E-book "O Baixo São Francisco: características ambientais e sociais", vol I

E-book resultante da III Expedição Científica do Baixo São Francisco (2020). Organizadores: Emerson Carlos Soares, José Vieira Silva e Rafael Navas. Maceió, AL: EDUFAL; 2020. ISBN: 978-65-5624-009-1.

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                    Emerson Carlos Soares
José Vieira Silva
Rafael Navas
(Organizadores)

Emerson Carlos Soares
José Vieira Silva
Rafael Navas
(Organizadores)

O BAIXO SÃO FRANCISCO:
CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E
SOCIAIS

Maceió-AL
2020

UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
Reitor
Josealdo Tonholo
Vice-reitora
Eliane Aparecida Holanda Cavalcanti
Diretor da Edufal
Elder Patrick Maia Alves

Conselho Editorial Edufal
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Revisão ortográfica, normalização, projeto gráfico(diagramação, produção de capa)
Janielly Almeida
Apoio de Produção
Agência Peixo Vivo

Catalogação na Fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecário: Marcelino de Carvalho Freitas Neto – CRB-4 - 1767
B164 O Baixo São Francisco [recurso eletrônico] : características ambientais
e sociais / Emerson Carlos Soares, José Vieira Silva, Rafael
Navas, organizadores. – Maceió, AL: EDUFAL; 2020.
401 p. : il.
E-book.
Inclui bibliografias.
ISBN: 978-65-5624-009-1
1. São Francisco, Rio. 2. Meio ambiente. 3. Expedições científicas.
I. Soares, Emerson Carlos. II. Silva, José Vieira. III. Navas, Rafael.
CDU: 910.4
Direitos desta edição reservados à Edufal - Editora da Universidade Federal de Alagoas
Av. Lourival Melo Mota, s/n - Campus A. C. Simões
CIC - Centro de Interesse Comunitário
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AGRADECIMENTOS
A equipe das Expedições Científicas do São Francisco aproveita a oportunidade
para agradecer às comunidades do Baixo São Francisco, pela receptividade e pelo apoio aos
trabalhos desenvolvidos durantes estes dois anos. Sem dúvida, este trabalho não poderia
ter sido realizado sem o apoio de: Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Comitê
da Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), Agência Peixe Vivo, Companhia de
Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF), Secretaria de
Ciência Tecnologia e Inovação (SECTI-AL), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações
(MCTI), Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Alagoas (SEMARH-AL),
Embrapa – Tabuleiros Costeiros, Universidade Federal de Sergipe (UFS), Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Universidade Estadual do Ceará (UECE), Centro
de Pesquisa Renato Archer (CTI-Renato Archer), Instituto Espanhol de Oceanografia
(Centro de Vigo- Galícia/Espanha), EMATER-AL, Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de Alagoas (FAPEAL), Elder e Fernanda da (EDUFAL), Universidade Federal do
Amazonas (Ufam), Marinha do Brasil (Agência Penedo) e prefeituras de Piranhas-AL, Pão
de Açúcar-AL, Traipu-AL e Piaçabuçu-AL.
Agradecimentos especiais à equipe do CBHSF e à Agência Peixe Vivo, nas pessoas
de Anivaldo Miranda, Maciel, Melchior Carlos, Manoel, Daniela, Ohany Vasconcelos e
Rubia Mansur. À senhora Rita (EMATER-AL), ao professor João Vicente (FAPEAL), ao
professor José Milton Barbosa (UFS), aos professores das escolas públicas na região do baixo
curso do rio, aos secretários de Meio Ambiente e Turismo dos municípios do Baixo. Aos
pescadores Márcio e José Rodrigo, integrantes da equipe de apoio, e à tripulação das barcas
A Magnífica e A Maravilhosa, nas pessoas de Gicelmo e Ancelmo. À equipe da TV Gazeta,
afiliada da Rede Globo, aos repórteres Amorim Neto e Aldo. Ao laboratório de fitopatologia
dos professores Gaus e Iraildes. Ao apoio incondicional de Ana Katarina e Marcelo, ambos
do CBHSF. Ao nosso encantado mestre do rio, senhor Jackson Borges, pela luta incansável,
por mais de 50 anos, em prol do rio São Francisco.
A todos que, direta ou indiretamente, contribuem com a causa ambiental, em especial,
na luta pelo “Velho Chico”.

“A pureza de um pingo d’água do ‘Velho Chico’, hoje,
nunca poderá ser igual a de uma lágrima tardia,
mesmo sincera”.
(Antônio Jackson Borges Lima)

SUMÁRIO
PALAVRA DO REITOR..........................................................................................07
PREFÁCIO

........................................................................................................08

PREFÁCIO

........................................................................................................10

APRESENTAÇÃO.....................................................................................................11
CAPÍTULO 1 - Assoreamento e matas ciliares no Baixo São Francisco.......................18
CAPÍTULO 2 - Salinidade da água na região............................................................45
CAPÍTULO 3 - Ocorrência de coliformes totais e Escherichia coli em diferentes pontos do
Baixo São Francisco.........................................................................55
CAPÍTULO 4 - Estuário do rio São Francisco – delineamento do perfil longitudinal e
vertical............................................................................................64
CAPÍTULO 5 - Estrutura e dinâmica do fitoplâncton do Baixo São Francisco (Alagoas e
Sergipe)...........................................................................................83
CAPÍTULO 6 - Avaliação do potencial de eutrofização e da qualidade de água no Baixo
São Francisco.................................................................................107
CAPÍTULO 7 - A ictiofauna do Baixo São Francisco................................................116
CAPÍTULO 8 - Caracterização morfológica do intestino, fígado e brânquias de peixes
do Baixo São Francisco: estudo histopatológico e histoquímico........141
CAPÍTULO 9 - Diversidade genética da ictiofauna do Baixo São Francisco............169
CAPÍTULO 10 - Níveis de mercúrio, cádmio, chumbo, zinco, cobre, cromo, ferro,
manganês e arsênio em importantes espécies de peixes do Baixo São
Francisco.......................................................................................184
CAPÍTULO 11 - Peixes como bioindicadores para o monitoramento ambiental do Baixo
São Francisco................................................................................196
CAPÍTULO 12 - Avaliação da paisagem acústica na região do Baixo São Francisco...
..................................................................................................... 213

CAPÍTULO 13 - Situação atual da pesca no Baixo São Francisco: uma análise
prospectiva...................................................................................227
CAPÍTULO 14 - Do cânion à foz: o estado da arte da pesca ao longo do Baixo São
Francisco.......................................................................................245
CAPÍTULO 15 - Aspectos higiênico-sanitários da comercialização de pescado em sete
municípios de Alagoas...................................................................262
CAPÍTULO 16 - A agricultura familiar no Baixo São Francisco: perfil socioprodutivo
e segurança alimentar...................................................................283
CAPÍTULO 17 - Segurança alimentar dos pescadores da subregião do Baixo São
Francisco: ensaio do nexo água-energia-alimentos........................306
CAPÍTULO 18 - Percepção dos pescadores sobre as mudanças no Baixo São
Francisco.......................................................................................324
CAPÍTULO 19 - Estudos sobre a saúde mental de agricultores familiares ribeirinhos
do Baixo São Francisco em Alagoas, Brasil....................................338
CAPÍTULO 20 - Meteorologia e energia fotovoltaica na ii expedição científica do Baixo
São Francisco................................................................................349
CAPÍTULO 21 - Educação ambiental em escolas ribeirinhas do Baixo São
Francisco..................................................................................... 365
SOBRE OS AUTORES ............................................................................... 390

PALAVRA DO REITOR
Em um ano marcado por tantas contingências, dificuldades e desafios científicos,
a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), por meio da Editora da Universidade Federal
de Alagoas (Edufal), brinda a comunidade acadêmica internacional, em geral, e a sociedade
alagoana, em particular, com uma grande conquista científica e editorial.
Trata-se do livro acerca das duas primeiras expedições sobre a região do Baixo
rio São Francisco, ocorridas nos anos de 2018 e 2019. O livro é resultado de dois grandes
processos que, muito oportunamente, encontraram-se. De um lado, o compromisso científico,
ambiental e institucional de um vasto conjunto de pesquisadores e pesquisadoras, pertencentes
à UFAL e a outras instituições científicas brasileiras, comprometidos com o ensino, a pesquisa
e a extensão; de outro lado, a mobilização de três instituições locais, regionais e nacionais
comprometidas com a causa ambiental, o desenvolvimento sustentável e a proteção do
patrimônio natural que compreende a região do Baixo rio São Francisco. Por meio deste
livro, a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio
São Francisco (CBHSF), a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e do
Parnaíba (CODEVASF) e o Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável
de Alagoas dão um exemplo inconteste de uma exitosa parceria institucional, marcada pela
cooperação, a transparência e a valorização do conhecimento científico.
Em nome da UFAL, parabenizo a todos/as os/as envolvidos/as, especialmente
os nossos pesquisadores/as e professores/as, que, movidos pelo compromisso com o ensino,
a pesquisa e a extensão e pelo mais nobre e mobilizador ideal de defesa do meio ambiente
e do patrimônio ambiental, entregam a Alagoas, ao Nordeste, ao Brasil e ao mundo um
denso, diversificado e rico material acadêmico e científico, que já nasce como uma referência
bibliográfica acerca dos estudos envolvendo biodiversidade, limnologia, ecologia, poluentes,
metais pesados, tecnologia do pescado, assoreamento, pesca, ictiofauna, geologia aquática,
educação ambiental, fisiologia de peixes, genotoxicidade, genética de peixes, intrusão salina,
saúde coletiva, microbiologia, histopatologia de peixes, meteorologia, tecnologia aplicada ao
semiárido, desmatamento e hidrologia.
O que o leitor e a leitora têm nas mãos ou nas telas de seus dispositivos digitais
é o resultado raro do encontro entre o conhecimento científico, a dedicação a uma causa e o
cumprimento da nossa missão institucional. Que este seja o primeiro livro de uma sucessão
de trabalhos científicos, acadêmicos e culturais resultantes das expedições ao vale do Baixo
São Francisco!

Professor Josealdo Tonholo
Reitor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

PREFÁCIO
Palavra do Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco
O imprescindível papel da Ciência

Anivaldo Miranda1*
Os seres humanos, desde os tempos imemoriais, sempre nutriram um compreensível
temor pelo desconhecido. Felizmente, isso foi sempre compensado pela irresistível curiosidade
que nos move, na maioria das vezes, por razões de ordem prática ou simplesmente de
satisfação intelectual ou, ainda, impulsos de criatividade. O certo é que, fruto desse processo
contraditório, a ciência evoluiu e tornou-se uma insubstituível ferramenta na produção e
reprodução das condições de existência da vida humana.
Ocorre que isso nem sempre é compreendido em seu alcance maior pelo conjunto
da população e de suas instituições. Seja pelo velho temor ao que não se conhece ou pela
inércia do conservadorismo, que é também uma característica do nosso comportamento, o
fato é que a ciência, muitas vezes, é relegada a um segundo plano, quando não demonizada
ali onde persiste a ignorância.
No Brasil, país onde a ciência, historicamente, ainda não conseguiu ocupar o grau
de prioridade necessário para quem almeja um futuro de bem-estar e desenvolvimento
sustentável avançado, ainda será preciso travar uma grande batalha cultural para mudar atitudes
no conjunto da sociedade, aqui compreendidos o povo e os poderes públicos, na direção de
um esforço contínuo em defesa da ciência e de investimentos significativos na produção de
conhecimentos em escala muito maior do que aquilo que se faz atualmente.
Compreendendo esse contexto, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
(CBHSF) procura priorizar cada vez mais a promoção de estudos e projetos de pesquisas
essenciais para que a gestão dos recursos hídricos nos domínios do Velho Chico e de seus
afluentes faça-se sustentada pela mais ampla gama de dados e análises, robustos o bastante
para influenciar políticas, ações, obras e intervenções cada vez mais eficientes, seja com
recursos apenas do próprio CBHSF, seja através de parcerias formadas para chegar a objetivos
comuns de maior alcance.
Aliás, como os recursos do CBHSF são de escala modesta, confrontados com o
tamanho dos desafios que sua bacia hidrográfica apresenta, seus projetos procuram, sempre
que possível, resolver problemas concretos, mas também guardar um caráter demonstrativo
capaz de facilitar aquilo que é o objetivo maior nesse sentido, ou seja, replicar esses projetos
através de parcerias cada vez mais amplas e capazes de mobilizar recursos cada vez maiores, de
forma a tirar do papel as grandes metas do Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica
do Rio São Francisco.
Expedições científicas, portanto, já fazem parte da política de apoios que o Comitê
executa em todas as regiões fisiográficas do Velho Chico e de seus afluentes. Mas é preciso
dizer que, pela sua inventividade e resultados práticos, as expedições científicas realizadas no
Anivaldo Miranda é jornalista, mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e presidente
reeleito do CBHSF.
1*

Baixo São Francisco, sob a coordenação da Universidade Federal de Alagoas e participação de
várias instituições de peso, representam um marco, pela gama de resultados que proporcionam
e que, de longe, justificam o apoio financeiro e institucional do Comitê, que saberá fazer da
presente publicação o melhor uso possível, na busca incessante pela melhoria da qualidade
e da quantidade das águas franciscanas.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

9

PREFÁCIO
Palavra da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do
Parnaíba
A CODEVASF, as expedições e o São Francisco

Ricardo Alexandre Lisboa Vieira2*
A CODEVASF como conhecemos hoje foi criada em 16 de julho de 1974, com o
objetivo de desenvolver o Vale do Rio São Francisco. Desde sua fundação, vem aplicando
esforços para trazer o desenvolvimento, em todas as suas formas, para sua área de atuação. O
sucesso de sua trajetória pode ser avaliado na contínua expansão de sua área de atuação, que
iniciou, em 2000, com a inclusão da bacia do rio Parnaíba. Esse tipo de ampliação vem sendo
realizada sucessivamente ao longo dos anos, o que fez sua área de atuação mais que duplicar
na última década, e ainda há projetos em tramitação no Congresso Nacional para novas áreas.
Com esse ganho de atribuição, podemos imaginar que o rio São Francisco deixou
de ser o centro de gravidade da empresa. Muito pelo contrário: enquanto a CODEVASF
diligencia esforços para replicar tudo o que funcionou no São Francisco, nas novas bacias
hidrográficas atendidas, vem catalogando demandas e estudando problemas ainda presentes
na bacia do São Francisco, para que possa propor políticas e ações de desenvolvimento
econômico sustentável.
É com essa visão de vanguarda que a CODEVASF aposta na Expedição do São
Francisco como uma oportunidade ímpar de ampliar seus conhecimentos e descobrir novas
oportunidades de desenvolvimento nunca antes prospectadas, trazendo luz sobre horizontes
desconhecidos.
Este livro é um feito de ciência, mas repleto de ousadia, coragem e abnegação de
todos os que participaram deste trabalho.

2*

Superintendente Regional da CODEVASF. 5ª Superintendência Regional Alagoas.

APRESENTAÇÃO
O Rio São Francisco, o baixo curso e as expedições científicas
Emerson Carlos Soares3
José Vieira Silva4
Rafael Navas5

A Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (BHRSF) abrange aproximadamente 640
mil km2 e 2.800 km de extensão, compreendendo os Estados de Minas Gerais, Goiás, Distrito
Federal, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Está dividida em quatro unidades fisiográficas:
Alto, Médio, Submédio e Baixo São Francisco; estando a sua foz e a planície fluviomarinha
localizadas nessa região, que divide os Estados de Alagoas e Sergipe (MEDEIROS et al.,
2014).
O São Francisco é estratégico para o Nordeste, pois responde por 70% da disponibilidade
hídrica superficial na região. Possui vazão média de 2.900 m3/s, que se enquadra na tipologia
de rio de médio a grande porte; apresenta relevância ecológica, econômica e social, sendo
utilizado para a geração de energia elétrica, irrigação, navegação, abastecimento de água,
aquicultura e pesca. Seu uso intensivo por vários tipos de atividades antrópicas resultou em
diversos impactos ambientais, que geraram algumas políticas públicas relacionadas à sua
revitalização e preservação, entretanto, aquém de alcançar os efeitos desejados (MEDEIROS
et al., 2015; CASTRO; PEREIRA, 2019).
Para efeito de modificação na hidrologia do rio São Francisco e seus efeitos para a biota
aquática, as represas instaladas em seu curso geram praticamente 100% da energia utilizada
no Nordeste. Por outro lado, essas estruturas trazem profundos impactos ambientais e sociais,
com alteração do sistema lótico para lêntico, resultando no processo de deterioração do rio.
O Baixo São Francisco (BSF) é uma das regiões mais conflitantes do Nordeste, devido
a localizar-se em ambiente árido, onde a água é a principal força motriz das comunidades
rurais. Assim, fatores ligados a pesca e aquicultura, geração de energia elétrica, poluição oriunda
dos esgotos das cidades, assoreamento, uso de agrotóxicos em culturas às margens do rio,
desmatamento da vegetação marginal, avanço da cunha salina, alterações de vazão, endemismo
de espécies, dentre outras atividades, refletem diretamente na vida social, econômica e
ambiental dessa mesorregião que compreende os Estados de Sergipe e Alagoas, cobrindo
uma área de 25.500 quilômetros quadrados, onde vive uma população de cerca de 1,5 milhão
de habitantes, dos quais 440.000 residem em áreas ao longo do rio São Francisco. O BSF
apresenta os piores indicadores socioeconômicos, com um PIB de 9% do PIB da bacia inteira
e os Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios classificados como médios
(entre 0,600 e 0,699), como Japaratuba e Propriá, no Estado de Sergipe, Arapiraca e Penedo
em Alagoas.
Professor Associado, Campus de Engenharias e de Ciências Agrárias (CECA), Laboratório de Aquicultura e
Análise de Água (Laqua), Universidade Federal de Alagoas. E-mail: soaemerson@gmail.com.
4
Professor Associado e Coordenador-Geral do CRAD/Ufal – Campus Arapiraca. E-mail: jovisi@yahoo.com.
br.
5
Professor Adjunto, Campus de Engenharias e de Ciências Agrárias (CECA), Universidade Federal de Alagoas.
E-mail: rafael.navas@ceca.ufal.br.
3

Os outros 11 municípios são classificados com o IDH baixo (0,5 a 0,599) a muito
baixo (menos de 0,499). Apesar da proximidade com a maior fonte de água superficial na
região Nordeste, apenas 78% da população dos municípios de Alagoas tem acesso a água para
beber, enquanto em Sergipe esse número é de 91%. Segundo dados do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE), em cerca de 50% dos municípios ribeirinhos, a renda per
capita da população não ultrapassa R$ 140,00, caracterizando-se dentro da “linha de pobreza”.
Os municípios localizados no entorno do Baixo São Francisco produzem,
principalmente, cana-de-açúcar (34.000 ha) e arroz (1.590 ha) (INSTITUTO BRASILEIRO
DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2014). Por outro lado, Nascimento e Oliveira (2016)
observaram que as áreas dedicadas às pastagens predominaram, com cerca de 58,37% do total,
enquanto a classe agrícola ocupa 15,77%. Quanto à vegetação nativa, a área corresponde a
10,96%, sendo dispersa por toda a região, em pequenos fragmentos, e concentrada na bacia do
rio Moxotó. Sabe-se que parte dessas culturas utilizam pesticidas como base para o manejo;
entretanto, não existem informações a respeito dos principais princípios ativos utilizados e
dos impactos na qualidade da água e suas consequências para a vida aquática.
O regime de vazões do rio São Francisco, nessa região, é regido pelos reservatórios
localizados nas partes mais altas da bacia, como as barragens de Sobradinho, Itaparica e Xingó,
cujas afluências foram reduzidas nos últimos anos, devido ao uso inadequado da terra, com
redução da produção de água na bacia e aumento da erosão do solo, bem como sucessivos
períodos de seca (COMPANHIA HIDRELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO, 2017).
Como consequência, há uma redução gradual dos fluxos mínimos no rio, com impactos
significativos, dentre os quais o avanço da cunha salina na região da foz.
O avanço da cunha salina sobre o rio trouxe impactos significativos para os ecossistemas
e para a população local, com provável aumento da concentração de poluentes, interferência
negativa em atividades econômicas, como a pesca e a rizicultura, e pode inviabilizar, em último
caso, a utilização das águas para fins de abastecimento humano. Possivelmente, os efeitos
dessa salinização estão promovendo alterações na biota local, com aumento da competição
entre espécies, diminuição dos estoques pesqueiros, desaparecimento de algumas espécies de
peixes e crustáceos e o surgimento de outros efeitos a ambientes salinizados (SOARES et
al., 2011; MEDEIROS et al., 2016; BARBOSA; SOARES, 2011; BARBOSA et al., 2017;
BARBOSA et al., 2018; SOARES et al., 2020).
Associada a essa questão, a menor capacidade depurativa do rio, resultado de
vazões mais baixas ao longo de períodos mais longos, contribui significativamente para a
manutenção de poluentes em concentrações prejudiciais à biota, consumo e irrigação de
culturas (MEDEIROS et al., 2016). Para se ter uma ideia, a vazão do rio São Francisco
foi reduzida drasticamente nos últimos anos, de 1.300 m³/s, em 2012, para 550 m³/s em
2017 (Resolução ANA no 1.291/2017). Como efeito imediato, foi detectado o aumento da
salinidade na foz do São Francisco, onde Santana et al. (2017) observaram concentração
média de salinidade entre 0,17‰ e 28,87‰. Em 2018, Soares et al. (2020) constataram que
a intrusão salina encontrava-se a 16 km do estuário onde as águas superficiais e do fundo
foram classificadas como água salobra (com salinidade acima de 0,5‰ e abaixo de 30‰).
Esse cenário tem mostrado sinais de piora nos últimos anos e pode ser acelerado à
exploração excessiva de recursos naturais, como a remoção de mata ciliar em rios tributários
e o baixo nível de tratamento de esgoto urbano nos municípios da região, com impactos
agravados pela ocorrência de longos períodos de seca, levando a decisões gerenciais que não

12

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

promoveram adequadamente os usos múltiplos da água do rio (CUNHA, 2015). A supressão
da vegetação nas margens do rio contribui para o aumento do assoreamento e de processos
erosivos do solo, influenciando na diminuição de organismos, por serem importantes redutos
de biodiversidade e indicadores de preservação ambiental (CHABARIBERY et al., 2008;
APARECIDO et al., 2016).
No Estado de Alagoas, ao longo dos tempos, as áreas de caatinga têm sido negligenciadas
do ponto de vista ambiental, de forma que a devastação atinge proporções alarmantes. Esse
fato agrava-se, devido ao elevado grau de degradação nas áreas de preservação permanentes
(APPs), tanto dos afluentes como do próprio rio São Francisco.
A construção de barragens e estradas e a expansão urbana e da agropecuária
provocaram uma redução severa da vegetação ciliar do rio São Francisco e seus afluentes,
apresentando, hoje, uma fisionomia bastante modificada. Face à severa supressão, muitas
espécies nativas estão extintas e, na grande maioria dos ambientes ciliares remanescentes, não
há resiliência que permita à vegetação se restabelecer por mecanismos naturais de regeneração.
Em decorrência da ausência de vegetação e da redução da vazão do rio, em consequência
das secas na bacia, verifica-se um acelerado processo de erosão das margens do rio. Isso traz
como consequências imediatas o assoreamento do leito principal, com perdas de recursos da
flora e da fauna locais, redução dos pescados, redução das terras produtivas e empobrecimento
das comunidades que residem às margens do rio.
Já a atividade da pesca do Baixo São Francisco tem acompanhado as mudanças no
regime hidrológico do rio e, devido às alterações causadas pelas barragens e hidroelétricas,
estas contribuíram para a redução das áreas de captura e destruição de habitats, como as
lagoas marginais, consideradas berçários de muitas espécies aquáticas, e, conjuntamente
com métodos de capturas não permitidos, vêm ocasionando o declínio da biodiversidade de
organismos aquáticos (LORENÇO, 2016; SOARES et al., 2020).
Dados do início da década de 2010 indicavam a curimatã pacu Prochilodus argenteus
(Characiformes, Prochilodontidae) e o piau Megaleporinus obtusidens (Anostomidae,
Characiformes) como espécies mais abundantes (BARBOSA; SOARES, 2009; SOARES
et al., 2011); entretanto, relatos de pescadores locais sugerem que, desde 2015, essas populações
vêm declinando e esses indivíduos que, juntos, chegaram a representar cerca de 55% das
capturas na microrregião de Penedo, possivelmente não estejam entre as cinco principais
espécies comercializadas (SOARES et al., 2011; BARBOSA et al., 2017).
Tratando-se de outras atividades agropecuárias na região, verifica-se uma diminuição
da capacidade produtiva dos setores econômicos que dependem da flutuação dos níveis de água
para o seu desenvolvimento adequado, como o cultivo de arroz e a piscicultura, por exemplo;
e, logicamente, uma diminuição nos índices de desenvolvimento humano da população da
região (CUNHA, 2015). Contudo, a rizicultura vem sendo substituída gradativamente, nos
últimos anos, pela carcinicultura, utilizando os mesmos viveiros antes usados no cultivo de
arroz, com pequenas obras de adequação, reforço dos taludes e adequação das comportas de
abastecimento d’água (BARBOSA et al., 2018).

O programa das expedições científicas do São Francisco

O programa surgiu com o pretexto de bioprospectar, conhecer e divulgar a situação
do Baixo São Francisco quanto aos aspectos sociais das comunidades ribeirinhas, comunidade
de pescadores, situação da pesca, identificar os impactos e a qualidade da água do rio, a
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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ictiofauna, problemas ocasionados pelo represamento, assoreamento, desmatamento, avaliar
os poluentes presentes no ambiente aquático e o uso de agrotóxicos, os efeitos da cunha
salina sobre as comunidades ribeirinhas e o ambiente e propor ações mitigadoras, através de
programas de educação ambiental.
O intuito do projeto é alavancar, na região, uma nova atividade participativa, por
intermédio do conhecimento, através do monitoramento dos principais indicadores sociais,
econômicos e dos impactos ambientais, assegurando a qualidade e a segurança alimentar.
Tem o enfoque de chamar a atenção para a situação do rio e seus problemas e divulgar para
os principais órgãos de fomento e governantes, propondo ações para mitigar os impactos e
a degradação da qualidade ambiental.
Avaliando a necessidade de gerar políticas públicas embasadas em dados científicos,
as expedições científicas propõem a elaboração de grande diagnóstico participativo e
multidisciplinar sobre a situação econômica, social e ambiental da região do Baixo São
Francisco, avaliando os impactos da pesca, poluição aquática, desmatamento e assoreamento,
patologias e parasitologia de peixes e crustáceos e índices de metais pesados e pesticidas e
sua influência na qualidade do pescado, determinando o perfil socioeconômico e a situação
da saúde das populações ribeirinhas, adotando medidas de educação ambiental efetivas e
qualificando o efeito das diversas culturas intensivas sobre a qualidade de água, para, com
isso, efetivar um programa de biomonitoramento ambiental da calha principal do rio São
Francisco, utilizando tecnologias de ponta para a determinação de um padrão ambiental, com
o intuito de propor ações mitigadoras para os ecossistemas existentes na região de estudo.
As Expedições Científicas no Baixo São Francisco iniciaram em 2018, quando,
durante cinco dias, cerca de 40 pesquisadores trabalharam em várias temáticas, como:
educação ambiental, pesca, socioeconomia, ictiofauna, análise de água e de metais pesados,
assoreamento, dentre outras, em cinco municípios do Baixo São Francisco (Traipu, Porto Real
do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu), culminando na publicação de um diagnóstico
referente a 2018 e, em junho de 2019, a publicação de um artigo científico sobre os dados
desta primeira edição.
Em 2019, foi realizada a II Expedição Científica, com 50 pesquisadores e técnicos
de 16 instituições que, durante 10 dias, trabalharam nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Propriá, Igreja Nova, Penedo, Neopólis, Piaçabuçu e
foz do São Francisco (Figura 1). Essa expedição teve por objetivo principal estudar todo o
Baixo São Francisco, coletando informações e dados, para, de posse dos resultados, propor
ações para mitigar os problemas no rio.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 1 - Municípios onde foram realizadas coletas nos anos de 2018 e 2019: PiranhasAL, Pão de Açúcar-AL, Traipu-AL, Porto Real do Colégio-AL, Propriá-SE,
Igreja Nova-AL, Penedo-AL, Neopólis-SE e Piaçabuçu-AL.

Fonte: Marcus Cruz (2020).

Dessa forma, esta obra reúne informações de mais de 10 anos de monitoramento
no Baixo São Francisco, com o reforço de dois anos de expedições científicas. São análises
in loco e laboratoriais, oriundas de esforços, fomento, apoio e ações de instituições como a
Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Comitê de Bacia Hidrográfica do São Francisco
(CBHSF), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL), Embrapa
– Tabuleiros Costeiros, Universidade Federal de Sergipe (UFS), EMATER-AL, Secretaria
de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI-AL), Secretaria de Meio Ambiente e Recursos
Hídricos de Alagoas (SEMARH-AL), Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE),
Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Instituto de Pesquisa Renato Archer, Instituto
Oceanográfico de Vigo (Espanha), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI),
Marinha do Brasil e Instituto Federal do Ceará (IFCE).

REFERÊNCIAS
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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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16

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

SILTATION AND CILIARY FORESTS IN THE
LOWER SÃO FRANCISCO
José Vieira Silva

Anderson dos Santos
Siltation and the suppression of ciliary forests in the Lower São Francisco are
problems that have been potentiated by the process of flow regularization and aggravated by
water reduction volumes poured at the hydroelectric plant of Xingó, in Piranhas, AL. This
chapter describes the São Francisco Hydrographic Basin and its peculiarities regarding the
division and production of water and sediments. It analyses the origin of sediments in the
Old Chico watershed, their deposition, and silting problems originated in the São Francisco
as a whole. The ciliary forests’ importance and conditions in the LSF, the perception of
environmental problems by the riverine population, the basin land occupation, and silting
in the LSF were addressed. The LSF sediments were analyzed, and the discussion of the
possibility of controlled extraction of sand from the margins and sediment banks was raised.
The situation of environmental degradation due to anthropogenic causes throughout
the São Francisco River is a concern due to the public administration’s lack of effective
mitigating actions. Furthermore, it is also possible to observe that there have been natural
changes in the water regime, intensifying the system flow regularization consequences in
the basin. It is urgent to consider alternatives in future plans to attenuate, supplant, or even
mitigate the Old Chico’s main problems, especially concerning siltation and water pollution.
It is salutary and recommended that the Lower San Francisco public agents act forcefully to
reverse other significant problems encountered, in addition to siltation and water pollution,
such as the occurrence of a saline wedge, the recomposition of ciliary forests and vegetation
cover of the basin, and the recovery of springs and tributary paths. There are alternative
projects to increase and regularize the volume of water in the Old Chico basin, such as water
diversion from the Tocantins Basin and the construction of new large dams in the largest
tributaries of the Upper and Middle São Francisco. Also, environmental education actions
and severe interventions are needed to contain siltation and increase bed volume to ensure
navigation conditions and environmental balance.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

17

CAPÍTULO 1
ASSOREAMENTO E MATAS CILIARES NO BAIXO
SÃO FRANCISCO
José Vieira Silva6

Anderson dos Santos7
INTRODUÇÃO
O transporte de sedimentos em águas fluviais é um processo natural que ocorre
no mundo todo e é variável, de acordo com cada cenário estudado. De maneira geral, esses
sedimentos são resultantes dos processos erosivos naturais e dos manejos antrópicos realizados
dentro das bacias hidrográficas. Dada a variabilidade de tamanho, o peso e a densidade dos
sedimentos, estes vão sendo depositados nos leitos de corpos e cursos hídricos, de forma natural,
e acabam por provocar o assoreamento (CARVALHO et al., 2000a; IMESON; CURFS, 2012;
BARBOSA; PINTO; CASTRO, 2014; COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO
DOS VALES DO SÃO FRANCISCO E DO PARNAÍBA, 2014).
O assoreamento dos corpos e cursos hídricos é um processo resultante diretamente
da erosão geológica e do manejo dos solos das bacias hidrográficas. Isso tem preocupado
gestores, comunidades ribeirinhas e entornos que dependem destas águas. O tema reveste-se
de extrema importância, devido ao uso destas águas, que é o mais diverso possível, uma vez
que elas servem como vias de deslocamentos/navegação, recreação, dessedentação humana
e de animais, alimentação e serviços ambientais, no caso das bacias hidrográficas que
têm construções de barragens de contenção, para diferentes finalidades (CABRAL, 2005;
HOLANDA et al., 2011; COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS VALES
DO SÃO FRANCISCO E DO PARNAÍBA, 2014).
O Brasil, dada a sua extensão territorial e os inúmeros rios perenes e temporários,
grandes e pequenos, tem um histórico de poucos levantamentos científicos e estudos técnicos
e permanentes sobre as ocorrências de assoreamento, bem como das causas e dos problemas
decorridos deste (COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS VALES DO SÃO
FRANCISCO E DO PARNAÍBA,, 2014). Aliado a isso, ressalta-se, também, que são
escassos e limitados os estudos sobre a importância das matas ciliares para a preservação
das margens destes corpos e cursos hídricos maiores, como também das suas nascentes
(CARVALHO et al., 2000b; MARTINS, 2007).
Estudos e levantamentos como os realizados durante as expedições científicas no
Baixo São Francisco (BSF), ocorridas nos anos de 2018 e 2019, são fundamentais para o
entendimento da dinâmica do rio (SOARES et al., 2020). É importante entender a dinâmica
natural das águas, para que se possa superar os problemas decorrentes das atividades antrópicas
e variações climáticas sazonais, como a redução da intensidade de chuvas e do volume caudal
do rio. Vazão essa que, no BSF, devido ao sistema de regularização de vazões e contenção​
6
7

Professor Associado e Coordenador-Geral do Crad/Ufal – Campus Arapiraca.
Engenheiro Agrônomo, M.Sc. em Agricultura e Ambiente. Doutorando da UFRPE.

de cheias, gerido pela CHESF, tem sofrido grandes reduções, principalmente nas duas
últimas décadas (COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS VALES DO SÃO
FRANCISCO E DO PARNAÍBA, 2014; CASTRO; PEREIRA, 2017).

A Bacia Hidrográfica do São Francisco
Dos grandes rios do Brasil, com 100% da bacia hidrográfica no território nacional, o
São Francisco é o que apresenta os maiores desafios e problemas de preservação, conservação
e proteção do seu manancial ao longo de todo o seu percurso, da nascente à foz. O Velho
Chico, ao longo dos seus quase 2.800 km de extensão, mais de 500 municípios e com uma
bacia hidrográfica de cerca de 640 mil km2, recebe uma carga gigantesca de todos os tipos
de materiais e sedimentos, de diferentes origens e natureza. Essa carga toda de sedimentos
e materiais tem sido dispersada e depositada ao longo da calha principal do rio e de seus
reservatórios de barramento, sem que se tenha a real dimensão dos impactos ambientais e
humanos causados (POPP, 1988; SILVA; SCHULZ; CAMARGO, 2004; BRASIL, 2006;
COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS VALES DO SÃO FRANCISCO
E DO PARNAÍBA, 2014).
No caso do rio São Francisco, sua bacia contempla fragmentos de vários biomas, com
maior predominância do cerrado e caatinga, que Cobrem grande parte dos Estados de Minas
Gerais e da Bahia. Nesses dois biomas, as condições climáticas e os relevos são mais adversos
e severos e impactam de forma decisiva nos processos de erosão e produção de sedimentos
que chegam até a calha do rio. Há, ainda, um pequeno percentual de área de Mata Atlântica,
Tabuleiros Costeiros e Insulares. A área da Mata Atlântica, devastada pelo uso agrícola e pelas
pastagens, ocorre no Alto São Francisco, principalmente nas cabeceiras. Margeando os rios,
onde a umidade é mais elevada, observam-se regiões de Mata Seca (LOU; COSTA, 1994;
CARVALHO et al., 2000b; RAMOS; PEDROZA, 2014; CASTRO; PEREIRA, 2017).
No período compreendido de 2012 a 2019, o BSF teve as menores vazões caudais
da sua história, sendo a vazão instantânea mais crítica observada no ano de 2019, com 523
m3/s. Em termos ambientais, muito provavelmente, este é o período mais crítico de todos, ao
longo de toda a história recente do Velho Chico, desde seu descobrimento (COMPANHIA
HIDRELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO, 2019; SILVA; VIEIRA; RIAL, 2020).
Isso levou ao agravamento de problemas, como a intrusão ou cunha salina na foz do rio
(CAVALCANTE et al., 2020), juntamente com o elevado grau de erosão das margens e de
assoreamento da sua calha principal, formação de novas ilhas, redução da qualidade de água
e danos à fauna piscosa do rio (Figura 2) (SILVA; VIEIRA; RIAL, 2020).
A redução das vazões impacta diretamente na dinâmica das águas e altera
substancialmente o transporte de sedimentos de todas as origens e tipos. Associado ao
desmatamento, esse quadro pode se agravar, em função da retirada da cobertura vegetal nativa
e de um solo estruturalmente frágil, e o consequente arraste e transporte de sedimentos para
o leito principal dos afluentes e a calha principal do Velho Chico (MATIAS et al., 2020;
SILVA; VIEIRA; RIAL, 2020).
Os dados de vazões, com todas as suas variações, são extremamente importantes e
usados nos modelos matemáticos para fazer as predições de assoreamento de lagos, barragens e
do próprio rio. São vários os fatores considerados e que levam à formação de ilhas e depósitos
de areia no leito, dentre eles a diminuição de suas vazões, processos erosivos em suas margens,
a devastação de suas matas ciliares, o declínio de seus rios afluentes, a superexploração dos
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

19

aquíferos que garantem o seu escoamento de base nos períodos secos e assim por diante
(BRASIL, 2006; COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS VALES DO SÃO
FRANCISCO E DO PARNAÍBA, 2014; COMPANHIA HIDRELÉTRICA DO SÃO
FRANCISCO, 2019). E todos esses fatores estão, hoje, presentes e se agravaram no São
Francisco, principalmente no BSF. Além disso, quando as chuvas finalmente chegam, ainda
carregam excesso de sedimentos e outros materiais, fenômeno típico de qualquer bacia
hidrográfica degradada.
Figura 2 - Assoreamento e formações de ilhas na calha principal do rio no BSF, em 2018,
quando a vazão nominal na Hidroelétrica de Xingó chegou a 550 m3/s.
A – Estrutura temporária de lazer na calha principal do rio; B – Barracas
improvisadas para abrigar pescadores nas ilhas formadas; C e D – Vegetação e
banco de areia na calha assoreada.
A

B

C

D

Fonte: José Vieira Silva (2018)

A origem dos sedimentos do Velho Chico
As produções de água e de sedimentos na Bacia do São Francisco estão concentradas
nas cabeceiras do rio e seus principais afluentes nas regiões do Alto e Médio São Francisco,
onde o relevo é mais montanhoso e com maiores declividades. E é justamente nessas
duas regiões da BHSF onde ocorrem os maiores níveis de atividades relacionadas com
agropecuária, mineração, indústrias e construção civil. A ação antrópica nas diferentes áreas
da BHSF desencadeia uma série de outras consequências, em efeito cascata. Juntamente com
o desmatamento e o manejo inadequado dos solos da bacia toda, principalmente nas áreas
degradadas já estabelecidas, as áreas onde são desenvolvidas essas atividades constituem-se
como as principais fontes de origens dos sedimentos (ANDRADE, 2002; HOLANDA
et al., 2011; COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS VALES DO SÃO
FRANCISCO E DO PARNAÍBA, 2014).

20

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Como exemplo, a taxa de erosão e a produção de sedimentos levam em consideração
os dados relativos a tipos de solos, uso e ocupação de terrenos, topografia (declividade), clima
(volume de chuva, temperatura, umidade relativa, radiação solar e vento) e vazão dos rios da
bacia. Dessa forma, é preciso fazer uma análise mais complexa para se compreender a real
situação dos diferentes cenários pelos quais passam o Velho Chico (ANDRADE, 2002;
HOLANDA et al., 2011).
De acordo com estudo realizado pela CODEVASF e pelo Exército dos Estados
Unidos (USACE), o leito do rio recebe, por ano, nada menos do que 23 milhões de toneladas
de sedimentos. E essa produção de sedimentos é muito maior nas regiões do Alto e Médio,
que compreende a bacia hidrográfica nos Estados de Minas Gerais e da Bahia. Destes dois
Estados, brotam 90% das águas da bacia e, consequentemente, a maior carga de sedimentos
lançados na calha do Velho Chico. Essa produção de sedimentos deve-se, basicamente, ao
tipo de relevo mais íngreme e também aos processos antrópicos de desmatamento, mineração,
agricultura e outras atividades correlatas (COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO
DOS VALES DO SÃO FRANCISCO E DO PARNAÍBA, 2014).
Após a construção das barragens e hidroelétricas no São Francisco, para produção de
energia e regularização das vazões, o volume caudal no BSF foi reduzido drasticamente. Essa
redução das águas produziu, concomitantemente, uma baixa taxa de transporte e de carga
de sedimentos que chegam até o oceano, estimada em 2,62 x 105 toneladas/ano (SILVA;
MEDEIROS; VIANA, 2010). Mesmo ainda sendo uma carga considerável de sedimentos,
essa pode ser considerada baixa quando comparada com outros rios do mundo, de porte
similar, ou mesmo com as estimativas para o Velho Chico de antes da regularização de vazões.
Portanto, as vazões do São Francisco acabaram perdendo a variabilidade sazonal
e interanual e isso implicou na diminuição do aporte de material em suspensão. Essa
variabilidade sazonal depende da pluviosidade da bacia, que tem uma média anual histórica de
1.036 mm, sendo que os valores mais altos de precipitação, da ordem de 1.400 mm, ocorrem
na região das nascentes do rio em Minas Gerais, e os mais baixos, cerca de 350 mm, entre
os municípios de Sento Sé e Paulo Afonso, na Bahia (COMPANHIA HIDRELÉTRICA
DO SÃO FRANCISCO, 2020).
De acordo com a CODEVASF (2014), verificar e descobrir a origem do maior aporte
de sedimentos no sistema é extremamente importante para o planejamento das políticas
públicas. No contexto ambiental, essas informações ajudam no desenvolvimento de ações que
visem à redução dos impactos destes sedimentos em toda a BHSF. Através da parceria com
o USACE, descobriu-se que a origem e o aporte maiores de sedimentos são provenientes
das áreas produtivas, mais íngremes e distantes da calha principal, nas regiões do Alto e do
Médio São Francisco. Em outras palavras, nestas regiões, os afluentes contribuem de maneira
proporcional ao aporte de água, carregando 23 milhões de toneladas por ano de sedimentos
para o canal principal do São Francisco. Constatou-se, ainda, que uma pequena fração desses
sedimentos (<<10%) foi oriunda ou resultante do processo de desmoronamento ou erosão
de margens do São Francisco e de seus afluentes/tributários.
Nas regiões com maiores níveis de desmatamento e de precipitação pluviométrica,
as taxas de erosão, arraste, deposição e carregamento de partículas sólidas também foram
maiores. Isso resulta no assoreamento mais intenso dos corpos e cursos hídricos, com a
formação dos bancos de sedimentos, permanentes (ilhotas e ilhas vegetadas) e/ou temporários.
A mineralogia e a granulometria desses sedimentos indicam a hidrodinâmica do sistema e

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

21

das condições ambientais de deposição. Também são fatores importantes para o controle da
distribuição natural dos diferentes tipos de sedimentos (ANDRADE; FELCHAK, 2009).
Além disso, há também o aumento da erosão marginal e o arraste destes sedimentos
para a calha principal do rio, provocando assoreamento e formando novos bancos de areia
e ilhas que também impactam na biota aquática (SILVA; VIEIRA; RIAL, 2020). O efeito
de “águas esfomeadas” consiste numa intensa abrasão no leito e também nas margens do rio
desprotegidas pela ausência de matas ciliares e por uma vazão constante vertida, independente
do volume (Figura 3). Estas águas em menor volume, velocidade e força de arraste carregam
somente sedimentos finos e leves, e quase nada de sedimentos mais grossos e pesados. E,
por outro lado, a vazão constante maior ou superior ao regime natural também provoca
erosão e desestabilização das barrancas e dos leitos dos rios e afluentes e é responsável pelo
assoreamento à jusante (ANDRADE, 2002; HOLANDA et al., 2011).
Figura 3 - Ocorrências de erosão hídrica nas margens do rio São Francisco, no trecho entre
Traipu e Porto Real do Colégio-AL. Detalhes dos perfis de erosão com ênfase
para o padrão das camadas de deposição de sedimentos ao longo do tempo.
A

B

C

D

Fonte: José Vieira Silva (2018)

Em 2002, em estudo realizado pela própria CODEVASF, em parceria com a
Agência Nacional de Águas, cerca de 80% dos trechos do São Francisco que foram avaliados
apresentaram assoreamento. No BSF, com as reduções das vazões no período compreendido
entre 2012 e 2019, esse cenário só se tornou mais crítico. Porém, no ano de 2020, o BSF
voltou a receber, momentaneamente, um volume maior de águas e vazões superiores a 1.000
m3/s, o que, de certa forma, atenuou todos esses problemas.

Deposição de sedimentos e assoreamento do São Francisco

O assoreamento de rios, lagos, barragens e outros corpos hídricos é uma ocorrência
natural, verificada no mundo todo. Decorre basicamente do arraste ou carreamento de

22

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

partículas minerais e orgânicas, oriundas de diferentes origens e locais, situadas dentro das
bacias hidrográficas destes corpos e cursos hídricos, para acúmulo no seu leito principal. Em
termos geológicos, os sedimentos encontrados nos leitos de rios e cursos d’água são detritos
rochosos resultantes dos processos naturais de erosão e intemperização física, química e
biológica. E, conforme suas características, esses sedimentos são classificados quanto à
composição química e mineral do material de origem, diversidade granulométrica, textura e
grau de arredondamento ou desgaste e trabalho ou plano de fissura (FILIZOLA et al., 2006;
QUEIROZ et al., 2011; CRUZ et al., 2013).
Uma vez no leito dos rios e cursos d’água, essas partículas sólidas são transportadas
a distâncias variadas, podendo ser depositadas conforme seu tamanho (peso), a velocidade
e a energia cinética do meio de transporte, resultante do volume caudal ou vazão do rio
(PEIXOTO, 2019). Como exemplo dessa variabilidade de taxa de transporte de sedimentos
no Velho Chico, os valores em Pirapora (MG) foram de 8,3 x 106 ton./ano, em uma área de
cerca de 62.000 km2; em Morpará (BA), foram de 21,5 x 106 ton./ano, em uma área de cerca
de 345.000 km2; em Juazeiro (BA), foram de 12,9 x 106 ton./ano, em uma área de cerca de
510.000 km2 e, em Propriá (SE), foram de 0,41 x 106 ton./ano, em uma área de cerca de
620.000 km2 (CARVALHO et al., 2000b).
A carga total de sedimentos é frequentemente dividida em dois grupos, representados
pela carga de leito (arrasto e saltante) e carga suspensa (suspensão) (BHOWMIK;
MISGANAW, 2001). Já a chamada taxa de carga ou quantidade de sedimentos em suspensão,
bem como o carregamento desses pelos rios, depende essencialmente da rugosidade do leito
do rio, do estancamento do fluxo do rio, da existência de barreiras físicas de atenuação ou
dos barramentos construídos nos trajetos dos rios, como açudes, barragens e hidrelétricas.
Por outro lado, a existência dessas barreiras pode ou não ajudar na regularização de vazões
e para a deposição destes sedimentos, conforme sua taxa de dispersão, através dos volumes
caudais liberados destes reservatórios (MAIA, 2006; MORAIS FILHO, 2014).
Em um acordo de cooperação técnica iniciado em 2012, entre CODEVASF e
USACE, foi possível demonstrar que há uma forte retenção ou deposição dos sedimentos nos
cinco principais reservatórios da BHSF. Os reservatórios de Três Marias e Paulo Afonso têm as
menores taxas de retenção, com 37% e 55,5%, respectivamente. Enquanto isso, os reservatórios
de Luiz Gonzaga, Sobradinho e Xingó retêm 94,1%, 98,3% e 98,4%, respectivamente, da
carga de sedimentos que recebem (COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS
VALES DO SÃO FRANCISCO E DO PARNAÍBA, 2014).
As medidas feitas no medidor em Propriá (SE) dão conta de que essa entrega
de sedimentos poderia ser ainda maior no BSF. Após o estabelecimento do sistema de
barramentos para a regularização de vazões, pôde-se verificar que a carga de sedimentos em
suspensão foi reduzida em cerca de 33% e a taxa de fluxo em 16,1%. Além disso, a regularização
de vazões em Xingó também reduziu em 18,2% a carga de sedimentos em suspensão nas
águas vertidas e que chegam até a foz do Velho Chico. De alguma forma, pode-se constatar
que as águas vertidas em Xingó apresentam uma carga de sedimentos menor; porém, isso
não garante uma melhor qualidade de água para o BSF.
Ainda assim, mesmo com os fatores de retenção do reservatório de Xingó chegando
a 98,4%, a previsão da carga de sedimentos entregue ao mar pelo rio São Francisco na sua
foz está próxima de 3,2 milhões de toneladas por ano. Essa estimativa representa somente
o percentual de 1,6% de toda a carga de sedimentos produzida e movimentada anualmente

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

23

pelas águas em toda a bacia do São Francisco, desde suas nascentes em Minas Gerais
(COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS VALES DO SÃO FRANCISCO
E DO PARNAÍBA, 2014).
Em valores absolutos, em toda a bacia hidrográfica do rio, esse volume anual de
sedimentos representa 1,44 x 108 toneladas, sendo que a maior parte fica depositada no
próprio leito do rio (51,3%) e em reservatórios (46,9%). Desse total, como 1,6% é entregue
ao mar na sua foz, restam somente 0,2% de sedimentos em suspensão nas águas que correm
em toda a extensão do rio.
Analisando a taxa de degradação da bacia do São Francisco como um todo, pelo
volume líquido de sedimentos aportados e movimentados anualmente, é possível verificar
que há uma forte degradação em todo o curso do rio, uma vez que 64,8% da carga líquida
desses sedimentos sofre movimentação constante. Em outras palavras, isto quer dizer que
35,2% dos sedimentos aportados anualmente ao rio são depositados permanentemente
e provocam o assoreamento do canal principal do Velho Chico (COMPANHIA DE
DESENVOLVIMENTO DOS VALES DO SÃO FRANCISCO E DO PARNAÍBA,
2014).

A importância e as condições das matas ciliares no BSF

Em relação à cobertura vegetal, o principal fator a se abordar acerca de bacias
hidrográficas é a presença ou manutenção das matas ciliares, que são de fundamental
importância na criação e na manutenção da vida em todos os cursos e corpos d’água.
Dentre outras funções, além de manter a proteção da área circundante ao corpo aquoso,
evita ou atenua a erosão hídrica das margens, bem como o desbarrancamento. Essas matas
também funcionam como um importante reduto de biodiversidade das áreas e um bom
indicador de equilíbrio ambiental (CHABARIBERY et al., 2008; MORAIS FILHO, 2014;
APARECIDO et al., 2016).
As matas ciliares têm sido apontadas como peças-chave e grande divisor de águas
para mitigar os problemas e as causas que levam ao agravamento do assoreamento de corpos
e cursos hídricos. Geralmente, a taxa de transporte dos sedimentos, dos seus locais de origem
até o leito dos rios e cursos d’água, é diretamente proporcional à intensidade do regime
pluviométrico, traduzido como energia cinética necessária para o carreamento das partículas
para os leitos dos rios e cursos d’água. Uma maior taxa de cobertura vegetal funciona como
barreira física de contenção, principalmente nas regiões com maiores índices de pluviosidade
e de erodibilidade dos solos (CHABARIBERY et al., 2008).
A maior consequência da supressão e falta de matas ciliares é que as partículas sólidas
resultantes do processo de intemperização são carreadas e depositadas no leito dos rios, em
maior volume e intensidade. Pela própria dinâmica dos rios e cursos d’água, dos reservatórios
e da configuração dos leitos e de suas margens é possível obter-se indícios sobre sua origem e
o grau de desgaste e de movimentação dos sedimentos. Além disso, é possível inferir também
sobre como e o quanto esses materiais sólidos foram trabalhados por rolamento, atrito, arraste
e deslocamwento dos sedimentos pelas águas nos trajetos percorridos (QUEIROZ et al.,
2011; CRUZ et al., 2013; MORAIS FILHO, 2014; APARECIDO et al., 2016).
De maneira geral, o assoreamento tem sido atenuado pela existência de vegetação ou
mata ciliar ao longo das margens dos corpos e dos cursos hídricos, que funciona como uma
barreira física natural. Mesmo as matas ciliares sendo áreas sensíveis a perturbações por ações

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

antrópicas e naturais (GOMES; PINHO, 2018), no BSF são vistas condições extremas de
completa supressão delas e uns pequenos fragmentos de áreas preservadas (Figura 4). Essa
vegetação mitiga o grau de desestruturação do solo, reduz a velocidade de arraste das partículas
e do escoamento superficial das águas. Isso permite uma maior retenção e infiltração das
águas das chuvas, principalmente em chuvas de mais intensidade, evitando, dessa forma, que
ocorra desestruturação acentuada das camadas superficiais e erosão dos solos.

Figura 4 - Registros das margens do rio na região do BSF, com forte supressão das
matas ciliares (A e B) e fragmentos de áreas preservadas e áreas de proteção
permanentes (APPs) (C e D).
A

B

C

D

Fonte: José Vieira Silva (2018)

A legislação brasileira é tida como uma das mais avançadas do mundo em relação
à proteção e aos crimes ambientais. As leis tratam das matas ciliares e também da questão
das Áreas de Preservação Permanente (APP) e reservas particulares do patrimônio natural
(RPPN). Tudo isso foi institucionalizado com a aprovação do Código Florestal de 1965 (Lei nº
4.771/65) e ambas também estão regularmente abrangidas de forma bem clara na Lei das
Águas ou Código Florestal, Lei nº 12.651, de 2012.
Quanto às condições atuais das matas ciliares no BSF, foram realizadas algumas
coletas de informações primárias, além da coleta de amostras de sedimentos. Foi possível
constatar in loco o grau de degradação ambiental no que diz respeito à supressão de matas
ciliares e vegetação das áreas de proteção permanentes que margeiam o rio São Francisco. No
trajeto entre Piranhas e Piaçabuçu, em ambas as margens e em muitos trechos, é flagrante a
supressão total da vegetação ciliar (Figura 5).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

25

Figura 5 - Trechos do BSF compreendidos entre Piranhas e Piaçabuçu. Vista do rio em
Traipu-AL (A), Porto Real do Colégio-AL/Propriá-SE (B), Povoado Chinaré,
em Igreja Nova-AL (C) e Piaçabuçu-AL (D). Em destaque, a formação de
bancos de sedimentos, supressão das matas ciliares e substituição por atividades
agrícolas.
A

B

C

D

Fonte: Google Earth, 2020.

Às margens do rio São Francisco, no trecho correspondente ao trajeto entre Piranhas
e Penedo, é preciso registrar que o lado de Sergipe apresenta-se visível e sensivelmente mais
preservado do que o lado de Alagoas, onde uns poucos resquícios isolados de matas ciliares
são registrados. No entanto, vale ressaltar que os fragmentos de matas ciliares do lado de
Sergipe não protegem, efetivamente, o curso do rio e estão longe de atender à legislação
ambiental para um rio nacional do porte e da envergadura do São Francisco.
Nas duas margens do trecho percorrido, as matas ciliares e as áreas de proteção
permanentes (APPs) intactas são praticamente inexistentes. Nos poucos casos de presença
de matas ciliares, no lado referente a Sergipe, pode-se registrar, ainda, que há uma pequena
diversidade de espécies nativas do bioma correspondente, dispersas em pequenos fragmentos
ou árvores isoladas. No trecho final do rio, entre Penedo e Piaçabuçu (foz), também é
perceptível que há um aumento substancial dos sinais de antropização das matas ciliares e
um maior nível de degradação nas margens do Estado de Sergipe. Há um processo inverso
de preservação das matas ciliares das margens próximas à foz, onde as margens do rio, no
Estado de Alagoas, apresentam uma maior presença de vegetação ciliar e nativa em relação
às áreas antropizadas, porém com inúmeros registros de total ausência e supressão da mata
ciliar, para instalação de grandes empreendimentos (SILVA; VIEIRA; RIAL, 2020).
Além da degradação das matas ciliares nas duas margens do rio, também é perceptível
que as áreas de proteção permanentes (APPs) das serras e encostas apresentam uma forte
degradação ambiental, com desmatamento ou supressão total da vegetação nativa até as
margens do rio. Neste cenário de degradação da vegetação ciliar, é possível verificar também

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

a ausência de registro de ação efetiva de preservação, recuperação ou atenuação/mitigação
das áreas degradadas que seja de curto, médio ou longo prazo.
A redução da vazão, juntamente com o assoreamento, reduziu a largura efetiva do rio,
principalmente no trecho entre Traipu e a foz, de modo que, em alguns lugares, essa largura
corresponde tão somente a ¼ (25%) da largura média original do rio. Nas ilhas resultantes
dos bancos de assoreamento, também há registro de intenso uso recreativo e disputa entre
pescadores, população ribeirinha e criadores de animais (bovinos, bubalinos, muares, asininos
e equinos) para ocupação e apropriação temporária das mesmas.
As políticas ambientais de preservação e de revitalização do rio no BSF, no âmbito
das esferas federal, estadual e municipal, assim como das ações de agências públicas e privadas,
não apresentam capilaridade e efetividade ou mesmo acolhida no âmbito das comunidades
ribeirinhas, apesar de todos os problemas existentes. Em relação à vegetação das matas ciliares
e das APPs, não existem ações efetivas ou possíveis soluções para recuperar ou atenuar o
atual estado de degradação do rio São Francisco. É perceptível que há esforços de uns poucos
ativistas e defensores do Velho Chico, porém a extensão dos problemas ambientais em muito
suplanta as ações desenvolvidas.

Percepção dos problemas ambientais

Durante a primeira expedição, em outubro de 2018, conforme a CHESF, o Baixo São
Francisco foi submetido a uma vazão nominal de somente 550 m3/s, a partir de Xingó. Esse
volume de defluência também se repetiu no ano de 2019, chegando a 523 m3/s em algum
momento, e expôs inúmeros problemas. Tanto no que diz respeito à qualidade da água para
consumo humano e à facilidade de captação de água para abastecimento em geral quanto ao
assoreamento e à redução das condições de navegabilidade do próprio rio.
De maneira geral, esses problemas ambientais do rio São Francisco decorrem desde
suas nascentes, em Minas Gerais, até sua foz, na divisa entre Alagoas e Sergipe. Para conhecer
melhor a situação in loco no BSF e cruzar as informações obtidas com os dados levantados
durante as expedições, foram realizadas reuniões com secretários de Agricultura e do Meio
Ambiente e órgãos públicos dos municípios visitados e situados no lado de Alagoas (Figura 6).
Figura 6 - Reuniões realizadas no barco durante a expedição com os secretários de
Agricultura e Meio Ambiente dos diferentes municípios visitados durante a
primeira expedição no Baixo São Francisco, em 2018.

Fonte: José Vieira Silva (2018)

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

27

A partir dos relatos dos secretários e das equipes de apoio dos municípios visitados,
foi possível levantar e constatar que os problemas de assoreamento e degradação ambiental
não têm como origem e causa principal somente a degradação que ocorre no próprio BSF. O
sistema de barramento gerido pela CHESF, para fins de produção de energia e regularização
de vazões, tem sido apontado como um dos principais causadores dos problemas ambientais e
das reduções das vazões. Além disso, as águas vertidas pela Hidroelétrica de Xingó não passam
por nenhum tratamento hidrossanitário em especial, seja para reduzir a carga de sedimentos ou
mesmo de agentes contaminantes, metais pesados e outros poluentes (SOARES et al., 2020).
Para entender a dinâmica e compreender melhor os pontos de vista dos secretários
das cidades ribeirinhas no BSF, algumas constatações foram levantadas por praticamente
todos eles em relação à origem dos problemas de degradação ambiental no BSF (SILVA;
VIEIRA; RIAL, 2020), conforme especificadas a seguir:
A – Ao longo de toda a sua extensão, o rio São Francisco recebe uma carga muito
grande de sedimentos e matérias particuladas de diferentes origens e naturezas. Esses materiais
todos são transportados e depositados e redistribuídos ao longo dos corpos e do curso hídrico
do rio, até chegar à sua foz. Com a implantação do sistema de barramento promovido pela
CHESF, através da construção de hidroelétricas, os reservatórios formados passaram a
acumular a maior parte desses sedimentos carreados ao longo da bacia hidrográfica do rio.
Por outro lado, a regularização e a manutenção do volume caudal constante e as reduções
das vazões nominais do rio aumentaram a deposição dos sedimentos carreados ao longo de
todo o seu percurso, promovendo o assoreamento da sua calha principal e o surgimento de
bancos de sedimentos e ilhas fluviais vegetadas (Figura 7).
B – Com o advento do projeto de transposição do São Francisco e as promessas de
recursos para revitalização pelo Governo Federal, através dos então Ministérios da Integração
Nacional e do Meio Ambiente, era de se esperar por ações efetivas para mitigação dos danos e
problemas hidrossanitários encontrados atualmente em toda a extensão do rio. Desde o início
das obras do projeto de transposição, em 2007, ainda não há um histórico, indícios ou registros
de obras ou financiamento direto de atividades de revitalização de grande envergadura, de
caráter parcial ou global, em toda a extensão da bacia do São Francisco. As experiências
exitosas que possam servir de modelos ou mesmo como incentivo ao desenvolvimento de
novos projetos para mitigar os impactos negativos da degradação ambiental são inexistentes
ou muito tímidas e ineficazes no seu alcance.
Figura 7 - Registros da formação dos bancos de sedimentos (A) no leito principal do rio e
a ocupação por pessoas (B, C e D) e animais (E e F) no BSF.
A

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

B

C

D

E

F

Fonte: José Vieira Silva (2018)

C – No trecho percorrido pelas expedições no Baixo São Francisco, com cerca de
200 km, há uma forte e acentuada degradação das matas ciliares e áreas de preservação
permanentes (APPs), ambas às margens do rio, e das áreas do seu entorno. Isso reflete a
ausência de políticas públicas integradas das diferentes esferas de governos ao longo dos
tempos. Por outro lado, e de maneira geral, é quase unânime entre a população e gestores
que há uma associação da degradação ambiental do rio às atividades que decorrem das
iniciativas de desenvolvimento atribuídas às agências governamentais de desenvolvimento,
que traçaram e fomentaram as políticas de desenvolvimento regional. A princípio, a percepção
geral da população e dos gestores é de que essas agências estão preocupadas tão somente com
a implantação e o funcionamento dos empreendimentos que financiaram, sem que fossem
observadas contrapartidas, mitigações e compensações dos danos ambientais provocados.
D – O Comitê da BHSF foi criado em 1997 e tem por base legal o código das águas de
1934, cujo objetivo principal é fomentar o Sistema Nacional de Gerenciamento dos Recursos
Hídricos. No entanto, o relato atual é de que o presente Comitê tem se mostrado tímido em
atuar como promotor e fomentador de iniciativas efetivas locais, voltadas à preservação e
superação dos problemas atuais. Nesse contexto, também está inserido o fomento à produção
de água através da recuperação e preservação de nascentes. Assim como a recuperação e a
preservação das matas ciliares, essa também é uma necessidade urgente levantada por todos,
que possa estabelecer um plano de recuperação das nascentes, principalmente nas cabeceiras do
rio São Francisco e de seus principais afluentes nos Estados de Minas Gerais (rios Samburá,
Serra Canastra, Paracatu, Paraopeba, Abaeté e das Velhas) e Bahia (rios Grande, Salitre,
Carinhanha e Corrente), Pernambuco (rios Ipanema, Moxotó e Pajeú), Alagoas (rios Traipu
e Piauí) e Sergipe (rios Jacaré e Capivara).
E – Dentre as iniciativas de combate à degradação ambiental e à redução da erosão
dos solos e arraste de sedimentos para o leito dos rios, em Alagoas, há um plano inicial do
CBHSF para a recuperação de nascentes dos principais afluentes do rio São Francisco, dentre
eles, o rio Piauí, com 355 nascentes identificadas, e o rio Boacica, com 154 nascentes em
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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recuperação. Este plano também tem previsão para abranger os rios Itiúba, Tibiri, Batinga e
Perucaba. Na região de Betume, no Estado de Sergipe, existem 144 nascentes identificadas
nas bacias dos rios Jacaré e Japaratuba, também com previsão de recuperação.
F – No BSF, os casos mais conhecidos de assoreamentos dentre seus afluentes diz
respeito aos rios Traipu e Ipanema, que nascem em Pernambuco, nos municípios de Bom
Conselho e Pesqueira, respectivamente. Apesar de terem regimes hídricos temporários e com
profundidade média entre 4 e 5 metros, há registros de formação de grandes bancos de areia
em seus leitos e calhas principais, ao longo de toda a suas extensão.
Como causa, tem sido atribuído ao elevado índice de supressão das matas ciliares e à
falta de proteção e preservação das APPs das respectivas bacias. E isso tem causado um elevado
grau de erosão hídrica/laminar, principalmente nos anos de chuvas mais intensas e cheias,
quando esses sedimentos são carreados em grandes quantidades para o leito do Velho Chico.
G – Assim como o assoreamento, a escassez hídrica no período de 2013 a 2019 e a
redução da vazão nominal do rio contribuíram para agravar o problema de salinização e o
avanço da cunha salina na foz do rio São Francisco. Contribuiu de maneira direta também a
execução do plano de regularização de vazão do rio, pelo gestor nacional de águas, a Agência
Nacional de Águas (ANA), e de energia elétrica, a Agência Nacional de Energia Elétrica
(Aneel). Esse conjunto de eventos aumentou a ocorrência, a magnitude e o alcance da “cunha
salina” no Baixo São Francisco. Com a redução do volume caudal do rio e o surgimento
dos bancos de areia e ilhas, também foram registrados problemas com a capitação e o
abastecimento de água de alguns municípios e povoados. Para amenizar o problema, nos
municípios mais próximos à foz, foram necessárias as intervenções tanto do CBHSF como
do poder público constituído. No caso do povoado de Resina (SE), como medida paliativa,
foi necessária a construção de 900 m de estrada, financiada pelo próprio comitê, para facilitar
o acesso à água. Além disso, outros municípios tiveram que deslocar seus pontos de captação
de água para consumo humano, seja pela dificuldade física de acesso devido ao assoreamento,
seja pela presença da cunha salina.
H – Outro agravante levantando diz respeito aos interesses econômicos e políticos
regionais, que se sobrepõem aos interesses ambientais e das comunidades, bem como aos
próprios problemas identificados em toda a bacia do rio São Francisco. Isso pode ser percebido
através do relato dos secretários, que apontam para o aumento do número de outorgas legais
concedidas pela ANA ao longo de todo o curso do rio, para atender a demandas de toda
natureza, sem levar em consideração os prejuízos e danos ambientais provocados.

Ocupação dos solos da bacia e assoreamento no BSF
A região do BSF, no trecho entre Xingó e a foz, apresenta uma variação muito grande
de relevo e de paisagens, em torno da calha principal do rio, porém com altitude predominante
inferior a 300 m (Figura 8A). A variação de relevo e, consequentemente, da sua declividade
fizeram com que, ao longo dos tempos, ocorressem impactos distintos decorrentes das ações
antrópicas que alteraram as características da vegetação e da ocupação dos solos nos mais
de 200 km de extensão do rio, entre Piranhas e a foz. A relação é direta entre o relevo e a
declividade, o grau e o tipo de exploração por uma atividade econômica e os problemas de
erosão e os níveis de degradação das áreas.
Diferentemente das regiões do Alto e Médio São Francisco, o relevo do BSF é menos
acidentado e com baixa declividade, desde Xingó até a foz (Figura 8B). Em alguns poucos

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

lugares, a declividade no BSF supera os 10% e, dificilmente os 20%. Isso implica em menor
poder de arraste de sedimentos da bacia, por ocasião da ocorrência das chuvas, em relação às
regiões de maiores declividades, como as observadas nas nascentes do Velho Chico.
Figura 8A e 8B - Mapas de altimetria (A) e declividade (B) da área do BSF, de Xingó até
a foz.

Fonte: Anderson dos Santos (2020).

Porém, também é perceptível que, mesmo sendo áreas mais planas, o grau de
degradação dos solos e a supressão da vegetação são muito elevados, assim como também o
grau de erodibilidade vista nos solos expostos da região do BSF. Isso torna a velocidade de
deslocamento e o escoamento das águas e sedimentos mais lentos e, quando há redução das
vazões vertidas, o assoreamento do leito do rio torna-se mais visível (Figura 9).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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Figura 9 - Ocupação (A) e assoreamento (B, C e D) do leito do rio na região do BSF, em
consequência da redução das vazões no ano de 2018 e 2019.
A

B

C

D

Fonte: José Vieira Silva (2018)

No total de 11.936,4 km2 analisados na região do BSF cortada pelo Velho Chico, de
Piranhas até seu encontro com o mar, é possível verificar que o trecho compreendido entre
Piranhas (PIR) e Traipu (TRA), separado em três setores (S1, S2 e S3), é o que apresenta os
maiores percentuais de vegetação nativa preservada, classificada como floresta arbórea, com
valores variando de 24% a 36% (Figura 10).

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 10 - Mapas de ocupação de solos e de incidência de assoreamento no Baixo São
Francisco, nos trechos compreendidos pelos municípios de Piranhas (PIR),
Pão de Açúcar (PAC), Belo Monte (BMT) e Traipu (TRA), para os anos de
2018 e 2019. Área S1 = 3123,5 km2 (26,2%); Área S2 = 1614,2 km2 (13,5%);
Área S3 = 2505,9 km2 (21%).
2019

S3 – BMT/TRA

S2 – PAC/BMT

S1 – PIR/PAC

2018

Fonte: Anderson dos Santos (2020).

Essa maior taxa de preservação da vegetação nativa em relação aos demais trechos
até a foz pode ser atribuída ao relevo mais acidentado, porém de baixa declividade (<< 20%),
no entorno da calha principal do rio. Mas vale ressaltar também que, no decorrer de todos
esses três primeiros trechos, as áreas apresentam sinais visíveis de antropização, permeadas
por áreas de pastagens.
A ocupação por pastagens é maior no trecho de Piranhas e vai decrescendo até a foz,
ao contrário do que é observado com a ocupação pela atividade agrícola, que é menor em
Piranhas e vai crescendo até a foz. A área total ocupada pela a agricultura no trecho de entre
Piranhas e Traipu é muito pequena, chega a somente 1,35% da área total. Porém, a partir
de Traipu até a foz, a atividade agrícola cresce consideravelmente, com ocupação dos solos
variando de 6,4% a 28,5%, respectivamente (Figura 11).
A antropização no trecho de Piranhas a Traipu (S1, S2 e S3) fica ainda mais evidente
quando se constata que a extensão das áreas ocupadas com pastagens é de duas a três vezes
maior do que a ocupada pelas florestas arbóreas. Esses valores de ocupação das pastagens
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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corresponderam de 60% a 75% da ocupação dos solos. O comparativo entre os anos de 2018
e 2019, na extensão do rio entre Piranhas e Piaçabuçu, chama a atenção para o aumento
das áreas com floresta arbórea e herbácea e a redução das pastagens. Também foi verificada
redução das áreas com agricultura, porém só nos trechos entre Piranhas e Traipu.
Agora, o aumento que mais chama a atenção, de Piranhas a Piaçabuçu, é a deposição
de sedimentos ou o surgimento de bancos de areia no leito do rio, com aumentos percentuais
que variaram de 42,1% a 66,6% (Figura 12).
Figura 11 - Mapas de ocupação de solos e de incidência de assoreamento no Baixo São
Francisco, no trecho compreendido pelos municípios de Traipu (TRA), Porto
Real do Colégio (PRC), Penedo (PEN) e Piaçabuçu (PIA), para os anos de
2018 e 2019. Área S4 = 1536,6 km2 (12,9%); Área S5 = 1538,1 km2 (12,9%);
Área S6 = 1618,2 km2 (13,6%).
2019

PEN/PIA

PRC/PEN

TRA/PRC

2018

Fonte: Anderson dos Santos (2020).

As reduções das vazões e, consequentemente, do nível da lâmina e do espelho d’água
do rio implicam em maior exposição da calha e do fundo do rio. Esses sedimentos arrastados
são deixados à mostra e depositados ao longo do seu percurso, formando bancos de areia e
ilhas, que são traduzidos, em termos gerais, como assoreamento.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 12 - Ocupação (%) da calha principal do rio São Francisco na região do BSF, para
os meses de outubro de 2018 (a) e dezembro de 2019 (b), de acordo com
os setores analisados. S1 (PIR/PAC); S2 (PAC/BMT); S3 (BMT/TRA); S4
(TRA/PRC); S5 (PRC/PEN) e S6 (PEN/PIA).

Fonte: Anderson dos Santos (2020).

Em consulta e análise dos boletins da CHESF, para os anos de 2018 e 2019, as vazões
nominais praticadas em Xingó atingiram seus menores volumes históricos, resultando em
inúmeros transtornos no BSF – o assoreamento foi somente um deles. Há locais em que
essa variação depende da largura da calha principal; os locais mais estreitos e profundos
quase não apresentam assoreamento aparente. No entanto, nos setores S5 e S6, por estarem
mais próximos da foz, a mobilidade dos sedimentos depende essencialmente da ocorrência
de vazões maiores como meio para arrastar os bancos de areia formados recentemente e
entregá-los ao mar. Nos meses analisados, nestes dois últimos setores, S5 e S6, antes de o
rio encontrar o mar, as proporções médias de água/sedimentos na calha principal foram de
60%/40% e 52%/48%, respectivamente.

Análises dos sedimentos no BSF
Ao longo do trajeto percorrido no BSF, na primeira expedição, foi possível verificar
uma forte ação erosiva das águas sobre as margens do rio. Mesmo com baixa vazão, e constante,
as águas provocaram desbarrancamento e arraste das matas ciliares e dos sedimentos para
o leito do rio. A exposição destes perfis visualizados pelas barreiras erodidas, com 3, 4 e até
5 metros de altura, contam uma história sobre a dinâmica do transporte de sedimentos ao
longo dos tempos (Figura 13). A existência de camadas laminares de deposição e composição
diferentes aponta para grandes variações no regime hídrico do rio, ano a ano, porém sem
uma datação específica (SILVA; VIEIRA; RIAL, 2020).
Para se conhecer melhor as características dos sedimentos do BSF, durante a expedição
científica de 2018, foram realizadas coletas aleatórias de amostras de material das margens
de Alagoas e Sergipe, da calha principal e das ilhas e bancos de areia formados no leito do
rio (Figura 14).
Após fracionamento de cada uma das amostras por tamisação, na análise granulométrica
foi verificada uma grande variabilidade de tamanho granulométrico e tipos de sedimentos
e materiais orgânicos depositados ou presentes. Os processos visíveis de erosão hídrica e
assoreamento apresentam uma dinâmica de arraste e deposição de material muito variável
com a vazão do rio. Além de reduzir a profundidade média do rio, a deposição promove o
surgimento de novos afloramentos de sedimentos acima do espelho d’água. Em termos de
composição granulométrica, os novos bancos de sedimentos (com até três anos de formação)
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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são constituídos de areias (fina e média) e silte, com material bastante retrabalhado pelas
águas, enquanto que, nos bancos mais antigos, há presença visível e em maiores proporções
de silte e argilas (Figura 15).
Figura 13 - Barreiras erodidas pelas águas na região do BSF, no ano de 2018.
A

B

C

D

Fonte: José Vieira Silva (2018).

Figura 14 - Detalhes das coletas de amostras de solos/sedimentos nas margens (A, B e C) e
ilhas (D, E e F) na região baixa do rio São Francisco, em 2018.
A

36

B

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

C

D

E

F

Fonte: José Vieira Silva (2018).

Os sedimentos encontrados nos locais de coletas das amostras, entre margens, o
banco de sedimentos e o leito da calha principal, são predominantemente constituídos de
areia (média e fina), silte e argila, com granulometria variando de 0,001 mm a 0,60 mm,
possuindo, ainda, alguns agregados suportados por lama e fragmentos líticos. Porém, nas
amostras da calha principal do rio, foi encontrada uma pequena fração com granulometria
acima de 0,6 mm (caracterizada como areias média e grossa) (Figura 15).
Os sedimentos possuem esfericidade variável (baixa, média e alta), com diferentes graus
de retrabalho e rolamento, com grande variação de forma e plano de fragmentação variando
de muito angulosos e subangulosos a subarredondados e arredondados. Minerologicamente,
os sedimentos são compostos predominantemente por quartzo, feldspato, argilominerais e
outros minerais máficos (minoria).
Todas as amostras de solos coletados foram constituídas basicamente de areia, nas três
escalas de granulometria (grossa, média e fina) e uma fração considerável de silte e argila nas
amostras coletadas nas margens preservadas do rio e nos locais de águas paradas. Nas margens,
tanto de Alagoas quanto de Sergipe, é possível verificar, nos solos das áreas preservadas, que
suas constituições granulométricas apresentam uma predominância de fração argila e silte,
completamente distinta dos sedimentos encontrados no leito principal do rio.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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Figura 15 - Caracterização e análise granulométrica dos sedimentos e amostras de solos
das margens, do banco de assoreamento e do leito do rio São Francisco, em
Penedo-AL, realizadas em 2018.

Fonte: José Vieira Silva (2018).

Os sedimentos de águas correntes apresentaram uma granulometria maior quando
confrontados com os sedimentos de águas paradas, cuja granulometria é menor e constituída
basicamente de areia fina e da fração silte + argila. É possível constatar, ainda, que os
sedimentos de águas correntes apresentam um grau de desgaste e rolamento mais acentuado
do que aqueles encontrados nos locais de águas de menores correntezas ou mesmo paradas.
A granulometria dos sedimentos das ilhas ou dos bancos encontrados na calha
principal do rio, formados há mais de cinco anos e com vegetação arbórea estabelecida, é
predominantemente pequena, constituída de materiais à base de silte e argilas. Já nos bancos
recém-formados (menos de três anos) e com característica arenosa, há a predominância de
sedimentos classificados como areia média e fina e poucos sedimentos classificados como
silte e argila.
Em Piaçabuçu, foi verificada uma redução no tamanho das partículas dos sedimentos,
tanto nas águas paradas como nas ilhas e margens. Por outro lado, na calha principal, com água
corrente, ainda é possível verificar sedimentos com composição granulométrica predominante
de areia média misturada com uma fração constituída de limo e material organoargiloso
(lama). Há que se enfatizar que, em todos os locais de coletas no leito do rio em Piaçabuçu,
há um aumento substancial da salinidade da água em relação aos demais locais de coleta,
com condutividade elétrica da água (CEÁgua) que variou de 8 a 15 dS.m-1, de acordo com a
hora do dia e com a profundidade do rio.
Com a redução do volume da vazão e a redução da velocidade da água na calha do
rio, aumentou a deposição de sedimentos de menor tamanho, como areia fina, silte e argila.
Muito provavelmente, essa tenha sido a dinâmica de formação e consolidação dos bancos de

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sedimentos encontrados no leito do rio. Apesar de existirem vários estudos visando estabelecer
uma fórmula padrão para estimativas das cargas de sedimentos e sua deposição, nenhum
deles encontrou, ainda, uma maneira de fazê-los (MELO et al., 2020).
Os sedimentos depositados e em movimento nas águas dos rios e reservatórios
apresentam diversas granulometrias e são transportados de acordo com a dinâmica e as
condições locais do escoamento. As forças cinéticas que atuarão sobre as partículas poderão
mantê-las em suspensão ou no fundo do rio. Essas condições são em função do tipo de
escoamento, do tamanho, da forma e do peso das partículas, da velocidade/força da correnteza
e de outros fatores interrelacionados, como forma do canal, temperatura da água e declividade
do leito, dentre outros (CARVALHO et al., 2000a).
O transporte de sedimentos por fluxo de água depende do material, das condições
de fluxo e do tamanho das partículas. Geralmente, os movimentos das partículas dão-se por
rolamento, deslizamento e saltos no leito ou através do movimento de partículas suspensas
(CARVALHO et al., 2000b). Os diversos meios de transporte devem-se ao fato de que os
sedimentos apresentam diferentes tipos e características. Sedimentos com granulometria
mais grosseira movimentam-se como carga de fundo, enquanto as partículas mais finas são
transportadas como carga suspensa no curso hídrico (BHOWMIK; MISGANAW, 2001).

Extração de areias das margens e dos bancos de sedimentos
O que hoje é considerado um crime ambiental previsto em lei pode se constituir em
uma fonte de renda para bancar projetos futuros de recuperação e educação ambiental. Em
alguns pontos específicos do BSF e em função das altas taxas de deposição de sedimentos,
formados, na sua grande maioria, por areias, o assoreamento poderia servir como fonte
ordenada para a extração de areias. De forma não oficializada, essa atividade já ocorre de
modo rotineiro e sem ordenamento para suprir as demandas da construção civil (Figura 16).
Com a devida autorização e fiscalização, a dragagem em determinados pontos na
calha principal do rio poderia vir a ser uma grande alternativa para a arrecadação de fundos,
sem implicar em danos ambientais maiores do que os já causados pelo próprio assoreamento.
Como ainda há uma pequena variabilidade de vazões, consequentemente, esses locais de
extração de areia teriam novas cargas de sedimentos a cada novo ciclo de cheias. Como as
cheias proporcionam escoamentos muito velozes e turbulentos, possuem grande capacidade
de carregamento, deslocando partículas finas e grossas. Por outro lado, vazões reduzidas
também diminuem a velocidade e o transporte de sedimentos torna-se mais seletivo. Assim, os
processos de erosão, transporte e deposição de sedimentos são dependentes da granulometria
do material particulado presente na bacia e dos ciclos das cheias (BHOWMIK; MISGANAW,
2001; COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS VALES DO SÃO FRANCISCO
E DO PARNAÍBA, 2014).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

39

Figura 16 - Atividades e ocorrências frequentes às margens do rio, no BSF, que são
classificadas como irregulares, conforme as leis ambientais. A – Areia usada
para construção civil e B – extração de areia.
A

B

Fonte: José Vieira Silva (2018).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A situação de degradação ambiental por causas antrópicas em toda a extensão do rio
São Francisco preocupa, devido à falta de ações mitigadoras efetivas por parte dos poderes
constituídos. Aliado a isso, é possível também constatar que ocorreram mudanças naturais do
regime hídrico na bacia, tornando ainda mais intensos os efeitos do sistema de regularização
de vazões da bacia. É urgente que, nos planejamentos futuros, sejam pensadas alternativas
que possibilitem atenuar, suplantar ou mesmo mitigar os principais problemas enfrentados
pelo Velho Chico, principalmente no que diz respeito ao assoreamento e à poluição das águas.
É salutar e recomendado que os agentes públicos do Baixo São Francisco possam atuar
fortemente para reverter outros importantes problemas encontrados, além do assoreamento
e da poluição das águas, como é o caso da ocorrência de cunha salina e da recomposição de
matas ciliares e cobertura vegetal da bacia e recuperação de nascentes e veredas dos afluentes.
Existem alternativas de projetos para aumentar e regularizar o volume de água na bacia do
Velho Chico, como o desvio de águas da bacia do Tocantins e a construção de novas grandes
barragens nos maiores afluentes do Alto e do Médio São Francisco. Além disso, são necessárias
ações de educação ambiental e também intervenções severas para conter o assoreamento e
aumentar o volume do leito de forma que possa garantir as condições de navegação e o
equilíbrio ambiental.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

43

WATER SALINITY IN THE LOWER SÃO
FRANCISCO RIVER
Marcus A. S. Cruz;

Carlos A. da Silva;
Robson D. Viana;

Carlos A. B. Garcia;

Petrônio A. Coelho Filho;
Marco Y. A. V. Praxedes;
Silvânio S. L. da Costa

SUMMARY
In recent years, the region of the São Francisco River’s estuary has presented severe
problems resulting from the advancement of the salt wedge. Thus, a decrease in the productive
capacity of the economic sectors in the region has been identified. In 2018 and 2019, two
scientific expeditions were carried out that sought to contribute to understanding the variation
of salt content in the waters of the São Francisco River. Surface and bottom water samples
collected between the municipality of Traipu-AL and the municipality of Penedo-AL were
defined as “fresh waters,” with an average salinity of 0.025 ± 0.007 ‰ in this stretch of the
river. At sampling points in the municipality of Piaçabuçu-AL, with a mean surface salinity
of 3.55 ± 1.35 ‰ to 2.71 ± 1.54 ‰, and at Brejo Grande, with a mean salinity of 6.49 ±
4.39 ‰ in the surface and 10.05 ± 1.06 ‰ at the bottom, the collected surface and bottom
waters were defined as “brackish waters”.

44

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 2
SALINIDADE DA ÁGUA NA REGIÃO DO BAIXO
SÃO FRANCISCO
Marcus A. S. Cruz8
Carlos A. da Silva9

Robson D. Viana10

Carlos A. B. Garcia11

Petrônio A. Coelho Filho12
Marco Y. A. V. Praxedes13
Silvânio S. L. da Costa14

INTRODUÇÃO
Os estutários são regiões de encontro do rio com o mar em que a terra e o oceano
contribuem para a formação de um ecossistema de características únicas, onde as águas
marinhas salinas são diluídas pela presença de água doce (NATIONAL ESTUARINE
RESEARCH RESERVE, 1997). Regiões estuarinas são caracterizadas pela influência de
diversos fatores determinantes de suas caracteríticas físicas, químicas e biológicas, como
as vazões dos rios, a intensidade das marés, a salinidade, as obras humanas e os depósitos
sedimentares, além de elementos climáticos (SALOMONI et al., 2007). A região conhecida
como Baixo São Francisco, que contém a foz do rio de mesmo nome, vem apresentando, nos
últimos anos, sérios problemas decorrentes do avanço da cunha salina, afetando negativamente
as atividades econômicas da região, podendo vir a inviabilizar, em último caso, a utilização das
águas para fins de abastecimento humano, com prejuízos não restritos apenas aos municípios
ribeirinhos à calha do rio São Francisco (GONÇALVES, 2016; MEDEIROS et al., 2016),
mas a todos os municípios que utilizam essas águas para fins de abastecimento, como é o
caso de 70% da população de Aracaju, capital do Estado de Sergipe.
O regime de vazões do rio São Francisco nessa região é regido pelos reservatórios
localizados nas partes mais altas da bacia, como as barragens de Sobradinho, Itaparica e Xingó,
cujas afluências foram reduzidas nos últimos anos, devido ao uso inadequado da terra, com
redução da produção de água na bacia e aumento da erosão do solo, bem como sucessivos
Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe, Brasil. Universidade Federal de Sergipe, Programa de PósGraduação em Recursos Hídricos, São Cristóvão, Sergipe, Brasil.
9
Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe, Brasil.
10
Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe, Brasil.
11
Universidade Federal de Sergipe, Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos, São Cristóvão, Sergipe,
Brasil.
12
Universidade Federal de Alagoas, Programa de Pós-Graduação em Diversidade Biológica e Conservação dos
Trópicos, Penedo, Alagoas, Brasil.
13
Universidade Federal de Alagoas, Departamento de Engenharia de Pesca, Penedo, Alagoas, Brasil.
14
Universidade Federal de Sergipe, Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos, Programa de Pósgraduação em Engenharia e Ciências Ambientais, São Cristóvão, Sergipe, Brasil.
8

períodos de seca (COMPANHIA HIDRELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO, 2017).
Como consequência da redução gradual dos fluxos mínimos no rio, o avanço da salinização
das suas águas tem provocado alterações na biota local e diminuição dos estoques pesqueiros,
resultando no desaparecimento de algumas espécies de peixes e crustáceos e no surgimento
de outros afeitos a ambientes salinizados. Assim, tem-se verificado uma diminuição da
capacidade produtiva dos setores econômicos na região, que dependem da flutuação dos níveis
de água doce para o seu desenvolvimento adequado, como o cultivo de arroz e a piscicultura,
por exemplo; e, logicamente, uma diminuição nos índices de desenvolvimento humano da
população da região (CUNHA, 2015).
Ao longo dos anos de 2018 e 2019, foram realizadas duas expedições científicas que
buscaram contribuir para o entendimento da variação dos teores de sais nas águas do rio
São Francisco, por meio de análises de amostras coletadas ao longo de pontos localizados
em diferentes municípios sob a condição de maré alta.

Variação das vazões no Baixo São Francisco
A implantação de barragens ao longo do curso do rio São Francisco, com o objetivo de
geração de energia hidroelétrica, intensificada a partir da década de 1970, associada à gestão
inadequada do uso e da cobertura da terra na bacia, vem provocando reduções significativas
nas vazões do rio em sua foz, reduzindo sua capacidade de escoamento em mais de 50%, com
amortecimento de picos de cheias e manutenção de vazões mais altas em períodos de estiagens
e chuvas, alterando o equilíbrio dos ecossistemas estuarinos (CAVALCANTE et al., 2017).
A partir de 2012, sucessivos anos com chuvas abaixo da média anual vêm levando
os órgãos gestores de recursos hídricos, neste caso, a Agência Nacional de Águas (ANA) e
de produção de eletricidade, Operador Nacional do Sistema (ONS), a aumentar a condição
de armazenamento dos reservatórios do sistema, por meio da redução de vazões afluentes
diárias máximas, principalmente nas barragens de Três Marias e Sobradinho, que determinam
o funcionamento de todo o sistema, tendo em vista que Xingó não possui capacidade de
amortecimento. Na Figura 17, pode ser observado o comportamento das vazões afluentes
no reservatório de Xingó desde 2012.
Figura 17 - Alterações nas vazões médias diárias liberadas no reservatório de Xingó entre
os anos de 2012 e 2019.

46

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Fonte: elaborado pelo autor, com base em Ana, 2020.

Observa-se que, ao final de 2012, a vazão liberada era de 1.100 m3/s, sendo reduzida
para 1.000 m3/s em março de 2015, e gradativamente atingindo o menor valor em julho de
2017 – 550 m3/s. Esse valor baixo manteve-se até janeiro de 2019, quando foi autorizado o
valor de 700 m3/s em Xingó. Os valores foram, então, sendo aumentados até atingir 1.300 m3/s,
em outubro de 2019, decorrência de que os anos de 2018 e 2019 já se mostraram melhores em
volumes de chuvas nas cabeceiras da bacia, levando o volume do sistema a uma recuperação.

A manutenção das vazões em valores tão baixos durante períodos tão
significativos contribui para o aumento da capacidade de avanço das águas marinhas
no leito do rio na sua foz, bem como a redução da condição diluidora e depurativa
das águas, aumentando as concentrações de sais e poluentes (BERNARDES et al.,
2012). O aumento das vazões após longos períodos de baixo escoamento promove o
revolvimento e a ressuspensão dos sedimentos depositados no fundo, fontes de cargas
poluidoras com alto grau de toxicidade, como elementos potencialmente tóxicos e
agroquímicos (MEDEIROS et al., 2016).
Avaliação da salinidade da água
A área de estudo localiza-se na região do Baixo São Francisco (BSF), entre os Estados
de Sergipe e Alagoas, cobrindo uma área de 25.500 quilômetros quadrados, onde vive uma
população de cerca de 1,5 milhão de habitantes, dos quais 440.000 residem em áreas ao
longo do rio São Francisco.
Nos anos de 2018 e 2019, respectivamente nos meses de outubro e novembro, foram
realizadas duas expedições científicas no BSF, onde foram feitas medições de parâmetros
relacionados à salinidade. Assim, foram realizadas coletas próximas às duas margens e em um
ponto intermediário, priorizando os horários de maré. As amostras de água foram coletadas
na superfície e no fundo, utilizando-se garrafa de Van Dorn. A água foi transferida a bordo
para garrafas de polietileno de 500 mL previamente limpas com detergente neutro e, em
seguida, em banho ácido de HNO3 10% v/v por 24 horas e enxaguadas com água Mili-Q
(18 μΩ), devidamente identificadas, transportadas refrigeradas em caixas térmicas até o
laboratório e estocadas em temperaturas abaixo de -15 °C em freezer até o momento da
análise. As análises dos íons Sódio (Na+), Cálcio (Ca2+), Magnésio (Mg2+) na água foram
feitas por espectrometria de absorção atômica com chama (Faas) (modelo Varian Spectr 55B
AA) no Laboratório de Estudos Ambientais (Labeia) da Embrapa Tabuleiros Costeiros, em
Aracaju, SE. As curvas de calibração foram preparadas com soluções padrões multielementares
SpecSol®. Os parâmetros físico-químicos, condutividade elétrica e salinidade, foram medidos
in situ por meio da utilização de uma sonda multiparâmetro (modelo Aquaread AP 2000).
A análise estatística dos dados foi realizada por meio do programa R e foram produzidos
mapas utilizando o software livre QGIS®.
Neste capítulo, estão apresentados apenas os resultados que incluíram locais
monitorados nas duas expedições, além da foz. Assim, os municípios monitorados foram
Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo, Neópolis e Piaçabuçu, usando o lado
alagoano como referência, conforme apresentado na Figura 18.
A avaliação da condição ambiental e de usos múltiplos das águas foi realizada por
meio da comparação aos limites estabelecidos pela Resolução Conama nº 357, de 17 de
março de 2005; pela Portaria de Consolidação nº 5, de 28/09/2017, do Ministério da Saúde
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

47

sobre padrões de potabilidade e limites estabelecidos pelo documento da Organização das
Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) relacionados ao uso para irrigação
(AYERS; WESTCOT, 1994). Os valores limites utilizados, bem como as respectivas fontes
de consulta, estão listados na Tabela 1.
Tabela 1 - Limites comparativos para avaliação ambiental e de usos múltiplos para os
parâmetros medidos nas amostras de água coletadas no Baixo São Francisco.
Parâmetro
Salinidade
CE (dS.m-1)
Restrição para irrigação
Na

+

Limite

Fonte

Águas doces < 0,5 ‰
0,5 ‰ < Águas salobras < 30,0‰
30,0‰ > Águas salinas
Nenhuma < 0,7
0,7 < Moderada < 3,0
Severa > 3,0

CONAMA 357/05
FAO (AYERS;
WESTCOT, 1994)

900,0 mg/L

FAO (AYERS;
WESTCOT, 1994)

200,0 mg/L

Portaria 05/2017 MS

Ca2+

400,0 mg/L

Mg2+

60,0 mg/L

FAO (AYERS;
WESTCOT, 1994)
FAO (AYERS;
WESTCOT, 1994)

Fonte: elaborado pelo autor, com base em BRASIL (2005), Ayers & Westcot (1994) e BRASIL
(2017).

Figura 18 - Localização dos pontos de coleta de amostras de água na região do Baixo
São Francisco.

Fonte: Marcus Cruz (2020).

48

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Resultados e discussão
As águas coletadas em ambas as expedições, tanto em superfície quanto no fundo, na
extensão do município de Traipu-AL até o município de Penedo-AL, foram enquadradas
como “águas doces”, águas com salinidade igual ou inferior a 0,5‰, segundo a Resolução
Conama nº 357, de 17 de março de 2005 (Tabela 1). A salinidade média, considerando as
duas expedições, foi de 0,025‰ ± 0,007‰ nesse trecho do rio (Figura 19 A1 e A2). Os
valores de condutividade elétrica (CE) apresentaram média de 0,061 dS/cm ± 0,0015 dS/
cm (Figura 19 B1 e B2), estando as águas classificadas como de nenhuma restrição ao seu
uso para fins de irrigação de culturas segundo a FAO (Tabela 1).
Os níveis de Sódio (Na+) das águas superficiais e de fundo dos pontos no trecho
em questão apresentaram concentração média de 3,74 mg/L ± 0,19 mg/L, sem mudanças
significativas entre as duas expedições (Figura 19 C1 e C2). Esses valores da concentração
de Sódio na água encontram-se abaixo do limite de potabilidade de 200 mg/L definido para
esse parâmetro pela Portaria de Consolidação nº 5, de 28/09/2017, do Ministério da Saúde,
sendo viável para o consumo humano e, portanto, sem possíveis implicações também para
o uso em irrigação de culturas (Tabela 1). Da mesma forma, as concentrações médias de
Magnésio (Mg2+) (2,02 mg/L ± 0,21 mg/L) (Figura 19 D1 e D2) e Cálcio (Ca2+) (5,70
mg/L ± 0,22 mg/L) (Figura 19 E1 e E2) não sofreram alterações significativas entre as
expedições e se mostraram inferiores aos limites relativos ao uso para irrigação.
Apesar dos valores encontrados indicarem boa qualidade da água em relação ao
parâmetro salinidade, é possível destacar que o uso não racional da água para fins de navegação
e irrigação, por exemplo, além do despejo inadequado de efluentes domésticos, pode tornar
esse corpo hídrico com águas impróprias para consumo (OLIVEIRA et al., 2017).
Considerando tais aspectos, tem se destacado o uso da água para fins de irrigação
e aquicultura na região do Baixo São Francisco. Essas atividades apresentam potencial de
provocar alterações nos recursos hídricos, devido ao uso em excesso de água na área irrigada,
provocando escoamento superficial e, também, pelo uso de sais solúveis, fertilizantes e
agroquímicos, arrastando seus componentes para o corpo d’água (OLIVEIRA et al., 2017),
podendo favorecer o processo de degradação da qualidade da água.
Nos pontos de amostragem no rio São Francisco, nos municípios de Piaçabuçu-AL
e Brejo Grande-SE, as águas coletadas em superfície e em profundidade foram enquadradas
como “águas salobras”, águas com salinidade superior a 0,5‰ e inferior a 30‰, conforme
a Resolução Conama nº 357, de 17 de março de 2005 (Tabela 1). Em virtude da diferença
de comportamento entre os dois locais, por conta da distância ao oceano e das diferentes
condições de escoamento do rio verificadas entre as duas expedições, além do fato de que
não foram coletadas amostras na foz (Brejo Grande-SE) na primeira expedição, as análises
serão apresentadas de forma separada, para Piaçabuçu-AL e para Brejo Grande-SE.
Em Piaçabuçu-AL, a salinidade superficial média variou de 3,55‰ ± 1,35‰ na
primeira expedição e a 2,71‰ ± 1,54‰ na expedição de 2019 (Figura 19 A1). Pode-se
afirmar que não se verifica diferença significativa entre os valores, principalmente levandose em consideração os desvios padrão presentes em ambos os períodos. O que não pode ser
afirmado para as águas coletadas em profundidade, uma vez que, na primeira expedição,
a salinidade média obtida nos pontos em Piaçabuçu-AL foi de 16,98‰ ± 8,13‰ e, na
segunda expedição, foi de 4,80‰ ± 2,75‰, indicando mudança significativa, com aumento
de concentração de sais decorrente do avanço da cunha salina, que apresenta maior densidade

nas camadas inferiores de água. Tal diferença pode estar diretamente relacionada à condição
de menor vazão efluente no rio São Francisco quando da realização da primeira expedição
(vazão média diária em Xingó de 550 m3/s – Figura 19), em comparação com a vazão presente
nesse trecho do rio no período da segunda expedição (1.100 m3/s – Figura 19), sendo o dobro
da capacidade de escoamento do rio e, consequentemente, da sua condição de manutenção
de menores teores de sais em suas águas mais profundas. Segundo Cavalcante et al. (2017),
em seus estudos na foz do rio São Francisco, a cunha salina mostrou-se com alcance menor
em condições de maior vazão do rio São Francisco, com uma diferença de aproximadamente
1,2 km em uma variação de vazão de 1.100 m3/s para 900 m3/s.
Figura 19 - Valores médios e de desvios padrão de Salinidade, Condutividade Elétrica, Na+,
Mg2+ e Ca2+ de amostras de água coletadas em superfície e em profundidades
durante as duas expedições científicas do Baixo Rio São Francisco, em 2018
e 2019.

50

A

A

B

B

C

C

D

D

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

E

E

Fonte: elaborado pelo autor (2020).

O comportamento observado para a salinidade, com diferenças significativas apenas
nas águas coletadas em profundidade entre as duas expedições, foi corroborado pelos resultados
das análises de condutividade elétrica (Figura 19 B1 e B2), Sódio (Figura 19 C1 e C2),
Magnésio (Figura 19 D1 e D2) e Cálcio (Figura 19 E1 e E2), sempre mantendo as mais
altas concentrações desses parâmetros nas amostras coletadas na primeira expedição em baixa
condição de escoamento do rio.
A condutividade elétrica (CE) média das águas superficiais em Piaçabuçu-AL
medida na primeira expedição classifica-as como de severa restrição para uso em irrigação
de culturas agrícolas (6,47 dS.m-1 ± 2,45 dS.m-1 para um limite de 3,0 dS.m-1) (Tabela 1). Já
nas condições da segunda expedição, a CE média obtida foi de 1,77 dS.m-1 ± 2,85 dS.m-1, o
que classifica as águas como de restrição moderada ao uso em irrigação (limite superior de
3,0 dS.m-1 e inferior de 0,7 dS.m-1). Ressalte-se que as amostras apresentaram alta variação,
denotada pelo elevado valor do desvio padrão, sendo superior ao valor da média. Para águas
profundas, em ambas as coletas, as águas mostraram-se de restrição severa ao uso para
irrigação agrícola para esta variável, com valores de 19,23 dS.m-1 ± 12,32 dS.m-1 na primeira
expedição e de 4,04 dS.m-1 ± 6,89 dS.m-1 na segunda expedição, novamente ressalvando as
elevadas variações no parâmetro entre as amostras coletadas.
Com relação às concentrações de Sódio, os valores obtidos nas amostras de água
coletadas na superfície em Piaçabuçu-AL indicam impossibilidade de uso para abastecimento
humano, segundo a Portaria nº 05/2017 de Potabilidade do Ministério da Saúde, para ambas
as campanhas de coleta (593,00 mg.L-1 ± 365,57 mg.L-1 na primeira expedição e 309,00
mg.L-1 ± 525,23 mg.L-1 na segunda expedição). No entanto, os valores ainda estão abaixo do
limite estabelecido pela FAO como prejudicial ao uso em irrigação de culturas (Tabela 1).
Nas águas em profundidade, os valores foram 2.033,00 mg.L-1 ± 2.566,80 mg.L-1 e 723,00
mg.L-1 ± 1.244,12 mg.L-1, considerando a primeira e a segunda expedições, respectivamente.
Estes valores inviabilizam os usos múltiplos dessas águas, conforme os limites da Tabela 1. O
elevado grau de variação ao redor das médias reflete a dependência que as variáveis guardam
com outros fatores, principalmente associados à localização da coleta, como proximidade de
córregos e canais de drenagem, profundidades de leito variáveis, valores de vazões do rio,
correntes diferenciadas, além da própria dinâmica de escoamento influenciada pelas marés.
Para Magnésio, as águas coletadas em superfície em Piaçabuçu-AL mostraram-se
viáveis para o uso em atividades agrícolas (limite de 60 mg.L-1 – Tabela 1), com valores de
47,64 mg.L-1 ± 28,73 mg.L-1 na primeira expedição e de 40,28 mg.L-1 ± 65,79 mg.L-1 na
segunda expedição. Já para águas em profundidade, em ambas campanhas, as águas estariam
impróprias para uso em irrigação, sendo que, na primeira expedição, a concentração foi de

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

51

300,38 mg.L-1 ± 295,60 mg.L-1, bem superior ao valor obtido na segunda expedição, que foi
de 82,68 mg.L-1 ± 139,27 mg.L-1.
As águas medidas nas amostras de Piaçabuçu-AL não mostraram restrição ao seu uso
para irrigação de culturas em decorrência das concentrações de Cálcio, mesmo para aquelas
coletadas em profundidade, com valores médios de 79,62 mg.L-1 ± 75,77 mg.L-1 nas amostras
da primeira expedição e de 34,75 mg.L-1 ± 49,58 mg.L-1 na segunda expedição, bem abaixo
do limite definido pela FAO (400 mg.L-1) na Tabela 1. Assim, a predominância de Na+
sobre os sais, decorrente da cunha salina, aparentemente está definindo o comportamento
da salinidade nessa região, bem como dos usos múltiplos das águas do rio São Francisco.
A influência das marés em Brejo Grande-SE sobre a salinidade da água do rio São
Francisco é conhecida e relatada na literatura (CAVALCANTE et al., 2017; MEDEIROS
et al., 2015). Assim, na segunda expedição, foram realizadas coletas de amostras na foz do rio
São Francisco, indicando valores de salinidade média de 6,49‰ ± 4,39‰ nas amostras de
superfície e de 10,05‰ ± 1,06‰ em profundidade. Estes valores corroboram os resultados
apresentados por Cavalcante et al. (2017), que obtiveram, em campanhas realizadas em
fevereiro de 2014, em pontos de coleta semelhantes, salinidades entre 5,0‰ e 15,0‰ durante
a maré alta.

