Dia Mundial da Água traz reflexão sobre grupos que não têm acesso

Pesquisador da Ufal destaca agenda de universalização das políticas hídricas para adaptação à seca em Alagoas
Por: Thamires Ribeiro – estagiária de Jornalismo - 22/03/2019 às 09h00 - Atualizado em 21/03/2019 às 13h35
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Campanha da ONU defende 'Água para todos. Foto: Reprodução da Internet

Comemorado em 22 de março, o Dia Mundial da Água deste ano tem como foco a universalização do acesso à água potável e de qualidade por pessoas marginalizadas. O tema está alinhado aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, pactuados pela Organização das Nações Unidas (ONU), para a Agenda 20-30.

Segundo um relatório divulgado pelas Nações Unidas, em todo o mundo, mais de 2 bilhões de pessoas são privadas do acesso a água. Em Alagoas, o cenário também é preocupante, já que municípios do Sertão e do Agreste do estado estão inseridos no Semiárido, sendo frequentemente afetados pela seca.

Na região, o problema da escassez hídrica afeta grupos atingidos pela seca, como idosos, deficientes, pequenos produtores rurais, mulheres, crianças, moradores de áreas rurais isoladas, de periferias e pescadores.

Esse tema foi amplamente abordado no Livro Um século de secas: porque as políticas hídricas não transformaram o Semiárido brasileiro?, de autoria do professor Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas, em coautoria com a jornalista Catarina Buriti. A obra sugere medidas que podem ser adotadas para minimizar o problema.

“No Livro, destacamos a necessidade de políticas que universalizem o acesso às tecnologias sociais hídricas - cisterna calçadão, cisterna-enxurrada, tanque de pedra, bomba d’água popular, cisterna subterrânea, barraginhas. São pequenos reservatórios que armazenam água durante a chuva, para ser utilizada durante alguns meses de seca. É necessário que, nas áreas rurais, todos tenham acesso e que seja ampliada a capacidade dessas tecnologias. Já na área urbana, políticas de saneamento básico são fundamentais, além do aproveitamento da água da chuva para desobstruir os sistemas de saneamento. Também é importante utilizar tecnologias de dessalinização e tratamento de água residuárias”, afirmam os autores da obra.

Lançado em 2018, o livro faz um levantamento, no período de 1901 até hoje, da história das políticas para as secas no Semiárido brasileiro. O objetivo foi buscar lições para uma melhor gestão e controle do uso da água nessas regiões, além de apontar a falta de infraestrutura e de preparo da população.

“Existem problemas cruciais de planejamento e gestão das águas que precisam ser fortalecidas institucionalmente, com participação social, para que facilite o acesso prioritário e os usos múltiplos da água, elemento natural escasso na região. O foco deve ser planejamento e gestão, a seca é um fenômeno natural sempre presente, então, nós que devemos nos preparar e contar com uma infraestrutura segura para atravessar o período da forma menos danosa possível. A seca costuma se transformar em um desastre natural, amplo e silencioso, que provoca enormes danos e prejuízos a pessoas, economia e ambiente”, defendem Buriti e Barbosa.

De acordo com o professor Humberto Barbosa, visando promover uma melhor adaptação às secas, o Lapis desenvolveu o Sistema de Monitoramento de Cobertura Vegetal (SimaCaatinga). Um dos objetivos é divulgar, semanalmente, o mapa de monitoramento da cobertura vegetal dos estados e municípios do Semiárido, permitindo identificar, de forma abrangente, como está a situação da seca nesses locais.

“Temos um amplo trabalho de divulgação desses produtos para que cheguem aos segmentos sociais das áreas rurais e dos municípios, que possuem uma grande vulnerabilidade de acesso ao conhecimento científico sobre previsão do tempo, seca, chuvas, umidades dos solos, entre outros. A nossa finalidade é que o trabalho do Lapis esteja conectado à realidade social, tentando, de alguma forma, minimizar os problemas enfrentados pela população”, destacou o pesquisador.

O Lapis também atua no Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), articulando diretrizes institucionais para apoiar tomadores de decisão sobre políticas de adaptação à seca.

Mais informações sobre o livro Um século de secas podem ser consultadas aqui.