Pesquisa avalia eficácia do jejum intermitente para perda de peso

Estudo foi realizado com mulheres com obesidade e em situação de vulnerabilidade social
Por Thâmara Gonzaga - jornalista
16/11/2020 15h45 - Atualizado em 19/11/2020 às 09h44
context/imageCaption

Nutricionista Isabele Maranhão, pesquisadora que conduziu os estudos.

Problema de saúde pública mundial, a obesidade acomete indivíduos de diversas condições sociais e econômicas. Segundo dados da pesquisa nacional Vigitel Brasil 2019 do Ministério da Saúde, publicados em 2020, considerando as capitais dos 26 estados brasileiros e o Distrito Federal, o índice de pessoas com obesidade no Brasil é de 20,3%.

Por trás desse dado, há também o lado cruel da desigualdade social no país, uma vez que, segundo a Vigitel Brasil, o percentual de indivíduos obesos é maior nos que possuem menos anos de escolaridade, principalmente, entre as mulheres. Pela falta de informação, de dinheiro e de acompanhamento profissional, essas pessoas fazem parte do grupo que consome gêneros alimentícios mais calóricos e de menor qualidade nutricional por causa do preço mais baixo.

O impacto prejudicial desses fatores levou o grupo de pesquisa coordenado pelo professor da Faculdade de Nutrição (Fanut) da Ufal, Nassib Bueno, a investigar, diante das diversas abordagens para perda de peso, qual seria a estratégia mais acessível que pudesse ajudar mulheres que se encontram em tais condições. Com o título Influência da restrição do período alimentar e dieta hipocalórica sobre o perfil metabólico e composição corporal de mulheres com obesidade em vulnerabilidade social, o trabalho, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) mediante projeto inscrito pelo docente, foi conduzido pela nutricionista Isabele Maranhão Pureza e resultou em sua dissertação defendida e aprovada no mestrado da Fanut, em setembro de 2019.

O estudo deu origem a quatro artigos publicados nas revistas científicas Clinical Nutrition, Nutrition e Archives of Endocrinology And Metabolism, projetando a pesquisa da Fanut e a Ufal no cenário da ciência internacional.

“A publicação dos nossos resultados em revistas de alto fator de impacto permite reforçar à comunidade científica a qualidade das pesquisas conduzidas em universidades brasileiras diante de uma estratégia dietética emergente, como a restrição do período alimentar, com um número crescente de ensaios clínicos conduzidos por diferentes grupos de estudo em nutrição de diversos países e que auxiliam nas condutas para o tratamento da obesidade”, destacou a pesquisadora.

Jejum intermitente: uma opção viável?

Muito comum entre pessoas públicas que divulgam sua rotina alimentar e de atividades físicas, o jejum intermitente vem sendo bastante estudado no meio acadêmico e mostrado benefícios que vão além daqueles apresentados por uma “dieta da moda”.

A nutricionista Isabele Maranhão Pureza explica que o termo engloba diversas formas de restringir o período de alimentação diário e é uma das estratégias mais procuradas não somente por leigos, mas que também vem atraindo atenção de clínicos e pesquisadores.

“A restrição do período alimentar, sem a necessidade de restringir a ingestão energética, surge como uma alternativa que facilita a adesão do paciente, com estudos crescentes em animais e humanos, garantindo benefícios para prevenção e tratamento de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, além do envelhecimento precoce”, destacou.

Em sua pesquisa, Isabele buscou avaliar e comparar os efeitos de uma intervenção com restrição do período alimentar (o jejum intermitente) em comparação com uma tradicional para perda de peso, apenas com dieta hipoenergética (restrição de energia em quilocalorias), sobre o perfil metabólico e a composição corporal de mulheres com obesidade e em vulnerabilidade social.

De acordo com a pesquisadora, por não implicar, necessariamente, na compra de novos alimentos, a prática de jejum intermitente poderia ser uma alternativa por facilitar a aceitação. “Quando o indivíduo escolhe o período em que deseja realizar o jejum, facilita a adesão, anulando as dificuldades comuns das dietas restritivas e tradicionais”, justificou.

Mulheres com obesidade

Para embasar o estudo realizado na Fanut Ufal, relata Isabele, foi realizado um ensaio clínico aleatório com mulheres com obesidade e em condição de vulnerabilidade social. As participantes eram moradoras da 7ª região administrativa de Maceió, a que apresenta o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da capital, composta pelos bairros Santos Dumont, Cidade Universitária, Santa Lúcia e Tabuleiro dos Martins.