Quanto à CE, os valores médios obtidos em Brejo Grande-SE foram de 34,00
dS.m ± 16,97 dS.m-1 e 35,00 dS.m-1 ± 10,02 dS.m-1, para amostras de superfície e
em profundidade, indicando grau de restrição severa ao uso da água em atividades de
irrigação de culturas (Tabela 1). O mesmo verificou-se para as variáveis Na+ e Mg2+
que, tanto para águas superficiais quanto para profundas, ultrapassaram os limites
definidos para restrição ao uso em irrigação, bem como para abastecimento, no caso
do Sódio. Apenas o Ca2+ não se mostrou como variável impeditiva do uso das águas
para atividades agrícolas.
-1

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com a variação da vazão das águas na região do Baixo São Francisco, a qualidade
das águas também é afetada. Com isso, observou-se que as águas do rio São Francisco, nos
municípios de Piaçabuçu-AL e Brejo Grande-SE, já se encontram em processo de salinização.
Essa mudança de água doce para água salobra interfere nas atividades socioeconômicas dos
ribeirinhos e provoca mudanças também na biodiversidade, com impactos nos recursos
pesqueiros.
Faz-se de extrema relevância o estabelecimento de uma rede de monitoramento da
qualidade das águas, relativa aos teores de sais, de forma a um melhor entendimento das
relações entre as vazões do rio, regidas pelas liberações dos reservatórios e o alcance da cunha
salina ao longo de seu curso.

REFERÊNCIAS
AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS. Sala de Situação do rio São Francisco. Disponível
em: https://www.ana.gov.br/sala-de-situacao/sao-francisco/sao-francisco-saiba-mais. Acesso
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52

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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São Paulo, 2004.
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normas sobre as ações e os serviços de Saúde do Sistema Único de Saúde. Diário Oficial da
União. 2017.
CAVALCANTE, G.; MIRANDA, L. B.; MEDEIROS, P. R. P. Circulation and salt balance
in the São Francisco river Estuary (NE/Brazil). RBRH, v. 22, 2017.
COMPANHIA HIDRELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO. Redução temporária da vazão
mínima do Rio São Francisco para 550 m³/s, a partir da UHE Sobradinho. Relatório Mensal
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CUNHA, C.J. Regularização da vazão e sustentabilidade de agroecossistemas no estuário
do Rio São Francisco. 231 f. 2015. Tese (Doutorado). Programa de Pós-Graduação em
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KEMKER, C. “Conductivity, Salinity and Total Dissolved Solids.” Fundamentals of
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www.fondriest.com/environmental-measurements/parameters/water-quality/
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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

53

THE OCCURRENCE OF TOTAL COLIFORMS AND
Escherichia coli IN DIFFERENT LOCATIONS OF THE
LOWER SÃO FRANCISCO
Vivian Costa Vasconcelos;
Anita Neves Santisteban;
Themis de Jesus da Silva;
Elton Lima Santos;

Emerson Carlos Soares
SUMMARY

The Lower São Francisco has about 238km; it runs from Piranhas/AL to its mouth
located in the Atlantic Ocean. Urbanization is close to the watercourses and generates several
problems for the aquatic environment, such as the disposal of raw domestic sewage derived
from the absence of basic sanitation. The microbiological study was performed in 5 distinct
locations during the 1st Scientific Expedition, in 2018, and 8 distinct points during the 2nd
Scientific Expedition, in 2019. The results indicated the presence of coliforms in all sampled
locations and Escherichia coli at higher levels in Propriá/SE, Penedo/AL (4.6 MPN/100 mL),
and Piaçabuçu/AL (>8.0 MPN/100 mL). These results disagree with the Health Ministry’s
ordinances because they present levels well above what is recommended by the legislation.
Therefore, it is imperative to perform continuous monitoring, including microbiological
analyses to verify the influence of anthropic activity in the aquatic environment and the main
points presenting problems with the release of in natura sewage in the studied municipalities.

54

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 3
OCORRÊNCIA DE COLIFORMES TOTAIS E Escherichia
coli EM DIFERENTES PONTOS DO BAIXO SÃO
FRANCISCO
Vivian Costa Vasconcelos15
Anita Neves Santisteban16
Themis de Jesus da Silva17
Elton Lima Santos18

Emerson Carlos Soares19
INTRODUÇÃO
No Brasil, cerca de 33 milhões (16,7%) de pessoas, considerando a população estimada
de 200 milhões de habitantes, não têm acesso a água tratada nem saneamento básico; menos da
metade das pessoas que têm acesso a este serviço (41%) tem seu esgoto tratado. Isso significa
que um grande volume é despejado in natura nos ambientes aquáticos, poluindo rios, mares
e lagos (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento – SNIS, 2017).
A qualidade da água dos rios é proveniente principalmente das ações antrópicas,
como despejo de efluentes domésticos, dejetos industriais, grandes quantidades de poluentes
derivados das áreas urbanas e agrícolas – esses são os principais responsáveis pelos maiores
impactos nos ambientes aquáticos (VASCOS, 2011), uma vez que a água é considerada
uma das substâncias mais presentes na natureza, havendo a necessidade do uso racional em
relação a quantidade e qualidade. Em virtude da sua abundância, pode haver a impressão de
que é um recurso inesgotável, mas, na realidade, atualmente apenas 2,5% do planeta Terra é
composto por água doce e com potencial para o consumo humano (ALVES, 2018).
Considerada um elemento essencial, a água é um composto inorgânico indispensável
para todos os seres vivos. Quando não consumida de forma potável, torna-se o principal
meio de contaminação, pois agentes patogênicos veiculados pela mesma são causadores
de doenças infecciosas, como: febre tifoide, cólera, hepatite, poliomielite, gastroenterites e
quadros diarreicos, entre outras (ALMEIDA, 2017).
De certa forma, é necessário o monitoramento da água, em que são investigados
alguns indicadores biológicos específicos, tais como os coliformes, bastonetes gram-negativos
que pertencem à família Enterobacteraceae, amplamente distribuídos na natureza e que se
propagam com maior frequência na água, obtendo maior atenção da saúde pública, pois
são suspeitos de causarem a maioria das infecções intestinais humanas (NASCIMENTO;
Mestre em Zootecnia, Universidade Federal de Alagoas, Centro de Ciências agrárias, Laboratório de
Aquicultura e Análise de Águas (Laqua).
16
Estudante de Graduação em Zootecnia, Laboratório de Aquicultura e Análise de Águas (Laqua).
17
Professora Doutora, Laboratório de Aquicultura e Análise de Águas (Laqua), Universidade Federal de
Alagoas.
18
Professor Doutor, Laboratório de Aquicultura e Análise de Águas (Laqua), Universidade Federal de Alagoas.
19
Professor Doutor, Laboratório de Aquicultura e Análise de Águas (Laqua), Universidade Federal de Alagoas.
15

ARAÚJO, 2013). Segundo Brasil (2011), como opção para a determinação do grupo de
bactérias coliformes como indicador de contaminação da água destaca-se a presença nas
fezes de animais endotérmicos, indicando o grau de contaminação fecal, devido a possuir
metodologia de fácil detecção, economicamente viável para a análise quantitativa em qualquer
tipo de água, não se multiplicam em ambientes aquáticos e possuem maior tempo de vida
na água do que as bactérias patogênicas.
A presença de coliformes e Escherichia coli em corpos hídricos indica a existência de
micro-organismos patogênicos. Esse grupo de bactérias atua como indicadores de poluição
fecal, por estar naturalmente presente no trato intestinal de animais e ser eliminado nas fezes
(SILVA, 2006). Segundo Souto (2015), os principais fatores para que as bactérias patogênicas
sejam consideradas indicadores de poluição de origem fecal são: quando encontradas no trato
gastrointestinal dos animais homeotérmicos, estejam em grandes concentrações em fezes
humanas e de animais, devem estar presentes em esgotos e ausentes em águas potáveis, ser
apenas de origem fecal e reveladas por metodologias simples.
Existem algumas bactérias da categoria coliformes que são utilizadas como parâmetros
de contaminação bacteriológica da água. Estas podem ser encontradas no trato gastrointestinal
do homem e de outros animais, em ambientes não fecais, no solo e em vegetais, tendo também
relativa capacidade de se multiplicar na água. Além disso, os coliformes fecais ou coliformes
termotolerantes são bactérias de um subgrupo de coliformes totais (FRANCO et al., 2008).
De acordo com a descrição de Alves (2018), coliformes totais são uma classe de
bactérias, onde o principal atributo é a fermentação de lactose e a produção de ácidos,
aldeídos e gás a 35 °C, entre 24 e 48 horas. Estas bactérias pertencem aos gêneros: Klebsiella,
Escherichia, Enterobacter e Citrobacter; os coliformes fecais ou termotolerantes são bactérias
que pertencem a um subgrupo de coliformes totais, com a capacidade de fermentar a lactose a
44-45 °C (±0,2) em 24 horas. Neste grupo, a Escherichia coli é considerada a principal espécie
de origem exclusivamente fecal (PUÑO-SARMIENTO, 2014).
Em virtude da presença dessas bactérias, faz-se necessário investigar a qualidade
microbiológica da água, extremamente importante para fornecer informações em relação às
condições do manancial, além de cooperar com elementos que podem influenciar futuras
estratégias no gerenciamento dos recursos hídricos (FIGUEIRÊDO, 2008).
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente 80%
das doenças detectadas em países em desenvolvimento são transmitidas através da água
contaminada, que, uma vez tratada, deixa de ser um veículo transmissor de agentes patológicos,
garantindo a saúde pública. Ainda dados da OMS demonstram que 80% das doenças que
ocorrem nos países em desenvolvimento são ocasionadas pela contaminação da água e, a cada
ano, cinco milhões de pessoas – entre elas, dois milhões crianças entre 0 a 5 anos – morrem
direta ou indiretamente pela falta ou deficiência dos sistemas de abastecimento de águas e
esgotos (ANDRAUS, 2006).
Dentre as legislações vigentes do Ministério da Saúde, que regulamenta a qualidade da
água e seu abastecimento, destacam-se as Portarias de nº 1.469, de 29 de dezembro de 2000,
que estabelece os procedimentos e as responsabilidades relativos ao controle e à vigilância
da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade. O documento
estabelece a quantidade de amostras de acordo com o número de habitantes no artigo 11
(Tabela 2). O padrão microbiológico de potabilidade da água para consumo humano é a
ausência de coliformes e E. coli em 100 mL de água. Outra Portaria é a de nº 2.914, de 12

56

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

de dezembro de 2011, que dispõe sobre a qualidade da água para consumo humano e seu
padrão de potabilidade com ausência de coliformes e E.coli em 100 mL de amostragem.
Portanto, dados dessas Portarias foram utilizados como referência para os resultados
das análises deste trabalho, que objetivou analisar os níveis de coliformes totais e E. coli ao
longo dos municípios que margeiam a calha principal do baixo curso do rio São Francisco.

Desenvolvimento
As coletas ocorreram em outubro de 2018 (I Expedição Científica) e, no período de
19 a 28 de novembro/2019 (II Expedição Científica do São Francisco), foram determinados
pontos de coleta ao longo do Baixo São Francisco (1 ponto, 250 metros antes da área de
captação da cidade; 1 ponto na área de captação de água do município e um terceiro ponto,
a 250 metros após a área de captação de água do município), sendo estes nos municípios
de Piranhas-AL (PI), Traipu-AL (TR), Pão de Açúcar-AL (PA), Igreja Nova-AL (IN),
Propriá-SE (PR), Penedo-AL (PE), Piaçabuçu-AL (PU) e foz do São Francisco, com o
intuito de detectar a presença de coliformes totais e E.coli. As amostras foram coletadas em
recipientes estéreis e armazenadas a 8 °C e, posteriormente, foram analisadas no Laboratório
de Aquicultura e Análises de Água (Laqua), UFAL/CECA.
Para o ensaio de coliformes totais e E. coli, foi utilizada a técnica do substrato
enzimático Aquateste Coli®–ONPG MUG (Registro na Anvisa: 100.970.10.149), de
acordo com a metodologia de Bianchin et al. (2012). Este procedimento faz uso de ONPG
(orto-nitro-fenolgalactopiranosideo) e MUG (umbeliferol-glucuronidase), dois nutrientes
referentes utilizados como fonte de carbono e metabolizados pelos coliformes totais através
da enzima β-galactosidase e para E. coli pela enzima β-glucuronidase. Essa técnica pode
ser modelo qualitativo, que determina ausência e presença, e quantitativo, utilizando tubos
múltiplos. Os resultados das análises quantitativas swão expressos como Número Mais
Provável (NMP) (Tabela 2) e os de coliformes em 100 mL da amostra. As tabelas para
obtenção do NMP de coliformes são baseadas na aplicação da distribuição de Poisson e
correspondem a uma estimativa estatística de concentração. Para determinação de E.coli, a
enzima ß-glucuronidase metaboliza o 4-methyl-umbelipheril-b-D-glucuronide (MUG) e
desenvolve fluorescência (Figura 20). Esta enzima hidrolisa o substrato, emitindo fluorescente
sob luz ultravioleta (UV) de comprimento de onda 365 nm. A fluorescência indica um teste
positivo para E. coli.
Tabela 2 - Número mais provável NMP para 5 porções de 20 mL.
Tubos positivos
0

NMP/100mL
<1,1

2
3
4

2,6
4,6
8

1

5

1,1

Fonte: Vivian Vasconcelos (2020).

>8,0

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

57

Figura 20 - Amostras em alíquotas iguais de 20 mL com emissão de fluorescência azul
esverdeada, indicando a presença de E. coli.

Fonte: Vivian Vasconcelos (2020).

De acordo com as análises microbiológicas realizadas, foi possível verificar, em todos
os pontos de coleta, a presença de coliformes totais em valores acima do limite indicado pela
resolução Conama nº 357, de 17 de maio de 2005; ainda de acordo com esses resultados,
apresentados na Tabela 3, foi possível atestar a alta presença de E. coli nas regiões de PropriáSE, Penedo-AL, Igreja Nova-AL, Piaçabuçu-AL > 8,0 NMP/100mL.
Nestes municípios, foram verificados problemas com efluentes e alta carência de
saneamento básico, com despejo de esgotos in natura em vários pontos das margens do
rio. Este estudo corrobora com Rodrigues et al. (2009), que relata que ambientes aquáticos
com derrame de esgoto doméstico ou presença de animais próximos às margens dos rios
evidenciam condições higiênico-sanitárias não satisfatórias, sendo considerados um risco
para a saúde pública.
Tabela 3 - Resultados das análises microbiológicas de coliformes totais e E.coli da água,
referentes às coletas realizadas em oito pontos distintos do Baixo São Francisco:
ponto 1: PI (Piranhas AL); ponto 2: TR ( Traipu-AL); ponto 3: PA (Pão
de Açúcar-AL); ponto 4: IN (Igreja Nova-AL); ponto 5: PR (Propriá-SE),
ponto 6: PE (Penedo-AL), Ponto 7: PU (Piaçabuçu-AL) e ponto 8: foz do
São Francisco.
TABELA NMP (Número mais provável)

PONTOS

2

0

NMP/100mL
(nº mais
provável)
< 1,1

(PI 2) Piranhas-AL

2

0

< 1,1

(TR 1) Traipu-AL

5

0

< 1,1

(PI 1) Piranhas-AL

58

TUBOS POSITIVOS
/100mL
Coliformes
E. coli
totais

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

(TR 2) Traipu-AL

5

0

< 1,1

(TR 3)Traipu-AL

5

0

< 1,1

(PA 1) Pão de Açúcar-AL

2

0

< 1,1

(PA 2) Pão de Açúcar-AL

5

0

< 1,1

(PA 3) Pão de Açúcar-AL

5

1

1,1

(IN 1) Igreja Nova-AL

5

0

< 1,1

(IN 2) Igreja Nova-AL

5

0

< 1,1

(PR 1) Propriá-SE

4

3

4,6

(PR 2) Propriá-SE

5

3

4,6

(PR 3) Propriá-SE

5

3

4,6

(PE 1) Penedo-AL

5

3

4,6

(PE 2) Penedo-AL

5

3

4,6

(PE 3)Penedo-AL

5

3

4,6

(PU 1) Piaçabuçu-AL

5

2

2,6

(PU 2) Piaçabuçu-AL

5

5

> 8,0

(PU 3) Piaçabuçu/AL

5

5

> 8,0

FOZ 1-AL

5

2

2,6

FOZ 2-AL

5

2

2,0

FOZ 3-AL

5

0

< 1,1

Fonte: Vivian Vasconcelos (2020).

Esses resultados são semelhantes aos apresentados pela Expedição Científica do
Baixo São Francisco realizada em 2018, que também evidenciou a presença de coliformes
totais e E.coli em 95% das amostras de água coletadas nos mesmos pontos amostrais, com
um detalhe que, no ano 2019, a vazão do rio São Francisco foi o dobro da relatada em 2018.
Os níveis de coliformes totais foram significativos (p < 0,05) em Piranhas, onde foram
encontradas concentrações mais baixas de coliformes totais em relação às outras localidades.
Dessa forma, este município pode ser considerado, com relação a este parâmetro, o de melhor
qualidade ambiental no Baixo São Francisco.
Quanto à E.coli, os pontos de coleta de Igreja Nova, Piranhas e Traipu apresentaram
menores índices bacteriológicos (Figura 21).
O crescimento populacional desordenado às margens dos rios causa o desmatamento
da vegetação e o comprometimento da qualidade da água, em virtude do despejo de esgotos
sanitários e do descarte de lixo impróprio, que contamina as águas com a presença de
coliformes e contaminantes procedentes dos resíduos urbanos e industriais (ANDREOLI,
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

59

2000). De acordo com a Anvisa (2000), a água de consumo não deve apresentar riscos à saúde
humana e deve possuir ausência de microbiológicos em 100 mL das amostras.
Figura 21 - Número mais provável de coliformes total e Escherichia coli em amostras de
água, por município.

Fonte:Emerson Soares (2020).

Entretanto, a ausência de estações de tratamento de efluentes adequadas, políticas
fiscalizatórias incipientes para coibir construções irregulares, políticas de educação ambiental
frágeis e ausência de projetos com tratamento de efluentes e resíduos corroboram para o
aumento dos níveis de coliformes totais e E. coli, acima dos índices preconizados, indicando
um risco para a saúde pública dos ribeirinhos e para o ecossistema aquático. Uma vez
contaminado o rio, a probabilidade de pacientes que acessam o sistema de saúde, muitas
vezes precários, aumenta significativamente, por causas que poderiam já ter sido solucionadas,
como investimentos na rede de tratamento de água e de esgotos.
Em um estudo realizado por Drummond et al. (2018) na bacia hidrográfica do rio
Xopotó-MG, em 2015, com intensas atividades antrópicas, analisaram-se 13 pontos de coleta
de água. Neste estudo, a bacia hidrográfica apresentou presença de E. coli em todos os pontos
de amostragem, além de diversificados genótipos de E. coli diarreiogênica, que são responsáveis
por causar doenças renais graves, sendo considerados como potencial risco de doenças para
a população que utiliza esse recurso hídrico; isso também evidencia o comprometimento da
qualidade microbiológica desta bacia, decorrente especialmente da carência de estações de
tratamento de esgoto (ETEs). Essa informação reforça a necessidade de políticas públicas
urgentes, pelos três elos da esfera governamental, em investimentos tecnológicos coordenados
para alcançar índices de qualidade ambiental satisfatórios no baixo curso do rio.
Souza (2017), estudando a sub-bacia hidrográfica do rio Poxim, em Sergipe, observou,
neste ambiente, intensa degradação antrópica. Ao analisar os níveis de coliformes totais e
termotolerantes-fecais ao longo do rio, detectou contaminação em todos os pontos de coleta,
desde a nascente até a foz. Esses resultados colaboram para o entendimento da realidade atual
do rio e para o incremento de ações futuras de saneamento básico não só na calha principal do
rio São Francisco, mas também em seus afluentes, com vistas à conservação do ecossistema.

60

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O alto nível de poluição antrópica nos rios torna-se preocupante, pois a água é
considerada um meio de transição de doenças e enfermidades (ZORZIN et al., 2011). O
valor máximo de coliformes termotolerantes-fecais permitido em águas de classe 1 é de 200
NMP, segundo Resolução do Conama nº 357, de 17 de março de 2005. Contudo, os valores
encontrados no presente trabalho atestam que estamos longes de atingir tal patamar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base nas análises microbiológicas realizadas neste trabalho, os resultados
demonstraram que a água coletada em todos os pontos de coleta está fora dos padrões de
potabilidade para consumo humano estabelecidos e recomendados pelas Portarias vigentes.
O trecho de Traipu a Propriá possuiu maiores níveis de coliformes totais; todavia, na região
de coleta em Propriá, Penedo e Piaçabuçu, foram observados os maiores níveis de E. coli.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

61

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62

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

SÃO FRANCISCO RIVER ESTUARY - DESIGN OF
THE VERTICAL AND LONGITUDINAL PROFILE
Ana Lúcia Eufrázio Romão
Aristides Pavani Filho

Carlucio Roberto Alves
SUMMARY

The fluviomarine and alluvial plain of the São Francisco River stretches from Penedo
(AL) to the coast. This region, formed by recent sediments, alluvial, eolian, and beaches, is
composed of flat surfaces, unconsolidated soil, and high salinity. Anthropogenic factors can
also influence estuary dynamics. The estuary of the river São Francisco, for example, suffers
impacts from engineering works. The São Francisco River estuary’s dynamic profile was
evaluated through temperature analysis, pH, electrical conductivity, salinity, climate change,
and river flow. We evaluated 04 locations from Penedo to the river mouth. The sampling
points were chosen considering the area influenced by the tidal regime and determined by
geoprocessing. Physicochemical parameters (electrical conductivity, resistivity, density, total
dissolved solids, pH, salinity, and water temperature) were determined in situ through the
use of an Aqual Troll 400 multiparameter probe, In-Situ Inc. 221 East Lincoln Avenue, Fort
Collins, CO 80524 USA. The data allowed us to observe that in the Penedo region, the tide
does not influence salinity; the water is classified as sweet and the region as a Tidal Zone of
the river. In Piaçabuçu, the tide influences salinity and conductivity; the flood tide changes
the salinity of freshwater on the surface to brackish in the bottom layer, characteristic of the
estuary with stratification in salt wedge and Mixture Zone. At the mouth, downstream, the
waters are classified as saline and the region as a Coastal Zone. The temperature is constant
longitudinally, and a vertical gradient elevation occurs from the bottom to the surface. The
pH underwent horizontal and vertical variation signaling the strong influence of tides and
salt stratification in the water column and the presence of organic matter in some analyzed
regions.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

63

CAPÍTULO 4
ESTUÁRIO DO RIO SÃO FRANCISCO:
DELINEAMENTO DO PERFIL LONGITUDINAL E
VERTICAL
Ana Lúcia Eufrázio Romão20
Aristides Pavani Filho21

Carlucio Roberto Alves22
O Estuário do São Francisco
Regiões de estuários são importantes nichos ecológicos, pois são compostas por rica
diversidade de espécies animais, especialmente peixes: cerca de 99% das espécies nectônicas.
Esses nichos são utilizados como áreas de berçário, bem como de reprodução, alimentação,
crescimento e abrigo para diversas espécies de animais marinhos. A composição, a abundância
e a diversidade da ictiofauna é diretamente influenciada por fenômenos naturais que ocorrem
na região e no entorno do complexo estuarino e pelas ações antrópicas que concorrem para
alteração do equilíbrio do complexo (BASILIO; GODINHO, 2008).
A elevada produtividade desses nichos é responsável pela subsistência de parte das
populações ribeirinhas. A despeito da sua importância, tanto para o ecossistema quanto para
as populações humanas, esses ambientes têm sido alvo de inúmeros impactos antrópicos,
principalmente através do despejo de efluentes domésticos e industriais. Esse fenômeno tem
alterado, sobremaneira, as condições ambientais destas regiões (SANTOS; BEZERRAJUNIOR; COSTA, 2009).
A alta produtividade e o fluxo de maré dos estuários são as principais vias de
transferência de água, sedimento, nutrientes e poluentes dos continentes para os oceanos
(COUCEIRO; SCHETTINI, 2010). Esses ambientes são os grandes responsáveis pela
fertilização das águas costeiras ou funcionam como verdadeiras estações depuradoras naturais
de esgotos antes do seu lançamento ao mar, evitando ou retardando a poluição marinha. Além
disso, a presença de produtores primários e de diversas populações de seres vivos, muitos
dos quais de alto valor econômico, confere a essas regiões elevada importância, não somente
econômica, mas, principalmente, ecológica (GREGO; DA SILVA; MONTES, 2017).
A hidrodinâmica, a topografia do estuário, a descarga fluvial, as correntes de maré e
o cisalhamento do vento constituem as principais forças que atuam na constituição do perfil
hidrodinâmico de um estuário, sendo esses os principais fatores que definem os processos de
mistura, circulação e estratificação em ambientes estuarinos (KJERFVE B, 1988).
As descargas fluviais têm importante influência na circulação hidrodinâmica dos
Mestre em Ciências Naturais. Doutoranda em Ciência Naturais pela Universidade Estadual do Ceará,
Campus Itaperi.
21
Diretor do Departamento de Tecnologias Estratégicas e de Produção (Detep) da Secretaria de Tecnologias
Aplicadas (Setap) do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações.
22
Professor Associado do Departamento de Química da Universidade Estadual do Ceará. Coordenador do
Programa de Pós-Graduação em Ciências Naturais. Professor Permanente no Programa de Pós-Graduações da
Rede Nordeste de Biotecnologia.
20

estuários. É através da interação entre os regimes de chuva, a hidrodinâmica desses ambientes
e a componente marinha que se estabelecem condições para o enriquecimento biológico
desses nichos (MOLISANI; CRUZ; MAIA, 2006).
A dinâmica dos estuários também pode sofrer influência de fatores antrópicos. O
estuário do rio São Francisco, por exemplo, sofre impactos decorrentes de obras de engenharia.
Ao longo do rio, é possível observar obras direcionadas à geração de energia elétrica, ao
abastecimento d’água, à navegação e à proteção contra enchentes.
Destacam-se, entre elas, as barragens, que alteram o regime hidrológico, modificando
a vazão líquida e sólida à jusante, por reterem grande parte dos sedimentos. O controle da
vazão do rio provocou modificações no seu padrão de descarga, ocasionando alterações nas
condições hidrodinâmicas características da área. As alterações hidrodinâmicas das correntes
promovem modificações no regime biológico da região, causando alterações no ecossistema
do estuário do São Francisco (SOUZA, 2015).
A planície flúvio-marinha e aluvial do rio São Francisco estende-se desde Penedo
(AL) até o litoral. Essa região, formada por sedimentos recentes, aluviares, eólicos e praias, é
constituída de superfícies planas, solo inconsolidado e elevada salinidade. Praticamente toda
a porção externa da planície costeira do rio São Francisco é margeada por dunas eólicas e, à
margem direita, no Estado de Sergipe, são registradas expressivas áreas de mangue. O delta e
a base dos tabuleiros são formados de terraços marinhos pleistocênicos e, a norte e nordeste,
de tabuleiros terciários de formação de barreiras. Outra característica importante é que o
estuário do rio São Francisco é dominado por movimentos oscilatórios da maré (SANTOS
et al., 2012; MEDEIROS; CAVALCANTE SEGUNDO; MAGALHÃES, 2015).
Os corpos hídricos ou mananciais são enquadrados em classes, em função dos usos
a que se destinam, respeitando-se os requisitos estabelecidos. De acordo a Resolução nº 20,
de 18 de junho de 1986, do Conselho Nacional do Meio Ambiente, as águas são distribuídas
em 9 classes: 05 delas enquadradas como águas doces (com salinidade igual ou inferior a
0,5%); 02 classificadas como águas salobras (salinidade entre 0,5% e 30%) e as outras 02 na
categoria de águas salinas (salinidade igual ou superior a 30%.).
A qualidade e os usos das águas de estuários, bem como de qualquer outro recurso
hídrico, é regulamentada através de legislação específica. A Resolução Conama nº 357, de
17 de março de 2005 e suas modificações, nas Resoluções nº 410 , de 2009, e nº 430, de
2011, dispõem sobre a classificação dos corpos de água e as diretrizes ambientais para o seu
enquadramento. Além desta, outra legislação importante é a Resolução Conama nº 274, de 29
de novembro de 2000, que determina os parâmetros e indicadores biológicos que asseguram
as condições de balneabilidade dos ecossistemas aquáticos.
O perfil dinâmico do estuário do rio São Francisco foi avaliado a partir da investigação
dos parâmetros físico-químicos, observando as variáveis climáticas e as alterações na dinâmica
do rio provocadas pelas interferências na variação nos fluxos pelo sistema de barragens e a
qualidade das águas com base nas resoluções pertinentes. O perfil dinâmico do estuário foi
determinado a partir dos parâmetros de temperatura, pH, condutividade elétrica e salinidade.

Processo de coleta de dados
Os pontos para amostragem foram determinados considerando a área que sofre
influência do regime de marés e através de geoprocessamento. Foram selecionados 04
pontos ao longo do estuário do rio São Francisco, compreendendo um percurso de 28 km
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

65

estendido de Penedo à foz. Foi realizada uma incursão a cada ponto entre os dias 24, 25 e
26 de novembro de 2019. A Tabela 4 apresenta a localização, a data e os horários de coleta.
Tabela 4 - Pontos de coleta conforme coordenada geográficas.
Ponto de Coleta

Ponto

Piaçabuçu

P2

Penedo

Foz montante
Foz jusante

Latitude

Longitude

Data

Início (h)

25/11/19

15:00

P1

10°17’37.86”S

36°35’20.05”O

24/11/19

P3

10°26’23.72”S

36°25’35.48”O

26/11/19

P4

10°24’39.30”S
10°27’48.57”S

36°26’2.89”O

36°24’21.91”O

Fonte:elaborado pelos autores (2019).

26/11/19

14:00
08:30
14:30

Ao longo da coluna d’água, entre a superfície e o fundo do rio, foi efetuada uma
sequência de medições, com distância de, no máximo, 50 cm entre elas, intercaladas entre
20 min, 30 min ou 60 min. A determinação dos parâmetros foi realizada durante os ciclos
de maré enchente e vazante, conforme pode ser observado partir do Gráfico 1.
Gráfico 1 - Simulação gráfica das condições de maré durante as coletas realizadas entre os
dias 24, 25 e 26.

Fonte:elaborado pelos autores (2019).

A determinação dos parâmetros físico-químicos (condutividade elétrica, resistividade,
densidade, sólidos totais dissolvidos, pH, salinidade e temperatura da água) foi realizada in
situ, através da utilização de sonda multiparamétrica Aqual Troll 400 da In-Situ Inc. 221
East Lincoln Avenue, Fort Collins, CO 80524 USA.
Foram utilizados temperatura, pH, condutividade elétrica e salinidade para discutir
a qualidade da água do estuário. A sistematização dos dados obtidos foi feita a partir da
estatística descritiva, tabulando as medianas e os desvios padrão. O tratamento estatístico
para a comparação dos dados foi realizado pelo teste de Análise da Variância (Anova).
Realizou-se, para cada parâmetro físico-químico, análise Anova de 1 fator a vários níveis, a

66

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

fim de verificar influência da profundidade e da condição de maré (de vazante a cheia) nos
parâmetros físico-químicos dos pontos estudados.
A região do estuário avaliada no presente estudo está localizada entre os paralelos
10°17’ e 10°31’ de latitude Sul e os meridianos 36°35’ e 36°25’ de longitude Oeste e estendese desde a desembocadura do rio até a cidade de Penedo.

Condições identificadas no estuário
Penedo (P1)
Em Penedo, as tomadas de dados foram realizas às 14:00, 15:00 e 16:00 horas, em
momentos de topo de maré (Gráfico 2).

Fonte: elaborado pelos autores (2019).

Os dados foram tratados estatisticamente e os resumos apresentados na Tabela 5. A
altura máxima da coluna d’água no ponto avaliado atingiu 3,40 m.
Tabela 5 - Variação dos parâmetros relacionados condutividade, salinidade, temperatura e
pH em Penedo.
Funções
Estatísticas

Média
Desvio padrão
Máximo
Mínimo
N
Limite de decisão

Cond.
(µS/cm)
91,28

Propriedades 14:00 h
Sal.
Temp.
(PSU)
(oC)
0,04
28,53

Penedo
pH
(pH)
8,44

Cond.
(µS/cm)
92,95

Propriedades 15:00 h
Sal.
Temp.
(PSU)
(oC)
0,04
28,7

pH
(pH)
8,45

Cond.
(µS/cm)
93,11

Propriedades 16:00 h
Sal.
Temp.
(PSU)
(oC)
0,041
28,55

pH
(pH)
8,36

0,133

-

0,111

0,021

0,091

-

0,231

0,045

0,08

-

0,026

0,01

91,66

0,04

28,88

8,47

93,17

0,04

29,34

8,6

93,25

0,041

28,56

8,36

91,22

0,039

28,48

8,38

92,87

0,04

28,6

8,39

92,96

0,04

28,49

8,33

24

24

24

24

24

25

25

24

9

9

9

9

-

-

-

-

-

-

-

-

041

0,00

0,024

0,04

Fonte:elaborado pelos autores (2019).

Os valores relativos aos parâmetros de condutividade, salinidade, temperatura e pH,
obtidos em Penedo, encontram-se plotados em função da profundidade nos Gráficos A, B,
C e D da Figura 22.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

67

Figura 22 - Gráficos dos parâmetros físico-químicos coletados em Penedo, plotados em
função da profundidade.

Fonte:elaborado pelos autores (2019).

As linhas referentes às medidas do Gráfico A (Figura 22) evidenciam que a
condutividade, nesse ponto, varia de forma pouco expressiva. Esse fenômeno deve estar
relacionado à pouca influência do volume de água do mar que chega até o ponto avaliado
ou em função da pouca variação dos íons (poluentes) despejados ou que chegam na área
trazidos pela corrente do rio.
As análises estatísticas demostraram que, no decorrer do tempo de avaliação, os
parâmetros de condutividade e salinidade não sofreram alterações significativas (Figura 23,
Gráficos A e B).

68

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 23 - Gráficos dos resultados das análises estatísticas da condutividade, salinidade,
temperatura e pressão em função da evolução da maré em Penedo. Legenda:
a1, a2 e a3 referentes às médias dos paramentos obtidos às 14:00, 15:00 e 16:00
horas, respectivamente.

Fonte:elaborado pelos autores (2019).

As alterações nos parâmetros, ao longo do tempo avaliado, relativas à temperatura e
pH (Gráficos C e D) foram consideradas significativas. O aumento da temperatura pode estar
relacionado ao acúmulo de energia referente à incidência de radiação solar, tendo influência,
inclusive, na conservação de calor na região de fundo. A alteração de pH no ponto avaliado
pode estar relacionada à concentração de matéria orgânica em decomposição.
Durante a I Expedição Científica no Rio São Francisco, a equipe responsável pela
Qualidade da Água determinou que a salinidade média na região inscrita entre Traipu e
Penedo apresentou salinidade média de 0,02‰ ± 0,004‰ e valores mínimos de 0,02‰ e
máximos de 0,03‰.
No ponto avaliado, de acordo com os dados coletados e a Resolução nº 20, de 18 de
junho de 1986, do Conama, as águas estão enquadradas como águas doces, com salinidade
igual ou inferior a 0,5‰.

Piaçabuçu (P2)
Em Piaçabuçu, P2 – Lat 10°24’39.30”S e Long 36°26’2.89”O, distante 11,3 km da
foz, foram realizadas 4 medidas sob condição de maré alta, às 15:00, 16:00, 17:00 e 18:00
horas, conforme Gráfico 3.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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Gráfico 3 - Simulação da condição de maré durante realização das medidas em Piaçabuçu.

Fonte:elaborado pelos autores (2019).

Na Tabela 6, encontram-se os dados referentes às análises estatísticas ao longo da
evolução da maré, exibindo, inclusive, os valores mínimos e máximos de cada parâmetro
avaliado em Piaçabuçu. No ponto avaliado, a profundidade do rio foi determinada em 14,37 m.
Tabela 6 - Variação dos parâmetros relacionados à condutividade, salinidade, temperatura e
pH no trecho de Piaçabuçu.
Piaçabuçu
Funções
estatísticas
Média
Desvio
padrão
Mínimo

Máximo

N
Limite de
Decisão

Propriedades (15:00)

Propriedades (16:00)

Propriedades (17:00)

Propriedades (18:00)

Cond Sal. Temp. pH Cond. Sal. Temp. pH Cond. Sal. Temp. pH Cond. Sal. Temp. pH
(µS/cm) (PSU) (oC) (pH) (µS/cm) (PSU) (oC) (pH) (µS/cm) (PSU) (oC) (pH) (µS/cm) (PSU) (oC) (pH)
1122,5

0,52

28,9

7,7

3943,6

1,96

28,8

7,6

9221,2

5,02

28,7

7,6

5210,2

2,77

28,6

7,9

-

-

0,04

0,12

-

-

0,03

0,08

-

-

0,1

0,06

-

-

0,05

0,26

607,4

120,1

415,7

0,19

28,9

7,6

2251,9

1,08

28,8

7,5

0,28

28,5

7,4

0,05

28,5

7,6

1671,7

0,79

29

7,9

5129,1

2,59

28,9

7,7 18878,6 10,59

28,8

7,7 15622,4 8,62

28,7

8,4

22

22

22

22

19

19

19

19

33

33

33

33

20

20

20

-

-

0,034 0,17 3943,6

1,96

28,8

7,6

-

-

0,03

0,03 5210,2

2,77

28,6

7,9

20

Fonte: elaborado pelos autores (2019).

A partir do ponto 2 (Piaçabuçu), é possível perceber a forte influência da maré sobre
os parâmetros físico-químicos no estuário. Nesse ponto, o avanço da cunha salina é evidente,
observável a partir das leituras expostas no Gráfico B da Figura 24.
Em relação à profundidade, a oscilação de pH mais significativa ocorreu às 18:00
horas (Gráfico D da Figura 24), apresentando variação de quase um ponto entre superfície
e meio do rio, indicando que o pH tende à alcalinidade do fundo à superfície.
Já a oscilação de temperatura mais importante ocorreu às 17:00 horas (Gráfico C
da Figura 24), coincidindo com a inversão de direção do movimento da cunha salina. A
temperatura mais branda em profundidade pode estar relacionada ao avanço da cunha salina
em direção ao continente, trazendo massa de água mais fria do oceano ao ponto avaliado.

70

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 24 - Gráficos dos parâmetros físico-químicos coletados em Piaçabuçu, em função
da profundidade.

Fonte: elaborado pelos autores (2019).

As leituras realizadas às 17:00h revelam o aumento progressivo e substancial da
salinidade e da condutividade, com o aumento da profundidade, deixando bem claro o
comportamento da cunha. Nessa região, sob maré alta, a água é enquadrada como salobra.
Durante o intervalo observado, foi possível registrar oscilações de pH de 7,43 a 8,41
e temperaturas que variaram de 28,5 °C a 29,0 °C (Gráficos A e B da Figura 24). Os valores
registrados para temperatura e pH variaram estatisticamente, em razão da profundidade de
coleta e em função da evolução da maré (Gráficos A, B, C e D, Figura 25).
Figura 25 - Gráficos dos resultados das análises estatísticas da condutividade, salinidade,
temperatura e pressão em função da evolução da profundidade em Piaçabuçu.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

71

Fonte: elaborado pelos autores (2019).
Legenda: a1, a2 e a3 referente às médias dos paramentos medidos à superfície, meio e fundo
respectivamente, as 15:00h – Gráficos A e B, às 18:00h – Gráficos C e D.

O estuário do rio São Francisco comporta-se apresentando salinidade mais alta
próximo à foz e no fundo do rio, sendo, portanto, caracterizado como do tipo estratificado,
em forma de cunha salina. Próximo da foz, a variação de salinidade é bastante significativa,
oscilando entre 0,03‰ e 35‰, podendo chegar a 39‰. Áreas apresentando esse tipo de
oscilações são enquadradas como zona de mistura. Sua ocorrência pode ser atribuída à
variabilidade da descarga fluvial, aos ciclos de marés e à ação dos ventos (FONSECA, 2018).

Foz a montante (P3)
Na região da foz a montante, distante 7,9 km da costa, as coletas de dados ocorreram
no período da manhã, sob condição de baixa-mar, tendo sido realizado o conjunto de seis
amostragens, de 08:30 h às 11:00 h, intercaladas por 30 min cada tomada, conforme Gráfico 4.
Gráfico 4 - Simulação da condição de maré durante a realização das medidas na foz a
montante

Fonte: elaborado pelos autores (2019).

Os dados tratados estatisticamente e sumarizados a partir das coletas realizadas na foz
a montante foram organizados na Tabela 7. No período avaliado, o leito do rio encontrava-se
a 7,80 m de profundidade.
Na região, a influência da maré tem significativa importância. Nessa zona, é possível

72

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

observar a alteração da salinidade e condutividade em função da variação da profundidade e
da maré, mesmo sob condição de maré vazante. Contudo, sob baixa-mar, as águas superficiais
de fundo e meio seriam classificadas como doces. No entanto, com o avanço da maré, a cunha
salina tende a alcançar o ponto avaliado, deixando a zona de fundo salobra. No ponto, foi
possível registrar oscilação de salinidade entre 0,04 PSU a 0,64 PSU.
Tabela 7 - Variação dos parâmetros relacionados condutividade, salinidade, temperatura e
pH no trecho da foz a montante.
Funções
estatísticas

Média
Desvio padrão
Mínimo
Máximo
N
Limite de
Decisão

Funções
estatísticas

Média
Desvio padrão
Mínimo
Máximo
N
Limite de
Decisão

Foz montante

Propriedades (08:30)
Cond.
Sal. Temp. pH
(pH)
(µS/cm) (PSU) (oC)
967,5
0,5
28,58
7,4

Propriedades (09:00)
Cond.
Sal. Temp.
(µS/cm)
(PSU) (oC)
386,9
0,2
28,6

pH
(pH)
7,9

Propriedades (09:30)
Cond.
Sal. Temp.
(µS/cm)
(PSU) (oC)
113,2
0,5
28,7

pH
(pH)
7,5

474,5

7,3

193,7

7,7

105,9

7,4

27

19

19

15

178,2

0,1

1360,7

0,6

27
-

0,0

0,1

28,6

7,8

0,2

28,6

27

27

-

0,002

0,193

Propriedades (10:00)
Cond.
Sal. Temp. pH
(pH)
(µS/cm) (PSU) (oC)
114,5
0,1
28,8
7,8
5,9

0,0

128,5

0,1

107,3
19
-

0,0

0,2

28,8

8,1

0,0

28,8

20

20

-

-

91,7

0,0

550,2

0,3

-

28,6

19

19

-

28,6
-

Propriedades (10:30)
Cond.
Sal. Temp.
(µS/cm)
(PSU) (oC)
28,9
0,0
28,9
0,0

0,0

28,9

0,0

7,6

28,9

20

18

-

0,0

0,1

-

0,0

0,0

28,9

18

18

-

28,9
-

0,1

7,1

0,0

127,5

0,1

-

-

-

pH
(pH)
7,9

Cond.
(µS/cm)
100,4

7,7

99,2

8,0

0,1

1,0

102,4

-

-

Fonte:elaborado pelos autores (2019).

17

28,7

15

15

28,9
-

Propriedades (11:00)

8,1
18

0,0

0,0

Sal. Temp.
(PSU) (oC)
0,0
29,0
0,0
0,0

0,0

28,9

0,0
7,6
15
-

pH
(pH)
7,9
0,1

7,8

0,0

29,0

8,1

-

0,0096

0,052

17

17

17

O pH na área variou com a profundidade e com o avanço da maré, conforme mostra
o Gráfico D da Figura 26. No ponto avaliado, apesar das linhas apresentarem comportamento
semelhantes, a aferição realizada às 8:30 h apresentou evolução de comportamento anômalo.
Enquanto o pH tende a ser mais elevado no fundo e/ou na superfície nas demais medições,
durante a realizada às 8:30 h, o pH mostra-se mais elevado no meio.
O comportamento discretamente anômalo, durante a medição supracitada, pode
estar relacionado a algum pico de liberação de gás carbônico na água, decorrente do processo
de oxidação do excesso de matéria orgânica pelos microrganismos aeróbicos no intervalo
referente à aferição, ocasião em que era possível observar a presença massiva de plantas
aquáticas na superfície do rio.
Figura 26 - Gráficos dos parâmetros físico-químicos coletados na foz a montante em função
da profundidade.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

73

Fonte: elaborado pelos autores (2019).

As análises da temperatura permitiram concluir que a variação observada não
foi estatisticamente significativa. Durante o intervalo avaliado e conforme variou-se a
profundidade, observou-se que este parâmetro manteve-se constante, podendo ser observado
nos Gráficos A e C da Figura 27.
Figura 27 - Gráficos dos resultados das análises estatísticas da condutividade, salinidade,
temperatura e pressão em função da evolução da profundidade na foz a
montante.

Fonte: Próprios autores (2019).
Legenda: a1, a2 e a3 referentes às médias dos paramentos medidos à superfície, meio e fundo,
respectivamente, às 08:30h – gráficos A e B; às 11:00h – Gráficos C e D

Foz jusante (P4)
Na última região avaliada, no trecho da foz à jusante, distante 4,8 km da costa, as
coletas de dados foram processadas sob a condição de maré enchente (Gráfico 5), tendo sido
realizadas 4 tomadas de dados, intercaladas por intervalos de 30 min entre elas. Os dados
coletados revelam a intensa influência que a maré tem sobre a região.

74

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Gráfico 5 - Simulação da condição de maré durante realização das medidas na foz a jusante

Fonte: elaborado pelos autores (2019).

Os dados coletados na foz a jusante, às 14:30, 15:00, 15:30 e 16:00 horas, foram
tratados estatisticamente e os resumos estão apresentados na Tabela 28. Na região, a altura
máxima da coluna d’água, ou do leito do rio, atingiu 7,70 m.
Tabela 28 - Variação dos parâmetros relacionados condutividade, salinidade, temperatura e
pH no trecho da foz à jusante.
Funções
estatísticas
Média

Foz jusante

Propriedades 14:30

Propriedades 15:00

Propriedades 15:30

Propriedades 16:00

Cond. Sal. Temp. pH
(µS/cm) (PSU) (oC) (pH)

Cond. Sal. Temp. pH Cond. Sal. Temp. pH Cond. Sal. Temp. pH
(µS/cm) (PSU) (oC) (pH) (µS/cm) (PSU) (oC) (pH) (µS/cm) (PSU) (oC) (pH)

44653,8 27,5

28,4

7,4

50830,9 31,8

28,2

7,3

53891,8 34,0

28,1

7,3

52010,1 34,5

28,1

7,3

6,5

0,2

0,0

5225,6

3,7

0,2

0,0

1511,3

1,1

0,1

0,0

11725,2

1,2

0,1

0,0

Mínimo

18525,2 10,3

28,2

7,3

35122,9 20,9

28,1

7,3

51654,5 32,3

28,0

7,3

0,7

32,4

28,0

7,3

Máximo

51494,2 32,2

29,0

7,4

54426,1 34,4

28,6

7,4

55291,5 35,0

28,3

7,4

55876,6 35,5

28,3

7,3

17

16

Desvio padrão 9587,7

N

23

23

23

23

25

25

25

25

17

17

Limite de
Decisão

-

-

0,002

0,019

-

-

-

-

-

-

21

21

21

21

-

-

0,01

0,052

Fonte: elaborado pelos autores (2019).

Conforme pode ser observado a partir dos Gráficos A e B da Figura 29, tanto a
subida da maré quanto o aumento da profundidade no trecho avaliado contribuem para a
elevação expressiva da salinidade e da condutividade ao longo do tempo e em profundidade.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

75

Figura 29 - Gráficos dos parâmetros físico-químicos coletados na foz a jusante em função
da profundidade.

Fonte: elaborado pelos autores (2019).

Nessa região, os gradientes podem ser bem representados pelas linhas íngremes
observadas a partir das leituras realizadas às 14:30 e 15:00 horas, ocasiões em que a maré
ainda avançava em direção ao continente. Conforme a maré avança, a água salina tende a
subir, ocupando as zonas superficiais.
A partir dos dados coletados, foi possível observar (Gráfico 6) que às 16:00 h (L4)
ocorre a inversão do fluxo natural do rio, a força da maré vence a força da descarga do rio,
tornando a água do estuário completamente salina desde a superfície ao fundo. Nesse instante,
a salinidade registrada, entre 32 e 35 PSU, varia muito pouco entre fundo e superfície.

76

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Gráfico 6 - Salinidade em função da profundidade e da maré (simulação) em perspectiva

* Fonte: Próprios autores (2019).

Souza (2015), durante o mês de fevereiro de 2014, em condições de maré de sizígia e
enchente (altura em torno de 2,0 metros), observou que, na região, ocorre forte estratificação
salina do tipo cunha salina. O autor registou salinidade superficial oscilando entre 4 a 18 g/
kg, atingindo valores de até 35 g/kg em apenas 2 metros de profundidade.
O autor relatou que a estratificação do tipo cunha salina manteve-se durante o
intervalo avaliado. Entretanto, ocorreu alteração no grau de intensidade e posição ao longo
da coluna d’água. Durante os picos de maré vazante, o fluxo da corrente do rio predomina
sobre a força da maré e empurra água doce em direção à foz, forçando a estratificação de
salinidade para as camadas mais profundas do canal principal.
Análises estatísticas revelaram que temperatura e pH sofrem alterações ao longo da
coluna d’água (Figura 30, Gráficos A, B, C e D).
Figura 8 - Gráficos dos resultados das análises estatísticas da condutividade, salinidade,
temperatura e pressão em função da evolução da profundidade em Piaçabuçu
a montante foz a jusante.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

77

Fonte: elaborado pelos autores (2019).
Legenda: a1, a2 e a3 referentes às médias dos paramentos medidos à superfície, meio e fundo,
respectivamente, às 14:30 h – Gráficos A e B; às 16:00 h – Gráficos C e D.

Características do estuário
De acordo com Kjerfve (1987), regiões estuarinas são zoneadas tendo como base os
processos de mistura, circulação e estratificação da salinidade, sendo divididas em três sessões:
 Zona de Maré do rio (ZR): caracterizada como porção fluvial sujeita à influência da
ação da maré, contudo, apresentando salinidade praticamente zero;
 Zona de Mistura (ZM): região de acentuada variação longitudinal e vertical da
salinidade, provocada pela mistura da água doce da drenagem continental com a água
salgada do mar;
 Zona Costeira (ZC): porção costeira adjacente, que se estende até a frente da pluma
estuarina que delimita a Camada Limite Costeira (CLC).
A região costeira do São Francisco é dominada pelo regime de ondas de alta energia e
por mesomarés do tipo semi-diurno, com marés de sizígia atingindo 2,6 m. As Águas Tropicais
de Superfície (ATS) da Corrente Sul Equatorial (CSE) predominam sobre a plataforma
continental e influenciam diretamente as águas costeiras. Na região, a profundidade do rio
varia, podendo atingir aproximadamente 14 m próximo à foz (MEDEIROS; KNOPPERS;
SOUZA, 2007).
A área do estuário está delimitada a 10°17’ – 10°31’S e 36°25’ –36°36’W. Seu clima é
classificado como quente e úmido, com precipitação acumulada anual variando entre 1.250
mm e 1.500 mm, cuja estação chuvosa ocorre entre os meses de maio a julho (COTOVICZ
JR. et al., 2016).
No mês anterior à expedição, por determinação do Operador Nacional do Sistema
Elétrico (ONS) e concordância da Agência Nacional de Águas (ANA), a Companhia
Hidroelétrica do São Francisco (CHESF), no dia 22 de outubro de 2019, elevou a vazão no
rio São Francisco. O aumento da vazão, que passou do patamar médio diário, em dias úteis,
de 950m³/s (metro cúbicos por segundo) para 1.280m³/s, ocorreu a partir do reservatório de
Xingó, na divisa de Alagoas e Sergipe. Além de ter como objetivo atender às necessidades
eletroenergéticas dos meses de outubro e novembro, quando se registra menor geração de
energia eólica na região Nordeste, esperava-se que o aumento das correntes no rio impedisse
que o óleo, oriundo do derramamento de petróleo nas praias do Nordeste, adentrasse o
estuário ( COMPANHIA HIDRELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO, 2019; UOL, 2019).
Dentre os parâmetros utilizados para indicar a qualidade de um corpo hídrico está
o pH. De acordo com Vanzela, Hernadez e Franccom (2010), vários são os fatores que
podem concorrer para a alteração do pH de um corpo hídrico. A redução do pH pode estar

78

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

relacionada, por exemplo, com a presença de áreas agricultadas, matas degradadas, moradias
no entorno do corpo hídrico, em função do maior escoamento superficial provocado por
carreamento de sólidos ou em decorrência do processo de oxidação do excesso de matéria
orgânica pelos microrganismos aeróbicos, com consequente liberação de gás carbônico na água.
Conforme Silva e colaboradores (2009), as alterações de pH nos corpos hídricos
também podem ser provocados pela presença de água da chuva. O aumento no volume de
água dos rios pode fazer com que a acidez da água diminua, provocando a elevação do pH e
fazendo com que ele se aproxime da neutralidade, em função da maior diluição dos compostos
dissolvidos e do escoamento mais rápido.
Segundo Piratoba (2017), um dos parâmetros que sofre alteração, de acordo com
a qualidade da água, é a condutividade elétrica. Esse importante parâmetro pode revelar
modificações na composição dos corpos d’água sem, contudo, determinar quantidades
e componentes. A condutividade da água está, estatisticamente, correlacionada com a
concentração de íons e de diversos elementos; já nas regiões tropicais, está relacionada com
a periodicidade de precipitações, bem como com as características geoquímicas da região.
Na avaliação da qualidade da água, a temperatura é parâmetro importante não
apenas por sofrer alterações sazonais e locais, mas também porque alterações bruscas ou
significativas impactam diretamente na velocidade de reações químicas e biológicas, na taxa
de solubilidade do Oxigênio dissolvido e na densidade da água. Além disso, temperaturas
mais elevadas podem tornar alguns compostos mais tóxicos para os organismos aquáticos
ou afetar a sobrevivência de alguns organismos estenotérmicos. Alterações nesse parâmetro
podem ser provocadas por causas naturais, como incidência de energia solar, ou por fatores
antropogênicos, como despejos de efluentes industriais (MANZOLLI; PAIVA, 2011).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As análises dos dados permitiram observar que, na região de Penedo, a maré não
tem influência sobre a salinidade do rio, podendo a água, no ponto avaliado, ser classificada
como doce e a região como Zona de Maré do rio. Em Piaçabuçu, a maré passa a ter
influência significativa na salinidade e na condutividade. No trecho, a entrada da cunha salina,
proporcionada pela maré enchente, altera a salinidade da água, podendo torná-la salobra na
camada de fundo, contudo, mantendo a água das camadas superficiais doce. Nessa região, é
possível observar claramente o gradiente de salinidade proporcionado pelo seu avanço em
cunha, característica do estuário com estratificação em cunha salina. Em baixa-mar, as águas
de superfície e de fundo encontram-se enquadradas como água doces e/ou salobras. De acordo
com os dados coletados, essa região pode ser caracterizada como Zona de Mistura. Na região
de foz a jusante, sob condição de topo de maré, a salinidade é significativamente marcante
desde a superfície ao fundo, apresentado salinidade equivalente à água do mar, acima de 30
PSU, sendo classificada como água salina. As análises dos dados permitem classificar a região
como Zona Costeira.
Durantes os intervalos avaliados, a temperatura mostrou-se constante
longitudinalmente, não apresentando variação expressiva a ser considerada entre os pontos
avaliados. Contudo, verticalmente, foi possível observar discreta tendência de elevação em
gradiente do fundo em relação à superfície, que pode ser ocasionada tanto pela influência
da incidência da radiação solar sobre as águas superficiais como também pelo avanço da
cunha salina, trazendo massa de água mais fria diretamente do oceano. O pH foi um dos
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

79

parâmetros que mais sofreu variação horizontal e vertical, sinalizando a forte influência da
maré e da estratificação salina da coluna da d’água e/ou da presença de matéria orgânica em
algumas regiões analisadas.
Apesar dos resultados apontarem para as condições acima descritas, é necessário
considerar a influência que a elevação do fluxo do rio teve sobre os parâmetros avaliados, sendo
essencial a continuidade dos estudos para futuras comparações, tendo em vista as possíveis
modificações provocadas na dinâmica do rio sob a ação desse interferente.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

81

STRUCTURE AND DYNAMICS OF
PHYTOPLANKTON FROM THE LOWER SÃO
FRANCISCO (ALAGOAS AND SERGIPE)
Élica Amara Cecília Guedes

Manoel Messias da Silva Costa
Ana Karolina Lopes da Silva

Mariana Melo Fireman

SUMMARY
The study of lacustrine phytoplankton constitutes fundamental information on the
structure of an aquatic environment’s biological production. It is of utmost importance to
understand the environment since, within each environment, there is a set of phytoplanktonic
forms whose variety, abundance, and distribution are exclusive and depend on adaptation
to abiotic characteristics. Forty-six samples were analyzed, collected from 11/19 to 11/28 of
2019, the collection points were determined along the Lower São Francisco. The samples
were obtained using horizontal surface trawls, with a plankton net (20 µM mesh), and deep
trawling with a Van Dorn bottle. The samples were packed in vials and preserved in 4%
formaldehyde, adequately labeled. Aliquots of 1 mL were examined by direct analysis under
a binocular optical microscope, and the identification was based on relevant bibliography
on the subject. The following analyses were performed, species richness, relative abundance,
frequency of occurrence, Shannon diversity (H’), equitability ( J), Simpson dominance (ʎ)
and density (cel.mL-1), and statistical tests. The divisions with the highest representativeness
of species richness were Chlorophyta (60 spp.), Bacillariophyta (39 spp.), and Cyanobacteria
(24 spp.) in Traipu/Al. Dominant species that contributed to cell density were observed,
among them, chlorophyciae Monoraphidium griffithii (97.2%), M. komarkovae (89.3%),
Closterium moniliferum (77.8%), Monoraphidium intermedium (69%), and Eudorina
elegans (60%); and diatoms Terpsinöe musica (94.1%), Cyclotella meneghiniana (88.2%),
and Coscinodiscus radiatus (80,4%). Chlorophyciae and diatoms were the dominant groups
regarding cell richness, abundance, and density, thus contributing to the ecological indices that
presented specific diversity values from medium to a high diversity, and equitable distribution
of the species. Also, low values of cyanobacteria density were observed. Thus, the river water
quality will not pose risks to public health and high investments in the implementation of a
Water Treatment Plant (WTP) and the various multiple uses (navigation, recreation, supply,
irrigation, and the like).

82

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 5
ESTRUTURA E DINÂMICA DO FITOPLÂNCTON DO
BAIXO SÃO FRANCISCO (ALAGOAS E SERGIPE)
Élica Amara Cecília Guedes23

Manoel Messias da Silva Costa24
Ana Karolina Lopes da Silva25
Mariana Melo Fireman26

INTRODUÇÃO

O ambiente aquático é essencial na manutenção dos ecossistemas do planeta
e na existência humana, pois a água possui importância primordial para a vida,
uma vez que nenhum processo metabólico ocorre sem a sua ação direta ou indireta
(ESTEVES, 2011). Dentre os inúmeros organismos que habitam os ambientes
aquáticos, a comunidade fitoplanctônica é constituída por microalgas de diferentes
grupos taxonômicos capazes de realizar fotossíntese e que apresentam um conjunto de
formas cuja variedade, abundância e distribuição são próprias e dependem da adaptação
às características abióticas, sendo de extrema importância para a compreensão do meio
(REVIERS, 2006; REYNOLDS, 2006; RAVEN et al., 2014). Estes organismos,
predominantemente autotróficos, são a base da cadeia alimentar em ecossistemas
aquáticos e apresentam extrema importância para toda a comunidade aquática,
visto que a abundância, a riqueza e a biomassa impulsionam a produtividade para os
demais níveis tróficos (PEREIRA; SOARES-GOMES, 2002).
Sua alta taxa de reprodução, essencial para a manutenção da vida nos ambientes
lacustres, em estado de desequilíbrio, pode atingir grandes concentrações, alterando a coloração
da água, gerando impactos negativos para a comunidade aquática e a saúde humana, em
consequência das alterações dos fatores abióticos (disponibilidade de nutrientes, mudanças
climáticas) e bióticos (competição, predação, atividades antropogênicas), acarretando florações
algais, comprometendo a integridade da biota e intensificando o processo de eutrofização
(ZANATA; ESPÍNDOLA, 2002; CECY; SILVA, 2004).
O aumento da eutrofização em ambientes lóticos advindos de múltiplos usos, como
abastecimento público, lazer, aquicultura e pesca, além de se modificar rapidamente, tanto
no tempo como no espaço, tem permitido um rápido crescimento de algumas espécies de
fitoplâncton, principalmente aquelas pertencentes às cianobactérias (Nostocales, Chroococcales)
diatomáceas (bacilariofíceas cêntricas) e clorofíceas (Desmidiales), que estão se tornando

Professora Doutora, Chefe do Laboratório de Ficologia (Labofic), Setor de Botânica, Universidade Federal
de Alagoas (Ufal).
24
Professor Doutor, Setor de Biologia, Instituto Federal de Alagoas (Ifal).
25
Estudante de Graduação em Biologia, estagiária do Laboratório de Ficologia (Labofic), Setor de Botânica,
Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
26
Graduação em Biologia, estagiária do Laboratório de Ficologia (Labofic), Setor de Botânica, Universidade
Federal de Alagoas (Ufal).
23

cada vez mais comuns e dominantes nesses ambientes, tanto qualitativamente quanto
quantitativamente, implicando em potenciais danos à saúde da população (PANOSSO et
al., 2007; COSTA et al., 2009).
Tais estudos com o fitoplâncton contribuem preponderantemente para a compreensão
do funcionamento do sistema como um todo, devido à sua contribuição essencial na elaboração
da matéria orgânica necessária à sobrevivência dos organismos herbívoros desses ambientes
(ESTEVES; SANT’ANNA, 2006; CÂMARA et al., 2007).
Assim, o presente trabalho teve como objetivo analisar a estrutura da comunidade
fitoplanctônica e dos índice ecológicos, proporcionando importantes informações sobre os
ecossistemas que estão em estudo como bioindicadores da qualidade da água.

METODOLOGIA
Área de estudo e coleta das amostras
Foram coletadas 46 amostras no período de 19 a 28/11/2019, quando foram
determinados pontos de coleta ao longo do trecho do Baixo São Francisco, entre os Estados
de Alagoas e Sergipe, sendo definidos três pontos de coletas: Ponto 1 (região próxima à
margem do rio, lado de Alagoas), Ponto 2 (região mediana do rio, entre Alagoas e Sergipe)
e Ponto 3 (região próxima à margem do rio, lado de Sergipe), tendo como referência os
municípios de Piranhas-AL (PI), Traipu-AL (TR), Pão de Açúcar-AL (PA), Igreja Nova-AL
(IN), Propriá-SE (PR), Penedo-AL (PE), Piaçabuçu-AL (PU); e dois pontos de coletas para
a foz do São Francisco: Ponto 1 (região próxima ao Estado de Alagoas) e Ponto 2 (região
próxima ao Estado de Sergipe).
As amostras foram obtidas de duas formas: a primeira através de arrastos horizontais e
subsuperficiais, utilizando-se rede de plâncton com abertura de malha de 20 µm (superfície),
e a segunda através de coletas nas regiões mais profundas de cada ponto, sendo realizada
com auxílio de uma garrafa coletora do tipo “Van Dorn”, com capacidade de 1 litro. Após
as coletas, as amostras foram acondicionadas em frascos de plástico de aproximadamente
100 mL, devidamente etiquetados e preservadas em formalina a 4%, sendo posteriormente
transportados ao Laboratório de Ficologia do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde
(ICBS) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Análise das amostras
A composição do microfitoplâncton foi determinada a partir da análise de montagens
lâmina-lamínulas (lâminas temporárias), visualizadas sob um microscópio óptico binocular
Zeiss (Axioscop 40). Para o estudo quantitativo, foram analisadas alíquotas de 1 mL, de
acordo com o método de método de Sedgwick-Rafter (S-R) (APHA; AWWA; WEF, 2005;
COMPANHIA AMBIENTAL DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2011).
Para a identificação taxonômica de gêneros e/ou espécies, foram consultados trabalhos
específicos na área: Bourrely (1970), Streble e Krauter (1987), Anagnostidis e Komarek
(1990), Parra e Bicudo (1995), Moreno et al. (1996) e Komarek & Anagnostidis (1998). Foi
utilizado o Sistema de Classificação de Round et al. (1990) para enquadramento taxonômico
das diatomáceas, o de Anagnostidis e Komarek (1988) e Komarek e Anagnostidis (2005) para
Cyanobacteria, Buchheim et al. (2001) para Chlorophyta e o Sistema de Van den Hoek et
al. (1995) para os demais grupos taxonômicos. Todos os nomes científicos de espécies foram

84

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

checados junto ao banco de dados internacional ITIS (Integrated Taxonomic Information
System) e Algaebase (GUIRY; GUIRY, 2014).

Índices ecológicos
Após a identificação, foram realizadas contagens dos organismos e calculada a
abundância relativa de cada táxon, utilizado a fórmula: A = N x 100 / n onde, N = nº de
espécies na amostra; n = nº total de espécies, sendo estabelecidos os seguintes critérios:
dominante – ocorrência maior do que 50%; abundante – ocorrência entre 50% e 30%; pouco
abundante – ocorrência entre 30% e 10%; rara – menor de 10% (LOBO; LEIGHTON, 1986).
A frequência de ocorrência (%) foi calculada a partir do número de vezes em que
cada táxon ocorreu nas porções do talo dos hospedeiros, por intermédio da fórmula: F = P ×
100 / p, onde, P = número de amostras contendo a espécie; p = número total de amostras,
sendo estabelecidas as seguintes categorias: muito frequente – ocorrência em mais de 70%
das amostras; frequente – ocorrência entre 70% e 40% das amostras; pouco frequente –
ocorrência entre < 40% e 20% das amostras e esporádica < 20% (MATEUCCI; COLMA,
1982).
A riqueza correspondeu ao número de espécies encontrado em cada amostra. O
índice de diversidade específica foi calculado segundo Shannon (H’) (-∑pi.log2) (SHANNON,
1963), cujos valores foram enquadrados nas seguintes categorias: alta diversidade = ≥ 3,0
bits.cel-1; média diversidade = < 3,0 ≥ 2,0 bits.cel-1; baixa diversidade = < 2 >1,0 bits.cel-1;
muito baixa diversidade = < 1,0 bits.cel-1 (VALENTIN, 2000). A Equitabilidade ( J) foi
calculada segundo Pielou (1977), apresentando valores entre 0 e 1, sendo considerado alto
ou equitativo os valores superiores a 0.50, que representa uma distribuição uniforme dos
táxons na amostra analisada e dominância de Simpson (ʎ) (MAGURRAN, 1988). Para esses
cálculos, foi utilizado o programa estatístico Past (HAMMER et al., 2001).

Tratamento estatístico
O Teste de Levene’s foi utilizado para avaliar a normalidade e a homogeneidade de
variância. Análises de variância (Anova unifatorial) foram usadas para testar a riqueza de
espécies e densidade de células das amostras coletadas. Teste de comparações múltiplas de
Tukey (Tukey’s pairwise) para riqueza e teste Wilcoxon (Wilcoxon pairwise) foram aplicados
quando ocorreram diferenças significativas (P < 0.05). Para todos os procedimentos
estatísticos, foram utilizados os programas estatísticos Past (HAMMER et al., 2001).

Resultados e discussão
A comunidade fitoplanctônica do presente estudo esteve distribuída nas divisões
Cyanobacteria, Bacillariophyta, Euglenophyta, Dinophyta e Chlorophyta. As divisões com
maior representatividade de riqueza de espécies foram Chlorophyta (60 spp.), Bacillariophyta
(39 spp.) e Cyanobacteria (24 spp), no município de Traipu-AL (Figura 31 e Tabela 8).
Foram observadas diferenças significativas na riqueza de espécies entre os pontos de coletas
analisados (F = 4,891; P < 0.05) (Tabela 8).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

85

Tabela 8 - Riqueza de espécies do fitoplâncton do Baixo São Francisco (Alagoas e Sergipe).
(PI) Piranhas-AL, (PA) Pão de Açúcar-AL, (TR) Traipu-AL, (IN) Igreja
Nova-AL, (PR) Propriá-SE, (PU) Piaçabuçu-AL, (PE) Penedo-AL, FOZ
(Foz do São Francisco), (-) dados não existentes. *diferenças significativas pelo
Tukey’s (Tukey’s pairwise) (P < 0.05).
DIVISÃO
CYANOBACTERIA
BACILLARIOPHYTA
EUGLENOPHYTA
DINOPHYTA
CHLOROPHYTA
TOTAL
ANOVA

PI

11
15
4
13
43

PA

TR

19
24
27
39
13
4
3
25
60
75
139
Sum of sqrs
1781,38

PR

21
30
4
2
40
97
df
7

IN

PU

15
12
32
21
3
2
1
3
37
34
88
72
Mean square
254,482

PE

12
20
1
1
31
65
F
4,891

FOZ

3
14
3
20
P
*

Fonte: Guedes et al., 2020.

Figura 31. (A) Riqueza de espécies e (B) Distribuição percentual do fitoplâncton do Baixo
São Francisco (Alagoas e Sergipe). (PI) Piranhas-AL, (PA) Pão de Açúcar-AL,
(TR) Traipu-AL, (IN) Igreja Nova-AL, (PR) Propriá-SE, (PU) PiaçabuçuAL, (PE) Penedo-AL, FOZ (Foz do São Francisco).

Fonte: Guedes et al., 2020.

86

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Em todos os pontos amostrados, as Chlorophyta e Bacillariophyta ocorreram com
o maior número de de táxons. Alguns estudos referentes à comunidade fitoplanctônica em
ambientes lacustres demonstram que esses organismos constituem um grupo importante
e bastante comum dentro desse ecossistema, sendo, muitas vezes, os grupos dominantes
(OLIVEIRA; CALHEIROS, 2000; KOMAREK et al., 2003; SHUBERT, 2003; NABOUT
et al., 2006).
O grupo das algas verdes pertencentes às Desmidiaceae (Closterium, Cosmarium,
Desmidium, Euastrum, Micrasterias, Staurastrum, Xanthidium) destaca-se entre os grupos
algais, principalmente pela riqueza específica, que se distribui de forma cosmopolita em águas
não contaminadas, sendo abundantes em ambientes lacustres (rios, lagos, lagoas) oligotróficos
e mesotróficos, condições estas que favorecem o desenvolvimento desses organismos
(FELISBERTO; RODRIGUES, 2002; WEHR; SHEAT, 2003; DI BERNARDO et al.,
2010) (Figura 31).
Diante da predominância das algas verdes e diatomáceas no presente estudo, foi
observada uma boa representatividade das cianobactérias, principalmente nas amostras
coletadas no trecho do município de Traipu-AL (24 spp.) e Propriá-SE (21 spp.) (Tabela 8).
Apesar da riqueza de cianobactérias presentes nas amostras coletadas, elas não contribuíram
siginificativamente na densidade fitoplanctônica (Tabela 9 e Figura 32).
Com relação à densidade de células, observou-se, no presente estudo, uma variação
de de 3 cel.mL-1, para as Euglenophyta (Penedo-AL) a 3534 cel.mL-1 para as Chlorophyta
(Traipu-AL), sendo observadas diferenças significativas no número de células entre os pontos
de coletas analisados (F = 1,319; P < 0.05) (Tabela 9 e Figura 32).
Tabela 9 - Densidade de células (cel.mL-1) do fitoplâncton do Baixo São Francisco (Alagoas
e Sergipe). (PI) Piranhas-AL, (PA) Pão de Açúcar-AL, (TR) Traipu-AL, (IN)
Igreja Nova-AL, (PR) Propriá-SE, (PU) Piaçabuçu-AL, (PE) Penedo-AL,
FOZ (Foz do São Francisco), (-) dados não existentes. *diferenças significativas
pelo Wilcoxon (Wilcoxon pairwise) (P < 0.05).
DIVISÃO
CYANOBACTERIA
BACILLARIOPHYTA
EUGLENOPHYTA
DINOPHYTA
CHLOROPHYTA
TOTAL
ANOVA

PI

995
1747
879
2013
5635

PA

1099
1172
579
3227
6077

Sum of sqrs

1,87199E07

TR

858
1212
164
232
3534
6000

PR

df
7

1884
2265
45
212
2712
7117

IN

871
2506
19
138
3418
6952

156
1560
7
48
1250
3021

Mean square
2,67427E06

Fonte: Guedes et al., 2020.

PU

PE

FOZ

197
1065
3
63
1841
3170

28
8912
65
9005

F

1,319

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

P
*

87

Figura 32. (A) Densidade de células (cel.mL-1) (B) distribuição percentual do fitoplâncton
do Baixo São Francisco (Alagoas e Sergipe). PI) Piranhas-AL, (PA) Pão de
Açúcar-AL, (TR) Traipu-AL, (IN) Igreja Nova-AL, (PR) Propriá-SE, (PU)
Piaçabuçu-AL, (PE) Penedo-AL, FOZ (Foz do São Francisco).

Fonte: Guedes et al., 2020.

De maneira geral, a clorofíceas e diatomáceas contribuíram com as maiores densidades
em todas as amostras analisadas, com exceção da foz do São Francisco, onde se observou
uma dominância das diatomáceas, devido ao aumento da salinidade e à elevada energia
hidrodinâmica influenciarem diretamente o desenvolvimento desses organismos (SOUSA
et al., 2009; COSTA et al., 2011). Apesar da presença de várias espécies de cianobactérias,
não foram observados valores elevados na densidade. A maior densidade foi registrada em
Propriá-SE (1.884 cel.mL-1).
Em relação ao fitoplâncton, a Portaria nº 578 exige monitoramento mensal do número
de células de cianobactérias presentes nos mananciais de até 10.000 céls.mL-1. Para valores
elevados de cianobactérias, o monitoramento deverá ser realizado semanalmente, devido à
possível presença de cianotoxinas, trazendo riscos à população local, não sendo viável sua
utilização em abastecimento público, recreação e irrigação, além do risco de bioacumulação
em peixes e moluscos bivalves (BRASIL, 2004).
Estudos referentes à comunidade fitoplanctônica em ambientes lacustres tropicais
demonstram que clorofíceas e diatomáceas constituem um grupo importante dentro desse
ecossistema, por apresentarem altas taxas de reprodução e capacidade de adaptação em

88

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

diversos nichos ecológicos, principalmente sob os aspectos físico-químicos da água. De
acordo com a CETESB (2005), quando ocorre uma dominância e abundância de Clorofíceas
(desmidiáceas) e/ou diatomáceas, com valores entre > 1000 e < 5000 cel.mL-1, a qualidade
da água é classificada de razoável a boa, demonstrando que o ambiente está em equilíbrio e
a água considerada própria para o consumo e lazer humano.
Durante o período estudado, foram observadas espécies dominantes que contribuíram
na densidade de células nas amostras analisadas, pertencentes aos grupos das clorofíceas e
diatomáceas. Dentre elas, podemos destacar as clorofíceas Monoraphidium griffithii (97,2%),
M. komarkovae (89,3%, 73,5% e 55,9%), em referência às amostras coletadas nos municípios
de Piranhas, Traipu e Pão de Açúcar, respectivamente, Closterium moniliferum (77,8%),
Monoraphidium intermedium (69%) (Traipu-AL) e Eudorina elegans (60%) (Igreja
Nova-AL), seguidos pelas diatomáceas Terpsinoë musica (94,1%), (Piranhas/AL), com
Cyclotella meneghiniana (88,2%) e Coscinodiscus radiatus (80,4%) na foz do São Francisco (ver
Tabelas 10, 11, 12 e 17 e Figura 31), influenciando os índices de diversidade específica, que
variaram entre 0,45 bits.cel-1 no ponto 1, na foz do São Francisco (profundidade), influenciada
abundância da diatomácea Cyclotella meneghiniana e 3,91 bits.cel-1 no ponto 2 (Traipu-AL),
na região mediana entre os Estados de Alagoas e Sergipe (superfície), onde foi observada
uma maior diversidade de espécies. As amostras, de uma forma geral, apresentaram valores de
equitabilidade acima de 0,50, mostrando uma distribuição equitativa e uniforme das espécies.
A presença de espécies pertencentes ao gênero Monoraphidium Komárková-Legnerová,
que se distribuem em ambientes aquáticos tropicais e temperados continentais, contribuiu
significativamente para a abundância e densidade de células, sendo um indicador de ambientes
com alto teor de nutrientes, devido à sua alta resistência em ambientes lacustres eutrofizados
(EL-SHEEKH et al., 2003; REYNOLDS, 2006).
Quando a diversidade específica de Shannon e equitabilidade são considerados
de baixos valores, de acordo com seus índices estabelecidos, refletirá em um desequilíbrio
populacional fitoplanctônico, ao qual está ligado diretamente na abundância de células e na
dominância de poucas espécies.
O sumário completo dos dados de riqueza, abundância relativa (%), frequência
de ocorrência (%) e dos índices ecológicos (Diversidade de Shannon, Equitabilidade e
Dominância) encontra-se nas tabelas em anexo.
Dentre as espécies do fitoplâncton identificadas durante o período de estudo
consideradas muito frequentes (MF) e frequentes (F), por estarem presentes em mais
de 50% das amostras analisadas, foram as clorofíceas: Actinastrum hantzschii, Closterium
dianae, Coelastrum astroideum, Desmidium grevillei, Eudorina elegans, Gloecystis vesiculosa,
G. polydermatica, Pediastrum duplex, Scenedesmus bijugus, S. ellipticus, Spirogyra pratensis,
Staurastrum aculeatum, S. sebaldi, S. leptoclaum, Stauridium tetras e Volvox aureus. As espécies
que mais se destacaram no grupo das diatomáceas foram: Aulacoseira ambigua, Coscinodiscus
radiatus, Cyclotella meneghiniana, Epithemia argus, Eunotia monodon, Fragilaria crotonensis, F.
virescenes, Gomphonema olivaceum, Melosira granulata, Meridion circulare, Nitzschia hungarica,
N. scalaris, Terpsinöe musica e Ulnaria ulna. Entre as cianobactérias, podemos destacar:
Anabaena solitaria, A. spiroides, Aphanizomenon gracile, A. flos-aquae, Aphanocapsa grevillei,
Cylindropermopsis raciborskii, Geitlerinema unigranulatum e Oscillatoria limosa, e pelos
dinoflagelados Ceratium kofoidii e C. lineatum (ver tabelas em anexo).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

89

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante da importância ecológica da comunidade fitoplanctônica em ambientes
lóticos, estudos da dinâmica dos ecossistemas aquáticos tornam-se essenciais para o manejo e
gerenciamento dos sistemas hídricos, visando à proteção do manancial, e requer conhecimentos
sobre a atuação desses organismos que influenciam diretamente na qualidade da água.
O fitoplâncton é considerado um dos indicadores de qualidade biológica utilizados
na classificação do estado ecológico de massas d’águas, principalmente quando são avaliadas
a abundância fitoplanctônica, a riqueza e dominância e a intensidade e frequência de
florescências fitoplanctônicas (blooms).
Através dos resultados obtidos, foi possível observar que as Chlorophyta (algas verdes)
e Bacillariophyta (diatomáceas) ocorreram com maior riqueza de espécies e abundância
e dominaram o período de estudo e os pontos de amostragem, principalmente no trecho
entre os municípios de Pão de Açúcar a Piaçabuçu, fazendo com que houvesse um maior
incremento na densidade de células.
No presente estudo, foram observados baixos valores de densidade de cianobactérias
quando ocorreu um aumento elevado de poucas espécies de cianofíceas em ambientes
aquáticos, intimamente associado às condições eutróficas. Assim, a qualidade da água do
manancial, dentre os diversos usos múltiplos (navegação, recreação, abastecimento, irrigação
etc.) oferecerá riscos à saúde pública e investimentos elevados na implantação de Estação de
Tratamento de Água (ETA), para abastecimento público.
Com o aumento da salinidade, principalmente na foz do São Francisco, houve um
crescimento significativo na abundância das diatomáceas – fato comum observado nesse grupo,
que suporta grandes variações de salinidade e é considerado grande produtor primário em
ecossistemas aquáticos de transição (estuários), demonstrando a grande importância desses
organismos na manutenção dos demais níveis tróficos.
Tabela 10 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de
Piranhas (Baixo São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%),
(ARS) Abundância relativa de profundidade (%), (PI 1) região de Alagoas, (PI
2) região entre Alagoas e Sergipe, (PI 3) região de Sergipe, (FO) categorias de
frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente, (E) esporádico,
(-) dados não existentes.
TÁXONS
CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Anagnostidinema amphibium (Agardh ex Gomont) Strunecký,
Bohunická, Johansen & Komárek
Aphanocapsa grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Aphanocapsa koordesii Strøm
Aphanothece sp.
Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya & Subba
Raju
Geitlerinema unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Gloeocapsa gigas West & West
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
Oscillatoria rubescens De Candolle ex Gomont
O. tenuis Agardh ex Gomont
BACILLARIOPHYTA
Aulacoseira ambigua (Grunow) Simonsen

90

PI 1
ARS ARP

PI 2
ARS ARP

PI 3
ARS ARP

F.O

-

0,6

-

-

-

-

E

-

0,6

-

-

-

-

E

8,8
8,8
12,1

-

3,4
2,2
5,6

-

-

-

PF
PF
PF

-

0,6

-

-

-

-

E

13,2
2,2
-

11,7

1,7
23,6
2,2
2,2
-

-

-

-

E
PF
E
PF
E

-

-

2,8

-

-

-

E

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Diatoma vulgaris Bory
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
E. zebra (Ehrenberg) Kützing
Eunotia monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
BACILLARIOPHYTA

2,2
-

0,6

1,1
1,7
0,6
1,7
-

-

-

-

E
E
P
E
E

Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula integra (Smith) Ralfs
Nitzschia hungarica Grunow
N. linearis Smith
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg

1,1
1,1
2,2
3,3
4,4

0,6
2,2
-

10,1
2,2
0,6
0,6
0,6
2,8

-

-

1,0
94,1
-

E
PF
E
E
E
PF
PF
PF
PF

Ceratium kofoidii Jørgensen
C. lineatum (Ehrenberg) Cleve
C. geniculatum (Lemmermann) Cleve
Gymnodinium aureolum (Hulburt) Gert Hansen
CHLOROPHYTA
Ankistrodesmus fusiformis Corda
Asterococcus limneticus Smith
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
Coelosphaerium kuetzingianum Nägeli
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis polydermatica Kützing
Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová

28,6
3,3

-

5,6
17,4
4,5
-

1,4
-

-

1,0
-

E
F
E
E

8,8
-

1,1
1,7
22,9

0,6
3,4
0,6
0,6
-

-

-

1,0
3,0
-

E
E
PF
E
PF
E
E
E

Monoraphidium griffithii (Berkeley) Komárková-Legnerová
M. komarkovae Nygaard

2,23
0,84
0,14

55,9
1,1
0,6
1,34
0,52
0,38

1,1
0,6
2,65
0,81
0,11

97,2
1,4
0,15
0,13
0,94

-

0,29
0,18
0,88

E
E
E
E
F

DINOPHYTA

CHLOROPHYTA

Pandorina morum (Müller) Bory
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
Staurastrum johnsonii West & West

Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade ( J)
Dominância de Simpson (γ)

Fonte: Guedes et al., 2020.

Tabela 11 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de Pão
de Açúcar (Baixo São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície
(%), (ARS) Abundância relativa de profundidade (%), (PA 1) região de
Alagoas, (PA 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PA 3) região de Sergipe, (FO)
categorias de frequência de ocorrência, (MF) muito frequente, (F) frequente,
(PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS
CYANOBACTERIA

Anabaena solitaria Klebahn
Anabaena spiroides Klebahn
Anagnostidinema amphibium (Agardh ex Gomont) Strunecký,
Bohunická, Johansen & Komárek
Aphanocapsa grevillei (Berkeley) Rabenhorst
A. koordesii Strøm
A. delicatissima West & West

PA 1
PA 2
PA 3
ARS ARP ARS ARP ARS ARP

F.O

0,2
3,5

-

0,2
1,5

0,5
0,5

4,1

-

F
F

-

-

-

0,5

-

0,7

PF

1,0
-

0,9

1,1
1,1
-

-

0,3
-

-

F
E
E

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

91

A. incerta (Lemmermann) Cronberg & Komárek
Aphanothece castagnei (Kützing) Rabenhorst
Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann
C. limneticus Lemmermann
Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya &

Subba Raju
Geitlerinema splendidum (Greville ex Gomont) Anagnostidis
G. unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
M. protocystis Crow
M. wesenbergii (Komárek) Komárek ex Komárek
Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont
O. sancta Kützing ex Gomont
Planktolyngbya limnetica (Lemmermann) KomárkováLegnerová & Cronberg
BACILLARIOPHYTA

Aulacoseira ambigua (Grunow) Simonsen
Cymbella ventricosa (Agardh) Agardh
Entomoneis alata (Ehrenberg) Ehrenberg
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
E. sorex Kützing
E. turgida (Ehrenberg) Kützing
Eunotia monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
F. virescens Ralfs
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula integra (Smith) Ralfs
N. cryptocephala Kützing
N. placenta Ehrenberg
Nitzschia acicularis (Kützing) Smith
N. dubia Smith
N. hungarica Grunow
N. longissima (Brébisson) Ralfs
N. obtusa Smith
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Stauroneis anceps Ehrenberg
Surirella elegans Ehrenberg
S. ovata Kützing
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
DINOPHYTA
Ceratium kofoidii Jørgensen
C. lineatum (Ehrenberg)
C. fusus (Ehrenberg) Dujardin
Gonyaulax apiculata Entz
CHLOROPHYTA
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
C. ehrenbergii Meneghini ex Ralfs
Coelastrum microporum Nägeli
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis vesiculosa Nägeli
Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius
Micrasterias alata Wallich
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová
M. intermedium Hindák
M. komarkovae Nygaard
Pediastrum duplex Meyen

92

0,4
1,4

-

0,2
-

0,5
-

0,9
0,3

-

E
E
PF
PF

0,2

-

-

24,3

-

17,5

F

10,3
3,1
0,6
0,6
0,4
-

-

16,3
0,6
-

-

6,3
3,1
1,9

1,4
-

E
F
PF
PF
E
E
E

0,4

-

3,2

-

-

-

PF

1,7
0,4
0,2
0,4
0,2
0,6
0,2
0,8
3,7
1,2
0,2
0,2
0,2
0,4
0,6
0,2
9,5
0,2
0,6
1,4

0,9
0,9
0,9
0,9

0,4
0,6
0,2
18,9
1,7
1,1
1,3
6,2
2,5
5,3
1,7
0,2
0,2
1,3
0,4

6,3
1,1
0,5
0,5
2,6
-

0,9
2,5
2,5
8,1
4,1
0,3
0,9
8,1
0,3
1,3
-

1,4
0,7
1,4

F
E
PF
E
E
E
F
F
F
PF
F
PF
E
PF
E
E
PF
F
PF
E
MF
E
E
PF
E
F
F

13,4
0,4
1,0
1,0

1,8
-

13,8
-

-

24,1
2,5
-

-

F
PF
PF
E

0,6
4,7
0,8
1,2
0,2

0,9
89,3
-

0,2
2,1
0,4
0,2
-

1,6
5,8
52,9
-

6,6
0,3
-

2,8
0,7
69,9
-

E
E
E
F
PF
E
E
PF
E
PF
E

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

P. duplex var. reticulatum Lagerheim
Pleodorina indica (Lyengar) Nozaki
Spirogyra pratensis Transeau
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
S. ecornis (Ehrenberg) Chodat
S. quadricauda (Turpin) Brébisson
Staurastrum hexacerum Wittrock
S. johnsonii West & West
S. manfeldtii Delponte
S. sebaldi Reinsch
S. setigerum Cleve
S. tetracerum Ralfs ex Ralfs
Stauridium tetras (Ehrenberg) Hegewald
Volvox sp.

1,0
11,8
0,2
14,4
0,2
0,2
4,5
2,93
0,76
0,08

Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade ( J)
Dominância de Simpson (γ)

Fonte: Guedes et al., 2020.

2,7
0,9
0,56
0,25
0,79

0,2
6,8
0,2
9,1
0,6
0,4
2,64
0,74
0,10

0,5
1,1
0,5
1,50
0,54
0,35

1,9
0,3
0,6
0,3
17,2
0,3
2,56
0,77
0,11

2,8
0,7
1,07
0,45
0,52

E
E
MF
PF
E
PF
E
MF
E
PF
E
E
E
PF

Tabela 12 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de
Traipu (Baixo São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%),
(ARS) Abundância relativa de profundidade (%), (TR 1) região de Alagoas,
(TR 2) região entre Alagoas e Sergipe, (TR 3) região de Sergipe, (FO)
categorias de frequência de ocorrência, (MF) muito frequente, (F) frequente,
(PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS

CYANOBACTERIA
Anabaena solitaria Klebahn
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanizomenon gracile Lemmermann
Aphanocapsa koordesii Strøm
A. delicatissima West & West
A. grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Aphanothece clathrata West & West
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus dispersus (Keissler) Lemmermann
C. limneticus Lemmermann
C. pallidus Nägeli
Coelosphaeriopsis halophila Lemmermann
Cylindrospermopsis raciborskii (Woloszynska) Seenayya &
Subba Raju
Geitlerinema splendidum (Greville ex Gomont)
Anagnostidis
G. unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Gloeocapsa conglomerata Kützing
G. gigas West & West
Lyngbya birgei Smith
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
M. protocystis Crow
Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont
O. terebriformis Agardh ex Gomont
Planktolyngbya limnetica (Lemmermann) KomárkováLegnerová & Cronberg
Spirulina subsalsa Oersted ex Gomont
BACILLARIOPHYTA
Amphiprora alata (Ehrenberg) Kützing
A. paludosa Smith
Aulacoseira ambigua (Grunow) Simonsen
Caloneis schumanniana (Grunow) Cleve
Cymbella lacustris (Agardh) Cleve
C. turgida Gregory
C. ventricosa (Agardh) Agardh
Diploneis ovalis (Hilse) Cleve
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing

TR 1
ARS
ARP

TR 2
ARS ARP

TR 3
ARS ARP

F.O

2,9
1,2
-

-

1,6
0,3
0,4
2,1
4,4
3,7
0,1
1,1

1,4
2,1
-

1,6
5,7
2,5
-

0,7
3,7
-

E
F
F
E
E
E
E
E
PF
E
E
E

-

-

-

2,1

-

0,7

PF

-

-

-

-

-

5,1

E

1,0
4,1
0,2
0,2
0,2
5,3
-

-

4,5
4,5
3,3
0,1
0,5
0,8
-

4,1
-

7,4
0,8
1,6

-

F
PF
E
PF
E
PF
F
E

-

-

1,1

-

-

-

E

-

-

-

-

2,5

-

E

0,7
0,2
0,5
-

-

0,1
0,3
0,7
0,1
0,1
0,4
0,5
2,2

2,1

-

0,7
0,7

E
E
PF
E
PF
E
E
PF
F

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

93

E. zebra (Ehrenberg) Kützing
Eunotia exigua (Brébisson ex Kützing) Rabenhorst
E. monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
F. virescens Ralfs
Frustulia rhomboides (Ehrenberg) De Toni
Gomphonema constrictum Ehrenberg
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Hantzschia amphioxys (Ehrenberg) Grunow
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula integra (Smith) Ralfs
N. peregrina (Ehrenberg) Kützing
Nitzschia acicularis (Kützing) Smith
N. acuminata (Smith) Grunow
N. amphibia Grunow
N. bilobata Smith
N. brevissima Grunow
N. hungarica Grunow
N. longissima (Brébisson) Ralfs
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
N. sigma (Kützing) Smith
Pinnularia lata (Brébisson) Smith
P. mesolepta (Ehrenberg) Smith
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Surirella guatimalensis Ehrenberg
S. robusta Ehrenberg
Synedra tabulata (Agardh) Kützing
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
EUGLENOPHYTA
Euglena acus (Müller) Ehrenberg
E. caudata Hübner
E. deses Ehrenberg
E. fusca (Klebs) Lemmermann
E. gracilis Klebs
E. hemichromata Skuja
E. oblonga Schmitz
E. proxima Dangeard
E. pusilla Playfair
Phacus gigas Cunha
P. onix Pochmann
P. orbicularis Hübner
Trachelomonas acanthophora Stokes
DINOPHYTA
Ceratium kofoidii Jørgensen
C. fusus (Ehrenberg) Dujardin
C. lineatum (Ehrenberg) Cleve
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Ankistrodesmus fusiformis Corda
Asterococcus superbus (Cienkowski) Scherffel
Closterium decorum Brébisson
C. dianae Ehrenberg ex Ralfs
Closterium moniliferum Ehrenberg ex Ralfs
Coelastrum astroideum De Notaris
C. microporum Nägeli
C. goetzei Schmidle
Cosmarium logiense Bisset
C. margaritatum (Lundell) Roy & Bisset
C. ralfsii Brébisson ex Ralfs
C. reniforme (Ralfs) Archer
C. subcostatum Nordstedt
Desmidium aptogonum Brébisson ex Kützing
D. grevillei (Kützing ex Ralfs) de Bary
Dimorphococcus lunatus Braun
Euastrum ampullaceum Ralfs
E. turgidum Wallich
E. verrucosum Ehrenberg ex Ralfs
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis vesiculosa Nägeli
Kirchneriella contorta (Schmidle) Bohlin
K. dianae (Bohlin) Comas
K. lunaris (Kirchner) Möbius
Micrasterias alata Wallich
M. decemdentata (Nägeli) Archer
M. laticeps Nordstedt
Micrasterias radians Turner
M. rotata Ralfs
M. truncata Brébisson ex Ralfs

94

5,1
4,6
2,2
0,5
3,9
3,6
1,2
1,2
0,2
3,6
6,5
1,0
0,2
-

5,6
-

1,9
1,6
5,6
1,1
0,9
0,1
2,0
0,8
1,4
1,0
0,2
0,6
0,6
0,3
0,1
1,0
4,5
0,1
4,5
0,1
0,1
0,1
0,4
0,2
1,3
1,8

0,7
1,4
1,4
2,1
1,4

4,1
0,8
0,8
0,8
13,9
1,6
3,3
1,6
0,8

0,7
0,7
0,7
0,7
1,5
0,7

E
E
F
F
F
PF
E
F
E
PF
F
E
PF
E
E
E
E
E
MF
PF
F
PF
PF
E
E
E
E
E
E
F

7,5
0,2
0,2
0,2
-

-

4,5
0,1
0,1
0,1
0,1
0,1
0,1
0,1
-

-

1,6
0,8
0,8

-

PF
E
E
E
E
PF
E
E
E
E
E
E
E

7,0
0,2
1,5
1,7
0,7
1,5
0,5
0,2
1,0
1,5
0,7
0,2
0,2
0,1
0,2

77,8
5,6
5,6
-

3,1
0,4
0,5
1,4
0,2
1,2
0,1
2,6
0,1
0,1
0,4
0,5
0,8
0,1
0,1
1,8
0,1
0,1
0,5
0,1
-

0,7
0,7
0,7
1,4
-

4,1
5,7
1,6
2,5
8,2
0,8
1,6
0,8
0,8
2,5
0,8
-

0,7
1,5
0,7
-

PF
F
F

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

F
E
PF
PF
F
E
E
E
PF
E
E
E
E
E
E
F
PF
E
E
E
PF
F
E
E
E
PF
E
E
E
E
E

Microspora flocosa (Vaucher) Thuret
Monoraphidium contortum (Thuret) KomárkováLegnerová
M. griffithii (Berkeley) Komárková-Legnerová
M. intermedium Hindák
M. komarkovae Nygaard
Pandorina morum (Müller) Bory
Pediastrum duplex Meyen
Pleodorina indica (Lyengar) Nozaki
P. sp.
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
S. dimorphus (Turpin) Kützing
S. ellipsoideus Chodat
S. ellipticus Corda
S. obliquus (Turpin) Kützing
Spirogyra pratensis Transeau
Staurastrum aculeatum Meneghini ex Ralfs
S. arctiscon (Ehrenberg ex Ralfs) Lundell
S. brasiliense Nordstedt
S. gracile Ralfs ex Ralfs
S. hexacerum Wittrock
Staurastrum johnsonii West & West
S. manfeldtii Delponte
S. mucronatum Ralfs
S. ophiura Lundell
S. rotula Nordstedt
S. sebaldi Reinsch
Stauridium tetras (Ehrenberg) Hegewald
Volvox aureus Ehrenberg
Xanthidium fasciculatum Ehrenberg ex Ralfs

Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade ( J)
Dominância de Simpson (ʎ)

-

-

0,7

-

-

-

E

-

-

-

3,4

-

1,5

PF

0,2
2,7
6,5
1,5
8,2
4,1
0,2
0,2
0,2
3,36
0,85
0,05

5,6
0,83
0,52
0,62

0,4
0,1
0,3
1,3
0,1
2,0
0,1
2,2
0,3
0,4
0,1
0,1
1,2
0,4
4,1
0,2
0,5
0,2
0,2
0,3
3,91
0,84
0,03

69,0
0,7
2,1
1,4
0,7
0,7
1,50
0,49
0,48

0,8
2,5
1,6
2,5
4,9
1,6
1,6
0,8
3,29
0,89
0,06

73,5
2,2
1,5
0,7
0,7
1,30
0,42
0,55

E
E
E
E
PF
E
E
F
E
PF
PF
E
F
F
E
E
E
PF
PF
PF
PF
E
E
F
F
F
PF

Fonte: Guedes et al., 2020.

Tabela 13 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de
Propriá (Baixo São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%),
(ARS) Abundância relativa de profundidade (%), (PR 1) região de Alagoas,
(PR 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PR 3) região de Sergipe, (FO)
categorias de frequência de ocorrência, (MF) muito frequente, (F) frequente,
(PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS

CYANOBACTERIA
Anabaena planctonica Brunnthaler
A. solitaria Klebahn
A. spiroides Klebahn
Anagnostidinema amphibium (Agardh ex Gomont)

Strunecký, Bohunická, Johansen & Komárek
Aphanizomenon flos-aquae Ralfs ex Bornet & Flahault
A. klebahnii Elenkin ex. Pechar
Aphanocapsa koordesii Strøm
A. grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus limneticus Lemmermann
Coelosphaeriopsis halophila Lemmermann
Geitlerinema unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Gloeocapsa conglomerata Kützing
Gomphosphaeria aponina Kützing
Lyngbya martensiana Meneghini ex Gomont
Microcystis protocystis Crow
Oscillatoria brevis Kützing ex Gomont
O. limosa Agardh ex Gomont
Oscillatoria simplicissima Gomont

PR 1
ARS
ARP

PR 2
ARS ARP

PR 3
ARS ARP

0,6
0,6
-

-

0,7

-

-

6,3

E
E
PF

-

-

-

5,3

-

-

E

1,0
2,5
0,2
2,1
5,0
11,1
7,1
0,4
0,4
0,8

13,7
-

4,3
12,1
0,7
0,7
1,4
2,1
-

5,3
31,6
-

2,6
22,4
1,7
-

12,5
-

PF
E
E
E
E
E
E
MF
E
E
E
E
PF
F.O
E

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

F.O

95

O. tenuis Agardh ex Gomont
Phormidium ambiguum Gomont
BACILLARIOPHYTA
Amphiprora alata (Ehrenberg) Kützing
Aulacoseira ambigua (Grunow) Simonsen
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cymbella ventricosa (Agardh) Agardh
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
E. zebra (Ehrenberg) Kützing
Eunotia exigua (Brébisson ex Kützing) Rabenhorst
E. monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
F. virescens Ralfs
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Gyrosigma strigilis (Smith) Griffin & Henfrey
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula annulata Grunow
N. cuspidata (Kützing) Kützing
Nitzschia amphibia Grunow
N. filiformis (Smith) Van Heurck
N. hungarica Grunow
Nitzschia longissima (Brébisson) Ralfs
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Pinnularia brebissonii (Kützing) Rabenhorst
P. gibba (Ehrenberg) Ehrenberg
P. platycephala (Ehrenberg) Cleve
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Surirella guatimalensis Ehrenberg
S. linearis var. constricta Grunow
S. robusta Ehrenberg
Synedra goulardii Brébisson ex Cleve & Grunow
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
EUGLENOPHYTA
Euglena gracilis Klebs
E. limnophila Lemmermann
E. pusilla Playfair
Phacus pleuronectes (Müller) Nitzsch ex Dujardin
DINOPHYTA
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
C. fusus (Ehrenberg) Dujardin
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Ankistrodesmus falcatus (Corda) Ralfs
Arthrodesmus convergens Ehrenberg ex Ralfs
Asterococcus superbus (Cienkowski) Scherffel
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
C. parvulum Nägeli
C. ralfsii Brébisson ex Ralfs
Coelastrum astroideum De Notaris
C. reticulatum (Dangeard) Senn
Cosmarium laeve Rabenhorst
C. staurastroides Eichler & Gutwinski
Desmidium baileyi (Ralfs) Nordstedt
D. grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary
Desmodesmus granulatus (Oeste & West) Tsarenko
Euastrum turgidum Wallich
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis polydermatica (Kützing) Hindák

96

-

-

2,8
0,7

-

-

-

E
E

0,4
0,6
0,2
7,5
0,2
4,8
1,5
0,4
2,7
2,7
1,0
0,4
1,3
2,3
0,2
0,2
0,4
0,4
0,8
4,4
3,3

2,7
1,4

2,8
1,4
0,7
1,4
0,7
6,4
1,4
-

10,5
5,3
26,3
5,3

0,9
6,9
12,9
4,3
0,9
4,3
14,7

6,3
18,8
6,3
6,3
6,3
-

E
PF
E
E
F.O
E
PF
PF
PF
E
E
E
PF
F
E
PF
E
E
PF
E
PF
E
E
E
E
E
E
E
E
F

0,2
-

-

2,1
0,7
0,7

-

-

-

E
E
E
E

6,5
-

-

3,5
3,5

-

2,6
1,7

-

F
PF

3,3
0,2
0,4
0,2
0,2
0,6
0,2
2,9
-

1,4
6,8
6,8

0,7
0,7
0,7
2,8
5,0
0,7
2,8
0,7
-

5,3
-

1,7
0,9
1,7

6,3
12,5
12,5
6,3

F
E
E
E
E
E
E
E
E
E
E
PF
E
E
E
F
F

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Kirchneriella lunaris (Kirchner) Möbius
K. obesa (Oeste) Oeste & West
Micrasterias decemdentata (Nägeli) Archer
Monoraphidium griffithii (Berkeley) Komárková-

Legnerová
M. komarkovae Nygaard
Pediastrum duplex Meyen
Pleodorina californica Shaw
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
S. ellipticus Corda
Scenedesmus obtusus Meyen
Selenastrum bibraianum Reinsch
Sphaerozosma granulatum Roy & Bisset
Spirogyra pratensis Transeau
Spondylosium planum (Wolle) West & West
Staurastrum arctiscon (Ehrenberg ex Ralfs) Lundell
S. johnsonii West & West
S. manfeldtii Delponte
S. ophiura Lundell
S. sebaldi Reinsch
S. trifidum Nordstedt
Staurodesmus convergens (Ehrenberg ex Ralfs) Lillieroth
Westella botryoides (Oeste) De Wildeman
Xanthidium regulare Nordstedt

Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade ( J)
Dominância de Simpson (ʎ)

0,4
-

-

0,7

5,3
-

-

-

E
E
E

-

11,0

-

-

-

-

E

0,2
0,4
2,1
0,4
0,2
2,3
0,2
7,1
1,3
0,2
2,3
3,37
0,84
0,05

52,1
1,4
2,7
1,56
0,69
0,32

16,3
1,4
0,7
1,4
5,0
3,5
0,7
0,7
3,5
0,7
3,19
0,87
0,06

1,88
0,86
0,19

15,5
0,9
3,4
2,37
0,83
0,13

2,31
0,87
0,11

E
E
E
PF
F
E
PF
E
PF
E
E
F
E
E
PF
E
E
E
E

Fonte: Guedes et al., 2020.

