Ufal 60 anos: O Movimento Estudantil e as lições de participação política

Na série de reportagens sobre os 60 anos da Ufal, entrevistamos alguns líderes do movimento estudantil, entre eles, o jornalista Edberto Ticianeli
Por Lenilda Luna - jornalista
03/02/2021 14h31 - Atualizado em 03/02/2021 às 14h34
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Reunião do DCE com CAs no Restaurante Universitário em 1981 (Foto Josival Monteiro)

Nas seis décadas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), para além da educação acadêmica e científica, a instituição promoveu também a formação política e cidadã de muitos líderes da política alagoana, por meio da participação no ativo movimento estudantil organizado em centros e departamentos acadêmicos (CAs e DAs), Diretório Central dos Estudantes (DCE) e a representação local da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Uma dessas reconhecidas lideranças é o jornalista Edberto Ticianeli, que cursou Engenharia Civil na Ufal, no final da década de 1970. Ticianeli nasceu em uma família militante, que resistiu à Ditadura Militar. “Sou filho de um militante do PCB que foi preso em 1964. Nossa casa era invadida a qualquer hora do dia ou da noite. Criei-me neste ambiente politizado e de revolta contra o autoritarismo. Isso me levou a participar dos movimentos políticos muito cedo”, relatou Ticianeli.

Mesmo antes de entrar na Ufal, Ticianeli já participava das grandes manifestações nacionais que ecoavam em Alagoas, apesar da censura e das dificuldades de comunicação da época. “Quando mataram o estudante secundarista Edson Luís, no Rio de Janeiro, no final de março de 1968, aconteceram manifestações em Maceió. Eu estava entre os que participaram da tomada da Praça Deodoro”, relembrou o jornalista.

Quando iniciou o curso de Engenharia Civil na Ufal, em 1975, Ticianeli já tinha uma atuação reconhecida. “Naquela época, o decreto-lei nº 477 impedia qualquer atividade política no âmbito universitário. Foi quando vi nos jornais que existiam os Departamentos Universitários nos partidos políticos (MDB e Arena). Fui ler sobre o assunto e percebi que uma organização como aquela poderia ser a forma de legalizar iniciativas políticas na universidade”, contou.

Em meados de 1976, junto com um grupo liderado por Cleto Falcão, foi realizada uma assembleia para formalizar o departamento universitário do MDB e Ticianeli foi escolhido presidente. “Foi a partir deste departamento que começamos a formar núcleos estudantis mais progressistas. É importante lembrar que pouco antes, em 1973, houve a queda do Partido Comunista Revolucionário (PCR) e as prisões das principais lideranças estudantis da época”, lembrou Ticianeli, remetendo, entre outras lideranças, a prisão de Manoel Lisboa, estudante de Medicina da Ufal, que foi preso e assassinado em 4 de setembro de 1973.

A partir de 1977, o PCdoB já estava reorganizado em Alagoas e conquistou várias entidades estudantis. “Fui eleito presidente do Diretório Acadêmico da Área de Exatas, no início de 1978. A partir daí surgiram também algumas tarefas nacionais. Vivia-se o processo de reconstrução da UNE e do próprio Movimento Estudantil (ME) em alguns estados. Voltei a dirigir uma entidade, em 1981, quando fui escolhido pelos colegas para o Diretório Central dos Estudantes da Ufal. No final do ano seguinte fui eleito vereador de Maceió”, relatou Ticianeli.

As lições de resistência ao autoritarismo

Edberto Ticianeli enfatiza que a principal conquista deste período foi a quebra da postura autoritária que tomou conta do ensino superior durante o regime militar. “Em Alagoas, essas manifestações foram maiores por se ter, durante um período, um general na Reitoria. Não se podia realizar nada na Ufal sem um processo burocrático de autorizações. A apresentação de um simples show musical num pátio exigia uma semana de peregrinações em busca de assinaturas”, relembrou Ticianeli.

Ele conta como os estudantes encararam a situação. “Resolvemos enfrentar tudo isso e não mais solicitar estas permissões. Da mesma forma fizemos com as entidades estudantis (DCE e três DA’s). Passamos a construir ou a reativar Centros Acadêmicos por curso, mesmo sem o reconhecimento da Reitoria, que somente depois aceitou essa realidade. A cereja desse bolo foi a retomada dos Festivais de Música, a partir de 1981, quando a luta contra a censura extrapolou os muros do campus. Vencemos esta também e o DCE da Ufal foi a única entidade estudantil da história do país a lançar um LP com as músicas vencedoras de um festival”, celebrou Ticianeli.

As lições para a vida

Edberto Ticianeli destaca que a participação no movimento estudantil influenciou decisivamente toda a trajetória dele. “Foi no movimento estudantil que eduquei o pensamento político para enfrentar conflitos. Liderar uma assembleia de estudantes, com várias correntes de pensamento, não é uma tarefa simples. Nas salas de aulas, nas reuniões e nas ruas exercitei como falar em público. Nestes mesmos locais também aprendi com os grandes oradores que se formaram nessa escola política”, destacou o jornalista.

O interesse do estudante de Engenharia Civil pelo jornalismo e pela História também decorre dessa participação ativa nas atividades políticas estudantis. “Dei os primeiros passos, ainda trôpegos, na produção de um jornal. Escrever textos diagramados em stencil para rodar em mimeógrafos era um exercício que poucos conseguiam realizar. Importante registrar: aprendi também a consertar mimeógrafos que teimavam em quebrar às 3h da madrugada”, recordou Ticianeli.

Mas, entre os vários aprendizados da época, Edberto Ticianeli ressalta o mais importante. “O principal legado de quem participou do Movimento Estudantil no período de enfrentamento ao autoritarismo são os valores democráticos, de respeito à vontade da maioria, de saber ouvir e aprender com as manifestações contrárias. Fui eleito vereador em 1982 por defender a liberdade e por praticar a democracia. Ainda hoje me esforço para manter vivos estes mesmos valores herdados do Movimento Estudantil”, finalizou o ex-estudante da Ufal da década de 1970.