Pesquisa mostra espécies de anfíbios e répteis que estão ameaçados em Alagoas

Estudo de bióloga do Museu de História Natural da Ufal indica urgência na conservação das espécies diante das mudanças climáticas e perda da qualidade do hábitat
Por Janyelle Vieira - estagiária de Jornalismo
15/07/2020 16h09 - Atualizado em 16/07/2020 às 16h26
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Espécies da herpetofauna ameaçadas de extinção, encontradas em Unidades de Conservação no estado de Alagoas

Em Alagoas, dez espécies de anfíbios e répteis continentais estão ameaçadas de extinção. A informação está no Trabalho de Conclusão de Curso intitulado Conservação da Herpetofauna no estado de Alagoas da bióloga Cláudia Maria da Silva, graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Alagoas, realizado sob a orientação da bióloga Selma Torquato, do Museu de História Natural da Ufal.

O estudo visou levantar a lista de espécies ameaçadas em Alagoas, as ameaças e seus registros de ocorrência, avaliar a presença em áreas protegidas e propor estratégias necessárias para favorecer a conservação da fauna de anfíbios e répteis, conhecida tecnicamente como herpetofauna.

O Brasil possui a maior diversidade global de anfíbios e mais de 1.130 espécies ocorrem aqui. Quanto aos répteis, o país ocupa o terceiro lugar no ranking global de diversidade com a ocorrência de 795 espécies. Estes grupos de animais estão entre os mais escolhidos como bioindicadores de qualidade ambiental, pois são sensíveis à contaminação por agrotóxicos, aos efeitos da radiação e às variações na temperatura e no teor de umidade do ambiente.

Avaliação das ameaças

Apesar da rica diversidade da herpetofauna nacional, a conservação desse grupo está ameaçada pois eles sofrem as consequências de ações antrópicas como a mudança climática, o uso descontrolado de agrotóxicos, a introdução de espécies invasoras no ambiente e a caça e o tráfico para práticas de medicina popular, ornamentação, em contextos religiosos, fabricação de vestuário e como animais de estimação.

Segundo a pesquisa, além destes, o principal fator de perda da biodiversidade é a diminuição ou mesmo eliminação das áreas de ocorrência das espécies. Devido a aceleração do crescimento urbano no país, as espécies que ocorrem na Mata Atlântica são as mais afetadas, pois este bioma de elevada riqueza de espécies é também o mais explorado desde a ocupação europeia no Brasil.

Dentre os estados da região nordeste, Alagoas é o que detêm os maiores remanescentes de Mata Atlântica ao norte do Rio São Francisco. No bioma, são conhecidas 74 espécies de anfíbios e cerca de 130 espécies de répteis. Lá, estão as dez espécies da herpetofauna endêmicas ameaçadas de extinção.

Os graus de ameaça variam em nível de risco de iminência de extinção e em ordem crescente são: VU = vulnerável, EN = em perigo e CR = criticamente em perigo. No grupo dos anfíbios em risco estão: a perereca marsupial Hylomantis granulosa (VU), os sapinhos Chiasmocleis alagoana, Crossodactylus dantei, Physalaemus caete (EN) e a perereca de bromélia Phyllodytes gyrinaethes (CR). Com relação aos répteis, todas as espécies da lista são serpentes: Amerotyphlops paucisquamus, Echinanthera cephalomaculata (VU), Atractus caete, Amerotyphlops amoipira, Bothrops muriciensis (EN).

No estado, a pesquisa aponta que as causas do desaparecimento de populações destes grupos de vertebrados estão ligadas ao declínio contínuo da qualidade do hábitat devido à expansão de áreas de pasto, agricultura, meio urbano e cultivo da cana-de-açúcar nas matrizes da paisagem; às mudanças climáticas e a contaminação por fungos patógenos que em sinergismo com o aquecimento global e a fragmentação de habitat tem causado o aumento da mortalidade de anfíbios em diversos locais do planeta.

É importante considerar ainda que no contexto da atual política nacional de liberação de diversos agrotóxicos, há pouco tempo proibidos no país, o empobrecimento da herpetofauna tende a se acentuar de forma grave. Nos anfíbios, cuja pele é permeável, os agrotóxicos são absorvidos com maior facilidade, promovendo efeitos nocivos às células e aos genes de diversas espécies, comprometendo assim o sistema imunológico.