Tabela 14 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de
Igreja Nova (Baixo São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície
(%), (ARS) Abundância relativa de profundidade (%), (IN 1) região de
Alagoas, (IN 2) região entre Alagoas e Sergipe, (IN 3) região de Sergipe, (FO)
categorias de frequência de ocorrência, (MF) muito frequente, (F) frequente,
(PF) pouco frequente, (E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS

CYANOBACTERIA
Anabaena solitaria Klebahn
A. spiroides Klebahn
Aphanizomenon flos-aquae Ralfs ex Bornet & Flahault
Aphanocapsa koordesii Strøm
A. annulata McGregor
A. grevillei (Berkeley) Rabenhorst
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus limneticus Lemmermann
Geitlerinema unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Microcystis protocystis Crow
Oscillatoria anguina Bory ex Gomont
O. limosa Agardh ex Gomont
O. tenuis Agardh ex Gomont
Phormidium ambiguum Gomont
Planktolyngbya limnetica (Lemmermann) KomárkováLegnerová & Cronberg
BACILLARIOPHYTA
Amphora ovalis (Kützing) Kützing
Anomoeoneis sphaerophora Pfitzer

IN 1
ARS
ARP

IN 2
ARS ARP

IN 3
ARS ARP

F.O

0,3
0,6
1,0
1,6
2,6
16,1
0,3
0,2
1,3

-

0,3
0,5
0,3
2,1
2,6
25,9
1,8

2,9
1,4
-

2,2
2,2
2,2
2,2
2,2
2,2
-

4,8
-

F
PF
F
E
E
PF
E
PF
PF
E
E
F
E
PF

1,1

-

6,2

-

-

-

PF

0,2
0,2

-

-

-

-

-

E
E

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

97

Aulacoseira ambigua (Grunow) Simonsen
Biddulphia pulchella Gray
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cyclotella meneghiniana Kützing
Cymbella prostrata (Berkeley) Cleve
C. excisiformis Krammer
C. heteropleura (Ehrenberg) Kützing
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
Eunotia exigua (Brébisson ex Kützing) Rabenhorst
E. monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
F. virescens Ralfs
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula americana Ehrenberg
N. peregrina (Ehrenberg) Kützing
N. pupula Kützing
Nitzschia hungarica Grunow
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Pinnularia dactylus Ehrenberg
P. platycephala (Ehrenberg) Cleve
Pleurosigma angulatum (Quekett) Smith
Surirella elegans Ehrenberg
S. guatimalensis Ehrenberg
S. linearis Smith
S. spiralis Kützing
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
EUGLENOPHYTA
Euglena agilis Carter
E. splendens Dangeard
Phacus triqueter (Ehrenberg) Perty
DINOPHYTA
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
CHLOROPHYTA
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Arthrodesmus convergens Ehrenberg ex Ralfs
Asterococcus superbus (Cienkowski) Scherffel
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
C. parvulum Nägeli
Coelastrum astroideum De Notaris
Cosmarium margaritatum (Lundell) Roy & Bisset
Cylindrocystis brebissonii (Ralfs) De Bary
Desmidium grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary
Desmodesmus granulatus (West & West) Tsarenko
Euastrum subhypochondrum Fritsch & Rich
E. turgidum Wallich
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis polydermatica (Kützing) Hindák
Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas
K. obesa (West) West & West
Micrasterias rotata Ralfs
M. alata Wallich
M. decemdentata (Nägeli) Archer
Monoraphidium griffithii (Berkeley) KomárkováLegnerová
Pediastrum duplex Meyen
Pseudokirchneriella subcapitata (Korshikov) Hindák

98

0,6
0,2
10,5
3,2
0,2
1,3
0,2
6,3
1,4
0,2
0,8
3,4
8,5
0,6
1,1
0,3
0,5
8,5

20,0
-

1,3
0,3
0,3
0,8
9,3
4,7
0,5
0,3
2,6
2,1
3,1
1,6
0,8
7,0

1,4
21,4
21,4
10,0
2,9
2,9
2,9
1,4
-

4,4
2,2
2,2
2,2
4,4
11,1

33,3
4,8
4,8
4,8
4,8
4,8

PF
E
E
PF
E
E
PF
F
E
F
PF
E
PF
E
F
E
E
E
E
MF
PF
E
E
E
E
E
PF
E
PF
F

0,2
0,3

-

-

1,4
-

-

-

E
E
E

-

-

9,3

-

4,4

-

PF

2,4
0,6
1,3
0,3
0,2
0,2
0,3
2,1
0,2

20,0
60,0
-

1,6
1,6
0,3
0,3
0,3
1,3
0,3
-

1,4
2,9
2,9
4,3
-

4,4
2,2
11,1
2,2
2,2
8,9
2,2
2,2
2,2
-

9,5
-

F
E
E
PF
PF
PF
E
E
PF
PF
E
E
F
F
E
E
E
E
E

-

-

-

5,7

-

28,6

PF

0,3
0,2

-

-

5,7
-

-

-

PF
E

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
S. dimorphus (Turpin) Kützing
S. ellipticus Corda
Selenastrum westii Smith
Spirogyra pratensis Transeau
Staurastrum arctiscon (Ehrenberg ex Ralfs) Lundell
S. johnsonii West & West
S. manfeldtii Delponte
S. margaritaceum Meneghini ex Ralfs
S. ophiura Lundell
Staurastrum sagittarium Nordstedt
S. sebaldi Reinsch
Stauridium tetras (Ehrenberg) Hegewald
Volvox aureus Ehrenberg
Westella botryoides (Oeste) De Wildeman

Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade ( J)
Dominância de Simpson (ʎ)

1,9
0,2
3,7
5,0
5,5
0,5
0,2
1,1
0,2
3,13
0,78
0,07

0,95
0,86
0,44

Fonte: Guedes et al., 2020.

1,0
3,6
1,3
1,3
1,8
0,3
1,6
0,3
2,85
0,78
0,11

1,4
4,3
1,4
2,52
0,85
0,12

2,2
6,7
6,7
2,2
3,05
0,94
0,06

1,82
0,83
0,22

PF
E
PF
E
F
E
F
E
E
E
E
PF
E
E
E

Tabela 15 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de
Piaçabuçu (Baixo São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%),
(ARS) Abundância relativa de profundidade (%), (PU 1) região de Alagoas,
(PU 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PU 3) região de Sergipe, (FO)
categorias de frequência de ocorrência, (F) frequente, (PF) pouco frequente,
(E) esporádico, (-) dados não existentes.
TÁXONS

CYANOBACTERIA
Anabaena circinalis Rabenhorst ex Bornet & Flahault
A. solitaria Klebahn
A. spiroides Klebahn
Aphanizomenon flos-aquae Ralfs ex Bornet & Flahault
Aphanocapsa koordesii Strøm
Arthrospira platensis Gomont
Chroococcus limneticus Lemmermann
Geitlerinema unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Merismopedia glauca (Ehrenberg) Kützing
Microcystis brasiliensis (De Azevedo & Sant’ Anna)
Rigonato et al.
M. protocystis Crow
Oscillatoria tenuis Agardh ex Gomont
BACILLARIOPHYTA
Actinocyclus normanii (Gregory ex Greville) Hustedt
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cyclotella sp.
Diploneis didymus (Ehrenberg) Ehrenberg
Entomoneis alata (Ehrenberg) Ehrenberg
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
Eunotia exigua (Brébisson ex Kützing) Rabenhorst
E. monodon Ehrenberg
Fragilaria virescens Ralfs
Gyrosigma acuminatum (Kützing) Rabenhorst
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Meridion circulare (Greville) Agardh
Navicula cuspidata (Kutzing) Kutzing
Nitzschia hungarica Grunow

PU 1
ARS
ARP

PU 2
ARS ARP

PU 3
ARS ARP

F.O

0,2
0,2
0,5
1,6
0,7
-

-

0,3
0,6
1,2
-

-

0,4
1,8
0,1
3,5
0,4

-

E
E
PF
E
E
PF
PF
PF
E

-

-

0,9

-

-

-

E

1,1
-

-

1,5

-

0,4

-

E
PF

25,3
4,6
3,0
0,5
0,2
9,9
0,2
0,9

-

0,9
19,1
3,9
0,3
4,5
2,4
0,3
6,7
0,9
-

-

14,5
7,0
0,4
7,0
4,4
9,6
0,4
-

-

E
F
PF
E
E
F
E
PF
E
PF
F
PF
E
E

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

99

N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Pinnularia lata (Brébisson) Smith
P. platycephala (Ehrenberg) Cleve
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Surirella elegans Ehrenberg
S. linearis Smith
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg
EUGLENOPHYTA
Euglena caudata Hübner
E. megalithos Skuja
DINOPHYTA
Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve
C. fusus (Ehrenberg) Dujardin
Peridinium sp.
CHLOROPHYTA
Actinastrum aciculare Playfair
Actinastrum hantzschii Lagerheim
Asterococcus superbus (Cienkowski) Scherffel
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
Closterium parvulum Nägeli
Coelastrum astroideum De Notaris 1867
Cosmarium laeve Rabenhorst
Cosmarium moniliforme Ralfs
Cosmarium quadrum Lundell
Cosmarium reniforme (Ralfs) Archer
Desmodesmus armatus (Chodat) Hegewald
Desmodesmus maximus (West & West) Hegewald
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis polydermatica (Kützing) Hindák
Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas
Kirchneriella obesa (West) West & West
Micrasterias decemdentata (Nägeli) Archer
Pectinodesmus pectinatus (Meyen) Hegewald, Wolf,
Keller, Friedl & Krienitz
Pediastrum duplex Meyen
Pleodorina californica Shaw
Pleodorina indica (Lyengar) Nozaki
Scenedesmus acuminatus (Lagerheim) Chodat
S. bijugus (Turpin) Lagerheim
Scenedesmus ellipticus Corda
S. maximus (Oeste & West) Chodat
S. obtusus Meyen
Selenastrum minutum (Nägeli) Collins
Spirogyra pratensis Transeau
Staurastrum johnsonii West & West
S. manfeldtii Delponte
S. rotula Nordstedt
S. sebaldi Reinsch
Tetradesmus bernardii (Smith) Wynne
Volvox aureus Ehrenberg

Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade ( J)
Dominância de Simpson (ʎ)

100

3,4
0,5
0,7
5,7

-

1,2
1,8
0,6
6,4

-

0,4
7,0

-

PF
E
E
E
E
E
F

-

-

0,3
-

-

0,4

-

E
E

2,1
-

-

1,2
0,3
0,3

-

0,4
0,4
-

-

F
PF
E

16,8
0,2
0,2
0,5
3,0
1,4
-

-

0,3
8,2
3,3
9,1
0,6
0,3
0,6
0,9
5,5
0,6
0,3

-

16,2
1,8
5,3
1,8
0,4
0,4
0,4
2,2
0,4
-

-

E
F
PF
E
E
F
PF
E
E
E
E
E
PF
PF
PF
E
E

-

-

0,9

-

-

-

E

0,7
0,9
0,2
1,8
0,7
0,7
1,1
7,8
1,4
1,1
2,65
0,75
0,12

-

0,6
0,6
0,6
5,2
0,3
5,5
0,9
3,01
0,82
0,07

-

1,8
1,3
1,3
0,9
5,7
0,4
0,4
0,4
2,84
0,81
0,08

-

F
E
PF
PF
E
E
E
E
E
F
F
E
E
PF
E
E

Fonte: Guedes et al., 2020.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Tabela 16 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região do município de
Penedo (Baixo São Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície
(%), (ARS) Abundância relativa de profundidade (%), (PU 1) região de
Alagoas, (PU 2) região entre Alagoas e Sergipe, (PU 3) região de Sergipe, (FO)
categorias de frequência de ocorrência, (PF) pouco frequente, (E) esporádico,
(-) dados não existentes.
TÁXONS

CYANOBACTERIA
Anabaena spiroides Klebahn
Aphanocapsa grevillei (Berkeley) Rabenhorst
A. delicatissima West & West
Aphanothece elabens (Brébisson ex Meneghini) Elenkin
Arthrospira platensis Gomont
Geitlerinema unigranulatum (Singh) Komárek & Azevedo
Gloeocapsa conglomerata Kützing
Lyngbya wollei (Farlow ex Gomont) Speziale & Dyck
Microcystis aeruginosa (Kützing) Kützing
M. protocystis Crow
Oscillatoria limosa Agardh ex Gomont
O. platensis (Gomont) Bourrelly

PE 1
ARS
ARP

PE 2
ARS ARP

PE 3
ARS ARP

F.O

-

-

1,3
1,3
0,6
0,6
1,9
0,6

-

0,8
0,4
0,6
0,4
1,9
0,8
0,8
0,2
-

-

PF
E
E
E
E
PF
E
E
E
E
E
E

Amphiprora alata (Ehrenberg) Kützing
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cyclotella meneghiniana Kützing
Cymbella prostrata (Berkeley) Cleve
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
Eunotia monodon Ehrenberg
Fragilaria crotonensis Kitton
Gomphonema olivaceum (Hornemann) Ehrenberg
Melosira granulata (Ehrenberg) Ralfs
Navicula elegans Smith
N. peregrina (Ehrenberg) Kützing
Nitzschia hungarica Grunow
N. scalaris (Ehrenberg) Smith
Pleurosigma angulatum (Quekett) Smith
Rhizosolenia longiseta Zacharias
Rhopalodia gibba (Ehrenberg) Müller
Surirella robusta Ehrenberg
Synedra goulardii Brébisson ex Cleve & Grunow
Terpsinoë musica Ehrenberg
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg

-

-

0,6
1,3
1,9
1,3
0,6
12,5
0,6
1,3
0,6
0,6
0,6
4,4

-

1,1
0,4
5,1
4,5
0,2
21,2
0,2
0,2
4,5
0,4
0,6
0,2
2,3

-

PF
E
E
E
E
PF
E
E
PF
E
E
PF
E
E
E
E
E
E
E
PF

Strombomonas bonariensis (Seckt) Huber-Pestalozzi

-

-

-

-

0,2

-

E

Ceratium lineatum (Ehrenberg) Cleve

-

-

2,5

-

1,5

-

PF

Actinastrum hantzschii Lagerheim
Closterium dianae Ehrenberg ex Ralfs
C. parvulum Nägeli
Coelastrum microporum Nägeli
Coelastrum reticulatum (Dangeard) Senn
Cosmarium margaritatum (Lundell) Roy & Bisset
Desmidium grevillei (Kützing ex Ralfs) De Bary
Desmodesmus granulatus (West & West) Tsarenko
Eudorina elegans Ehrenberg
Gloeocystis vesiculosa Nägeli
Kirchneriella dianae (Bohlin) Comas

-

-

0,6
8,8
5,6
3,8
1,3
7,5
0,6

-

1,1
0,2
0,2
21,2
7,0
0,8
0,6
4,0
-

-

PF
E
E
PF
E
E
PF
E
PF
E
E

BACILLARIOPHYTA

EUGLENOPHYTA
DINOPHYTA

CHLOROPHYTA

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

101

K. lunaris (Kirchner) Möbius
K. obesa (Oeste) Oeste & West
Micrasterias decemdentata (Nägeli) Archer
Monoraphidium contortum (Thuret) Komárková-Legnerová
M. griffithii (Berkeley) Komárková-Legnerová
Pandorina morum (Müller) Bory
Pediastrum duplex Meyen
Pleodorina californica Shaw
Scenedesmus bijugus (Turpin) Lagerheim
S. ellipsoideus Chodat
S. ellipticus Corda
Sphaerozosma laeve (Nordstedt) Thomassom
Spirogyra pratensis Transeau
Staurastrum crenulatum (Nägeli) Delponte
S. johnsonii West & West
S. sebaldi Reinsch
Staurastrum senarium Ralfs
S. spinosum Ralfs
Stauridium tetras (Ehrenberg) Hegewald
Westella botryoides (West) De Wildeman
Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade ( J)
Dominância de Simpson (ʎ)

-

Fonte: Guedes et al., 2020.

-

11,3
15,6
0,6
1,3
0,6
6,3
0,6
0,6
2,89
0,82
0,08

-

0,2
0,2
0,2
0,2
0,4
3,4
1,5
0,2
2,3
0,2
0,4
5,7
0,4
0,2
0,2
2,78
0,73
0,11

-

E
E
E
E
E
E
PF
E
E
E
E
E
PF
E
PF
E
E
E
E
E

Tabela 17 - Percentual de distribuição do microfitoplâncton na região da Foz do Baixo São
Francisco). (ARS) Abundância relativa da superfície (%), (ARS) Abundância
relativa de profundidade (%), (FOZ 1) região de Alagoas, (FOZ 2) região de
Sergipe, (FO) categorias de frequência de ocorrência, (PF) muito frequente,
(F) frequente, (PF) pouco frequente, (-) dados não existentes.
TÁXONS
CYANOBACTERIA

FOZ 2
ARS ARP

F.O

Oscillatoria brevis Kützing ex Gomont
O. limosa Agardh ex Gomont
Pseudanabaena catenata Lauterborn

0,8
-

-

-

1,2
1,2

PF
PF
PF

Amphiprora alata (Ehrenberg) Kützing
Asterionellopsis glacialis (Castracane) Round
Biddulphia pulchella Gray
Coscinodiscus radiatus Ehrenberg
Cyclotella meneghiniana Kützing
Epithemia argus (Ehrenberg) Kützing
Euastrum attenuatum Wolle
Eunotia monodon Ehrenberg
Gyrosigma strigilis (Smith) Griffin & Henfrey
Melosira arenaria Moore ex Ralfs
Navicula elegans Smith
Nitzschia scalaris (Ehrenberg) Smith
Stephanodiscus astraea (Kützing) Grunow
Ulnaria ulna (Nitzsch) Ehrenberg

3,0
3,0
2,3
4,5
72,0
0,8
1,5
1,5
2,3
0,8
4,5
0,8

5,9
88,2
5,9
-

23,1
76,9
-

80,4
3,7
1,2
4,3
7,4

PF
PF
PF
MF
MF
PF
PF
PF
PF
PF
PF
PF
PF
F

Pediastrum duplex Meyen
Staurastrum johnsonii West & West
S. orbiculare Meneghini ex Ralfs

1,5
0,8
1,28
0,47
0,53

0,45
0,41
0,78

0,54
0,78
0,65

0,6
0,82
0,39
0,66

F
PF
PF

BACILLARIOPHYTA

CHLOROPHYTA

Diversidade de Shannon (H’)
Equitabilidade ( J)
Dominância de Simpson (γ)

102

FOZ 1
ARS ARP

Fonte: Guedes et al., 2020.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

105

EUTROPHICATION POTENTIAL EVALUATION
AND WATER QUALITY IN THE LOWER SÃO
FRANCISCO
Petrônio Alves Coelho Filho

Silvânio Silvério Lopes da Costa
Vivian Costa Vasconcelos

Marcus Aurélio Soares Cruz

Carlos Alberto da Silva
Emerson Carlos Soares

SUMMARY
The eutrophication potential and water quality of the Lower São Francisco, during the
II Expedition to the São Francisco River, were evaluated through 21 samples collected near
water sources for public supply between Piranhas (Alagoas) and the river estuary. Samples
were collected and packaged according to NBR 9.898, total phosphorus concentration was
determined by colorimetry, and the eutrophication potential by applying the Carlson Trophic
State Index (TSI), based on total phosphorus. Total P concentrations were similarly low in
all areas analyzed (p>0.05), with a total mean of 24.64±4.16 µg/L, and the mean TSI was
42.78±2.15. This indicated that the Lower São Francisco was potentially oligotrophic, with
a tendency to mesotrophic, and showed presenting higher eutrophication rates close to the
urban nuclei, but compromising the quality and multiple water uses.

106

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 6
AVALIAÇÃO DO POTENCIAL DE EUTROFIZAÇÃO
E DA QUALIDADE DE ÁGUA NO BAIXO SÃO
FRANCISCO
Petrônio Alves Coelho Filho27

Silvânio Silvério Lopes da Costa28
Vivian Costa Vasconcelos29

Marcus Aurélio Soares Cruz30
Carlos Alberto da Silva31
Emerson Carlos Soares32

INTRODUÇÃO
Especificamente no Baixo São Francisco, alterações ambientais decorrentes do uso e
da ocupação desordenada das margens das bacias hidrológicas brasileiras, seja por atividades
agrícolas, aquícolas ou outras ocupações urbanas, têm aumentado gradativamente (ARRUDA,
2015). As práticas inadequadas de irrigação e fertilização do solo, a contaminação por
agroquímicos e o lançamento de efluentes sem tratamento contribuem com a deterioração
da qualidade de água (SOBRAL, 2011).
A bacia hidrográfica do rio São Francisco ocupa uma área de drenagem equivalente a
8% do território nacional e está inserida em terras de seis Estados brasileiros, além do Distrito
Federal (ANA, 2015). Em toda a sua extensão, o rio São Francisco possui uma série de oito
reservatórios de acumulação de água para múltiplos usos, construídos prioritariamente para
a geração de energia elétrica, onde se têm intensificado problemas ambientais decorrentes
do uso irregular e de ocupações inadequadas das margens desses reservatórios.
Observa-se, por grande parte da margem do Baixo São Francisco, formações
acentuadas de processos erosivos e de bancos de areia, bem como a supressão da vegetação
ciliar e a aplicação de técnicas agrícolas apoiadas na aplicação de agrotóxicos e fertilizantes
químicos (CARVALHO, 2009), aumentando o risco de eutrofização do rio. Essa eutrofização
pode causar vários problemas, em decorrência do supercrescimento de macrófitas aquáticas,
florescimento de algas, dentre as quais as cianobactérias, que são potenciais produtoras
de diferentes compostos tóxicos que acarretam graves riscos à saúde humana e animal
(CARMICHAEL et al., 2001; TUNDISI, 2006).
O aporte de nutrientes provenientes de fontes antrópicas tem sido apontado como
Professor, Labccarc, Unidade Penedo, Universidade Federal de Alagoas.
Professor, Universidade Federal de Sergipe.
29
Mestre em Zootecnia, Laqua, Ceca, Universidade Federal de Alagoas.
30
Pesquisador, Embrapa Tabuleiros Costeiros.
31
Pesquisador, Embrapa Tabuleiros Costeiros.
32
Professor, Laqua, Ceca. Universidade Federal de Alagoas.
27
28

principal causa de eutrofização dos corpos hídricos (ARRUDA, 2015). Por isso, os critérios
que empregam os nutrientes são os mais apropriados para avaliar o estado trófico, ou seja, os
agentes causadores do processo de eutrofização, como o Fósforo, do que os que se valem das
manifestações biológicas ou dos efeitos do fenômeno, como a Clorofila e a Transparência
(ARAÚJO et al., 2014).
O Fósforo é amplamente reconhecido como sendo um elemento-chave no processo
de eutrofização cultural ou acelerada, provocada por fontes antrópicas difusas ou pontuais
(FONSECA, 2002; TUNDISI, 2008). A elevada produtividade biológica ocasionada em
decorrência das descargas de Fósforo, proveniente das práticas agrícolas, criação intensiva de
peixes, lançamento de esgoto sanitário e outros aportes antrópicos é, comumente, relacionada
ao estado trófico dessas massas de água. Por outro lado, pelo fato de o Fósforo ser um nutriente
essencial para o crescimento de organismos, sua presença em níveis críticos pode limitar a
produtividade primária dos corpos d’água (ESTEVES, 2011).
Importante ferramenta nesse processo, os índices de qualidade da água (IQA) surgem
da necessidade de sintetizar a informação, visando informar a população e orientar as ações
de planejamento e gestão da qualidade da água. Os índices facilitam a comunicação com
o público leigo, já que permitem sintetizar várias informações em um número único. Na
avaliação dos processos de eutrofização, recomenda-se a utilização dos Índices de Estado
Trófico (IET) (ANA, 2017), que classificam os corpos hídricos em diferentes graus de trofia,
avaliando a qualidade, a disponibilidade e o efeito do aporte de nutrientes encontrados na
água e que são responsáveis pelo crescimento excessivo das algas ou de macrófitas aquáticas
no meio (MARANHO, 2012).
Como afirma Carlson (1977), o IET envolve três variáveis: concentração de Clorofila-a,
transparência da água e concentração de Fósforo total. Os resultados correspondentes ao
Fósforo, IET (p) são entendidos como uma medida do potencial de eutrofização. A avaliação
correspondente à Clorofila-a, IET (CL), por sua vez, é considerada como uma medida da
resposta do corpo hídrico ao agente causador, indicando, de forma adequada, o nível de
crescimento de algas.
Todavia, as variáveis envolvidas no cálculo do IET podem ser avaliadas individualmente
(SANTOS, 2012). Indicadores de Transparência, muitas vezes, não são representativos para
o estado de trofia, pois, normalmente, apresentam elevada turbidez decorrente de material
mineral em suspensão, e não apenas pela densidade de organismos planctônicos. Assim como
o indicador de Clorofila, que, por ser considerado uma medida de resposta do corpo hídrico
ao agente causador e indicar o nível de crescimento de algas em suas águas, não se encontra
diretamente associado às causas da eutrofização.
Porém, os resultados referentes ao Fósforo devem ser compreendidos como uma
medida do potencial de eutrofização. Esse nutriente atua como agente causador do processo;
neste caso, os resultados encontrados a partir da aplicação do IET não mensuram diretamente
a eutrofização, apenas indicam o potencial e a condição do meio, classificando-os em diferentes
classes de trofia (SANTOS, 2012; ANA, 2013). Por essa razão, no presente estudo, optou-se
por determinar o IET (p) para avaliar o potencial de eutrofização no Baixo São Francisco
como indicador da qualidade da água, buscando gerar informações categóricas para possíveis
avaliações sobre o uso e a conservação da água.

108

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Determinação da concentração do Fósforo total

As amostragens foram realizadas no Baixo rio São Francisco, entre os Estados de
Sergipe e Alagoas, entre 17 e 27 de novembro de 2019, cobrindo uma área de 25.500 km2, e
abrangeu os municípios alagoanos de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio,
Igreja Nova e Penedo, além da foz do rio (Tabela 18).
Tabela 18 - Localização dos pontos de coleta de amostras de água no BSF.
PONTO

Piranhas
Pão de Açúcar
Traipu
Porto Real do Colégio
Igreja Nova
Penedo
Foz do Rio

LONGITUDE

-37.751278
-37.447327
-37.006143
-36.836774
-36.672528
-36.582383
-36.398627
Fonte: Marcus Cruz (2019).

LATITUDE
-9.624347
-9.750914
-9.971428
-10.192243
-10.266311
-10.299611
-10.476388

As amostras foram coletadas considerando-se a captação de água para abastecimento
público em cada um dos municípios citados anteriormente, da seguinte forma: adjacente
ao ponto de captação, 500 metros a montante do ponto de captação e 500 metros a jusante
do ponto de captação. Em seguida, foram acondicionadas de acordo com a NBR nº 9.898
(ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 1987) e a determinação
da concentração do fósforo total foi realizada por colorimetria (APHA - American Public
Health Association, 2005). Os resultados laboratoriais foram interpretados dentro dos
limites estabelecidos pela Resolução nº 357/2005 do Conama (BRASIL, 2005) para o
enquadramento da classe de qualidade da água do recurso hídrico, conforme a Tabela 19.
Tabela 19 - Limites de Fósforo total para cada classe de enquadramento segundo Resolução
Conama nº 357, de 2005.
AMBIENTE

Lêntico
Intermediário
Lótico

Classe 1
0,020
0,025
0,1

CONCENTRAÇÕES MÁXIMAS (mg/L)
Classe 2
Classe 3
0,030
0,050
0,050
0,075
0,1
0,15

Fonte: Petrônio Coeho Filho (2020).

Classe 4
>0,050
>0,075
>0,15

Determinação do índice de estado trófico (IET)
Os valores obtidos de Fósforo total foram aplicados na equação do Índice de Estado
Trófico de Carlson modificado por Toledo Jr. et al. (1983), empregado comumente pela
Cetesb, para medir o potencial de eutrofização. Segundo a fórmula abaixo, - P refere-se à
concentração de Fósforo Total em μg/L.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

109

Em seguida, os valores do IET para cada ponto amostral foram classificados segundo
o grau de trofia, através dos limites propostos por Toledo Jr. et al. (1983) apud Lamprelli
(2004), conforme a Tabela 20.
Tabela 20 - Limites para diferentes níveis de estado trófico.
CRITÉRIO
IET ≤ 24
24 < IET ≤ 44
44 < IET ≤ 54
54 < IET ≤ 74
IET > 74

ESTADO TRÓFICO
Ultraoligotrófico
Oligotrófico
Mesotrófico
Eutrófico
Hipereutrófico

FÓSFORO TOTAL (mg/L)
0,006
0,007-0,026
0,027-0,052
0,053-0,211
>0,211

Fonte: Petrônio Coelho Filho (2020).

Enquadramento e caracterização trófica
Os valores de P total foram semelhantemente baixos em todas as áreas analisadas
(p>0.05), com média total de 24.64 µg/L, variando de 18.60 µg/L (captação de Penedo) a
29.60 µg/L (captação de Porto Real de Colégio) (Tabela 21). Com isso, todas as amostras
analisadas estavam aptas para a destinação de todas as classes de enquadramento da Conama
nº 357 para ambientes lóticos de água doce, garantindo o uso múltiplo da água no Baixo São
Francisco, ao menos durante o período analisado.
De maneira geral, os valores de P total classificaram o trecho analisado como
oligotrófico (Tabela 20). Observando em separado, apenas Porto Real do Colégio e a foz do
rio podem ser classificados como mesotróficos (P total acima de 26,0 µg/L). A aplicação do
Índice de Estado Trófico (IET) apresentou a mesma tendência apresentada pelas análises
do P total, comprovando estar a área oligotrófica, durante o período das incursões, com valor
médio de IET de 42,78 (Tabela 22).
Não foram encontradas diferenças significativas entre os valores de P total e IET nos
diferentes municípios e locais de coleta (Tabelas 21 e 22). Porém, analisando em separado,
as amostras que se localizam no núcleo urbano do município apresentaram maiores níveis
de eutrofização e foram classificadas como mesotróficas.
Apesar das áreas de estudo serem classificadas em geral como oligotróficas, 43% foram
mesotróficas (Tabela 23). Esse fato é reflexo dos números obtidos, pois os valores de IET ou
estavam no limite superior da oligotrofia ou no limite inferior na mesotrofia.
A partir da caracterização trófica obtida, podemos inferir que, durante o período
estudado, a maior parte do Baixo São Francisco caracterizou-se por apresentar uma
baixa biomassa fitoplanctônica, com baixa concentração de algas cianofíceas, com relativa
concentração de macrófitas nos trechos de menor profundidade, e o Oxigênio saturadosupersaturado na camada superior e abaixo da saturação-saturado na camada inferior.
Porém, a eutrofização de um recurso hídrico é considerada progressiva e o IET
caracteriza-se como dinâmico, apresentando variações de classificação ao longo do tempo,
tanto para classes de maior quanto para as de menor trofia (LAMPARELLI, 2004). Ou
seja, demonstra a importância de ser realizado um monitoramento contínuo da qualidade e
estado trófico do Baixo São Francisco em diferentes épocas ou condições.
A II Expedição do Rio São Francisco foi realizada durante um período de intensas
chuvas nos trechos Alto e Médio São Francisco, o que acarretou num aumento considerável

110

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

da vazão do rio no Baixo São Francisco, aumentando a dinâmica hidrológica em alguns
trechos que estavam represados e com pouca circulação.
Tabela 21 - Valores do Fósforo total (µg/L) encontrados a montante, jusante e no ponto
de aptação para abastecimento dos municípios alagoanos do Baixo São
Francisco durante a II Expedição Científica do Rio São Francisco.
LOCAL
Piranhas

Pão de Açúcar
Traipu

Porto Real do
Colégio

MONTANTE

CAPTAÇÃO

JUSANTE DA

MÉDIA ± DP*

28,60

28,60

19,90

25,70±5,02

20,60

28,60

21,20

23,47±4,46

DA CAPTAÇÃO
19,80

25,60

28,00

29,60

CAPTAÇÃO
22,30

27,00

23,37±4,20

27,40±2,03

Igreja Nova

28,60

21,20

20,10

23,30±4,62

Foz do Rio

28,60

25,40

26,00

26,67±1,70

Penedo

MÉDIA ± DP*

20,60

24,63±4,16

18,60
25,71±4,24

28,60

23,59±3,55

22,60±5,29

Fonte: Petrônio Coelho Filho (2020). *DP- Desvio padrão

Tabela 22 - Valores do IETp encontrados a montante, a jusante e no ponto de captação para
abastecimento dos municípios alagoanos do Baixo São Francisco durante a II
Expedição Científica do Rio São Francisco.
LOCAL
Piranhas

Pão de Açúcar
Traipu

Porto Real do
Colégio

MONTANTE

CAPTAÇÃO

JUSANTE DA

MÉDIA ± DP*

45,10

45,10

39,87

43,36±3,02

40,37

45,10

40,78

42,08±2,62

DA CAPTAÇÃO
39,80

43,50

44,80

45,60

CAPTAÇÃO
41,51

44,27

42,04±2,54

44,46±1,06

Igreja Nova

45,10

40,78

40,01

41,97±2,74

Foz do Rio

45,10

43,39

43,73

44,07±0,91

Penedo

MÉDIA ± DP*

40,37

42,76±2,49

38,90
43,38±2,57

45,10

42,18±2,15

41,46±3,24

Fonte: Petrônio Coelho Filho (2020). *DP- Desvio padrão

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

111

Tabela 23 - Níveis de estado trófico encontrados a montante, a jusante e no ponto de
captação para abastecimento dos municípios alagoanos do Baixo São Francisco
durante a II Expedição Científica do Rio São Francisco.
LOCAL

MONTANTE DA

Piranhas

CAPTAÇÃO
Mesotrófico

Pão de Açúcar

CAPTAÇÃO

JUSANTE DA

Mesotrófico

CAPTAÇÃO
Oligotrófico

Oligotrófico

Mesotrófico

Oligotrófico

Traipu

Oligotrófico

Mesotrófico

Oligotrófico

Porto Real do Colégio

Oligotrófico

Mesotrófico

Mesotrófico

Igreja Nova

Mesotrófico

Oligotrófico

Oligotrófico

Penedo

Oligotrófico

Oligotrófico

Mesotrófico

Foz do Rio

Mesotrófico

Oligotrófico

Oligotrófico

Fonte: Petrônio Coelho Filho (2020).

Nos reservatórios de acumulação existentes no Nordeste brasileiro, o Fósforo é
encontrado em grande quantidade (MELO, 2007). Sabe-se que os ecossistemas lênticos são
mais susceptíveis à eutrofização pela lenta renovação da água e alto período de residência
(FRANZEN, 2009), e possivelmente as alterações da dinâmica hidrológica, com o aumento
da vazão na área de estudo, influenciou os resultados obtidos.
Pelo exposto, apesar de este estudo apresentar uma análise estanque sobre a capacidade
de eutrofização, limitando uma avaliação mais robusta pela ausência de uma série temporal, os
resultados demonstram que o Baixo São Francisco, durante o período analisado, apresentou
um baixo potencial para eutrofização, não comprometendo a qualidade da água e de sua
utilização. Porém, precisa ser verificada qual a influência dessa baixa disponibilidade de
nutrientes para a produção primária e a manutenção da dinâmica trófica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Baixo São Francisco alagoano esteve, durante a II Expedição ao Rio São Francisco,
potencialmente oligotrófico, com tendência a mesotrófico, apresentando maiores índices de
eutrofização, próximos aos núcleos urbanos, mas sem comprometer a qualidade e os usos
múltiplos da água.

REFERÊNCIAS
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Brasil: 2013. Brasília: ANA, 2013.
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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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114

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

THE LOWER SÃO FRANCISCO ICHTHYOFAUNA
Emerson Carlos Soares

Elton Lima Santos

Emilly Valentim

Vivian Costa Vasconcelos
Ricardo Fabio Teodósio

Andréa Carla Guimarães Paiva

Evaristo Pérez Rial

José Milton Barbosa
SUMMARY
The Lower São Francisco is one of the hydrographic basin regions most affected by
environmental impacts. There are problems caused by changes in the hydrological regime,
such as lower water flow and volume, with a consequent increase in salinity; others result
from anthropogenic activity, accumulation of pollutants, deforestation with consequent silting,
use of illegal fishing methods, and overfishing. These factors compromise the water quality
and contribute to the reduction of the fish biomass. In the 2019 scientific expedition, a
slight increase in the number of fish species was observed, compared to 2018, and it may be
due to the increased flow provided by hydroelectric power plants, improving environmental
conditions. Despite the changes in 2019, the ichthyofauna in the region faces a severe risk
of overfishing, replacement of native freshwater species by exotic species, and euryhalines,
leading to future extinction risks. Therefore, urgent management measures and administrative
policies regarding fishing resources must be taken to prevent a collapse of the fishing activity
in the Lower São Francisco.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

115

CAPÍTULO 7
A ICTIOFAUNA DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Emerson Carlos Soares33
Elton Lima Santos34
Emilly Valentim35

Vivian Costa Vasconcelos36
Ricardo Fabio Teodósio37

Andréa Carla Guimarães Paiva38
Evaristo Pérez Rial39

José Milton Barbosa40

A ictiofauna da bacia do São Francisco

As primeiras espécies descritas, com distribuição no São Francisco, são atribuídas a
Carl von Linné (Carolus Linnaeus). São elas: Callichthys callichthys (LINNAEUS, 1758),
Gymnotus carapo (LINNAEUS, 1758) e Trachelyopterus galeatus (LINNAEUS, 1766).

A primeira descrição de uma espécie endêmica, supostamente, da bacia do
rio São Francisco aparece no trabalho Petri Artedi Sueci Genera Piscium (ARTEDI;
LINNAEUS; WALBAUM, 1792), nominada Salmo (Curimata) Marggravii
(WALBAUM, 1792). No entanto, a distribuição geográfica é genérica: “habitat in
America meridionali”. Essa denominação, atribuida a Johann Julius Walbaum, é
citada no Fishbase como “Synonymy ambiguous” (FROESE; PAULY, 2020), de
forma que não é possível afirmar que o nome foi atribuído a Procchilidus argenteus
(SPIX; AGASSIZ, 1829). Ainda no século XVIII, Mark Elieser Bloch descreveu
duas espécies do São Francisco: a traíra, Hoplias malabaricus (BLOCH, 1794), e o
mussum, Synbranchus marmoratus (BLOCH, 1795).

Em meados início do século XIX, Cuvier descreveu seis espécies que ocorrem no São
Francisco: piranha, Pygocentrus piraya (CUVIER, 1820); piaba-de-rabo-vermelho, Astyanax
Professor Associado, Centro de Engenharias e de Ciências Agrárias (Ceca), Laboratório de Aquicultura e
Análise de Água (Laqua), Universidade Federal de Alagoas.
34
Professor Associado, Centro de Engenharias e de Ciências Agrárias (Ceca), Laboratório de Aquicultura e
Análise de Água (Laqua), Universidade Federal de Alagoas.
35
Bolsista Ufal, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (Laqua), graduanda em Zootecnia, Universidade
Federal de Alagoas.
36
Mestre em Zootecnia, Bolsista Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (Laqua), Universidade Federal
de Alagoas.
37
Bolsista Ufal, Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (Laqua), graduando em Zootecnia, Universidade
Federal de Alagoas.
38
Professora Associada, Unidade de Penedo, Universidade Federal de Alagoas.
39
Pesquisador, Instituto Espanhol de Ocenografía (Vigo), Doutorando em Aquicultura Marinha.
40
Professor Adjunto, Campus São Cristovão, Universidade Federal de Sergipe.
33

fasciatus (CUVIER, 1819); tabarana, Salminus hilarii (CUVIER, 1829); arenga, Lycengraulis
glossidens (CUVIER, 1829) e corvina, Pachyurus francisci (CUVIER, 1830).
Enquanto, no século XIX, destacou-se o ictiólogo francês Achille Valenciennes,
que descreveu onze espécies para esta bacia: cuiu-cuiu, Oxydoras niger (VALENCIENNES,
1821); pirá, Conorhynchus conirostris (VALENCIENNES, 1840); mandis, Duopalatinus
emarginatus (VALENCIENNES, 1840) e Pseudopimelodus charus (VALENCIENNES,
1840); cascudo, Spatuloricaria nudriventris (VALENCIENNES, 1840); tuvira, Eigenmannia
virescens (VALENCIENNES, 1847); pacu, Myleus altipinnis (VALENCIENNES,
1850); piau, Leporellus vittatus (VALENCIENNES, 1850); piaparas, Leporinus obtusidens
(VALENCIENNES, 1847) e Leporinus elongatus (VALENCIENNES, 1850) e curimatã,
Prochilodus costatus (VALENCIENNES, 1850) (BARBOSA; SOARES, 2009; BARBOSA
et al., 2017).
Reinhardt coletou, no rio das Velhas, o total aproximado de 55 espécies, com coleções
expressivas reunidas em meados do século XIX, possibilitando um avanço notável no
conhecimento dos peixes da bacia (ALVES; POMPEU, 2010).
Outros naturalistas e estudiosos, como Louis Agassiz, Christian F. Lütken e Carl
Eigenmann, fizeram expedições científicas descrevendo espécies na bacia (BRITSKI et al.,
1986).
De fato, um grande salto para o conhecimento ictiológico do São Francisco originouse do trabalho realizado por Lütken (1875): Velhas Flodens Fiske, com a descrição de 55
espécies no rio das Velhas, um dos grandes afluentes do São Francisco. Antes da publicação
do trabalho de Velhas-Flodens Fiske (1875), os trabalhos pós-lineanos publicados por autores
europeus sobre peixes do rio São Francisco basearam-se nas coleções realizadas por Saint
Hilaire, Spix e Martius, Castelnau e Cumberland (BRITSKI, 2010).
Henry W. Fowler (1948; 1954) relacionou cerca de 124 espécies para a bacia do São
Francisco, enquanto Travassos (1960) listou cerca de 139 espécies na região estuarina do rio
São Francisco. Britski et al. (1986) contabilizaram 132 espécies em todo o rio e, após duas
décadas, Sato e Godinho (2003) apresentaram uma lista com 152 espécies do São Francisco.
Segundo Britski et al. (1986), existem cerca de 133 espécies na região de Três
Marias, com destaque para a ordem dos Characiformes, com 65 representantes, seguida dos
siluriformes, com 56 espécies. Nos estudos de Pompeu & Godinho (2003), foram catalogadas
50 espécies, com destaque para os peixes de piracema: Salminus brasiliensis, Prochilodus costatus,
Prochilodus argenteus, Pseudoplatystoma corruscans, Megaleporinus reinhardti, Megaleporinus
taeniatus, Megaleporinus obtusidens e Brycon orthotaenia.
Um número estimado de 184 espécies foi relatado por Britski et al. (1986), Costa
(1995), Sato e Godinho (1999), Alves e Pompeu (2001). Por outro lado, Alves e Pompeu
(2005) afirmam que o número potencial de espécies da bacia pode variar em até 300.
Em levantamentos mais recentes, Barbosa e Soares (2009), num estudo preliminar,
traçaram um perfil da ictiofauna a partir de coletas e levantamento bibliográfico e
consideraram válidas 244 espécies, sendo 214 nativas, número superior às listas anteriormente
divulgadas. Ademais, foram registradas, neste estudo, 11 espécies com identificação até
gênero. Enquanto Barbosa et al. (2017) atualizaram este número para 241 espécies nativas,
acrescidas principalmente pelas descrições de peixes anuais, espécies da família Rivulidae,
realizadas por Wilson Costa e colaboradores na década passada.
Remetendo-se a Barbosa et al. (2017), seus estudos relacionaram o alto endemismo

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

117

na região, contabilizando 304 espécies válidas, das quais 241 são dulciaquícolas nativas, 35
invasoras e 28 alóctones. Segundo os autores, a ictiofauna é composta por 32 famílias, 110
gêneros e 241 espécies, pertencentes às ordens Clupeiformes, Characiformes, Siluriformes,
Gymnotiformes, Cypriniformes, Sinbranchiformes e Perciformes.
De certa forma, a coleta de informações da ictiofauna do São Francisco deve ser
contínua, porque novas espécies são encontradas anualmente na bacia, sendo prioritárias
dentro do processo de revitalização da região.

Ictiofauna do Baixo São Francisco
A ictiofauna no baixo curso do rio vem passando por alterações acentuadas e
diminuição dos volumes de capturas, promovidos por alterações na sua calha principal e
suas lagoas marginais. O resultado dessas mudanças, ocasionadas pela retenção de água
nas represas, com a finalidade de geração de energia elétrica, somado aos desvios da água
pelos canais de transposição e irrigação, períodos mais intensos de seca, desmatamento das
áreas marginais e dos afluentes, aumento de espécies exóticas na bacia, elevado índices de
contaminação do ambiente aquático, métodos de pesca evasivos e irracionais e avanço da
cunha salina tem contribuído para a sobre-explotação dos estoques pesqueiros e diminuição
dos estoques desovantes, com consequente redução dos estoques de espécies nativas, fato este
que pode ser demonstrado na sequência de estudos realizados a partir de 1995.
Marques (1995), trabalhando na região da várzea da Marituba, observou a ocorrência
de 21 espécies, com destaque para: Prochilodus argenteus (curimatã-pacu), Megaleporinus
obtusidens (piau), Serrassalmus brandtii (pirambeba), Pygocentrus piraya (piranha), Hoplias sp.
(traíra), Centropomus parallelus – robalo (camurim) e Pseudoplatystoma corruscans (surubim).
Costa et al. (2003), em seus estudos, delimitaram a ocorrência de 33 espécies nos
municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco, com destaque para os piaus Megaleporinus
sp. e Schizodon sp., e carapebas, Eugerres brasilianus.
Soares et al. (2011), estudando a microrregião de Penedo-AL, observaram a ocorrência
de 22 espécies em 2007, 18 espécies em 2008 e 17 espécies em 2009, das quais cerca de cinco
representaram, em média, 80% da biomassa do pescado desembarcado, com destaque para
a família Prochilodontidae, representada pela curimatã-pacu ou xira (Prochilodus argenteus),
espécie endêmica da bacia, com percentual médio de 40,0%, seguido da família Anostomidae,
tendo os piaus (Megaleporinus reinhardt e Megaleporinus obtusidens), com 22,0%, alternandose entre representantes da família Engraulidae, pilombetas (Anchoviella lepidentotole e A.
sanfranciscana), com 7% da produção, em 2007, e 18%, em 2008, e dois representantes da
família Centropomidae, os robalos (Centropomus undecimalis e C. parallelus), com média de
10% para os três anos analisados.
Sampaio et al. (2015), estudando a região estuarina do rio São Francisco, afirmaram
que a ictiofauna era composta, predominantemente, por indivíduos em ecofase jovem, de
espécies migrantes. Nesses estudos, foram determinadas 44 famílias e 117 táxons: 113 na
categoria espécie e 4 na categoria gênero, sendo 44% marinhas-estuarinas (M-E), 41%
dulciaquícolas (D) e 15% marinhas (M).
Nos estudos de Andréa Carla Guimarães Paiva e colaboradores (comunicação pessoal),
realizados em 2016 (dados ainda não publicados), na planície fluviomarinha do rio São
Francisco (de Penedo-AL até o estuário do São Francisco), foram coletados 3.772 indivíduos
pertencentes a 82 táxons, estando 80 classificados ao nível de espécie, sendo descritos 54

118

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

novos registros (NR) de espécies para a bacia do rio São Francisco, todas associadas aos
estuários ou de origem marinha.
Soares et al. (2020), trabalhando em 8 municípios do Baixo São Francisco, relataram
o empobrecimento de exemplares nativos na composição das capturas, com 17 espécies
coletadas, constatando o desaparecimento da curimatã-pacu P. argenteus e das pilombetas
Anchoviella spp.

Coleta da Ictiofauna
Nas expedições científicas de 2018 e 2019, os peixes foram capturados por pescadores
em duas embarcações com motor de 5 Hp, com uso de malhadeiras com 100 metros e tarrafas
de 6 metros, ambas de malha 30, 40 e 50 entrenós opostos, com faina diária de 6 horas. Os
peixes capturados foram identificados, quando possível, em nível de ordem, família, gênero
e espécie e, posteriormente, fixados em formol a 10% e, após 48 horas, fixados em álcool
70%. A identificação das espécies não realizadas no barco-laboratório e a confirmação das
demais foram feitas no Laboratório de Aquicultura e Análise de Águas (Laqua/UFAL),
onde estão depositados em frascos de vidro com volume de 2 e 5 litros para montagem de
coleção ictiológica da expedição e analisados por literatura especializada.
Figura 33 - Aferição de parâmetros morfométricos.

Fonte: Arquivo da Expedição, novembro de 2019.

Biologia da reprodução
O desenvolvimento ovariano foi determinado segundo a Escala de Vazzoler (1996);
Estádio A: imaturo ou virgem; Estádio B: em maturação; estádio C: Maduro; Estádio D:
Esvaziado; Estádio E: Repouso.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

119

Figura 34 - Observação das gônadas para determinação de estádio de maturação e
desenvolvimento ovariano.

Fonte: Emerson Soares (2019).

Análise do conteúdo estomacal dos peixes do baixo São Francisco

Para análise dos itens alimentares, foram realizadas comparações qualitativa e
quantitativa dos percentuais de ocorrência e dos pesos por espécie e, no total dos peixes, em
cada trecho de coleta. Seguiu-se a metodologia de avaliação e análise do conteúdo estomacal
dos peixes, constando da combinação dos métodos de frequência de ocorrência e do método
volumétrico, adaptado de Kawakami e Vazzoler (1980).
Foram analisados os estômagos de amostras de peixes por ponto de coleta e por espécie,
totalizando 113 exemplares. Para a análise do conteúdo estomacal, foram determinados a
frequência volumétrica, através de observação ocular in loco, a presença do item alimentar e o
índice de repleção. O índice de repleção do estômago foi determinado com base na avaliação
quantitativa de alimento no estômago, expressa em porcentagem (NAMORA, 2003).
Figura 35 - Remoção de tecidos dos exemplares capturados

Fonte: Arquivos da Expedição, novembro de 2019.

120

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Entendendo a dinâmica das espécies reofílicas no baixo São Francisco

A exemplo do Médio São Francisco, onde as espécies reofílicas começam o período
reprodutivo em outubro, logo após a chegada das chuvas, com o aumento do sedimento, os
peixes migram em direção às áreas de confluência e turbulência para desova e retornam,
posteriormente, às lagoas marginais (GODINHO; GODINHO, 2003). No Baixo São
Francisco, as espécies médio-migradoras, com destaque para Prochilodus argenteus, Metynnis
maculatus, Megaleporinus obtusidens e Schizodon knerii, entre outras, seguem essa dinâmica
de interação entre os habitats (calha do rio, afluentes e lagoas marginais), onde parte do
tempo (seca) permanecem nas áreas mais marginais, abrigadas ou com diminuição de
correntezas, começam seus períodos reprodutivos a partir de outubro (ainda seca) e, contudo,
na aproximação do período de chuvas ou trovoadas (fevereiro a maio), intensificam a migração
reprodutiva.
Todavia, a região do Baixo São Francisco sofre com problemas de diminuição de
vazão, patrocinada pelas hidroelétricas de Sobradinho e Xingó, o que proporciona ciclos
reprodutivos artificiais, ou seja, dependendo do ciclo de chuvas, nas cabeceiras de afluentes
do São Francisco à montante das represas e em anos de maior ou menor pluviosidade podem
ou não aumentar a vazão do rio na região do baixo, influenciando no ciclo reprodutivo
das espécies de piracema. As defluências e alterações no fluxo de água, impedimento a
migração reprodutiva, alterações do regime lótico para lêntico, modificação da estrutura da
comunidade aquática, poluentes e contaminantes (agrotóxicos e efluentes domésticos), pesca
com apetrechos não permitidos, captura de exemplares que não atingiram a maturação sexual,
diminuição das áreas dos habitats destes organismos, desmatamento das áreas marginais,
diminuição de área de alimentação e aumento da intrusão salina estão entre os problemas
que impactam a reprodução dos organismos aquáticos e a geração de novos indivíduos (ANA,
2013; SOARES et al., 2020) (Figuras 36 e 37).
Relatórios da ANA em 1998-1999 já denunciavam o desaparecimento de espécies
quando afirmavam, através de estrevistas com pescadores, a ausência de pelo menos 12
espécies de peixes, tais como: Pimelodus maculatus (mandim), Steindacherina elegans (aragu),
Parauchenipterus galeatus (cumbá), Acestrochynchus lacustris (lambiá, niquim ou pacamom),
Lophiosilurus alexandri (pacamã), Prochilodus argenteus (curimatã-pacu), Conorhynchus
conirostris (pirá), Pseudoplatystoma corruscans (surubim, pilombeta), Anchoviella lepidentostole
(piau), Schizodon knerii e Moenkhausia costae (piaba mantega).
De acordo com a ANA (2017), os maiores problemas no rio São Francisco, em termos
de impactos antrópicos, decorrem do lançamento de esgotos domésticos que depreciam os
níveis de Oxigênio dissolvido e aumentam a quantidade de matéria orgânica e de coliformes
fecais, despejo de efluentes por atividades mineradoras (Cobre, Zinco, Cádmio, Cromo
e Chumbo), projetos de irrigação (propiciam o aumento de pesticidas e fertilizantes) e
assoreamentos da calha (aumentam a quantidade de sólidos suspensos e a turbidez). Esses
impactos, adicionados pelo aumento dos períodos de seca e competição com espécies exóticas,
faz com que ocorra o desaparecimento de espécies de peixes nativos no Baixo São Francisco.
Para entendermos o ciclo reprodutivo das espécies reofílicas, observamos, abaixo, a
Figura 36 – período de seca e a Figura 37 – período de enchente no Baixo São Francisco:
Na imagem a seguir, podemos observar uma situação de ausência de chuvas e
diminuição de vazão, bem típica na maior parte do ano na região. São visualizadas diversas
atividades, como pecuária, agricultura nas margens da calha do rio, uso de agrotóxicos em
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

121

alguns tipos de culturas, lançamentos de esgotos e efluentes das cidades, formação de bancos
de areia devido ao processo erosivo nas margens e ausência de vegetação da mata ciliar, que
provoca o enfraquecimento do solo.
Figura 36 - Dinâmica hidrológica e correlação com espécies reofílicas ou migradoras, no
período de seca.

Fonte: Imagem cedida por Emilly Valentim (2020).

Neste período, notamos a diminuição do volume de água e áreas, com transformação
do sistema lótico (com maiores correntezas e trocas de água) para lêntico (água mais parada),
diminuindo os habitats para as espécies de peixes, com isso, favorecendo as capturas destas,
inclusive com tamanho de captura não permitido pela legislação ambiental e instruções
normativas de defeso (estas instruções normativas precisam ser atualizadas) e com práticas
de pesca, em algumas oportunidades, danosas ao meio ambiente.
O grande acúmulo de macrófitas aquáticas decorre de aumento da carga orgânica,
menor capacidade depurativa do rio e concentração de nutrientes decorrentes da decomposição
de materia orgânica, maior volume de esgotos e agrotóxicos e diminuição da profundidade,

122

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

que, conjuntamente com a maior influência da radiação solar nas partes mais profundas do
ambiente aquático, favorece o desenvolvimento dessas plantas.
Nota-se também que parte das espécies migradoras passam parte do tempo em lagoas
marginais e ambientes sem contato com a calha principal do rio e/ou nas áreas com grandes
bancos de macrófitas, à espera de que o incremento do volume de água proporcionado pelo
aumento da vazão e de chuvas possa, finalmente, migrar dessas regiões eutrofizadas e ricas
em nutrientes, devido ao acúmulo de matéria orgânica depositada, na maior parte dos anos,
por meio dos lançamentos de dejetos e de fertilizantes, para, finalmente, completar o ciclo
reprodutivo em áreas mais oxigenadas e de grande movimentação de sedimentos.
Figura 37 - Situação no Baixo São Francisco com o período de cheia.

Fonte: imagem cedida por Emilly Valentim (2020).

Na Figura 37, observa-se um período de cheia, com aumento da vazão, do volume
de chuvas na região, aumento dos níveis de sedimentos do rio, queda de barrancos, maior
carga de material oriundo dos afluentes temporários e alguns perenes na região, com destaque
para os rios Traipu, Ipanema, Capia, Jacaré, Perucaba, Betume e Piauí. Nesta condição, temos
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

123

uma renovação das águas e diminuição da concentração de nutrientes em determinadas
áreas; consequentemente, a calha do rio faz contato com as lagoas marginais (uma das mais
importantes áreas é a Marituba do Peixe), antes isoladas; desta forma, os peixes reofílicos
saem destes ambientes e iniciam o processo de migração reprodutiva com maturação de suas
gônadas (órgãos sexuais masculinos e femininos), para áreas de confluências, em muitos casos,
pontos mais oxigenados e de maior turbidez, para gerar as próximas gerações. Contudo, após
o processo de enchente, novas ilhas são formadas, devido ao grande acúmulo de sedimentos,
voltando aos patamares da Figura 36.
Como podemos observar, os impactos provocados pelas usinas hidrelétricas, alterando
o sistema lótico para lêntico, refletiram em modificações na estrutura das comunidades de
peixes (ANDRADE; ARAÚJO, 2011). Entre essas modificações, destacam-se a interferência
na composição e no comportamento, assim como na migração reprodutiva dos peixes, fazendo
com que algumas entrassem em colapso (BARBOSA; SOARES, 2009; SOARES et al., 2020).
Por outro lado, os contaminantes e esgotos também vêm causando problemas e estresse para
as comunidades aquáticas, interferindo no processo reprodutivo. Diante deste contexto, é
necessário que estratégias eficientes sejam tomadas com relação ao estudo da bioecologia e à
identificação das espécies distribuídas no São Francisco, a fim de mitigar os efeitos danosos
provocados no ambiente pelas ações antrópicas (RAMOS, 2001).
Nas duas expedições científicas, realizadas em 2018 e 2019, cerca de 70% dos peixes
coletados nos meses de outubro e novembro estavam em estádio de maturação considerados
maduros, com machos espermeando quando massageados na região abdominal, enquanto
as fêmeas estavam na fase de desenvolvimento ovocitário II, estádio em que os ovócitos
encontravam-se com estoque de reserva perinucleolar, citoplasma bem definido, nucléolos
esféricos e intensamente basófilos (VAZZOLER, 1996).

Ictiofauna coletada nas expedições de 2018-2019
Durante as expedições de 2018 e 2019, foram coletados cerca de 100 e 220 exemplares
de peixes, respectivamente, capturados por malhadeiras com malhas de 35 a 45mm (nó a nó).
Os dados estão apresentados na tabela abaixo:
Tabela 24 - Espécies coletadas durante a expedição ao Baixo São Francisco, em 2018.
Ordem

Família

Espécie

n

Nome comum

Characiformes

Erythrinidae

Hoplias microcephalus

8

Traíra - N

Serrasalmidae

Metynnis maculatus

9

Pacu-disco - N

Pygocentrus piraya

5

Piranha-preta
-N

Serrasalmus brandtii

11

Pirambeba - N

Megaleporinus obtusidens

4

Schizodon knerii

3

Prochilodus argenteus

1

Anostomidae

Prochilodontidae

124

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Piau-trêspintas - N
Piau-de-vara
-N

Curimatãpacu - N

Siluriformes

Ariidae

Perciformes

Centropomidae

10

Bagre-domar - M

Centropomus parallelus

8

Centropomus undecimalis

2

Robalo-flecha
-M

Carangidae

Caranx latus

11

Xareu - M

Gerreidae

Eugerres brasilianus

6

Carapeba - M

Archosargus
probatocephalus

8

Sargo-dedente - M

Cichla monoculus

14

Tucunaré - I

Oreochromis niloticus

10

Guavina guavina
Lagocephalus

5

Tilápia-donilo - I

Cichlidae

Eletridae
Tetraodontiformes

Cathorops agassizii

Tetraodontidae

Robalo - M

Amoreia - M
Baiacu-arara

4
laevigatus
-M
Fonte: Emerson Soares (2018).
Legenda: N = Nativa; M = Marinha e I = Introduzida; n = número de exemplares coletados.

Tabela 25 - Espécies coletadas durante a expedição ao baixo São Francisco em 2019.
Ordem

Família

Espécie

n

Nome comum

Characiformes

Erythrinidae

Hoplias microcephalus

2

Serrasalmidae

Metynnis maculatus

65

Pygocentrus piraya

7

Serrassalmus brandtii

27

Traíra (N)
Pacu-disco
(N)
Piranhaverdadeira (N)
Pirambeba (N)

Megaleporinus
obtusidens

10

Schizodon knerii

35

Prochilodontidae

Prochilodus argenteus

2

Characidae

Colossoma macropomum

13

Ariidae

Cathorops agassizii

2

Pseudopimelodidae

Lophiosilurus alexandrii

2

Bagre-do-mar
(M)
Pacamã (N)

Mugiliformes

Mugilidae

Mugil curema

2

Tainha (M)

Beloniformes

Belonidae

Tylosurus acus acus

1

Agulhão - M

Perciformes

Centropomidae

Centropomus parallelus

3

Robalo - M

Anostomidae

Siluriformes

Piau-trêspintas (N)
Piau-de-vara
(N)
Curimatãpacu (N)
Tambaqui (I)

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

125

Centropomus
undecimalis
Gobidae
Sparidae
Carangidae
Carangidae
Gerreidae

Trachinotus carolinus
Caranx latus

Eugerres brasilianus

2
4

Robalo-flecha
–M
Aimoré- M
Sargo-dedentes- M

1

Pampo - M

3

Xareu - M

7

Eucinostomus
melanopterus

2

Eletridae

Cichla monoculus
Astronotus ocellatus
Guavina guavina

5
4
1

Tetraodontidae

Lagocephalus laevigatus

5

Cichlidae

Tetraodontiformes

Bathygobius soporator
Archosargus
probatocephalus

1

Carapeba
verdadeira
–M
Carapeba - M
Tucunaré – I
Apaiari - I
Amoreia - M
Baiacu-arara
-M

Legenda: N = Nativa; M = Marinha e I = Introduzida; n = número de exemplares coletados.
Fonte: Emerson Soares (2019).

Figura 38 - Percentual de espécies de peixes encontradas na I Expedição Científica, em
2018.

Fonte: Emerson Soares (2020).

126

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 39 - Percentual de espécies de peixes encontradas na II Expedição Científica, em
2019.

Fonte: Emerson Soares (2020).

Figura 40 - Diversidade de espécies de peixes comerciais por localidade, em 2019.

Fonte: Emerson Soares (2020).

O ano de 2018 teve como principais características a diminuição do volume de chuvas
e uma vazão que ficou próxima a 500 m3/s, que influenciou significativamente no movimento
migratório das espécies reofílicas, no aumento da concentração da carga de efluentes,
decorrente do menor volume de água e menor capacidade depurativa do próprio rio. Estes
fatores, associados à vulnerabilidade dos organismos face aos apetrechos de pesca (menos
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

127

áreas de refúgio) e às condições estressantes de qualidade de água, podem ter contribuído
para a diminuição dos peixes.
Já em 2019, foram encontradas condições hidrológicas melhores, decorrentes do
aumento do regime chuvoso e da vazão, com aproximadamente 1.300 m3/s, que proporcionou
maiores áreas de refúgio, maior capacidade depurativa do rio e conexão entre os afluentes e
as lagoas marginais. O reflexo disso foi a diminuição da cunha salina, o aumento de espécies
de água doce e a menor quantidade de espécies marinhas nas regiões abordadas em 2018.
Os dados observados na Figura 40 apresentam Traipu como região de maior diversidade
de espécies de peixes, seguidas por Porto Real-Propriá e Piaçabuçu (não diferiram entre si,
Teste de Tukey, P < 0,05). Nas outras regiões de coleta, foi observada uma baixa diversidade
de espécies, em comparação com as três regiões acima.
De acordo com estudos realizados por Barbosa e Soares (2009) e Barbosa et al.
(2017), a ictiofauna da bacia do rio São Francisco é composta por 32 famílias, 110 gêneros
e 241 espécies, pertencentes a sete ordens: Clupeiformes, Characiformes, Siluriformes,
Gymnotiformes, Cypriniformes, Sinbranchiformes e Perciformes. Na distribuição das
famílias, gêneros e espécies, por ordem, destacam-se as ordens Characiformes, com 13
famílias, 44 gêneros e 77 espécies, e a ordem Siluriformes, com 10 famílias, 47 gêneros e 85
espécies, pela maior diversidade nestes táxons, demonstrando grande capacidade de dispersão
e especiação desses grupos.
Os mesmos autores concluíram que, dentre as espécies nativas da bacia, várias
apresentam importância na alimentação humana, por isso, são alvo de intensa pesca,
destacando-se: curimatãs (Prochilodus argenteus), dourado (Salminus franciscanus), mandiamarelo (Pimelodus maculatus), mandi-açu (Duopalatinus emarginatus), piaus (Leporinus spp.
e Schizodon knerii), traíras (Hoplias spp.), cascudo-preto (Rhinelepis aspera), corvinas e piranha
(Pygocentrus piraya).
Dados obtidos nos estudos de Soares et al. (2011), na microrregião de Penedo,
relataram predominância média de 19 espécies desembarcadas nos mercados desta região,
para os anos de 2007 a 2009, das quais cerca de cinco representavam, em média, 80% da
biomassa, tendo a curimatã-pacu (Prochilodus argenteus), os piaus (Megaleporinus reinhardt e
Megaleporinus obtusidens), as pilombetas (Anchoviella spp.) e dois representantes da família
Centropomidae, o robalo (Centropomus undecimalis e C. parallelus), completando a lista de
espécies mais importantes na localidade.
Ao confrontarmos com os dados atuais obtidos pelas duas expedições científicas,
percebe-se o empobrecimento de espécies nativas e de água doce na composição das capturas,
com 17 espécies coletadas (2018), com um total de 119 indivíduos capturados e 24 espécies,
em 2019, com um volume de capturas da ordem de 206 indivíduos, sendo que, destas, sete
foram nativas para ambos os anos. Foi constatado o desaparecimento das curimatãs-pacus,
pilombetas, pacamã e piabas Astyanax sp. e a diminuição das carapebas, com prevalência da
ordem Perciformes, em detrimento dos Characiformes, outrora mais abundantes, e aumento
de espécies eurihalinas e marinhas e exóticas com relação às nativas.
Permanece o panorama, no qual cerca de 5 ou 6 espécies representam entre 70% e
80% das capturas na região, com destaque para as espécies M. maculatus (pacu), S. knerii (piau
branco ou piau de vara), S. brandtii (pirambeba), C. macropomum (tambaqui), L. obtusidens (piau
três pintas) e E. brasilianus (carapeba verdadeira). Contudo, em 2018, as três espécies mais
capturadas foram as pirambebas, seguidas dos pacus e tucunarés; já em 2019, destacaram-se

128

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

o pacu, os piaus e as pirambebas.
A seguir, podemos verificar a descrição das principais espécies de água doce coletadas
nas expedições do Baixo São Francisco:
Figura 41 - Serrasalmus brandtii (pirambeba).

Fonte: Arquivos da Expedição (2019).

É uma espécie pertencente à ordem Characiformes, família Serrasalmidae, nativa da
bacia do São Francisco, de desova parcelada, com picos no período chuvoso. Possui corpo
alto e bastante comprimido lateralmene, com presença de espinho pré-dorsal e quilha ventral
dotada de espinhos. Possui aproximadamente 22 cm de comprimento, padrão máximo
(BRITSKI et al., 1988), alimenta-se, quando nas fases juvenis, de insetos, escamas, olhos e
nadadeiras e, quando adulto, é piscívora (POMPEU, 1999), sendo de hábito bentopelágico.
Figura 42 - Metynnis maculatus (pacu-disco).

Fonte: Arquivos da Expedição (2019).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

129

É uma espécie pertencente à ordem Characiformes, família Serrasalmidae, subfamília
Serrasalminae. Corpo comprimido e muito alto; uma série de espinhos abdominais, nadadeira
dorsal com mais de 16 raios e presença de um espinho pré-dorsal anteriormente direcionado.
Apresentam duas séries de dentes molariformes ou incisiviformes. Tem hábito comportamental
pelágico e alimenta-se de plantas e algas, conferindo hábito alimentar herbívoro.
Figura 43 - Megaleporinus obtusidens (piau-três-pintas).

Fonte: Arquivos da Expedição (2019).

Figura 44 - Schizodon knerii (piau branco)

Fonte: Arquivos da Expedição (2019).

A família Anostomidae pertence à ordem Characiformes. O M. obtusidens possui corpo
alongado, coberto por escamas prateadas, nadadeiras peitorais, ventrais e anal, amareladas,
com focinho proeminente. Apresenta três máculas no flanco. Já S. knerii possui boca terminal,
corpo coberto por escamas, não possui manchas, com boca terminal e, às vezes, aparecem faixas
transversais em seu corpo. É de grande importância comercial, com hábito onívoro e, quando
juvenis, alimentam-se de moluscos, invertebrados, matéria vegetal e detritos, combinando
com insetos, sementes, crustáceos e moluscos, como massunins (Anomalocardia brasiliana)
presentes no Baixo São Francisco. Com ciclo reprodutivo nos meses de outubro a março e
maturação sexual por volta dos 18 cm a 20 cm, são peixes de desova total.

130

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 45 - Cichla monoculus (tucunaré)

Fonte: Ricardo Teodosio (2019).

O gênero Cichla, do qual fazem parte os tucunarés, pertence à superclasse Actinopterygii,
peixes de nadadeiras raiadas, ordem Perciformes, família Cichlidae. Com cerca de 7.000
representantes, a ordem Perciformes é caracterizada pela presença de dois espinhos na
porção anterior da nadadeira anal e nadadeira caudal em forma de losango. Apresenta duas
nadadeiras dorsais ou uma dividida em duas porções, sendo a porção anterior com raios
duros e a posterior com raios moles modificados. Apresentam características de um grande
predador, devido à boca grande e protáctil, pré-maxila bastante proeminente, ultrapassando a
porção médio-anterior da região orbital. Possuem coloração amarelo-oliva, com ventre claro
ou avermelhado (dependendo da época de reprodução).

Breve relato das espécies da planície fluviomarinha junto à foz do rio São
Francisco
A planície fluviomarinha do rio São Francisco (PFRSF) estende-se desde a cidade
de Penedo, no Estado de Alagoas, até o litoral, sendo constituída por superfícies planas,
praticamente sem desníveis acentuados (DOMINGUEZ, 1996). A sua foz, localizada na
Área de Proteção Ambiental (APA) de Piaçabuçu, compõe um ambiente de planície costeira,
formado por vários canais, lagunas e várzeas, interligados entre si, além do rio principal, que
deságua no oceano.
Para a análise dos dados, a área de amostragem foi considerada em três subáreas: I –
desde a foz (ponto 1) até riacho dos Bagres (ponto 6), com 7,4 km de extensão; II – da ilha
da Neri (ponto 7) até Croa dos Patos (ponto 12), com 14 km de extensão, e III – da ilha da
Aparecida (ponto 13) até Prainha (ponto 18), com 9,6 km de extensão.
Na planície fluviomarinha do rio São Francisco, foram coletados 3.772 indivíduos
pertencentes a 82 táxons, estando 80 classificados em nível de espécie e dois em nível de
gênero; representados por 31 famílias, sendo descritos 54 novos registros (NR) de espécies
para a bacia do rio São Francisco, todas associadas aos estuários ou de origem marinha
(PAIVA et al., dados não publicados).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

131

Tabela 26 - Espécies dominantes em cada subárea da planície fluviomarinha do rio São
Francisco, com respectivas classificações do grupo funcional (GF): duciaquícola
(D), duciaquícola-estuarina (DE), marinha-duciaquícola-estuarina (MDE),
marinha-estuarina (ME) e origem marinha (M).
Subárea I

Atherinella brasiliensis
Centropomus
parallelus
Centropomus

undecimalis
Citharichthys

spilopterus
Eucinostomus
melanopterus

ME

GF

Cichla monoculus

Subárea II

GF
D

Astyanax fasciatus

Subárea III

GF

MDE

Eleotris pisonis

MDE

Awaous tajacica

DE

MDE

Metynnis maculatus

D

Cichla monoculus

D

MDE

Serrasalmus brandtii

D

Leporinus piau

D

Metynnis maculatus

D

Serrasalmus brandtii

D

MDE

Eucinostomus sp.
Eugerres brasilianus
Lutjanus alexandrei
Lutjanus jocu
Mugil sp.
Sciades herzbergii

D

M
M
MDE
MDE

Fonte: Andréa Guimarães (2017).

­­Figura 46 - Distribuição espacial das espécies dominantes na planície fluviomarinha do
rio São Francisco. a. Centropomus parallelus; b. Centropomus undecimalis; c.
Citharichthys spilopterus; d. Eucinostomus melanopterus; e. Lutjanus alexandrei; f.
Lutjanus jocu; g. Astyanax fasciatus; h. Awaous tajasica; i. Serrassalmus brandtii;
j. Leporinus piau; k. Metynnis maculatus; l. Cichla monoculus; m. Serrassalmus
brandtii; n. Metynnis maculatus; o. Cichla monoculus; p. Awaous tajasica; q. Sciades
herzbergii; r. Mugil sp. s. Eugerres brasilianus; t. Eucinostomus sp.; u. Atherinella
brasiliensis.

Fonte: Andréa Guimarães (2017).

132

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

De acordo com Paiva e colaboradores (comunicação pessoal), as famílias estuarinas
típicas como Carangidae, Clupeidae, Engraulidae, Gerreidae e Lutjanidae, representadas por
Caranx latus, Harengula clupeola, Anchovia clupeoides, Diapterus rhombeus, Lutjanus jocu, entre
outras, foram exclusivas da subárea I. Além das espécies duciaquícolas, nas subáreas II e III,
as espécies marinhas-duciaquícolas-estuarinas (MDE) ocorreram em números consideráveis.
As espécies MDE são altamente eurialinas, sendo capazes de resistir a mudanças rápidas e
amplas de salinidade.

Conteúdo estomacal dos peixes

Estão expressos abaixo, na Tabela 27, os dados observados das amostras de peixes
capturadas durante a II Expedição Científica do Baixo São Francisco, assim como os valores
médios dos índices de repleção do estômago.
Tabela 27 - Dados coletados para avaliação de conteúdo estomacal dos peixes capturados
durante a II Expedição Científica do Baixo São Francisco.
Espécies
(Nome
comum)

Classe de comprimento
(cm)
total
padrão

Classe de
peso (g)

Total de
exemplares
(n)

Tucunaré

28,0-28,5

24,0-23,5

260-310

4

Piau branco

28,2-39,0

25,6-34-5

305-1000

19

Piau-trêspintas

27,4-32,0

23,0-27,8

245-580

4

Pacu

13,6-20,8

11,0-14,0

75,0-140,0

42

Tambaqui

20,3-30,0

17,2-25,0

230,0595,0

13

Pirambeba

16,2-22,5

14,0-20,0

95,0-260,0

14

Carapeba

15,0-17,8

13,3-14,0

70,0-90,0

5

Fonte: Elton Santos (2020).

IR
n (% de
enchimento)
n=2 (0%)
n=2 (100%)
n=8 (0%)
n=6 (25%) n=4
(50%) n=1
(75%)
n= 1 (0%)
n=2 (25%) n=1
(50%)
n= 25 (0%)
n=10 (25%) n=3
(50%)
n=4 (75%)
n= 7 (0%)
n= 3 (25%) n= 3
(50%)
n= 8 (0%)
n= 3 (25%) n=
2(50%)
n=1 (75%)
n= 4 (25%) n=
1(50%)

A espécie com maior número de indivíduos amostrados foi o pacu; entretanto, os
exemplares desta espécie apresentaram maior taxa de retenção, possivelmente, devido ao
aumento da vazão do rio durante o período da expedição, dissipando o principal alimento
para essas espécies. O conteúdo estomacal foi composto por fitoplâncton e microalgas em
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

133

quase a totalidade do trato digestivo e, como segundo item, restos em decomposição de
insetos e moluscos.
O piau branco e piau-três-pintas obtiveram, como índice mais presente em seu trato
digestivo, algas e matéria orgânica em decomposição.
As figuras abaixo expressam a abertura do estômago através de corte longitudinal e
a identificação dos componentes por frequência dos itens e percentual.
Figura 47 - Procedimentos durante a análise do conteúdo estomacal dos peixes capturados

Fonte: Ricardo Teodósio (2019).

As espécies avaliadas e capturadas durante a expedição são, de certo modo, as de
maior importância socioeconômica para a região do Baixo São Francisco, sendo uma das
principais espécies de peixes capturadas e consumidas pela população ribeirinha do rio São
Francisco. O conhecimento do perfil de alimentação natural a que essas espécies estão sendo
submetidas é de grande pertinência para a avaliação das condições de equilíbrio ecológico.
As categorias tróficas identificadas demonstraram uma dieta composta por diferentes
e variados itens ao longo das diferentes localidades de coleta. Para diversas espécies de peixes,
foram registrados insetos, camarão, outros invertebrados, peixes e partes, material digerido,
detritos, sedimentos, material vegetal, moluscos e algas. Quanto às guildas de animais
carnívoros, predominaram os itens peixes, escamas, camarões e moluscos. Contudo, as espécies
analisadas no presente estudo podem variar seus conteúdos, de acordo com a época do ano.
É o caso das carapebas analisadas na região de Piaçabuçu, durante a expedição de 2019, que
apresentaram detritos minerais, restos de poliquetas e matéria orgânica em decomposição
como itens mais frequentes, enquanto em 2015, insetos da família Chrinomidae, poliquetas
e anfípodas, foram os itens mais comuns (Soares et al., 2016). Segundo Santos (2014), a
mudança no volume de água dos reservatórios é considerada um fator relevante quando
relacionado à estrutura trófica, podendo ocasionar, de forma significativa, mudanças na
dieta natural dos peixes, uma vez que as variações hidrológicas afetam a disponibilidade dos
recursos alimentares.
Algumas espécies não nativas e de hábito carnívoro, a exemplo do tucunaré,
apresentaram conteúdo estomacal composto por pequenos peixes e crustáceos, revelando a
forte ameaça que essa espécie pode ter sobre a sobrevivência e o desenvolvimento de formas
jovens de peixes e camarões nativos do rio São Francisco, podendo, inclusive, desequilibrar a

134

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

teia alimentar de muitas outras espécies. De forma idêntica, a pirambeba (espécie carnívora)
apresentou restos de crustáceos e pequenos peixes como itens mais frequentes.
O tambaqui, peixe exótico do rio São Francisco, capturado próximo ao município de
Porto Real do Colégio, continha restos de crustáceos, conchas de gastrópodes e de massunin
(Anomalocardia brasiliana), além de detritos e material vegetal não identificável.
Tabela 28 - Presença dos itens alimentares das principais espécies de peixes coletados
durante a II Expedição Científica do Baixo São Francisco.
Itens
alimentares

Espécies de peixes (nome comum)
Piau-trêspacu
tambaqui
pirambeba
pintas

tucunaré

Algas e
fitoplâncton

Piau
branco

-

+

+

+

+

-

+

Poliquetas

-

-

-

-

-

-

+

-

+

+

+

+

-

+

-

+

-

+

-

-

-

carapeba

Detritos e
sedimentos
Partes de
insetos
Material
vegetal
Crustáceos

-

+

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Peixes

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Escamas

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Conchas de
moluscos

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Material não
identificável

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Fonte: Elton Santos (2020).

Assim, a verificação e a análise do conteúdo estomacal dos peixes, baseando-se na
dieta natural dos exemplares capturados durante a II Expedição Científica no Baixo São
Francisco, apresenta, de forma genérica, que os principais itens alimentares explorados por
essa comunidade de peixes baseiam-se em algas, vegetais, insetos e crustáceos, para a maior
parte das espécies, apontando indícios de que a onivoria possa ser o principal comportamento
trófico desta comunidade. Entretanto, a exceção faz-se para as espécies comprovadamente
carnívoras, como: tucunaré, pirambeba e traíra, cujos principais itens alimentares presentes
foram partes de peixes e crustáceos.
De forma geral, o estudo do conteúdo estomacal dos peixes e de seus hábitos
alimentares mostra-se de extrema importância para a amplitude do entendimento da dinâmica
do rio São Francisco, em seu espaço e distribuição temporal e espacial das espécies. Esses
estudos podem servir como uma valiosa ferramenta de estratégias de manejo sustentável de
espécies com potencial uso na aquicultura ou para a conservação de espécies nativas do rio
São Francisco.
Oliveira (2015) destaca e reconhece que há esforços científicos focados nesta questão
no estudo e que, nas últimas décadas, tem ocorrido um aumento nos estudos relacionados à

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

135

alimentação natural de peixes, sendo mais intensificados para as regiões Norte, Sul e Sudeste
do Brasil. No entanto, a maior parte do conhecimento relacionado à dieta e ao hábito alimentar
de peixes no Brasil concentra-se para espécies de maior interesse comercial, sendo os estudos
sobre fisiologia, alimentação e possíveis protocolos de manejo de criação e nutricional de
peixes nativos ainda repelidos.
Desse modo, em se tratando de pesquisas com manejo nutricional e alimentação
de espécies nativas do rio São Francisco, o conjunto de informações científicas é ainda
mais escasso. Vale destacar a baixa quantidade de peixes capturados durante a expedição,
como a curimatã-pacu, ou até mesmo a ausência de captura de peixes como o surubim, fato
que é corroborado por relatos informais de pescadores e da população, ao longo de todo o
rio. Espécies como o curimatã-pacu e o surubim, que são peixes nativos, possuem grande
importância na cadeia trófica do rio e são exemplares de ampla aceitação pelo mercado
consumidor.
Um outro aspecto a ser considerado remete à avaliação do conteúdo estomacal
dos peixes, que pode ser um instrumento balizador na avaliação da condição ecológica do
rio, equilíbrio ecológico e saúde da população ribeirinha, visto que, em um dos exemplares
analisados, foi observada grande quantidade de plástico e material laminado no estômago.
Esse evento remete-nos à reflexão de como o rio São Francisco está sendo utilizado e como
está o nível de degradação do ambiente aquático.

Considerações finais e perspectivas de pesquisa-ação para melhorias na
região do baixo rio São Francisco quanto à ictiofauna

 A ictiofauna no baixo São Francisco é de pouca diversidade e quantidade, onde
cerca de 6 espécies representam 80% das capturas na região;
 Podem ser consideradas espécies quase extintas ou em processo de declínio:





136

curimatãs-pacus (P. argenteus), pilombetas (Anchoviella sp.), surubim
(Pseudoplatystoma corruscans), dourado (Salminus franciscanus), pacamã – (L.
alexandrii), pirá (Conorhynchos conirostris) e piaba (A. bimaculatus);
A diminuição da vazão, a pesca com métodos não permitidos, o represamento
da água, o desmatamento da vegetação ciliar, o assoreamento, a poluição de
efluentes da cidades e os agrotóxicos, aliados à diminuição do regime de chuvas,
vêm prejudicando a reprodução dos peixes, afetando as migrações reprodutivas de
espécies de piracema e esgotando os estoques pesqueiros;
A grande quantidade de esgotos e lixo jogados na calha do rio prejudica a qualidade
de água, o que provoca forte estresse para as espécies, colaborando para a diminuição
do alimento natural e o desenvolvimento dos peixes;
Menor volume de água e maior assoreamento favorecem à diminuição das áreas
de fuga, menor quantidade de sedimentos, aumento da visibilidade por parte de
peixes carnívoros e predadores, restringindo as áreas de proteção de indivíduos
jovens, favorecendo a predação por organismos adultos e exóticos à bacia
(tucunarés, apaiaris, piranhas, pirambebas etc.) dos organismos jovens e na fase
imatura, colaborando para a depleção dos estoques pesqueiros nativos. Isso explica
a presença de grande número de peixes exóticos e de hábito alimentar piscívoro, às
vezes melhor adaptados à piora das condições ambientais;
O aumento da cunha salina em períodos de menor vazão e chuvas diminui os
habitats de espécies nativas de água doce, aumentando a concorrência por alimento

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

por parte de espécies eurihalinas ou marinhas.

 Atualização urgente das instruções normativas de defeso, visto que estão defasadas
e com embasamento científico incipiente;
 Retomada e fortalecimento urgente dos programas de peixamentos com definição





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
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

de áreas-berçários, delimitadas e protegidas, durante alguns meses, através de
acordos de pesca e manejo de áreas;
Investimento imediato, por parte das instituições que trabalham com a gestão da
água e do setor elétrico, em projetos de biomonitoramento contínuo no Baixo São
Francisco, para ações como estatística pesqueira, monitoramento da qualidade da
água, análise de poluentes, saneamento básico e manejo do solo;
Proteção de áreas de confluência de rios como: Traipu, Perucaba, Jacaré, Piauí,
Betume e Ipanema, com ações fiscalizatórias;
Criação de agentes ambientais voluntários, com pessoal da própria comunidade;
Em termos de estudos da ictiofauna, sugere-se delimitação de sub-áreas por
proximidade hidrológica, ambiental e de espécies:
Criação de um programa de educação ambiental nas escolas, com inserção de temas
ambientais nos projetos pedagógicos;
Revisão do período de defeso anual ou a cada dois anos, de acordo com a situação
do sistema hídrico e da climatologia;
Criação da bolsa ambiental, com incentivo àqueles que participam do programa de
agentes ambientais voluntários e ações de conservação na região;
Proteção integral da área da Marituba do Peixe;
Incentivo a programas de cultivo de peixes em tanques-redes, delimitados por ações
de controle das espécies exóticas e fugas de peixes desses sistemas de cultivo;
Como decisão mais drástica, fechamento integral de áreas de pesca, com processos
de manejo dialogado com a população;
Ações integradas na gestão dos resíduos e dejetos das cidades ribeirinhas para
contenção dos poluentes na água;
Delimitação de uma vazão ecológica mínima, para evitar as chamadas “desovas
secas”, processo em que os peixes, quando em fase reprodutiva, maturam suas
gônadas (órgãos sexuais), mas não completam o ciclo reprodutivo, pelas condições
ineficientes de estímulos ambientais em relação à fisiologia e à biologia reprodutiva;
Planejamento urbano e contenção por prefeituras, MP e órgãos ambientais de
fiscalização de áreas de ocupação desordenada às margens do rio e de áreas de
confluências de afluentes e ilhas.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

139

MORPHOLOGICAL CHARACTERIZATION
OF THE INTESTINE, LIVER, AND GILLS OF
FISH FROM THE LOWER SÃO FRANCISCO:
HISTOPATHOLOGICAL AND HISTOCHEMICAL
STUDY
Priscylla Costa Dantas

Emerson Carlos Soares

Themis de Jesus da Silva
SUMMARY
The São Francisco River basin encompasses important biomes that provide a rich
and diverse ichthyofauna, with endemic species of economic importance. The population
increase that occurs along the river favors industrial expansion and increases the production
of waste, resulting in unwanted effects on the environment. The Lower São Francisco region
suffers from the impacts caused by anthropic actions, but there is little research on the
effect of pollutants in the trophic chain, more specifically in local fish. Due to the scarcity
of studies related to the histology of the intestine, liver, and gills of species from the Lower
São Francisco, investigations into these target organs are indispensable to understand cellular
poisoning in aquatic organisms. Cichla monoculus (tucunaré), Schizodon knerii (piau-branco),
Megaleporinus obtusidens (piau-três-pintas) Metynnis maculatus (pacu), Serrasalmus brandtii
(pirambeba), Astronotus ocellatus (acará-boi), Colossoma macropomum (tambaqui), and Eugerres
brasilianus (carapeba) tissue samples were collected at seven locations in the Lower São
Francisco region. Morphological analysis of the liver showed similar characteristics to those
found in most teleosts. Liver histology revealed cellular alterations in 93% of fish, with the
presence of leukocyte infiltration, vacuolization of hepatocytes, dilatation of sinus vessels,
congestion, necrosis, presence of melanomacrophage centers, and free melanomacrophages.
The gills analyzed presented morphology similar to that described for most freshwater teleosts.
However, 53% had some gill alterations, such as lamellar fusion, capillary disarrangement,
hyperplasia, decreased interlamellar space, and aneurysm. The histochemical analysis detected
that only tunucaré, piau-branco, pacu, and tambaqui gills showed a positive reaction to
Schiff ’s reagent. There was a high morphological diversity among the species in the fish
intestine, with a varied pattern in the arrangement of villi that directly relate to their eating
functions and habits. It has been shown that through histopathology, it is possible to assess
whether the fish from the Lower São Francisco have experienced events with stressful agents.
Information on the liver, gills, and bowel histology of the Lower San Francisco species can
serve as essential tools to support species management and understand fish’s health status
in the region.

140

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 8
CARACTERIZAÇÃO MORFOLÓGICA DO
INTESTINO, FÍGADO E BRÂNQUIAS DE
PEIXES DO BAIXO SÃO FRANCISCO: ESTUDO
HISTOPATOLÓGICO E HISTOQUÍMICO
Priscylla Costa Dantas41

Emerson Carlos Soares42

Themis de Jesus da Silva43
INTRODUÇÃO
O crescimento econômico baseado na exploração indiscriminada dos recursos naturais
não renováveis e na redução da biodiversidade contribuiu para as graves crises ambientais e
sociais da atualidade. O aumento populacional favorece à expansão da cadeia produtiva em
função do maior consumo de produtos, elevando, inevitavelmente, a produção de resíduos que
ocasionam efeitos indesejados no meio ambiente e organismos vivos (MARTINE; ALVES,
2015; SOUZA et al., 2018).
Devido à alta carga de compostos lançados na água, o ecossistema aquático é
considerado um dos mais suscetíveis à poluição e contaminação, comumente associadas à
descarga de efluentes domésticos, industriais ou agrícolas (MARTINEZ; CÓLUS, 2002),
ocupação inadequada pela construção civil, utilização de terra para grandes cultivos e
desmatamento da vegetação ciliar (SUNDFELD-PENIDO, 2010).
Os impactos causados pelas atividades antrópicas em corpos d’água podem ser
mensurados por diversos métodos quantitativos e qualitativos, que utilizam diferentes
parâmetros para caracterizar os efeitos adversos causados nos meios biótico e abiótico
das áreas de interesse (PAGLIARINI; OLIVEIRA; ESPINDOLA, 2019). O crescente
número de pesquisas desenvolvidas nessa área são justificadas pela necessidade de remediar
os problemas causados pela sociedade moderna, além de possibilitar criação de ferramentas
que permitam avaliar a qualidade do ambiente e antecipar o desenvolvimento de ações que
possam minimizar as contaminações aos ecossistemas (BARETTA et al., 2019).
A ecotoxicologia estuda o efeito de substâncias químicas em organismos vivos, sendo
bastante utilizada como ferramenta para auxiliar em análises de impactos ambientais causados
por tais elementos na água (WALKER et al., 2006), baseada principalmente na resposta de
organismos individuais a agentes estressores químicos.
Os organismos aquáticos são sensíveis à exposição a produtos químicos e acumulam
poluentes diretamente através da água ou pela ingestão de outros organismos contaminados
Engenheira Florestal, Doutora em Entomologia, Professora do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias
(Ceca), Universidade Federal de Alagoas.
42
Engenheiro de pesca, Doutor em Biotecnologia, Professor do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias
(Ceca), Universidade Federal de Alagoas.
43
Bióloga, Doutora em Biotecnologia, Professora do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (Ceca),
Universidade Federal de Alagoas.

41

(MATSUMOTO et al., 2006). Os peixes respondem rapidamente a ambientes impactados,
devido à flexibilidade do tamanho do corpo, biologia e estratégias adaptativas (SNORRASON
et al., 1994).
Os cursos d’água e seu entorno são áreas que apresentam maior risco ambiental
devido aos poluentes gerados pelas cidades que estão à sua margem. A região do Baixo São
Francisco é uma das que mais sofrem com os impactos ocasionados pelas ações antrópicas.
Por estar situada em uma região de conflito do Nordeste, com intensa exploração do rio
pela comunidade local e circunvizinha para diversos fins, o Baixo São Francisco apresenta
inúmeros problemas ocasionados pelo represamento do rio, sucessivos barramentos, salinidade
e efluentes domésticos e agrícolas lançados na água. Contudo, a pesca ainda é uma das
atividades de subsistência mais importantes, segundo os levantamentos realizados por Soares et
al. (2011), Barbosa et al. (2017) e pelos dados obtidos no II Relatório da Expedição Científica
do Baixo São Francisco (2020), onde os autores constataram abundância de espécies nativas
de grande importância na alimentação humana e alvo de pesca intensiva.
De acordo com dados obtidos do Relatório da II Expedição Científica do Baixo
São Francisco (2020), entre as espécies coletadas, podem-se destacar as endêmicas
pirambeba (Serrasalmus brandtii) (Characiforme, Serrasalmidae) e pacu (Metynnis maculatus)
(Characiforme, Serrasalmidae), as espécies nativas piau-três-pintas (Megaleporinus obtusidens),
piau branco (Schizodon knerii) (Characiforme, Anostomidae), as espécies introduzidas tucunaré
(Cichla monoculus), acará-boi (Astronotus ocellatus) (Perciforme, Cichlidae), tambaqui (Colossoma
macropomum) (Characiforme, Serrasalmidae) e a espécie marinha carabepa (Eugerres brasilianus)
(Perciforme, Guerreidae).
Ainda segundo o relatório, foi evidenciado o empobrecimento de algumas espécies
nativas na composição das capturas, sendo constatada a diminuição de curimatãs-pacus e
pilombetas, e ocorreu aumento de espécies da ordem Perciformes e de espécies eurihalinas,
marinhas e exóticas com relação às nativas (RELATÓRIO DA II EXPEDIÇÃO
CIENTÍFICA DO BAIXO SÃO FRANCISCO, 2020). Esse resultado pode ser explicado
pelo lançamento de efluentes nos corpos d’água, predominantemente de esgotos domésticos
sem tratamento, causando a poluição hídrica da bacia (ANA, 2019). Além disso, a região
do Baixo São Francisco possui grandes perímetros de monocultivos que demandam uma
quantidade enorme de agrotóxicos e adubos químicos, utilizados sem a devida fiscalização
(SILVA et al., 2015; BRITTO, 2015). Esses impactos, somados ao aumento da salinidade
e à competição com espécies exóticas, pode provocar desaparecimento de espécies de peixes
nativos no Baixo São Francisco.
A periculosidade da contaminação de compostos químicos nos ecossistemas aquáticos
pode não ser rapidamente detectada pelo fato de muitas dessas substâncias permanecerem
em níveis subletais no meio ambiente aquático e não serem verificadas por não causarem
morte imediata de peixes (FANTA et al., 2003). Segundo Poleksic e Mitrovic-Tutundzic
(1994), em um ambiente aquático degradado, particularmente onde os poluentes ocorrem
em concentrações subletais e crônicas, as mudanças na estrutura e na função dos organismos
aquáticos ocorrem com maior frequência do que a mortalidade em massa. Portanto, um dos
possíveis métodos para avaliar efeitos de poluentes em peixes de água doce é examinar as
alterações morfológicas no órgão-alvo.
A diversidade de peixes nativos com diferentes hábitos e comportamento alimentar
apresenta-se como uma vasta área de estudo, principalmente no que se refere às características

142

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

morfofisiológicas (RODRIGUES; NAVARRO; MENIN, 2006). O trato digestório dos
teleósteos de água doce atrai a atenção de pesquisadores, devido ao elevado grau de variações
estruturais que possibilita a compreensão dos mecanismos de ingestão, digestão e absorção
dos alimentos (MENIN, 1988; FERREIRA et al., 2013; SANTOS et al., 2015).
A morfologia do sistema gastrointestinal de peixes permite relacionar o hábito
alimentar natural ao longo do seu desenvolvimento, já que eles possuem estruturas específicas
envolvidas no processo digestivo (MORAIS et al., 2014; ALABSSAWY; KHALAFALLAH; GAFAR, 2019). O canal alimentar dos peixes é um dos principais sistemas que
possui interação direta com o meio ambiente (PURUSHOTHAMAN et al., 2016) e possui
importantes glândulas anexas, constituídas pela vesícula biliar, o pâncreas e o fígado (ROTTA,
2003) e é compartilhado com o sistema respiratório, principalmente pela presença das
brânquias e das valvas orais que estão envolvidas na mecânica respiratória (RODRIGUES;
MENIN, 2006).
Esses organismos aquáticos são sensíveis à exposição a produtos químicos e acumulam
poluentes diretamente através da água ou pela ingestão de outros organismos contaminados
(MATSUMOTO et al., 2006). Os peixes, mais que outros vertebrados, respondem prontamente
à complexidade ambiental ( JOBLIN, 1995), que pode resultar em alterações em sua estrutura
morfológica celular que prejudicam a realização de suas funções fisiológicas e ocasionam
efeitos adversos a curto, médio ou longo prazo.
Os peixes têm sido amplamente utilizados em estudos experimentais, tanto em
avaliações de saúde dos ecossistemas aquáticos como em estudos toxicológicos (CASTAÑO
et al., 2003; FONTANETTI; SOUZA; CHRISTOFOLETTI, 2012; YANCHEVA et al.,
2015; WOLF; WHEELER, 2018; AL-OTAIBI et al., 2019). Os estudos são realizados
através de análises histopatológicas e histoquímicas (ROCHA et al., 2010; PINHEIRO et
al., 2017), sendo o intestino e as brânquias importantes órgãos acumuladores de poluentes
que os transferem para o fígado para serem biotransformados por meio de enzimas e, então,
ser excretados (HEATH, 1997). Diante disso, é importante ressaltar que a histopatologia é
um método eficaz para detectar os diversos efeitos da exposição aguda ou crônica nos vários
tecidos e órgãos (HINTON et al., 1992).
Segundo Hinton e Lauren (1990), o fígado é um importante órgão utilizado em estudos
de toxicologia, por este ser o primeiro órgão a atuar na biotransformação de xenobióticos,
excreção de alguns metais pesados, além de atuar na estocagem de carboidratos e glicogênio e,
especialmente em peixes, acumular lipídios. Simonato, Fernandes e Martinez (2008) afirmam
que danos hepáticos podem ser causados pelas toxinas acumuladas pelo fígado, devido aos
processos de desintoxicação e que, ao causarem a degeneração dos hepatócitos, acabam por
limitar as funções vitais do fígado, prejudicando o organismo como um todo.
As brânquias são órgãos multifuncionais envolvidos em transporte de íons, trocas
gasosas, processos de osmorregulação, equilíbrio ácido-base e excreção de compostos
nitrogenados (DANG et al., 2001). Por serem um órgão-alvo que possuem grandes áreas de
um tecido delicado em contato direto com a água, estão entre os primeiros a reagir a condições
ambientais desfavoráveis (POLEKSIC; MITROVIC-TUTUNDZIC, 1994). As brânquias
são consideradas mais vulneráveis ao stress causado por poluentes que outros órgãos e qualquer
alteração em sua estrutura e função tem relação direta com a qualidade da água e pode causar
impacto adverso sobre a biologia e sobrevivência do peixe (STOYANOVA et al., 2015).
Devido à escassez de pesquisas relacionadas às adaptações nas estruturas

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

143

anatomohistológicas do trato digestivo, bem como a alterações patológicas relacionadas
com a contaminação ambiental no Baixo Rio São Francisco, investigações sobre a morfologia
das células do intestino, das brânquias e do fígado dos peixes que habitam essa região são
indispensáveis para a compreensão de intoxicações celulares em organismos aquáticos que
podem propiciar importantes elementos para pesquisas sobre detecção de impactos ambientais.
Os resultados das análises aqui apresentadas podem servir de subsídios para ações
de políticas públicas relacionadas ao uso da água e a preservação dos organismos aquáticos,
podendo ser uma ferramenta complementar em estudos de impactos ambientais adversos
nos corpos hídricos do Baixo Rio São Francisco.

Processamento de tecidos para microscopia de luz

Após a captura, peixes coletados foram identificados, dissecados e fragmentos dos
intestinos, fígados e brânquias, fixados em formol a 10% e, após 24 horas, transferidos para
álcool 70% e levados para o Laboratório Aquicultura e Análise de Águas (Laqua) do Campus
de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA-UFAL), onde os estudos histológicos foram
desenvolvidos. Posteriormente, foram desidratados em série alcoólica crescente a 80%, 90% e
99% e, em seguida, submetidos à resina de embebição (Leica Historesin – Embedding Kit),
por 24 horas, em geladeira. O material foi transferido para moldes de polietileno (histomold)
contendo resina de inclusão e mantidos em temperatura ambiente até a polimerização. Os
blocos foram cortados em secções de 5 μm de espessura, com auxílio de micrótomo rotativo,
com navalhas de aço inox. Os cortes foram, então, corados por Hematoxilina/Eosina e
submetidos à técnica histoquímica por meio da reação do reativo de Schiff (PAS). As reações
de PAS permitem evidenciar a presença de polissacarídeos neutros, que possuem grupo glicol
em suas estruturas.
Foram analisados histologicamente amostras de tecidos do fígado, brânquias e
intestino de 30 diferentes peixes pertencentes a nove espécies, coletadas em sete pontos da
região do Baixo São Francisco. As espécies estudadas incluem a Cichla monoculus (tucunaré),
Schizodon knerii (piau branco) e Megaleporinus obtusidens (piau-três-pintas), coletados no
município de Piranhas; Metynnis maculatus (pacu) e Serrasalmus brandtii (pirambeba),
coletados em Pão de Açúcar; C. monoculus e Astronotus ocellatus (acará-boi), coletados em
Traipu; Colossoma macropomum (tambaqui) e S. brandtii, coletados em Propriá; S. knerii e
M. maculatus, coletados em Igreja Nova; S. knerii e M. maculatus, coletados em Penedo, e M.
obtusidens e Eugerres brasilianus (carapeba), coletados em Piaçabuçu.

Análise histopatológica dos órgãos-alvo de peixes coletados no baixo São
Francisco
Fígado

O fígado dos peixes é um órgão multifuncional que possui característica similar
à de outros vertebrados, constituindo-se em uma glândula retıćulo-tubular recoberta por
uma membrana serosa (COSTA et al., 2012). É responsável pela conversão do alimento,
produção da vitelogenina durante o crescimento gonadal, possui capacidade de acumulação,
biotransformação e desintoxicação de compostos estranhos (STEGEMAN; LECH, 1991).
A análise do fígado das espécies de peixes aqui estudadas possui as características gerais

144

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

encontradas na maioria dos teleósteos. O parênquima hepático é composto, basicamente, por
hepatócitos com formato poliédrico, podendo ser de oval a polígonos irregulares, com bordas
distintas, e está disposto radialmente em torno da veia central, com uma dupla camada celular
delimitada por sinusoides (capilares sanguíneos de pequeno calibre), formando os cordões de
hepatócitos (Figura 48A). Os ductos sinusoides são capilares que ocupam o espaço entre as
placas de hepatócitos e, juntamente com capilares e veias presentes no parênquima pancreático,
facilitam as trocas constantes de oxigênio e nutrientes entre o sistema circulatório e o tecido
hepático (RUST, 2002). Segundo El-Bakary e El-Gammal (2010), a estrutura hepatócitosinusoidal é fisiologicamente importante, não apenas porque os hepatócitos ocupam grandes
moléculas do sinusoide, mas também porque um grande número das macromoléculas são
secretadas nesses vasos. Os hepatócitos possuem citoplasma claro, com um núcleo, e são
geralmente esféricos, basófilos, centrais ou levemente periféricos, com quantidades variáveis
de heterocromatina. Apresentam nucléolo único evidente e central (Figura 48B).
Figura 48 - Fotomicrografia do tecido hepático de peixes. HE, obj. 40x. A) Hepatócitos
de pirambeba com aspecto normal, mostrando núcleo arredondado e basófilo
(cabeça de seta). B) Tecido hepático de tucunaré com aspecto uniforme e
pequenos vasos sinusoides entre os hepatócitos (seta). Espécimes coletados em
Propriá-SE.

Fonte: Elaborada pelos autores.

Dentre os resultados encontrados, foi constatado que as espécies tucunaré, piau branco,
acará-boi e carapeba possuem a porção exócrina do pâncreas associada ao fígado, comum
em peixes e chamada hepatopâncreas (Figura 49A-D). Uma característica marcante são as
“ilhas” de tecido pancreático, comumente encontradas dispersas no tecido hepático de algumas
espécies de peixes. Esse tecido pode ser diferenciado do tecido hepático, por apresentar ácinos
pancreáticos, em arranjo acinar e também pelo septo de tecido conjuntivo, separando-o dos
hepatócitos (GENTEN; TERWINGHE; DANGUY, 2009).
Em nenhuma das espécies aqui estudadas foi possível constatar as tríades portais,
constituídas por ramificações da veia porta, da artéria hepática e do ducto biliar, características
típicas do fígado dos mamíferos. Segundo Bruslè e Anadon (1996), as tríades portais são
indistintas, podendo ser ausentes em algumas espécies de teleósteos. No entanto, estudando
tecido hepático da tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) (Cichlidae) Figueiredo-Fernandes et
al. (2007) constataram a frequente presença dos pancreócitos. A presença de tecido pancreático
exócrino distribuído pelo parênquima hepático foi observada por Bombonato et al. (2007)
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

145

em Megaleporinus obtusidens (Anostomidae), circundando vasos sanguíneos, semelhante ao
resultado encontrado neste trabalho (Figura 49D).
Figura 49 - Fotomicrografias de tecido pancreático observadas no parênquima hepático de
peixes do Baixo São Francisco. HE, obj. 40x. A) Tucunaré. B) Piau branco. C)
Acará-boi. D) Carapeba. Abrev. Hepatócitos (H), Tecido pancreático (P), Vaso
sanguíneo (Vs)

Fonte: Elaborada pelos autores (2020).

