes. No âmbito econômico familias de pescadores que consumiam 5 a 8 kg/dia,
pescavam 50 a 70kg/dia e comercializavam até R$ 800 a 1000,00 por semana; hoje sobrevivem
com eventuais R$ 250,00 a 300,00 por mês e outras fontes de recurso além rio. Os pescadores
destacam ações importantes para a sobrevivenvia do Rio como o repovoamento, a fiscalização da
sobrepesca e apetrechos agressivos especialmente á captura de matrizes, descarte de dejetos.
Sugerem projetos socioambientais e/ou econômicos de cunho contribuitivo advindo dos próprios
pescadores através das colônias como os de repovoamento, fiscalização e educação ambiental; e
aqueles relacionados as mudanças e expansão do periodo de defeso
242
INTRODUÇÃO
O Rio São Francisco, opará ou Grande Rio como é chamado, abrange 639.920 km2 de área
de drenagem, cerca de 8% da área do território nacional, distribuindo-se por 507 municípios de
sete Unidades da Federação (UFs): estados de Alagoas, da Bahia, de Goiás, de Minas Gerais, de
Pernambuco e de Sergipe, bem como o Distrito Federal. O rio São Francisco tem 2.700 km de
extensão e nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, escoando no sentido sul-norte pela Bahia
e por Pernambuco, quando altera seu curso para Leste, chegando ao oceano Atlântico por meio da
divisa entre Alagoas e Sergipe (CBHSF, 2017).
O Baixo São Francisco: de Paulo Afonso até sua foz (32.013km² – 5,1% da região) é habtado
por cerca de 16,14 milhões de pessoas (9,5% da população do país) maior concentração de
habitantes está no Alto (56%) e no Médio São Francisco (24%). Ao longo do seu processo de
ocupação, o rio São Francisco foi e é utilizado para múltiplos aproveitamentos, como a navegação,
irrigação, mineração e pesca (CASTRO; PEREIRA, 2017). O Velho Chico possui oito usinas
hidroelétricas listadas na ordem cascata do alto até o baixo São Francisco: Três Marias, Sobradinho,
Itaparica, Moxotó, complexo de Paulo Afonso e Xingó. Esta última, a UHE Xingó (1994) possui
uma superfície aproximada de 60 km² e uma capacidade de armazenamento de 3,8 bilhões de m³
de água, considerado o 5º maior canyon navegável do mundo.
O Baixo São Francisco possui cerca de 19.000 pescadores artesanais profissionais
cadastrados, locados em 19 colônias e 1 associação de pescadores. A colônia que apresentou maior
número de associados foi a de Piaçabuçu, Z-19 (3.980 pescadores associados), seguida pelas
colônias de Neópolis, Z-7 (3.140) e Penedo, Z-12 (2.500). Os pescadores do Baixo São Francisco
trabalham, em média, 4 dias por semana, 8 horas por dia, apresentando jornada de trabalho similar
aos trabalhadores formais (8 horas/dia). A renda média mensal estimada entre os pescadores dos
municípios estudados foi de R$ 225,00 (US$ 59.24). Porém, 33,3% obtém uma renda de apenas
R$100,00 a R$200,00/mês na pesca e 81% a carteira da colônia de pescadores.
Mudanças ambientais e socioeconômicas são notórias com a instalação das Usinas
hidroelétricas de Sobradinho e Xingó. Mudanças ambientais como os impactos na produção
pesqueira, a poluição, falta de saneamento básico, assoreamento e consequentemente
socioeconômicas vem se instaurando ás comunidades ribeirinhas que dependem diretamente da
pesca para a alimentação e do Rio São Francisco para diversas outras atividades.
O objetivo deste estudo foi conhecer os impactos das mudanças ambientais e
socioeconômicas percebidas pelos pescadores do baixo do Rio São Francisco a fim de relacionar
as demais informações de analises da agua, peixes e sedimentos realizados durante a II Expedição
Cientifica do Rio São Francisco.
243
METODOLOGIA
A pesquisa foi desenvolvida por meio de entrevistas semiestruturadas com 33 pescadores de
colônias dos municipios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipú, Propiá, Neópolis, Penedo, Piaçabuçu,
sediandos as margens do Rio São Francisco no trecho de Piranhas à Foz do Rio São Francisco no
Pontal do Peba, aplicadas durante a II Expedição Cientifica embarcada do Rio Sao Francisco. As
entrevistas seguiram as recomendações do Comitê de Ética em Pessoas sob protocolo XXX.
Esse estudo baseou-se na pesquisa qualitativa. Afim de identificar pescadores diretamente
envolvidos com o conhecimento diário e prático do que se deseja investigar. Selecionou-se
pescadores com vivências, experiências e ontato diário com o rio São Francisco, priorizando
residentes locais de cada município. Utilizou-se o método do estudo de caso, a fim de expor o
processo investigado e os resultados decorrentes dessa investigação. Segundo Yin (2001), o estudo
de caso tem caráter empírico e investiga um fenômeno atual dentro de um contexto da vida real,
para isso utilizou-se como instrumento de pesquisa a técnica de entrevistas.
O questionário semiestruturado abordou temas relativos aos dados da pesca quanto a
diversidade e produção, a qualidade da agua e do pescado, a presença de parasitos e macrófitas e
as principais percepções ambientais ás mudanças do Velho Chico, assim como sugestões de
proposta socioambiental e/ou econômica de cunho contribuitivo advindo dos próprios pescadores
através das colônias.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os pescadores possuem em média 32 anos na atividade, de 8 a 45 anos, 66% são cadastrados
pelas colônias de pescadores entre os anos de 2004 a 2006, regulamentados na profissão da pesca
de subsistência e estando como pescadores ativos nos últimos 15 anos, os quais pescam na
frequência de 3 a 5 vezes por semana (Tabela 1)
Tabela 1. Síntese do perfil dos entrevistados por Município no Baixo do Rio São Francisco
Localidades
Pescad
Tempo de
Tempo de
or ‘n’
pesca
Carteira
Colônia
Vezes em que
pescam/
semana
244
Piranhas, Pão de Açúcar,
33
32,4 ± 12,8
27,7 ± 8,2
Z-12, Z-17,
Traipú, Penedo,
Z-18, Z-19,
Neópolis, Piaçabuçu
Z-20, Z-30
3,6 ± 1,0
Fonte: elaborado pelos autores.
Figura 1. Entrevistas com Pescadores do Baixo do Rio São Francisco. Foto Cavali, 2019
Percepção de mudanças na produção e diversidade pesqueira
Aos dados da pesca foi relatado a redução considerável da quantidade e diversidade de
espécies de peixes. Na percepção dos pescadores a redução do pescado no Baixo do Rio São
Francisco vem ocorrendo gradativamente nos últimos 12 anos, com variação de 1,5 anos entre as
respostas obtidas (Tabela 2).
Tabela 2. Percepção dos pescadores quanto as mudanças na produção e diversidade de espécies
nos municípios do baixo do Rio São Francisco
Municipios
Piranhas
Pão de
Traipú
Penedo
Neópolis
Piaçabuçu
12,2 ± 1,4
12,5 ± 1,7
10,7 ± 2,1
11,2 ± 1,5
Açúcar
Tempo
de
redução
do
12,1 ± 1,2
12,0 ± 1,7
pescado
245
Pescador ‘n’
5
6
8
7
3
4
Elaboração dos autores, 2020
É unânime a percepção dos pescadores de que a UHE Xingó, última Usina a ser inaugurada,
foi o de derradeiro impacto sobre o volume de aguas do Baixo do São Francisco e
consequentemente sobre a reprodução dos peixes. A percepção dos pescadores quanto a redução
do pescado corrobora com os relatos do período residual de presença de peixes de 5 a 6 anos (n=21)
após uma boa cheia, a exemplo da última grande cheia que ocorreu em 2005, com 9.500m3
liberados; e posteriormente, em 2009 com a abertura de 1 comporta da UHE Xingó por alguns dias.
Segundo Pereira (2020) a descarga fluvial para o Baixo São Francisco de 3.533 m³/s passou
a ser regulada a 2.060 m/s pela UHE Xingó entre 1995 e 2001; foi significativamente menor após
resolução N° 442/2013 com redução a 1.100 m³/s da vazão à jusante das barragens de Sobradinho
e de Xingó, e a 800 m³/s em 2015, até chegar ao limite de 550 m³/s em 2017; uma redução de
62,9% da descarga fluvial para o estuário do rio São Francisco. Hoje a UHE trabalha com 2 turbinas
com média de 800m3.dia.
Os relatos deste estudo descrevem a última cheia do Rio, proporcionando aguas túrbidas e
lagos de desovas pois os peixes demandam o início das chuvas fortes que mexe com as aguas e que
proporciona maior profundidade em coluna d´agua oportunizando áreas alagadas para a formação
dos ninhos. Destacam que nas condições da última cheia natural em 1992 observou-se claramente
o aumento dos peixes mandi, surubim (Pseudoplatystoma corruscans) e tubarana e relatam a
redução considerável destas espécies a partir de 2002.
a)
246
b)
Figura 2. Usina hidroelétrica de Xingó, Rio São Francisco (a, b). Fotos Cavali, 2019
Medeiros et al (2011) já ressaltavam as grandes alterações nas condições naturais oriundas
da atividade de geração de energia hidroelétrica do Submédio e Baixo São Francisco em função do
resultado do manejo integrado do sistema de barragens, sendo a barragem de Sobradinho a
principal controladora da capacidade limite de vazão da agua. Avaliando as séries de vazões entre
1936 a 2000 na região de Traipú, os autores destacam a não influencia dos eventos climáticos na
variabilidade sazonal das vazões eliminadas após 2001 e a perda na pulsação sazonal e interanual,
variações estas que somente ocorre em eventos climáticos extremos de elevadas precipitações, os
quais superam a capacidade de retenção das barragens. Também ocorre em eventos de secas,
quando o gerenciamento da vazão tende ainda ser mais intenso, visando maximizar a produção de
energia hidroelétrica. Concomitantemente a alterações dos padrões naturais de vazão, ocorreu
diminuição do aporte de nutrientes e sedimentos em suspensão a região costeira. Culminando
naturalmente para as condições oligotrófcas da região costeira adjacente.
A percepção pelos pescadores quanto a diversidade de espécies que desapareceram (Gráfico
1) e tornaram-se mais frequentes (Gráfico 2) variou entre os municípios ao longo do baixo do Rio
São Francisco.
247
Aragú
capadinho
Curvina
Lambiá
Locró (filha T)
Mandim
Matrinchã
Niquim/Pacamã
Pescada
piau
pilombeta
Pintado
pirá
Pirambeba
pitú
Surubim
Tubarana/dourada
Tubí
Xira
capadinho
Mandim
Matrinchã
Niquim/Pacamã
piau
Pintado
pirá
Surubim
Tubarana
Tubarana/dourada
Xira
Mandim
pilombeta
pirá
Surubim
Tubarana/dourada
Xira
piau
pilombeta
Tubarana/dourada
tucunaré
Xira
Aragú
Camuji
Camurí
Camurupí
capadinho
Curvina
Mandim
maniaçú
Matrinchã
Niquim/Pacamã
Pescada
piau
pirá
Robalo
Surubim
Tubarana/dourada
Xira
12
10
9
4
3
1
3
2 2
1 1
1
Neópolis
1
9
6
7
4
5 5
3
3
2
3 3
3
4
2 2
1
PDA
3
4
4 4 4
2
3
1
Penedo
1
2
1 1 1 1 1 1 1 1
2
Piaçabuçu
1 1
2
1 1
2
1 1
2
1
Piranhas
Grafico 1. Percepção dos pescadores quanto as espécies que desapareceram nos últimos cinco anos com as mudanças ambientais nos municípios do
baixo do Rio São Francisco.
248
Figura 3. Exemplares de peixes capturados no Baixo Rio São Francisco comercializados nas feiras. Fotos Cavali, 2019
249
Neópolis
PDA
Penedo
carapeba
Piaçabuçu
1
1
1
Piranhas
tucunaré
Xira
(vazio)
2
tilápia
Surubim
5
piranha
7
Pirambeba
2
Cará
(vazio)
1
Pirambeba
2
piau
1
Curimba
1
carapeba
2
Xira
2
tartaruga
2
tainha
2
siri
2
serra
2
robalo
2
Pirambeba
2
camarão branco
2
cação
(vazio)
tucunaré
1
traíra
7
tilápia
5
piranha
Pirambeba
piau
(vazio)
3
tucunaré
3
tilápia
piranha
Pirambeba
3
piau
3
Piaba
Cará
2
tucunaré
2
tilápia
2
piranha
2
Pirambeba
2
piau
carapeba
8
7
6
5
4
3
2
1
Traipú
Grafico 2. Percepção dos pescadores quanto as espécies mais frequentes e que apareceram nos últimos cinco anos com as mudanças ambientais nos
municípios do baixo do Rio São Francisco.
250
Ao longo do Rio São Francisco, dos municípios de Traipú a Penedo, observa-se o
aumento das espécies pirambeba (Serrasalmus brandtii) e tucunaré em detrimento a
redução de Mandi e Camurí (chegava-se a pescar 25kg/dia) e desaparecimento das
espécies Tubarana (Salminus hilarii), Pilombeta e Xira (Prochilodus argenteus) das quais
pescava-se 200 a 300kg/dia, do surubim e piau amarelo (Leporinus obtusidens e
Leporinus reinhardt). Estudos relatam que, das 360 espécies que existiam na bacia do Rio
São Francisco mais de 70%, ou seja, 208 espécies já desapareceram (CNBSF, 2017).
Espécies substituídas por espécies mais agressivas, predadores e/ou hábito
alimentar generalista como tucunaré (Cichla monoculus), piranha (Pygocentrus piraya),
pirambeba (Anchoviella vaillanti), piaba (Characidae).
No Municipio de Piaçabuçu rumo a Foz do Rio São Francisco, os relatos
enfatizam a substituição das espécies de agua doce pelas de agua salgada com presença
mais frequente das espécies tainha, serra, robalo (Centropomus undecimalis e C.
parallelus), pirambeba (Anchoviella vaillanti), carapeba (Eucinostomus melanopterus e
Eugerres
brasilianus), tartarugas, siris, especialmente nos últimos 2 anos. Os pescadores relatam a
visualização de tubarões (n=4) e desaparecimento das espécies Pocomã ou Niquim
(Lophiosilurus alexandri), Pilombeta e Pirá (Conorhynchus conirostris), endêmicas do
Rio São Francisco.
Os pescadores relacionam a redução das aguas do baixo do Rio São Francisco
como principal fator impactante na redução dos peixes e na sustentabilidade da pesca.
Percepção ambiental e indicadores indiretos
Os pescadores destacam a redução da quantidade de agua do Rio São Francisco
nos últimos 12 nos (Tabela 3), como consequência das barragens de agua da UHE Xingó
(1994), a ocorrência de mudanças ambientais como erosões no leito do rio e canais,
tornando-os mais rasos, soterrados, com presença de baixios, formações de bancos de
areia ou croas e novas ilhas. Segundo os relatos “...no trecho Penedo a Traipú barcos
pequenos chegam a encalhar devido a erosão de barrancos que formam ilhas de areia
impedindo as passagens; destacam a redução das aguas turvas na época de cheias, de
dezembro a maio, relacionadas com os períodos de reprodução de inúmeras espécies.
251
A redução da diversidade e quantidade de peixes está relacionada a redução de
laminas d`água que cria ambiente propício às desovas, à piracema para algumas espécies
e a turbidez da agua necessário para o período de desova.
Os pescadores destacam o desaparecimento dos cultivos de arroz das áreas
alagadas e o aumento da cultura cana-de-açúcar nas áreas que ladeiam o Rio São
Francisco.
Tabela 3. Percepção dos pescadores quanto as mudanças ambientais nos municípios do
baixo do Rio São Francisco
Parâmetro percebido
Característica
`n´ relatos
Redução na profundidade do rio (metros)
Últimos 11,8 ± 1,9 anos
n=33
Presença/aumento de macroalgas
Ultimos 4,0 ± 1,0 anos
n=30
Redução de Matrizes em desova/alevinos
Últimos 8 ± 1,2 anos
N=13
Presença de parasitos nos peixes e na agua
Especialmente nas cidades de
Penedo, Neopolis e Piaçabuçu
Descarte de produtos/dejetos
Advindos das lavouras e
esgotos
n=10
n=17
Fonte: Elaborado pelos autores,
2020
Holanda et al. (2005) já descreviam que devido aos barramentos ao longo da calha
do rio, o regime fluvial foi modificado, alterando o regime de cheias e vazantes,
comprometendo
as
atividades econômicas tradicionais (agricultura de várzeas e pesca artesanal); a
reprodução dos peixes (piracema) e a estabilidade das margens que vem sendo erodidas,
resultando em forte sedimentação da calha principal do rio (tornando o rio mais raso),
favorecendo assim o aparecimento de croas e criando sérias dificuldades para a
navegação.
A redução da correnteza em função da menor vazão de agua, fez um rio mais raso
de aguas paradas, aguas mais quente e límpida; trouxe ambiente propicio a proliferação
da macrófitas aquáticas que passaram a serem mais percebidas nos últimos 5,0 anos e
que, em alguns pontos do rio chega a acumular 3,5 a 5,0 metros do vegetal. Contudo, a
252
partir do município de Piaçabuçu observa-se redução ou até o desaparecimento das
macrófitas devido ao aumento da salinização da agua próxima ao mar.
De acordo com os pescadores do baixo do São Francisco, a visibilidade da agua
piorou. Quando era possível enxergar 3,0 a 3,5 m em agua hoje não se vê mais do que 1,5
m. Por vezes contraditório os relatos de aguas mais límpidas e menor visibilidade, o que
pode estar atrelado ao extrato de profundidade e localização de mergulho declarado pelos
pescadores. Destacam menor visibilidade nas áreas próximo ás cidades.
As macroalgas de maior proliferação é a a “baronesa” (Eichhornia crassipes),
com produtividades de 400 a 600 ton.ha e a “rabo de raposa ou cabelo” (Ceratophyllum
demersum), macroalgas exóticas de origem Amazônica e Pantanal, consideradas
invasoras e associadas a prejuízos como o bloqueio das grades de usinas hidrolétricas, a
redução
da
biodiversidade
em
corpos d’água, o aumento de evaporação em represas e canais de irrigação, a difculdade
de navegação e de pesca amadora e profssional, além da possível mortalidade de animais
nativos por anoxia, potencializao pela transparência e agua parada (POMPEO, 2017;
FERREIRA et al, 2016). Há um maior adensamento de macrófitas aquáticas na margem
esquerda do rio São Francisco, possivelmente devido ao lançamento de efluente não
tratado, com elevado teor de nutriente, especialmente nas regiões proximas as cidades
onde são descartados residuos urbanos (esgotos) (MINHONI et al 2018)
a)
253
b)
d)
c)
Figura 4. Presença de macroalgas arrastadas pelas aguas do Rio São Francisco na cidade
de Traipú (a, b, c). Fotos Cavali, 2019
254
a)
b)
Figura 5. Presença de macroalgas arrastadas pelas aguas do Rio São Francisco na cidade
de Penedo (a) e Pão de Açúcar (b). Fotos Cavali, 2019
A visibilidade da agua está atrelada a sua turbidêz e esta ao material em suspensão.
Estudos quanti-qualitativos da agua demonstram o parametros turbidez como de maior
variação nos ultimos anos. Bulhões et al (2018) ao analisar a qualidade da água do Rio
São Francisco no perímetro urbano do município de Pão de Açúcar entre outubro de 2014
e março de 2017, destacaram a turbidez como o parâmetro que apresentou as maiores
variações, com valores entre 0,01 NTU e 47 NTU; Santana, Aguiar Netto, Garcia (2017)
avaliando a turbidêz da agua no municipio de Piaçabuçu, foz do Rio São Francisco,
observaram valores de turbidez variando entre 2,9 NFU e 47,07 NFU, destacando baixas
255
concentrações de sedimentos ou partículas elementos que favorecessem o aumento da
turbidez da água.
O rio São Francisco sofreu alterações de aguas de alta turbidez para águas
transparentes ocasionado pela retenção de material sólido nas barragens em cascatas.
Varios estudos demonstram a redução de sedimentação no baixo do rsf (Silva, Medeiros
e Viana (2010), com 2,6 x 105 t/ano em 2008; Milliman (1970), o aporte de sedimento
em suspensão na foz 6,9 x 106 t; Oliveira (2003) no ano de 2001, 0,4 x 106 toneladas,
ocorrendo uma redução de mais de 90%. Concluíram que a barragem de Sobradinho
diminuiu a carga de fluxo de sedimentos de 13,39 × 106 t/ano para 3,14 × 106 t/ano.
(Melo, 2019) vazão e concentração de sedimentos em suspensão no Baixo São Francisco
após a barragem de Xingó, obtidos do sistema Hidroweb no site da Agência Nacional da
Água (ANA) no período de 1999 a 2018.
Os resultados mostram que as cargas estimadas de sedimentos em suspensão
foram aumentando ao longo do rio, começando na estação de Piranhas com 1,98x106
t/ano,
na
estação de Traipu com 7,4 x 106 t/ano e na estação de Propriá, a mais próxima da foz do
São
Francisco, com 8,0 x 106 t/ano para todo o período de estudo. O trecho considerado mais
assoreado foi entre as estações de Piranhas e Traipu, onde o aumento do acumulado de
sedimentos em suspensão chegou a 73,3% entre as estações. Para os dias atuais,
compreendendo
os anos de 2017/2018, a carga de sedimentos em suspensão estimada para o Baixo São
Francisco
foi de 1,8 x 104 t/ano em Piranhas, 8,5 x 104 t/ano em Traipu e de 7 x 104 t/ano em
Propriá,
que
são resultados considerados baixíssimos.
Outro ponto encontrado foi que a quantidade de sedimento que chegou à foz do rio
São Francisco foi muito pequeno, 1,83 × 106 t/ano. Acredita-se que esta água limpa que
vai para o oceano pode causar problemas relacionados com o equilíbrio para o estuário
do rio.
As principais consequências ocasionadas pela retenção de sedimento é diminuição
dos sedimentos finos que carregam nutrientes e matéria orgânica fundamental a fauna
aquática e a erosão na foz do São Francisco. A redução dos sedimentos ocasiona a
diminuição na alimentação da foz (delta) no rio e mudança consideravel na população de
256
peixes, assim como em suas caracteristicas morfofisiologicas como tamanho, deposição
de tecidos corporais, época de reprodução.
Os principais impactos encontrados no baixo São Francisco apresentadas segundo
Silva, Medeiros e Viana (2010) foram: diminuição do aporte de sedimento e das vazões;
salinização e acréscimo de temperatura; mudanças nas taxas de infiltração e uma redução
da
água no subsolo; assoreamento; processos de erosão das margens e desbarrancamento;
modificação na foz; redução da biodiversidade; comprometimento da navegabilidade
abaixo
da cidade de Pão de Açúcar-AL; diminuição dos alimentos para fauna aquática devido à
redução de sedimento. E concluem que houve diminuição nas concentrações de
sedimentos
depois da barragem de Xingó e que é preciso haver um monitoramento das variáveis
descritas
e aumentar sazonalmente as vazões para lavar a calha do rio e aumentar a produtividade
biológica.
257
a)
b)
c)
258
Figura 6. Descarte de esgoto doméstico nas aguas do Rio São Francisco acima (a, b) e
abaixo (c) da cidade de Traipú, AL. Fotos Cavali, 2019
Figura 7. Descarte de esgoto doméstico nas aguas do Rio São Francisco na cidade de
Piranhas. Concentração de macrófitas aquáticas na saída do esgoto (b). Foto Cavali, 2019
c)
Figura 8. Descarte de esgoto doméstico nas aguas do Rio São Francisco na cidade de
Piaçabuçu (b). Foto Cavali, 2019
A regularização das vazões nos rios ocasionados por barragens provocam
descontinuidade longitudinal produzindo a montantes fluxos lênticos e a jusante fluxos
mais
259
lóticos com alterações na sua variabilidade. Esse controle artificial afeta toda a dinâmica
do
sistema fluvial, tanto no leito quanto nas planícies de inundação e lagoas marginais. O
equilibrio dos ecossistemas dessas zonas precisam está em equilíbrio, contudo, são
praticamente
dependentes dos fluxos de águas dos rios, onde recebem os sedimentos, os nutrientes e os
alimentos para manutenção da biodiversidade local.
A presença de parasitos na agua e no pescado é percebida pelos pescadores (n=23)
mais fortemente nas regiões de Penedo, Neópolis e Piaçabuçu e, em algumas espécies de
peixes especificas como xira, xaréu, peixe porco, curimba, tucunaré (Cichla
monoculus), piranha e pirambeba, sendo estas três ultimas, segundo os pescadores, mais
infestadas por parasitos por serem “peixes de ninho” e permanecerem mais tempo em
aguas mais parada e próximo as algas. Os pescadores destacam o aumento de parasitos
nos últimos quatro anos nas espécies de peixes que vivem dentre estas algas inferindo ser
um ambiente propício a proliferação de parasitos como o Argulos. Citaram ainda o
“verme do olho do tucunaré, baratinha na guelra das piranhas, o carrapato branco,
infecções nas barbatanas, que sangram; e a sanguessuga que vive no lodo”.
A baratinha ou piolho de peixe, como é chamado o Argulus elongatus Heller, foi
o parasito mais citado pelos pescadores; O branquiúro, ectoparasito oportunista, ja é
descrito em quatro diferentes espécies na baia do Rio São Francisco inclusive parasitando
espécies de peixes até então não acometidas (DUARTE et al, 2020). Na percepção dos
pescadores (n=8) a infestação do parasito está diretamente relacionada a imunidade do
peixe pois se desenvolve no muco; A maior produção de muco nos peixes também foi
relatada pelos pescadores (n=9) porém para épocas especificas do ano.
Na região de Piaçabuçu, onde a agua torna-se mais salgada, foi citado o “verme
da agua e do intestino”, além de moluscos como o “caramujinho da areia” e o “maçunim”,
citados também nas regiões Penedo e Neópolis, onde já formam inclusive áreas de
catadoras de maçunim como a da vila Carrapicho. Este aumento pode estar relacionado a
entrada de agua salgada do mar, ou cunha salina que adentra no Rio São Francisco.
Quando indagados sobre a percepção de produtos ou processos que poderiam
contribuir com a contaninação ou sujidade da agua destacou-se o lançamento de produtos
quimicos agricolas das culturas de cana-de-açúcar, arroz, horticultura por erosão; o
descarte do azoto da cana e principalmente os pontos de despejo do esgoto urbano nas
cidades de Traipú, Porto Real do Colégio, Neopolis, Piaçabuçu e Penedo.
260
As principais fontes de poluição são os esgotos domésticos, as atividades
agropecuárias e de mineração. Os indicadores de saneamento básico na bacia do Baixo
do São Francisco podem ser caracterizados quanto a aspectos precários onde domicílios
urbanos servidos por coleta de esgoto são inferiores a 20%; e os percentuais tratados de
volumes de esgotos urbanos menores que 5%, bem aquém da média nacional de 20,7%
(CBHSF, 2017).
Bulhões et al (2018) ao analisar a qualidade da água no perímetro urbano do
município de Pão de Açúcar, identificaram águas levemente ácidas, pH de 6,9, valores de
oxigênio dissolvido satisfatórios e teores de condutividade elétrica oscilando entre 68
μS/cm e 91 μS/cm. Os resultados indicam que embora estações de descarte estejam
localizadas na área urbana, a capacidade de diluição do rio é superior ao aporte de material
poluente. E os parâmetros estão dentro do que estabelece a Resolução Conama n° 357/05,
que preconiza pH entre 6 e 9 para águas doce de classe II.
A poluição industrial é mais concentrada no Alto e Submédio do Rio São rancisco
podendo-se dar ênfase ao mais problemático rio das Velhas, que coleta a maior parte do
esgoto da região metropolitana de Belo Horizonte, sendo, por isso, um dos rios mais
poluídos da bacia do São Francisco. Observa-se o lançamento de efluentes industriais que
podem comprometer a qualidade do rio; Contudo, as consequencias ambientais destes
impactos são potencializadas em determinadas bacias em função de suas caracteristicas.
Percepção da qualidade e rendimentos do pescado
Quanto ao processamento e a percepção sensorial, alguns pescadores destacaram
mudanças no sabor dos peixes (n=8) e camarão (n=4). Inferem que os peixes além de
estarem de 50 a 70% menores em tamanho, ter menos carne, apresentam menos gordura
e consequentemente menos saborosos. “...o tucunaré ficou pequeno e os peixes começam
a ovar novinhos, ainda pequenos”. Os pescadores destacam a gordura do peixe do Rio
como mais saborosa e mais solúvel. Segundo Silva (2017) a dieta dos peixes de rio
proporcionam deposição de gordura mais insaturada e perfil de ácidos graxos de cadeias
mais longas relacionando-se a menor propensão de doenças cardiovasculares.
Para o camarão a mudança está na “cabeça menos saborosa e com aparência
estragada”, mais expressivo em algumas épocas do ano. Alguns destacaram o gosto
amargo, gosto de junco podre, de lodo ou de fezes para alguns peixes como o piau.
261
O consumo familiar médio dos pescadores é de 3 kg de pescado por semana sendo
comercializado semanalmente em feiras ou atravessadores de 5 a 15 kg, suficiente para
garantir renda de R$ 250,00 a 600,00 por mês. Pescadores ressaltam que já chegaram a
pescar 50 a 70kg/dia o que rendia até R$ 800 a 1000,00 por semana além do consumo
familiar de 5 a 8 kg/dia.
As esposas têm grande participação na atividade pois 80% dos pescadores relatam
ser a esposa responsável por tratar e preparar o peixe. Durante a evisceração percebe-se
os peixes mesmo pequenos já em fase de reprodução e peixes pequenos, porém ossudos,
parecendo “peixe velho”. Características estas atreladas a antecipação da reprodução por
questão de sobrevivência da espécie.
Todos relataram (n=33) consumir a agua direto do Rio para beber ao saírem para
pescar e sempre que necessário em casa. Utilizam o rio para lavar roupa, louça, banhar
crianças e animais, especialmente cavalos e cachorros, como entretenimento familiar aos
finais de semana e eventualmente como renda turística com os passeios.
Figura 9. Finalidades de uso das aguas do Rio São Francisco na cidade de Traipú (b).
Foto Cavali, 2019
O Rio São Francisco faz parte da cultura do pescador ribeirinho e nota-se a
dependência econômica e cultural mesmo não se dando a devida importância ambiental
ao mesmo. DICTORO; HANAI (2017) destacaram em seus estudos as diversas
integrações homem natureza no ambito ambiental além visão utilitarista do Rio Sao
Francisco e as inter-relações indivíduo-natureza, ressaltando aspectos simbólicos,
262
tradicionais, culturais e afetivos. Pescadores mais antigos possuem grande relação
emocional-dependente com o Rio São Francisco, que vai desde a sua colonização as
crenças; possuem por exemplo grande afinidade ás fases da Lua, características da água,
e períodos de maior ou menor produtividade do pescado. Dessa forma, pode-se afirmar
que o conhecimento tradicional é extremamente importante por reunir aspectos que
podem ser importantes para o planejamento e conservação da água.
Ao serem questionados sobre o que mais os incomoda as respostas foram unânimes
para a presença do lixo nas margens do rio das áreas urbanas e descarte de dejetos visto
as cidades não possuírem tratamento sanitário adequado. O baixo possui ainda 67
povoados que lançam seus esgotos diretamente no Rio São Francisco. Os pescadores
reclamam do descaso da comunidade nas áreas urbanas em lançarem lixo e animais
mortos ao rio sendo de consenso geral, o descaso do homem e do governo ás questões
ambientais.
Destacam a fiscalização escassa e ineficiente dos órgãos competentes
especialmente na época de defeso. Em relatos pescador informa que chegava a comprar
semanalmente 16 kg de ova mesmo em época de defeso e enfatiza “imagina quantos
peixes deixamos de produzir! mas o pescador é destruidor, captura até os alevinos soltos
pela CODEVASP”. Em contrapartida, 40% dos pescadores (n=25) afirmam ser
importante o peixamento de espécies diversas, realizado pela Empresa visto que por 2 a
3 anos ainda é possível pescar estes espécimes. Os berçários citados foi a região de
Marituba e Ipanema, considerados braços de desovas hoje extintos.
É unânime entre os pescadores o incômodo dos pescadores com arpões. Segundo
os pescadores não há fiscalização para o uso do arpão. “...os arponeses não precisam
carteira, não respeitam época de defeso e chegam a capturar 3 vezes mais que o pescador
pois pegam peixes maiores pescando também durante a noite”; Ademais vendem o peixe
R$ 2 a 3 mais barato ganhando o mercado das feiras e restaurantes sem pagar mensalidade
da Colônia (R$ 25,00/mês) ou custo fixo com redes e embarcações.
Os pescadores fazem inferência ainda sobre a substituição dos barcos a vela pelas
rabetas que, além de contribuir com a poluição da agua estressam e assustam os peixes.
Hoje as embarcações possuem predominantemente o “motor de rabeta” na frota pesqueira
do Baixo do Rio São Francisco.
A percepção sobre qual equipamento de pesca impacta mais na produção de
alevinos os pescadores (n=27) responderam que a batida de rede de malhar e a bomba de
veneno são as formas de captura mais agressivas e que capturam tanto matriz ovada como
263
peixes ainda pequenos. Destaque foi dado também a pesca de arpão, método comum no
Rio São Francisco, que captura peixes grandes diariamente, indo buscar inclusive em
áreas mais profundas, nos ninhos de desova.
a)
b)
264
Figura 10. Pescadores e produção de apetrechos e equipamentos de pesca. Piranhas,
Alagoas. Fotos Cavali, 2019
Soluções aos impactos ao Rio São Francisco
Quando indagados sobre as propostas de mudanças para recuperação do Velho
Chico as sugestões foram unânimes na necessidade de “mais agua ser liberada nas
comportas das usinas”; além da obrigatoriedade do aumento das aguas nos períodos de
reprodução, especialmente das desovas.
Outra sugestão importante foi a mudança do quadrimestre de defeso de novembro
a fevereiro ou, ampliação do limite defeso até 1 de abril tendo em vista no mês de março,
“mês das chuvas fortes”, também é o mes em que se captura maior número de espécimes
ovadas. Destacou-se espécies como a Xira que, é comum encontrar “ova encruada ou
dura”, resultado da não desova do ano anterior. “...esse peixe da enxurrada que fica
choco”.
Foram sugeridas ainda a dragagem de áreas assoreadas, na construção de novas
barragens afim de proporcionar mais área alagada para reprodução dos peixes, nas
escadas para passagem dos peixes em piracema e fomento ao cultivo em tanques-rede e
facilidade de licenciamento para tal. Quanto a contribuição ambiental citou-se a
necessidade de saneamento básico, conscientização para descarte do lixo, principalmente
pela comunidade e recuperação das margens do rio.
Contudo, foi baixa a disponibilidade de adesão destes pescadores a estes projetos
partir da responsabilidade das próprias colônias. No Município de Penedo foi ressaltado
o Projeto de Limpeza da margem do Rio realizado pela CODEVASP junto ás colônias e
sugerido que os mutirões sejam realizados duas vezes ao ano, no auge do período seco e
após as festas de fevereiro para maior eficiência das coletas.
CONCLUSÃO
Os pescadores do baixo do Rio São Francisco têm percebido mudanças ambientais
que afetam diretamente as atividades socioeconômicas e culturais das famílias
ribeirinhas.
AGRADECIMENTO
265
A II Expedição Cientifica do Baixo do Rio São Francisco pela oportunidade de
coleta de dados.
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268
Figura 11. Fotos da II Expedição do Rio São Francisco (a, b). Fotos Cavali, 2019
Figura 12. Fotos das Colônias de Pescadores das cidades de Traipú (a) e Piranhas (b),
Alagoas. Fotos Cavali, 2019
269
Figura 13. Fotos das observações na cidade de Traipú (a) e Piranhas (b), Alagoas, durante
a II Expedição do Rio São Francisco. Fotos Cavali, 2019
270
PARTE II
ÁGUA
271
Níveis de Coliformes totais e Escherichia coli e parâmetros físicoquímicos nas áreas próximas a captação de água dos municípios, no
Baixo São Francisco
Vivian Costa Vasconcelos1; Anita Neves Santisteban1; Themis de Jesus da Silva1;
Emerson Carlos Soares e Silva1
RESUMO
O rio São Francisco possui 2.700 km de extensão, é subdividido em alto, médio, submédio e baixo, esse último com 238 Km, entre Piranhas (AL) e a foz, situada no Oceano
Atlântico. A urbanização próxima aos cursos d’água, acarreta diversos problemas para
corpos hídricos, como o despejo de esgotos domésticos derivado da falta de saneamento
básico. Assim, o objetivo desse trabalho foi realizar análise microbiológica da água rio
São Francisco e quantificar alguns parâmetros físico-químicos da água, próximos as
zonas de abastecimento das cidades. As amostragens ocorreram entre os dias 19 e 28 de
novembro de 2019 em 8 pontos distintos e tiveram uma abordagem qualiquantitativa. Os
resultados indicaram presença de coliformes em todos os locais amostrados e E. coli em
níveis mais elevados nos pontos de Propriá (SE) e Penedo (AL), ambos com 4,6 NMP/100
mL e Piaçabuçu AL >8,0 NMP/100 mL, esses resultados não estão de acordo com as
portarias do Ministério da Saúde.
Palavras chave: Poluição, potabilidade, saneamento básico
1
Universidade Federal de Alagoas, Rio Largo, Alagoas.
272
INTRODUÇÃO
No Brasil, cerca de 33 milhões (16,7%) de pessoas, considerando a população
estimada de 200 milhões de habitantes não tem acesso a água tratada nem saneamento
básico, menos da metade das pessoas que tem acesso a este serviço (41%) tem seu esgoto
tratado, isso significa que um grande volume é despejado in natura nos ambientes
aquáticos, poluindo rios, mares e lagos (SNIS, 2017).
A qualidade dá água dos rios é proveniente principalmente das ações antrópicas,
como despejo de efluentes domésticos, dejetos industriais, grandes quantidades de
poluentes derivados das áreas urbanas e agrícolas, esses são os principais responsáveis
pelos maiores impactos nos ambientes aquáticos (Vasco, 2011), uma vez que a água é
considerada uma das substâncias mais presentes na natureza, havendo a necessidade do
uso racional em relação a quantidade e qualidade, em virtude da sua abundância pode
haver a impressão de que é um recurso inesgotável, mas na realidade atualmente apenas
2,5% no planeta terra é composto por água doce e com potencial para o consumo humano
(Alves et al. 2018).
Considerada um elemento essencial, a água é um composto inorgânico
indispensável para todos os seres vivos, quando não consumida de forma potável, tornase o principal meio de contaminação, pois agentes patogênicos veiculados pela mesma
são causadores de doenças infecciosas como: febre tifoide, cólera, hepatite, poliomielite,
gastroenterites, quadros diarreicos entre outras (Almeida et al. 2017).
Assim, é necessário o monitoramento da água, onde deverão ser investigados
indicadores biológicos específicos, como os coliformes, bastonetes gram-negativos que
pertencem à família Enterobacteraceae, esses são distribuídos na natureza, se propagam
com maior frequência na água, obtendo maior atenção da saúde pública, pois são
suspeitos de causarem a maioria das infecções intestinais humanas (Nascimento &
Araújo, 2013). Segundo BRASIL (2011) as opções de determinar o grupo de bactérias
coliformes como indicador de contaminação da água, são: A presença nas fezes de
animais endotérmicos indicando o grau de contaminação fecal, possui fáceis
metodologias economicamente viáveis para detecção quantitativa em qualquer tipo de
água, não se multiplicam em ambientes aquáticos e possui maior tempo de vida na água
do que as bactérias patogênicas.
273
A presença de coliformes e Escherichia coli em corpos hídricos, indica a
existência de microrganismos patogênicos, este grupo de bactérias atua como indicadores
de poluição fecal por estarem naturalmente presentes no trato intestinal de animais e são
eliminados nas fezes (Silva et al. 2006). Segundo Souto et al. (2015), os principais fatores
para que as bactérias patogênicas sejam consideradas indicadores de poluição de origem
fecal são: quando encontradas no trato gastrointestinal dos animais homeotérmicos,
estejam em grandes concentrações em fezes humanas e de animais, devem estar presentes
em esgotos e ausentes em águas potáveis, serem apenas de origem fecal e reveladas por
metodologias simples.
Existem algumas bactérias da categoria coliformes que são utilizadas como
parâmetros de contaminação bacteriológica da água, essas podem ser encontradas no trato
gastrointestinal do homem e de outros animais, em ambientes não fecais, no solo e em
vegetais tendo também relativa capacidade de se multiplicarem na água. Além disso os
Coliformes fecais ou coliformes termotolerantes são bactérias de um subgrupo de
coliformes totais (Franco et al. 2008).
De acordo com a descrição de Alves et al. (2018) coliformes totais é uma classe
de bactérias, onde o principal atributo é a fermentação de lactose e a produção de ácidos,
aldeídos e gás a 35°C entre 24 e 48 horas, essas bactérias pertencem aos gêneros:
Klebsiella, Escherichia, Enterobacter e Citrobacter;
os coliformes fecais
ou
termotolerantes são bactérias que pertencem a um subgrupo de coliformes totais com a
capacidade de fermentar a lactose a 44-45°C (±0,2) em 24 horas, nesse
grupo a
Escherichia coli (E. Coli) é considerada a principal espécie de origem exclusivamente
fecal (Puño-Sarmiento et al. 2014).
Em virtude da presença dessas bactérias se faz necessário investigar a qualidade
microbiológica da água, que é extremamente importante para fornecer informações em
relação as condições do manancial, além de cooperar com elementos que podem
influenciar em futuras estratégias no gerenciamento dos recursos hídricos (Figueirêdo,
2008).
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente 80%
das doenças detectadas em países em desenvolvimento são transmitidas através da água
contaminada, que uma vez tratada deixa de ser um veículo transmissor de agentes
patológicos, garantindo a saúde pública. Ainda dados da OMS demonstram que 80% das
doenças que ocorrem nos países em desenvolvimento são ocasionadas pela contaminação
da água e a cada ano cinco milhões de pessoas, entre esses, dois milhões são crianças
274
entre 0 a 5 anos, morrem direta ou indiretamente pela falta ou deficiência dos sistemas de
abastecimento de águas e esgotos (Andraus, 2006).
Dentre as legislações vigentes do ministério da saúde que regulamenta a qualidade
da água e abastecimento, destacam-se as Portarias de é a de nº 1.469,de 29 de dezembro
de 2000, que estabelece os procedimentos e responsabilidades relativos ao controle e
vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade, essa
estabelece a quantidade de amostras de acordo com o número de habitantes, no artigo 11
(Tabela 1) o padrão microbiológico de potabilidade da água para consumo humano é a
ausência de coliformes e E. coli em 100 mL de água.
Tabela 1. Tabela de número mais provável NMP para 5 porções de 20 mL.
Tubos positivos
0
1
2
3
4
5
NMP/100mL
˂ 1,1
1,1
2,6
4,6
8
˃ 8,0
Outra portaria é a de nº 2.914 de 12 de dezembro de 2011 que dispõe sobre
qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade com ausência de
coliformes e E.coli em 100 mL de amostragem.
Portanto dados dessas portarias foram utilizados como referência para os
resultados das análises desse trabalho, que objetivou analisar os níveis de coliformes
totais e E. coli ao longo do rio São Francisco, que é um dos principais rios responsáveis
pelo abastecimento das cidades que fazem parte do Baixo São Francisco.
METODOLOGIA
As coletas ocorreram no período de 19/11/2019 a 28/11/2019, foram determinados
pontos de coleta ao longo do Baixo São Francisco, sendo eles: Piranhas-AL (PI), TraipúAL (TR), Pão de Açúcar-AL (PA), Igreja Nova-AL (IN), Propriá-SE (PR), Penedo-AL
(PE) , Piaçabuçu-AL (PU) e Foz do São Francisco, com intuito de detectar a presença de
coliformes
as amostras foram coletadas em recipientes estéreis e armazenado em
275
geladeira a 8°C. As análises foram no Laboratório de Aquicultura e Análises de Água
(LAQUA), UFAL/CECA.
Quanto aos parâmetros de água (fósforo, sódio, potássio, manganês, sulfato e
nitrito), estes foram tomados em 3 pontos: antes da área de captação de água, na captação
e após a captação de cada município estudado, num distanciamento de 250 metros de cada
ponto de amostragem. Este foram analisados por fotômetros (HANNA), Sonda
multiparamétrica – YSI e espectrofotômetro Merck.
Por problemas ocasionados na região de Piaçabuçú, não foi possível coletar dados
de qualidade de água próximo as áreas de captação deste município.
O meio de cultura utilizado foi destinado para realizar a detecção qualitativa ou
quantitativa de coliformes totais e Escherichia coli na água, a metodologia empregada
para esta pesquisa foi executada em conformidade com as instruções do AQUATESTE
COLI®–ONPG MUG (REGISTRO NA ANVISA: 100.970.10.149), este caracteriza-se
pela presença de substrato cromogênico ONPG que é hidrolisado na presença de
coliformes totais, apresentando cor amarela pela liberação do para-nitrofenol e o substrato
fluorogênico MUG que é hidrolisado na presença de E. coli, apresentando fluorescência
azul esverdeada quando exposta à luz UV, pela formação da umbeliferona.
Para realizar as provas quantiqualitativa das amostras das águas coletadas, foi
homogeneizada 100mL de cada amostra com o reagente AQUATESTE COLI®–ONPG
MUG, as análises foram realizadas em quintuplicatas de 20mL de cada amostra em
béqueres estéreis protegidos de luz, e identificadas com as iniciais dos pontos de coleta
(Figura 1). Posteriormente, foram incubadas em estufa a 35oC durante 24h (Figura 2). As
amostras de coliformes positivas foram detectadas visualmente por desenvolvimento de
cor amarela no meio de cultura (Figura 3) e a presença de Escherichia coli foi detectada
pela observação de fluorescência azul esverdeada submetida a uma capela de luz UV com
comprimento de onda de 365nm (Figura 4). Para a prova quantitativa procedeu-se à
contagem com base no número de tubos positivos usando a tabela apropriada de número
mais provável NMP (NMP/100 mL).
276
Foto: Vivian Vasconcelos.
Figura 1. Amostras (5 réplicas) homogeneizadas com AQUATESTE COLI®–ONPG
MUG e protegidas de luz.
Foto: Vivian Vasconcelos.
o
Figura 2. Amostras incubadas em estufa a 35 C durante 24h.
277
Foto: Vivian Vasconcelos.
Figura 3. As amostras de coliformes detectadas visualmente por desenvolvimento de cor,
(A) ausência de cor amarela caracteriza prova negativa, (B) presença da cor amarela
caracteriza prova positiva para coliformes totais.
Foto: Vivian Vasconcelos.
Figura 4. Observação das amostras em capela de luz UV com comprimento de onda de
365nm.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Na análise geral dos dados descritos na Tabela 2 foi possível verificar que, em
todos os pontos de coleta, foi observada a proliferação de coliformes totais em valores
acima do limite indicado pela resolução CONAMA nº 357 de 17 de maio de 2005, ainda
de acordo com esses resultados apresentados na tabela 2, foi possível verificar a presença
de coliformes em todos os sítios de amostragem e E.coli em níveis mais altos nas cidade
de Propriá-AL e Penedo-AL. Porém na região de Piaçabuçu-AL, obteve níveis mais altos
278
para coliformes com 100% de tubos positivos e para E.coli > 8,0 NMP/100mL. Esse efeito
pode ser causado pela carência de saneamento básico e o despejo de esgotos in natura
diretamente no rio São Francisco.
Tabela 2. Resultados das análises microbiológicas de coliformes totais e E.coli da água,
referente às coletas realizadas em oito pontos distintos do Baixo São Francisco, sendo
eles: ponto 1:PI (Piranhas AL), ponto 2:TR ( Traipú AL), ponto 3: PA (Pão de Açúcar
AL), ponto 4: IN (Igreja Nova AL), ponto 5: PR (Propriá SE), ponto 6: PE (Penedo AL),
Ponto 7: PU (Piaçabuçu AL) e ponto 8: Foz do são Francisco.
TABELA NMP (Número mais provável)
TUBOS POSITIVOS
NMP/100mL
PONTOS
/100mL
Coliforme total E. Colli (nº mais provável)
(PI 1) Piranhas/Al
2
0
< 1,1
(PI 2) Piranhas/AL
2
0
< 1,1
(TR 1) Traipú/AL
5
0
< 1,1
(TR 2) Traipú/AL
5
0
< 1,1
(TR 3)Traipú/AL
5
0
< 1,1
(PA 1) Pão de Açúcar/AL
2
0
< 1,1
(PA 2) Pão de Açúcar/AL
5
0
< 1,1
(PA 3) Pão de Açúcar/AL
5
1
1,1
(IN 1) Igreja Nova/AL
5
0
< 1,1
(IN 2) Igreja Nova/AL
5
0
< 1,1
(PR 1) Propriá/SE
4
3
4,6
(PR 2) Propriá/SE
5
3
4,6
(PR 3) Propriá/SE
5
3
4,6
(PE 1) Penedo/SE
5
3
4,6
(PE 2) Penedo/AL
5
3
4,6
(PE 3) Penedo/AL
5
3
4,6
(PU 1) Piaçabuçu/AL
5
2
2,6
(PU 2) Piaçabuçu/AL
5
5
> 8,0
279
(PU 3) Piaçabuçu/AL
5
5
> 8,0
FOZ 1/AL
5
2
2,6
FOZ 2/AL
5
2
2,0
FOZ 3/AL
5
0
< 1,1
Esses resultados são semelhantes aos apresentados pela expedição científica do
Baixo São Francisco realizada em 2018, onde também evidenciou presença de coliformes
Fonte
GL
SQ (Aj.)
QM (Aj.)
Valor F
Valor-P
Municípios
7
16.788
2.3983
5.04
0.005
Erro
14
6.667
0.4762
Total
21
23.455
fecais e E.coli em 95% das amostras de água coletadas nos mesmos pontos amostrais.
Os níveis de coliformes totais significativos, p < 0,05 (Tabela 3) em Piranhas
foram encontrados os níveis mais baixos em relação a todos os locais, Pão de Açúcar,
também obteve índices mais baixos de coliformes em relação as outras cidades, desta
forma Piranhas foi a melhor cidade em índices mais baixos de coliformes, seguida de Pão
de Açúcar, contudo os outros municípios não diferiram um do outro.
Tabela 3. Níveis de significância de presença de coliformes totais entre os municípios
Tabela 4. Médias dos níveis de coliformes fecais em diferentes pontos do Baixo São
Francisco.
Municípios
N
Média
Agrupamento
TRAIPÚ
3
5.000 A
PIAÇABUÇÚ
3
5.000 A
PENEDO
3
5.000 A
IGREJA NOVA
2
5.000 A
FOZ
3
5.000 A
PORTO REAL
3
4.667 A
PÃO DE AÇÚCAR
3
4.000 A
B
PIRANHAS
2
2.000
B
280
Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Com relação a E.coli, Igreja Nova, Piranhas e Traipú apresentaram menores
índices da bactéria, e diferiram de todas as outras cidades, em seguida Pão de Açucar
e Foz, tiveram níveis similares, Contudo Porto Real do Colégio-Propriá e Penedo,
obtiveram níveis similares de bactérias e Piaçabuçú o maior nível em comparação com
os demais (Tabela 5), deste forma, as piores cidades nestes índices foram (em ordem
decrescente: Piaçabuçú, Porto Real- Propriá e Penedo, posteriormente, a foz e Pão de
Açúcar e por último Traipú, Piranhas e Igreja Nova.
Tabela 5. Níveis de E.coli em diferentes pontos do Baixo São Francisco, utilizando
teste de Tukey a 95% de Confiança.
Municípios
N Média Agrupamento
PIAÇABUÇÚ
3 4.000
A
PORTO REAL
3 3.000
A
B
PENEDO
3 3.000
A
B
FOZ
3 1.333
PÃO DE AÇUCAR 3 0.333
B
C
C
TRAIPÚ
3 0.000
C
PIRANHAS
2 0.000
C
IGREJA NOVA
2 0.000
C
Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Foto: Vivian Vasconcelos.
281
Figura 5. Resultado das amostras (5 réplicas) em alíquotas iguais de 20 mL com emissão
da cor azul esverdeada, que indica presença de E.coli.
Parâmetros físico-químicos da água, próximos a área de captação dos municípios
estudados
Os dados de potássio, manganês, cálcio, fósforo, sulfato, sílica e nitrito estão
apresentados nas figuras 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12, logo a seguir:
Figura 6. Análise de potássio nos pontos próximos à captação de água dos municípios.
Podemos observar que os dados de potássio foram significativos (p < 0,05) em
relação aos municípios, entretanto destoaram mais, conforme descemos o curso do rio,
nas cidades de Igreja Nova e Penedo, com valores acima de 2,5 mg/L. Comparando-se as
áreas de captação de água para abastecimento das cidades, os valores de potássio
encontrados ficaram abaixo de 2,5 mg/L, com exceção do povoado Xinaré em Igreja Nova
com valor acima de 3,0 mg/L. Contudo é possível observar dois picos de aumento de
potássio, um entre os munícipios de Traipú e Porto Real do Colégio e outro entre Porto
Real do colégio e Igreja Nova (Xinaré).
282
Figura 7. Análise do manganês nos pontos próximos as áreas de captação de água dos
municípios.
Com relação ao manganês há uma tendência crescente deste metal, conforme
seguimos o curso do rio abaixo. Piranhas obteve valores baixos desta substância em
relação aos demais municípios (p < 0,05). Contudo, o maior pico de manganês foi
detectado próximo a área de captação do povoado Xinaré, em Igreja Nova (valores de
0,016 mg/L), entretanto abaixo do exigido pela resolução CONAMA (0,1 mg/L).
O sódio se manteve estável com leves flutuações nas regiões próximas a captação
de água dos municípios estudados, com exceção do município de Igreja Nova (p < 0,05).
Figura 8. Análise do sódio nas áreas próximas à captação de água dos municípios.
283
Figura 9. Análise do fósforo nas áreas próximas à captação de água dos municípios.
Os valores de fósforo variaram muito, embora dentro da escala de 0,02 e 0,03
mg/L, possivelmente devido ao aumento do fluxo de água do rio, promovido pela CHESF,
que serviu para diluir mais a quantidade deste nutriente. Os valores encontrados foram
próximos ao recomendado pela portaria 357 do CONAMA (0,02 mg/L P). Quanto ao
nitrito os valores encontrados nestes pontos variaram em uma média de 0,01 mg/L, abaixo
do preconizado na legislação que é de 1,0 mg/L.
Figura 10. Análise do nitrito nas áreas próximas à captação de água dos municípios.
284
Figura 11. Análise do sulfato nas áreas próximas à captação de água dos municípios.
Os dados de sulfato servem como indicativo de poluição por efluentes ou esgotos
e estes valores ficaram abaixo do preconizado pela legislação que é de 250 mg/L. É
importante reforçar que devido a vazão aumentada durante o período de coletas, esta
serviu para diluir e diminuir esta concentração nas áreas de captação de água.
CONCLUSÃO
Com base nas análises microbiológicas realizadas neste trabalho, os resultados
demonstraram que a água de todos os pontos de coleta, encontram-se fora dos padrões de
potabilidade recomendados para consumo humano, estabelecidos pela Portaria vigente de
número 2.914 de 12 de dezembro de 2011.
Uma vez que, é considerada água potável quando se tem ausência de coliformes
totais e E.coli em 100 ml de amostras. O fato de ter encontrado presença de
microrganismos na água no estudo, perfazendo-o um resultado insatisfatório, haverá a
necessidades de otimizar o saneamento básico, diminuindo os riscos à saúde humana.
A qualidade de água, baseado nos parâmetros físico-químicos estudados (sódio,
fósforo, nitrito e sulfato), estão dentro dos padrões da legislação, contudo preocupa-nos
os valores encontrados, pois foram medidos em períodos de cheia e em aumento da vazão
do rio (acima de 1.300 m3/s), principalmente, os dados de potássio e manganês que são
indicativos de presença de agrotóxicos e também aumento de assoreamento. Em ocasiões
de seca, onde a vazão diminui para valores abaixo de 800 m3/s, é preciso monitorar estes
nutrientes nas captações de água das cidades ribeirinhas.
285
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287
Delineamento Físico-Químico do Perfil Longitudinal e
Vertical do Estuário do Rio São Francisco
Ana Lúcia Eufrázio Romão1; Aristides Pavani Filho2; Carlucio Roberto Alves1
RESUMO
O perfil dinâmico do estuário do Rio São Francisco foi avaliado a partir da
investigação dos parâmetros físico-químicos, observando as variáveis climáticas e as
alterações na dinâmica do rio provocadas pelas interferências na variação dos fluxos pelo
sistema de barragens e a qualidade das águas com base nas resoluções pertinentes. O
perfil do estuário foi determinado a partir dos parâmetros temperatura, pH, condutividade
elétrica e salinidade. Os pontos para amostragem foram determinados considerando a área
que sofre influência do regime de marés e através de geoprocessamento foram
selecionados 5 pontos ao longo do estuário, compreendendo um percurso de 28 km
estendido de Penedo à foz. As análises dos dados permitiram observar que na região de
Penedo a maré não tem influência sobre a salinidade do rio, as águas são classificadas
como doce e a região como Zona de Maré do rio. Em Piaçabuçu a maré tem influência
significativa na salinidade e condutividade, a maré enchente altera a salinidade da água
de doce na superfície para salobra na camada de fundo, sendo observado na região o
gradiente de salinidade proporcionado pelo seu avanço em cunha, característica do
estuário com estratificação em cunha salina e de Zona de Mistura. Na região de foz, a
jusante, sob condição de topo de maré a salinidade é significativamente marcante desde
a superfície ao fundo, acima de 30 PSU, sendo classificada como águas salinas e como
Zona Costeira. Apesar dos resultados apontarem para as condições acima descritas, é
necessário considerar a influência que a elevação do fluxo do rio teve sobre os parâmetros
avaliados. Sendo essencial a continuidade dos estudos para futuras comparações tendo
em vista as possíveis modificações provocadas na dinâmica do rio sob a ação desse
interferente.
Palavras-chave: Influência de maré, zona de mistura, cunha salina.
1
2
Universidade Estadual do Ceará.
Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.
