HU faz transplante com material das fezes para tratamento de doenças

Alternativa faz parte de uma pesquisa realizada no primeiro laboratório de microbiota do Nordeste, implantado na Ufal
Por Manuella Soares - jornalista
10/09/2021 09h09 - Atualizado em 10/09/2021 às 15h49
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Equipe do HU que realiza transplante de Microbiota Intestinal

Os pacientes de doença inflamatória intestinal já podem ter esperança num tratamento realizado no Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (Hupaa): o Transplante de Microbiota Intestinal (TMI). Uma equipe multiprofissional liderada pelo professor e médico Manoel Álvaro já realizou seis intervenções no HU como fase inicial de um grande estudo a partir do repositório de material biológico, no caso, as fezes.

“Estamos fazendo o seguimento dos pacientes com muito cuidado, conversando bastante e acompanhando de perto os desdobramentos dessa alternativa de tratamento. Não podemos ainda dizer qualquer resultado, pois seria precipitado e toda pesquisa vem com otimismo seguido de ética e precaução”, salienta o médico.

De acordo com Manoel Álvaro, essa linha de pesquisa é uma das mais exploradas no mundo e uma das mais estudadas. Atualmente, o transplante de microbiota está consolidado para o tratamento da colite psudomenbranosa de repetição, ou seja, infecção por uma bactéria denominada Clostridium Difficile, responsável por centenas de mortes em pacientes internados nos hospitais há longa data, principalmente os mais idosos.

“Outras doenças a exemplo da obesidade mórbida, diabetes tipo 2, síndrome do intestino irritável, doença inflamatória intestinal [retocolite ulcerativa e Doença de Crohn], autismo, depressão, e parkinson, também podem ser tratadas através desta alternativa, porém, ainda não é um consenso. E esse é um dos nossos objetivos: realizar, futuramente, esta opção nessas outras afecções”, adianta.

A equipe está otimista com os primeiros passos já dados no HU. O tratamento promete ser um divisor de águas para os pacientes que podem deixar de tomar medicações caras, com efeitos adversos e resultados que não são totalmente eficazes.

“Me sinto honrada com essa oportunidade de estudar e participar de um projeto inovador e poder pesquisar caminhos que possam, quem sabe, trazer qualidade de vida para os pacientes portadores de doença inflamatória intestinal”, reforçou a nutricionista Júnia Meira.

A pesquisa é resultado de um projeto aprovado pelo Ministério da Saúde, em 2018, para implantação e estruturação do Instituto de Habilidades Multidisciplinar em Microbiota Intestinal (InHaMMI), na Faculdade de Medicina da Ufal (Famed). Esse é o primeiro laboratório do Nordeste que usa a metabolômica e a metagenômica como recurso para estudo do material fecal com o propósito de realizar o transplante de microbiota intestinal.

Processo criterioso

O trabalho é pensado com muita responsabilidade e cuidado. Na etapa de seleção dos doadores, a equipe se baseou no Consenso Europeu de TMI e avaliou os candidatos a partir de estilo de vida, hábito alimentar, prática de exercício físico, ausência de sintomas gastrointestinais e não utilização de antibiótico nos quatro meses que antecedem a coleta.

Em seguida, há uma análise simplificada da microbiota [metabarcoding] e teste de bactérias resistentes para então doar o material fecal. Já na etapa de seleção dos receptores, são escolhidos os pacientes portadores de doença inflamatória intestinal atendidos no ambulatório de coloproctologia do HU para realizar exames bioquímicos, metabarcoding e avaliação nutricional completa antes do transplante.

Após seleção de doador e receptor, a equipe segue para a fase de logística, recebimento, preparação e armazenamento adequado do material fecal doado. A última etapa é de orientação e preparo do paciente para receber o transplante, agendamento do TMI e monitorização de sinais e sintomas pós-TMI por até um ano.

Os pacientes selecionados são adultos, de ambos os sexos, portadores de doença inflamatória intestinal - doença de Crohn ou Retocolite Ulcerativa -, e que não estão em fase ativa grave.

“Esses pacientes têm histórico de muitos sintomas que os afastam de uma vida social plena, como poder se alimentar livremente, por ter muitas restrições na rotina alimentar impostas pela doença. O sofrimento dos nossos pacientes sempre trouxe incômodo nas minhas conversas com doutor Manoel Álvaro. O que temos para o futuro no tratamento da doença inflamatória intestinal ainda é incerto, mas com certeza estudar a possibilidade de um tratamento para o futuro nos impulsiona”, destacou Júnia.

Fazendo história

O InHaMMI é coordenado pelo professor Manoel Álvaro e a equipe multidisciplinar é composta pela nutricionista Júnia Meira e os médicos Lucas Lins, João Otávio e Diogo Jatobá. Também fazem parte os pesquisadores do Instituto de Química e Biotecnologia (IQB) Thiago Aquino, Alessandre Crispim; a pesquisadora do instituto de Ciências Biológicas (ICBS) Fernanda Maranhão; o professor Jorge Arthur (Famed); as enfermeiras Marianna Tavares, Elaine Moura, além da equipe de apoio do Centro de Endoscopia Marta Trindade, Alex Melo e João Muniz; da técnica farmacêutica Cláudia Costa, e dos alunos de iniciação em científica. 

O líder dessa equipe entra para a história, mais uma vez, como pioneiro. Manoel Álvaro foi o primeiro pesquisador da Ufal, junto com o professor Luís Caetano, a ter uma patente internacional com a criação da pomada para o tratamento do HPV.

“Todos juntos fizemos acontecer! Nos sentimos orgulhosos em ser pesquisadores numa realidade difícil, onde todos os dias são desafiantes para aqueles que fazem a ciência com seriedade e responsabilidade”.