Docente do Instituto de Matemática será palestrante em Harvard

Evento acontece nesta sexta (26); professor Abraão Mendes será um dos palestrantes no Seminário de Relatividade Geral
Por Jacqueline Freire - jornalista
24/02/2021 16h45 - Atualizado em 01/03/2021 às 16h25
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Professor Abraão Mendes, do Instituto de Matemática da Ufal

Convidado para participar como palestrante no Seminário de Relatividade Geral da Universidade de Harvard (MA, EUA), o professor Abraão Mendes, do Instituto de Matemática da Universidade Federal de Alagoas, colhe agora os frutos de um longo trabalho, que começou antes mesmo da sua entrada como estudante universitário. O evento, que acontece nesta sexta-feira (26) e será on-line por conta da pandemia de covid-19, marca o ápice de suas pesquisas na área da Geometria Diferencial e da Teoria da Relatividade Matemática.

Até fevereiro de 2023 o professor Abraão Mendes é bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq, Nível 2, como reconhecimento pelas pesquisas desenvolvidas nos últimos anos. Alagoano nascido na periferia de Maceió, Abraão mostra que qualquer jovem interessado e dedicado pode alcançar os seus sonhos. “Sou nascido e criado no bairro do Benedito Bentes, lugar onde resido até hoje. Sempre estudei em escola pública. Durante quatro anos eu fui um jovem envolvido com o mundo das drogas e do tráfico, tão comum na periferia de Maceió no final da década de 90. Durante este período eu parei de estudar, o que me fez ter um atraso de quatro anos em relação aos jovens da mesma idade. Por muito tempo achei que estava fadado ao fracasso. Que não havia mais chance para mim”, lembrou o professor.

Abraão se converteu ao cristianismo protestante, perdeu dois irmãos por conta da violência de Maceió e mudou de vida. Ele conta que foi somente após observar a juventude da igreja da qual fazia parte que percebeu o quanto havia perdido. “Fiz então a promessa a Deus de que iria me dedicar aos estudos e que não deixaria mais de estudar. Considero que todas as conquistas por mim alcançadas são frutos desta promessa. Nem nos meus melhores sonhos, durante os quatro anos conturbados de minha vida, eu imaginei que daria uma palestra naquela que é considerada por muitos a melhor universidade do mundo. Deus seja louvado!”, comemorou.

Ele ingressou na Universidade em 2007 no curso de bacharelado em Matemática. “Contudo, minha história na Ufal começou dois anos antes, quando eu tive a oportunidade de fazer parte de um projeto de iniciação científica júnior sob a coordenação do professor Krerley Oliveira. Através deste projeto eu pude desfrutar, pela primeira vez, de um ambiente acadêmico que somente uma universidade pode proporcionar. Fiquei encantado! Durante este período eu pude atender, como ouvinte, as aulas de duas disciplinas importantes do curso. Depois disso, não tive dúvidas, queria cursar Matemática”, revelou o professor.

Durante o curso de graduação, Abraão participou do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) por três anos consecutivos, onde recebeu o Prêmio de Excelência Acadêmica em dois deles (2008, 2009). “Meu orientador durante este período foi o professor Adán J. Corcho, um cubano radicado no Brasil que hoje se encontra na UFRJ. A saída do professor Corcho da Ufal coincidiu com a volta do professor Marcos Petrúcio Cavalcante, o qual havia se afastado para um estágio de pós-doutorado na França. Como, por questões familiares, eu havia decidido fazer o mestrado em Matemática aqui em Alagoas, fui indicado ao professor Cavalcante, que prontamente me aceitou como seu aluno de mestrado. Ao todo foram seis anos sob a orientação do professor Cavalcante (dois durante o mestrado e quatro durante o doutorado)”.

Em 2012 Abraão entrou no curso de doutorado em Matemática, feito em associação entre a Ufal e a Universidade Federal da Bahia (UFBA) .”Após ser aprovado nos exames de qualificação, recebi (através do meu orientador, professor Cavalcante) o convite do professor Fernando Marques para passar um período na renomada Universidade de Princeton, NJ, EUA. O professor Marques havia acabado de se tornar professor da Universidade de Princeton após um longo período como professor do Impa [Instituto de Matemática Pura e Aplicada] no Rio de Janeiro. Mais uma vez, eu não tive dúvidas. Passei um ano em Princeton, juntamente com minha família (esposa e filho), estudando sob a orientação do professor Marques com bolsa da Capes pelo Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior”.

Aproveitar oportunidades é mesmo uma característica do professor Abraão, que nesse período em que esteve em Princeton, escreveu um trabalho em colaboração com o professor Gregory J. Galloway, da Universidade de Miami, FL, EUA. “Ele é um dos grandes expoentes internacionais na área de Relatividade Matemática, uma subárea da Geometria Diferencial que lida com problemas oriundos da Relatividade Geral de Einstein”, afirmou.

E continua: “Após retornar de Princeton, eu defendi minha tese de doutorado em abril de 2016, a qual foi escrita sob a orientação do professor Marcos Petrúcio Cavalcante (Ufal) e a coorientação do professor Fernando Marques (Princeton University). Ainda em 2016, após uma seleção interna, minha tese de doutorado foi indicada pelo PPGMAT Ufal/UFBA para concorrer ao Prêmio Capes de Tese, escolhida pelo referido prêmio como uma das melhores teses de doutorado em matemática defendidas no ano de 2016, o que me conferiu o Prêmio de Menção Honrosa no Prêmio Capes de Tese 2017, feito este, até onde me consta, nunca antes alcançado por uma tese defendida na Ufal”.

Em maio de 2017 o professor Abraão ingressou, com muito orgulho, no quadro de professores permanentes da Universidade Federal de Alagoas. Suas lutas se transformaram assim, em conquistas. Em dezembro de 2019, após ser contemplado com uma bolsa de Professor Visitante no Exterior da Capes na modalidade Júnior, ele viajou aos Estados Unidos para um período de um ano de pós-doutorado na Universidade de Miami, sob a supervisão do professor Gregory Galloway. Como fruto deste estágio de pós-doutorado, foi escrito um artigo em parceria com os professores Gregory Galloway (Universidade de Miami) e Michael Eichmair (Universidade de Viena, Viena, Áustria), o qual foi aceito para publicação na renomada revista Communications in Mathematical Physics.