O ESTUÁRIO DO RIO SÃO FRANCISCO
A planície flúvio-marinha e aluvial do Rio São Francisco se estende desde Penedo
(AL) até o litoral. Essa região, formada por sedimentos recentes, aluviares, eólicos e
praias é constituída de superfícies planas, solo inconsolidado e elevada salinidade.
Praticamente toda a porção externa da planície costeira do rio São Francisco é margeada
por dunas eólicas e, à margem direita, no estado de Sergipe, são registradas expressivas
áreas de mangue. O delta e a base dos tabuleiros são formados de terraços marinhos
Pleistocênicos e, a norte e nordeste, de tabuleiros terciários de Formação de Barreiras.
Outra característica importante é que o estuário do Rio São Francisco é dominado
movimentos oscilatórios da maré (Santos et al. 2012; Medeiros, Cavalcante Segundo &
Magalhães, 2015).
Regiões de estuários são importantes nichos ecológicos pois são compostas por
rica diversidade de espécies animais (principalmente peixes, cerca de 99% das espécies
nectônicas) e são utilizadas como áreas de berçário, reprodução, alimentação,
crescimento e abrigo para diversas espécies de animais marinhos. A composição,
abundância e diversidade da ictiofauna é diretamente influenciada por fenômenos naturais
que ocorrem na região e no entorno do complexo estuarino, bem como, pelas ações
antrópicas que concorram para alteração do equilíbrio do complexo (Basilio & Godinho,
2008).
A elevada produtividade desses nichos é responsável pela subsistência de parte
das populações ribeirinhas. A despeito da sua importância, tanto para o ecossistema e
para as populações humanas, estes ambientes têm sido alvos de inúmeros impactos
antrópicos, principalmente, através do despejo de efluentes domésticos e industriais. Esse
fenômeno tem alterado, sobremaneira, as condições ambientais destas regiões (Santos,
Bezerra-Junior & Costa, 2009).
A alta produtividade e o fluxo de maré nos estuários são as principais vias de
transferência de água, sedimento, nutrientes e poluentes dos continentes para os oceanos
(Couceiro & Schettini, 2010). Esses ambientes são os grandes responsáveis pela
fertilização das águas costeiras ou funcionam como verdadeiras estações depuradoras
naturais de esgotos antes do seu lançamento ao mar, evitando ou retardando a poluição
marinha. Além disso, a presença de produtores primários e de diversas populações de
seres vivos, muitos dos quais de alto valor econômico, confere à essas regiões elevada
importância não somente econômica mas, principalmente ecológica (Grego; da Silva &
Montes, 2017)
Do ponto de vista da hidrodinâmica, a topografia do estuário, a descarga fluvial,
as correntes de maré, o cisalhamento do vento, constituem as principais forças que atuam
na constituição do perfil hidrodinâmico de um estuário. Sendo estes os principais fatores
que definem os processos de mistura, circulação e estratificação em ambientes estuarinos
(Kjerfve, 1988).
As descargas fluviais têm importante influência na circulação hidrodinâmica dos
estuários. É através da interação entre os regimes de chuva, a hidrodinâmica desses
ambientes e a componente marinha que se estabelecem condições para o enriquecimento
biológico desses nichos (Molisani, Cruz & Maia, 2006)
A dinâmica dos estuários também pode sofrer influência de fatores antrópicos. O
estuário do rio São Francisco, por exemplo, sofre impactos decorrentes de obras de
engenharia. Ao longo do rio é possível observar obras direcionadas à geração de energia
elétrica, ao abastecimento d’água, à navegação e à proteção contra enchentes. Destacamse entre elas as barragens, que alteram o regime hidrológico, modificando a vazão líquida
e sólida à jusante, por reterem grande parte dos sedimentos. O controle da vazão do rio
provocou modificações no seu padrão de descarga, ocasionando alterações nas condições
hidrodinâmicas características da área. As alterações hidrodinâmicas das correntes
promovem modificações no regime biológico da região promovendo alterações no
ecossistema do estuário do São Francisco (Souza, 2015).
METODOLOGIA
Os pontos para amostragem foram determinados considerando a área que sofre
influência do regime de marés e determinado através geoprocessamento. A Tabela 1
apresenta a localização, a data e os horários de coleta.
Tabela 3. Pontos de coleta conforme coordenada geográficas.
Ponto de Coleta
Ponto
Latitude
Longitude
Data
Início (h)
Penedo
P1
10°17'37.86"S 36°35'20.05"O 24/11/19
14:00
Piaçabuçu montante
P2
10°24'36.61"S
36°26'5.98"O
25/11/19
09:00
Piaçabuçu jusante
P3
10°24'39.30"S
36°26'2.89"O
25/11/19
15:00
Foz montante
P4
10°26'23.72"S 36°25'35.48"O 26/11/19
08:30
Foz jusante
P5
10°27'48.57"S 36°24'21.91"O 26/11/19
14:30
Foram selecionados 05 pontos ao longo do estuário do Rio São Francisco,
compreendendo um percurso de 28 km estendido de Penedo à foz. A distribuição
geográfica dos pontos de coleta pode ser visualizada na imagem de satélite que consta na
Figura 1.
Fonte: Google Earth adaptação dos próprios autores.
Figura 1. Mapa dos pontos de coleta.
Foi realizada uma incursão a cada ponto entre os dias 24, 25 e 26 de novembro de
2019. Durante as incursões às estações de coletas foram realizadas pelos menos duas
baterias de medições em cada localidade. Ao longo da coluna d’água, da superfície ao
fundo do Rio, foi efetuada uma sequência de medições, com distância de no máximo 50
cm entre elas, intercaladas entre 20, 30 ou 60 mim, possibilitando o delineamento físico-
químico do perfil vertical das águas do estuário em cada um dos pontos avaliados. A
determinação dos parâmetros foi realizada durante os ciclos de maré enchente e vazante,
conforme pode ser observado partir do Figura 2.
Os gráficos referentes a condições de maré no momento das avaliações foram
elaborados utilizando-se o programa Microsoft Excel e simulados através de modelo
simplificado, buscando obter o nível aproximado da maré no ponto avaliado tendo como
referência à evolução da maré e dados de tábua de maré da região. Para este trabalho, o
modelo simplificado de primeira ordem, emprega o comportamento senoidal com
amplitude relativa e fase e frequência extraídos da tábua de maré do dia das tomadas de
dados.
Condição de maré em função do dia e horário
100
90
80
60
50
40
30
20
10
0
0-10
10-20
20-30
30-40
40-50
50-60
60-70
70-80
80-90
25/nov
24/nov
Horário
26/nov
Altura relativa da maré
70
90-100
Figura 2. Simulação gráfica das condições de maré durante as coletas realizadas entre os
dias 24, 25 e 26.
As
amostragens
envolveram
determinações
de
condutividade
elétrica,
resistividade, densidade, sólidos totais dissolvidos, salinidade e temperatura da água. A
determinação dos parâmetros físico-químicos em todos os pontos foi realizada in situ
através da utilização de Sonda multiparamétrica Aqual Troll 400 da In-Situ Inc. 221 East
Lincoln Avenue, Fort Collins, CO 80524 USA.
Os principais parâmetros utilizados para discutir a qualidade da água do estuário
foram temperatura, pH, condutividade elétrica e salinidade. A partir dos dados
coletados, posteriormente tabulados, retirados os erros e organizados no programa
Microsoft Excel, foi definida a malha de interpolação, os limites máximos e mínimos
para realização de análises estatística. A sistematização dos dados obtidos foi realizada
a partir da estatística descritiva, tabulando as medianas e os desvios padrão. O
tratamento estatístico para a comparação dos dados foi realizado pelo teste de Análise
da Variância (ANOVA). Realizou-se para cada parâmetro físico-químico analise
ANOVA de 1 fator a vários níveis, a fim de verificar influência da profundidade e da
condição de maré (de vazante a cheia) nos parâmetros físico-químicos dos pontos
estudados.
A região do estuário, avaliada no presente estudo, está localizada entre os
paralelos 10° 17’ e 10° 31’ de latitude Sul e os meridianos 36° 35’ e 36° 25’ de longitude
Oeste, se estende desde a desembocadura do Rio indo até à cidade de Penedo. O perfil do
estuário foi determinado tendo como base os parâmetros físico-químicos avaliados, as
resoluções pertinentes, bem como, observando as variáveis climáticas e as alterações na
dinâmica do rio provocadas pelas interferências na variação nos fluxos pelo sistema de
barragens.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A qualidade e os usos das águas de estuários, bem como, de qualquer outro recurso
hídrico, são regulamentados através de legislação específica. A Resolução CONAMA
n°357, de 17 de março de 2005 e suas modificações nas resoluções 410 de 2009 e 430 de
2011, dispõem sobre a classificação dos corpos de água e as diretrizes ambientais para o
seu enquadramento. A finalidade dessa legislação é realizar a ordenação da exploração
dos corpos hídricos visando a manutenção da qualidade, considerando as necessidades
sociais e econômicas dos usuários. Além desta, outra legislação importante é a Resolução
CONAMA n° 274 de 29 de novembro de 2000, que que determina os parâmetros e
indicadores biológicos que asseguram as condições de balneabilidade dos ecossistemas
aquáticos.
Os corpos hídricos ou mananciais são enquadrados em classes em função dos usos
a que se destinam respeitando-se os requisitos estabelecidos. De acordo a Resolução n°
20 de 18 de junho de 1986 do Conselho Nacional do Meio Ambiente as águas são
distribuídas em 9 classes: 05 delas enquadradas como águas doces (com salinidade igual
ou inferior a 0,5 %); 02 classificadas como águas salobras (salinidade entre 0,5 e 30%) e
as outras 02 na categoria de águas salinas (salinidade igual ou superior a 30 %).
Penedo (P1)
Em Penedo as análises ocorreram no período da tarde, intercaladas por intervalo
de uma hora entre elas, formando um conjunto de três tomadas em momentos de topo de
maré (Figura 3). Sendo esse ponto o mais afastado da foz, distante 31,24 km, esperavase que a influência da maré fosse a mínima possível.
100
17:30
17:00
15:00
15:30
14:00
●
18:00
Horário de coleta
14:30
0:30
1:00
1:30
2:00
2:30
3:00
3:30
4:00
4:30
5:00
5:30
6:00
6:30
7:00
7:30
8:00
8:30
9:00
9:30
10:00
10:30
11:00
11:30
12:00
12:30
13:00
13:30
0
16:00
● ●
50
16:30
Altura relativa
Maré 24/11
Figura 3. Simulação da condição de maré durante realização das medidas em Penedo
no dia 24 de novembro
Os dados coletados em Penedo, às 14:00, 15:00 e 16:00 horas, foram tratados
estatisticamente e os resumos apresentados na Tabela 2. Na região a altura máxima da
coluna d’água no ponto avaliado atingiu 3,40 m.
Tabela 4- Variação dos parâmetros relacionados condutividade, salinidade, temperatura e pH em Penedo
Penedo
Propriedades 14:00 h
Propriedades 15:00 h
Propriedades 16:00 h
Funções
Cond.
Sal.
Temp.
pH
Cond.
Sal.
Temp.
pH
Cond.
Sal.
Temp.
pH
(µS/cm)
(PSU)
(oC)
(pH)
(µS/cm)
(PSU)
(oC)
(pH)
(µS/cm)
(PSU)
(oC)
(pH)
Média
91,28
0,04
28,53
8,44
92,95
0,04
28,7
8,45
93,11
0,041
28,55
8,36
Desvio padrão
0,133
-
0,111
0,021
0,091
-
0,231
0,045
0,08
-
0,026
0,01
Máximo
91,66
0,04
28,88
8,47
93,17
0,04
29,34
8,6
93,25
0,041
28,56
8,36
Mínimo
91,22
0,039
28,48
8,38
92,87
0,04
28,6
8,39
92,96
0,04
28,49
8,33
N
24
24
24
24
24
25
25
24
9
9
9
9
Limite de decisão
-
-
-
-
-
-
-
-
041
0,00
0,024
0,04
Estatísticas
Os valores relativos aos parâmetros de condutividade, salinidade, temperatura e
pH obtidos durante a amostragem realizada em Penedo encontram-se plotados em função
da profundidade nos gráficos A, B, C e D da Figura 4.
Salinidade (PSU)
Condutividade (µS/cm)
14:00
15:00
14:00
16:00
16:00
2.0
3.0
0.041
94.0
0.041
93.5
Salinidade (PSU)
Condutividade (µS/cm)
15:00
0.041
94.5
93.0
92.5
92.0
91.5
0.040
0.040
0.040
0.040
0.040
91.0
0.039
90.5
0.039
90.0
0.039
0.0
1.0
2.0
3.0
4.0
0.0
1.0
Profundidade (m)
Temperatura (oC)
14:00
15:00
pH (pH)
16:00
14:00
8.7
29.4
8.5
28.9
8.3
Temperatura (oC)
29.9
pH (pH)
28.4
27.9
7.7
7.5
2.00
3.00
4.00
16:00
7.9
26.9
1.00
15:00
8.1
27.4
26.4
0.00
4.0
Profundidade (m)
7.3
0.0
Profundidade (m)
1.0
2.0
3.0
Profundidade (m)
4.0
Figura 4. Gráficos dos parâmetros físico-químicos coletados em Penedo, plotados em
função da profundidade.
Durante análises realizadas no decorrer da Primeira Expedição Científica no Rio
São Francisco a equipe responsável pela qualidade da água determinou que a salinidade
média na região inscrita de Traipu a Penedo a presentou a média de 0,02 ± 0,004‰ e
valores mínimos de 0,02‰ e máximos de 0,03‰.
Regiões estuarinas são caracterizadas por apresentarem flutuações de vários
fatores físico-químicos. Nas regiões temperadas os fatores primários tais como a
salinidade e a temperatura apresentam flutuações significativas. Nessas regiões a
temperatura da água é um dos fatores que mais influenciam na produtividade dos
ecossistemas. Contudo, nas regiões tropicais seu efeito é menos intenso e a amplitude
térmica é pequena e ocorre de forma gradativa (Souza, 2015).
Condutividade (µS/cm)
Salinidade (PSU)
A
(Limite de decisão
0.041 ±
0,00004
91.35 ±
0,162
a3
a3
a2
0.040 ±
0,0002
0.040 ±
0,0001
a1
a3
a3
a2
a1
a1
a2
(a2 - a1 ˂ LD); (a3 - a2 < LD); (a3 - a1 < LD)
(a2 - a1< LD); (a3 - a2 < LD); (a3 - a1 ˂ LD)
Tempertura (oC)
C
(Limite de decisão
0,24)
a1 ≠ a2 ≠ a3 ≠ a1
28.53±0,04
a1
28.76±0,20
a2
D
pH (pH)
(Limite de decisão 0,04 )
28.60±0,15
a…
8.35 ±
0,016
a1
a1= a2 ≠ a3 ≠ a1
a2
a1 = a2 = a3 = a1
92.98 ±
0,057
a1 = a2 = a3 = a1
93.14 ±
0,030
a1
B
(Limite de decisão 0,00)
8.45 ±0,036
8.44 ±
0,019
a2
a
3
a3
a3
a
2
a…
a…
(a2 - a1˃LD); (a3 - a2 ˃LD); (a3 - a1 ˃ LD)
a
1
(a2 - a1˂ LD); (a3 - a2 ˃ LD); (a3 - a1 ˃ LD)
Figura 5. Gráficos dos resultados das análises estatísticas de condutividade, salinidade,
temperatura e pressão em função da evolução da maré, em Penedo. Em que a1, a2 e a3
são referentes as médias dos parâmetros obtidos às 14h, 15h e 16h, respectivamente.
Na região de Penedo as análises estatísticas demostraram que no decorrer do
tempo de avaliação os parâmetros de condutividade e salinidade não sofreram alterações
significativas (Figura 3, gráficos A e B). O que já era esperado porque a região avaliada
não sofre influência direta da maré. As linhas referentes as medidas do Gráfico A
evidenciam que a condutividade nesse ponto varia de forma pouco expressiva, esse
fenômeno deve estar relacionado a pouca influência do volume de água do mar que chega
até o ponto avaliado ou em função da pouca variação dos íons (poluentes) despejados ou
que chegam na área trazidos pela corrente do rio.
As alterações nos parâmetros relativos a temperatura e pH (gráficos C e D)
sofreram alterações significativas ao longo do tempo avaliado. O aumento da temperatura
pode estar relacionado ao acúmulo de energia referente a incidência de radiação solar.
Tendo influência, inclusive na conservação de calor na região de fundo. A alteração de
pH no ponto avaliado pode estar relacionada a concentração de matéria orgânica em
decomposição ao longo da evolução do tempo.
No ponto avaliado, de acordo com os dados coletados e a Resolução n° 20 de 18
de junho de 1986 do Conselho Nacional do Meio Ambiente as águas estão enquadradas
como águas doces, com salinidade igual ou inferior a 0,5 %.
Piaçabuçu montante (P2)
Em Piaçabuçu a montante (P2- Lat10°24'36.61"S e Long 36°26'5.98"O, distante
11,5 km da foz, foram realizadas 02 medidas sob maré baixa (Figura 6), tendo sido
realizadas duas incursões ao ponto para registro dos parâmetros às 09:30 e 10:30 h.
Maré 25 /11
100
80
60
20
0
0:30
1:00
1:30
2:00
2:30
3:00
3:30
4:00
4:30
5:00
5:30
6:00
6:30
7:00
7:30
8:00
8:30
9:00
9:30
10:00
10:30
11:00
11:30
12:00
12:30
13:00
17:30
16:30
17:00
15:30
16:00
14:30
15:00
18:00
Horário de coleta em marcação
13:30
●●
14:00
Altura relativa
40
Figura 6. Simulação da condição de maré durante realização das medidas em Piaçabuçu
a montante.
Os dados coletados durante o intervalo, foram tratados estatisticamente,
sumarizados e estão dispostos na Tabela 3. No ponto avaliado a profundidade do leito do
rio foi determinada em 5,35 m.
Tabela 5. Variação dos parâmetros relacionados condutividade, salinidade, temperatura e pH no trecho de Piaçabuçu a montante.
Piaçabuçu montante
Propriedades 09:00 h
Funções estatísticas
Cond.
Propriedades 10:00 h
Sal.
Temp.
pH
Cond.
Sal.
Temp.
pH
(µS/cm) (PSU)
(oC)
(pH)
(µS/cm) (PSU)
(oC)
(pH)
Média
91,12
0,04
28,39
8,11
91,21
0,04
28,53
8,21
Desvio padrão
0,04
0
0,008
0,063
0,03
0,04
-
0,019
Mínimo
91,06
0,04
28,38
8,05
91,14
0,04
28,5
8,17
Máximo
91,19
0,04
28,4
8,23
91,28
0,04
28,62
8,25
N
20
20
20
20
24
24
24
24
Limite de Decisão
0,031
0
0,007
0,042
0,035
0
0,014
0,021
De acordo com a Resolução n° 20 de 18 de junho de 1986 do Conselho Nacional
do Meio Ambiente, os valores de salinidade encontrados durante o intervalo de coleta,
abaixo de 0,5 PSU (Tabela 3), permitem predizer que as águas no ponto, em condições
de maré baixa, podem ser enquadradas como águas doces.
Condutividade (µS/cm)
09:00
Salinidade (PSU)
A
10:00
09:00
0.040
91.7
0.040
91.1
Salinidade (PSU)
Concutividade (µS/cm)
92.3
90.5
89.9
89.3
88.7
88.1
0.040
0.039
0.039
0.039
0.0
87.5
0.0
1.0
2.0
3.0
4.0
Profundidade (m)
5.0
09:00
1.0
2.0
3.0
4.0
5.0
6.0
6.0
Profundidade (m)
Temperatura (oC)
pH (pH)
C
10:00
10:00
D
09:30
8.7
28.8
8.5
28.4
8.3
28.0
pH (pH)
Temperatura (oC)
B
10:00
27.6
27.2
8.1
7.9
26.8
7.7
26.4
7.5
7.3
26.0
0.0
1.0
2.0
3.0
4.0
Profundidade (m)
5.0
6.0
0.0
1.0
2.0
3.0
4.0
Profundidade (m)
5.0
6.0
Figura 7. Gráficos dos parâmetros físico-químicos coletados em Piaçabuçu a montante
em função da profundidade.
As análises estatísticas demonstraram que ao longo do perfil vertical as águas
apresentam comportamento constante. Superfície, meio e fundo mantêm temperatura,
salinidade, pH e condutividade estatisticamente uniforme, observar gráficos A, B, C e D
da Figura 8. Sob maré baixa é possível verificar que a região não sofre influência do
avanço da cunha salina.
Salinidade (PSU)
A
(Limite de decisão 0,042)
91.20 ±
0,02
a3
a1= a2 = a3 =a1
a
1
a
2
a
3
91.22 ±
91.18 ± 0,02
0,02
B
(Limite de decisão 0,00002)
a
1
0.0397 ±
0,000
a
2
0,0396 ±
0,00
0.0396 ±
0,00
a
3
a3
a1 = a2 = a3 =a1
Condutividade (µS/cm)
a2
a2
a1
a1
(a2 - a1 < LD); (a3 - a2 < LD); (a3 - a1 < LD)
Temperatura (oC)
(a2 - a1 < LD); (a3 - a2 < LD); (a3 - a1 < LD)
pH (pH)
C
(Limite de decisão 0,019)
8.21 ±
a
2
28.50 ±
a1 = a2 = a3 = a1
a
1
0,02
0,001
0,001
a
3
a3
8.22 ±
0,013
0,009
a
1
a
2
a
3
a2
a1
(a2 - a1 < LD); (a3 - a2 < LD); (a3 - a1 < LD)
8.21 ±
0,009
a3
a1 = a2 = a3 = a1
28.61 ±
28.53 ±
D
(Limite de decisão 0,022)
a2
a1
(a2 - a1 < LD); (a3 - a2 < LD); (a3 - a1 < LD)
Figura 8. Gráficos dos resultados das análises estatísticas de condutividade, salinidade,
temperatura e pressão em função da evolução da profundidade em Piaçabuçu a montante.
Em que a1, a2 e a3 são referentes as médias dos parâmetros medidos às 10h à superfície,
meio e fundo, respectivamente.
Análises realizadas pela equipe da I Expedição Científica no Rio São Francisco
determinaram que em Piaçabuçu e Brejo Grande, as águas superficiais e de fundo foram
enquadradas como “águas salobras”, apresentando salinidade entre 0,5% e 30%. A
equipe determinou que a salinidade superficial variou de 2,59% a 4,50%, e de fundo
variação foi 5,48% a 16,98%. Segundo a equipe, as maiores salinidades identificadas nas
águas de fundo decorre da presença de elevados teores de sais dissolvidos conferindolhes maiores densidades promovendo um gradiente onde as águas com maiores
densidades vão se acomodando nas regiões de fundo.
Piaçabuçu a jusante (P3)
Na terceira região (P3- Lat 10°24'39.30"S e Long 36°26'2.89"O), Piaçabuçu a
jusante, distante 11,3 km da foz, foram realizadas 04 medidas sob a condição de maré
alta, às 15:00, 16:00, 17:00 e 18:00 horas, conforme (Figura 9).
Maré 25 /11
100
80
60
Altura relativa
40
20
17:30
18:00
16:30
17:00
15:30
16:00
14:30
15:00
0:30
1:00
1:30
2:00
2:30
3:00
3:30
4:00
4:30
5:00
5:30
6:00
6:30
7:00
7:30
8:00
8:30
9:00
9:30
10:00
10:30
11:00
11:30
12:00
12:30
13:00
13:30
14:00
0
Horário de coleta em marcação
Figura 9. Simulação da condição de maré durante realização das medidas em Piaçabuçu
a jusante.
Na tabela 4 encontram-se os dados referentes as análises estatísticas ao longo da
evolução da maré, exibindo, inclusive, os valores mínimos e máximos de cada parâmetro
avaliado em Piaçabuçu a jusante. No ponto avaliado a profundidade do rio foi
determinada em 14,37 m.
Tabela 6- Variação dos parâmetros relacionados à condutividade, salinidade, temperatura e pH no trecho de Piaçabuçu jusante.
Piaçabuçu a jusante
Propriedades (15:00)
Propriedades (16:00)
Propriedades (17:00)
Propriedades (18:00)
Funções
Cond
estatísticas
Sal. Temp. pH
Cond.
Sal. Temp. pH
Cond.
Sal.
Temp.
pH
Cond.
Sal.
Temp. pH
(µS/cm) (PSU) (oC)
(pH) (µS/cm) (PSU) (oC)
(pH) (µS/cm) (PSU) (oC)
(pH) (µS/cm) (PSU)
(oC)
(pH)
Média
1122,5
0,52
28,9
7,7
3943,6
1,96
28,8
7,6
9221,2
5,02
28,7
7,6
5210,2
2,77
28,6
7,9
Desvio padrão
-
-
0,04
0,12
-
-
0,03
0,08
-
-
0,1
0,06
-
-
0,05
0,26
Mínimo
415,7
0,19
28,9
7,6
2251,9
1,08
28,8
7,5
607,4
0,28
28,5
7,4
120,1
0,05
28,5
7,6
Máximo
1671,7
0,79
29
7,9
5129,1
2,59
28,9
7,7
18878,6 10,59
28,8
7,7 15622,4 8,62
28,7
8,4
N
22
22
22
22
19
19
19
19
33
33
33
33
20
20
20
Limite de Decisão
-
-
0,034 0,17 3943,6
1,96
28,8
7,6
-
-
0,03
0,03 5210,2
2,77
28,6
7,9
20
A partir do ponto 3 (Piaçabuçu jusante) é possível perceber a forte influência da
maré sobre os parâmetros físico-químicos na região. Nesse ponto o avanço da cunha
salina é evidente, observável a partir das leituras expostas no Gráfico B da Figura 10. As
leituras realizadas as 17:00 h revelam o aumento progressivo e substancial da salinidade
e condutividade com o aumento da profundidade, deixando bem claro o comportamento
da cunha. Nessa região, sob maré alta, as águas são enquadradas como salobra.
Os valores registrados para temperatura e pH variaram estatisticamente em razão
da profundidade de coleta e em função da evolução da maré (gráficos A, B, D e D, Figura
11). Durante o intervalo observado foi possível registrar oscilações de pH de 7,43 a 8,41
e temperaturas que variaram de 28,50 a 29,00 oC (gráficos A e B da Figura 10)
Condutividade (µS/cm)
16:00
17:00
18:00
15:00
20,000
18,000
16,000
14,000
12,000
10,000
8,000
6,000
4,000
2,000
0
16:00
18:00
10.0
8.0
6.0
4.0
2.0
0.0
0.0
2.5
5.0
7.5
10.0
12.5
15.0
0.0
2.5
Profundidade (m)
15:00
16:00
17:00
18:00
15:00
28.9
pH (pH)
28.7
28.5
28.3
28.1
27.9
27.7
27.5
2.5
5.0
7.5
Profundidade (m)
10.0
7.5
10.0
12.5
15.0
pH (pH)
29.1
0.0
5.0
Profundidade (m)
Temperatura (oC)
Temperatura (oC)
17:00
12.0
Salinidade (PSU)
Condutividade (µS/cm)
15:00
Salinidade (PSU)
12.5
15.0
16:00
17:00
18:00
8.6
8.3
8.0
7.7
7.4
7.1
6.8
6.5
6.2
0.0
2.5
5.0
7.5
10.0
12.5
15.0
Profundidade (m)
Figura 10. Gráficos dos parâmetros físico-químicos coletados em Piaçabuçu a jusante
em função da profundidade.
Em relação a profundidade a oscilação de pH mais significativa ocorreu às 18:00
horas, conforme pode ser visto no Gráfico D da Figura 10, apresentando variação de quase
um ponto entre superfície e meio do rio, indicando que o pH tende à alcalinidade do fundo
à superfície.
Já a oscilação de temperatura mais importante ocorreu a 17:00 horas (gráfico C
da Figura 10) coincidindo com a inversão de direção do movimento da cunha salina. A
temperatura mais elevada na superfície pode estar relacionada ao avanço da cunha salina
em direção ao continente trazendo massa de água mais fria do oceano ao ponto avaliado.
pH I (pH)
Tempertura I (oC)
(Limite de decisão
0,063)
7.51 ±
(Limite de decisão
0,2)
28.55 ±
0,011
0,017
a1
a2
a3
a
3
a1 ≠ a2 ≠ a3 = a1
0,005
a1 = a2 = a3 ≠ a1
7.61 ±
28.62 ±
28.80 ± 0,026
0,006
7.51 ±
0,057
a1
a2
a3
a
3
a
2
a
2
a
1
a
1
(a2 - a1 < LD); (a3 - a2 < LD); (a3 - a1 ˃ LD)
(a2 - a1 ˃ LD); (a3 - a2 ˃ LD); (a3 - a1<LD)
Temperatura (oC)
pH (pH)
(Limite de decisçao 0,04)
(Limite de decisão 0,35)
a2
a
3
a3
a
2
a
1
7.58 ± 0,02
7.69 ± 0,03
a1
a2
a3
8.00
a1 ≠ a2 ≠ a3 ≠ a1
a1
a1 ≠ a2 = a3 ≠ a1
28.88 ±
0,003
28.88 ±
0,011
28.97 ±
0,025
7.80 ± 0,14
7.50
7.00
a3
a2
6.50
a1
6.00
(a2 - a1 ˃ LD); (a3 - a2 < LD); (a3 - a1 ˃ LD)
(a2 - a1˃LD); (a3 - a2 ˃ LD); (a3 - a1 ˃ LD)
Figura 11. Gráficos dos resultados das análises estatísticas de condutividade, salinidade,
temperatura e pressão em função da evolução da profundidade em Piaçabuçu a jusante.
Em que a1, a2 e a3 são referentes as médias dos parâmetros medidos à superfície, meio e
fundo, respectivamente, e às 15h gráficos A e B, às 18h gráficos C e D.
O estuário do rio São Francisco se comporta apresentando salinidade mais alta
próximo a foz e no fundo do rio. Sendo, portanto, caracterizado como do tipo estratificado
em forma de cunha salina. Próximo da foz a variação de salinidade é bastante
significativa, oscilando entre 0,03 e 35 ‰, podendo chegar a 39 ‰.
Em áreas
apresentando este tipo de oscilações são enquadradas como zona de mistura. Sua
ocorrência pode ser atribuída a variabilidade da descarga fluvial, aos ciclos de marés e
ação dos ventos (Fonseca, 2018).
Foz montante (P4)
Na região da foz a montante, distante 7,9 km da foz, as coletas de dados ocorreram
no período da manhã, sob condição de baixa-mar tendo sido realizado o conjunto de seis
amostragens, de 08:30 às 11:00 h, intercaladas por 30 mim cada tomada conforme Figura
12.
Maré 26/11
100
80
40
20
0
0:30
1:00
1:30
2:00
2:30
3:00
3:30
4:00
4:30
5:00
5:30
6:00
6:30
7:00
7:30
8:00
8:30
9:00
9:30
10:00
10:30
11:00
11:30
12:00
12:30
13:00
17:30
16:30
17:00
15:30
16:00
14:30
18:00
Horário de coleta em marcação
15:00
13:30
●● ●
●●●
14:00
Altura relativa
60
Figura 12. Simulação da condição de maré durante realização das medidas na Foz do a
montante.
Os dados tratados estatisticamente e sumarizados a partir das coletas realizadas na
Foz a montante foram organizados na tabela 5. No período avaliado o leito do rio
encontrava a 7,80m de profundidade.
Tabela 7. Variação dos parâmetros relacionados condutividade, salinidade, temperatura e pH no trecho da Foz a montante
Foz montante
Propriedades (08:30)
Funções estatísticas
Propriedades (09:00)
Propriedades (09:30)
Cond.
Sal.
Temp.
pH
Cond.
Sal.
Temp.
pH
Cond.
Sal.
Temp.
pH
(µS/cm)
(PSU)
(oC)
(pH)
(µS/cm)
(PSU)
(oC)
(pH)
(µS/cm)
(PSU)
(oC)
(pH)
Média
967,5
0,5
28,58
7,4
386,9
0,2
28,6
7,9
113,2
0,5
28,7
7,5
Desvio padrão
178,2
0,1
0,0
0,1
91,7
0,0
0,0
0,1
7,1
0,0
0,0
0,0
Mínimo
474,5
0,2
28,6
7,3
193,7
0,1
28,6
7,7
105,9
0,0
28,7
7,4
Máximo
1360,7
0,6
28,6
7,8
550,2
0,3
28,6
8,0
127,5
0,1
28,9
7,6
N
27
27
27
27
19
19
19
19
15
15
15
15
Limite de Decisão
-
-
0,002
0,193
-
-
-
-
-
-
-
-
Propriedades (11:00)
Propriedades (10:00)
Propriedades (10:30)
Funções estatísticas
Cond.
Sal.
Temp.
pH
Cond.
Sal.
Temp.
pH
Cond.
Sal.
Temp.
pH
(µS/cm)
(PSU)
(oC)
(pH)
(µS/cm)
(PSU)
(oC)
(pH)
(µS/cm)
(PSU)
(oC)
(pH)
Média
114,5
0,1
28,8
7,8
28,9
0,0
28,9
7,9
100,4
0,0
29,0
7,9
Desvio padrão
5,9
0,0
0,0
0,2
0,0
0,0
0,0
0,1
1,0
0,0
0,0
0,1
Mínimo
107,3
0,0
28,8
7,6
28,9
0,0
28,9
7,7
99,2
0,0
28,9
7,8
Máximo
128,5
0,1
28,8
8,1
28,9
0,0
28,9
8,1
102,4
0,0
29,0
8,1
N
19
20
20
20
18
18
18
18
17
17
17
17
Limite de Decisão
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
0,0096
0,052
Na região, a influência da maré tem significativa importância. Nessa zona é
possível observar a alteração da salinidade e condutividade em função da variação da
profundidade e da maré, mesmo sob condição de maré vazante. Contudo, sob baixa-mar
as águas superficiais, de fundo e meio seriam classificadas como doces. No entanto, com
o avanço da maré a cunha salina tende a alcançar o ponto avaliado deixando a zona de
fundo salobra. No ponto foi possível registrar oscilação de salinidade entre 0,04 a 0,64
PSU.
Salinidade (PSU)
A
09:00
09:30
08:30
09:00
09:30
10:00
10:30
11:00
10:00
10:30
11:00
1,600
0.7
1,400
0.6
1,200
1,000
800
600
400
0.5
0.4
0.3
0.2
0.1
200
0
0
0
1
2
3
4
5
6
7
8
9
0
1
2
3
Profundidade (m)
6
7
09:00
09:30
08:30
09:00
09:30
10:00
10:30
11:00
10:00
10:30
11:00
pH (pH)
28.5
28.0
27.5
27.0
26.5
26.0
2
3
4
5
Profundidade (m)
8
9
D
08:30
29.0
1
5
pH (pH)
C
29.5
0
4
Profundidade (m)
Temperatura (oC)
Temperatura (oC)
B
08:30
Salinidade (PSU)
Condutividade (µS/cm)
Condutividade (µS/cm)
6
7
8
9
8.3
8.1
7.9
7.7
7.5
7.3
7.1
6.9
6.7
6.5
0
1
2
3
4
5
6
7
8
9
Profundidade (m)
Figura 13. Gráficos dos parâmetros físico-químicos coletados na Foz a montante em
função da profundidade.
O pH na área variou com a profundidade e com o avanço maré, conforme mostra
o Gráfico D da Figura 13. No ponto avaliado, apesar das linhas apresentarem
comportamento semelhantes, a aferição realizada às 8:30 apresentou evolução de
comportamento anômalo. Enquanto o pH tende a ser mais elevado no fundo e/ou
superfície nas demais medições, durante a realizada às 8:30 o pH se mostra mais elevado
no meio. O comportamento discretamente anômalo, durante a medição supracitada, pode
estar relacionado a algum pico de liberação de gás carbônico na água decorrente do
processo de oxidação do excesso de matéria orgânica pelos microrganismos aeróbicos no
intervalo referente a aferição, ocasião em que era possível observar a presença massiva
de plantas aquáticas na superfície do rio. Para a temperatura a variação observada não foi
estatisticamente significativa, permitindo inferir que este parâmetro se manteve constante
durante o intervalo avaliado, conforme pode ser observado no gráfico A e C da Figura
14.
Temperatura (oC)
pH(pH)
A
(Limite de decisão 0,002)
28.59 ±
28,58 ± 0,000
0,002
7.60 ±
±
0,08
a3
0,01
a2
a3
a3
a2
a2
a1
a1
(a2 - a1 ˃ LD); (a3 - a2 ˃ LD); (a3 - a1 ˂ LD)
(a2 - a1 ˂ LD); (a3 - a2 ˂ LD); (a3 - a1 ˂ LD)
Temperatura I (oC)
C
(Limite de decisão 0,010)
28.95 ±
28.96 ± 0,006
0,007
7.89 ±
0,007
a1
a2
a3
a3
a2
a1
(a2 - a1 ˂ LD); (a3 - a2 ˂ LD); (a3 - a1 ˂ LD)
D
pH I (pH)
(Limite de decisão 0,052)
a1 = a2 = a3 a1
28.97 ±
0,007
7.32 ±
8.07 ±
0,037
7.76 ±
0,044
a2
a3
a1
a3
a1
a2
(a2 - a1 ˃ LD); (a3 - a2 ˃ LD); (a3 - a1 ˃ LD)
Figura 14. Gráficos dos resultados das análises estatísticas da condutividade,
salinidade, temperatura e pressão em função da evolução da profundidade na Foz a
montante. Em que a1, a2 e a3 são referentes as médias dos parâmetros medidos à
superfície, meio e fundo, respectivamente, às 8 h e 30 min, gráficos A e B, às 11 h
gráficos C e D.
a1 ≠ a2 ≠ a3 ≠ a1
a3
a1
7.58 ±
0,17
a1 ≠ a2 ≠ a3 = a1
a2
a1 = a2 = a3 = a1
a1
28.58 ±
0,001
B
(Limite de decisão 0,019)
Foz jusante (P5)
Na última região avaliada, no trecho da foz à jusante, distante 4,8 km da foz, as
coletas de dados foram processadas no período da tarde, sob condição de maré enchente
(Figura 15), tendo sido realizadas 4 tomadas de dados intercaladas por intervalos de 30
mim entre elas. Os dados coletados revelam a intensa influência que a maré tem sobre a
região.
Maré 26/11
Altura relativa
100
80
●●
●●
60
40
20
17:00
17:30
16:00
16:30
15:00
15:30
14:00
18:00
Horário de coleta em marcação
14:30
0:30
1:00
1:30
2:00
2:30
3:00
3:30
4:00
4:30
5:00
5:30
6:00
6:30
7:00
7:30
8:00
8:30
9:00
9:30
10:00
10:30
11:00
11:30
12:00
12:30
13:00
13:30
0
Figura 15. Simulação da condição de maré durante realização das medidas na Foz a
jusante.
Os dados coletados na foz a jusante, formando um conjunto de 04 medidas
realizadas às 14:30, 15:00, 15:30 e 16:00 horas, foram tratados estatisticamente e os
resumos estão apresentados na Tabela 6. Na região, a altura máxima da coluna d’água,
ou do leito do rio, atingiu 7,70 m.
Tabela 8. Variação dos parâmetros relacionados condutividade, salinidade, temperatura e pH no trecho da Foz a jusante.
Foz jus
Propriedades 14:30
Propriedades 15:00
Propriedades 15:30
Propriedades 16:00
Funções
Cond.
Temp.
pH
(µS/cm) (PSU) (oC)
(pH) (µS/cm) (PSU) (oC) (pH) (µS/cm) (PSU) (oC) (pH) (µS/cm) (PSU) (oC)
(pH)
44653,8 27,5
28,4
7,4
50830,9 31,8
28,2
7,3 53891,8 34,0
28,1
7,3 52010,1 34,5
28,1
7,3
9587,7
6,5
0,2
0,0
5225,6
3,7
0,2
0,0
1,1
0,1
0,0 11725,2
1,2
0,1
0,0
Mínimo
18525,2 10,3
28,2
7,3
35122,9 20,9
28,1
7,3 51654,5 32,3
28,0
7,3
32,4
28,0
7,3
Máximo
51494,2 32,2
29,0
7,4
54426,1 34,4
28,6
7,4 55291,5 35,0
28,3
7,4 55876,6 35,5
28,3
7,3
17
16
21
estatísticas
Média
Desvio padrão
Sal. Temp.
pH
Cond.
Sal.
Temp. pH
Cond.
1511,3
Sal.
N
23
23
23
23
25
25
25
25
17
17
Limite de Decisão
-
-
0,002 0,019
-
-
-
-
-
-
Temp. pH
Cond.
0,7
Sal.
21
21
21
-
-
0,01 0,052
Conforme pode ser observado, a partir dos Gráficos A e B da Figura 16, tanto a
subida da maré quanto o aumento da profundidade no trecho avaliado contribuem para
elevação expressiva da salinidade e da condutividade ao longo do tempo e em
profundidade. Nessa região os gradientes podem ser bem representados pelas linhas
íngremes observadas a partir das leituras realizadas às 14:30 e 15:00 horas, ocasiões em
que a maré ainda avançava em direção ao continente. Conforme a maré avança a água
salina tende a subir ocupando as zonas superficiais.
Condutividade (µS/cm)
14:30
15:00
15;30
B
Salinidade (PSU)
A
14:30
16:00
15:00
15:30
16:00
40
60,000
35
30
Salinidade (PSU)
Condutividade (µS/cm)
50,000
40,000
30,000
20,000
25
20
15
10
10,000
5
0
0.0
1.0
2.0
3.0 4.0 5.0 6.0
Profundidade (m)
7.0
8.0
15:00
0.0
1.0
2.0
3.0 4.0 5.0 6.0
Profundidade (m)
C
Temperatura (oC)
14:30
0
9.0
15:30
7.0
8.0
D
pH (pH)
16:00
14:30
15:00
9.0
15:30
16:00
29.5
7.9
7.7
28.5
7.5
pH (pH)
Temperatura (oC)
29.0
28.0
27.5
7.3
7.1
27.0
6.9
26.5
6.7
6.5
26.0
0.0
1.0
2.0
3.0
4.0
5.0
6.0
Profundidade (m)
7.0
8.0
9.0
0.0
1.0
2.0
3.0
4.0
5.0
6.0
7.0
8.0
Profundidade (m)
Figure 16. Gráficos dos parâmetros físico-químicos coletados na Foz a jusante em
função da profundidade.
9.0
A partir dos dados coletados, foi possível observar que às 16:00 ocorre a inversão
fluxo natural do Rio, a força da maré vence força da descarga do rio tornando a água do
estuário completamente salina desde a superfície ao fundo. Nesse instante a salinidade
registrada, entre 32 e 35 PSU, varia muito pouco entre fundo e superfície (Figura 17).
Salinidade em função da profunidade e da maré
40.0
35.0
30.0
Salinidade (PSU)
25.0
20.0
15.0
10.0
5.0
0.0-5.0
5.0-10.0
10.0-15.0
0.6
20.0-25.0
L2
0.2
1.4
1.0
2.2
15.0-20.0
1.8
3.0
2.6
3.8
3.4
7.0
6.6
6.2
5.8
5.4
5.0
4.6
4.2
0.0
L1
25.0-30.0
30.0-35.0
L3
L4
35.0-40.0
Figura 17. Salinidade em função profundidade e da maré (simulação) em perspectiva.
De acordo com estudo realizado por Souza (2015), durante o mês de fevereiro de
2014, em condições de maré Sizígia e enchente (altura em torno de 2,0 metros), foi
possível observar que na região ocorre forte estratificação salina do tipo cunha salina.
O autor registou salinidade superficial oscilando entre 4 a 18 g/kg, atingindo valores de
até 35 g/kg, em apenas 2 metros de profundidade. O autor relatou que a estratificação do
tipo cunha salina se manteve durante o intervalo avaliado. Entretanto, ocorreu alteração
no grau de intensidade e posição ao longo da coluna d'água. Durante os picos de maré
vazante o fluxo da corrente do rio predomina sobre a força da maré e empurra água doce
em direção a foz, forçando a estratificação de salinidade para as camadas mais profundas
do canal principal.
As análises estatísticas permitem inferir que temperatura e pH sofrem alterações
ao longo da coluna d’água, como é possível observar a partir da Figura 18, gráficos A, B,
C e D. A tendência para ambos os parâmetros é de apresentarem gradiente com
diminuição dos valores da superfície em direção ao fundo. De acordo com Machado
(2011) a variação vertical da temperatura é menor em ambientes estuarinos do que em às
águas oceânicas, tendendo a apresentar pouca estratificação vertical em decorrência da
reduzida altura da coluna d’água em relação ao ambiente marinho, haja visto que a ação
dos ventos acaba misturando as águas, podendo torna-las mais homogêneas. Contudo,
ainda assim, é possível observar pequena expressão desta variação vertical. Essa
componente tende a ser afetada positivamente em direção à superfície pela incidência
direta dos raios solares.
Temperatura (oC)
pH (pH)
(Limite de decisão 0,011)
(Limite de decisão 0,027)
28.79 ±
28.25 ±
0,116
0,005
a2
a3
a1
7.39 ±
0,027
a2
a3
a3
a3
a2
a2
a1
a1
(a2 - a1 ˃ LD); (a3 - a2 ˂ LD); (a3 - a1 ˃ LD)
(a2 - a1 ˃ LD); (a3 - a2 ˃ LD); (a3 - a1 ˃ LD)
Temperatura I (oC)
pH I (pH)
(Limite de decisão 0,046)
(Limite de decisão 0,033)
27.98 ±
28.22 ±
0,043
27.99 ±
7.33 ±
0,002
7.29 ±
a1
0,000
a2
a3
a3
a2
a1
(a2 - a1 ˃ LD); (a3 - a2 ˂ LD); (a3 - a1 ˃ LD)
a1 ≠ a2 = a3 ≠ a1
a1
009
0,002
7.30 ±
0,002
0,002
0,003
a2
a3
a3
a1 ≠ a2 ≠ a3 ≠ a1
a1
7.32 ±
7.34 ±
a1 ≠ a2 = a3 ≠ a1
a1 = a2 ≠ a3 ≠ a1
0,017
28.26 ±
a2
a1
(a2 - a1 ˃ LD); (a3 - a2 ˃ LD); (a3 - a1 ˃ LD)
Figura 18. Gráficos dos resultados das análises estatísticas da condutividade,
salinidade, temperatura e pressão em função da evolução da profundidade em Piaçabuçu
a montante foz jusante. Em que a1, a2 e a3 são referentes as médias dos parâmetros
medidos à superfície, meio e fundo, respectivamente, às 14h e 30 min, gráficos A e B,
às 16 h gráficos C e D.
Da zona de maré do rio (ZM) à zona costeira (ZC)
De acordo com Kjerfve (1987), regiões estuarinas são zoneadas tendo como bases
os processos de mistura, circulação e estratificação da salinidade. Sendo divididas em três
sessões:
Zona de Maré do rio (ZR): caracterizada como porção fluvial sujeita à
influência a ação da maré, contudo, apresentando salinidade praticamente
zero;
Zona de Mistura (ZM): região de acentuada variação longitudinal e vertical
da salinidade, provocada pela mistura da água doce da drenagem continental
com a água salgada do mar;
Zona Costeira (ZC): porção costeira adjacente, que se estende até a frente
da pluma estuarina que delimita a Camada Limite Costeira (CLC).
A região costeira do São Francisco é denominada pelo regime de ondas de alta
energia e por mesomarés do tipo semi-diurno com marés de sizígia atingindo 2,6 m. As
águas Tropicais de Superfície (ATS) da Corrente Sul Equatorial (CSE) predominam sobre
a plataforma continental e influenciam diretamente as águas costeiras. Na região, a
profundidade do rio varia, podendo chegar a atingir aproximadamente 14 m próximos à
foz (Medeiros, Knoppers & Souza, 2007).
A área do estuário está delimitada a 10º 17’ - 10º 31’ S e 36º 25’ - 36º 36’ W. Seu
clima é classificado como quente e úmido, com precipitação acumulada anual variando
entre 1.250 mm e 1.500 mm, cuja estação chuvosa ocorre entre os meses de maio a
julho(Cotovicz Jr., Libardoni, Knoppers, Brandini & Abril, 2016)
No mês anterior à Expedição, por determinação do Operador Nacional do Sistema
Elétrico (ONS) e concordância da Agência Nacional de Águas (ANA), a Companhia
Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), no dia 22 de outubro de 2019 elevou a vazão no
Rio São Francisco. O aumento da vazão, que passou do patamar médio diário, em dias
úteis, de 950m³/s (metro cúbicos por segundo) para 1.280m³/s, ocorreu a partir do
reservatório de Xingó, na divisa de Alagoas e Sergipe. Além de ter como objetivo atender
às necessidades eletro energéticas dos meses de outubro e novembro, quando se registra
menor geração de energia eólica na região Nordeste, esperava-se que o aumento das
correntes no rio impedisse que o óleo, oriundo do derramamento de petróleo nas praias
do nordeste, adentrasse o estuário (CHESF, 2019; UOL NOTÍCIAS, 2019).
Segundo Piratoba (2017) um dos parâmetros que sofre alteração de acordo com a
qualidade da água é a condutividade elétrica. Esse importante parâmetro pode revelar
modificações na composição dos corpos d’água sem, contudo, determinar quantidades e
componentes. A condutividade da água está, estatisticamente, correlacionada com a
concentração de íons e de diversos elementos, já nas regiões tropicais, está relacionada
com a periodicidade de precipitações, bem como, com as características geoquímicas da
região.
Dentre os parâmetros utilizados para indicar a qualidade de um corpo hídrico está
o pH. De acordo com Vanzela, Hernadez e Franccom (2010) vários são os fatores que
podem concorrer para a alteração do pH de um corpo hídrico. A redução do pH pode estar
relacionada, por exemplo, com a presença áreas agricultadas, matas degradadas, moradias
no entorno do corpo hídrico, em função do maior escoamento superficial provocado por
carreamento de sólidos ou em decorrência do processo de oxidação do excesso de matéria
orgânica pelos microrganismos aeróbicos com consequente liberação de gás carbônico na
água. Conforme Silva e colaboradores (2009), as alterações de pH nos corpos hídricos
também podem ser provocados pela presença de agua da chuva. O aumento no volume
de água dos rios pode fazer com que a acidez da água diminua provocando a elevação do
pH e fazendo com que ele se aproxime da neutralidade em função da maior diluição dos
compostos dissolvidos e escoamento mais rápido.
Na avaliação da qualidade da água a temperatura é parâmetro importante não
apenas por sofrer alterações sazonais e locais, mas, também porque alterações bruscas ou
significativas impactam diretamente na velocidade de reações químicas e biológicas, na
taxa de solubilidade do oxigênio dissolvido e na densidade da água. Além disso,
temperaturas mais elevadas podem tornar alguns compostos mais tóxicos para os
organismos aquáticos ou afetar a sobrevivência de alguns organismos estenotérmicos.
Alterações nesse parâmetro podem ser provocadas por causas naturais, como incidência
de energia solar, ou por fatores antropogênicos, como despejos de efluentes industriais
(Manzolli & Paiva, 2011).
CONCLUSÃO
As análises dos dados permitiram observar que na região de Penedo a maré não
tem influência sobre a salinidade do rio, podendo as águas no ponto avaliado serem
classificadas como doce e a região como Zona de Maré do rio. Em Piaçabuçu a maré
passa a ter influência significativa na salinidade e condutividade. No trecho, a entrada da
cunha salina, proporcionada pela maré enchente, altera a salinidade da água podendo
torná-la salobra na camada de fundo, contudo, mantendo as águas das camadas
superficiais doce. Nessa região é possível observar claramente o gradiente de salinidade
proporcionado pelo seu avanço em cunha, característica do estuário com estratificação
em cunha salina.
Em baixa-mar a águas de superfície e de fundo se encontram
enquadradas como água doce e/ou salobra. De acordo com os dados coletados essa região
pode ser caracterizada como Zona de Mistura. Na região de foz, a jusante, sob condição
de topo de maré a salinidade é significativamente marcante desde a superfície ao fundo,
apresentado salinidade equivalente a água do mar, acima de 30 PSU, sendo classificada
como águas salinas. A análises dos dados permitem classificar a região como Zona
Costeira.
Durantes os intervalos avaliados a temperatura se mostraram constante
longitudinalmente, não apresentando variação expressiva a ser considerada entre os cinco
pontos avaliados. Contudo, verticalmente, foi possível observar discreta tendência de
elevação em gradiente do fundo em relação a superfície, que pode ser ocasionada tanto
pela influência da incidência da radiação solar sobre as águas superficiais como também
pelo avanço da cunha salina trazendo massa água mais diretamente do oceano. O pH foi
um dos parâmetros que mais sofreu variação horizontal e vertical sinalizando a forte
influência da maré e da estratificação salina da coluna da d’água e/ou da presença de
matéria orgânica em algumas regiões analisadas.
Apesar dos resultados apontarem para as condições acima descritas, é necessário
considerar a influência que a elevação do fluxo do rio teve sobre os parâmetros avaliados.
Sendo essencial a continuidade dos estudos para futuras comparações tendo em vista as
possíveis modificações provocadas na dinâmica do rio sob a ação desse interferente.
DESAFIOS ENFRENTADOS
Durante a expedição lidamos com alguns imprevistos referentes a disponibilidade
de embarcação para incursão aos pontos nos horários pré-estabelecidos, bem como
problemas com a disposição destas para a permanência nos pontos de coleta. O barco
utilizado nos primeiros dias era compartilhado entre as equipes responsáveis pela
Limnologia e captura de biodiversidade para estudos. Esse fator afetou a uniformização
das amostragens.
Realizar os registros dos dados ao longo do perfil vertical no mesmo ponto
converteu-se em dificuldade devido a forte correnteza nos canais mais profundos do rio.
Ao lançarmos a sonda ela era arrastada pela correnteza não alcançando o leito. Utilizamos
uma âncora reserva com um anel preso à corda e à sonda. Dessa forma o anel preso à
sonda deslizava pela corda da âncora percorrendo sempre o mesmo caminho garantido
que sonda não fosse levada pela correnteza e que estávamos realizando medidas no
mesmo ponto e em profundidade.
Outro problema enfrentado foi quanto a variação da condição de maré durante as
tomadas de medidas, o que tornou a avaliação da sua influência sobre os parâmetros
físico-químicos um pouco mais complexa. O ideal é que em cada ponto seja acompanhada
e registrada toda evolução de um ciclo.
Também é preciso destacar o impacto que teve o tipo de embarcação utilizada nos
primeiros dias sobre as coletas. Embarcações do tipo voadeira apresentam pouca
estabilidade, incidência direta de sol e espaço reduzido em seu interior o que dificulta a
longa permanência no ponto de coleta, tanto pela dificuldade de locomoção dentro do
barco, como por dificultar a visualização da tela do computador durante o registro de
dados. Contudo, o aluguel de um barco com cobertura, mais estabilidade e espaço para
permanecer à disposição somente da equipe do presente trabalho permitiu melhor
planejamento e execução na coleta de amostras.
Por fim, pode comprometer o tempo de coleta ausência de baterias extra nos
equipamentos de registro de dados (celulares e notebooks). Compreendemos que estar
com dois notebooks a bordo, ambos com carga e com bateria seria o ideal. Os celulares
também devem contar com bateria reserva caso seja usado na função GPS e para registro
de imagens.
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A Salinidade da Água no Baixo Rio São Francisco
Marcus Aurélio Soares Cruz1; Carlos Alberto da Silva1; Silvânio Silvério Lopes da
Costa2; Carlos Alexandre Borges Garcia2; Robson Dantas Viana1; Petrônio Alves Coelho
Filho3; Marco Yves de Aguiar Vitório Praxedes3
RESUMO
Mudanças ambientais severas têm sido diagnosticadas no curso do rio São Francisco,
especialmente na região do baixo São Francisco, até a sua foz. Visando fortalecer esse
diagnóstico e monitorar aspectos sócio-ambientais, foi realizada a II Expedição Científica
do Baixo Rio São Francisco, abrangendo uma área de 25.500 km2, a qual possibilitou a
coleta de amostras de água superficial e com profundidade, em 27 pontos de amostragem.
Os valores de salinidade encontrados sugerem que entre os municípios de Piranhas-AL e
Neópolis-SE as águas podem ser classificadas como água doce, não apresentando
restrição de uso para irrigação de culturas. Já para os pontos de amostragem identificados
pelos municípios de Piaçabuçu-AL e Brejo Grande-SE, as águas podem ser classificadas
como salobras. Também é possível destacar que as águas mais profundas apresentaram
maior teor de sais, devido ao avanço da cunha salina, que apresenta maior densidade que
a água doce. Os resultados encontrados demonstraram forte influência da água do mar,
que tem avançado, adentrando ao rio São Francisco, impactando diretamente na qualidade
da água e na biodiversidade deste importante rio brasileiro.
Palavras chave: Qualidade da água; cunha salina.
Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe.
Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, Sergipe.
3
Universidade Federal de Alagoas, Penedo, Alagoas.
1
2
INTRODUÇÃO
A intrusão salina e a poluição hídrica na região do BSF (Baixo São Francisco) já
foram diagnosticadas e vem afetando negativamente as atividades econômicas da região,
podendo vir a inviabilizar, em último caso, a utilização das águas para fins de
abastecimento humano, com prejuízos não restritos apenas aos municípios ribeirinhos à
calha do rio São Francisco (Gonçalves, 2016; Medeiros et al., 2016), mas a todos os
municípios que utilizam essas águas para fins de abastecimento, como é o caso do
município de Aracaju-SE. Esse cenário tem mostrado sinais de piora nos últimos anos, e
pode ser associado à exploração excessiva de recursos naturais, como a remoção de mata
ciliar em rios tributários e ao baixo nível, ou não realização, de tratamento de esgoto
urbano nos municípios da região, com impactos agravados pela ocorrência de longos
períodos de seca, levando a decisões gerenciais que não promoveram adequadamente os
usos múltiplos da água do rio (Cunha, 2015).
