Estudo constata contaminação por mercúrio no sangue de pescadores da Lagoa Mundaú

Nível de mercúrio está acima do estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e alta contaminação também está presente na água da Lagoa. A pesquisa proporcionou menção honrosa a doutorando da Ufal
Por: Diana Monteiro - jornalista - 21/10/2019 às 07h35 - Atualizado em 21/10/2019 às 14h11
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Professora Ana Catarina com o doutorando premiado Reginaldo Correia e o aluno Everson, do Pibic (Fotos: Arquivo pessoal)

Estudo realizado na Lagoa Mundaú por pesquisadores do Instituto de Química e Biotecnologia (IQB) da Universidade Federal de Alagoas, constatou contaminação de mercúrio no sangue de pescadores que desempenham a atividade naquele ambiente aquático e também consomem regularmente o conhecido molusco sururu. A contaminação, segundo a pesquisa, está acima do permitido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) o que pode ter uma relação direta com doenças crônicas, principalmente às neurológicas, a exemplo do Mal de Alzheimer e depressão.

Também foi comprovado que dentre os diferentes elementos químicos analisados na água da Lagoa Mundaú, sete deles, mercúrio, ferro, chumbo, alumínio, estanho, manganês e zinco, encontram-se acima dos limites máximos preconizados pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) e que a situação apresentada provavelmente pode ser proveniente de contaminação urbana, oriunda de esgotos e indústria.

A pesquisa, que transcorreu durante dois anos com o objetivo de avaliar o possível impacto ambiental a população circunvizinha à Lagoa Mundaú, foi dotada de análises da água e do molusco sururu, com o trabalho de coleta em dez pontos daquele ambiente aquático, do Pontal da Barra às imediações de Bebedouro, bairro da capital alagoana margeado pela citada lagoa. O sururu também foi material analisado porque, segundo os pesquisadores, configura-se como bioacumulador de elementos contaminantes, a exemplo do mercúrio, servindo, dessa forma, para o estudo científico, de modelo para biomonitoramento ambiental. Ainda, por se constituir o molusco no principal produto da atividade pesqueira de pessoas que trabalham naquela região lagunar.

Denominada de Como a presença de contaminantes na Lagoa Mundaú do (Maceió-AL) pode modular o status oxidativo nas células sanguíneas dos pescadores? a pesquisa foi dividida em duas áreas: a bioquímica, sob a coordenação da professora Ana Catarina Rezende Leite, também coordenadora do Laboratório de Bioenergética (LABIO) e a química analítica e ambiental, sob a responsabilidade do professor Josué Carinhanha Caldas Santos, que dirige o Laboratório de Instrumentação de Desenvolvimento em Química Analítica (LINQA), ambos pertencentes ao Instituto de Química e Biotecnologia da Ufal.

A pesquisa contou com a participação do aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Química e Biotecnologia (PPGQB) Reginaldo Correia da Silva Filho e Mayara Santos Costa, que faz o doutorado no citado programa e é orientanda do professor Josué Carinhanha. Ainda participaram os alunos Nerveson Pereira (iniciação científica) e Ábner Nunes (doutorando - PPGQB).

Reginaldo, que tem como orientadora a professora Ana Catarina, pelo estudo desenvolvido com foco na área de bioquímica, recebeu menção honrosa na edição deste ano do renomado Prêmio promovido Federação de Experimentação das Sociedades de Biologia Experimental (FESBE), realizada em setembro em Campos do Jordão (SP). A Federação que trabalha com todas as áreas para experimentação biológica.

O estudo recebeu financiamento do Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS) da Fundação de Amparo à Pesquisa de Alagoas (Fapeal), Ministério da Saúde e do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento e Tecnológico). Segundo Ana Catarina, participaram da pesquisa 66 pescadores pertencentes a Colônia do Pontal da Barra e do Trapiche da Barra e 33 pessoas denominadas de controles, que não vivem no entorno da Lagoa Mundaú e pouco consomem sururu. “Durante o período da pesquisa foram feitas sete campanhas em dez pontos, cada uma, levando em consideração a maré (alta e baixa) e índice pluviométrico, ou seja, período de seca e chuva. Os pontos mais próximos a área urbanizada apresentaram maior nível de contaminantes inorgânicos”, afirmou o professor Josué Carinhanha.

Integraram também a equipe os pesquisadores Raphael Pinto e Chiara Marinho, do curso de Biomedicina do Centro Universitário Cesmac, responsáveis pela análise do sangue dos pescadores, com atividades dessa forma, nas áreas de hematologia e bioquímica clínica. Estudos acerca de marcadores de estresse oxidativo também foram desenvolvidos no Laboratório de Bioquímica e Bioquímica do Exercício no Centro Acadêmico de Vitória de Santo Antão, da UFPE, onde participaram a professora Mariana Pinheiro Fernandes e a doutoranda Talitta Ricarlly.

Desequilíbrio metabólico

Os pesquisadores destacam que o estresse oxidativo está relacionado com várias patologias e pode ser mediado pela presença de contaminantes inorgânicos no organismo que interagem com biomoléculas e altera o balanço redox das células. Este se constitui do sistema antioxidante do organismo. “Nossos resultados sugerem que os eritrócitos de pescadores apresentam comprometimento do estado redox, da integridade da membrana e da baixa capacidade de captação de oxigênio e todos esses resultados podem estar relacionados à exposição do ambiente aquático, associada a altos níveis de chumbo e mercúrio (Hg)”, afirmam Ana Catarina e José Carinhanha.

Segundo os pesquisadores, o desbalanço no sistema redox (sistema antioxidante no organismo) foi constatado nas análises de estresse oxidativo nas células brancas (linfócitos) e nos eritrócitos (hemácias).