A histologia do parênquima hepático revelou alterações celulares de diversos graus
nos peixes. A análise microscópica mostrou que 93% dos exemplares estudados apresentaram
alguma alteração hepática. Os diagnósticos hepáticos incluíram infiltração leucocitária,
vacuolização dos hepatócitos, dilatação dos vasos sinusoides, congestão, necrose, presença de
centros de melanomacrófagos (CMM) e melanomacrófagos livres (Figura 50). A Tabela 29
demonstra os tipos de alterações celulares encontradas em cada uma das espécies amostradas
nos diferentes pontos de coleta. Das espécies de peixes estudadas, todas apresentaram alguma
manifestação considerada resposta patológica no fígado, mesmo em grau leve e que não venha
a provocar mortalidade.
Tabela 29 - Alterações histológicas encontradas na análise de fígados dos peixes coletados
(HE).
Ponto de coleta

Piranhas

146

Nome comum

Nome científico

Tucunaré

Cichla monoculus

Piau branco

Schizodon knerii

Piau-trêspintas

Megaleporinus obtusidens

Alteração histológica

Infiltração leucocitária
Infiltração leucocitária
Vacuolização
Infiltração leucocitária

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Pão de Açúcar
Traipu

Propriá

Igreja Nova

Penedo

Piaçabuçu

Vacuolização

Pacu

Metynnis maculatus

Pirambeba

Serrasalmus brandtii

Infiltração leucocitária

Acará-boi
Tambaqui

Astronotus ocellatus
Colossoma macropomum

Pirambeba

Serrasalmus brandtii

Piau-branco

Schizodon knerii

Necrose
CMM e
melanomacrófagos livres
Dilatação dos sinusóides
Vacuolização
Vacuolização

Tucunaré

Cichla monoculus

Pacu

Metynnis maculatus

Pacu

Metynnis maculatus

Piau-trêspintas

Megaleporinus obtusidens

Carapeba

Eugerres brasilianus

Piau-branco

Schizodon knerii

Fonte: Priscylla Dantas (2020).

Vacuolização

Congestão

Congestão
Vacuolização
Necrose (leve)
Congestão
CMM
Vacuolização
citoplasmática

As amostras de tucunaré apresentaram alterações nas coletas dos municípios de Piranhas
e Traipu. Os espécimes possuíam infiltração de leucócitos, vacuolização dos hepatócitos e
presença de centro de melanomacrófagos (Figura 50A-B). Um estudo realizado por Rabitto
et al. (2011) constatou as mesmas alterações em tucunarés expostos a Mercúrio e ao inseticida
organoclorado DDT (diclorodifeniltricloroetanos) em um reservatório de hidrelétrica no
Estado do Tocantins. Os peixes possuíam vacuolizações no parênquima hepático e diversas
regiões com CMM. Benincã et al. (2011) avaliou alterações histopatológicas em fígado de
Geophagus brasiliensis (Cichlidae), oriundo de regiões estuarianas impactadas pela atividade
industrial em Santa Catarina. Assim como observado nas espécies do Baixo São Francisco,
os autores relataram a presença de CMM, melanomacrófagos livres, vacuolização e infiltração
leucocitária, evidenciando a capacidade dos compostos presentes na água de provocar lesões
agudas e crônicas no tecido hepático da espécie.
O acúmulo de leucócitos, principalmente neutrófilos e células derivadas de monócitos,
é uma característica importante da reação inflamatória (BECHARA; SZABÓ, 2009). Ainda
segundo os autores, os leucócitos possuem capacidade de incorporar e degradar bactérias,
complexos imunes e restos de células necróticas, e suas enzimas contribuem de outras formas
com a resposta defensiva do hospedeiro.
As amostras de tambaqui coletadas em Propriá-SE também apresentaram
infiltração de leucócitos e a presença de melanomacrófagos livres no tecido hepático (Figura
50C). O melanomacrófago é uma categoria de macrófago muito comum nos peixes. Os
melanomacrófagos estão localizados próximo às regiões portais e apresentam-se livres ou
organizam-se formando centros melanomacrófagos (CMM). A função dos melanomacrófagos
em teleósteos é semelhante à de macrófagos em humanos, onde metabolizam substâncias
tóxicas e residuais e desempenham funções imunes no tecido hematopoiético. Essas estruturas
armazenam pigmentos, como a melanina, a lipofuscina e os ceroides e possuem variações
no número, no tamanho e na pigmentação, em relação a idade, nutrição e estado de saúde
das espécies (AGIUS, 1985; XU; SHOEMAKER; KLESIUS, 2007). Além disso, Steckert
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

147

et al. (2018) relacionam essas estruturas ao desenvolvimento de resposta imune a antígenos
bacterianos. Segundo Hartley et al. (1996), os CMM são elementos críticos do sistema imune
de peixes, incluindo resposta imune contra materiais de origem externa. Doria et al. (2017)
associaram a alta prevalência e intensidade de centros de melanomacrófagos como indicadores
de implicação sanitária nos peixes e de condições de estresse ambiental.
Na análise do parênquima hepático da pirambeba coletada em Pão de Açúcar, do
tucunaré e do acará-boi coletados em Traipu, as alterações histológicas que prevaleceram
foram a presença de infiltrações leucocitárias, vacúolos e dilatação dos vasos sinusoides
(Figuras 50D, E, F). A presença de vacuolizações citoplasmáticas, que aumentam o volume dos
hepatócitos, indica a existência de regiões com provável concentração de lipídeos e glicogênio,
ou a combinação de agentes tóxicos com lipídeos intracitoplasmáticos. A vacuolização de
hepatócitos é uma resposta inespecífica de peixes devido a condições tóxicas (ROBERTS,
1978; GIARI et al., 2007).
A indução de vacuolizações em peixes tem sido demonstrada in vivo após exposição a
certos pesticidas (BRAUNBECK et al., 1990). Contudo, Akcha, Hubert e Pfhol-Leszkowicz
(2003) sugerem que a vacuolização pode estar relacionada a uma dieta não balanceada, com
excesso de triglicerídeos ou deficiência de proteínas, mas acreditam que, provavelmente, seja
ocasionada pela disrupção enzimática da regulação lipídica causada por intoxicação. Apesar
da presença de vacúolos, não foram identificados depósitos de glicogênio no citoplasma dos
hepatócitos em nenhuma das espécies.
Figura 50 - Fotomicrografias das alterações histopatológicas observadas nos peixes do Baixo
São Francisco. HE, obj. 40x. A-B) Parênquima hepático (H) de tucunaré
com congestão vascular (Co) na área do tecido pancreático (P), apresentando
vacúolos e centro de melanomacrófagos (CMM). C) Tecido do tambaqui com
infiltração leucocitária (IL) e presença de melanomacrófagos livres (seta). D)
Parênquima hepático da pirambeba apresentando vacúolos (cabeça de seta) e
dilatação de sinusoides. E) Infiltração leucocitária (IL), presença de grandes
vacúolos (V) e sinusoides (setas) no tecido do tucunaré. F) Tecido hepático do
acará-boi apresentando dilatação severa no sinusoide (D) ao redor do pâncreas
(P), vacúolos (V) e necrose (cabeça de seta). Espécimes coletados em Piranhas,
Propriá, Pão de Açúcar e Traipu, respectivamente.

148

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Fonte: Elaborada pelos autores.

A amostra do fígado do acará-boi apresentou graves alterações no parênquima
hepático, demonstrando tecido com necrose e dilatação severa do sinusoides (Figura 50F). A
necrose é o estágio final, mais severo, de alteração tecidual (NOGA, 1996). A congestão de
sinusoides e pequenos vasos faz o fluxo sanguíneo da veia porta hepática e artéria hepática
para a veia central bastante difícil. Isso pode ser responsável pela degeneração celular e necrose
no fígado dos peixes (FACCIOLI et al., 2014).
De acordo com Agius e Roberts (2003), a exposição constante a estressores químicos
pode gerar desequilíbrio da homeostase dos peixes, levando à necrose celular. Esse tipo
de alteração foi encontrado por outros pesquisadores em estudos de exposição de peixes
a agrotóxicos como o peixe-gato africano Heterobranchus bidorsalis (Clariidae) expostos à
cipermetrina (OLUFAYO; ALADE, 2012) e a tilápia-do-nilo Oreochromis niloticus alimentada
com 1.45 g/L de deltametrina (KAN et al., 2012), ambos do grupo químico dos piretroides.
Observando os dados obtidos nos I e II Relatórios da Expedição Científica do Baixo São
Francisco (2019; 2020), foi verificado que ocorre a utilização de diversos compostos químicos,
como herbicidas, fungicidas, inseticidas e fertilizantes químicos nos sistemas de cultivo,
em especial, nas culturas de arroz e cana-de-açúcar. Entre eles, os inseticidas cipermetrina
(piretroide) e o endosulfan (organoclorado) são usados no controle de pragas, fato que pode
explicar a ocorrência de algumas manifestações patológicas no fígado dos peixes, uma vez
que a lixiviação transporta os resíduos contaminantes para o rio São Francisco. Segundo
Constantino et al. (2007), os efeitos danosos dos agrotóxicos em fígado de peixes dão-se
após exposição crônica em arroz irrigado, em virtude da característica bioacumuladora desse
órgão. O fígado geralmente demonstra os efeitos tóxicos após exposição prolongada a toxinas.
A necrose hepática é uma manifestação irreversível e considerada o ponto final das

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

149

alterações celulares, sendo uma consequência comum de inflamações, de processos degenerativos,
infiltrativos e circulatórios. Essa alteração está intimamente correlacionada à exposição crônica
a irritantes, poluentes e metais pesados (MELA et al., 2013, STRZYZEWSKA; SZAREK;
BABINSKA, 2016; LEHMANN, 2018).
Neste trabalho, várias das lesões observadas, conhecidas como hepatodistrofias, a
exemplo de congestão e necroses, estão relacionadas aos processos de intoxicação, sendo
a extensão e a gravidade da lesão proporcionais ao tipo, duração, severidade da agressão e
estado fisiológico da célula envolvida (ROBBINS; COTRAN, 2005). Diante dos resultados
observados, pode-se afirmar que os hepatócitos podem ser considerados o primeiro alvo da
toxicidade de uma substância, o que caracteriza o fígado como um órgão biomarcador da
poluição ambiental.

Brânquias

As brânquias dos peixes analisados neste estudo apresentaram morfologia similar
à descrita para a maioria dos teleósteos dulcícola, em que se observam lamelas primárias e
secundárias. As lamelas possuem número variável, estão ancoradas nos filamentos branquiais e
apresentam-se paralelas entre si. Os arcos branquiais possuem fileiras de filamentos contendo
lamelas secundárias, dispostas em ambos os lados da lamela primária, e representam a
superfície de troca gasosa (Figura 51A).
Os filamentos branquiais possuem um suporte cartilaginoso central, onde se encontram
vasos que compreendem o seio venoso central. A lamela primária possui o epitélio recobrindo
as extremidades distais, o epitélio é contínuo e rico em células secretoras de muco (Figura
51D). Os filamentos branquiais apresentam um epitélio estratificado, constituído por diversos
tipos de células, entre os quais podem-se distinguir eritrócitos, células pilares, células mucosas
e células de cloreto (Figura 51B). O esqueleto cartilaginoso sustenta a lamela primária e possui
uma matriz extracelular bem marcada, contendo em seu interior numerosos condrócitos
(Figura 51C). O arranjo das células pilares permite a formação de canais por onde circula o
sangue. As células de cloreto encontram-se geralmente isoladas próximas à região basal das
lamelas secundárias. Essas células são grandes e repletas de mitocôndrias que estão envolvidas
no transporte e na absorção ativa de íons ao longo do epitélio branquial e estão relacionadas
à capacidade de osmorregulação (WITHERS, 1992).
As lamelas secundárias apresentam espaços interlamelares bem definidos, contendo
camadas de células do epitélio intimamente ligadas às demais células das lamelas, conferindo
um aspecto uniforme e contínuo. Os resultados demostraram o arranjo das numerosas lamelas
secundárias em forma de fio paralelo (Figura 51D).

150

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 51 - Fotomicrografias de secções longitudinais das brânquias de peixes. HE, obj.
A-D 10x; B-C 40x. A) Histologia das brânquias de piau-três-pintas indicando
a lamela primária (LP), as lamelas secundárias (LS) com células pilares (Pi),
eritrócitos no seio venal da lamela primária (Er). B) Brânquias de tucunaré
mostrando o seio venoso central (SVC), presença das células pilares (cabeça
de seta), células de cloreto (seta vermelha), espaço interlamelar uniforme (S),
Células epiteliais (Ce), matriz extracelular (M). C) Brânquias de pacu, observar
a matriz extracelular (M) revestindo os condrócitos (C). D) Brânquias de piaubranco, detalhe no epitélio que recobre a extremidade distal da lamela primária
(Ep), rico em células secretoras de muco (setas) e nas lamelas secundárias
disposta paralelamente (P). Espécies coletadas em Piaçabuçu, Traipu, Igreja
Nova e Piranhas, respectivamente.

Fonte: Elaborada pelos autores (2020).

Os peixes possuem estruturas que os permitem executar uma extração de Oxigênio
dissolvido na água para utilização em suas reações metabólicas. As brânquias exercem funções
vitais nos teleósteos, tais como respiração, osmorregulação e excreção, e ainda constituem o sítio
de tomada e depuração de contaminantes (MEYERS; HENDRICKS, 1985; PACHECO;
SANTOS, 2002). As células secretoras produzem muco composto por diferentes categorias de
mucopolissacarídeos, que formam uma camada protetora às lamelas secundárias e protegem
o organismo contra agressões ambientais. Outro tipo celular presente neste filamento são
as células de cloreto responsável pela receptação adequada de sal (HOLDEN; LAYFIELD;
MATTHEWS, 2013). Mumford et al. (2007) e Genten, Terwinghe e Danguy (2009)
mencionaram a presença de células caliciformes, responsáveis pela secreção de muco que
não foram observadas nas amostras estudadas.
A análise microscópica realizada no presente trabalho mostrou que 53% dos exemplares
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

151

estudados apresentaram alguma alteração branquial. Os resultados histológicos indicaram
danos nas estruturas branquiais de tucunaré, pacu, pirambeba, tambaqui, piau branco e
carapeba, como fusão lamelar, desarranjo dos capilares, hiperplasia e hipertrofia das lamelas
secundárias, diminuição do espaço interlamelar e aneurisma. A Tabela 30 apresenta os tipos
de alterações ocorridas em cada espécie/ponto de coleta.
Tabela 30 - Alterações histológicas encontradas na análise de brânquias dos peixes coletados
no Baixo São Francisco (HE).
Ponto de coleta

Piranhas

Pão de Açúcar
Traipu
Propriá
Igreja Nova
Penedo
Piaçabuçu

Nome comum

Nome científico

Tucunaré

Cichla monoculus

Piau branco

Schizodon knerii

Alteração histológica
Fusão lamelar
Hipertrofia
Hiperplasia
------

Piau-três-pintas

Megaleporinus
obtusidens

Pacu

Metynnis maculatus

Pirambeba

Serrasalmus brandtii

Fusão lamelar

Tucunaré

Cichla monoculus

------

Acará-boi

Astronotus ocellatus

------

Tambaqui

Colossoma macropomum

Aneurisma/hipertrofia

Pirambeba

Serrasalmus brandtii

Piau branco

Schizodon knerii

Pacu

Metynnis maculatus

Hiperplasia severa
Diminuição do espaço
interlamelar
-------

Piau branco

Schizodon knerii

-------

Pacu

Metynnis maculatus

Hiperplasia

Piau-três-pintas
Carapeba

Megaleporinus
obtusidens
Eugerres brasilianus

Fonte: Priscylla Dantas (2020).

-----Hiperplasia na lamela secundária

-----Hiperplasia/aneurisma

A histologia das brânquias do tucunaré coletado no município de Piranhas e da
carapeba coletada em Piaçabuçu apresentaram resultados semelhantes, com presença de
hiperplasia e aneurisma nas lamelas secundárias. Contudo, no tucunaré, também foi observada
fusão lamelar, sendo a espécie que mais apresentou alterações histopatológicas dentre as
analisadas no estudo (Figura 52A-B). Por serem regiões de absorção primária, as brânquias,
após assimilação dos compostos tóxicos, transportam os elementos para o sangue ou podem
distribuir pelos tecidos (RAND; PETROCELLI, 1985). As causas de lesões em brânquias
incluem agentes químicos, físicos e biológicos que variam desde poluentes ambientais
até agentes biológicos diversos. Esses poluentes induzem reações do organismo que se
caracterizam por distúrbios, como congestão, aneurisma, hemorragia e edema, hiperplasia
epitelial, processos inflamatórios e degenerativos, como necrose (SCHALCH; MORAES;
MORAES, 2006).
A hiperplasia é considerada uma resposta inicial das brânquias que se caracteriza
pelo aumento das funções das células e dos tecidos, provocada pelas alterações das atividades

152

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

fisiológicas (RAND; PETROCELLI, 1985; NOGUEIRA et al., 2011). Embora seja
considerado um mecanismo de defesa, provoca o aumento da distância entre as células
epiteliais e os capilares sanguíneos, impedindo a passagem da água entre as lamelas secundárias.
Esta perda de superfície respiratória gera distúrbios de ormorregulação, prejudica as trocas
gasosas e pode ocasionar a morte por anoxia (NOGUEIRA et al., 2011).
Segundo Sepici-Dinçel et al. (2009), a hiperplasia é, provavelmente, o resultado
da resposta inflamatória a algum agente estressante. A hiperplasia caracteriza-se pela alta
proliferação celular, que, em alguns casos, leva à fusão das lamelas secundárias e pode ser uma
resposta adaptativa para aumentar a distância entre os vasos e o ambiente externo (agente
tóxico).
A manifestação de aneurisma (ou telangiectasia lamelar) é uma alteração característica
dos sinusoides branquiais e está associada a traumas físicos ou químicos, como manejos mais
severos, lesões parasitárias, resíduos metabólicos ou contaminantes químicos. Quando muitas
lamelas são afetadas, a função respiratória pode diminuir especialmente em temperaturas
altas, quando os níveis de oxigênio são baixos e a demanda metabólica é alta. Caso os
peixes estejam traumatizados, pode haver a ruptura das brânquias e morte por hemorragia
(ROBERTS, 2001).
Castro et al. (2014) observaram lesões branquiais severas, como aneurisma, nas
lamelas secundárias, fusão lamelar e deslocamento do epitélio em traíras (Hoplias malabaricus)
(Erythrinidae), de lagoas e rios situados em Área de Preservação Ambiental no Maranhão
que recebem efluentes rurais, domésticos e industriais nos locais de coleta dos peixes. Essas
condições são semelhantes às encontradas por Ameur et al. (2015) na tainha (Mugil cephalus)
(Mugilidae) e no robalo europeu (Dicentrarchus labrax) (Moronidae), que habitavam uma lagoa
costeira impactada por diferentes atividades antropogênicas e Pereira et al. (2013) em peixes
coletados para biomonitoramento de rios sujeitos à descarga de efluentes domésticos, agrícolas
e industriais. As lesões encontradas corroboram com os resultados obtidos neste trabalho e
podem ser decorrência da poluição sofrida pela região do Baixo São Francisco. Segundo os
autores supracitados, as respostas biológicas das brânquias, embora não reflita contaminantes
específicos, pode ser usada como biomarcadores da perturbação dos ecossistemas.
A análise da espécie de pacu coletada em Penedo mostrou sinais de fusão das lamelas
associadas à hiperplasia epitelial, semelhante às amostras de tambaqui coletados em Propriá,
além de desarranjo na organização das lamelas secundárias (Figuras 52C, 52E). Segundo
Rigolin-Sá, Teles-Oliveira e Teixeira (2005), a proliferação do epitélio respiratório, assim
como a hiperplasia maciça e a fusão lamelar, dentre outras mudanças, são mecanismos de
defesa das brânquias, que promovem o aumento da barreira água-sangue.
As observações microscópicas realizadas nas amostras de pirambeba e piau branco
coletadas em Propriá e Igreja Nova, respectivamente, evidenciaram hiperplasia e diminuição
da região interlamelar (Figuras 52D, 52E), caracterizadas por multiplicação celular sobre
a superfície respiratória dos peixes, podendo causar deslocamento do epitélio respiratório
(MACHADO, 1999), como observado no pacu coletado em Penedo (Figura 52F). O
deslocamento do epitélio é considerado uma reação inicial das brânquias ao estresse químico,
que pode ser ocasionada por uma variedade de poluentes (THOPHON et al., 2003). A fusão
das lamelas secundárias e a hiperplasia interlamelar são fenômenos examinados quando a
exposição a fatores irritantes é crônica (STRZYZEWSKA; SZAREK; BABINSKA, 2016),
causando diminuição da superfície respiratória-excretora das brânquias, prejudicando sua
função.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

153

Figura 52 - Fotomicrografia das alterações celulares encontradas nas brânquias dos peixes
coletados no Baixo São Francisco. HE, obj. 40x. A) Tecido branquial de
tucunaré apresentando hiperplasia (HP), fusão das lamelas secundárias (F) e
dois aneurismas (*). B) Carapeba com hiperplasia (HP) e diversos aneurismas
(setas). C) Tambaqui mostrando desarranjo dos capilares (D) e fusão lamelar
(setas). D) Piau branco com hiperplasia (HP). E) Pirambeba com hiperplasia
(HP) e fusão lamelar (F). F) Pacu com hiperplasia (HP) e deslocamento
epitelial (setas). Espécimes coletados em Piranhas, Piaçabuçu, Propriá, Igreja
Nova, Propriá e Penedo, respectivamente.

Fonte: Elaborada pelos autores.

154

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Respostas histopatológicas nas brânquias, como fusão lamelar, funcionam como
mecanismos de defesa, pois diminuem a área de superfície vulnerável da brânquia e podem
aumentar a barreira de difusão ao poluente (ERKMEN; KOLANKAYA, 2000; GARCIASANTOS et al., 2007). Contudo, dificultar o acesso do poluente prejudica a realização de
trocas gasosas (MCDONALD; WOOD, 1993).
Entre as alterações encontradas nas espécies do Baixo São Francisco, a hiperplasia e
a fusão lamelar foram observadas em estudos envolvendo brânquias de peixes contaminados
com metais pesados (RUDNICKI et al., 2009). Segundo Roberts e Oris (2004), o Cromo
hexavalente pode induzir alterações histológicas, como hiperplasia e fusão das lamelas
secundárias, fato que foi constatado em análise das brânquias de Gnathonemus petersii
(Mormyridae).
O estudo realizado por Senthil, Uthaman e Muthulingam (2011) demonstrou fusão
lamelar e aneurisma nas brânquias de Oreochromis mossambicus (Cichlidae), após exposição
a 2 ppm de Cobre por 20 dias. Características semelhantes também foram encontradas por
Tayybah et al. (2012) no tecido branquial de Cyprinus carpio (Cyprinidae), em bioensaio
com peixes submetidos à exposição de concentrações subletais (25 mg/L, 50 mg/L, 75
mg/L, 100 mg/L, 125 mg/L e 150 mg/L) de Cobre por seis meses. É importante ressaltar
que, em todos os trabalhos supracitados, os autores confirmam a relação entre as alterações
branquiais e o Cromo, afirmando que este metal causa efeitos adversos e a deterioração do
tecido é maximizada com o aumento da concentração do metal e do tempo de exposição.
De acordo com os resultados demonstrados no II Relatório da Expedição do Baixo
São Francisco (2020), a análise de metais pesados constatou que os níveis de Cromo foram
superiores ao Limite Máximo de Tolerância (LMT) permitido pela Resolução Anvisa nº 42,
de 29 de agosto de 2013 (ANVISA, 2013), em todas as espécies de peixes analisadas. Em
ambientes aquáticos poluídos, a concentração de Oxigênio é baixa e a concentração do Cromo
hexavalente favorecida, podendo ser facilmente absorvido por organismos constituintes do
ecossistema local (RICHARD; BOURG, 1991). Esses dados podem explicar as alterações
encontradas no tecido branquial do tucunaré, pacu, pirambeba, tambaqui, piau branco e
carapeba, já que a contaminação por efluentes industriais tem maior relevância se comparada
ao esgoto doméstico, devido à quantidade de metais pesados que constituem a principal classe
de contaminantes emitida por esta atividade.
É sabido que ocorre aplicação excessiva de produtos químicos na agricultura da
região do Baixo São Francisco, onde diversos agentes considerados tóxicos são despejados
nos rios e corpos d’água e encontram-se dissolvidos na água. Tais compostos, inevitavelmente,
entrarão em contato com os filamentos branquiais e com as lamelas respiratórias e, em altas
concentrações, poderão alterar a morfologia normal das brânquias (LUVIZOTTO, 1994).
Diferentes cenários relativos a fatores ambientais podem ter interferido nos
resultados do presente trabalho. Alterações histopatológicas verificadas nas brânquias dos
peixes coletados na região do Baixo São Francisco assemelham-se a alterações comumente
relacionadas à exposição a contaminantes de efluentes antropogênicos (LEHMANN, 2018), e
as anormalidades observadas nas brânquias podem refletir os impactos biológicos de mistura
de poluentes presentes nessas áreas.

Análise histoquímica (PAS) do fígado e das brânquias

A análise histoquímica detectou que somente as brânquias apresentaram reação
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

155

positiva ao reativo de Schiff (PAS). Isso ocorre pela provável produção de mucosubstâncias
pelas células. As amostras que reagiram positivo ao PAS foram tunucaré e piau branco,
coletados em Piranhas; pacu, coletado em Pão de Açúcar, e tambaqui, coletado em Propriá.
Não foram observadas diferenças na intensidade de reação ao PAS, todas as amostras
mantiveram-se moderadas (FIGURA 53A-D).
Lima et al. (2009) e Díaz, García e Goldemberg (2005) verificaram característica
semelhante encontrada nas brânquias de Steindachnerina brevipinna (Characiformes,
Curimatidae) e Cynoscion guatucupa (Perciformes, Sciaenidae), sugerindo que esse resultado
indica controle na acidez do conteúdo da secreção mucosa. Contrapondo-se a esse resultado,
Breseghelo et al. (2004) e Reis et al. (2009) afirmam que maior produção de glicoproteínas
pelas células mucosas ocorre em situações de maiores stress, já que o muco contribui para
a proteção do animal quanto às flutuações dos parâmetros físicos, químicos e biológicos do
ambiente aquático.
É importante ressaltar que as amostras analisadas dos peixes tucunaré (Figura 53A),
pacu (Figura 53C) e tambaqui (Figura 53D), coletados em Piranhas, Pão de Açúcar e Propriá,
respectivamente, apresentaram outras alterações celulares nas brânquias, além da reação PAS
positivo, sugerindo que tais espécies entraram em contato com substâncias tóxicas ou agentes
irritantes, como pesticidas orgânicos, metais pesados ou despejos industriais.
Apesar de terem sido observados vacúolos nas amostras do fígado de algumas espécies
de peixes, nenhum dos constituintes do parênquima hepático apresentou reação positiva para
PAS. A ausência de glicogênio nos vacúolos dos hepatócitos demostrada pelo método PAS
sugere que a vacuolização pode estar relacionada com um processo degenerativo, pois os
vacúolos normalmente contêm glicogênio e lipídeos que atuam como reserva de glicose para
fornecer energia para os animais em situações de stress (CAMARGO; MARTINEZ, 2007).
Mesmo não sendo possível observar os sinais de estresse aos quais peixes foram
submetidos no seu habitat, sabe-se que alterações na biologia das células e tecidos ocorrem
quando animais são submetidos a um grau importante de estresse em longo prazo (MALLATT,
1985; REIS et al., 2009).
Figura 53 - Alterações histoquímicas em brânquias dos peixes coletados no Baixo São
Francisco. Reação positiva ao PAS (setas). Obj, 40x. A) Tucunaré. B) Piau
branco. C) Pacu. D) Tambaqui. Espécimes coletados em Piranhas, Pão de
Açúcar e Propriá.

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Fonte: Elaborada pelos autores.

Características morfológicas do intestino de peixes do Baixo São Francisco

Nas análises histológicas do intestino dos peixes, foi verificada uma elevada diversidade
morfológica entre as espécies (Figuras 54A-D, 55A-D). O epitélio obedece à arquitetura
básica das camadas histológicas que compõem o tubo digestório: mucosa, submucosa,
muscular e serosa (DÍAZ et al., 2006) (Figura 54A). Os peixes analisados demonstraram um
variado padrão no arranjo das vilosidades. Foi observado epitélio intestinal do tipo simples
ou estratificado, contendo vilosidades revestidas por um epitélio cilíndrico constituído por
células epiteliais cilíndricas, colunares (ou enterócitos) e células caliciformes. A camada
muscular possui o arranjo organizacional estruturado em três túnicas diferentes: muscular
longitudinal interna, muscular circular interna, que reveste internamente o epitélio, e muscular
longitudinal externa (Figura 54B).
As características morfológicas do sistema digestivo dos peixes acham-se em estreita
dependência com a natureza dos alimentos, as características do habitat, o estado nutricional
e o estádio de desenvolvimento do indivíduo, manifestados, especialmente, nesse aparelho,
por adaptações e modificações (SEIXAS FILHO et al., 2000; FERREIRA et al., 2013).
As amostras do epitélio intestinal de pirambeba (Figura 54B), tambaqui (Figura 54C),
tucunaré (Figura 55A) e piau-três-pintas (Figura 55B) apresentaram grande número de células
caliciformes, bem desenvolvidas e de coloração basófila. A ocorrência de células caliciformes
é uma característica comum do trato digestório de teleósteos. Elas são tipos celulares que
apresentam algumas variações fenotípicas durante sua diferenciação e estabelecem como
principal atividade metabólica a produção de mucossubstâncias (GÓES; TABOGA, 2005).
O muco secretado pelas células caliciformes recobre o epitélio intestinal em toda a extensão
do tubo digestivo, tem sido correlacionado com diferentes funções digestivas e forma a
primeira linha de defesa da mucosa ( JUNQUEIRA; CARNEIRO, 1999); também são
responsáveis pela lubrificação do epitélio (DÍAZ; GARCÍA; GOLDEMBERG, 2008) e
conferem proteção química contra a agressão ocasionada por antígenos e toxinas (GAUDIER
et al., 2009).
Variações na estrutura das vilosidades da mucosa ao longo do intestino dos peixes
foram relatadas para espécies de hábito alimentar onívoro, como Colossoma macropomum
(Serrasalminae) (MORI, 2016) e Piaractus brachypomus (Serrasalminae) (DE OLIVEIRA
et al., 2019), herbívoro Schizodon knerii (SANTOS et al., 2015) e onívoro com tendência
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

157

alimentar à carnivoria Cichlasoma orientale (Anostomidae) (SILVA, 2015). Rotta (2003) ressalta
que um padrão elaborado de vilosidades potencializa a capacidade secretora e absortiva dos
nutrientes ingeridos.
Os resultados apresentados indicam amplas variações na morfologia do intestino, que
se relacionam diretamente às suas funções, o que retrata a elevada diversidade dos teleósteos
e suas diferentes posições na cadeia trófica (DIAZ et al., 2003).
Figura 54 - Histologia do intestino de peixes coletados no Baixo São Francisco mostrando
a diversidade estrutural das espécies. HE, obj. 40x. A) Camadas histológicas do
epitélio de piau branco: mucosa (Mu), submucosa (S), camada muscular (M)
e serosa (Se), detalhe nas vilosidades (V). B) Pirambeba. C) Tambaqui. D)
Tucunaré. Abrev. Vilosidades (V), Lumen (L), Camada muscular (M), Camada
muscular circular interna (Mc), Camada muscular longitudinal externa (Ml).
Lâmina própria (*), Células caliciformes (setas). Espécies coletadas em Igreja
Nova, Pão de Açúcar, Propriá e Traipu, respectivamente.

Fonte: Elaborada pelos autores.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 55 - Histologia do intestino de peixes do Baixo São Francisco mostrando a
diversidade estrutural das espécies. HE, obj. 40x. A) Tucunaré. B) Piau-trêspintas. C) Pacu. D) Carapeba. Abrev. Vilosidades (V), Lumen (L), Camada
muscular (M), Células caliciformes (setas). Espécies coletadas em Piranhas,
Piaçabuçu, Penedo e Piaçabuçu, respectivamente.

Fonte: Elaborada pelos autores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dentre os espécimes analisados, 93% apresentaram algum tipo de alteração no
parênquima hepático e 53% apresentaram alterações branquiais. O tecido intestinal mostrouse semelhante ao de outras espécies de peixes teleósteos, entretanto, diferenças no arranjo
das vilosidades foram observadas.
Esses resultados permitiram concluir que, através da histopatologia, é possível avaliar
se os organismos aquáticos passaram por algum evento com agentes estressantes. Através
das alterações histopatológicas encontradas nos peixes coletados no Baixo São Francisco,
verificou-se que a maioria dos animais coletados não estavam saudáveis.
São de extrema importância estudos sobre a histologia do fígado, das brânquias e
do intestino das espécies do Baixo São Francisco que analisem, em sua extensão, os órgãos
que têm contato direto com agentes contaminantes. Todas essas informações mostradas no
estudo são essenciais para subsidiar trabalhos de manejo das espécies e para o conhecimento
do status sanitário dos peixes da região.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

167

ICHTHYOFAUNA OF THE LOWER SÃO FRANCISCO
RIVER GENETIC DIVERSITY
Valéria Nogueira Machado

Themis de Jesus da Silva

Emilly Valentim

Ricardo Fabio Teodósio
Evaristo Pérez Rial

Emerson Carlos Soares
SUMMARY

The ichthyofauna of the São Francisco River is relatively well known, with about 300
recorded species. Of this total, 241 are considered endemic to the basin, and the remainder
consists of invasive species and species originating from other basins introduced in the São
Francisco. The middle and lower regions house approximately 120 species, and in the lower
São Francisco, the advancement of seawaters upriver, associated with the drought of small
tributaries, has restricted the living area of exclusively freshwater species. Although the river
is significantly altered throughout its course and consequently its ichthyofauna is affected,
studies that evaluate the phylogenetic relationships of the species, genetic diversity, and their
biogeographical patterns are scarce. The DNA barcoding methodology was used to evaluate
the ichthyofauna’s genetic diversity of the Lower São Francisco and compare it with the rest of
the basin. The analyses revealed that all exclusive freshwater collected species do not compose
lineages different from those occurring in the river’s higher stretches; however, low levels of
genetic diversity were observed in some taxa in this region. The results also show ongoing
or concretized speciation events occurring in the tributaries of the upper part of the basin,
but they also show the reduction of the species’ genetic diversity towards the lower region.
This shows the region’s uniqueness and, consequently, highlights the impacts generated by
pollution and salt intrusion on the ichthyofauna.

168

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 9
DIVERSIDADE GENÉTICA DA ICTIOFAUNA DO
BAIXO SÃO FRANCISCO
Valéria Nogueira Machado44
Themis de Jesus da Silva45
Emilly Valentim46

Ricardo Fabio Teodósio47
Evaristo Pérez Rial48

Emerson Carlos Soares49
INTRODUÇÃO
A ictiofauna da bacia hidrográfica do rio São Francisco é relativamente bem conhecida.
Embora algumas regiões concentrem maior número de estudos, como a região da usina
hidrelétrica de Três Marias e a sub-bacia do rio das Velhas, por exemplo, a bacia como um
todo já foi bem estudada, sobretudo com respeito à sua composição ictiofaunística e à biologia
das espécies (BRITSKI et al., 1984; BRITSKI, 2010; BARBOSA; SOARES, 2009; ALVES;
POMPEU, 2010; BARBOSA et al., 2017; GODINHO; GODINHO, 2003). São registradas,
atualmente, cerca de 300 espécies para a bacia do São Francisco, sendo 241 delas consideradas
endêmicas dessa bacia (BARBOSA et al., 2017). Esse total representa cerca de 80% da
ictiofauna, sendo os 20% restantes compostos por espécies invasoras (aproximadamente
11%) e por espécies originárias de outras bacias e que foram introduzidas no São Francisco
através da piscicultura, o que representa cerca de 9% de sua ictiofauna (BARBOSA et al.,
2017). Recentemente, Silva (2017) realizou um levantamento do nível de conhecimento da
ictiofauna da bacia do São Francisco, objetivando uma padronização da nomenclatura das
espécies de peixes dessa bacia antes da efetivação da transposição das águas desse rio para
bacias adjacentes, e lista 116 espécies ocorrendo no Médio-Baixo rio São Francisco. Em
um estudo na região estuarina do rio São Francisco, Sampaio et al. (2015) encontraram 113
espécies ocorrendo nessa região, sendo 44% delas marinha-estuarinas, 41% dulcícolas e 15%
exclusivamente marinhas.
Embora por tantas modificações no curso do São Francisco sua ictiofauna seja
relativamente bem conhecida, estudos que avaliem as relações filogenéticas das espécies, a
diversidade genética, sua estrutura populacional, bem como seus padrões biogeográficos são
poucos (COSTA-SÁ et al., 2012), restringindo-se a alguns gêneros ou espécies de interesse
econômico, como Prochilodus argenteus e P. costatus (MELO et al., 2013) e Pseudoplatystoma
corruscans (SOUZA et al., 2010). Apenas um estudo molecular conduzido por Carvalho et al.
Universidade Federal do Amazonas.
Universidade Federal de Alagoas.
46
Graduanda da Universidade Federal de Alagoas.
47
Graduando da Universidade Federal de Alagoas.
48
Instituto Espanhol de Oceanografia.
49
Universidade Federal de Alagoas.
44
45

(2011), utilizando a metodologia do DNA Barcode, foi mais abrangente. O autor analisou a
diversidade dentro de 101 espécies morfológicas, oriundas principalmente do Médio e Alto
curso do rio São Francisco, e encontrou nove táxons com diversidade genética intraespecífica
profunda, sugerindo a presença de diversidade críptica dentro dessas espécies. Além disso,
também foram observados alguns táxons com linhagens estruturadas no rio Paraopeba,
sugerindo possíveis Unidades Evolutivas Significantes (ESU) para esse tributário do São
Francisco.
Análises de diversidade genética e estruturação populacional das espécies são úteis para
identificar a diversidade íctica da bacia, assim como diagnosticar espécies mais vulneráveis aos
impactos gerados pelas várias alterações ambientais decorrentes dos múltiplos usos das águas
do São Francisco. Informações sobre a diversidade genética da ictiofauna do São Francisco
são e serão úteis para as decisões de manejo e conservação das espécies.

Metodologia

Durante a segunda Expedição Científica ao Baixo rio São Francisco, foram coletadas
amostras de tecido muscular de 25 espécies de peixes. O percurso amostrado compreendeu
cerca de 240 km entre a cidade de Piranhas e a foz do rio. A identificação taxonômica das
espécies foi feita por ictiólogos, com uso de chaves dicotômicas, literatura especializada e
comparação com exemplares depositados em museus e coleções científicas. Todas as coletas
foram realizadas com autorização do Ibama/MMA, sob a Licença de Coleta de material
biológico nº 66795-2. Amostras coletadas estão tombadas na Coleção de Tecidos de Genética
Animal da Universidade Federal do Amazonas.
Quando possível, foi extraído DNA de cinco amostras por espécie para as análises genéticas
com o DNA Barcode. Após a extração, a qualidade do DNA foi verificada em gel de agarose 1% e
a região barcode do gene mitocondrial citocromo c oxidase subunidade I (COI) foi amplificada,
usando a combinação dos iniciadores COIFishF.2 (5’- TRTGGRGCTACAAICCICC-3’)
e COIFishR.1 (5’- ACTTCIGGGTGICCRAAGAAYCA-3’) (COLATRELI et al., 2012).
Os amplicons (regiões amplificadas do gene COI) obtidos foram, então, purificados e
sequenciados bidirecionalmente no sequenciador automático ABI 3500 (Applied Biosystems).
As sequências parciais do gene COI foram alinhadas utilizando a ferramenta de
alinhamento Mafft, implementadas no software Geneious 7.0.6 (KEARSE et al., 2012)
e editadas manualmente. Estas foram, então, traduzidas em aminoácidos hipotéticos, para
verificação de inserções, deleções e códons de parada inesperados.
Para determinar as relações filogenéticas entre as espécies e populações de peixes
coletados, foi utilizada a metodologia do DNA Barcode (HEBERT et al., 2004), que usa o
gene COI + árvore de neighbor-joining + modelo evolutivo Kimura - 2 - parâmetros. Entre
os métodos que utilizam distâncias genéticas, o neighbor-joining é um dos mais usados,
principalmente por causa da sua eficiência computacional, especialmente quando a quantidade
de sequências analisadas é muito grande. Este método funciona em passos, minimizando a
soma dos comprimentos dos ramos a cada passo do processo de agregação (“clusterização”)
das sequências (KUMAR et al., 2018).
Para as análises de delimitação das espécies baseadas nos princípios da coalescência, o
banco de dados de sequências foi reduzido a haplótipos únicos, usando a função hapCollapse
(http://github.com/legalLab/protocols-scripts) no programa R. Em seguida, foram geradas
árvores filogenéticas ultramétricas no programa Beast 2.6.2 (BOUCKAERT et al., 2014),

170

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

sob o modelo de substituição de nucleotídeos TIM3 + G inferido como o melhor modelo de
evolução molecular no próprio Beast 2.6.2. O relógio molecular utilizado foi o strict clock e
o modelo evolutivo coalescente de tamanho populacional constante. Foram executadas três
corridas independentes de 20.000.000 de gerações de MCMC, com árvores e parâmetros
amostrados a cada 2.000 gerações e, após verificar a convergência, as corridas foram
combinadas no LogCombiner 2.5.1 (RAMBAUT; DRUMMOND, 2018). A convergência
dos parâmetros e o tamanho efetivo da amostra (ESS > 200) foram verificados no Tracer 1.7
(RAMBAUT et al., 2018). Uma árvore de máxima credibilidade do clado foi obtida após o
burn-in de 1.000 árvores, usando TreeAnnotator (BOUCKAERT et al., 2014).
Foram utilizados quatro métodos de delimitação de espécies de um único locus,
utilizando as sequências geradas neste projeto e as sequências do Médio e Alto rio São
Francisco, provenientes do trabalho de Machado et al. (2018) e Carvalho et al. (2011). Os
métodos de delimitação utilizados foram: (1) GMYC, o modelo coalescente geral de Yule
(FUJISAWA; BARRACLOUGH, 2013); (2) bGMYC, uma implementação bayesiana do
GMYC (REID; CARSTENS, 2012); (3) local minima (locMin), uma otimização de limite
de distância e abordagem de agrupamento do pacote de software spider_1.3-0 (BROWN et
al., 2012), e (4) mPTP, o método de processo de árvore de poisson (ZHANG et al., 2013).
Todas as análises foram realizadas no R v3.6.1. (R DEVELOPMENT CORE TEAM,
2017). As metodologias seguiram os padrões preestabelecidos em Machado et al. (2018).
As distâncias genéticas inter e intraespecíficas (máxima e mínima) das amostras
utilizadas foram calculadas através de matrizes de distâncias-p, utilizando o pacote ape no
programa R v3.6.1. (DEVELOPMENT CORE TEAM, 2017).

Resultados

Foram sequenciados, em média, 630 pares de base do gene mitocondrial Citocromo
c oxidase subunidade I para 54 espécimes de peixes pertencentes a 19 espécies nominais,
cinco táxons identificados apenas no nível de gênero e um no nível de família. O número
de indivíduos por espécie sequenciados no Baixo São Francisco variou de um (ex. Hoplias
microcephalus, Prochilodus costatus e Eugerres brasilianus) a oito em Schizodon knerii e Serrasalmus
brandtii. Foram adicionadas ao banco de dados 465 sequências baixadas do Bold (Barcode
of Life Data System), provenientes dos trabalhos de Machado et al. (2018) e Carvalho et al.
(2011). Essas sequências são provenientes, principalmente, da porção Média e Alta da bacia
do São Francisco.
O banco de dados total consistiu de 519 sequências, sendo que apenas uma delas
(Eugerres brasilianus) foi menor que 500 pares de bases. Nenhuma deleção, inserção ou códon
de parada inesperado foi observado.
A média de divergência genética variou de 0% a 13,9% (média de 0,8%)
dentro das espécies e de 0% a 21,73% (média de 10,0%) entre as espécies (Tabela
31). A análise de Neighbor-Joining mostrou que muitas das espécies usadas neste
trabalho (69,4%) formaram grupos monofiléticos e puderam ser discriminadas corretamente
(Tabela 31). No entanto, alguns táxons (11) mostraram-se parafiléticos e apresentaram altos
valores de divergência intraespecífica. Dentro das 84 espécies e morfotipos que puderam ser
discriminados, 11 apresentaram valores de divergência interespecífica menor que 2% (valor de
corte adotado pela metodologia do Barcode para delimitação de espécies). No entanto, esses
valores ainda permitiram a discriminação entre espécies, uma vez que as mesmas formaram
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

171

coesivos grupos monofiléticos.
Os resultados das análises mostraram que a maioria das espécies sequenciadas (69,4%)
formaram grupos monofiléticos, indicando a correta identificação taxonômica das amostras
através das análises do DNA Barcode (Tabela 31). Entre os métodos de delimitação de
espécies, locMin foi aquele que identificou um maior número de linhagens/clusters, enquanto
mPTP foi mais conservador, delimitando um número bem menor de espécies/linhagens,
sobretudo nas espécies estuarinas e marinhas coletadas na porção Baixa do rio São Francisco.
Esse número baixo de espécies discriminadas por esse método deve-se à falta de táxons mais
relacionados nas espécies estuarinas e marinhas, ou seja, não foi amostrada toda a ictiofauna
estuarina e costeira da região.
As análises de delimitação usando sequências de COI geradas a partir da coleta de
peixes na segunda Expedição ao Baixo rio São Francisco e sequências das porções Média
e Alta desse rio, obtidas de Machado et al. (2018) e Carvalho et al. (2011), revelaram que
todas as espécies exclusivas de água doce coletadas na porção Baixa do São Francisco não
compõem linhagens diferentes daquelas ocorrendo nos trechos mais Altos do rio. Todos
os espécimes das 10 espécies de água doce da porção Baixa (Schizodon knerii, Leporinus
piau, Hoplias malabaricus, Pygocentrus piraya, Serrasalmus brandtii, Metynnis lippincottianus,
Prochilodus costatus, Cichla monoculus, Trachelyopterus cf. galeatus, Hypostomus sp.) formaram
grupos coesos com os espécimes da parte superior, mostrando que essas populações não se
encontram diferenciadas ao longo da calha principal do rio São Francisco (Figura 56).

172

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 56. Delimitação de espécies baseada em DNA barcode-COI (651 pb) dos peixes do
rio São Francisco. Cores iguais representam a mesma espécie.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

173

174

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

As análises de distância e diversidade genética mostraram variáveis níveis de distância
genética interespecífica (de 0 até 21,73%) (Tabela 31). Por exemplo, um exemplar de Astyanax
bimaculatus apresentou distância genética de Astyanax cf. fasciatus (atualmente Psalidodon
fasciatus) de 0%. Dentro das espécies, a diversidade genética variou de 0,0 a 13,97%, indicando
alta variabilidade dentro de algumas delas, como Astyanax bimaculatus, Eigenmannia virescens
e Synbranchus marmoratus, entre outros táxons coletados somente nas porções Média e Alta
do rio São Francisco. No entanto, a alta variabilidade genética observada em algumas espécies
deve-se à diversidade críptica não detectada em estudos anteriores, como, por exemplo, o
caso de Astyanax citado anteriormente, onde, claramente, o indivíduo identificado como
A. bimaculatus trata-se, na verdade, de um espécime de P. fasciatus. Não levando em conta
espécies com um único espécime, particularmente baixos níveis de diversidade intraespecífica
foram encontrados em Serrasalmus brandtii, Pygocentrus piraya, Crenicichla lepidota, Hoplias
malabaricus, Leporinus piau e Prochilodus costatus, enquanto outras espécies, como Astyanax
bimaculatus, Imparfinis minutus e Pimelodella vittata, mostraram altos níveis de diversidade
genética intraespecífica (Tabela 31).
A partir dos resultados desta pesquisa, foi possível observar que algumas espécies
são compostas por dois ou mais grupos, separados por altos níveis de divergência genética
(ex.: Gymnotus carapo, Synbranchus marmoratus, Astyanax bimaculatus), variando de 4,6% até
13,9% no gene COI. Essa diversidade foi observada apenas na porção Alta da bacia, o que
demonstra uma diversidade críptica nesses táxons. No entanto, essa diversidade oculta parece
estar relacionada aos tributários das porções Média e Alta da bacia do rio São Francisco, não
sendo observado nenhum padrão de estruturação da ictiofauna ao longo da calha principal
do rio.

Discussão

A bacia do rio São Francisco é altamente alterada, em decorrência dos múltiplos usos
de suas águas. Embora apresente uma riqueza relativamente pequena de espécies de peixes,
mostra um alto grau de endemismo dessas espécies, sobretudo nos seus tributários superiores.
Diversos estudos permitiram, ao longo dos anos, uma caracterização da ictiofauna dentro da
bacia, assim como a relação histórica de algumas espécies de peixes com populações de bacias
vizinhas. No entanto, uma caracterização da diversidade genética dessa ictiofauna, bem como
uma análise da estrutura das populações de peixes ao longo dessa bacia, ainda é incompleta.
Este estudo aumentou a amostragem molecular da ictiofauna do rio São Francisco,
uma vez que foram gerados códigos de barra de DNA (barcodes) para espécies coletadas na
porção baixa desse rio. Essas novas sequências, associadas ao banco de dados de Carvalho et
al. (2011), das porções Média Alta e Alta do rio São Francisco, e de Machado et al. (2018),
da porção Média Alta, permitiram uma análise mais completa da ictiofauna desse rio.
As análises mostram que as espécies ocorrendo no Baixo São Francisco não formam
linhagens diferenciadas do restante da bacia. Esse resultado já havia sido observado por
Carvalho et al. (2011), analisando as populações de peixes da porção Alta do rio, e isso parece
ser um padrão dentro da calha do São Francisco. No entanto, foi possível detectar, ao longo da
bacia, espécies com fortes indícios de diversidade críptica, apresentando distâncias genéticas
compatíveis com níveis interespecíficos. Imparfinis minutus, por exemplo, apresentou duas
linhagens ocorrendo na bacia do rio das Velhas (Alto São Francisco), com uma divergência
de 9% entre elas. Synbranchus marmoratus (muçum) também apresentou duas linhagens
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

175

divergentes dentro da bacia, com distância genética entre elas de 8,2%, um forte indicativo
da existência de duas espécies dentro desse táxon ocorrendo no rio Paraopebas (Alto rio
São Francisco).
A maioria das espécies utilizadas neste estudo apresentou apenas uma linhagem
ocorrendo ao longo da bacia do rio São Francisco. Isso inclui todas as espécies de água
doce coletadas na parte Baixa do rio. Espécies com linhagens divergentes foram observadas
apenas nos tributários da parte Alta da bacia, o que mostra que, mesmo muito barrado e
poluído, a troca de material genético entre as espécies de peixes ao longo de toda a calha
do São Francisco não foi interrompida. No entanto, a porção Baixa do rio, sem dúvida, é a
mais afetada por todas as alterações na bacia. As populações das espécies ocorrendo nessa
região não têm a opção de fuga da poluição e da intrusão salina, uma vez que os tributários
do Baixo São Francisco não são perenes e as lagoas marginais também são profundamente
afetadas com a redução da vazão. Embora haja a troca de material genético ao longo de todo
o rio, a tendência das populações do Baixo é o endocruzamento, o que diminui o potencial
genético das espécies, podendo levar à redução drástica das populações locais, o que já tem
sido observado para algumas espécies, como a curimatã-pacu (Prochilodus argenteus) e o piau
(Megaleporinus obtusidens), cujas densidades populacionais têm diminuído ao longo dos anos,
afetando sobremaneira a pesca de subsistência no Baixo São Francisco.
Os resultados deste trabalho, portanto, indicam possíveis eventos de especiação em
curso ou concretizadas, ocorrendo nos tributários da parte Alta da bacia do São Francisco, mas
também mostram a redução da diversidade genética das espécies em direção à parte Baixa,
uma vez que, para a maioria das espécies coletadas no Baixo São Francisco, a diversidade
foi baixa. Isso mostra a singularidade da região estudada e, consequentemente, agrava os
impactos gerados pela poluição e pela intrusão salina sobre a ictiofauna.
Tabela 31 - Estatísticas do conjunto de dados discriminadas por espécie, incluindo:
contagem individual, número de espécimes utilizados, tamanho da sequência
do gene COI em pares de base, máxima divergência intraespecífica (distância
p), divergência interespecífica mínima (distância p), espécies mais próximas
filogeneticamente e monofilia dos táxons.
Indivíduos

Tamanho
da
sequência
(bp)

Max_intra
(%)

Min_inter
(%)

Espécies mais
próximas

Monofilético?

5

651

0

18,641

Sim

4

651

0,346

7,527

Triportheus
guentheri

Odontostilbe sp.

Sim

1

651

0

12,289

Parodon hilarii

Único

1

594

0

14,757

Único

Astyanax
bimaculatus

22

651

13,978

0

Astyanax
bimaculatus
lacustris

Cichla monoculus
Astyanax
bimaculatus
lacustris; Astyanax
cf. fasciatus;
Astyanax sp.

4

651

0,461

0

Astyanax cf.
fasciatus

5

651

0

0

Astyanax rivularis

2

651

0

0,307

Espécie
Acestrorhynchus
lacustris
Acinocheirodon
melanogramma
Apareiodon
ibitiensis
Archosargus
probatocephalus

176

Astyanax
bimaculatus

Astyanax
bimaculatus;
Astyanax sp.
Astyanax sp.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Sim

Sim
Não
Sim

Astyanax sp.
Australoheros
facetus
Bathygobius cf.
soporator
Bergiaria
westermanni
Brycon orthotaenia

6

651

1,571

5

651

0,154

15,63

Astyanax rivularis;
Astyanax
bimaculatus;
Astyanax cf.
fasciatus
Cichla monoculus

1

594

0

17,508

Pareiorhina sp.

Único

2

651

0

4,608

Pimelodus fur

Sim

0

Sim

5

651

0,333

0

Brycon orthotaenia

Bryconops affinis

3

651

0

17,358

Odontostilbe sp.

Não

Bunocephalus sp.
Callichthys
callichthys
Caranx sp.

4

651

0,307

15,825

Sim

1

651

0

17,358

1

594

0

14,141

Centropomus sp.
Cetopsorhamdia
iheringi
Cetopsorhamdia sp.
Characidium
lagosantense
Characidium sp.

1

594

0

18,966

3

651

0,159

15,054

Sciades sp.
Pseudoplatystoma
corruscans
Trachinotus goodei
Serrasalmus
brandtii
Cetopsorhamdia sp.
Cetopsorhamdia
iheringi
Characidium zebra

Brycon sp.

3

595

0,168

0

Sim

5

651

0,922

15,054

2

651

0

4,916

2

651

0

10,138

Characidium zebra

4

651

1,382

4,916

Cichla monoculus

5

595

0,174

14,757

Compsura heterura

2

651

0,461

6,605

Conorhynchos
conirostris

6

611

0,655

14,239

Corydoras garbei

1

651

0

15,975

Crenicichla lepidota

6

651

0,161

21,739

6

651

0,614

9,677

3

651

0,461

11,433

6

651

8,602

16,59

2

594

0,673

18,182

1

594

0

17,677

1

468

0

18,162

1

651

0

14,286

1

651

0

16,134

Gymnotus carapo

4

651

4,608

16,743

Harttia cf.
torrenticola

6

651

0,168

7,629

Harttia
novalimensis

7

651

0,307

6,298

4

651

0

6,298

3

651

0

7,629

1

651

0

13,21

4

651

0,307

13,21

5

651

0,307

7,834

Curimatella
lepidura
Cyphocharax
gilbert
Eigenmannia
virescens
Eleotris pisonis
Eucinostomus
melanopterus
Eugerres
brasilianus
Franciscodoras
marmoratus
Geophagus
brasiliensis

Harttia leiopleura

Harttia sp.

Hemigrammus cf.
gracilis
Hemigrammus
marginatus

Hemipsilichthys sp.

Brycon sp.

Characidium zebra
Characidium
lagosantense
Archosargus
probatocephalus
Serrapinnus piaba
Lophiosilurus
alexandri;
Pimelodus pohli
Tetragonopterus
chalceus

Eugerres
brasilianus;
Australoheros facetus
Steindachnerina
elegans
Curimatella
lepidura
Pimelodus pohli;
Hisonotus sp.
Rhamdia quelen;
Bathygobius cf.
soporator
Pseudopimelodus
charus
Prochilodus costatus
Pseudopimelodus
charus
Cichla monoculus
Rineloricaria
sp.; Pimelodus
maculatus
Harttia sp.
Harttia
novalimensis

Harttia leiopleura
Harttia cf.
torrenticola
Hemigrammus
marginatus
Hemigrammus cf.
gracilis
Pareiorhina sp.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Sim
Sim

Único
Único
Único
Sim
Sim
Sim
Sim
Sim
Sim
Sim
Sim
Único
Sim
Não
Sim
Sim
Sim
Único
Único
Único
Único
Sim
Sim
Sim
Sim
Sim
Único
Sim
Sim

177

Hisonotus sp.
Hoplias
intermedius
Hoplias
malabaricus

3

651

0,307

13,323

Parotocinclus sp.

Sim

1

651

0

11,379

Hoplias malabaricus

Único

11

651

0,672

11,379

Hoplias intermedius

Sim

Hoplosternum
littorale

6

651

0,154

18,28

Callichthys
callichthys;
Serrapinnus piaba

Sim

Hyphessobrycon
santae

5

651

0

15,515

Oligosarcus

Não

Hypostomus alatus

4

651

0,792

0,345

Hypostomus sp.

Sim

Hypostomus sp.

4

580

2,414

0,345

Hypostomus alatus

Não

Imparfinis minutus

6

651

9,063

15,975

Sim

Knodus
moenkhausii

Pseudopimelodus
charus;
Pseudopimelodus sp.

10

651

0

10,427

Planaltina myersi

Sim

Leporinus piau

11

651

0

7,527

Leporinus taeniatus

Não

Leporinus
taeniatus

5

651

0,317

7,527

Leporinus piau

Sim

Lophiosilurus
alexandri

3

651

0,324

10,906

Pseudopimelodus
charus

Sim

Megaleporinus
macrocephalus

1

651

0

9

Megaleporinus
reinhardti

Único

Megaleporinus
obtusidens

1

595

0

0

Megaleporinus sp08

Único

Megaleporinus
reinhardti

5

651

1,167

6,298

Megaleporinus
obtusidens;
Megaleporinus sp08

Sim

Megaleporinus
sp08

6

651

0

0

Megaleporinus
obtusidens

Não

Metynnis
lippinconttianus

4

595

0

12,069

Serrasalmus
brandtii;
Pygocentrus piraya

Sim

5

651

0,461

12,56

Não

2

645

0

4,186

Pseudopimelodus
charus

1

651

0

17,358

Hemigrammus cf.
gracilis

Único

Microglanis
leptostriatus
Microlepidogaster
sp.

Moenkhausia costae
Moenkhausia
sanctaefilomenae

5

651

0,307

17,665

Mugil sp.

1

594

0

17,508

Neoplecostomus sp.

7

651

0,632

7,373

Myleus micans

7

651

0,493

12,882

Odontostilbe sp.

10

651

0,614

7,527

Oligosarcus
Oligosarcus sp.

2
2

651
651

0
0

3,994
3,994

Orthospinus
franciscensis

4

651

0,307

16,283

178

Parotocinclus sp.

Astyanax
bimaculatus;
Hemigrammus cf.
gracilis

Sim

Sim

Myleus micans

Único

Pareiorhina sp.

Sim

Pygocentrus piraya
Acinocheirodon
melanogramma;
Serrapinnus piaba
Oligosarcus sp.
Oligosarcus
Astyanax
bimaculatus
lacustris; Oligosarcus
sp.; Astyanax
bimaculatus;
Roeboides xenodon;
Oligosarcus;
Astyanax rivularis;
Astyanax sp.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Sim

Sim
Sim
Sim

Sim

Otocinclus xakriaba
Pamphorichthys
hollandi

2

Pamphorichthys sp.

651

0

15,361

Sim

Pamphorichthys
hollandi

Único

2,458

1

651

0

0

Pareiorhina sp

2

651

0

7,373

Parodon hilarii

3

651

0

12,289

Parotocinclus sp.

2

651

0

4,186

Phalloceros uai

8

651

0

17,358

Phenacogaster
franciscoensis

1

651

0

16,283

4

651

8,141

3,84

3

651

5,837

3,84

5

609

0

13,937

Pygocentrus piraya

Sim

6

651

8,602

11,25

Rhamdia quelen

Sim

3

651

0

4,455

Pimelodus
maculatus

Sim

5

651

0,322

4,455

Pimelodus fur

Sim

4

651

0,922

4,608

Pimelodus fur

Sim

Piabina argentea;
Knodus moenkhausii

Sim

Piabina argentea

Piaractus
mesopotamicus
Pimelodella vittata
Pimelodus fur
Pimelodus
maculatus
Pimelodus pohli

0

Hisonotus sp.

651

Piabarchus
stramineus

6

Pamphorichthys sp.
Neoplecostomus sp.
Apareiodon
ibitiensis
Microlepidogaster
sp.
Pamphorichthys
hollandi
Piabina argentea;
Tetragonopterus
chalceus
Piabina argentea
Piabarchus
stramineus

Sim
Sim
Sim
Sim
Não
Único
Sim
Sim

Planaltina myersi

6

651

0,922

10,427

Poecilia sp.

5

651

2,151

13,21

Não

Prochilodus
argenteus

Pamphorichthys
hollandi

11

651

0,614

1,61

Prochilodus costatus

Sim

Prochilodus costatus

9

651

0,168

1,61

Prochilodus
argenteus

Sim

2

651

0,322

0,307

Pseudopimelodus sp.

Não

1

651

0

0,307

Pseudopimelodus
charus

Único

4

651

0,322

11,521

Pimelodus pohli

Sim

Hypostomus alatus;
Hypostomus sp.

Sim

Pseudopimelodus
charus
Pseudopimelodus
sp.
Pseudoplatystoma
corruscans
Pterygoplichthys
etentaculatus

7

651

0

5,042

Pygocentrus piraya

17

651

0,517

4,138

Rhamdia quelen

6

651

0,478

Rhinelepis aspera

1

648

Rineloricaria sp.

2

Roeboides xenodon

Sim

11,25

Serrasalmus
brandtii

Pimelodella vittata

Sim

0

15,878

Leporinus piau

Único

651

0

15,888

Harttia sp.

Sim

4

651

0,307

13,671

8

600

0,167

5,333

Salminus hilarii

2

651

0,154

5,333

Schizodon knerii

15

651

0,172

12,721

Leporinus taeniatus

Sim
Sim

Salminus
franciscanus

Tetragonopterus
chalceus

Salminus hilarii
Salminus
franciscanus

Sim
Sim
Sim

Sciades sp.

3

594

3,535

14,912

Trachelyopterus cf.
galeatus

Serrapinnus piaba

5

651

1,382

6,605

Compsura heterura

Sim

23

651

0,558

4,138

Pygocentrus piraya

Sim

3

594

0,505

16,498

Hoplias malabaricus

Sim

9,677

Curimatella
lepidura

Sim

Serrasalmus
brandtii
Sphoeroides
testudineus
Steindachnerina
elegans

3

651

0

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

179

Steindachnerina
elegans;
Eigenmannia
virescens

Sternopygus
macrurus

4

651

0,154

17,665

Strongylura sp.

1

594

0

18,35

Cichla monoculus

Único

15,668

Astyanax
bimaculatus;
Astyanax
bimaculatus lacustris

Sim

Sim

Sim

Stygichthys
typhlops

5

651

0,154

3

651

8,295

19,508

Prochilodus
argenteus;
Trachelyopterus
galeatus; Roeboides
xenodon

2

651

0

13,671

Roeboides xenodon

1

570

0

1,754

2

651

0,154

1,754

1

594

0

14,141

4

651

1,075

7,68

3

651

0

7,68

Trichomycterus sp

1

651

0

10,445

Triportheus
guentheri

1

651

0

15,668

Synbranchus
marmoratus
Tetragonopterus
chalceus
Trachelyopterus cf.
galeatus
Trachelyopterus
galeatus
Trachinotus goodei
Trichomycterus
brasiliensis
Trichomycterus
reinhardti

Fonte: Valéria Machado (2020).

Trachelyopterus
galeatus
Trachelyopterus cf.
galeatus
Caranx sp.
Trichomycterus
reinhardti
Trichomycterus
brasiliensis
Trichomycterus
brasiliensis
Prochilodus
argenteus

Sim

Único
Sim
Único
Sim
Sim
Único
Único

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Transposição do rio São Francisco. 2017. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Rio
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182

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

LEVELS OF MERCURY, CADMIUM, LEAD, ZINC,
COPPER, CHROMIUM, IRON, MANGANESE, AND
ARSENIC IN IMPORTANT FISH SPECIES IN THE
LOWER SÃO FRANCISCO RIVER
Carlos A. da Silva

Marcos V. T. Gomes

Carlos A. B. Garcia

Hortência L. P. de Santana
Marcus S. Cruz

Silvânio S. L. da Costa
SUMMARY
Potentially toxic metals can accumulate in aquatic organisms through the food chain
and damage human health through the consumption of fish. The objective of this study
was to determine and qualify the concentrations of mercury, cadmium, lead, zinc, copper,
chromium, iron, and manganese, and arsenic metalloid, found in fish collected in the Lower
São Francisco river during the Expedição Científica Velho Chico project, taking as a basis
the maximum tolerance limits (MTL). Twelve fish species were caught by local fishermen.
Cd, Pb, Zn, Cu, Cr, Fe, and Mn levels were measured by inductively coupled plasma mass
spectrometry (ICP-MS), and mercury was analyzed via cold vapor atomic absorption
spectrometry (CVAAS). Metals and arsenic metalloid present in fish caught in the lower
São Francisco presented mean concentrations in the following decreasing order: Fe > Zn >
Mn > Cu > As > Hg > Cr > Pb > Cd.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

183

CAPÍTULO 10
NÍVEIS DE MERCÚRIO, CÁDMIO, CHUMBO,
ZINCO, COBRE, CROMO, FERRO, MANGANÊS
E ARSÊNIO EM IMPORTANTES ESPÉCIES DE
PEIXES DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Carlos A. da Silva50

Marcos V. T. Gomes51
Carlos A. B. Garcia52

Hortência L. P. de Santana53
Marcus A. S. Cruz54

Silvânio S. L. da Costa55
INTRODUÇÃO
Os metais encontram-se, naturalmente, presentes nas rochas e nos solos e, por meio
dos processos de intemperismo e atividades antrópicas, atingem o ambiente aquático. Os
metais Ferro, Cobre, Zinco e Manganês são essenciais, uma vez que desempenham um papel
importante nos sistemas biológicos, enquanto Mercúrio, Chumbo e Cádmio são tóxicos,
mesmo em pequenas quantidades. Metais potencialmente tóxicos liberados por atividades
antropogênicas podem se acumular nos organismos aquáticos, através da cadeia alimentar, e
provocar danos à saúde humana, através do consumo de pescado.
O consumo de peixe tem aumentado nos últimos anos, devido à sua carne rica em
aminoácidos e proteínas de qualidade, micro e macroelementos essenciais, baixo conteúdo
de gordura saturada, presença de ácidos graxos ômega 3 e reconhecido benefício para a boa
saúde. O pescado é um item frequente da dieta das populações costeiras e ribeirinhas, assim,
os riscos à saúde associados ao consumo de peixe estão se tornando, cada vez mais, motivo
de preocupação dos órgãos de saúde e vigilância sanitária, devido à possível presença de
contaminantes químicos. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é a
responsável pela fiscalização de contaminantes em alimentos, por meio dos Limites Máximos
de Tolerância (LMT) para contaminantes inorgânicos publicados na Resolução Anvisa nº
42, de 29 de agosto de 2013 (ANVISA, 2013).
O conhecimento sobre o potencial risco do consumo de peixes que possam apresentar
Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe, Brasil.
CODEVASF, 5ª Superintendência Regional de Penedo, Porto Real do Colégio, Alagoas, Brasil. Universidade
Federal de Sergipe, Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos, São Cristóvão, Sergipe, Brasil.
52
Universidade Federal de Sergipe, Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos, São Cristóvão, Sergipe,
Brasil.
53
Universidade Federal de Sergipe, Departamento de Química, São Cristóvão, Sergipe, Brasil.
54
Embrapa Tabuleiros Costeiros, Aracaju, Sergipe, Brasil. Universidade Federal de Sergipe, Programa de PósGraduação em Recursos Hídricos, São Cristóvão, Sergipe, Brasil.
55
Universidade Federal de Sergipe, Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos, Programa de Pósgraduação em Engenharia e Ciências Ambientais, São Cristóvão, Sergipe, Brasil.
50
51

teores de contaminantes inorgânicos acima dos LMT é importante para subsidiar as agências
de saúde e de vigilância sanitária sobre as recomendações dos níveis seguros de consumo, em
particular para crianças, mulheres grávidas e lactantes, além de sua importância ambiental, uma
vez que a presença de elementos potencialmente tóxicos em peixes expressa o enriquecimento
antrópico daquele corpo hídrico.
O objetivo deste estudo foi determinar e qualificar as concentrações dos metais
Mercúrio, Cádmio, Chumbo, Zinco, Cobre, Cromo, Ferro e Manganês, e o metaloide Arsênio,
encontradas em peixes coletados no Baixo rio São Francisco, durante o projeto Expedição
Científica Velho Chico, tomando-se como base os LMT.

Procedimento metodológico

A área de estudo localiza-se na região do Baixo São Francisco (BSF), entre os
Estados de Sergipe e Alagoas. O estudo abrangeu os municípios alagoanos Traipu, Porto
Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu e os sergipanos Neópolis e Brejo Grande,
percorrendo um trajeto, por hidrovia, de cerca de 140 km em setembro de 2018, conforme
os pontos de coleta referenciados na Figura 57.
As espécies de peixes (Tabela 32) foram capturadas utilizando-se rede de emalhar
de 40 mm dispostas no rio, segundo a orientação de pescadores locais durante a I Expedição
Científica, em outubro de 2018. Os peixes foram identificados de acordo com Britski et al.
(1988), Barbosa et al. (2017) e Lessa e Nóbrega (2000).
Após a captura, amostras de músculo do pescado foram obtidas a bordo, com a retirada
de porções da musculatura da região latero-dorsal, com massa mínima de 30 g para análise
de elementos potencialmente tóxicos e, posteriormente, foram transportadas refrigeradas em
caixas térmicas até o Laboratório de Estudos e Impactos Ambientais (Labeia), da Embrapa
Tabuleiros Costeiros, em Aracaju-SE.
As amostras foram processadas de acordo com a metodologia descrita por Silva et
al. (2019), que consiste, basicamente, de liofilização e trituração para obtenção de amostras
homogêneas, seguida de digestão em meio ácido, utilizando micro-ondas e conservação das
amostras a 4 °C até serem analisadas.
A determinação da concentração de Mercúrio total deu-se por espectrometria de
absorção atômica, utilizando-se o analisador direto de Mercúrio (DMA-80, Milestone,
Itália), de acordo com o método Usepa 7473, recomendado pela United States Environmental
Protection Agency (USEPA, 2007). Todas as análises foram realizadas em triplicata. A
determinação quantitativa dos elementos Arsênio, Cádmio, Chumbo, Zinco, Cobre, Cromo,
Ferro e Manganês foi analisada por espectrometria de massa com plasma indutivamente
acoplado (ICP-MS, Thermo, Alemanha).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

185

Figura 57 - Localização dos pontos de coleta de peixes na região do Baixo rio São Francisco.

Fonte: Dados dos autores (2020)

Tabela 32 - Classificação, habitat e hábito alimentar das espécies de peixes estudadas.
Hábito

Nome vulgar

Família

Nome científico

Habitat

Bagre

Ariidae

Cathorops agassizii

Bentônico

Onívoro

Baiacu

Tetraodontidae

Lagocephalus
laevigatus

Pelágico

Carnívoro

Carapeba

Gerreidae

Eugerres brasilianus

Demersal

Onívoro

Pacu

Serrasalmidae

Metynnis maculatus

Bentopelágico

Onívoro

Piau branco

Anastomidae

Schizodon knerii

Bentopelágico

Onívoro

Piau pintado

Anastomidae

Megaleporinus
obtusidens

Bentopelágico

Onívoro

Pirambeba

Serrasalmidae

Serrasalmus brandtii

Bentopelágico

Carnívoro

Robalo

Centropomidae

Centropomus
parallelus

Demersal

Sargo

Sparidae

Archosargus
probatocephalus

Associado a
recifes

Piscívoro,
carnívoro
Carnívoro

Tilápia

Cichlidae

Oreochromis niloticus

Bentopelágico

Onívoro

Traíra

Erythrinidae

Hoplias
microcephalus

Bentopelágico

Piscívoro

Tucunaré

Cichlidae

Cichla monoculus

Bentopelágico

Piscívoro,

alimentar

Fonte: Dados dos autores (2020), com base em Britski et al. (1988), Barbosa et al. (2017) e
Lessa e Nóbrega (2000).

186

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

As concentrações médias de Arsênio, Cádmio, Chumbo e Mercúrio foram utilizadas
para estimar quociente de risco (QR), associado ao consumo de pescado. A equação (1) para
esse cálculo foi proposta pela Usepa (1989).
				
(1)
Onde FE é a frequência de exposição (365 dia ano-1); DE é duração de exposição
(70 anos) equivalente à estimativa média da vida humana; TI é a taxa de ingestão de pescado
(36 g pessoa-1 dia-1); C é a concentração do metal no peixe (µg g-1) (USEPA, 1989); DOR é
a dose oral de referência (As = 0,3x10-3 µg g-1 dia-1, Cd = 1,0x10-3 µg g-1 dia-,1 Pb = 4,0x10-3
µg g-1 dia-1, Hg = 0,5x10-3 µg g-1 dia-1) (USEPA, 2010); PMC é o peso médio corporal de um
adulto (70 Kg); TE é o tempo médio de exposição para não cancerígeno (365 dia ano-1 x DE).
Na avaliação de risco, é assumido que a ingestão oral do contaminante é igual à dose
absorvida pelo organismo humano e que, ao cozinhar o peixe, não se altera a concentração
ou a toxidade do contaminante (USEPA, 1989). É definido que, para valores de QR < 1, não
há risco apreciável para determinado poluente, e se o QR for > 1, há um risco iminente ao
continuar consumindo peixe com essa frequência (STORELLI, 2008).

Avaliação dos peixes coletados no baixo São Francisco
Para a validação dos métodos analíticos, foram analisados os materiais de referência
certificados de tecido de ostra (NIST-1566b) e de proteína de peixe (DORM-4), sendo
possível avaliar a precisão e a exatidão do método utilizado. Os valores de recuperação dos
analitos encontram-se dentro da faixa de 86% (Mn) a 117% (Fe), aceitável para a análise de
elementos traço em amostras complexas.
As concentrações em mg/kg (base úmida) dos elementos As, Cr, Cu, Fe, Hg, Mn, Pb
e Zn nas amostras de peixes estão representados na Figura 58. O Cádmio não foi incluído
nesta abordagem, uma vez que os valores apresentados foram abaixo do limite de detecção
(< 0,006 mg/kg) do método analítico.
A concentração média de Arsênio foi de 0,17 mg/kg ± 0,04 mg/kg. O menor teor
médio foi de 0,05 mg/kg ± 0,003 mg/kg foi detectado no piau pintado (Megaleporinus
obtusidens), também conhecido como piau-três-pintas, capturado em Traipu–AL, e o maior foi
de 0,50 mg/kg ± 0,29 mg/kg no sargo (Archosargus probatocephalus), procedente de PiaçabuçuAL. As maiores concentrações de Arsênio foram observadas nas espécies estuarinas e marinhas
capturadas na região da foz do rio São Francisco (Figura 58) e podem ser atribuídas a seu
elevado nível trófico e hábito alimentar piscívoro, onde o Arsênio contido nas suas presas é
bioconcentrado na base da cadeia alimentar aquática e transferido aos elos sucessivos da teia
trófica (LI et al., 2003). Valores acima do LMT de 1,0 mg/kg para o Arsênio (ANVISA,
2013) foram encontrados nos exemplares únicos do baiacu (2,42 mg/kg ± 0,63 mg/kg) e
bagre (1,96 mg/kg ± 0,34 mg/Kg), ambos capturados em Piaçabuçu-AL.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

187

Figura 58 - Concentração média dos elementos Hg, As, Pb, Zn, Cu, Cr, Fe e Mn nos peixes
coletados no Baixo rio São Francisco.

Fonte: Dados dos autores (2020)

O Arsênio V (pentavalente), geralmente, é a espécie química mais comum em águas
superficiais bem oxigenadas e grande parte irá adsorver ao material particulado e sedimentos
(CETESB, 2019). Esse metaloide pode ser encontrado no pescado em diferentes formas

188

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

químicas, podendo variar dependendo do organismo, do ambiente e da região geográfica. Sua
toxicidade depende do estado de oxidação, exposição, dose, solubilidade nos meios biológicos
e da taxa de excreção (MAHER et al., 2018).
Todos as amostras de peixes analisadas apresentaram níveis de Cd abaixo do limite
de detecção de 0,006 mg/kg e, portanto, apresentaram concentrações de Cádmio abaixo
do LMT de 0,05 mg/kg, publicado pela Resolução Anvisa nº 42, de 29 de agosto de 2013
(ANVISA, 2013). O Cádmio pode ser absorvido pelos peixes por difusão passiva do meio
aquático, através das brânquias ou por meio da ingestão dos primeiros elos da cadeia alimentar,
microrganismos e plâncton. Nos tecidos musculares, o Cádmio está ligado às proteínas,
podendo sofrer bioacumulação devido à sua taxa de eliminação muito lenta (BOSH et al.,
2016). É um metal altamente tóxico, que pode se concentrar no corpo humano por longos
períodos de tempo, e as implicações de saúde da exposição de Cádmio são agravadas pela
incapacidade relativa dos seres humanos de excretá-lo (DURAL; GÖKSU; ÖZAK, 2007).
A concentração média de Zinco foi de 6,01 mg/kg ± 0,42 mg/kg, sendo que o menor
valor médio de 4,54 mg/kg ± 0,37 mg/kg foi observado no robalo (Centropomus parallelus) e
o maior, de 8,66 mg/kg ± 0,28 mg/kg, no tucunaré (Cichla monoculus) (Figura 58). Nenhuma
das espécies analisadas no presente estudo apresentou níveis de Zinco acima do LMT de 50
mg/kg previsto na legislação brasileira, conforme Decreto nº 55.871, de 26 de março de 1965.
O Zinco é um micronutriente essencial para todos os organismos com múltiplas funções
bioquímicas e desempenha papel vital no metabolismo de lipídios, proteínas e carboidratos, já
que é um componente ativo ou cofator de importantes sistemas enzimáticos; em particular, nas
sínteses e no metabolismo de ácidos nucleicos e proteínas (WHO; FAO, 1998). Peixes com
teores médios de Zinco, de cerca de 3 mg/kg a 5 mg/kg, são considerados boas fontes deste
elemento essencial (OEHLENSCHLAGER, 2002). Todas as espécies de peixes avaliadas
neste estudo apresentaram nível de Zn acima de 4 mg/kg (Figura 58).
O Chumbo não foi detectado em sete das espécies analisadas, sendo que duas, pacu
(Metynnis maculatus) e piau pintado (Megaleporinus obtusidens), apresentaram teores de 0,03
mg/kg ± 0,01 mg/kg, e a pirambeba (Serrasalmus brandtii), de 0,02 mg/kg ± 0,01 mg/kg
(Figura 58). Nenhuma das espécies de peixes avaliadas no Baixo São Francisco registrou
concentrações de Chumbo acima do LMT de 0,3 mg/kg (ANVISA, 2013). A deposição
atmosférica é a principal rota de entrada do Chumbo em corpos hídricos. O Pb II (divalente) é
absorvido nas brânquias, entra na corrente sanguínea dos peixes e é acumulado nos tecidos do
animal, especialmente nos tecidos musculares, sendo o consumo de pescado uma importante
rota de exposição em humanos (NUSSEY; VAN VUREN; DU PREEZ, 2000).
A concentração média de Cromo no presente estudo foi de 0,45 mg/kg ± 0,06 mg/
kg. Os menores e maiores teores médios encontrados no tecido muscular dos peixes foram
de 0,19 mg/kg ± 0,03 mg/kg no piau branco (Schizodon knerii) e de 1,25 mg/kg ± 0,09 na
carapeba (Eugerres brasilianus), respectivamente (Figura 58). Todas as espécies avaliadas
apresentaram concentrações médias de Cromo superiores ao LMT de 0,1 mg/kg prescrito no
Decreto nº 55.871, de 26 de março de 1965, para qualquer alimento. No ambiente aquático,
o Cromo existe como cromato e é assimilado pelo fitoplâncton por difusão passiva. No
processo de bioacumulação, o Cromo dissolvido, suspenso na água ou contido no sedimento
é absorvido pelos organismos, particularmente os peixes, através das brânquias e do trato
digestivo (MIRANDA FILHO et al., 2011). A saúde dos peixes também pode ser afetada
pela exposição ao Cromo e sua presença, junto com outros metais, foi relacionada ao aumento
do nível de glicogênio em diferentes órgãos dos peixes, indicando estresse devido à exposição
ao metal ( JAVED; USMANI, 2011).
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

189

A concentração média de Manganês foi de 0,75 mg/kg ± 0,15 mg/kg, sendo o menor
valor, de 0,44 mg/kg ± 0,21 mg/kg, encontrado no sargo (A. probatocephalus) pescado em
Piaçabuçu-AL, e o maior na pirambeba (Serrasalmus brandtii), de 1,07 mg/kg ± 0,30 mg/kg,
capturada em Traipu-AL (Figura 58). Não há, na legislação brasileira, limites máximos em
pescado prescritos para esse metal. Processos de escoamento superficial e lixiviação do solo,
facilitados pelas atividades agrícolas, podem liberar Manganês aos corpos de água, enquanto
as fontes antropogênicas incluem os agrotóxicos. O Manganês pode acumular-se em alguns
organismos, como algas, moluscos e alguns peixes, mas a biomagnificação na cadeia alimentar
parece não ser significativa, pois a bioacumulação do Manganês é maior em níveis tróficos
inferiores do que em superiores (CETESB, 2018).
A média geral da concentração de Ferro nas espécies avaliadas foi de 9,64 mg/kg ±
0,81 mg/kg. O menor teor, de 5,54 mg/kg ± 0,77 mg/kg, foi encontrado na tilápia (Oreochromis
niloticus), capturada em Neópolis-SE, e o maior, de 18,41 mg/kg ± 1,02 mg/kg, na carapeba
(Eugerres brasilianus), pescada em Brejo Grande-SE (Figura 58). A legislação brasileira
não estabelece valores do LMT para os níveis de Ferro. No meio aquático, o Ferro ocorre
principalmente em águas subterrâneas, devido à dissolução do minério pelo gás carbônico
da água, formando o carbonato Ferroso, que é solúvel e encontrado em águas de poços
contendo elevados níveis de concentração de Ferro. Nas águas superficiais, os níveis de Ferro
aumentam no período chuvoso, devido ao escoamento superficial e à lixiviação dos solos.
As contribuições antropogênicas são provenientes do lançamento de efluentes da indústria
metalúrgica e do processo de decapagem, que realiza a limpeza da camada da ferrugem de
artefatos e peças construídas com esse metal.
O nível médio de Cobre encontrado nos peixes foi de 0,38 mg/kg ± 0,09 mg/kg e
os menores e maiores valores médios foram de 0,30 mg/kg ± 0,05 mg/kg no tucunaré (C.
monoculus) e 0,45 mg/kg ± 0,05 mg/kg na tilápia (Oreochromis niloticus) (Figura 58), ambas
espécies capturadas em diversas localidades do BSF. Todos os peixes avaliados neste estudo
apresentaram teores de Cobre inferiores ao LMT de 30 mg/kg estabelecido no Decreto nº
55.871, de 26 de março de 1965. Compostos de Cobre são usados no tratamento de doenças
de plantas e da água para consumo, e também como conservantes para madeira, couro e tecido
(ATSDR, 2004). Seu nível é facilmente regulado pelo metabolismo humano, o que dificulta
muito a sua bioacumulação (PEREIRA et al., 2010).
A concentração média de Mercúrio total nos peixes foi de 0,08 mg/kg ± 0,01 mg/
kg, com o menor nível de 0,03 mg/kg ± 0,003 mg/kg nas duas espécies de piau e o maior de
0,16 mg/kg ± 0,02 mg/kg na carapeba (Eugerres brasilianus), respectivamente. As espécies de
peixes carnívoras sargo, robalo, tucunaré e traíra apresentaram teores maiores de Hg, como
era esperado para as espécies de nível trófico elevado, devido à biomagnificação ao longo
da cadeia alimentar (Figura 58). Nenhuma das espécies de peixes analisadas apresentaram
concentração de Hg acima do LMT estabelecido pela legislação brasileira, de 0,5 mg/kg
para peixes não carnívoros e 1,0 mg/kg para peixes carnívoros (ANVISA, 2013). Alguns
microorganismos e processos naturais denominados metilação, intermediados por bactérias,
podem transformar o Mercúrio inorgânico em formas orgânicas, sendo a mais importante
o metilMercúrio, que pode sofrer biomagnificação no topo da cadeia trófica (MALVANDI;
ALAHABADI, 2019). A bioacumulação no fitoplâncton é o processo inicial de transferência
deste metal ao longo da cadeia alimentar aquática (SILVA et al., 2011).
Em geral, os padrões dos metais nos peixes analisados apresentaram comportamento

190

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

análogo ao da literatura especializada, que divulgam a ocorrência de maior bioacumulação de
metais nas espécies bentônicas ou demersais, em que os peixes de fundo podem ser expostos
a níveis maiores de contaminantes associados aos sedimentos do que os peixes pelágicos
(SAEI-DEHKORDI et al., 2010; STORELLI, 2008). A carapeba (E. brasilianus), espécie
onívora com hábitos alimentares no fundo, apresentou as concentrações máximas observadas
para Mercúrio, Cromo e Ferro (Figura 58). Essa maior magnitude de metais na sua carne
é corroborada pela ocorrência de ampla variedade de detritos minerais e sedimentos nos
conteúdos estomacais registrados para essa espécie (SANTOS et al., 2020).
Adicionalmente, elementos como Mercúrio, Arsênio e Chumbo, por exemplo, são
considerados não essenciais e têm caráter acumulativo na cadeia trófica, um processo chamado
de biomagnificação, podendo chegar ao topo da cadeia alimentar, os seres humanos.

Quociente de risco

Em relação aos metais Mercúrio, Cádmio e Chumbo, nenhuma das espécies avaliadas
neste estudo apresentou quociente de risco maior que 1 (QR>1), e não representam risco à
saúde humana associado ao consumo dessas espécies. Quocientes de risco (QR) maiores que
1 foram registrados nos exemplares únicos de bagre (Cathorops agassizii) (3,36) e de baiacu
(Lagocephalus laevigatus) (4,14), de acordo com os níveis de Arsênio, de 1,96 mg/kg ± 0,34
mg/kg e 2,42 mg/kg ± 0,63 mg/kg, respectivamente, e podem representar um risco potencial
à saúde humana (Figura 59).
Figura 59 - Quociente de risco do Mercúrio, Arsênio, Cádmio, Chumbo e total (QTR).

Fonte: Dados dos autores (2020)

Para mensurar o efeito simultâneo dos metais avaliados, é calculado o quociente total
de risco (QTR), que é a soma simples do QR de cada metal (Cádmio, Arsênio, Chumbo
e Mercúrio), proposto por Chien et al. (2002). Das espécies avaliadas neste estudo, apenas
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

191

duas, baiacu (L. laevigatus) (4,26) e bagre (C. agassizii) (3,65) apresentaram um QTR acima
do limite sem risco representado pela linha vermelha na Figura 59.
A reavaliação das espécies-alvo em anos subsequentes ao estudo é importante para
verificar se há diminuição do potencial risco de consumo. Adicionalmente, recomendações
assertivas sobre os níveis seguros de consumo de pescado devem considerar um maior e
representativo universo de amostras de peixes e o monitoramento periódico das espécies-alvo
nas estações seca e úmida na região do Baixo rio São Francisco.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os metais e o metaloide Arsênio presentes nas espécies de peixes no Baixo rio São
Francisco apresentaram as concentrações médias na seguinte ordem decrescente: Fe > Zn >
Mn > Cr > Cu > As > Hg > Pb > Cd. O Ferro foi o metal mais abundante, seguido do Zinco,
no tecido muscular dos peixes estudados.
As concentrações de Mercúrio, Cádmio e Chumbo encontradas no tecido muscular
dos peixes avaliados não apresentam risco à saúde humana associado ao consumo dessas
espécies com base nos Limites Máximos de Tolerância.
O nível de Cromo, acima do LMT, registrado em todas as espécies estudadas sugere
que o ambiente aquático está, possivelmente, impactado por esse metal.

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194

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

FISH AS BIOINDICATORS FOR ENVIRONMENTAL
MONITORING OF THE LOWER SÃO FRANCISCO
Emilly Valentim de Souza

Vivian Costa Vasconcelos

Karina Leitão de Oliveira
Lucas de Oliveira Arruda

Anita Santistebam
Evaristo Pérez

Emerson Carlos Soares

Themis Jesus Silva

SUMMARY
The Lower São Francisco River runs through several municipalities and is
approximately 214 km long. The river suffers from human activity, urban growth, and
agriculture that directly or indirectly impact this aquatic environment. These actions include
the dumping of city sewage and the use of pesticides in agriculture near the river banks.
They cause various problems to the environment and its inhabitants and, consequently, to the
riverside dwellers who depend on the river to survive. Many studies using fish are developed
to monitor aquatic ecosystems, as they serve as a bioindicator of the environment’s quality.
The II Scientific Expedition of the Lower São Francisco, held in November 2019, aimed
to evaluate the São Francisco River’s health, using fish as bioindicators to analyze genetic
biomarkers (nuclear abnormalities) and biochemical biomarkers (enzymatic activity and
malondialdehyde). Seventy-six specimens were analyzed using genetic biomarkers (mean
frequency of erythrocyte nuclear abnormalities) and biochemical biomarkers (CAT and
SOD enzymes activity and lipid peroxidation, and quantifying MDS levels). Blood smears
were acquired, following the protocol of Carrasco et al. (1990), to count cells with nuclear
abnormalities. Enzyme and MDA analyses followed the protocols of Aebi (1984) and Buege
and Aust (1978), respectively. The total mean frequency of erythrocyte nuclear abnormalities
was higher in the municipality of Piranhas (1.702) followed by Porto Real do Colégio (1.295),
while the most frequent species were the true piranha (Pygocentrus piraya) (4.0) followed by
tucunaré (Cichla monoculus) (1.75), both carnivorous species. The analyses of SOD, CAT,
and MDA showed the most significant activities in the municipalities of Piranhas, Porto
Real do Colégio, Igreja Nova, and Traipu. The results may indicate changes in water quality,
river health, and aquatic organisms living in this environment. It is essential to know the
activities that negatively impact the quality of the water and, consequently, affect fish, as this
is an essential resource for the riverine population in this area of the São Francisco River.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

195

CAPÍTULO 11
PEIXES COMO BIOINDICADORES PARA O
MONITORAMENTO AMBIENTAL DO BAIXO SÃO
FRANCISCO
Emilly Valentim de Souza 56
Vivian Costa Vasconcelos 57
Karina Leitão de Oliveira58
Lucas de Oliveira Arruda59
Anita Santistebam60

Evaristo Pérez Rial61

Emerson Carlos Soares62
Themis Jesus Silva63

INTRODUÇÃO
O rio São Francisco é um dos mais importantes do Brasil e possui grande relevância
socioeconômica para o País. Segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
(CBHSF) (2014), o Velho Chico possui 2.700 km de extensão, sendo dividido em Alto,
Médio, Submédio e Baixo. De acordo com o Ibama (2006), a região do Baixo São Francisco
(BSF) tem, aproximadamente, 214 km de extensão, passando por 86 municípios; tem início
a partir do município de Paulo Afonso (BA), passando pelos Estados de Alagoas e Sergipe
até os municípios de Piaçabuçu (AL) e Brejo Grande (SE), onde está localizada sua foz.
Entre os municípios no BSF, em Alagoas, estão: Penedo, que tem grande destaque
econômico, possuindo arquitetura colonial, atraindo atenção turística, também responsável
pela criação de tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus), curimatã-pacu (Prochilodus argenteus) e
tambaqui (Colossoma macropomum) (IBGE 2019b); Piranhas, município de caráter econômico
turístico, devido aos passeios aos cânions do rio São Francisco; Igreja Nova, que tem como
destaque econômico o setor agropecuário, sendo grande produtor de arroz e criador de camarão
Graduanda em Zootecnia, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas –
Laboratório de Aquicultura.
57
Mestre em Zootecnia, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas –
Laboratório de Aquicultura.
58
Graduanda em Zootecnia, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas –
Laboratório de Aquicultura.
59
Graduando em Zootecnia, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas –
Laboratório de Aquicultura.
60
Graduanda em Zootecnia, Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas –
Laboratório de Aquicultura.
61
Pesquisador Instituto Espanhol de Oceanografia (Vigo).
62
Professor do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas – Laboratório de
Aquicultura.
63
Professora do Campus de Engenharias e Ciências Agrárias, Universidade Federal de Alagoas – Laboratório
de Aquicultura.
56

(IBGE 2017) e Piaçabuçu, que é a última cidade percorrida pelo rio, no lado alagoano, e é
um importante polo pesqueiro de camarão (IBGE 2019b).
No lado sergipano, destacam-se os municípios de Propriá, pela grande produção de
banana e manga e pela produção de alevinos de tambaqui (Colossoma macropomum) e tilápia
(Oreochromis niloticus) e o município de Brejo Grande, que tem grande relevância econômica
para o Estado, sendo grande produtor de arroz, manga, camarão, peixes e bovinos (IBGE
2019a; IBGE 2019b).
Segundo Rashed (2001), o ambiente aquático está corriqueiramente susceptível a um
grande número de rejeitos tóxicos, que são lançados nele diariamente. Efluentes industriais,
resquícios de drenagens agrícolas, lixos químicos e esgotos domésticos são lançados em rios
e prejudicam a qualidade desse ambiente.
O peixe, como integrante do ecossistema aquático, é considerado excelente indicador
das condições ambientais, podendo refletir os distúrbios do ambiente em diversas escalas,
devido ao seu estilo de vida, características de nado e por ser um organismo que ocupa
vários níveis na cadeia alimentar. Quando comparados com outros tipos de animais, como
os invertebrados, os peixes geralmente fornecem uma quantidade elevada de informações,
além de serem animais de fácil captura e identificação (FREITAS; SOUZA, 2009). Os
peixes ainda podem acumular e concentrar substâncias tóxicas, a partir de sedimentos, plantas
aquáticas e da própria água do rio (RASHED, 2001).
Segundo Cajaraville et al. (2000), o monitoramento por meio de biomarcadores e
bioindicadores pode sugerir, antecipadamente, se os organismos aquáticos estão expostos
a poluentes e sua resposta a tais poluentes, para que estratégias de biorremediação possam
ser desenvolvidas. Os bioindicadores e os biomarcadores (genéticos e bioquímicos) são
ferramentas eficientes para avaliar a saúde do Baixo São Francisco, bem como dos diversos
organismos que o habitam. Estes possibilitam conhecermos os impactos e as consequências
das atividades antropogênicas exercidas em sua margem ou próximas a ela, pois fornecem
dados seguros sobre as condições atuais dos corpos d’água (CAJARAVILLE et al., 2000).
Frontalini e Coccioni (2011) descrevem indicadores biológicos ou bioindicadores
como organismos que podem responder efetivamente à presença de poluentes, auxiliando
na identificação e fornecendo dados sobre as condições ambientais. Para serem classificados
como um indicador biológico, os organismos vivos devem satisfazer certas características,
como uma ampla distribuição geográfica, ser taxonomicamente sólidos e ser numéricos no
ambiente (ROSENBERG; WIENS, 1976).
Já os biomarcadores são definidos como alterações bioquímicas, celulares, moleculares
ou mudanças fisiológicas nas células, fluidos corpóreos, tecidos ou órgãos de um organismo,
que podem ser evidências de exposições e efeitos de xenobióticos (LAM; GRAY, 2003). Os
biomarcadores devem fornecer uma análise dos efeitos dos estressores ambientais, incluindo
a medição de reações biológicas, além de fornecer informações sobre seu mecanismo de
ação. Aitio e Kallio (1999) ressaltam que a observação desses efeitos pode indicar um sinal
preliminar de alerta.
Os poluentes que atingem o ambiente aquático exercem vários efeitos negativos nos
animais destes ecossistemas. Dentre os problemas, está o estresse oxidativo, definido por Nishida
(2011) como um desequilíbrio na produção de espécies reativas de Oxigênio (ERO), além da
capacidade que o organismo tem de se defender desses oxidantes. Quando esse desequilíbrio
acontece, moléculas oxidativamente modificadas acumulam-se no compartimento celular,

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

197

causando disfunções celulares (NISHIDA, 2011). A oxidação é uma parte essencial da vida
e do metabolismo aeróbico; dessa forma, os radicais livres são produzidos naturalmente ou
devido a certas alterações biológicas (BARREIROS et al., 2006).
Em se tratando de biomarcadores bioquímicos, existe o sistema antioxidante, com
enzimas e outros compostos que podem ser utilizados como indicadores de estresse oxidativo,
termo que define o desequilíbrio entre moléculas oxidantes e antioxidantes e que pode causar
danos celulares (MAIA; BICUDO, 2009). A atividade que as enzimas antioxidantes exercem
em defesa dos organismos contra as espécies reativas do Oxigênio (EROs) é de extrema
importância na desintoxicação de radicais livres, transformando os mesmos em moléculas
não reativas (VAN DER OOST et al., 2003).
A enzima Superóxido Dismutase (SOD) atua como uma importante defesa
antioxidante, neutralizando as EROs, pois catalisa a destruição do radical ânion Superóxido
(O2-), convertendo-o em oxigênio (O2) e peróxido de hidrogênio (H2O2). A presença da
enzima SOD favorece essa dismutação, tornando a reação de primeira ordem, eliminando a
necessidade da colisão entre as moléculas (BARREIROS et al., 2006).
Enquanto a catalase (CAT), enzima antioxidante, encontrada principalmente em
grande concentração nos peroxissomos, executa duas funções essenciais: a decomposição
do peróxido de hidrogênio (H2O2), transformando-o em água e oxigênio molecular (H2O
+ O2), e a oxidação de compostos hidrogenados (metanol, etanol, ácido fórmico e fenóis)
(AEBI, 1984), a SOD e a CAT possuem papel importante dentro do sistema de defesa
antioxidante, visto que, através das suas ações, previnem a peroxidação lipídica (VAN DER
OOST et al., 2003).
O Malondialdeído (MDA), outro biomarcador bioquímico, é o resultado final do
processo de peroxidação lipídica. Através dele, pode-se obter o índice de peroxidação lipídica
de diversos organismos. Atualmente, vem sendo bastante utilizado, em conjunto com a
atividade das enzimas antioxidantes, em trabalhos sobre estresse oxidativo (VAN DER
OOST et al., 2003). Porém, em animais aquáticos, há pouca informação sobre o metabolismo
do MDA.
Quanto ao biomarcador do tipo genético, o teste do micronúcleo é uma importante
ferramenta usada para monitoramento da qualidade da água. É baseado no seguinte princípio:
durante a divisão celular, no estágio da anáfase, os micronúcleos são formados, nas células
parentais, por fragmentos de cromossomos ou cromossomos inteiros atrasados, que não se
movem para os polos da célula, não sendo integrados ao núcleo principal da célula-filha após
a mitose. Tem, como regra, um tamanho consideravelmente menor que o núcleo principal,
por isso é chamado de micronúcleo (SCHMID, 1975).
Durante as análises do teste do micronúcleo, alguns pesquisadores relataram
outros tipos de anormalidades nucleares. Para Fenech (2000), além da genotoxicidade e
da mutagenicidade, essas anormalidades também estão relacionadas a erros que ocorrem
durante os processos de mitose ou meiose (Figura 60). Carrasco et al. (1990) descreveram
essas anormalidades nucleares como: blebbed, lobed, micronuclei e notched (entre outras),
tendo como possíveis causas a genotoxicidade e ou a mutagenicidade dos poluentes. Para
Hooftman e Raat (1982), micronúcleo e as anormalidades do tipo blebbed, lobed e notched
são de origem genotóxica.

198

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 60 - Ilustração de anormalidades nucleares e suas definições.

Fonte: Emilly Valentim de Souza, baseado em Carrasco et al. (1990).

como:

Carrasco et al. (1990) categorizaram essas anormalidades nucleares descrevendo-as

- Binucleada: células apresentando dois núcleos de tamanhos similares;
- Blebbed: núcleo com uma pequena evaginação do envoltório nuclear, formando
uma bolha;
- Micronuclei: estrutura redonda, amendoada ou ovoide, com 1/5 a 1/20 do eritrócito,
com coloração consistente com a cromatina do núcleo principal e imagem não refratária;
- Notched: núcleo com uma pequena fenda (invaginação) no envelope nuclear;
- Lobed: núcleo com evaginação do envoltório nuclear maior que blebbed, apresentando
formato arredondado, como um lóbulo.
Portanto, em populações expostas a substâncias mutagênicas e cancerígenas, o teste de
micronúcleos e anomalias nucleares tornou-se o método mais comum para monitorar danos
genotóxicos. A frequência de micronúcleos observada em um momento específico pode ser
considerada uma resposta à atividade genotóxica e à sensibilidade do mecanismo biológico
do organismo testado (LANDOLT; KOCAN, 1983).
Assim, foram avaliadas a atividade das enzimas antioxidantes (SOD e CAT), a
peroxidação lipídica (MDA) e a frequência de anormalidades nucleares eritrocitárias, para
detectar o nível de estresse oxidativo e a mutação no material genético dos peixes coletados na
II Expedição do Baixo São Francisco, com o objetivo de avaliar a saúde dos peixes coletados,
bem como a qualidade da água do Baixo São Francisco.

Anormalidades nucleares eritrocitárias (ANE)

A genotoxicidade (dano ao DNA) é avaliada pela frequência de Anormalidades
Nucleares Eritrocitárias (ANE) (micronúcleo, célula binucleada, célula com núcleo tipo:
blebbed, lobed, notched) em esfregaços sanguíneos (CARRASCO et al., 1990). O teste de
micronúcleo e a frequência de anormalidades são técnicas utilizadas em diversos tipos celulares,
consideradas rápidas e simples (HAYASHI et al., 1998). Simples, sensíveis e confiáveis,
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

199

fornecem resultado imediato dos danos genéticos causados pela presença de agentes químicos
em um ambiente (POLLO et al., 2015). Dessa forma, tornam-se excelente ferramenta para
avaliar os possíveis danos ao material genético dos peixes do rio São Francisco.
As espécies capturadas na II expedição e utilizadas para as análises das Anormalidades
Nucleares Eritrocitárias (ANE) foram: Metynnis maculatus (pacu, n = 20), Schizodon knerii
(piau-de-vara, n = 14), Serrasalmus branditt (pirambeba, n = 11), Megaleporinus obtusidens
(piau-três-pintas, n = 7), Colossoma macropomum (tambaqui, n = 5), Cichla monoculus (tucunaré,
n = 4), Astronotus ocellatus (acará-boi, n = 3), Eugerres brasilianus (carapeba, n = 3), Pygocentrus
piraya (piranha verdadeira, n = 2), Prochilodus argenteus (curimatã-pacu, n = 1), Archosargus
probatocephalus (sargo, n = 1), Caranx latus (xáreu, n = 1), Hypostomus affinis (cascudo, n = 1)
e Tylosurus acus acus (peixe agulha, n = 1).

Anormalidades nucleares eritrocitárias (ANE) por local de coleta

Em todos os locais amostrados, foram observadas células com anormalidades nucleares
eritrocitárias (ANE), com exceção do município de Piaçabuçu. A maior frequência de células
micronucleadas foi registrada no município de Piranhas (0,703) (Figura 61), seguido por
Igreja Nova (0,571) e Porto Real do Colégio (0,555).
Os peixes coletados no município de Piranhas apresentaram a maior frequência de
células com núcleo do tipo notched, seguidos de Porto Real do Colégio. Essa anormalidade não
foi encontrada nas células dos peixes coletados em Piaçabuçu e Traipu. Nos peixes coletados
no munícipio de Piranhas, também foi observada uma maior frequência de células com núcleo
do tipo lobed, seguida, novamente, pelo município de Porto Real do Colégio, enquanto em
Igreja Nova e Piaçabuçu não foi observado este tipo de anormalidade (Tabela 33).
Figura 61 - Micronúcleos observados em eritrócitos de Pygocentrus piraya capturado no
município de Piranhas (1000x).

Fonte: Emilly Valentim (2020).

200

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Quanto à presença de anormalidades do tipo blebbed, o município de Porto Real
do Colégio apresentou maior frequência, seguido por Piranhas, enquanto em Igreja Nova
e Piaçabuçu as células analisadas não apresentaram tal anormalidade (Figura 62). Células
com núcleos do tipo binucleado foram encontradas em maior quantidade em Penedo, mas
não foram encontradas em Igreja Nova, Piaçabuçu e Traipu (Figura 62).
Figura 62 - Frequência média de Anormalidades Nucleares Eritrocitárias nos diferentes
pontos de coleta.

Fonte: Emilly Valetim e Themis Silva (2020).