O regime de vazões do rio São Francisco nessa região é regido pelos reservatórios
localizados nas partes mais altas da bacia, como as barragens de Sobradinho, Itaparica e
Xingó, cujas afluências foram reduzidas nos últimos anos, devido ao uso inadequado da
terra, com redução da produção de água na bacia e aumento da erosão do solo, bem como
sucessivos períodos de seca (CHESF, 2017). Como consequência, há uma redução
gradual dos fluxos mínimos no rio, com impactos significativos, dentre os quais o avanço
da cunha salina na região da foz, causando a salinização das águas utilizadas para
abastecimento e atividades agrícolas, com alterações na biota local e diminuição dos
estoques pesqueiros, resultando no desaparecimento de algumas espécies de peixes e
crustáceos, e o surgimento de outros afeitos a ambientes salinizados. Associados a esta
questão, a menor capacidade depurativa do rio, resultado de vazões mais baixas ao longo
de períodos mais longos, contribui significativamente para a manutenção de poluentes em
concentrações prejudiciais à biota, consumo e irrigação de culturas (Medeiros et al.,
2016).
Assim, verifica-se uma diminuição da capacidade produtiva dos setores
econômicos que dependem da flutuação dos níveis de água para o seu desenvolvimento
adequado, como o cultivo de arroz e a piscicultura, por exemplo; e logicamente, uma
diminuição nos índices de desenvolvimento humano da população da região (Cunha,
2015).
Este estudo buscou caracterizar a atual situação da presença de sais nas águas do
rio São Francisco por meio de análises de amostras coletadas ao longo de pontos
localizados em diferentes municípios da região do Baixo São Francisco.
MATERIAL E MÉTODOS
A área de estudo localiza-se na região do Baixo rio São Francisco (BSF) entre os
estados de Sergipe e Alagoas, cobrindo uma área de 25.500 quilômetros quadrados, onde
vive uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes, dos quais 440.000 residem em
áreas ao longo do rio São Francisco. O estudo abrangeu os municípios alagoanos de
Piranhas, Pão de Açúcar, Belo Monte, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova,
Penedo, Neópolis e Piaçabuçu e os municípios sergipanos de Propriá e Brejo Grande,
conforme pontos de coleta referenciados na Figura 1.
Figura 1. Localização dos pontos de coleta de amostras de água do rio na região do Baixo
rio São Francisco.
Foram selecionados vinte e sete pontos para coleta de amostras de água de forma
aleatória, buscando representar o comportamento médio das seções de medição do rio
presentes em cada município. Assim, foram realizadas coletas próximas às duas margens
e em um ponto intermediário, priorizando os horários de maré alta (Figura 1). A seguir,
está disposta a tabela descritiva dos pontos de coleta de amostras de água, com
coordenadas geográficas no Datum WGS1984 (Tabela 1).
As amostras de água foram coletadas na superfície e fundo utilizando-se garrafa
de Van Dorn. A água foi transferida a bordo para garrafas de polietileno de 500 mL
previamente limpas com detergente neutro e, em seguida, em banho ácido de HNO 3 10%
v/v por 24 horas e enxaguados com água Mili-Q (18 μΩ), devidamente identificadas,
transportadas refrigeradas em caixas térmicas até o laboratório e estocadas em
temperaturas abaixo de -15 °C em freezer até o momento da análise (Figura 2). As
análises dos íons sódio (Na), cloreto (Cl), cálcio (Ca), magnésio (Mg), cobre (Cu), ferro
(Fe), manganês (Mn) e zinco (Zn) na água foram feitas com espectrofotometria de
Absorção Atômica (AAS), modelo Varian Spectr 55B AA no Laboratório de Estudos
Ambientais (Labeia) da Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, SE. As curvas de
calibração foram preparadas com soluções padrões multielementares SpecSol®. Os
parâmetros físico/químicos pH, temperatura da água, condutividade elétrica, sólidos
totais dissolvidos e salinidade foram medidos in situ por meio da utilização de uma sonda
multiparamétrica modelo Aquaread AP 2000. A análise estatística dos dados foi realizada
por meio do programa R e foram produzidos mapas utilizando o software livre QGIS.
Tabela 1. Localização dos pontos de coleta de amostras de água no BSF.
Município
Piranhas/AL
Pão de
Açúcar/AL
Belo Monte/AL
Traipu/AL
Propriá/SE
Igreja Nova/AL
Penedo/AL
Piaçabuçu/AL
Brejo Grande/SE
Ponto
PI1
PI2
PI3
PA1
PA2
PA3
BM1
BM2
BM3
TR1
TR2
TR3
PR1
PR2
PR3
IN1
IN2
IN3
PE1
PE2
PE3
PU1
PU2
PU3
FOZ1
FOZ2
FOZ3
Longitude
-37.751278
-37.749750
-37.749370
-37.447327
-37.449494
-37.450444
-37.244480
-37.244013
-37.247284
-37.006143
-37.005506
-37.006676
-36.836774
-36.831299
-36.827987
-36.672528
-36.661799
-36.660687
-36.582383
-36.580135
-36.571452
-36.430666
-36.431902
-36.442632
-36.398627
-36.407867
-36.410863
Latitude
-9.624347
-9.624700
-9.626304
-9.750914
-9.752503
-9.753866
-9.889896
-9.892764
-9.892921
-9.971428
-9.972609
-9.974881
-10.192243
-10.206496
-10.212273
-10.266311
-10.268844
-10.271721
-10.299611
-10.306073
-10.327155
-10.412070
-10.426152
-10.423743
-10.476388
-10.481488
-10.485840
Figura 3. Procedimentos de coleta de amostras de água e medição na II Expedição do
Baixo Rio São Francisco em novembro de 2019.
A avaliação da condição ambiental e de usos múltiplos das águas foi realizada por
meio da comparação aos limites estabelecidos pela Resolução CONAMA nº 357, de 17
de março de 2005; pela Portaria de Consolidação nº 5 de 28/09/2017 do Ministério da
Saúde sobre padrões de potabilidade, e limites estabelecidos pelo documento da FAO
relacionado ao uso para irrigação (Ayers & Westcot, 1994). Os valores limites utilizados
bem como as respectivas fontes de consulta estão listados na Tabela 2
Tabela 2. Limites comparativos para avaliação ambiental e de usos múltiplos para os
parâmetros medidos nas amostras de água coletadas no Baixo São Francisco.
Parâmetro
Limites
pH
6,0 a 9,0
Fonte
Águas doces < 0,5 ‰
Salinidade
0,5 ‰ < Águas salobras < 30,0‰
CONAMA 357/05
30,0‰ > Águas salinas
CE (dS.m-1)
Nenhuma < 0,7
Restrição para
irrigação
0,7 < Moderada < 3,0
SDT
2000,0 mg/L
FAO
Na+
900,0 mg/L
(Ayers & Westcot, 1994)
Ca++
400,0 mg/L
Mg++
60,0 mg/L
Cl -
1000,0 mg/L
Na+
200,0 mg/L
Cl -
250,0 mg/L
Cu
2,0 mg/L
Fe
0,3 mg/L
Mn
0,1 mg/L
Zn
5,0 mg/L
Severa > 3,0
Portaria 05/2017 MS
Potabilidade
RESULTADOS E DISCUSSÃO
As águas coletadas, tanto em superfície quanto no fundo, da localidade de
Piranhas até Neópolis/Penedo foram enquadradas como “águas doces” (águas com
salinidade igual ou inferior a 0,5 ‰) segundo a resolução CONAMA nº 357, de 17 de
março de 2005 (Tabela 2). A salinidade média foi 0,03 ± 0,007 ‰ e valores mínimos de
0,02‰ e máximos de 0,04‰ (Tabela 3). Os valores de Condutividade Elétrica (CE)
apresentaram média de 0,05 ± 0,003 dS/cm e de Sólidos Dissolvidos Totais (SDT) de
46,86 ± 9,75 mg/L, estando as águas classificadas como de nenhuma restrição ao seu uso
para fins de irrigação de culturas segundo a FAO (Tabela 2).
Os níveis de sódio (Na+) das águas superficiais e de fundo dos pontos no trecho
em questão apresentaram concentração média de 3,62 ± 0,19 mg/L e valores mínimos de
3,31 mg/L e máximos de 3,89 mg/L. Esses valores da concentração de sódio na água
encontram-se abaixo do limite de potabilidade de 200 mg/L definido para esse parâmetro
pela Portaria de consolidação nº 5 de 28/09/2017 do Ministério da Saúde, sendo viável
para o consumo humano, e portanto, sem possíveis implicações também para o uso em
irrigação de culturas (Tabela 2). Da mesma forma, as concentrações médias de cálcio
(Ca++) (5,78 ± 0,33 mg/L), magnésio (Mg++) (5,78 ± 0,33 mg/L) e cloreto (Cl-) (3,73 ±
0,30 mg/L), mostraram-se inferiores aos limites relativos ao uso para irrigação, bem como
aos padrões de potabilidade, no caso do cloreto.
As concentrações médias de cobre (0,03 ± 0,01 mg/L), ferro (0,05 ± 0,01 mg/L,
manganês (0,01 ± 0,004 mg/L) e zinco (0,02 ± 0,004 mg/L) observados nas águas
coletadas entre Piranhas e Neópolis apresentaram valores abaixo dos limites de 2,0 mg/L,
0,3 mg/L, 0,1 mg/L e 5,0 mg/L, respectivamente, estabelecidos pela Portaria de
Consolidação nº 5 de 28/09/2017 do Ministério da Saúde. Segundo Bassoi & Guazelli
(2004) valores de cobre inferiores a 0,02 mg/L são usuais em águas doces, assim como
zinco em concentrações de 0,001 a 0,10 mg/L e de manganês da ordem de 0,2 mg/L,
raramente ultrapassando 1,0 mg/L. Os valores descritos pelos autores acima estão na
mesma ordem de grandeza ou superiores àqueles obtidos nas águas doces do Baixo São
Francisco.
Tabela 3. Parâmetros ambientais medidos nos pontos coletados de Piranhas/AL até Neópolis-SE durante a II Expedição no Baixo rio São Francisco
(Média ± Desvio Padrão, Mínimo e Máximo).
Param. Temp
pH
CE
SDT
Sal
Na
Ca
Mg
Cl
Cu
Fe
Mn
Zn
dS/cm mg/L
ppt
mg/L mg/L mg/L mg/L mg/L mg/L mg/L mg/L
Unid.
°C
Média
26,72
8,16
0,05
46,86
0,03
3,62
5,78
2,01
3,73
0,03
0,05
0,01
D.P.
1,27
1,26
0,003
9,75
0,007
0,19
0,33
0,08
0,30
0,01
0,01
0,004 0,004
Min.
24,95
6,69
0,05
40,00
0,02
3,31
5,21
1,86
3,50
0,02
0,03
0,01
0,02
Max.
28,42
10,50
0,06
68,33
0,04
3,89
6,07
2,14
4,31
0,04
0,07
0,02
0,03
0,02
Nos pontos de amostragem no rio São Francisco nos municípios de Piaçabuçu e
Brejo Grande, as águas coletadas em superfície (Tabela 4) e em profundidade (Tabela 5)
foram enquadradas como “águas salobras” (águas com salinidade superior a 0,5 ‰ e
inferior a 30 ‰), conforme a resolução CONAMA nº 357, de 17 de março de 2005
(Tabela 2). A salinidade superficial média variou de 0,03‰ a 11,37 ‰ (Figura 3), e de
0,03‰ a 11,72‰ nas águas de fundo (Figura 4) no trecho do rio São Francisco na
localidade de Piaçabuçu/AL a Brejo Grande/SE. Os valores mínimos ocorreram em
Piaçabuçu e podem estar relacionados aos locais da coleta, que provavelmente estariam
sob influência de águas locais em menores concentrações de sais.
As águas amostradas no fundo apresentaram maiores teores de sais devido a
presença da cunha salina, que apresenta maior densidade que a água doce, se distribuindo
assim, abaixo de águas superficiais de menores salinidades e densidades.
Segundo a classificação da FAO (Tabela 2), as águas superficiais na região de
Brejo Grande e Piaçabuçu estariam impróprias para uso em irrigação de culturas em geral
durante a ocorrência de maré alta, em decorrência de concentrações acima do
recomendado para CE, SDT, Na+, Mg++ e Cl-. Considerando as concentrações médias
elevadas de sódio e cloreto, as águas na região de Brejo Grande e Piaçabuçu são, portanto,
também restritas a utilização do ponto de vista de potabilidade, reguladas pela Portaria
do Ministério da Saúde.
Os maiores valores de concentração das variáveis relacionadas à salinidade, foram
registradas nas amostras em profundidade em Brejo Grande, os valores máximos que
atingiram, por exemplo, salinidade de 11,72‰, acima do limite de 0,5‰ para água doce,
Tabela 2); ainda considerando a restrição ao uso da água em atividades agrícolas (Tabela
2), valores máximos de: CE de 45,0 dS.m-1 (limite de 3,0 dS.m-1), SDT de 12850,0 mg/L
(limite de 2000,0 mg/L), concentrações de Na + (9980,0 mg/L >> limite de 900 mg/L) ,
Ca++ (434,0 mg/L > 400 mg/L), Mg++ (1290,0 mg/L >> 60 mg/L) e Cl- (19330,0 mg/L
>> 1000 mg/L). Em relação as restrições ao uso para abastecimento humano (Tabela 2):
valores máximos de Na+ (9980,0 mg/L >> limite de 200 mg/L) e Cl- (19330,0 mg/L >>
250 mg/L), esses valores acima do limite ressaltam o alto grau de influência da cunha
salina na região, principalmente nas águas em profundidade.
Tabela 4. Análise estatística dos parâmetros medidos em amostras superficiais nos municípios de Piaçabuçu e Brejo Grande na II Expedição do
Baixo rio São Francisco.
Param Temp
pH
CE
SDT
Sal
Na
Ca
Mg
Cl
Cu
Fe
Mn
Zn
dS/cm
mg/L
ppt
mg/L
mg/L
mg/L
mg/L
mg/L mg/L mg/L mg/L
Unid.
°C
Média
28,96
8,14
12,52
4244,50
3,71
2580,92 108,61
310,68
4909,96
0,03
0,07
0,01
0,02
D.P.
0,53
0,08
18,38
4651,66
4,24
3750,64 147,37
464,15
7550,28
0,01
0,03
0,01
0,00
Min.
28,28
8,01
0,05
47,00
0,03
2,19
5,67
0,01
0,03
0,00
0,02
Max.
29,61
8,23
46,00
0,04
0,11
0,03
0,03
4,68
5,89
12490,00 11,37 9370,00 377,00 1185,00 19060,00
Tabela 5. Análise estatística dos parâmetros medidos em amostras em profundidade nos municípios de Piaçabuçu e Brejo Grande na II Expedição
do Baixo rio São Francisco.
Param Temp
pH
CE
SDT
Sal
Na
Ca
Mg
Cl
Cu
Fe
Mn
Zn
dS/cm
mg/L
ppt
mg/L
mg/L
mg/L
mg/L
mg/L mg/L mg/L mg/L
Unid.
°C
Média
28,60
8,15
19,36
6645,33
6,08
4395,04 183,21
520,51
7446,40
0,03
0,08
0,03
0,04
D.P.
0,47
0,03
18,45
5790,79
5,23
4247,16 175,65
524,80
7629,38
0,02
0,03
0,01
0,02
Min.
27,91
8,11
0,06
43,00
0,03
2,17
5,43
0,02
0,04
0,02
0,01
Max.
29,30
8,19
45,00
0,07
0,12
0,04
0,06
4,42
6,01
12850,00 11,72 9980,00 434,00 1290,00 19330,00
Figura 3. Variação da salinidade nas amostras de águas de superfície coletadas na II
Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco.
Figura 4. Variação da salinidade nas amostras de águas em profundidade coletadas na II
Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco.
Em relação aos limites estabelecidos para os demais cátions previstos na Portaria
do MS, os níveis médios nas águas superficiais e de fundo não se mostraram muito
diferentes: cobre de 0,03 ± 0,01 mg/L e 0,03 ± 0,02 mg/L; ferro de 0,07 ± 0,03 mg/L e
0,08 ± 0,03 mg/L; manganês de 0,01 ± 0,01 mg/L e 0,03 ± 0,01 mg/L e zinco de 0,02 ±
0,001 mg/L e 0,04 ± 0,02 mg/L, respectivamente, e encontram-se abaixo do limite
estabelecido para consumo humano.
A análise da influência entre as variáveis medidas foi realizada por meio da matriz
de correlação. Na Tabela 6 está apresentada a matriz, onde pode ser observada uma alta
correlação (>0,9) entre as variáveis, CE, SDT, Salinidade, sódio, cálcio, magnésio e
cloreto, os últimos, que se constituem em cátions e ânions diretamente relacionados com
a composição dos sais presentes na água, corroborando a forte influência da água marinha,
principalmente nos municípios de Brejo Grande e Piaçabuçu, por ocorrência das
variações das marés diárias. Não foram observadas altas correlações que envolvam as
variáveis temperatura e pH, assim como cobre. Correlações de grau intermediário (0,5 a
0,6), foram observadas entre CE, SDT, Salinidade, com relação a ferro, manganês e zinco,
o que pode indicar a presença de associação entre as causas de alterações nas
concentrações desses metais e a variação dos volumes do corpo hídrico por ocasião de
maiores vazões no rio ou enchimento da maré.
Tabela 6. Matriz de correlação das variáveis medidas na II Expedição Científica do Baixo Rio São Francisco.
Temp
Temp
pH
CE
SDT
Sal
Na
Ca
Mg
Cl
Cu
Fe
Mn
Zn
1
pH
Cu
Fe
Mn
Zn
-0.338 0.358 0.409 0.408 0.365 0.360 0.346 0.334 -0.032
0.054
0.202
0.328
1
CE
SDT
Sal
Na
Ca
Mg
Cl
0.006 0.009 0.007 0.006 0.004 0.006 0.006
1
0.314
0.985 0.986 0.995 0.996 0.996 0.997 -0.064
1
1.000 0.984 0.981 0.973 0.969 -0.043
1
0.985 0.982 0.975 0.971 -0.049
1
0.999 0.998 0.993 -0.060
1
0.999 0.996 -0.069
1
0.998 -0.075
1
-0.076
1
-0.023 0.363 -0.116
0.566
0.606
0.579
0.577
0.600
0.577
0.580
0.601
0.580
0.566
0.615
0.544
0.570
0.614
0.548
0.567
0.613
0.548
0.560
0.607
0.564
-0.078 0.144 -0.105
1
0.361
0.653
1
0.232
1
CONCLUSÕES
Com a variação da vazão das águas na região do baixo São Francisco, a qualidade
das águas também é afetada. Com isso se observou que as águas do São Francisco, nos
municípios de Piaçabuçu-AL e Brejo Grande-SE, já se encontram em processo de
salinização, essa mudança de água doce para água salobra, provoca mudanças também na
biodiversidade e, consequentemente, interfere nas atividades sócio-econômicas dos
ribeirinhos.
Faz-se de extrema relevância o estabelecimento de uma rede de monitoramento
da qualidade das águas, relativa aos teores de sais, associada à variação horária das marés
na região do Baixo rio São Francisco, de forma a um melhor entendimento das relações
entre as vazões do rio, regidas pelas liberações dos reservatórios e o alcance da cunha
salina a longo de seu curso.
REFERÊNCIAS
Bassoi, L.J., GUazelli, M.R. Controle Ambiental da Água. In: Philippi Jr., A., Romério,
M.A., Bruna, G.C. Curso de Gestão Ambiental. Universidade de São Paulo. 2004, pp.5399.
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partir da UHE Sobradinho. 45° Relatório Mensal de Acompanhamento. Companhia
Hidrelétrica do São Francisco. Dezembro. 2017.
Cunha, C.J. Regularização da vazão e sustentabilidade de agroecossistemas no estuário
do Rio São Francisco. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Geografia do
Centro de Ciências e Tecnologia. Universidade Estadual do Ceará. 2015. 231 p.
Da Silva, D. F. et al. Variabilidade da qualidade de água na bacia hidrográfica do Rio
São Francisco e atividades antrópicas relacionadas. Qualit@s Revista Eletrônica, v.9, n.3,
p. 1-17. 2010.
Gonçalves, M.J.S. Avaliação do impacto ambiental da redução de vazão na foz do Rio
São Francisco. I Simpósio da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. Anais. Juazeiro,
Bahia. 2016.
Kemker, Christine. “Conductivity, Salinity and Total Dissolved Solids.” Fundamentals
of Environmental Measurements. Fondriest Environmental, Inc. 3 março, 2014.
Disponível
em:
http://www.fondriest.com/environmental-
measurements/parameters/water-quality/conductivity-salinity-tds/ Acesso em: 04 fev.
2019.
Medeiros, P.R.P., Cavalcante, G.H., Brandini, N., Knoppers, B.A.
Inter-annual
variability on the water quality in the Lower São Francisco River (NE-Brazil). Acta
Limnologica Brasiliensia, 2016, vol. 28, e5.
Análise da Transparência, Sólidos Totais Dissolvidos e Temperatura
da Água no Baixo Rio São Francisco
Petrônio Alves Coelho Filho1, Jhennipher da Silva Pereira2, Marcus Aurélio Soares Cruz3,
Silvânio Silvério Lopes da Costa 4, Carlos Alberto da Silva3, Marco Yves de Aguiar
Vitório Praxedes1
RESUMO
O presente relatório traz uma análise da dinâmica de sólidos dissolvidos, transparência, e
temperatura da água no baixo São Francisco durante a II expedição do rio São Francisco.
Para tal, foram coletadas amostras de água superficial e próximo ao fundo, em 27 pontos
de amostragem entre Piranhas e a Foz do rio. Na região que compreende Piranhas e
Penedo foram observadas maiores transparência da água e menores concentrações de
sólidos dissolvidos evidenciando águas mais transparentes. Já em Piaçabuçu e na foz do
rio, as concentrações de sólidos foram bem superiores, diminuindo, desta forma a
transparência da água, fato que pode estar associado à presença da cunha salina e maior
turbulência na região da foz. Quanto à temperatura, foi observada pouca variação entre
as camadas de superfície e fundo, não havendo estratificação térmica na região do baixo
são Francisco. Temperaturas relativamente mais altas foram observadas na foz do rio. Os
resultados mostraram que durante o período estudado o Baixo são Francisco apresentou
águas claras com estrutura térmica estável.
Palavras chave: Água superficial, cunha salina, estratificação térmica.
1
Universidade Federal de Alagoas, Penedo, Alagoas.
Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, Pernambuco.
3
Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe.
4
Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, Sergipe.
2
INTRODUÇÃO
Os sistemas de drenagem continentais constituem a principal via de transporte de
sedimentos, nutrientes e outros materiais sob formas dissolvidas e/ou particuladas para os
oceanos (Souza & Knoppers, 2003). A concentração de material particulado de um rio é
influenciada diretamente por diversos fatores naturais da bacia, como a geologia,
geomorfologia, pedologia, vegetação natural, dentre outros. Ressalta-se, ainda, atividades
antrópicas, como o uso desordenado do solo, supressão da cobertura vegetal e construção
de barragens, ocasionando na alteração dos fluxos de descarga hídrica, sendo que, a
depender de sua magnitude e intensidade, tendem a alterar a dinâmica natural de
sedimentos em uma bacia, bem como em seu transporte para o ambiente marinho
(Medeiros et al. 2011; Medeiros et al. 2014).
Os volumes de descarga podem influenciar, ainda, em fatores como o regime de
salinidade, turbidez, concentração de nutrientes disponíveis e concentração de detritos,
que, por sua vez, afetam diretamente a composição da biota local (Purthlebaugh & Allen,
2010).
Outro fator importante relativo à qualidade da agua e composição de organismos
é a temperatura da água, sendo um dos parâmetros da qualidade ambiental associado à
sensibilidade dos organismos vivos, tanto para os organismos que as habitam como os
que a consomem, tornando esta atraente ou não para consumo, bem como a transparência,
odor e sabor, sendo este um dos fatores físicos mais expressivos a ser determinado
(Percebom et al. 2005).
O Rio São Francisco é um dos maiores rios da América do Sul, sendo também
considerado o maior rio inteiramente nacional, possuindo uma área de 639.000 km2, com
2.700 km de extensão, correspondendo a aproximadamente 8% do território nacional,
abrangendo 6 estados e 521 cidades, sendo um dos mais importantes para fornecimento
de água para consumo, geração de energia e pesca (Brito & Magalhães, 2017; Silva et al.
2003; Silva et al. 2007), possui um sistema de barragens em cascata, com 6 barragens ao
longo de seu curso, os quais apresentam uma série de impactos ambientais, que são
comuns a outros rios que sofreram processos de barramento. Considerando a importância
que o rio São Francisco possui, se faz necessário o desenvolvimento de trabalhos que
busquem caracterizar a dinâmica hidrológica, bem como mitigar possíveis ações de
manejo para minimizar impactos ambientais decorrentes de ações antrópicas.
Com isso, o presente relatório traz uma análise da dinâmica de sólidos dissolvidos,
transparência, e temperatura da água no baixo São Francisco durante a II expedição do
rio São Francisco.
MATERIAL E MÉTODOS
A área de estudo localizou-se na região do Baixo rio São Francisco (BSF) entre
os estados de Sergipe e Alagoas, cobrindo uma área de 25.500 quilômetros quadrados,
onde vive uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes, dos quais 440.000 residem
em áreas ao longo do rio São Francisco. O estudo abrangeu os municípios alagoanos de
Piranhas, Pão de Açúcar, Belo Monte, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova,
Penedo, Neópolis e Piaçabuçu e os municípios sergipanos de Propriá e Brejo Grande,
conforme pontos de coleta referenciados na Figura 1.
Figura 1. Localização dos pontos de coleta de amostras de água do rio na região do Baixo
rio São Francisco.
Foram selecionados vinte e sete pontos para coleta de amostras de água de forma
aleatória, buscando representar o comportamento médio das seções de medição do rio
presentes em cada município. Assim, foram realizadas coletas próximas às duas margens
e em um ponto intermediário, priorizando os horários de maré alta (Figura 1). A seguir,
está disposta a tabela descritiva dos pontos de coleta de amostras de água, com
coordenadas geográficas no Datum WGS1984 (Tabela 1).
Em cada ponto foram aferidas na camada sub-superficial (20cm) e próximo ao
fundo através de uma sonda multi-parâmetros modelo YSI556 a temperatura da água e o
total de sólidos dissolvidos (Figura 2). A transparência da água (ZDs) foi aferida a partir
da profundidade de extinção de um disco de Sechi de ferro com 30cm de diâmetro, e a
profundidade de compensação pela fórmula PC=ZDs x 3. A profundidade local foi aferida
através de uma ecossonda manual (Figura 2).
Figura 2. Aferição da profundidade e do total de sólidos dissolvidos durante a II
Expedição do Baixo Rio São Francisco em novembro de 2019.
Tabela 1. Localização dos pontos de coleta de amostras de água no BSF.
Município
Piranhas/AL
Pão de
Açúcar/AL
Belo Monte/AL
Traipu/AL
Propriá/SE
Igreja Nova/AL
Penedo/AL
Piaçabuçu/AL
Brejo
Grande/SE
Ponto
Longitude
Latitude
PI1
-37.751278
-9.624347
PI2
-37.749750
-9.624700
PI3
-37.749370
-9.626304
PA1
-37.447327
-9.750914
PA2
-37.449494
-9.752503
PA3
-37.450444
-9.753866
BM1
-37.244480
-9.889896
BM2
-37.244013
-9.892764
BM3
-37.247284
-9.892921
TR1
-37.006143
-9.971428
TR2
-37.005506
-9.972609
TR3
-37.006676
-9.974881
PR1
-36.836774
-10.192243
PR2
-36.831299
-10.206496
PR3
-36.827987
-10.212273
IN1
-36.672528
-10.266311
IN2
-36.661799
-10.268844
IN3
-36.660687
-10.271721
PE1
-36.582383
-10.299611
PE2
-36.580135
-10.306073
PE3
-36.571452
-10.327155
PU1
-36.430666
-10.412070
PU2
-36.431902
-10.426152
PU3
-36.442632
-10.423743
FOZ1
-36.398627
-10.476388
FOZ2
-36.407867
-10.481488
FOZ3
-36.410863
-10.485840
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A transparência da água variou entre 6,5m em piranhas e 0,5m na região da foz
do rio São Francisco, com média de 2,28 ± 1,67 m (Tabela 3). Na região de Piaçabuçu e
foz foi observada uma água mais turva, com média de 1,12±0,71 m, podendo estar
associado as altas concentrações de sólidos presentes.
Tabela 3. Valores de temperatura, sólidos totais e transparência da água para o baixo rio
São Francisco durante a II Expedição no Baixo rio São Francisco (Média ± Desvio
Padrão, Mínimo e Máximo).
Temperatura (°C)
TDS (mg/L)
Transparência
Superfície
Fundo
Superfície
Fundo
(m)
Média
27,35
27,17
61,27
59,25
2,28
Desvio Padrão
1,56
1,53
22,61
18,79
1,67
Mínimo
24,60
23,60
43,00
43,00
0,50
Máximo
29,61
29,30
89,00
89,00
6,50
Foram observadas menores concentrações de sólidos dissolvidos no trecho entre
Piranhas e Penedo, com média de 61,22 ± 22,60 mg/L para a superfície e 59,25 ± 18,79
mg/L para o fundo (Tabela 3). Já no trecho que compreende Piaçabuçu e foz do rio foram
observadas maiores concentrações de sólidos dissolvidos, com média de 4.244,5 ±
4.651,66 mg/L para a superfície e de 6.647,17 ± 5.788,28 mg/L para o fundo (Tabela 4,
Figura 3). Estes valores encontrados no segundo trecho estavam acima do determinado
pela FAO para utilização no abastecimento público e em sistemas de irrigação, o qual
estabelece um limite superior de 2.000,0 mg/L. Os maiores valores de sólidos dissolvidos
em Piaçabuçu e na Foz podem estar sendo influenciados pela maior turbulência na região
da foz do rio, e presença da cunha salina, além de outros fatores como vazão, precipitação,
uso e ocupação do solo e á cobertura vegetal (Medeiros et al. 2015).
Tabela 4. Valores de temperatura, sólidos totais e transparência da água para trecho entre
Piaçabuçu e foz do rio São Francisco durante a II Expedição no Baixo rio São Francisco
(Média ± Desvio Padrão, Mínimo e Máximo).
Temperatura (°C)
TDS (mg/L)
Transparência
Superfície
Fundo
Superfície
Fundo
(m)
Média
28,96
28,60
4.244,5
6.647,17
1,12
Desvio Padrão
0,53
0,47
4.651,66
5.788,28
0,71
Mínimo
28,28
27,91
47,00
46,00
0,50
Máximo
29,61
29,3
12.490
12.850
2,00
Observou-se uma diminuição na disponibilidade da radiação fotossinteticamente
ativa (ponto de compensação) na coluna dá água em direção a foz do Rio, reflexo da
menor transparência da água e maior concentração de sólidos, dificultando a penetração
da radiação solar, aumento a camada afótica, e possivelmente reduzindo os níveis de
produção primária (Tabela 5).
A temperatura da agua apresentou uma média de 27,35 ± 1,56 ˚C na superfície, e
27,17 ± 1,56 ˚C no fundo (Tabela 3). A estrutura térmica no baixo São Francisco não
apresentou variações consideráveis entre as camadas de superfície e de fundo, indicando
a inexistência de estratificação térmica, no entanto, maiores temperaturas da água foram
observadas em Piaçabuçu e na foz do rio, com uma média de 28,96 ± 0,53 ˚C para a
superfície e 28,60 ± 0,47 ˚C para o fundo (Tabela 4, Figura 4), podendo estar associado a
diversos fatores tais como a supressão da cobertura vegetal, insolação, e a fatores
ambientais como a estação (Esteves, 1998; Percebom et al. 2005).
Figura 3. Distribuição da temperatura da água superficial e de fundo no Baixo São
Francisco durante a II Expedição do Rio São Francisco. Valores expressos em ˚C.
Figura 4. Distribuição do TDS - total de sólidos dissolvidos na água superficial e de
fundo no Baixo São Francisco durante a II Expedição do Rio São Francisco. Valores
expressos em mg/L.
Tabela 5. Profundidade da camada fótica durante a II Expedição no Baixo rio São
Francisco.
Local
Ponto de Compensação (m)
Piranhas
19,50
Pão de Açúcar
9,60
Belo Monte
5,60
Traipu
5,00
Propriá
5,00
Igreja Nova
4,40
Penedo
6,00
Piaçabuçu
1,60
Foz
0,50
CONCLUSÃO
O Baixo são Francisco apresentou durante o período estudado águas claras, com
a coluna da água termicamente estável e com baixas concentrações de sólidos em seu
trecho inicial, aumentando em direção a Foz, devido a turbulência causada pela intrusão
marinha.
Contudo se faz necessário à realização de mais estudos bem como o
monitoramento contínuo destes e de outros parâmetros da qualidade da água do rio São
Francisco a fim de que se possa caracterizar o sistema hidrológico, bem como identificar
possíveis impactos decorrentes de ações antrópicas.
REFERÊNCIAS
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entre a tipologia e as pressões antrópicas. Geochimica Brasiliensis, v. 17, n. 1, p. 057074, 2003.
Avaliação do Potencial de Eutrofização e da Qualidade de Água no
Baixo São Francisco Alagoano
Petrônio Alves Coelho Filho 1, Emerson Carlos Soares e Silva2, Vivian Costa
Vasconcelos2
RESUMO
Este relatório avaliou o potencial de eutrofização do Baixo São Francisco através da
aplicação do Índice de Estado Trófico (IETp) em 21 amostras recolhidas nas cidades de
Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova e Penedo, e na Foz
do Rio. As amostras foram coletadas considerando-se a captação de água para
abastecimento público em cada um dos municípios, e a concentração do fósforo total foi
realizada por colorimetria para cada amostra. O potencial de eutrofização foi determinado
através da aplicação da equação do Índice de Estado Trófico baseado nos dados de fósforo
total. A partir da caracterização trófica obtida, inferiu-se que durante o período estudado
a área de estudo caracterizou-se por uma baixa biomassa fitoplanctônica com também
baixa concentração de algas cianofíceas, relativa concentração de macrófitas nos trechos
de menor profundidade, e o oxigênio dissolvido saturado-supersaturado na camada
superior e abaixo da saturação-saturado na camada inferior da coluna d’água. Assim,
conclui-se que o Baixo São Francisco alagoano esteve durante a II Expedição ao Rio São
Francisco potencialmente oligotrófico com tendência a mesotrófico, apresentando
maiores índices de eutrofização próximo aos núcleos urbanos mas sem comprometer a
qualidade e os usos múltiplos da água.
Palavras chave: IET, determinação de fósforo, usos da água.
1
2
Universidade Federal de Alagoas, Penedo, Alagoas.
Universidade Federal de Alagoas, CECA, Alagoas.
INTRODUÇÃO
Apesar dos parâmetros físicos e químicos da água serem comumente utilizados
durante a identificação do estado da qualidade da água (Botelho et al. 2013), o fenômeno
da eutrofização é determinante para a qualidade de água de um corpo hídrico, podendo
este fenômeno ter origem em um processo natural, como ocorre em lagos e reservatórios
maduros (Mendes & Almeida, 2008), ou através da intervenção humana pelo aumento da
quantidade de nutrientes no corpo hídrico, provocando crescimento exagerado de
organismos aquáticos autotróficos (microalgas, cianobactérias planctônicas e macrófitas
aquáticas) (Araújo et al. 2013).
Na avaliação dos processos de eutrofização, recomenda-se a utilização dos Índices
de Estado Trófico (IET) (ANA, 2017), que classificam os corpos hídricos em diferentes
graus de trofia, avaliando a qualidade, disponibilidade e o efeito do aporte de nutrientes
encontrados na água e que são responsáveis pelo crescimento excessivo das algas ou de
macrófitas aquáticas no meio (Maranho, 2012). Como afirma Carlson (1977), o IET
envolve três variáveis: concentração de clorofila- a, transparência da água e concentração
de fósforo total. Os resultados correspondentes ao fósforo, IET (P) são entendidos como
uma medida do potencial de eutrofização. A avaliação correspondente à clorofila-a, IET
(CL), por sua vez, é considerada como uma medida da resposta do corpo hídrico ao agente
causador, indicando de forma adequada o nível de crescimento de algas.
Todavia, as variáveis envolvidas no cálculo do Índice de Estado Trófico podem
ser avaliadas individualmente (Santos, 2012). Indicadores de Transparência, muitas vezes
não são representativos para o estado de trofia, pois normalmente apresentam elevada
turbidez decorrente de material mineral em suspensão e não apenas pela densidade de
organismos planctônicos. Assim como o indicador de Clorofila, que por ser considerado
uma medida de resposta do corpo hídrico ao agente causador e indicar o nível de
crescimento de algas em suas águas, não se encontra diretamente associado às causas da
eutrofização.
Ainda de acordo com Araújo et al. (2014), dos critérios utilizados para avaliar o
estado trófico, os mais eficazes são aqueles em que empregam os nutrientes, ou seja, os
agentes causadores do processo de eutrofização, como o fósforo, do que os que se valem
das manifestações biológicas ou dos efeitos do fenômeno, como a Clorofila e a
Transparência. O fósforo por constituir um dos principais nutrientes para os processos
biológicos e também ser considerado um macronutriente, consumido em grandes
quantidades pelas células, torna-se um parâmetro indispensável na caracterização dos
corpos hídricos visto que o seu excesso conduz a processos de eutrofização (CETESB,
2009).
Porém, os resultados referentes ao Fósforo devem ser compreendidos como uma
medida do potencial de eutrofização. Este nutriente atua como agente causador do
processo, neste caso os resultados encontrados a partir da aplicação do IET não mensuram
diretamente a eutrofização, apenas indicam o potencial e a condição de eutrofia do meio,
classificando-os em diferentes classes de trofia (Santos, 2012; ANA, 2013). Por esta
razão, no presente estudo, optou-se por analisar e calcular o IET com base no parâmetro
Fósforo Total para ambientes lênticos.
O presente trabalho tem como objetivo avaliar o potencial de eutrofização no
Baixo São Francisco, buscando gerar informações categóricas para possíveis avaliações
sobre o uso e conservação da água.
MATERIAL E MÉTODOS
A área de estudo localiza-se na região do Baixo rio São Francisco (BSF) entre os
estados de Sergipe e Alagoas, cobrindo uma área de 25.500 quilômetros quadrados, onde
vive uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes, dos quais 440.000 residem em
áreas ao longo do rio São Francisco. O estudo abrangeu os municípios alagoanos de
Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova e Penedo, e na Foz
do Rio. As amostragens programadas para Piaçabuçu não foram realizadas porque parte
da equipe adoeceu.
As amostras foram coletadas considerando-se a captação de água para
abastecimento público em cada um dos municípios citados anteriormente, da seguinte
forma: Adjacente ao ponto de captação, 500 metros a montante do ponto de captação e
500 metros a jusante do ponto de captação.
As amostras foram recolhidas e acondicionadas de acordo com a NBR 9.898
(ABNT, 1987) e a determinação da concentração do fosforo total foi realizada por
colorimetria (APHA, 2005). Os resultados laboratoriais foram interpretados dentro dos
limites estabelecidos pela Resolução 357/2005 do CONAMA (BRASIL, 2005) para o
enquadramento da classe de qualidade da água do recurso hídrico, conforme a Tabela 01.
Os resultados das análises químicas do Fósforo Total foram aplicados na equação
do Índice de Estado Trófico de Carlson modificado por Toledo Jr. et al. (1983),
empregado comumente pela CETESB, para medir o potencial de eutrofização segundo a
fórmula abaixo:
onde o P refere-se a concentração de Fósforo Total em μg/L.
Em seguida, os valores do IETp para cada ponto amostral foram classificados
segundo seu grau de trofia através dos limites propostos por Toledo Jr. et al. (1983) apud
Lamprelii (2004), conforme a Tabela 2.
Tabela 1. Limites de fósforo total para cada classe de enquadramento segundo Resolução
CONAMA n˚357 de 2005.
CONCENTRAÇÕES MÁXIMAS (mg/L)
AMBIENTE
Ambiente lêntico
Ambiente
intermediário
Ambiente lótico
Classe 1
Classe 2
Classe 3
Classe 4
0.020
0.030
0.050
>0.050
0.025
0.050
0.075
>0.075
0.1
0.1
0.15
>0.15
Tabela 2. Limites para diferentes níveis de estado trófico
CRITÉRIO
ESTADO TRÓFICO
FÓSFORO TOTAL (mg/L)
IET 24
Ultraoligotrófico
0.006
24 IET 44
Oligotrófico
0.007-0.026
44 IET 54
Mesotrófico
0.027-0.052
54 IET 74
Eutrófico
0.053-0.211
IET > 74
Hipereutrófico
>0.211
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O presente estudo apresenta uma análise estanque sobre capacidade de
eutrofização da área de estudo, dessa forma, avaliações mais extensas ficarão limitadas
pela inexistência de uma série temporal. Mesmo assim, algumas considerações foram
possíveis de serem realizadas.
Os valores de P total foram semelhantes em todas as áreas analisadas (p>0.05),
com média total de 24.64 µg/L, variando de 18.60 µg/L (captação de Penedo) a 29.60
µg/L (captação de Porto Real de Colégio) (Tabela 3). De toda forma, todas as amostras
analisadas estavam aptas para destinação de todas as classes de enquadramento da
CONAMA N˚357 para ambientes lóticos de água doce, garantindo o uso múltiplo da água
no baixo São Francisco, ao menos durante o período analisado.
De uma maneira geral, os valores de P total classificaram o trecho analisado como
oligotrófico (Tabela 3). Observando em separado, apenas Porto Real do Colégio e a Foz
do Rio podem ser classificados como mesotróficos (P total acima de 26,0 µg/L). A
aplicação do Índice de Estado Trófico (IETp) apresentou a mesma tendência apresentada
pelas análises do P total, comprovando estar a área oligotrófica durante o período das
incursões, com valor médio de IET(p) de 42,78 (Tabela 4).
Não foram encontradas diferenças significativas entre os valores de P total e IET
(p) nos diferentes municípios e locais de coleta (Tabelas 3 e 4). Porém, analisando em
separado, as amostras que se localizam no núcleo urbano do município apresentaram
maiores níveis de eutrofização e foram classificadas como mesotróficas.
Apesar das áreas de estudo serem classificadas em geral como oligotróficas, 43%
como mesotróficas (Tabela 5). Esse fato é reflexo dos números obtidos, pois os valores
de IETp, ou estavam no limite superior da oligotrofia ou no limite inferior na mesotrofia.
A partir da caracterização trófica obtida, podemos inferir que durante o período
estudado a maior parte do Baixo São Francisco caracterizou-se por apresentar uma baixa
biomassa fitoplanctônica, com baixa concentração de algas cianofíceas, com relativa
concentração de macrófitas nos trechos de menos profundidade, e o oxigênio saturadosupersaturado na camada superior e abaixo da saturação-saturado na camada inferior.
Porém, a eutrofização de um recurso hídrico é considerada progressiva, e o IETp
caracteriza-se como dinâmico, apresentando variações de classificação ao longo do
tempo, tanto para classes de maior quanto para as de menor trofia (Lamparelli, 2004). Ou
seja, demonstra a importância de ser realizado um monitoramento contínuo da qualidade
e estado trófico do Baixo São Francisco em diferentes épocas ou condições. A II
Expedição do Rio São Francisco foi realizada durante um período de intensas chuvas nos
trechos alto e médio São Francisco, o que acarretou num aumento considerável da vazão
do Rio no Baixo São Francisco, aumentando a dinâmica hidrológicas em alguns trechos
que estavam represados e com pouca circulação. Sabe-se que os ecossistemas lóticos são
mais susceptíveis a eutrofização pela lenta renovação da água e alto período de residência,
e possivelmente essa alteração da dinâmica hidrológica com o aumento da vazão na área
de estudo influenciou os resultados obtidos.
Pelos resultados, a área de estudo apresentou baixo potencial para eutrofização,
não comprometendo a qualidade da água e de sua utilização. Porém, precisa ser verificado
qual a influência dessa baixa disponibilidade de nutrientes para a produção primária e
manutenção da dinâmica trófica.
Tabela 3. Valores do fósforo total (µg/L) encontrados a montante, jusante e no ponto de
captação para abastecimento dos municípios alagoanos do Baixo São Francisco durante
a II Expedição Científica do Rio São Francisco.
Local
Montante da
captação
Captação
Jusante da
captação
Média DP
Piranhas
28.60
28.60
19.90
25.705.02
Pão de Açúcar
19.80
28.00
22.30
23.374.20
Traipú
20.60
28.60
21.20
23.474.46
Porto Real do Colégio
25.60
29.60
27.00
27.402.03
Igreja Nova
28.60
21.20
20.10
23.304.62
Penedo
20.60
18.60
28.60
22.605.29
Foz do Rio
28.60
25.40
26.00
26.671.70
Média DP
24.634.16
25.714.24
23.593.55
Tabela 4. Valores do IETp encontrados a montante, jusante e no ponto de captação para
abastecimento dos municípios alagoanos do Baixo São Francisco durante a II Expedição
Científica do Rio São Francisco.
Local
Montante da
captação
Captação
Jusante da
Média
captação
DP
Piranhas
45.10
45.10
39.87
43.363.02
Pão de Açúcar
39.80
44.80
41.51
42.042.54
Traipú
40.37
45.10
40.78
42.082.62
Porto Real do Colégio
43.50
45.60
44.27
44.461.06
Igreja Nova
45.10
40.78
40.01
41.972.74
Penedo
40.37
38.90
45.10
41.463.24
Foz do Rio
45.10
43.39
43.73
44.070.91
Média DP
42.762.49
43.382.57
42.182.15
Tabela 5. Níveis de estado trófico encontrados a montante, jusante e no ponto de captação
para abastecimento dos municípios alagoanos do Baixo São Francisco durante a II
Expedição Científica do Rio São Francisco.
Local
Montante da
captação
Captação
Jusante da captação
Piranhas
Mesotrófico
Mesotrófico
Oligotrófico
Pão de Açúcar
Oligotrófico
Mesotrófico
Oligotrófico
Traipu
Oligotrófico
Mesotrófico
Oligotrófico
Porto Real do Colégio
Oligotrófico
Mesotrófico
Mesotrófico
Igreja Nova
Mesotrófico
Oligotrófico
Oligotrófico
Penedo
Oligotrófico
Oligotrófico
Mesotrófico
Foz do Rio
Mesotrófico
Oligotrófico
Oligotrófico
CONCLUSÕES
O Baixo São Francisco alagoano esteve durante a II Expedição ao Rio São
Francisco potencialmente oligotrófico com tendência a mesotrófico, apresentando
maiores índices de eutrofização próximo aos núcleos urbanos más sem comprometer a
qualidade e os usos múltiplos da água.
REFERÊNCIAS
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amostragem de efluentes líquidos e corpos receptores. Rio de Janeiro: ABNT, 1987.
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Estrutura e Dinâmica do Microfitoplâncton do Baixo São Francisco (Alagoas e Sergipe)
Élica Amara Cecília Guedes1, Manoel Messias da Silva Costa2, Ana Karolina Lopes da
Silva3; Mariana Melo Fireman3;
Professora Doutora, Chefe do Laboratório de Ficologia – LABOFIC, Setor de Botânica, Universidade Federal
de Alagoas – UFAL.
2
Professor Doutor, Setor de Biologia, Instituto Federal de Alagoas – IFAL.
3Estudante de Graduação em Biologia, Laboratório de Ficologia – LABOFIC, Setor de Botânica, Universidade
Federal de Alagoas – UFAL
1
RESUMO
O estudo do fitoplâncton lacustre constitui informação fundamental sobre a estrutura da
produção biológica de um ambiente aquático. É de extrema importância para a compreensão do
meio, uma vez que dentro de cada ambiente existe um conjunto de formas fitoplanctônicas, cuja
variedade, abundância e distribuição são próprias e dependem da adaptação às características
abióticas. Foram analisadas 46 amostras, coletadas no período de 19 a 28/11/2019, onde foram
determinados pontos de coleta ao longo do Baixo São Francisco. As amostras foram obtidas
através de arrastos horizontais superficiais, com rede de plâncton (malha de 20 µm) e de
profundidade com garrafa de Van Dorn. As amostras foram acondicionadas em frascos e
preservadas em formaldeído à 4%, devidamente etiquetados. Foram examinadas alíquotas de 1
ml procedendo-se a análise direta em microscópio óptico binocular e a identificação baseada
em bibliografias pertinentes na área. Foram realizadas as seguintes análises riqueza de espécies,
abundância relativa, frequência de ocorrência, diversidade de Shannon (H’), equitabilidade (J),
dominância de Simpson (ʎ) e densidade (cel.mL-1). As divisões com maior representatividade
de riqueza de espécies foram Chlorophyta (60 spp.) e Bacillariphyta (39 spp.) e Cyanobacteria
(24 spp) em Traipu, observando-se uma maior predominância de Chlorophyta e Bacillariophyta
em todas as amostras analisadas. Actinastrum hantzschii, Anabaena spiroides, Ceratium
lineatum, Coscinodiscus radiatus, Cyclotella meneghiniana, Epithemia argus, Eudorina
elegans,
Eunotia monodon,
Fragilaria crotonensis,
Geitlerinema unigranulatum,
Melosira granulata,
Meridion circulare,
Nitzschia hungarica,
Nitzschia scalaris,
Spirogyra pratensis, Staurastrum leptocladum e Ulnaria ulna foram consideradas espécies
frequentes, pois estavam presentes em mais de 50% das amostras. As divisões Chlorophyta e
Bacillariophyta foram as mais dominantes com relação a riqueza de espécies fazendo com que
houvesse uma maior variação na densidade de células. Os valores de diversidade específica, de
um modo geral apresentaram uma variação de média à alta diversidade.
Palavras chave: densidade, ambiente lótico, fitoplancton
INTRODUÇÃO
O ambiente aquático é essencial na manutenção dos ecossistemas do planeta e na
existência humana, pois a água possui importância primordial para a vida, pois nenhum
processo metabólico ocorre sem a sua ação direta ou indireta (ESTEVES, 2011). Dentre os
inúmeros organismos que habitam os ambientes aquáticos, a comunidade fitoplanctônica se
constitui como uma das mais importantes, em sua grande maioria, dotados de pigmentos
fotossintetizantes, como a clorofila a, constituindo-se o primeiro elo das cadeias alimentares
aquáticas, sendo responsáveis pela produtividade primária, reflete com fidelidade os impactos
antrópicos aquáticos, uma vez que dentro de cada ambiente existe um conjunto de formas
fitoplanctônicas, cuja variedade, abundância e distribuição são próprias e dependem da
adaptação às características abióticas, sendo de extrema importância para a compreensão do
meio (RODRIGUES, 2004; REYNOLDS, 2006; RAVEN et al., 2014).
Tais estudos com o fitoplâncton contribuem preponderantemente para a compreensão
do funcionamento do sistema como um todo, devido a sua contribuição essencial na elaboração
da matéria orgânica necessária a sobrevivência dos organismos herbívoros destes ambientes
(NOGUEIRA, 2003; ESTEVES & SANT’ANNA, 2006; CÂMARA et al., 2007).
Com o aumento da eutrofização em ambientes lóticos advindos de múltiplos usos, como
abastecimento público, lazer, aquicultura e pesca, além de se modificar rapidamente tanto no
tempo como no espaço, tem permitido um rápido crescimento de algumas espécies de
fitoplâncton que estão se tornando cada vez mais comum e dominante nestes ambientes, tanto
qualitativamente quanto quantitativamente, implicando em potenciais danos à saúde da
população (RODRIGUES, 2004; PANOSSO et al., 2007; COSTA et al., 2009).
Assim, o presente trabalho teve como objetivo analisar a estrutura da comunidade
fitoplanctônica e dos índice ecológicos, proporcionando importantes informações sobre os
ecossistemas que estão em estudo o longo do baixo São Francisco.
METODOLOGIA
No presente estudo, foram analisadas 46 amostras, coletadas no período de 19 a
28/11/2019, onde foram determinados pontos de coleta ao longo do Baixo São Francisco, entre
os municípios de Piranhas-AL (PI), Traipú-AL (TR), Pão de Açúcar-AL (PA), Igreja Nova-AL
(IN), Propriá-SE (PR), Penedo-AL (PE), Piaçabuçu-AL (PU) e Foz do São Francisco.
As amostras foram obtidas através de arrastos horizontais e subsuperficiais, utilizandose rede de plâncton com abertura de malha de 20 µm (superfície) e profundidade com auxílio
de uma garrafa coletora do tipo“Van Dorn”, com capacidade de 1 litro. Após as coletas, as
amostras foram acondicionadas em frascos de plásticos tipo de aproximadamente 100 mL,
devidamente etiquetados e preservadas em formalina à 4%, sendo posteriormente transportados
ao Laboratório de Ficologia do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS) da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
A composição do microfitoplâncton foi determinada a partir da análise de montagens
lâmina-lamínulas (lâminas temporárias), visualizadas sob um microscópio óptico binocular
Zeiss (Axioscop 40). Para o estudo quantitativo, foram analisadas alíquotas de 1 mL, de acordo
com o método de método de Sedgwick-Rafter (S-R) (APHA; AWWA; WEF, 2005; CETESB,
2005).
Para a identificação taxonômica dos gêneros e/ou espécies, foram consultados trabalhos
específicos na área: Hustedt (1961-1966), Bourrely (1970), Moreira Filho et al. (1977-1978),
Streble & Krauter (1987), Anagnostidis & Komarek (1990), Parra & Bicudo (1995), Moreno et
al. (1996) e Komarek & Anagnostidis (1998). Foi utilizado o Sistema de Classificação de
Round et al. (1990) para enquadramento taxonômico das diatomáceas, o de Anagnostidis &
Komarek (1988) e Komarek & Anagnostidis (2005) para Cyanobacteria, Buchheim et al. (2001)
para Chlorophyta e o Sistema de Van den Hoek et al. (1995) para os demais grupos
taxonômicos. Todos os nomes científicos de espécies foram checados junto ao banco de dados
internacional ITIS (Integrated Taxonomic Information System) e ALGAEBASE (Guiry &
Guiry, 2014).
Após a identificação, foram realizadas contagens dos organismos e calculada a
abundancia relativa de cada táxon, utilizado a formula: A=Nx100/n onde, N = n° de espécies
na amostra; n = n° total de espécies, sendo estabelecidos os seguintes critérios: dominante –
ocorrência maior do que 50%; abundante – ocorrência entre 50 e 30%; pouco abundante –
ocorrência entre 30 e 10%; rara – menor de 10% (Lobo & Leighton, 1986).
A frequência de ocorrência (%) foi calculada a partir do número de vezes em que cada
táxon ocorreu nas porções do talo dos hospedeiros, por intermédio da fórmula: F=P×100/p,
onde, P = número de amostras contendo a espécie; p = número total de amostras, sendo
estabelecidos as seguintes categorias: muito frequente – ocorrência em mais de 70% das
amostras; frequente – ocorrência entre 70 e 40% das amostras; pouco frequente – ocorrência
entre < 40 e 20% das amostras e esporádica < 20% (Mateucci & Colma, 1982).
A riqueza correspondeu ao número de espécies encontrado em cada amostra. O índice
de diversidade específica foi calculado segundo Shannon (H’) (-∑pi.log2) (Shannon, 1948),
cujos valores foram enquadrados nas seguintes categorias: alta diversidade = ≥ 3,0 bits.cel -1;
media diversidade = <3,0 ≥ 2,0 bits.cel-1; baixa diversidade = < 2 >1,0 bits.cel-1; muito baixa
diversidade = < 1,0 bits.cel-1 (Valentin 2000). A Equitabilidade (J) foi calculada segundo Pielou
(1977), apresentando valores entre 0 e 1, sendo considerado alto ou equitativo os valores
superiores a 0.50, o qual representa uma distribuição uniforme dos táxons na amostra analisada
e dominância de Simpson (ʎ) (Magurran, 1988). Para estes cálculos foi utilizado o programa
estatístico PAST (Hammer et al., 2001).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A comunidade fitoplanctônica do presente estudo esteve distribuída nas divisões
Cyanobacteria, Bacillariophyta, Euglenophyta, Dinophyta e Chlorophyta. As divisões com
maior representatividade de riqueza de espécies foram Chlorophyta (60 spp.) e Bacillariphyta
(39 spp.) e Cyanobacteria (24 spp) em Traipu (Fig. 1).
Figura 1. Distribuição e riqueza de espécies (A) e distribuição percentual (B) do microfitoplâncton do Baixo São
Francisco (Alagoas e Sergipe).
Foi possível observar uma maior predominância de Chlorophyta e Bacillariophyta em
todas as amostras analisadas (Tabela 1).
Tabela 1. Riqueza de espécies do microfitoplâncton do Baixo São Francisco (Alagoas e Sergipe). (PI) PiranhasAL, (PA) Pão de Açúcar-AL, (TR) Traipu-AL, (IN) Igreja Nova-AL, (PR) Propriá-SE, (PU) Piaçabuçu-AL, (PE)
Penedo-AL, FOZ (Foz do São Francisco), (-) dados não existentes.
DIVISÃO
PI
PA
TR
PR
IN
PU
PE
FOZ
CYANOBACTERIA
11
19
24
21
15
12
12
3
BACILLARIOPHYTA
EUGLENOPHYTA
DINOPHYTA
CHLOROPHYTA
TOTAL
15
4
13
43
27
4
25
75
39
13
3
60
139
30
4
2
40
97
32
3
1
37
88
21
2
3
34
72
20
1
1
31
65
14
3
20
Em relação a densidade, esta oscilou de 3 cel.mL-1, na divisão Euglenophyta (amostra
de Penedo) a 3534.000 cel.mL-1 na divisão Chlorophyta (amostra de Traipu) (Tabela 2 e Fig.
2).
Figura 2. Densidade de células (A) e distribuição percentual (B) do microfitoplâncton do Baixo São Francisco
(Alagoas e Sergipe).
Tabela 2. Densidade de células (cel.mL-1) do microfitoplâncton do Baixo São Francisco (Alagoas e Sergipe). (PI)
Piranhas-AL, (PA) Pão de Açúcar-AL, (TR) Traipu-AL, (IN) Igreja Nova-AL, (PR) Propriá-SE, (PU) PiaçabuçuAL, (PE) Penedo-AL, FOZ (Foz do São Francisco), (-) dados não existentes.
