Pesquisadora do IM defende maior presença feminina na área de exatas

Juliana Lima destaca importância da mulher ter oportunidade de conhecer e escolher o que quiser fazer
Por Thâmara Gonzaga – jornalista
06/11/2020 15h54 - Atualizado em 06/11/2020 às 15h57
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Professora Juliana Lima com estudantes durante atividade de projeto de extensão

Foi na área de exatas que a professora Juliana Lima escolheu fazer carreira. Pesquisadora na área de Topologia Algébrica, com mestrado, doutorado e três pós-doutorados, todos em Matemática Pura, hoje, a docente e vice-diretora do Instituto de Matemática (IM) da Ufal, além de lecionar e pesquisar, também trabalha para que mais meninas tenham a oportunidade de escolher o que quiser fazer, inclusive ser cientista.

Filha de professora, ela encontrou uma educadora no ensino médio que a incentivou a fazer da matemática uma profissão: “Por sempre me sair bem nas provas e por querer compreender de onde vinham as fórmulas que muitas vezes aprendíamos apenas decorando”, esclareceu. E foi na graduação que ela se convenceu a seguir a carreira acadêmica na área “pelo amor cada vez maior de aprender as abstrações”, completou.

Ao recordar sua trajetória, a docente declara que o caminho de conquistas da mulher, não só nas exatas, vem com muita resistência. Ela também fala da necessidade de superar conceitos que limitam a atuação feminina. “Ainda nos deparamos com uma sociedade que acredita que a mulher nasceu, principalmente, para cuidar da casa e ter filhos”, afirmou. Ela relata situações preconceituosas com as quais muitas pesquisadoras da área se deparam. “Para começar, ouvimos que área de exatas é curso de homem. Quando somos boas em disciplinas de exatas, as pessoas dizem que mulheres são esforçadas, enquanto o homem é inteligente, como se mulher gostar de ciências exatas não fosse uma coisa normal; fosse uma anomalia”, argumentou.

Juliana Lima lembra, ainda, que, na época da graduação, chegou a ouvir que só passava em disciplinas difíceis por ser considerada bonita pelo fato de professores homens ministrarem a matéria. “São coisas terríveis. A primeira, por menosprezar a capacidade feminina na ciência; a segunda, por estar numa sociedade que normaliza possíveis casos de assédios”, denunciou.

O incentivo para resistir e persistir na carreira tão almejada veio da família, de modo particular, do pai. “Foi o meu maior encorajador. Sempre me ensinou a lutar pelos meus caminhos, a ser independente. E, principalmente, sempre me ensinou que, independente da escolha da minha carreira, eu deveria sempre procurar dar o meu melhor”, lembrou, ao fazer um agradecimento ao pai: “Aproveito para fazer uma homenagem póstuma ao meu pai, que faleceu no início deste ano. Meu muito obrigada por tudo, por ser um pai feminista, um homem feminista”.

Por mais meninas nas exatas

Na área de Extensão, a pesquisadora coordena um projeto que tem como objetivo despertar o interesse de estudantes de escolas públicas pela área de exatas, apresentando a carreira acadêmica como uma das opções de profissão a seguir. Mensalmente, são realizadas atividades experimentais, com jogos e montagens de protótipos, para meninas do ensino fundamental e médio da rede pública de Alagoas. Durante a pandemia de covid-19, os trabalhos continuaram e foram realizadas várias atividades on-line.

O projeto do IM da Ufal é formado só por mulheres e conta com o apoio de graduandas de Iniciação Científica da Universidade e de professoras das escolas participantes. As tarefas são ligadas às disciplinas matemática, física, química, engenharia e computação, fazendo as ciências exatas aparecerem no dia a dia. “A ideia é levar experimentos incríveis e mostrar que as cientistas que apresentam as atividades a elas são mulheres. Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive sendo cientista”, destacou a coordenadora.

A pesquisadora

Além de lecionar e de se dedicar a iniciativas de extensão, uma das paixões de Juliana Lima é pesquisar as abstrações da matemática. Ela conta que seus estudos em Topologia Algébrica, na área de teoria de tranças, teoria de nós e teoria de enlaçamentos de intervalos, consistem, basicamente, em deformar espaços de maneira que propriedades indispensáveis sejam preservadas.

Ela explica que uma aplicação muito relevante e em alta das pesquisas feitas é dada na física, na área de computação quântica. “É um tópico muito debatido atualmente, devido aos ganhos que computadores teriam quando comparados às máquinas comuns que temos hoje, como por exemplo, em rapidez e segurança”, disse, ao acrescentar que outras áreas, assim como a engenharia genética, também aplicam tais teorias.

Para a docente, a realização de todas essas atividades é o que traz a satisfação para sua vida profissional e também pessoal. “A minha felicidade maior é acordar todo dia, sentar para pesquisar, fazer projetos de extensão, ensinar e ajudar a gerir um instituto do qual estou vice-diretora, atualmente, sabendo que faço o que amo, o que nasci pra fazer, independe da opinião alheia”, destacou Juliana Lima.

Respeito no trabalho e luta por espaço

Ao conquistar o espaço profissional, a docente da Ufal reconhece que ainda é grande a luta feminina na área de exatas. “Meu desafio é continuar lutando pelo meu e pelo espaço das mulheres na área, inclusive, dentro do Instituto no qual sou lotada. Já ouvi colegas homens dizendo que uma mulher no departamento é ruim, já que temos o direito de tirar licença maternidade. A luta é diária”, disse.

A pesquisadora chamou atenção para o aumento dos ataques à dignidade e aos direitos das mulheres. “Ultimamente, com a ajuda de comentários incabíveis, do pior nível de machismo, de um dirigente de um país, machistas que estavam com seus pensamentos e ações guardados se sentem hoje mais corajosos e no direito de tentar retirar o espaço que é nosso de direito”, afirmou.

E completa: “Mas estamos na luta, respondendo com qualidade em pesquisa, desenvolvendo computadores rápidos nas exatas, sequenciamento de vírus nas pesquisas de saúde, fazendo a mais maravilhosa balbúrdia que poderíamos fazer que é a de trazer a melhoria de vida em todos os setores não só para o país, mas para o mundo”.

Para as meninas que sonham em ser pesquisadora, ela admite que a realidade é de uma cobrança maior, sendo preciso se desdobrar muito mais para que o trabalho tenha visibilidade. Mas Juliana Lima prefere destacar que, independente de qual profissão seguir, o importante é a mulher ter a opção de escolher. “Se você quer ser pesquisadora, seja. Quer ser médica, seja. Engenheira, professora, farmacêutica, dentista, do lar, cuidadora de idosos, seja também. Porque o teu lugar, mulher, é onde você quiser estar. Mas faça por você, para você, pelo que te faz acordar todos os dias, como eu acordo, e dizer: ‘que trabalho incrível eu faço!’”.