Em relação à frequência média total de anormalidades, o município de Piranhas
apresentou uma maior quantidade de anormalidades (1,702), seguido de Porto Real do
Colégio (1,295). A anormalidade mais frequente encontrada foi o micronúcleo (Mn) com
média total igual a 2,352. O total de ANE nos munícipios foi de 4,887 (Tabela 33).
Com a presença de agentes químicos decorrentes do deságue de esgoto doméstico,
lixiviação de agrotóxicos e herbicidas, alterações ambientais de salinidade e temperatura,
pode ocorrer uma combinação de substâncias e reações que causam alterações na biota
aquática (AKAISHI et al., 2007). Tais alterações podem atingir o material genético das
células, comprometendo seu funcionamento. E, se persistente, tal dano pode ter um efeito
mais abrangente na espécie, atingindo tecidos e órgãos. Outra preocupação está relacionada
à reprodução das espécies e a danos ao material genético causados por poluentes, que podem
atingir gametas, diminuindo a taxa reprodutiva.
Em tucunarés (Cichla sp.), as respostas dos biomarcadores (frequência de micronúcleo
e outros) demonstram risco ecológico para os peixes coletados próximo às áreas agrícolas
(LIMA et al., 2018). Resultado semelhante ao de Azevedo et al. (2012), analisando o
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

201

bagre (Cathorops spixii), onde encontraram um maior número de ANE em locais com
maior atividade antropogênica, sugerindo presença de substâncias com efeito genotóxico.
Alguns autores sugerem que a indução das anormalidades nucleares pode ocorrer como
resposta a agentes genotóxicos (GUILHERME et al., 2008; MARQUES et al., 2009;
LIMA et al., 2018). É importante conhecermos os impactos causados ao ambiente aquático
e, consequentemente, aos peixes.
Tabela 33 - Frequência média (%) e desvio das anormalidades em seus respectivos pontos
de coleta.
Cidades/
Pontos

N

Binucleated
Bi

Blebbed
B

Micronúcleo
Mn

Lobed
L

Notched
N

Total
(Bi + B + Mn
+ L + N)

Piranhas

15

0,074 ± 0,137

0,222 ± 0,395

0,703 ± 0,834

0,333 ± 0,543

0,370 ± 0,549

1,702 ± 1,099

13

0,066 ± 0,124

0,066 ± 0,124

0,286 ± 0,449

0,066 ± 0,124

0,133 ± 0,231

0,617 ± 0,470

10

0

0,055 ± 0,105

0,166 ± 0,278

0,055 ± 0,104

0

0,276 ± 0,159

15

0,074 ± 0,137

0,296 ± 0,482

0,555 ± 0,740

0,222 ± 0,362

0,148 ± 0,263

1,295 ± 0,887

7

0

0

0,571 ± 0,734

0

0,071 ± 0,132

0,642 ± 0,612

9

0,142 ± 0,244

0,071 ± 0,133

0,071 ± 0,133

0

0,071 ± 0,133

0,355 ± 0,321

Pão de
Açúcar
Traipu
Porto R. do
Colégio
Igreja Nova
Penedo
Piaçabuçu

7

0

0

0

0

0

0

Total

76

0,356 ± 0,321

0,71 ± 0,554

2,352 ± 1,293

0,676 ± 0,338

0,793 ± 0,584

4,887 ± 1,448

Fonte: Emilly Valetim e Themis Silva (2020).

Anormalidades nucleares eritrocitárias (ANE) por espécie
As menores frequências de anormalidades foram observadas na curimatã-pacu (P.
argenteus), na pirambeba (S. branditt) e no piau-três-pintas (M. obtusidens) (Tabela 34).
A piranha verdadeira, P. piraya, apresentou uma maior frequência de anormalidades
(4,0), seguida pelo tucunaré, C. monoculus (1,75). Ambas as espécies apresentam hábito
alimentar carnívoro e encontram-se no topo da cadeia alimentar, estando, assim, expostas
à biomagnificação, semelhante ao encontrado por Porto et al., (2005), em que as espécies
piscívoras tiveram frequências médias de micronúcleo até cinco vezes maiores que espécies
onívoras e detritívoras. A espécie Cichla sp. (tucunaré) é considerada predadora, estando em alto
nível trófico na cadeia alimentar; logo, está sujeita ao processo de biomagnificação, além de não
realizar migração (LIMA et al., 2018). As espécies dos níveis tróficos superiores (carnívoros)
tendem a bioacumular níveis mais altos de poluentes em seus tecidos do que aqueles dos
níveis tróficos mais baixos (LACERDA et al., 2020), o que pode acarretar frequências mais
altas de anormalidades, como encontrado na piranha e no tucunaré deste estudo.
Associado ao hábito alimentar, o tucunaré é considerado territorialista (SOARES;
PEREIRA-FILHO; ROUBACH, 2007), o que faz com que ele fique por mais tempo em
um determinado local no rio, atuando como um bom bioindicador da região, enquanto a
piranha é considerada um pequeno migrador, não se deslocando por grandes percursos. Tais
hábitos migratórios, limitados, de ambas as espécies indicam um fator de maior exposição
aos compostos nocivos, que pode ter causado a maior presença das anormalidades.
Os peixes são considerados bons modelos para avaliar a qualidade dos corpos

202

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

hídricos, não apenas por sua capacidade de acumular substâncias tóxicas em seus tecidos,
mas por ocuparem diferentes posições na cadeia alimentar aquática, o que permite estudar a
incorporação de poluentes em diferentes níveis tróficos (LACERDA et al., 2020).
Tabela 34 - Frequência média das anormalidades nas espécies analisadas.
Espécie (comum/científico)

Pygocentrus piraya
Cichla monoculus

N

Média

4

1.75

2

4.00

Colossoma macropomum
Schizodon knerii
Prochilodus argenteus

5
14
2

1.600
1.357
1.00

Megaleporinus obtusidens

8

0.500

Metynnis maculatus

Serrasalmus brandtii

20
11

Agrupamento*

A
A

0.500
0.273

*Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Fonte: Emerson Soares (2020).

B
B
B
B
B
B
B

Estudos realizados ao longo dos últimos anos mostram uma maior frequência de
micronúcleos em peixes que estão em áreas próximas a plantações, com risco de contaminação
por agrotóxicos e pesticidas (KÖNEN; ÇAVAS et al., 2008; ÇAVAS, 2011) ou em locais com
outra atividade antropogênica (PORTO et al., 2005; MARQUES et al., 2009; AZEVEDO
et al., 2012).
Uma maior frequência de anormalidades nucleares foi encontrada em bagres
(Cathorops spixii), em locais com intensa atividade industrial (AZEVEDO et al., 2012).
Diversos estudos relatam que as anormalidades nucleares podem ser induzidas em resposta
à exposição a agentes genotóxicos (GUILHERME et al., 2008) associados à presença ou a
atividades antropogênicas que liberam diferentes compostos nos corpos hídricos.
Os resultados obtidos mostraram uma baixa frequência de anormalidades (4,887),
mas é de extrema importância como primeiro registro da genotoxicidade no Baixo São
Francisco. É importante salientar que, quando comparado com outros estudos, com diferentes
atividades antropogênicas impactando os corpos hídricos, este apresentou uma frequência
de micronúcleo (2,352) bem superior. Porto et al. observaram, no local com maior atividade
humana, uma frequência de Mn igual a 0,251, enquanto Azevedo et al. (2012) obtiveram
uma frequência de Mn de 0,20 e Lima et al. (2018), analisando Cichla sp., encontraram uma
baixa frequência de Mn – apenas 0,015.

Biomarcadores oxidativos da ictiofauna do baixo São Francisco
Espécimes e análises
Os peixes analisados foram coletados nos municípios de Piranhas-AL, Traipu-AL,
Porto Real do Colégio-AL, Igreja Nova-AL, Propriá-SE, Penedo-AL, Piaçabuçu-AL e
foz do rio São Francisco, entre os dias 18 e 27 de novembro de 2019. O estresse oxidativo
foi quantificado através da atividade das enzimas Superóxido Dismutase (SOD), catalase
(CAT) e da peroxidação lipídica através do malondialdeído (MDA) dos tecidos hepáticos e
branquiais, em 76 amostras das espécies listadas na Tabela 35.
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

203

Tabela 35 - Espécies coletadas na região do Baixo São Francisco para análises do estresse
oxidativo.

Fonte: Emilly Valetim e Themis Silva (2020).

A atividade da SOD nos tecidos foi mensurada em espectrofotômetro (190-1100 nm
do feixe (RBC) UV/Vis) baseado na habilidade desta enzima catalisar a reação do Superóxido
(O2-) e o Peróxido de Hidrogênio (H2O2) e, assim, diminuir a razão de auto-oxidação do
pirogalol. A atividade da catalase (CAT) foi mensurada segundo método descrito por Aebi
(1984) e os níveis de MDA foram mensurados conforme a metodologia descrita por Buege
e Aust (1978).
O resultado da análise de SOD, CAT e MDA mostrou aumento da atividade
enzimática nos exemplares coletados nos municípios de Piranhas, Porto Real do Colégio,
Igreja Nova e Penedo. Nestas regiões, também foram encontradas alterações histopatológicas
e um aumento na frequência de anormalidades nucleares eritrocitárias (ANE), além de
maiores índices de coliformes fecais.

Superóxido Dismutase (SOD)
Os maiores níveis de SOD no tecido hepático foram encontrados nos organismos
analisados de Porto Real do Colégio (P < 0,05) (Figura 60) (Tabela 36). O tecido hepático
é o principal órgão de desintoxicação de substâncias químicas, local de maior acúmulo de
poluentes e mais provável de danos, uma vez que os poluentes induzem toxicidade, causando
o estresse oxidativo decorrente do aumento de radicais livres de Oxigênio (SOLE et al., 2011).
Enquanto nas brânquias os maiores níveis de atividade foram encontrados em

204

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

organismos coletados em Traipu-AL (P < 0,05) (Tabela 36), os altos níveis de SOD nas
brânquias podem estar relacionados aos níveis de Fósforo e outros nutrientes, provavelmente
decorrentes de efluentes, visto que, nos pontos de coleta deste município, foram obtidos
valores mais elevados deste nutriente (0,02 mg/L e 0,03 mg/L) (Figura 63). De acordo
com Sedeño-Diaz (2013), a brânquia é o principal órgão afetado pelos poluentes, pois está
diretamente exposta aos contaminantes no ambiente aquático.
Tabela 36 - Médias da atividade antioxidante de SOD mensurada em fígado e brânquias de
peixes do Baixo São Francisco
Município

121.48

Igreja Nova

7

98.93

Pão de Açúcar

8
8

Traipu

10

Piranhas

12

Traipu

10

Porto Real

13

Igreja Nova

6

Piaçabuçu
Município
Penedo

Brânquia

Média

10

Penedo

Fígado

N

Porto Real

Pão de Açúcar
Piranhas

Piaçabuçu

8

104.70
97.98

90.96

8

107.6

5

A
A

113.9
98.52
96.7
87.3

76.67
71.00

B
B
B
B

94.55
Média

12

A

97.37

N

7

Agrupamento*

B
B

Agrupamento*
A
A

B

A

B

A
A
A

B
B
B
B

*Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Fonte: Emerson Soares (2020).

Figura 63 - Atividade de SOD (U SOD mg/tecido) mensuradas em fígado e brânquia
coletados em diversos pontos do Baixo São Francisco.

Fonte: Vivian Vasconcelos (2020).
* Acima das barras indicam diferenças significativas da média do grupo experimental (P < 0,05).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

205

O resultado da atividade da SOD é elevado quando existe exposição dos organismos a
metais pesados, herbicidas e pesticidas (FAROMBI et al., 2007; MODESTO; MARTINEZ,
2010). Silva et al. (2020), utilizando tecido muscular de 10 espécies de peixes do Baixo São
Francisco, com o intuito de determinar as concentrações de metais pesados, baseando-se
nos Limites Máximos de Tolerância (LMT), detectaram níveis médios de: Mercúrio (0,08
mg/kg ± 0,01 mg/kg), Zinco (6,01 mg/kg ± 0,42 mg/kg), Cobre (0,38 mg/kg ± 0,09 mg/
kg), Cromo (0,45 mg/kg ± 0,06 mg/kg), Ferro (9,64 mg/kg ± 0,81 mg/kg), Manganês (0,75
mg/kg ± 0,15 mg/kg) e do metaloide Arsênio (0,17 mg/kg ± 0,04 mg/kg). Mesmo que a
maioria destes encontrem-se na faixa dos limites toleráveis (LMT), podem influenciar no
estresse dos peixes. Ademais, a concentração de Cromo estava acima dos limites máximos
toleráveis (LMT), o que pode indicar fontes de contaminação no curso do rio, e os peixes,
uma vez expostos por tempo prolongado a estas, estão mais susceptíveis a danos oxidativos
nos tecidos (PANDEY et al., 2003; SAKURAGUI et al., 2013).

Catalase (CAT)
A atividade da CAT mensurada no fígado dos peixes foi maior no ponto de Piranhas
(P < 0,05) (Tabela 37) (Figura 64). Nesse mesmo ponto, observaram-se índices um pouco
mais elevados de metais, como Chumbo e Cromo.
Tabela 64 - Médias da atividade antioxidante de CAT mensurada em fígado de peixes do
Baixo São Francisco.
Piranhas

Município

Pão de Açúcar
Penedo

Porto Real/Propriá
Traipu

Piaçabuçu

Igreja Nova

N

Média

9

5.848

6

5.747

7

3.829

12
5
8
3

9.32

Agrupamento*

5.81

4.037
2.23

A
A

B

A

B

A

*Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes.
Fonte: Emerson Soares (2020).

Figura 64 - Atividade da CAT (µ Cat/ mg tecido) mensurada em fígado.

Fonte: Vivian Vasconcelos (2020).

206

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

B
B
B
B

Atividade de CAT no fígado e em tecidos de peixes de locais diferentes do Baixo São
Francisco, *acima da barra, indica diferenças significativas da média do grupo experimental
(p < 0,05).
Um estudo realizado por Batista et al. (2014), em três pontos distintos do rio Una,
utilizando biomarcadores de estresse oxidativo no tecido hepático da espécie Astyanax
bimaculatus, concluiu que, nos pontos de maiores contaminações, ocorreram mais atividades da
catalase, com valores próximos a 200% a mais, quando correlacionados aos peixes coletados em
pontos menos impactados. Dessa forma, podemos reforçar o estudo das enzimas antioxidantes
como biomarcadores eficientes na quantificação do estresse oxidativo.

Malondialdeído (MDA)
Para os resultados de MDA mensurados no fígado de peixes, foi observada maior
atividade em exemplares coletados em Piranhas (P < 0,05), e enquanto nas brânquias a
atividade da peroxidação lipídica foi maior nos peixes capturados em Igreja Nova (P < 0,05)
(Tabela 37).
Tabela 37 - Médias da peroxidação lipídica (MDA) mensurada em fígado e brânquias no
Baixo São Francisco.
Município
Piranhas

Fígado

12

Propriá

11

Piaçabuçu

8

Penedo

6

Traipu

10

Igreja Nova

6

Pão de Açúcar

9

Média
61.26

51.76

50.74
45.99

42.28

Agrupamento*
A
A

A
A

38.03

35.46

N

Média

Penedo

9

38.29

A

Pão de Açúcar

8

36.34

A

Piaçabuçu
Propriá

7

7
12

Piranhas

11

Igreja Nova

7

Traipu

8

38.61

37.78
30.62
29.61

19.56

38.61

B

B
B

B
B

Município
Igreja Nova

Brânquias

N

Agrupamento*

B

A

A
A
A
A

B
B

B

*Médias que não compartilham uma letra são significativamente diferentes
Fonte: Vivian Vasconcelos (2020).

Conforme demonstrado na Figura 65, as amostras dos municípios de Igreja Nova,
Penedo, Piaçabuçu e Pão de Açúcar apresentaram maiores atividades de MDA no tecido
branquial. Vale destacar que esses mesmos pontos apresentaram níveis mais altos de sulfato,
nitrito, Sódio, Manganês e potássio (SILVA et al., 2020).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

207

Figura 65 - Atividade de MDA (µ mol/ mg tecido) mensurada em fígado de peixes da
região do Baixo São Francisco.

Fonte: Vivian Vasconcelos (2020).

Devido terem sido coletadas maiores quantidades de exemplares de hábito carnívoro
na região de Piranhas, esses organismos podem ter influenciado nos maiores valores de
MDA, uma vez que peixes no topo da cadeia alimentar têm maior propensão de bioacumular
substâncias em seus órgãos.
Amundsen et al. (2011) relatam que os rios são os principais alvos de contaminação,
pois são ambientes de recepção de poluentes. Essas substâncias podem ser transferidas para
os peixes através da cadeia trófica e, consequentemente, para os seres humanos com efeito
bioacumulador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dos locais analisados, pode-se destacar o município de Piranhas, que teve o maior
número de tipos de anormalidades e as maiores atividades de SOD, CAT e MDA. Assim, é
importante identificar e entender quais atividades antropogênicas estão impactando e atuando
como agentes mutagênicos naquela região. Seguindo a cidade de Piranhas, encontram-se os
municípios de Penedo, Porto Real do Colégio e Igreja Nova.
Devido ao consumo de peixes pela população ribeirinha do Baixo São Francisco, bem
como de outros locais, é importante conhecer as consequências do acúmulo de substâncias
tóxicas nos mesmos. Dentre as consequências, os danos que tais substâncias causam ao DNA,
que podem evoluir a efeitos carcinogênicos, e a interação dessas substâncias com a defesa
enzimática dos peixes.
Assim, para um melhor entendimento de como as diferentes atividades humanas
afetam as células, o material genético e a atividade enzimática dos peixes do Baixo São
Francisco e, consequentemente, o ambiente aquático, faz-se necessárias coletas mais frequentes,
bem como aumentar o número de indivíduos de algumas espécies.
Conclui-se que os bioindicadores utilizados são essenciais em estudos de
monitoramento ambiental, pois fornecem inúmeras informações dos impactos antrópicos
nos ambientes aquáticos, sendo importantes ferramentas para ações de conservação dos
ecossistemas aquáticos.

208

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

211

EVALUATION OF THE ACOUSTIC LANDSCAPE IN
THE REGION OF THE LOWER SÃO FRANCISCO
RIVER
Alfredo Borie-Mojica
SUMMARY
The soundscape of the Lower São Francisco river was evaluated using the passive
acoustic method, with underwater recordings between ~ 17:00 and 06:00 h in seven locations
between Piranhas and the river’s mouth, where different types of biological (biophonic)
and anthropogenic (anthrophonic) sounds were detected. The predominant sounds in these
localities, except at the river mouth, were characteristic of sounds emitted by shrimps, which
occurred mainly in the late afternoon and early morning. The mean values of high and low
frequencies were 8.4 ± 0.8 and 3.7 ± 0.3 kHz, respectively, and the central frequency was
5.5 ± 0.09 kHz. In addition to this type of sound, two other types of shrimp sounds were
identified in the Piaçabuçu region and estuary with a frequency band between 1 and 15 kHz,
reaching 40 kHz, and 0.5 and 10 kHz, respectively. In Piaçabuçu, the soundscape presented
characteristics similar to estuarine ecosystems. Sporadically, it was possible to detect fish
sounds with low frequencies (between 0.2 and 1.5 kHz), mainly in Piaçabuçu and the estuary.
In Piranhas, a type of sound similar to that found in species of the genus Prochilodus was
identified. Anthropogenic noises from different vessels with a wide frequency band (between
0.2 and 15 kHz) were also detected and could mask biological sounds. These results indicate
that passive acoustics can be used as a tool for monitoring biological and anthropic activities
and conditions in continental and estuarine waters.

212

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 12
AVALIAÇÃO DA PAISAGEM ACÚSTICA NA REGIÃO
DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Alfredo Borie-Mojica64
INTRODUÇÃO
Monitorar alterações dos ambientes e seus habitantes é uma necessidade crítica de
gestão e um desafio tecnológico considerável. Em muitos habitats marinhos, o monitoramento
a médio e longo prazos é uma tarefa desafiadora e, nesse sentido, a paisagem acústica pode ser
um meio eficaz para avaliar a atividade biológica e antrópica em locais onde o monitoramento
contínuo por métodos de pesquisa tradicionais é impraticável.
A paisagem acústica é o conjunto de sons de um determinado ambiente (FARINA et
al., 2011) e pode ser útil como um indicador confiável de tipo de habitat e, potencialmente,
transmitir informação de qualidade do habitat (LILLIS et al., 2014), sendo aplicada a qualquer
ecossistema, fornecendo informações valiosas sobre sinais acústicos naturais que ocorrem em
diversos ecossistemas (STAATERMAN et al., 2013). Para estudar a paisagem acústica e os
sons que a compõem, recentemente, vem sendo utilizado o método acústico passivo, que se
baseia em ouvir os sons produzidos por organismos sonoros, possibilitando a utilização dos
sons como verdadeiros marcadores naturais das espécies, uma vez que são espécie-específicos.
A acústica passiva também provê benefícios importantes para a investigação científica, já
que é uma ferramenta observacional não invasiva e não destrutiva, com uma capacidade de
monitoramento remoto permanente ou de longa duração, e fornece importantes informações
sobre padrões diários e sazonais (ROUNTREE et al., 2006). Estudos utilizando a acústica
passiva vêm permitindo avaliar a paisagem acústica subaquática em diversos ecossistemas,
principalmente marinhos, como o de águas profundas (WALL et al., 2014), costeiros
temperadas (RADFORD et al., 2008; 2010; BUTLER et al., 2016) e tropicais, incluindo
recifes de corais (BERTUCCI et al., 2015; STAATERMAN et al., 2013).
Diversos organismos aquáticos são capazes de emitir sons para a comunicação,
associados a diferentes tipos de comportamentos (TYACK, 1998). O conjunto destes sons
permite definir a paisagem acústica de vários ambientes, indicando o grau de diversidade de
espécies e o estado de conservação do ambiente, além de ser útil para avaliar a distribuição
dos organismos (PIJANOWSKI et al., 2011; FARINA; PIERETTI, 2012). Em ambientes
marinhos, predominam os sons biológicos (biofônicos) produzidos por diversas espécies de
mamíferos aquáticos ( JANIK et al., 2005), peixes (AMORIM et al., 2006; KAATZ, 2010),
crustáceos (BOON et al., 2009), equinodermos (RADFORD et al., 2008) e moluscos (LILIS
et al., 2016). Dentre eles, os sons dos peixes (mais de 800 espécies) estão chamando a atenção
devido à sua relação com diversos comportamentos, como reprodução (cortejo e desova) e
alimentação (TRICAS; BOYD, 2014; LADICH, 2014). Alguns peixes sonoros podem
64

Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Unidade Acadêmica Penedo. E-mail: alfredo.mojica@penedo.ufal.br.

formar agregações e produzir grandes eventos, do tipo coros. Investigar o comportamento dos
peixes é especialmente difícil, porque eles raramente podem ser vistos e contados. Neste caso,
um dos maiores desafios para o estudo das populações de peixes é a capacidade de coletar
dados sobre grandes escalas espaciais e temporais, sem se intrometer nas vidas destes animais.
O monitoramento acústico subaquático apresenta uma abordagem viável, não invasiva
e amplamente inexplorada para monitorar ecossistemas de água doce, fornecendo informações
sobre os três principais elementos ecológicos dos ambientes aquáticos – (1) peixes, (2)
macroinvertebrados e (3) processos físico-químicos –, bem como fornece dados sobre os
níveis de ruído antropogênico (LINKE et al., 2018). A importância ecológica da paisagem
acústica em água doce está apenas começando a ser reconhecida pela sociedade. Os cientistas
estão começando a aplicar os métodos de Monitoramento Acústico Passivo (MAP), bem
estabelecidos nos sistemas marinhos, aos sistemas de água doce, para mapear padrões espaciais
e temporais de comportamentos associados aos sons biológicos, bem como os impactos do
ruído sobre eles (ROUNTREE et al., 2019). Sabe-se que, em águas continentais, peixes de
importância comercial das famílias Prochilodontidae, Curimatidae e Sciaenidae emitem sons
durante o período reprodutivo (BORIE et al., 2014; 2019). Além dos peixes, crustáceos,
principalmente o camarão, são um componente importante da paisagem acústica aquática.
O Baixo rio São Francisco vem enfrentando problemas ambientais, com fortes
consequências sociais e econômicas (SOUZA; LEITÃO, 2000), causadas por diversos fatores,
dentre eles: diminuição do seu volume e velocidade, contaminação e sobrepesca (MARTIN
et al., 2011; ZELLHUBER et al., 2016), afetando a biodiversidade de peixes (GOMES;
BRITO, 2017; SOARES et al., 2020) e crustáceos (MONTENEGRO et al., 2001), a sua
distribuição e a atividade pesqueira com a diminuição e até a extinção de algumas espécies
comerciais.
No Brasil, pesquisas da passagem acústica utilizando a ferramenta acústica passiva
em águas continentais são recentes e escassas. Assim, o objetivo deste trabalho pioneiro foi
utilizar a acústica passiva para avaliar a paisagem acústica e a produção de sons biológicos e
antrópicos na região do Baixo São Francisco.
Lacunas de conhecimento, incluindo ruído de fundo, variação espaço-temporal e
a necessidade de repositórios de coleta de referência: esses desafios precisam ser superados
antes que todo o potencial da acústica passiva na detecção dinâmica de processos biofísicos
possa ser realizado e usado para informar profissionais e gestores da conservação.

Materiais e métodos
Na II Expedição Científica do Baixo São Francisco, realizada entre os dias 18 e 26
de novembro de 2019, foram feitas gravações subaquáticas para avaliar a paisagem acústica
nas localidades de Piranhas (9°37’37”S, 37°45’10”O), Pão de Açúcar (9°45’0”S, 37°26’55”O),
Traipu (9°58’38”S, 36°59’51”O), Porto Real do Colégio (10°12’28”S, 36°49’33”O), Penedo
(10°17’29”S, 36°35’20”O) e Piaçabuçu (10°24’27”S, 36°26’9”O), pertencentes ao Estado de
alagoas, incluindo gravação na foz do rio São Francisco (10°28’48”S, 36°24’22”O).
A paisagem acústica foi avaliada utilizando um gravador subaquático do modelo
SoundTrap (ST) 300 (Ocean Instrument, New Zealand). O STD é destinado para uso
geral de medições de ruído aquáticos, com uma gama de 20 Hz a 60 kHz, com frequência
de amostragem 48 kHz, 16 bits. Este sistema permitiu avaliar os padrões sonoros biológicos
e antrópicos sazonais e temporais, juntamente com as temperaturas que ocorrem nos locais

214

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

durante o período de estudo. O ST foi fixado a um cabo de polietileno e ancorado a uma
poita de cimento e foram utilizadas boias para a armação do equipamento no fundo.
O tipo de substrato de fundo em Piranhas e Pão de Açúcar: fundo de pedra; Traipu:
fundo de areia (2m), com macrófitas fanerógamas. Em Penedo, foi instalado em fundo de
areia próximo à ilha em frente à rampa da balsa e em Piaçabuçu, próximo ao porto. Na foz
do rio São Francisco, foi realizada uma deriva por 25 minutos na embarcação com motor
desligado. As gravações ocorreram em áreas de com profundidades de 1 a 6 metros e foram
realizadas do final da tarde até o início da manhã do dia seguinte (entre as 17h00 e 06h30),
devido à maior ocorrência de sinais acústicos nesse horário.
Após o recolhimento do hidrofone (ST) em cada ponto, os dados foram descarregados
em um computador portátil, onde foi feita uma avaliação utilizando o programa de áudio
Audacity® (www.audacityteam.org), e foi determinado o tempo inicial e final de cada evento
sonoro passível de ser ouvido, assim como a alta e baixa frequências e a frequência central
(frequência de maior energia).
O programa Raven Pro 1.6 (Cornell Lab) foi utilizado para avaliar os tipos de sons
detectados onde formam-se efetuados cortes de diferentes comprimentos (duração) nas
gravações para serem gerados oscilogramas, espectrogramas e espectros de potência.

Resultados e discussão
Durante a II Expedição Científica na Região do Baixo São Francisco, realizada no
mês de novembro de 2019, foram detectados diferentes tipos de sons que fizeram parte da
paisagem acústica da região, principalmente característicos de camarões em todos os locais
de coleta, entre o município de Piranhas e a foz, localizada no município de Piaçabuçu. Nas
localidades do Baixo São Francisco, os valores médios das altas e baixas frequências foram
de 8.432 Hz ± 809 Hz e 3.706 Hz ± 372 Hz, respectivamente, e frequência central de
5.569 ± 95 Hz (Figura 66). Além deste tipo de som, na região de Piaçabuçu e na foz, foram
identificados outros dois tipos de sons de camarões, com banda de frequência entre 1 Hz
a 15 kHz, podendo chegar a 40 kHz e 0,5 Hz e 10 kHz, respectivamente (Figura 67). No
início da gravação, nessas localidades, também foi possível detectar sons característicos de
peixes com pico de frequência de ~500 Hz e 1700 Hz (Figuras 68 e 69).
Em água doce, os sons biológicos utilizaram frequências que variavam de 3 kHz a cerca
de 14 kHz (GILES et al., 2005), de camarões do gênero Alpheus, que produz sons de estalos
com uma ampla faixa de frequências entre ~ 1 e 15 kHz (SCHMITZ, 2002; COQUEREAU
et al., 2016). O estalo do camarão da família Alpheidae produz o principal componente acústico,
com frequências acima de 2 kHz e com intensidades mais altas no início e no final da noite
no ambiente marinho (LAMMERS; MUNGER, 2016). Esse tipo de comportamento parece
ocorrer também em camarões de água doce no Baixo rio São Francisco. Em mergulhos
livres feitos em áreas de pedras na região de Pão de Açúcar, foram observadas as espécies de
camarão-pitu (Macrobrachuium carcinus) e sapateria (Macrobrachuium Olfersii). Resultados
preliminares mostram a produção de sons do camarão-canela (Macrobrachium acanthurus)
durante atividade alimentar em condições controladas, com características acústicas similares
às encontradas no ambiente natural (BORIE et al., NO PRELO).
O camarão-canela é um animal encontrado na bacia do rio São Francisco, com
relevante interesse comercial, devido ao porte e à boa aceitação no mercado (NEW, 1995).
Segundo Coelho e Lima (2003), a M. acanthurus é uma das espécies mais abundantes no rio
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

215

São Francisco, mas sua exploração ainda se baseia na pesca artesanal, praticada por ribeirinhos
e servindo para fins de subsistência dessas comunidades. Seleções de 2,1 segundos das horas
de maior energia acústica dos sons característicos de camarão detectados entre Piranhas e
Piaçabuçu mostram um perfil espectral similar, sendo o som produzido muito provavelmente
pela mesma espécie, como maior energia acústica na região de Porto Real do Colégio. Em
Piaçabuçu, foi observada uma sobreposição de som, sendo também identificados estalos de
camarões (Figura 72).
Nesse sentido, a paisagem acústica, em diversos ecossistemas acústicos, torna-se mais
complexa no período noturno (RUPPÉ et al., 2015; VAN OOSTEROM et al., 2016; RICE
et al., 2017). A produção de sons dos camarões ocorre principalmente à noite e também revela
picos crepusculares (SCHMITZ, 2002). Na região do Baixo São Francisco, os sons foram
emitidos principalmente durante o início da noite (18h00) e o início do amanhecer (05h30),
com duração média (tempo total) de 10 horas e 40 minutos, exceto na localidade de Piaçabuçu,
sendo detectado apenas no início da manhã. Em Traipu, os sons não foram contínuos durante
a noite, ocorrendo apenas no início da tarde e pela manhã (Tabela 38). Camarões apresentam
hábitos crípticos, com intensa atividade ao entardecer e no início da noite, permanecendo,
durante o dia, em abrigos formados por pedras, buracos ou entre as vegetações submersas
(MOSSOLIN; BUENO, 2003). Pescadores indicam que o horário de maiores capturas do
camarão-pitu (Machrobraquium carcinus) e do camarão-canela (Macrobrachium acanthurus)
ocorre durante o início e o final da noite.
Piaçabuçu, localizada a 10 km da foz do rio São Francisco, apresentou uma paisagem
acústica composta por sons biológicos característicos de ecossistemas estuarinos, similares
aos encontrados no estuário do rio Maracaípe-PE (BORIE et al., NO PRELO). Isso
provavelmente ocorre devido à introdução da cunha salina marina, já que, ao longo dos anos,
houve uma redução relevante da vazão do rio, que vem mudando o ambiente e a biodiversidade
aquática da região. Durante o final de tarde, na foz, foi possível detectar uma cacofonia similar
à encontrada em Piaçabuçu, apresentando maior densidade sonora e energia acústica.
Foi possível avaliar a ocorrência de sons provavelmente produzidos por peixes, pelas
características acústicas. Na região de Piranhas, foi possível identificar um tipo de som similar
aos sons (chamados) relacionados com comportamentos reprodutivos encontrados em peixes
do gênero Prochilodus, de importância comercial (BORIE et al., 2019; SMITH et al., 2018;
GODINHO et al., 2017), com banda de frequência entre 200 Hz e 500 Hz e vários pulsos
com variação de energia, sendo o primeiro emitido com baixa energia antes do chamado
principal (Figura 73). Segundo Barbosa e Soares (2009), na bacia do São Francisco existem
cinco espécies do gênero Prochilodus, sendo duas introduzidas (P. brevis e P. lineatus), duas
endêmicas (P. argenteus e P. costatus) e uma nativa (P. vimboides). Destas, P. argenteus é
considerada de grande valor, por constituir-se como item alimentar e fonte de renda de
comunidades de pescadores do Baixo São Francisco, ainda sendo possível ser encontrada nas
feiras, principalmente na região de Piranhas e de Pão de Açúcar.
Ambientes estuarinos apresentaram níveis de pressão sonora significativamente mais
altos na faixa de frequência de 2-23 kHz e diferenças espectrais entre habitats. Pesquisas de
propagação sonora passivas descobriram que as características acústicas distintas na faixa de
frequência de 2-23 kHz, com níveis de fonte efetivos de 108,8 a 120,0 dB re 1 µPa @ 1 me.
Estudos de caracterização da paisagem sonora sugerem que a heterogeneidade espacial no
som ambiente pode servir como um indicador confiável do tipo de habitat e, potencialmente,

216

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

transmitir informações sobre a qualidade do habitat a organismos dispersantes (LILLIS et
al., 2014).
Foram detectados, com maiores ocorrências, sons antropogênicos de embarcações
na região de Penedo, principalmente da balsa (Figura 68) que faz a travessia Penedo-AL/
Neópolis-SE, caracterizada por picos de alta frequência e intervalos de tempos similares.
Também foram detectados sons de pequenas embarcações pesqueiras, do tipo canoa
motorizada, e de turismo que utilizam motor de popa, no caso de Piranhas, com frequências
entre 0,2 kHz e 15 kHz (Figura 74). Esses sons ocorreram, principalmente, no início da
manhã, sobrepondo os sons emitidos pelos crustáceos, em uma sobreposição das embarcações
pesqueiras durante os horários de maior energia acústica. Assim, pode ocorrer um declínio
significativo na biodiversidade e na biofonia, com o aumento dos níveis de som ambiente
dos ecossistemas de água doce, juntamente com uma aparente alta exposição temporal ao
ruído antropogênico em todos os habitats (ROUNTREE et al., 2019).
Assim como foi possível encontrar uma diversa cacofonia de sons biológicos e
antrópicos no Baixo rio São Francisco, isso parece ser um componente importante em sistemas
de água doce em diversas regiões; habitats de água doce, em regiões temperadas, contêm
uma grande variedade de espécies biológicas não identificadas. Sons de peixes constituem
um importante elemento não reconhecido anteriormente como componente da paisagem
sonora de água doce, ocorrendo em mais locais (39%). Ruídos antropogênicos dominam a
paisagem sonora, representando 92% da paisagem sonora em porcentagem relativa de tempo.
O alto potencial de impactos negativos desses ruídos nas paisagens sonoras de água doce é
sugerido pela sobreposição espectral e temporal com a biofonia, quanto maiores níveis de
ruídos em relação à biofonia com observações de um declínio significativo em ocorrência,
número, porcentagem de tempo e diversidade da biofonia entre locais com níveis ambientais
mais altos (ROUNTREE et al., 2019).
Estudos em riachos indicam uma paisagem sonora única, com a maioria exibindo
variação diurna nos padrões acústicos. Nesses locais, foram identificados cinco grupos distintos
com características acústicas semelhantes. A maior diferença nas paisagens sonoras do fluxo
foi observada durante o dia, com variação significativa nas paisagens sonoras, tanto entre as
horas como entre os locais (DECKER et al., 2020).
As paisagens sonoras estuarinas são acusticamente ricas e os padrões sonoros desses
sistemas são pouco estudados. Os dados acústicos revelaram que os níveis de pressão sonora
(banda larga, baixa e alta frequência) variavam espacial e temporalmente, exibindo padrões
rítmicos distintos. As taxas de detecção acústica e a diversidade de sons biofônicos (por
exemplo, camarão, peixe e golfinho) e sons antrofônicos (por exemplo, barulho de barco)
foram maiores perto da foz do rio e diminuíram em direção às cabeceiras. A paisagem sonora
exibia fortes padrões temporais de estalos de camarão (gêneros Alpheus e Synalpheus), cantos
e cantos de peixes, vocalizações de golfinhos e ruído de embarcação. Dependendo da espécie,
determinadas variáveis (ou seja, localização, mês, duração do dia, fase lunar, dia/noite, maré
e anomalia de temperatura) influenciaram a produção sonora (MONCZAK et al., 2019).
A análise da energia acústica revelou um forte ritmo circadiano em uma lagoa costeira
do sul do Brasil e uma diferenciação espacial impulsionada pela baixa frequência (< 100 Hz).
O componente biofônico da paisagem sonora foi dominado por peixes e crustáceos com maior
atividade na foz da lagoa durante novembro. Esta área também foi a mais afetada pelo ruído
humano (CERAULO et al., 2020).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

217

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A paisagem acústica no Baixo São Francisco foi composta, principalmente, por sons
característicos de crustáceos bentônicos de pelos menos três espécies diferentes, além de sons
esporádicos de peixes e ruídos antrofônicos emitidos por diferentes tipos de embarcações. Na
área de Piaçabuçu, a cacofonia teve similaridade com ambientes estuarinos, sendo detectadas
uma maior complexidade sonora e uma paisagem acústica contendo diversas fontes biológicas.
Apesar do pouco conhecimento que se tem sobre componentes biológicos de paisagens
acústicas de água doce em regiões tropicais, esforços sistemáticos para identificar e catalogar
sons de peixes e invertebrados são criticamente necessários para promover o Monitoramento
Acústico Passivo (MAP), para suas aplicações de conservação, manejo de ecossistemas e pesca.
O método acústico passivo mostrou-se bastante eficiente para avaliar a paisagem acústica na
região do Baixo São Francisco, podendo ser utilizado como uma ferramenta complementar
para o monitoramento de atividades biológicas e antrópicas, e também para avaliar o tipo e
a qualidade do ambiente.
Figura 66 - Locais de gravação acústica subaquática na região do Baixo São Francisco.

Fonte: Jhennipher S. Pereiria, 2020

218

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 67 - Sistema de gravação, hidrofone SoundTrap 300, boia e ancoragem.

Fonte: Foto e desenho de Alfredo Borie-Mojica (2020).

Figura 68 - Espectrogramas da paisagem acústica em localidades do Baixo rio São Francisco
(de Piranhas à foz). AF, Alta Frequência (Hz); BF, Baixa Frequência (Hz).

Fonte: Alfredo Borie-Mojica (2020).

Tabela 38 - Horário de detecção (hh:mm) e frequências (Hz) dos sons de estalos
característicos de invertebrados bentônicos nas diferentes localidades, exceto
Traipu e foz.
Localidades

Hora
início

Hora
fim

Tempo
total

Piranhas

18:06

06:19

10:43

Pão de Açúcar

17:52

05:47

10:57

Alta
Frequência
(Hz)

Baixa
Frequência
(Hz)

Frequência
Central (Hz)

9335

3157

5429

7634

4060

5568

Porto Real do Colégio

17:45

05:19

11:08

9277

3495

5694

Piaçabuçu

03:09

04:39

01:30

7965

3877

5557

Penedo

18:15

05:36

09:51

7951

3939

5596

Fonte: Alfredo Borie-Mojica (2020).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

219

Figura 69 - Espectrogramas e espectros de potência de 2,1 segundos de sons característicos
de camarões nas diferentes localidades.

Fonte: Alfredo Borie-Mojica (2020).

220

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 70 - Pulsos acústicos, oscilograma e espectrograma, respectivamente, de um tipo de
som característico de peixes.

Fonte: Alfredo Borie-Mojica (2020).

Figura 71 - Espectrograma e espectro de potência da região de Piaçabuçu (x) cliques de
camarão e sons característicos de peixes (* e seta).

Fonte: Alfredo Borie-Mojica (2020).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

221

Figura 72 - Espectrograma e espectro de potência da região da foz. A seta indica a ocorrência
de sons emitidos por peixes e (+) estalos de camarões.

Fonte: Alfredo Borie-Mojica (2020).

Figura 73 - Oscilograma, espectrograma e espectro de potência, respectivamente, de dois
tipos de sons de camarão detectados na região de a. Piaçabuçu e b. Foz do rio
São Francisco.

Fonte: Alfredo Borie-Mojica (2020).

222

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 74 - Espectrograma e espectro de potência de embarcações detectadas na região de
Piranhas.

Fonte: Alfredo Borie-Mojica (2020).

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

225

CURRENT SITUATION OF FISHERIES IN THE
LOWER SAN FRANCISCO: A PROSPECTIVE
ANALYSIS
Vanildo Souza de Oliveira

Igor da Mata-Oliveira

SUMMARY
The study’s objective was to analyze the environmental and fishing situation of the
Lower São Francisco region. The identification of environmental impacts, both natural
and anthropic, on the river was made from photographic records and observations during
navigation along the region. Subsequently, the sources of alterations identified in the river
were analyzed regarding their possible impacts on fishing. A fishing survey using gillnets was
performed to determine catch composition and identify possible changes. Environmental
impacts damaging to fishing were identified: dumping of untreated sewage, high proliferation
of macrophytes, silting, water extraction from the river, use of pesticides, and activities such as
irrigation, livestock, and aquaculture. Without control or supervision, these activities lead to
the loss of fishing areas, impair river flow, and the capacity to support the environment and
fishing resources. Fishing hauls were carried out in traditional spots, from Piranhas to the river
mouth. Pirambeba (Serrasalmus brandtii), pacu (Metynnis maculatus), piau (Anostomidae),
and tucunaré (Cichla monoculus)were the most abundant species. Pirambeba occurred mostly
in the highest stretch, between Piranhas and Pão de Açúcar; however, the species does not
have a great commercial value. The capture of the pacu occurred between Pão de Açúcar
and Penedo, with the highest peak in Propriá. The species also has no great economic value
but is appreciated by the local population. Piaus remain an essential fishing resource in the
region, with good acceptance and commercial value. Its abundance was more significant in
the cities closest to the Xingó dam in Piranhas, declining sharply towards the estuary. The
presence of exotic species, especially of tucunaré, has been highlighted and needs a followup. The need to monitor and manage the river, fishing, other activities, and impacts on its
banks is notorious for monitoring and evaluating possible ecological and fisheries changes.

226

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 13
SITUAÇÃO ATUAL DA PESCA NO BAIXO SÃO
FRANCISCO: UMA ANÁLISE PROSPECTIVA
Vanildo Souza de Oliveira65
Igor da Mata-Oliveira66

INTRODUÇÃO
O processo de ocupação e de crescimento das cidades e das atividades econômicas da
região do Baixo São Francisco tem exercido uma pressão que, sem planejamento, infraestrutura
e gestão, dá sinais graves de comprometimento da condição do rio e de seus recursos.
Atualmente, estima-se que cerca de 450.000 pessoas habitam os 22 municípios ribeirinhos
do Baixo São Francisco (NASCIMENTO, 2013). Rezende e Oliveira (2015) estimaram
entre 16.500 e 19.000 pescadores no BSF, representando cerca de 4% da população total.
A pesca artesanal nas suas águas, considerada fonte de alimento e sustento para as
populações locais, tem sofrido intenso declínio nas últimas décadas. Apesar da ausência de
estatística pesqueira consistente, a pesca no rio São Francisco mostra sinais evidentes de queda
(GODINHO; GODINHO, 2003). Se, antes, a bacia do São Francisco era uma importante
fonte de pescado para o Nordeste e outras regiões do Brasil, hoje, amarga um grave processo
de extinção de parte significativa de sua ictiofauna, como o surubim e o pirá.
Várias e múltiplas são as pressões econômicas, ecológicas e culturais a que esta
atividade está submetida, o que tem afetado enormemente a sua manutenção (ANA, 2007). O
Baixo São Francisco vem sofrendo com a interrupção das variações naturais do nível d’água e
do comportamento migratório dos peixes, promovidas por hidroelétricas que criaram barreiras
e alteraram o sistema hídrico do rio, influenciando na “piracema” (SATO; GODINHO,
2003). A pesca está em franca decadência por várias razões: a poluição oriunda dos esgotos
domésticos e de atividades agrícolas; o desmatamento, com consequente assoreamento; os
barramentos e a incompatibilidade entre a operação das barragens e as necessidades ecológicas,
entre outras. Ações antrópicas de cunho não sustentável prejudicam e alteram, de forma
negativa, os territórios de trabalho dos pescadores artesanais (LIMA, 2020). Além disso, a
falta de gestão contribui com um contínuo e acelerado processo de degradação ambiental.
No entanto, para que qualquer ação de gestão possa ser implementada, faz-se
necessário, inicialmente, avaliar a situação atual, bem como os possíveis impactos ambientais
com prejuízos à atividade. Nesse sentido, a II Expedição Científica no Baixo São Francisco
teve o objetivo de realizar uma prospecção ecológica e pesqueira pela região, que permitisse
identificar os possíveis impactos, analisar a situação atual e, diante disso, propor algumas
ações necessárias à manutenção da tradicional atividade pesqueira na região.
Laboratório de Pesca Sustentável (Lapesu), Departamento de Pesca e Aquicultura (Depaq), Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
66
Laboratório de Investigação e Manejo da Pesca (Imap), Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Unidade
Penedo.
65

PROSPECÇÃO E OBTENÇÃO DE DADOS
As informações do presente trabalho foram obtidas entre os dias 18 e 27 de novembro
de 2019, durante a II Expedição Científica do Baixo São Francisco. Na oportunidade, foram
realizadas prospecção ambiental e pesqueira.
A embarcação da Expedição fez o percurso inicial, da cidade de Penedo até a cidade
de Piranhas, retornando para a foz do o rio realizando coletas nas seguintes cidades: Piranhas,
Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Propriá, povoado de Chinaré, em Igreja Nova,
Penedo, Piaçabuçu e na foz.
Impactos ambientais, tanto naturais quanto antrópicos, sobre rio foram feitos a partir
de observações e registros fotográficos durante as viagens de deslocamento entre municípios.
Em seguida, as fontes de alterações no rio foram analisadas, relacionando com seus possíveis
impactos sobre a pesca.
Também foi realizada uma prospecção pesqueira em cada local de parada, procedendose com amostragens da ictiofauna capturada com redes de emalhar, para análise das espécies
capturadas e suas abundâncias, através de coletas dos exemplares. As atividades de prospecção
pesqueira ocorreram nos pontos conforme indicados na Figura 75 e na Tabela 39.
Figura 75 - Localização dos pontos de coletas no Baixo São Francisco. Fonte: Google Earth
2020.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

228

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Tabela 39 - Localização dos pontos de coleta em cada cidade.
Cidades e Povoados
Piranhas
Piranhas
Piranhas
Piranhas
Pão de Açúcar
Pão de Açúcar
Traipu
Traipu
Porto Real do Colégio
Propriá
Propriá
Chinaré
Penedo
Penedo
Penedo
Piaçabuçu
Piaçabuçu
Foz (Piaçabuçu)
Foz (Piaçabuçu)

Pontos

Latitude (S)

Longitude (W)

P1
P2
P3
P4
PA1
PA2
TP1
TP2
TPC1
PRO1
PRO2
XI
PE1
PE2
PE3
Pl1
Pl2
FOZ1
FOZ2

09° 37’ 39,64’’
09° 37’ 41,04’’
09° 37’ 37,94’’
09° 37’ 37,77’’
09° 45’ 27,77’’
09° 45’ 30,26’’
09° 58’ 51,46’’
09° 58’ 50,84’’
10° 11’ 21,06’’
10° 12’ 26,71’’
10° 12’ 26,89’’
10° 26’ 30,39’’
10° 16’ 45,54’’
10° 16’ 44,26’’
10° 16’ 41,51’’
10° 24’ 12,20’’
10° 24’ 10,85’’
10° 28’ 40,68’’
10° 28’ 43,39’’

037° 45’ 24,15’’
037° 45’ 26,87’’
037° 45’ 01,33’’
037° 45’ 00,32’’
037° 26’ 28,58’’
037° 26’ 25,56’’
037° 00’ 30,23’’
037° 00’ 25,22’’
036° 50’ 30,35’’
036° 50’ 01,94’’
036° 49’ 59,47’’
036° 39’ 53,54’’
036° 35’ 05,41’’
036° 35’ 06,18’’
036° 35’ 07,46’’
036° 26’ 19,08’’
036° 26’ 18,99’’
036° 24’ 22,46’’
036° 24’ 17,77’’

coletados

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

As redes foram colocadas em três sistemas, de acordo com o tempo de permanência
em cada cidade: de 14 às 18h, de 18 às 5h da manhã e na foz, em função da força da corrente,
a rede foi colocada e despescada em seguida.
Foram utilizados 4 tipos de redes de emalhar de fundo, com as seguintes características:
1. malhas de 50 mm nó a nó, com fio de nylon de 0,25 mm de diâmetro;
1. malha de 45 mm nó a nó, com fio de nylon de 0,25 mm de diâmetro;
1. malha de 40 mm nó a nó, com fio de nylon de 0,30 mm de diâmetro
1. malha de 25 mm nó a nó, com fio de nylon de 0,30 mm de diâmetro.
Para o cálculo da Captura por Unidade de Esforço (CPUE) kg/m2/hora, foi
considerado o coeficiente de entalhamento horizontal de 50% e o vertical, de 60%. Em
função da dinâmica de deslocamento entre as cidades visitadas, a duração da permanência
das redes na água variou da seguinte forma: lances à tarde (2 h), lances noturnos (final de
tarde até a manhã seguinte, com média de 15 horas) e na foz do rio, com recolhimento após
o lançamento, em função das fortes correntes na área (40 minutos).

Cenários encontrados
Impactos ambientais e antrópicos que afetam a produção pesqueira
Assoreamento do rio
Durante o percurso de Penedo até Piranhas, foram registrados vários impactos
ambientais, com evidentes prejuízos para a produção pesqueira do rio. O desmatamento
das margens foi a ação mais percebida durante o percurso (Figura 76). A redução da mata
ciliar, com consequente assoreamento das margens, carrega matéria orgânica para o leito,
modificando, assim, o habitat do fundo do rio, o que é fatal para determinadas espécies
endêmicas.
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

229

Figura 76 - Assoreamento das margens do rio.

Fonte: Vanildo S. Oliveira (2019).

Nas áreas em que a vegetação das margens foi mantida, não foram observados sinais
assoreamento, e sim uma aparente atividade pesqueira (Figura 77), com presença de canoas
de pesca e de redes de emalhar em atuação no rio (boias de garrafas PET) (Figura 78).
Figura 77 - Margens com florestas nas margens preservadas.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

230

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 78 - Presença de atividade pesqueira nas margens com vegetação.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

Macrófitas no fundo e na superfície do rio

Também foi observada grande presença de macrófitas aquáticas, tanto na superfície
como espécies submersas Egeria densa (élodea) e representantes da família Poacea. Essa
macrófita traz grandes prejuízos para a atividade pesqueira, uma vez que modifica o substrato
do fundo, formando uma cobertura vegetal que impede as redes de chegarem ao fundo.
Também causa transtornos para a utilização de redes de emalhar, pois emalha nas redes,
aumentando seu peso, fazendo com que o pano da rede assente sobre o fundo, comprometendo
gravemente a produtividade do aparelho de pesca (Figura 79).
Figura 79 - Macrófitas no fundo do rio, emalhadas nas redes.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

Além disso, a presença da macrófita baronesa Eichhornia crassipes na superfície é
prejudicial tanto para a navegação como para a atividade de pesca, pois ocupa a superfície e
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

231

tem alto consumo de Oxigênio da água, competindo, assim, com os organismos aquáticos
(Figura 80).
Figura 80 - Macrófitas flutuantes.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

Despejo de esgotos não tratados
Outro grande impacto na biota do rio é a marcante falta de saneamento básico
nas cidades ribeirinhas, causando grandes danos ao ecossistema aquático. Esse fato gera
consequências tanto para a população quanto para ictiofauna, com a água poluída trazendo
grandes prejuízos para a atividade pesqueira. Dependendo da concentração de dejetos
orgânicos (Figura 81), aliada à diminuição do volume da vazão do rio, a concentração de
poluentes pode alterar o desenvolvimento de vários organismos aquáticos. Também pode
resultar em contaminação direta da população, através de lavagem de roupa com águas
possivelmente contaminadas ou durante atividades de lazer (Figura 82).
Figura 81 - Despejo de esgoto diretamente no rio.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

232

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 82 - Utilização do rio para atividades de lazer.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

Uso da água para atividade de irrigação
Foram observados vários pontos de retirada de água para irrigação, destacando-se as
casas de bombas de irrigação para o platô de Neópolis. Também foram registradas bombas
para projetos de médio e pequeno porte (Figura 83). A agricultura irrigada traz impactos
para a vida aquática, principalmente quando realizada próxima da margem, como a retirada
de água para o cultivo de arroz, em função da utilização de agrotóxicos, que são carrilhados
para o rio, causando danos à ictiofauna.
Figura 83 - Bombas de retirada de água para irrigação.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

Criação de gado nas margens do rio
A pecuária foi uma atividade observada em vários pontos durante o trajeto até
Piranhas. Indiretamente, ela resulta em efeitos de assoreamento do rio, uma vez que a mata
ciliar é retirada para a plantação do pasto, o que, como mencionado, gera impactos para a
ictiofauna e a atividade pesqueira, com o aumento do assoreamento (Figura 84).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

233

Figura 84 - Criação de gado nas margens do rio.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

Criação de peixes em tanques-rede
Essa atividade é recente no rio e aparece como alternativa para a produção de pescado.
No entanto, o fato de a maioria dos piscicultores cultivarem espécies como a tilápia e o
tambaqui traz preocupações ambientais quanto à introdução dessas espécies no ambiente. Por
outro lado, com a falta da produção de pescado natural do rio, as espécies exóticas, atualmente,
representam grande parte da produção de pescado ofertada nas feiras e nos mercados das
cidades ribeirinhas (Figuras 85 e 86).
Figura 85 - Criação de peixes em gaiolas.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

234

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 86 - Produção de peixes em gaiolas.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

Prospecção pesqueira

As redes de emalhar mais utilizadas nas estações, em função das condições e do tempo
em que a expedição permaneceu em cada cidade, foram as de 40 mm, 45 mm e 50 mm. No
entanto, só foi possível realizar análise de abundância relativa (CPUE) do total de captura nas
redes de 40 mm com diâmetro do fio 0,25 mm e de 45 mm com fio de 0,30 mm (Figura 87).
A rede com abertura de malha maior (45 mm) apresentou uma abundância maior
nas capturas, provavelmente devido ao fato de a presente prospecção ter sido realizada no
período de defeso, quando os indivíduos adultos estão mais ativos. Aliado ao diâmetro do
fio da rede mais fino, o que a torna, principalmente em águas com pouca turbidez, como o
Baixo, menos visível e, consequentemente, com maior eficiência de captura.
Figura 87 - Captura por unidade de esforço (CPUE), por rede de emalhar.

Fonte: Autores do capítulo.
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

235

Foram capturados 244 indivíduos, classificados em 22 categorias de recursos pesqueiros.
As quatro espécies mais abundantes foram pirambeba (Serrasalmus brandtii), pacu (Metynnis
maculatus), piaus (Anostomidae) e tucunaré (Cichla monoculus), que representam cerca de
76,6% do total das capturas (Tabela 40).
Tabela 40 - Recursos pesqueiros capturados durante a II Expedição do Baixo São Francisco.
Nome vulgar

Classificação taxonômica

pacu

Metynnis maculatus

pirambeba
piaus

tucunaré

27,87

Anostomidae

47

19,26

Cichla monoculus

Colossoma macropomum

traíra

Hoplias microcephalus

cará

Astronotus ocellatus

xira

Prochilodus argenteus

cascudo

Hypostomus sp.

carapeba
piranha
siri

Hypostomus sp.
Gerreidae

Pygocentrus piraya
Calinectes spp.

pacamão

Lophiosilurus alexandrii

cumbá

Trachelyopterus galeatus

caranha

Lutjanus cyanopterus

bagre

Cathorops agassizii

arenga
pargo
xaréu

carapicu
robalo

%

68

tambaqui
acari

n.

Serrasalmus brandtii

Licengralis glossidens
Lutjanus purpureus
Caranx latus

Eucinostomus melanopterus
Centropomus spp.

Fonte: Autores do capítulo.

49
23
14
12
6
5
4
2
2
2
1
1
1
1
1
1
1
1
1
1

244

20,08
9,43
5,74
4,92
2,46
2,05
1,64
0,82
0,82
0,82
0,41
0,41
0,41
0,41
0,41
0,41
0,41
0,41
0,41
0,41
100

Os principais peixes carnívoros de água doce representaram 40,1% (traíra, tucunaré,
pacamão, piranha e pirambeba). As espécies marinhas representaram 5,3%, sendo todos
carnívoros. Apesar de todos os danos ambientais que o rio sofre, a presença de carnívoros é
um bom sinal, pois eles têm um papel muito importante, principalmente no caso do controle
de espécies exóticas, como a tilápia, que está sendo cultivada amplamente e, quando solta,
pode causar danos ao ambiente nativo. Não foi registrada a captura de tilápias nas pescarias,
indicando um sinal aparente de que esses predadores são fundamentais no controle da
proliferação dessa espécie exótica.
A pirambeba foi a espécie mais abundante na captura com rede de emalhar (Figura
88). No entanto, a espécie não tem grande valor econômico, além de ser um carnívoro voraz,
que chega a prejudicar parte das capturas (Figura 89). Sua maior abundância foi observada
entre as cidades de Piranhas e Pão de Açúcar, declinando no sentido da foz (Figura 90).

236

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 88 - Pirambeba capturada com rede de emalhar.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

Figura 89 - Predação causada pela pirambeba.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

237

Figura 90 - Abundância relativa da pirambeba por localidade.

Fonte: Autores do capítulo.

O pacu foi a segunda espécie mais abundante (Figura 91), ocorrendo entre Pão de
Açúcar e Penedo, com maior pico em Propriá (Figura 92). Não tem grande valor econômico,
mas é apreciado pela população.
Figura 91 - Pacu capturado na rede de emalhar.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

238

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 92 - Abundância relativa do pacu por localidade.

Fonte: Autores do capítulo.

O terceiro recurso pesqueiro mais abundante foram os piaus (Figura 93), que
apresentam uma boa aceitação e um bom valor comercial. Como foi descrito, esses valores
variam de acordo com a espécie. Sua maior abundância foi constatada na cidade de Piranhas,
declinando bruscamente em direção à foz (Figura 94). Essa maior abundância nas cidades
mais próximas da barragem de Xingó pode ser explicada por dois fatores: o aumento da vazão
promovido pela CHESF durante a expedição e a subida da espécie na época da reprodução.
Esse resultado demonstra que, aparentemente, esta é realmente a melhor época para proteger
essa espécie (defeso), que tem características eurialinas, pois ocorreu até Piaçabuçu, onde existe
grande influência da água do mar. Os pescadores da região sempre apontam esse recurso
pesqueiro como um dos principais na região.
Figura 93 - Piau capturado na rede de emalhar.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

239

Figura 94 - Abundância relativa do piau por localidade.

Fonte: Autores do capítulo.

A quarta espécie mais abundante foi o tucunaré (Figura 95), espécie carnívora com
valor comercial e bastante apreciada pela população. Tem hábitos de guardar a prole na
boca e devorar as outras espécies, o que, segundo os pescadores, contribui fortemente para a
diminuição de outras espécies. Apresentou sua maior abundância em Porto Real do Colégio,
não sendo mais capturada rio abaixo, na expedição (Figura 96), pois a espécie parece ser
bastante sensível às variações de salinidade, por ser característica de água doce.
Figura 95 - Tucunaré capturado na rede de emalhar.

Fonte: Vanildo Oliveira (2019).

240

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 96 - Abundância relativa do tucunaré por localidade.

Fonte: Autores do capítulo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A região do Baixo São Francisco apresenta uma série de impactos ao longo do curso,
com alterações bastante visíveis sobre o rio. A redução das áreas de pesca por outras atividades
tem sido atestada na região. O aumento da poluição do rio, o desmatamento das matas
ciliares, a grande descarga de esgotos e a baixa vazão de suas águas, devido ao represamento da
hidroelétrica de Xingó, têm causado assoreamento, formação de bancos de areia e destruição
de habitats importantes, como as lagoas marginais, com efeitos muitas vezes devastadores
sobre os recursos pesqueiros.
Além da evidente total falta de gestão das atividades antrópicas ao longo do Baixo
curso do rio, é preciso também avaliar os efeitos de todas as ações à montante da região. Para
tal, faz-se necessário e urgente que o rio receba a devida atenção do Estado brasileiro, através
de um detalhado estudo e monitoramento de todos os impactos para que sejam, dessa forma,
retomadas ações rigorosas de revitalização do rio, que sempre foram abandonadas, sacrificando
os reais interesses da sociedade em detrimento do custo político da gestão ambiental e do
ordenamento das atividades econômicas.
Os impactos causados pelo assoreamento só podem ser minimizados com fiscalização
eficiente. A implantação de programas de reconstituição de matas ciliares e de educação
ambiental, principalmente junto às associações de criadores de gado, prefeituras e indústrias,
seriam as primeiras recomendações. A legislação florestal é clara, mas a fiscalização precisa
receber condições políticas, jurídicas, financeiras e de capital humano.
O saneamento básico de água e esgoto precisa passar a ser encarado como prioridade
pela gestão pública federal e municipal, bem como por organizações da sociedade civil
organizada e moradores, pois afeta não apenas os organismos aquáticos, mas a todos nós,
milhões de pessoas usuárias do rio ao longo da bacia do São Francisco.
Os impactos causados por macrófitas, tanto no fundo como na superfície do rio, devem
ser motivos de elaborações de soluções, por parte das autoridades competentes, no sentido
de desenvolver projetos de aproveitamento dessas toneladas de materiais orgânicos, uma vez
que o rio está margeado por solo com predominância areno-argiloso, ou seja, pobre/rochoso
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

241

e cristalino, especialmente no Sertão, onde essa matéria orgânica poderá ser aproveitada
(adubos, cobertura de solo entre safra, complemento de ração ou mesmo complementação,
in natura, como alimento para o gado). A execução de projetos pilotos transformaria esse
problema em solução.
Como o processo de migração das grandes espécies foi interrompido com o barramento
do rio, as iniciativas de reintroduzir espécies que raramente ocorrem ou desapareceram do
Baixo São Francisco devem ser continuadas e ampliadas, com o objetivo de recompor os
estoques pesqueiros.
Pirambeba, pacu, piau e tucunaré são, atualmente, recursos pesqueiros importantes
na composição das capturas do Baixo São Francisco. Já espécies tradicionais da pesca local,
como a xira, parecem cada vez menos presentes nos desembarques. Tubarana, pirá e surubim
praticamente desapareceram da pesca. Estudos da dinâmica populacional desses recursos
pesqueiros precisam ser viabilizados.
A continuidade e a ampliação de programas de repovoamento dessa espécie atendem
aos anseios dos pescadores, que elogiam essa ação e enfatizam que a liberação de indivíduos
com maior tamanho possibilita a sobrevivência em um ambiente com tantos predadores.
A pesca no rio sofre influência direta da intensidade da vazão. Em época de chuvas,
as condições melhoram sensivelmente para a produção pesqueira. No entanto, em período
de seca interanual, como na última, com duração de seis anos, a produção de pescado ficou
bastante prejudicada, sendo, muitas vezes, necessário importar peixes para se atender à
demanda nas feiras.
O repovoamento e o cultivo de peixes nativos, desenvolvidos dentro dos padrões de
sustentabilidade, podem ser alternativas para suprir a necessidade de pescado nesses períodos.
Dessa forma, estímulos a projetos que visem ao cultivo e ao desenvolvimento da cadeia
produtiva de espécies nativas devem ser feitos pelas autoridades governamentais.
As coletas realizadas das espécies foram pontuais, o que permite apenas apontar
as condições momentâneas da situação da pesca, demostrando algumas tendências de
resultados e comportamentos. Por este motivo, é fundamental a realização de um programa
de monitoramento contínuo, com vistas ao acompanhamento da atividade e de possíveis
alterações, garantindo condições para observações mais amplas, significativas e aleatórias
para a análise de padrões da pesca.

REFERÊNCIAS
AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS (Brasil). Estudos na área de cobrança pelo uso
de água com o objetivo de estabelecer critérios e condições que possibilitem a aplicação
desse instrumento na bacia hidrográfica do rio São Francisco. Agência Nacional de Águas.
Relatório Final. Brasília: ANA, 2007.
GODINHO, H. P.; GODINHO, A. L. (Org.). Águas, Peixes e Pescadores do São Francisco
das Minas Gerais. Belo Horizonte: PUC Minas, 2003.
LIMA, D. C. A pesca artesanal no ambiente do rio São Francisco, Brasil. Ano 2020. Disponível
em: http://observatoriogeograficoamericalatina.org.mx/egal14/ Geografiasocioeconomica/
Geografiacultural/64.pdf. Acesso em: 08 maio. 2020.
NASCIMENTO, M. C. Relatório técnico da campanha de avaliação das mudanças

242

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

socioambientais decorrentes da regularização das vazões no baixo Rio São Francisco. In:
REZENDE, P. C. OLIVEIRA, I. M. Descrição socioeconômica dos pescadores no baixo
São Francisco, Nordeste-Brasil. 2015. Disponível em: https://revistas.unifacs.br/index.php/
rde/article/view/4030/2752. Acesso em: 15 abr. 2020.
SATO, Y.; GODINHO, H. P. Migratory fishes of the São Francisco River. In: CAROLSFELD,
J. B.; HARVEY, C. ROSS; BAER, A. (Eds.). Migratory fishes of South America: biology,
fisheries, and conservation status. Victoria: World Fisheries Trust, IDRC, World Bank, 2003.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

243

FROM THE CANYON TO THE MOUTH: THE
STATE OF THE ART OF FISHING ALONG THE
LOWER SÃO FRANCISCO
Igor da Mata-Oliveira

Ricardo Anderson Pereira

Jhennipher da Silva Pereira

Ticiano Rodrigo de Almeida Oliveira
Vanildo Souza de Oliveira

SUMMARY.
The Lower São Francisco region represents the river’s final stretch, which extends
from the end of the canyon, above the Xingó dam, to the estuary and mouth region,
passing through marginal lagoons and streams. Thus, the region presents a considerable
variation in the physical conditions of the river, which is reflected in the traditional and
diversified local fishing activity naturally adapted to environmental conditions, fishing
equipment, methods, species caught, and the various problems observed. The incipience
and dispersion of general information on fishing in the region prevent the adoption of
effective measures to organize and preserve the activity, threatened by the deterioration of
the river condition and fishing. Thus, the present study existing fishing methods and their
primary target resources in 20 municipalities of the Lower São Francisco, between Sergipe
and Alagoas. The riverside population has fishing as a fundamental strategy for survival and
its culture. Gillnets, tarraffes, hand lines, rods, and fish traps are employed in the capture of
various freshwater and estuarine marine resources, among which xira (Prochilodus argenteus),
piau (Anostomidae), corvina (Plagioscion spp.), pacu (Metynnis maculatus, Myleus micans ),
tilapia (Oreochromis niloticus ), tucunaré (Cichla monoculus), piranha (Pygocentrus piraya), river
shrimp (Macrobrachium spp.), pilombeta (Engraulidae), carapeba (Gerreidae), and sea bass
(Centropomus spp.). However, highly valued species, traditionally exploited by fishing in the
region, such as tubarana (Salminus hilarii), surubim (Pseudoplatystoma corruscans), and pirá
(Conorhynchos conirostris) practically disappeared from the region. These changes in the catch
composition patterns generate depreciation of the socio-economic condition of workers and
communities dependent on fishing, and their causes are undoubtedly related to changes in
the natural conditions of the river. Although fishermen point out cause-effect relationships,
they still need to be better analyzed. Given this, it is necessary to monitor effectively through
a broad program of monitoring fishing production, which would allow the analysis in more
detail of the influence of environmental changes on fishing. Fishing biology studies are
also needed to prevent other resources from being depleted, further compromising fishing
conditions in the Lower São Francisco.

244

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 14
DO CÂNION À FOZ: O ESTADO DA ARTE DA PESCA
AO LONGO DO BAIXO SÃO FRANCISCO
Igor da Mata-Oliveira67

Ricardo Anderson Pereira68

Jhennipher da Silva Pereira69

Ticiano Rodrigo de Almeida Oliveira70
Vanildo Souza de Oliveira71

INTRODUÇÃO
A região do Baixo São Francisco (BSF) representa apenas cerca de 8% da extensão
total do rio. Estende-se desde o final do cânion do São Francisco, a montante da Usina
Hidroelétrica (UHE) de Xingó até a foz, entre os Estados de Sergipe e Alagoas. Observase, portanto, uma notável variação nas condições físicas do rio, o que se reflete na tradicional
e diversificada atividade pesqueira local, naturalmente adaptada às condições ambientais e
espécies capturadas em cada trecho.
No entanto, segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco
(COMPANHIA HIDRELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO, 2004), a pesca está em franca
decadência, por várias razões: os barramentos, a poluição oriunda dos esgotos domésticos e
de atividades agrícolas, a incompatibilidade entre a operação das barragens e as necessidades
ecológicas.
A pesca na região sofre, ainda, com a incipiência e a dispersão de informações
(COMPANHIA HIDRELÉTRICA DO SÃO FRANCISCO, 2004). Ainda pouco
é conhecido, mesmo sobre informações básicas e gerais, como no que diz respeito aos
métodos de pesca, principais recursos e possíveis alterações neles devido às intensas
mudanças do ambiente.
Alguns trabalhos trazem uma descrição da pesca a partir de informações coletadas em
bases estratégicas, cidades onde se concentram desembarques e comercialização de pescado.
No entanto, estudos concentrados nos centros comerciais podem omitir detalhes peculiares
a cada município que compõe a região. Esses aspectos dificultam a avaliação do estado de
exploração dos recursos, bem como a procura de medidas racionais de ordenamento da
atividade, constituindo um dos principais motivos por que as práticas de manejo dos recursos
pesqueiros na região sejam pouco efetivas (BARBOSA; SOARES, 2009).
Laboratório de Investigação e Manejo da Pesca (Imap), Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Unidade
Penedo.
68
Laboratório de Investigação e Manejo da Pesca (Imap), Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Unidade
Penedo.
69
Laboratório de Investigação e Manejo da Pesca (Imap), Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Unidade
Penedo.
70
Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema), Universidade Federal de
Sergipe (UFS).
71
Laboratório de Pesca Sustentável (Lapesu), Departamento de Pesca e Aquicultura (Depaq), Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
67

É necessário classificar essa força de trabalho em categorias de pesca, dentre as quais
cada uma está submetida a condições particulares de produção, investimento, frequência
e comercialização. Mesmo as colônias de pescadores com bom nível de organização não
costumam classificar seus associados por categorias de pesca, o que esconde uma grande
diversidade cultural, de condições, adversidades e, especialmente, de possíveis ações necessárias
para a manutenção da atividade pesqueira. Diante disso, o presente trabalho teve como
objetivo apresentar uma descrição da pesca ao longo de toda a região do Baixo São Francisco.

Prospecção e obtenção de dados
A região do Baixo São Francisco é, atualmente, composta por 22 municípios
ribeirinhos (Figura 97).
Figura 97 - Representação dos 22 municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco.

Fonte: Jhennipher da Silva Pereira & Igor Da Mata-Oliveira (2020).

As informações aqui apresentadas foram coletadas durante o Programa de Resgate
Cultural dos Pescadores e Pescadoras do Baixo São Francisco, entre novembro de 2010 e
julho de 2011, e durante as Expedições Científicas do Baixo São Francisco, que ocorreram
entre 15 e 20 de outubro de 2018 e entre 18 e 27 de novembro de 2019.
Em cada município, foram feitas entrevistas em colônias de pescadores, feiras e pontos
de desembarque. Foram coletadas informações sobre as principais características da pesca,
principais artes de pesca e recursos capturados e problemas ou mudanças observados na pesca.
Os equipamentos de pesca foram classificados quanto ao material principal utilizado
na fabricação. As malhas das redes são descritas em cm, comprimento nó a nó (opostos).
Os recursos pesqueiros foram classificados através da identificação de alguns indivíduos
e da revisão da literatura (Anexo 1).

Cenários encontrados
No presente trabalho, foram visitados 21 municípios, sendo 11 em Alagoas (Delmiro

246

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Gouveia, Olho d’Água do Casado, Piranhas, Pão de Açúcar, Belo Monte, Traipu, São Brás,
Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu) e 10 em Sergipe (Canindé do
São Francisco, Poço Redondo, Porto da Folha, Gararu, Amparo do São Francisco, Telha,
Propriá, Neópolis, Ilha das Flores e Brejo Grande). A seguir são apresentadas as descrições
por município. De forma a proporcionar uma visualização mais resumida e objetiva das
mesmas, também é apresentado um quadro com as principais informações ao final do capítulo
(Anexo 2).
ANEXO 1
CLASSIFICAÇÃO DOS RECURSOS PESQUEIROS MENCIONADOS
Recurso pesqueiro

Classificação taxonômica

xira

Prochilodus argenteus

tucunaré

Cichla monoculus

piaus

tilápia

robalo
traíra

pilombeta

Anostomidae

Oreochromis niloticus

Centropomus parallelus
Hoplias macrocephalus
Engraulidae

piranha

Pygocentrus piraya

cará

Astronotus ocellatus

carapebas

Gerreidae

pescada e corvina
camarões

Plagioscion spp.

Macrobrachium spp.

piaba

Tetragonopterinae

camurim

Centropomus undecimalis

carí

pacu

pirambeba
surubim
bagre

mandi

tubarana
pirá

tainha
aragu

camurupim

Hypostomus sp.

Metynnis maculatus, Myleus micans
Serrasalmus brandtii

Pseudoplatystoma corruscans
Ariidae, Pimelodidae
Pimelodus maculatus
Salminus hilarii

Conorhynchos conirostris
Mugil spp.

Curimatella lepidura
Megalops atlanticus

Fonte: Igor Da Mata-Oliveira (2020).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

247

ANEXO 2
QUADRO RESUMO DOS PRINCIPAIS APARELHOS DE PESCA E SUAS
CARACTERÍSTICAS, RECURSOS PESQUEIROS E PROBLEMAS CITADOS
Município

Principais
aparelhos

linha de mão
Delmiro Gouveia

rede de emalhar
vara e anzol

Característica
principal

Principais recursos
pesqueiros

-

malhas 14 a 20 cm

corvina

Mudança

total

no

tilápia

ambiente

(lótico

para

iscas artificiais

xira

tarrafa

malhas 7 a 8 cm

corvina, tucunaré,

Olho d´água do

linha de mão

fios 0,40 e 0,25

tilápia

Casado

rede de emalhar

mm diâmetro

corvina, xira, tilápia

Canindé do São
Francisco

Problemas

-

corvina, tucunaré

linha de mão

-

piaus, mandi, tucunaré

vara e anzol

-

piaus, mandi, tucunaré,
piabas

tarrafa

malhas 2 a 12 cm

piaus, xira, tilápia

rede de emalhar

malhas 2 a 14 cm

xira, corvina, mandi

covo

PET, taliscas de

camarões

lêntico). Não se captura
mais a tubarana. Depois
do barramento, os peixes
mais capturados não têm
bom valor comercial.

Tubarana
já

e

surubim

foram

espécies

importantes.

cano PVC ou
bambu

Piranhas

tarrafa

malhas 8 a 12 cm

piaus, bambá, carí

O

rede de emalhar

malhas 12 a 14 cm

bambá, piaus

a

linha de mão

-

vara e anzol

-

tucunaré, piaus

tela de PE, taliscas
covo

de madeira ou
de cano PVC,

mas depois da construção

camarões

caiu muito. Peixes como
capadinho, pirá e pacamão
não são mais encontrados.

-

xira, piaus

-

robalo

Não se captura mais a

-

xira, piaus

tubarana.

rede de emalhar

pedaços de coco e
peixe como isca

camarões

rede de emalhar

malha 14 cm

xira

rede de emalhar

malha 10 cm

piaus

Pilombeta

xira, piau, tucunaré,

desapareceram.

tarrafa

vara e anzol
redes de emalhar

malhas 10 e 12 cm
de chão

cari
piaus

grude de farinha
como isca
malhas 5 a 12 cm

pacu
xira, piaus, tucunaré,
piranha

linha de mão

-

piaus

tarrafa

-

xira, piaus

redes de arrasto

248

gastronômica da cidade,

tarrafa

groseira

Porto da Folha

era

atração

linha de mão

covo

Pão de Açúcar

pitu

principal

da barragem a produção

garrafas PET

Poço Redondo

camarão
a

malhas 7 a 10 cm

tilápia, cará, piaba,
aratanha

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

e

surubim

Belo Monte

tarrafa

malhas 10 e 11 cm

linha de mão

iscas artificiais

covo
vara e anzol
redes de emalhar
linha de mão

Gararu

bolinho de pó de
arroz como isca
sabão verde como
isca
malhas 10 e 12 cm
caramujo, manga,
milho

piaus
xira, piau, carí
piaus
xira, piaus, carí e

varas de bambu

camarões

covo

vara de marmeleiro

peixes

-

tucunaré

piau, tucunaré,

xira,

piranha e pirambeba

pilombeta raramente

tubarada

e

tarrafa

malhas 1,5 a 10 cm

piaus

aparecem.

Muitas

linha de mão

iscas artificiais

tucunaré, piranha

macrófitas.

Pesca

na Lagoa do

camarões exóticos,

com veneno.

Cabaceiro

escape de cultivo
-

tarrafa
covo
linha de mão

São Brás

camarões

covo

redes de emalhar

Francisco

tucunaré

malha 8 e 10 cm

covo

Amparo do São

xira, robalos,

tarrafa

redes de emalhar
Traipu

xira

marmeleiro, taboca
ou cipó
caramujo, minhoca
como isca

piaus, xira, traíra,
piranha
traíra, tambaqui
piaus e camarões
piaus, piranha
xira, piaus, tucunaré,

redes de emalhar

malhas 3 e 4 cm

tarrafa

malha 2 cm

piaba, xira, piaus

vara e anzol

molinete

piaus, piranha

vara e anzol

bambu

piabas, pirambeba

piranha

Macrófitas

iscas artificiais,
linha de mão

pedaços de carne,
caramujo ou peixes

tucunaré, piranha

pequenos

Telha

covo

de marmeleiro

piaus

covo

de tela PE ou taboca

camarões

redes de emalhar

-

piaus, xira

vara e anzol

-

pirambeba, traíra

rede de emalhar

-

xira, piaus

Uso de bombas e

saburica, carazinhos

bolinhos

jereré

pano de mosqueteiro

de

arroz

formolizados

como

Porto Real do

isca.

Colégio

na

tarrafa

malhas 2 a 3 cm

piaus, xira

Dimunuição
produção

de

xira, camarão pitu e
aumento da produção
de siris.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

249

redes de emalhar

malhas 2 a 15 cm

xira, piaus, tilápia

tarrafa

malhas 2 a 13 cm

xira, piaus, tilápia

covo

talas de taboca

camarões

covo

varas de marmeleiro

piaus

vara e anzol

-

robalos, tucunaré

linha de mão

-

tucunaré, robalos,

Propriá

piranha
redes de emalhar

Igreja Nova

malhas 4 e 4,5 cm

xira, piaus, piranha,

Tubarana

traíra

não cocorrem mais.

e

cumbá

covo

tela de PE

camarões

Dimunuição de xira

jereré

-

cará, traíra

e piaus. Problemas no

cará, piabas, piranha

registro de pescadores

vara e anzol

bambu

linha de mão

-

piabas, cará, traíra

vara e anzol

-

robalo, piranha, xira,

linha de mão

-

piaus, tucunaré

jereré

-

saburica, piabas

rede de emalhar

-

piaus

rede de arrasto

-

tarrafa

-

e

na

execução

do

seguro defeso.

Santana do São
Francisco

Penedo

Neópolis

xira, traíra e cará

covo

tela de PE

camarões

rede de emalhar

malha 6 cm

xira, tucunaré

Piau

rede de emalhar

malha 10 cm

piranha, pirambeba,

surubim e tubarana

tucunaré, camurim,

desapareceram.

piaus

cada vez mais rara.

piranha, tucunaré,

Estão

piaus

muitas

xira

mar (xaréu, carapeba,

rede de emalhar

malha 12 cm

tarrafa

malha 3 cm

linha de mão

-

robalo, piranha, piaus

groseira

-

piranha

rede de emalhar

malhas 11 a 14 cm

xira, piaus, tucunaré

rede de emalhar

malhas 2 a 3 cm

pilombetas

rede de emalhar

malhas 14 a 20 cm

carapebas, robalos

-

saburica, piaba

Jereré
Covos

tela de PE ou

cutia,

capturando
espécies

curimã,

250

camarões

rede de emalhar

malha 2,5 cm

pilombetas

rede de emalhar

malhas 8, 10 e 14 cm

carapebas, robalos

Diminuição

rede de emalhar

malhas 11 a 12 cm

xira, bagres

do número de

Linha de mão

isca: pilombeta

xaréu, bagres, robalos

embarcações.

chiqueiro

estacas de madeira

diversos

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

do

robalos,

camurupim).

tabocas de madeira

Ilha das Flores

Xira

rede de emalhar

malha 2 a 2,5 cm

pilombetas

Diminuição da vazão

rede de emalhar

malha 20 cm

carapeba

e avanço da cunha

rede de emalhar

malha 16 cm

robalos

salina. Dimuição
das capturas de
pilombetas, xira,

Piaçabuçu

piaus e robalos.
Aumento da
produção de siri.
Mandi e surubum
desapareceram.
rede de emalhar

malha 2 cm

pilombetas

rede de emalhar

malha 14 cm

xira, piau, traíra,
tucunaré

Brejo Grande

linha de mão

de fundo

carapeba, mandi,
bagre

coleta manual

-

caranguejo

Mudanças bruscas
no rio e no litoral,
forçaram o maior
processo de migração
humana da região.

Fonte: Igor Da Mata-Oliveira (2020).

Delmiro Gouveia
Delmiro Gouveia é um município no Sertão alagoano, às margens do cânion alagado
do rio São Francisco. Segundo os pescadores, Delmiro Gouveia foi um dos municípios mais
afetados na pesca, pela construção da UHE de Xingó, devido à sua localização logo acima da
mesma. Com isso, houve uma mudança brusca no ambiente, passando de lótico para lêntico.
Com o consequente aumento da profundidade, os pontos de pesca foram alterados, bem
como a composição das capturas.
A linha de mão é uma modalidade de pesca tradicional a montante da UHE de Xingó,
tendo como espécie alvo a corvina ou pescadas brancas. Já as redes de emalhar tiveram seu
uso ampliado com o represamento do rio nesse trecho. As malhas de 14 cm e 20 cm foram
as mais encontradas.
As varas e o anzol são usados, principalmente, com iscas artificiais, tendo o tucunaré
como alvo. As tarrafas são dirigidas à pesca de curimatã (conhecida na região como xira),
mandi, corvina, tilápia e tucunaré. O jereré também foi mencionado, para a captura de
camarões do rio.
Antes, era frequente a captura da tubarana (ou dourado) e de outros peixes de alto valor
comercial. Atualmente, as capturas predominantes são de peixes comuns de águas mais calmas
(represadas), como scianídeos (corvina, chamada também de pescada branca) e ciclídeos
(tilápia e tucunaré), que, no entanto, não apresentam bom valor de venda. As principais
espécies capturadas em Delmiro Gouveia confirmam a presença de espécies introduzidas e
estabelecidas no rio São Francisco, como a corvina (Plagioscion squamosissimus) e o tucunaré
(SATO; GODINHO, 2003; GODINHO; GODINHO, 2003).
Uma possível solução para amenizar esse impacto econômico causado à pesca em
Delmiro Gouveia seria a realização de estudos de prospecção pesqueira com vistas à posterior
capacitação dos pescadores para atuar com outros tipos de aparelhos de pesca, capazes de
realizar capturas em maiores profundidades, desde que identificadas ocorrência e viabilidade
da captura de espécies potenciais para a região em prospecções, como espinhéis, adaptados
às condições operacionais da pesca local.
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

251

Olho d’Água do Casado
Em Olho d’Água do Casado, a tarrafa e a linha de mão são os aparelhos de pesca mais
utilizados. A tarrafa com malhas de 7 cm ou 8 cm é utilizada visando à captura, principalmente,
de pescada branca e xira. As linhas de 0,40 mm e 0,25 mm de diâmetro são utilizadas como
linhas de mão para a pesca da corvina, do tucunaré e da tilápia. As redes de emalhar e covos
confeccionados com a reutilização de garrafas PET também foram mencionadas. Pescadas
brancas e tucunaré são, atualmente, os principais recursos capturadas, seguidos por xira e tilápia.

Canindé do São Francisco
A UHE está localizada no município de Canindé do São Francisco, no Sertão
sergipano, a 214 km da capital Aracaju. Entre os pescadores entrevistados no município,
foi registrado o uso de 5 apetrechos de pesca: linhas de mão, vara e anzol, tarrafa, redes de
emalhar e covos.
As principais artes de pesca da região são aparelhos de linha e anzol, de diferentes
tamanhos: linhas de mão e varas, direcionadas à captura de piaus, mandis, tucunarés e piabas.
As iscas são variadas, desde minhoca a iscas artificiais.
As tarrafas possuem malhas de 2 cm a 12 cm, para captura, principalmente, de piaus,
xiras e tilápias. Já as redes de emalhar, com malhas que variam de 2 cm a 14 cm, são voltadas
para a captura de xira, corvina e mandi, entre outros. Dourado (tubarana) e surubim também
foram mencionados, mas como memória e/ou capturas mais esporádicas. Covos fabricados em
garrafas PET, taliscas de canos de PVC ou taliscas de bambu são dirigidos tanto para a pesca
de pequenos camarões, que servem como iscas, como também para a pesca de camarão pitu.
No geral, as principais espécies capturadas pelos pescadores de Canindé são: piau, xira,
tucunaré, tilápia, traíra, mandi e piaba. A tubarana também já foi uma espécie importante.

Piranhas
Piranhas é uma cidade histórica localizada logo abaixo da UHE Xingó, no Alto Sertão
alagoano. Nesse trecho, o rio apresenta pedras em seu leito e correnteza mais forte, o que
dificulta, inclusive, a navegação em tempos de baixa vazão. Essa forte correnteza pode explicar
porque essa área é uma das mais abundantes em número de espécies, segundo os pescadores.
As tarrafas são muito comuns em Piranhas, com malhas que variam de 8 cm a 12
cm, e são dirigidas, principalmente, para a pesca de piau, bambá e carí. As redes de emalhar
caracterizam-se pela predominância das malhas de comprimento 12 cm e 14 cm e por suas
espécies alvos: bambá e piau. Linha de mão e vara e anzol, que antigamente eram dirigidas
para a captura de dourados e tubaranas, atualmente possuem tucunarés e piaus como alvo.
Os covos locais são fabricados em telas de polietileno, taliscas de madeira ou de cano de
PVC e garrafas PET. Jererés (fabricados em linhas de algodão) são dirigidos para a pesca
do camarão pitu.
O camarão pitu já foi a principal atração gastronômica da cidade, no entanto, segundo
relatos, depois da construção da barragem, a produção caiu muito e outros peixes, como
capadinho, pirá e pacamão, não são mais encontrados.

252

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Poço Redondo
Poço Redondo, no Sertão de Sergipe, apresenta dois povoados pesqueiros principais:
Curralinho e Niterói.
O uso de tarrafa foi predominante entre os pescadores entrevistados e sua operação
está relacionada a captura de xira e piau.
A atividade com linha de mão é dirigida para a pesca de tubarana ou robalos. Redes
de emalhar são, principalmente, utilizadas para a captura de xira e piau; os covos, para a pesca
de camarões. Neles, são colocadas iscas como pedaços de coco e de peixe.
As capturas no município poderiam ser melhores, pois, segundo os pescadores
entrevistados, falta fiscalização e muitos pescadores praticam a pesca no período de defeso
ou com técnicas predatórias. O período de defeso foi questionado pelos pescadores, visto que,
de março a maio, ainda são encontrados muitos peixes prontos para a desova.

Pão de Açúcar

As redes de emalhar são os aparelhos de pesca mais utilizados, com fios 0,30 mm,
0,35 mm e 0,40 mm de diâmetro, para a captura de xira (malha 14 cm) e piau (malha 10
cm). A malha 14 cm também é chamada pelos pescadores da região de “mão de trevessa”,
dado ao fato de seu comprimento estender-se de um lado a outro da mão do pescador – essa
denominação é comum na região.
Quando a rede de emalhar é lançada sendo levada, à deriva, pela correnteza, a pesca
é denominada “caceia”; quando é fixa na margem, denomina-se “travessia” e é colocada em
lugares protegidos das fortes correntes do centro do rio, numa área denominada “remanso”.
Além da rede de emalhar, também utilizam-se tarrafa e groseira (espinhel) para a
captura de traíra, mandi amarelo, robalo e piranha.
Peixes como xira, piau, tucunaré e cari também são capturados com tarrafas de malhas
10 cm e 12 cm de comprimento, nó a nó oposto.
Foi verificado, entre os pescadores entrevistados, que a groseira é, também, muito
popular. Sua utilização dá-se, principalmente, na modalidade groseira do chão, tendo como
alvo a captura de piau.
A pesca de linha de mão caracteriza-se pelo uso de linhas que variam de 0,40 mm
a 1,00 mm de diâmetro. Destinada, principalmente, à captura de piau, tubarana, robalo e
mandi, podem ser aplicados diferentes métodos, como o corrico (pesca com o barco em
movimento) ou de arremesso (pescador sentado em embarcação presa ao porto, à margem
ou emerso em águas rasas).
Vara e anzol são destinados à captura de piranha, pacu, xira e tubarana. A minhoca
é a isca mais usada, seguida pelo caramujo e peixes pequenos.
Os covos utilizados no município são fabricados, principalmente, com varas de
marmeleiro e equipados com iscas de coco e pedaços de peixe, aparelhando, assim, a pesca
do camarão pitu.
No geral, os principais recursos pesqueiros de Pão de Açúcar são: piaus, xira, piranha,
bambá, pacu, pirambeba, traíra e peixe-cachorro.
Relatos apontam que, há 17 anos, capturavam-se 200 kg de pilombeta por lance e
surubim com até 17 kg.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

253

Porto da Folha
Dos apetrechos relacionados, vara e anzol foram o mais representativo, isso podendo
ser explicado pelo grande número de mulheres entrevistadas, pois elas destacam-se ao usar
esse apetrecho.
São utilizadas iscas simples, como o grude de farinha de mandioca ou de farinha de
trigo, para capturar, principalmente, o pacu. As redes de emalhar, cujas malhas variam de 5
cm a 12 cm de comprimento, são dirigidas para a pesca de xira, piau, tucunaré e piranha. As
linhas de mão também são relevantes no município. As tarrafas são direcionadas à pesca,
principalmente, de xira e piau. Redes de arrasto podem ser encontradas de dois tipos: rede
de arrasto de croa (com malhas que variam entre 7 cm e 10 cm), para a captura de tilápia,
cará e piaba, e a rede de calão, para capturar aratanha. Covo e jereré também são utilizados
no município.

Belo Monte
As tarrafas com malhas de 10 cm e 11 cm de comprimento foram as mais usadas.
Linhas de mão com iscas artificiais são utilizadas para a captura de xira, robalo, tucunaré,
piaba, piranha, tubarana e mandi.
Os covos têm como alvo a pesca do camarão. São encontrados covos iscados com
bolinho de pó de arroz e casca da laranja. Vara e anzol são utilizados para a captura de piau
com iscas de sabão em barra de cor verde. Segundo os pescadores, os piaus habituaram-se às
mulheres lavando roupa na beira do rio e passaram a comer o resto do sabão que é lançado
ou esquecido no local.
A poita é uma modalidade de linha de mão em que são usados uma pedra e um
arco de vara de velame (marmeleiro) para afastar os anzóis. Ultimamente, nenhum pescador
pratica regularmente essa pesca, porém, em épocas favoráveis, ele é destinado à pesca de
mandi e piranhas.

Gararu
Entre os pescadores entrevistados em Gararu, foram registradas seis artes de pesca.
As redes de emalhar configuram-se como a principal e suas espécies alvo são: xira, piau,
carí, pilombeta, pacu e robalo. A linha de mão vem em seguida, em que são utilizadas iscas
como caramujo, manga e milho. Nas tarrafas, há a predominância das malhas 8 cm e 10 cm,
capturando xira, piau, carí e tucunaré. Os covos são confeccionados em talas de bambu ou
varas de marmeleiro. Os covos de talas de bambu são direcionados à captura de camarões
e o covo de varas de marmeleiro, à captura de tucunaré e/ou do pacu. As iscas comuns, nos
dois casos, são milho, peixe ou bolinho de pó de arroz. O jereré de linha de algodão ou de
nylon (PA) também foi mencionado no município.

Traipu
A rede de emalhar é o apetrecho mais usado, com a seguinte faina de pesca: sair à
noite e voltar de manhã quando pescam de “caceia” e, na “travessia”, deixa de manhã e recolhe
à tarde. Uma pescaria boa, segundo relatos, é em torno de 50 kg a 70 kg.
A tarrafa local possui malhas que variam entre 1,5 cm e 10 cm (nós opostos), e

254

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

pesca, principalmente, piau, mas antigamente capturava também xira e pilombeta em grande
quantidade. A linha de mão com iscas artificiais também é comum para a captura de tucunaré,
piranha e, antigamente, tubarana.
Os covos são encontrados na lagoa do Cabaceiro, cuja operação destina-se à pesca de
camarões, que, segundo um dos pescadores entrevistados, são exóticos, tendo se propagado
na lagoa após a fuga de um viveiro de carcinicultura.
Os peixes mais capturados são: piau, tucunaré, piranha e pirambeba. A xira raramente
aparece, assim como a tubarana. A tilápia também é capturada, principalmente, na lagoa do
Cabaceiro.
Os pescadores locais relataram também que, dentre os problemas do rio, estão as
macrófitas (lodo) no fundo, que representam um grande entrave para a atividade pesqueira.
Atualmente, o cultivo de tilápia, em tanques rede, produz cerca de 500 kg a 600 kg por mês,
sendo R$ 10,00 o quilo. Essa produção supre a demanda por pescado nas feiras.
Há 15 anos, foram capturados camurupim com 15 kg, xira de 5 kg a 7 kg e capturavamse entre 6 kg e 8 kg de pitu (camarão canela), com cinco dúzias de covo. Atualmente, não
se captura mais com essa abundância. Para os pescadores, os problemas que causam a baixa
produção pesqueira são o assoreamento e a construção da barragem, resultando na diminuição
do volume da vazão das águas do rio.
Outras duas práticas também foram citadas como causadoras de danos ao meio
ambiente: a pesca com arpão e a pesca com veneno.

Amparo do São Francisco
No presente trabalho, a rede de emalhar foi a principal arte de pesca utilizada no
município para a captura de piau, xira e traíra. Tarrafas são usadas para capturar, principalmente,
traíra e tambaqui. Os covos são confeccionados pelos próprios pescadores ou por seus filhos,
utilizando material local, a exemplo do marmeleiro (Croton sonderianus) e outros (taboca ou
cipó). São iscados com bolinho de pó de arroz, milho ou pedaços de coco e dirigidos para
a pesca dos piaus e/ou camarões. A linha de mão é dirigida para a pesca de piaus, atraídos
com iscas de caramujo ou minhoca.
Entre as espécies alvo mais citadas no município de Amparo, é importante destacar a
piranha, visto que, em nenhuma outra cidade da região, esse recurso mostrou-se tão tradicional.
Xira e piau também são muito importantes na pesca do município.

São Brás
A pesca em São Brás apresenta grande diversidade de métodos e recursos alvo. As redes
de emalhar e as tarrafas destacam-se. As redes de emalhar com malhas de 3 cm e 4 cm têm
como objetivo a captura de xira, piau, tucunaré e piranha. No caso das tarrafas, a malha de 2
cm é a mais utilizada, tendo como alvos: piaba, xira e piaus. Vara e anzol de molinete ou bambu
são usados para a captura de piabas, pirambebas, piranhas e piaus. Com linha de mão e iscas
artificiais, pedaços de carne, caramujo ou peixes pequenos, são capturados, principalmente,
tucunarés e piranhas. A rede de arrasto é encontrada com malhas, principalmente, de 3
cm, e os pescadores a dirigem para a captura de xira, piau, piranha e cará. A rede de calão
é utilizada para capturar piaba e saburica (camarão pequeno). Covo, jereré, cuvu e boia de
espeto também são importantes para a pesca do município.
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

255

Os pescadores de São Brás descreveram o problema decorrente da presença do cabelo
(Egeria densa) para os pescadores da região. Segundo Bezerra et al. (2007), a Egeria densa vem
caracterizando-se como uma espécie daninha no ecossistema aquático, causando problemas
de usos múltiplos em decorrência do desenvolvimento excessivo, formando verdadeiros
prados de macrófitas nas margens e em profundidades superiores a oito metros. Ela atinge
diretamente a pesca, visto que, dentre outros fatores, o pescador perde muito tempo com o
trabalho de desvencilhar as malhas das redes ou tarrafas dos ramos dessa alga.

Telha
Definitivamente, os covos são a arte de pesca predominante entre os pescadores de
Telha. São confeccionados em varas de marmeleiro e dirigidos à pesca de piau e, eventualmente,
de xira, enquanto os confeccionados em telas de polietileno ou taliscas de taboca são dirigidos
à pesca de camarões. A rede de emalhar para piau e xira, e vara e anzol para pirambeba e
traíra são as demais artes mais importantes.

Porto Real do Colégio
As principais artes de pesca usadas pelos pescadores de Porto Real do Colégio são:
redes de emalhar, voltadas para a captura de xira e piau: jereré, que pode ser confeccionado
com pano de mosqueteiro, para saburica, carazinho e piau; tarrafa, para piau e xira (malhas de
2 cm e 3 cm); vara e anzol, linha de mão, covos e rede de calão. Entre as principais espécies
alvo relatadas pelos pescadores, destacam-se piau, xira, tucunaré, pilombeta, traíra e o camarão
pitu, embora a maioria seja cada vez menos presente nas capturas.
A atividade pesqueira tem sido alternada entre peixes e siri, que representou grande
volume de capturas nos últimos anos, ao passo que é apontada uma queda na produção da
xira e da pilombeta, com último registro de captura ocorrido em 2012 na área do município.
Os entrevistados relataram o uso de bombas e bolinhos de arroz embebidos em formol
(métodos proibidos em legislação ambiental), o que, possivelmente, aliado a outros fatores
vem contribuindo com o declínio da atividade comprovada pelo desaparecimento de espécies
como mandi (Rhandia sp. e Pimelodella sp.), caboge (Oxidoras niger), cascudo (Hipostomus sp. e
Pimelodus spp.), pilombeta e curimatã-pacu ou xira e, com o avanço da salinidade continente
adentro, aumento das capturas do xaréu (Caranx latus), peixe predominantemente marinho/
estuarino.

Propriá

A pesca local é diversificada. O uso de redes de emalhar predomina, com malhas
de 2 cm a 15 cm, dirigidas, principalmente, para xira, piau e tilápia. Na pesca com tarrafas,
são pescados xira, piau e tilápia, em malhas que podem variar entre 2 cm e 13 cm. Covos,
para a pesca de piaus e camarões, são confeccionados com talas de taboca ou em varas de
marmeleiro. Com vara e anzol, são pescados robalo e tucunaré. Linha de mão é dirigida à
pesca de tucunaré, robalo e piranha. Jereré, rede de arrasto de croa, grosseira e cuvu também
foram registrados.
No geral, piau, xira, tucunaré, tilápia, piranha e robalo são os principais peixes
capturados. Também foram mencionados cari, dourado e pilombeta, entre outros.

256

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Igreja Nova

Igreja Nova destaca-se pela pesca em áreas alagadas e riachos, além da comunidade
de Chinaré, na beira do rio São Francisco. Cinco artes de pesca foram registradas. A rede
de espera (rede de emalhar) é usada para capturar xira, piau, piranha e traíra. A rede de
emalhar, com malhas de 4 cm a 4,5 cm, fio 0,25 mm e 0,30 mm, é adquirida por R$ 150,00
a R$ 200,00. Na pesca com caceia, antes, só se capturava xira; agora, é só piau. Mas houve
pescadores reclamando da diminuição dos piaus nas capturas também. Uma pescaria boa é
considerada quando se capturam 10kg.
Entre os que afirmam pescar apenas no rio São Francisco, o cará foi a espécie mais
representativa nas capturas, seguida por piaba, xira, piau e traíra. Outra importante modalidade
é a pesca de camarão com covos.
O uso do jereré é justificado pela abundância de cará e traíra, suas espécies alvo, que
são capturadas junto à vegetação. Vara de bambu e anzol também são usados na captura de
cará, além de piabas e piranhas. Linha de mão e tarrafa também foram mencionadas. Áreas
repletas de vegetação limitam o uso desses aparelhos – os anzóis da linha de mão podem se
prender nos ramos e galhos e a roda da tarrafa tem seu fechamento prejudicado pela presença
das plantas em que os peixes se abrigam. Nos riachos, as principais espécies capturadas são
piaba, cará e traíra. O tucunaré é pescado com tarrafa, mas é muito predador das outras espécies.
Segundo relatos, algumas espécies tradicionais não ocorrem mais ou tornaram-se
raras nas capturas, como cumbá, xira e tubarana. Os pescadores anseiam por peixamento de
xira e piau cutia, por parte da CODEVASF.

Santana do São Francisco
Em Santana de São Francisco, foram registrados seis apetrechos de pesca, dentre
os quais destacaram-se os aparelhos de linha e anzol: vara e linha de mão, para captura de
robalo, piranha, xira, piau e tucunaré. A pesca com jereré para saburica e piabas também foi
mencionada, bem como redes de emalhar para piau, rede de arrasto e tarrafas para xira, traíra
e cará e covos para camarões. Os covos são confeccionados com telas de polietileno e iscas
de bolinho de farelo de arroz ou massa de pão.

Penedo
Seis artes de pesca foram registradas em Penedo, com destaque para as redes de
emalhar: as de malhas 6 cm são empregadas para a captura, principalmente, de xira e tucunaré;
as de malha 10 cm para piranha, pirambeba, tucunaré, camurim, piau e as de malha 12 cm
para piranha, tucunaré e piau. A tarrafa, cujo principal comprimento de malha é de 3 cm, é
dirigida para a captura da xira. A linha de mão é voltada para as capturas de robalos, piranhas
e piaus. A groseira, cada vez menos usada, é dirigida, principalmente, para a pesca de piranhas.
Rede de arrasto e vara e anzol, segundo os pescadores, não são utilizados na pesca comercial.
Soares et al. (2011) descrevem a composição das espécies desembarcadas na cidade
de Penedo, registrando 22 delas, dentre as quais predominaram a xira (percentual médio de
40%) e o piau (22%).
No presente trabalho, os principais recursos pesqueiros foram xira e piau, as principais
espécies capturadas pelos pescadores, seguidos por tucunaré, tilápia, piranha e camurim.
Segundo os pescadores, a xira está cada vez mais rara nas capturas. Piau cutia,
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

257

tubarana e surubim desapareceram. Segundo eles, os surubins ficam mais acima, em maiores
profundidades, perto da barragem de Xingó. Atualmente, estão capturando muitas espécies
do mar, como: carapeba, curimã, xaréu, robalo, camurim e camurupim.

Neópolis
O uso de redes de emalhar para pescar xira, tucunaré, piau, pilombeta e carapeba e de
linha de mão para piranha são os preferidos entre os pescadores. Robalos podem ser capturados
em ambos. Em seguida, aparentemente, jereré para a captura de camarões e piaba e vara e
anzol são os mais utilizados no município. Covos, sejam eles de tela de polietileno ou de
taliscas de taboca, têm o objetivo de capturar camarões. Tarrafas também foram mencionadas.
Além de algumas das espécies supracitadas, elas podem capturar tilápia, traíra e bagre.

Ilha das Flores

As redes de emalhar são, indiscutivelmente, os apetrechos dos pescadores de Ilha das
Flores, caracterizando uma pesca predominantemente comercial. As malhas 8 cm, 10 cm e
14 cm são dirigidas à pesca da carapeba e do robalo; a malha 2,5 cm relaciona-se à pesca da
pilombeta; as malhas 11 cm e 12 cm estão mais relacionadas à captura da xira e do bagre. A
linha de mão é usada para pescar xaréu, bagre e robalo e a isca mais utilizada é a pilombeta.
Chiqueiros, rede de arrasto e covos também são muito comuns entre os municípios de Ilha
das Flores.