DIVISÃO
PI
PA
TR
PR
IN
PU
PE
FOZ
CYANOBACTERIA
995 1099 858 1884 871 156 197
28
BACILLARIOPHYTA 1747 1172 1212 2265 2506 1560 1065 8912
EUGLENOPHYTA
- 164
45
19
7
3
DINOPHYTA
CHLOROPHYTA
TOTAL
879 579 232 212 138
48
63
2013 3227 3534 2712 3418 1250 1841
65
5635 6077 6000 7117 6952 3021 3170 9005
Durante o período estudado foram observadas espécies dominantes, que contribuíram
na densidade de células: em Piranhas com as espécies Monoraphidium griffithii (97,2%)
Terpsinoë musica (94,1%), Monoraphidium komarkovae (55,9%), em Pão de Açúcar com as
espécies, Monoraphidium komarkovae (89,3%) e M. intermedium (69,9%). Traipu com as
espécies
Closterium moniliferum
(77,8%),
Monoraphidium komarkovae (73,5%)
e
M. intermedium (69%); Igreja Nova com Eudorina elegans (60%) e na Foz com
Cyclotella meneghiniana (88,2%) e Coscinodiscus radiatus (80,4%) (ver tabelas em anexos).
Dentre as espécies do microfitoplâncton identificadas durante o período de estudo,
foram consideradas muito frequentes e frequentes, pois ocorreram em mais de 50% das
amostras
coletadas:
Actinastrum hantzschii, Anabaena spiroides,
Coscinodiscus radiatus,
Cyclotella meneghiniana,
Ceratium
lineatum,
Epithemia argus, Eudorina
elegans,
Eunotia monodon, Fragilaria crotonensis, Geitlerinema unigranulatum, Melosira granulata,
Meridion circulare,
Nitzschia hungarica,
Nitzschia scalaris,
Spirogyra pratensis,
Staurastrum leptocladum e Ulnaria ulna (ver tabelas em anexos).
Dados dos índices ecológicos (diversidade de Shannon, Equitabilidade e Dominância
encontram-se nas tabelas em anexos (ver tabelas em anexos).
CONCLUSÃO
Através dos resultados obtidos foi possível observar que a maior riqueza e abundância
de espécies das divisões Chlorophyta e Bacillariophyta entre o trecho estudado do Baixo São
Francisco (Alagoas-Sergipe), fazendo com que houvesse uma maior variação na densidade de
células. Os valores de diversidade específica, de um modo geral apresentaram uma variação de
média à alta diversidade.
A predominância de microalgas clorofíceas em água doce é um fato amplamente citado
nos estudos corroborando com as literaturas pertinentes na área. Geralmente as clorofíceas
apresentam uma grande diversidade de espécies nos ambientes aquáticos de água doce, e por
apresentarem altas taxas de reprodução e a capacidade de adaptação em diversos nichos
ecológicos, principalmente sob os aspectos físico-químicos da água.
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Tabela 3. Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Piranhas (Baixo Rio São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%), (ARS)
Abundância relativa de profundidade (%), (PI 1) região de Alagoas, (PI 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PI 3) região de Sergipe, (FO) categorias de frequência de ocorrência,
(F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Anagnostidinema amphibium (Agardh ex Gomont) Strunecký, Bohunická, Johansen & Komárek
Aphanocapsa grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Aphanocapsa koordesii Strøm
Aphanothece sp.
Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya & Subba Raju
Geitlerinema unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Gloeocapsa gigas West & West
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Oscillatoria rubescens De Candolle ex Gomont
O. tenuis Agardh ex Gomont
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira ambigua (Grunow) Simonsen
Diatoma vulgaris Bory
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
E. zebra (Ehrenberg) Kützing
Eunotia monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula integra (Smith) Ralfs
Nitzschia hungarica Grunow
N. linearis Smith
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
DINOPHYTA
Ceratium kofoidii Jørgensen
C. lineatum (Ehrenberg) Cleve
PI 1
ARS ARP
PI 2
ARS ARP
PI 3
F.O
ARS ARP
8,8
8,8
12,1
13,2
2,2
-
0,6
0,6
0,6
11,7
3,4
2,2
5,6
1,7
23,6
2,2
2,2
-
-
-
-
E
E
PF
PF
PF
E
E
PF
E
PF
E
2,2
1,1
1,1
2,2
3,3
4,4
0,6
0,6
2,2
-
2,8
1,1
1,7
0,6
1,7
10,1
2,2
0,6
0,6
0,6
2,8
-
-
1,0
94,1
-
E
E
E
P
E
E
E
PF
E
E
E
PF
PF
PF
PF
28,6
-
5,6
17,4
1,4
-
1,0
E
F
TÁXONS
DINOPHYTA
C. geniculatum (Lemmermann) Cleve
Gymnodinium aureolum (Hulburt) Gert Hansen
CHLOROPHYTA
Ankistrodesmus fusiformis Corda
Asterococcus limneticus Smith
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
Coelosphaerium kuetzingianum Nägeli
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis polydermatica Kützing
Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová
M. griffithii (Berkeley) Komárková-Legnerová
M. komarkovae Nygaard
Pandorina morum (Müller) Bory
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade (J)
Dominância de Simpson (ʎ)
PI 1
ARS ARP
3,3
-
PI 2
ARS ARP
4,5
-
-
PI 3
F.O
ARS ARP
-
-
E
E
1,1
- E
0,6
- E
1,7
1,0 PF
3,4
- E
8,8
0,6
- PF
3,0 E
0,6
- E
- 22,9
- E
- 97,2
- E
- 55,9
- E
1,1
- E
1,1
- E
0,6
0,6
1,4
- F
2,235 1,342 2,65 0,146 0,299 2,235
0,847 0,523 0,804 0,133 0,186 0,847
0,143 0,380 0,112 0,946 0,886 0,143
Tabela 4. Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Pão de Açúcar (Baixo Rio São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%),
(ARS) Abundância relativa de profundidade (%), (PA 1) região de Alagoas, (PA 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PA 3) região de Sergipe, (FO) categorias de frequência de
ocorrência, (MF) muito frequente, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS
PA 1
PA 2
PA 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
CYANOBACTERIA
Anabaena solitaria Klebahn
0,2
Anabaena spiroides Klebahn
3,5
Anagnostidinema amphibium (Agardh ex Gomont) Strunecký, Bohunická, Johansen & Komárek
Aphanocapsa grevillei (Berkeley) Rabenhorst
1,0
A. koordesii Strøm
A. delicatissima West & West
A. incerta (Lemmermann) Cronberg & Komárek
Aphanothece castagnei (Kützing) Rabenhorst
0,4
Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann
C. limneticus Lemmermann
1,4
Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya & Subba Raju
0,2
Geitlerinema splendidum (Greville ex Gomont) Anagnostidis
G. unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
10,3
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
3,1
M. protocystis Crow
0,6
M. wesenbergii (Komárek) Komárek ex Komárek
0,6
Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont
0,4
O. sancta Kützing ex Gomont
Planktolyngbya limnetica (Lemmermann) Komárková-Legnerová & Cronberg
0,4
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira ambigua (Grunow) Simonsen
1,7
Cymbella ventricosa (Agardh) Agardh
Entomoneis alata (Ehrenberg) Ehrenberg
0,4
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
0,2
E. sorex Kützing
0,4
E. turgida (Ehrenberg) Kützing
0,2
Eunotia monodon Ehrenberg
0,6
Fragilaria crotonensis Kitton
0,2
F. virescens Ralfs
0,8
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
3,7
Meridion circulare (Greville) Agardh
1,2
- 0,2 0,5
- 1,5 0,5
- 0,5
- 1,1
- 1,1
0,9
- 0,2 0,5
- 24,3
- 16,3
- 0,6
- 3,2
-
- F
4,1
- F
- 0,7 PF
0,3
- F
- E
- E
0,9
- E
- E
- PF
0,3
- PF
- 17,5 F
- 1,4 E
6,3
- F
3,1
- PF
- PF
- E
- E
1,9
- E
- PF
- 0,4
- 0,6
- 0,2
- 18,9
- 1,7
- 1,1
0,9
-
0,9
2,5
2,5
8,1
-
6,3
1,1
0,5
0,5
- F
- E
- PF
- E
- E
- E
- F
- F
1,4 F
0,7 PF
- F
- PF
TÁXONS
BACILLARIOPHYTA
Navicula integra (Smith) Ralfs
N. cryptocephala Kützing
N. placenta Ehrenberg
Nitzschia acicularis (Kützing) Smith
N. dubia Smith
N. hungarica Grunow
N. longissima (Brébisson) Ralfs
N. obtusa Smith
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Stauroneis anceps Ehrenberg
Surirella elegans Ehrenberg
S. ovata Kützing
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
DINOPHYTA
Ceratium kofoidii Jørgensen
C. lineatum (Ehrenberg)
C. fusus (Ehrenberg) Dujardin
Gonyaulax apiculata Entz
CHLOROPHYTA
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
C. ehrenbergii Meneghini ex Ralfs
Coelastrum microporum Nägeli
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis vesiculosa Nägeli
Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius
Micrasterias alata Wallich
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová
M. intermedium Hindák
M. komarkovae Nygaard
Pediastrum duplex Meyen
P. duplex var. reticulatum Lagerheim
Pleodorina indica (Lyengar) Nozaki
Spirogyra pratensis Transeau
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
PA 1
PA 2
PA 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
0,2
0,2
0,2
0,4
0,6
0,2
9,5
0,2
0,6
1,4
0,9
0,9
0,9
13,4
0,4
1,0
1,0
- 13,8
1,8
-
- 0,9
0,6
4,7
0,8
1,2
- 89,3
0,2
1,0
11,8 2,7
-
1,3
6,2
2,5
5,3
1,7
0,2
0,2
1,3
0,4
2,6
-
4,1
0,3
0,9
8,1
0,3
1,3
-
- 24,1
- 2,5
-
0,2 1,6
2,1
0,4
0,2
- 5,8
- 52,9
0,2
6,8 0,5
- 1,1
1,4
E
PF
E
E
PF
F
PF
E
MF
E
E
PF
E
F
F
- F
- PF
- PF
- E
- 2,8 E
- E
- E
6,6
- F
0,3
- PF
- E
- E
- 0,7 PF
- 69,9 E
- PF
- E
- E
- E
1,9
- MF
0,3
- PF
TÁXONS
CHLOROPHYTA
S. ecornis (Ehrenberg) Chodat
S. quadricauda (Turpin) Brébisson
Staurastrum hexacerum Wittrock
S. leptocladum Nordstedt
S. manfeldtii Delponte
S. sebaldi Reinsch
S. setigerum Cleve
S. tetracerum Ralfs ex Ralfs
Stauridium tetras (Ehrenberg) Hegewald
Volvox sp.
PA 1
PA 2
PA 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
0,2
14,4
0,2
0,2
4,5
0,9
-
0,2
9,1
0,6
0,4
- 0,6
- 0,3
- 17,2
- 0,3
0,5
-
2,8
0,7
-
E
PF
E
MF
E
PF
E
E
E
PF
Tabela 5. Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Traipu (Baixo Rio São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%), (ARS)
Abundância relativa de profundidade (%), (TR 1) região de Alagoas, (TR 2) região entre Alagoas e Sergipe, (TR 3) região de Sergipe, (FO) categorias de frequência de
ocorrência, (MF) muito frequente, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena solitaria Klebahn
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanizomenon gracile Lemmermann
Aphanocapsa koordesii Strøm
A. delicatissima West & West
A. grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Aphanothece clathrata West & West
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann
C. limneticus Lemmermann
C. pallidus Nägeli
Coelosphaeriopsis halophila Lemmermann
Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya & Subba Raju
Geitlerinema splendidum (Greville ex Gomont) Anagnostidis
G. unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Gloeocapsa conglomerata Kützing
G. gigas West & West
Lyngbya birgei Smith
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
M. protocystis Crow
Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont
O. terebriformis Agardh ex Gomont
Planktolyngbya limnetica (Lemmermann) Komárková-Legnerová & Cronberg
Spirulina subsalsa Oersted ex Gomont
BACILLARIOPHYTA
Amphiprora alata (Ehrenberg) Kützing
A. paludosa Smith
Aulacoseira ambigua (Grunow) Simonsen
Caloneis schumanniana (Grunow) Cleve
Cymbella lacustris (Agardh) Cleve
C. turgida Gregory
C. ventricosa (Agardh) Agardh
TR 1
TR 2
ARS ARP ARS ARP
TR 3
ARS ARP
F.O
2,9
1,2
1,0
4,1
0,2
0,2
0,2
5,3
-
-
1,6
0,3
0,4
2,1
4,4
3,7
0,1
1,1
4,5
4,5
3,3
0,1
0,5
0,8
1,1
-
1,4
2,1
2,1
4,1
-
1,6
5,7
2,5
7,4
0,8
1,6
2,5
0,7
3,7
0,7
5,1
-
E
F
F
E
E
E
E
E
PF
E
E
E
PF
E
F
PF
E
PF
E
PF
F
E
E
E
0,7
0,2
-
-
0,1
0,3
0,7
0,1
0,1
0,4
-
-
-
0,7
E
E
PF
E
PF
E
E
TÁXONS
BACILLARIOPHYTA
Diploneis ovalis (Hilse) Cleve
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
E. zebra (Ehrenberg) Kützing
Eunotia exigua (Brébisson ex Kützing) Rabenhorst
E. monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
F. virescens Ralfs
Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni
Gomphonema constrictum Ehrenberg
G. olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Hantzschia amphioxys (Ehrenberg) Grunow
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula integra (Smith) Ralfs
N. peregrina (Ehrenberg) Kützing
Nitzschia acicularis (Kützing) Smith
N. acuminata (Smith) Grunow
N. amphibia Grunow
N. bilobata Smith
N. brevissima Grunow
N. hungarica Grunow
N. longissima (Brébisson) Ralfs
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
N. sigma (Kützing) Smith
Pinnularia lata (Brébisson) Smith
P. mesolepta (Ehrenberg) Smith
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Surirella guatimalensis Ehrenberg
S. robusta Ehrenberg
Synedra tabulata (Agardh) Kützing
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
EUGLENOPHYTA
Euglena acus (Müller) Ehrenberg
E. caudata Hübner
E. deses Ehrenberg
TR 1
TR 2
ARS ARP ARS ARP
TR 3
ARS ARP
F.O
0,5
5,1
4,6
2,2
0,5
3,9
3,6
1,2
1,2
0,2
3,6
6,5
1,0
0,2
-
5,6
-
0,5
2,2
1,9
1,6
5,6
1,1
0,9
0,1
2,0
0,8
1,4
1,0
0,2
0,6
0,6
0,3
0,1
1,0
4,5
0,1
4,5
0,1
0,1
0,1
0,4
0,2
1,3
1,8
2,1
0,7
1,4
1,4
2,1
1,4
4,1
0,8
0,8
0,8
13,9
1,6
3,3
1,6
0,8
0,7
0,7
0,7
0,7
0,7
1,5
0,7
PF
F
E
E
F
F
F
PF
E
F
E
PF
F
E
PF
E
E
E
E
E
MF
PF
F
PF
PF
E
E
E
E
E
E
F
7,5
-
-
4,5
0,1
0,1
-
-
-
PF
E
E
TÁXONS
EUGLENOPHYTA
E. fusca (Klebs) Lemmermann
E. gracilis Klebs
E. hemichromata Skuja
E. oblonga Schmitz
E. proxima Dangeard
E. pusilla Playfair
Phacus gigas Cunha
P. onix Pochmann
P. orbicularis Hübner
Trachelomonas acanthophora Stokes
DINOPHYTA
Ceratium kofoidii Jørgensen
C. fusus (Ehrenberg) Dujardin
C. lineatum (Ehrenberg) Cleve
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Ankistrodesmus fusiformis Corda
Asterococcus superbus (Cienkowski) Scherffel
Closterium decorum Brébisson
C. dianae Ehrenberg ex Ralfs
C. moniliferum Ehrenberg ex Ralfs
Coelastrum astroideum De Notaris
C. microporum Nägeli
C. goetzei Schmidle
Cosmarium logiense Bisset
C. margaritatum (Lundell) Roy & Bisset
C. ralfsii Brébisson ex Ralfs
C. reniforme (Ralfs) Archer
C. subcostatum Nordstedt
Desmidium aptogonum Brébisson ex Kützing
D. grevillei (Kützing ex Ralfs) de Bary
Dimorphococcus lunatus Braun
Euastrum ampullaceum Ralfs
E. turgidum Wallich
E. verrucosum Ehrenberg ex Ralfs
Eudorina elegans Ehrenberg
TR 1
TR 2
ARS ARP ARS ARP
TR 3
ARS ARP
F.O
0,2
0,2
0,2
-
-
0,1
0,1
0,1
0,1
0,1
-
-
1,6
0,8
0,8
-
E
E
PF
E
E
E
E
E
E
E
7,0
0,2
1,5
1,7
0,7
1,5
0,5
0,2
1,0
-
77,8
-
3,1
0,4
0,5
1,4
0,2
1,2
0,1
2,6
0,1
0,1
0,4
0,5
0,8
0,1
0,1
1,8
0,7
0,7
0,7
1,4
-
4,1
5,7
1,6
2,5
8,2
0,8
1,6
0,8
0,8
2,5
0,7
1,5
0,7
-
PF
F
F
F
E
PF
PF
F
E
E
E
PF
E
E
E
E
E
E
F
PF
E
E
E
PF
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Gloeocystis vesiculosa Nägeli
Kirchneriella contorta (Schmidle) Bohlin
K. dianae (Bohlin) Comas
K. lunaris (Kirchner) Möbius
Micrasterias alata Wallich
M. decemdentata (Nägeli) Archer
M. laticeps Nordstedt
M. radians Turner
M. rotata Ralfs
M. truncata Brébisson ex Ralfs
Microspora flocosa (Vaucher) Thuret
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová
M. griffithii (Berkeley) Komárková-Legnerová
M. intermedium Hindák
M. komarkovae Nygaard
Pandorina morum (Müller) Bory
Pediastrum duplex Meyen
Pleodorina indica (Lyengar) Nozaki
P. sp.
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
S. dimorphus (Turpin) Kützing
S. ellipsoideus Chodat
S. ellipticus Corda
S. obliquus (Turpin) Kützing
Spirogyra pratensis Transeau
Staurastrum aculeatum Meneghini ex Ralfs
S. arctiscon (Ehrenberg ex Ralfs) Lundell
S. brasiliense Nordstedt
S. gracile Ralfs ex Ralfs
S. hexacerum Wittrock
S. leptocladum Nordstedt
S. manfeldtii Delponte
S. mucronatum Ralfs
S. ophiura Lundell
S. rotula Nordstedt
S. sebaldi Reinsch
TR 1
TR 2
ARS ARP ARS ARP
1,5
0,7
0,2
0,2
0,1
0,2
0,2
2,7
6,5
1,5
8,2
4,1
0,2
0,2
5,6
5,6
5,6
-
0,1
0,1
0,5
0,1
0,7
0,4
0,1
0,3
1,3
0,1
2,0
0,1
2,2
0,3
0,4
0,1
0,1
1,2
0,4
4,1
0,2
0,5
3,4
69,0
0,7
2,1
1,4
-
TR 3
ARS ARP
0,8
0,8
2,5
1,6
2,5
4,9
1,6
1,6
0,8
1,5
73,5
2,2
1,5
-
F.O
F
E
E
E
PF
E
E
E
E
E
E
PF
E
E
E
E
PF
E
E
F
E
PF
PF
E
F
F
E
E
E
PF
PF
PF
PF
E
E
F
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Stauridium tetras (Ehrenberg) Hegewald
Volvox aureus Ehrenberg
Xanthidium fasciculatum Ehrenberg ex Ralfs
TR 1
TR 2
ARS ARP ARS ARP
0,2
-
0,2
0,2
0,3
0,7
0,7
-
TR 3
ARS ARP
F.O
-
F
F
PF
0,7
0,7
-
Tabela 6. Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Propriá (Baixo Rio São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%), (ARS)
Abundância relativa de profundidade (%), (PR 1) região de Alagoas, (PR 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PR 3) região de Sergipe, (FO) categorias de frequência de ocorrência,
(MF) muito frequente, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena planctonica Brunnthaler
A. solitaria Klebahn
A. spiroides Klebahn
Anagnostidinema amphibium (Agardh ex Gomont) Strunecký, Bohunická, Johansen & Komárek
Aphanizomenon flos-aquae Ralfs ex Bornet & Flahault
A. klebahnii Elenkin ex Pechar
Aphanocapsa koordesii Strøm
A. grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus limneticus Lemmermann
Coelosphaeriopsis halophila Lemmermann
Geitlerinema unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Gloeocapsa conglomerata Kützing
Gomphosphaeria aponina Kützing
Lyngbya martensiana Meneghini ex Gomont
Microcystis protocystis Crow
Oscillatoria brevis Kützing ex Gomont
O. limosa Agardh ex Gomont
O. simplicissima Gomont
O. tenuis Agardh ex Gomont
Phormidium ambiguum Gomont
BACILLARIOPHYTA
Amphiprora alata (Ehrenberg) Kützing
Aulacoseira ambigua (Grunow) Simonsen
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cymbella ventricosa (Agardh) Agardh
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
E. zebra (Ehrenberg) Kützing
Eunotia exigua (Brébisson ex Kützing) Rabenhorst
E. monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
F. virescens Ralfs
PR 1
PR 2
PR 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
0,6
0,6
1,0
2,5
0,2
2,1
5,0
11,1
7,1
0,4
0,4
0,8
-
13,7
-
0,7
4,3
12,1
0,7
0,7
1,4
2,1
2,8
0,7
5,3
5,3
31,6
-
2,6
22,4
1,7
-
6,3
12,5
-
E
E
PF
E
PF
E
E
E
E
E
E
MF
E
E
E
E
PF
F.O
E
E
E
0,4
0,6
0,2
7,5
0,2
4,8
1,5
0,4
2,7
-
2,8
1,4
-
-
0,9
6,9
-
6,3
18,8
6,3
-
E
PF
E
E
F.O
E
PF
PF
PF
E
TÁXONS
BACILLARIOPHYTA
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Gyrosigma strigilis (Smith) Griffin & Henfrey
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula annulata Grunow
N. cuspidata (Kützing) Kützing
Nitzschia amphibia Grunow
N. filiformis (Smith) Van Heurck
N. hungarica Grunow
N. longissima (Brébisson) Ralfs
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Pinnularia brebissonii (Kützing) Rabenhorst
P. gibba (Ehrenberg) Ehrenberg
P. platycephala (Ehrenberg) Cleve
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Surirella guatimalensis Ehrenberg
S. linearis var. constricta Grunow
S. robusta Ehrenberg
Synedra goulardii Brébisson ex Cleve & Grunow
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
EUGLENOPHYTA
Euglena gracilis Klebs
E. limnophila Lemmermann
E. pusilla Playfair
Phacus pleuronectes (Müller) Nitzsch ex Dujardin
DINOPHYTA
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
C. fusus (Ehrenberg) Dujardin
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Ankistrodesmus falcatus (Corda) Ralfs
Arthrodesmus convergens Ehrenberg ex Ralfs
Asterococcus superbus (Cienkowski) Scherffel
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
C. parvulum Nägeli
C. ralfsii Brébisson ex Ralfs
TR 1
TR 2
TR 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
2,7
2,7
1,0
0,4
1,3
2,3
0,2
0,2
0,4
0,4
0,8
4,4
3,3
1,4
0,7
1,4
0,7
6,4
1,4
-
10,5
5,3
26,3
5,3
12,9
4,3
0,9
4,3
14,7
6,3
6,3
-
E
E
PF
F
E
PF
E
E
PF
E
PF
E
E
E
E
E
E
E
E
F
0,2
-
-
2,1
0,7
0,7
-
-
-
E
E
E
E
6,5
-
-
3,5
3,5
-
2,6
1,7
- F
- PF
3,3
0,2
0,4
0,2
1,4
-
0,7
0,7
0,7
-
5,3
-
1,7
-
-
F
E
E
E
E
E
E
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Coelastrum astroideum De Notaris
C. reticulatum (Dangeard) Senn
Cosmarium laeve Rabenhorst
C. staurastroides Eichler & Gutwinski
Desmidium baileyi (Ralfs) Nordstedt
D. grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary
Desmodesmus granulatus (Oeste & West) Tsarenko
Euastrum turgidum Wallich
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis polydermatica (Kützing) Hindák
Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius
K. obesa (Oeste) Oeste & West
Micrasterias decemdentata (Nägeli) Archer
Monoraphidium griffithii (Berkeley) Komárková-Legnerová
M. komarkovae Nygaard
Pediastrum duplex Meyen
Pleodorina californica Shaw
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
S. ellipticus Corda
S. obtusus Meyen
Selenastrum bibraianum Reinsch
Sphaerozosma granulatum Roy & Bisset
Spirogyra pratensis Transeau
Spondylosium planum (Wolle) West & West
Staurastrum arctiscon (Ehrenberg ex Ralfs) Lundell
S. leptocladum Nordstedt
S. manfeldtii Delponte
S. ophiura Lundell
S. sebaldi Reinsch
S. trifidum Nordstedt
Staurodesmus convergens (Ehrenberg ex Ralfs) Lillieroth
Westella botryoides (Oeste) De Wildeman
Xanthidium regulare Nordstedt
TR 1
TR 2
TR 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
0,2
0,6
0,2
2,9
0,4
0,2
0,4
2,1
0,4
0,2
2,3
0,2
7,1
1,3
0,2
2,3
-
6,8
6,8
11,0
52,1
1,4
2,7
-
2,8
5,0
0,7
2,8
0,7
0,7
16,3
1,4
0,7
1,4
5,0
3,5
0,7
0,7
3,5
0,7
5,3
-
0,9
1,7
15,5
0,9
3,4
-
6,3
12,5
12,5
6,3
-
E
E
E
E
PF
E
E
E
F
F
E
E
E
E
E
E
E
PF
F
E
PF
E
PF
E
E
F
E
E
PF
E
E
E
E
Tabela 7. Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Igreja Nova (Baixo Rio São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%),
(ARS) Abundância relativa de profundidade (%), (IN 1) região de Alagoas, (IN 2) região entre Alagoas e Sergipe, (IN 3) região de Sergipe, (FO) categorias de frequência de
ocorrência, (MF) muito frequente, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena solitaria Klebahn
A. spiroides Klebahn
Aphanizomenon flos-aquae Ralfs ex Bornet & Flahault
Aphanocapsa koordesii Strøm
A. annulata McGregor
A. grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus limneticus Lemmermann
Geitlerinema unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Microcystis protocystis Crow
Oscillatoria anguina Bory ex Gomont
O. limosa Agardh ex Gomont
O. tenuis Agardh ex Gomont
Phormidium ambiguum Gomont
Planktolyngbya limnetica (Lemmermann) Komárková-Legnerová & Cronberg
BACILLARIOPHYTA
Amphora ovalis (Kützing) Kützing
Anomoeoneis sphaerophora Pfitzer
Aulacoseira ambigua (Grunow) Simonsen
Biddulphia pulchella Gray
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cyclotella meneghiniana Kützing
Cymbella prostrata (Berkeley) Cleve
C. excisiformis Krammer
C. heteropleura (Ehrenberg) Kützing
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
Eunotia exigua (Brébisson ex Kützing) Rabenhorst
E. monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
F. virescens Ralfs
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
IN 1
IN 2
IN 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
0,3
0,6
1,0
1,6
2,6
16,1
0,3
0,2
1,3
1,1
-
0,3
0,5
0,3
2,1
2,6
25,9
1,8
6,2
2,9
1,4
-
2,2
2,2
2,2
2,2
2,2
2,2
-
4,8
-
F
PF
F
E
E
PF
E
PF
PF
E
E
F
E
PF
PF
0,2
0,2
0,6
0,2
10,5
3,2
0,2
1,3
0,2
20,0
-
1,3
0,3
0,3
0,8
9,3
4,7
0,5
0,3
-
1,4
21,4
21,4
10,0
2,9
-
4,4
2,2
-
33,3
4,8
-
E
E
PF
E
E
PF
E
E
PF
F
E
F
PF
E
PF
E
TÁXONS
BACILLARIOPHYTA
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula americana Ehrenberg
N. peregrina (Ehrenberg) Kützing
N. pupula Kützing
Nitzschia hungarica Grunow
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Pinnularia dactylus Ehrenberg
P. platycephala (Ehrenberg) Cleve
Pleurosigma angulatum (Quekett) Smith
Surirella elegans Ehrenberg
S. guatimalensis Ehrenberg
S. linearis Smith
S. spiralis Kützing
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
EUGLENOPHYTA
Euglena agilis Carter
E. splendens Dangeard
Phacus triqueter (Ehrenberg) Perty
DINOPHYTA
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Arthrodesmus convergens Ehrenberg ex Ralfs
Asterococcus superbus (Cienkowski) Scherffel
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
C. parvulum Nägeli
Coelastrum astroideum De Notaris
Cosmarium margaritatum (Lundell) Roy & Bisset
Cylindrocystis brebissonii (Ralfs) De Bary
Desmidium grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary
Desmodesmus granulatus (West & West) Tsarenko
Euastrum subhypochondrum Fritsch & Rich
E. turgidum Wallich
Eudorina elegans Ehrenberg
IN 1
IN 2
IN 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
6,3
1,4
0,2
0,8
3,4
8,5
0,6
1,1
0,3
0,5
8,5
-
2,6
2,1
3,1
1,6
0,8
7,0
2,9
2,9
1,4
-
2,2
2,2
4,4
11,1
4,8
4,8
4,8
4,8
F
E
E
E
E
MF
PF
E
E
E
E
E
PF
E
PF
F
0,2
0,3
-
-
1,4
-
-
-
E
E
E
-
-
9,3
-
4,4
- PF
2,4
0,6
1,3
0,3
0,2
0,2
0,3
2,1
20,0
60,0
1,6
1,6
0,3
0,3
0,3
1,3
1,4
2,9
2,9
4,4
2,2
11,1
2,2
2,2
-
-
F
E
E
PF
PF
PF
E
E
PF
PF
E
E
F
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Gloeocystis polydermatica (Kützing) Hindák
Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas
K. obesa (West) West & West
Micrasterias rotata Ralfs
M. alata Wallich
M. decemdentata (Nägeli) Archer
Monoraphidium griffithii (Berkeley) Komárková-Legnerová
Pediastrum duplex Meyen
Pseudokirchneriella subcapitata (Korshikov) Hindák
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
S. dimorphus (Turpin) Kützing
S. ellipticus Corda
Selenastrum westii Smith
Spirogyra pratensis Transeau
Staurastrum arctiscon (Ehrenberg ex Ralfs) Lundell
S. leptocladum Nordstedt
S. manfeldtii Delponte
S. margaritaceum Meneghini ex Ralfs
S. ophiura Lundell
S. sagittarium Nordstedt
S. sebaldi Reinsch
Stauridium tetras (Ehrenberg) Hegewald
Volvox aureus Ehrenberg
Westella botryoides (Oeste) De Wildeman
IN 1
IN 2
IN 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
0,2
0,3
0,2
1,9
0,2
3,7
5,0
5,5
0,5
0,2
1,1
0,2
-
-
0,3
1,0
3,6
1,3
1,3
1,8
0,3
1,6
0,3
-
4,3
5,7
5,7
1,4
4,3
1,4
-
8,9
2,2
2,2
2,2
2,2
6,7
6,7
2,2
9,5
28,6
-
F
E
E
E
E
E
PF
PF
E
PF
E
PF
E
F
E
F
E
E
E
E
PF
E
E
E
Tabela 8. Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Piaçabuçu (Baixo Rio São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%), (ARS)
Abundância relativa de profundidade (%), (PU 1) região de Alagoas, (PU 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PU 3) região de Sergipe, (FO) categorias de frequência de
ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena circinalis Rabenhorst ex Bornet & Flahault
A. solitaria Klebahn
A. spiroides Klebahn
Aphanizomenon flos-aquae Ralfs ex Bornet & Flahault
Aphanocapsa koordesii Strøm
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus limneticus Lemmermann
Geitlerinema unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Merismopedia glauca (Ehrenberg) Kützing
Microcystis brasiliensis (De Azevedo & Sant' Anna) Rigonato et al.
M. protocystis Crow
Oscillatoria tenuis Agardh ex Gomont
BACILLARIOPHYTA
Actinocyclus normanii (Gregory ex Greville) Hustedt
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cyclotella sp.
Diploneis didymus (Ehrenberg) Ehrenberg
Entomoneis alata (Ehrenberg) Ehrenberg
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
Eunotia exigua (Brébisson ex Kützing) Rabenhorst
E. monodon Ehrenberg
Fragilaria virescens Ralfs
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula cuspidata (Kutzing) Kutzing
Nitzschia hungarica Grunow
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Pinnularia lata (Brébisson) Smith
P. platycephala (Ehrenberg) Cleve
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Surirella elegans Ehrenberg
PU 1
PU 2
PU 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
0,2
0,2
0,5
1,6
0,7
1,1
-
-
0,3
0,6
1,2
0,9
1,5
25,3
4,6
3,0
0,5
0,2
9,9
0,2
0,9
3,4
0,5
-
- 0,9
- 19,1
- 3,9
- 0,3
- 4,5
- 2,4
- 0,3
- 6,7
- 0,9
- 1,2
- 1,8
- 0,6
-
0,4
1,8
0,1
3,5
0,4
0,4
-
E
E
PF
E
E
PF
PF
PF
E
E
E
PF
- 14,5
- 7,0
- 0,4
- 7,0
- 4,4
- 9,6
- 0,4
- 0,4
-
-
E
F
PF
E
E
F
E
PF
E
PF
F
PF
E
E
PF
E
E
E
E
TÁXONS
PU 1
PU 2
PU 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
BACILLARIOPHYTA
S. linearis Smith
0,7
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
5,7
EUGLENOPHYTA
Euglena caudata Hübner
E. megalithos Skuja
DINOPHYTA
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
2,1
C. fusus (Ehrenberg) Dujardin
Peridinium sp.
CHLOROPHYTA
Actinastrum aciculare Playfair
Actinastrum hantzschii Lagerheim
16,8
Asterococcus superbus (Cienkowski) Scherffel
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
0,2
Closterium parvulum Nägeli
0,2
Coelastrum astroideum De Notaris 1867
0,5
Cosmarium laeve Rabenhorst
Cosmarium moniliforme Ralfs
Cosmarium quadrum Lundell
Cosmarium reniforme (Ralfs) Archer
Desmodesmus armatus (Chodat) Hegewald
Desmodesmus maximus (West & West) Hegewald
Eudorina elegans Ehrenberg
3,0
Gloeocystis polydermatica (Kützing) Hindák
Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas
Kirchneriella obesa (West) West & West
1,4
Micrasterias decemdentata (Nägeli) Archer
Pectinodesmus pectinatus (Meyen) Hegewald, Wolf, Keller, Friedl & Krienitz
Pediastrum duplex Meyen
0,7
Pleodorina californica Shaw
0,9
Pleodorina indica (Lyengar) Nozaki
Scenedesmus acuminatus (Lagerheim) Chodat
0,2
S. bijugus (Turpin) Lagerheim
1,8
S. ellipticus Corda
S. maximus (Oeste & West) Chodat
0,7
S. obtusus Meyen
-
-
6,4
-
7,0
-
E
F
-
0,3
-
-
0,4
-
E
E
-
1,2
0,3
0,3
-
0,4
0,4
-
- F
- PF
- E
-
0,3
8,2
3,3
9,1
0,6
0,3
0,6
0,9
5,5
0,6
0,3
0,9
0,6
0,6
0,6
5,2
- 16,2
- 1,8
- 5,3
- 1,8
- 0,4
- 0,4
- 0,4
- 2,2
- 0,4
- 1,8
- 1,3
- 1,3
-
-
E
F
PF
E
E
F
PF
E
E
E
E
E
PF
PF
PF
E
E
E
F
E
PF
PF
E
E
E
E
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Selenastrum minutum (Nägeli) Collins
Spirogyra pratensis Transeau
Staurastrum leptocladum Nordstedt
Staurastrum manfeldtii Delponte
Staurastrum rotula Nordstedt
Staurastrum sebaldi Reinsch
Tetradesmus bernardii (Smith) Wynne
Volvox aureus Ehrenberg
PU 1
PU 2
PU 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
0,7
1,1
7,8
1,4
1,1
-
-
0,3
5,5
0,9
-
-
0,9
5,7
0,4
0,4
0,4
- E
- F
- F
- E
- E
- PF
- E
- E
Tabela 9. Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Piaçabuçu (Baixo Rio São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%), (ARS)
Abundância relativa de profundidade (%), (PU 1) região de Alagoas, (PU 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PU 3) região de Sergipe, (FO) categorias de frequência de
ocorrência, (PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanocapsa grevillei (Berkeley) Rabenhorst
A. delicatissima West & West
Aphanothece elabens (Brébisson ex Meneghini) Elenkin
Arthrospira platensis Gomont
Geitlerinema unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Gloeocapsa conglomerata Kützing
Lyngbya wollei (Farlow ex Gomont) Speziale & Dyck
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
M. protocystis Crow
Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont
O. platensis (Gomont) Bourrelly
BACILLARIOPHYTA
Amphiprora alata (Ehrenberg) Kützing
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cyclotella meneghiniana Kützing
Cymbella prostrata (Berkeley) Cleve
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
Eunotia monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Navicula elegans Smith
N. peregrina (Ehrenberg) Kützing
Nitzschia hungarica Grunow
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Pleurosigma angulatum (Quekett) Smith
Rhizosolenia longiseta Zacharias
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Surirella robusta Ehrenberg
Synedra goulardii Brébisson ex Cleve & Grunow
Terpsinoë musica Ehrenberg
PE 1
PE 2
PE 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
-
-
1,3
1,3
0,6
0,6
1,9
0,6
-
- 0,6
- 1,3
- 1,9
- 1,3
- 0,6
- 12,5
- 0,6
- 1,3
- 0,6
- 0,6
- 0,6
-
0,8
0,4
0,6
0,4
1,9
0,8
0,8
0,2
-
- 1,1
- 0,4
- 5,1
- 4,5
- 0,2
- 21,2
- 0,2
- 0,2
- 4,5
- 0,4
- 0,6
- 0,2
-
- PF
- E
- E
- E
- E
- PF
- E
- E
- E
- E
- E
- E
-
PF
E
E
E
E
PF
E
E
PF
E
E
PF
E
E
E
E
E
E
E
TÁXONS
BACILLARIOPHYTA
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
EUGLENOPHYTA
Strombomonas bonariensis (Seckt) Huber-Pestalozzi
DINOPHYTA
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
C. parvulum Nägeli
Coelastrum microporum Nägeli
C. reticulatum (Dangeard) Senn
Cosmarium margaritatum (Lundell) Roy & Bisset
Desmidium grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary
Desmodesmus granulatus (West & West) Tsarenko
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis vesiculosa Nägeli
Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas
K. lunaris (Kirchner) Möbius
K. obesa (Oeste) Oeste & West
Micrasterias decemdentata (Nägeli) Archer
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová
M. griffithii (Berkeley) Komárková-Legnerová
Pandorina morum (Müller) Bory
Pediastrum duplex Meyen
Pleodorina californica Shaw
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
S. ellipsoideus Chodat
S. ellipticus Corda
Sphaerozosma laeve (Nordstedt) Thomassom
Spirogyra pratensis Transeau
Staurastrum crenulatum (Nägeli) Delponte
S. leptocladum Nordstedt
S. sebaldi Reinsch
S. senarium Ralfs
S. spinosum Ralfs
Stauridium tetras (Ehrenberg) Hegewald
PE 1
PE 2
PE 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
-
-
4,4
-
2,3
- PF
-
-
-
-
0,2
-
-
-
2,5
-
1,5
- PF
-
- 0,6
- 8,8
- 5,6
- 3,8
- 1,3
- 7,5
- 0,6
- 11,3
- 15,6
- 0,6
- 1,3
- 0,6
- 6,3
- 0,6
- 1,1
- 0,2
- 0,2
- 21,2
- 7,0
- 0,8
- 0,6
- 4,0
- 0,2
- 0,2
- 0,2
- 0,2
- 0,4
- 3,4
- 1,5
- 0,2
- 2,3
- 0,2
- 0,4
- 5,7
- 0,4
- 0,2
- 0,2
-
-
E
PF
E
E
PF
E
E
PF
E
PF
E
E
E
E
E
E
E
E
PF
E
E
E
E
E
PF
E
PF
E
E
E
E
TÁXONS
CHLOROPHYTA
Westella botryoides (West) De Wildeman
PE 1
PE 2
PE 3
F.O
ARS ARP ARS ARP ARS ARP
-
-
0,6
-
-
-
E
Tabela 10. Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região da Foz Baixo Rio São Francisco).
(ARS) Abundância relativa da superfície (%), (ARS) Abundância relativa de profundidade (%), (FOZ 1)
região de Alagoas, (FOZ 2) região de Sergipe, (FO) categorias de frequência de ocorrência, (PF) muito
frequente, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (-) dados não existentes.
TÁXONS
FOZ 1
FOZ 2
F.O
ARS ARP ARS ARP
CYANOBACTERIA
Oscillatoria brevis Kützing ex Gomont
0,8
PF
O. limosa Agardh ex Gomont
1,2 PF
Pseudanabaena catenata Lauterborn
1,2 PF
BACILLARIOPHYTA
Amphiprora alata (Ehrenberg) Kützing
3,0
PF
Asterionellopsis glacialis (Castracane) Round 3,0
PF
Biddulphia pulchella Gray
2,3
PF
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
4,5 5,9 23,1 80,4 MF
Cyclotella meneghiniana Kützing
72,0 88,2 76,9
MF
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
3,7 PF
Euastrum attenuatum Wolle
0,8
PF
Eunotia monodon Ehrenberg
1,5 5,9
1,2 PF
Gyrosigma strigilis (Smith) Griffin & Henfrey 1,5
PF
Melosira arenaria Moore ex Ralfs
2,3
PF
Navicula elegans Smith
0,8
PF
Nitzschia scalaris (Ehrenberg) Smith
4,3 PF
Stephanodiscus astraea (Kützing) Grunow
4,5
PF
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
0,8
7,4
F
CHLOROPHYTA
Pediastrum duplex Meyen
1,5
F
Staurastrum leptocladum Nordstedt
0,8
PF
S. orbiculare Meneghini ex Ralfs
0,6 PF
PARTE III
SOCIOECONOMIA E
EDUCAÇÃO
AMBIENTAL
A agricultura familiar no baixo São Francisco: perfil sócio produtivo e
segurança alimentar
(Family farming in the lower São Francisco: socio-productive profile and food security)
Rafael Navas13; Emerson Fonseca de Oliveira Filho14; Guilherme Netter15
RESUMO
A agricultura familiar no Baixo São Francisco é composta pela diversidade de sujeitos,
que buscam por meio do manejo dos recursos naturais garantir sua sobrevivência. É
partindo dessa diversidade, que o presente trabalho busca caracterizar as famílias nos
aspectos sócio produtivos e verificar a situação de segurança alimentar. A coleta de dados
ocorreu com uso de técnicas qualitativas de pesquisa. A agricultura familiar é
representada por assentados da reforma agrária, pequenos sitiantes, extrativistas e
pescadores artesanais. Em todas as comunidades analisadas, é evidente a baixa
escolaridade entre os adultos, em especial os homens, bem como não há sistema de
tratamento de esgoto e é restrito os locais com coleta de resíduos. O acesso à água é um
dos principais problemas das famílias, limitando o desenvolvimento de atividades
produtivas e refletindo na segurança alimentar. Atividades econômicas que buscam a
convivência com as condições ambientais, como apicultura e extrativismo, tem se
mostrado promissoras para o desenvolvimento rural, bem como acesso aos programas de
compras governamentais. A pesca artesanal apresenta dificuldades de realização, em
razão das mudanças ambientais e na ocorrência das espécies, com impacto na manutenção
das famílias.
Palavras chave: Extrativismo; Pesca artesanal; Assentamentos; EBIA; Desenvolvimento
rural.
ABSTRACT
Family farming in the Lower São Francisco is composed by the diversity of subjects, who
seek through the management of natural resources to guarantee their survival. It is from
this diversity that the present work seeks to characterize families in socio-productive
aspects and to verify the situation of food security. Data collection was realized using
qualitative research techniques. Family farming is represented by land reform settlers,
small farmers, extractivists and artisanal fishermen. In all the analyzed communities, low
education among adults, especially among men, is evident, as well as there is no sewage
treatment system and places with waste collection are restricted. Access to water is one
of the main problems for families, limiting the development of productive activities and
reflecting on food security. Economic activities that seek to live with environmental
conditions, such as beekeeping and extractivism, have shown promise for rural
development, as well as access to government programs. Artisanal fishing presents
13
Professor da Universidade Federal de Alagoas – Centro de Ciências Agrárias. rafael.navas@ceca.ufal.br
Graduando em Agroecologia – Universidade Federal de Alagoas. emersonvinil@yahoo.com.br
15
Graduando em Engenharia Florestal - Universidade Federal de Alagoas. gnetter@msn.com
14
difficulties in realization, due to environmental changes and the occurrence of species,
with an impact on the maintenance of families.
Key words: Extractivism; Artisanal fishing; Settlements; EBIA; Rural development.
INTRODUÇÃO
A região do Baixo São Francisco se caracteriza pelos grandes investimentos estatais
e privados direcionados principalmente para o setor hidrelétrico e para a modernização
da agricultura, com a criação de perímetros irrigados. Essa região é uma das mais
conflitantes do Nordeste brasileiro, pois localiza-se em ambiente árido, em que a água é
a principal força motriz das comunidades rurais. Dessa forma, fatores ligados a pesca,
aquicultura, geração de energia elétrica, poluição oriunda dos esgotos das cidades,
assoreamento, uso de agrotóxicos, desmatamento de matas ciliares, avanço da cunha
salina, alterações de vazão, endemismo de espécies, entre outras atividades, refletem
diretamente na vida social, econômica e ambiental dessa região.
O Baixo São Francisco passou por grandes impactos a partir da construção das
hidrelétricas, com alterações na dinâmica ambiental (CUNHA, 2006; VARGAS, 1999) e
como consequência, as comunidades ribeirinhas enfrentam até hoje dificuldades para
manter os modos de reprodução social no lugar, em decorrência dos impactos
socioambientais que as colocam em situação de risco social, principalmente os
pescadores, gerando incertezas sobre a continuidade dessa atividade, devido à crescente
redução do pescado, bem como dos problemas para a agricultura decorrente do aumento
da cunha salina. Pesquisas tem evidenciado que a redução de vazão e carga de sedimentos
afetaram as atividades de navegação, pesca e agricultura (MARTINS et al., 2011;
HOLANDA et al., 2009).
Os conflitos na região ocorrem em torno do controle sobre os recursos naturais,
com implicações em todas as dimensões da vida social e impactos ao meio ambiente,
como contaminação do solo e da água, esgotamento dos recursos e degradação dos
ecossistemas (LITTLE, 2001).
Além dos fatores citados, as classes de solo predominantes exercem forte influência
nas formas de uso do espaço agrícola. Os principais rios que integram as grandes regiões
hidrográficas e que desaguam no Baixo São Francisco, em sua maior parte, sofrem com
o período de estiagem e não dispõem de águas em seus leitos permanentemente. Este fato
está diretamente relacionado aos aspectos climáticos da região. Contudo, a sua ocorrência
serve para evidenciar ainda mais o papel fundamental que o rio desempenha no cotidiano
das populações situadas no semiárido, especialmente para o desenvolvimento da
agricultura, pecuária e abastecimento humano. Do total de bacias que desaguam no Baixo
São Francisco, apenas sete rios dispõem de água durante praticamente todos os meses do
ano.
Diante desse contexto, a região apresenta um conjunto diversificado de sistemas
agrícolas, formados por áreas ocupadas predominantemente com cana-de-açúcar, arroz,
milho, feijão, algodão, entre outras lavouras de autoconsumo (NASCIMENTO et al.,
2013). Se destaca também pelos assentamentos rurais, com produção de grãos, frutas,
leite, hortaliças e criação de pequenos animais, dando um bom exemplo da diversidade
existente.
Segundo Nascimento e Oliveira (2016) no Baixo São Francisco em Alagoas, ainda
há predomínio das áreas dedicadas às pastagens, seguido de áreas agrícolas, com destaque
para cana-de-açúcar e arroz. Sabe-se que no manejo das grandes culturas, como as acima
citadas, faz-se uso de agrotóxicos, entretanto não existem informações a respeito dos
principais princípios ativos utilizados na região. Quanto a vegetação nativa, a área
corresponde a 10,96%, sendo dispersa por toda a área em pequenos fragmentos (IBGE,
2019; NASCIMENTO e OLIVEIRA, 2016).
Nesse cenário, os dados apresentados nessa seção buscam caracterizar a agricultura
familiar e suas organizações no Baixo São Francisco.
O TRABALHO DE CAMPO PARA COLETA DE DADOS
O trabalho de levantamento de dados ocorreu nos municípios percorridos pela
Expedição Científica, nos estados de Alagoas e Sergipe, sendo: Piranhas, Traipu, Igreja
Nova, Porto Real do Colégio e Piaçabuçu no estado de Alagoas; e Neópolis no estado de
Sergipe. Em algumas localidades, como Pão de Açúcar, Penedo e Brejo Grande não
realizou-se coleta de dados, pois mesmo com a realização das ações prévias, pela logística
e dias de realização da Expedição, não foi possível às comunidades estarem em seus
bairros para a realização das entrevistas. Isso se deve aos dias em que as famílias vão para
as cidades realizarem a venda de seus produtos e também ações que já haviam sido
agendadas entre os grupos e impossibilitaram a realização do trabalho de campo para
coleta de dados.
Previamente à Expedição, a equipe da Universidade Federal de Alagoas juntamente
com o Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável de Alagoas
(EMATER) definiram os grupos e o contato prévio foi realizado, bem como a agenda de
visitas aos mesmos.
As informações aqui apresentadas foram obtidas por meio de entrevistas
semiestruturadas com famílias de cada comunidade (realizaram-se entre 11 e 25
entrevistas em cada comunidade), identificando aspectos socioeconômicos, ambientais e
produtivos. Essa técnica é uma combinação de perguntas fechadas e abertas e de acordo
com Triviños (1987) permite ao informante discorrer sobre suas experiências, a partir do
foco principal proposto pelo pesquisador, além de permitir respostas livres e espontâneas
do informante.
Para o levantamento de informações sobre consumo alimentar foi utilizada a
frequência de consumo, sendo um questionário composto por uma lista de alimentos e
bebidas, apresentado ao indivíduo, que indicou a frequência de ingestão semanal,
classificando o consumo como: raro (alimento consumido no máximo uma vez por
semana), pouco (item consumido de 2 a 3 vezes por semana) e frequente (item consumido
mais de 3 vezes na semana) (HOLANDA e BARROS FILHO, 2006), com identificação
da origem dos produtos.
Para o diagnóstico de segurança alimentar foi utilizada a versão curta da Escala
Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), proposta por Santos et al. (2014).
No município de Neópolis/SE visando a coleta de informações sobre a percepção
de ocorrência das espécies de pescados, utilizou-se adaptação da técnica de listagem livre,
na qual cada pescador(a) foi estimulado a nomear as espécies que pesca/captura
independentemente da finalidade, classificando-as como frequentes e raras/pouco
comuns. A listagem livre é considerada um método bem estabelecido, relacionado às
fronteiras de domínios culturais, que parte do pressuposto que quando as pessoas listam
livremente elas tendem a citar os termos em ordem de familiaridade - os indivíduos que
sabem mais sobre o conteúdo solicitado listam mais do que aquelas que sabem menos - e
os termos que são mais lembrados indicam que são localmente mais proeminentes.
Considera-se que as espécies mencionadas com frequência indicam um conhecimento
comum entre os indivíduos, ou consenso, dentro de uma determinada cultura ou grupo
(QUINLAN, 2005).
RESULTADOS OBTIDOS
A PRODUÇÃO DE MEL NO SERTÃO ALAGOANO COMO ESTRATÉGIA DE
DESENVOLVIMENTO RURAL
O Projeto Arajuba
O Arajuba (significa mel da cor dourada) é um projeto de fortalecimento da
apicultura no sertão de Alagoas, cuja proposta está relacionada às atividades que o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desenvolve junto às áreas de
assentamentos e acampamentos, pensando no desenvolvimento produtivo, ambiental e
econômico dessas áreas, tendo a apicultura se mostrado uma atividade possível e
necessária, sobretudo nessa região semiárida. O projeto no alto sertão alagoano está
inserido nos municípios de Inhapi, Mata Grande, Delmiro Gouveia, Olho D’agua do
Casado e Piranhas e iniciou no final do ano de 2014 e conta com aproximadamente 80
participantes.
O Arajuba teve início por meio de uma parceria entre o MST e a Fundação
Interamericana, que proporcionou suporte para o desenvolvimento de algumas ações,
desde a base da cadeia produtiva nas áreas de assentamentos rurais com o fornecimento
de caixas, insumos, materiais e assistência técnica para as famílias poderem desenvolver
a apicultura, e formação, que envolveu a implantação e manutenção dos apiários, e a
comercialização dos produtos, que vem ocorrendo nas feiras locais e feiras da reforma
agraria.
Com esse aporte de material e assistência técnica, o MST desenvolveu núcleos
apícolas em algumas áreas de assentamentos, iniciando o projeto e em seguida realizando
inserções nas ações da cadeia produtiva, com processos de formação, capacitação, até a
produção do mel. Em uma etapa futura, está viabilizando a instalação do entreposto do
mel, que consiste no processamento do produto, partindo-se da centrifugação até o
envasamento de forma industrial, haja visto que a comercialização ocorre de forma
artesanal. Contudo, o MST está realizando os procedimentos legais para a instalação da
agroindústria.
Atualmente o projeto se desenvolve em dez assentamentos, envolvendo jovens,
mulheres e homens, e segundo a coordenadora “há uma reconexão e um pertencimento
do homem com o campo, uma relação com a natureza que a apicultura possibilita, com
fator adicional na promoção da preservação ambiental também”.
Para a coordenadora, o Projeto vem se aprimorando e um fator diferenciado da
melhor qualidade do mel produzido é o fato de trabalharem com florada nativa da
caatinga, proporcionando um mel com cor e sabor diferenciados. Outro ponto focal do
Projeto é a forma de produção do mel, baseado no trabalho coletivo nos assentamentos,
que envolve o manejo, mas também as relações humanas integradas com a preservação
do meio ambiente. Adicionalmente, busca o envolvimento da juventude, que tem sido a
base desse trabalho, promovendo a troca de saberes entre diversos assentamentos e
contribuindo para que o jovem permaneça no campo produzindo, agregando renda as
famílias, por meio do desenvolvimento de uma atividade que aproveita o potencial da
região e a “nova” relação homem natureza, preservando as abelhas. Destaca-se também
que muitos jovens inseridos na atividade são filhos e netos de assentados, que vem
auxiliando na forma de manejo, captura e manutenção das abelhas africanizadas. Todas
os envolvidos no Projeto fazem parte das associações de produção da agricultura familiar
dos assentamentos, com histórico organizativo nas mais variadas áreas, como a social,
por meio do acompanhamento das escolas, a dimensão econômica, com o planejamento
da produção primaria e a comercialização no mercado local, e o político, com a
organização de espaços de representação coletivo.
Os apicultores entrevistados
A faixa etária das famílias entrevistadas (gráfico 1) mostra presença expressiva de
jovens, que continuam residindo no meio rural. Esse dado reforça as ações, políticas e
projetos específicos para esse público, buscando fonte de trabalho, renda e meios para sua
permanência no campo. Em pesquisa no estado de Sergipe, Oliveira et al. (2010) também
observaram presença expressiva de jovens na apicultura, evidenciando que esse grupo em
fase de afirmação no mercado de trabalho estava se interessando pela atividade.
Número de pessoas
Gráfico 1. Faixa etária dos entrevistados.
10
8
6
4
2
0
0-5
6-10
11-15
16-20
21-40
>40
Idade
Mulheres
Homens
De acordo com presente estudo é possível observar que a ocupação de todos os
moradores é com atividades agropecuárias, nos quais cerca de 30 jovens e adultos se
dedicam a essa prática, com destaque para a apicultura, que vem sendo desenvolvida
recentemente com a implantação do projeto Arajuba. Outras pesquisas tem demonstrado
que essa atividade pode contribuir com a renda e permanência dos jovens no meio rural
(CANO et al., 2015; CONCEIÇÃO et al., 2012). Diferentemente de outros casos no
Nordeste (OLIVEIRA, 2015), a apicultura no sertão alagoano vem sendo desenvolvida
também pela população jovem, por meio do incentivo do Projeto Arajuba, contribuindo
para a permanência desse grupo no meio rural.
Quanto a escolaridade, verifica-se alto número de membros das famílias se
dedicando aos estudos (46%), possivelmente, devido ao quantitativo de crianças e
adolescentes e a presença do Programa Bolsa Família, pelo qual 79% dos núcleos
familiares tem acesso. Porém, 10% dos membros destas famílias (adultos em sua
maioria), não são alfabetizados e 14% concluíram o ensino médio.
Com relação a moradia, 93% das casas são de alvenaria e 7% de taipa, pois em
alguns casos, não houve liberação de recursos para construção das residências por meio
do Programa de Habitação Rural. Todas as residências possuem energia elétrica, porém
nenhuma dispõe de sistema de tratamento de esgoto, possuindo fossa negra. Quanto ao
destino dos resíduos, a alternativa encontrada pelas famílias é a queima, devido à ausência
de coleta pela rede pública.
A fonte principal de renda de todas as famílias entrevistadas se dá com a produção
de mel, tendo as demais criações (galinha, ovelha, boi, cabra e porco) a finalidade de
autoconsumo e venda de algum excedente. Os agricultores inseridos no projeto têm
realidades distintas, porém nota-se que a produção agrícola e animal é direcionada para o
autoconsumo. A explicação mais plausível para este fato deve-se aos plantios ocorrerem
apenas na estação chuvosa e mesmo sendo uma fonte de renda não monetária, pois a
família deixa de comprar esses alimentos, acaba por reduzir o ingresso de recursos
financeiros, já que o excedente normalmente é comercializado em determinadas épocas e
a preços baixos, o que limita a manutenção das famílias e a compra de outros bens
necessários não produzidos localmente. Nessa lógica, os agricultores tem buscado
otimizar os sistemas agrícolas com a produção de insumos locais, onde 83% produzem
os alimentos para os animais e apenas 17% combinam a produção com a compra parcial
dos alimentos, agregando mais autonomia para as famílias e menor dependência externa
de insumos. Mesmo com as dificuldades para a prática da agricultura, o cultivo de palma
e pequenas áreas de pastagem tem contribuído para o manejo das criações.