“O desequilíbrio metabólico foi constatado, o que pode levar a uma predisposição a doenças crônicas. Os eritrócitos são as células que carreiam o oxigênio e no organismo dos pescadores, alvo da pesquisa, ficou confirmada toda a deficiência dessa função. Quanto ao mercúrio inorgânico ou espécies de mercúrio orgânico, apresentou perfil semelhante quanto à redução de se ligar e transportar oxigênio. Dessa forma, entende-se que provavelmente os elevados níveis de mercúrio no sangue dos pescadores podem estar associados ao desbalanço redox e, por consequência menor capacidade de transportar oxigênio”, destacou Josué Ariranha.

Sobre a importância do estudo tanto para a ciência como para a sociedade os pesquisadores ressaltam: “Há poucos estudos sobre a Lagoa Mundaú e também não se tinha a ideia do nível de contaminação existente. A contaminação pode influenciar na vida e na saúde das pessoas. Constatou-se ainda, que o consumo dos produtos da lagoa, base alimentar para os que vivem naquele ambiente, ainda não tem controle de qualidade, a exemplo do sururu, conhecido produto que está na culinária típica alagoana".

Ana Catarina e Josué Ariranha informam que será elaborado um documento destinado aos órgãos competentes, a exemplo do Instituto de Meio Ambiente de Alagoas (IMA-AL) e Secretarias Municipal e Estadual de Saúde, com os principais resultados do estudo científico.

Premiação e futuro acadêmico

Para o doutorando Reginaldo Correia, que recebeu menção honrosa em renomado evento, ganhar um prêmio em um congresso tão específico, é ter o no meio científico o reconhecimento de um trabalho ainda em desenvolvimento como uma pesquisa relevante. Tanto para a ciência como também como forma de contribuição para a sociedade, pois esse, segundo ele, deve ser o grande papel da pesquisa científica. E reforça:

“É gratificante ver que uma pesquisa está atingindo boas proporções e que ela está permitindo abrir discussões com outros pesquisadores, o que possibilita com isso o meu crescimento profissional. Quanto a desenvolver uma pesquisa voltada para o local onde está a Universidade, tem sido a realização de um desejo em se fazer pesquisa clínica, voltada para humanos. O estudo permitiu ter um contato direto com uma comunidade com importante papel econômico para Maceió e para o Estado de Alagoas. Pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade”, destaca o futuro doutor das áreas de química e biotecnologia.

Reginaldo acrescenta que devido à pesquisa está sendo possível contribuir com a comunidade daquela região lagunar proporcionando conhecimento acerca da situação a qual se encontra em função do seu estilo de vida. “E isso reflete em poder de alguma forma gerar um conhecimento que futuramente se espera resultar em melhor qualidade de vida, uma vez que o intuito do estudo é mostrar que é necessário se fazer intervenções, principalmente de políticas públicas. De forma geral, estar realizando um trabalho dessa magnitude e ter um trabalho do nosso grupo de pesquisa e colaboradores premiado por um congresso nacional científico, significa que estamos no caminho certo, do quanto é importante desenvolver pesquisa científica de qualidade e com impacto científico e social”, frisou.

Oriundo do vizinho estado de Pernambuco, Reginaldo Correia Graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde fez o mestrado e no percurso para a conquista do doutorado na Ufal, Reginaldo diz que seguir carreira acadêmica já é uma decisão: “Passei a me envolver com pesquisa científica durante a graduação. Isso porque, acima de tudo na minha área de formação, que é a Educação Física, tudo se é desenvolvido em laboratórios de pesquisa para se aplicar a prática. A academia me proporcionará continuar pesquisando, pois, essa parte da vida acadêmica que mais tem me feito crescer profissionalmente”, declara.

Além disso, para Reginaldo, seguir na vida acadêmica é poder contribuir para a boa formação profissional de outras pessoas: “Formação profissional de qualidade como sendo prioridade no ramo da pesquisa científica, foi o que sempre ouvi durante a graduação, enquanto participante do Programa Iniciação Científica, e como aluno de mestrado. O importante na vida acadêmica é desenvolver e permitir que o outro amplie os horizontes. Não limitar o conhecimento, mas conduzir e aprender juntos durante esse período de formação”.

Aproveita para falar sobre os desafios da vida acadêmica: “Nem sempre é fácil, ainda mais quando se trata de pesquisa científica no Nordeste. Possuímos aqui excelentes pesquisadores, recebemos bem menos verba comparado a outros estados, que é até injusto comparar. E diante de nossa situação política, tentamos conduzir as pesquisas com excelência, por mais simples que sejam. Afinal, a vida acadêmica também nos prepara para as intempéries”, opina.

Caminho certo

Obstinado para as suas conquistas e sempre com ânimo para seguir em frente, Reginaldo diz que considera a vida acadêmica um bom caminho para o seu futuro: “Acredito que esse é um bom caminho para mim. Foi na vida acadêmica que construí minhas referências e que obtive bons exemplos que me fazem capazes de alcançar meus objetivos”, enfatiza.

De olho no futuro sem perder de vista a qualificação profissional com ampliação e reprodução do conhecimento, o doutorando enfatiza que pretende contribuir para a formação profissional de outras pessoas. E destaca:

“Pretendo continuar seguindo com a ideologia de que na pesquisa científica o mais importante é a formação do profissional e, não ter um status ou número de publicações no Lattes, pois isso é consequência exatamente de uma boa formação. Espero que durante a minha vida acadêmica, eu possa ser um veículo que permitirá gerar frutos que vão nutrir a sociedade acadêmica, científica e a comunidade com conhecimento que conduzam para uma relação mais saudável e benéfica com o mundo”, finalizou.