Piaçabuçu
O município de Piaçabuçu é considerado o principal polo pesqueiro da região. Sua
pesca destaca-se pela diversidade, sendo realizada nas águas do estuário e da costa, mobilizada
pela diversidade de ambientes (salinos, estuarinos e dulciaquícolas) e alteração da salinidade.
É considerado o maior produtor pesqueiro de camarões marinhos e peixes de Alagoas. Cerca
de 2.500 pescadores são registrados na Colônia Z 19. No rio e no estuário, estima-se que
atuam 800 embarcações.
As redes de emalhar são os principais aparelhos de pesca, com destaque para as
redes para pilombeta, seguidas pelas redes para carapeba e robalo, cada uma com dimensões
e materiais específicos. A faina de pesca no rio tem a saída à noite e retorna de madrugada;
os que pescam no mar saem e passam o dia todo.
Também são encontradas na região grosseiras para bagre e tubarão, covo, jereré (para
a pesca de camarão miúdo) e a linha de mão e tarrafa.
Em Piaçabuçu, a principal espécie capturada pelos pescadores entrevistados é a
pilombeta. No entanto, os dados levantados na região indicam quedas nas capturas da
pilombeta. Um dos recursos que chegou a representar cerca de 18% das capturas na mesorregião
de Penedo, equivalendo à terceira espécie mais capturada (Soares et al., 2011), praticamente
desapareceu da região e, como possíveis causas, a pouca vazão do rio e elevados índices
de contaminantes provenientes de esgotos das cidades podem ter contribuído para essa
diminuição. Assim como observado nos outros municípios, os pescadores relataram queda
nas capturas de xira e piau e demais espécies do rio, e aumento nas capturas de siris e espécies
do mar, como curimã (Mugil sp.), carapeba, robalo e camuripim.
Os peixes de água doce só aparecem quando ocorre uma grande chuva. Em 2000, a

258

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

água era doce ainda, havia muita pilombeta, realizavam-se lances de rede que capturavam
cerca de 300 kg. O peixe mandi faz 15 anos que não aparece, assim como o surubim: todos
desaparecidos. Os pescadores informaram que as áreas, tanto do rio como do estuário, não
foram atingidas pelo desastre do óleo.
Uma pesca boa no rio é quando capturam de 20 kg a 30 kg; no inverno, podem
capturar até 80 kg.
Adicionalmente, os entrevistados relataram algumas modalidades de pescaria que
prejudicam a ictiofauna e contribuem com a sobrepesca dos principais estoques, tais como:
pesca de batida, arrasto, arpão, rede de cerco ou lambuda (malha inferior à permitida pelos
órgãos ambientais), além de competição com pescadores de outras regiões, implantação de
cooperativa, necessidade de capacitação em mecânica e manutenção de motores e cuidados
com o descarte adequado de óleo dos motores das embarcações de maior porte, exigindo para
o sucesso da atividade, medidas protetivas de espécies com aumento da fiscalização. Ações
para conter roubos, drogas e violência nas comunidades de pescadores e diminuição com
atrasos no pagamento no seguro-defeso foram citadas como empecilhos para a atividade de
pesca em Piaçabuçu.
Há registros de atividades oficiais esporádicas de peixamento no rio, porém, essas ações
estão muito aquém do mínimo necessário para que se permita recompor a fauna piscosa do
rio, bem como seu equilíbrio ambiental. Com o agravamento do assoreamento e a redução da
vazão do rio nos últimos anos, têm aumentado os problemas ambientais e, consequentemente,
reduzido a disponibilidade de peixes, tanto em número quanto em relação à quantidade de
espécies existentes e que povoam o rio.

Brejo Grande
Brejo Grande é o município mais inserido nas águas estuarinas e é comum encontrar
uma grande variedade de espécies nessa área, devido à presença de peixes de água doce e
água salgada, peixes anádromos e peixes diádromos. Isso ocorre pelas características físicoquímicas das águas da região, que proporcionam ótimas condições para diversas espécies
alimentarem-se e reproduzirem-se.
As principais comunidades pesqueiras de Brejo Grande são Saramém, Centro
e Cabeço. O município sofreu mudanças bruscas com relação a dinâmicas das marés,
geomorfologia do litoral, dimunuição da vazão, invasão da cunha salina e alterações de trechos
do rio e, consequentemente, na pesca. A comunidade do Cabeço foi obrigada a migrar, em
grande parte para o Saramém, devido ao avanço do mar.
Segundo Souza e Leitão (2000), as técnicas de captura mais empregadas no povoado
Saramém são: caceia de pilombeta, rede de carapeba e operação manual (técnica de coleta
do caranguejo).
No presente trabalho, as redes de emalhar foram o aparelho de pesca predominante.
As redes são operadas para capturar pilombeta, xira, piau, traíra e tucunaré. As malhas variam
entre 2 cm e 14 cm.
A pesca com linha de mão foi a segunda mais mencionada. Os pescadores a utilizam
para a captura de carapeba, mandi e bagre.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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REFERÊNCIAS
BARBOSA, J.M.; SOARES, E.C.S. Perfil da ictiofauna da Bacia do São Francisco: estudo
preliminar. Revista Brasileira de Engenharia de Pesca, v. 4, p. 155-169, 2009.
COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO SÃO FRANCISCO. Plano
de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco. Salvador:
ANA,GEF,PNUMA,OEA, 2004.
GODINHO, H. P.; GODINHO, A. L. (Org.). Águas, Peixes e Pescadores do São Francisco
das Minas Gerais. Belo Horizonte: PUC Minas.
SATO, Y.; H. P. GODINHO. Migratory fishes of the São Francisco River. p. 199-232. In:
CAROLSFELD, J. B.; HARVEY, C. ROSS; BAER, A. (Eds.). Migratory fishes of South
America: biology, fisheries, and conservation status. Victoria: World Fisheries Trust, IDRC,
World Bank, 2003.
SOARES, E. C. et al. Ictiofauna e Pesca no Entorno de Penedo, Alagoas. Revista Biotemas, v.
24, n.1, p. 61-67, 2011.
SOUZA, M. R. M. DE.; NEUMANN LEITÃO, S. Consequências Socioeconômicas dos
Impactos Antrópicos no Estuário do Rio São Francisco em Brejo Grande, Sergipe-Brasil.
Trabalhos Oceanográficos da Universidade Federal de Pernambuco, v. 28, n.1, p. 97- 116,
2000.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

HYGIENIC-SANITARY ASPECTS OF FISH MARKETS
IN SEVEN MUNICIPALITIES IN ALAGOAS
Tereza Iracema Reis Simões
Jhennipher da Silva Pereira

Juliett de Fátima Xavier da Silva

SUMMARY
The present study aimed to report the hygienic and sanitary quality of fish marketed at
free fairs and public markets in the Municipalities of Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto
Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo, and Piaçabuçu - AL. For this purpose, Check-List
questionnaires were applied based on the current legislation, and 39 free fair vendors were
interviewed. The quality index method - QIM was used to evaluate organoleptic characteristics
and fish freshness. Of the total respondents, 59% were male, and 41% were female, with an
average of 45 years of age; 58% were married, with a family composed of 2 to 10 members.
The vendors have an average of 20.6 years in the trade; 34.2% work exclusively with the sale
of fish, and 68% receive benefits from the government. Low schooling is a common feature.
The most commercialized species are curimatã (Prochilodus argenteus), corvina (Micropogonias
furnnier), tilapia (Oreochromis niloticus), piau (Leporinussp.), tambaqui (Colossoma macropomum),
and river shrimp (Macrobrachiumspp.). The research identified hygienic-sanitary problems in
free fairs and markets, such as the poor conditions of stalls, equipment and utensils; merchants
with inappropriate clothing and handling practices; and products marketed at inadequate
temperature and storage. Thus, fairs have inappropriate structures for marketing, triggering
agents that directly interfere in the good quality of fish, being therefore of paramount
importance the adequacy of the facilities and the correct handling and supply of fish.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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CAPÍTULO 15
ASPECTOS HIGIÊNICO-SANITÁRIOS DA
COMERCIALIZAÇÃO DE PESCADO EM SETE
MUNICÍPIOS DE ALAGOAS
Tereza Iracema Reis Simões72
Jhennipher da Silva Pereira73

Juliett de Fátima Xavier da Silva74
INTRODUÇÃO
As feiras livres são apontadas como um dos principais espaços de comercialização
varejista, devido às variadas formas de apresentação como o produto é disponibilizado para
a venda ( JESUS; SANTOS; CARVALHO, 2018).
No Brasil, as feiras livres foram introduzidas pelos portugueses durante o período
colonial, sendo o modelo de mercado periódico mais antigo e tradicional do País, exercendo
grande importância no desenvolvimento econômico, social e cultural (SILVA JUNIOR;
FERREIRA; FRAZÃO, 2017).
Existe uma preferência do consumidor pelas feiras livres e mercados públicos devido
à oferta de produtos com um preço mais acessível, e devido ao conceito de que os alimentos
ali comercializados são sempre frescos e de qualidade superior (SILVA JÚNIOR et al., 2017),
incluindo o pescado fresco, condição preferencial pela maioria dos consumidores ( JESUS
et al., 2018).
Entretanto, vale ressaltar que, nesses centros de comercialização, os produtos estão
expostos a várias situações que propiciam a sua contaminação, dentre as quais podem ser
citadas: a contaminação por meio de manipulação inadequada, exposição dos produtos
em bancas e barracas sem refrigeração e sem proteção contra insetos, bem como o seu
acondicionamento e armazenamento em condições inapropriadas, tornando-se um ambiente
propício para incorporar externamente materiais estranhos de origem biológica ou não (SILVA
JÚNIOR et al., 2017), o que pode refletir diretamente na saúde do consumidor.
Os problemas de saúde ocasionados pelo consumo de pescado quase sempre estão
relacionados a práticas inadequadas de armazenamento e comercialização, em feiras livres
ou mercados municipais, devido ao não cumprimento do trinômio tempo, temperatura e
higiene, razão pela qual a segurança alimentar vem ganhando espaço e atenção global, face à
ocorrência de doenças veiculadas por alimentos (EVANGELISTA-BARRETO et al., 2017).
Segundo o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem
Animal (Riispoa) (2017), subseção VI, art. 205, entende-se por pescado os peixes, os
crustáceos, os moluscos, os anfíbios, os répteis, os equinodermos e outros animais aquáticos
Laboratório de Tecnologia do Pescado (Latepe), Universidade Federal de Alagoas, Campus Arapiraca,
Unidade Penedo, Penedo, AL, Brasil.
73
Laboratório de Tecnologia do Pescado (Latepe), Universidade Federal de Alagoas, Campus Arapiraca,
Unidade Penedo, Penedo, AL, Brasil.
74
Laboratório de Tecnologia do Pescado (Latepe), Universidade Federal de Alagoas, Campus Arapiraca,
Unidade Penedo, Penedo, AL, Brasil.
72

usados na alimentação humana. O pescado é um alimento de excelente valor nutritivo,
devido às suas proteínas de alto valor biológico, vitaminas e ácidos graxos insaturados
(EVANGELISTA-BARRETO et al., 2017). Entretanto, é um alimento bastante perecível,
por ser muito suscetível à autólise; à oxidação de gorduras; à ação bacteriana; por apresentar
pH próximo à neutralidade; elevada atividade de água nos tecidos e alto teor de nutrientes
facilmente utilizáveis pelos microrganismos (OGAWA; MAIA, 1999). Dentre as alterações
que caracterizam a deterioração do pescado estão aquelas relacionadas às características
organolépticas do pescado fresco. Por essa razão, necessita de condições sanitárias adequadas
desde a captura, manipulação até a comercialização.
Desse modo, a aplicação de métodos que investiguem a qualidade de produtos
pesqueiros comercializados em feiras livres/mercados públicos proporciona levantamentos
de informações para o setor, tais como problemas, dificuldades e desafios. Esse tipo de
informação é de grande importância para se ofertar produtos de boa qualidade, saudáveis e
seguros aos consumidores, principalmente por serem ofertados frescos. Por esses motivos,
o objetivo deste trabalho foi avaliar a condição higiênico-sanitária de sete feiras livres em
municípios do Baixo São Francisco.

Coleta de dados
O presente trabalho foi desenvolvido nos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar,
Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu (Figura 98), no período
de 17 a 27 de novembro de 2019. A pesquisa foi exploratória e fundamentou-se em análise
qualitativa e investigativa, por meio da observação e avaliação da realidade. Para tanto, foram
elaborados questionários do tipo Check-List adaptados da:
- Portaria nº 368, de 04 de setembro de 1997, do Ministério da Agricultura Pecuária
e Abastecimento (BRASIL, 1997), que regulamenta as normas das condições higiênicosanitárias e da avaliação da estrutura física de comercialização do pescado, sendo avaliados os
seguintes itens: Condições Ambientais e Edificações, Condições Higiênicas dos Utensílios
e Equipamentos, Perfil dos Manipuladores, Condições do Pescado e Destino dos Resíduos
Orgânicos (lixo);
- Portaria nº 326, de 30 de julho de 1997, da Secretaria de Vigilância Sanitária do
Ministério da Saúde (BRASIL, 1997), que dispõe sobre o Regulamento Técnico Sobre as
Condições Higiênico-Sanitárias e de Boas Práticas de Fabricação para Estabelecimentos
Produtores/Industrializadores de Alimentos.
- Portaria nº 185, de 13 de maio de 1997, do Ministério da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento (BRASIL, 1997). Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de
Peixe Fresco.
- Resolução RDC nº 275, de 21 de outubro de 2002 (BRASIL, 2002), que dispõe
sobre o Regulamento Técnico de Procedimentos Operacionais Padronizados Aplicados
aos Estabelecimentos Produtores/Industrializadores de Alimentos e a Lista de Verificação
das Boas Práticas de Fabricação em Estabelecimentos Produtores/Industrializadores de
Alimentos;
- Resolução RDC nº 216, de 15 de setembro de 2004, da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (BRASIL, 2004), que dispõe sobre o Regulamento Técnico de Boas
Práticas para Serviço de Alimentação, e
- Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017 (BRASIL, 2017), do Ministério da
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

263

Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regulamenta a Lei nº 1.283, de 18 de dezembro
de 1950, e a Lei nº 7.889, de 23 de novembro de 1989. Inspeção industrial e sanitária de
produtos de origem animal. Diário Oficial da União, Brasília, 29 de março de 2017.
Tais questionários enfatizaram o recebimento e a exposição do pescado à venda, a
higiene do manipulador e dos materiais e utensílios, além da infraestrutura das instalações/
edificações.
Figura 98 - Locais da pesquisa: Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio,
Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu-AL

Fonte: Pereira (2019)

Os questionários foram aplicados durante a II Expedição do aixo Rio São Francisco,
nos dias em que ocorrem as feiras nos referidos municípios, avaliando os seguintes pontos:
perfil socioeconômico, aspectos gerais higiênico-sanitários, requisitos e aspectos higiênicos
dos funcionários e aspectos gerais sobre a comercialização. Para mensurar a temperatura, foi
utilizado termômetro infravermelho digital.
Para avaliar características organolépticas do pescado, utilizou-se o Método de Índice
de Qualidade (MIQ). Amostras de peixe foram avaliadas de acordo com o protocolo de
avaliação da corvina (Micropogonias furnieri) (adaptado de TEIXEIRA et al., 2009), sendo
avaliados os atributos: aspectos gerais, olhos e brânquias, com escala de pontuação (escores)
de 0 a 2 para cada atributo. Amostras de camarão foram avaliadas de acordo com o protocolo
de avaliação de Litopenaeus vannamei (adaptado de OLIVEIRA et al., 2009), sendo avaliados
os atributos: aroma, cor, melanose, aderência da carapaça e aderência ao corpo, com escala
de pontuação de 0 a 2 para cada atributo. O total de pontuação de cada protocolo variou
de 0 a 22 (limite de aceitabilidade) para peixes e de 0 a 10 (limite de aceitabilidade) para
camarão, considerando a menor pontuação (zero) para o pescado fresco e a partir de 22 pontos
(peixe) ou 10 pontos (camarão), para estado de deterioração ou deteriorado, impróprio para
a comercialização.

264

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Para a análise dos dados, foi utilizada estatística descritiva qualitativa e quantitativa,
utilizando o Programa Microsoft Excel 2016®.

Perfil Socioeconômico
Os dados sobre feirantes envolvidos com a comercialização de pescado são deficientes
e não mantêm atualização ordenada. Para potencializar a expectativa de sucesso na organização
de políticas públicas habilitadas em melhorar as condições de trabalho dos feirantes, é
primordial que se tenha conhecimentos seguros sobre a cadeia produtiva e os trabalhadores
envolvidos. Portanto, faz-se essencial ter elementos e informações sobre as características
socioeconômicas, assim como a caraterização dos aspectos higiênico-sanitários das feiras,
para entender seus anseios e perspectivas de melhorias na atividade.
Foram entrevistadas, ao todo, 39 pessoas que desenvolvem alguma atividade relacionada
com a venda de pescado (Figura 99), das quais 59% eram do sexo masculino e 41% do sexo
feminino (Figura 100), sendo um homem e três mulheres em Piranhas, seis homens e duas
mulheres em Pão de Açúcar, quatro homens e duas mulheres em Traipu, cinco homens e
uma mulher em Porto Real do Colégio, três homens e duas mulheres em Igreja Nova, um
homem e três mulheres em Penedo e um homem e cinco mulheres em Piaçabuçu, esta última
mais associada ao beneficiamento do pescado (Figura 101). Esses resultados corroboram
com os dados obtidos por Jesus et al., (2018) nas feiras livres do município de Santana-BA,
demonstrando que o tipo de atividade é mais exercido pelo sexo masculino.
Figura 99 - Coleta de informações qualitativas em entrevistas com os feirantes de Igreja
Nova-AL (A, B) e Traipu (C).
A

B

C

Fonte: Muniz (2019).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

265

Figura 100 - Divisão por sexo de feirantes de pescado nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu-AL

Fonte: Pereira (2019)

Figura 101 - Atividade do processamento de filetagem do camarão espigão (Xiphopenaeus
kroyeri) em Piaçabuçu-AL.

Fonte: Simões (2019).

A atividade de feirante ocupa jovens e idosos com idade entre 18 e 72 anos. A
média contabilizando ambos os sexos é de 45 anos, idade que compreende a faixa etária
de 41 a 51 anos, representando 26,2% dos entrevistados; porém, a faixa etária entre 52 e
62 anos representa 28,95% dos entrevistados (Figura 102). Resultados semelhantes foram
apontados por Jesus et al. (2018), em que pessoas com idade acima de 45 anos foram mais

266

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

representativas nas feiras livres do município de Santana-BA, indicando que a maioria dos
feirantes são adultos.
Figura 102 - Faixa etária dos feirantes de pescado dos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu-AL.

Fonte: Pereira (2019).

Outra característica é o elevado índice de baixa escolaridade. Apenas 26,3% possuem
o ensino médio completo, 47,4% possuem o fundamental incompleto, 13,2% o médio
incompleto, 7,9% não são alfabetizados e 2,6% possuem nível superior e técnico (Figura 103).
Quanto à escolaridade, esses resultados contrastam com os dados obtidos por Jesus
et al. (2018), de que quase metade dos participantes declararam que possuíam ensino médio
completo e os demais enquadravam-se nas outras categorias de escolaridade.
Figura 103 - Escolaridade dos feirantes de pescado nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu-AL.

Fonte: Pereira (2019).
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

267

Do total dos feirantes, 44,7% estão envolvidos na atividade por falta de opção, 44,7%
por influências dos pais e 10,5% por outros motivos (Figura 104), o que demonstra uma
estagnação de grande parte desses trabalhadores e uma falta de perspectiva de mudanças.
Figura 104 - Motivos para ingressar na atividade de comercialização do pescado.

Fonte: Pereira (2019).

Os feirantes possuem, em média, 20,6 anos de serviço; 34,2% trabalham exclusivamente
com a venda do pescado, porém, devido à necessidade de complementar a renda familiar,
alguns possuem outras fontes de renda; 7,9% recebem aposentadoria; 15,8% trabalham na
pesca; 10,5% recebem o seguro defeso; 5,3% trabalham com processamento do pescado e
26,3% realizam outros serviços (Figura 105). Por outro lado, Jesus et al. (2018) descreveram
que 75,6% dos entrevistados declararam que a principal fonte de renda é oriunda da venda
do pescado e apenas 24,35% declaram fazer outras atividades, não relacionadas ao trabalho
em feiras livres.
Figura 105 - Porcentagem de outras fontes de renda dos feirantes de pescado nos municípios
de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova,
Penedo e Piaçabuçu-AL.

Fonte: Pereira (2019).

268

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Em relação ao estado civil, 58% são casados, com família composta por 2 a 10
membros; 29% são solteiros e 13% mantêm outros tipos de relacionamento. Essas famílias
sofrem impacto considerável dos programas de transferência de renda, uma vez que 68% de
todos os entrevistados afirmaram que recebem algum tipo de benefício do governo (Figura
106).
Figura 106 - Porcentagem dos feirantes de pescado nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu-AL
que recebem algum benefício governamental.

Fonte: Pereira (2019).

Aspectos higiênico-sanitários/instalações das feiras livres
Quanto aos aspectos gerais do ambiente da feira, não foram observadas instalações
sanitárias em 100% delas, mesmo parte do comércio, sendo este realizado em mercados
públicos.
A disponibilidade de água utilizada pelos feirantes foi constatada em todas as bancas,
porém apenas Piranhas, Pão de Açúcar, Porto Real do Colégio, Igreja Nova e Penedo possuíam
água potável, enquanto em Traipu e Piaçabuçu os feirantes utilizavam água do rio. Em todas
as feiras, o mesmo recipiente de água (balde) era destinado à limpeza do pescado, de utensílios
e das mãos. Essa condição dificulta a higienização dos manipuladores, equipamentos e
produto. Além disso, o compartilhamento de um único recipiente de água para o uso durante
a comercialização do pescado é uma ação que possibilita a contaminação cruzada e, portanto,
traz risco à saúde do consumidor. A falta de organização e de higiene nas bancas de pescado
foi observada em todos os locais amostrados, inclusive os feirantes manipulavam o pescado
e dinheiro ao mesmo tempo. A RDC nº 216 (BRASIL, 2004) preconiza que a higienização
das mãos dos manipuladores deve ocorrer antes e após o início das atividades, depois da
interrupção da manipulação e quando se julgar necessário.
Verificou-se que 15,8% das vias de acesso às feiras são de solo de barro e 84,2% são
pavimentadas (Figura 107), sem limitação de acesso, apenas com circulação de pessoas e
alguns ciclistas. Existem instalações elétricas em apenas 57% das feiras (Piranhas, Igreja Nova,

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

269

Penedo e Piaçabuçu), porém, com iluminação sem proteção, oferecendo risco de acúmulo de
sujidade e quebras acidentais.
Frequentemente, a comercialização nas feiras livres é feita de maneira improvisada,
sem edificação apropriada, apresentando inconformidades que promovem a deterioração
do pescado e a contaminação cruzada, facilitando a veiculação de doenças transmitidas
por alimentos (SILVA JUNIOR et al., 2017; EVANGELISTA-BARRETO et al., 2017).
Ressalta-se que a adequação e a manutenção destes espaços públicos são de responsabilidade
do poder público (SILVA JUNIOR et al., 2017).
Figura 107 - Adequação das feiras livres às vias de acesso.

Fonte: Pereira (2019).

Em relação à conduta pessoal, 100% dos feirantes mantinham as unhas aparadas, as
mulheres mantinham os cabelos presos e os homens, os cabelos curtos. Segundo a RDC nº
216 (BRASIL, 2004), os manipuladores de alimentos devem estar com as mãos higienizadas
corretamente, unhas curtas, sem esmalte ou base, e completamente sem adornos e maquiagem
(SILVA JÚNIOR et al., 2017).
O uso da vestimenta está apresentado na Figura 108 e demonstra que 59% dos
feirantes não usam nenhum equipamento de uso pessoal (EPI); apenas 16% usam avental
(Figura 109); 5% usam botas; 3% usam avental e botas; 3% usam avental e boné; 3% usam
avental, touca e oculos; 3% usam boné, e 3% usam luvas. As más condições, como vestuário
e utensílios inapropriados, fragiliza a comercialização do pescado.

270

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 108 - Equipamentos de uso individual (EPI) utilizados pelos feirantes de pescado
nos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio,
Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu-AL.

Fonte: Pereira (2019).

Figura 109 - Uso de avental pela feirante no município de Penedo-AL.

Fonte: Albuquerque (2019).

Os feirantes adquirem o pescado de aquicultores ou pescadores da região de forma
irregular, pois 31,0% são recebidos in natura, em sacos de nylon reaproveitados, em temperatura
ambiente, e toda a pesagem e separação são feitas no chão; 29,0% são recebidos frescos, ou
seja, acondicionados em gelo; 29,0% congelados e 11,0% salgados e secos (Figura 110).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

271

Percebe-se que, durante o recebimento, grande parte do pescado não é acondicionado em
gelo, podendo causar deterioração dos produtos.
Figura 110 - Natureza do pescado recebido pelos feirantes nos municípios de Piranhas, Pão
de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e PiaçabuçuAL.

Fonte: Pereira (2019).

A Resolução da Anvisa RDC nº 216 (BRASIL, 2004) preconiza que a recepção
da matéria-prima deve ser realizada em área protegida e limpa. Já a Portaria SVS/MS nº
326 (BRASIL, 1997) determina que devem ser utilizados controles adequados para evitar
a contaminação química, física, microbiológica ou por outras substâncias indesejáveis.
Também devem ser tomadas medidas de controle com relação à prevenção de possíveis danos,
colaborando para o auxílio contra o contágio das matérias-primas e danos à saúde pública.
Com relação aos equipamentos e utensílios, em nenhum dos pontos de comercialização
utilizavam-se caixas isotérmicas novas, limpas e em bom estado de conservação. A Figura 111
mostra como o pescado era comercializado nas feiras: 79% estavam expostos em mesas de
madeira, às vezes cobertas por toalhas de plástico; 13% em caixas isotérmicas sem gelo; 3%
em bandejas plásticas sem gelo e 5% sobre superfícies não apropriadas (Figura 112), expostos
sem conservação em gelo e sem proteção, estando sujeitos ao contato com vetores, sujidades,
manuseio dos consumidores e outras possíveis fontes de contaminação.
A Portaria SVS/MS nº 326 (BRASIL, 1997) determina que todo equipamento e
utensílio utilizado nos locais de manipulação de alimentos devem ser confeccionados de
material que não transmita substâncias tóxicas, odores e sabores; que sejam não absorventes e
resistentes à corrosão e capazes de resistir a repetidas operações de limpeza e desinfecção. As
superfícies devem ser lisas e isentas de rugosidade, frestas e outras imperfeições que possam
comprometer a higiene dos alimentos e ser fontes de contaminação.

272

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 111 - Pescados expostos à venda. A: Porto Real do Colégio-AL; B: Igreja Nova-AL;
C: Pão de Açúcar-AL; D: Penedo-AL.

Fonte: Simões (2019).

Figura 112 - Formas de exposição do pescado comercializado nos municípios de Piranhas,
Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e
Piaçabuçu-AL.

Fonte: Pereira (2019).

Durante a comercialização, 5,3% do pescado eram armazenados em caixas plásticas
vazadas sem gelo; 47,4% em caixa isotérmica sem gelo; 39,5% em caixa isotérmica com gelo
e apenas 7,9% levavam o pescado para sua residência ou para local de processamento (Figura
113), onde eram congelados a -20°C, em freezer doméstico (Figura 114).

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

273

Figura 113 - Tipos de armazenamentos do pescado comercializado nos municípios de
Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo
e Piaçabuçu-AL.

Fonte: Pereira (2019).

Figura 114 - Armazenamento do pescado no município de Piaçabuçu-AL.

Fonte: Simões (2019).

A Figura 115 mostra a mensuração da temperatura de peixes mantidos em caixa
plástica vazada (A), com média de 25,2°C ± 3,8°C e camarões mantidos em caixa isotérmica
com gelo (B), com média de 5,2°C ± 2,5°C, porém de forma superficial, ou seja, inadequada.

274

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 115 - Mensuração da temperatura do pescado com termômetro infravermelho.

Fonte: Xavier da Silva (2019).

Quanto à temperatura, o Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos
de Origem Animal (Riispoa) define como pescado “fresco” aquele que não foi submetido a
qualquer processo de conservação, a não ser pela ação do gelo. Ainda de acordo com o Riispoa,
o gelo utilizado na conservação do pescado deve ser produzido a partir de água potável ou
de água do mar limpa. Assim, a redução da temperatura do pescado é um fator importante
na manutenção da sua qualidade (ARAÚJO et al., 2015), pois reduz a proliferação de
microrganismos e resguarda suas características sensoriais e nutricionais (EVANGELISTABARRETO et al., 2017).
Portanto, o pescado in natura deve estar sempre acondicionado em caixas térmicas,
recoberto por gelo, de preferência em escamas, permanecendo assim durante todo o tempo
de exposição para venda, sendo isso o suficiente para assegurar a temperatura próxima ao
ponto de fusão do gelo na parte mais interna do músculo (PORTARIA MAPA nº 185,
1997). Ou pode estar no interior de expositores refrigerados, acondicionado em recipientes
plásticos de fácil limpeza e higienização.
As espécies de pescado mais comercializadas nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova Penedo e Piaçabuçu-AL são demostradas
na Tabela 41:

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

275

276

30,00

10,00

10,00

8,00

Camarão de
rio salgado e
seco

Camarão de
rio in natura

Cascudo

Corvina

-

Tucunaré

-

-

Traíra

Tilápia

11,00

9,00

Piau

Piranha

Pacu

Curimatã

Corvina

seco

salgado e

de rio –

Camarão

Acará

Pescado

-

10,00

10,00

4,00

10,00

5,00

16,00

13,00

30,00

10,00

R$/
kg

PÃO DE
AÇÚCAR

8,00

9,00

5,00

Acará

Piau
Pirambeba
Tilápia

R$/
kg

Pescado

PIRANHAS

-

-

-

-

-

Tilápia

qui

Tamba-

cu

Tamba-

Cari

Bagre

Pescado

-

-

-

-

-

9,00

9,00

7,00

8,00

15,00

R$/
kg

TRAIPU

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

9,00
9,00
-

8,00

8,00

9,00

10,00

9,00

10,00

12,00

12,00

14,00

Curimatã

Tambaqui
Tilápia
Traíra

Sardinha

Piau

Merluza

salgada e seca
Manjuba

Curimatã

Corvina

Cavalinha

seco

salgado e

rio –

Pescado

Camarão de

R$/kg

IGREJA NOVA

Fonte: Xavier da Silva (2019).

qui
Tilápia
Tucuna-ré
-

Tamba-cu
Tamba-

Piranha

Piaba

Piau

Pescada

Panga

Curima-tã

Corvina

Pescado

PORTO
REAL DO
COLÉGIO

10,00
8,00

8,00

10,00

15,00

4,00

16,00

15,00

14,00

12,00

30,00

R$/
kg

-

-

-

-

-

-

-

Tilápia

baqui

Tam-

Pescado

PENEDO

-

-

-

-

-

-

-

10,00

8,00

R$/
kg

-

-

-

-

-

Pescada

rosa

camarão

Filé de

espigão

camarão

Filé de

Corvina

Pescado

PIAÇABUÇU

-

-

-

-

-

10,00

45,00

20,00

10,00

R$/
kg

Tabela 41 - Preço médio (R$) e espécies (nomes vulgares) comercializadas nos municípios
de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova,
Penedo e Piaçabuçu-AL.

Dentre as espécies de peixes mais valorizadas, destacam-se a curimatã (Prochilodus
argenteus), a corvina (Micropogonias furnier), a tilápia (Oreochromis niloticus), o piau (Leporinus
sp.), o tucunaré (Cichla ocellaris) e o tambaqui (Colossoma macropomum), com uma média de
preço de R$ 14,33; R$ 11,80; R$ 9,60; R$ 9,25; R$ 9,00 e R$ 8,25, respectivamente. Em
Piaçabuçu, comercializa-se em maior quantidade o filé de camarão espigão (Xiphopenaeus
kroyeri) e o rosa (Farfantepenaeus sp.), com valores de R$ 20,00 e R$ 45,00, respectivamente.
Apenas em Porto Real do Colégio vende-se panga (Pangasius spp.), com preço de R$ 12,00.
Em Piranhas, Pão de Açúcar e Igreja Nova, vende-se camarão de rio (Macrobrachium spp.)
salgado e seco, com preço médio de R$ 30,00. Este último município também é o único que
comercializa curimatã salgada e seca por R$ 16,00 e merluza (Merluccius spp.) por R$ 12,00.
As espécies menos valorizadas são o pacu (Piaractus mesopotamicus) e a manjuba (Anchoviella
sp.), comercializadas por R$ 5,00 e R$ 4,00, respectivamente. De todas as espécies, a tilápia,
o tambaqui e a curimatã são as que representaram o maior quantitativo semanal de vendas,
com média de 356,66 kg, 272,50 kg e 70 kg vendidos por semana, respectivamente.
Os peixes comercializados corroboram com as espécies nativas da bacia do rio São
Francisco descritas por Barbosa, Soares, Cintra, Hermann e Araújo (2017), como as curimatãs
(Prochilodus spp.), matrinxãs (Brycon spp.), piaus (Leporinus spp.), traíras (Hoplias spp.),
cascudo-preto (Rhinelepis aspera), corvinas (Pachyurus francisci e P. squamipinnis) e piranhas
(Pygocentrus piraya). Segundo os autores, essas espécies expressam relevância na pesca e na
alimentação humana.
Dentre as espécies alóctones de outras bacias hidrográficas brasileiras e de outros
países, também descritas por Barbosa et al. (2017), o tucunaré (Cichla spp.), a pescada-doPiauí (Plagioscion squamosissimus), a tilápia (Oreochromis niloticus), o tambaqui (Colossoma
macropomum), o pacu-caranha (Piaractus mesopotamicus) e o bagre-africano (Clarias gariepinnus)
também são comercializados nas feiras.
No que se refere aos camarões vendidos em Piaçabuçu, são de origem da pesca
camaroneira motorizada, principalmente o camarão-sete-barbas (Xiphopenaeus kroyeri) e o
camarão-rosa (Farfantepenaeus subtilis e Farfantepenaeus brasiliensis) (SANTOS; BRANCO;
BARBIERI, 2013).
Quanto ao tipo de beneficiamento realizado na comercialização do pescado, 34%
eram eviscerados e cortados em posta; 26% eram processados em filé; 5% salgados e secos e
apenas 1% permaneciam inteiros, porém descamados (Figura 116).
Figura 116 - Formas de beneficiamento do pescado nos municípios de Piranhas, Pão de
Açúcar, Traipu, Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu-AL.

Fonte: Pereira (2019)
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

277

O peixe era manipulado, na maioria das vezes, em mesas de madeira, cortados com
facas, facões e cepos (apoio em madeira para o processamento do pescado) (Figura 117). As
escamas eram retiradas com descamadores e todos os feirantes embalavam o produto em
sacos plásticos.
A ausência de infraestrutura apropriada, atrelada às inconstâncias avistadas, pode estar
servindo como meio de contaminação microbiana aos pescados comercializados, indicando
um risco sanitário para o consumidor que escolhe pela mercadoria desses produtos nos locais
estudados (SILVA JÚNIOR et al., 2017), sendo, portanto, imprescindíveis a limpeza e a
sanitização dos utensílios e das superfícies de todo o ambiente.
Fatores como tempo de armazenagem, temperatura imprópria, manipulação e
processamento com higiene inadequada podem favorecer a proliferação de microrganismos.
Esses fatores podem estar presentes em toda a cadeia de produtiva, desde a captura ou
despesca, passando pelo processamento e pela comercialização, até a mesa do consumidor,
tornando-se um risco para a saúde.
Figura 117 - Cepo (apoio em madeira para o processamento do pescado).

Fonte: Simões (2019).

O Método do Índice de Qualidade (MIQ) consiste em um método de gradação
para estimar o frescor e a qualidade dos pescados e tem se mostrado rápido e eficiente
para muitas espécies de peixes e camarão (YAMADA; RIBEIRO, 2015). No presente
trabalho, o esquema do MIQ desenvolvido para peixe e camarão inteiro obteve uma
soma total dos pontos no valor 22 e 10, respectivamente, descrevendo atributos de
aspectos gerais, olhos e brânquias para peixes e aroma, cor, melanose, aderência da
carapaça e aderência ao corpo para camarão. A soma total dos escores do MIQ originou
o Índice de Qualidade (IQ), em que o valor zero, ou próximo a zero, representa o
pescado recém-capturado/despescado, ou seja, de melhor qualidade sensorial quanto
ao frescor. Pressupõe-se, no MIQ, que os escores para todos os atributos de qualidade
aumentem com o tempo de estocagem (dias) em gelo; porém, neste caso, o MIQ foi
pontuado unicamente em cada feira, em um único dia e com o pescado exposto em
temperatura ambiente. Os valores médios encontrados do MIQ do peixe e do camarão

278

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

foram 4,31 e 4,54, respectivamente (Tabelas 42 e 43). Esses resultados indicam que o
pescado já não se encontrava com as características organolépticas de pescado fresco,
porém estava dentro do limite de índices de qualidade aceitáveis para o consumo
humano, com variação de 0 a 6 para camarão inteiro (OLIVEIRA et al., 2009) e de
0 a 8 para peixe (TEIXEIRA et al., 2009). Para uma melhor análise da qualidade
do pescado, as avaliações sensoriais, como o método de índice de qualidade, são
associadas a avaliações microbiológicas e físico-químicas. De acordo com Yamada e
Ribeiro (2015), a garantia de qualidade requer a inspeção de toda a cadeia produtiva,
incluindo informações de temperaturas de estocagem e tempo decorrido de captura/
despesca, sendo a avaliação do frescor um ponto crítico na produção dos pescados.
Tabela 42 - Valores médios para os atributos de qualidade avaliados pelo esquema do MIQ
para peixe inteiro exposto em temperatura ambiente.
Atributos

Aspectos gerais

Olhos
Brânquias
Índice de

Escore

Aspecto
superficial
Muco
Rigidez
Firmeza da pele
Escama
Transparência
Pupila
Forma
Cor
Forma
Odor

Qualidade

Pontuação (média das
feiras)

0-2

0,03

0-2
0-2
0-2
0-2
0-2
0-2
0-2
0-2
0-2
0-2

0,28
0,69
0,59
0,69
0,03
0,37
0,27
0,34
0,21
0,86

0-22

4,31

Fonte: Xavier da Silva (2019).

Tabela 43 - Valores médios para os atributos de qualidade avaliados pelo esquema do MIQ
para camarão inteiro exposto em temperatura ambiente.
Atributos
Aroma
Cor
Melanose
Aderência da carapaça
Aderência da cabeça ao
corpo
Índice de qualidade

Escore
0-3
0-1
0-2
0-2

Pontuação (média das feiras)
0,98
0,76
0,8
1,0

0-2

1,0

0-10

4,54

Fonte: Xavier da Silva (2019).

Após o beneficiamento do pescado, os resíduos eram descartados no chão, facilitando a
atração de pragas como insetos e roedores, vetores de enfermidades, ou de animais domésticos
que circulam livremente entre feirantes e consumidores. Ao final, as bancas eram lavadas
apenas com água, os resíduos eram varridos do chão e depositados em cestos de lixo sem
tampa, para serem recolhidos pela equipe de coleta de lixo dos municípios, seguida de
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

279

lavagem das vias por carros-pipas. A Portaria SVS/MS nº 326 (1997) preconiza a remoção
das sujidades todas as vezes que sejam necessárias, no mínimo uma vez por dia, e que os
recipientes utilizados para o seu armazenamento que tenham entrado em contato com os
lixos devem ser limpos e desinfectados. Apesar de nenhum feirante nunca ter participado de
curso de capacitação sobre boas práticas de higiene, manipulação e beneficiamento do pescado,
todos demonstraram interesse. As capacitações são necessárias para a orientação da conduta
dos feirantes, sobretudo quanto à prevenção sobre as doenças transmitidas por alimentos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os aspectos higiênico-sanitários observados nas feiras livres e nos mercados
que comercializam pescado fresco nos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu,
Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piaçabuçu-AL indicam que os produtos
comercializados podem ofertar risco à saúde do consumidor, pois apresentam condições
impróprias e desconformes com alguns padrões para a manipulação de alimentos. Desta
forma, é imprescindível a utilização das boas práticas de manipulação, principalmente no
que diz respeito a uma administração que vistorie a organização de feiras/mercados e ao
cumprimento às normas sanitárias.
O Método de Índice de Qualidade (MIQ) demonstrou que o pescado estava dentro do
limite de índices de qualidade aceitáveis para o consumo humano; entretanto, são necessárias
análises físico-químicas e microbiológicas para um completo diagnóstico sobre qualidade do
pescado comercializado nestas feiras livres.
Para a afirmação da qualidade das mercadorias comercializadas nas feiras livres,
recomenda-se uma modificação completa da infraestrutura da feira, adaptando as instalações
às condições higiênico-sanitárias, como prevê a legislação brasileira; regulação do vestuário dos
manipuladores de alimentos; uso obrigatório de EPIs; emprego de utensílios e equipamentos
conforme as normas técnicas; controle severo de resíduos, vetores e pragas; realização de
cursos de capacitação que abordem o manuseio higiênico-sanitário e o beneficiamento de
pescados e fiscalização efetiva por parte da vigilância sanitária.

REFERÊNCIAS
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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

281

FAMILY FARMING IN THE LOWER SÃO
FRANCISCO: SOCIO-PRODUCTIVE PROFILE AND
FOOD SECURITY
Rafael Navas

Guilherme Netter

Emerson Fonseca de Oliveira Filho

SUMMARY
Family farming in the Lower São Francisco involves a diversity of individuals who
seek to ensure their survival by managing natural resources. Based on this diversity, the
present study seeks to characterize families in their socio-productive aspects and verify
the food security situation. Data collection occurred with the use of qualitative research
techniques. Family farming is represented by land reform settlers, small farmers, extractive
and artisanal fishers. It is evident that low schooling is prevalent among adults in all the
analyzed communities, especially men; also, there are no sewage treatment systems, and
residue collection is restricted. Access to water is one of the leading family problems, limiting
the development of productive activities, affecting food consumption. Consequently, food
insecurity predominates. Economic activities that seek coexistence with environmental
conditions, such as beekeeping and extractivism, have proved to be promising for rural
development, as well as access to government procurement programs. Artisanal fishing
is challenging to carry out due to environmental changes and species occurrence, with an
impact on family maintenance.

282

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 16
A AGRICULTURA FAMILIAR NO BAIXO SÃO
FRANCISCO: PERFIL SOCIOPRODUTIVO E
SEGURANÇA ALIMENTAR
Rafael Navas75

Guilherme Netter76

Emerson Fonseca de Oliveira Filho77
INTRODUÇÃO

O Baixo São Francisco caracteriza-se pelos grandes investimentos estatais e privados
direcionados, principalmente, para o setor hidrelétrico e para a modernização da agricultura,
com a criação de perímetros irrigados.
A região apresenta um conjunto diversificado de sistemas agrícolas, formados por
áreas ocupadas com cana-de-açúcar, arroz, milho, feijão e algodão, entre outras lavouras de
autoconsumo (NASCIMENTO et al., 2013). Destaca-se, também, pelos assentamentos
rurais, com produção de grãos, frutas, leite, hortaliças e criação de pequenos animais, dando
um bom exemplo da diversidade existente.
Esse fato evidencia ainda mais o papel fundamental que o rio São Francisco
desempenha no cotidiano das populações, com o desenvolvimento da agricultura e da
pecuária e o abastecimento humano, principalmente porque os principais rios que integram
as grandes regiões hidrográficas e que deságuam no Baixo São Francisco, em sua maior parte,
sofrem com o período de estiagem e não dispõem de águas em seus leitos permanentemente.
Nesse cenário, os dados apresentados nesta seção buscam caracterizar a agricultura
familiar nos aspectos socioprodutivos e segurança alimentar de famílias localizadas no Baixo
São Francisco.

DESENVOLVIMENTO
O trabalho de campo para coleta de dados
O trabalho de levantamento de dados ocorreu nos municípios percorridos pela
expedição científica, nos Estados de Alagoas e Sergipe, sendo: Piranhas, Traipu, Igreja Nova,
Porto Real do Colégio e Piaçabuçu, no Estado de Alagoas, e Neópolis no Estado de Sergipe.
Previamente à expedição, a equipe da Universidade Federal de Alagoas, juntamente com
o Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável de Alagoas (EMATER),
definiu os grupos e o contato prévio foi realizado, bem como a agenda de visitas.
As informações aqui apresentadas foram obtidas por meio de entrevistas
semiestruturadas com famílias de cada comunidade (realizaram-se entre 11 e 25 entrevistas
Professor da Universidade Federal de Alagoas – Centro de Ciências Agrárias. E-mail: rafael.navas@ceca.ufal.
br.
76
Graduando em Engenharia Florestal. E-mail: gnetter@msn.com.
77
Graduando em Agroecologia. E-mail: emersonvinil@yahoo.com.br.
75

em cada comunidade), identificando aspectos socioeconômicos, ambientais e produtivos.
Essa técnica é uma combinação de perguntas fechadas e abertas e, de acordo com Triviños
(1987), permite ao informante discorrer sobre suas experiências, a partir do foco principal
proposto pelo pesquisador, além de permitir respostas livres e espontâneas do informante.
Para o diagnóstico de segurança alimentar, foi utilizada a versão curta da Escala
Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), proposta por Santos et al. (2014).
No município de Neópolis-SE, visando à coleta de informações sobre a percepção de
ocorrência das espécies de pescados, utilizou-se adaptação da técnica de listagem livre, na qual
cada pescador/a foi estimulado a nomear as espécies que pesca/captura, independentemente da
finalidade, classificando-as como frequentes e raras/pouco comuns. Quando as pessoas listam
livremente, tendem a citar os termos em ordem de familiaridade e aqueles mais lembrados
indicam que são localmente mais proeminentes. Considera-se que as espécies mencionadas
com frequência indicam conhecimento comum entre os indivíduos ou consenso dentro de
um grupo (QUINLAN, 2005).

RESULTADOS
A produção de mel no Sertão alagoano como estratégia de desenvolvimento rural
O Projeto Arajuba
O Arajuba (significa mel da cor dourada) é um projeto de fortalecimento da apicultura
no Sertão de Alagoas, cuja proposta está relacionada às atividades que o Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desenvolve junto às áreas de assentamentos e
acampamentos, pensando no desenvolvimento produtivo, ambiental e econômico dessas
áreas, tendo a apicultura mostrado-se uma atividade possível e necessária, sobretudo na região
semiárida. O projeto no Alto Sertão alagoano está inserido nos municípios de Inhapi, Mata
Grande, Delmiro Gouveia, Olho d’Água do Casado e Piranhas e teve início no final do ano
de 2014, contando com aproximadamente 80 participantes.
O Arajuba começou por meio de uma parceria entre o MST e a Fundação
Interamericana, que proporcionou suporte para o desenvolvimento de algumas ações, desde
a base da cadeia produtiva, nas áreas de assentamentos rurais, com o fornecimento de caixas,
insumos, materiais e assistência técnica para as famílias poderem desenvolver a apicultura,
à formação, que envolveu a implantação, a manutenção dos apiários e a comercialização dos
produtos, que vem ocorrendo nas feiras locais e nas feiras da reforma agrária.
Com esse aporte de material e assistência técnica, o MST desenvolveu núcleos apícolas
em algumas áreas de assentamentos, iniciando o projeto e, em seguida, realizando inserções
nas ações da cadeia produtiva, com processos de formação e capacitação até a produção do
mel. O MST está realizando os procedimentos legais para a instalação de uma agroindústria,
visando ao beneficiamento do mel.
Atualmente, o projeto desenvolve-se em dez assentamentos, envolvendo jovens,
mulheres e homens e, segundo a coordenadora, “há uma reconexão e um pertencimento do
homem com o campo, uma relação com a natureza que a apicultura possibilita, com fator
adicional na promoção da preservação ambiental também”.
Para a coordenadora, o projeto vem se aprimorando e um fator diferenciado da
melhor qualidade do mel produzido é o fato de trabalharem com florada nativa da caatinga,
proporcionando um mel com cor e sabor diferenciados. Outro ponto do projeto é a forma de

284

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

produção, baseada no trabalho coletivo nos assentamentos, que envolve o manejo, mas também
as relações humanas integradas com a preservação do meio ambiente. Adicionalmente, busca
o envolvimento da juventude, que tem sido a base desse trabalho, promovendo a troca de
saberes entre diversos assentamentos e contribuindo para que o jovem permaneça no campo
produzindo, agregando renda às famílias, por meio do desenvolvimento de uma atividade
que aproveita o potencial da região e a “nova” relação homem-natureza, preservando as
abelhas. Destaca-se, também, que muitos jovens inseridos na atividade são filhos e netos
de assentados, que vêm auxiliando na forma de manejo, captura e manutenção das abelhas
africanizadas. Todos os envolvidos no projeto fazem parte das associações de produção da
agricultura familiar dos assentamentos.

Os apicultores entrevistados
A faixa etária das famílias entrevistadas mostra a presença expressiva de jovens, que
continuam residindo no meio rural. Esse dado reforça ações, políticas e projetos específicos
para esse público, buscando fonte de trabalho, renda e meios para sua permanência no campo.
Em pesquisa no Estado de Sergipe, Oliveira et al. (2010) também observaram presença
expressiva de jovens na apicultura, evidenciando que esse grupo em fase de afirmação no
mercado de trabalho estava se interessando pela atividade.
De acordo com o presente estudo, é possível observar que a ocupação de todos
os moradores dá-se com atividades agropecuárias, em que cerca de 30 jovens e adultos
dedicam-se a essa prática, com destaque para a apicultura, que vem sendo desenvolvida com
a implantação do projeto Arajuba. Outras pesquisas têm demonstrado que essa atividade
pode contribuir com a renda e a permanência dos jovens no meio rural (CANO et al., 2015;
CONCEIÇÃO et al., 2012).
Quanto à escolaridade, verifica-se alto número de membros das famílias dedicandose aos estudos (46%), possivelmente, devido ao quantitativo de crianças e adolescentes e à
presença do Programa Bolsa Família, a que 79% dos núcleos familiares têm acesso. Porém,
10% dos membros dessas famílias (adultos, em sua maioria) não são alfabetizados e 14%
concluíram o ensino médio.
Com relação à moradia, 93% das casas são de alvenaria e 7% de taipa, pois, em alguns
casos, não houve liberação de recursos para a construção das residências por meio do Programa
de Habitação Rural. Todas as residências possuem energia elétrica, porém nenhuma dispõe
de sistema de tratamento de esgoto, possuindo fossa negra. Quanto ao destino dos resíduos, a
alternativa encontrada pelas famílias é a queima, devido à ausência de coleta pela rede pública.
A fonte principal de renda de todas as famílias entrevistadas dá-se com a produção de
mel, tendo as demais criações (galinha, ovelha, boi, cabra e porco) a finalidade de autoconsumo
e venda de algum excedente. Os agricultores inseridos no projeto têm realidades distintas,
porém, nota-se que a produção agrícola e animal é direcionada para o autoconsumo. A
explicação mais plausível para esse fato deve-se aos plantios ocorrerem apenas na estação
chuvosa e mesmo sendo uma fonte de renda não monetária, pois a família deixa de comprar
esses alimentos e acaba por reduzir o ingresso de recursos financeiros, já que o excedente,
normalmente, é comercializado em determinadas épocas e a preços baixos, o que limita a
manutenção das famílias e a compra de outros bens necessários não produzidos localmente.
Nessa lógica, os agricultores têm buscado otimizar os sistemas agrícolas, com a produção
de insumos locais: 83% produzem os alimentos para os animais e apenas 17% combinam a
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

285

produção com a compra parcial dos alimentos, agregando mais autonomia para as famílias
e menor dependência externa de insumos. Mesmo com as dificuldades para a prática da
agricultura, o cultivo de palma e pequenas áreas de pastagem têm contribuído para o manejo
das criações.
Além da criação animal, os cultivos vegetais também são importantes para a
manutenção das famílias, havendo diversidade de cultivos, tanto de frutíferas quanto de
hortaliças e raízes, sendo milho e feijão as mais cultivadas. Essa produção caracteriza-se,
essencialmente, para autoconsumo e a venda é realizada com os excedentes. Porém, devido
às condições climáticas, os plantios ocorrem apenas no período chuvoso. Destaca-se que as
práticas agrícolas utilizadas são agroecológicas e nenhum agricultor faz uso de agrotóxicos,
contribuindo com a diminuição do possível impacto que o uso desses produtos poderia causar
às abelhas e por maior conscientização adotada pelas práticas do MST, que vem incentivando
a agroecologia como ferramenta de trabalho no desenvolvimento dos assentamentos.
A baixa disponibilidade de água, que poderia permitir o cultivo ao longo do ano,
evidencia a importância de atividades que gerem renda e produtos que considerem os fatores
hídricos locais, sendo a apicultura desenvolvida com florada nativa e com apelo da preservação
do bioma caatinga, inserindo-se nas propostas de convivência com o semiárido, o que implica
na busca de alternativas tecnológicas que possibilitem valorizar potencialidades e vocações
compatíveis com as reais condições naturais da região e com seu contexto social, ao invés de
tentar transformá-la. Pesquisas têm evidenciado que a produção de mel tem contribuído para
a geração de renda entre agricultores familiares e sua melhor distribuição ao longo do ano,
além de relacionar aspectos sociais, econômicos e ambientais, contribuindo para a fixação
da população no campo, com a adoção de práticas sustentáveis, gerando renda, trabalho e
alimento às famílias (COSTA et al., 2016; NAVAS et al., 2015; BOTH et al., 2009).
O número de colmeias por família entre os integrantes do Arajuba varia de 4 a 25,
com média de 15 unidades, o que influencia na renda mensal, que é heterogênea entre o
grupo, com algumas famílias recebendo entre ½ a 1 salário mínimo e outras com renda de
1,7 salários mensais, somando o recebimento de aposentadorias e Bolsa Família. A variação
observada entre os envolvidos no projeto está relacionada ao número de colmeias existentes,
bem como ao nível tecnológico em que se encontra cada família, com algumas tendo iniciado
a atividade mais recentemente; porém, os dados evidenciam o potencial de geração de renda
aos agricultores, por meio da produção apícola.
Fachini et al. (2010) analisaram a apicultura no sudoeste paulista e concluíram que
alguns fatores contribuíram para a caracterização da atividade, tornando-a importante para
a agricultura familiar, sendo a organização da atividade – relacionada às variáveis internas
à propriedade, principalmente à logística utilizada; a experiência do produtor e como essa
influencia o manejo da apicultura; a produtividade, através das floradas utilizadas e o número
de colmeias que cada apicultor possui; e o associativismo, evidenciado nas relações de parceria
entre os apicultores, com formação de grupos pequenos para colheita e extração do mel,
bem como para o uso conjunto dos equipamentos de processamento. No projeto Arajuba,
não há casa de mel até o momento e a extração é realizada em conjunto com o uso de uma
centrífuga dos apicultores, entretanto está prevista a construção de um entreposto, à espera
de aprovação pelos órgãos competentes.
A venda de mel é a principal fonte de renda da maioria das famílias e é realizada
coletivamente em feiras e/ou direto aos consumidores. A importância da apicultura para a

286

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

renda dessas famílias deve-se às limitações para a prática da agricultura na região, devido
às secas e à falta de acesso à água para irrigação, evidenciando o potencial da atividade,
diferentemente de outras localidades, em que a apicultura apresenta-se como complementar
para a composição da renda. A importância do mel como principal produto da apicultura
também foi relatada por Oliveira et al. (2010), sendo esse produzido por quase a totalidade
de agricultores em Sergipe, provavelmente por ser um dos produtos de mais fácil obtenção,
que exige pouca atenção, menor tempo do apicultor, menor nível de capacitação e acessórios
para a produção. Porém, uma das principais limitações que impactam na renda oriunda da
apicultura da região Nordeste está justamente relacionada a essa forma precária como seus
produtos são produzidos e comercializados, o que acaba por dificultar que o produtor receba
o preço justo pelos produtos e, muitas vezes, a venda ocorra para atravessadores. Segundo
Oliveira (2015), cerca de 60% dos apicultores comercializavam o mel de forma artesanal,
diretamente para o consumidor, no mercado local. Barbosa e Souza (2013) destacaram que o
fracionamento manual do mel e o uso de recipientes não padronizados para a comercialização
ocasionam perda de qualidade e valor no mercado, como também de competitividade.
Outro fator limitante aos agricultores é a disponibilidade de água, que exige das
famílias a combinação de diferentes estratégias para o abastecimento restrito desse recurso,
tanto para consumo doméstico quanto para as criações; porém, mesmo com a construção
das cisternas, 43% das famílias ainda necessitam, em algum momento, de carro-pipa para
o fornecimento de água, principalmente pelo longo período de seca registrado nos últimos
anos, não sendo isso suficiente para o armazenamento completo das cisternas, que têm a
finalidade de abastecimento doméstico e são construídas com capacidade de armazenamento
de 16 mil litros, quantidade suficiente para suprir as necessidades básicas de uma família de
cinco pessoas por períodos de estiagem de até seis meses. Do total de famílias entrevistadas,
apenas 21% possuem a cisterna-calçadão, destinada ao armazenamento de água para cultivo
e/ou criação animal, sendo uma tecnologia social com capacidade de estocar até 52 mil litros
de água, ligada a um calçadão de 200 m² que serve como área de captação da água das chuvas.
Porém, o baixo percentual de famílias com essa tecnologia dificulta a produção inclusive do
mel, devido à morte de abelhas e à perda das colmeias, ocorridas pela falta de água, o que
evidencia a falta de acesso a esse tipo de política pública.
As principais políticas públicas que contribuem para a renda familiar citadas pelas
famílias foram Bolsa Família, com 79% dos entrevistados, e 14% com acesso à aposentadoria.
Dentre as limitações existentes para o avanço da apicultura no Sertão alagoano,
destaca-se a falta de assistência técnica com relação a atividades de manejo e inovações
tecnológicas, falta de acesso a crédito para impulsionar a produção, principalmente para a
inserção de novos agricultores e, em especial, os jovens, que não dispõem de recursos para a
compra de cera e de outros materiais para a atividade.

A criação de pequenos animais em Traipu
A coleta de dados foi realizada no bairro rural Vila Santo Antônio, com famílias
rurais atendidas pelo Programa Brasil Sem Miséria, com a realização do projeto de fomento
que busca contribuir com a segurança alimentar e nutricional e gerar renda às famílias e
teve início no município em 2017, com 68 famílias. Para inserção no projeto, os critérios
adotados foram possuir renda igual ou abaixo de R$ 154,00 per capita, possuir Declaração de
Aptidão ao Pronaf (DAP) e vocação para as atividades que seriam desenvolvidas. Desse total,
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

287

32 famílias dedicaram-se à criação de ovinos (adquirindo, inicialmente, de 3 a 4 animais);
29 famílias dedicaram-se à criação de aves (adquirindo entre 30 e 50 animais) e 7 famílias à
criação de suínos (com 2 a 3 animais).
No início do projeto, houve o repasse do recurso financeiro a cada família, no valor
total de R$ 2.400,00 – dividido em duas parcelas, sendo R$ 1.400,00 para custeio da atividade
e R$ 1.000,00 para a compra de animais. O projeto foi desenvolvido tendo como beneficiárias
as mulheres e o recurso foi recebido no cartão do Bolsa Família. Esse fato demonstra que o
projeto de fomento buscou inserir como público um dos segmentos em situação de maior
vulnerabilidade social, que, de acordo com Zimmermann et al. (2014), tem sido pouco atingido
pelas ações de combate à pobreza. A criação de pequenos animais foi a atividade escolhida,
uma vez que as famílias possuem pouca área (em média, 0,6 hectares) e o acesso à água é
limitado. A escolha deu-se conjuntamente entre as famílias e a equipe técnica do Instituto
de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável de Alagoas (EMATER), que realiza
assistência técnica mensalmente, com visitas a cada unidade.
A composição das famílias entrevistadas evidencia a presença de crianças e adolescentes
em idade escolar, fato confirmado pelos dados de alfabetização. Todas as famílias possuem
acesso ao Bolsa Família. Porém, ressalta-se que, entre os adultos, há predomínio de baixa
escolaridade, o que caracteriza, historicamente, a privação do acesso ao ensino.
A ocupação de todos os 31 entrevistados (homens e mulheres), em idade de trabalho,
dá-se com a agricultura, evidenciando a importância da atividade para a manutenção e
ocupação das famílias, além do vínculo com o meio rural.
Todas as casas são de alvenaria e possuem energia elétrica. Com relação ao destino
do esgoto, 61% das residências têm fossa negra e 39% tem o esgoto despejado a céu aberto,
não havendo também coleta de lixo pelo poder público, optando-se pela queima dos detritos
por todas as famílias. Nesse aspecto, a falta de água apresenta-se como fator limitante, em
especial para a produção vegetal. O poder público construiu um chafariz no bairro, que
contribui para o consumo doméstico, sendo integrado a outras formas de acesso ao recurso,
como cacimba, poço, cisterna e carro-pipa; porém, a iniciativa não garante o abastecimento
para outros fins, em especial para a agricultura.
A produção das famílias é destinada para autoconsumo e concentra-se praticamente no
período chuvoso, com cultivo de feijão e milho, principalmente, havendo poucas propriedades
com algumas frutíferas e hortaliças. A baixa diversidade é decorrente da falta de água para
irrigação, limitando os cultivos e as variedades, além da restrição à terra. Ressalta-se que
a comunidade encontra-se próxima ao rio São Francisco, porém não possui acesso à água
dessa fonte. Zimmermann et al. (2014) consideram que a privação do acesso à água é um
elemento determinante para perpetuar a condição social de pobreza em que se encontra a
grande maioria da população que reside nas pequenas cidades que compõem o meio rural.
Um dos pontos trabalhados no projeto em Traipu pela EMATER tratou sobre o
armazenamento das sementes, o que vem sendo realizado por todas as famílias e busca
promover maior autonomia, não ficando na dependência da compra ou entrega pelos órgãos
públicos, pois, muitas vezes, é realizada com atrasos e, consequentemente, com prejuízos aos
plantios.
Quanto à produção animal – objeto do projeto de fomento, a principal atividade
foi a criação de aves (12), seguida de suínos (4) e ovelhas (1). Mesmo tendo como objetivo
a venda do excedente, a maior parte das famílias que se dedicam à criação de galinhas não

288

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

comercializam os produtos, pois preferem garantir fonte desses alimentos para seus membros,
sendo uma fonte de renda não monetária, pois as famílias deixam de comprar esses itens.
Para a alimentação dos animais, 43% dos entrevistados dependem da compra de ração
e 57% compram ração em parte do ano. No sistema de criação adotado, é recomendado o uso
de ração, visando garantir alimentação balanceada, bem como foi previsto, no projeto, área
para pastejo, porém nem todos possuem esses espaços formados até o momento.
Considerando que o principal critério para a inclusão no projeto era a condicionante
renda, todas as famílias são beneficiárias do Bolsa Família (13), com poucos atendidos pela
seguridade social (2) e Benefício de Prestação Continuada, com 1 família (que prevê a
transferência de um salário mínimo para idosos e deficientes que possuem uma renda familiar
per capita inferior a ¼ do salário mínimo). O Bolsa Família foi a unificação dos programas de
transferência de renda federais em um único, que ocorreu em 2003 e viabilizou sua expansão
nacional para alcançar todas as famílias abaixo da linha de pobreza estabelecida e, com
isso, significativa parcela da população mais pobre e vulnerável foi incorporada ao sistema
de proteção e ao mercado de consumo popular. Helfand (2011) destaca que a política de
aposentadoria rural e o Programa Bolsa Família foram as razões mais importantes para a
redução da pobreza rural no Brasil, porém observa que somente esses programas já não são
suficientes para retirar da condição de pobreza aquele percentual significativo de produtores
rurais que ainda se encontram nesta situação.
É importante pontuar o acesso ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) Leite:
o Programa do Leite é uma das modalidades do PAA direcionada aos Estados do Nordeste
e à região norte de Minas Gerais, e é voltado para os segmentos populacionais vulneráveis,
que têm direito a receber o produto gratuitamente e atende famílias com renda mensal de
até meio salário mínimo por pessoa e que tenham como membro crianças de até seis anos,
gestantes, lactantes e idosos (ALAGOAS, 2020). Porém, mesmo havendo público beneficiário
para o enquadramento nesse programa, apenas 1 família encontra-se inserida. Uma das razões
pode ser devido às reduções recentes de investimentos no programa, tendo sido praticamente
zerado no último ano, o que coloca as famílias em maior condição de vulnerabilidade social.
Ao considerarmos a renda per capita, mesmo com acesso às políticas públicas, verificase que 31% das famílias encontram-se em situação de pobreza (renda per capita entre R$ 89,01
e R$ 178,00) e 54% em situação de extrema pobreza (renda per capita de até R$ 89,00), com
apenas 15% das famílias com renda per capita acima de R$ 178,00. Esse resultado evidencia
que, além das privações de outros direitos, como acesso a água, terra e saneamento, essas
famílias continuam com baixo acesso à renda, mantendo-se em situação de vulnerabilidade.
Esses dados vão de encontro ao citado por Helfand (2011), que aponta que somente o acesso
aos programas de transferência de renda não são suficientes para retirar as famílias rurais da
condição de pobreza. Mesmo com as ações do BSM na comunidade, ainda não há garantia
de segurança alimentar entre as famílias; mesmo tendo a criação dos animais, em especial
galinhas, a principal fonte de proteína na dieta das mesmas é, principalmente, o consumo de
ovos. A produção para autoconsumo, que é própria e característica da agricultura familiar,
tem contribuído para a oferta de alimentos, mas não é suficiente para atender à demanda
existente. Além da proteína animal, a produção de feijão e farinha de mandioca destina-se,
totalmente, ao autoconsumo e sua ingestão é frequente.
Ao analisarmos o consumo de alimentos entre as famílias pesquisadas em Traipu, é
notável que o consumo de alimentos básicos e principais na alimentação, ou ao menos em

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

289

parte, é proveniente da produção, mesmo com todas as limitações de acesso a terra e água.
Com base na versão curta do Ebia, 92% das famílias indicaram situação de
insegurança alimentar nos últimos meses. A insegurança alimentar dá-se quando, em um
lar, há preocupação ou incerteza quanto ao acesso aos alimentos no futuro; quando se verifica
a redução quantitativa de alimentos entre os membros da família ou a fome – quando alguém
fica o dia inteiro sem comer por falta de dinheiro ou acesso à comida; e a segurança alimentar
aplica-se a domicílios que têm acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em
quantidade suficiente. Verificou-se que, além da preocupação com a falta de alimento no
futuro entre 92% dos entrevistados, em 30% das famílias algum adulto da casa diminuiu
alguma vez a quantidade de alimento nas refeições ou deixou de fazer uma das refeições
porque não havia dinheiro suficiente para comprar comida e 46% das famílias responderam
que, nos últimos meses, alguma vez comeu menos do que achou que devia porque não havia
dinheiro suficiente para comprar comida. Sabe-se que a insegurança alimentar atingiu 35,3%
dos domicílios rurais em 2013 no Brasil, sendo que, no Nordeste, esse percentual foi de 50,1%
(BRASIL, 2015). Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)
do ano de 2013, a insegurança alimentar no meio urbano no Brasil foi de 7,9%, sendo maior
nas regiões Norte/Nordeste, com 15%, evidenciando que a pobreza é maior nas áreas rurais
que nos centros urbanos e a região Nordeste apresentou maior vulnerabilidade alimentar
e nutricional quando comparada a outras regiões do País (SANTOS et al., 2018). Esses
resultados são reflexo, principalmente, da falta de acesso à água como garantia da produção
ao longo do ano. Atualmente, os plantios ocorrem apenas na estação chuvosa, o que, muitas
vezes, não garante a produção necessária para o abastecimento da família ao longo do ano,
associado à disponibilidade do fator terra.

A produção agroecológica e acesso às compras governamentais: a experiência de
Igreja Nova
Em Igreja Nova, 113 agricultores são associados da Associação dos Moradores e
Pequenos Produtores do Povoado Cajueiro Novo (Asmocan), produzindo frutas, verduras e
hortaliças em sistema agroecológico, além da criação de gado leiteiro.
A comunidade insere-se na área do projeto de irrigação Boacica, com predomínio
de policultura, com importância econômica para a fruticultura irrigada.
A existência da agricultura e da pecuária entre as famílias permite o aproveitamento
do esterco para a adubação dos cultivos vegetais.
Para irrigação dos cultivos, até alguns anos atrás, a água utilizada era proveniente do
rio Boacica; porém, segundo os agricultores, os níveis de nitrato estão altos, prejudicando seu
uso para irrigação das culturas existentes. Esses altos índices podem ter como causa o uso
intensivo de fertilizantes químicos, considerando que, anteriormente, a agricultura praticada
nessas áreas era baseada em tecnologias intensivas. Atualmente, as famílias recebem assistência
técnica da EMATER e passaram a utilizar as águas do rio São Francisco para irrigação, o
que tem permitido os cultivos e sua comercialização, gerando renda para as famílias.
Dentre o grupo, também há casos de agricultores que se dedicam ao cultivo de
cana-de-açúcar. Esses casos devem-se a contratos com usinas sucroalcooleiras, que levaram
ao incentivo para a adoção dessa cultura. Porém, com a crise do setor, os pagamentos têm
ocorrido com atrasos e alguns agricultores ainda estão aguardando o pagamento da última
safra, o que tem causado prejuízos financeiros e sociais, pois são pequenos agricultores que

290

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

dependem dos ganhos da terra para sua manutenção. Além desses problemas, o sistema
de cultivo adotado para essa cultura é baseado no pacote tecnológico da Revolução Verde,
altamente dependente da utilização de adubos solúveis e agroquímicos.
A pesca ainda é presente dentro do povoado, principalmente com a finalidade de
autoconsumo, havendo casos de associados que se dedicam à agricultura e à pesca. Esse dado
evidencia o papel da agricultura familiar, que busca integrar diferentes atividades agrícolas
e não agrícolas na manutenção do seu modo de vida. Segundo os relatos desses moradores,
nas últimas duas décadas, a quantidade dos pescados diminuiu consideravelmente, bem como
há mudanças nas espécies encontradas no rio.

Dados socioprodutivos
Dentre as 12 famílias entrevistadas, percebe-se a presença de jovens; porém, ainda
há predomínio de membros acima de 40 anos de idade.
Quanto à escolaridade, nota-se, também, como em outras localidades, baixos índices
de alfabetização, com 23% dos entrevistados sem alfabetização e 17% com fundamental
incompleto. Predominam, entre os homens, os maiores índices de analfabetismo, da mesma
forma que em outras localidades estudadas.
A ocupação dos moradores dá-se, principalmente, com a agricultura, entre homens
e mulheres. As casas são todas de alvenaria, com acesso à energia, porém não há sistema de
esgotamento, com fossa negra em todas as residências. Há coleta de lixo no bairro, mas 14%
dos moradores ainda praticam a queima dos resíduos.
Com relação à agricultura, como característica da área, observa-se alta diversidade,
com maior importância econômica para a macaxeira, seguida de tomate, milho e feijão, além
da cana-de-açúcar. É importante destacar que a produção para autoconsumo é muito presente,
sendo uma fonte de renda não monetária, pois, além de reduzir o valor gasto com a compra
de alimentos, proporciona maior diversidade de alimentos na dieta dessas famílias. De acordo
com Tonezer et al. (2019), na agricultura familiar, é observada grande diversidade de alimentos
produzidos para autoconsumo, tendo essa produção múltiplas funções, com destaque ao acesso
a um alimento mais saudável e à economia na compra de itens para consumo.
Dentre as frutíferas, a banana tem maior importância econômica e, assim como para
as culturas anuais, outras espécies são manejadas visando ao abastecimento interno.
Com relação às sementes, 45% das famílias dependem exclusivamente da compra e
as demais combinam estratégias de armazenamento e aquisição de determinadas variedades,
reforçando a busca de autonomia.
A criação animal ocorre, principalmente, para o consumo, com 42% possuindo criação
de galinhas, que fornecem ovos e carne. Dos entrevistados, 80% combinam a produção e a
compra de parte dos alimentos para a criação desses animais e 20% dependem exclusivamente
da compra de ração.
A água, para todos os usos das famílias – doméstico, irrigação e criação animal –,
vem diretamente dos canais de abastecimento do rio São Francisco.
As políticas públicas presentes são: aposentadoria, com 6 famílias tendo acesso, e
4 recebendo o Bolsa Família. Com relação à renda, 16,5% das famílias apresentam renda
mensal de R$ 100,00 per capita, o que é considerado dentro da linha de pobreza pelo MDS;
42% das famílias têm renda per capita entre R$ 240,00 e R$ 500,00; 16,5% possuem renda
entre ½ e 1 salário mínimo e, para 25%, a renda per capita está entre 1 e 2 salários. A renda
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

291

observada está relacionada ao número de atendidos pelo programa de seguridade social, mas
também é fruto do acesso aos programas governamentais de compra da agricultura familiar,
como PNAE e PAA. Entre o grupo de Cajueiro, 30 agricultores comercializam para o PNAE
há 5 anos e 6 agricultores comercializam para o PAA há 2 anos. Dentre os entrevistados,
50% acessam esses programas de compra, o que proporciona melhores remunerações, visto
que essas políticas pagam os preços praticados no mercado diretamente aos agricultores –
o que foi relatado como uma conquista e orgulho para o grupo, pois permite a oferta de
alimentos saudáveis, cultivados com manejo agroecológico, para a alimentação das crianças
nas escolas. Esses programas têm sido relatados em diversas pesquisas como benéficos à
agricultura familiar, promovendo o desenvolvimento e a melhoria da renda para as famílias
(CAMARGO; NAVAS, 2017; SAMBUICHI et al., 2014; RIBEIRO et al., 2013). A venda
dos produtos ocorre também nas feiras do município e no próprio bairro e para usinas, entre
aqueles que cultivam cana-de-açúcar (3).
Sobre a situação de segurança alimentar, 67% das famílias apresentam segurança
alimentar e 33,00% insegurança alimentar, sendo que, desses, 16,6% responderam que
diminuíram alguma vez a quantidade de alimento consumido e 25% informaram que algum
membro comeu menos do que achou que devia pela falta de alimento ou dinheiro para a
compra de comida. Os dados levantados são semelhantes aos observados pela PNAD, que
indicou insegurança alimentar em 35,3% dos domicílios rurais no Brasil, e estão abaixo da
média da região Nordeste, que apresentou 50,1% de insegurança alimentar nos domicílios
rurais (BRASIL, 2015).
Esse dado reforça a importância de estratégias de comercialização da produção,
agregando e garantindo renda às famílias, por meio do acesso aos programas de compra
governamental, bem como da produção para autoconsumo, integrando culturas anuais e
frutíferas e a criação animal.

A tradição do cultivo de arroz no Baixo São Francisco em Porto Real do Colégio
A construção do Projeto Público de Irrigação Itiúba ocorreu no período de 197476. Originalmente, nesse local, a rizicultura já era praticada de acordo com as oscilações de
nível do rio São Francisco. Com as obras de regularização e a geração de energia da Usina
de Sobradinho, o regime de níveis foi modificado, permitindo obter safras anuais de arroz
irrigado por inundação.
Observa-se que a faixa etária predominante entre os entrevistados é acima de 40
anos, principalmente entre os homens. Durante as entrevistas, foi relatado pelos moradores
que os jovens migravam para os grandes centros, em busca de estudo ou qualidade de vida
diferente das condições encontradas no meio rural por suas famílias.
Com relação à alfabetização, são evidentes os baixos índices encontrados, com cerca
de 40% dos entrevistados sem alfabetização ou com ensino fundamental incompleto. Entre
o grupo que está estudando, esse faz parte de crianças e jovens em idade escolar.
Com relação à ocupação dos moradores, a agricultura apresenta-se como a principal
atividade, entre homens e mulheres.
Todas as casas são de alvenaria e possuem energia elétrica, porém não há sistema de
esgoto, sendo que 93% das casas possuem fossa negra e 7% despejam detritos diretamente
no ambiente. A queima dos resíduos sólidos é realizada por 36% das famílias e 64% possuem
coleta pela rede pública.

292

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O cultivo de arroz é a principal fonte de renda das famílias, sendo a cultura mais
produzida e comercializada. Os demais cultivos têm a finalidade de autoconsumo e a venda
de algum excedente, o que é praticado por poucas famílias, e a rizicultura utiliza os canais de
irrigação com águas captadas direto do rio São Francisco. Com colheitas de 4 em 4 meses,
a produção intensiva exige grande quantidade de insumos, tanto para recompor nutrientes
do solo quanto para combater pragas e plantas indesejadas.
O uso de agrotóxicos é frequente, pois há necessidade de uso de fungicidas, inseticidas,
raticidas e herbicidas, além dos fertilizantes químicos, com destaque para ureia, fertilizante
nitrogenado altamente solúvel. Em um sistema de cultivo intensivo, o uso dos tratamentos
convencionais provoca uma perturbação na fisiologia das plantas, trazendo, em consequência,
desequilíbrio, transformando em parasitas seres que, antes, mantinham um convívio harmônico
com as plantas, as chamadas doenças iatrogênicas (CHABOUSSOU, 2006). Segundo a
Conab (2016), a participação média de sementes, fertilizantes e agrotóxicos representa entre
26% e 33% dos custos com a produção de arroz.
Um dos maiores problemas com pragas que esses agricultores têm enfrentado,
provavelmente pelo desequilíbrio do uso de insumos químicos e o predomínio da monocultura,
agravados pelo alto nível de desflorestamento das margens dos cursos d’água da região, são
ratos e pássaros (citados como os principais no ano de 2018) que, provavelmente, por não
encontrarem na região outras fontes de alimentos e abrigo, utilizam as plantações de arroz
como moradia e fonte de alimento, causando prejuízos aos agricultores. Esse fato pode também
ser agravado pela redução dos inimigos naturais desses dois organismos, aumentando sua
população. Outro problema relatado foi o aparecimento do arroz-preto, uma gramínea com
morfologia parecida com o arroz produzido comercialmente, considerada uma invasora, que
reduz a qualidade do produto final.
Com relação às sementes, diferentes estratégias são utilizadas, predominando sua
compra e consecutivos plantios e armazenamento das mesmas para novo ciclo (por 2 a 3 anos),
sendo, posteriormente, realizada nova compra, visando garantir a genética da semente. Essa
prática é utilizada para a cultura do arroz e pode contribuir em economia com sua aquisição.
A criação animal também é presente na comunidade, principalmente para consumo,
em especial de galinhas, com poucos agricultores comercializando. Nesses casos, há predomínio
da venda de gado e peixe, aproveitando os recursos hídricos locais, havendo também a criação
de suínos para consumo. A alimentação dos animais depende, exclusivamente, da compra
de ração, para 36% das famílias, enquanto 46% combinam estratégias de compra parcial dos
alimentos e 18% têm produção própria dos alimentos para as criações.
A água para irrigação e criação animal para todos os entrevistados tem origem direta
no rio São Francisco, por meio dos sistemas da CODEVASF. Para consumo doméstico, 86%
das famílias utilizam essa mesma fonte e 14% utilizam água do sistema público, pois residem
na cidade de Porto Real do Colégio.
O principal acesso a políticas públicas é com recebimento de aposentadorias (10
indivíduos) e Bolsa Família (3 famílias), o que contribui para a renda mensal. Com relação
aos rendimentos, 15% recebem entre ½ e 1 salário mínimo; 23% entre 1 e 2 salários; 54%
entre 2 e 3 salários e 8% acima de 3 salários. Esse dado deve-se, principalmente, à venda do
arroz, sendo essa a principal fonte de renda dos agricultores.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

293

O extrativismo como fonte de renda e manejo sustentável na foz do São
Francisco78
O município de Piaçabuçu tem sua economia em torno do turismo, atividades
pesqueiras e serviços. A agricultura, que, historicamente, era baseada no cultivo de arroz por
inundação, foi reduzida a pequenas produções, devido ao aumento da cunha salina, provocado
pela redução drástica da vazão do rio São Francisco. Atualmente, essa atividade tem baixa
representatividade na geração de divisas; porém, tem importância econômica secundária
para a economia familiar, em especial na produção de autoconsumo, contribuindo para a
segurança alimentar.
O município possui duas Áreas de Proteção Ambiental (APA), sendo uma federal, a
“APA de Piaçabuçu”, e outra estadual, a “APA Marituba do Peixe”, com rica biodiversidade,
onde o extrativismo vegetal de Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM) acontece pela
grande variedade de espécies de plantas nativas comestíveis de valor econômico, ambiental
e cultural. Apesar dessa riqueza, o IDH do município é baixo, de 0,572.

A Associação Aroeira e o extrativismo na região
A Associação Aroeira surgiu a partir da demanda em capacitar extrativistas da foz
do rio São Francisco no beneficiamento da pimenta rosa. A associação foi criada a partir
do projeto Aroeira, desenvolvido pelo Instituto Ecoengenho, que em 2010 foi elaborado e
contemplado com um projeto financiado pela Petrobras, o Programa Desenvolvimento e
Cidadania. Com o projeto aprovado, extrativistas foram procurados e discutidos os processos
a serem realizados, sendo que os mesmos conheciam a pimenta rosa apenas com o nome
“aroeira” e a comercialização era realizada para atravessadores.
As primeiras reuniões sobre o projeto ocorreram em 2011 e seguiram-se com a
fundação da Associação Aroeira. Entre 2011 e 2014, a associação foi incubada pelo projeto
financiado pela Petrobras e, a partir de 2015, vem sendo mantida e administrada pelos próprios
associados, tendo um total de 85 (oitenta e cinco) membros, sendo 30 (trinta) associados
que trabalham exclusivamente com a pimenta rosa. Além desse produto, que é o carro-chefe
da Associação, há extrativismo de outras frutas nativas, como ingá, cambuí, massaranduba,
gajiru, araçá, jenipapo, cajá e outras, demonstrando a rica biodiversidade existente.
Além do extrativismo, há também a prática da agricultura entre as famílias, algumas
comercializando para o PNAE, principalmente com tomate, pimentão e alface, evidenciando
a diversidade de produtos da agricultura familiar local.
De acordo com a presidente da Associação,
a partir do trabalho da associação, houve impacto na vida das mulheres
de forma positiva, pois as primeiras a se capacitar foram tomando
consciência do lugar dela na sociedade, dentro do município, o que
acabou incentivando outras mulheres a se juntarem à associação e que
culmina no desenvolvimento da comunidade.
As mulheres, hoje, muitas delas, a maioria delas dentro do nosso
município, são mulheres que comandam as suas próprias casas, porém há
Os dados socioeconômicos e produtivos apresentados compõem o trabalho “Extrativismo vegetal na foz
do rio São Francisco: riqueza ambiental e comunidades vulneráveis”, dos autores FERREIRA, Rita Paula
dos Santos; NAVAS, Rafael; SILVA, Rafael Ricardo Vasconcelos, apresentado no XI Congresso Brasileiro de
Agroecologia (2019).
78

294

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

casos em que quem manda é o marido, mas está havendo uma mudança
de comportamento, pois se ela se sustenta, é autossuficiente, então elas
tentam mostrar aos seus companheiros que são parceiras deles e que o
mesmo valor que os homens têm elas têm também, é o empoderamento
da mulher.

Uma das preocupações da Associação Aroeira é com a questão ambiental, que
vem sendo trabalhada com todos os associados, para que haja sempre recursos disponíveis,
reduzindo os danos ao meio ambiente e buscando sua preservação.
As maiores dificuldades citadas para a atividade dão-se com a falta de transporte
adequado para o translado de pessoas e frutas, pois, conforme citado, “não é fácil para o
extrativista ir na mata andando e trazer duas, três sacas de jenipapo ou de outra fruta”. Outra
dificuldade são os grandes proprietários de terras, que não permitem o acesso às áreas de
mata. Houve um caso em que o proprietário viu as extrativistas colhendo a pimenta rosa e,
após, realizou a derrubada e a queima de todas as plantas dessa espécie, para que a atividade
não fosse realizada em sua área. Lima (2010) apontou que as principais dificuldades com
o extrativismo da mangaba em Sergipe também estavam relacionadas à falta de transporte,
principalmente pela fragilidade dos frutos, que se danificavam facilmente, bem como com
as condições ruins das estradas de acesso às áreas de coleta, sendo os frutos carregados nas
costas dos extrativistas. Além disso, a autora também pontuou a situação de devastação da
espécie, bem como a dificuldade de acesso às mangabeiras que restam, por estarem situadas
em terras de terceiros, que estão sendo utilizadas cada vez mais para agricultura intensiva,
desenvolvimento de turismo e construção de viveiros de camarão, levando ao corte das plantas.

O grupo de extrativistas
Dentre os adultos das 25 famílias agroextrativistas entrevistadas, 44% não são
alfabetizados, 40% apenas assinam o nome e 16% possuem nível médio incompleto e/
ou completo. Segundo a Seplag (2018), as taxas de abandono escolar nos últimos anos, no
município de Piaçabuçu, têm sido reduzidas, passando de 5,4%, no ano de 2015, para 1,8%
em 2017. Esses dados reforçam a importância dos programas de transferência de renda,
como o Bolsa Família, que tem contribuído para a permanência de crianças e adolescentes
em ambiente escolar, haja visto que o número de famílias atendidas por esse programa
aumentou no município nos últimos anos, sendo a política pública acessada pela maioria
das famílias entrevistadas.
Com relação ao acesso a serviços, as casas não possuem esgotamento sanitário
adequado, com predomínio de fossa negra, bem como o acesso a água é realizado diretamente
pela captação de rios com uso de bombas, não havendo tratamento para o consumo. A coleta
de lixo não atende todas as áreas do município, em especial as rurais, e as famílias acabam
por queimar os resíduos.
Dentre as espécies cultivadas pelos extrativistas, observa-se presença de diversidade
de frutíferas e anuais, principalmente nos quintais, e possuem a finalidade de consumo e
venda, demonstrando que as famílias não se ocupam exclusivamente com o extrativismo,
mas combinam diferentes atividades produtivas ao longo do ano, evidenciando a grande
dependência dos recursos naturais e dos ciclos da natureza para sua manutenção. Segundo
Santos et al. (2015), a combinação de diversas atividades no meio rural pode proporcionar
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

295

maior produção para autoconsumo, reduzindo a dependência de produtos externos e,
consequentemente, impactando na renda familiar.
Para 95% dos entrevistados, a principal fonte de renda dá-se com a coleta de frutas
nativas, sendo esta complementada pelas políticas públicas, principalmente o Bolsa Família.
Esse dado, apesar de demonstrar a importância da atividade entre as famílias, evidencia a
situação de vulnerabilidade em que as extrativistas encontram-se, já que os preços pagos
pelos produtos geralmente são baixos. Ao mesmo tempo, reforça a importância do trabalho
associativista e a necessidade de estruturação da cadeia produtiva para os produtos do
extrativismo na região. Outras pesquisas têm demonstrado a importância do extrativismo
como fonte de renda para as famílias, em especial para as mulheres (MENDES et al., 2014;
LIMA, 2010). A organização dos pequenos agricultores em associações constitui-se em uma
das formas mais viáveis de sustentação das pequenas unidades de produção, pois facilita a
superação da barreira da indivisibilidade dos fatores-chaves de produção, assim como facilita
a assistência técnica necessária para as atividades (LAZZAROTTO, 2002), devendo ser
apoiada na região.
O extrativismo em Piaçabuçu ocorre durante todo o ano, considerando o calendário
produtivo de cada espécie e a diversidade existente, e é realizado com mão de obra familiar.
A comercialização dos produtos do extrativismo ocorre, principalmente, nas feiras
livres de Piaçabuçu e Penedo-AL.
Atualmente, a Associação Aroeira aprovou e vem desenvolvendo os projetos:
“Cozinhar com Eco-sustentabilidade”, com apoio do Fecoep-AL, tendo o objetivo de expandir
e aperfeiçoar a linha produtiva, com a instalação de uma agroindústria, atendendo às normas
sanitárias para o processamento e o desenvolvimento de produtos, como doces, geleias, pães
e outros, utilizando a riqueza da biodiversidade local obtida pelo extrativismo, bem como
capacitar e qualificar 50 mulheres para o desenvolvimento das ações e para o associativismo;
“Ecocozinhar”, que possibilitou a realização do intercâmbio entre as mulheres de Piaçabuçu e
Maragogi; “Mulheres: mães que alimentam”, que visa promover o empoderamento feminino
com geração de renda e produção de alimentos artesanais, atuando diretamente com mais
de 200 mulheres agricultoras e agroextrativistas. No aspecto da preservação, está previsto o
projeto “Bosque Berçário das Águas”, implementado com o Comitê da Bacia Hidrográfica
do Rio São Francisco e a Agência Bacia Peixe Vivo, que busca a produção de mudas nativas,
o reflorestamento de áreas de mata ciliar e a implantação de sistemas agroflorestais, atuando
diretamente em ações de educação ambiental.

A pesca artesanal em Neópolis e as mudanças na ocorrência das espécies
Os pescadores/as artesanais residem às margens do rio São Francisco, em área urbana
do município de Neópolis-SE. O IDH do município é de 0,589 e os pescadores fazem parte
da Colônia Z7.
A idade dos componentes das famílias evidencia o predomínio de indivíduos na
faixa etária acima dos 40 anos ou mais, independente do sexo. Quanto ao grau de estudos,
há predomínio de menor escolaridade em indivíduos do sexo masculino, com presença
marcante de crianças em idade escolar, em continuidade de seus estudos. Para Freitas et
al. (2015), são inúmeras as causas da baixa escolaridade entre pescadores e, entre as mais
expressivas, constataram que tiveram que optar por trabalhar ou estudar. Diante da realidade de
possibilidades restritas, tanto econômicas quanto sociais, optaram, ainda jovens, por ingressar

296

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

na atividade econômica. Esse dado reforça a importância do programa Bolsa Família na
manutenção de crianças e jovens no ambiente escolar, como observado entre o grupo que
se encontra estudando.
A ocupação de todos os integrantes das famílias em idade de trabalho é com a atividade
pesqueira, compartilhada entre homens e mulheres do núcleo familiar, mas evidenciando o
papel da mulher numa atividade exclusivamente masculina.
Todos os pescadores/as residem em casas de alvenaria, com energia elétrica, coleta
de lixo realizada pelo poder público e água fornecida pela Companhia de Abastecimento de
Sergipe. Porém, 11% das residências têm o esgoto despejado diretamente no rio. É importante
destacar que o município de Neópolis possui aproximadamente 23% dos domicílios com
esgotamento sanitário adequado, segundo dados do IBGE (2020), o que evidencia os
impactos ambientais da descarga de efluentes oriundos de esgotos domésticos na calha do
rio São Francisco.
A principal política pública acessada pelos pescadores é o Seguro Defeso (cerca de
90% possuem carteira de pesca e recebem o benefício), seguido do Bolsa família, com 50%,
e aposentadoria, com 25%. Segundo informações dos pescadores, todos os associados à
colônia acessavam o Seguro Defeso; porém, o benefício tem sido pago com atrasos, chegando,
recentemente, a ser recebido apenas no fim do período de proibição da pesca, comprometendo
a manutenção das famílias.
Com relação à renda média mensal familiar, destaca-se que nenhuma família possui
rendimentos acima de um salário mínimo, evidenciando a baixa remuneração pela atividade.
Esse fato é agravado por ser cada vez mais difícil a captura do pescado na região, com a
diminuição do tamanho de captura, de variedade de espécies e abundância de indivíduos.
Em Neópolis, do total de entrevistados, 12% possuem renda de até R$ 400,00, 50% renda
de até R$ 500,00, 13% renda de até R$ 600,00 e 25% renda de até R$ 1.000,00.

A atividade pesqueira e a percepção da ocorrência das espécies
A ocorrência de espécies nativas, antes comuns, atualmente é cada vez mais rara ou
escassa no Baixo São Francisco. A presença de espécies eurihalinas ou marinhas em Neópolis
(distante quase 40 km da foz) é citada por todos os pecadores e reflete as mudanças ambientais
por que o rio São Francisco vem passando e impactando diretamente na atividade econômica
da região. A Tabela 44 refere-se à lista das espécies pescadas/capturadas mais comuns nas
pescarias realizadas na localidade.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

297

Tabela 44 - Espécies citadas pelos pescadores/as e sua ocorrência em ordem decrescente.

Encontram com mais frequência

Espécies citadas pelas famílias
Nome popular

Nº citações

Robalo*

8

Tucunaré

6

Piau

6

Piranha

5

Tilápia

undecimalis
Cichla monoculus
Megaleporinus obtusidens e Schizodon
knerii
Pygocentrus piraya

Oreochromis niloticus
Eugerres brasilianus, Eucinostomus

Carapeba*

5

Pirambeba

4

Serrasalmus brandtii

Traíra

3

Hoplias microcephalus
Macrobrachium acanthurus e M.

Bagre

Camarão**
Siri**

Não encontram mais

5

Nome científico
Centropomus parallelus e C.

4
3
2

Pacu

1

Pilombeta

1

Cara-boi

1

Xira

7

melanopterus

Bagre marinus

carcinus
Callinectes sp.

Myleus micans
Anchoviella vaillanti, A.

2

Mugil curema

2

Estuarina
Nativo

Costeiro
Nativo

Nativo
Costeiro
Nativo
Nativo

Nativo

Pimelodus maculatus e P. Pohli

Piau-cutia

Exótico

Salminus hilarii

5

2

Nativo

Nativa

Mandi

Curimã

Nativo

Prochilodus argenteus

Pseudoplatystoma corrucans

Dourado

Exótico

Exótico

6
5

Estuarina

lepidentostole
Astronotus ocellatus

Surubim

Tubarana

Categoria

Salminus franciscanus
Prochilodus elongatus

Nativa

Nativo

Nativo

Costeiro
Nativo

Fonte: Os autores (2019).

É evidente a percepção dos pescadores/as sobre as alterações na ocorrência das espécies,
bem como as dificuldades em conseguir sobreviver da atividade, como pode ser observado
pelas entrevistas, que mostram que as alterações do regime hídrico, com a construção das
hidroelétricas, são percebidas na realização da pesca:
Há um ano atrás, conseguia pegar 10 a 15 quilos em um dia, hoje pega
1 quilo, às vezes não pega nem pra comer. (entrevistado de 42 anos).

Na época que tinha enchente, dava muito peixe; hoje, não mais.
(entrevistado de 50 anos).
Eu fui pescadora por mais de cinquenta anos, parei de pescar quando
não pude mais trabalhar na pesca, trabalhava também na agricultura.
Os peixes que antigamente a gente pescava, mas que hoje sumiram do
rio São Francisco, foi a piaba, o mandim, a xira, o surubim e a tubarana
também sumiu daqui do Baixo. A gente ainda consegue ver ela lá pelas

298

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

bandas do Sertão, pulando na água; hoje, no Baixo, só dá mesmo o
tucunaré, a piranha, o robalo, só essas coisinhas mesmo, muito fraca a
pesca, mas sumiu tudo, acabou tudo. (entrevistada aposentada).
Os peixes que encontramos com muita frequência no rio São Francisco
é a pirambeba, o tucunaré, o cará-boi, o piau branco, o piau preto, robalo,
carapeba, robalo-flecha. Temos também a ocorrência de peixes marinhos
no rio São Francisco, a exemplo do xaréu, vermelha, caranha, sargo de
dente e há também relatos de guaiamum. Há também aqueles peixes
que sumiram do rio, como o piau amarelo, a xira, dourada, tubarana,
curimatã-pacu e o mandin, nem o amarelo e nem o branco, e o pintado
não se vê mais. (entrevistado de 38 anos).