Além da criação animal, os cultivos vegetais também são importantes para a
manutenção das famílias, havendo diversidade de cultivos, tanto frutíferas, quanto
hortaliças e raízes, sendo milho e feijão as mais cultivadas. Essa produção se caracteriza
essencialmente para autoconsumo e a venda é realizada com os excedentes, tendo
importância como fonte de renda não monetária. Porém, devido as condições climáticas,
os plantios ocorrem apenas no período chuvoso, em especial com as culturas anuais, como
milho e feijão, sendo as mais cultivadas entre as famílias. Destaca-se que as práticas
agrícolas utilizadas são agroecológicas, onde nenhum agricultor faz uso de agrotóxicos,
contribuindo com a diminuição do possível impacto que o uso destes produtos poderiam
causar às abelhas, e por maior conscientização adotada pelas práticas do MST, que vem
incentivando a agroecologia como ferramenta de trabalho no desenvolvimento dos
assentamentos.
A baixa disponibilidade de água, que poderia permitir o cultivo ao longo do ano,
evidencia a importância de atividades que gerem renda e produtos que considerem os
fatores hídricos locais, sendo a apicultura desenvolvida com florada nativa e com apelo
da preservação do bioma caatinga e insere-se nas propostas de convivência com
semiárido, que implica na busca de alternativas tecnológicas que possibilitem valorizar
potencialidades e vocações compatíveis com as reais condições naturais da região e com
seu contexto social, ao invés de tentar transformá-la. Pesquisas tem evidenciado que a
produção de mel tem contribuído para a geração de renda entre agricultores familiares,
sua melhor distribuição ao longo do ano e relaciona aspectos sociais, econômicos e
ambientais, contribuindo para a fixação da população no campo, com a adoção de práticas
sustentáveis, gerando renda, trabalho e alimento às famílias (COSTA et al., 2016;
NAVAS et al., 2015; BOTH et al., 2009; WOLFF et al., 2009).
O número de colmeias por família entre os integrantes do Arajuba varia de 4 a 25,
com média de 15 unidades, o que influencia na renda mensal, que é heterogênea entre o
grupo, com algumas famílias recebendo entre ½ a 1 salário mínimo, e outras com renda
de 1,7 salários mensais, somando o recebimento de aposentadorias e bolsa família. A
variação observada entre os envolvidos no projeto está relacionada ao número de
colmeias existentes, bem como ao nível tecnológico que se encontra cada família, com
algumas tendo iniciado a atividade mais recentemente, porém os dados evidenciam o
potencial de geração de renda aos agricultores por meio da produção apícola.
Fachini et al. (2010) analisaram a apicultura no Sudoeste Paulista e concluíram que
alguns fatores contribuíram na caracterização da atividade, tornando-a importante para
agricultura familiar, sendo a organização da atividade - relacionada às variáveis internas
à propriedade, principalmente a logística utilizada; a experiência do produtor e como essa
influencia o manejo da apicultura; a produtividade, através das floradas utilizadas e o
número de colmeias que cada apicultor possui; e o associativismo, evidenciado nas
relações de parceria entre os apicultores, com formação de grupos pequenos para colheita
e extração do mel, bem como para o uso conjunto dos equipamentos de processamento.
Por outro lado, Barbosa e Souza (2013) destacaram que as principais deficiências
tecnológicas dos apicultores quanto aos equipamentos estava relacionada a baixa
frequência de uso de peneira inox no processo de beneficiamento do mel (equipamento
importante para filtrar as partículas oriundas do processo de desoperculação e
centrifugação) e grande parte utilizava centrífuga manual, demandando mais esforço do
produtor. Para os autores, essas diferenças tecnológicas observadas entre os apicultores
são explicadas por fatores como escolaridade, quantidade de colmeias, crédito, atividade
principal, anos de experiência e modalidade de manejo (fixo ou migratório). Já no projeto
Arajuba, não há casa de mel até o momento e a extração é realizada em conjunto com uso
de uma centrífuga dos apicultores, entretanto, está previsto a construção de um entreposto,
à espera de aprovação pelos órgãos competentes.
Quanto a venda de mel, o projeto alvo do presente estudo, destaca-se como principal
fonte de renda da maioria das famílias e é realizada coletivamente em feiras e/ou direto
aos consumidores. A importância da apicultura para a renda dessas famílias se deve às
limitações para a prática da agricultura na região devido as secas e a falta de acesso à
água para irrigação, evidenciando o potencial da atividade, diferentemente de outras
localidades em que a apicultura apresenta-se como complementar para a composição da
renda. A importância do mel como principal produto da apicultura também foi relatada
por Oliveira et al. (2010), sendo esse produzido por quase a totalidade de agricultores em
Sergipe, provavelmente por ser um dos produtos de mais fácil obtenção, que exige pouca
atenção, menor tempo do apicultor, menor nível de capacitação e acessórios para a
produção. Porém, uma das principais limitações que impactam na renda oriunda da
apicultura da região Nordeste está justamente relacionada a essa forma precária como
seus produtos são produzidos e comercializados, o que acaba por dificultar que o produtor
receba o preço justo pelos produtos e muitas vezes a venda ocorre para atravessadores.
Segundo Oliveira (2015) cerca de 60% dos apicultores comercializavam o mel de forma
artesanal, diretamente para o consumidor no mercado local. Barbosa e Souza (2013)
destacaram que o fracionamento manual do mel e o uso de recipientes não padronizados
para comercialização ocasiona perda de qualidade e valor no mercado, como também de
competitividade.
Outro fator limitante aos agricultores é com relação a disponibilidade de água e
exige das famílias a combinação de diferentes estratégias para o abastecimento restrito
desse recurso, tanto para consumo doméstico, quanto para criações, porém, mesmo com
a construção das cisternas, 43% das famílias ainda necessitam, em algum momento, de
carro pipa para fornecimento de água, principalmente pelo longo período de seca
registrado nos últimos anos, não sendo suficientes para o armazenamento completo das
cisternas. Essas tem a finalidade de abastecimento doméstico e são construídas com
capacidade de armazenamento de 16 mil litros, quantidade suficiente para suprir as
necessidades básicas de uma família de cinco pessoas por períodos de estiagem de até
seis meses. Do total de famílias entrevistadas, apenas 21% possuem a cisterna-calçadão,
destinada ao armazenamento de água para cultivo e/ou criação animal, sendo uma
tecnologia social com capacidade de estocar até 52 mil litros de água, ligada a um
calçadão de 200 m² que serve como área de captação da água das chuvas. A tecnologia
foi certificada em 2011 e desenvolvida pela Associação Programa Um Milhão de
Cisternas para o Semiárido em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e
Combate à Fome (MDS), tendo como principal objetivo melhorar o acesso à água para
produção de alimentos saudáveis e garantir a segurança alimentar e nutricional da
população. Porém, o baixo percentual de famílias com essa tecnologia dificulta a
produção, inclusive do mel, devido a morte de abelhas e perda das colmeias ocorridas
pela falta de água, o que evidencia a falta de acesso a este tipo de política pública.
Destaca-se que as hortaliças e frutíferas cultivadas são observadas entre as famílias
que possuem a cisterna calçadão, tendo extrema importância para manutenção das
atividades produtivas e geração de renda, bem como contribui para a segurança alimentar,
por meio da oferta de maior diversidade de itens cultivados.
As principais políticas públicas que contribuem para a renda familiar citadas pelas
famílias foram Bolsa Família, com 79% dos entrevistados e 14% com acesso a
aposentadoria.
Dentre as limitações existentes para o avanço da apicultura no sertão alagoano,
destaca-se a falta de assistência técnica com relação a atividades de manejo e inovações
tecnológicas, falta de acesso à crédito para impulsionar a produção, principalmente para
inserção de novos agricultores e em especial os jovens, que não dispõem de recursos para
compra de cera e outros materiais para a atividade. O Projeto Arajuba proporcionou
qualificação técnica dos apicultores e forneceu os insumos iniciais para a produção,
contudo é necessário que as famílias contem com serviços de assistência técnica e crédito
para investirem e ampliarem a atividade.
Desafios e perspectivas
A apicultura tem se mostrado como atividade capaz de proporcionar renda para
agricultura familiar e a inserção dos jovens, contribuindo para sua permanência no meio
rural, principalmente no semiárido, que limita a agricultura aos períodos chuvosos. Além
disso, tem o potencial de contribuir com a conservação do bioma caatinga, um dos mais
ameaçados pelas ações antrópicas.
O acesso pela população aos serviços básicos, como educação para adultos,
saneamento, habitação rural e água atualmente são limitantes e determinantes para a
permanência do público no meio rural, com ganhos na qualidade de vida.
As políticas públicas de transferência de renda são importantes ingressos
financeiros às famílias e o acesso à crédito agrícola e assistência técnica poderiam
proporcionar a ampliação da apicultura, a adoção de novas tecnologias, bem como a
inserção de novos agricultores, consolidando a atividade na região e promovendo o
desenvolvimento rural, aliado a conservação do bioma.
É necessária a instalação de uma casa de mel e entreposto permitindo a
padronização dos produtos, bem como sua adequação às normas sanitárias, agregando
valor e ampliando a comercialização.
A certificação orgânica, denominação de origem e de preservação da caatinga
podem agregar valor aos produtos, bem como ampliar os nichos de mercado.
A CRIAÇÃO DE PEQUENOS ANIMAIS E A SEGURANÇA ALIMENTAR EM
TRAIPU
A coleta de dados foi realizada no bairro rural Vila Santo Antônio com famílias
rurais atendidas pelo Programa Brasil Sem Miséria, com a realização do projeto de
fomento que busca garantir a segurança alimentar e nutricional e gerar renda às famílias
e teve início no município em 2017, com 68 famílias. Para inserção no projeto os critérios
adotados foram possuir renda igual ou abaixo de R$ 154,00 per capita, possuir DAP
(Declaração de aptidão ao Pronaf) e vocação para as atividades que seriam desenvolvidas.
Desse total, 32 famílias se dedicaram a criação de ovinos (adquirindo inicialmente de 3 a
4 animais), 29 famílias se dedicaram a criação de aves (adquirindo entre 30 e 50 animais)
e 7 famílias com a criação de suínos (com 2 a 3 animais).
No início do projeto houve o repasse do recurso financeiro à cada família no valor
total de R$ 2.400,00 – dividido em duas parcelas, sendo R$ 1.400,00 para custeio da
atividade e R$ 1.000,00 para compra de animais. O projeto foi desenvolvido tendo como
beneficiárias as mulheres e o recurso foi recebido no cartão do Bolsa Família. Esse fato
demonstra que o projeto de fomento buscou inserir como público, um dos segmentos em
situação de maior vulnerabilidade social, que de acordo com Zimmermann et al. (2014)
tem sido pouco atingido pelas ações de combate à pobreza. A criação de pequenos animais
foi a atividade escolhida, uma vez que as famílias possuem pouca área (em média de 0,6
hectares) e o acesso à água é limitado e a escolha se deu conjuntamente entre as famílias
e a equipe técnica do Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável de
Alagoas (EMATER), que realiza assistência técnica mensalmente com visitas a cada
unidade.
A composição das famílias entrevistadas pode ser observada no gráfico 2, com
destaque para crianças e adolescentes em idade escolar, fato confirmado pelos dados de
alfabetização (gráfico 3). Todas as famílias possuem acesso ao Bolsa Família. Porém
ressalta-se que entre os adultos há predomínio de baixa escolaridade, o que caracteriza
historicamente a privação do acesso ao ensino.
Gráfico 2. Faixa etária e composição familiar dos beneficiários pelo BSM.
Número de pessoas
10
8
6
4
2
0
0-5
6-10
11-15
16-20
21-30
31-40
>40
Idade
Mulheres
Homens
Gráfico 3. Escolaridade dos beneficiários pelo BSM.
Escolaridade
Não sabia informar
Estudando
Ensino medio incompleto
Ensino medio completo
Fundamental completo
Fundamental incompleto
Sem alfabetização
0
5
10
15
20
Número de pessoas
Homens
Mulheres
A ocupação de todos os 31 entrevistados (homens e mulheres), em idade de
trabalho, se dá com a agricultura, evidenciando a importância da atividade para
manutenção e ocupação das famílias, além do vínculo com o meio rural.
Todas as casas são de alvenaria e possuem energia elétrica. Com relação ao destino
do esgoto, 61% das residências tem fossa negra e 39% tem o esgoto despejado a céu
aberto, não havendo também coleta de lixo pelo poder público, optando-se pela queima
dos detritos por todas as famílias, o que caracteriza a falta de acesso a serviços básicos.
Nesse aspecto, a falta de água apresenta-se como fator limitante, em especial para
produção vegetal. O poder público construiu um chafariz no bairro, que contribui para o
consumo doméstico, sendo integrado a outras formas de acesso ao recurso (gráfico 4),
porém a iniciativa não garante o abastecimento para outros fins, em especial para
produção.
Gráfico 4. Fontes de agua pelos beneficiários do BSM na Vila Santo Antônio.
Número de famílias
4
3
2
1
0
Cacimba
Chafariz
Poço
Cisterna
Carro pipa
Fontes de água
Humano
Animal
Irrigação
Os dados apresentados evidenciam a falta de acesso a serviços e recursos que
poderiam contribuir para a redução das condições de vulnerabilidade das famílias,
deixando de pensar somente no componente renda. Partindo da premissa que a pobreza
não se caracteriza apenas pela falta dessa, há necessidade de promover acesso à terra, à
água e infraestrutura como saneamento, além da diversificação dos mercados, que são
elementos fundamentais e estratégicos no combate à pobreza (ZIMMERMANN et al.,
2014; MALUF e MATTEI, 2011; VAITSMAN et al. 2009; UGÁ, 2004).
A produção das famílias é destinada para autoconsumo e concentra-se praticamente
no período chuvoso, com cultivo de feijão e milho principalmente, havendo poucas
propriedades com algumas frutíferas e hortaliças. A baixa diversidade é decorrente da
falta de água para irrigação, limitando os cultivos e as variedades, além da restrição à
terra. Ressalta-se que a comunidade encontra-se próxima ao Rio São Francisco, porém
não possui acesso a água dessa fonte. Zimmermann et al. (2014) consideram que a
privação do acesso à água é um elemento determinante para perpetuar a condição social
de pobreza em que se encontra a grande maioria da população que reside nas pequenas
cidades que compõem o meio rural.
Um dos pontos trabalhados no projeto em Traipu pela EMATER tratou sobre o
armazenamento das sementes, o que vem sendo realizado por todas as famílias e busca
promover maior autonomia, não ficando na dependência da compra ou entrega pelos
órgãos públicos, pois muitas vezes é realizada com atrasos e consequentemente com
prejuízos aos plantios.
Quanto a produção animal – objeto do projeto de fomento, a principal atividade foi
a criação de aves (12), seguido de suínos (4) e ovelhas (1). Mesmo tendo como objetivo
a venda do excedente, priorizando o abastecimento da família, a maior parte das que se
dedicam a criação de galinhas não comercializam os produtos, visando garantir fonte
desses alimentos para seus membros, sendo uma fonte de renda não monetária, pois as
famílias deixam de comprar esses itens.
Para alimentação dos animais, 43% dos entrevistados dependem da compra de
ração e 57% compram ração em parte do ano. No sistema de criação adotado é
recomendado o uso de ração, visando garantir alimentação balanceada, bem como foi
previsto no projeto área para pastejo, porém nem todos possuem esses espaços formados
até o momento.
Considerando que o principal critério para inclusão no projeto era a condicionante
renda, todas as famílias são beneficiárias do Bolsa Família (13), com poucos atendidos
pela seguridade social (2) e Benefício de Prestação Continuada com 1 família (que prevê
a transferência de um salário mínimo para idosos e deficientes que possuem uma renda
familiar per capita inferior a ¼ do salário mínimo). O Bolsa Família foi a unificação dos
programas de transferência de renda federais em um único e ocorreu em 2003 e viabilizou
sua expansão nacional para alcançar todas as famílias abaixo da linha de pobreza
estabelecida e com isso, significativa parcela da população mais pobre e vulnerável foi
incorporada ao sistema de proteção e ao mercado de consumo popular. Helfand (2011)
destaca que a política de aposentadoria rural e o Programa Bolsa Família foram as razões
mais importantes para redução da pobreza rural no Brasil. No entanto, o autor observa
que somente esses programas já não são suficientes para retirar da condição de pobreza
aquele percentual significativo de produtores rurais que ainda se encontram nesta
situação.
É importante pontuar o acesso ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) leite:
o Programa do Leite é uma das modalidades do PAA direcionada aos estados do Nordeste
e região Norte de Minas Gerais e é voltado para os segmentos populacionais vulneráveis,
que têm direito a receber o produto gratuitamente e atende famílias com renda mensal de
até meio salário mínimo por pessoa e que tenham como membro crianças de até seis anos,
gestantes, lactantes e idosos (ALAGOAS, 2020). Porém, mesmo havendo público
beneficiário para o enquadramento nesse Programa, apenas 1 família encontra-se inserida.
Uma das razões, pode ser devido às reduções recentes de investimentos no Programa,
tendo sido praticamente zerado no último ano, o que coloca as famílias em maior condição
de vulnerabilidade social.
Ao considerarmos a renda per capita, mesmo com acesso às políticas públicas,
verifica-se que 31% das famílias encontram-se em situação de pobreza (renda per capita
entre R$ 89,01 e R$ 178,00) e 54% em situação de extrema pobreza (renda per capita de
até R$ 89,00), com apenas 15% das famílias com renda per capita acima de R$ 178,00.
Esse resultado evidencia que além das privações de outros direitos, como acesso à agua,
terra e saneamento, essas famílias continuam com baixo acesso à renda, mantendo-se em
situação de vulnerabilidade. Esses dados vão de encontro ao citado por Helfand (2011)
no qual aponta que somente o acesso aos programas de transferência de renda não são
suficientes para retirar as famílias rurais da condição de pobreza. Porém, ressalta-se que
as ações do BSM na comunidade – com a criação de pequenos animais, tem
proporcionado melhorias às famílias, principalmente na contribuição para alcançar a
segurança alimentar. A criação dos animais, em especial galinhas, tem sido a principal
fonte de proteína na dieta dessas famílias, principalmente com consumo de ovos. A
produção para autoconsumo, que é própria e característica da agricultura familiar tem
contribuído para garantir sua alimentação. Além da proteína animal, a produção de feijão
e farinha de mandioca se destinam totalmente ao autoconsumo e sua ingestão é frequente.
Ao analisarmos o consumo de alimentos entre as famílias pesquisadas em Traipu,
é notável que o consumo de alimentos básicos e principais na alimentação ou ao menos
em parte, são provenientes da produção, mesmo com todas as limitações de acesso à terra
e água. Assim, o consumo requer uma análise que considere para além do ato de comer,
abordando os fatores limitantes que perduram até aos dias atuais, como acesso à terra,
êxodo rural e políticas públicas.
Para as bebidas, sucos naturais e leite apresentaram baixo consumo entre os
entrevistados, sendo que para esse último, apenas 38% das famílias indicaram consumo
frequente. Esse dado reforça a necessidade e importância do PAA leite nessas condições.
O Ministério da Saúde recomenda o consumo diário de três porções de leite e/ou
derivados, sendo essa quantia suficiente para atender 75% das necessidades diárias de
cálcio (BRASIL, 2008). Muniz et al. (2013) apontam que para a ingestão de cálcio
recomendada a partir dos 20 anos de idade, torna-se difícil atingir a recomendação sem o
consumo suficiente de laticínios. Destaca-se que nesse faixa etária, encontra-se 40% da
população pesquisada na Vila Santo Antônio.
De modo semelhante, o consumo de frutas e hortaliças foi relatado como frequente
somente em 15% das famílias, o que é resultado da falta de acesso à água para os cultivos.
Com base na versão curta do EBIA, 92% das famílias indicaram situação de
insegurança alimentar nos últimos meses. A insegurança alimentar se dá quando em um
lar há preocupação ou incerteza quanto ao acesso aos alimentos no futuro; quando se
verifica a redução quantitativa de alimentos entre os membros da família; ou a fome quando alguém fica o dia inteiro sem comer por falta de dinheiro ou acesso a comida; e a
segurança alimentar se aplica a domicílios que têm acesso regular e permanente a
alimentos de qualidade em quantidade suficiente. Verificou-se que, além da preocupação
com a falta de alimento no futuro entre 92% dos entrevistados, em 30% das famílias
algum adulto da casa diminuiu alguma vez a quantidade de alimento nas refeições ou
deixou de fazer uma das refeições porque não havia dinheiro suficiente para comprar
comida, e 46% das famílias responderam que nos últimos meses alguma vez comeu
menos do que achou que devia porque não havia dinheiro suficiente para comprar comida.
Sabe-se que a insegurança alimentar atingiu 35,3% dos domicílios rurais em 2013 no
Brasil, sendo que no nordeste esse percentual foi de 50,1% (BRASIL, 2015). Segundo
dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do ano de 2013, a
insegurança alimentar no meio urbano no Brasil foi de 7,9%, sendo maior nas regiões
Norte/Nordeste, com 15%, evidenciando mais uma vez que a pobreza é maior nas áreas
rurais que nos centros urbanos e a região Nordeste apresentou maior vulnerabilidade
alimentar e nutricional quando comparada a outras regiões do país (SANTOS et al.,
2018). Esses resultados são reflexo principalmente da falta de acesso à água como
garantia da produção ao longo do ano. Atualmente os plantios ocorrem apenas na estação
chuvosa, o que muitas vezes não garante a produção necessária para o abastecimento da
família ao longo do ano, associado a disponibilidade do fator terra.
Desafios e perspectivas
As ações do programa BSM na Vila Santo Antônio tem contribuído para garantia
de alimentação às famílias, principalmente para fonte de proteína. A produção animal,
objeto do projeto de fomento, é priorizada pelas famílias para o autoconsumo, como
forma de garantir a manutenção da família. Devido ao tamanho das áreas e falta de acesso
à água, a produção vegetal ocorre apenas na estação chuvosa, o que não garante a
produção de itens básicos (como feijão e farinha) suficientes para o ano.
A renda obtida por meio de programas de transferência, como Bolsa Família tem
sido o principal ingresso de recursos para as famílias e a forma de compra dos alimentos
não produzidos localmente.
O projeto de fomento do BSM, mesmo contribuindo e sendo de extrema
importância para a manutenção do grupo pesquisado, ainda não conseguiu reverter a
situação de pobreza e extrema pobreza encontrada, devendo atuar de modo abrangente,
permitindo acesso a outros recursos necessários à manutenção e reprodução das famílias.
O acesso a serviços básicos, como saneamento, coleta de lixo e água tem sido
fatores limitantes ao desenvolvimento, em especial, a água, que poderia aumentar a
produção de itens para consumo das famílias, contribuindo para a segurança alimentar e
diversidade de itens na dieta, além da ampliação do PAA leite para as demais famílias,
sendo que a construção de cisternas calçadão pode contribuir para reverter o quadro
observado.
A PRODUÇÃO AGROECOLÓGICA E ACESSO ÀS POLÍTICAS DE COMPRAS
GOVERNAMENTAIS - A EXPERIÊNCIA DE IGREJA NOVA
Em Igreja Nova, 113 moradores e agricultores são associados da ASMOCAN
(Associação dos Moradores e Pequenos Produtores do Povoado Cajueiro Novo),
produzindo frutas, verduras e hortaliças em sistema agroecológico, além da criação de
gado leiteiro.
A comunidade se insere na área do projeto de irrigação Boacica, que foi realizado
no período de 1981-84 e contou com recursos do BIRD, havendo também a construção
de diques, a fim de proteger a área contra as cheias dos rios São Francisco, Boacica e
Taquara. Os produtores residem em povoados situados na periferia do projeto e dispõem
de um centro administrativo, escola e posto saúde. Esse projeto foi caracterizado como
de interesse social, pois a construção da barragem de Sobradinho interferiu nos meios de
sobrevivência da população ribeirinha da região, obrigando o poder público a buscar
alternativas para mitigar os efeitos provocados. Na área do projeto Boacica predomina o
cultivo da cana-de-açúcar, a rizicultura e a banana (CODEVASF, 2020).
A comunidade Cajueiro está inserida em área com predomínio de policultura, com
importância econômica para a fruticultura irrigada.
A existência da agricultura e pecuária entre as famílias permite o aproveitamento
do esterco para a adubação dos cultivos vegetais. De acordo com Paulus et al. (2000) os
adubos orgânicos, como os resíduos de origem animal, podem ser usados na forma líquida
ou sólida e contém nutrientes, como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e
micronutrientes e além de fertilizarem o solo, são ativadores da microvida, melhoram a
estrutura, aeração, aumentam a matéria orgânica e a infiltração da água das chuvas.
Para irrigação dos cultivos, até alguns anos atrás a agua utilizada era proveniente
do rio Boacica, porém segundo os agricultores, os níveis de nitrato estão altos,
prejudicando seu uso para irrigação das culturas existentes. Esses altos índices podem ter
como causa o uso intensivo de fertilizantes químicos, considerando que anteriormente a
agricultura praticada nessas áreas era baseada em tecnologias intensivas. Segundo
Resende (2002) o nitrato é a principal forma de nitrogênio associada à contaminação da
água por atividades agropecuárias e esse fato ocorre pelo ânion nitrato ser fracamente
retido nas cargas positivas dos coloides e permanece mais em solução. De acordo com o
autor, na solução do solo, o nitrato fica muito propenso ao processo de lixiviação, levando
ao seu aumento nas águas profundas. Atualmente, as famílias recebem assistência técnica
da EMATER, e passaram a utilizar as aguas do rio São Francisco para irrigação, o que
tem permitido os cultivos e sua comercialização, gerando renda para as famílias.
Dentre o grupo também há casos de agricultores que se dedicam ao cultivo de canade-açúcar. Esses casos se devem a contratos com usinas sucroalcooleiras, que levaram ao
incentivo para adoção dessa cultura. Porém com a crise do setor, os pagamentos tem
ocorrido com atrasos e alguns agricultores ainda estão aguardando o pagamento da última
safra, o que tem causado prejuízos financeiros e sociais, pois são pequenos agricultores
que dependem dos ganhos da terra para sua manutenção. Além desses problemas, o
sistema de cultivo adotado para essa cultura é baseado no pacote tecnológico da
Revolução Verde, altamente dependente da utilização de adubos solúveis e agroquímicos.
A pesca ainda é presente dentro do povoado, principalmente com a finalidade de
autoconsumo, havendo casos de associados que se dedicam a agricultura e a pesca. Esse
dado evidencia o papel da agricultura familiar, que busca integrar diferentes atividades
agrícolas e não agrícolas na manutenção do seu modo de vida. Segundo os relatos desses
moradores, nas últimas duas décadas, a quantidade dos pescados diminuiu
consideravelmente, bem como há mudanças nas espécies encontradas no rio.
Outro fator relatado entre ao agricultores foi a redução da vegetação nativa nas
margens do rio São Francisco, que deram lugar ao cultivo de cana-de-açúcar durante o
auge do ciclo econômico dessa cultura e à introdução de pastagens para criação animal,
o que tem contribuído para o cenário ambiental da região.
Dados socioeconômicos
Dentre as 12 famílias entrevistadas percebe-se maior presença de jovens que em
outras comunidades, porém ainda há predomínio de membros acima de 40 anos de idade,
como verificado no gráfico 5.
Gráfico 5. Faixa etária das famílias entrevistadas em Cajueiro.
Número de pessoas
10
8
6
4
2
0
0-5
6-10
11-15
16-20
21-30
31-40
>40
Idade
Mulheres
Homens
A escolaridade pode ser observada no gráfico 6. Nota-se também, como em outras
localidades, baixos índices de alfabetização, com 23% sem alfabetização e 17% com
fundamental incompleto. Predomina entre os homens os maiores índices de
analfabetismo, da mesma forma que em outras localidades estudadas.
Gráfico 6. Escolaridade das famílias entrevistadas em Cajueiro.
Estudando
Escolaridade
Técnico
Ensino medio incompleto
Ensino medio completo
Fundamental completo
Fundamental incompleto
Sem alfabetização
0
1
2
3
4
5
6
Número de pessoas
Homens
Mulheres
A ocupação dos moradores se dá principalmente com a agricultura, entre homens e
mulheres. As casas são todas de alvenaria, com acesso à energia, porém não há sistema
de esgotamento, com fossa negra em todas as residências. Há coleta de lixo no bairro,
porém 14% dos moradores ainda praticam a queima dos resíduos.
Com relação a agricultura, como característica da área, observa-se alta diversidade
(gráfico 7), com maior importância econômica para a macaxeira, seguida de tomate,
milho e feijão, além da cana-de-açúcar. É importante destacar que a produção para
autoconsumo é muito presente, sendo uma fonte de renda não monetária, pois além de
reduzir o valor gasto com a compra de alimentos, proporciona maior diversidade de
alimentos na dieta dessas famílias. De acordo com Tonezer et al. (2019) na agricultura
familiar é observado grande diversidade de alimentos produzidos para autoconsumo,
havendo múltiplas funções à essa produção, com destaque ao acesso a um alimento mais
saudável e a economia na compra de itens para consumo.
Gráfico 7. Culturas anuais presentes nas áreas das famílias de Cajueiro.
7
6
5
4
3
2
1
0
Venda
Consumo
VeC
Dentre as frutíferas (gráfico 8), a banana tem maior importância econômica e assim
como para as culturas anuais, outras espécies são manejadas visando o abastecimento
interno.
Gráfico 8. Frutíferas presentes nas áreas das famílias de Cajueiro.
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
Consumo
VeC
Com relação as sementes, 45% das famílias dependem exclusivamente da compra
e as demais combinam estratégias de armazenamento e aquisição de determinadas
variedades, reforçando a busca de autonomia das famílias.
A criação animal ocorre principalmente para o consumo, com 42% possuindo
criação de galinhas, que fornecem ovos e carne. Dos entrevistados, 80% combinam a
produção e a compra de parte dos alimentos para a criação desses animais e 20%
dependem exclusivamente da compra de ração.
A água para todos os usos das famílias – residência, irrigação e criação animal, vem
diretamente dos canais de abastecimento do rio São Francisco.
As políticas públicas presentes são aposentadoria, com 6 famílias tendo acesso e 4
recebem Bolsa Família. Com relação a renda per capita, 16,5% das famílias apresentaram
renda mensal de R$ 100,00 per capita, o que é considerado dentro da linha de pobreza
pelo MDS; 42% das famílias tem renda per capita entre R$ 240,00 e R$ 500,00; 16,5%
possuem renda entre ½ e 1 salário mínimo e 25% a renda per capita está entre 1 e 2
salários. A renda está relacionada ao número de atendidos pelo programa de seguridade
social, mas também é fruto do acesso aos programas governamentais de compra da
agricultura familiar, como PNAE e PAA. Entre o grupo de Cajueiro, 30 agricultores
comercializam para o PNAE há 5 anos e 6 agricultores comercializam para o PAA há 2
anos. Dentre os entrevistados, 50% acessam esses programas de compra, o que
proporciona melhores remunerações, visto que essas políticas pagam os preços praticados
no mercado diretamente aos agricultores e foi relatada como uma conquista e orgulho
para o grupo, pois permite a oferta de alimentos saudáveis, cultivados com manejo
agroecológico, para a alimentação das crianças nas escolas. Esses Programas tem sido
relatados em diversas pesquisas como benéficos à agricultura familiar, promovendo o
desenvolvimento e melhoria da renda para as famílias (CAMARGO e NAVAS, 2017;
SAMBUICHI et al., 2014; RIBEIRO et al., 2013; TURPIM, 2009). A venda dos produtos
ocorre também nas feiras do município e no próprio bairro e para usinas entre aqueles que
cultivam cana-de-açúcar (3).
Com relação ao consumo de alimentos pelas famílias, observa-se que predominam
alimentos da cultura local, como cuscuz, farinha de mandioca e macaxeira, além do arroz
e feijão, sendo esse último na maioria dos casos cultivados pelas famílias, evidenciando
a importância da produção para autoconsumo.
Sobre o consumo de proteína de origem animal, destaca-se a alta frequência de
peixes, aproveitando a proximidade com o rio São Francisco e a importância da pesca
para a alimentação; e ovos e frango, também produzidos pelas famílias. Mesmo essas
produções sendo pequenas, apresentam-se como fonte de renda não monetária, pois as
famílias deixam de comprar esses itens, ficando com os recursos para aquisição de outros
bens necessários, além de promover a autonomia alimentar.
Entre as famílias entrevistadas, o consumo de itens industrializados é baixo, o que
pode ser explicado pela presença das práticas e saberes agroecológicos, que dentre seus
princípios, busca alimentação mais saudável, com máxima redução de itens externos às
propriedades e alimentos altamente processados/industrializados. A agroecologia e a
integração da criação animal e vegetal tem impactos na maior oferta e diversidade de itens
frescos e não processados para consumo das famílias, tendo frutas e hortaliças valores
expressivos de consumo, principalmente pela produção local, que além de atenderem as
demandas de mercado, principalmente PNAE e PAA, tem a função de abastecer a família.
Quando observamos a diversidade de itens vegetais cultivados, como frutas e hortaliças
tem-se aproximadamente 30 variedades alimentícias, o que tem proporcionado
diversidade e contribuído para segurança alimentar, dado esse corroborado também pelo
alto consumo de sucos naturais, diferentemente de sucos industrializados e refrigerantes.
Sobre a situação de segurança alimentar, 67% das famílias apresentam segurança
alimentar e 33,00% insegurança alimentar, sendo que desses, 16,6% responderam que
diminuíram alguma vez a quantidade de alimento consumido e 25% informaram que
algum membro comeu menos do que achou que devia pela falta de alimento ou dinheiro
para compra de comida. Os dados levantados são semelhantes aos observados pela
PNAD, que indicou insegurança alimentar em 35,3% dos domicílios rurais no Brasil e
estão abaixo da média da região nordeste, que apresentou 50,1% de insegurança alimentar
nos domicílios rurais (BRASIL, 2015).
Esse dado reforça a importância de estratégias de comercialização da produção,
agregando e garantindo renda as famílias, por meio do acesso aos programas de compra
institucional, bem como da produção para autoconsumo, integrando culturas anuais e
frutíferas e a criação animal.
Desafios e perspectivas
Considerando que as famílias tem acesso às políticas de compras governamentais,
é importante para o desenvolvimento da comunidade a manutenção e ampliação dos
agricultores com acesso a essa política pública, visando garantia de renda e oferta de
alimentos agroecológicos.
O aproveitamento integral dos alimentos e da produção pode contribuir para
reverter os dados de insegurança alimentar, bem como ampliar os itens comercializados
com produtos processados artesanalmente. Nesse sentido, é necessário a realização de
capacitação da comunidade para o desenvolvimento de produtos processados a partir dos
itens cultivados, bem como criar instalação para permitir o processamento de alimentos
e atender a legislação.
Considerando que as famílias não usam agrotóxicos, a certificação orgânica dos
produtos pode contribuir para agregar valor à produção, bem como ampliar os locais de
venda.
A TRADIÇÃO DO CULTIVO DE ARROZ NO BAIXO SÃO FRANCISCO PELA
AGRICULTURA FAMILIAR DE PORTO REAL DO COLÉGIO
A construção do Projeto Público de Irrigação Itiúba ocorreu no período de 197476, e contou com recursos do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento
(BIRD) e nesse último ano iniciou-se a ocupação e operação do projeto com área de 894
ha, totalmente ocupado por 227 lotes de pequenos irrigantes. Originalmente nesse local,
a rizicultura já era praticada de acordo com as oscilações de nível do rio São Francisco.
Com as obras de regularização e geração de energia da Usina de Sobradinho, o regime de
níveis foi modificado, o que acarretou a inundação quase que permanente da totalidade
da área cultivada. A Codevasf, ao implantar o projeto permitiu safras anuais de arroz
irrigado por inundação. A fim de proteger a área contra as cheias dos rios São Francisco
e Itiúba também foram construídos diques e uma barragem na foz do rio Itiúba, dotada de
comportas de escoamento. Atualmente Itiúba possui 900,33 ha irrigáveis ocupados
(CODEVASF, 2020).
Esse projeto foi caracterizado como de interesse social devido aos impactos
causados pela construção da barragem de Sobradinho, que modificou os meios de
sobrevivência da população ribeirinha do Baixo São Francisco, obrigando o poder público
a buscar alternativas para mitigar os efeitos provocados.
De acordo com a Codevasf (2020) há predominância da exploração da rizicultura
que representa 96% do valor bruto de produção, seguida da produção de cana-de-açúcar.
Ocupada exclusivamente por lotes familiares, a área cultivada com essas culturas, em
2019, correspondeu a 97% e 3%, respectivamente. O sistema de irrigação é o de superfície
em toda a área.
A composição do grupo analisado pode ser observada no gráfico 9. Observa-se que
a faixa etária predominante é acima de 40 anos, principalmente entre os homens. Durante
as entrevistas foi relatado pelos moradores que os jovens migravam para os grandes
centros, em busca de estudo ou qualidade de vida diferente das condições encontradas no
meio rural por suas famílias.
Com relação a alfabetização, é evidente os baixos índices encontrados, com cerca
de 40% dos entrevistados sem alfabetização ou com ensino fundamental incompleto.
Entre o grupo que está estudando, esse faz parte de crianças e jovens em idade escolar,
como verificado no gráfico 10.
Gráfico 9. Faixa etária dos entrevistados em Itiúba.
Número de pessoas
16
14
12
10
8
6
4
2
0
0-5
6-10
11-15
16-20
21-30
31-40
>40
Idade
Mulheres
Homens
Gráfico 10. Escolaridade dos entrevistados em Itiúba.
Escolaridade
Estudando
Ensino medio incompleto
Ensino medio completo
Fundamental completo
Fundamental incompleto
Sem alfabetização
0
1
2
3
4
5
6
7
8
9
Número de pessoas
Homens
Mulheres
Com relação a ocupação dos moradores, a agricultura apresenta-se como a principal
atividade, entre homens e mulheres.
Todas as casas são de alvenaria e possuem energia elétrica, porém não há sistema
de esgoto, sendo que 93% das casas possuem fossa negra e 7% despejam diretamente no
ambiente. A queima dos resíduos sólidos é realizada por 36% das famílias e 64% possuem
coleta pela rede pública.
No gráfico 11 observa-se que o cultivo de arroz é a principal fonte de renda das
famílias, sendo a cultura mais produzida e comercializada. Os demais cultivos tem a
finalidade de autoconsumo e a venda de algum excedente, o que é praticado por poucas
famílias e a rizicultura utiliza os canais de irrigação com aguas do rio São Francisco. Com
colheitas de 4 em 4 meses, a produção intensiva, exige grande quantidade de insumos,
tanto para recompor nutrientes do solo, quanto para combater pragas e plantas
indesejadas.
O uso de agrotóxicos é frequente, pois há necessidade de uso de fungicidas,
inseticidas, raticidas e herbicidas, além dos fertilizantes químicos, com destaque para
ureia, fertilizante nitrogenado altamente solúvel. Segundo Mendes et al. (2010) esses
insumos podem ser fonte de contaminação para o solo, pois podem conter metais pesados,
considerando as sucessivas aplicações que são realizadas e esse acúmulo pode provocar
problemas na qualidade das águas. Como alternativa, o uso de adubos orgânicos pode
reduzir esses impactos e de acordo com Guimarães e Prabhu (2002) a matéria orgânica
presente nesses adubos exerce influência muito grande sobre as propriedades físicas e
químicas do solo e fornece os componentes necessários ao crescimento dos
microrganismos, sendo um componente dinâmico e reativo do solo e um depósito dos
principais nutrientes; portanto sua quantidade e qualidade refletem e controlam o estado
nutricional e a produtividade das culturas, como a estabilidade dos sistemas de produção.
Para os autores, o aumento da matéria orgânica no solo pode ocorrer tanto pela aplicação
de compostos orgânicos, como pelo manejo adequado de sistemas de produção e possui
efeito na resistência às doenças, principalmente devido aos teores de silício e potássio
existentes nessas fontes. De acordo com Fernandes et al. (2013) o uso de adubo orgânico
promoveu maior produtividade, havendo aumento da capacidade de troca de cátions
(CTC), nos níveis de cálcio (Ca), fósforo (P), boro (B), potássio (K), zinco (Zn) e
manganês (Mn). Além disso, o uso de adubos minerais em maiores doses promoveu a
redução dos valores de pH, saturação de bases (V%), Ca e Mg e os autores destacam que
a fonte orgânica pode reduzir significativamente as adubações minerais com nitrogênio,
fósforo, potássio e enxofre.
Gráfico 11. Itens produzidos pelas famílias e finalidade.
arroz
milho
macaxeira
feijão
pimentão
tomate
quiabo
alface
coentro
capim
maxixe
amendoim
erva cidreira
manga
goiaba
banana
coco
acerola
caju
laranja
graviola
limão
seriguela
Número de pessoas
16
14
12
10
8
6
4
2
0
Culturas
Venda
Consumo
Venda e Consumo
Como o sistema de cultivo se dá por inundação, um fator preocupante pode ser os
resíduos desses agrotóxicos, muitas vezes aplicados em mistura (de nível de toxicidade e
risco ambiental alto) e podem ter resíduos devolvidos aos canais de irrigação e
consequentemente ao rio São Francisco. Além do dano ambiental, a baixa fiscalização e
pouca assistência técnica na região, contribuem para o uso descontrolado desses produtos.
Em um sistema de cultivo intensivo, o uso dos tratamentos convencionais provoca uma
perturbação na fisiologia das plantas, trazendo em consequência, desequilíbrio,
transformando em parasitas, seres, que, antes, mantinham um convívio harmônico com
as plantas, as chamadas, doenças iatrogênicas (CHABOUSSOU, 2006). Além desse ciclo
“vicioso” do uso excessivo de insumos com riscos de contaminação ao solo e ao ambiente,
há também o risco de contaminação dos agricultores, pois normalmente não fazem uso
dos equipamentos de proteção necessários à aplicação de agroquímicos. Segundo a
CONAB (2016) a participação média de sementes, fertilizantes e agrotóxicos representa
entre 26% e 33% dos custos com a produção de arroz.
Um dos maiores problemas com pragas que esses agricultores tem enfrentado,
provavelmente pelo desequilíbrio do uso de insumos químicos e o predomínio da
monocultura, agravados pelo alta nível de desflorestamento das margens dos cursos
d’água da região, são ratos e pássaros (citados como os principais no ano de 2018), que
provavelmente por não encontrarem na região outras fontes de alimentos e abrigo,
utilizam as plantações de arroz como moradia e fonte de alimento, causando prejuízos aos
agricultores. Esse fato pode também ser agravado pela redução dos inimigos naturais
desses dois organismos, aumentando sua população. Outro problema relatado foi o
aparecimento do arroz-preto, uma gramínea com morfologia parecida com o arroz
produzido comercialmente e considerado uma invasora e que reduz a qualidade do
produto final. Todos esses problemas são minimizados com o uso dos agrotóxicos.
Com relação as sementes, diferentes estratégias são utilizadas, predominando sua
compra e consecutivos plantios e armazenamento das mesmas para novo ciclo (por 2 a 3
anos), sendo posteriormente realizada nova compra, visando garantir a genética da
semente. Essa prática é utilizada para a cultura do arroz e pode contribuir em economia
com sua aquisição.
A criação animal também é presente na comunidade, principalmente para consumo,
em especial galinhas, com poucos agricultores comercializando e nesses casos, há
predomínio da venda de gado e peixe, aproveitando o recursos hídrico local, havendo
também criação de suínos para consumo. A alimentação dos animais depende
exclusivamente da compra para 36% das famílias, enquanto 46% combinam estratégias
de compra parcial dos alimentos, e 18% tem produção própria dos alimentos para as
criações.
A água para irrigação e criação animal para todos os entrevistados tem origem direta
do Rio São Francisco por meio dos sistemas da Codevasf. Para consumo doméstico, 86%
das famílias utilizam essa mesma fonte e 14% utilizam água do sistema público, pois
residem na cidade de Porto Real do Colégio.
O principal acesso a políticas públicas é com recebimento de aposentadorias (10
indivíduos) e Bolsa Família (3 famílias), o que contribui na renda mensal. Com relação a
esses rendimentos, 15% recebem entre ½ e 1 salário mínimo, 23% entre 1 e 2 salários,
54% entre 2 e 3 salários e 8% acima de 3 salários. Esse dado se deve principalmente à
venda do arroz, sendo essa a principal fonte de renda dos agricultores.
Desafios e perspectivas
A produção de arroz historicamente realizada no Baixo São Francisco é a principal
fonte de renda para as famílias. Estratégias de manejo podem contribuir para a redução
dos impactos e custos de produção, como uso de fontes orgânicas para fertilização, já
comprovado em pesquisas com arroz.
Também deve ser trabalhado junto aos agricultores a implantação do Manejo
Integrado de Pragas (MIP), sendo um conjunto de medidas que dá suporte para a tomada
de decisão sobre o controle e pode ser entendido como o uso de várias técnicas para
redução das pragas nos plantios. Essa modalidade de manejo busca preservar e aumentar
os fatores de mortalidade natural, mantendo a população das pragas em níveis abaixo
daqueles capazes de causar dano econômico e deve ser feito de forma preventiva,
utilizando várias práticas que possibilitam a prevenção de maneira sustentável na cultura,
com técnicas que incluem tratos culturais, controle biológico e produtos químicos.
Quanto ao uso desse último, há necessidade de realizar a alternância de ingredientes
ativos e os modos de ação, evitando ou retardando que as pragas desenvolvam resistência,
além do uso de produtos seletivos, que tenham pouco efeito sobre inimigos naturais e
polinizadores. Destaca-se também a necessidade de uso de EPIs pelos trabalhadores, bem
como a realização da tríplice lavagem, a devolução das embalagens e a utilização correta
do pulverizador, garantindo a deposição do produto na dosagem adequada e no alvo
desejado.
Recomenda-se a criação de uma área piloto para início do MIP com arroz na região
e realização de capacitações com os agricultores.
O EXTRATIVISMO COMO FONTE DE RENDA E MANEJO SUSTENTÁVEL NA
FOZ DO SÃO FRANCISCO16
O município de Piaçabuçu tem sua economia em torno do turismo, atividades
pesqueiras e serviços. A agricultura que historicamente era baseada no cultivo de arroz
por inundação foi reduzida a pequenas produções, devido ao aumento da cunha salina
provocada pela redução drástica da vazão do rio São Francisco e atualmente essa
atividade tem baixa representatividade na geração de divisas, porém tem importância
econômica secundária para a economia familiar, em especial na produção de
autoconsumo, contribuindo para a segurança alimentar.
O município possui duas Áreas de Proteção Ambiental (APA), sendo uma federal,
a “APA de Piaçabuçu” e outra estadual, a “APA Marituba do Peixe”, com rica
biodiversidade, onde o extrativismo vegetal de Produtos Florestais Não Madeireiros
(PFNM) acontece pela grande variedade de espécies de plantas nativas comestíveis de
valor econômico, ambiental e cultural. Apesar dessa riqueza, o IDH do município é baixo,
de 0,572.
O extrativismo pode ser entendido como a exploração dos produtos nativos em
ecossistemas diversos e voltados para diferentes mercados, no conjunto de atividades
Os dados socioeconômicos e produtivos apresentados compõem o trabalho “Extrativismo vegetal na foz
do rio São Francisco: riqueza ambiental e comunidades vulneráveis” dos autores FERREIRA, Rita Paula
dos Santos; NAVAS, Rafael; SILVA, Rafael Ricardo Vasconcelos, apresentado no XI Congresso Brasileiro
de Agroecologia (2019).
16
desenvolvidas pelas populações tradicionais (MOTA e SANTOS, 2008). Segundo Ramos
et al. (2017) a partir dos anos 2000, o debate sobre o extrativismo no Brasil incorporou
outras dimensões, indo além dos estudos sobre a sustentabilidade ecológica, dando maior
importância aos extrativistas e destacando a importância econômica, ambiental, social e
cultural da atividade. Para Lima (2010) o extrativismo praticado de forma sustentável é
importante, pois pode gerar renda e ao mesmo tempo contribuir para a conservação
ambiental e a riqueza cultural dos povos.
A Associação Aroeira e o extrativismo na região
A associação Aroeira surgiu a partir da demanda em capacitar os extrativistas da
foz do rio São Francisco no beneficiamento da pimenta rosa. A associação foi criada a
partir do Projeto Aroeira, desenvolvido pelo Instituto Ecoengenho, que em 2010 elaborou
e foi contemplado com um projeto financiado pela Petrobrás – Programa
Desenvolvimento e Cidadania. Com o projeto aprovado, os extrativistas foram
procurados e discutido os processos a serem realizados, sendo que os mesmos conheciam
a pimenta rosa apenas com o nome “aroeira” e a comercialização era realizada para
atravessadores.
As primeiras reuniões sobre o projeto ocorreram em 2011 e seguiu-se com a
fundação da Associação Aroeira. Entre 2011 e 2014, a associação foi incubada pelo
projeto financiado pela Petrobrás e a partir de 2015 vem sendo mantida e administrada
pelos próprios associados, tendo um total de 85 (oitenta e cinco) membros, sendo 30
(trinta) associados que trabalham exclusivamente com a pimenta rosa. Além desse
produto, que é o carro chefe da Associação, há extrativismo de outras frutas nativas, como
ingá, cambuí, massaranduba, gajiru, araçá, jenipapo, cajá e outros, demonstrando a rica
biodiversidade existente. Segundo Ramos et al. (2017) as experiências com os produtos
da sociobiodiversidade no Brasil vêm demonstrando capacidade de enfrentamento de
questões como inclusão socioprodutiva de agricultores familiares, extrativistas, povos e
comunidades tradicionais que manejam e conservam a biodiversidade nativa, resultando
em desenvolvimento rural, conservação e recuperação ambiental.
Além do extrativismo, há também a prática da agricultura entre as famílias, algumas
comercializando para o PNAE, principalmente com tomate, pimentão e alface,
evidenciando a diversidade de produtos da agricultura familiar local.
De acordo com a presidente da Associação “a partir do trabalho da associação
houve impacto na vida das mulheres de forma positiva, pois as primeiras a se
capacitarem, foram tomando consciência do lugar dela na sociedade, dentro do
município, o que acabou incentivando outras mulheres a se juntarem à associação e que
culmina no desenvolvimento da comunidade”. E completa: “As mulheres hoje, muitas
delas, a maioria delas dentro do nosso município, são mulheres que comandam as suas
próprias casas, porém há casos em que quem manda é o marido, mas está havendo uma
mudança de comportamento, pois se ela se sustenta, é auto suficiente, então elas tentam
mostrar aos seus companheiros que são parceiras deles, e que o mesmo valor que os
homens tem, elas tem também, é o empoderamento da mulher”.
Sobre esse tema, Mendes et al. (2014) em trabalho no estado de Mato Grosso
apontam que os recursos financeiros obtidos pelas mulheres com o extrativismo são
expressivos e contribuem para a sobrevivência do grupo familiar, bem como para o
reconhecimento de seu trabalho junto às famílias.
Uma das preocupações da Associação Aroeira é com a questão ambiental, que vem
sendo trabalhada com todos os associados, para que haja sempre recursos disponíveis,
reduzindo os danos ao meio ambiente e buscando sua preservação.
As maiores dificuldades citadas para a atividade se dão com a falta de transporte
adequado para o translado de pessoas e frutas, pois conforme citado “não é fácil para o
extrativista ir na mata andando e trazer duas, três sacas de jenipapo ou de outra fruta”.
Outra dificuldade são os grandes proprietários de terras que não permitem o acesso às
áreas de mata e houve um caso em que o proprietário viu as extrativistas colhendo a
pimenta rosa e após realizou a derrubada e queima de todas as plantas dessa espécie para
que a atividade não fosse realizada em sua área. Lima (2010) apontou que as principais
dificuldades com o extrativismo da mangaba em Sergipe também estavam relacionadas a
falta de transporte, principalmente pela fragilidade dos frutos, que se danificavam
facilmente, bem como com as condições ruins das estradas de acesso as áreas de coleta,
sendo os frutos carregados nas costas dos extrativistas. Além disso, a autora também
pontuou a situação de devastação da espécie, bem como a dificuldade de acesso às
mangabeiras que restam, por estarem situadas em terras de terceiros, que estão sendo
utilizadas cada vez mais para a agricultura intensiva, desenvolvimento de turismo e
construção de viveiros de camarão, levando ao corte das plantas.
As extrativistas
Dentre os adultos das 25 famílias agroextrativistas entrevistadas, 44% não são
alfabetizados, 40% apenas assinam o nome e 16% possuem nível médio incompleto e/ou
completo. Segundo a SEPLAG (2018), as taxas de abandono escolar nos últimos anos no
município de Piaçabuçu tem sido reduzidas, passando de 5,4% no ano de 2015 para 1,8%
em 2017. Esses dados reforçam a importância dos programas de transferência de renda,
como o Bolsa Família, que tem contribuído para a permanência de crianças e adolescentes
em ambiente escolar, haja visto que o número de famílias atendidas por esse programa
aumentou no município nos últimos anos, sendo a política pública acessada pela maioria
das famílias entrevistadas.
Com relação ao acesso a serviços, as casas não possuem esgotamento sanitário
adequado, com predomínio de fossa negra, bem como o acesso a água é realizado
diretamente pela captação de rios com uso de bombas, não havendo tratamento para o
consumo. A coleta de lixo não atende todas as áreas do município, em especial as rurais
e as famílias acabam por queimar os resíduos.
Entre as espécies cultivadas pelos extrativistas observa-se presença de diversidade
de frutíferas e anuais (gráfico 12) principalmente nos quintais e possuem a finalidade de
consumo e venda, demonstrando que as famílias não se ocupam exclusivamente com o
extrativismo, mas combinam diferentes atividades produtivas ao longo do ano,
evidenciando a grande dependência dos recursos naturais e dos ciclos da natureza para
sua manutenção. Segundo Santos et al. (2015) a combinação de diversas atividades no
meio rural pode proporcionar maior produção para autoconsumo, reduzindo a
dependência de produtos externos e consequentemente impactando na renda familiar.
Gráfico 12. Itens cultivados pelas famílias da Associação Aroeira.
10
8
6
4
2
0
acerola
coco
caju
manga
pinha
macaxeira
mamão
banana
batata doce
cana caiana
carambola
laranja
limão
abóbora
feijão de corda
maracujá
maxixe
alface
babosa
cebolinha
coentro
goiaba
melancia
quiabo
tomate
Número de famílias
12
Culturas
Porém, para 95% dos entrevistados a principal fonte de renda se dá com a coleta de
frutas nativas, sendo esta complementada pelas políticas públicas, principalmente Bolsa
Família. Esse dado apesar de demonstrar a importância da atividade entre as famílias,
evidencia a situação de vulnerabilidade a que as extrativistas se encontram, haja visto que
os preços pagos para os produtos geralmente são baixos. Ao mesmo tempo, reforça a
importância do trabalho associativista e a necessidade de estruturação da cadeia produtiva
para os produtos do extrativismo na região. Outras pesquisas tem demonstrado a
importância do extrativismo como fonte de renda para as famílias, em especial para as
mulheres (MENDES et al., 2014a; MENDES et al., 2014b; LIMA, 2010). A organização
dos pequenos agricultores em associações, constitui-se em uma das formas mais viáveis
de sustentação das pequenas unidades de produção, pois facilita a superação da barreira
da indivisibilidade dos fatores chaves de produção, assim como facilita a assistência
técnica necessária para as atividades (LAZZAROTTO, 2002), devendo ser apoiado na
região.
O extrativismo em Piaçabuçu ocorre durante todo o ano, considerando o calendário
produtivo de cada espécie e a diversidade existente e é realizado com mão de obra
familiar. A diversidade de frutas nativas obtidas por meio da atividade pode ser observada
no gráfico 13.
A comercialização dos produtos do extrativismo ocorre principalmente nas feiras
livres de Piaçabuçu e Penedo/Al.
Atualmente a Associação Aroeira aprovou e vem desenvolvendo os Projetos:
“Cozinhar com Ecosustentabilidade”, com apoio do FECOEP – AL, tendo o objetivo de
expandir e aperfeiçoar a linha produtiva com a instalação de uma agroindústria, atendendo
as normas sanitárias para o processamento e o desenvolvimento de produtos, como doces,
geleias, pães e outros, utilizando a riqueza da biodiversidade local obtida pelo
extrativismo, bem como capacitar e qualificar 50 mulheres para o desenvolvimento das
ações e para o associativismo; “Ecocozinhar”, que possibilitou a realização do
intercâmbio entre as mulheres de Piaçabuçu e Maragogi; “Mulheres: mães que
alimentam”, que visa promover o empoderamento feminino com geração de renda,
produção de alimentos artesanais, atuando diretamente com mais de 200 mulheres
agricultoras e agroextrativistas. No aspecto da preservação, está previsto o Projeto
“Bosque Berçário das Águas”, implementado com o Comitê da Bacia Hidrográfica do
Rio São Francisco e Agencia Bacia Peixe Vivo e busca a produção de mudas nativas, o
reflorestamento de áreas de mata ciliar e a implantação de sistemas agroflorestais, atuando
diretamente em ações de educação ambiental.
Gráfico 13. Frutos obtidos pela extrativismo entre as famílias da Associação Aroeira.
Número de famílias
25
20
15
10
5
0
Frutas coletadas
Desafios e perspectivas
O extrativismo de frutas nativas é a principal fonte de renda para muitas famílias da
região da foz do rio São Francisco, contribuindo para sua manutenção e para a
conservação ambiental. Porém, há necessidade de capacitação dos produtores, bem como
estruturação da cadeia produtiva da biodiversidade local, buscando agregar renda aos
produtos e contribuir para o manejo sustentável.
O fortalecimento do associativismo tem se mostrado promissor e necessário para o
desenvolvimento rural, podendo contribuir para novas relações e estratégias a serem
adotadas.
A integração da produção extrativista ao mercado turístico pode ser uma estratégia
adotada, considerando o potencial do município e do estado de Alagoas. Ao mesmo
tempo, é necessário estruturar o manejo participativo sustentável, por meio dos Planos de
Manejos das APAs existentes, visando um modelo de conservação socialmente
includente; assim como o reflorestamento das matas ciliares da Bacia do Rio São
Francisco com plantas nativas frutíferas, preservando o meio ambiente e contribuindo
com a geração de renda das comunidades locais.
Associado a esses pontos, a obtenção da certificação orgânica e denominação de
origem podem agregar valor aos produtos do extrativismo, expandindo os nichos de
mercado.
