Pesquisadores da Ufal alertam para a calamidade pública na área ambiental

A situação é considerada muito grave e os efeitos serão prolongados
Por: Lenilda Luna - jornalista - 25/10/2019 às 07h20 - Atualizado em 24/10/2019 às 17h46
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Segundo os levantamentos feitos pelos grupos de trabalho da Universidade e do Ibama, em Alagoas, 180 km de praias foram afetadas.

“Estamos vivendo uma calamidade pública com emergência ambiental”, assim o professor Emerson Soares, do Centro de Ciências Agrárias, expressa a preocupação com os efeitos da grande quantidade de óleo que atingiu o litoral nordestino. “O óleo chegou no mar, nos mangues, no fundo dos mar, nos corais. A situação é triste e feia”, lamenta o pesquisador.

Emerson Soares destaca que esse incidente está trazendo problemas sérios para a pesca, para a fauna aquática, para o turismo, para a reprodução das espécies nos mangues. No rio Coruripe, o óleo foi detectado até aproximadamente 7 km da foz, ou seja, a contaminação está se adentrando pelos rios.

O que causou o acidente ainda está sendo investigado. Mas já é possível detectar a gravidade dos efeitos. “Nós estamos vivendo um desastre sem precedentes, são imensuráveis os danos que esse desastre vai causar para gerações de organismos. O feito dessa contaminação vai perdurar no litoral e nas áreas estuarinas”, ressalta Emerson.

Segundo os levantamentos feitos pelos grupos de trabalho da Universidade e do Ibama, em Alagoas, 180 km de praias foram afetadas. “A iniciativa de pessoas e dos órgãos locais de fazer a limpeza minimiza o problema, mas não resolve. Existe uma meio fauna que está morrendo, esses organismos que vivem entre a água e a areia da praia. Os corais são organismos vivos, que estão sendo duramente atingidos, assim como os peixes que se abrigam e alimentam nesses arrecifes”, alerta o professor Emerson Soares.

Os pesquisadores explicam que os manguezais são berçários de várias espécies costeiras, e é muito difícil limpar esse óleo quando ele impregna e se liga à vegetação. “O problema persiste há mais de 50 dias. O óleo está afundando, está ficando no leito dos mangues e nas áreas rasas das praias. O óleo está alterando a consistência e afundando, fixando-se nos corais e no manguezal. É um material cancerígeno e mutagênico”, destaca o professor Emerson.

Segundo ele, mais de mil toneladas de óleo já foram retiradas das praias de Alagoas. “O problema é que não sabemos a quantidade derramada, tudo o que sabemos até agora é que provavelmente houve um acidente com um navio clandestino que transportava esse produto. Precisamos de uma força tarefa não só para a limpeza, mas para estudar os efeitos dessas toxinas nos animais, vegetais e no ser humano também”, convoca o pesquisador.

O que se pode fazer agora, é minimizar os danos, lamenta o professor, mas os danos já foram causados. “É um desastre sem precedentes, gravíssimo, um óleo agressivo, tóxico, que prejudica toda uma cadeia trófica e causa danos onde passa. Vai impedir a reciclagem de nutrientes nas regiões de manguezais, principalmente onde são retirados o massuni e o sururu, o que agrava os problemas que já temos com poluentes nessas regiões, oriundas de esgoto e agrotóxicos”, denuncia o pesquisador.

É preciso informar a sociedade

O pesquisador Cláudio Sampaio, da Unidade de Penedo, também está bastante preocupado. Ele tem realizado mergulhos e caminhadas para averiguar a extensão do problema. “Existem danos irreversíveis também nas áreas de estuário, que vão atingir atividades de geração de renda como a pesca e o turismo”, alerta Cláudio.

Para Cláudio, a sociedade alagoana precisa ser melhor informada sobre o que está acontecendo. “Uma sociedade mais informada responde melhor. Não estamos tendo acesso às informações atualizadas sobre esse petróleo nas nossas praias. Fico preocupado com esses voluntários que se dispuseram a ajudar na limpeza, sem utilizarem equipamentos de proteção”, reflete o professor.

Cláudio também alerta para a necessidade de organizar o destino que está sendo dado ao material retirado do mar. “Se não houver um plano de manejo, estamos só mudando o local da contaminação. Esse material é bastante tóxico para o meio ambiente e para o ser humano”, destaca o pesquisador.

Os efeitos para a economia local ainda precisam ser mensurados, mas o professor Cláudio Sampaio alerta que serviços ecológicos importantes serão prejudicados. “O pescador vai viver como? Como ele vai pescar, vai comer, nessas áreas, sem antes ser feito um estudo toxicológico nessas espécies atingidas?”, questiona Cláudio.

Os pesquisadores também estão preocupados com a população que vive da pesca e do turismo. “Ainda não dá para falar nem dos prejuízos financeiros, porque qualquer tentativa pode ser subestimada, mas atividades que geram emprego, renda e alimento para a população alagoana foram duramente atingidos”, lamenta Cláudio Sampaio.

Ouça entrevista com os pesquisadores.