Boletim do Observatório da Covid-19 é referência para decisões de gestores

Professor Gabriel Badue avalia os resultados destes seis meses de trabalho
Por Lenilda Luna - jornalista
09/02/2021 14h05
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Professor Gabriel Badue integra a equipe do Observatório

O Observatório Alagoano de Políticas Públicas para Enfrentamento da Covid-19 (OAPPEC) surgiu no início da pandemia, entre abril e maio de 2020, reunindo um grupo de pesquisadores de várias áreas. O objetivo principal é o desenvolvimento de pesquisas para fornecer dados com base científica, tanto para manter a sociedade bem informada sobre a referida situação, bem como as medidas relacionadas ao enfrentamento da doença, além de auxiliar os gestores públicos na tomada de decisões.

“Estávamos realizando as pesquisas de forma autônoma, mas surgiu uma demanda do poder público para elaborar uma estratégia de distanciamento social controlado. A partir daí foram surgindo trabalhos conjuntos que se tornaram consistentes”, avaliou Gabriel Badue, pesquisador que integra o Observatório.

O grupo vem desenvolvendo um trabalho multidisciplinar, não só com pesquisadores de Saúde e Epidemiologia, mas também com o apoio de especialistas em Matemática, Computação, Economia, Ciências Sociais e Psicologia. “A proposta é trabalhar em várias vertentes, para colaborar com a definição de políticas públicas que estão sendo aplicadas no enfrentamento da pandemia de covid-19 no âmbito do estado de Alagoas”, esclareceu o pesquisador.

Badue destaca que o objetivo principal do Observatório é o desenvolvimento de pesquisas para fornecer dados científicos. “Realizamos análises contextuais da pandemia que são divulgadas tanto por meio de artigos científicos como por relatórios publicados para informar a população da situação da pandemia e das medidas relacionadas ao enfrentamento da situação e também auxiliar os gestores públicos na tomada de decisões”, ressaltou.

O boletim semanal

Dentre as propostas que foram estabelecidas no planejamento do Observatório está o acompanhamento epidemiológico da pandemia aqui no Estado. “Conseguimos uma constância que vem se mantendo nesses mais de seis meses, desde o primeiro relatório divulgado no final de junho. Temos feito uma avaliação positiva dessa divulgação semanal que tem servido de referência para a sociedade, a imprensa e os gestores públicos”, destacou Badue.

De fato, o Boletim da semana epidemiológica tem sido um instrumento bastante utilizado por gestores e pela imprensa e que serve de parâmetro para parte da população orientar suas ações, além de alertar para as possibilidades e riscos em cada estratégia nesta batalha que estamos enfrentando contra a Covid-19. “O Observatório está entre as ações de Extensão da Ufal que tem servido a esse papel de relação entre a Universidade e a sociedade, dentro desse tripé de Ensino, Pesquisa e Extensão”, avaliou o professor.

A importância do SUS

No Brasil, os casos de covid-19 começaram a ser registrados no final de janeiro de 2020 e, em Alagoas, o primeiro caso detectado foi no início de março. “Nesse quase um ano que nós vivemos a pandemia da covid-19, infelizmente já perdemos mais de 220 mil vidas no Brasil e mais de 2 milhões no mundo. Quando a gente faz uma avaliação dessas proporções, percebe que o Brasil está entre os países mais afetados. Temos cerca de 10% das mortes mundiais, mas a nossa população corresponde a 2% ou 3% dos habitantes do mundo”, explicou o pesquisador.

Na avaliação desse cenário, entre outras questões, destaca-se a importância do Sistema Único de Saúde (SUS). “O SUS foi fundamental para o enfrentamento da pandemia, apesar de todo o (des)governo e a desarticulação que estamos vivendo, justamente quando precisamos de ações bem planejadas e centralizadas. Se não fosse o Sistema Único de Saúde, certamente a situação brasileira seria muito pior. Esse aprendizado coletivo sobre a necessidade dessa articulação nacional para a garantia da Saúde Pública foi o aspecto positivo deste período tão difícil”, ponderou Badue.