Ações que melhorem o quadro de educação dos adultos, bem como acesso a
serviços, principalmente instalação de sistema de tratamento biológico de esgotos,
tratamento da água para consumo doméstico e ampliação da coleta de lixo devem ser
implementadas, garantindo melhores condições para as famílias e redução dos impactos
ambientais.
A PESCA ARTESANAL EM NEÓPOLIS E AS MUDANÇAS NA OCORRÊNCIA
DAS ESPÉCIES
Os pescadores(as) artesanais residem às margens do Rio São Francisco em área
urbana do município de Neópolis – SE, distante 121 km da capital Aracaju. O IDH do
município é de 0,589 e os pescadores fazem parte da Colônia Z7 do município.
A idade dos componentes das famílias evidencia o predomínio de indivíduos na
faixa etária acima dos 40 anos os mais, independente do sexo. Quanto ao grau de estudos,
há predomínio de menor escolaridade em indivíduos do sexo masculino, com presença
marcante de crianças em idade escolar em continuidade de seus estudos. Para Freitas et
al. (2015) são inúmeras as causas da baixa escolaridade entre pescadores e entre as mais
expressivas, constataram que tiveram que optar por trabalhar ou estudar, e diante da
realidade de possibilidades restritas, tanto econômicas quanto sociais, optaram ainda
jovens por ingressar na atividade econômica. Esse dado reforça a importância do
Programa Bolsa Família na manutenção de crianças e jovens no ambiente escolar, como
observado entre o grupo que encontra-se estudando.
A ocupação de todos os integrantes das famílias em idade de trabalho é com a
atividade pesqueira, compartilhado entre homens e mulheres do núcleo familiar, mas
evidenciando o papel da mulher numa atividade exclusivamente masculina.
Todos os pescadores(as) residem em casas de alvenaria, com energia elétrica, coleta
de lixo realizada pelo poder público e água fornecida pela Companhia de Abastecimento
de Sergipe. Porém, 11% das residências tem o esgoto despejado diretamente no rio. É
importante destacar que o município de Neópolis possui aproximadamente 23% dos
domicílios com esgotamento sanitário adequado, segundo dados do IBGE (2020), o que
evidencia os impactos ambientais da descarga de efluentes oriundos de esgotos
domésticos na calha do Rio São Francisco.
A principal política pública acessada pelos pescadores é o Seguro Defeso (cerca de
90% possuem carteira de pesca e recebem o benefício), seguido do Bolsa família com
50% tendo acesso e aposentadoria com 25%. Segundo informações dos pescadores, todos
os associados à colônia acessavam o benefício, conjuntamente aos recursos do Bolsa
Família. Entretanto, o Seguro Defeso tem sido pago com atrasos segundo os pescadores
de Neópolis, chegando recentemente a ser recebido apenas no fim do período de proibição
da pesca, comprometendo a manutenção das famílias.
Com relação a renda média mensal familiar destaca-se que nenhuma família possui
rendimentos acima de um salário mínimo, evidenciando a baixa remuneração pela
atividade. Esse fato é agravado por ser cada vez mais difícil a captura do pescado na
região, com diminuição do tamanho de captura, de variedade de espécies e abundância de
indivíduos. Em Neópolis, do total de entrevistados, 12% possuem renda de até R$ 400,00,
50% renda de até R$ 500,00, 13% renda de até R$ 600,00 e 25% renda de até R$ 1.000,00.
A atividade pesqueira e a percepção da ocorrência das espécies
A ocorrência de espécies nativas, antes comuns, atualmente são cada vez mais raras
ou escassas no Baixo São Francisco. A presença de espécies eurihalinas ou marinhas em
Neópolis (distante quase 40 km da foz), são citadas por todos os pecadores e refletem as
mudanças ambientais pelas quais o rio São Francisco vem passando e impactando
diretamente na atividade econômica da região. A tabela 1 refere-se a lista das espécies
pescadas/capturadas mais comuns nas pescarias realizadas na localidade.
Tabela 1. Espécies citadas pelos pescadores(as) e sua ocorrência em ordem decrescente.
Espécies citadas pelas famílias
Nº citações
Nome científico
Categoria
Robalo*
8
Centropomus parallelus e Centropomus undecimalis
Estuarina
Tucunaré
6
Cichla monoculus
Exótico
Piau
6
Leporinus obtusidens e Schizodon knerii
Nativo
Piranha
5
Pygocentrus piraya
Nativo
Tilápia
5
Oreochromis niloticus
Exótico
Carapeba*
5
Eugerres brasilianus, Eucinostomus melanopterus
Estuarina
Pirambeba
4
Serrasalmus brandtii
Nativo
Bagre
4
Bagre marinus
Costeiro
Traira
Camarão**
3
3
Hoplias malabaricus
Macrobrachium acanthurus e Macrobrachium carcinus
Nativo
Nativo
Siri**
2
Callinectes sp.
Costeiro
Pacú
1
Myleus micans
Nativo
Pilombeta
1
Anchoviella vaillanti, Anchoviella lepidentostole
Nativo
Cara boi
1
Astronotus ocellatus
Exótico
Xira
7
Prochilodus argenteus
Nativa
Surubim
6
Pseudoplatystoma corrucans
Nativa
Não
encont
ram
mais
Encontram com mais frequência
Nome popular
Tubarana
5
Salminus hilarii
Nativo
Mandi
5
Pimelodus maculatus e Pimelodus Pohli
Nativo
Dourado
2
Salminus franciscanus
Nativo
Curimã
2
Mugil curema
Costeiro
Piau cutia
2
Prochilodus elongatus
Nativo
* As espécies em destaque apesar de serem costeiras e de estuário, já são capturadas em Neópolis, de acordo com as
citações dos pescadores(as).
** Com a mudança na ocorrência das espécies e maiores dificuldades da pesca, os entrevistados informaram que
recentemente mudaram para essa atividade
É evidente a percepção dos pescadores(as) sobre as alterações na ocorrência das
espécies, bem como as dificuldades em conseguir sobreviver da atividade, como pode ser
observado pelas entrevistas, que mostram que as alterações do regime hídrico com a
construção das hidroelétricas são percebidas na realização da pesca:
“Há um ano atrás conseguia pegar 10 a 15 quilos em um dia, hoje pega 1 quilo, às
vezes não pega nem pra comer” (entrevistado de 42 anos)
“Peixe está escasso, pra comer tem, mas precisa vender pra comprar outras coisas”
(entrevistado de 43 anos)
“Na época que tinha enchente dava muito peixe, hoje não mais” (entrevistado de 50
anos)
“Eu fui pescadora por mais de cinquenta anos, parei de pescar quando não pude mais
trabalhar na pesca, trabalhava também na agricultura. Plantava feijão, mandioca,
mas por causa dos donos da terra que botou a gente pra fora, então a gente não podia
mais fazer nada e ficamos somente com a pesca. Os peixes que antigamente a gente
pescava mas que hoje sumiram do rio São Francisco foi a piaba, o mandim, a shira,
o surubim e a tubarana também sumiu daqui do Baixo. A gente ainda consegue ver
ela lá pelas bandas do sertão, pulando na água, hoje no Baixo só dá mesmo o
tucunaré, a piranha, o robalo, só essas coisinhas mesmo, muito fraca a pesca, mas
sumiu tudo, acabou tudo. Acredito primeiramente em Deus pra que haja uma
mudança pra melhorar aqui o Rio né, e depois nos homens de boa vontade.”
(entrevistada aposentada)
“Os peixes que encontramos com muita frequência no rio São Francisco é a
pirambeba, o tucunaré, o cará boi, o piau branco, o piau preto, robalo, carapeba,
robalo flecha. Temos também a ocorrência de peixes marinhos no rio São Francisco
a exemplo do xaréu, vermelha, caranha, sargo de dente e há também relatos de
guaiamun. Há também aqueles peixes que sumiram do rio, como o piau amarelo, a
shira, dourada, tubarana, curimatã pacu e o mandin, nem o amarelo e nem o branco,
e o pintado não se vê mais.” (entrevistado de 38 anos)
Pesquisas tem evidenciado no Baixo São Francisco a redução da atividade
pesqueira, nos aspectos de diversidade e produção, além da baixa qualidade e deficiência
nas estruturas para armazenamento e comercialização da produção (SOARES et al., 2020;
SOARES et al., 2011; LIMA et al., 2010).
Em levantamento na região, Sampaio et al. (2015) verificaram que a pilombeta
(Anchoviella spp.), na época era a espécie mais rentável com captura por unidade de
esforço em média de 8 kg/pescador/dia, seguida do curimatã-pacu ou xira (Prochilodus
argenteus Spix & Agassiz, 1829), com média de 5 kg/pescador/dia e os piaus (Leporinus
ssp.), com média de 2,8 kg/pescador/dia. Entre as espécies marinhas, os autores
destacaram os robalos (Centropomus undecimalis Bloch, 1792 e C. parallelus Poey,
1860) e as carapebas (Eugerres brasilianus Valenciennes, 1830), como sendo espécies
comuns nos desembarques da região.
Todas essas espécies foram citadas pelos pescadores, com destaque para o robalo e
a carapeba, como as de maior ocorrência na lista livre (sendo essas duas estuarinas e de
ocorrência comum na região de Neópolis, além da xira (P. argenteus), atualmente com
pouca incidência nas capturas e nos mercados da cidade sergipana. O aumento da cunha
salina (16 km da foz em 2018), tem ocasionado mudança na dinâmica das espécies
(SOARES et al., 2020), com o siri (Callinectes sp.), representando maior volume nos
desembarques pesqueiros e grande incidência na região de Neópolis, sendo este pescado
a principal fonte de renda para dois dos pescadores entrevistados. Na BHRSF, espécies
marinhas e estuarinas podem ocorrer até vários quilômetros rio acima, a partir da sua foz
(ALVES et al., 2011) e a ictiofauna estuarina apresenta diversos graus de tolerância às
variações de salinidade da água (CAMARGO e ISAAC, 2001).
Ainda segundo Sampaio et al. (2015) foram observadas espécies bioinvasoras em
seu levantamento, sendo a tilápia (Oreochromis sp.), o cará boi (Astronotus ocellatus) e
o tucunaré (Cichla monoculus) os mais representativos. Dentre as espécies exóticas,
tucunaré e tilápia foram as mais citadas entre os pescadores de Neópolis, havendo também
citação do cará boi. A tilápia foi provavelmente a primeira espécie invasora da região,
devido a sua utilização nas pisciculturas localizadas nesse trecho do rio (SAMPAIO et
al., 2015).
De acordo com Soares et al. (2011) em levantamento entre os anos de 2007 a 2009
no entorno de Penedo-AL, a produção pesqueira foi representada por 22 espécies, das
quais cinco foram mais comuns, sendo a xira (Prochilodus argenteus), o piau (Leporinus
spp.), a pilombeta (Anchoviella vaillantii), o robalo (Centropomus sp.) e a carapeba
(Eugerres brasilianus). Nas entrevistas atuais, observa-se mudança na ocorrência das
espécies na percepção dos pescadores, tendo a xira sido citada como uma espécie rara nos
índices de captura, e o robalo e a carapeba (costeiras) com ocorrência abundante. Os
autores destacaram que nos anos do estudo, cerca de cinco espécies representaram em
média 80% da biomassa do pescado, sendo a xira (também conhecida como curimatãpacu) a mais capturada, com percentual médio de 40,0%, seguido dos piaus e robalo.
Segundo os autores, a ocorrência da carapeba, era observada no entorno das cidades de
Penedo e Igreja Nova (distando 40 km da foz do São Francisco), corroborando com a
percepção dos pescadores artesanais.
Barbosa et al. (2017) em levantamento no Baixo São Francisco consideraram a
carapeba como uma das espécies invasoras da divisão periférica, observando também
peixes exóticos, como os tucunarés (Cichla spp.), e diversas outras espécies introduzidas
nas últimas décadas com o desenvolvimento da aquicultura, como as tilápias
(Oreochromis niloticus e Tilapia rendalli). Os entrevistados no presente estudo relatam a
existência muito comum destes peixes em seus apetrechos de pesca e segundo Freitas et
al. (2015), analisando o conhecimento dos pescadores artesanais em relação a ocorrência
das espécies, destacaram a presença de exemplares exóticos e o sumiço daquelas espécies
antes abundantes e agora consideradas raras, como o dourado, o surubim e o pirá, bem
como a diminuição considerável de mandis e piaus.
Soares et al. (2011) consideraram que o incremento anual do robalo em seu
levantamento, indicava grande abundância desse peixe na região, ao mesmo tempo que
apresentava maior aceitação nos mercados ribeirinhos e, consequentemente, aumento da
captura por pescadores artesanais.
Em levantamento preliminar nas proximidades de Penedo/AL, Barbosa e Soares
(2009) observaram que dentre as espécies nativas, várias apresentavam importância na
alimentação humana, sendo por isso alvo de intensa pesca, destacando-se a curimatã
(Prochilodus spp.), o dourado (Salminus franciscanus), o surubim (Pseudoplatystoma
corruscans), diferentes espécies de mandi (Pimelodus maculatus e Duopalatinus
emarginatus), piau (Leporinus spp.), traíra (Hoplias microcephalus) entre outros. Para os
autores, a composição das capturas em dois importantes municípios ribeirinhos (Penedo
- AL e Neopólis - SE) foi composta por cerca de 16 espécies, sendo a curimatã-pacu
(Prochilodus argenteus) a que ocupou o primeiro lugar das capturas, seguido da
pilombeta (Anchoviella vaillanti), piau (Leporinus sp.) e outras espécies, como carapeba
(Gerreidae), cara-boi (Astronotus ocellatus), pacu (Myleus sp.) e tucunaré. Esses dados
reforçam a possível sobrepesca de determinadas espécies, como a curimatã-pacu (xira),
levando a redução dos estoques naturais na região, atualmente percebidos pelos
pescadores.
A redução das espécies tem levado ao deslocamento dos pescadores de Neópolis
para outros locais visando aumentar a sua produtividade. Há casos de pescadores que
estão se deslocando até o Xinaré (pertencente ao município de Igreja Nova e distante
cerca de 15 a 20 km) para aumentar sua renda. Sobre a necessidade de deslocamento de
pescadores artesanais para a realização da atividade, Freitas et al. (2015) também
relataram que com a escassez do pescado e a ocupação/privatização de terras às margens
do cânion do São Francisco, houve a necessidade de deslocamento por grandes distâncias
e longos períodos em busca do peixe, com o objetivo de garantir uma boa pescaria, e esse
fato estava ocasionando em maior tempo fora de suas residências e levando dias e até
mesmo semanas às margens do cânion.
Dentre as espécies citadas como comuns entre os pescadores de Neópolis, são
atribuídos ao piau, a carapeba e a traíra, os melhores preços de comercialização, em feiras
e mercados do próprio bairro, ou negociados com atravessadores. Nesse último caso,
quando é negociado a venda do camarão, o rendimento é bem menor devido os preços
pagos serem mais baixos que os praticados em outros canais de comercialização. Como
exemplo, o camarão capturado com “covo” tem uma produtividade média entre 6 e 8
quilos/dia com preço de comercialização de R$ 8,00/quilo para atravessadores. Segundo
Soares et al. (2011) entre as espécies de peixes mais valoradas em relação ao preço médio
de primeira comercialização, houve destaque para o robalo e a carapeba, seguido do piau
e xira e as espécies de menor valor de venda foram a pirambeba e a traíra.
A pesca entre as famílias possui extrema importância para o consumo, mas mesmo
assim, a insegurança alimentar atingiu 43% das famílias. Além disso, dos entrevistados,
29% responderam que nos últimos meses ficaram sem dinheiro para ter alimentação
variada e que comeram menos do que acharam que devia porque não havia comida
suficiente; outros 14% informaram que algum adulto da casa diminuiu a quantidade de
alimento ou pulou alguma refeição porque não havia dinheiro suficiente para comprar
alimento. Em Neópolis, a insegurança alimentar pode estar relacionada a baixa
remuneração pela atividade e como citado nas entrevistas, há necessidade de compra de
outros itens para compor a alimentação e necessidades das famílias. A segurança
alimentar está presente em 57% das famílias entrevistadas e reflete a dificuldade destas
em garantir seus meios de sobrevivência e manutenção por meio da pesca. Segundo
Bezerra et al. (2018) apesar da maioria dos pescadores ser beneficiários do Bolsa Família,
a prevalência de Insegurança Alimentar foi alta, chegando a 67%.
Fica evidente por meio dos levantamentos, que as mudanças na ocorrência das
espécies decorrentes dos impactos e mudanças ambientais tem gerado consequências
entre os pescadores artesanais, dificultando a realização da atividade, bem como
melhorias na renda e comprometendo a segurança alimentar. Sampaio et al. (2015)
destacaram que apesar da riqueza e do elevado grau de endemismo das espécies na Bacia
do São Francisco, o esforço pesqueiro é empregado sobre um número reduzido de
espécies, havendo necessidade de uma política conservadora voltada aos estoques
pesqueiros. Da mesma forma, Soares et al. (2011) atentam para a necessidade de um plano
de ordenamento da pesca na região, baseados na diminuição do volume de pescado
capturado e pressão pesqueira exercida sobre determinadas espécies, sendo evidente a
decadência da pesca no Baixo São Francisco, com incidência cada vez menor da
variedade de espécies observadas.
Desafios e perspectivas
As ações antrópicas, principalmente no Baixo São Francisco tem impactado
diretamente os pescadores artesanais e o desenvolvimento da atividade. A mudança na
ocorrência das espécies de pescados são percebidas pelos pescadores(as) e são
semelhantes aos levantamentos de perfil da ictiofauna realizados na região, com destaque
para as espécies marinhas/costeiras sendo comuns na região de Neópolis/SE.
As dificuldades de realização e manutenção da pesca tem impactado
economicamente as famílias, havendo baixa remuneração com a atividade e contribuído
para o alto índice de insegurança alimentar. O acesso às políticas públicas tem
apresentado restrições, principalmente atrasos no recebimento do Seguro Defeso,
principal política que visa garantir uma renda mínima às famílias durante os períodos de
proibição da pesca.
Ações que contribuam para melhorar os índices de escolaridade, acesso ao sistema
de esgotamento sanitário a todas as famílias, manejo e comercialização do pescado devem
ser implementadas, visando garantir a manutenção da atividade tradicional destas
comunidades.
PERSPECTIVAS E SUGESTÕES PARA O BAIXO SÃO FRANCISCO
Diante do cenário observado, ações que possibilitem acesso a serviços básicos à
população, bem como apoiem os processos produtivos devem ser implementadas, como:
a) Educação para adultos, por meio de cursos de EJA, visando superar o quadro de
analfabetismo existente;
b) Implantação de cisternas calçadão entre as famílias localizadas nas áreas de baixa
precipitação;
c) Instalação de sistemas de tratamento de água nas áreas rurais;
d) Acesso à políticas públicas, como PAA leite para as famílias em situação de
vulnerabilidade;
e) Instalação de casa de mel e apoio a estruturação da cadeia produtiva dos produtos
apícolas, acesso à crédito para atividade e obtenção de certificações, como orgânica,
de origem e de conservação do bioma caatinga, agregando valor aos produtos;
f) Manutenção e ampliação da assistência técnica e extensão rural pela EMATER;
g) Instalação de sistemas biológicos de tratamento de esgoto e águas cinzas, integrando
a produção de alimentos à esses sistemas;
h) Acesso e ampliação às políticas de compras governamentais, como PNAE e PAA,
além de fortalecimento da comercialização local;
i) Ações de transição agroecológica para o arroz, visando a redução do uso de
agrotóxicos, bem como capacitação para uso correto dos agrotóxicos e instalação de
projeto piloto de MIP;
j) Estruturação da cadeia produtiva da pesca artesanal e a criação de pescados;
k) Apoio a cadeia extrativista de frutas, bem como capacitação dos grupos para o manejo
e obtenção da certificação orgânica;
l) Apoio ao associativismo e agroindustrialização, agregando valor aos produtos e
reduzindo as perdas;
m) Criação de Resex para extrativismo de frutas, buscando garantir acesso às plantas
nativas para as famílias, aliado a conservação ambiental;
n) Implantação dos planos de manejo das APAs existentes junto às comunidades
extratitivistas.
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Saúde mental de agricultores familiares ribeirinhos do Baixo São
Francisco em Alagoas, Brasil: levantamento da I Expedição científica
do baixo São Francisco
Elton Lima Santos1, Verônica de Medeiros Alves², Leilane Camila Ferreira e Lima Francisco 3;
Alice Correia Barros3
INTRODUÇÃO
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como um bem estar físico,
mental e social, não apenas a ausência de enfermidades ou afecções. Saúde mental é um
estado de bem estar, no qual o indivíduo tem capacidade de enfrentar as tensões normais
da vida, seguir uma vida profissional produtiva e contribuir socialmente com a
comunidade em que vive. Estado em que o indivíduo está consciente de suas capacidades
(OMS, 2009). A Organização Mundial da Saúde (2001) estimou que cerca de 450 milhões
de pessoas do mundo sofriam com algum transtorno mental e a este número se atribuiu a
negligência com que são tratados, pois apenas uma minoria tem acesso ao tratamento.
Estudos epidemiológicos têm demonstrado que a prevalência de transtorno mental
durante a vida varia de 12,2% a 48,6%, dependendo da população e do instrumento
utilizado para identificar o transtorno (GONÇALVES; KAPCZINSKI, 2008). Dados de
prevalência internacionais adotados pelo Ministério da Saúde relatam que 3% da
população apresentam transtornos mentais severos e persistentes, necesitando de
cuidados continuos, e cerca de 9 a 12% apresentam transtornos mentais leves,
necessitando de cuidados eventuais (BRASIL, 2009). Rombaldi e colaboradores (2009)
relatam que os transtornos mentais representam quatro das dez principais causas de
incapacidade no mundo, correspondendo a 12% da carga global de doenças, com um
crescimento previsto para 15%, em 2020.
____________________________________________________________
1
Docente do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas, Mestre em Ciências da Saúde pela
Universidade Federal de Alagoas, Doutora em Saúde Mental pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
2
Docente do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas, Mestre em Ciências da Saúde pela
Universidade Federal de Alagoas, Doutora em Saúde Mental pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
3
Especialista em psiquiatria e saúde mental. Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Alagoas.
Membro do grupo de estudos em saúde mental, álcool e outras drogas da Universidade Federal de Alagoas.
A prevalência dos transtornos mentais vem aumentando nos últimos anos e dentre
os vários fatores que influenciam a ocorrência do transtorno mental, Ludermir e Melo
Filho (2002) relatam que a baixa escolaridade, baixa renda e exclusão do mercado de
trabalho, expressões da estrutura das classes sociais, proporcionam situações de estresse
que podem levar a um transtorno mental. As desigualdades sociais envolvem os principais
sentimentos relacionados à depressão e a outros transtornos mentais (LUDERMIR, 2008).
As diferentes formas de sofrimento psíquico constituem importante causa de perda
de qualidade de vida na população em geral (BRASIL, 2009). Dentre os principais
agravos mentais, pode-se citar a esquizofrenia, os transtornos de humor e transtornos
mentais e afetivos por uso de substâncias.
Apesar do avanço e da transformação da assistência à saúde mental, o portador de
transtorno mental ainda é vítima de preconceito, pois existe o estigma da sociedade, o que
prejudica relacionamentos sociais, aumentando o sofrimento dos envolvidos (JORGE et
al, 2008). Verifica-se de modo geral uma enorme desigualdade na relação de quem
necessita efetivamente de tratamento e está em condições de sofrimento mental e quem
recebe cuidados e tratamentos básicos (OMS, 2009).
Franco, Druck e Seligmann-Silva (2010) e Silva et al. (2012) afirmam que o
adoecimento decorrente do trabalho e, mais especificamente, os transtornos mentais e do
comportamento devem ser encarados muito além do que um problema pessoal, mas sim
como um problema de saúde pública, que traz grandes consequências tanto econômicas
quanto à qualidade de vida dos atingidos.
A população que vive no meio rural e/ou ribeirinhos, consequentemente, tem no
Brasil, bastante dificuldade de acesso às ferramentas de prevenção e tratamento de
transtornos mentais oferecidos pelo serviço público de saúde. Isso pode ser devido a
dificuldade de acesso aos serviços de saúde, a dificuldade de deslocamento de equipes de
saúde para a promoção da saúde nas áreas rurais e o maior custo dos tratamentos
psiquiátricos (QUINDERÉ et al, 2013).
Pesquisas realizadas com trabalhadores agrícolas na Austrália, Canadá, Europa e
Estados Unidos indicam que eles e suas famílias apresentam fatores estressantes
relacionados ao ambiente físico, à estrutura familiar agrícola, às dificuldades econômicas
e às incertezas associadas com a propriedade agrícola, podendo trazer danos a sua saúde
mental (FRASER et al., 2005).
Pensando nisso, este capítulo busca identificar e descrever o perfil, avaliando o
estado de saúde mental de agricultores familiares ribeirinhos da região do baixo São
Francisco, Alagoas, Brasil., com dados e informações obtidas in loco durante a I
Expedição Científica do baixo São Francisco.
SAÚDE
MENTAL
E
A
AGRICULTURA
FAMILIAR:
ASPECTOS
ENVOLVENDO A POPULAÇÃO DO BAIXO SÃO FRANCISCO
A I Expedição Científica do Baixo São Francisco teve uma duração de 6 dias a
bordo de uma embarcação e com desembarques nas cidades citadas anteriormente,
composta por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores e estudantes, em diversas
áreas do conhecimento, no mês de outubro de 2018. Nesse período, os trabalhadores
rurais e ribeirinhos foram convidados a responder a dois instrumentos de coleta para
obtenção de informações a respeito da saúde mental dos mesmos.
As entrevistas aconteceram de forma aleatória, em local reservado, para preservar
a confidencialidade das informações coletadas e o anonimato dos entrevistados e foi
constituída por trabalhadores de agricultura familiar residentes em Porto Real do Colégio,
Igreja Nova, Penedo e Piacabuçu, no Estado de Alagoas, Brasil.
Foram
utilizados
dois
instrumentos:
um
questionário
com
variáveis
sociodemográficas e o questionário de identificação de transtornos mentais comuns
chamado Self Report Questionnaire (SRQ-20). O SRQ foi desenvolvido por Harding et
al. (1980) e validado no Brasil por Mari e Willians (1986). É composto por 20 questões
elaboradas para detecção de distúrbios “neuróticos”, chamados atualmente de TMC. Os
escores obtidos sinalizam a probabilidade de presença de TMC ou desconforto emocional,
variando de 0 (nenhuma probabilidade) a 20 (extrema probabilidade). Não inclui questões
sobre sintomas psicóticos nem sobre o consumo de álcool e outras drogas. Nessa pesquisa,
foi adotado o ponto de corte de 07 ou mais respostas positivas como indicativo da
presença de TMC, baseando-se no estudo de Mari e Willians (1986).
Transtornos Mentais Comuns (TMCs) é uma terminologia utilizada para a
caracterização de quadros sintomáticos não psicóticos e sem patologia orgânica associada
(MARAGNO et al., 2006). Os TMCs reúnem sintomas depressivos e psicossomáticos,
tais como insônia, fadiga, dificuldade de concentração que, além de causarem intenso
sofrimento psíquico, geram incapacidade funcional (CARLOTTO et al., 2011).
Foram entrevistados 43 trabalhadores de agricultura familiar residentes em Porto
Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piacabuçu (Tabela 1). A média de idade foi de
45,7 (± 14,3). A maioria era do sexo masculino (40- 93%), casado (28 – 65,1%), cultivava
arroz (13 – 30,2%) e trabalhava com pesca (7 – 16,3%) (Tabela 1).
O trabalho também pode ser fonte de sofrimento, quando contém fatores de risco
para a saúde e, de certo modo, o trabalhador não dispõe de instrumental suficiente para
se proteger desses riscos (NUNES, 2009). Durante a expedição identificou-se 7 (16,3%)
pessoas com TMC (Tabela 1). Estudo realizado no município de Três de maio, Rio
Grande do Sul, entrevistou 361 agricultores e identificou que 47,9% (173) dos
participantes apresentaram TMC (MORIN, STUMM, 2018). Outro estudo realizado com
362 mulheres agricultoras do município de Saudades, Santa Catarina identificou que
21,54% das mulheres responderam ao SRQ-20 com escores acima ou igual a 7, indicando
a hipótese de TCM (MAHL, STEIN, COSTA, 2017).
Os itens mais pontuados foram: Falta de apetite; sente-se nervoso, tenso ou
preocupado; cansa-se com facilidade; dor de cabeça frequente; assusta-se com facilidade,
tem sensações desagradáveis no estômago (Tabela 1). Os sintomas mais recorrentes no
estudo de Mahl, Stein, Costa (2017) foram: Sente-se tenso, nervoso ou preocupado
(91,02%), Tem dificuldades de pensar com clareza (74,64 %) e Você se cansa com
facilidade (74,64 %). Os sintomas mais presentes citados acima podem estar relacionados
com a presença do transtorno de ansiedade, onde o indivíduo não consegue melhorar essa
preocupação, sente-se como se estivesse com os nervos à “flor da pele”, fadigado,
irritável, com dificuldade de concentração, tenso e com sono irregular (DSM-5, 2014).
A exposição do trabalhador a condições psicossociais adversas pode prejudicar a
sua saúde e o seu bem-estar e gerar sofrimento psíquico, sentimentos de insatisfação e
desmotivação no trabalho e problemas de relacionamento, entre outras dificuldades
(SERAFIM, 2012). A energia negativa acumulada no aparelho psíquico pode se
exacerbar, desencadeando reações somáticas ou perturbações físicas, devido à sobrecarga
psíquica (D’ÁVILA, 2005).
Os transtornos de ansiedade compartilham como características principais o medo
e a ansiedade numa forma demasiada e exagerada, além das perturbações
comportamentais (DSM-V, 2014). Sendo que a ansiedade pode ser definida como “a
antecipação de uma ameaça futura” e o medo como a “resposta emocional a ameaça
iminente real ou percebida” (DSM-V, 2014). Diferentemente do medo e da ansiedade de
adaptação, os transtornos de ansiedade são excessivos e persistentes (DSM-V, 2014).
Oliveira e Pereira (2012) refere que a ansiedade é a resposta subjetiva a um fator de
estresse. Todo indivíduo tem um limiar de estresse, o qual quando limitado torna a pessoa
mais vulnerável aos sintomas de estresse, com consequente maior vulnerabilidade para o
desenvolvimento de ansiedade (BAPTISTA; CARNEIRO, 2011).
Duas dessas já tiveram depressão ao longo da vida e uma alegou fazer tratamento
medicamentoso (Tabela 1). A depressão é considerada como um problema prioritário de
saúde pública e estão, mundialmente, entre as cinco doenças mais incapacitantes
(RODRIGUES, 2011). Além disso, a adesão ao tratamento é considerada também um
problema de saúde pública, devido as limitações e perdas progressivas na vida pessoal do
paciente. A não adesão está associada, principalmente, aos efeitos colaterais dos
medicamentos e à sintomatologia nos momentos de crise (MIASSO, CASSIANI,
PEDRÃO, 2008).
Na depressão, o indivíduo pode apresentar perda de interesse pelas atividades do
cotidiano, sentimento de inutilidade e culpa, perda da autoestima, ideias de morte e
suicídio, perturbações do sono e alterações do apetite, além destes podem estar presentes
os sintomas somáticos. É caracterizado por episódios distintos de pelo menos duas
semanas de duração, alguns ocorrendo por um período maior de tempo e pode ocorrer
episodicamente ou recorrente ou crônica (SENA, 2014). O paciente deprimido tem três
vezes mais probabilidades de não seguir o regime médico do que o não deprimido. Existe,
pois, a necessidade de treinamento da equipe de saúde para detectar transtornos
depressivos e falta de adesão ao tratamento (SOUZA et al., 2013).
Segundo DSM-5 (2014), têm-se fatores ambientais, genéticos e fisiológicos que
podem influenciar no desenvolver do Transtorno Depressivo Maior.
Ambientais: Experiências adversas na infância constituem um conjunto de fatores
de risco potenciais para Transtorno Depressivo Maior. Eventos estressantes na vida são
bem reconhecidos como precipitantes de episódios depressivos maiores (DSM-5, 2014).
Genéticos e fisiológicos: Os familiares de primeiro grau de indivíduos com
transtorno depressivo maior têm risco 2 a 4 vezes mais elevado de desenvolver a doença
que a população em geral. Os riscos relativos parecem ser mais altos para as formas de
início precoce e recorrente. A herdabilidade é de aproximadamente 40%. (DSM-5, 2014).
Tabela 1- Características gerais e transtornos mentais comuns de agricultores familiares ribeirinhos da
região do baixo São Francisco, Alagoas, Brasil.
Sexo
Porto Real
Igreja
Penedo
Piacabuçu
Total
do Colégio
Nova
Masculino
10 (25%)
9 (22,5%)
11 (27,5%)
10 (25%)
40 (93%)
Feminino
2 (66,7%)
-
1 (33,3%)
-
3 (7%)
Total
12 (27,9%)
9 (20,9%)
12 (27,9%)
10 (23,3%)
43 (100%)
Média
idade
45,7 ± 14,28 (Máx: 69 e Mín: 21 anos)
de
Estado
civil
Casado
Separado
Solteiro
Viúvo
Sem
reposta
Total
28 (65,1%)
2 (4,7%)
6 (13,9%)
2 (4,7%)
5 (11,6%)
Cultivo de
arroz
13(30,2%)
Pesca
7 (16,3%)
Transtorno
mental por
sexo
Porto Real
do Colégio
Igreja
Nova
Penedo
Piacabuçu
Total
Masculino
1 (16,7%)
3 (50%)
2 (33,3%)
-
6 (85,7%)
Feminino
1 (100%)
-
-
-
1 (14,3%)
Total
2 (28,6%)
3 (42,8%)
2 (28,6%)
-
7 (16,3%)
Usa remédio psiquiátrico
Sim
3 (7,0%)
Já teve depressão
Sim
2 (4,6%)
Itens do Instrumento SQR – 20 com mais afirmações positivas
Falta de apetite
13 (30,2%)
Sente-se nervoso, tenso ou preocupado
13 (30,2%)
Cansa-se com facilidade
13 (30,2%)
Dor de cabeça frequente
12 (27,9%)
Assusta-se com facilidade
12 (27,9%)
Tem sensações desagradáveis no estômago
12 (27,9%)
Blum (2001) relata que as propriedades familiares passam por inúmeros problemas
de terra (concentração e qualidade), de mão-de-obra (escassez, qualidade, custo e
humanização), de capital (escassez, política agrícola) e de capacidade empresarial (falta
de análise de custos, de margens brutas, de lucratividade, de análise de investimentos, de
associativismo e de visão sistêmica, comercialização e agregação de valor e uso de
tecnologia). Isso pode ser considerado um gatilho para o desencadeamento de transtornos
mentais comuns.
O trabalho, por sua vez, desempenha função essencial na vida das pessoas, pois é
por meio dele que cada pessoa constrói sua identidade, possibilitando, ainda, realização,
descobrimento de habilidades e integração social (JILOU, 2013). No entanto, a natureza
do trabalho tem significante interferência na saúde do trabalhador (LAGO, 2015).
Em meio às principais doenças relacionadas ao trabalho, os transtornos mentais
(TM) têm atingido grande parcela da população, gerando absenteísmo e afastamento
prolongado de suas atividades. Buscando-se investigar quais os motivos de afastamento
por transtorno mental, Miranda, Alvarado e Kaufman (2012) observaram que os
diagnósticos mais presentes foram os distúrbios depressivos e do comportamento,
seguidos dos transtornos ansiosos.
Sendo o trabalho uma atividade inerente ao indivíduo enquanto ser social. Como o
homem passa uma expressiva parte da sua vida no ambiente de trabalho, ele esta passível
a várias ocorrências que podem interferir positiva ou negativa ou negativamente sobre
sua saúde física e/ou mental (GAVIN, 2013). Assim, faz-se necessário criar um ambiente
de trabalho favorável ao trabalhador para evitar riscos à saúde física e mental (OMS,
2010). Os transtornos mentais são influenciados por uma combinação de fatores
biológicos, psicológicos e sociais. Afetam pessoas de todas as idades, em todos os países
e causam sofrimento aos indivíduos, às famílias e às comunidades (POLETTO, 2009).
A determinação social e os territórios viventes são fatores preponderantes, dentro
do contexto do estudo da saúde mental, de forma que, o processo de saúde-doençacuidado no meio rural tem que ser avaliado com particularidade e bastante atenção. Sendo
assim, Dantas et al. (2020) ressaltaram esses mesmos aspectos, para a avaliação de
transtornos mentais no meio rural, destacando que a contextualização do processo saúdedoença-cuidado está intimamente relacionada à sua territorialização. Relatando ainda
que, no meio rural, as condições de vulnerabilidade se agravam. Indicadores
socioeconômicos de assentamentos rurais do Nordeste brasileiro revelam considerável
índice de não alfabetizados, de insegurança alimentar e de mortalidade infantil;
dificuldade no acesso aos serviços públicos e assistência técnica; precariedade das
condições de trabalho e maior dependência dos programas de transferência de renda. Ou
seja, uma complexidade de fatores e combinação de riscos produtores de sofrimento que
impactam na saúde mental.
Corroborando os dados verificados no estudo no baixo São Francisco, Poletto
(2009), em estudo buscando identificar os fatores relacionados ao processo de trabalho
que podem contribuir para a ocorrência de problemas de saúde mental de trabalhadores
agrícolas familiares da microrregião de Ituporanga, Santa Catarina, puderam constatar
que, o trabalho sazonal e a carga de trabalho, as condições climáticas, o isolamento e
suporte social, os problemas financeiros, o uso de agrotóxicos, as intoxicações, os
problemas de saúde e acidentes são fatores que podem contribuir para os agravos à saúde
mental dos trabalhadores agrícolas familiares estudados, obtendo uma prevalência de
33,8% de problemas de saúde mental nos trabalhadores.
Morais et al (2020), quando avaliaram o impacto do desenvolvimento de ações
extensivas em Unidades Básicas de (UBS) sobre condições de saúde mental em uma
comunidade rural do sertão pernambucano (Lagoa grande-PE), puderam verificar que A
saúde mental é considerada precária pela maioria dos participantes das atividades
extensivas, havendo um índice alto de transtornos mentais comuns. As condições
adoecimento tendem a se agravar devido as condições insatisfatórias de trabalho,
educação, moradia e lazer, além do acesso restrito a espaços de convivência comunitária,
a bens e serviços. A exposição a agrotóxicos e a ausência de lazer foi vista com um dos
principais fatores de risco para o adoecimento mental no território estudado. Esses
mesmos autores destacam ainda que dentre os agravos à saúde mais frequentes em
comunidades rurais, destacam-se os Transtornos Mentais Comuns (TMCs), que se
constituem como um conjunto de manifestações com sintomas ansiosos, depressivos ou
somatoformes proeminentes. Apesar de uma elevada prevalência entre adultos, apenas
uma pequena parte dos TMC é identificada e tratada.
Da mesma forma, Silva (2019), estudando a qualidade de vida dos agricultores
expostos a agrotóxicos na produção de coco no perímetro irrigado de São Gonçalo,
constataram que os aspectos de problemas emocionais e mentais são os aspectos
relacionados à saúde mais potencialmente expressos pelos trabalhadores, de forma que os
autores determinaram que: o pior escore constatado na escala de Raw Scale sobre
qualidade de vida, foram os domínios aspectos físicos, os aspectos emocionais e a dor, ou
seja, os participantes não apresentam bons conceitos da sua própria saúde, haja visto que
houve a diminuição da quantidade de tempo que se dedicava ao seu trabalho ou a outras
atividades, e que realizou menos tarefas do que gostaria de fazer por motivo de problema
com o seu trabalho ou alguma atividade diária regular. Com relação a dor, observa-se a
variação da intensidade de leve a moderado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo possibilitou a compreensão sobre a ocorrência de transtornos mentais
comuns em trabalhadores agrícolas ribeirinhos da região do baixo São Francisco. Esses
moradores que trabalham com a agricultura e a pesca vêm apresentando TMC que
necessitam de um cuidado multidisciplinar voltado para a promoção da saúde mental.
A presença de transtornos mentais comuns em trabalhadores da agricultura
familiar levanta a necessidade de uma atenção diferenciada para os mesmos, buscando
meios que amenizem os fatores que desencadeiam os sintomas, buscando estratégias para
melhorar a qualidade de vida. Estudos como este figuram sua importância por possibilitar
traçar um perfil epidemiológico desses trabalhadores, levantando-se um espaço para
discussão sobre os transtornos mentais.
AGRADECIMENTOS
A toda a equipe da I Expedição Científica do Baixo São Francisco. Ao Comitê da
Bacia Hidrográfica do rio São Francisco (CBHRSF), e a Fundação ao Amparo à pesquisa
e Inovação de Alagoas (FAPEAL), pelo aporte financeiro.
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Educação ambiental nas escolas ribeirinhas do baixo São Francisco
(Environmental Education in the São Francisco Riverside Communities, in Alagoas,
Brazil)
José Vieira Silva17; Márcio José Rodrigues Câmpelo18; Evaristo Perez Rial19
RESUMO: As atividades de educação ambiental
realizadas durante a 2ª Expedição Científica do Baixo
São Francisco foram desenvolvidas em escolas públicas
e particulares de ensino fundamental e médio das
comunidades ribeirinhas. As visitas às escolas tiveram
como finalidade apresentar um vídeo e uma palestra
sobre os problemas ambientais do Rio São Francisco e
promover uma maior aproximação com as mesmas.
Assim foi possível conhecer a realidade e a forma de
abordagem das mesmas com a temática da educação
ambiental no dia-a-dia. Com a participação efetiva dos
alunos, foram realizados plantios de mudas de espécies
vegetais nativas, usando a tecnologia do hidrogel.
ABSTRACT: The environmental education activities carried out during the 2nd
Scientific Expedition of São Francisco River, in Alagoas, Brazil, were developed in
public and private schools of primary and secondary education of the riverside
communities. The visits to the schools had the purpose of presenting a video and a lecture
on the river environmental problems and promoting a closer relationship with them. Thus,
it was possible to know the reality and how to approach them with the environmental
education thematic on a daily basis. With the effective participation of students, native
plant species seedlings were planted using hydrogel technology.
17
Professor Associado, PPGAA / CRAD. Campus Arapiraca. Universidade Federal de Alagoas.
Fotógrafo da Natureza – Instituto SOS Caatinga. Maceió - Alagoas.
19
Técnico Sénior em Aquicultura Marinha. Instituto Espanhol de Oceanografia. Vigo – Espanha.
18
1 – Caracterização dos problemas do Baixo São Francisco (BSF)
A região do BSF está localizada entre os estados de Sergipe e Alagoas, cobrindo
uma área de 25.500 km2, onde vive uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes,
dos quais 440.000 residem em áreas ao longo do rio São Francisco. O Baixo São
Francisco vai de Paulo Afonso (BA) até a foz, margeando a divisa entre os Estados de
Sergipe e Alagoas, e representa cerca de 4% da área total da Bacia do Velho Chico e cerca
de 270 km de extensão (Medeiros et al, 2014)20.
O BSF apresenta os piores indicadores socioeconômicos, com um PIB baixo e os
Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios classificados como baixos
(0,45 a 0,599, grande maioria) e médios (entre 0,6 e 0,699, poucos). Apesar da
proximidade com a maior fonte de água doce superficial na região Nordeste, apenas 78%
da população dos municípios de Alagoas tem acesso à água para beber, enquanto que em
Sergipe esse número chega a 91%.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano de
2019 (IBGE, 2019)21, cada alagoano recebeu em média R$ 730,86, que correspondente a
73,2% do salário mínimo vigente no período. Por outro lado, em metade dos municípios
ribeirinhos no Baixo São Francisco, a renda per capita média mensal por pessoa da
família, não ultrapassa R$ 140,00, caracterizando-se como "abaixo da linha de pobreza".
Outro ponto indicador, que é reflexo direto da distribuição de renda e que merece grande
atenção, diz respeito ao Índice IDEB, das séries iniciais e finais do ensino primário, onde
os valores médios da última avaliação, divulgada em 2017, foram considerados
preocupantes e muito baixos e estão entre 3 e 5 (INEP, 2020)22.
Dadas às condições sócio-econômicas críticas e adversas, a população ribeirinha
residente utiliza em grande escala os recursos naturais locais nas atividades de
subsistência. Isto tem gerado uma pressão antrópica muito grande sobre as áreas de
Caatinga, com diferentes níveis de importância ecológica, conservação e degradação. No
Estado de Alagoas, ao longo dos tempos, as áreas de Caatinga têm sido negligenciadas
20
MEDEIROS, PRP; SANTOS, MM; CAVALCANTE, GH; SOUZA, WLF; SILVA, WF.. Características
ambientais do Baixo São Francisco (AL/SE): efeitos de barragens no transporte de materiais na interface
continente-oceano. DOI: 10.5327/Z0102-9800201400010007. Geochimica Brasiliensis. 28(1): 65-78,
2014.
21
IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2019. PNADC.
https://cidades.ibge.gov.br/brasil/al/pesquisa/10070/64506. Acesso em 24 de junho de 2020.
22
- INEP. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Ministério da Educação.
http://ideb.inep.gov.br/resultado/. Acesso em 24 de junho de 2020.
do ponto de vista ambiental, de forma que a devastação atinge proporções alarmantes. E
este fato tem se agravado devido ao elevado grau de degradação nas áreas de preservação
permanentes (APPs), matas ciliares e nascentes, tanto dos seus afluentes de 1ª e 2ª ordem,
como do próprio Rio São Francisco.
A construção de barragens, estradas e núcleos urbanos e a expansão da
agropecuária, provocaram uma redução severa da vegetação ciliar do Rio São Francisco
e seus afluentes, apresentado hoje uma fisionomia bastante modificada. Face à severa
supressão, muitas espécies nativas estão extintas e, na grande maioria dos ambientes
ciliares remanescentes, não há resiliência que permita a vegetação se restabelecer por
mecanismos naturais de regeneração.
Em decorrência da ausência de vegetação e da redução da vazão do rio em
consequências das secas na bacia, verifica-se um acelerado processo de erosão das margens
do rio. Isto traz como consequências imediatas, o assoreamento do leito principal do rio, com
perdas de recursos da flora e fauna locais, redução dos pescados, redução das terras produtivas
e, consequentemente, empobrecimento das comunidades que residem às margens do rio.
2 – A Expedição Científica e as Escolas Ribeirinhas
A Expedição Científica do Baixo São Francisco (BSF) é uma iniciativa coordenada
pela Universidade Federal de Alagoas e contou em 2019 com a participação direta de 11
instituições do Brasil e uma da Espanha. Por ser uma segunda experiência, o aumento do
número de pesquisadores participando indiretamente das atividades de educação
ambiental também aumentou. Estas atividades abrangeram desde a parte demonstrativa
de instrumentos e equipamentos usados na pesquisa científica para determinação dos
bioindicadores ambientais para monitoramento do rio até os procedimentos para
levantamentos das condições hidroambientais dos diferentes pontos de parada da
Expedição.
A educação ambiental na 2ª Expedição foi feita de maneira transversal e inclusiva,
onde todos os pesquisadores puderam colaborar de alguma forma. Além das visitas às
escolas, as ações ambientais também foram desenvolvidas transversalmente e
indiretamente nas comunidades ribeirinhas e colônias de pescadores, por outros
pesquisadores, através de entrevistas e abordagens sobre os problemas ambientais
existentes.
Durante as visitas às escolas, vários dos aspectos relacionados aos problemas
ambientais existente no dia-a-dia das comunidades ribeirinhas foram abordados de
maneira lúdica com crianças das séries iniciais. Inicialmente foi apresentado um vídeo
sobre o Baixo São Francisco, com cerca de oito minutos, cedido pela Rede Globo / TV
Gazeta, e que foi tema de um Globo Repórter. Os trechos apresentados trataram dos
problemas ambientais que mais têm impactado as populações ribeirinhas do baixo São
Francisco. Após a apresentação do vídeo, iniciou-se uma conversa com alunos e
professores, onde o foco foi conhecer um pouco da história das escolas e da sua
intervenção sobre o tema educação ambiental, no âmbito local.
Para complementar a ação no contexto da educação ambiental, focado na questão
do assoreamento e da importância das matas ciliares, em cada escola foi realizado o
plantio simbólico de mudas de plantas nativas da Caatinga, contando com a participação
direta dos alunos. Nesta ação, também foi usada a tecnologia do hidrogel, que consiste de
um polímero hidrorretentor que retém até 400 vezes seu peso ou volume inicial. Todo
material foi preparado com a participação direta dos alunos e professores. Em seguida da
adubação com matéria orgânica (esterco bovino) misturada ao solo e adição de hidrogel
constituído, os alunos realização o plantio das mudas.
De forma geral, as visitas às escolas das comunidades ribeirinhas permitiram uma
grande integração expedição-comunidades. Esta integração resultou em maior
conhecimento da realidade local, bem como ver quais os níveis de abordagens sobre os
problemas ambientais enfrentados pelas comunidades, em relação ao rio. Além disso, foi
possível conhecer quais recursos estão disponíveis e a forma como são utilizados para
melhorar o nível de conscientização dos ribeirinhos para superar os problemas de
degradação do rio.
Após as palestras e a realização dos plantios das mudas das espécies nativas, as
escolas foram convidadas para uma visita com seus alunos ao barco da expedição. E esta
foi também a oportunidade para todos pudessem conhecer toda a infraestrutura de
pesquisa utilizada pelos pesquisadores nas atividades científicas da Expedição, bem como
a Exposição fotográfica sobre os animais da fauna alagoana, ameaçados de extinção.
Quais os motivos da Exposição Fotográfica durante a 2ª Expedição?
A Exposição Fotográfica denominada de “Olhares Ambientais: Conhecer para
preservar e defender” foi uma ação e iniciativa de educação ambiental, resultante da
parceria entre o CRad/UFAL e o Grupo Passarinheiro de Alagoas. Consistiu de uma
seleção de imagens, gentilmente cedidas por 15 fotógrafos e amantes da natureza, e todos
integrantes do grupo “Passarinheiros de Alagoas”.
Todas as imagens expostas na Expedição foram de animais da fauna terrestre e
aquática de Alagoas e que estão criticamente ameaçados de extinção. Atualmente, na
natureza, muito destes animais são encontrados somente em poucas áreas de refúgios
particulares ou reservas ambientais, onde há preservação de áreas com vegetação
nativa, nascentes e proteção ambiental permanente.
Desta forma, o objetivo maior da exposição foi levar ao público visitante, um pouco
de informações sobre os animais da nossa fauna que estão correndo sérios riscos de
desaparecerem dos ambientes naturais, sem que mesmo sejam conhecidos da sua
existência. Despertar a consciência ambiental e mostrar a importância de se manter os
ambientes naturais preservados e protegidos é um passo importante na formação
humana e uma contribuição inestimável para a construção de uma sociedade mais
equilibrada, justa e ambientalmente responsável.
Esta foi à forma encontrada para desperta a participação e o engajamento de mais
pessoas na missão de preservação ambiental. Que cada um possa fazer a sua parte, como
defensor e amante da natureza, deixando despertar em cada um, o espírito daqueles que
defendem e querem um mundo melhor!
Equipe Organizadora e Apoiadores
A exposição resultante da parceria do CRad/UFAL e Grupo Passarinheiro de
Alagoas, contou com patrocínio das empresas Triunfo Pedras e Unimed Metropolitana,
ambas de Arapiraca. Todo material produzido servirá para outras exposições futuras, para
que também possam dar a oportunidade de mais pessoas conhecerem um pouco mais
sobre os animais da fauna alagoana que estão ameaçados de extinção (Figuras 3a e b).
Durante todo o processo de visitação, os pesquisadores se fizeram presentes para
demonstrar e explicar o funcionamento dos equipamentos e, em alguns casos como
microscópio e rover subaquático, os alunos também fizeram uso dos mesmos. Todo visitante
que esteve no barco da Expedição, assinou o livro de presença e recebeu um folder sobre a
Exposição fotográfica, “Olhares Ambientais: Conhecer para preservar e defender!”. Os
alunos das escolas visitadas e outras convidadas, assim como as crianças das comunidades
ribeirinhas, também receberam além do folder, um lápis com borracha ou caneta, um
bloquinho de anotações com tema da exposição e confetes, pirulitos ou pipocas.
Figura 3a - Imagens das capas do folder sobre a Exposição fotográfica que ocorreu
durante a Expedição Científica de 2019 e que foi distribuído com a população
ribeirinha.
Figura 3b - Imagens dos animais da fauna alagoana presentes no folder sobre a Exposição
fotográfica que ocorreu durante a Expedição Científica de 2019 e que foi
visitada pela população ribeirinha.
3 – Problemas abordados e que devem ser superados com a Educação Ambiental
A realidade das comunidades ribeirinhas do Baixo São Francisco requer uma
atenção diferenciada pelos órgãos governamentais uma vez que, mesmo dispondo do
recurso básico mais importante, a água, estas comunidades continuam a viver em um
estado de pobreza extrema e com sérios problemas de degradação ambiental. Um dos
pontos de maior limitação, e o principal gargalo identificado nas duas expedições
científicas (2018 e 2019), foi o baixo nível educacional da população em geral, causado
por diversos fatores inerentes ao sistema educacional brasileiro, em todo o território
Nacional (Silva et al., 2020)23.
Dentre os pontos identificados como sérios limitantes do desenvolvimento
sustentável, estão à qualidade do ensino nas escolas ribeirinhas, principalmente nas séries
23
SILVA, J.V.; VIEIRA, J.S.; RIAL, E.. Matas Ciliares, Assoreamento e Educação Ambiental no Baixo
São Francisco. 1ª Expedição Científica do Baixo São Francisco. Universidade Federal de Alagoas. Abril
2020. Relatório Técnico – 2018. DOI: 10.13140/RG.2.2.16792.75522.
iniciais do ensino fundamental. Isto ocorre em função das limitações de recursos
financeiros locais e das deficiências inerentes ao suporte educacional para inclusão digital
e tecnológica disponibilizada para estas escolas ribeirinhas. É premente a necessidade da
inserção destas escolas no contexto de desenvolvimento tecnológico que permitam as
mesmas o acesso às informações universais disponíveis no mundo digital e a difusão
destas como ferramentas de ensino, aprendizagem e desenvolvimento humano e social.
É possível também constatar em todas as escolas visitadas, de acordo com a
disponibilidade de recursos, o empenho e doação de todos os professores, diretores e
demais colaboradores das escolas em promover o melhor ensino possível. São
comunidades carentes de informações e suporte educacional, mas que têm em todo seu
povo, o compromisso e o desejo de aprender e vencer pelo o conhecimento.
Certamente que a melhoria do ensino destas escolas ribeirinhas não passa somente
pela ajuda com recursos financeiros que possam fomentar a aquisição de recursos de
informática e audiovisuais. Mas fundamentalmente pela inserção das mesmas no mundo
globalizado das informações com suas técnicas e ferramentas educacionais. Viabilizar a
aquisição de materiais didáticos, de informática e multimídia, brinquedos pedagógicos,
literatura educacional e similar atualizados pode ser somente um ponto levantado para
melhorar a qualidade do ensino e a educação ambiental das escolas ribeirinhas.
Tais materiais poderiam ser as ferramentas necessárias neste momento para atender
as demandas de um público estudantil infantil e juvenil, das séries iniciais e do ensino
primário, das escolas ribeirinhas do Baixo São Francisco e melhorar a qualidade do ensino
e, consequentemente, da educação ambiental.
4 – Questões que contribuem diretamente para a educação ambiental, mas que são
de competência direta dos poderes públicos constituídos.
Com a 2ª Expedição, nas conversas com os professores e diretores das escolas, foi
possível identificar que existe uma lacuna enorme ou mesmo falta absoluta de programas
de educação ambiental mais amplo no âmbito das comunidades ribeirinhas. Estas ações
precisam fazer parte da matriz educacional, de caráter permanente ou mesmo eventual e
que tratem das questões que atingem ou que provocam os problemas de degradação na
bacia do rio. Sem esta iniciativa dos poderes constituídos, torna-se difícil a
conscientização da população e das comunidades ribeirinhas, que são usuárias diretas das
águas e dos serviços ambientais oferecidos pelo o Velho Chico. Reforçamos que é preciso
mais do que simplesmente fazer a identificação dos problemas, mas trabalhar de maneira
propositiva e efetiva e contribuir para a adoção de soluções e ações mitigadoras de
preservação e recuperação do rio.
Outro ponto que pesa em muito para a ineficiência ou menor alcance das ações de
educação ambiental, é a questão da falta de saneamento básico para a quase totalidade
dos municípios da bacia do Velho Chico. Nas escolas, os alunos sabem da importância
do tratamento dos esgotos e da coleta de lixo, porém não conseguem associar seu lixo e
seu esgoto com os problemas de poluição do rio. Há necessidade urgente de elaboração
de planos completos locais, no que diz respeito ao tratamento de esgotos, água potável e
resíduos sólidos e mostrar a importância de envolver a população na sua execução. Os
esgotos são lançados diretamente no rio, sem nenhum tratamento ou anteparo para
redução da carga de poluentes de origem antrópica ou orgânica. De maneira geral, a
totalidade dos municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco apresentam enormes
dificuldades financeiras para estabelecer uma política local de tratamento de resíduos
sólidos. Neste contexto, as prefeituras se limitam a fazer a coleta e o transporte dos
resíduos sólidos para aterros sanitários, como o de Craíbas, em Alagoas.
Na abordagem dos temas nas escolas, foi perguntado sobre a realização de eventos
promovidos por órgãos públicos com alguma temática ambiental e, simplesmente, na
grande maioria não foi lembrado de um sequer, com raras exceções. Como política
pública, é perceptível a necessidade urgente do desenvolvimento de política educacional
voltada para a realidade local com ampla matriz ambiental, tanto sustentável quanto
responsável. É preciso focar no envolvimento das escolas das comunidades e cidades
ribeirinhas, principalmente no ensino fundamental. Ressaltando-se assim, de maneira
incisiva que a efetividade destes programas de educação ambiental depende da constância
de execução e que seja encarado como estratégica para formação básica da população,
com participação e envolvimento efetivo também das famílias ribeirinhas.