Pesquisas têm evidenciado, no Baixo São Francisco, a redução da atividade pesqueira,
nos aspectos de diversidade e produção, além da baixa qualidade e da deficiência nas estruturas
para armazenamento e comercialização da produção (SOARES et al., 2020; SOARES et al.,
2011; LIMA et al., 2010).
Em levantamento na região, Sampaio et al. (2015) verificaram que a pilombeta
(Anchoviella spp.), na época, era a espécie mais rentável, com captura por unidade de esforço
em média de 8 kg/pescador/dia, seguida do curimatã-pacu ou xira (Prochilodus argenteus)
(SPIX; AGASSIZ, 1829), com média de 5 kg/pescador/dia, e o piau (Leporinus ssp.),
com média de 2,8 kg/pescador/dia. Entre as espécies marinhas, os autores destacaram
os robalos (Centropomus undecimalis) (BLOCH, 1792) e C. parallelus (POEY, 1860) e as
carapebas (Eugerres brasilianus) (VALENCIENNES, 1830) como sendo espécies comuns
nos desembarques da região.
Todas essas espécies foram citadas pelos pescadores, com destaque para o robalo
e a carapeba, como as de maior ocorrência na lista livre (sendo essas duas estuarinas e de
ocorrência comum na região de Neópolis), além da xira (P. argenteus), atualmente com pouca
incidência nas capturas e nos mercados da cidade sergipana. O aumento da cunha salina
(16 km da foz em 2018) tem ocasionado mudança na dinâmica das espécies (SOARES
et al., 2020), com o siri (Callinectes sp.), representando maior volume nos desembarques
pesqueiros e grande incidência na região de Neópolis, sendo este pescado a principal fonte
de renda para dois dos pescadores entrevistados. Na BHRSF, espécies marinhas e estuarinas
podem ocorrer até vários quilômetros rio acima, a partir da sua foz (ALVES et al., 2011) e
a ictiofauna estuarina apresenta diversos graus de tolerância às variações de salinidade da
água (CAMARGO; ISAAC, 2001).
Ainda segundo Sampaio et al. (2015), foram observadas espécies bioinvasoras em seu
levantamento, sendo a tilápia (Oreochromis sp.), o cará-boi (Astronotus ocellatus) e o tucunaré
(Cichla monoculus) os mais representativos. Dentre as espécies exóticas, tucunaré e tilápia
foram as mais citadas entre os pescadores de Neópolis, havendo também citação do cará-boi.
De acordo com Soares et al. (2011), em levantamento entre os anos de 2007 e 2009, no
entorno de Penedo-AL, a produção pesqueira foi representada por 22 espécies, das quais cinco
foram mais comuns, sendo a xira (Prochilodus argenteus), o piau (Leporinus spp.), a pilombeta
(Anchoviella vaillantii), o robalo (Centropomus sp.) e a carapeba (Eugerres brasilianus). Nas
entrevistas atuais, observa-se mudança na ocorrência das espécies na percepção dos pescadores,
tendo a xira sido citada como uma espécie rara e o robalo e a carapeba (costeiras) com
ocorrência abundante. Os autores destacaram que, nos anos do estudo, cerca de cinco espécies
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

299

representaram, em média, 80% da biomassa do pescado, sendo a xira (também conhecida
como curimatã-pacu) a mais capturada, com percentual médio de 40,0%, seguida de piau e
robalo. Segundo os autores, a ocorrência da carapeba era observada no entorno das cidades
de Penedo e Igreja Nova (distando 40 km da foz do São Francisco), corroborando com a
percepção dos pescadores artesanais.
Barbosa et al. (2017), em levantamento no Baixo São Francisco, consideraram a
carapeba como uma das espécies invasoras da divisão periférica, observando também peixes
exóticos, como os tucunarés (Cichla spp.), e diversas outras espécies introduzidas nas últimas
décadas com o desenvolvimento da aquicultura, como as tilápias (Oreochromis niloticus e
Tilapia rendalli). Os entrevistados, no presente estudo, relatam a existência muito comum
destes peixes em seus apetrechos de pesca. Freitas et al. (2015), analisando o conhecimento
dos pescadores artesanais em relação à ocorrência das espécies, destacaram a presença de
exemplares exóticos e o sumiço daquelas espécies antes abundantes e agora consideradas raras,
como o dourado, o surubim e o pirá, bem como a diminuição considerável de mandis e piaus.
Soares et al. (2011) consideraram que o incremento anual do robalo em seu
levantamento indicava grande abundância desse peixe na região, ao mesmo tempo em que
apresentava maior aceitação nos mercados ribeirinhos e, consequentemente, aumento da
captura por pescadores artesanais.
Em levantamento preliminar nas proximidades de Penedo/AL, Barbosa e Soares
(2009) observaram que, dentre as espécies nativas, várias apresentavam importância na
alimentação humana, sendo, por isso, alvo de intensa pesca, destacando-se a curimatã
(Prochilodus spp.), o dourado (Salminus franciscanus), o surubim (Pseudoplatystoma corruscans),
diferentes espécies de mandi (Pimelodus maculatus e Duopalatinus emarginatus), piau (Leporinus
spp.) e traíra (Hoplias microcephalus), entre outros. Para os autores, a composição das capturas
em dois importantes municípios ribeirinhos (Penedo-AL e Neopólis-SE) foi composta por
cerca de 16 espécies, sendo a curimatã-pacu (Prochilodus argenteus) a que ocupou o primeiro
lugar das capturas, seguida de pilombeta (Anchoviella vaillanti), piau (Leporinus sp.) e
outras espécies, como carapeba (Gerreidae), cara-boi (Astronotus ocellatus), pacu (Myleus sp.)
e tucunaré. Esses dados reforçam a possível sobrepesca de determinadas espécies, como a
curimatã-pacu (xira), levando à redução dos estoques naturais na região, atualmente percebidos
pelos pescadores.
A redução das espécies tem levado ao deslocamento dos pescadores de Neópolis
para outros locais, visando aumentar sua produtividade. Há casos de pescadores que estão
se deslocando até o Xinaré (povoado pertencente ao município de Igreja Nova e distante
cerca de 15 km a 20 km) para aumentar sua renda. Sobre a necessidade de deslocamento de
pescadores artesanais para a realização da atividade, Freitas et al. (2015) também relataram
que, com a escassez do pescado e a ocupação/privatização de terras às margens do cânion
do São Francisco, houve a necessidade de deslocamento por grandes distâncias e longos
períodos em busca de peixe, com o objetivo de garantir uma boa pescaria, e esse fato estava
ocasionando maior tempo fora de suas residências e levando dias e até mesmo semanas às
margens do cânion.
Dentre as espécies citadas como comuns entre os pescadores de Neópolis, são
atribuídos ao piau, à carapeba e à traíra os melhores preços de comercialização, em feiras e
mercados do próprio bairro ou negociados com atravessadores. Nesse último caso, quando é
negociada a venda do camarão, o rendimento é bem menor, devido aos preços pagos serem

300

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

mais baixos que os praticados em outros canais de comercialização. Como exemplo, o camarão
capturado com “covo” tem uma produtividade média entre 6 e 8 quilos/dia, com preço de
comercialização de R$ 8,00/quilo para atravessadores. Segundo Soares et al. (2011), dentre
as espécies de peixes mais valoradas em relação ao preço médio de primeira comercialização,
houve destaque para o robalo e a carapeba, seguidos de piau e xira, e as espécies de menor
valor de venda foram a pirambeba e a traíra.
A pesca entre as famílias possui extrema importância para o consumo, mas, mesmo
assim, a insegurança alimentar atingiu 43% delas. Além disso, dos entrevistados, 29%
responderam que, nos últimos meses, ficaram sem dinheiro para ter alimentação variada
e que comeram menos do que acharam que deviam, porque não havia comida suficiente;
outros 14% informaram que algum adulto da casa diminuiu a quantidade de alimento ou
pulou alguma refeição, porque não havia dinheiro suficiente para comprar alimento. Entre
os pescadores artesanais, a insegurança alimentar pode estar relacionada à baixa remuneração
pela atividade e, como citado nas entrevistas, há necessidade de compra de outros itens para
compor a alimentação e necessidades das famílias. A segurança alimentar está presente
em 57% das famílias entrevistadas. Segundo Bezerra et al. (2018), apesar de a maioria dos
pescadores ser beneficiários do Bolsa Família, a prevalência de insegurança alimentar foi
alta, chegando a 67%.
Fica evidente, por meio dos levantamentos, que as mudanças na ocorrência das
espécies, decorrentes dos impactos e mudanças ambientais, têm gerado consequências entre
os pescadores artesanais, dificultando a realização da atividade, bem como melhorias na renda,
e comprometendo a segurança alimentar. Sampaio et al. (2015) destacaram que, apesar da
riqueza e do elevado grau de endemismo das espécies na Bacia do São Francisco, o esforço
pesqueiro é empregado sobre um número reduzido de espécies. Da mesma forma, Soares
et al. (2011) atentam para a necessidade de um plano de ordenamento da pesca na região,
baseados na diminuição do volume de pescado capturado e na pressão pesqueira exercida
sobre determinadas espécies, sendo evidente a decadência da pesca no Baixo São Francisco,
com incidência cada vez menor da variedade de espécies observadas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do cenário observado nas comunidades, são evidentes as baixas taxas de
alfabetização entre os adultos, principalmente os homens. O acesso aos serviços básicos,
principalmente sistema de esgotamento sanitário e coleta de lixo, tem sido inexistente ou
insuficiente para atender às famílias.
Com relação ao abastecimento de água, apresenta-se como fator limitante para
algumas comunidades, principalmente para garantir a produção agrícola/animal ao longo do
ano, refletindo nos rendimentos e na dependência dos programas de transferência de renda
pelas famílias. Esses fatores influenciam também na segurança alimentar, tendo a região
apresentado índices preocupantes para esse indicador.
A região do Baixo São Francisco mostra a diversidade existente na agricultura
familiar, bem como evidencia experiências exitosas que aliam produção, geração de renda
e conservação ambiental, destacando-se a produção de mel, o policultivo e o extrativismo,
havendo necessidade de fortalecimento desses segmentos e das cadeias produtivas, visando
garantir meios de sobrevivência e melhores condições para as famílias.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

301

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304

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

FISHERMEN FOOD SECURITY IN THE LOWER
SÃO FRANCISCO RIVER SUBREGION: NEXUS
ESSAY WATER - ENERGY - FOOD
Maristela de Fátima Simplício de Santana
Anna Erika Ferreira Lima

Max César de Araújo

SUMMARY
The nexus water - energy - food displays a series of links, opportunities, interdisciplinary
challenges, both transversal and multisectoral. These complexities are not limited to just one
sector because they are interdependent and linked due to dependencies between the Nexus
elements to provide essential resources that promote human, social and economic growth,
and sustainable development. Consequently, interactions and shocks in one of these features
may inevitably impact one or more sectors. Thus, adopting a nexus approach allows the
capitalization of knowledge and sharing skills and experience to create innovative solutions
for complex systems, which constitute the challenges of their rationality. This paper discusses
the concept of water, energy, and food nexus, considering the context of intrinsic dependencies
for the sustainable development of the São Francisco River Basin (RSF). This territory is
defined as a semiarid region with a coastal strip, and it is characterized by the construction
of dams and hydroelectric power plants, where several activities that promote multipurpose
water usage are developed, studied by the methodology of the fishermen perceptions on
water, energy, and food (in)security. In the interrelation of these factors, the recent approach
of the nexus emerges, discussing its synergies of demands, provision, application, and
problematization. In this context, the present essay brings a theoretical contribution with a
territorial focus, based on technical visits, observations of participants, and the application
of a semi-structured questionnaire. This led to the conclusion that fishermen’s water, energy,
and food insecurity have a direct relationship with hydroelectric power production and
management, and, consequently, with the construction of “sustainable development.” The
challenging questions of the water-energy-food nexus in their amplitude regarding the spatial
and temporal scales, and the question of multidimensional governances, connect with the
necessary reflection on the São Francisco River Basin territory.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

305

CAPÍTULO 17
SEGURANÇA ALIMENTAR DOS PESCADORES DA
SUBREGIÃO DO BAIXO SÃO FRANCISCO: ENSAIO
DO NEXO ÁGUA-ENERGIA-ALIMENTOS
Maristela de Fátima Simplício de Santana79
Anna Érica Ferreira Lima80
Max César de Araújo81

INTRODUÇÃO
O rio São Francisco é considerado um dos maiores e mais importantes do Brasil, devido
à sua relevância ambiental, econômica, cultural e social, especialmente para as regiões Nordeste
e Sudeste. Sua nascente é o rio Samburá, localizado no município de Medeiros, no alto do
Parque Nacional da Serra da Canastra, no Estado de Minas Gerais, e sua foz localiza-se entre
os Estados de Alagoas e Sergipe, desaguando no oceano Atlântico. O Velho Chico, assim
chamado carinhosamente pelos ribeirinhos, passa por cerca de 510 municípios, envolvendo
seis Estados do País: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Goiás, além
do Distrito Federal. Esta área abrange três biomas brasileiros: Cerrado, Caatinga e Mata
Atlântica. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o São
Francisco possui em torno de 2.700 km de extensão, correspondendo a 8% do território
brasileiro, e a bacia do rio São Francisco (BRSF) drena uma área de aproximadamente
641.000 km2 (COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS VALES DO SÃO
FRANCISCO E DO PARNAÍBA, 2016).
A sub-região do Baixo São Francisco é onde se percebe grande dualidade, por
localizar-se em ambiente semiárido, onde a água é a principal força motriz das comunidades
rurais. Desta forma, fatores ligados a atividades de pesca e aquicultura, geração de energia
elétrica, poluição oriunda dos esgotos das cidades, assoreamento, uso de agrotóxicos em
culturas às margens do rio, desmatamento da vegetação marginal, avanço da cunha salina,
alterações de vazão, endemismo de espécies, entre outros, refletem diretamente na vida social,
econômica e ambiental dessa região (DEVEZA, 2019).
O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (2016) descreve resumidamente
oito classes de usos na bacia. São elas: a geração de energia hidroelétrica; o controle de
cheias proporcionado por regras específicas de operação, principalmente nos reservatórios; a
navegação, que tem como principal atribuição a prestação de serviços públicos de manutenção
das condições do rio e de seus afluentes, para a realização da navegação comercial; o projeto
de transposição do rio, com as bacias hidrográficas do Nordeste setentrional; projetos de
irrigação e piscicultura, públicos e privados; abastecimento de cidades ao longo do seu curso;
Tecnologista Pleno do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações. Instituto Nacional do Semiárido. CEP
58.434-700, Campina Grande, PB. E-mail: maristela.santana@insa.gov.br.
80
Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Campus Fortaleza. CEP
60040-215. E-mail: annaerika@ifce.edu.br.
81
Professor Associado da Universidade Internacional da Integração da Lusofonia Afro-Brasileira. Redenção,
CE. E-mail: max@unilab.edu.br.
79

hidrografia ambiental, que representa as condições necessárias para manter a biodiversidade e
comunidades tradicionais que dependem dos serviços ambientais e atividades que dependem
dos lagos formados pelos reservatórios, tais como o turismo, a pesca esportiva, o lazer e a
piscicultura em tanques-rede dentro dos reservatórios.
Diante do complexo contexto de multiusos da água, verifica-se que a possibilidade
de conflitos na região é cada vez maior, aumentando a necessidade de se operar o sistema
hídrico de forma a atender sua crescente demanda e estabelecer as prioridades, conforme
preceitua a Lei nº 9.433/2007 (MMA, 2015). Aspectos ambientais, políticos, sociais, culturais,
educacionais, econômicos, legais, morais, éticos, administrativos, financeiros, técnicos, de
governança, dentre outros, precisam ser considerados para uma gestão que atenda esse
novo cenário, bem como ações e diretrizes que articulem esses aspectos, suas atividades e
procedimentos, além do comprometimento entre eles (KONRAD, 2016).
De outro lado, a definição dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da
Organização das Nações Unidas (ONU), cuja aplicabilidade subentende a relação harmônica
entre preservação ambiental, progresso social e crescimento econômico, em busca do bemestar e de constante melhoria na qualidade de vida da humanidade.
Como uma das formas de atender aos ODS, a perspectiva do nexo foi apresentada,
pela primeira vez, no World Economic Forum, em 2011, cuja abordagem focava na estrutura
dos elementos do nexo, a promoção entre os vínculos inseparáveis dos
​​ recursos naturais e a
garantia dos direitos básicos e universais, tais como alimentos, água e segurança energética
(BIGGS et al., 2015). Versões posteriores assumiram vários elementos alternativos, porém
recursos hídricos como componente central (HOFF, 2011), a exemplo: uso da terra-águaenergia (HOWELLS et al., 2013) e alimentos como um componente central de ligações
terra-água-energia (RINGLER et al., 2013). O “pensamento do nexus” colocava-se como
um avanço nas políticas atuais e, muitas vezes, específicas do setor de governança do uso
dos recursos naturais.
Al-Saidi e Elagib (2017) sugerem que o foco de governança é um ingrediente em
falta no debate sobre o nexo. A governança do nexo inclui uma ampla variedade de sistemas
públicos que gerenciam a oferta e a demanda de água, energia e alimentos (PAHL-WOSTL,
2017). Promover o acesso a melhores fontes de água, instalações de saneamento e eletrificação
é visto pela maioria dos cidadãos como um barômetro da boa governança e é refletido nos
Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e ODS. Benson et al. (2017) argumentam
que uma governança eficaz para o nexo ocorre quando a integração dos setores de recursos é
ativamente perseguida, de modo que sinergias entre disponibilidade de água, energia, geração
e produção de alimentos são aprimoradas, enquanto as compensações são gerenciados e
potenciais conflitos são evitados.
As estruturas atuais do nexo, geralmente, são focadas no nível de macrofatores
determinantes dos padrões de consumo de recursos naturais. Contudo, sua extração e o uso
em “maior escala” pode levar ao esgotamento dos estoques de capital natural e ao aumento
do clima de risco sem uma parcela equitativa dos benefícios (HOFF, 2011), o que corrobora
com previsão da Organização das Nações Unidas (ONU), que retrata que o aumento da
população mundial ampliará a necessidade global por água, energia e alimentos. Significa
que o crescente número de pessoas continuará a depender e a impactar recursos já vulneráveis​​
para sustentar a vida e o crescimento econômico e para manter um ambiente sustentável.
Yumkella e Yillia (2014) afirmam que muitos países enfrentam problemas quanto

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

307

à produção de elementos do nexo água-energia-alimentos e possuem capacidade limitada
ou inexistente de responder adequadamente a essa demanda, tornando-se os desafios ainda
maiores quando se colocam as mudanças demográficas e de estilo de vida e a influência das
mudanças climáticas na demanda e na oferta desses recursos. A World Energy Council
(WEC) comenta que fatores como as mudanças climáticas impactam fortemente os sistemas
de água, que, por sua vez, afetam a produção de alimentos, os sistemas de produção e segurança
energética e, consequentemente, o crescimento econômico (WEC, 2010).
Para a agenda de execução dos ODS, a importância da perspectiva do nexo como
conceito do planejamento integrado e da tomada de decisões vem sendo mundialmente
mais aceita, por sua abordagem carregar oportunidades e desafios interdisciplinares,
transversais e multissetoriais. Essas complexidades estão intrinsecamente vinculadas às
dependências entre os elementos água-energia-alimentos, com objetivo de fornecer subsídios
básicos que promovam o crescimento humano e econômico, bem como por permitirem
o compartilhamento de conhecimento, habilidades e experiências em prol de soluções
inovadoras para sistemas complexos e interligados, e nisso se constituem o desafios do nexo
(HOWARTH; MONASTEROLO, 2016).
O esforço de inserir o conceito do nexo dá-se em função do desenvolvimento
sustentável, que pode ser alcançados através de melhor gestão dos ecossistemas e do uso
estratégico de recursos naturais. Os elementos do nexo água-energia-alimentos não estão
distribuídos uniformemente nas regiões, haja visto os desequilíbrios sociais, ambientais,
econômicos e de segurança alimentar na bacia do rio São Francisco (BRSF).
Kepple e Segall-Corrêa (2011) relatam que o conceito de Segurança Alimentar e
Nutricional (SAN), além dos aspectos tecnológicos, também envolve questões culturais,
de saúde e política. Esse conceito está inserido num contexto de sócio-economia, de nível
educacional e de políticas públicas de acesso a alimentos em quantidade e qualidade. O que
o torna um desafio, especialmente considerando que engloba diversas áreas do conhecimento,
como Economia, Direito, Agricultura, Educação, Saúde, Nutrição, Assistência Social,
Sociologia, Antropologia e Psicologia, entre outras; áreas que possuem uma perspectiva própria
e uma expectativa na compreensão e em sua utilização. Entretanto, esses marcos conceituais
e disciplinares, bem como seus indicadores, tomados isoladamente, não são suficientes para
a compreensão integral do problema, lançando mão dos métodos baseados na percepção da
insegurança alimentar, que se encontram voltados para as redes de programas de proteção
alimentar e consideram tanto as questões sociais como as biológicas.
Sarti e Torres (2017) afirmam que apenas maximizar a produção de alimentos e
criar estratégias para evitar a perda de produtos não é o suficiente para garantir a segurança
alimentar e que o acesso de produtores e da população aos alimentos saudáveis é outra
questão essencial.
Machado (2010) constata que, mesmo que o cidadão não esteja passando fome ou
que não sejam verificados sinais clínicos clássicos de desnutrição, algumas pessoas podem
sentir um medo justificável de privações futuras. Portanto, esse medo caracteriza elementos
centrais na composição analítica referente à saúde da população e à insegurança alimentar,
que conceitualmente abrange pessoas que não tenham meios para adquirir alimentos em
quantidade suficiente.
Na prática, as pesquisas de ingestão domiciliar de alimentos conseguem perceber
o fenômeno da “insegurança alimentar” com maior fidelidade, pois procuram examinar os

308

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

hábitos de ingestão alimentar das famílias. Esse método consiste na aplicação de questionários
que Cobrem uma escala que vai desde a percepção de preocupação e angústia diante da
possibilidade de não dispor de alimentos regularmente até a percepção de problemas na
adequação da dieta. Também envolvem a diversidade e/ou a quantidade de alimentos que,
no limite, levam à fome e a problemas de saúde (CAMPOS, 2016).
Por esse método, a insegurança alimentar é percebida em vários níveis, que vão
desde a preocupação de que o alimento acabe antes que haja dinheiro para comprar mais,
caracterizando a dimensão psicológica da insegurança alimentar, passando pela insegurança
relativa ao comprometimento da qualidade da dieta, sem restrição quantitativa, chegando
ao ponto mais grave, que é a insegurança quantitativa, níveis ou situação em que a família
passa por períodos concretos de restrição na disponibilidade de alimentos para seus membros,
destacando-se a situação em que as crianças são atingidas como a mais grave das condições
de insegurança alimentar (BICKEL et al., 2000).
A principal vantagem desse método provém do fato de as medidas qualitativas
apreenderem, como elemento essencial, o modo como as pessoas mais atingidas percebem a
insegurança alimentar. Esse método permite captar não só as dimensões físicas, mas também
as dimensões psicológicas da insegurança alimentar; e permite, ainda, classificar os domicílios
de acordo com sua vulnerabilidade ou nível de exposição à insegurança alimentar. Seus limites
são dados pelo caráter “subjetivo” da insegurança alimentar, que dificulta comparações e não
permite captar a dimensão da segurança dos alimentos, ou seja, a qualidade sanitária (PNAD,
2013). Em suma, destaca-se que as diversas metodologias de medição de segurança alimentar
são complementares ao evidenciar distintos níveis de agregação geográfica e demográfica,
bem como seus indicadores diretos e indiretos. Esses indicadores refletem o sentimento de
insegurança alimentar dos entrevistados, de forma a fazer uma gradação em relação à sua
segurança de obter e consumir alimentos (KEPPLE, 2014).
Assim, este trabalho discute a interação dos conceitos de nexo, SAN e percepção
de insegurança hídrica, energética e alimentar, como forma de contribuir com aspectos
interpretativos aplicados ao contexto da sub-região do Baixo São Francisco, considerando
a necessidade do estabelecimento de referenciais que aproximem esse novo paradigma de
situações e contingências concretas e buscando um necessário pragmatismo das perspectivas
analíticas e de reflexividade quanto ao uso dos recursos naturais.
Este estudo teve como objetivo analisar a percepção dos pescadores quanto à sua
insegurança hídrica, energética e alimentar, e ensaia uma discussão relativa ao desafio da
racionalidade do nexo para o território do Baixo rio São Francisco.

Levantamento de dados de campo
Para tanto, adotou-se como metodologia de pesquisa entrevistas com pescadores nas
cidades em que o barco atracou. As entrevistas foram realizadas através de um formulário
semiestruturado, o que configurou pesquisa de caráter exploratório e de abordagem qualiquantitativa.
As entrevistas foram realizadas durante a II Expedição Científica do Baixo São
Francisco, evento em que um barco com vários pesquisadores trafegou por este rio por
cerca de 210 km, atracando nas cidades de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real do
Colégio, Igreja Nova (comunidade Chinaré), Penedo, Neópolis e Piaçabuçu, fazendo um
estudo multidisciplinar, entre 18 e 27 de novembro de 2019.
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

309

Entendendo os resultados obtidos
Segundo Almeida et al. (2017), os estudos de “percepção” enfatizam que pessoas
distintas podem compreender a mesma situação de diferentes modos e que a reação desses
indivíduos, quanto a essa determinada situação, pode ser estabelecida a partir de sua
interpretação. Diante dessa concepção, os problemas ambientais são percebidos e interpretados
de diferentes maneiras, uma vez que as pessoas os encaram de acordo com as peculiaridades
de suas percepções e que estas influenciam em aspectos do ambiente, em detrimento de
outros que, de fato, são ameaças imperceptíveis aos órgãos sensoriais. Os autores também
afirmam que estudos nessa abordagem são fundamentais para a compreensão das interrelações entre homem e ambiente, de suas expectativas, satisfações, anseios, julgamentos e
condutas no espaço em que está inserido. Tais estudos fornecem subsídios para a construção
de estratégias que minimizem problemas socioambientais e implementem programas de
educação e comunicação, de forma a assegurar a participação dos atores envolvidos no
processo de gestão ambiental.
Vasco e Zakrzevski (2010) discutem conceitualmente o termo “percepção ambiental” e
afirmam que não é apenas uma questão de apontar quais representações parecem corresponder
melhor à realidade, mas de ampliar as perspectivas científicas, políticas ou sociais transmitidas
através do uso desse conceito. Os autores analisam que grande parte da produção acadêmica
incorpora uma dimensão crítica, busca transformar as realidades e está associada a uma
experiência educativa concreta que tenha a mudança como seu eixo central.
As respostas dos 36 pescadores entrevistados revelam a percepção deles quanto à
disponibilidade de água para a pesca no BRSF e indicam que a maior insegurança concentra-se
na interrupção no abastecimento do rio. A vazão disponibilizada pela empresa da hidroelétrica
é colocada como uma decisão alheia a qualquer necessidade da comunidade do entorno do
rio na bacia.
Os relatos coletados neste estudo apontam que houve uma imensa vazão de água
no passado, antes das instalações das hidroelétricas. É possível observar certa tristeza nestes
depoimentos: “[...] era lindo, esse rio!” é a narrativa dos ribeirinhos, que mostram as marcas
que as águas atingiram no passado e que hoje a vazão lhes causa tristeza profunda. Um dos
entrevistados chega a marejar os olhos quando fala do assunto, verbalizando que: “o rio está
morrendo!”.
No contexto nexo água-energia-alimentos, relacionado à segurança alimentar, tornase importante avaliar as relações dos pescadores com o rio, as razões que promovem a
insegurança na prática da atividade pesqueira e, consequentemente, a insegurança alimentar
e as questões ambientais que promovem a variação da quantidade e a extinção de espécies de
peixes necessárias para a promoção de segurança dessa atividade econômica. Essas questões
da sub-região do Baixo São Francisco complementam-se quando pescadores são instigados
a relatar dificuldades na sua atividade (Figura 118).

310

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 118 - Dificuldades na atividade pesqueira relatadas nas entrevistas com pescadores.

Fonte: Pesquisa Direta, 2019.

A principal dificuldade relatada é a reduzida disponibilidade na quantidade e na
variedade de espécies de peixes que, no passado, tinha no rio e que, no momento, não se
encontram mais. As alternativas científicas desta questão permeiam a atividade antrópica
e as mudanças no ecossistema do rio São Francisco, possivelmente advindas da construção
das barragens, da liberação do fluxo de água, da qualidade de água e das relações ecológicas.
Há uma necessidade de ter resposta técnica que possa garantir a quantidade, a qualidade e as
variedades de peixes para que se tenha a garantia desse recurso no espaço temporal e geográfico.
No início de 2010, dados indicavam como espécies mais abundantes a curimatãpacu, Prochilodus argenteus (Characiformes, Prochilodontidae) e o piau (Leporinus obtusidens)
(Anostomidae, Characiformes) (SOARES et al., 2011). No entanto, relatos de pescadores
locais sugerem que, desde 2015, essas populações encontram-se em declínio e o conjunto
dessas espécies chegou a representar aproximadamente 55% das capturas na microrregião
de Penedo e possivelmente não estejam entre as cinco principais espécies comercializadas
(BARBOSA et al., 2017).
Em relação às espécies de peixes, o Mekong, considerado o segundo rio com maior
biodiversidade do mundo, é um rio transfronteiriço no leste e sudeste da Ásia, que atravessa
países como China, Mianmar, Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã (ZIV et al., 2012).
Na implementação de suas barragens, previa-se que as espécies e populações de peixes
diminuiriam significativamente, bloqueando a migração e alterando os padrões de captura
de sedimentos (ICEM, 2010 apud PITTOCK et al., 2012).
Todos os entrevistados nesta pesquisa relataram espécies de peixes que não encontram
mais no rio São Francisco e as justificativas elencadas por eles é de que a vazão é muito baixa.
Pela percepção de tempo, a construção das barragens foi o início desse declínio, juntamente
com a seca e a poluição. Medeiros et al. (2016) comentam que, dentre outras consequências
relatadas por estudiosos da área, encontra-se a redução gradual dos fluxos mínimos no rio,
com impactos no avanço da cunha salina na região da foz e, associada a esta questão, a menor
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

311

capacidade depurativa do rio, resultado de vazões mais baixas ao longo de períodos mais
longos. Todos esses fatores contribuem significativamente para a manutenção de poluentes em
concentrações prejudiciais à biota, ao consumo e à irrigação de culturas. Para se ter uma ideia,
a vazão do rio São Francisco foi reduzida drasticamente nos últimos anos, de 1.300 m³.s-¹,
em 2012, para 550 m³.s-¹ em 2017 (Resolução ANA nº 1.291/2017). Como efeito imediato,
foi detectado o aumento da salinidade na sua foz, onde Santana et al. (2017) observaram
concentração média de salinidade entre 0,17‰ e 28,87‰ (BARBOSA et al., 2018).
Entre outras consequências dessas reduções de vazão para o avanço da cunha salina
sobre o rio, verificam-se impactos significativos para os ecossistemas e para a população local,
com provável aumento da concentração de poluentes, interferência negativa em atividades
econômicas como a pesca e a rizicultura e, em último caso, pode inviabilizar a utilização
das águas para fins de abastecimento humano. Possivelmente, os efeitos dessa salinização
promovem alterações na biota local, com aumento da competição entre espécies, diminuição
dos estoques pesqueiros, desaparecimento de algumas espécies de peixes e crustáceos e o
surgimento de outros efeitos em ambientes salinizados (SOARES et al., 2011; MEDEIROS
et al., 2016; BARBOSA; SOARES, 2017; BARBOSA et al., 2018).
Esse cenário tem mostrado sinais de agravamento nos últimos anos e pode ser
acelerado devido à exploração excessiva de recursos naturais, como a remoção de mata ciliar em
rios tributários e o baixo nível de tratamento de esgoto urbano nos municípios da região, com
impactos negativos pela ocorrência de longos períodos de seca, levando a decisões gerenciais
que não promoveram adequadamente os usos múltiplos da água do rio (CUNHA, 2015).
A supressão da vegetação nas margens do rio também contribuiu para o aumento do
assoreamento e de processos erosivos do solo, influenciando na diminuição de organismos,
por serem importantes redutos de biodiversidade e indicadores de preservação ambiental
(CHABARIBERY et al., 2008; MORAIS FILHO, 2014; APARECIDO et al., 2016).
Hoff (2011) elenca, entre os desafios de desempenho da racionalidade do nexo,
as dificuldades e as lacunas nas avaliações de ciclo de vida em termos de água e energia,
pois essas geralmente não são compreendidas integralmente. A construção das barragens
no rio São Francisco deveriam ter considerado estudos da vida aquática e suas atividades
econômicas, bem com as atividades agrícolas da região, dentre outras. Essas decisões quanto
a construções de barragens e vazões de água não podem ser separadas da política regional e
das relações entre as atividades econômicas. Outros fatores incluem mudanças demográficas,
pois as cidades possuem demandas para consumo de água.
Hoje, milhões de pessoas vivem do rio São Francisco e dependem diretamente
deste sistema para alimentação e subsistência; porém, a maioria dessas famílias é afetada
por mudanças na disponibilidade de água, que é uma das fontes econômicas da região. Essa
atividade representa papel crucial no estabelecimento de segurança alimentar.
Os dados desta pesquisa foram compilados sobre os elementos do nexo para as
respostas de percepção da insegurança hídrica (Figuras 119A e 119B).

312

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 119 - Percepção de insegurança hídrica de pescadores do Baixo São Francisco.
A) Relacionada à frequência da insegurança. B) Relativa à motivação desta
insegurança.

A

B

Fonte: Pesquisa Direta, 2019.

Para a insegurança ou preocupação quanto à possibilidade de faltar ou não ter água
para o pescador e sua família, verifica-se que 15 pescadores responderam que “sempre” e 10 que
“às vezes” possuem insegurança, e quanto ao motivo desta, a soma das respostas de liberação de
vazão do rio ou o rio secou foi de 91%, indicando, assim, que a percepção quanto às restrições
é, geralmente, relacionada às condições de vazão do rio, por esse representar, principalmente,
o recurso natural, de onde depende sua atividade econômica e tiram seu sustento.
Os dados para a insegurança energética ou a preocupação quanto à possibilidade de
faltar energia para o pescador e sua família mostram que 14 entrevistados percebem que “às
vezes” e que 12 deles responderam “sempre”. A soma dá um total de 26 dos 36 entrevistados,
cerca de 72% (Figuras 120A e 120B).
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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Figura 120 - Percepção de insegurança energética de pescadores do Baixo São Francisco.
A) Relacionada à frequência da insegurança. B) Relativa à motivação desta
insegurança.

A

B

Fonte: Pesquisa Direta, 2019.

Yumkella e Yillia (2014) comentam que, em algumas partes do mundo, os altos
custos ou a disponibilidade limitada de energia são fatores limitantes para fins de aumento da
produção, fornecimento de água potável e manutenção de serviços de saneamento eficientes.
Outrossim, existem estimativas de que um terço dos alimentos produzidos no mundo são
estragados devido às limitações de energia e à falta de infraestrutura adequada entre produtores
e consumidores, principalmente nas etapas de transporte, instalações de armazenamento e
acesso ao mercado, e também devido a hábitos de consumo, normas estéticas e regulação.
Os dados para a insegurança alimentar ou preocupação quanto à possibilidade de
faltar alimentos para o pescador e sua família mostram que 14 deles responderam “sempre”
e 10 entrevistados percebem que “às vezes”; a soma dá um total de 24 dos 36 entrevistados,

314

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

cerca de 67% (Figuras 121A e 121B). Essa percepção quanto aos alimentos pode indicar
insegurança na obtenção de sua renda com a pesca ou a quantidade e a qualidade de pescado,
que proporcione renda suficiente para a manutenção de sua família.

A

B

Fonte: Pesquisa Direta, 2019.

A Bacia do Rio São Francisco, BRSF, é caracterizada pela interdependência na
condição hídrica, abrangendo característico conjunto de processos de antropização e
urbanização, desenvolvimento econômico e desafios de inclusão social. No território, são
90 municípios integrados, onde vivem cerca de 14,2 milhões de habitantes (INSTITUTO
BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATISTICA, 2010). Destes, 752,2 mil habitantes
é a população da sub-região do Baixo, distribuída em 53,3% na zona urbana e 46,7% na
zona rural dessa sub-região da bacia (COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DOS
VALES DO SÃO FRANCISCO E DO PARNAÍBA, 2016), que é mais impactada quanto
a pesca, geração de energia elétrica e poluição oriunda dos esgotos das cidades.
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

315

O rio sofreu modificações extremas no seu ecossistema com as instalações das
usinas hidrelétricas de Sobradinho, Apolônio Sales, Paulo Afonso (I, II, III e IV), Luiz
Gonzaga e Xingó, que hoje garantem fornecimento para diversas regiões e representam
a base de suprimento de energia do Nordeste. A agricultura é uma das mais importantes
atividades econômicas, mas é a regularização das vazões do RSF, proporcionada pelos
grandes reservatórios, que garante maior segurança operacional de diversas captações para
abastecimento de água pelos municípios. O projeto sofre problemas, como: desmatamento,
perda da biodiversidade, favorecimento de processos de lixiviação do solo, alterações na vazão
do rio e prejuízo na geração de energia nas usinas hidrelétricas instaladas (DEVEZA, 2019).
Outra consideração relativa à ação antrópica é a transposição do RSF, que “desvia” as
águas para áreas assoladas pela seca, através de canais, atendendo às populações dos Estados
do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Nesse contexto, quando colocado
na racionalidade do nexo, torna-se possível conceber que a água do rio, recurso natural
que proporciona aos pescadores a subsistência da atividade econômica ali desenvolvida,
foi atenuada em função da produção de energia e sua insegurança alimentar aumentou em
função desta atenuação. As abordagens do nexo consideram questões-chave em alimentos,
água, energia e segurança através de uma lente de sustentabilidade, a fim de prever e proteger
contra riscos potenciais de insegurança futura.
As escolhas entre desenvolvimento hidrelétrico, conservação da biodiversidade e
segurança alimentar são contestadas devido à incompatibilidade de informações, escalas e
influências. Os requisitos da produção de energia hidroelétrica transferem riqueza de recursos
naturais rurais às mãos de governos nacionais e empresas-chave, em oposição aos ideais de
conservação da biodiversidade, conceitos de desenvolvimento sustentável, meios tradicionais
de subsistência e pesca das comunidades, bem como as limitações de acesso à informação e a
influência financeira e política das populações (PITTOCK et al., 2014; MOLLE et al., 2010).
Yumkella e Yillia (2014) comentam que, para promover mudanças em busca de
soluções, com fins de apoiar o planejamento e a tomada de decisões de forma integrada,
faz-se necessário entender os fatores da dinâmica do nexo. Porém, água e energia estão
intrinsecamente ligadas a sistemas de produção de alimentos, fatores e mudanças climáticas,
biodiversidade e até mesmo a soluções tecnológicas e arranjos institucionais necessários para
gerenciar e usar os recursos com eficiência. Estudar como essas dimensões e suas conexões
são percebidas e gerenciadas terá consequências de longo alcance para vários objetivos de
desenvolvimento global, como exemplo: redução da pobreza, melhorias na saúde, tratamento
das mudanças climáticas, segurança energética, combate à fome e desnutrição, aumento ao
acesso à água e ao saneamento, minimizar a degradação do ecossistema, entre outras.
Segundo o International Geosphere Biosphere Programme (IGBP, 2012), são
considerações e recomendações para as políticas públicas: colocar a água como agenda global,
envolver ciência e políticas públicas, priorizar o compromisso com a sociedade; salvaguardar a
biodiversidade e os serviços do ecossistema; confrontos inevitáveis devem ser resolvidos com
base na ciência e com uma visão abrangente; evitar comprometimento por política e lobbies;
a necessidade de melhorar a disponibilidade de dados e informações; adaptação às mudanças
climáticas; implementação de políticas fortes e arcabouços jurídicos; capacitações técnicas em
diferentes níveis e mecanismos de financiamento adequados para garantir sustentabilidade.
Acrescenta-se que a abordagem sustentável para gestão das águas não se restringe aos
aspectos físicos, químicos e biológicos do ciclo hidrológico, bem como a técnicas para acesso

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

equitativo, mas sim a premissa de compreensão das dinâmicas sociais e políticas, múltiplo uso
atual e futuro, crenças e valores humanos com relação aos recursos, ciência interdisciplinar
e o envolvimento de todos os atores. Ressalta-se que cientistas e técnicos responsáveis pelas
decisões possuem responsabilidade conjunta de trabalhar em prol do desenvolvimento de
soluções mais sustentáveis para os problemas hídricos existentes e emergentes.
Ressalta-se também que a sustentabilidade pesqueira no Brasil carece de dados,
pois, segundo informações do site do extinto Ministério da Pesca e Aquicultura, o último
boletim estatístico publicado foi em 2011. Desde então, não há dados oficiais consolidados
sobre a atividade no País e esse problema incomoda tanto o setor produtivo quanto cientistas
e organizações conservacionistas, pois limita-se à capacidade de monitorar e planejar a
sustentabilidade da atividade, seja com o intuito de intensificar ou de restringir os esforços
de pesca. Para Mônica Brick Peres, diretora-geral da organização Oceana Brasil,
a falta de dados é prejudicial para todos. Para fazer manejo de pesca,
é necessário saber o que é capturado, o que é jogado fora, o que é
desembarcado, como, onde e em que época. Sem essas informações,
qualquer coisa é chute.

A Embrapa diz que é unânime entre cientistas, poder público e setor produtivo a falta
de informação primária e contínua sobre pesca. Dessa forma, de acordo com as demandas
levantadas no Seminário Nacional de Prospecção de Demandas da Cadeia Produtiva da
Pesca (2011), é preciso ampliar o conhecimento e gerar, de forma contínua, dados estatísticos
sobre o setor que subsidiem políticas públicas, além de implementar um plano nacional de
monitoramento pesqueiro. O maior desafio é desenvolver sistemas pesqueiros mais eficientes,
a fim de garantir sustentabilidade econômica, social e ecológica do setor (EMPRESA
BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA, 2020).
Pittock et al. (2014) publicaram um estudo sobre as narrativas de stakeholders nos
processos que permitem políticas e práticas eficazes para gerenciar os vínculos entre água,
energia e alimentos. Realizaram três estudos de caso, um na bacia do rio Mekong, um no
Sri Lanka e outro no Zimbábue, e verificaram que existem consideráveis oportunidades
para melhorar os resultados do desenvolvimento sustentável, encontrando soluções que
acomodam vários objetivos do nexo. Propõem que os dados possam tornar-se mais
disponíveis, contratar especialistas independentes para aconselhar sobre questões conflitantes,
engajar partes interessadas que se encontram sub-representadas nas tomadas de decisões,
compartilhar benefícios, explorar diferentes perspectivas em fóruns, onde opções alternativas
de desenvolvimento podem ser testadas e envolver os tomadores de decisão em diferentes
escalas de decisões. Ressaltam que a falta de planejamento integrado e multiuso dos recursos
hídricos disponíveis afeta seriamente o justo e equitativo acesso à água para diferentes usuários
e leva a crises e conflitos na alocação de água.
O reflexo de ações isoladas, em muitos países ou comunidades, são consumidores e
empresas usando os recursos naturais de maneiras tecnicamente ineficientes, sem visão dos
possíveis benefícios das ligações entrelaçadas e interdependentes. Essas visões são contrárias
às alternativas encontradas quando essas relações são dialogadas com todos os atores, em
que apreciam a situação de forma a tomar as decisões que maximizam os co-benefícios e
minimizem as restrições. Porém, é necessária uma ação ajustada em todas as esferas e níveis
de influência.
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

317

Yumkella e Yillia (2014) apresentam sugestões de como os stakeholders poderiam
melhorar essas interligações: a) a comunidade poderia reunir atores e catalisar o apoio a
organizações nacionais e estaduais e, em alguns casos, entidades regionais e sub-regionais; b)
os governos poderiam fazer e usar políticas muito mais coordenadas, enquanto a comunidade
empresarial poderia tentar ajustar os sistemas de produção para um uso mais eficiente dos
recursos; c) as ONGs e organizações da sociedade civil poderiam aprender a desafiar e
colaborar com o setor empresarial e as autoridades locais para ajudar a fornecer soluções; d)
as instituições de financiamento e agências de desenvolvimento poderiam usar sua experiência
em trabalhar com governos para promover mais replicação de iniciativas orientadas ao nexo;
e) os indivíduos e a sociedade civil como um todo poderiam tentar entender e gerenciar seus
padrões de consumo e as escolhas que eles fazem em um mundo cada vez mais restrito em
recursos.
A realocação das quotas existentes de água apresentam aspectos sociais, culturais e
ambientais economicamente e politicamente muito sensíveis. No entanto, o planejamento
integrado e multiobjetivo e a transparência nos processos são abordagens vitais para evitar
a desconfiança pública na implementação de novos projetos, e também para garantir o
multiuso à água por diferentes usuários (PITTOCK et al., 2014). E complementam que os
contrastes entre escalas e em foco nas compensações sobre água, energia e alimentos devem ser
enfrentados pelas partes interessadas (stakeholders). No entanto, também existem necessidades
comuns de processos que possibilitem negociações mais efetivas entre esses multiusuários,
o que também foi verificado nas entrevistas com pescadores do rio São Francisco. Estes
relatam que a vazão da água é aumentada quando os gestores da hidroelétrica decidem e que
essa decisão dificulta todo o ciclo de vida do peixe e, consequentemente, atinge as atividades
de pesca e promove insegurança alimentar.
Os casos avaliados no estudo de Pittock et al. (2014) e da pesquisa com pescadores
do rio São Francisco demonstram que existem amplas oportunidades para melhorar os
resultados para o desenvolvimento sustentável, encontrando soluções para o compartilhamento
de infraestrutura, uso de recursos naturais e gerenciamento de ecossistemas que acomodam
vários objetivos no nexo.
O nexo água-energia-alimento é um conceito cada vez mais utilizado como referência
à tomada de decisões integrada entre setores, considerando que uma ação, em uma área,
afetará uma ou mais áreas. No entanto, o desenvolvimento sustentável e o crescimento
social e econômico podem ser alcançados através de melhores gestões dos ecossistemas e do
uso mais estratégico de água, terra e outros recursos naturais, favorecendo oportunidades
de compartilhar os benefícios de recursos específicos através das fronteiras para o benefício
da região e otimizando o uso de recursos (SCHREINERA; BALETA, 2014). Assim,
considera-se questão-chave em alimentos, água e energia a segurança através de uma lente
de sustentabilidade, a fim de prever e proteger contra riscos potenciais de insegurança futura.
Yumkella e Yillia (2014) ressaltam, ainda, que o trabalho de avaliação e desenvolvimento
metodológico do nexo está em fases preliminares, apesar dos primeiros passos – aceitar que a
energia-água é o melhor facilitador para a segurança alimentar, melhorias em saúde e educação,
acesso à água potável, saneamento, economia e empoderamento. Do ponto de vista do nexo,
faz-se necessário reconhecer as externalidades positivas e negativas da produção de energia
no Baixo Rio São Francisco, repensar e tomar medidas multidimensionais para planejar e
implementar uma estratégia de desenvolvimento com tudo incluído e, em particular, um

318

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

modo que continuará coordenando os vínculos, sejam eles energia-água-pesca, energia-águaprodução agrícola, energia-água-transporte fluvial, energia-água-saúde etc.
Howarth e Monasterolo (2016) desenvolveram uma pesquisa metodológica sobre
a abordagem do nexo em 4 encontros entre 80 stakeholders e identificaram preocupações,
oportunidades e barreiras das principais partes interessadas para melhor informar a tomada
de decisão, centrada em quatro temas: comunicação e colaboração, processos de tomada de
decisão, dimensões sociais e culturais e natureza das respostas aos choques do nexo. A partilha
dos participantes evidenciou as implicações das barreiras e suas soluções, o que pode facilitar
um diálogo construtivo e a tomada de decisões mais eficiente para as respostas aos conflitos
do nexo. Os autores afirmam que a adoção e a implementação de abordagem multidisciplinar
são complexas devido às limitações sociais e práticas que são específicas da área e comuns aos
campos das ciências dos envolvidos. Isso inclui as regras que caracterizam o desenvolvimento
do conhecimento, maior especificidade da educação e especialização dos pesquisadores,
falta de retorno de indicadores de visibilidade, como publicação em principais periódicos,
solicitações de financiamento a órgãos públicos e privados e desenvolvimento de carreira.
Simpson e Jewitt (2020) fizeram uma revisão sobre nexo e relatam que este conceito
tem sido amplamente promovido em políticas e círculos de desenvolvimento desde o ano de
2011 e possui grande potencial, porém enfrenta desafios para ser amplamente adotado. Como
fragilidade, apresenta aspectos ainda não comtemplados, tais como meios de subsistência e
do ambiente. Até o presente momento, os estudos focaram na segurança global de recursos
em escala macro, que não era a intenção quando o conceito foi promovido, no início de sua
concepção. Para que essa abordagem ganhe impulso, principalmente à luz dos ODS, devese ampliar a segurança de recursos adequados para todos os aspectos e, simultaneamente,
reconhecer e proteger o ambiente como base insubstituível do nexo. Essa abordagem
multicêntrica aumentará a complexidade, especialmente quando interconexões, trade-offs e
dirigentes institucionais e governamentais são incorporados na avaliação.
Os mesmos autores fazem a ressalva de que a abordagem do nexo água-energiaalimentos não deve ser um modelo único, mas sim ser escalonado e adequado para diferentes
situações, como exemplo: cidades, países e regiões (bacias hidrográficas, no caso do São
Francisco). A disponibilidade de informações completas e relevantes de dados também
representa um desafio para a implementação, na prática, do nexo, por ser um recurso
relativamente novo, com vista ao desenvolvimento. Se o nexo é multicêntrico, sua abordagem
fornece um melhor foco aos complexos desafios de desenvolvimento e segurança que a
comunidade global está enfrentando, em comparação às estruturas existentes anteriormente,
porém, sua possível adoção deve ser explorada mais amplamente. Ainda afirmam que a
estrutura do nexo é considerada, por muitos autores da literatura acadêmica, como uma
“zona cinzenta”, mas como promessa para orientar o desenvolvimento de estruturas políticas
e de governança. Em um mundo que está enfrentando mudanças climáticas, crescimento
populacional e a desigualdade em termos de acesso aos recursos naturais, a ligação das
avaliações do nexo água-energia-alimentos com os ODS é, portanto, imperativa.
Howarth e Monasterolo (2016) comentam que o nexo representa um meio
multidimensional de investigação científica que procura descrever as complexas e não
lineares interações entre água, energia e alimentos, com o clima e outros aspectos, com fins
de compreender implicações mais amplas para a sociedade. Esses recursos são fundamentais
para a vida humana, mas são afetados negativamente por “choques”, como, por exemplo, a

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

319

construção de barragens ou as mudanças climáticas, que caracterizam alguns dos principais
desafios ao desenvolvimento sustentável. Dada a natureza multidimensional e complexa do
nexo, é necessária uma abordagem transdisciplinar do conhecimento para, efetivamente,
analisar dados e informar os processos de tomada de decisão. Essa complexidade dá-se devido
às particularidades comuns às ciências, suas limitações e práticas, as regras e os métodos de
produção, as especificidades da educação e a especialização dos pesquisadores, financiamentos,
sistemas de publicações e comunicação. Todos esses fatores são essenciais ao fomento de bases
de informações necessárias ao nexo para melhor tomada de decisão, bem como carregam
uma série de laços, oportunidades e desafios interdisciplinares, transversais e multissetoriais,
permitindo, assim, a capitalização do conhecimento e o compartilhamento de habilidades e
experiência com fins de criar soluções inovadoras para sistemas que se apresentam complexos
e interligados; nisso se constituem os desafios do nexo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo apresentou um ensaio no sentido de motivar o debate e não objetivou
esgotar a análise do nexo para o contexto territorial do Baixo São Francisco. Teve como
foco essa nova abordagem, com fins de estimular pesquisas e intervenções com visão
multidimensional, interdisciplinar, transversal e multissetorial, que apresentam soluções de
aplicação às vulnerabilidades no Baixo rio São Francisco.
Diante do contexto apresentado neste estudo, foi possível verificar que a população
de pescadores possui considerável percepção de insegurança hídrica, energética e alimentar.
A abordagem do nexo permite alavancar coparticipações que possam, simultaneamente,
otimizar o uso dos escassos recursos hídricos, similar à eficiência energética, sem permitir a
insegurança alimentar da população desse território, trazendo, assim, uma melhor relação entre
as dinâmicas praticadas pelos atores, promoção da equidade entre indivíduos e comunidades
nas agendas de desenvolvimento do território da bacia do rio São Francisco.

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322

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

FISHERMEN’S PERCEPTION ON CHANGES OF
THE LOWER SÃO FRANCISCO RIVER
Jucilene Cavali

Alfredo Borie Mojica

Jerônimo Vieira Dantas Filho
SUMMARY

The objective of this study was to evaluate the environmental, socioeconomic, and
cultural perception of fishermen regarding ecological changes on the Lower São Francisco
River, Brazil. The research was developed through semi-structured interviews with fishermen
from 7 municipalities and villages on the São Francisco River banks, applied during the II
Scientific Expedition embarked on the São Francisco River. In the perception of fishermen,
environmental changes are consequences of the progressive reduction of the flow of the São
Francisco River in the last 12 years, which culminates in changes in the quantity and diversity
of fish species, the increase of sandbanks, islands, shallow still and hot waters, diversity, and
an increase of macroalgae and parasites. The qualitative perception of water is noticed by
the fishermen of the city of Piaçabuçu due to the sea salt wedge’s advancement on the river.
In the economic sphere, families of fishermen, who consumed 5 to 8 kg/day, used to fish
from 50 to 70 kg/day and traded up to R$ 800.00 to 1000.00 per week; today, they survive
with as little as R$ 250.00 to 300.00 monthly and rely on other sources of income besides
the river. Fishermen highlight necessary actions for the river’s survival, such as restocking,
surveillance of predatory fishing and the use of aggressive equipment, especially in the
capture of fish matrices, and control of waste disposal. They suggest socio-environmental
and contributive action economic projects by the fishermen through their associations, such
as repopulation, inspections, environmental education, and changes and expansion of the
fishing prohibition period.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

323

CAPÍTULO 18
PERCEPÇÃO DOS PESCADORES SOBRE AS
MUDANÇAS NO BAIXO RIO SÃO FRANCISCO
Jucilene Cavali82

Alfredo Borie Mojica83

Jerônimo Vieira Dantas Filho84

INTRODUÇÃO
O rio São Francisco, Opará ou Grande Rio, como é chamado, abrange 639.920 km2
de área de drenagem, cerca de 8% da área do território nacional, distribuindo-se por 507
municípios de sete Unidades da Federação (UFs): Estados de Alagoas, Bahia, Goiás, Minas
Gerais, Pernambuco e Sergipe, bem como o Distrito Federal. O rio São Francisco tem 2.700
km de extensão e nasce na serra da Canastra, em Minas Gerais, escoando no sentido sulnorte pela Bahia e por Pernambuco, quando altera seu curso para leste, chegando ao oceano
Atlântico por meio da divisa entre Alagoas e Sergipe (COMPANHIA HIDRELÉTRICA
DO SÃO FRANCISCO, 2017). O Baixo Rio São Francisco: de Paulo Afonso até sua foz
(32.013 km² – 5,1% da região) é habitado por cerca de 16,14 milhões de pessoas (9,5% da
população do País). A maior concentração de habitantes está no Alto (56%) e no Médio
São Francisco (24%). Ao longo do seu processo de ocupação, o rio São Francisco foi e é
utilizado para múltiplos aproveitamentos, como navegação, irrigação, mineração e pesca
(CASTRO; PEREIRA, 2017). O Velho Chico possui oito usinas hidroelétricas listadas na
ordem cascata do Alto até o Baixo Rio São Francisco: Três Marias, Sobradinho, Itaparica,
Moxotó, complexo de Paulo Afonso e Xingó. Esta última, a UHE Xingó (1994), possui uma
superfície aproximada de 60 km² e uma capacidade de armazenamento de 3,8 bilhões de m³
de água, considerado o 5º maior canyon navegável do mundo.
O Baixo Rio São Francisco possui cerca de 19.000 pescadores artesanais profissionais
cadastrados, locados em 19 colônias e 1 associação de pescadores. A colônia que apresentou
maior número de associados foi a de Piaçabuçu, Z-19 (3.980 pescadores associados), seguida
pelas colônias de Neópolis, Z-7 (3.140) e Penedo, Z-12 (2.500). Os pescadores do Baixo
Rio São Francisco trabalham, em média, 4 dias por semana, 8 horas por dia, apresentando
jornada de trabalho similar aos trabalhadores formais (8 horas/dia). A renda média mensal
estimada entre os pescadores dos municípios estudados foi de R$ 225,00 (US$ 59.24).
Porém, 33,3% obtêm uma renda de apenas R$ 100,00 a R$ 200,00/mês na pesca e 81% a
carteira da colônia de pescadores. Mudanças ambientais e socioeconômicas são notórias com
a instalação das usinas hidroelétricas de Sobradinho e Xingó. Mudanças ambientais – como
impactos na produção pesqueira, poluição, falta de saneamento básico, assoreamento – e,
Universidade Federal de Rondônia, Departamento de Zootecnia, Presidente Médici – Rondônia.
Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Unidade Acadêmica Penedo. E-mail: alfredo.mojica@penedo.ufal.br.
84
Universidade Federal do Acre, Programa de Pós-Graduação em Sanidade e Produção Animal Sustentável,
Rio Branco – Acre.
82
83

consequentemente, socioeconômicas vêm se instaurando nas comunidades ribeirinhas, que
dependem diretamente da pesca para a alimentação e do rio São Francisco para diversas
outras atividades.
O objetivo deste estudo foi conhecer os impactos das mudanças ambientais e
socioeconômicas percebidas pelos pescadores do Baixo Rio São Francisco, a fim de relacionar
as demais informações de análises da água, peixes e sedimentos realizadas durante a II
Expedição Científica do Rio São Francisco.

Metodologia
A pesquisa foi desenvolvida por meio de entrevistas semiestruturadas com 33
pescadores de colônias dos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Propiá, Neópolis,
Penedo e Piaçabuçu, sediados às margens do rio São Francisco no trecho de Piranhas à foz do
rio São Francisco, no Pontal do Peba, aplicadas durante a II expedição científica embarcada
do rio São Francisco. Este estudo baseou-se na pesquisa qualitativa. A fim de identificar
pescadores diretamente envolvidos com o conhecimento diário e prático do que se deseja
investigar, foram selecionados pescadores com vivências, experiências e contato diário com
o rio São Francisco, priorizando residentes locais de cada município. Utilizou-se o método
do estudo de caso de caráter empírico, a fim de expor o processo investigado e os resultados
decorrentes dessa investigação. Para isso, utilizou-se como instrumento de pesquisa a técnica
de entrevistas.
O questionário semiestruturado abordou temas relativos aos dados da pesca quanto
a diversidade e produção, qualidade da água e do pescado, presença de parasitas e macrófitas
e as principais percepções ambientais às mudanças do Velho Chico, assim como sugestões
de proposta socioambiental e/ou econômica de cunho contribuitivo advindo dos próprios
pescadores, através das colônias.

Resultados e Discussão
Os pescadores possuem, em média, 32 anos na atividade, de 8 a 45 anos, 66% são
cadastrados pelas colônias de pescadores entre os anos de 2004 e 2006, regulamentados na
profissão da pesca de subsistência e estando como pescadores ativos nos últimos 15 anos,
pescando na frequência de 3 a 5 vezes por semana (Tabela 45).
Tabela 45 - Síntese do perfil dos entrevistados por município no Baixo São Francisco.
Localidades

Piranhas, Pão
de Açúcar,
Traipu,
Penedo,
Neópolis,
Piaçabuçu

Pescador
‘n’

33

Tempo de pesca

32,4 ± 12,8

Tempo de
Carteira

27,7 ± 8,2

Fonte: Jucilene Cavali (2019).

Vezes em que
Colônia

pescam/

Z-12,
Z-17,
Z-18,
Z-19,
Z-20,
Z-30

3,6 ± 1,0

semana

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

325

Percepção de mudanças na produção e diversidade pesqueira
Aos dados da pesca, foi relatada a redução considerável da quantidade e da diversidade
de espécies de peixes. Na percepção dos pescadores, a redução do pescado no Baixo Rio São
Francisco vem ocorrendo gradativamente nos últimos 12 anos, com variação de 1,5 anos
entre as respostas obtidas (Tabela 46).
Tabela 46 - Percepção dos pescadores quanto às mudanças na produção e na diversidade de
espécies nos municípios do Baixo Rio São Francisco.
Municípios

Piranhas

Traipu

Penedo

Neópolis

Piaçabuçu

Tempo de
redução do
pescado

Pão de
Açúcar

12,1 ± 1,2

12,0 ± 1,7

12,2 ± 1,4

12,5 ± 1,7

10,7 ± 2,1

11,2 ± 1,5

5

6

8

7

3

4

Pescador ‘n’

Fonte: Jucilene Cavali (2019).

É unânime a percepção dos pescadores de que a UHE Xingó, última usina a ser
inaugurada, foi o derradeiro impacto sobre o volume de águas do Baixo Rio São Francisco
e, consequentemente, sobre a reprodução dos peixes. A percepção dos pescadores quanto à
redução do pescado corrobora com os relatos do período residual de presença de peixes, de
5 a 6 anos (n = 21) após uma boa cheia, a exemplo da última grande cheia, que ocorreu em
2005, com 9.500 m3 liberados; e, posteriormente, em 2009, com a abertura de 1 comporta
da UHE Xingó por alguns dias.
Segundo Pereira (2020), a descarga fluvial para o Baixo Rio São Francisco, de
3.533 m³/s, passou a ser regulada a 2.060 m/s pela UHE Xingó entre 1995 e 2001; foi
significativamente menor após a Resolução nº 442/2013, com redução a 1.100 m³/s da vazão
à jusante das barragens de Sobradinho e de Xingó, e a 800 m³/s em 2015, até chegar ao limite
de 550 m³/s em 2017; uma redução de 62,9% da descarga fluvial para o estuário do rio São
Francisco. Hoje, a UHE trabalha com 2 turbinas com média de 800 m3/dia (Figura 122B).
Os relatos deste estudo descrevem a última cheia do rio, proporcionando águas túrbidas e
lagos de desovas, pois os peixes demandam o início das chuvas fortes, que mexem com as
águas e proporcionam maior profundidade em coluna d’água, oportunizando áreas alagadas
para a formação dos ninhos. Destaca-se que, nas condições da última cheia natural, em 1992,
observou-se claramente o aumento dos peixes mandi, surubim (Pseudoplatystoma corruscans)
e tubarana e houve redução considerável dessas espécies a partir de 2002.
Medeiros et al. (2011) já ressaltavam as grandes alterações nas condições naturais
oriundas da atividade de geração de energia hidroelétrica do Submédio e do Baixo Rio São
Francisco, em função do resultado do manejo integrado do sistema de barragens, sendo a
barragem de Sobradinho a principal controladora da capacidade-limite de vazão da água.
Avaliando as séries de vazões entre 1936 a 2000 na região de Traipu, os autores destacam a
não influência dos eventos climáticos na variabilidade sazonal das vazões eliminadas após
2001 e a perda na pulsação sazonal e interanual, variações estas que somente ocorrem em
eventos climáticos extremos de elevadas precipitações, que superam a capacidade de retenção
das barragens. Também ocorrem em eventos de secas, quando o gerenciamento da vazão
tende a ser mais intenso ainda, visando maximizar a produção de energia hidroelétrica.

326

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Concomitantemente a alterações dos padrões naturais de vazão, ocorreu a diminuição do
aporte de nutrientes e sedimentos em suspensão na região costeira, culminando, naturalmente,
para as condições oligotrófcas da região costeira adjacente. A percepção, pelos pescadores,
quanto à diversidade de espécies que desapareceram (Gráfico 7) e tornaram-se mais frequentes
(Gráfico 8) variou entre os municípios ao longo do Baixo São Francisco.
Gráfico7 - Percepção dos pescadores quanto às espécies que desapareceram, nos últimos
cinco anos, com as mudanças ambientais nos municípios do Baixo Rio São
Francisco.

Fonte: Jucilene Cavali (2019).

Figura 122 - Exemplares de peixes capturados no Baixo Rio São Francisco comercializados
nas feiras (a) e detalhes da Usina hidroelétrica de Xingó, Rio São Francisco (b).

Fonte: Jucilene Cavali (2019)

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

327

Gráfico 8 - Percepção dos pescadores quanto às espécies mais frequentes e que apareceram,
nos últimos cinco anos, com as mudanças ambientais nos municípios do Baixo
Rio São Francisco.

Fonte: Jucilene Cavali (2019).

Ao longo do rio São Francisco, dos municípios de Traipu a Penedo, observa-se o
aumento das espécies pirambeba (Serrasalmus brandtii) e tucunaré, em detrimento da redução
de mandi e camurí (chegava-se a pescar 25 kg/dia) e desaparecimento das espécies tubarana
(Salminus hilarii), pilombeta e xira (Prochilodus argenteus), das quais pescavam-se 200 kg
a 300 kg/dia, do surubim e do piau amarelo (Leporinus obtusidens e Leporinus reinhardt).
Estudos relatam que, das 360 espécies que existiam na bacia do rio São Francisco, mais de
70%, ou seja, 208 espécies já desapareceram (COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA
DO SÃO FRANCISCO, 2017).
Algumas espécies foram substituídas por espécies mais agressivas, predadores e/ou
hábito alimentar generalista, como tucunaré (Cichla monoculus), piranha (Pygocentrus piraya),
pirambeba (Anchoviella vaillanti) e piaba (Characidae) (Figura 122A). No município de
Piaçabuçu, rumo à foz do rio São Francisco, os relatos enfatizam a substituição das espécies
de água doce pelas de água salgada, com presença mais frequente das espécies tainha, serra,
robalo (Centropomus undecimalis e C. parallelus), pirambeba (Anchoviella vaillanti), carapeba
(Eucinostomus melanopterus e Eugerres brasilianus), tartarugas e siris, especialmente nos
últimos 2 anos. Os pescadores relatam a visualização de tubarões (n = 4) e o desaparecimento
das espécies pocomã ou niquim (Lophiosilurus alexandri), pilombeta e pirá (Conorhynchus
conirostris), endêmicas do rio São Francisco. Os pescadores relacionam a redução das águas
do Baixo Rio São Francisco como principal fator impactante na redução dos peixes e na
sustentabilidade da pesca.

percepção ambiental e indicadores indiretos
Os pescadores destacam a redução da quantidade de água do rio São Francisco, nos
últimos 12 anos (Tabela 47), como consequência das barragens de água da UHE Xingó (1994),

328

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

a ocorrência de mudanças ambientais, como erosões no leito do rio e canais, tornando-os
mais rasos, soterrados, com presença de baixios, formações de bancos de areia ou croas e
novas ilhas. Segundo os relatos, “[...] no trecho Penedo a Traipu, barcos pequenos chegam a
encalhar, devido à erosão de barrancos que formam ilhas de areia, impedindo a passagem”;
destaca-se a redução das águas turvas na época de cheias, de dezembro a maio, relacionadas
com os períodos de reprodução de inúmeras espécies.
A redução da diversidade e da quantidade de peixes está relacionada à redução de
lâminas d’água, que cria um ambiente propício às desovas; à piracema, para algumas espécies,
e à turbidez da água, necessária para o período de desova.
Tabela 47 - Percepção dos pescadores quanto às mudanças ambientais nos municípios do
Baixo Rio São Francisco.

Parâmetro percebido

Característica

`n´
relatos

Redução na profundidade do rio (metros)
Presença/aumento de macroalgas

Últimos 11,8 ± 1,9 anos
Ultimos 4,0 ± 1,0 anos

n=33
n=30

Presença de parasitos nos peixes e na água

Especialmente nas cidades
de Penedo, Neópolis e
Piaçabuçu

n=10

Redução de matrizes em desova/alevinos

Descarte de produtos/dejetos

Últimos 8 ± 1,2 anos

Advindos das lavouras e
esgotos

n=13

n=17

Fonte: Jucilene Cavali (2019).

Os pescadores destacam o desaparecimento dos cultivos de arroz das áreas alagadas
e o aumento da cultura de cana-de-açúcar nas áreas que ladeiam o rio São Francisco.
Holanda et al. (2005) já descreviam que, devido aos barramentos ao longo da calha do
rio, o regime fluvial foi modificado, alterando o regime de cheias e vazantes, comprometendo
as atividades econômicas tradicionais (agricultura de várzeas e pesca artesanal); a reprodução
dos peixes (piracema) e a estabilidade das margens, que vêm sendo erodidas, resultando em
forte sedimentação da calha principal do rio (tornando o rio mais raso), favorecendo, assim,
o aparecimento de croas e criando sérias dificuldades para a navegação.
A redução da correnteza em função da menor vazão de água fez um rio mais raso,
de águas paradas, mais quentes e límpidas; trouxe ambiente propício à proliferação da
macrófitas aquáticas, que passaram a ser mais percebidas nos últimos 5,0 anos e que, em
alguns pontos do rio, chegam a acumular 3,5 a 5,0 metros do vegetal. Contudo, a partir do
município de Piaçabuçu, observa-se a redução ou até o desaparecimento das macrófitas,
devido ao aumento da salinização da água próxima ao mar. De acordo com os pescadores do
Baixo Rio São Francisco, a visibilidade da água piorou. Onde era possível enxergar de 3,0 m
a 3,5 m em água, hoje não se vê mais do que 1,5 m. Por vezes contraditórios, os relatos de
águas mais límpidas e menor visibilidade podem estar atrelados ao extrato de profundidade
e localização de mergulho declarado pelos pescadores, que destacam menor visibilidade nas
áreas próximas às cidades.
As macroalgas de maior proliferação são a “baronesa” (Eichhornia crassipes), com
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

329

produtividade de 400 a 600 ton.ha, e a “rabo de raposa ou cabelo” (Ceratophyllum demersum),
espécies exóticas de origem amazônica e pantanense, consideradas invasoras e associadas a
prejuízos como o bloqueio das grades de usinas hidrolétricas, a redução da biodiversidade em
corpos d’água, o aumento de evaporação em represas e canais de irrigação, a difculdade de
navegação e de pesca amadora e profssional, além da possível mortalidade de animais nativos
por anoxia, potencializada pela transparência e água parada (POMPEO, 2017; FERREIRA
et al., 2016). Há um maior adensamento de macrófitas aquáticas na margem esquerda do rio
São Francisco, possivelmente devido ao lançamento de efluente não tratado, com elevado teor
de nutrientes, especialmente nas regiões próximas às cidades, onde são descartados resíduos
urbanos (esgotos) (Figuras 123A e 123B) (MINHONI et al., 2018).
A visibilidade da água está atrelada à sua turbidez e esta ao material em suspensão.
Estudos quanti-qualitativos da água demonstram o parâmetro turbidez como de maior
variação nos últimos anos. Bulhões et al. (2018), ao analisar a qualidade da água do rio São
Francisco no perímetro urbano do município de Pão de Açúcar, entre outubro de 2014 e
março de 2017, destacaram a turbidez como o parâmetro que apresentou as maiores variações,
com valores entre 0,01 NTU e 47 NTU; Santana, Aguiar Netto e Garcia (2017), avaliando
a turbidez da água no município de Piaçabuçu, na foz do rio São Francisco, observaram
valores de turbidez variando entre 2,9 NFU e 47,07 NFU, destacando baixas concentrações
de sedimentos ou partículas de elementos que favorecessem o aumento da turbidez da água.
O rio São Francisco sofreu alterações de águas de alta turbidez para águas transparentes,
ocasionadas pela retenção de material sólido nas barragens em cascatas. Vários estudos
demonstram a redução de sedimentação no Baixo do RSF: Silva, Medeiros e Viana (2010),
com 2,6 x 105 t/ano em 2008; Milliman (1970), o aporte de sedimento em suspensão na foz,
6,9 x 106 t; Oliveira (2003), no ano de 2001, 0,4 x 106 toneladas, ocorrendo uma redução de
mais de 90% – os autores concluíram que a barragem de Sobradinho diminuiu a carga de fluxo
de sedimentos de 13,39 x 106 t/ano para 3,14 x 106 t/ano; Melo (2019), vazão e concentração
de sedimentos em suspensão no Baixo RSF, após a barragem de Xingó, obtidos do sistema
Hidroweb no site da Agência Nacional da Água (ANA), de 1999 a 2018.
Os resultados mostram que as cargas estimadas de sedimentos em suspensão foram
aumentando ao longo do rio, começando na estação de Piranhas, com 1,98 x 106 t/ano;
na estação de Traipu, com 7,4 x 106 t/ano, e na estação de Propriá, a mais próxima da
foz do rio São Francisco, com 8,0 x 106 t/ano para todo o período de estudo. O trecho
considerado mais assoreado foi entre as estações de Piranhas e Traipu, onde o aumento do
acumulado de sedimentos em suspensão chegou a 73,3% entre as estações. Para os dias atuais,
compreendendo os anos de 2017/2018, a carga de sedimentos em suspensão estimada para
o Baixo São Francisco foi de 1,8 x 104 t/ano em Piranhas, 8,5 x 104 t/ano em Traipu e 7 x
104 t/ano em Propiá, resultados considerados baixíssimos. Outro ponto encontrado foi que
a quantidade de sedimento que chegou à foz do rio São Francisco foi muito pequena, 1,83
x 106 t/ano. Acredita-se que esta água limpa que vai para o oceano pode causar problemas
relacionados com o equilíbrio para o estuário do rio.
As principais consequências ocasionadas pela retenção de sedimento é a diminuição
dos sedimentos finos que carregam nutrientes e matéria orgânica fundamental à fauna
aquática e à erosão na foz do São Francisco. A redução dos sedimentos ocasiona diminuição
na alimentação da foz (delta) do rio e mudança considerável na população de peixes, assim
como em suas características morfofisiológicas, como tamanho, deposição de tecidos corporais,

330

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

época de reprodução.
Os principais impactos encontrados no Baixo Rio São Francisco, apresentados
segundo Silva, Medeiros e Viana (2010), foram: diminuição do aporte de sedimento e das
vazões; salinização e acréscimo de temperatura; mudanças nas taxas de infiltração e redução
da água no subsolo; assoreamento; processos de erosão das margens e desbarrancamento;
modificação na foz; redução da biodiversidade; comprometimento da navegabilidade abaixo
da cidade de Pão de Açúcar-AL; diminuição dos alimentos para a fauna aquática, devido
à redução de sedimento. Os autores concluem que houve diminuição nas concentrações
de sedimentos depois da barragem de Xingó e que é preciso haver um monitoramento das
variáveis descritas e aumentar sazonalmente as vazões para lavar a calha do rio e aumentar
a produtividade biológica.
A regularização das vazões nos rios, ocasionada por barragens, provoca descontinuidade
longitudinal, produzindo a montantes fluxos lênticos e a jusante fluxos mais lóticos, com
alterações na sua variabilidade.
Figura 123 - Descarte de esgoto doméstico nas águas do rio São Francisco, na cidade de
Piaçabuçu (a) e cidade de Piranhas (b).

Fonte: Jucilene Cavali (2019)
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

331

Esse controle artificial afeta toda a dinâmica do sistema fluvial, tanto no leito quanto
nas planícies de inundação e nas lagoas marginais. Os ecossistemas dessas zonas precisam
estar em equilíbrio; contudo, são praticamente dependentes dos fluxos de água dos rios, onde
recebem os sedimentos, os nutrientes e os alimentos para manutenção da biodiversidade local.
A presença de parasitos na água e no pescado é percebida pelos pescadores (n = 23),
mais fortemente, nas regiões de Penedo, Neópolis e Piaçabuçu, e em algumas espécies de
peixes específicas, como xira, xaréu, peixe-porco, curimba, tucunaré, piranha e pirambeba,
sendo estas três ultimas, segundo os pescadores, mais infestadas por parasitos, por serem
“peixes de ninho” e permanecerem mais tempo em águas mais paradas e próximas às algas.
Os pescadores destacam o aumento de parasitos nos últimos quatro anos nas espécies de
peixes que vivem dentre estas algas, inferindo ser um ambiente propício à proliferação de
parasitos como o argulos. Citaram, ainda, o “verme do olho do tucunaré, baratinha na guelra
das piranhas, o carrapato branco, infecções nas barbatanas, que sangram; e a sanguessuga,
que vive no lodo”.
A baratinha ou piolho de peixe, como é chamado o Argulus elongatus Heller, foi o
parasito mais citado pelos pescadores; o branquiúro, ectoparasito oportunista, é descrito
em quatro diferentes espécies na bacia do rio São Francisco, inclusive parasitando espécies
de peixes até então não acometidas (DUARTE et al., 2020). Na percepção dos pescadores
(n = 8), a infestação do parasito está diretamente relacionada à imunidade do peixe, pois
se desenvolve no muco; a maior produção de muco nos peixes também foi relatada pelos
pescadores (n = 9), porém, para épocas específicas do ano.
Na região de Piaçabuçu, onde a água torna-se mais salgada, foi citado o “verme da
água e do intestino”, além de moluscos como o “caramujinho da areia” e o “maçunim”, citados
também nas regiões de Penedo e Neópolis, onde já se formam, inclusive, áreas de catadoras
de maçunim, como a da vila Carrapicho. Este aumento pode estar relacionado à entrada de
água salgada do mar, ou cunha salina, que adentra ao Rio.
Quando indagados sobre a percepção de produtos ou processos que poderiam
contribuir com a contaninação ou sujidade da água, os pescadores destacaram o lançamento
de produtos químicos agrícolas das culturas de cana-de-açúcar, arroz, horticultura por erosão;
o descarte do azoto da cana e, principalmente, os pontos de despejo do esgoto urbano nas
cidades de Traipu, Porto Real do Colégio, Neópolis, Piaçabuçu e Penedo. As principais
fontes de poluição são os esgotos domésticos, as atividades agropecuárias e de mineração.
Os indicadores de saneamento básico na bacia do Baixo Rio São Francisco podem ser
caracterizados quanto a aspectos precários, onde domicílios urbanos servidos por coleta de
esgoto são inferiores a 20%; e os percentuais tratados de volumes de esgotos urbanos menores
que 5%, bem aquém da média nacional, de 20,7% (COMITÊ NACIONAL DA BACIA
DO RIO SÃO FRANCISCO, 2017).
Bulhões et al. (2018), ao analisar a qualidade da água no perímetro urbano do
município de Pão de Açúcar, identificaram águas levemente ácidas, pH de 6,9, valores de
oxigênio dissolvido satisfatórios e teores de condutividade elétrica oscilando entre 68 μS/cm
e 91 μS/cm. Os resultados indicam que, embora estações de descarte estejam localizadas na
área urbana, a capacidade de diluição do rio é superior ao aporte de material poluente. E os
parâmetros estão dentro do que estabelece a Resolução Conama nº 357/05, que preconiza
pH entre 6 e 9 para águas doces de classe II.
A poluição industrial é mais concentrada no Alto e no Submédio do rio São Francisco,

332

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

podendo-se dar ênfase ao mais problemático rio das Velhas, que coleta a maior parte do
esgoto da região metropolitana de Belo Horizonte, sendo, por isso, um dos rios mais poluídos
da bacia do São Francisco. Observa-se o lançamento de efluentes industriais que podem
comprometer a qualidade do rio; contudo, as consequências ambientais destes impactos são
potencializadas em determinadas bacias, em função de suas características.

Percepção da qualidade e rendimentos do pescado
Quanto ao processamento e à percepção sensorial, alguns pescadores destacaram
mudanças no sabor dos peixes (n = 8) e do camarão (n=4). Inferem que os peixes, além de
estarem de 50% a 70% menores em tamanho, têm menos carne, apresentam menos gordura e,
consequentemente, menos sabor. “[...] o tucunaré ficou pequeno e os peixes começam a ovar
novinhos, ainda pequenos”. Os pescadores destacam a gordura do peixe do rio como mais
saborosa e mais solúvel. Segundo Silva (2017), a dieta dos peixes de rio proporciona deposição
de gordura mais insaturada e perfil de ácidos graxos de cadeias mais longas, relacionando-se
à menor propensão de doenças cardiovasculares.
Para o camarão, a mudança está na “cabeça menos saborosa e com aparência estragada”,
mais expressivo em algumas épocas do ano. Alguns destacaram o gosto amargo, gosto de
junco podre, de lodo ou de fezes para alguns peixes, como o piau.
O consumo familiar médio dos pescadores é de 3 kg de pescado por semana, sendo
comercializados, semanalmente, em feiras ou atravessadores, de 5 kg a 15 kg, suficientes para
garantir renda de R$ 250,00 a R$ 600,00 por mês. Pescadores ressaltam que já chegaram
a pescar 50 kg a 70 kg/dia, o que rendia de R$ 800,00 a R$ 1.000,00 por semana, além do
consumo familiar, de 5 kg a 8 kg/dia.
As esposas têm grande participação na atividade, pois 80% dos pescadores relatam ser
elas as responsáveis por tratar e preparar o peixe. Durante a evisceração, percebe-se os peixes,
mesmo pequenos, já em fase de reprodução e peixes pequenos, porém ossudos, parecendo
“peixe velho”, características estas atreladas à antecipação da reprodução, por questão de
sobrevivência da espécie. Todos relataram (n = 33) consumir a água direto do rio, para beber
ao saírem para pescar e, sempre que necessário, em casa. Utilizam o rio para lavar roupa, louça,
banhar crianças e animais, especialmente cavalos e cachorros, como entretenimento familiar
aos finais de semana e, eventualmente, como renda turística, com os passeios.
O rio São Francisco faz parte da cultura do pescador ribeirinho e nota-se a dependência
econômica e cultural, mesmo não se dando a devida importância ambiental ao mesmo. Dictoro
e Hanai (2017) destacaram, em seus estudos, as diversas integrações homem-natureza no
âmbito ambiental, além da visão utilitarista do rio São Francisco e as inter-relações indivíduonatureza, ressaltando aspectos simbólicos, tradicionais, culturais e afetivos. Pescadores mais
antigos possuem grande relação emocional-dependente com o rio São Francisco, que vai
desde a sua colonização às crenças; possuem, por exemplo, grande afinidade com as fases da
lua, características da água e períodos de maior ou menor produtividade do pescado. Dessa
forma, pode-se afirmar que o conhecimento tradicional é extremamente importante, por
reunir aspectos que podem ser importantes para o planejamento e a conservação da água.
Ao serem questionados sobre o que mais os incomoda, as respostas foram unânimes
para a presença do lixo nas margens do rio, nas áreas urbanas, e o descarte de dejetos, visto as
cidades não possuírem tratamento sanitário adequado. O Baixo possui, ainda, 67 povoados
que lançam seus esgotos diretamente no rio São Francisco. Os pescadores reclamam do
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

333

descaso da comunidade nas áreas urbanas em lançarem lixo e animais mortos ao rio, sendo
de consenso geral o descaso do homem e do governo com as questões ambientais.
Destaca-se a fiscalização escassa e ineficiente dos órgãos competentes, especialmente
na época de defeso. Em relatos, um pescador informa que chegava a comprar semanalmente
16 kg de ova, mesmo em época de defeso, e enfatiza: “imagina quantos peixes deixamos de
produzir! Mas o pescador é destruidor, captura até os alevinos soltos pela CODEVASF”.
Em contrapartida, 40% dos pescadores (n = 25) afirmam ser importante o peixamento de
espécies diversas realizado pela empresa, visto que, por 2 a 3 anos, ainda é possível pescar
estes espécimes. Os berçários citados foram a região de Marituba e Ipanema, consideradas
braços de desovas hoje extintos.
É unânime, entre os pescadores, o incômodo com arpões. Segundo eles, não há
fiscalização para o uso do arpão. “[...] os arponeses não precisam de carteira, não respeitam
época de defeso e chegam a capturar 3 vezes mais que o pescador, pois pegam peixes maiores,
pescando também durante a noite”; ademais, vendem o peixe R$ 2,00 a R$ 3,00 mais barato,
ganhando o mercado das feiras e restaurantes sem pagar a mensalidade da colônia (R$ 25,00/
mês) ou o custo fixo com redes e embarcações.
Os pescadores fazem inferência, ainda, sobre a substituição dos barcos a vela pelas
rabetas, que, além de contribuir com a poluição da água, estressam e assustam os peixes.
Sobre a percepção sobre qual equipamento de pesca impacta mais na produção de alevinos,
os pescadores (n = 27) responderam que a batida de rede de malhar e a bomba de veneno
são as formas de captura mais agressivas e que capturam tanto matriz ovada como peixes
ainda pequenos. Destaque foi dado também à pesca de arpão, método comum no rio São
Francisco, que captura peixes grandes diariamente, indo buscar, inclusive, em áreas mais
profundas, nos ninhos de desova.

Soluções para os impactos no rio São Francisco
Quando indagados sobre as propostas de mudanças para recuperação do Velho
Chico, as sugestões foram unânimes na necessidade de “mais água ser liberada nas comportas
das usinas”, além da obrigatoriedade do aumento das águas nos períodos de reprodução,
especialmente das desovas. Outra sugestão importante foi a mudança do quadrimestre de
defeso de novembro para fevereiro ou a ampliação do limite-defeso até 1º de abril, tendo
em vista o mês de março, “mês das chuvas fortes”, também ser o mês em que se captura
maior número de espécimes ovadas. Destacaram-se espécies como a xira, que é comum
encontrar “ova encruada ou dura”, resultado da não desova do ano anterior, “[...] esse peixe
da enxurrada que fica choco”. Foram sugeridas, ainda, a dragagem de áreas assoreadas, na
construção de novas barragens, a fim de proporcionar mais área alagada para reprodução
dos peixes, nas escadas para passagem dos peixes em piracema, e o fomento ao cultivo em
tanques-rede e facilidade de licenciamento para tal. Quanto à contribuição ambiental, citou-se
a necessidade de saneamento básico e a conscientização para descarte do lixo, principalmente
pela comunidade, e a recuperação das margens do rio. Contudo, foi baixa a disponibilidade
de adesão dos pescadores a estes projetos, a partir da responsabilidade das próprias colônias.
No município de Penedo, foi ressaltado o projeto de limpeza da margem do rio, realizado
pela CODEVASF junto às colônias, e sugerido que os mutirões sejam realizados duas vezes
ao ano, no auge do período seco e após as festas de fevereiro para maior eficiência.

334

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os pescadores do Baixo Rio São Francisco têm percebido mudanças ambientais
que afetam diretamente as atividades socioeconômicas e culturais das famílias ribeirinhas.

REFERÊNCIAS
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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

335

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336

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

STUDIES ON THE MENTAL HEALTH OF
RIVERINE FARMER FAMILIES OF THE LOWER
SÃO FRANCISCO IN ALAGOAS, BRAZIL
Elton Lima Santos

Verônica de Medeiros Alves

Leilane Camila Ferreira e Lima Francisco
Alice Correia Barros

SUMMARY
The study’s objective was to evaluate the presence of common mental disorders in
riverside agricultural workers in the Lower São Francisco region in Alagoas, Brazil. The study’s
importance is justified by the increase in Common Mental Disorders (CMD) cases worldwide
and Brazil. Furthermore, this is a complex theme that involves family agricultural work and
its relationship with the degradation, silting, and decreasing water flow in the São Francisco
River, which directly impacts the workers’ production and income generation. This is a crosssectional descriptive epidemiological study. The sample was random and consisted of 43
family farming workers living in Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo, and Piaçabuçu.
A questionnaire with sociodemographic variables, and a questionnaire to identify common
mental disorders at the primary care level, the Self Report Questionnaire (SRQ-20), were
used for data collection. The results of the research were analyzed with the SPSS statistical
package, version 20. Descriptive statistics with a significance level of p< 0.05% were used.
The survey identified a frequency of 7 (16.3%) people with CMD. The instrument’s items
with the most significant positive statements were: lack of appetite; feels nervous, tense, or
worried; gets tired quickly; frequent headache; easily frightened, has unpleasant sensations
in the stomach. Most were male (40-93%), married (28-65.1%), cultivated rice (13-30.2%),
and worked with fishing (7-16.3%). This research identified a considerable number of
people with CMD, pointing to the need to promote care aimed at signs and symptoms of
common mental disorders present in this community. Thus, this study can offer subsidies
for the adoption of public policies to promote mental health that contribute to improving
the quality of life of family farming workers.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

337

CAPÍTULO 19
ESTUDOS SOBRE A SAÚDE MENTAL DE
AGRICULTORES FAMILIARES RIBEIRINHOS DO
BAIXO SÃO FRANCISCO EM ALAGOAS, BRASIL
Elton Lima Santos85

Verônica de Medeiros Alves86

Leilane Camila Ferreira de Lima Francisco87
Alice Correia Barros88

INTRODUÇÃO
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como um bem-estar físico,
mental e social, não apenas a ausência de enfermidades ou afecções. Saúde mental é um
estado de bem-estar em que o indivíduo tem capacidade de enfrentar as tensões normais da
vida, seguir uma vida profissional produtiva e contribuir socialmente com a comunidade em
que vive; estado em que o indivíduo está consciente de suas capacidades (ORGANIZAÇÃO
MUNDIAL DA SAÚDE, 2009). A Organização Mundial da Saúde (2001) estimou que
cerca de 450 milhões de pessoas no mundo sofram com algum transtorno mental e a este
número atribuiu-se a negligência com que são tratados, pois apenas uma minoria tem acesso
ao tratamento.
Estudos epidemiológicos têm demonstrado que a prevalência de transtorno mental
durante a vida varia de 12,2% a 48,6%, dependendo da população e do instrumento utilizado
para identificar o transtorno (GONÇALVES; KAPCZINSKI, 2008). Dados de prevalência
internacionais adotados pelo Ministério da Saúde relatam que 3% da população apresentam
transtornos mentais severos e persistentes, necessitando de cuidados contínuos, e cerca de 9%
a 12% apresentam transtornos mentais leves, necessitando de cuidados eventuais (BRASIL,
2009). Rombaldi e colaboradores (2009) relatam que os transtornos mentais representam
quatro das dez principais causas de incapacidade no mundo, correspondendo a 12% da carga
global de doenças, com um crescimento previsto para 15% em 2020.
A prevalência dos transtornos mentais vem aumentando nos últimos anos e, dentre
os vários fatores que influenciam a ocorrência do transtorno mental, Ludermir e Melo Filho
(2002) relatam que a baixa escolaridade, a baixa renda e a exclusão do mercado de trabalho,
expressões da estrutura das classes sociais, proporcionam situações de estresse que podem
levar a um transtorno mental. As desigualdades sociais envolvem os principais sentimentos
Docente do curso de Zootecnia da Universidade Federal de Alagoas, Mestre e Doutor em Zootecnia pela
Universidade Federal Rural de Pernambuco.
86
Docente do curso de Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas, Mestre em Ciências da Saúde pela
Universidade Federal de Alagoas, Doutora em Saúde Mental pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
87
Especialista em Psiquiatria e Saúde Mental, Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Alagoas.
Membro do Grupo de Estudos em Saúde Mental, Álcool e outras Drogas, da Universidade Federal de Alagoas.
88
Especialista em Psiquiatria e Saúde Mental. Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Alagoas.
Membro do Grupo de Estudos em Saúde Mental, Álcool e outras Drogas, da Universidade Federal de Alagoas.
85

relacionados à depressão e a outros transtornos mentais (LUDERMIR, 2008).
As diferentes formas de sofrimento psíquico constituem importante causa de perda
de qualidade de vida na população em geral (BRASIL, 2009). Dentre os principais agravos
mentais, podem-se citar esquizofrenia, transtornos de humor e transtornos mentais e afetivos
por uso de substâncias.
Apesar do avanço e da transformação da assistência à saúde mental, o portador de
transtorno mental ainda é vítima de preconceito, pois existe o estigma da sociedade, o que
prejudica relacionamentos sociais, aumentando o sofrimento dos envolvidos ( JORGE et al.,
2008). Verifica-se, de modo geral, uma enorme desigualdade na relação de quem necessita
efetivamente de tratamento e está em condições de sofrimento mental e quem recebe cuidados
e tratamentos básicos (OMS, 2009).
Franco, Druck e Seligmann-Silva (2010) e Silva et al. (2012) afirmam que o
adoecimento decorrente do trabalho e, mais especificamente, os transtornos mentais e do
comportamento devem ser encarados muito além do que um problema pessoal, mas sim como
um problema de saúde pública, que traz grandes consequências tanto econômicas quanto à
qualidade de vida dos atingidos.
A população que vive no meio rural e/ou ribeirinhos, consequentemente, têm,
no Brasil, bastante dificuldade de acesso às ferramentas de prevenção e ao tratamento
de transtornos mentais oferecidos pelo serviço público de saúde. Isso pode ser devido à
dificuldade de acesso aos serviços de saúde, à dificuldade de deslocamento de equipes de saúde
para a promoção da saúde nas áreas rurais e ao maior custo dos tratamentos psiquiátricos
(QUINDERÉ et al., 2013).
Pesquisas realizadas com trabalhadores agrícolas na Austrália, Canadá, Europa e
Estados Unidos indicam que eles e suas famílias apresentam fatores estressantes relacionados
ao ambiente físico, à estrutura familiar agrícola, às dificuldades econômicas e às incertezas
associadas com a propriedade agrícola, podendo trazer danos à sua saúde mental (FRASER
et al., 2006).
Pensando nisso, este capítulo busca identificar e descrever o perfil, avaliando o estado
de saúde mental de agricultores familiares ribeirinhos da região do Baixo São Francisco,
Alagoas, Brasil, com dados e informações obtidas in loco durante a I Expedição Científica
do Baixo São Francisco.

Saúde mental e a agricultura familiar: aspectos envolvendo a população do baixo
São Francisco
A I Expedição Científica do Baixo São Francisco teve uma duração de seis dias a bordo
de uma embarcação e com desembarques nas cidades citadas anteriormente, composta por uma
equipe multidisciplinar de pesquisadores e estudantes, em diversas áreas do conhecimento, no
mês de outubro de 2018. Nesse período, os trabalhadores rurais e ribeirinhos foram convidados
a responder dois instrumentos de coleta para a obtenção de informações a respeito da saúde
mental dos mesmos.
As entrevistas aconteceram de forma aleatória, em local reservado, para preservar a
confidencialidade das informações coletadas e o anonimato dos entrevistados, trabalhadores
de agricultura familiar residentes em Porto Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piacabuçu,
no Estado de Alagoas, Brasil. As entrevistas foram precedidas de rodas de conversas para
explicação sobre a pesquisa e outros aspectos envolvendo os estudos realizados durante
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

339

a Expedição Científica do Baixo São Francisco, entre os pesquisadores e os agricultores/
pescadores familiares.
Foram utilizados dois instrumentos: um questionário com variáveis sociodemográficas
e o questionário de identificação de transtornos mentais comuns, chamado Self Report
Questionnaire (SRQ-20). O SRQ foi desenvolvido por Harding et al. (1980) e validado no
Brasil por Mari e Willians (1986). É composto por 20 questões elaboradas para a detecção
de distúrbios “neuróticos”, chamados, atualmente, de TMC. Os escores obtidos sinalizam
a probabilidade de presença de TMC ou desconforto emocional, variando de 0 (nenhuma
probabilidade) a 20 (extrema probabilidade). Não inclui questões sobre sintomas psicóticos
nem sobre o consumo de álcool e outras drogas. Nesta pesquisa, foi adotado o ponto de corte
de 07 ou mais respostas positivas como indicativo da presença de TMC, baseando-se no
estudo de Mari e Willians (1986).
Transtornos Mentais Comuns (TMCs) é uma terminologia utilizada para a
caracterização de quadros sintomáticos não psicóticos e sem patologia orgânica associada
(MARAGNO et al., 2006). Os TMCs reúnem sintomas depressivos e psicossomáticos, tais
como insônia, fadiga e dificuldade de concentração que, além de causarem intenso sofrimento
psíquico, geram incapacidade funcional (CARLOTTO et al., 2011).
Foram entrevistados 43 trabalhadores de agricultura familiar residentes em Porto
Real do Colégio, Igreja Nova, Penedo e Piacabuçu (Tabela 48). A média de idade foi de 45,7
(± 14,3). A maioria era do sexo masculino (40 – 93%), casado (28 – 65,1%), cultivava arroz
(13 – 30,2%) e trabalhava com pesca (7 – 16,3%) (Tabela 48).
Tabela 48 - Características gerais e transtornos mentais comuns de agricultores familiares
ribeirinhos da região do Baixo São Francisco, Alagoas, Brasil.
Sexo
Masculino
Feminino
Total

Porto Real do

Igreja Nova

Penedo

Piacabuçu

Total

10 (25%)

9 (22,5%)

11 (27,5%)

10 (25%)

40 (93%)

12 (27,9%)

9 (20,9%)

12 (27,9%)

10 (23,3%)

43 (100%)

Colégio

2 (66,7%)

Média de idade

-

1 (33,3%)

-

45,7 ± 14,28 (Máx.: 69 e Mín.: 21 anos)

Estado civil

Casado

Separado

Solteiro

Viúvo

Sem reposta

Total

28 (65,1%)

2 (4,7%)

6 (13,9%)

2 (4,7%)

5 (11,6%)

Cultivo de arroz
Pesca

13(30,2%)

Transtorno

Porto Real do

mental por sexo

Colégio

Masculino
Feminino
Total
Sim
Sim

340

3 (7%)

1 (16,7%)
1 (100%)
2 (28,6%)

7 (16,3%)

Igreja Nova

Penedo

Piacabuçu

Total

3 (50%)
3 (42,8%)

2 (33,3%)
2 (28,6%)

-

6 (85,7%)
1 (14,3%)
7 (16,3%)

Usa remédio psiquiátrico
Já teve depressão

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

3 (7,0%)
2 (4,6%)

Falta de apetite

Itens do Instrumento SQR – 20 com mais afirmações positivas

Sente-se nervoso, tenso ou preocupado

13 (30,2%)
13 (30,2%)

Cansa-se com facilidade

13 (30,2%)

Dor de cabeça frequente

12 (27,9%)

Assusta-se com facilidade

Tem sensações desagradáveis no estômago

12 (27,9%)
12 (27,9%)

Fonte: Autores (2019).

A pesca artesanal, a que grande parte dos participantes da pesquisa são adeptos,
mesmo também considerando-se agricultores familiares, baseia-se na organização familiar
como um sistema produtivo inscrito em práticas culturais tradicionais. Esta unidade de
produção secular está fundada em rede local e durável da produção de pescado, com suas
tarefas e divisões do trabalho, modos de solidariedade e cooperação que contêm objetivos
econômicos de sobrevivência (PENA; GOMEZ, 2014).
Por definição, a pesca artesanal é aquela em que, na captura e no desembarque de toda
a classe de espécies aquáticas, os trabalhadores atuam sozinhos e/ou utilizam mão de obra
familiar ou não assalariada, explorando ambientes ecológicos localizados próximos à região
costeira, com embarcações de pouca autonomia. A captura é feita por meio de técnicas de
reduzido rendimento relativo e sua produção é total ou parcialmente destinada ao mercado
(CLAUZET; RAMIRES; BARRELLA, 2005).
O trabalho também pode, em situações extremas de estresse mental, ser fonte de
sofrimento, quando contém fatores de risco para a saúde e, de certo modo, o trabalhador
não dispõe de instrumental suficiente para se proteger desses riscos (NUNES, 2009). Desta
forma, durante a expedição, identificaram-se 7 (16,3%) pessoas com TMC, como observado
na Tabela 48. Esses aspectos podem se constituir quando os trabalhadores não têm uma fonte
segura e estável de renda, no caso dos pescadores ou quando do uso indiscriminado e sem os
equipamento individuais de segurança ao aplicar agrotóxicos na agricultura.
Um estudo realizado no município de Três de Maio, no Rio Grande do Sul, entrevistou
361 agricultores e identificou que 47,9% (173) dos participantes apresentaram TMC
(MORIN; STUMM, 2018). Outro estudo, realizado com 362 mulheres agricultoras do
município de Saudades, em Santa Catarina, identificou que 21,54% das mulheres responderam
ao SRQ-20 com escores acima ou igual a 7, indicando a hipótese de TCM (MAHL; STEIN;
COSTA, 2017).
Os itens mais pontuados foram: falta de apetite; sente-se nervoso, tenso ou preocupado;
cansa-se com facilidade; dor de cabeça frequente; assusta-se com facilidade; tem sensações
desagradáveis no estômago (Tabela 48). Os sintomas mais recorrentes no estudo de Mahl,
Stein, Costa (2017) foram: sente-se tenso, nervoso ou preocupado (91,02%); tem dificuldades
de pensar com clareza (74,64%); cansa-se com facilidade (74,64%). Os sintomas mais
presentes citados acima podem estar relacionados com a presença do transtorno de ansiedade.
O indivíduo não consegue melhorar essa preocupação, sente-se como se estivesse com os
nervos “à flor da pele”, fadigado, irritável, com dificuldade de concentração, tenso e com sono
irregular (DSM-5, 2014).
A exposição do trabalhador a condições psicossociais adversas pode prejudicar sua
saúde e seu bem-estar e gerar sofrimento psíquico, sentimentos de insatisfação e desmotivação
no trabalho e problemas de relacionamento, entre outras dificuldades (SERAFIM, 2012). A
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

341

energia negativa acumulada no aparelho psíquico pode se exacerbar, desencadeando reações
somáticas ou perturbações físicas, devido à sobrecarga psíquica (D’ÁVILA, 2005).
Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais – 5
da Associação Americana de Psiquiatria (DSM-5, 2014), os transtornos de ansiedade
compartilham como características principais o medo e a ansiedade numa forma demasiada
e exagerada, além das perturbações comportamentais. Sendo que a ansiedade pode ser
definida como “a antecipação de uma ameaça futura” e o medo como a “resposta emocional
à ameaça iminente real ou percebida”. Diferentemente do medo e da ansiedade de adaptação,
os transtornos de ansiedade são excessivos e persistentes (DSM-5, 2014).
Oliveira e Pereira (2012) referem que a ansiedade é a resposta subjetiva a um fator
de estresse. Todo indivíduo tem um limiar de estresse e, quando limitado, torna a pessoa
mais vulnerável aos sintomas de estresse, com consequente maior vulnerabilidade para o
desenvolvimento de ansiedade (BAPTISTA; CARNEIRO, 2011).
Duas dessas já tiveram depressão ao longo da vida e uma alegou fazer tratamento
medicamentoso (Tabela 48). A depressão é considerada como um problema prioritário de saúde
pública e estão, mundialmente, entre as cinco doenças mais incapacitantes (RODRIGUES,
2011). Além disso, a adesão ao tratamento é considerada também um problema de saúde
pública, devido às limitações e perdas progressivas na vida pessoal do paciente. A não adesão
está associada, principalmente, aos efeitos colaterais dos medicamentos e à sintomatologia
nos momentos de crise (MIASSO; CASSIANI; PEDRÃO, 2008).
Na depressão, o indivíduo pode apresentar perda de interesse pelas atividades do
cotidiano, sentimento de inutilidade e culpa, perda da autoestima, ideias de morte e suicídio,
perturbações do sono e alterações do apetite; além destes, podem estar presentes os sintomas
somáticos. É caracterizado por epiSódios distintos de pelo menos duas semanas de duração,
alguns ocorrendo por um período maior de tempo, e pode ocorrer episodicamente, ser
recorrente ou crônica (SENA, 2014). O paciente deprimido tem três vezes mais probabilidades
de não seguir o regime médico do que o não deprimido. Existe, pois, a necessidade de
treinamento da equipe de saúde para detectar transtornos depressivos e falta de adesão ao
tratamento (SOUZA et al., 2013).
Segundo o Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais - 5
(DSM-5, 2014), têm-se fatores ambientais, genéticos e fisiológicos que podem influenciar
no desenvolver do Transtorno Depressivo Maior.
Ambientais: experiências adversas na infância constituem um conjunto de fatores
de risco potenciais para Transtorno Depressivo Maior. Eventos estressantes na vida são bem
reconhecidos como precipitantes de epiSódios depressivos maiores (DSM-5, 2014).
Genéticos e fisiológicos: os familiares de primeiro grau de indivíduos com transtorno
depressivo maior têm risco 2 a 4 vezes mais elevado de desenvolver a doença que a população
em geral. Os riscos relativos parecem ser mais altos para as formas de início precoce e
recorrente. A herdabilidade é de aproximadamente 40%. (DSM-5, 2014).
Blum (2001) relata que as propriedades familiares passam por inúmeros problemas de
terra (concentração e qualidade), de mão-de-obra (escassez, qualidade, custo e humanização),
de capital (escassez, política agrícola) e de capacidade empresarial (falta de análise de custos,
de margens brutas, de lucratividade, de análise de investimentos, de associativismo e de visão
sistêmica, comercialização e agregação de valor e uso de tecnologia). Isso pode ser considerado
um gatilho para o desencadeamento de transtornos mentais comuns.

342

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

O trabalho, por sua vez, desempenha função essencial na vida das pessoas, pois é
por meio dele que cada pessoa constrói sua identidade, possibilitando, ainda, realização,
descobrimento de habilidades e integração social ( JILOU, 2013). No entanto, a natureza do
trabalho tem significante interferência na saúde do trabalhador (LAGO, 2015).
Em meio às principais doenças relacionadas ao trabalho, os transtornos mentais (TM)
têm atingido grande parcela da população, gerando absenteísmo e afastamento prolongado
de suas atividades. Buscando-se investigar os motivos de afastamento por transtorno mental,
Miranda, Alvarado e Kaufman (2012) observaram que os diagnósticos mais presentes foram
os distúrbios depressivos e do comportamento, seguidos dos transtornos ansiosos.
Sendo o trabalho uma atividade inerente ao indivíduo enquanto ser social, como o
homem passa uma expressiva parte da sua vida no ambiente de trabalho, ele está passível a
várias ocorrências que podem interferir positiva ou negativamente sobre sua saúde física e/ou
mental (GAVIN, 2013). Assim, faz-se necessário criar um ambiente de trabalho favorável ao
trabalhador para evitar riscos à saúde física e mental (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA
SAÚDE, 2010). Os transtornos mentais são influenciados por uma combinação de fatores
biológicos, psicológicos e sociais. Afetam pessoas de todas as idades, em todos os países, e
causam sofrimento aos indivíduos, às famílias e às comunidades (POLETTO, 2009).
A determinação social e os territórios viventes são fatores preponderantes dentro
do contexto do estudo da saúde mental, de forma que o processo de saúde-doença-cuidado
no meio rural tem que ser avaliado com particularidade e bastante atenção. Sendo assim,
Dantas et al. (2020) ressaltaram esses mesmos aspectos, para a avaliação de transtornos
mentais no meio rural, destacando que a contextualização do processo saúde-doença-cuidado
está intimamente relacionada à sua territorialização, relatando ainda que, no meio rural, as
condições de vulnerabilidade agravam-se. Indicadores socioeconômicos de assentamentos
rurais do Nordeste brasileiro revelam considerável índice de não alfabetizados, de insegurança
alimentar e de mortalidade infantil; dificuldade no acesso aos serviços públicos e assistência
técnica; precariedade das condições de trabalho e maior dependência dos programas de
transferência de renda. Ou seja, uma complexidade de fatores e combinação de riscos
produtores de sofrimento que impactam a saúde mental.
Corroborando os dados verificados no presente estudo, realizado no Baixo São
Francisco, Poletto (2009), em uma pesquisa buscando identificar os fatores relacionados ao
processo de trabalho que podem contribuir para a ocorrência de problemas de saúde mental
de trabalhadores agrícolas familiares da microrregião de Ituporanga, Santa Catarina, puderam
constatar que o trabalho sazonal, a carga de trabalho, as condições climáticas, o isolamento e
suporte social, os problemas financeiros, o uso de agrotóxicos, as intoxicações, os problemas
de saúde e acidentes são fatores que podem contribuir para os agravos à saúde mental dos
trabalhadores agrícolas familiares estudados, obtendo uma prevalência de 33,8% de problemas
de saúde mental nos trabalhadores.
Morais et al. (2020), quando avaliaram o impacto do desenvolvimento de ações
extensivas em Unidades Básicas de Saúde (UBS) sobre condições de saúde mental em uma
comunidade rural do Sertão pernambucano (Lagoa Grande-PE), puderam verificar que a
saúde mental é considerada precária pela maioria dos participantes das atividades extensivas,
havendo um índice alto de transtornos mentais comuns. O adoecimento tende a se agravar
devido às condições insatisfatórias de trabalho, educação, moradia e lazer, além do acesso
restrito a espaços de convivência comunitária, a bens e serviços. A exposição a agrotóxicos

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

343

e a ausência de lazer foi vista com um dos principais fatores de risco para o adoecimento
mental no território estudado. Esses mesmos autores destacam ainda que, dentre os agravos à
saúde mais frequentes em comunidades rurais, destacam-se os Transtornos Mentais Comuns
(TMC), que se constituem como um conjunto de manifestações com sintomas ansiosos,
depressivos ou somatoformes proeminentes. Apesar de uma elevada prevalência entre adultos,
apenas uma pequena parte dos TMC é identificada e tratada.
Da mesma forma, Silva (2019), estudando a qualidade de vida dos agricultores expostos
a agrotóxicos na produção de coco no perímetro irrigado de São Gonçalo, constataram que
os aspectos de problemas emocionais e mentais são os aspectos relacionados à saúde mais
potencialmente expressos pelos trabalhadores, de forma que os autores determinaram que:
o pior escore constatado na escala de Raw Scale sobre qualidade de vida foram os domínios
aspectos físicos, os aspectos emocionais e a dor, ou seja, os participantes não apresentam
bons conceitos da sua própria saúde, já que houve a diminuição da quantidade de tempo
que se dedicava ao seu trabalho ou a outras atividades, e que realizaram menos tarefas do
que gostariam de fazer por motivo de problema com o seu trabalho ou alguma atividade
diária regular. Com relação à dor, observa-se a variação da intensidade de leve a moderado.
A procura pelos sentidos de saúde e doença entre as pessoas, famílias, culturas e classes
sociais permite uma abordagem sistêmica da variação de saberes e necessidades das populações
e indivíduos, que, por sua vez, garante os princípios da saúde pública brasileira, que são
baseadas em: integralidade, regionalidade e territorialidade; todavia, no comprometimento de
formulação e execução de políticas que atendam às mais distantes populações (RIQUINHO;
GERHARDT, 2010), em que se encontram grande parte da população que habita e vive às
margens do Baixo São Francisco, que são, na maior parte, agricultores familiares de baixa
renda e pescadores de subsistência. Sendo assim, os comportamentos relacionados à saúde e
ao adoecimento, principalmente relacionados à saúde mental, despertam, sem precedentes,
olhares, inquietações, frustrações e interpelações humanas, seja pela condição de desamparo
a que o homem está submetido, seja pela constante busca pelo prolongamento da vida ou a
baixa perspectiva de melhoria de condições sociais de vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo possibilitou a compreensão sobre a ocorrência de transtornos mentais
comuns em trabalhadores agrícolas ribeirinhos da região do Baixo São Francisco. Esses
moradores que trabalham com a agricultura e a pesca vêm apresentando TMC que necessitam
de um cuidado multidisciplinar voltado para a promoção da saúde mental.
A presença de transtornos mentais comuns em trabalhadores da agricultura familiar
levanta a necessidade de uma atenção diferenciada para eles, buscando meios que amenizem
os fatores que desencadeiam os sintomas e estratégias para melhorar a qualidade de vida.
Estudos como este figuram sua importância por possibilitar traçar um perfil epidemiológico
desses trabalhadores, levantando-se um espaço para a discussão sobre os transtornos mentais.

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O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

347

METEOROLOGY AND PHOTOVOLTAIC ENERGY
IN THE II SCIENTIFIC EXPEDITION OF THE
LOWER SÃO FRANCISCO.
Ricardo Araújo Ferreira Junior
Igor Cavalcante Torres

José Vieira Silva

José Leonaldo de Souza

Allwert Henrique Leão de Argôlo Militão

Daniel Lucas Henrique de Macedo

SUMMARY
This chapter presents the observations of meteorological variables during the second
scientific expedition of the Lower São Francisco River, emphasizing solar radiation because it
is directly related to the generation of photovoltaic energy. The study was performed utilizing
a set of two 140 Wp (Watt peak) photovoltaic panels of monocrystalline silicon technology
(Si-M) and was evaluated through an electrical data acquisition device, a prototype developed
by students of the Energy Engineering course at the Laboratory of Photovoltaic Systems of
the Federal University of Alagoas. In most municipalities of the Lower São Francisco region,
the semi-arid climate predominate, and irrigation is a technique that enables the generation
of food and income for local farmers. Solar radiation converted into electricity by photovoltaic
systems can be used in irrigation motor pumps and other rural activities. Thus, research on
the potential of the use of solar energy is of great relevance. On all days of the expedition,
global solar irradiation had values above the region’s average annual range, which, according
to the 2017 Brazilian Solar Energy Atlas, is 5,250 to 5,500 Wh.m-2. However, during the
evaluations, there were moments when the solar irradiance exceeded the value of 1000 W.m-2;
consequently, there is a projection of this effect on the photogenerated current of the module,
that is, maximum current values slightly above 10 amperes, exceeding the value specified by
the manufacturer by almost 18%. Therefore, it is concluded that solar radiation is a desirable
resource in the region under study, especially in places with difficult access, since the potential
is already documented and ratified with the measurements performed in the present study.
The use of photovoltaic generators is already a reality; according to the results, it is possible
to use this technology to supply electric power for small and large loads, merely being very
attentive to best capture the solar resources. The developed monitoring prototype shows
good performance in solar panel voltage, current, power, and temperature measurements.