No total, 58 mulheres participaram e foram sorteadas para compor um dos dois grupos de investigação: intervenção e controle. “O grupo intervenção foi orientado a seguir uma dieta hipoenergética e a restrição do período alimentar por 12 horas, com horário de início determinado pela participante. Já o grupo controle foi orientado a seguir apenas a dieta hipoenergética”, explicou.

Ela esclarece que esse perfil de mulheres foi escolhido com base nos dados da pesquisa nacional Vigitel Brasil 2018, publicados em 2019 pelo Ministério da Saúde, em que se observa que o percentual de indivíduos obesos é maior naqueles que tem menos anos de escolaridade, principalmente nas mulheres. “Esse grupo apresenta padrão de consumo alimentar monótono e com ingestão elevada de alimentos de maior densidade energética, por comumente ser mais baratos”, argumentou.

As participantes receberam acompanhamento nutricional por 12 meses, com orientações reforçadas para a prática de jejum e ajustes na dieta, além do acompanhamento do peso, da composição corporal e dos exames bioquímicos para avaliar o perfil metabólico.

As consultas foram realizadas no ambulatório de obesidade do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren). O atendimento das participantes era feito pelos integrantes do grupo de pesquisa, composto por alunos de iniciação científica da Fanut, e pela Isabele, como nutricionista e pós-graduanda no mestrado em Nutrição da Ufal. Todo o trabalho era supervisionado pelo coordenador da pesquisa, professor Nassib Bueno.

Resultados obtidos

Ao comparar os grupos estudados, a pesquisa mostrou que a curto prazo, no acompanhamento de 21 dias, a restrição do período alimentar não apresentou efeito no perfil hormonal e no apetite delas. Já a curto e a longo prazo, essa estratégia também não reduziu o peso corporal, mas diminuiu o percentual de gordura corporal e a circunferência da cintura.

“De acordo com nosso estudo, observamos que o jejum traz benefícios tanto quanto a dieta com restrição de energia por quilocalorias. O jejum não mostrou superioridade em relação à dieta tradicional para perda de peso. As participantes podem adotar uma das duas intervenções a fim de facilitar o tratamento”, explicou Isabele

Ela acrescenta que foi observada uma discreta elevação da temperatura axilar que pode explicar a redução da gordura corporal. “No entanto, são necessárias futuras investigações adotando a temperatura como objeto principal da investigação. Vale ressaltar que essas mudanças não foram clinicamente importantes, a ponto de expressar uma superioridade dos efeitos do jejum em relação ao grupo apenas com dieta hipoenergética”, ressaltou.

Para investigar os efeitos mais amplos do regime de jejum intermitente, a equipe de pesquisadores da Fanut realizou uma revisão sistemática com metanálise, para avaliar os efeitos do early time-restricted feeding, traduzido livremente como restrição do período alimentar precoce, em que as refeições são iniciadas nas primeiras horas do dia e limitada até o pôr do sol.

“Incluímos dez ensaios clínicos aleatórios, com experimento semelhante ao que fizemos com as mulheres, que avaliaram o efeito desse tipo de jejum no perfil metabólico de indivíduos com excesso de peso. Apesar de encontrarmos uma redução significativa na glicemia de jejum dos indivíduos incluídos nos estudos, as evidências foram avaliadas como de baixa qualidade, o que permite analisar esse resultado com cautela, visto que estudos com humanos são recentes e escassos, com resultados controversos para alguns parâmetros bioquímicos”, esclareceu.

Diante do fato da obesidade se configurar como uma doença que atinge um número elevado da população mundial, apesar dos dados não mostrarem diferenças significativas entres os grupos que participaram do estudo, Isabele defende que os resultados da pesquisa podem contribuir para ajudar os profissionais da saúde no momento de escolher estratégias para perda de peso.

“De maneira geral, apesar da ausência de diferenças clínicas importantes entre a restrição do período alimentar e a dieta hipoenergética e de relatos de efeitos adversos, consideramos que a restrição do período alimentar diária é de fácil aplicação e segura, auxiliando no tratamento nutricional em indivíduos com excesso de peso sem a necessidade de aquisição de novos alimentos, principalmente para população de menor poder aquisitivo, garantindo maior adesão”, afirmou.