Outro tema abordado nas palestras das escolas foi com respeito às espécies de
peixes conhecidas pelos alunos na sua região. Infelizmente, no compito geral, não citaram
mais do que cinco espécies. Há registros de atividades oficiais esporádicas de peixamento
no rio, porém estas ações estão muito aquém do mínimo necessário para que se permita
recompor a fauna piscosa do rio, bem como seu equilíbrio ambiental. Com o agravamento
do assoreamento e redução da vazão do rio nos últimos anos, tem aumentado os
problemas ambientais e, consequentemente, reduzido à disponibilidade de peixes, tanto
em número quanto em relação à quantidade de espécies existentes e que povoam o rio.
Há espécies consideradas extintas, como o Pirá, que é símbolo do rio. Este problema de
redução das espécies de peixes também tem sido agravado pela falta de trabalho de
educação ambiental e conscientização das colônias de pescadores, no que diz respeito ao
controle sobre a atividade e intensidade de pesca. Desta forma, é altamente recomendado
às autoridades públicas constituídas e aos gestores ambientais das esferas públicas e
privadas, que atuam na bacia do São Francisco, que procurem desenvolver ações efetivas
para recompor e manter as populações das diferentes espécies de peixes nativos do rio e
que estão em extinção gradual.
No contexto todo de integração expedição-escolas, foi possível verificar que há uma
dissociação de responsabilidades sobre os problemas ambientais do rio e seus agentes
causadores. Este é um ponto que poderá ser trabalhado futuramente para melhorar o nível
de conscientização com os alunos e da população ribeirinha em geral, onde eles se sintam
parte tanto das causas, como das soluções, também. Há um forte traço cultural presente
nestas populações no que diz respeito a esperar que o poder público constituído resolva
todos seus problemas, inclusive aqueles de cunho pessoal. A percepção é de que a cultura
do “vitimismo” tem mascarado e desvirtuado completamente o papel que cada indivíduo
precisa assumir perante os compromissos e obrigações inerentes à resolução da questão
ambiental do rio. E esta mudança está a cargo da educação ambiental em todas as escalas
e esferas da população ribeirinha. É preciso superar esta falta coletiva de compromisso
de cada indivíduo, que acaba por fortalecer e agravar ainda mais o processo de degradação
das áreas ribeirinhas e do próprio rio.
No que tange ao levantamento e identificação dos problemas de degradação
ambiental no baixo São Francisco, um fato preocupante e que precisa mudar é que os
crimes ambientais ou mesmo as atividades que levam à degradação ambiental, são
encarados como atividades normais e legais e são passíveis de serem repetidas
futuramente pelas crianças. De alguma forma, há uma percepção forte da ausência da
atuação dos órgãos de fiscalização ambiental, nas esferas municipal, estadual e federal.
Dentre os alunos, somente um ou outro do ensino médio já ouviu falar da ocorrência de
fiscalizações preventivas, mesmo que em determinados períodos esporádicos do ano. A
própria população ribeirinha aponta para a necessidade de reforçar ou fortalecer as FPI
(Fiscalizações Preventivas Integradas) e que, se as mesmas tivessem um caráter
permanente, ajudariam a reduzir os problemas ambientais identificados no baixo São
Francisco.
As políticas sociais e ambientais, no âmbito das esferas federal, estadual e municipal,
assim como das ações de agências públicas e privadas, não apresentam capilaridade ou
acolhida no âmbito das comunidades ribeirinhas, que estão alheias aos problemas
ambientais atuais e aos fatos causadores dos mesmos. É perceptível que há esforços de uns
poucos ativistas e defensores do Velho Chico, porém a extensão dos problemas ambientais
e sociais, em muito suplantam as ações desenvolvidas pelos mesmos.
5 - A percepção dos problemas ambientais pelos jovens ribeirinhos
Com base nas observações da 1ª Expedição, no ano de 2019 foi priorizado que as
visitas fossem realizadas em escolas de ensino infantil e das séries iniciais. Visando uma
maior efetividade das ações de educação ambiental, foram visitadas escolas com turmas
do ensino infantil, e até o 9° ano do ensino fundamental. Os alunos das escolas do ensino
médio foram recebidos somente na visita ao barco. As visitas foram realizadas em
ambientes comunitários das escolas, com a reunião de várias turmas para debater sobre
as temáticas citadas anteriormente, explicitando as consequências dos problemas
decorrentes da degradação do rio sobre na vida das populações ribeirinhas.
As visitas às escolas tiveram como objetivo maior conhecer a realidade local em
termos de ensino e do grau de conhecimento e envolvimento dos jovens com os problemas
ambientais do rio. Nos questionamentos feitos durante as palestras a alunos e professores
das escolas sobre a situação de degradação atual do Rio São Francisco foi possível
verificar que conhecem de forma isolada ou superficial os principais problemas de
degradação do rio. Quando foi solicitado que analisassem os problemas de assoreamento,
desmatamento da mata ciliar e poluição de maneira interligada houve grande dificuldade
em fazer a conexão integrada entre os agentes causadores e suas consequências.
Com isso, percebe-se que é urgente se pensar em formas alternativas de educação
ambiental que possam instruí-los acerca das possíveis soluções e engajamento de todos.
Pensar em atividades que possam ser realizadas tanto de forma individual como
coletivamente, para superar tais problemas a curto, médio e longo prazo. Como não
existem exemplos, ações em andamento ou modelos implantados, fica difícil estimular
ações efetivas de educação ambiental, com base no exemplo físico local. Assim como
também, as possíveis soluções para recuperar ou atenuar a atual degradação da vegetação
das matas ciliares e das APPs do rio São Francisco.
Em sua maioria, os alunos não souberam ou quiseram responder a respeito das
dificuldades que são enfrentadas atualmente no Baixo São Francisco. Muitos
demonstraram não terem ciência dos impactos causados pelo assoreamento,
desmatamento, poluição ambiental (antrópica), metais pesados, resíduos de defensivos
agrícolas e outros. Os professores afirmaram que o planejamento e o desenvolvimento de
atividades educacionais de contexto ambientais voltadas para o conhecimento e solução
de tais problemas são poucas ou muito raras de acontecer, tanto no nível das escolas como
no contexto comunitário.
Durante as apresentações e nas discussões em cada uma das escolas, foram
discutidas soluções e lançadas como desafios para serem desenvolvidos ao longo do ano,
junto às comunidades como um todo. Como incentivo da Expedição, foram realizados
plantios simbólicos de mudas de espécies nativas (arbóreas) com a participação de alunos
e professoras e doado mudas para plantio em outros locais. O intuito é que os alunos e
professores abracem a causa e possam transmitir esta ação inicial aos demais membros
das comunidades. Outro ponto discutido e solicitado foi para que deem atenção quanto
aos cuidados com a produção e tratamento do lixo doméstico produzido, afim de que
incentivem o descarte correto do mesmo. Como sugestão, foi levantada a possibilidade
se estas ações de conscientização poderiam ser incentivadas nas próprias escolas, através
do desenvolvimento de atividades recreativas, como a realização de gincanas ambientais
com a participação de pais e alunos.
A percepção geral é de que, tanto os professores e diretores quanto alunos e as
comunidades estão ávidos por conhecimentos e de suporte financeiro e técnico para
melhorar o contexto de ensino da educação ambiental. Todos estão abertos e propensos a
contribuírem no planejamento e no desenvolvimento das ações de educação ambiental
em seus respectivos locais, assim como também repassar os conhecimentos sobre as ações
desenvolvidas.
Após as palestras nas escolas, os alunos foram convidados a visitar o barco da
expedição e conhecer as atividades e os trabalhos de pesquisa realizados pelos
pesquisadores. No barco, através de uma visita guiada, puderam esclarecer dúvidas e
conhecer as linhas de pesquisa trabalhadas na expedição, os equipamentos e os
pesquisadores.
6 - Dados Gerais das Escolas que visitaram o barco da 2ª Expedição Científica
No contexto geral, foram 13 escolas que levaram seus alunos para visitar o barco
da Expedição, nos oito locais de parada. As informações básicas sobre as nove escolas
que foram visitadas em 2019, em cada ponto de parada, além de outras quatro escolas que
visitaram o barco. Estas informações consistem da matrícula INEP, séries atendidas,
turno(s), número de alunos matriculados, número de professores, número de pessoas de
apoio, atual direção e endereço completo.
- Cidade: PIRANHAS – AL
- Escola Centro Municipal de Ensino Professor Ivan Fernandes Lima
Matrícula INEP: 27230465
Séries atendidas: 1º ao 5º ano
Turno(s): Matutino
Nº de Alunos Matriculados: 241
Nº de Professores: 09
Nº de Pessoas de apoio: 04
Diretora: Rejania Maria de Medeiro Nóbrega
Endereço: Rua Maravilha, s/n. Bairro Xingó, Vila Alagoas, 57460-000, Piranhas - AL.
- Cidade: PÃO DE AÇÚCAR – AL
- Unidade Municipal de Ensino Bráulio Cavalcante
Matrícula INEP: 27222756
Séries atendidas: 6º ao 9º ano
Turno(s): Matutino
Nº de Alunos Matriculados: 579
Nº de Professores: 41
Nº de Pessoas de apoio: 27
Diretora: Marta Suzana Pereira Melo
Endereço: Rua Cônego Jason Souto, s/n. 57400-000. Pão de Açúcar. AL.
- Unidade Municipal de Ensino Ronalço dos Anjos
Matrícula INEP: 27006530
Séries atendidas: Educação infantil ao 5º ano
Turno(s): Matutino
Nº de Alunos Matriculados: 194
Nº de Professores: 20
Nº de Pessoas de apoio: 25
Diretora: Graziela Líria Gusmão dos Anjos
Endereço: Rua Maestro Nozinho s/n. Bairro Cohab. 57400-000. Pão de Açúcar - AL
- Cidade: TRAIPU – AL
- Escola Municipal de Educação Básica Francisco Mangabeira
Matrícula INEP: 27021629
Séries atendidas: 6º ao 9º ano e EJA II Segmento
Turno(s): Matutino / Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 328
Nº de Professores: 30
Nº de Pessoas de apoio: 5
Diretora: Rita de Cassia Melo dos Santos
Endereço completo: Praça José Palmeira Lima. CEP 57370-000. Traipu – AL.
- Escola Municipal de Educação Básica Agapito Rodrigues de Medeiros
Matrícula INEP: 27022102
Séries atendidas: 1º ao 5º ano
Turno(s): Matutino / Vespertino / Noturno
Nº de Alunos Matriculados: 384
Nº de Professores: 26
Nº de Pessoas de apoio: 8
Diretor: Roberto Silva dos Santos
Endereço: Rua Vereador João Cavalcante, s/n. Bairro Centro. 57370-000. Traipu –
AL.
- Escola Estadual Professora Maria Avelina do Carmo
Matrícula Inep: 27022200
Séries Atendidas: Ensino Médio
Turnos: Matutino/Vespertino/Noturno
Número de Alunos Matriculados: 749
Número de Professores: 17
Número de Pessoas de Apoio: 04
Diretor Geral: Sandra Cecília Sena da Silva
Endereço: Rua Isaac Pereira Neto, 94 – Centro. Traipu-AL, CEP: 57370-000
- Escola Estadual Moreno Brandão
Matricula Inep: 27021645
Anos Atendidos: 6º ao 9º Ano Fundamental
Turnos: Matutino e Vespertino
Nº de Alunos: 310
Nº de Professores: 21
Nº de Pessoal de Apoio: 06
Diretor: Karlisson Ernande Melo Lima
Endereço: Praça José Palmeira Lima, S/Nº. Centro. CEP 57.370-000. Traipu – AL.
- Cidade: PORTO REAL DO COLÉGIO – AL
- Escola Municipal de Ensino Fundamental Prof Ernande de Figueiredo Magalhaes
Matrícula INEP: 27045986
Séries atendidas: 3º ao 5º ano
Turno(s): Matutino
Nº de Alunos Matriculados: 133
Nº de Professores: 05
Nº de Pessoas de apoio: 04
Diretor: IRENILSON LIMA SANTOS
Endereço: Rua da Independência, S/N, Bairro Centro. 57290-000. P.R. do Colégio AL.
- Cidade: IGREJA NOVA (CHINARÉ) – AL
- Escola Municipal de Educação Básica General Artur da Costa e Silva
Matrícula INEP: 27044904
Séries atendidas: Educação Infantil; 1º ao 5º ano e EJA
Turno(s): Matutino, Vespertino e Noturno
Nº de Alunos Matriculados: 187 (infantil ao 5º ano) e 61 (EJA)
Nº de Professores: 12
Nº de Pessoas de apoio: 11
Diretora: Vânia Santos Menezes
Endereço: Povoado Chinaré. CEP 57280-000. Igreja Nova - AL
- Cidade: PENEDO - AL
- Escola Municipal de Educação Básica Professor Douglas Apratto Tenório
Matrícula INEP: 27045226
Séries atendidas: 1º ao 5º ano
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 175
Nº de Professores: 13
Nº de Pessoas de apoio: 12
Diretor: Marciel Pinheiro Costa
Endereço: Rua do Fogo, S/N – Bairro Santo Antônio, CEP 57200-000. Penedo – AL.
- Cidade: PIAÇABUÇU – AL
- Grupo Escolar Municipal Messias Calumby
Matrícula INEP: 27045927
Séries atendidas: 1º ao 5º ano
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 138
Nº de Professores: 12
Nº de Pessoas de apoio: 04
Diretora: Maria Antônia Vieira André
Endereço: Rua Antônio Machado Lemos, s/n. CEP 57210-000. Piaçabuçu- AL.
- Grupo Escolar Municipal Faustino Victor de Araújo
Matrícula INEP: 27045919
Séries atendidas: Educação Infantil / Jardim I E II/ 1º E 2º ano
Turno(s): Matutino e Vespertino
Nº de Alunos Matriculados: 310
Nº de Professores: 23
Nº de Pessoas de apoio: 10
Diretora: Marinilde Ferreira Feitosa Bispo
Endereço: Rua Padre Curador, S/N, CEP 57210-000. Piaçabuçu - AL
- Grupo Escolar Municipal Jose Goncalves
Matrícula INEP: 27045951
Séries atendidas: 6º ao 9º ano / EJA
Turno(s): Matutino, Vespertino e Noturno
Nº de Alunos Matriculados: 491
Nº de Professores: 32
Nº de Pessoas de apoio: 16
Diretora: Maria da Conceição Albuquerque
Endereço: Rua Padre Curador, S/N, CEP 57210-000. Piaçabuçu – AL
7 - Registros de algumas atividades desenvolvidas com alunos de Escolas Públicas
durante a 2ª Expedição Científica, em 2019.
PARTIDA EM PENEDO – AL
As imagens a seguir constam em ordem cronológica dos dias, desde a partida em
Penedo, no dia 18 de novembro, até o último dia da Expedição, em Piaçabuçu e foz.
Equipe da 2ª Expedição Científica do Baixo Embarque de mudas de espécies vegetais
São Francisco, na saída oficial de Penedo, AL, nativas da Caatinga e Mata Atlântica para
em 18 de novembro de 2019.
plantio nas ações de educação ambiental
durante a 2ª Expedição Científica.
PIRANHAS – AL
A recepção na Cidade de Piranhas, no dia 19 de novembro e as atividades de
educação ambiental na Escola de Ensino Fundamental, Professor Ivan Fernandes Lima, e a
visita dos alunos ao barco. O encantamento das crianças com as descobertas do mundo
científico foi a marca deste primeiro dia de trabalho da Expedição com a educação ambiental.
Recepção da 2ª Expedição Científica do Baixo Palestra sobre educação ambiental na escola
São Francisco, em Piranhas, AL, no dia 19 de Municipal de Ensino Fundamental, Professor
novembro de 2019.
Ivan Fernandes Lima, em Piranhas, AL.
Ação de educação ambiental com uso de equipamentos científicos com participação de alunos
da escola Municipal de Ensino Fundamental, Professor Ivan Fernandes Lima, em Piranhas, AL.
Visita dos alunos da escola Municipal de
Ensino
Fundamental,
Professor
Ivan
Fernandes Lima, em Piranhas, AL, ao barco
da 2ª Expedição Científica.
Demonstração das análises químicas de água
para os alunos das escolas Municipais de
Piranhas, AL, durante visita ao barco da 2ª
Expedição Científica.
Uso de óculos de realidade virtual pelos
alunos da escola Municipal de Ensino
Fundamental, Professor Ivan Fernandes Lima,
em Piranhas, AL, durante visita ao barco da 2ª
Expedição Científica.
Uso de microscópios pelos alunos da escola
Municipal de Ensino Fundamental, Professor
Ivan Fernandes Lima, em Piranhas, AL,
durante visita ao barco da 2ª Expedição
Científica.
POVOADO DE CURRALINHO, POÇO REDONDO – SE
A parada não programada no dia 20 de novembro, para receber os “pequeninos guerreiros
ribeirinhos” do Povoado de Curralinho (Poço Redondo – SE). Um momento que marcou e
contagiou a todos na Expedição, pelo encantamento, emoção, esforço, perseverança e alegria dos
alunos em conhecer o mundo científico. A visita destes pequenos foi um alento e mostrou a
verdadeira missão da Expedição, que é muito maior do tudo que foi planejado por todos nós.
Crianças de escola de ensino fundamental do Acesso de crianças do povoado Curralinho,
povoado Curralinho, distrito de Poço distrito de Poço Redondo, SE, ao barco da 2ª
Redondo, SE, aguardando a chegada do barco Expedição Científica para visitação.
da 2ª Expedição Científica para visitação.
Explicação sobre a expedição científica para
crianças do povoado Curralinho, distrito de
Poço Redondo, SE, durante visitação ao barco
da 2ª Expedição Científica.
Ação de educação ambiental para crianças do
povoado Curralinho, distrito de Poço
Redondo, SE, durante visitação ao barco da 2ª
Expedição Científica.
Uso de óculos de realidade virtual por
morador do povoado Curralinho, distrito de
Poço Redondo, SE, durante visitação ao barco
da 2ª Expedição Científica.
Ação de educação ambiental para crianças do
povoado Curralinho, distrito de Poço
Redondo, SE, durante visitação ao barco da 2ª
Expedição Científica.
Apresentação sobre produção e uso de energia
solar em pequenas comunidades para crianças
do povoado Curralinho, distrito de Poço
Redondo, SE, durante visitação ao barco da 2ª
Expedição Científica.
Uso do rover por crianças do povoado
Curralinho, distrito de Poço Redondo, SE,
durante visitação ao barco da 2ª Expedição
Científica.
PÃO DE AÇÚCAR – AL
A recepção na Cidade de Pão de Açúcar, no dia 20 de novembro, e desenvolvimento das
atividades de educação ambiental com alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental,
Ronalço dos Anjos e do Centro Educacional Opção. Visita dos alunos ao barco e o
encantamento das crianças com as descobertas do mundo científico.
Equipe da Expedição Científica recebendo a
Escola Municipal de Ensino Fundamental,
Ronalço dos Anjos, em Pão de Açúcar, AL,
para visita ao barco da 2ª Expedição
Científica.
Visita dos alunos da escola Municipal de
Ensino Primário, Bráulio Cavalcante, em Pão
de Açúcar, AL, ao barco da 2ª Expedição
Científica.
Observação em lupa estereoscópica de
estruturas de tecido de peixes por alunos do
Centro Educacional Opção, em Pão de
Açúcar, AL, durante visita ao barco da 2ª
Expedição Científica.
Visita à exposição de fotos de aves alagoanas
ameaçadas de extinção por alunos do Centro
Educacional Opção, em Pão de Açúcar, AL,
no barco da 2ª Expedição Científica.
Contanto dos alunos do Centro Educacional
Opção, em Pão de Açúcar, AL, com amostras
Demonstração para os alunos do Centro
Educacional Opção, em Pão de Açúcar, AL,
de tecidos de peixes para análise de DNA,
durante a visita ao barco da 2ª Expedição
Científica.
de peixes capturados no rio para análise de
DNA, durante a visita ao barco da 2ª
Expedição Científica.
Conversa do Mestre Jackson Borges com as crianças do Centro Educacional Opção, em Pão de
Açúcar, AL, durante a visita ao barco da 2ª Expedição Científica.
Acesso de visitantes e alunos ao barco da 2ª
Expedição Científica do Baixo São Francisco,
em Pão de Açúcar, AL.
Contanto de crianças com o rover quando da
visita ao barco da 2ª Expedição Científica.
TRAIPÚ – AL
A recepção na Cidade de Pão de Açúcar, no dia 21 de novembro, e desenvolvimento das
atividades de educação ambiental com alunos das Escolas Estaduais, Moreno Brandão e Professora
Maria Avelina do Carmo, e as Escolas Municipais de Educação Básica Agapito Rodrigues de
Medeiros e Francisco Mangabeira. Visita dos alunos ao barco, participação da palestra e o plantio
de mudas de espécies nativas da Caatinga às margens do rio.
Totem em homenagem ao Velho Chico,
situado no Porto da Areia, em Traipu – AL.
Palestra sobre educação ambiental e os
problemas sanitários do rio São Francisco, em
Traipu – AL, para alunos das escolas públicas
que visitaram o barco da 2ª Expedição
Científica.
Palestra sobre educação ambiental e os
problemas sanitários do rio São Francisco, em
Traipu – AL, para alunos das escolas públicas
que visitaram o barco da 2ª Expedição
Científica.
Material de educação ambiental distribuído
com alunos das escolas públicas de Traipu –
AL, durante à visita ao barco da 2ª Expedição
Científica.
Acesso de visitantes e alunos ao barco da 2ª
Expedição Científica do Baixo São Francisco,
em Traipu, AL.
Uso do rover por jovens de escola pública de
Traipu, AL, durante visita ao barco da 2ª
Expedição Científica.
Uso de óculos de realidade virtual por alunos
de
escolas
Municipais
de
Ensino
Fundamental, em Traipu, AL, durante visita
ao barco da 2ª Expedição Científica.
Uso de microscópios por alunos de escolas
Municipais de Ensino Fundamental, em
Traipu, AL, durante visita ao barco da 2ª
Expedição Científica.
Ação de educação ambiental para plantio de
plantas de espécies nativas, às margens do Rio
São Francisco, com participação de alunos de
escolas Municipais de Ensino Fundamental,
em Traipu, AL.
Exposição sobre o uso de hidrogel para plantio
de plantas de espécies nativas, às margens do
Rio São Francisco, com participação de
alunos de escolas Municipais de Ensino
Fundamental, em Traipu, AL.
Plantio de plantas de espécies nativas, às margens do Rio São Francisco, com participação de
pesquisadores da Expedição Científica e alunos de escolas Municipais de Ensino Fundamental,
em Traipu, AL.
PORTO REAL DO COLÉGIO – AL
Atividades do dia 22 de novembro, e desenvolvimento das ações de educação ambiental
com alunos escola de ensino fundamental Santa Terezinha, da rede particular, durante a visita
ao barco da 2ª Expedição Científica. Os alunos participaram do plantio de mudas de espécies
nativas da Caatinga às margens do rio.
Visita dos alunos da escola de ensino fundamental Santa Terezinha, da rede particular, ao barco
da Expedição. Prestigiaram á exposição de fotos das aves alagoanas ameaçadas de extinção
durante a 2ª Expedição Científica, em Porto Real do Colégio, AL.
Alunos da escola de ensino fundamental Santa Terezinha participando da ação de plantio de
mudas de espécies nativas. Às margens do São Francisco, durante a 2ª Expedição Científica,
em Porto Real do Colégio, AL.
POVOADO DO XINARÉ, EM IGREJA NOVA – AL
A parada do dia 23 de novembro, em pleno sábado de um sol escaldante, mas todos
firmes e fortes para nos receber na Escola Municipal de Educação Básica General Artur da
Costa e Silva, no Povoado do Xinaré. Enaltecer o compromisso, esforço e perseverança das
diretoras, alunos e a comunidade em participar das atividades e ações de educação
ambiental promovida pela 2ª Expedição Científica. Mais um momento marcante para todos
da Expedição e certamente este será o nosso ponto de parada obrigatório por muitas
expedições vindouras no Baixo São Francisco! A visita destes pequenos sempre será um
alento para nos lembrar da verdadeira missão e compromisso da Expedição Científica.
Visita de pesquisadores à Escola Municipal de Palestra sobre educação ambiental realizada
Educação Básica General Artur da Costa e na Escola Municipal de Educação Básica
Silva, no povoado Xinaré.
General Artur da Costa e Silva, no povoado
Xinaré.
Participação dos alunos da Escola Municipal de Educação Básica General Artur da Costa e
Silva no preparo de hidrogel para plantio de mudas de espécies nativas, no povoado Xinaré,
em Igreja Nova, AL, durante a 2ª Expedição Científica.
Visita de alunos, pais de alunos e professores da Escola Municipal do povoado Xinaré, em
Igreja Nova, ao barco da 2ª Expedição Científica.
Explicação sobre a genética de peixes e captação de energia solar durante a visita de
estudantes da Escola Municipal do povoado Chinaré, em Igreja Nova, ao barco da 2ª
Expedição Científica.
Primeira vez que alunos e pais de alunos da escola de ensino fundamental tem contato com
microscópio e visualiza uma célula animal, durante a visita ao barco da 2ª Expedição Científica.
Infraestrutura da sala de aula e da sala de direção de uma escola municipal, no interior de
Alagoas, às margens do São Francisco.
PENEDO – AL
Voltando ao ponto de partida, no dia 23 de novembro, em pleno sábado à tarde. Nesta ocasião,
a 2ª Expedição Científica recepcionou à Magnífica Reitora da Ufal, Profª Valéria Correia e o
representante do MCTIC, Dr Aristides Pavani e equipe. Feitas as honras da casa, foi
apresentada toda a infraestrutura de pesquisa científica embarcada e também usada nas
atividades de educação ambiental.
Representante do MCTIC, Dr Aristides Pavani, recepcionado pela Magnífica Reitora da Ufal,
Profª Valéria Correia, que assinaram o livro de visitas ao barco e depois falaram aos integrantes
da 2ª Expedição Científica, em Penedo – AL
O Mestre Jackson Borges, representante do CBHSF, e a Professora Themis Silva, da
Coordenação da Expedição, dando as boas vindas ao representante do MCTIC, Dr. Aristides
Pavani, à 2ª Expedição Científica.
Apresentação de tecnologia de energia solar adaptada para uso em pequena escala e do sistema
de hidroacústica usado para pesquisa durante a 2ª Expedição Científica.
Ação de educação ambiental realizada no dia 25 de novembro, com palestra / conversa e plantio
de mudas de espécies vegetais nativas da região com a participação dos alunos da Escola
Municipal Professor Douglas Apratto Tenório, em Penedo, AL. Após a ação na escola, os
alunos foram visitar o barco da 2ª Expedição Científica.
PIAÇABUÇU – AL
Nosso último ponto de parada com as ações de educação ambiental, no dia 26 de novembro.
Esta foi a cidade com o maior número de escolas e de alunos visitando o barco da Expedição.
Além da vistita à Escola Municipal de Educação Básica, Messias Calumby, para palestra e
plantio simbólico de mudas de espécies nativas da região, outras seis (6) escolas também
levaram seus alunos para visitar o barco e conhecer a exposição de fotos e todos os trabalhos
desenvolvidos na Expedição. Além disso, foram doadas 140 mudas de plantas nativas para a
Prefeitura.
Aluna de escola pública de Penedo, exibindo
livro que ganhou do MCTIC, durante a visita
ao barco da 2ª Expedição Científica.
Entrevista de aluna de escola pública para a
Rede Globo, durante a visita ao barco da 2ª
Expedição Científica, em Piaçabuçu.
Palestra sobre educação ambiental para alunos Ação de educação ambiental e plantio de
da Escola Municipal de Educação Básica, mudas de plantas nativas realizada com alunos
Messias Calumby, de Piaçabuçu, AL.
da Escola Municipal Messias Calumby.
8 - Considerações Finais
Assim como verificado na 1ª Expedição Científica do Baixo São Francisco, em 2018,
é possível afirmar, de maneira mais categórica e de forma ainda mais cristalina, que há uma
enorme lacuna ou distância de abordagem entre os problemas ambientais atuais encontrados
na região do Rio São Francisco e o envolvimento das comunidades ribeirinhas na busca de
soluções locais. Também é possível constatar que a educação ambiental nas comunidades
ribeirinhas e escolas visitadas, ainda é tratada de forma superficial, seja no dimensionamento
de projetos pedagógicos, ou na falta de políticas públicas com estímulos e recursos oficiais
(federal, estadual e municipal) para desenvolvê-las de maneira efetiva. As poucas ações
isoladas realizadas não apresentam conexão clara e efetiva com os problemas enfrentados
pelas comunidades ribeirinhas.
Percebe-se ainda que exista uma grande dissociação por parte dos gestores públicos,
com relação aos problemas das áreas ambiental e afins e o desenvolvimento regional como
um todo. Fica a recomendação para que os promotores de desenvolvimento regional possam
tratar os atuais problemas ambientais do rio de forma conjunta ou integrada com a educação
ambiental. Que possam fomentar fortemente a adoção de ações de proteção ambiental
visando o desenvolvimento da região do baixo São Francisco. E para fins de planejamento
futuro, por parte dos agentes públicos do baixo São Francisco, é fortemente recomendado que
desenvolvam uma política de educação ambiental séria e focada nos problemas e nas questões
diretas do dia-a-dia da degradação ambiental do rio e como superá-las. E para ser ainda mais
efetiva, que este planejamento inclua obrigatoriamente a participação das escolas ribeirinhas,
com foco principal naquelas das séries iniciais e com crianças de até 10 anos, pois é a geração
com maior potencial para absorver, desenvolver e definir o futuro da Educação ambiental na
região como ferramenta efetiva de superação ou mitigação dos problemas.
E por fim, na 2ª Expedição Científica, a mobilização total de visitantes ao barco chegou
a 1400 pessoas. Na sua grande maioria, este público foi formado por crianças que buscavam
conhecer e explorar o mundo científico e suas ferramentas. Por todos os momentos de
interação com todos das comunidades ribeirinhas, é perceptível a preocupação dos mesmos
com os problemas de degradação ambiental do rio e também reconhecem a importância da
educação ambiental como ferramenta principal e forma de superar tais problemas.
AGRADECIMENTOS
Nossos agradecimentos a todos que colaboraram direta e indiretamente para a
realização das atividades de educação ambiental relatadas neste documento. Com especial
gratidão a todos os Técnicos da EMATER e sem distinção ou predileção, que não mediram
esforços antes e durante a Expedição, para que as visitas e atividades nas Escolas se tornassem
realidade e um sucesso imensurável. Literalmente abraçaram a ideia e participaram de corpo
e alma! Nossa sincera Gratidão e apreço por todos!!
E gratidão de forma especial, respeito e todo carinho aos nossos ilustres e iluminados
professores e diretores das escolas das comunidades ribeirinhas, que gentilmente nos
receberam de braços abertos em seus templos do conhecimento e que também nos visitaram
e prestigiaram o trabalho desenvolvido por todos da Expedição.
Pelo encantamento, emoção e sensação de missão cumprida que deixaram em todos
nós, e representando todos os outros alunos ribeirinhos, agradecer “aos pequeninos
guerreiros” do Povoado de Curralinho (Poço Redondo – SE) pelo esforço, perseverança e
alegria que nos contagiou com suas visitas, numa parada não programada, e também aos
alunos do Povoado do Xinaré (Igreja Nova – AL), que em pleno sábado e com um sol de
rachar, se fizeram presentes, altivos, alegres e participativos.
Agradecer também aos Prefeitos e Secretários Municipais pela receptividade e
generosa acolhida em suas cidades e apoios locais. O nosso muito obrigado e gratidão plena
a todos pela grande receptividade que nos proporcionaram durante a 2ª Expedição e,
reafirmamos que todos vocês, continuarão a ser a nossa maior força e razão para
continuarmos com este trabalho.
“As palavras convencem, mas só o exemplo é que arrasta, inspira e incentiva a adoção
de novas posturas”. (Rosier Alexandre, Alpinista)
Relatório de atividades da EMATER durante a 2º Expedição científica
do São Francisco
1 - A EMATER E SUAS COMPETÊNCIAS DE ATUAÇÃO
O Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável de Alagoas –
EMATER/AL, Autarquia de regime especial vinculada a Secretaria de Estado da
Agricultura, Pecuária, Pesca e Aquicultura (Seagri), foi criado através da Lei 7.291, de
01 de Dezembro de 2011. O Instituto foi criado com o objetivo de realizar pesquisa
agropecuária, prestar assistência técnica, geração e adaptação de tecnologias por meio de
metodologias educativas e participativas, contribuindo para a promoção do
desenvolvimento rural sustentável em todo o Estado.
Além disso, tem o desafio de diminuir a pobreza em Alagoas, desenvolvendo
programas e projetos de pesquisa capazes de gerar conhecimento, tecnologias e métodos
de gestão da Agricultura Familiar, visando proporcionar ao agricultor familiar melhoria
na qualidade de serviços e de vida.
De acordo com o levantamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA,
Alagoas possui atualmente 326 mil pessoas desenvolvendo atividades no meio rural
ligadas a Agricultura Familiar, isso quer dizer que 72% da mão de obra ocupada no meio
rural são de famílias que tiram seu sustento do campo. Fomentar a Agricultura Familiar,
a partir do acompanhamento técnico e a capacitação dos agricultores, é a missão da
entidade. Que trabalhará ainda a diversificação da produção e o consumo de alimentos
regionais, com base nas especificidades culturais e em práticas alimentares promotoras
da saúde, de forma a garantir a segurança alimentar e nutricional das famílias alagoanas.
2 - O PAPEL DA EMATER NA EXPEDIÇÃO
A EMATER participou como entidade parceiro fundamental da 1ª e da 2ª
Expedição Científica do Baixo São Francisco na viabilização de toda logística prévia de
terra, no que diz respeito aos contatos e à organização das visitas às colônias de
pescadores, cooperativas, associações e escolas.
Em cada um dos locais de parada, foi disponibilizada uma equipe de apoio,
contando com técnicos locais e suas respectivas gerências, a fim de proporcionar o melhor
suporte possível à realização dos trabalhos da Expedição. Com isso, no que diz respeito
à 2ª Expedição Científica, em 2019, a EMATER, como Empresa de Assistência Técnica
e Extensão Rural do Estado de Alagoas, participou com sua Equipe Técnica, constituída
de 18 pessoas, conforme a seguir:
- Pão de Açúcar;
Wellington Guimarães Rodrigues – Eng. Agrônomo
Alberto Carlos de Aguiar Antunes - Eng. Agrônomo
Petrônio Azevedo de Melo – Zootecnista
Amanda Graça Gomes Ferreira– Zootecnista – Supervisora Técnica Médio
Sertão
Hully Monaisy Alencar Lima - Eng. Agrônomo
- Piranhas
- Traipu;
Tânia Maria Barbosa Vieira Costa - Supervisora Regional
Tanihely Barbosa Vieira Costa - Assistente Social
José Luciano Ilário - Técnico em Agropecuária
Antônio Fernandes Araújo -Técnico em Agropecuária
Araken Rodrigues Gonzaga - Zootecnista
Dinayze Anita Santos de Almeida - Zootecnista
Naciel da Silva Campos - Eng. Agrônomo
Lucas Palmeira Medeiros - Eng. Agrônomo
- Regional Baixo São Francisco;
Aldo José Alves Toledo - Supervisor Regional
Cleice Fátima Gonçalves Alves - Eng. Agrônoma
William Antônio Raposo Rodrigues - Eng. Agrônomo
Wilton da Silva Santos - Eng. Agrônomo
Flavio Jodeklan Costa Antonio Silva - Técnico em Agropecuária
3 – ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELAS EMATER NO CONTEXTO DA
EXPEDIÇÃO
- Cidades visitadas e com atividades desenvolvidas: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipú,
Porto Real do Colégio, Igreja Nova (Chinaré), Penedo e Piaçabuçú, todas no Estado de
Alagoas.
1. PIRANHAS - AL
Escolas ou Colégios Visitados:
Escola Centro Municipal de Ensino Professor Ivan Fernandes Lima
Nesta
ação
esteve
envolvida
uma
turma
de
56
alunos
e
05
professores/coordenadores, que visitaram a embarcação (Figura 1A). Na escola foram
plantadas as mudas de plantas nativas da Caatinga e também os alunos participaram de
uma palestra sobre educação ambiental e Conscientização pela preservação do Rio São
Francisco (Figura 1B; Figura 1C; Figura 1D).
Comunidades / Assentamentos / Cooperativas / Associações visitadas:
Cooperativa dos Produtores de Mel, Insumos e Produtos da Agricultura Familiar
– COOPEAPIS no distrito de Piau, município de Piranhas (Figura 1E);
Assentamento Gastone, na zona rural de Olho D’água do Casado (Figura 1F);
Colônia de Pescadores de Piranhas.
Nas localidades citadas a cima foi desenvolvida atividades de entrevistas e
preenchimento de questionário. Onde ocorreu a entrevista com 02 apicultores, 10
assentados criadores de abelhas e 10 pescadores artesanais.
Figura 1. Ações ocorridas na cidade de Piranhas, no estado de Alagoas: visita dos alunos
à embarcação (A); palestra sobre educação ambiental na Escola Ivan Fernandes (B);
preparo do hidrogel (C); plantio de mudas nativas na Escola Ivan Fernandes (D); visita à
Coopeapis (E); visita ao assentamento Gastone (F).
2. PÃO DE AÇÚCAR – AL
Escolas ou Colégios Visitados:
Unidade Municipal de Ensino Bráulio Cavalcante (42 alunos);
Centro Educacional Opção (23 alunos);
Unidade Municipal de Ensino Ronaldo dos Anjos (32 alunos).
Na oportunidade, as escolas visitaram a embarcação para apresentação das
pesquisas que estavam sendo feitas (Figura 2A; 2B). Nas dependências das escolas,
foram desenvolvidas atividades no âmbito ambiental, trabalhando a consciência
ecológica das crianças e adolescentes de escolas públicas e particulares da cidade. O
professor Dr. José Vieira apresentou o Hidrogel, bem como, a forma de preparo dele, e
então foram plantadas, com o auxílio das crianças e professores, vinte árvores de
espécies nativas utilizando o hidrogel, na Unidade Municipal de Ensino Bráulio
Cavalcante e no Centro Educacional Opção (Figura 2C; 2D; 2E).
Comunidades / Assentamentos / Cooperativas / Associações visitadas:
Povoado Jacarezinho (6 PESCADORES);
Colônia de Pescadores; (6 PESCADORES);
Grupo dos Produtores Orgânicos; (5 AGRICULTORES).
Foi feito um trabalho de logística com os professores e pesquisadores até as
comunidades. Alguns se direcionaram a Colônia de pescadores, e ao povoado
Jacarezinho, onde foram realizadas as entrevistas. Enquanto, outros pesquisadores faziam
uma visita aos produtores orgânicos da região (Figura 2F; 2G; 2H).
Figura 2. Ações ocorridas na cidade de Pão de Açúcar, no estado de Alagoas: visita dos
alunos à embarcação (A e B); palestra sobre educação ambiental (C); explanação sobre o
preparo do hidrogel (D); plantio de mudas nativas (E); visita à colônia de pescadores e
povoado Jacarezinho (F e G); entrevista com produtores orgânicos (H).
3. TRAIPU – AL
Em Traipu, a EMATER contou com o apoio direto para mobilização e organização
da logística de terra da seguinte equipe da administração local:
Silvino Bezerra Cavalcante (Prefeito);
Fabiana Priscilla de Oliveira Palmeira (Secretária de Agricultura);
Jacira Machado Lima e Educação (Secretária de Meio Ambiente);
Jaqueline de Matos Mota (Secretária de Educação);
Sueli Galvão (Secretária de Cultura, Turismo, Igualdade Racial e Gênero).
Escolas ou Colégios Visitados:
Escolas da rede Municipal que participaram do evento com a palestra do professor
Vieira e com a visita ao barco:
Escola Municipal de Educação Básica Francisco Mangabeira;
Escola Municipal de Educação Básica Agapito Rodrigues de Medeiros.
Escola Estadual Professora Maria Avelina do Carmo;
Escola Estadual Moreno Brandão.
Na oportunidade, foram desenvolvidas atividades no âmbito ambiental,
trabalhando a consciência ecológica das crianças e adolescentes de escolas públicas da
cidade, foram plantadas 20 (vinte) arvores às margens do rio São Francisco e visita ao
barco.
Comunidades / Assentamentos / Cooperativas / Associações visitadas:
Colônia de pescadores Z18;
Na oportunidade a professora Maristela fez contato com a colônia de pescadores
Z18 Traipu/AL, presidida pelo senhor Luciano Silva Galvão e aplicou um questionário,
com a finalidade de coletar informações socioeconômicas dos pescadores presentes no
evento e que foram visitar o barco.
Comunidade Vila Santo Antônio.
Na comunidade Vila Santo Antônio, foram visitadas quatro unidades familiares
produtivas (UFPs), na ocasião foi aplicado um formulário junto aos agricultores, com o
intuito de coletar informações socioeconômicas dos beneficiários do Programa de
Inclusão Produtiva/Fomento.
Na ocasião, foram desenvolvidas atividades em campo com um público que vive
em vulnerabilidade social e receberam um fomento de 2400 reais em duas parcelas,
iniciando suas atividades em maio de 2017. Os agricultores que receberam esse fomento
trabalham com projetos de avicultura dupla aptidão, ovinocultura e suinocultura. Quatro
unidades familiares produtivas (UFPs) foram visitadas no período da manhã e à tarde.
Comentário do técnico – Naciel da Silva Campos:
“A II Expedição do Rio São Francisco nos deixou com a sensação de que devemos
fazer mais pelo nosso Rio e por todos os povos que dependem direta ou indiretamente
dessas águas para sua sobrevivência. Remeteu-nos a questão de que somos protagonistas
de nossa história e que temos que fazer um final diferente do que está no desenho.
Trabalhar a consciência ambiental dos povos ribeirinhos e de quaisquer outros povos
que utilizem essas águas – seja para consumo, pesca, hidrovia, irrigação, etc., - que esse
uso seja feito de maneira sustentável e com maior eficiência. Em relação a
potencialidade e visualizando o desenvolvimento rural das propriedades ribeirinhas e
com raio de até 15km do Rio, seria interessante a intervenção e participação de maiores
incentivos governamentais e políticas públicas que beneficiem os agricultores com
equipamentos e outorga do uso da água, e assistência técnica mais presente e continuada,
garantindo segurança alimentar das comunidades e povos tradicionais ribeirinhos em
cultivos mais contínuos e mais produtivos.”
Figura 3. Ações ocorridas na cidade de Pão de Açúcar, no estado de Alagoas: entrevistas
com agricultores da região (A e B); recepção da Expedição do São Francisco no
município (C);
4. PORTO REAL DO COLÉGIO – AL
Escolas ou Colégios Visitados:
Escola Santa Terezinha - participação de 04 professores, e cerca de 30 alunos, alguns
acompanhados dos pais, para visitação ao barco.
Neste momento, os alunos e professores da Escola conheceram o barco da
expedição, bem como, as pesquisas que estavam sendo feitas ali. Posterior a isto, foi
realizado o transplantio de 20 mudas às margens do Rio São Francisco, com o auxílio das
crianças e professores da escola (Figura 4A a 4D). E ainda, as crianças participaram do
preparo do Hidrogel, para utilização no plantio das mudas. A Emater também
disponibilizou algumas mudas de espécies nativas para plantio da região do Baixo São
Francisco (Figura 4E).
Comunidades / Assesntamentos / Cooperativas / Associações visitadas:
Povoado Carnaíbas
No Perímetro irrigado Itiúba, foram entrevistados 14 agricultores e mais 02
pescadores (dentro do barco) que residem às margens do Rio São Francisco, que relataram
sua realidade. Alguns deles eram, em sua maioria, produtores de arroz, que é uma cultura
muito forte no município. Outros eram produtores de leite ou gado de corte (Figura 4F a
4H).
Duas crianças que moram na comunidade no entorno do Porto das Balsas,
chamaram a atenção pela curiosidade sobre o barco, e com isso auxiliaram os técnicos da
Emater na realização das covas para o plantio. Sendo assim, diante da empolgação das
crianças, as mesmas foram convidadas a conhecer o barco da Expedição, enriquecendo
seus conhecimentos com todas as informações adquiridas ali, assim como, plantar uma
muda de arvore nativa. (Figura 5).
Figura 4. Ações ocorridas na cidade de Porto Real do Colégio, em Alagoas: visitação do
barco com os alunos e professores (A e B); preparo e aplicação do hidrogel (C); plantio
de mudas de espécies nativas com as crianças da escola Santa Terezinha (D); entrega de
mudas pelos técnicos da EMATER (E); entrevistas com os agricultores da região (F, G,
H).
Figura 5. Crianças ribeirinhas visitando o barco da expedição, conhecendo as pesquisas
e equipamentos, e realizando o plantio da muda de espécie nativa.
5. IGREJA NOVA (CHINARÉ) – AL
Escolas ou Colégios Visitados:
Escola Municipal de Ed. Básica, General Artur da Costa e Silva
Nesta escola, participaram da ação 16 funcionários e 40 crianças, além da presença
de alguns pais, que ficaram curiosos com a chegada do barco. Sendo assim, todos foram
convidados a visitar o barco (Figura 6A, 6B). Contando também com a presença de alguns
ribeirinhos que aguardavam nas margens do rio.
Ainda na escola, os pais, alunos e professores, assistiram a palestra do prof. Dr. José
Vieira, que se deu de forma dinâmica e participativa conversando sobre Educação
Ambiental e ainda, preparou Hidrogel com as crianças para posterior plantio pelas
mesmas de 10 mudas de espécies nativas ao lado da escola (Figura 6C a 6E). Além de
outras mudas que foram disponibilizadas para serem transplantadas na extensão da escola,
localizada no povoado vizinho, Cajueiro Novo. Após esse momento, as crianças
conheceram as pesquisas realizadas dentro do barco, além da exposição de fotos.
Comunidades / Assentamentos / Cooperativas / Associações visitadas:
Associação dos Moradores e Pequenos Produtores do Povoado Cajueiro Novo
(ASMOCAN)
Foram entrevistados 13 agricultores no povoado vizinho Cajueiro Novo, estes
agricultores tem grande potencial na policultura, principalmente com a cultura da banana
(Figura 6F).
Figura 6. Ações ocorridas no povoado Chinaré, na cidade de Igreja Nova, Alagoas:
visitação do barco com os alunos e professores (A e B); palestra sobre educação
ambiental na Escola General Artur da Costa e Silva (C); preparo e aplicação do hidrogel
(D); plantio de mudas de espécies nativas com as crianças da escola Santa Terezinha (E);
entrevistas com os agricultores do povoado vizinho, Cajueiro Novo (F).
6. PENEDO - AL
Escolas ou Colégios Visitados:
Escola Municipal de Educação Básica Irmã Jolenta
Esta escola, que fica próximo às margens do Rio São Francisco, contou com a
participação de 04 professores e 60 crianças, do 4º e 5º ano, que solicitaram a visitação
ao barco (Figura 7A, 7B). E assim, os alunos tiveram contato com toda a pesquisa
realizada pelos integrantes da expedição, bem como, foi enfatizada a necessidade de
preservação do rio e da biodiversidade que existe nele.
Escola Municipal de Educação Básica Professor Douglas Apratto Tenorio
Participaram da ação 10 professoras do 2º ao 5º ano, com cerca de 60 crianças, as
quais assistiram empolgadas a palestra do professor Dr. José Vieira, que interagiu com a
crianças mantendo o foco na Educação Ambiental, conscientizando as crianças sobre a
importância da preservação do Rio São Francisco (Figura 7C). Além disso, as crianças
participaram do preparo do Hidrogel, para utilização no plantio das 10 mudas no
estabelecimento que contou com o auxílio dos técnicos da Emater, bem como, os
professores da escola (Figura 7D).
Comunidades / Assentamentos / Cooperativas / Associações visitadas:
Colônia de Pescadores Z-12 –
A Colônia fica localizada no Bairro Santo Antônio, que fica às margens do Rio São
Francisco, sendo o bairro mais antigo da cidade de Penedo. No dia da entrevista, ocorria
o cadastro dos pescadores na Colônia, sendo então realizadas entrevistas com 10
pescadores, além de alguns depoimentos dos mais antigos da região, que fizeram uma
comparação com a atividade pesqueira antigamente e as condições do pescado
atualmente, inclusive sobre a diversidade de espécies que eram encontradas antes (Figura
7E, 7F).
Figura 7. Ações ocorridas na cidade de Penedo, Alagoas: visitação do barco com os
alunos e professores da Escola Municipal de Ed. Bas. Irmã Jolenta (A e B); palestra sobre
educação ambiental na Escola Professor Douglas Apratto Tenorio (C); preparo e
aplicação do hidrogel e plantio de mudas de espécies nativas (D); entrevistas com os
pescadores na Colônia Z-12 (E e F).
7. PIAÇABUÇU – AL
Escolas ou Colégios Visitados:
Escola Estadual Correia Titara;
Grupo Escolar Municipal Faustino Victor de Araújo;
Grupo Escolar Municipal Jose Goncalves
Na oportunidade o professor Dr. José Vieira realizou uma palestra dinâmica e
participativa para alunos e professores, que, também, visitaram o barco da Expedição
(Figura 8A a 8C). Após a palestra sobre educação ambiental, as crianças e professores
realizaram o plantio de mudas de espécies nativas, momento em que foi exemplificado a
importância das árvores na redução da temperatura no local. Com isso, foi ressaltada a
responsabilidade ambiental que a cada um de nós devemos ter, além de tornar o
aprendizado das crianças algo dinâmico e divertido. Ainda foram deixadas algumas
mudas de árvores nativas que seriam plantas em diversos locais da cidade, reduzindo as
altas temperaturas.
Comunidades / Assentamentos / Cooperativas / Associações visitadas:
Associação Aroeira
Foram entrevistados alguns associados, o que ocorreu com a presença da presidente
da associação, Rita Ferreira. Na oportunidade, Rita apresentou os produtos da
Associação, bem como, explanou sobre história da mesma, e como conseguiram crescer
com a produção de bolos, doces, pimentas feitos na Associação. Com isso, o professor
Rafael Navas e seus orientandos gravaram entrevistas sobre a história de Rita e seu esposo
a frente da Associação Aroeira (Figura 8D a 8F).
Comentário da técnica Cleice Fátima Gonçalves Alves:
A situação atual do nosso rio São Francisco necessita de ações voltadas a sua
sobrevivência, que promovam a conscientização dos ribeirinhos quanto ao uso adequado
da água para os mais diversos fins. Para isso, analisar o rio dentro do contexto das
comunidades ribeirinhas é fundamental.
Sendo assim, a EMATER, com a missão de promover o desenvolvimento rural
sustentável no estado, colaborou com o estreitamento de laços entre os agricultores,
pescadores e crianças ribeirinhas e os pesquisadores da II Expedição Científica do Rio
São Francisco. Através desse contato, promovido por nossos técnicos, foi possível
entender a realidade socioeconômica dos pescadores e agricultores que utilizam a água
do Velho Chico, e principalmente, conhecer práticas que interferem na qualidade da água,
e impactam diretamente na biodiversidade do rio.
Diante do entendimento das práticas adotadas por agricultores e pescadores surge a
necessidade de arquitetar soluções que reduzam os impactos dessas atividades agrícolas
no Rio São Francisco, as quais, em momento posterior, devem ser repassadas às
comunidades.
Frente à isso, a sensibilização e conscientização de crianças ribeirinhas quanto à
necessidade de preservação e plantio de árvores nativas estreita a relação destas com a
natureza, promovendo maior responsabilidade ambiental, destacando a importância da
arborização para a redução da temperatura, proteção do solo contra a erosão, e ainda, uma
ampliação na biodiversidade.
Por isso, nos sentimos honrados de fazer parte de mais uma expedição e deixamos
nosso desejo de um Velho Chico com riqueza de biodiversidade, saudável, estando
cientes que cada um de nós devemos fazer nosso papel.
Figura 8. Ações ocorridas na cidade de Piaçabuçu, Alagoas: visitação do barco com os
alunos e professores (A); palestra sobre educação ambiental (B e C); visita a Associação
Aroeira (D e E); apresentação dos produtos da Associação Aroeira (F).
PARTE IV
TECNOLOGIAS E
INOVAÇÃO
Condições Meteorológicas, Temperatura da Água e Energia
Fotovoltaica na II Expedição Científica do Baixo São Francisco.
Ricardo Araujo Ferreira Junior1, Igor Cavalcante Torres2, Allwert Henrique Leão de
Argôlo Militão3, Daniel Lucas Henrique de Macedo3, José Sales dos Santos Netto3
1
Professor da Universidade Federal de Alagoas, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias,
Laboratório de Irrigação e Agrometeorologia;
2
Professor da Universidade Federal de Alagoas, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias,
Laboratório de Sistemas Fotovoltaicos;
3
Graduando da Universidade Federal de Alagoas, Curso de Engenharia de Energia, Laboratório
de Sistemas Fotovoltaicos.
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo analisar, durante a II Expedição Científica do Baixo São
Francisco, importantes variáveis ambientais, tais como: temperatura do ar, velocidade do
vento, temperatura da água e densidade de fluxo de radiação solar, juntamente com a
medição das variáveis elétricas de pequeno arranjo fotovoltaico. Uma vez que essas
mesmas variáveis impactam de maneira direta, tanto no meio ambiental quanto no meio
social. O uso de painéis fotovoltaicos para captação e conversão do recurso solar em
eletricidade é uma realidade em grandes centros urbanos de todo o mundo. Neste
contexto, é imprescindível o uso desta tecnologia como um elemento que agregue valor
social e econômico na região rural e ribeirinha. É importante que um sistema fotovoltaico
seja avaliado através do monitoramento dos dados operacionais, tais como: densidade de
fluxo de radiação solar, temperatura de operação, potência e corrente elétrica (Reges,
2017). Este trabalho finaliza com apresentação dos resultados aferidos a partir de um
protótipo de baixo custo, desenvolvido no Laboratório de Sistemas Fotovoltaicos da
Universidade Federal de Alagoas. Com as análises que foram feitas, obtivemos resultados
que viabilizam a exploração dos recursos provenientes do Sol, até então pouco difundida
na região.
INTRODUÇÃO
A caracterização das condições meteorológicas de um ambiente é sempre
importante, pois a maioria dos processos naturais (biológicos, químicos, físicos e até
sociais) é influenciado por pelo menos um elemento meteorológico. Por exemplo, a
radiação solar que incide na superfície é a força motriz que aporta nos diversos ambientes
e garante as condições necessárias para a produção primária em um ambiente, ou seja, a
produção de biomassa a partir de componentes inorgânicos (Woodward and Sheehy,
1983). A radiação solar, também, tem papel econômico no setor energético, sendo
utilizada tanto na forma passiva (aproveitamento para iluminação natural) quanto ativa
(aquecimento e eletricidade). Nas pesquisas de saúde existem evidências que a
iluminação natural tem efeito sobre o comportamento humano, regulando o ciclo
biológico, na produção de vitamina D, no ritmo cardíaco e circulatório.
Na região do Baixo São Francisco predomina o clima semiárido, no qual a
demanda de água de irrigação é fundamental para a segurança alimentar e geração de
renda dos agricultores rurais (PBMC, 2012). Nesse cenário, a radiação solar pode ser
aproveitada em sistemas fotovoltaicos, gerando eletricidade para os motobombas dos
sistemas de irrigação.
Nesse contexto, as medidas da radiação solar global (total) e outras variáveis
meteorológicas são fundamentais em várias áreas de interesse da sociedade, tais como:
caracterização ambiental, simulações de cenários climáticos futuros, demanda hídrica,
evapotranspiração, planejamento de instalações para o aproveitamento da energia solar,
modelos de crescimento e de produtividade de cultivos agrícolas, etc.
Em superfícies aquáticas, dentre os diversos elementos meteorológicos, a radiação
solar também é o que apresenta maior importância, sendo o responsável pela distribuição
de calor na massa de água, participando também dos processos de evaporação e no
processo de estratificação térmica (Ferreira et al., 2013). A temperatura da água é uma
variável importante no controle ambiental, sendo uma resposta das condições do meio
(Percebon et al., 2005). A variação da temperatura das águas de rios pode ter origem em
processos naturais, como variações (diárias e sazonais) da temperatura do ar e da
incidência da radiação solar e da redução de vazão, ou processos antrópicos diretos, como
a descarga de efluentes.
Este estudo teve por objetivo, durante a II Expedição Científica, monitorar e analisar as
variáveis meteorológicas e a temperatura da água do Baixo São Francisco e monitorar
variáveis elétricas de pequeno arranjo fotovoltaico através de um protótipo de baixo custo.
METODOLOGIA
As variáveis meteorológicas observadas na II Expedição Científica do Rio São
Francisco foram a radiação solar, velocidade do vento e a temperatura do ar. Também foi
monitora a temperatura da água do rio. Todas as medidas ambientais foram realizadas
com sensores automáticos que estamos conectados a um sistema de aquisição de dados
(Datalogger, Campbell Scientific) e programados para realizar medidas a cada 10
segundos e armazenadas médias a cada um (1) minuto.
As observações da radiação solar (Figura 1A) foram feitas através de um
piranômetro (modelo CM3, Kipp & Zonen) o qual foi previamente calibrado por um
piranômetro de segunda classe especificado pelo ISO 9060 (modelo CMP 21, Kipp &
Zonen). A radiação solar está apresentada ao longo da expedição como densidade de fluxo
de energia (irradiância solar global, Watt por metro quadrado – W m-2 ou J s-1 m-2) com
médias de um em um minuto, e com esses valores integrados a cada hora (irradiação solar
global horária e diária (Hg, Watt-hora por metro quadrado – Wh m-2).
A temperatura do ar (Ta) foi monitorada por um termômetro (Probe 107,
Campbell Scientific) instalado no piso superior da embarcação da expedição e protegido
da incidência de radiação. A velocidade do vento foi mensurada por um anemômetro do
tipo de conchas, também instalado no piso superior do barco (Figura 1B).
Figura 1. A) Sensor de medição de radiação solar; B) Sensor de medição da velocidade
do vento; e C) Sistema de aquisição de dados.
A temperatura da água do Rio foi monitorada em duas profundidades através de
termômetros (Probe 107, Campbell Scientific): 1) um termômetro ficava próximo a
superfície da água (completamente submerso) - Ts; 2) o outro termômetro ficava no
fundeadouro com uma profundidade aproximada de 2 metro – T2m. As medições de
temperatura do Rio só eram realizadas quando a embarcação estava atracada. Na Figura
2 observa-se as localidades nas quais foram realizadas as medições da temperatura da
água do Rio.