348

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 20
METEOROLOGIA E ENERGIA FOTOVOLTAICA
NA II EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA DO BAIXO SÃO
FRANCISCO
Ricardo Araújo Ferreira Junior89
Igor Cavalcante Torres90
José Vieira Silva91

José Leonaldo de Souza92

Allwert Henrique Leão de Argôlo Militão93
Daniel Lucas Henrique de Macedo94

INTRODUÇÃO
Os processos naturais biológicos, físicos e sociais são resultados, também, da interação
com a atmosfera terrestre, expressada pelas condições meteorológicas de certa localidade
através dos elementos radiação solar, temperatura do ar, umidade do ar, pressão atmosférica
e precipitação, dentre outros. Por exemplo, a radiação solar que incide na superfície é a força
motriz para os diversos ambientes, pois garante a energia necessária para a produção primária
das cadeias tróficas (WOODWARD; SHEEHY, 1983). Esse elemento meteorológico
vem ganhando importância no setor energético, sendo utilizado tanto na forma passiva
(aproveitamento para iluminação natural) quanto ativa (aquecimento e eletricidade). Nas
pesquisas de saúde, existem evidências de que a iluminação natural tem efeito sobre o
comportamento humano, regulando o ciclo biológico na produção de vitamina D, no ritmo
cardíaco e circulatório.
As medidas da radiação solar global (total) e das outras variáveis meteorológicas são
fundamentais em várias áreas de interesse da sociedade, tais como: caracterização ambiental,
simulações de cenários climáticos futuros, demanda hídrica, evapotranspiração, planejamento de
instalações para o aproveitamento da energia solar, modelos de crescimento e de produtividade
de comunidades vegetais (agrícolas ou naturais), estudos de fotossíntese etc.
Na maioria dos municípios da região do Baixo São Francisco, predomina o clima
semiárido. Todavia, o uso de água via irrigação é uma alternativa para a segurança alimentar
e a geração de renda dos agricultores rurais (PAINEL BRASILEIRO DE MUDANÇAS
CLIMÁTICAS, 2012). Nesse cenário, a radiação solar pode ser aproveitada em sistemas
fotovoltaicos, gerando eletricidade para as motobombas da agricultura irrigada e atividades
correlatas.
Professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (Ceca),
Laboratório de Irrigação e Agrometeorologia.
90
Professor da Ufal-Ceca, Laboratório de Sistemas Fotovoltaicos (LSFV).
91
Professor Associado. Coordenador do Crad-Ufal. Campus Arapiraca.
92
Professor Aposentado da Ufal, Instituto de Ciências Atmosféricas.
93
Graduando da Ufal, curso de Engenharia de Energia, LSFV.
94
Graduando da Ufal, curso de Engenharia de Energia, LSFV.
89

Neste capítulo, são apresentados a dinâmica das variáveis meteorológicas no Baixo
São Francisco e o monitoramento de variáveis elétricas de pequeno arranjo fotovoltaico
(FV), através de um protótipo de baixo custo, durante a II Expedição Científica do Baixo
Rio São Francisco.

Meteorologia e Energia Solar
- Meteorologia durante a expedição
Meteorologia (a palavra vem do grego, em que “meteoros” significa o que está suspenso
no ar, e “logia” é igual a estudo) é a parte da ciência que tem como objeto de estudo a atmosfera,
ou seja, ocupa-se dos fenômenos físicos atmosféricos e suas variações espaço-temporal.
O tempo (tempo meteorológico, não confundir com o tempo cronológico) é o
estado da atmosfera num local e instante, sendo caracterizado por grandezas que podem ser
observadas. Essas são denominadas elementos meteorológicos e os principais são temperatura
do ar, pressão da atmosférica, umidade do ar, velocidade e direção do vento, precipitação
pluvial (popularmente chamada de chuva) e radiação solar.
Os elementos meteorológicos são condicionados pelos chamados fatores
meteorológicos. Estes, na maioria das vezes, são características geográficas, tais como:
latitude, altitude, continentalidade, oceanalidade (maritimidade), correntes oceânicas, sistemas
atmosféricos etc.
Na II expedição científica que ocorreu no Baixo Rio São Francisco, as variáveis
meteorológicas observadas foram radiação solar, velocidade do vento e temperatura do ar.
As medições foram iniciadas no dia 19 do mês de novembro do ano 2019, no município de
Piranhas (PI), e finalizadas no dia 26 do mesmo mês, no município de Penedo (PE) (Figura
124). Entretanto, a expedição foi até a foz do rio São Francisco e retornou a Penedo.
Figura 124 - Mapa do Baixo São Francisco, com destaque das localidades em que a
expedição realizou atividades de pesquisa. Notas: Piranhas (PI), Pão de Açúcar
(PA), Belo Monte (BM), Traipu (TR), Propriá (PR), Igreja Nova (IN), Penedo
(PE), Piaçabuçu (PU).

Fonte: Compilação dos autores (2020).

350

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Os equipamentos automáticos (sensores) realizavam medidas meteorológicas a cada
10 segundos e um sistema de aquisição de dados (Datalogger) (Figura 125), ao qual os sensores
estavam conectados, armazenava médias a cada um (1) minuto.
As observações da radiação solar foram feitas através de um piranômetro (Figura
126), previamente calibrado por um piranômetro de segunda classe especificado pelo ISO
9060 (modelo CMP 21, Kipp & Zonen). A temperatura do ar (Ta) foi monitorada por um
termômetro instalado no piso superior da embarcação da expedição e protegido da incidência
da radiação solar direta e da precipitação pluvial. A velocidade do vento foi mensurada por um
anemômetro do tipo de conchas, também instalado no piso superior do barco (Figura 126).
Figura 125 - Sistema de aquisição de dados instalado na embarcação da II
Científica do Rio São Francisco.

Expedição

Fonte: Ricardo A. Ferreira Junior (2019).

Cabe destacar que todo o sistema de monitoramento meteorológico (Tabela 49) foi
cedido pelo Laboratório de Irrigação e Agrometeorologia (LIA) da Universidade Federal de
Alagoas (UFAL), locado no Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (CECA).
O termo radiação, isoladamente, é uma forma de transferência de energia, por meio de
ondas eletromagnéticas. Já a radiação solar é o termo geral para expressar a energia oriunda do
sol. Sabe-se que, após as reações nucleares que ocorrem no interior do sol, enormes quantidades
de energia são transferidas até a superfície solar, que tem uma temperatura de cerca de 6.000
K. Segundo a Lei de Stefan-Boltzman, a densidade de fluxo de energia radiante emitida por
um corpo é proporcional à quarta potência da sua temperatura absoluta (unidade em Kelvin).
Assim, uma enorme quantidade de energia na forma de radiação é emitida pelo sol, a uma
velocidade de 300 milhões de metros por segundo, e uma parte chega até o planeta Terra.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

351

Figura 126 - Sensor de medição da radiação solar (piranômetros) e sensor de medição da
velocidade do vento (anemômetro) instalados na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco.

Fonte: Fonte: Ricardo A. Ferreira Junior (2019).

Tabela 49 - Equipamentos utilizados no monitoramento meteorológico na II Expedição
Científica que ocorreu no Baixo Rio São Francisco.
Variável
Radiação Solar
Temperatura do ar
Velocidade do vento
-

Equipamento
Piranômetro
Termômetro
Anemômetro
Datalogger

Fabricante
Kipp & Zonen
Campbell Scientific
Campbell Scientific
Campbell Scientific

Modelo
CM3
Probe 107
03101-L
CR1000

Fonte: Fonte: Ricardo A. Ferreira Junior (2020).

A unidade para energia no sistema internacional (SI) de medidas é o Joule ( J). Já a
energia radiante solar é expressa por unidade de tempo (s) e por unidade de área (m²) e é
chamada de densidade de fluxo de radiação. Quando essa densidade de fluxo de energia está
saindo (emitida) de uma superfície (ou um corpo), é denominada emitância; por outro lado,
se esse fluxo estiver chegando a uma superfície, é denominado irradiância solar global (Rg,
J.s-1.m-2 = W.m-2). Com a integração desses valores, tem-se a irradiação solar global (Hg,
Watt-hora por metro quadrado – Wh.m-2) por certo intervalo de tempo, geralmente horário
ou diário, conforme Equação 1:
			

(1)

em que: to é a momento do nascer do sol e tf é o momento do pôr do sol.
Em todos os dias observados durante a expedição (Figura 127), ocorreram

altos valores de picos de irradiância solar global (acima de 1.000 W.m-2), com o valor
máximo igual a 1.329 W.m-2 às 11 horas e 23 minutos no dia 21 de novembro (Figuras

352

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

127 e 128), quando a embarcação estava em deslocamento entre os municípios de Pão

de Açúcar (PA) e Traipu (TR). Nesse dia, a irradiação solar global diária, ou seja, os
valores integrados de Rg, foi de 6.104 Wh.m-2 (21,97 MJ.m-2.dia-1). Vale destacar
que, nos dias da expedição, o meio-dia solar estava ocorrendo aproximadamente às 11
horas e 37 minutos [hora padrão de Brasília – fuso horário: (UTC/GMT -03:00)],
ou seja, nesse momento, o sol está sobre o meridiano local.
Figura 127 - Irradiância solar global (Rg, W.m-2), Temperatura do ar (Ta, °C) e Velocidade
do vento (Vv, m.s-1) medidos na embarcação ao longo da II Expedição
Científica do Rio São Francisco.

Fonte: Compilação dos autores (2019).

Pode-se conhecer a condição de nebulosidade desse dia através da transmitância
atmosférica global (Kt), também chamada de índice de claridade. Para essa determinação,
precisa-se fazer a razão entre a Hg/Ho, em que Ho é a irradiação solar global extraterrestre ou
irradiação solar global no topo da atmosférica (ou Rg/Ro, para a determinação instantânea, em
que a Ro é a irradiância solar global extraterrestre) (Figura 129). O valor da energia radiante
no topo da atmosfera é determinado multiplicando-se a constante solar, um fator de correção
da excentricidade da órbita do planeta Terra e o cosseno do ângulo zenital. Para detalhes
da metodologia, consultar Iqbal (1983), em que as variáveis de entrada para os cálculos são,
apenas, a latitude e o dia do ano. Assim, o dia em questão teve Ho igual a 39,26 MJ.m-2.dia1
, com um Kt (0,56), que o classifica em relação à nebulosidade (ou à cobertura do céu por
nuvens) como parcialmente nublado (0,30 ≤ Kt < 0,70). O céu é classificado nublado com
valores de Kt menores que 0,3, enquanto valores iguais ou maiores que 0,7 indicam céu claro.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

353

Figura 128 - Irradiância Solar Global no dia 21, medida na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco do município de Pão de Açúcar (PA) ao de
Traipu (TR).

Fonte: Compilação dos autores (2019).

Os valores de Rg, na superfície, acima de 1.000 W.m-2 estão relacionados a um
fenômeno que, na literatura especializada, pode ser o encontro das seguintes terminologias:
radiação extrema sobre irradiância, efeito borda de nuvem e efeito lente. São valores próximos
ou superiores ao da constante solar (1.367 W.m-2) ou da irradiância extraterrestre. Isto ocorre
em condições de nebulosidade parcial, como consequência de espalhamento/reflexão da
radiação por bordas das nuvens quando existe uma geometria propícia entre sol-nuvens-Terra.
Essa geometria possibilita que a irradiância solar global seja aumentada por contribuição da
componente, que é difusa pelas bordas das nuvens (Figura 130). Geralmente, o efeito lente
tem curtos intervalos de tempo quando o ângulo de elevação solar está próximo de 90º ou
ângulo horário próximo de 0º (meio-dia solar).

354

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 129 - Ilustração da radiação solar que chega no topo da atmosfera do planeta terra
(Ro) e a radiação solar que chega na superfície (Rg) após os processos de
atenuações (reflexão e absorção).

Fonte: elaborado pelo autor.

Placentini et al. (2003) relatam que, para que o fenômeno ocorra, as condições
especiais são funções do tipo, da densidade, da configuração e das porcentagens de coberturas
de nuvens (entre 50% e 90% do céu). Em pesquisas realizadas usando dados de Rg mensurados
em diferentes Estados do território brasileiro (Bahia, Ceará, Minas Gerais, Mato Grosso, Rio
de Janeiro e Rio Grande do Sul), foram observados valores acima de 1.367, com o máximo de
1.822 W.m-2 (NASCIMENTO et al., 2019).
Figura 130 - Ilustração do fenômeno de aumento da irradiância solar global por efeito do
espalhamento das bordas das nuvens.

Fonte: Adaptado de Zhang et al. (2018)

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

355

A expedição ocorreu em novembro, mês que apresenta a menor normal climatológica
(valores médios calculados para um período relativamente longo e uniforme, compreendendo,
no mínimo, três décadas consecutivas) de precipitação pluvial (chuva) na maioria das regiões
do Estado de Alagoas. Por exemplo, no município de Pão de Açúcar, a normal climatológica
de precipitação mensal, entre os anos de 1981 a 2010, no mês de novembro, é de apenas 12,8
mm (INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA, 2020). Nos monitoramentos
pluviométricos do mês de novembro, são comuns a ausência de eventos de chuva em
localidades do Estado, principalmente nas afastadas do litoral. Portanto, não ocorreu nenhum
evento de precipitação pluvial durante a expedição, proporcionando condições para elevados
valores de energia solar incidente em todos os dias da expedição. Esses são alguns dos fatores
que favoreceram as elevadas temperaturas no decorrer da expedição, que apresentou uma
temperatura do ar média de 27,9 °C, valor superior ao registrado na primeira expedição
(ano 2018), que ocorreu no mês de outubro e teve média de 27,3 °C. Se a comparação da
temperatura do ar entre as duas expedições for em relação aos valores extremos (mínimo
e máximo), as diferenças são maiores, com 1,05 °C e 2,1 °C de diferença, respectivamente,
para temperaturas mínimas e máximas.
A temperatura do ar teve o valor máximo (35,7 °C), durante a expedição, no dia 24 de
novembro, às 10h10min da manhã. Nota-se que, nesse dia, a irradiância solar global apresentou
o menor pico (1.010 W.m-2) entre os dias da expedição; porém, esse dia, do nascer ao pôr do
sol, foi o que recebeu mais energia solar, com o valor integrado (Hg) de 7.370 Wh.m-2 (26,53
MJ.m-2.dia-1) (Figuras 127 e 131). Isso deveu-se à condição da transparência da atmosfera
em dias de céu claro (Kt = 0,7). E, conforme relatado no Atlas Brasileiro de Energia Solar,
elaborado em conjunto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Laboratório
de Modelagem e Estudos de Recursos Renováveis de Energia (Labren) e o Centro de Ciência
do Sistema Terrestre (CCST), em 2017, em um dia claro (céu limpo), os constituintes da
atmosfera atenuam a irradiância solar, fazendo com que a incidente na superfície atinja seu
valor máximo de aproximadamente 1.000 W.m-2 (PEREIRA et al., 2017). Essa condição
ocorreu no dia 24 e pode ser observada a tendência dos valores ao longo do dia, em que a
curva foi a mais próxima de uma senoide (formato de sino) (Figura 131).
Cabe ressaltar que todos os dias da expedição (Figura 127) apresentaram irradiação
solar global acima da faixa média anual (5.250 a 5.500 Wh.m-2) da região apresentada no
Atlas citado acima.

356

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 131 - Irradiância solar global no dia 24, medida na embarcação da II Expedição
Científica do Rio São Francisco, no município de Penedo (AL).

Fonte: Compilação dos autores (2019).

Em relação à velocidade do vento medida na expedição, é importante lembrar que,
quando a embarcação está em movimento, a velocidade registrada pelo equipamento é
influenciada pelo deslocamento da embarcação. Nesse caso, a velocidade é uma resultante da
velocidade da embarcação e da do vento. Logo, os valores de velocidade do vento, em certos
momentos, não são exatos, porém, de maneira geral, é notável que a tendência do vento é
parecida com a da temperatura do ar (Figura 127).

- Energia solar fotovoltaica
No que remete ao aproveitamento da energia solar para geração de eletricidade, o efeito
fotovoltaico (FV) é um processo de aplicação que vem ganhando força exponencialmente,
principalmente em aplicações fotovoltaicas conectadas à rede elétrica, sendo motivado pela
Resolução nº 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que objetiva
reduzir as barreiras para inserção de micro e minigeração distribuída, incentivando o
mercado brasileiro (AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA, 2012). Esse
é, comumente, chamado de sistema FV e fundamenta-se na transformação da radiação solar,
diretamente, em energia elétrica, por meio de um dispositivo semicondutor (chamado de célula
fotovoltaica) que produz uma corrente elétrica quando a radiação solar na faixa do visível
(luz) incide sobre ele. Aplicações em sistemas isolados (Offgrid) também vêm ganhando um
forte impulso ultimamente, e o desenvolvimento tecnológico em baterias está proporcionando
um bom desempenho, principalmente, nas baterias de Íons de Lítio, quando aliadas a painéis
fotovoltaicos (MACHIAVELLI, 2018).
Diante da realidade da região do Baixo São Francisco, do ponto de vista climatológico,
motivou-se o estudo para investigar as variáveis elétricas fornecidas pelos módulos fotovoltaicos
durante a II Expedição Científica do Rio São Francisco, visto que as condições meteorológicas
afetam, de forma significativa, a produção de energia elétrica (ALVES, 2019). A configuração
do cenário experimental montado na expedição contou com dois painéis fotovoltaicos de

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

357

140 Wp (Watt pico) de tecnologia silício monocristalino (Si-m) (Figura 132). Os dados
técnicos operacionais dos módulos empregados no experimento foram descritos em Wp
(Watt-pico), que é uma unidade de potência não muito usual e foi criada para caracterizar
os painéis fotovoltaicos (Tabela 50).
Figura 132 - Módulos fotovoltaicos instalados na II Expedição Científicaa do Rio São
Francisco.

Fonte: Ricardo A. Ferreira Junior (2019).

Tabela 50 - Características técnicas dos módulos utilizados na análise realizada na Expedição.
Potência
Corrente Ponto de Máxima
Corrente Curto-Circuito
Tensão Ponto de Máxima
Tensão Circuito Aberto

Referência

BMSM140M36
140 Wp
7.77 A
8.66 A
18.0 V
21.6 V

Fonte: Igor Cavalcante Torres (2020).

A potência gerada por um painel FV varia conforme as condições de irradiância
solar e a temperatura do ar a que o painel está exposto. Assim, para caracterizar módulos
fotovoltaicos, as potências são expressas em Wp, que é definida como a potência de um painel
quando submetido às condições padronizadas de teste Standard Test Conditions (STC).
Essas condições de teste padrão têm como a temperatura da célula 25 ºC, sem vento e com
uma irradiação solar de 1.000 W.m-2 (MACÊDO, 2008; ZILLES; MACÊDO, 2012).
Sistemas de monitoramento em tempo real possibilitam a visualização de falhas
com maior precisão (REGES, 2017). Sistemas comerciais ainda custam muito caro, o que,
muitas vezes, inviabiliza a investigação de um experimento. Assim, o desenvolvimento de
um protótipo foi pensado para criar uma ferramenta de medição, visando ao baixo custo e à
acurácia aceitável nas medições. Dessa forma, a coleta de dados deu-se através do protótipo
(Figura 133), sendo responsável por mensurar e armazenar as informações das variáveis na
memória de massa interna, propiciando futuras análises.

358

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 133 - Protótipo de um dispositivo de aquisição de dados elétricos de sistema
fotovoltaico.

Fonte: Igor Cavalcante Torres (2019).

O protótipo foi desenvolvido pelos alunos do curso de Engenharia de Energias,
no Laboratório de Sistemas Fotovoltaicos (LSFV) da UFAL, situado no CECA.
De forma simplória, a composição fundamental do equipamento é feita em dois
circuitos principais, o de medição de corrente e o de tensão elétrica; o segundo
estágio é o processamento dos dados, etapa efetuada pelo processador, e, por fim, o
armazenamento dos dados sequenciados em sua memória de massa. O dispositivo
de aquisição de dados monitora em intervalos de 1 (um) segundo o comportamento
da tensão, corrente, potência e temperatura do painel solar, em tempo real, e envia as
informações a um cartão de memória (Figura 134).
Figura 134 - Diagramação de bloco do projeto do medidor (protótipo) construído para
análise de variáveis elétricas de um painel solar.

Fonte: Compilação dos autores (2020).
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

359

O dispositivo foi montado integralmente no laboratório e testado previamente
por diversos dias. A metodologia de avaliação contou com uma campanha de medições de
uma semana, na área experimental do laboratório, executada pelos alunos da graduação de
Engenharia de Energia (Figura 135).
No contexto da produção de eletricidade, os resultados encontrados pelo protótipo
medidor na expedição são relativos às medidas realizadas no dia 22 de novembro de 2019,
quando a embarcação estava em deslocamento entre os municípios de Traipu (TR) e Propriá
(PR). Nos resultados, há uma similaridade entre o comportamento da corrente fotogerada
(Figura 136A) e a irradiância solar global (Figura 136B). Percebe-se uma mesma dinâmica
na variabilidade das medições, com forte correlação entre as variáveis.
Figura 135 - Ação de avaliação do medidor (protótipo) de variáveis elétricas de um painel
solar, realizada na área experimental do laboratório.

Fonte: Igor Cavalcante Torres (2010).

Matematicamente, a correlação pode ser determinada pelo modelo matemático abaixo,
com que é possível determinar a corrente produzida pelo painel FV com o dado instantâneo
de radiação solar:

=
Na expressão acima, é a corrente na saída do painel fotovoltaico. A partir
do valor da corrente no ponto de máxima potência(
) nominal do datasheet, é
possível calcular instantaneamente a corrente fotogerada, usando o termo de radiação
normalizada ( ).

360

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 136 - A) Perfil da corrente elétrica produzida pelo painel fotovoltaico (Ampere, A);
B) Irradiância solar global (W.m-2). Dia 22 de novembro de 2019, durante a II
Expedição Científica do Rio São Francisco.

Fonte: Compilação dos autores (2020).

Percebe-se, também, que foram obtidos valores máximos de corrente ligeiramente
acima de 10 amperes, superando o valor de catálogo do datasheet (Tabela 50). Isso significa
um excesso de corrente de quase 18% com relação ao dado de catálogo, que é referenciado
nas condições padrão de teste (STC). Esse fenômeno pode ser justificado mediante a
disponibilidade do recurso solar local, conforme visualizado no perfil da irradiância solar do dia
22 (Figura 136B). Existem momentos em que a irradiância solar ultrapassa o valor de 1.000
W.m-2; consequentemente, há uma projeção desse efeito na corrente fotogerada do módulo.
Analisando o perfil da tensão (Figura 137A), visualiza-se que há intermitência na
amplitude da tensão no mesmo período em que se tem a variabilidade da irradiância solar,
porém em menor intensidade.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

361

Figura 137 - A) Perfil da tensão elétrica nos terminais do módulo fotovoltaico ao longo do
dia em V; B) Perfil da temperatura operacional do painel fotovoltaico (ºC).

Fonte: Compilação dos autores (2020).

A comparação pode ser feita pelos gráficos (Figuras 136A e 137A), visto que a corrente
elétrica reflete o comportamento da densidade de fluxo de radiação solar. Assim, é possível
perceber a estabilidade do sinal de tensão após o período da perturbação da corrente elétrica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se, portanto, que a radiação solar é um recurso que deve ser ambicionado na
região em estudo, principalmente em locais de difícil acesso, uma vez que já é documentado
o potencial e ratificado com as medidas realizadas na expedição. A utilização de geradores
fotovoltaicos já é uma realidade e, com isso, de acordo com os resultados, é possível utilizar
esta tecnologia para fornecimento de energia elétrica de pequenas e grandes cargas,
bastando estar muito atento no que tange à melhor captação do recurso solar. O protótipo
de monitoramento desenvolvido mostra bom desempenho nas medições de tensão, corrente,
potência e temperatura do painel solar.

REFERÊNCIAS
AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA. Resolução Normativa nº 482, de
17 de Abril de 2012. Brasília: Agência Nacional de Energia Elétrica, 2012.
ALVES, M. O. L., Energia solar: Estudo da geração de energia elétrica através dos sistemas

362

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

fotovoltaicos on-grid e off-grid. João Monlevade: Universidade Federal do Ouro Preto, 2019.
INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA. Página inicial. 2020. Disponível
em: http://www.inmet.gov.br/portal/index.php?r=clima/normaisClimatologicas. Acesso em:
27 maio 2020.
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Volume 1 - Base Científica das Mudanças Climáticas. Contribuição do Grupo de Trabalho 1
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Volume Especial para a Rio+20, 34p, 2012.
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REGES, J. P. Desenvolvimento de um sistema de aquisição de dados para sistemas
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ZILLES, R.; MACÊDO, W. N. Sistemas Fotovoltaicos Conectados à Rede Elétrica. São
Paulo: Oficina de Textos, , 2012.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

363

ENVIRONMENTAL EDUCATION IN RIVERINE
SCHOOLS IN THE LOWER SÃO FRANCISCO
José Vieira Silva

Antônio Jackson Borges Lima
Evaristo Pérez Rial

Júlia de Souza Vieira
SUMMARY
Environmental Education in riverine schools in the Lower São Francisco region is
a challenge similar to that found in other riverine schools worldwide. This text’s approach
sought to gather in loco information on social indicators and local environmental problems
and how local schools deal with, or address, these issues in the context of environmental
education. Directly, we tried to probe the work done in the sphere of primary education,
with students of the initial grades, to overcome environmental degradation problems in the
LSF. The analysis included the public authority’s view on environmental education, what
responsibility they assume with the communities in promoting knowledge, and if they
provide the necessary tools to help overcome such environmental problems, or even develop
a sense of preservation or recovery of degraded environments. The population’s perception
regarding the impacts of the environment on a day-to-day basis is unanimous, considering
the knowledge of environmental problems by children and young people, but in a still very
superficial context. Moreover, as the last discussed subject, the approach concerns the findings
on environmental education actions developed in the riverside communities of the LSF.
Based on the findings in loco, raised during the two Scientific Expeditions of the
Lower São Francisco, in 2018 and 2019, it is possible to state, categorically, that there is a
considerable gap in the approach between the current environmental problems found in the
region and the involvement of riverine communities in the search for local solutions. It is
possible to observe that environmental education in the visited riverside communities and
schools is still superficially treated, either in the dimension of pedagogical projects or in the
lack of public policies with stimuli and official resources (federal, state, and county) to develop
them effectively. The few isolated actions performed do not present a clear and significant
connection with the problems faced by riparian communities. It is noticeable a remarkable
dissociation on the part of public managers concerning environmental problems and related
areas and regional development as a whole. The recommendation is that regional development
promoters could address the river’s current environmental problems in a coordinated or
integrated fashion with environmental education. They could strongly encourage the adoption
of integrated and responsible environmental protection actions aimed at the development
of the Lower San Francisco.

364

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

CAPÍTULO 21
EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM ESCOLAS
RIBEIRINHAS DO BAIXO SÃO FRANCISCO
José Vieira Silva95

Antônio Jackson Borges Lima96
Evaristo Pérez Rial97

Júlia de Souza Vieira98
INTRODUÇÃO
A realização de duas expedições científicas no Baixo São Francisco (BSF), nos anos
de 2018 e 2019, levou-nos a conhecer e a vivenciar, por alguns dias, a realidade e os desafios
da educação nas escolas públicas e privadas das comunidades ribeirinhas, algo completamente
distante da realidade vivida nos centros urbanos. Esse foi um desafio que perpassa por
conteúdos programáticos, planejamentos pedagógicos, infraestrutura de apoio, disponibilidade
de recursos e, sobretudo, pelas dificuldades de inclusão digital.
No contexto mais objetivo e focal das ações de estudo, as duas expedições científicas no
Baixo São Francisco trataram de questões como a degradação e os problemas ambientais do rio.
Diferente de outros modelos de ações de Educação Ambiental (EA), as abordagens adotadas
durante as duas expedições foram voltadas para uma integração de conteúdos técnico-científicos
no contexto da educação ambiental. Assim como em comunidades ribeirinhas do Brasil e em
diferentes regiões do mundo (América do Norte, África, Ásia e Oceania), a educação ambiental
faz parte dos planejamentos pedagógicos e também dos planos de governos ( JACOBI, 2003;
SORRENTINO et al., 2005; LIMA; ANDRADE, 2010; MEDEIROS et al., 2011; CUTTERMACKENZIE, 2011; JACOBI, 2013; NWACHUKWU, 2014; NEEF, 2015; OLIVEIRA,
2015; ROSA et al., 2015; BERCHEZ et al., 2016; NOGUEIRA; SOUZA, 2019; EMAS, 2020).
A educação ambiental é uma temática relativamente nova no contexto do ensino, nos
diferentes níveis organizacionais. Somente na segunda metade do século XX é que começou a
ter importância mundial, por ocasião da Conferência de Educação, ocorrida no ano de 1965,
na Inglaterra. Depois, foi abordada também em outras Conferências Mundiais do Clima,
promovidas pela ONU e Unesco, como Estocolmo, em 1972, Belgrado, em 1975, Tbilisi,
em 1977, e na Rio92 (BARBIERI; SILVA, 2011; EMAS, 2020).
No Brasil, a educação ambiental foi incluída, pela primeira vez, no Plano Plurianual
do Governo Federal somente em 1996. Isso ocorreu através da Lei nº 9.276, de 9 de maio
de 1996, que previa a promoção da educação ambiental por meio da divulgação e do uso de
conhecimento sobre tecnologias de gestão sustentável dos recursos naturais. Apenas em 1999,
com a Lei nº 9.795, de 27 de abril, que dispõe sobre a educação ambiental, foi instituída a
Política Nacional de Educação Ambiental. Dessa forma, então, o Governo Federal oficializou
o entendimento de educação ambiental:
Professor Associado e Coordenador-Geral do Crad. Ufal – Campus Arapiraca.
Fundador e Gestor do Museu do São Francisco. Traipu, Alagoas.
97
Técnico Sênior em Aquicultura Marinha. Instituto Espanhol de Oceanografia. Vigo – Espanha.
98
Bióloga – Dibict/ICBS. Ufal – Campus A.C. Simões.
95
96

Entende-se por educação ambiental os processos por meio dos quais
o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos,
habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do
meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade
de vida e sua sustentabilidade. (BRASIL, 2005).

Dessa forma, as diretrizes-gerais da educação ambiental foram estabelecidas em vários
momentos e disponibilizadas para a Rede Nacional, formada por escolas públicas, das esferas
municipais e estaduais (OLIVA, 2000; PHILIPPI JR; PELICIONI, 2014). Em uma análise
da conjuntura atual, a constatação que se tem é de que muito pouco tem mudado no contexto
da adoção de uma matriz didática pedagógica que insira a educação ambiental como conteúdo
a ser trabalhado nas escolas, principalmente, de ensino fundamental (LUCCA; BRUM, 2013;
JACOBI, 2013; MUCCI, 2014; NWACHUKWU, 2014; NEEF, 2015; BERCHEZ et al.,
2016; EMAS, 2020).
A falta de dimensionamento e de valoração dos bens e serviços ambientais prestados
gratuitamente pela natureza em geral é diretamente proporcional ao nível de desinformação,
que tem impacto direto no grau de degradação ambiental. Isso é melhor entendido quando
analisamos as diretrizes políticas adotadas e que confrontam a própria Constituição Federal
de 1988, que prevê a inserção da educação ambiental no Plano Plurianual. No Artigo 225,
parágrafo 1º, inciso VI, consta que o poder público está incumbido de promover a educação
ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do
meio ambiente.
No geral, o Brasil tem uma legislação ambiental das mais atualizadas do mundo; porém,
sua política ambiental sempre andou na contramão do que preconizam as leis (MELLOTHÉRY, 2019). Eis que, passados 32 anos desde a inserção da educação ambiental no Plano
Plurianual, surge um revés sem precedentes para o meio ambiente e, principalmente, para
a educação ambiental. O tema foi excluído ou alijado completamente no Plano Plurianual
de 2020 a 2023, conforme a Lei nº 13.971, de 27 de dezembro de 2019 (BRASIL, 2019).
Todo o arcabouço jurídico e legal ressalta a adoção de ações práticas e a importância
da educação ambiental nas escolas de ensino fundamental, mas muito pouco tem sido feito e
estimulado. E, no mundo todo, é justamente essa adoção e ajuda da educação ambiental que
tem sido propulsora para algum sucesso de médio e longo prazo nos projetos de recuperação
ambiental (CUTTER-MACKENZIE, 2011; MEDEIROS et al., 2011; NEEF, 2015). A
conscientização e a aceitação de conteúdos ambientais inovadores por parte dos ribeirinhos
são processos demorados e que requerem persistência. Precisam ser inseridos e estimulados
sistematicamente nas culturas locais, levando-se em conta, principalmente, suas tradições e
os conhecimentos locais (LIMA; ANDRADE, 2010; LUCCA; BRUM, 2013).
No contexto mundial, muitos trabalhos e publicações têm chamado a atenção da
ONU e dos governos nacionais, de uma forma em geral, para os problemas ambientais e
suas consequências socioeconômicas, mas também são apontadas saídas. Dentre as saídas
ou propostas a serem trabalhadas, praticamente todas elas têm, ou convergem, ou estão
ligadas diretamente à educação ambiental como política pública de referência (CUTTERMACKENZIE, 2011; JACOBI, 2013; NWACHUKWU, 2014; NEEF, 2015).
Com este contexto posto, as percepções levantadas durante as duas expedições
científicas no Baixo São Francisco, nos anos de 2018 e 2019, apontam para a existência

366

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

de problemas ambientais comuns aos demais locais do mundo. No entanto, no Baixo São
Francisco, a realidade da educação ambiental nas escolas ribeirinhas é bastante destoante,
uma vez que a execução dos conteúdos e das temáticas ambientais do contexto pedagógico
ainda está distante de ser vivenciada na prática educativa local (SILVA; VIEIRA; RIAL,
2020; SILVA; CAMPELO; RIAL, 2020).
Há uma grande lacuna entre os conteúdos dos planejamentos pedagógicos e o contexto
ambiental local. E isso constitui uma das maiores limitações quanto à adoção de uma política
de ensino de conteúdos ambientais mais abrangentes e associados às realidades locais. Com
isso em mente, o conteúdo deste material visa retratar um pouco da realidade encontrada
nas escolas públicas e privadas visitadas durante as duas expedições.

Os indicadores sociais e os problemas ambientais do BSF
A região do BSF, localizada entre os Estados de Sergipe e Alagoas, Cobre uma área
aproximada de 25.500 km2, onde vive uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes,
dos quais 440.000 residem em áreas ao longo das margens do rio São Francisco. O BSF vai
de Paulo Afonso (BA) até a foz, margeia a divisa entre os Estados de Sergipe e Alagoas,
representa 3,4% da área total da bacia do Velho Chico e tem extensão aproximada de 270
km (MEDEIROS et al., 2014; SOARES et al., 2020).
Em relação à região Nordeste, ao se analisar os dados do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) para os aspectos socioambientais das comunidades na
região do BSF, os indicadores socioeconômicos apresentam valores considerados baixos. Há
registro histórico de um PIB baixo, mas com sensíveis melhorias recentes nos Índices de
Desenvolvimento Humano (IDH). Ainda assim, os municípios são classificados com IDHs
baixos (0,45 a 0,599, na grande maioria) e médios (entre 0,6 e 0,699, poucos). Apesar da
proximidade com a maior fonte de água doce superficial na região Nordeste, 1 em cada 5
moradores dos municípios de Alagoas não tem acesso à água para beber, enquanto que em
Sergipe esse número é de 1 para 10 (IBGE, 2019).
De acordo como o IBGE (2019), no ano de 2019, cada alagoano recebeu R$ 730,86,
em média, que corresponde a 73,2% do salário mínimo vigente no período. Por outro lado, em
metade dos municípios ribeirinhos do Baixo São Francisco, a renda per capita média mensal
não ultrapassou os R$ 140,00, caracterizando-se como “abaixo da linha de pobreza”. Outro
ponto indicador, que é reflexo direto da distribuição de renda e que merece grande atenção,
diz respeito ao Índice Ideb, das séries iniciais e finais do ensino primário, onde os valores
médios da última avaliação, divulgada em 2017, foram considerados preocupantes e muito
baixos e estão entre 3 e 5 (INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS

EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA, 2020).
Dadas as condições socioeconômicas críticas e adversas, a população ribeirinha
residente utiliza, em grande escala, os recursos naturais locais, como forma de subsistência.
Isso tem gerado uma pressão antrópica muito grande sobre recursos disponíveis que, de

maneira geral, possuem diferentes níveis de importância ecológica, conservação e degradação.
Neste aspecto e contexto, ao longo dos tempos, em Alagoas, as áreas de caatinga
têm sido negligenciadas no que diz respeito à preservação e à recuperação. Na caatinga, esse
grau de degradação atinge proporções que ultrapassam os 70% da área total (BARBOSA et
al., 2017). E este fato tem sido agravado devido ao elevado grau de degradação nas Áreas de

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

367

Preservação Permanentes (APPs), matas ciliares e nascentes, tanto dos seus afluentes de 1ª
e 2ª ordem, como do próprio rio São Francisco (SILVA; VIEIRA; RIAL, 2020).
Outros problemas ambientais, como a cunha salina, surgiram em decorrência
da construção de barragens para regularização de vazões e produção de energia elétrica
(CAVALCANTE et al., 2020; SOARES et al., 2020). Além das barragens, as estradas,
os núcleos urbanos e a expansão da agropecuária foram outros fatores que contribuíram
fortemente para o surgimento de problemas ambientais no BSF.
Aliado a tudo isso, na grande maioria dos ambientes ciliares remanescentes, não há
resiliência que permita à vegetação restabelecer-se por mecanismos naturais de regeneração.
Em decorrência da ausência de vegetação ciliar, das secas na bacia e da regularização de vazões
com redução da vazão do rio, verifica-se um acelerado processo de erosão das margens do rio
e poluição das águas por esgotos domésticos e outros contaminantes (Figura 138).
Figura 138 - Erosão das margens (A e B); núcleos urbanos (C); assoreamento (D); uso
distinto das águas do rio (E); desmatamento em APPs (F) na região do Baixo
São Francisco.

A

B

C

D

E

F

Fonte: José Vieira Silva (2019).

368

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Estas ações antrópicas provocaram uma redução severa da vegetação ciliar e das APPs,
tanto nas margens do rio São Francisco como dos seus afluentes, levando a uma fisionomia
bastante modificada, com o surgimento dos bancos de areia e ilhas. Face à severa supressão
da vegetação e à intensidade de caça e pesca, muitas espécies nativas de plantas e animais
estão praticamente extintas na região.
As consequências imediatas são o assoreamento do leito principal do rio, com
perdas de recursos da flora e da fauna locais, redução dos pescados e das terras produtivas
e, consequentemente, aumento do empobrecimento das comunidades ribeirinhas. Em
termos de materiais de estudo e assuntos locais para compor os conteúdos dos planos
pedagógicos relacionados à educação ambiental, o Baixo São Francisco apresenta um amplo
leque de problemas ambientais. Portanto, são inúmeras as possibilidades que existem para
se trabalhar os conteúdos voltados para a educação ambiental nos diversos cenários vividos
pelos ribeirinhos no seu cotidiano.

Escolas ribeirinhas e a educação ambiental
Conhecer e entender o universo e a abrangência das ações de educação ambiental das
duas expedições científicas foi o ponto de partida para visualizar a importância e a dimensão do
despertar do olhar ambiental. Nos municípios de Piranhas, Pão de Açúcar, Traipu, Porto Real
do Colégio, Igreja Nova (Chinaré), Penedo e Piaçabuçu, as visitas ao barco foram realizadas
por escolas de ensino fundamental (infantil e primário) e médio, das esferas municipal e
estadual. Nas duas expedições, os pesquisadores visitaram oito escolas, havendo retorno dos
pesquisadores em quatro delas para palestras e ações de educação ambiental.
Por outro lado, ao todo, foram 18 escolas que levaram seus alunos para visitar e conhecer
os instrumentos científicos de pesquisa e as atividades desenvolvidas pelos pesquisadores no
barco da expedição. Nos oito municípios visitados, as 18 escolas representaram, ao todo, um
universo de quase cinco mil alunos, sendo que cerca de 30% deles tiveram a oportunidade
de visitar o barco da expedição.
Das escolas das margens de Sergipe, somente uma teve a oportunidade de visitar
o barco da expedição científica, numa parada não programada, no povoado de Curralinho,
do município de Poço Redondo (Figura 139). A Escola Municipal de Ensino Fundamental
Salvelina Costa, com seus 32 alunos, duas professoras e um funcionário de apoio, deu uma
clara demonstração de que todo esforço para se levar conhecimento e oportunidade de
aprendizagem, aos mais longínquos rincões deste País, sempre irá valer a pena. A demonstração
de interesse, curiosidade, habilidades surpreendentes com o manuseio de equipamentos
eletrônicos e o conhecimento sobre a realidade local destoaram positivamente em relação às
percepções despertadas pelos demais alunos que visitaram o barco da expedição.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

369

Figura 139 - Visita dos alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Salvelina
Costa, no povoado de Curralinho, município de Poço Redondo-SE. A – acesso
ao barco; B – assinatura do livro de presença; C – atividade para identificação
de aves; D – professoras; E – uso de óculos de realidade virtual; F – aluno no
comando do rover.

A

B

C

D

E

F

Fonte: José Vieira Silva (2020).

Em relação ao universo de professores que estas 18 escolas congregam, foram mais
de 260 profissionais e, destes, cerca de 40% visitaram o barco durante as duas expedições,
acompanhando seus alunos. A grande maioria aproveitou a visita ao barco para trabalhar
conteúdos didáticos relacionados a temas práticos e diretamente à realidade local. Além dos
professores, estas escolas contaram, ainda, com pessoal de apoio, que também esteve presente
e ajudou na execução das atividades práticas de educação ambiental realizadas nas escolas.
Nas duas expedições, deparamos-nos, a todo instante, com uma enormidade de
problemas ambientais nos contextos encontrados e em cada cenário por onde passamos
(Figuras 138 e 140).

370

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 140 - Problemas ambientais comuns na região do Baixo São Francisco. A – lavagem
de roupas; B – lavagam de veículo; C – ocupação das margens além do
permitido; D – ocupação irregular das ilhas; E – erosão das margens; F –
efeitos da cunha salina.

A

B

C

D

E

F

Fonte: José Vieira Silva (2019).

Ao visitar e conhecer as diferentes realidades das comunidades ribeirinhas do BSF
e suas dificuldades, de algum modo, notou-se que não é difícil para a comunidade científica
identificar os problemas ambientais, bem como apontar ou sugerir diferentes formas de como
trabalhar os conteúdos voltados para a educação ambiental.
Dos temas ambientais trabalhados nas palestras, praticamente todos foram
correlacionados com o dia a dia das comunidades, quanto à sua origem e as consequências
para a saúde humana. Por exemplo, na questão da poluição por lançamentos diretos de esgotos
domésticos sem tratamento no rio, comum a todo o BSF, tanto os alunos quanto a população
em geral demostraram conhecer parcialmente a gravidade do problema e correlacionar com
suas consequências. De certa forma, é preocupante ver que há uma banalização, apatia ou
“cegueira” quanto à ocorrência dos problemas e seus impactos diretos e indiretos na saúde e
na vida das pessoas.
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

371

Visando despertar para as questões ambientais, a abordagem adotada durante as
palestras na 2ª expedição incluiu a exibição de um vídeo de oito minutos sobre os problemas
ambientais do BSF. O desafio a ser vencido foi correlacionar os problemas ambientais
apresentados com os existentes nas comunidades locais no dia a dia, tais como: ocorrência
de metais pesados de diferentes origens, contaminação por resíduos de defensivos agrícolas,
pesca predatória, microplásticos, produção e tratamento de lixo doméstico e resíduos sólidos,
desmatamento e matas ciliares, assoreamento, qualidade da água, dentre outros assuntos
(Figura 141).
Figura 141 - Palestras nas escolas e plantio de mudas de espécies nativas da caatinga e da
mata atlântica. A e B – palestras sobre educação ambiental, com participação
de alunos, professores e pesquisadores da expedição.

A

B

Fonte: José Vieira Silva (2019).

Nas palestras, através de uma abordagem lúdica com crianças das séries iniciais e
uma conversa com os professores, buscou-se conhecer um pouco da história das escolas e
a forma como são trabalhados didaticamente os conteúdos sobre a temática da educação
ambiental, no âmbito local.
Durante a 2ª expedição, como atividade simbólica e com o objetivo de envolver alunos
e professores de maneira prática, focou-se na questão do assoreamento e da importância das
matas ciliares. Para tanto, foram realizados plantios e a distribuição de mudas de espécies
vegetais nativas da caatinga e da mata atlântica (Figura 142).

372

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 142 - Plantio de mudas de espécies nativas da caatinga e da mata atlântica. A –
transporte das mudas; B – preparo de hidrogel com participação de aluna e
técnico da EMATER; C e D – plantio de mudas com participação de alunos,
professoras e pesquisadores da expedição; E – plantio em escola; F – plantio de
mudas às margens do São Francisco.

A

B

C

D

E

F

Fonte: José Vieira Silva (2019).

Nesta ação, também foi usada a tecnologia do hidrogel, que consiste de um polímero
hidrorretentor que retém até 400 vezes seu peso ou volume inicial em água. Todo o material
foi preparado com a participação efetiva dos alunos que realizaram o preparo das covas, com
adição de matéria orgânica, solo e hidrogel constituído, seguido do plantio das mudas. Estas
atividades práticas tiveram sempre o suporte dos professores das escolas e dos técnicos da
EMATER-AL.
Após as palestras e a realização dos plantios das mudas das espécies nativas, as escolas
foram convidadas para uma visita com seus alunos ao barco da expedição. E esta foi também
a oportunidade para que todos pudessem conhecer toda a infraestrutura de pesquisa utilizada
nas atividades científicas das expedições.
Durante as visitas das escolas ao barco, a apresentação e a demonstração de uso de

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

373

instrumentos e equipamentos científicos utilizados nas atividades de pesquisa na expedição
foi um grande atrativo para os alunos, pois muitos tiveram sua primeira experiência com o
mundo científico (Figura 143). A participação de todos os pesquisadores das expedições nas
atividades desenvolvidas durante as visitas ao barco permitiu uma maior atenção e aumentar
o leque de ações e informações de educação ambiental ofertada aos estudantes e demais
ribeirinhos.
Outro tema abordado nas palestras das escolas diz respeito às espécies de peixes
da região conhecidas pelos alunos. Infelizmente, de um universo de cerca de 240 espécies
registradas no São Francisco, não foram citadas mais do que oito, sendo as mais conhecidas:
traíra, cascudo, piau, carapeba, pirambeba, pescada, tucunaré e piranha (Figura 144). Há
registros de atividades oficiais esporádicas de peixamento no rio realizadas pela CODEVASF,
porém elas não envolvem diretamente as escolas, como atividades de educação ambiental.
Estas ações estão muito aquém do mínimo necessário para que se permita recompor a fauna
piscosa do rio, bem como seu equilíbrio ambiental.
Com o agravamento do assoreamento e a redução da vazão do rio no período de
2013 a 2019, aumentaram os problemas ambientais e, consequentemente, reduziu-se a
disponibilidade de peixes, tanto em número quanto em relação à quantidade de espécies
existentes. Há espécies consideradas extintas, como no caso do pirá, que é símbolo do rio, e
que depois de cinco décadas, em maio de 2020, um exemplar reapareceu em Pão de Açúcar
(COMITÊ DA BACIA HIDROGRÁFICA DO SÃO FRANCISCO, 2020).

374

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 143 - Alguns dos equipamentos científicos que foram usados nas ações de educação
ambiental nas expedições. A – rover; B – microscópio óptico; C e D – barco
robótico Iracema; E – explicação sobre genética de peixes; F – explicação sobre
captação de energia solar.

A

B

C

D

E

F

Fonte: José Vieira Silva (2018 e 2019).

Este problema de redução das espécies de peixes também tem sido agravado pela
falta de trabalho de educação ambiental e conscientização junto às colônias de pescadores,
principalmente, no que diz respeito ao controle sobre a atividade e a intensidade de pesca.
Desta forma, é altamente recomendado às autoridades públicas constituídas e aos gestores
ambientais das esferas públicas e privadas que atuam no BSF que procurem desenvolver ações
efetivas de educação ambiental, voltadas para a recomposição e a manutenção das diferentes
espécies de peixes nativos do rio, para evitar sua extinção gradual.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

375

Figura 144 - Peixes do Baixo São Francisco. A – tabuleiro de secagem de peixes, em
Piaçabuçu; B – piranha; C – cascudo; D – piau em fase reprodutiva.

A

B

C

D

Fonte: José Vieira Silva (2019).

Na expedição de 2019, além de todo o contexto técnico-científico e instrumental,
também foi montada uma exposição fotográfica sobre os animais da fauna alagoana ameaçados
de extinção. A exposição, denominada “Olhares Ambientais: conhecer para preservar e
defender!”, foi uma ação de educação ambiental resultante da parceria entre o Crad/UFAL
e o Grupo Passarinheiro de Alagoas, com financiamento de empresas privadas.
Na ocasião, cada visitante assinou o livro de presença e recebeu um folder sobre a
exposição fotográfica, com cerca de 80 fotos de animais da fauna terrestre e aquática de
Alagoas que estão criticamente ameaçados de extinção (Figura 145). Além disso, foram
expostas algumas fotos da expedição de 2018. Todo o material produzido foi pensado como
forma de chamar a atenção para os problemas da fauna, onde a destruição dos habitats
naturais (terrestre e aquático) está ameaçando muitas espécies de animais da caatinga e de
outros biomas de extinção. Atualmente, na natureza, muito destes animais são encontrados
somente em poucas áreas de refúgios particulares ou reservas ambientais, onde há proteção
de áreas com vegetação nativa, nascentes e proteção ambiental permanente.

376

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 145 - Imagens das capas do folder sobre a Exposição fotográfica “Olhares
Ambientais”, que ocorreu durante a Expedição Científica de 2019, distribuído
com a população ribeirinha.

Fonte: José Vieira Silva (2019).

Durante todo o tempo em que o barco e a exposição fotográfica estiveram abertos à
visitação, os pesquisadores fizeram-se presentes para apresentar e explicar cada foto para os
visitantes (Figura 146). Todos os alunos das escolas que visitaram o barco, bem como as crianças
das comunidades ribeirinhas que se fizeram presentes à exposição, também receberam, além do
folder, lápis e bloquinho de anotações com o tema da exposição.
O objetivo maior da exposição foi levar ao público visitante um pouco de informações
sobre os animais da nossa fauna que estão correndo sérios riscos de desaparecer dos ambientes
naturais, sem que mesmo a sua existência seja conhecida pelas gerações mais novas. Despertar a
consciência ambiental e mostrar a importância de se manter os ambientes naturais preservados
e protegidos é um passo importante na formação humana e uma contribuição inestimável
para a construção de uma sociedade mais equilibrada, justa e ambientalmente responsável.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

377

Figura 146 - Visita de alunos e da população ribeirinha à exposição fotográfica “Olhares
Ambientais”, durante a 2ª Expedição Científica do BSF. A e B – alunos com
material distribuído; C e D – alunos conhecendo a exposição.

A

B

C

D

Fonte: José Vieira Silva (2019).

A exposição fotográfica foi a forma encontrada para despertar a participação e o
engajamento de mais pessoas na missão de conservação ambiental. Que cada um possa fazer
a sua parte, como defensor e amante da natureza, deixando despertar o espírito daqueles que
defendem e querem um mundo melhor.
De forma geral, as visitas às escolas das comunidades ribeirinhas permitiram uma
grande integração expedição-comunidades. Esta integração resultou em maior conhecimento
da realidade local, bem como em ver os níveis de abordagem sobre os problemas ambientais
enfrentados pelas comunidades em relação ao rio. Além disso, foi possível conhecer quais
recursos estão disponíveis e a forma como são utilizados para melhorar o nível de conscientização
dos ribeirinhos para superar os problemas de degradação do rio.
As expedições foram uma grande vitrine no contexto de divulgação e uma forma
eficiente de chamar a atenção para os problemas ambientais do Velho Chico. Além disso,
permitiram a execução de procedimentos científicos para levantamento das condições
hidroambientais do BSF, bem como ações ambientais foram desenvolvidas de maneira
transversal e inclusiva. Estas atividades visando à educação ambiental foram também realizadas
nas comunidades ribeirinhas e em colônias de pescadores, por pesquisadores, através de
entrevistas e abordagens sobre os problemas socioambientais existentes.
A partir deste primeiro e amplo contato científico, foi possível trabalhar, de maneira
direta e indireta, alguns conceitos e conteúdos da educação ambiental e relacioná-los aos
problemas ambientais do rio. Para muitos dos alunos, presenciar, ver, manipular e entender
como foram realizadas as determinações dos bioindicadores ambientais para monitoramento

378

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

do rio foi uma experiência ímpar, muito enriquecedora e marcante.
Desta forma, as ações de educação ambiental das expedições, em parceria com as
escolas das comunidades ribeirinhas, certamente foram uma boa estratégia para despertar e
alertar sobre os efeitos dos problemas ambientais do rio na vida dos ribeirinhos.

A educação e a superação dos problemas de degradação ambiental do BSF

A realidade das comunidades ribeirinhas do BSF requer uma atenção diferenciada
pelos órgãos governamentais. Mesmo dispondo do recurso básico mais importante, a água,
estas comunidades continuam a viver em um estado de pobreza preocupante e com sérios
problemas de degradação ambiental. Mas vale ressaltar que muitos destes problemas são
provocados por agentes de origem externa ou por fatores alheios aos domínios locais, como,
por exemplo, a questão da regularização de vazões para a produção de energia elétrica, operada
nacionalmente por agências e autarquias federais – ANA, ONS, CHESF e Aneel.
Outro ponto-chave e de grande limitação para a implantação de qualquer política
pública de curto prazo, e que se torna o principal gargalo identificado nas duas expedições
científicas (2018 e 2019), foi o baixo nível educacional da população em geral. Em grande
parte, isso tem sido causado por diversos fatores inerentes às peculiaridades do sistema
educacional brasileiro, em todo o território nacional (LUCCA; BRUM, 2013; JACOBI,
2013; MUCCI, 2014; NEEF, 2015; BERCHEZ et al., 2016; EMAS, 2020).
Dentre os pontos identificados como sérios limitantes do desenvolvimento sustentável
está a qualidade do ensino nas escolas ribeirinhas, principalmente nas séries iniciais do ensino
fundamental. Isto ocorre em função das profundas limitações de recursos financeiros locais
e das deficiências inerentes ao suporte educacional oficial para inclusão digital e tecnológica
disponibilizado para estas escolas ribeirinhas. É premente e urgente a necessidade da inserção
destas escolas no contexto de desenvolvimento tecnológico. Somente assim, será permitido
que as mesmas tenham acesso a informações, plataformas e ferramentas universais disponíveis
no mundo digital, bem como participar da difusão e do uso de tecnologias inovadoras de
ensino e aprendizagem e de desenvolvimento humano e social.
É possível também constatar que, em todas as escolas visitadas, há empenho e doação
de todos os professores, diretores e demais colaboradores das escolas em promover o melhor
ensino possível. Porém, no contexto da educação ambiental, faltam planejamentos, planos
pedagógicos inclusivos, treinamentos e qualificações específicas na área ambiental, bem como
incentivos dos órgãos gestores da educação, nos âmbitos municipal e estadual.
São comunidades carentes de informações e suporte educacional, mas que têm, em
todo o seu povo, o compromisso, o material humano e o desejo de aprender e vencer pelo
conhecimento. A melhoria do ensino destas escolas públicas e para a população em geral das
comunidades ribeirinhas pode ocorrer através do fomento público e da captação de recursos
financeiros privados que viabilizem a aquisição de recursos de informática e audiovisuais
para o acesso e a conectividade com o mundo digital.
A efetiva inserção e conectividade destas escolas com o mundo globalizado das
informações e suas técnicas e ferramentas educacionais necessitará também do suporte de
materiais didáticos, brinquedos pedagógicos e literatura educacional atualizada e que leve em
consideração o contexto local. Este poderá ser somente um ponto de partida, dentre tantos
levantados, para melhorar a qualidade do ensino e a educação ambiental das escolas ribeirinhas.
Assim, tais recursos didáticos poderiam ser as ferramentas necessárias às escolas
ribeirinhas do BSF para atenderem às demandas de um público estudantil infantojuvenil. São
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

379

gerações e talentos natos que estão sendo perdidos prematuramente e logo nas séries iniciais
e do ensino primário. Aos gestores públicos, por que não pensar em efetivamente melhorar
o planejamento e a qualidade do ensino e, consequentemente, da educação ambiental?
Neste aspecto educacional, o cenário do BSF é semelhante aos encontrados nas
demais regiões do Brasil e em algumas partes do mundo, como na África, Ásia e parte da
Oceania, assim como também são as mesmas recomendações feitas para superar os problemas
ambientais (SORRENTINO et al., 2005; LIMA; ANDRADE, 2010; MEDEIROS et al.,
2011; CUTTER-MACKENZIE, 2011; JACOBI, 2013; NWACHUKWU, 2014; NEEF,
2015; OLIVEIRA, 2015; ROSA et al., 2015; BERCHEZ et al., 2016; NOGUEIRA;
SOUZA, 2019; EMAS, 2020).

Educação ambiental e a responsabilidade dos poderes públicos constituídos
Nas conversas com os professores e diretores das escolas, foi possível identificar
que existe uma lacuna enorme ou mesmo a falta absoluta de planejamento e de programas
públicos de educação ambiental no âmbito das comunidades ribeirinhas. Estas ações precisam
fazer parte da matriz educacional, de caráter permanente e contínuo e que trate das questões
que atingem e provocam os problemas de degradação ambiental do rio. Sem esta iniciativa
dos poderes constituídos, através de planejamento e projetos pedagógicos consistentes que
levem em consideração as realidades locais, torna-se difícil a conscientização da população
e das comunidades ribeirinhas, que são usuárias diretas das águas e dos serviços ambientais
oferecidos pelo Velho Chico.
Reforçamos que é preciso mais do que simplesmente fazer a identificação dos
problemas, mas sim trabalhar de maneira propositiva e contribuir para a adoção de soluções
e ações mitigadoras de preservação e recuperação do rio. De forma objetiva, para que as ações
e iniciativas não sejam inócuas, além de crianças e adolescentes, é fortemente recomendo,
também, envolver a população adulta.
Outro ponto ou questão que pesa e muito para a ineficiência ou menor alcance
das poucas iniciativas e ações de educação ambiental é a falta ou ausência quase total de
saneamento básico nos municípios da bacia do Velho Chico. Nas escolas, os alunos até sabem
da importância do tratamento dos esgotos e da coleta de lixo, porém não conseguem associar
ou visualizar como a sua produção de lixo e esgoto provoca os problemas de poluição no
rio. Há necessidade urgente de planejamento e elaboração de planos públicos de manejos
ambientais sustentáveis e integrados com as realidades locais, no que diz respeito ao tratamento
de esgotos, água potável e resíduos sólidos. É preciso envolver a população na sua execução e
mostrar sua importância como parte do problema e, mais ainda, como fonte de solução para
a resolução e mitigação dos problemas no BSF.
Os esgotos são lançados diretamente no rio, sem nenhum tratamento ou anteparo
para a redução da carga de poluentes de origem antrópica ou orgânica (Figura 147). E esta
realidade não é diferente da dos demais municípios ribeirinhos do BSF e de toda a bacia do
rio, que apresentam enormes dificuldades financeiras para estabelecer uma política local de
tratamento de resíduos sólidos.

380

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Figura 147 - Lançamentos diretos de esgotos sem tratamento no rio no BSF. A – fábrica
de gelo; B – peixaria.

A

B

Fonte: José Vieira Silva (2019).

Neste contexto, as prefeituras limitam-se a fazer a coleta e o transporte dos resíduos
sólidos para aterros sanitários terceirizados. E inexiste ou não foi relatada qualquer iniciativa
conhecida dos ribeirinhos que trate ou esteja relacionada à coleta seletiva ou à existência de
cadeia logística reversa para coleta de embalagens e produtos usados.
Na abordagem dos temas nas escolas, foi perguntado sobre a realização de eventos
promovidos por órgãos públicos com alguma temática ambiental, mas nenhum foi lembrado,
nem com raríssimas exceções. Como estratégia de política pública, é perceptível a necessidade
urgente do desenvolvimento educacional voltado para a realidade local com ampla matriz
ambiental, tanto sustentável quanto responsável. É preciso focar no envolvimento das escolas
das comunidades e cidades ribeirinhas, principalmente no ensino fundamental, dados seus
índices de Ideb e IDH, ressaltando-se, assim, de maneira incisiva, que a efetividade destes
programas de educação ambiental depende da constância de execução e que sejam encarados
como estratégias para a formação básica da população, com participação e envolvimento
efetivo também das famílias ribeirinhas (Figura 148).
Figura 148 - Visita de alunos, pais de alunos, professores e funcionários da Escola Municipal
do povoado Chinaré, em Igreja Nova, ao barco da 2ª Expedição Científica, no
ano de 2019.

Fonte: José Vieira Silva (2019).

No contexto todo de integração expedição-escolas, foi possível verificar que há
uma dissociação de responsabilidades sobre os problemas ambientais do rio e seus agentes

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

381

causadores. Este é um ponto que poderá ser trabalhado futuramente, para melhorar o nível
de conscientização dos alunos e da população ribeirinha em geral, para que eles se sintam
parte tanto das causas como das soluções, também. É preciso superar esta falta coletiva de
compromisso de cada indivíduo, que acaba por fortalecer e agravar ainda mais o processo de
degradação das áreas ribeirinhas e do próprio rio.
Há um forte traço cultural presente nestas populações, no que diz respeito a esperar
que o poder público constituído resolva todos os seus problemas, inclusive aqueles de cunho
pessoal. A percepção é de que o comportamento cultural tem mascarado e desvirtuado
completamente o papel que cada indivíduo precisa assumir para a resolução da questão
ambiental do rio. E esta mudança está a cargo da educação ambiental, em todas as escalas e
esferas da população ribeirinha.
No que tange ao levantamento e à identificação dos problemas de degradação
ambiental no Baixo São Francisco, um fato preocupante e que precisa mudar é que os
crimes ambientais ou mesmo as atividades que levam à degradação ambiental são encarados
como atividades normais e legais e são passíveis de ser repetidas futuramente pelas crianças
(Figura 149). De alguma forma, há uma percepção forte da ausência da atuação dos órgãos
de fiscalização ambiental, nas esferas municipal, estadual e federal.
Figura 149 - Atividades e ocorrências frequentes às margens do rio, no BSF, que são
classificadas como irregulares, conforme as leis ambientais. A – extração de
areia; B – captação de água sem outorga; C – desmatamento em APP; D –
ocupação irregular das margens do rio.

A

B

C

D

Fonte: José Vieira Silva (2019).

Dentre os alunos, somente alguns do ensino médio já ouviram falar da ocorrência de
fiscalizações preventivas, mesmo que em determinados períodos esporádicos do ano. A própria
população ribeirinha aponta para a necessidade de reforçar ou fortalecer as Fiscalizações

382

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Preventivas Integradas (FPI) e que, se as mesmas tivessem um caráter permanente, ajudariam
a reduzir os problemas ambientais identificados no BSF.
As políticas sociais e ambientais, no âmbito das esferas federal, estadual e municipal,
assim como das ações de agências públicas e privadas, não apresentam capilaridade ou acolhida
no âmbito das comunidades ribeirinhas, que estão alheias aos problemas ambientais atuais
e aos fatos causadores dos mesmos. É perceptível que há esforços de uns poucos ativistas e
defensores do Velho Chico, porém a extensão dos problemas ambientais e sociais, em muito,
suplanta as ações desenvolvidas.
Como exemplo de uma ação concreta de ativistas e defensores do Velho Chico,
podemos citar a criação e manutenção de um museu ambiental. É de grande importância para
o contexto da educação ambiental no BSF e dá uma contribuição inestimável para contar
a história do Velho Chico e suas agruras ao longo dos tempos mais recentes. Trata-se da
iniciativa de um ambientalista e profundo conhecedor do rio, o Mestre e Comendador das
Águas Antônio Jackson Borges Lima.
O Museu Ambiental Casa do “Velho Chico” está situado na cidade de Traipu-AL e
nasceu em 04 de outubro de 2001, por ocasião das comemorações dos 500 anos da descoberta
do rio São Francisco. A princípio, o museu tem uma base física em Traipu; tem um papel
itinerante e pode ser deslocado por toda a bacia do São Francisco. Já foi visitado por mais
de 150 mil pessoas, nos Estados de Alagoas, Pernambuco, Sergipe e Bahia. E, para cumprir
a sua missão de conscientização e educação ambiental, seu público-alvo tem sido as crianças
de escolas públicas e particulares.
Junto com o museu ambiental, vem a história viva do seu criador e lenda do rio, que
se traduz fielmente em uma lição de educação ambiental para quem deseja conhecer um
pouco mais da história do Velho Chico. A origem do museu teve início nos seus sonhos de
criança e no amor pelo Velho Chico, que se manifestou ainda em Igreja Nova, sua terra natal.
Aqui vem o relato que retrata o nível de degradação que sofreu o Velho Chico nos
últimos 70 anos, principalmente no BSF.
No mês de novembro, quando o rio começava a encher, suas águas se
deslocavam em torno de 40 quilômetros, do seu leito normal, até a
cidade de Igreja Nova, e invadiam o quintal da casa onde morava. Ali, o
Velho Chico se transformava no meu parque aquático particular, onde
aprendi a pescar e a tomar banho de rio.

Os tempos se passaram e os laços de relação de amor com o rio fortaleceram-se, a
ponto de transformá-lo em referência e um dos maiores defensores sem trégua das águas do
Velho Chico até os dias de hoje.
A materialização do sonho do museu começou por ocasião das comemorações dos
cinco séculos da descoberta do Velho Chico. O trabalho para montar a exposição foi árduo,
mas juntou inúmeras peças relacionadas ao rio e ao seu povo. A exposição foi montada em
Traipu-AL e, durante uma semana, contou com a visitação de seis mil pessoas. Estava dada
a largada para a abertura do museu, com um viés totalmente voltado para a história do rio
São Francisco, focando todos os seus problemas ambientais, a sua cultura e as suas lendas.
A constatação mais fiel de uma visita ao Museu Ambiental Casa do Velho Chico
é que é uma verdadeira aula sobre educação ambiental. São vários painéis mostrando todo
o processo de degradação do rio, como desmatamento, queimadas, assoreamento, resíduos
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

383

sólidos, pesca predatória, esgotos, agrotóxicos, monocultura, explotação de seus aquíferos e
muitos outros assuntos, além de um rico acervo histórico sobre o Velho Chico (Figura 150).
Figura 150 - Museu Ambiental Casa do Velho Chico (A); réplica do vapor Comendador
Peixoto (B); representação do lixo lançado no rio (C); as lendas da bacia do
São Francisco – Nego d’Água, Fogo Corredor, Lobisomem e Caipora (D);
lançamento de esgotos (E); animais em extinção (F).

A

B

C

D

E

F

Fonte: Jackson Borges (2020).

Os problemas ambientais e os jovens ribeirinhos
Visando a uma maior efetividade das ações de educação ambiental e com base nas
observações da I expedição, no ano de 2018, as visitas no ano de 2019 foram priorizadas para
que fossem realizadas em escolas de ensino infantil e das séries iniciais. Assim, foram visitadas
escolas com turmas do ensino infantil até o 9º ano do ensino fundamental. Os alunos das
escolas do ensino médio foram recebidos somente na visita ao barco.
Para tornar a participação mais coletiva, as visitas foram realizadas em ambientes
comunitários das escolas, com a reunião de várias turmas para debater sobre as temáticas
ambientais, explicitando as consequências dos problemas decorrentes da degradação do rio

384

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

e os impactos na vida dos ribeirinhos. Desta forma, foi possível conhecer a realidade local
em termos de ensino, o grau de conhecimento e o envolvimento de crianças e jovens com os
problemas ambientais do rio.
Nos questionamentos feitos a alunos e professores das escolas durante as palestras
sobre a situação de degradação atual do rio São Francisco, foi possível verificar que conhecem
de forma isolada ou superficial os principais problemas expostos de degradação do rio. Em
sua maioria, os alunos não souberam ou não quiseram responder a respeito das dificuldades
enfrentadas atualmente no BSF. Muitos demonstraram não ter conhecimento dos impactos
causados pelo assoreamento, desmatamento, poluição ambiental (antrópica), metais pesados,
resíduos de defensivos agrícolas e outros.
Ao solicitar que analisassem os problemas de assoreamento, desmatamento das matas
ciliares e a poluição de maneira interligada, houve certa dificuldade em fazer a conexão
lógica entre os agentes causadores e suas consequências. Os professores afirmaram que o
planejamento e o desenvolvimento de atividades educacionais de contexto ambientais voltadas
para o conhecimento e a solução de tais problemas são poucos ou muito raros, tanto no nível
das escolas como no contexto comunitário.
Com isso, percebe-se que é urgente pensar em formas oficiais e alternativas para
fomentar a educação ambiental e que possam instruí-los acerca das possíveis soluções e
engajamento de todos para suplantar os problemas. E pensar em atividades de curto, médio
e de longo prazo que possam ser realizadas tanto de forma individual como coletivamente.
Como não existem exemplos, ações em andamento ou modelos implantados, fica
difícil estimular ações efetivas de educação ambiental, com base no exemplo físico local. É
preciso, primeiro, uma ação urgente dos agentes públicos para que as possíveis soluções de
recuperação ou atenuação da degradação ambiental no BSF tenham chances de sucesso.
Durante as apresentações e nas discussões em cada uma das escolas, foram sugeridas
soluções e lançadas como desafios para serem desenvolvidos ao longo do ano, junto às
comunidades como um todo. Como incentivo da expedição, foram realizados plantios
simbólicos de mudas de espécies nativas (arbóreas) e doação de mudas para plantio em outros
locais. O intuito é que alunos e professores abracem a causa e possam transmitir esta ação
inicial aos demais membros das comunidades.
Outro ponto discutido e solicitado foi para que deem atenção quanto aos cuidados
com a produção e o tratamento do lixo doméstico gerado em casa e nas escolas, a fim de que
incentivem o descarte correto do mesmo. Como sugestão, foi levantada a possibilidade de
incentivo destas ações de conscientização nas próprias escolas, através do desenvolvimento
de atividades recreativas e da realização de gincanas ambientais com a participação de pais
e alunos.
A percepção geral é de que tanto os professores e diretores quanto alunos e as
comunidades estão ávidos por conhecimentos e suporte técnico e financeiro para melhorar
o contexto de ensino da educação ambiental. Todos estão abertos e propensos a contribuir
no planejamento e no desenvolvimento das ações de educação ambiental em seus respectivos
locais, assim como também repassar os conhecimentos sobre as ações desenvolvidas.

Constatações sobre a educação ambiental nas comunidades ribeirinhas
Há uma lacuna grande entre os problemas ambientais atuais enfrentados no BSF e o
envolvimento das comunidades ribeirinhas na busca de soluções locais. Nas escolas visitadas, a
O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

385

temática ambiental é tratada de forma superficial nos projetos pedagógicos e não há estímulos e
recursos oficiais (federal, estadual e municipal) para desenvolvê-la de maneira efetiva. As poucas
ações isoladas não apresentam conexão clara com os problemas enfrentados pelas comunidades
ribeirinhas.
Os gestores públicos das áreas ambiental e afins, bem como os promotores de
desenvolvimento regional, tratam os atuais problemas ambientais do rio de forma isolada e
superficial. Além disso, não foi constatada integração entre as poucas ações de proteção ambiental
desenvolvidas na região do BSF.
Para fins de planejamento futuro dos agentes públicos que atuam na bacia do BSF, é
fortemente recomendado que incluam, dentre os temas, as políticas de educação ambiental, focadas
nas questões dos problemas atuais de degradação ambiental do rio, incluindo, obrigatoriamente, a
participação das escolas dos municípios, principalmente aquelas das séries iniciais e com crianças
de até 10 anos. Este tem sido o modelo e a estratégia usados em outras partes do mundo e que
funcionaram com excelentes resultados (BARBIERI; SILVA, 2011; CUTTER-MACKENZIE,
2011; JACOBI, 2013; LUCAS; BRUM, 2013; NEEF - National Environmental Education
Foundation. 2015).
As áreas ribeirinhas estão cercadas dos mais diversos exemplos e aspectos biológicos,
sociais, históricos, políticos e culturais que podem ser trabalhados sistemicamente pela
educação ambiental. Para que as escolas sejam, de fato, ambientes de transformação, é preciso
que o ambiente ribeirinho seja visualizado como um todo, na sua complexidade, e constituído
de partes que interagem sistematicamente. A educação ambiental pode ajudar na discussão
crítica e na análise da raiz dos problemas, como também a enfrentá-los de modo coletivo
(SNCMA, 2017).
No que diz respeito à melhoria da realidade das escolas ribeirinhas, proporcionar
cursos de formação continuada na área ambiental para professores, educadores e gestores
pode melhorar a qualidade do planejamento pedagógico e das ações de ensino na área.
Desta forma, espera-se que haja motivação e valorização da educação ambiental para as
comunidades locais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Assim como verificado na I Expedição Científica do Baixo São Francisco, em 2018,
é possível afirmar, de maneira categórica e de forma cristalina, que há uma enorme lacuna
ou distância de abordagem entre os problemas ambientais atuais encontrados na região do
rio São Francisco e o envolvimento das comunidades ribeirinhas na busca de soluções locais.
Também é possível constatar que a educação ambiental, nas comunidades ribeirinhas e escolas
visitadas, ainda é tratada superficialmente, seja no dimensionamento de projetos pedagógicos
ou na falta de políticas públicas com estímulos e recursos oficiais (federal, estadual e municipal)
para desenvolvê-las de maneira efetiva. As poucas ações isoladas realizadas não apresentam
conexão clara e efetiva com os problemas enfrentados pelas comunidades ribeirinhas.
Percebe-se, ainda, que existe uma grande dissociação por parte dos gestores públicos
com relação aos problemas das áreas ambientais e afins e o desenvolvimento regional como
um todo. Fica a recomendação para que os promotores de desenvolvimento regional possam
tratar os atuais problemas ambientais do rio de forma conjunta ou integrada com a educação
ambiental. Que possam fomentar fortemente a adoção de ações de proteção ambiental visando
ao desenvolvimento da região do Baixo São Francisco.

386

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

E, para fins de planejamento futuro, por parte dos agentes públicos do Baixo São
Francisco, é fortemente recomendado que desenvolvam uma política de educação ambiental
séria e focada nos problemas e nas questões diretas do dia a dia da degradação ambiental
do rio e como superá-las. E, para ser ainda mais efetivo, que este planejamento inclua,
obrigatoriamente, a participação das escolas ribeirinhas, com foco principal naquelas das séries
iniciais e com crianças de até 10 anos, pois é a geração com maior potencial para absorver,
desenvolver e definir o futuro da educação ambiental na região como ferramenta efetiva de
superação ou mitigação dos problemas.
E, por fim, que o público mobilizado nas expedições científicas de 2018 e 2019 foi
formado essencialmente por crianças que buscavam conhecer e explorar o mundo científico
e suas ferramentas. Por todos os momentos de interação com as comunidades ribeirinhas,
é perceptível sua preocupação com os problemas de degradação ambiental do rio e que
depositam na educação ambiental suas esperanças para superar tais problemas.

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de Ciências da Educação, São Paulo, v. 1, n. 32, p. 73-95, 2015.

388

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

PHILIPPI JR, A.; PELICIONI, M. Bases políticas, conceituais, filosóficas e ideológicas da
educação ambiental. In: PHILIPPI JR, A.; PELICIONI, M.C.F. (Org.). Educação ambiental
e sustentabilidade. Tamboré: Manole Ltda., 2014.
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n. 2, p. 285-299, maio/ago. 2005.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

389

SOBRE OS AUTORES
Alice Correia Barros
Enfermeira graduada em 2014 pela Universidade Estadual de Ciências da Saúde de
Alagoas (Uncisal). Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal de Alagoas
(UFAL) (2020). Trabalhou como docente do curso de Enfermagem da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL/Campus Arapiraca). Possui residência de Enfermagem em
Psiquiatria e Saúde Mental pela Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas
(Uncisal) (2015/2017) e em Saúde da Família pela Faculdade Integrada de Patos (FIP)
(2015/2017). Título de Enfermeira Terapeuta (Cofen) (2020). Atualmente, é enfermeira
do Departamento de Qualidade de Vida da Universidade Federal Rural de Pernambuco
(UFRPE). Tem experiência na área de Enfermagem com ênfase em Saúde Mental.

Alfredo Borie Mojica
Biólogo Marinho (Unab, Chile) e Engenheiro de Pesca (UFRPE). Mestre em Ciências
Pesqueiras nos Trópicos (Ufam) e Doutor em Recursos Pesqueiros e Aquicultura (UFRPE).
Tem experiência na conservação de tartarugas marinhas e genética de populações e nas
áreas de Aquicultura e Recursos Pesqueiros (peixes ornamentais, biologia reprodutiva e
cultivo de peixes amazônicos). Trabalhou com monitoramento da atividade pesqueira
artesanal e com o impacto das hidroelétricas no rio Madeira. Atualmente, trabalha com
Ecologia Acústica Aquática, Paisagem Sonora e Bioacústica de peixes marinhos e de
água doce, utilizando o Método Acústico Passivo como sistema de monitoramento.

Allwert Henrique Leão Argôlo Militão
Graduando de Engenharia de Energia. Pesquisador do Laboratório de Sistemas
Fotovoltaicos da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), sob orientação do Professor
Igor Cavalcante Torres. Bolsista do Projeto Prioritário de Eficiência Energética e
Estratégico de Pesquisa e Desenvolvimento da Aneel (2016).

Ana Karolina Lopes da Silva
Graduanda em Ciências Biológicas, modalidade licenciatura. Atualmente, é estagiária do
Laboratório de Ficologia do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade
Federal de Alagoas. Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em Taxonomia de
Criptógamos, atuando, principalmente, nos seguintes temas: fitoplâncton e taxonomia de
microalgas.

Ana Lúcia Eufrázio Romão
Química pela Universidade Estadual do Ceará, especialista em Engenharia de Petróleo e
Gás. Mestre em Ciências Naturais. Doutoranda em Ciências Naturais. Possui trabalhos
realizados com produtos naturais na adsorção de metais pesados e avaliação de qualidade
da água.

Anderson dos Santos
Engenheiro Agrônomo e Mestre em Agricultura e Ambiente pela Universidade Federal
de Alagoas. Doutorando da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Foi
bolsista de Iniciação Científica (IC) e tem experiência nas áreas de Agrometeorologia,
com ênfase em Radiação Solar e Controle de ambientes, Sementes e Ecofisiologia de
plantas nativas submetidas a ambientes sob condições adversas.

Andréa Carla Guimarães Paiva
Possui Mestrado e Doutorado em Oceanografia Biológica, ambos realizados na
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é Professora Adjunta
na unidade de ensino da UFAL em Penedo, realizando pesquisas sobre Ecologia,
Alimentação e Reprodução de peixes associados a estuários.

Anita Neves Santisteban
Aluna de graduação em Zootecnia, Bolsista Pibic-UFAL do Laboratório de Aquicultura
e Análise de Águas (Laqua-CECA-UFAL).

Anna Érica Ferreira Lima
Doutora em Geografia, atualmente é Professora no Departamento de Hospitalidade,
Turismo e Lazer do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFCE). Atua
nas áreas de Geografia Humana, com ênfase em Geografia Agrária, Ensino e Geografia
do Turismo; Cultura Alimentar, Segurança Alimentar e Nutricional, Soberania Alimentar
e Relações Étnico-Raciais.

Antônio Jackson Borges Lima
Ambientalista. Bancário aposentado do BNB. Palestrante e autor de vários artigos sobre
meio ambiente. Foi secretário de Meio Ambiente de Traipu e diretor do Sindicato dos
Bancários de Alagoas. É fundador e diretor do Museu Ambiental Casa do Velho Chico,
em Traipu. Honrarias: Comendador das Águas – Governo de Alagoas; Título de Velho
do Rio/AFBNB; Destaque Ambiental/IMA; Título de Cidadão dos Municípios de
Traipu/AL, Gararu/SE, Pão de Açúcar/AL e Cidadão Sergipano. Membro do CBHSF
por três mandatos seguidos.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

391

Aristides Pavani Filho
Graduado (1982) e Mestre (1990) em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual
de Campinas. Ingressou no Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer,
em 1986. Participou do Projeto Fábrica de Máscaras Litográficas. Chefiou a Divisão de
Micro Sistemas, Coordenou o CSS, CTI-NE, Coare e o Projeto Cognitus-Petrobras
para o desenvolvimento de Robótica Ambiental, sensores e análise de dados para a
Amazônia. Coordenou os Projetos Dragão do Mar e Iracema – Barco Autônomo para
Monitoramento Ambiental, entre outros. Atualmente, é assessor do ministro da Ciência,
Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e diretor do Departamento de
Tecnologias Estratégicas e de Produção (Detep), da Secretaria de Tecnologias Aplicadas
(Setap) – MCTIC.

Carlos Alberto da Silva
Oceanógrafo, Mestre em Aquicultura, Doutor em Geoquímica Ambiental e pósdoutorados em Gestão/Impacto Ambiental e Piscicultura Marinha. Pesquisador nas áreas
de Sistemas de Produção e Boas Práticas de Manejo em Aquicultura, Contaminação
Ambiental e Piscicultura Marinha. Tem experiência na Piscicultura e Carcinicultura
em sistemas de viveiros e tanques-rede. Atua na Geoquímica com contaminação e
Biomagnificação de metais pesados na cadeia trófica.

Carlos Alexandre B. Garcia
Químico Industrial pela Universidade Federal de Sergipe e Doutor em Química
pela Universidade Estadual de Campinas. Professor Titular e Coordenador Adjunto
do Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos da Universidade Federal de
Sergipe. Atua na área de Química, com ênfase em Desenvolvimento de Métodos e
Técnicas Espectroanalíticas para determinação de constituintes inorgânicos em matrizes
ambientais.

Carlucio Roberto Alves
Graduado em Química (bacharel) pelo Instituto de Química de São Carlos da
Universidade de São Paulo (IQSC/USP), Mestre em Química pelo IQSC/USP, Doutor
em Química pelo IQSC/USP e Universidad Autónoma de Madrid, com estágios de
Pós-Doutorado pela Embrapa Instrumentação e pelo Instituto Superior de Engenharia
do Porto (Portugal). Atualmente, é Professor Associado do Departamento de Química
da Universidade Estadual do Ceará. É coordenador do Programa de Pós-Graduação em
Ciências Naturais, atua como Professor Permanente no Programa de Pós-Graduações da
Rede Nordeste de Biotecnologia. Líder do Grupo de Biotecnologia Ambiental – Sistema
de Laboratórios em Nanotecnologia e Biomateriais (SisNaBio).

392

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Daniel Luas Henrique de Macedo
Graduando do curso de Engenharia de Energia na Universidade Federal de Alagoas.
Pesquisador no Laboratório de Sistemas Fotovoltaicos, CECA-UFAL e atual diretorpresidente da Renotec Jr.

Elica Amara Cecilia Guedes
Doutora em Biotecnologia (Renorbio), pela Universidade Estadual do Ceará, com área
de concentração em Biotecnologia de Recursos Naturais. É professora Associada IV da
UFAL. Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em Taxonomia de Criptógamos,
atuando, principalmente, nos seguintes temas: Fitoplâncton, Algas Marinhas Bentônicas
e Bioprospecção de Extratos de Algas.

Elton Lima Santos
Zootecnista pela Universidade Federal de Alagoas (2005), Mestre (2007) e Doutor (2010)
em Zootecnia (Nutrição Animal) pela Universidade Federal Rural de Pernambuco.
Atualmente, é professor dos cursos de graduação em Zootecnia e Agroecologia e nos
cursos de Mestrado Profissional em Energia da Biomassa e Zootecnia do Centro de
Ciências Agrárias da Universidade Federal de Alagoas. Tem experiência na área de
Zootecnia, produção e nutrição de animais não-ruminantes e Piscicultura, atuando nos
seguintes temas: Ingredientes Alternativos, Aditivos, Digestibilidade, Manejo Alimentar,
Piscicultura, Desenvolvimento Sustentável de Assentamentos Rurais e Biodigestores
Rurais.

Emerson Carlos Soares
Engenheiro de Pesca, graduando em Biomedicina, com Especialização em Gestão de
Recursos Pesqueiros, Mestre em Biologia de Água Doce, Doutor em Biotecnologia com
ênfase em Aquicultura, Pós-Doutorado em Ciências Aquáticas com ênfase em Reprodução
de Peixes. Finalista do Prêmio Espírito Público, na área de Meio Ambiente, foi vicecoordenador do Comitê Científico de Bacias Hidrográficas do Nordeste, coordenador
da Força-tarefa de Pesquisas do Óleo em Alagoas e coordenador da Expedição do São
Francisco. Professor Associado da Universidade Federal de Alagoas.

Emerson Fonseca Oliveira Filho
Graduando em Agroecologia (bacharelado, UFAL). Produtor audiovisual de
documentários. Atualmente, está produzindo um documentário sobre a história da
Agroecologia no Estado de Alagoas, envolvendo Universidade Federal de Alagoas, Ifal
Maragogi, EMATER, Seagri, CPT, MST, Instituto Terra Viva, Pronera, Coopabacs,
Aagra, Associação Aroeira, Rede Mutum de Agroecologia e agricultores oriundos
da agricultura familiar. Sob orientação do Professor Rafael Navas, trabalha com
levantamentos de campo, sobre Socioeconomia de Comunidades e Agricultura Familiar.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

393

Emilly Valentim de Souza
Graduanda em Zootecnia. Bolsista do programa pró-graduando da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL). Colaboradora Pibic no Laboratório de Aquicultura e
Análise de Água (Laqua), sob orientação da Profa. Dra. Themis de Jesus da Silva. Tem
experiência em Microparasitologia da Fauna Aquática do Brasil e Ecotoxicologia, com
ênfase nas enzimas antioxidantes Catalase e Superóxido Dismutase, peroxidação lipídica
(Malondialdeído) e teste de micronúcleo.

Evaristo Perez Rial
Doctorando en Acuicultura Marina en el Instituto Español de Oceanografía; Licenciado
en Ciencias Del Mar por La Universidad de Vigo, Máster en Estadística Aplicada
por la Universidad de Granada y Técnico Superior en Producción Acuícola. Más de
12 años de experiência en Acuicultura tanto en empresas privadas como en centros
de investigación. Actualmente formo parte del equipo de investigadores del Instituto
Español de Oceanografía en Vigo donde participo em proyectos multidisciplinares sobre
reproducción, cultivo y efectos ambientales sobre la biologia de peces marinos.

Guilherme Henrique Netter
Graduando em Engenharia Florestal pela Universidade Federal de Alagoas, é atualmente
bolsista Pibic dos projetos A Certificação Orgânica por Controle Social na Venda Direta:
Impactos na Agricultura Familiar de Alagoas e Segurança Alimentar e Nutricional
em Famílias de Assentamentos Rurais do Estado de Alagoas. Possui experiência em
Agricultura Camponesa Agroecológica e Agricultura Orgânica.

Hortência E. P. de Santana
Graduanda em Química Industrial pela Universidade Federal de Sergipe e atualmente
bolsista do projeto de Ações Estruturantes e Inovação para o Fortalecimento das Cadeias
Produtivas da Aquicultura no Brasil pela Embrapa Tabuleiros Costeiros (SE).

Igor Cavalcante Torres
Engenheiro Elétrico (2012), Mestre em Energias na área de Conversão Fotovoltaica
(2016) e Doutor em Energias pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atuou
profissionalmente na concessionária de energia elétrica Eletrobrás Distribuição Alagoas
(ED-AL) e na Companhia de Saneamento do Estado de Alagoas (Casal). Atualmente,
é Professor Assistente na Universidade Federal de Alagoas, ministrando disciplinas
para o curso de Engenharia de Energias Renováveis, desenvolve pesquisas tanto na área
de Simulação de Sistemas Elétricos de Potência, como em Modelagem e Medição do
Recurso Solar.

Igor da Mata Oliveira

Possui graduação em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal Rural de Pernambuco
(2004), Mestrado em Recursos Pesqueiros e Aquicultura pela Universidade Federal Rural
de Pernambuco (2006) e Doutorado em Oceanografia pela Universidade Federal de
Pernambuco (2012). Foi presidente da Associação Brasileira de Engenharia de Pesca
(2013-2017). É Professor Adjunto da Universidade Federal de Alagoas. Tem experiência
nas áreas de Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca (Estatística, Investigação,
Tecnologia, Avaliação, Extensão e Administração Pesqueira) e Oceanografia.

394

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Jerônimo Vieira Dantas Filho
Graduado em Engenharia de Pesca e Mestre em Ciências Ambientais pela Universidade
Federal de Rondônia (Unir). Doutorando em Ciência Animal pelo Programa de PósGraduação em Sanidade e Produção Animal Sustentável na Amazônia Ocidental,
Universidade Federal do Acre (Ufac). Especializando em Biotecnologia Aplicada à
Agroindústria pelo Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia, Universidade
Católica Dom Bosco (UCDB). Desenvolve pesquisas sobre a qualidade nutricional dos
cortes comerciais de tambaqui e pirarucu. Atuou como membro dos grupos de pesquisa
da Unir, em Tecnologias Agroambientais e em Produção Animal e Aproveitamento de
Resíduos.

Jhennipher da Silva Pereira
Possui graduação em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal de Alagoas (2020),
é estudante de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Recursos Pesqueiros e
Aquicultura (PPG/RPAq) da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
Participa do Laboratório de Enzimologia (Labenz) da Universidade Federal de
Pernambuco, desenvolvendo pesquisas nas áreas de Tecnologia do Pescado e Enzimologia,
e do Laboratório de Investigação e Manejo da Pesca (Imap), da Universidade Federal
de Alagoas, desenvolvendo pesquisas nas áreas de Oceanografia Biológica e Estatística
Pesqueira. Possui experiência em Análise de Dados Hidrológicos, Estatística Pesqueira,
Geoprocessamento e Aproveitamento Integral do Pescado.

José Leonaldo de Souza
Doutor em Agronomia (Energia na Agricultura) pela Universidade Estadual Paulista
Júlio de Mesquita Filho (1996), Mestre em Agronomia (Meteorologia Agrícola) pela
Universidade Federal de Viçosa (1988) e Graduado em Meteorologia pela Universidade
Federal da Paraíba (1980). Professor Aposentado da Universidade Federal de Alagoas.
Tem experiência na área de Agronomia e Meteorologia. Especialista em Radiação Solar
(Radiometria ou Solarimetria), atuando com ênfase em Instrumentação Solar, Medidas
Solarimétricas, Tratamento e Banco de Dados Solarimétricos para Aplicação em Energia
Solar.

José Milton Barbosa
Possui Graduação em Engenharia Militar pelo Centro de Preparação de Oficiais da
Reserva (1971), Graduação em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal Rural de
Pernambuco (1980) e Doutorado em Ciências Biológicas (Zoologia) pela Universidade
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1997). Pesquisador do Instituto de Pesca de
São Paulo (1987-2000); professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia
(FMVZ/USP) e fundador e docente na área de Aquicultura e Recursos Pesqueiros
da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA/USP) (1990-2000).
Atualmente, é Professor Adjunto da Universidade Federal de Sergipe.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

395

José Vieira Silva
Engenheiro Agrônomo, Mestre e Doutor em Fitotecnia pela Universidade Federal do
Ceará (UFC). Perito Criminal na Área Ambiental pela ANP/DPF. Professor Associado
da Universidade Federal de Alagoas (UFAL – Campus Arapiraca), nas áreas de
Ecofisiologia Vegetal e Agrometeorologia. Estuda e pesquisa na área de Ecofisiologia
de Plantas Cultivadas e Nativas sob Condições de Estresses (Hídrico e Salino) e atua
na recuperação de áreas degradadas e educação ambiental. É pesquisador e coordenador
do Centro de Referência em Recuperação de Áreas Degradadas (Crad) do Baixo São
Francisco, da Universidade Federal de Alagoas.

Jucilene Cavali
Engenheira Agrônoma, Doutora em Zootecnia. Professora Associada da Universidade
Federal de Rondônia. Atua como docente nos cursos de Engenharia de Pesca e
Zootecnia. Pesquisadora/Orientadora no Programa de Mestrado Acadêmico em Ciências
Ambientais da Unir-Embrapa e no Programa de Doutorado em Sanidade e Produção
Animal Sustentável na Amazônia Ocidental (Ppgespa-Ufac). Desenvolve pesquisas
em Mercado de Agroindústrias do Pescado (Rendimentos de Carcaça e Qualidade de
Carnes) e Manejo de Pastagens na Amazônia.

Júlia de Souza Vieira
Bióloga pela Universidade Federal de Alagoas, onde atuou na área da Botânica durante
a graduação, com pesquisas em Anatomia Vegetal e Paleobotânica. Atualmente, é
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Diversidade Biológica e Conservação
nos Trópicos, com enfoque em Conservação de Tartarugas Marinhas.

Juliett de Fátima Xavier da Silva
Engenheira de Pesca pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Mestre
em Recursos Pesqueiros e Aquicultura (UFRPE). Doutora em Ciências Biológicas
(UFPE). Atua na área de Tecnologia do Pescado, com ênfase em Enzimologia Aplicada
a Organismos Aquáticos, Aproveitamento Integral do Pescado e Inspeção do Pescado.
Atualmente, é Professora Adjunta do curso de Engenharia de Pesca da UFAL – Penedo,
lecionando as disciplinas de: Tecnologia e Inspeção do Pescado, Beneficiamento e
Industrialização do Pescado, Microbiologia-Geral e do Pescado e Instalações Pesqueiras
e Engenharia Sanitária.

Karina Leitão de Oliveira
Graduanda em Zootecnia. Bolsista Pibic pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
Atualmente, faz parte da equipe de estudantes do Laboratório de Aquicultura e Análise
de Água (Laqua), tendo como orientadora a professora Themis de Jesus da Silva. Tem
experiência em Microparasitologia da Fauna Aquática do Brasil e Ecotoxicologia.

396

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Leilane Camila Ferreira de Lima Francisco
Enfermeira, graduada pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Campus Arapiraca
(2015). Mestra em Enfermagem pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem
(Ppgenf ) da Escola de Enfermagem (Eenf ) da UFAL (2020). Especialista em Psiquiatria
e Saúde Mental pelo Programa de Residência de Enfermagem da Universidade Estadual
de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal) (2018). Pós-graduada em Enfermagem do
Trabalho, pela Faculdade Maurício de Nassau (2017). Atualmente, é enfermeira do Centro
de Atenção Psicossocial (Caps-AD) Amor e Esperança, no município de Arapiraca-AL.

Lucas de Oliveira Arruda
Graduando de Zootecnia. Bolsista do Programa Pró-Graduando da Universidade Federal
de Alagoas (UFAL). Atualmente, faz parte da equipe de estudantes do Laboratório de
Aquicultura e Análise de Água (Laqua). Tem experiência em Microparasitologia da
Fauna Aquática do Brasil e Ecotoxicologia.

Manoel Messias da Silva Costa
Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Alagoas (2003). Mestre
(2008) e Doutor (2015) em Botânica pela Universidade Federal Rural de Pernambuco.
Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em Taxonomia, Sistemática e Ecologia
de Micro e Macroalgas. Foi Professor Substituto da Universidade Federal de Alagoas, de
2008 a 2010. Professor Formador I (Bolsista Capes) de Ensino a Distância do Instituto
Federal de Alagoas (Ifal), juntamente com a Universidade Aberta do Brasil (UAB),
desde 2018. Professor Substituto do Ensino Básico, Técnico, Tecnológico e Superior do
Instituto Federal de Alagoas (Ifal) (2020).

Marcos Vinícius T. Gomes
Técnico em Química pela Escola Técnica Federal de Sergipe (1988). Químico Industrial
(2000) e Engenheiro Químico (1999) pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Mestre em Química (2009) e Doutor em Biotecnologia (2013) (Renorbio – UFS). É
funcionário concursado da CODEVASF, onde desenvolve projetos de pesquisa na área
de Limnologia. Tem experiência na área de Química, com ênfase em Laboratório de
Limnologia, Espectrofotometria de Absorção Atômica, Cromatografia Líquida e Gasosa,
Controle de Qualidade em Indústria Cerâmica e Monitoramento Ambiental.

Marcus Aurélio Soares Cruz
Engenheiro Civil, Mestre e Doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental,
Pesquisador em Manejo de Bacias Hidrográficas na Embrapa Tabuleiros Costeiros, em
Aracaju, Sergipe. Tem experiência em Hidrologia, Modelagem hidrológica, Impactos
Ambientais e Geotecnologias.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

397

Marco Yves A. V. Praxedes
Graduando em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal de Alagoas, Unidade
Penedo. Tem experiência em Biologia Reprodutiva de Peixes, Larvicultura e Cultivo
de Crustáceos Decápodos, com ênfase em Camarões de Água Doce, em Marinharia,
Ecologia e Diversidade de Ecossistemas Aquáticos Continentais. Atualmente, é
integrante da equipe do Laboratório de Carcinologia e Carcinicultura (Labccarci) da
Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Mariana Melo Fireman
Licenciada em Ciências Biológicas. Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em
Taxonomia de Criptógamos, atuando principalmente nos seguintes temas: Fitoplâncton
e Algas Marinhas Bentônicas.

Maristela de Fátima Simplício de Santana
Engenheira Agrônoma, Mestre em Engenharia Agrícola, Doutora em Engenharia
de Alimentos. Tecnologista Plena do Centro de Tecnologia Renato Archer, Núcleo
Nordeste (CTI-NE/MCTIC). Tem experiência em Utilização de Subprodutos Agrícolas,
Agroindústria de Semiárido, Tecnologia da Informação Aplicada ao Monitoramento
Ambiental e às Ciências Agrárias.

Max César de Araújo
Doutor em Engenharia Agrícola, atualmente é professor no Instituto de Desenvolvimento
Rural da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
(Unilab). Tem experiência na área de Projeto de Máquinas e Equipamentos Agrícolas,
Agroindústria, Mecanização e Máquinas Agrícolas, Energias Alternativas para a
Agricultura e Agroecologia.

Petrônio Alves Coelho Filho
Bacharel em Ciências Biológicas (UFRPE), especialista em Ecossistemas Aquáticos
(UFPE), Mestre em Oceanografia (UFPE) e Doutor em Oceanografia Biológica (USP).
Possui experiência em Estudos da Diversidade, Conservação e Ecologia de Ecossistemas
Aquáticos, com ênfase nos Estudos dos Crustáceos Decápodos. Professor do curso de
graduação em Engenharia de Pesca da UFAL e dos Programas de Pós-Graduação em
Diversidade e Conservação (Mestrado) e em Gestão Ambiental (Especialização) da
UFAL.

398

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Priscylla Costa Dantas
Engenheira Florestal pela Universidade Federal de Sergipe. Mestre e Doutora em
Entomologia Agrícola pela Universidade Federal de Lavras e Especialista em Educação
Ambiental (com ênfase em Espaços Educadores Sustentáveis) pela Universidade Federal
de Sergipe. Pós-doutora na modalidade Desenvolvimento Científico Regional (DCRFAPEAL) pela Universidade Federal de Alagoas. Atualmente, Professora Substituta
do Centro de Ciências Agrárias (CECA-UFAL) e atua como pesquisadora no
Laboratório de Aquicultura e Análise de Água (Laqua), na área de Técnicas Histológicas
e Histoquímicas de Peixes.

Rafael José Navas da Silva
Agrônomo pela Unesp, Mestre e Doutor em Ecologia Aplicada pela USP. Professor da
Universidade Federal de Alagoas, atuando na Temática Socioambiental, com ênfase em
Agroecologia, Políticas Públicas e Território, desenvolvendo projetos com agricultores
familiares e povos tradicionais.

Ricardo Anderson Pereira
Graduado em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal de Alagoas. Desde 2013, é
extensionista rural do Instituto de Desenvolvimento Rural do Tocantins (Ruraltins), Brasil.

Ricardo Araújo Ferreira Junior
Engenheiro Agrônomo, Mestre em Agronomia (Produção Vegetal) e Doutor em
Agronomia (Energia na Agricultura). Professor Efetivo da UFAL. Ministra disciplinas
relacionadas a Agrometeorologia e Energia de Biomassa. Tem experiência na área de
Agrometeorologia, atuando, principalmente, nos seguintes temas: Medidas e Modelagens
Agrometeorológicas e Radiométricas, Modelagem do Crescimento e Desenvolvimento
Vegetal.

Ricardo Teodósio F. Cavalcante Jr
Graduando em Zootecnia pela Universidade Federal de Alagoas, bolsista Pibic e membro
do Laboratório de Aquicultura e Análise de Água do Centro de Ciências Agrárias
(Laqua-UFAL).

Robson Dantas Viana
Engenheiro Químico e Mestre em Química pela Universidade Federal de Sergipe
(UFS). Analista A da Embrapa Tabuleiros Costeiros. Experiência em Otimização de
Metodologias Analíticas; Gerenciamento de Resíduos de Laboratório e Análise Química
de Amostras de Solo, Tecido Vegetal e Água.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

399

Silvânio S. Lopes da Costa
Doutor em Química (UFBA), com atuação na área de Química Analítica, atuando nos
seguintes temas: Otimização e Desenvolvimento de Métodos, Técnicas Espectroanalíticas
e Análise Multivariada de Dados. Atualmente, é químico e membro permanente do
Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Ciências Ambientais e do Programa de
Pós-Graduação em Recursos Hídricos da Universidade Federal de Sergipe.

Tereza Iracema Reis Simões
Graduanda do curso de Engenharia de Pesca, modalidade bacharelado. Atualmente,
estagiária no Laboratório de Tecnologia do Pescado da Universidade Federal de Alagoas,
Unidade Penedo. Com experiência na área de Tecnologia e Inspeção do Pescado, com
ênfase nos Aspectos Higiênicos e Sanitários da Comercialização de Pescado em Feiras
Livres.

Themis de Jesus da Silva
Licenciada em Ciências Biológicas (Ufam), Mestre em Genética e Evolução (Ufscar) e
Doutora em Biotecnologia (Ufam). Atualmente, professora da UFAL, com experiência
na área de Genética (Genética Molecular e Genotoxicidade) e Microparasitologia da
Fauna Aquática do Brasil.

Ticiano Rodrigo de Almeida Oliveira
Engenheiro de Pesca pela Universidade do Estado da Bahia (2007); Mestre em Ecologia
Humana e Gestão Socioambiental pela Universidade do Estado da Bahia (2012).
Doutorando em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema) pela Universidade Federal
de Sergipe. Atuou como professor na Universidade Federal de Alagoas, Polo Penedo, no
curso de Engenharia de Pesca (2014-2018). Atuou como consultor do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) (2006-2014). Tem experiência na área
de Recursos Pesqueiros e Engenharia de Pesca, atuando principalmente nos seguintes
temas: Gestão Socioambiental, Povos e Comunidades Tradicionais, Pesca Artesanal,
Ecologia Humana, Comunidade Pescadora e Extensão Rural e Pesqueira.

Valéria Nogueira Machado
Engenheira de Pesca (bacharelado) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam)
(2007), Mestre em Ciências Pesqueiras nos Trópicos pela Ufam (2009), Doutora em
Biodiversidade e Biotecnologia pela Ufam (2016) e Pós-Doutora em Genética de
Populações de Peixes de Áreas Impactadas (rio Doce). Atua principalmente nas áreas
de Genética de Populações, Genética da Conservação, DNA Barcode, Filogeografia de
Characiformes.

400

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

Vanildo Souza de Oliveira
Engenheiro de Pesca pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE, 1985),
Mestre e Doutor em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal de Pernambuco.
Especialista em Ciências Pesqueiras no Japão e Pesca de Profundidade na Coreia do Sul.
Atualmente, é Professor Associado da UFRPE. Foi consultor da FAO na África e assessor
técnico do Conama. Possui trabalhos realizados com recursos e produção pesqueira, pesca
artesanal e industrial, métodos sustentáveis de pesca.

Verônica de Medeiros Alves
Enfermeira. Docente do curso de Enfermagem da UFAL. Mestre em Ciências da Saúde
pela Universidade Federal de Alagoas. Doutora em Saúde Mental e Psiquiatria pelo
Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Vivian Costa Vasconcelos
Engenheirade Pesca (2016) e Mestre em Zootecnia (2020) pela Universidade Federal de
Alagoas. Desenvolveu pesquisa no Laboratório de Aquicultura (Laqua). Tem experiência
na área de Recursos Pesqueiros, com ênfase em Tecnologia e Industrialização do Pescado,
Aproveitamento Integral do Pescado, Microparasitologia, Enzimologia, Análises
Limnológicas e Histologia.

O BAIXO SÃO FRANCISCO:CARACTERÍSTICAS AMBIENTAIS E SOCIAIS

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Esta obra é resultado de uma parceria de trabalho entre instituições
de ensino superior, pesquisa e extensão do Brasil e estrangeira. Os
conteúdos tratam das áreas de conhecimento científico que foram
trabalhadas durante as Expedições Científicas no Baixo São
Francisco, realizadas nos anos de 2018 e 2019, além de projetos
desenvolvidos na região desde 2008. Estas expedições consistiram
em um levantamento de dados hidroambientais e de informações
sobre a situação in loco de degradação dos indicadores
ecológicos, socioambientais e econômicos. Todo o trabalho foi
coordenado pela Universidade Federal de Alagoas e contou com a
participação efetiva do CBHSF, EMBRAPA Tabuleiros Costeiros (SE),
EMATER – AL, FAPEAL, CODEVASF, UFS, CTI Renato Archer, MCTI,
IFCE, UFRPE, UFAM, UECE, SECTI – AL, SEMARH – AL, Marinha do
Brasil, Instituto Espanhol de Oceanografia-IEO (Vigo-Espanha). O
conteúdo do livro contempla a participação de cerca de 50
pesquisadores que estiveram presentes nas expedições e 12
colaboradores que participaram das análises de materiais e de
dados. Ao todo são 21 capítulos estruturados por grandes áreas do
conhecimento científico, de maneira que a organização da escrita
técnico-científica possa facilitar a leitura e entendimento por parte
de todos os leitores.

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