Para avaliar a ameaça, são seguidos os critérios  da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) que consideram características nas populações como o número de indivíduos maduros, se há subpopulações e a situação em que se encontram; a taxa de renovação dos indivíduos reprodutores; a área, geográfica ou ecologicamente distinta, em uma única ameaça pode afetar rapidamente todos os indivíduos da espécie, entre outros. No Brasil, as avaliações são coordenadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente.

Unidades de Conservação no estado

Como a perda de áreas naturais leva ao desaparecimento de populações de animais e plantas, o Brasil adotou a criação de áreas naturais protegidas chamadas de Unidades de Conservação (UCs) para preservar a biodiversidade. As UCs são categorizadas em dois níveis. Nas unidades de uso sustentável, é permitido a estadia de pessoas utilizando recursos do ambiente de forma sustentável. Já as unidades de proteção integral são espaços restritivos que permitem algumas atividades de uso indireto, como educação e pesquisas com fins científicos.

Entretanto, é fundamental para que planos de conservação sejam eficientes que os esforços de criar e manter Unidades de Conservação estejam aliados à realização de estudos básicos sobre o tamanho das populações, sua área de distribuição e exigências ecológicas e reprodutivas pois muitas espécies ainda não estão sendo estudadas. “Há uma grande variedade de espécies, mas pouco conhecimento sobre as mesmas. Espécies nessa condição são tratadas como apresentando dados deficientes (DD) pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e não entram nas categorias de ameaça estabelecidas por esta instituição, o que pode representar um problema, pois muitas delas podem estar sob pressões de ameaças sem que se saiba disso” explica Cláudia Maria.

O pouco conhecimento sobre a herpetofauna local reflete a ausência de programas para monitorar muitas das espécies da região e como agravante, não há financiamento para reparar estas faltas pois as agências de fomento à pesquisa priorizam estudos que se dediquem às espécies reconhecidas como ameaçadas.

Em Alagoas, existiam até o ano passado, 9 Unidades de Conservação de proteção integral, 6 de uso sustentável e 67 Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) sob a gestão Estadual, Federal, Municipal e particular. Contudo, segundo o IBGE, a área de todos as UC’s é equivalente a somente 9% da área de todo o estado.

De acordo com o trabalho, além do conjunto de áreas protegidas em Alagoas ter o tamanho reduzido, a distribuição entre os biomas é desproporcional já que as áreas estão concentradas na Mata Atlântica, ainda que seja neste as ocorrências de espécies ameaçadas e com deficiência de dados.

Estratégias necessárias para favorecer a conservação da herpetofauna

O ICMBio, em conjunto com diversos segmentos da sociedade, incluindo cientistas de todo o país, elaboraram planos de ação para a conservação da biodiversidade, que são acordos de compromissos para execução de ações conjuntas que contribuam efetivamente para a mudança de cenário de empobrecimento da biodiversidade. O Plano de Ação Nacional para Conservação da Herpetofauna Ameaçada do Nordeste se iniciou há quase uma década e é uma ferramenta fundamental para as articulações de ações regionais.

Dentre essas ações, a ampliação das áreas protegidas e estudos sobre as espécies ameaçadas e com dados deficientes tornam-se fundamentais para cumprir as metas dos planos de ação de conservação.

“Deve-se não somente ampliar o número de áreas de unidades de conservação, mas principalmente aumentar o número das categorizadas como de proteção integral para tornar as ações de conservação mais efetivas” pontua a autora do estudo.

De acordo com Cláudia Maria, se faz necessário investir em pesquisas sobre as espécies ameaçadas e com deficiência de dados que contemplem a investigação da ocorrência da espécie em novas áreas, a estrutura e dinâmica de populações, biologia reprodutiva e biologia termal pois os temas são fundamentais para a elaboração de estratégias eficientes para a conservação das espécies.

“O estado de Alagoas ainda não dispõe de uma lista estadual de espécies ameaçadas. Isso permitiria que as ações de conservação fossem elaboradas considerando o cenário local. Além disso, é necessário continuar a mapear a ocorrência do fungo Batrachochytrium dendrobatidis, que é patogênico para os anfíbios e investigar se há ocorrência de Ophidiomyces ophiodiicola, fungo que acomete as serpentes na América do Norte” aponta.