No que se remete ao aproveitamento solar para geração de eletricidade, essa
modalidade de aplicação vem ganhando fora exponencialmente. Diante da realidade da
região do Baixo São Francisco, do ponto de vista climatológico, motivou-se o estudo para
investigar os parâmetros elétricos fornecidos pelos módulos fotovoltaicos, visto que as
condições meteorológicas afetam de forma significativa a produção de energia elétrica
(Alves, 2019). Na Figura 3 tem-se o a configuração do cenário experimental montado na
expedição, o conjunto conta com dois painéis fotovoltaicos de 140 Wp (Watt pico) de
tecnologia Silício monocristalino (Si-m). Os dados técnicos operacionais do módulo
empregado no experimento estão descritos na Tabela 1.
Figura 2. Localidades quando a embarcação da expedição estava atracada e foi
monitorada a temperatura da água do Rio. Pi = Piranhas; PA = Pão de Açúcar; TR
=Traipu; PR = Propriá.
Figura 3. Ambiente experimental para medição dos parâmetros elétrico de gerador
fotovoltaico.
Tabela 1. Datasheet dos módulos utilizados na análise realizada na Expedição.
Referência
BMSM140M36
Potência
140 Wp
Corrente Ponto de Máxima
7.77 A
Corrente Curto Circuito
8.66 A
Tensão Ponto de Máxima
18.0 V
Tensão Circuito Aberto
21.6 V
Sistemas de monitoramento em tempo real possibilitam a visualização de falhas
com maior precisão (Reges, 2017). Sistemas comerciais ainda custam muito caro o que
muitas vezes inviabiliza a investigação de um experimento. Como já citado no início deste
texto, o desenvolvimento deste protótipo foi fundamentado em desenvolver uma
ferramenta de medição visando o baixo custo e acurácia aceitável nas medições. Dessa
forma, a coleta de dados se deu através do protótipo desenvolvido no laboratório, sendo
responsável por mensurar e armazenar as informações das variáveis na memória de massa
interna propiciando futuras análises. O protótipo foi desenvolvido pelos alunos do curso
de Engenharia de Energias (Figura 4). O dispositivo de aquisição de dados monitora em
intervalos de 1 segundo o comportamento da tensão, corrente, potência e temperatura do
painel solar, em tempo real e envias as informações a um cartão de memória.
Figura 4. Ambiente experimental para medição dos parâmetros elétrico de gerador
fotovoltaico.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Meteorologia durante a expedição
As medidas de radiação solar durante a expedição tiveram o valor máximo de
incidência igual a 1.329 W m-2 às 11 horas e 23 minutos no dia 21 de novembro, no qual
a embarcação estava em deslocamento entre os municípios de Pão de Açúcar (PA) e
Traipu (TR). Na Figura 5, observa-se a variação da irradiância, iniciando no dia 19 em
Piranhas (PI) e finalizado em Penedo dia 26 de novembro. Ainda nessa Figura é possível
notar que todos os dias tiveram altos valores de picos de irradiância solar global.
1400
40
1200
35
20
18
16
30
1000
14
400
15
10
8
6
4
10
200
2
0
Ta
No
v
No
v
No
v
No
v
25
26
27
No
v
22
24
No
v
21
No
v
No
v
20
Rg
23
No
v
5
Vv
Vv (m s-1)
20
Ta (°C)
600
19
Rg (W m-2)
12
25
800
Figura 5. Irradiância Solar global (Rg, W m-2), Temperatura do ar (Ta , °C) e Velocidade
do vento (Vv, m s-1) medidos na embarcação ao longo da II Expedição Científica do Rio
São Francisco.
Irradiância solar global na superfície com valores acima de 1000 W m -2 estão
relacionados a um fenômeno chamado de radiação extrema, sobre irradiância, efeito
borda de nuvem ou efeito lente. São valores de densidade de fluxo de radiação próximos
ou superior aos da constante solar (1367 W m-2) ou da irradiância extraterrestre. Isto
ocorre
em
condições
de
nebulosidade
parcial
como
consequência
de
espalhamento/reflexão por bordas das nuvens quando existe uma geometria propícia entre
Sol-Nuvens-Terra (DGS, 2008). Geralmente o efeito lente tem curtos intervalos de tempo
quando o ângulo de elevação solar está próximo de 90º ou ângulo horário próximo de 0º
(meio dia solar). Piacentini et al. (2011) relatam que para o fenômeno ocorra, as condições
especiais são funções do tipo, da densidade, da configuração e das porcentagens de
coberturas de nuvens (entre 50% a 90% do céu). Pesquisas realizadas usando dados de
irradiância feitas em diferentes estados do território brasileiro (Bahia; Ceará; Minas
Gerais; Mato Grosso; Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) foram observados valores
acima de 1367 até 1822 W m-2 (Nascimento et al., 2019).
A expedição ocorreu em novembro, mês que apresenta a menor normal
climatológica de precipitação pluvial (chuva) na maioria das regiões do estado de
Alagoas. Por exemplo, no município de Pão de Açúcar a precipitação mensal média (entre
os anos de 1981 a 2010) no mês de novembro é apenas de 12,8 mm (INMET, 2020). Por
tanto, não ocorreu nenhum evento de precipitação pluvial durante a expedição,
proporcionando elevados valores de energia solar incidente em todos os dias da
expedição. Esses são uns dos fatores que favoreceram as elevadas temperaturas no
decorrer da expedição, que apresentou uma temperatura do ar média de 27,9 °C, valor
superior ao registrado na primeira expedição (2018) que ocorreu no mês de outubro e teve
média de 27,3 °C. Se a comparação da temperatura do ar entre as duas expedições for em
relação aos valores extremos (mínimo e máximo), as diferenças são maiores, com 1,05 e
2,1 °C de diferenças, respectivamente, para temperaturas mínimas e máximas.
A temperatura do ar teve o valor máximo (35,7 °C), durante a expedição, no dia
24 de novembro às 10h10min da manhã. Nas Figuras 5 e 11, nota-se que nesse dia a
irradiância apresentou o menor pico (1010 W m-2) entre os dias da expedição, porém esse
dia, do nascer ao pôr do Sol, foi o que recebeu mais energia solar, com o valor integrado
de 7370 Wh m-2. Isso foi devido a condição da atmosfera que estava limpa nesse dia. E,
conforme relatado no Atlas Brasileiro de Energia Solar elaborado em conjunto pelo
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Laboratório de Modelagem e Estudos
de Recursos Renováveis de Energia (Labren) e o Centro de Ciência do Sistema Terrestre
(CCST) em 2017, em um dia claro (céu limpo), os constituintes da atmosfera atenuam a
irradiância solar fazendo com que a incidente na superfície atinja seu valor máximo de
aproximadamente 1.000 W m-2 (Pereira et al., 2017). Essa condição ocorreu no dia 24 e
pode ser observado na Figura 11, na qual a curva foi a mais próxima de uma senoide
(formado de sino).
Cabe ressaltar que todos os dias apresentaram irradiação solar global acima da
faixa média anual (5250 a 5500 W m-2) da região apresentada no Atlas acima citado. As
tendências de irradiâncias solar global e de irradiação solar global horária dos demais dias
da expedição são mostradas nas Figuras 6 a 13.
1400
1400
Dia 19
Dia 19
Area=5201
dx=13.96
1200
1000
Irradiação Solar (Wh m-2)
800
600
400
200
1000
800
600
400
200
16
18
16
-17
17
-18
14
14
-15
15
-16
12
Hora
12
-13
13
-14
10
10
-11
11
-12
8
05
-06
06
-07
6
08
-09
09
-10
0
0
07
-08
Irradiância Solar (W m-2)
1200
Hora
Figura 6. Irradiância e Irradiação Solar no dia 19 medida na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco, no município de Piranhas (PI).
1400
1400
Dia 20
Dia 20
Area=6695
dx=13.96
1200
1000
Irradiação Solar (Wh m-2)
800
600
400
200
1000
800
600
400
200
17
-18
16
-17
15
-16
14
-15
13
-14
18
12
-13
16
11
-12
14
10
-11
12
Hora
09
-10
10
08
-09
8
07
-08
6
06
-07
0
0
05
-06
Irradiância Solar (W m-2)
1200
Hora
Figura 7. Irradiância e Irradiação Solar no dia 20 medida na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco do município de Piranhas (PI) ao de Pão de Açúcar (PA).
1400
1400
Dia 21
Dia 21
1200
1000
Irradiação Solar (Wh m-2)
800
600
400
200
1000
800
600
400
200
17
-18
16
-17
15
-16
14
-15
Hora
13
-14
18
12
-13
16
11
-12
14
10
-11
12
09
-10
10
08
-09
8
05
-06
6
07
-08
0
0
06
-07
Irradiância Solar (W m-2)
1200
Area=6104
dx=13.96
Hora
Figura 8. Irradiância e Irradiação Solar no dia 21 medida na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco do município de Pão de Açúcar (PA) ao de Traipu (TR).
1400
1400
Dia 22
Dia 22
Area=6735
dx=13.96
1200
Irradiação Solar (Wh m-2)
1000
800
600
400
200
1000
800
600
400
200
17
-18
16
-17
15
-16
14
-15
13
-14
18
12
-13
16
11
-12
14
10
-11
12
Hora
09
-10
10
08
-09
8
05
-06
6
07
-08
0
0
06
-07
Irradiância Solar (W m-2)
1200
Hora
Figura 9. Irradiância e Irradiação Solar no dia 22 medida na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco do município de Traipu (TR) ao de Propriá (PR).
1400
1400
Dia 23
Dia 23
1200
Area=6217
dx=13.96
Irradiação Solar (Wh m-2)
Irradiância Solar (W m-2)
1200
1000
800
600
400
200
1000
800
600
400
200
0
17
-18
16
-17
15
-16
14
-15
13
-14
18
12
-13
16
11
-12
14
10
-11
12
Hora
09
-10
10
08
-09
8
07
-08
6
05
-06
06
-07
0
Hora
Figura 10. Irradiância e Irradiação Solar no dia 23 medida na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco do município de Propriá (PR) ao de Penedo (PE).
1400
1400
Dia 24
Dia 24
Area=7370
dx=13.96
1200
Irradiação Solar (Wh m-2)
1000
800
600
400
200
1000
800
600
400
200
16
18
17
-18
14
15
-16
16
-17
12
Hora
13
-14
14
-15
10
11
-12
12
-13
8
05
-06
06
-07
6
09
-10
10
-11
0
0
07
-08
08
-09
Irradiância Solar (W m-2)
1200
Hora
Figura 11. Irradiância e Irradiação Solar no dia 24 medida na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco no município de Penedo (PE).
1400
1400
Dia 25
Dia 25
Area=5899
dx=13.96
1200
1000
Irradiação Solar (Wh m-2)
800
600
400
200
1000
800
600
400
200
18
16
-17
17
-18
16
15
-16
14
14
-15
12
Hora
12
-13
13
-14
10
10
-11
11
-12
8
05
-06
6
08
-09
09
-10
0
0
06
-07
07
-08
Irradiância Solar (W m-2)
1200
Hora
Figura 12. Irradiância e Irradiação Solar no dia 25 medida na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco do município de Penedo (PE) ao de Piaçabuçu (PU).
1400
1400
Dia 26
Dia 26
Area=6266
dx=13.96
1200
1000
Irradiação Solar (Wh m-2)
800
600
400
200
1000
800
600
400
200
17
-18
16
-17
15
-16
14
-15
13
-14
18
12
-13
16
11
-12
Hora
14
10
-11
12
09
-10
10
08
-09
8
07
-08
6
06
-07
0
0
05
-06
Irradiância Solar (W m-2)
1200
Hora
Figura 13. Irradiância e Irradiação Solar no dia 26 medida na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco do município de Piaçabuçu (PU) ao de Penedo (PE).
Em relação a velocidade do vento medida na expedição, é importante lembrar que,
quando a embarcação está em movimento, a velocidade registrada pelo equipamento é a
sentida pela embarcação. Nesse caso, a velocidade é uma resultante da velocidade da
embarcação e a do vento. Logo, na Figura 5 os valores em certos momentos representados
não são exatos, porém é notável que a tendência do vento é parecida com a da temperatura
do ar.
Temperatura da água do rio
O primeiro registro da temperatura da água do rio ocorreu no município de
Piranhas (PI) no dia 19 de novembro das 15h às 19h. Durante esse período, a temperatura
da água do rio nas duas profundidades (temperatura na superfície - Ts e Temperatura a 2
metro de profundidade – T2m) tiveram decréscimos de apenas 0,13 ºC (Ts) e 0,14 ºC
(T2m) (Figura 14B). A temperatura do ar (Ta) teve no mesmo período uma amplitude de
4,63 ºC (Figura 14A).
B) 27.0
A)
Ts
T2m
34
Temperatura da água (°C)
Ta (°C)
26.8
32
30
26.6
26.4
26.2
Hora
15
:0
15 0
:1
15 5
:3
15 0
:4
16 5
:0
16 0
:1
16 5
:3
16 0
:4
17 5
:0
17 0
:1
17 5
:3
17 0
:4
18 5
:0
18 0
:1
18 5
:3
18 0
:4
19 5
:00
15
:0
15 0
:1
15 5
:3
15 0
:4
16 5
:0
16 0
:1
16 5
:3
16 0
:4
17 5
:0
17 0
:1
17 5
:3
17 0
:4
18 5
:0
18 0
:1
18 5
:3
18 0
:4
19 5
:00
26.0
Hora
Figura 14. A) Temperatura do ar (Ta, °C); B) temperatura da água na superfície (Ts, °C)
e temperatura da água à 2 metros de profundidade (T2m, °C) do Rio São Francisco,
realizada dia 19 de novembro de 2020 no município de Piranhas (PI) durante a II
Expedição Científica do Rio São Francisco.
Sabe-se que essa manutenção da temperatura da água do rio é devido a
propriedade da água em precisar perder relativamente mais energia para diminuir sua
temperatura (alto calor específico). Nota-se uma ligeira diferença de temperatura entre Ts
e T2m com valor médio de 0,11 ºC. Vale ressaltar que os sensores utilizados são robustos
e precisos, com a capacidade de medir a temperatura do ar, do solo ou da água de -35 a +
50 °C e com um erro menor ou igual a 0,01 ºC (Campbell Scientific, 2020).
No município de Pão de açúcar (PO) foram realizadas medidas da temperatura da
água no dia 20 (Figura 15B) e no dia 21 (Figura16B). Esse foi o maior período de medição
dessa variável na expedição. Assim foi possível observar uma maior amplitude da
temperatura, com máximas de 27,7 ºC (Ts) e 27,08 ºC (T2m), e mínimas de 23,87 ºC (Ts)
e 23,59 ºC (T2m). As diferenças entre as profundidades (Ts e T2m) em PO teve um valor
máximo de 0,42 ºC e uma média de 0,11 ºC. As curvas de temperaturas da água do Rio
apresentam uma variação suavizadas, mesmo quando a Ta tem uma alteração mais
abrupta, como ocorreu na Figura 16.
A)
34
B)
Ts
T2m
27.4
Temperatura da água (°C)
32
Ta (°C)
30
28
27.0
26.8
12
:0
12 0
:45
13
:3
14 0
:15
15
:0
15 0
:45
16
:3
17 0
:15
18
:0
18 0
:45
19
:3
20 0
:15
21
:0
21 0
:45
22
:3
23 0
:15
00
:00
26.6
11
:1
12 5
:00
12
:4
13 5
:30
14
:1
15 5
:00
15
:4
16 5
:30
17
:1
18 5
:00
18
:4
19 5
:30
20
:1
21 5
:00
21
:4
22 5
:30
23
:1
00 5
:00
26
27.2
Hora
Hora
Figura 15. A) Temperatura do ar (Ta, °C); B) temperatura da água na superfície (Ts, °C)
e temperatura da água à 2 metros de profundidade (T2m, °C) do Rio São Francisco,
realizada dia 20 de novembro de 2020 no município de Pão de Açúcar (PO) durante a II
Expedição Científica do Rio São Francisco.
B) 27.0
A)
Ts
T2m
28
Temperatura da água (°C)
26.8
Ta (°C)
26
24
26.6
26.4
26.2
00
:0
00 0
:3
01 0
:0
01 0
:3
02 0
:0
02 0
:3
03 0
:0
03 0
:3
04 0
:0
04 0
:3
05 0
:0
05 0
:3
06 0
:0
06 0
:3
07 0
:0
07 0
:3
08 0
:0
08 0
:30
Hora
00
:0
00 0
:30
01
:0
01 0
:30
02
:0
02 0
:30
03
:0
03 0
:30
04
:0
04 0
:30
05
:0
05 0
:30
06
:0
06 0
:30
07
:0
07 0
:30
08
:0
08 0
:30
26.0
22
Hora
Figura 16. A) Temperatura do ar (Ta, °C); B) temperatura da água na superfície (Ts, °C)
e temperatura da água à 2 metros de profundidade (T2m, °C) do Rio São Francisco,
realizada dia 21 de novembro de 2020 no município de Pão de Açúcar (PO) durante a II
Expedição Científica do Rio São Francisco.
Ainda no dia 21 de novembro de 2020, a embarcação da II Expedição Científica
do Rio São Francisco chegou nono município de Traipu (TR), onde novamente, os
sensores foram colocados na água às 14h15min e retirados no dia seguinte (22/11) às 8h
(Figuras 17 e 18). A tendência da temperatura da água do Rio foi parecida com a
apresentada acima em PO, com máximas respectivamente de 27,91 e 27,57 ºC para Ts e
T2m. As mínimas foram de 26,75 ºC na água na superfície e de 26,65 ºC no fundo do Rio
(2m). A média das diferenças entre os dois termômetros foi 0,10 ºC.
B) 27.8
A)
Ts
T2m
32
Temperatura da água (°C)
27.6
28
26
24
27.4
27.2
27.0
0
5
00
:0
0
23
:1
5
22
:3
0
21
:4
5
21
:0
0
20
:1
5
19
:3
0
18
:4
5
18
:0
0
17
:1
5
16
:3
0
15
:4
14
:1
5
14
:15
15
:00
15
:45
16
:30
17
:15
18
:00
18
:45
19
:30
20
:15
21
:00
21
:45
22
:30
23
:15
00
:00
26.8
15
:0
Ta (°C)
30
Hora
Hora
Figura 17. A) Temperatura do ar (Ta, °C); B) temperatura da água na superfície (Ts, °C)
e temperatura da água à 2 metros de profundidade (T2m, °C) do Rio São Francisco,
realizada dia 21 de novembro de 2020 no município de Traipu (TR) durante a II
Expedição Científica do Rio São Francisco.
B) 27.4
A)
Ts
T2m
30
Temperatura da água (°C)
27.2
26
24
26.6
Hora
5
08
:1
0
5
07
:3
0
06
:4
5
06
:0
05
:1
0
04
:3
5
03
:4
0
03
:0
5
0
02
:1
5
01
:3
00
:4
0
:30
:45
:00
:15
:30
:15
08
07
06
06
05
:00
:15
:30
:45
:45
04
03
03
02
01
00
:00
26.8
26.4
22
00
27.0
00
:0
Ta (°C)
28
Hora
Figura 18. A) Temperatura do ar (Ta, °C); B) temperatura da água na superfície (Ts, °C)
e temperatura da água à 2 metros de profundidade (T2m, °C) do Rio São Francisco,
realizada dia 22 de novembro de 2020 no município de Traipu (TR) durante a II
Expedição Científica do Rio São Francisco.
Apesar da água do rio ter diferenças muito pequenas de temperatura nas duas
profundidades medidas, não foi registrado inversão térmica nos momentos de medidas,
com a temperatura da água na superfície sempre ligeiramente superior à no fundo do Rio.
Monitoramento do Sistema Fotovoltaico
No contexto da produção de eletricidade, os resultados encontrados pelo protótipo
medidor estão ilustrados na Figura 19. As medidas são referentes ao dia 22 de novembro
de 2019, quando a embarcação da Expedição estava em deslocamento entre os municípios
de Traipu (TR) e Propriá (PR).
De acordo com Figura 19A, há uma similaridade
entre o comportamento da corrente fotogerada e a irradiância solar global (Figura 9),
percebe-se uma mesma dinâmica na variabilidade das medições com forte correlação
entre as variáveis.
A)
B)
Figura 19. A) Perfil da corrente elétrica produzida pelo painel fotovoltaico em ampères;
B) Perfil da tensão nos terminais do painel fotovoltaico em volts.
Matematicamente a correlação pode ser determinada pela modelo matemático
abaixo, onde se é possível determinar a corrente produzida pelo painel fotovoltaico com
o dado instantâneo de radiação solar:
𝐻𝛽
𝐻𝑆𝑇𝐶
𝐼
𝐻𝛽
𝑀𝑃
𝑆𝑇𝐶
= 𝐼 𝐹𝑉 = 𝐼𝐹𝑉 = 𝐼𝑀𝑃 𝐻
Na expressão acima, 𝑰𝑭𝑽 é a corrente na saída do painel fotovoltaico, a partir do
valor da corrente no ponto de máxima potência (𝑰𝑴𝑷 ) nominal do datasheet é possível
calcular instantaneamente a corrente fotogerada usando o termo de radiação normalizada
𝑯𝜷
(𝑯
𝑺𝑻𝑪
). Percebe-se também que foram obtidos valores máximos de corrente ligeiramente
acima de 10 amperes, superando o valor de catálogo do datasheet (Tabela 1), isso significa
um excesso de sobrecorrente de quase 18% com relação ao dado de catálogo, que é
referenciado nas condições padrão de teste (STC). Este fenômeno pode ser justificado
mediante a disponibilidade do recurso solar local, conforme é visualizado no perfil da
irradiação solar do dia 22, existe momentos que a irradiação solar ultrapassa os 1000 W
m-2, consequentemente há uma projeção deste efeito na corrente fotogerada do módulo.
Analisando o perfil da tensão, visualiza-se que há intermitência na amplitude da
tensão no mesmo período que se tem a variabilidade da irradiância solar, porém em menor
intensidade. A comparação pode ser feita pelo próprio gráfico (Figura 19), visto que
corrente elétrica reflete o comportamento da densidade de fluxo de radiação solar, assim,
é possível perceber a estabilidade do sinal de tensão após o período da perturbação da
corrente elétrica.
Uma observação bastante importante nos dados de tensão é que, mesmo no estado
de variabilidade, apresenta-se na respectiva variável uma tendência de decaimento em seu
perfil, isto é reflexo do aquecimento excessivo na superfície do módulo fotovoltaico,
aumentando agressivamente sua temperatura de operação. Ilustra-se na Figura 20,
novamente, o perfil de tensão (letra A) associado a sua temperatura de operação (letra B).
A)
B)
Figura 20. A) Perfil da tensão elétrica nos terminais do módulo fotovoltaico ao longo do
dia em V; B) Perfil da temperatura operacional do painel fotovoltaico em graus Celsius.
CONCLUSÃO
Conclui-se, portanto, que a radiação solar é um recurso que deve ser ambicionado
na região, principalmente em locais com difíceis acessos, uma vez que já foi documentado
o potencial. A utilização de geradores fotovoltaicos já é uma realidade, de acordo com os
resultados é possível utilizar esta tecnologia para fornecimento de energia elétrica a
pequenas e grandes cargas, bastando está muito atento no que tange a melhor captação do
recurso solar. O protótipo de monitoramento desenvolvido mostrou-se bom desempenho
nas medições de tensão, corrente, potência e temperatura do painel solar.
A temperatura da água do rio apresentou uma variação esperada tanto ao longo do
dia quanto em relação a diferenças de profundidade. É importante ressaltar que o
monitoramento das variáveis da atmosfera e da temperatura da água do rio são utilizadas
em outras pesquisas correlatadas. No caso de necessidade de dados mais detalhados entrar
em contato com o primeiro autor.
REFERÊNCIAS
ALVES, M. O. L., Energia solar: Estudo da geração de energia elétrica através dos
sistemas fotovoltaicos on-grid e off-grid. Universidade Federal do Ouro Preto, João
Monlevade, Minas Gerais, 2019.
Campbell Scientific, Inc, 2020. Página inicial. Disponível em:
<https://www.campbellsci.com.br>. Acesso em: 29 de mai. de 2020.
FERREIRA, D. M.; CUNHA, C. Simulação numérica do comportamento térmico do
reservatório do Rio Verde. Eng. Sanit. Ambient., v.18, n.1, p.83-93, 2013.
INMET. Instituto Nacional de Meteorologia, 2020. Página inicial. Disponível em:
<http://www.inmet.gov.br/portal/index.php?r=clima/normaisClimatologicas>. Acesso
em: 27 de mai. de 2020.
NASCIMENTO, L. R., VIANA, T. S.; CAMPOS, R. A.; RÜTHER, R. Extreme solar
overirradiance events: Occurrence and impacts on utilityscale photovoltaic power plants
in Brazil. Solar Energy. v.186, p.370-381, 2019.
PBMC. Sumário Executivo do Volume 1 - Base Científica das Mudanças Climáticas.
Contribuição do Grupo de Trabalho 1 para o 1o Relatório de Avaliação Nacional do
Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. Brasil, Volume Especial para a Rio+20, 34p,
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PERCEBON, C, M, BITTENCOURT, A, V, L, ROSA FILHO, E, F, Diagnóstico da
temperatura das águas dos principais rios de Blumenau, sc, Boletim Paranaense de
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PEREIRA, E. B.; MARTINS, F. R.; GONÇALVES, A. R.; COSTA, R. S.; DE LIMA, F.
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PIACENTINI, R. D.; CEDE, A.; BARCENA, H. Extreme solar total and UV irradiances
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REGES, J. P. Desenvolvimento de um sistema de aquisição de dados para sistemas
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Ceará, 2017.
Woodward F.I.; Sheehy, J.E. Principles and Measurements in Environmental Biology. p.
274. 1983.
Relato das Atividades Desenvolvidas na II Expedição Cientifica do
Baixo São Francisco
Maristela de Fátima Simplicio de Santana
Tecnologista Pleno - MCTIC/ CTI- NE
Objetivos
A participação na Expedição teve como objetivos:
1. A utilização de Tecnologia da Informação aplicada ao monitoramento
ambiental;
2. A realização de entrevistas com pescadores para avaliação social, econômica e
cultural com fins de segurança alimentar e nutricional;
3. A aplicação de entrevistas com participantes da expedição para uma análise
sobre gestão de ciência e tecnologia para monitoramento do ambiente do Rio
São Francisco;
4. A coleta de imagens com drones (da CODEVASF) para avaliar a mata ciliar do
rio.
Introdução
“Água, energia e alimentos são essenciais para o bem-estar
humano, redução da pobreza e desenvolvimento sustentável.
Projeções globais indicam que a demanda por água doce, energia
e comida aumentará expressivamente nas próximas décadas
devido ao crescimento da população, desenvolvimento econômico
e outros fatores” (FAO, 2014).
O Rio São Francisco nasce na serra da Canastra, em MG e percorre 2.696 km até
sua foz na divisa entre AL e SE. O Velho Chico é um rio de extensão e impactos
grandiosos, rendendo-lhe a denominação de “rio da integração nacional”. A Bacia
possui uma área de 638 km², compõe 8% do território nacional e engloba 503
municípios (MMA, 2006). Essa região hidrográfica está dividida em quatro regiões
fisiográficas: Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco, que desaguam no oceano
Atlântico.
Segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF, 2016) a
população total na região hidrográfica, no ano 2010, era de aproximadamente 14.2
milhões de habitantes, sendo a população urbana representada por 77,2% (11.045,2).
A distribuição populacional da região hidrográfica do Baixo São Francisco era de 752,2
mil habitantes, cuja população residente urbana conta com 53,3% e a população
residente em zona rural é de 660,3 mil (46,7%), são 90 municípios integrados nessa
sub-região da bacia.
O Rio representa dois terços da disponibilidade de água doce da Região Nordeste.
O Baixo São Francisco é uma das regiões mais impactadas quando tratamos dos fatores
ligados a pesca, geração de energia elétrica e poluição oriunda dos esgotos das cidades.
Localiza-se a uma altitude de 500 m até o nível do mar, com clima predominante
classificado como sub-úmido, possui uma precipitação média anual entre 500 e
1300mm, com temperatura média de 25oC, transpiração média anual de 2800mm e
evapotranspiração média anual de 1500 mm. A cobertura vegetal predominante é a
Caatinga, Mata Atlântica, fragmentos de pequenas matas de mangues e restingas MMA
(2015). A distribuição populacional da região hidrográfica do Baixo São Francisco era
de 752,2 mil de habitantes, cuja população residente urbana conta com 53,3% e a
população residente em zona rural é de 660,3 mil (46,7%), são 90 municípios
integrados na bacia (CBHSF, 2016).
Quando se contempla a história e a diversidade geográfica da bacia do rio São
Francisco, percebe-se que a elaboração de uma listagem simples dos múltiplos usos de
suas águas é uma tarefa árdua. Esse rio define não somente o que tecnicamente é
chamado de bacia hidrográfica, mas vai muito além, criando uma identidade cultural
regional que abrange diversos estados brasileiros e muitas paisagens. De forma não
exaustiva a CBHSF (2014), descreve oito classes de usos que podem ser identificados
atualmente na bacia hidrográfica do rio São Francisco. São elas: 1. A geração de
energia elétrica nas hidrelétricas da CEMIG (UHE Três Marias) e da CHESF (uhes
Sobradinho, Itaparica, Complexo Paulo Afonso, Moxotó e Xingó), mas ainda com
potencial para outras usinas já projetadas, como os aproveitamentos hidrelétricos de
Pedra Branca (320 MW) e Riacho Seco (240 MW) entre os reservatórios das uhes
Sobradinho e Itaparica;
2. O controle de cheias proporcionado por regras específicas de operação
principalmente nos reservatórios das uhes Três Marias e Sobradinho;
3. A navegação, administrada pela AHSFRA - Administração da Hidrovia do São
Francisco, órgão de infraestrutura hidroviária, que tem como principal atribuição a
prestação de serviços públicos de manutenção das condições de navegabilidade do rio
São Francisco, bem como de seus afluentes navegáveis, mantendo-os em condições
para a realização da navegação comercial;
4. O Projeto de Integração do São Francisco, conhecido também como a
transposição do São Francisco, projeto de integração do rio São Francisco com as
bacias hidrográficas do nordeste setentrional;
5. Projetos de irrigação e piscicultura, públicos e privados de grande dimensão
que se abastecem diretamente do rio São Francisco ou de seus afluentes principais em
toda a bacia.
6. Abastecimento de cidades e outras ao longo do rio São Francisco que se
abastecem diretamente do rio;
7. Hidrógrafa ambiental, que representa as condições necessárias para manter a
biodiversidade e comunidades tradicionais que dependem dos serviços ambientais
proporcionados pelo rio em condições naturais para a sua subsistência e reprodução;
8. Atividades que dependem dos lagos formados pelos reservatórios como o
turismo, a pesca esportiva, o lazer e a piscicultura em tanques-rede dentro dos
reservatórios.
Nesse contexto, a possibilidade de aumento dos conflitos pelo uso da água na
região hidrográfica é cada vez maior, dada a crescente demanda por esse recurso,
impondo, assim, a necessidade de se operar o sistema hídrico da bacia de forma a
atender aos usos múltiplos, estabelecendo as prioridades de uso conforme preceitua a
lei nº 9433/2007 (MMA, 2006).
Dada à complexidade da bacia, diversos aspectos precisam ser considerados para
sua devida gestão: ambientais, políticos, sociais, culturais, educacionais, econômicos,
legais, morais, éticos, administrativos, financeiros, técnicos, de governança, dentre
outros. Tornam-se necessárias ações e diretrizes que articulem esses aspectos, suas
atividades e procedimentos, além do comprometimento entre eles (KONRAD, 2016).
Principalmente, com vista à definição dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável,
ODS, definido pela Organização das Nações Unidas, ONU, que se encontram
diretamente relacionado com o conceito de “ecologicamente correto, economicamente
viável e socialmente justo”, inclui-se o culturalmente diverso, e, portanto, guarda um
alto nível de subjetividade. Sua aplicabilidade subentende a relação harmônica entre
preservação ambiental, progresso social e crescimento econômico, em busca do bemestar e de constante melhoria na qualidade de vida da humanidade.
Figura 1. Regiões fisiográficas do São Francisco (SUB 1).
Fonte: CBHSF (2016)
Nesse contexto histórico de mudanças ambientais promovidas por antropização
ou mesmo por condições climáticas verifica-se a necessidade de monitoramento social,
econômico, ambiental, entre outros, para minimização dos impactos decorridos. Esse
processo depende de estudos e planejamento com ações técnicas centradas em uma
visão holística apropriada e qualificadas, partindo sempre do conhecimento e do
diálogo com os projetos e anseios de vida das comunidades que potencialmente se
beneficiam ou sofrem os impactos.
A II Expedição Científica Rio São Francisco teve como finalidade avaliar o Rio
São Francisco de forma multidisciplinar e levantar propostas de ações para revitalizar
as atividades, sua biodiversidade e as comunidades agrícolas, em diferentes localidades
(no baixo São Francisco) do estado de Alagoas e Sergipe.
Reuniu cerca 47 pesquisadores e cerca de 10 estudantes das instituições
brasileiras: Universidade Federal de Alagoas (UFAL); Universidade Federal Rural de
Pernambuco, (UFRPE); Universidade Federal do Amazonas (UFAM); Universidade
Federal de Sergipe (UFS); pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa); do Ministério da Ciência Tecnologia, Inovação e
Comunicações (MCTIC); Centro de tecnologia da Informação Renato Archer, Núcleo
Nordeste (CTI-NE); do Instituto Federal do Ceará (IFCE); da Comitê da Bacia
Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), técnicos da EMATER regional, e o
pesquisador do Centro Oceanográfico de Vigo da Espanha.
Abaixo, segue lista de pesquisadores pressentes na expedição, que fizeram
trabalhos de inovação nas diversas áreas: engenharia, agricultura, pesca, ictiofauna,
filologia, estudos dos ecossistemas e poluição, assoreamento, mata ciliar, fotografia
científica, hidrologia, limnologia, sociologia, tecnologia da informação, educação
ambiental, etc.
Profissional
Instituição
Área de trabalho
01.
Alfredo Borie Mojica
UFAL
Ecoacústica
02.
Álvaro Albuquerque
CODEVASF
03.
Aristides Pavani Filho
MCTIC
04.
Carlos Alberto - Cadal Embrapa
Tabuleiros
Costeiros
05.
Daniela
DiNato
06.
Damião
Embrapa
Tabuleiros
Costeiros
Técnico de laboratório
07.
Deise
CBHSF
Jornalista
08.
Elica Guedes
UFAL
ficologia
09
Elton Lima Santos
UFAL
conteúdo estomacal e enzimas
10.
Emerson Soares
UFAL
ictiologia e ecotoxicologia
11
Evaristo Perez
Instituto
Oceanografia
Espanha
12.
José Vieira
UFAL
assoreamentos
desmatamento
13.
Jucilene Cavali
UFRO
Produção
agroindustria
14.
Juliett Xavier
UFAL
Inspeção do pescado
15.
Leonardo Viana
UFAL
Oliveira Agencia
Vivo
Microssistemas
limnologia e metais pesados
Peixe
de ictiofauna
da
e
animal
e
16.
Marcos Teles
química e limno
17.
Marcus Cruz
18.
Petrônio Alves Coelho UFAL
Filho
qualidade
de
carcinocultura
19.
Rafael Navas
agricultura familiar
20
Ricardo
Ferreira Jr
21.
Silvânio
UFS
sedimentos
ambiental
22
Themis
UFAL
genotoxidade de peixes
23.
Vanildo Oliveira
URFPE
pesca artesanal
24.
Vivian
25.
Manoel Alves
Oliveira Jr.
26.
Igor
27.
Márcio Campelo
28.
Manoel
CBHSF
Jornalista
29.
Maristela
MCTIC/ CTI-NE
TI
para
ambiental
30.
Cícero Carlos
recursos genéticos e energia
renováveis
31.
Vieira
Historiador e assentamentos
32.
Carlos Garcia
sedimentos
33.
Anivaldo Miranda
Presidente
CBHSF
34.
Valéria Machado
UFAM
genética de peixes
35.
Iru Magalhães
UFAM
zooplancton
Embrapa
Tabuleiros
Costeiros
hidrologia
geoprocessamento
UFAL
Araújo UFAL
e
água
e
agrometeorologia
microparasitas
ecotoxicologia
de UFAL
e
analista
e
enzimas
Jornalista
UFAL
Análise fotovoltaica e energia
fotografia científica
monitoramento
do
36.
Alunos: Ana Carolina Lopes, Ricardo Fabio, Emily Valentin, Teresa Simões, Marcos
Yves, Guilherme Netter, Ana Lucia, Hortência, Emerson Oliveira, Elâne.
Dentre este universo, a II Expedição Científica do Baixo São Francisco,
percorreu 280km (Figura 1), visitou comunidades agrícolas, associações de pescadores
e escolas públicas. Durante o percurso houve plantio de árvores nativas, teste de energia
solar, análises por satélites da produtividade primária do Rio, teste de equipamentos,
coleta de dados e de amostras (cerca de 1500, entre fitoplancton, plantas, água e
peixes).
Para dar conta de todo esse trabalho, teve apoio por terra e água, contamos com
o vant, drones, lanchas e carros de apoio do Comitê das Bacias Hidrográficas do Baixo
São Francisco (CBHSF), da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São
Francisco e do Parnaíba (CODEVASF); da Empresa de Assistência Técnica e Extensão
Rural de Alagoas (Emater); Universidade Federal de Alagoas (UFAL); e Governo do
Estado de Alagoas.
Os recursos captados para essa ação foram oriundos do Comitê das Bacias
Hidrográficas do Baixo São Francisco CBHSF, Secretaria de Estado do Meio Ambiente
e dos Recursos Hídricos de Alagoas (SEMARH); Secretaria de Ciência e Tecnologia
de Alagoas (SECTI-AL) e Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
A Programação da II Expedição Científica Rio São Francisco foi:
Dia 17 - Saída de Maceió em direção à Penedo, no ônibus da UFAL, com boa parte dos
pesquisadores.
Dia 18 - Abertura da expedição na cidade de Penedo e partida em direção a Piranhas;
reunião no barco para definições de linhas de trabalho e ações.
Dia 19 - Trabalhos em Piranhas durante o dia, palestra noturna com Dr. Vanildo sobre
pesca no Brasil, e reunião para ajustes de atividades.
Dia 20 - Trabalhos em Pão de Açúcar e palestra noturna com Dr Elica, sobre
microorganismos aquáticos.
Dia 21 - Trabalhos diurnos em Traipú, palestra noturna do senhor Jackson do CBHSF
e Museu do São Francisco.
Dia 22 - Trabalhos diurnos em Porto Real, palestra noturna e reunião.
Dia 23 – Trabalhos diurnos em Igreja Nova, palestra noturna e reunião.
Dia 24 - Penedo com visita ao festival de cinema de Penedo nomeia 24 a noite, e
Dia 25 - Trabalhos em Neopolis, com partida a Piaçabuçú, após o almoço, mesma
metodologia.
Dia 26 - Partida ao estuário e foz, após as 10:00, depois subiremos o rio por volta das
14:30 para trabalhos em Brejo Grande, onde chegaremos a Penedo a Noite.
Dia 27 - Finalização do trabalho, avaliação e reunião final. Retorno para casa ao meio
dia. e para coletar dados do rio e comunidades agrícolas, nos municípios de
Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Penedo, Porto Real, Propriá, Brejo Grande,
Piaçabuçu e povoado Chixeré.
Essa programação sofreu pequenas alterações relativas a horários para adequação
aos trabalhos de todos os pesquisadores.
Figura 2. Mapa dos pontos de coleta II Expedição Científica do Rio São Francisco.
Fonte: Organização da Expedição
OBS.: A Pesquisadora Maristela Santana, não concluiu a Expedição por motivos de
saúde, retirando-se na manhã do dia 26, em Piaçabuçu.
Além das áreas abordadas na Expedição, também se criou uma exposição
intinerante de C&T. Em todas as cidades e nos povoados aos quais paramos, abrimos
a visitação da população. Organizamos os instrumentos de coleta, uma exposição de
fotografias e instrumentos de análise (microscópios, submarino, demais) para o público
manusear e para demonstração e explicação dos trabalhos que estávamos
desenvolvendo no rio. O número de visitantes passou de 1400 e contava com políticos,
representantes de diversas instituições públicas e, em maior número, alunos de escolas
públicas, que devido a carência ficaram maravilhados principalmente com o submarino
e óculos de realidade virtual que mostramos filmes 360 o com dinossauros e outro com
constelações estelares e satélites. Fotos dessas ações podem ser visualizadas na sessão
relatório fotográfico, anexo deste documento.
TI para monitoramento Ambiental
A participação do escritório da Região Nordeste do Centro de Tecnologia da
Informação Renato Archer (CTI-NE), iniciou com a preparação de equipamentos em
agosto de 2019. Apesar de inúmeras tentativas de ajustar o barco robótico Iracema, que
hoje se encontra inoperante, infelizmente nenhuma alternativa foi efetivada e o
equipamento não foi à Expedição 2019. Essa ação com o barco seria de grande
importância ao cumprimento de monitorar rios e lagos do país, com todos os acessórios
científicos e sua plataforma. No momento temos, no CTI-NE, um equipamento com
grande potencial científico e tecnológico, mas que necessita de ajustes para operar
satisfatoriamente e cumprir missões de monitoramento ambiental.
A participação, acordada com a coordenação da expedição, foi levar os
equipamentos separados, para tentar fazê-los funcionar, junto a profissionais da área de
engenharia elétrica e da computação para efetivar a comunicação destes.
Foram acordados os equipamentos:
O Submarino Robôtico Deep Traker® o qual faria as imagens do fundo do rio
para avaliação da existência de manchas de óleo (petróleo) e análises de
anormalidades.
As aplicações dos AUVs envolvendo oceanografia, análise com petróleo podem
ter características ambientais de mapeamento e avaliações primárias visuais de
fenômenos subaquáticos de caráter geológico, geofísico e químico. Possuem
facilidade de locomoção e percorrem espaços de difícil acesso,
operacionalizando em detecção, supervisão de pontos e missões de inspeção de
anomalias.
A Side Scan Sonar, marca StarFish®
Sonares de varredura lateral podem ser utilizados no imageamento de regiões
submersas, gerando sonogramas que são realizados a partir de feixes de energia
acústica emitidos pelo towfish (dispositivo responsável pela emissão e recepção
de pulsos), os quais, ao alcançarem o fundo aquático, retornam para o sonar. A
variação de tempo entre a emissão e a recepção do som a cada instante gera
sonogramas que são empregados na localização de estruturas naturais e
artificiais, inclusive os petrechos de pesca e manchas de óleo (petróleo).
Este estudo avaliou o uso do sonar de varredura lateral em meia profundidade
(>30 m) nas cidades que a expedição parou. Todos os materiais foram fixados
ao longo de um cabo de polietileno. O SSS utilizado foi da marca StarFish®
modelo 450F com frequência de 450khz. Os sonogramas ficaram sob a
responsabilidade do professor do IFCE, Gilberto Schwertner, convidado do
CTI-NE para essa atividade.
Sonda Multiparametrica Aqua TROLL 9500 In situ
O Aqua TROLL 900 é uma sonda multiparamétrica que combina sensores de
qualidade de água líderes da indústria com mobilidade, permitindo a capacidade
de coletar e analisar dados usando o aplicativo. Impermeável em águas
subterrâneas e resistente à corrosão em águas salinas, fornece dados
precisos. Coleta dados de Qualidade da Água como: pH, Sensor de Nível,
Oxigênio Dissolvido, Turbidez, Temperatura, Condutividade, Amônia, Cloreto,
Nitrato e mais parâmetros.
Esses equipamentos foram transportados com os pesquisadores, via solicitação à
Companhia Aérea LATAM, com justificativa de transporte de equipamento científico
para análise de manchas de óleo (Petróleo) no Rio São Francisco. A concessão foi de
três volumes, com especificações fornecidas e vinculadas a reserva da passagem da
Pesquisadora DSc. Maristela Santana.
A seleção desses equipamentos de pesquisa teve como base a necessidade de
análises prioritárias na Expedição neste momento, tendo em vista o inicio do
monitoramento do rio e da incidência de manchas de óleo na entrada da foz. Fatos esses
que se faria necessário uma inspeção apropriada destas áreas com vistas a respostas
mais urgentes por parte dos órgãos responsáveis pelas ações de remediação da situação.
Propostas de atividade de pesquisa
1. Análise de imagens de ARPs da mata ciliar do Rio São Francisco, essa ação
aconteceria junto a profissionais da CODEVASF, com equipamento dessa
instituição. Foi possível fazer três margens próximas às cidades que a expedição
parou (barco atracou) e cada área foi estabelecida com aproximadamente
1000m lineares. Porém, a CODEVASF não conseguiu levar as câmeras
multiespectrais que haviam sido acordadas, sendo as imagens capturadas com
câmeras normais (RGB), as quais permitem análises limitadas nos softwares
que dispomos.
As imagens foram encaminhadas já nos mosaicos e está em fase de procura de
um parceiro, especialista em análise desse tipo para realização das avaliações.
Porém, na configuração que foram obtidas, poucas análises poderão ser
realizadas. No intuito de enriquecer as análises, foi procurado o INPE, em
Fortaleza, CE, para ajuda com as análises e o uso NDVI para apoio com análise
de imagens. Não sendo possível, infelizmente, devido a configuração das
imagens.
Pouco foi analisado, mas foi possível verificar nas imagens as voçorocas, áreas
de plantio, bancos de areia, assoreamento, plantios, entre outras observações
agrícolas importantes para um futuro planejamento das margens do rio.
A motivação deste estudo se deu pela hipótese de que a análise da mata ciliar
por via aérea poderia agregar informações aos profissionais da área de
assoreamento e replantio. Assim, a amostragem das cinco áreas trará a
metodologia e as análises que serão necessárias para um estudo mais completo.
Os encaminhamentos para esse estudo foram: um maior contato entre a
pesquisadora e o técnico que opera o drone, João Thiago, da CODEVASF para
continuar trabalhando com as imagens já coletadas, e iniciar coleta de imagens
com câmeras multiespectrais; avaliar imagens disponibilizadas pelo INPE, para
análise desta área. Realizar trabalhos conjuntos com o INPE para agregar
análise de imagens as coletas de dados em campo.
2. Levantamento de demandas de C&T para monitoramento ambiental
Essa pesquisa foi realizada com objetivo de elencar demandas de Ciência,
Tecnologia, Inovação, Pesquisa, Articulação, Formação de Pessoal, Extensão,
Difusão e Formulação de Políticas Públicas, para viabilizar soluções
tecnológicas, monitoramento e demais ações para um ambiente como o Rio São
Francisco.
Para obter essas informações, foi realizada entrevista com os pesquisadores,
alunos e representantes institucionais que participaram, direta e indiretamente
da Expedição. Foram coletadas cerca de 40 entrevistas, com possibilidade de
ampliação.
Atualmente esse documento encontra-se em fase de análise de dados,
concomitantemente, e será apresentado um documento que fará parte do
relatório final, e será publicado no Simpósio das Bacias do Rio São Francisco
a ser realizado em Belo Horizonte, em 2020.
Desse estudo, poderá sair informações importantes para as ações do CTI-NE na
área de Tecnologia da Informação aplicada ao monitoramento ambiental
aquático. E poderá compor indicativos das necessidades futuras para um
programa de monitoramento e revitalização do rio junto às demais instituições.
3. Levantamento da percepção de (in)segurança alimentar, energética e hídrica,
dos pescadores
Este estudo teve como objetivo o levantamento de informações sobre
pescadores com fins de avaliação da (in)segurança alimentar e nutricional.
Trabalho em parceria com o IFCE e a UFAL.
Foi estabelecido o questionário padrão de EBIA, anexo a esse documento, e
adaptado para as condições da pesquisa em campo. Foi solicitado apoio a
EMATER para nos levar as associações de pescadores e demais locais de
concentração destes nas cidades que a Expedição percorreu. Foi de extrema
importância tal colaboração.
Foram 36 pescadores entrevistados nos nove dias de expedição. Número
relativamente baixo devido à falta de pessoal para realizar o papel de
entrevistador. Porém, está sendo analisado sob o contexto do Nexo águaenergia-alimentos como um ensaio, sem pretensão de esgotar ou concluir a
discussão.
Os dados serão cruzados com o do pesquisador Dr. Rafael Navas, da UFAL
para juntos aos mesmos dados coletados nas comunidades agrícolas irão
compor os artigos.
4. Publicações
Os trabalhos desenvolvidos na II Expedição Científica do Rio São Francisco
serão submetidos ao III SBHSF, Simpósio da Bacia Hidrográfica do Rio São
Francisco, que ocorrerá entre 31 de maio a 03 de junho de 2020, em Belo
Horizonte e que trás como tema: A importância da Ciência para o futuro do
Rio São Francisco, o evento objetiva congregar os seis grandes eixos que são
as metas do Plano Diretor de Recursos Hídricos do Comitê da Bacia
Hidrográfica do Rio São Francisco. São eles: Governança e mobilização social;
Qualidade de água e saneamento; Quantidade de água e usos múltiplos,
Sustentabilidade Hídrica no Semiárido; Biodiversidade e requalificação
ambiental e, por fim, Uso da terra e segurança de barragens. Os artigos terão
formato expandidos com até 8 (oito) páginas.
Estão sendo preparados os artigos científicos para revistas.
Esses documentos priorizarão discussões com embasamento teóricos desenvolvidas
no mundo sobre abordagem integrativas com os Objetivos de Desenvolvimento
Sustentáveis da Organizações da Nações Unidas (ONU) aplicados ao território do rio.
- CONCLUSÕES
Foi possível desenvolver atividades de pesquisa que envolvia Tecnologia da
Informação aplicada ao monitoramento ambiental, área que a unidade mais se
desenvolveu no Nordeste e com vistas a utilização dos equipamentos que
compõe o patrimônio depositado no CTI-NE.
A participação da unidade configurou como a única do MCTIC. Tendo em vista
que os principais equipamentos funcionaram fora da plataforma do Projeto
IRACEMA e executaram análises de inspeção de óleo. Para as atividades de
TIC, os relatórios técnicos serão entregues pelo colaborador do CTI.
Os dados e análises serão trabalhadas e publicadas em livro e no Simpósio.
Foi possível verificar a importância da área de TI em ações de monitoramento,
bem como a necessidade de desenvolvimento de plataformas para estas. A
expertise do CTI, e seu conjunto de pesquisadores, poderão contribuir
efetivamente nessas ações, que são imprescindíveis ao monitoramento
ambiental da região Nordeste devido as suas especificidades climáticas.
Essa experiência pode ser levada para outros ambientes aquáticos.
- Análise Crítica
A expedição possui boa organização e objetivos de produção de ciência, ainda
faltando a coordenação de cruzamento de dados de forma multidisciplinar e
interdisciplinar, previstas pro futuro. No momento, percebo uma necessidade de
coordenação de dados com fins de construção de visão holística da região em
estudo.
Divulgação da II Expedição na mídia
Retirados do grupo de whatapp
https://www.facebook.com/100000442357766/posts/3212073065484074/?d=n
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/12/principais-cidades-turisticasdo-brasil-tem-42-das-praias-poluidas.shtml
https://youtu.be/77PKjgZ-3YU
https://www.instagram.com/p/B6a0eenpxxR/?igshid=wdcvxsg9t820
https://globoplay.globo.com/v/8180141/programa/
https://globoplay.globo.com/v/8095573/programa/
https://radio.ufal.br/entrevista/expedicao-no-rio-sao-francisco-1
Expedição no Rio São Francisco - 1. Episódio de Rádio Ufal
https://open.spotify.com/episode/15dxK5JHSul2ZVhYpUU98s?si=nMWf2dGp
Q-6AGD-nDec-gg
https://ufal.br/ufal/noticias/2019/11/ufal-inicia-2a-expedicao-cientifica-do-riosao-francisco
https://globoplay.globo.com/v/8098635/programa/
https://globoplay.globo.com/v/8099892/programa/
https://ufal.br/ufal/noticias/2019/11/segundo-dia-de-expedicao-teve-pesquisaem-terras-assentadas-e-exposicao
https://ufal.br/ufal/noticias/2019/11/ufal-inicia-2a-expedicao-cientifica-do-riosao-francisco
https://ufal.br/ufal/noticias/2019/11/segundo-dia-de-expedicao-teve-pesquisaem-terras-assentadas-e-exposicao
https://ufal.br/ufal/noticias/2019/11/ufal-inicia-2a-expedicao-cientifica-do-riosao-francisco
https://ufal.br/ufal/noticias/2019/11/expedicao-cientifica-visita-pescadores-dorio-sao-francisco
http://www.rotadosertao.com/noticia/145631-pesquisadores-da-ufal-e-outrosprofissionais-participam-da-2a-expedicao-cientifica-no-rio-sao-francisco
https://gazetaweb.globo.com/portal/noticia/2019/11/ufal-inicia-nova-expedicaocientifica-de-dez-dias-pelo-rio-sao-francisco_90705.php
https://www.cadaminuto.com.br/noticia/349439/2019/11/18/expedicaocoordenada-pela-ufal-avalia-poluicao-do-rio-sao-francisco
https://www.portalt5.com.br/amp/noticias/270147
https://ufal.br/ufal/noticias/2019/11/expedicao-cientifica-visita-pescadores-dorio-sao-francisco
http://g1.globo.com/al/alagoas/altv-2edicao/videos/v/expedicao-cientifica-pelorio-sao-francisco-entra-no-terceiro-dia/8103774/
http://g1.globo.com/al/alagoas/altv-2edicao/videos/v/expedicao-cientifica-pelorio-sao-francisco-entra-no-terceiro-dia/8103774/
https://globoplay.globo.com/v/8107475/
https://ufal.br/ufal/noticias/2019/11/quarto-dia-de-expedicao-cientifica-no-riosao-francisco-e-marcado-por-musica-em-traipu
https://gazetaweb.globo.com/portal/noticia/2019/11/aumento-de-vazao-dexingo-impede-a-entrada-mancha-de-oleo-na-foz-do-velho-chico_91149.php
https://globoplay.globo.com/v/8114707/programa/
https://globoplay.globo.com/v/8115836/programa/
https://globoplay.globo.com/v/8116192/
https://globoplay.globo.com/v/8117668/programa/
https://ufal.br/ufal/noticias/2019/11/expedicao-cientifica-ao-rio-sao-franciscoja-recebeu-mais-de-1000-visitantes-em-uma-semana
https://ufal.br/ufal/noticias/2019/11/fim-de-semana-em-expedicao-cientifica-dorio-sao-francisco-tem-visita-da-reitora-valeria-correia
https://globoplay.globo.com/v/8116807/
https://cbhsaofrancisco.org.br/noticias/novidades/em-seu-8o-dia-o-barco-daexpedicao-cientifica-recebeu-mais-de-mil-visitantes/
https://globoplay.globo.com/v/8120918/programa/
https://globoplay.globo.com/v/8120918/
https://cbhsaofrancisco.org.br/noticias/natureza_blog/a-historia-de-jacksonlima-com-o-velho-chico/
https://www.tnh1.com.br/videos/vid/expedicao-no-rio-sao-francisco-visapreservar-o-velho-chico/
https://www.youtube.com/watch?v=hucunyGlw2A&feature=youtu.be
https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/12/02/pesquisadoresanalisam-a-qualidade-da-agua-e-dos-peixes-do-sao-francisco.ghtml
https://globoplay.globo.com/v/8134557/programa/
https://cbhsaofrancisco.org.br/noticias/novidades/coordenador-da-ii-expedicaocientifica-baixo-sao-francisco-fala-sobre-as-acoes-realizadas-nesta-edicao/
https://globoplay.globo.com/v/8149251/programa/
Referencias citadas e consultadas
CBHSF. Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. Plano de Recursos
Hídricos da Bacia Hidrográfica do rio São Francisco 2016-2025. Disponível em:
http://cbhsaofrancisco.org.br/planoderecursoshidricos/relatorios/. Consultado em
25/03/2010.
DEVEZA, A.C.P. O nexo água-energia-alimento na operação de sistemas
hidrotérmicos: estudo de caso da bacia do rio São Francisco. UFRJ/COPPE, Rio de
Janeiro, RJ. Dissertação (Mestrado em Planejamento Energético) – Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2019. 162 p.
IGBP. International Geosphere-Biosphere Programme. Segurança hídrica para um
planeta sob pressão Transição para a sustentabilidade: desafios interligados e soluções.
Disponível em: http://www3.inpe.br/igbp/arquivos/Water_FINAL. Consultado em
25/03/2020.
KEPPLE, A.W, SEGALL-CORRÊA, A.M. Conceituando e medindo segurança
alimentar e nutricional. Ciência & Saúde Coletiva, 16(1):187-199, 2011
KONRAD, M. R. Apropriação dos recursos hídricos no caso da transposição do rio São
Francisco. USP. São Paulo, SP, Brasil, 2016.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente dos Recursos Hídricos e da Amazônia
Legal. Lei n. 9.433: Política Nacional de Recursos Hídricos. Brasília: Secretaria de
Recursos Hídricos, 1997. 72p.
VASCO, A.P.; ZAKRZEVSKI, S.B.B. O estado da arte das pesquisas sobre percepção
ambiental no Brasil. Perspectiva, Erechim, v.34, n.125, p. 17-28, mar. 2010.
ANEXOS
Registro fotográfico
Foto oficial da equipe da II Expedição Científica do Rio São Francisco, Penedo, 2019
Sonar sendo preparado, junto a parceiros da UFAL, para uso no Rio.
Crianças experimentando óculos de realidade virtual, exposição de fotos e
equipamentos de laboratório.
Barco Magnífica e jangadas utilizados para expedição.
Entrevistas para avaliação de segurança alimentar com pescadores na associação e nas
comunidades.
Alunos de escola pública manuseiam o submarino robô. Equipamento sendo usado na
Foz do rio para inspeção de manchas de óleo.
Equipe da Emater que nos deu apoio nas atividades de pesquisa nas comunidades de
pescadores.
Entrevistas com pesquisadores e alunos participantes da expedição. Filmagem de
entrvistas com pescadores.
Apresentação de C&T, por pesquisadores nas escolas públicas e em tendas na margem
do rio.
Atividades de Educação ambiental. Plantio de espécies na margem do rio.
Definição das coordenadas geográficas para plano de voo do drone. Maristela, João
Thiago e Marco Ives.