Para o âmbito de Alagoas, o professor considera que foi uma ação muito importante do governo estadual de ampliação de leitos hospitalares para o atendimento dos casos de covid-19, especialmente os casos mais graves. “Alagoas foi um dos estados que até esse momento não teve uma saturação dos leitos públicos de UTI. Isso se deve a um trabalho conjunto dos gestores municipais e governo estadual”, avaliou o pesquisador.

Segundo Badue, o ponto negativo em Alagoas é a baixa quantidade de testagem. “Numa avaliação da estratégia de enfrentamento a epidemia, poderíamos ter privilegiado a atenção básica de Saúde e ampliar a testagem para garantir a preservação de mais vidas, enquanto buscamos alcançar a imunização coletiva por meio da ampla vacinação, embora nessa questão da distribuição das vacinas, estejamos enfrentando as consequências da falta de planejamento do governo federal”, destacou o pesquisador.

A abertura das escolas

Gabriel Badue pondera que o sistema educacional foi um dos setores mais afetados ao longo de 2020, com impacto ainda imensurável sobre nossas crianças e jovens. “Ao longo dos próximos anos, os pesquisadores em Educação e Psicologia ainda vão avaliar o quanto a suspensão das escolas foi prejudicial para adultos e jovens. Mas foi necessário para salvar vidas. A escola é um ponto de aglomeração de pessoas e foi preciso naquele momento, tomar a decisão de fechar”, considerou o professor.

A retomada das aulas presenciais, ou do chamado sistema híbrido, está sendo discutida por educadores e epidemiologistas desde o ano passado. “Tem que ser feita de forma gradual, com um plano muito bem elaborado, com estratégias de monitoramento e rastreios de contágio. Porque, sem dúvida, a escola, assim como outros ambientes coletivos, tipo bares, shoppings e restaurantes, que estão funcionando já há alguns meses, são pontos com risco de contágio. É preciso reconhecer que as crianças, os professores, os funcionários das escolas, todos estarão em risco”, alertou Badue.

Para tentar minimizar as possibilidades de transmissão do vírus o máximo possível, na volta às aulas, Badue ressalta a necessidade de monitoramento. “A retomada das aulas não pode ser assoberbada. Tem que ser gradativa e obedecer a um plano com critérios epidemiológicos. Um exemplo é um documento divulgado ano passado pelo Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, onde são apontados alguns indicadores para parametrizar a retomada das atividades de ensino. Entre eles, nessa matriz de referência, há uma margem de segurança para definir quando os riscos são altos. É preciso levar em conta sempre a preservação da vida de todos que estão na escola”, destacou.

Cuidados coletivos

Apesar das vacinas já desenvolvidas, ainda vai demorar um pouco para que a população esteja imunizada. Desta forma, Badue ressalta que não se pode descuidar dos protocolos de segurança sanitária. “Depois do final de ano, estamos observando um aumento gradativo na transmissão, com aumento do número de infectados e de óbitos. Nesse mês de janeiro, além da movimentação turística e festas, também tivemos o Enem, com aglomeração de jovens. É preciso ficar atento aos impactos disso nas próximas semanas. Temos uma perspectiva de aumento, nesse momento em que estamos apenas iniciando a vacinação”, alertou o pesquisador.

Os cuidados coletivos ainda são muito necessários. “Só poderemos mudar essa situação com a colaboração de toda a população. É preciso ter essa consciência. O Estado tem o seu papel, que está sendo cumprido com acertos e erros, mas a sociedade tem que se engajar. Enquanto não atingirmos a imunização coletiva, não podemos relaxar com os cuidados e o distanciamento social. Temos que continuar usando máscaras e higienizando com frequência as mãos”, orientou Badue.