Professor destaca Setembro Amarelo na atenção à realidade do suicídio

“O suicídio não é somente uma questão legal, religiosa ou moral. É também uma questão vital e uma das possibilidades humanas com a qual cada ser humano teve ou terá que se defrontar algum dia”, diz o professor Charles Lang.
Por Diana Monteiro - jornalista
08/09/2020 17h29 - Atualizado em 08/09/2020 às 18h22
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Professor Charles Lang

O Brasil registra anualmente cerca de 12 mil suicídios, e no mundo, a cada ano, o número de casos passa de um milhão. Quase cem por cento dos suicídios estão relacionados a transtornos mentais; e na liderança, está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias.

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), organiza, nacionalmente, desde 2014, o evento Setembro Amarelo, com objetivo de prevenir e reduzir o número de casos, assim como também fazer mudanças na triste realidade, que registra índice crescente principalmente entre os jovens.

A Universidade Federal de Alagoas, enquanto instituição de ensino, está engajada na campanha, deflagrada nacionalmente, e que tem o dia 10 de setembro instituído como o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio com a finalidade de chamar a atenção para a importante temática.

O pesquisador Charles Elias Lang destaca que a cada setembro os psicólogos reencontram o Setembro e o Amarelo, e uma das duas grandes paredes na profissão: o suicídio. “Se a loucura humana explicita o sequestro da mente e visibiliza a miséria da vida psíquica, a tentativa de suicídio e o suicídio irrompem na estabilidade a liberdade perdida,  a precarização e o fim da vida”, diz.

Doutor em Psicologia Clínica e docente do curso de Psicologia da Ufal, Charles complementa: “No Setembro Amarelo lembramos que a possibilidade de tomar a vida nas próprias mãos é um ato de liberdade humana, o último ato de liberdade humana pois, se bem-sucedido implica na abolição de todos os atos humanos futuros. Mas também lembramos que o suicídio é uma espécie de mecanismo de segurança implantado sem nossa liberdade, a garantia de que, se a vida física ou moral se tornou insuportável, podemos sair batendo a porta, como o disse Mário Quintana”, enfatiza.

A Ufal oferta desde 1993 o curso de Psicologia que tem como focos de formação profissional a Psicologia e Saúde e Psicologia e Processos Socioculturais. O curso tem como  finalidade preparar profissionais aptos a atuarem em organizações governamentais e não-governamentais, centros comunitários, movimentos sociais, empresas e indústrias, assim como em instituições educacionais, de saúde e de pesquisas.  

Supervisor também de estágios em Psicologia Clínica e docente permanente  do Mestrado em Psicologia, Charles Lang destaca que na formação dos psicólogos a questão do suicídio é francamente discutida,  pelo menos até o ponto em que cada professor ou aluno consegue suportá-la.  “Para os psicólogos, o suicídio não é somente uma questão legal, religiosa ou moral mas, também uma questão vital e uma das possibilidades humanas com a qual cada ser humano teve ou terá que se defrontar algum dia. O modo predominante de enfrentamento são as fantasias de suicídio e pequenos atos cotidianos e imperceptíveis, que acompanham o correr de uma existência. Seja na exposição sistemática e metódica a riscos, seja nas intoxicações, seja nos atos que negam a existência da morte,  justamente os que velam o desejo de morte”.

O pesquisador explica que a consciência da morte e da mortalidade é conquistada por cada um  antes do final da primeira década de vida. A próxima década tem como uma de suas tarefas a elaboração da responsabilidade de cada um pela sua vida e pela sua existência e, cujo resultado esperado, é a entrada na idade adulta. Assim, enfatiza Charles, a adolescência tornou-se o período vital no qual nós, os ocidentais, temos que realizar um trabalho com a vida, com a morte, com a liberdade e a possibilidade de tirarmos a própria vida e desistirmos, ou superarmos os restos da infância e seguirmos adiante.

“Há um número considerável de adolescentes que sucumbem, e as estatísticas mostram o crescendo de suicídios na curva que começa entre o final desta década e o final da próxima. São coisas que os psicólogos em formação vão aprendendo com a psicologia social, com a psicologia do desenvolvimento, com a psicologia da personalidade, com a psicopatologia, com a psicologia clínica. São questões que os psicólogos em formação escutam de seus pacientes nos estágios”, diz.

A fala trata, a fala cura

O suicídio não é um tabu para os estudantes de Psicologia, nem para os psicólogos. É assunto que comparece espontaneamente quando a escuta está aberta para tudo aquilo que se quiser dizer, é assunto que leva a procurar um psicólogo, quando a maioria das pessoas não quer mais ouvir ou não quer saber mais de prestar atenção.“A maioria implicada sempre procura alguém para falar do assunto e, mesmo que este alguém procurado não seja um profissional, mas esteja disposto a escutar e dar atenção, a fala pode prosseguir e o ato pode ser postergado ou superado. Nos casos em que aquele que não pode ouvir tem um bom senso de indicar um outro, ou mesmo um bom profissional, o resultado é o mesmo: a fala trata, cura, a fala permite que o horror da existência possa ser investido num nível consequente, e daí o sofrimento pode ser suportado”.

Mas, segundo Charles Lang, há aqueles que os impasses da existência, sejam passados e pretéritos, superam. Estes são a minoria. Em geral não socializam seu desespero, não compartilham o impasse absoluto. Perdem-se sem apelo, sem palavras. Tornam-se puro ato. Contextualiza essa realidade citando o "caduceu", que pode ser um símbolo para a vida e morte, que se fundem e se separam. “O caduceu é um bastão em torno do qual se entrelaçam duas serpentes e cuja parte superior é adornada com asas. Estas duas serpentes opostas figuram forças contrárias que podem se associar, mas não se confundir. De igual modo, um símbolo para o tempo. Uma das serpentes é o tempo linear, o tempo em que a coisa tem início, existência e o fim, em que há o presente, mas também o passado e o futuro. A outra serpente é o tempo circular, o tempo em que as coisas retornam e se repetem: o fim de semana, o final do ano, as estações”.

Segundo o pesquisador, como no "caduceu", há aqueles que estão no trabalho com a vida e com a morte, que tentam equilibrar as forças à sombra da garantia acolhedora de que assumir a vida é uma possibilidade e desistir da vida é a outra, que não precisamos suportar tudo todo o tempo. Mas há outros para os quais a vida se tornou, simplesmente, impossível e a morte surge-lhes como a única e a última possibilidade. E aproveita para reforçar a importância do significado do Setembro Amarelo:  “O Setembro Amarelo é novamente ocasião para lembramos disso, que a morte não é somente parte do tempo linear, mas que ela habita esse tempo circular em que, a cada instante temos, que equilibrar forças vitais e forças mortais; vida e morte lutam e pequeníssimas desistências, pequeníssimos adiamentos portam pequenos suicídios”, finaliza Charles Lang.