Projeto da Ufal desperta interesse de meninas pelas ciências exatas

Iniciativa, formada só por mulheres, promove atividades científicas com estudantes de escolas públicas de Maceió e Arapiraca
Por Thâmara Gonzaga - jornalista
13/07/2020 13h10 - Atualizado em 13/07/2020 às 15h14

Em diferentes épocas e de muitas formas, as mulheres foram impedidas de exercer uma série de funções pelo simples fato de ser mulher. Trabalhar fora, estudar, votar, dedicar-se às artes ou à ciência, por exemplo, eram atividades proibidas. A função exclusiva era cuidar do lar e da família.

Mas sempre houve as que ousaram ir além, mostrando que, assim como administrar a casa e educar os filhos, é possível também escolher realizar outras atividades. E é para apresentar a carreira acadêmica como uma das opções de profissão a seguir que um projeto do Instituto de Matemática (IM) da Ufal, formado só por mulheres, promove ações para despertar o interesse das jovens de escolas públicas pela área de exatas.

Coordenado pela professora e vice-diretora do IM, Juliana Lima, com o apoio de graduandas de iniciação científica da Universidade e de professoras das escolas participantes, mensalmente, são realizadas atividades experimentais, com jogos e montagens de protótipos, para meninas do ensino fundamental e médio da rede pública de Alagoas.

As tarefas são ligadas à matemática, física, química, engenharia e computação, fazendo as ciências exatas aparecerem no dia a dia. “A ideia é levar experimentos incríveis e mostrar que as cientistas que apresentam as atividades a elas são mulheres. Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive sendo cientista”, destaca a coordenadora.

Iniciando com cinco escolas em Maceió, atualmente, o projeto contempla também três unidades de ensino em Arapiraca. “Desde o início, foi recebido de portas abertas pelas direções das escolas que, em sua maioria mulheres, sabem o quanto é importante a luta pela igualdade e equidade de gênero na nossa sociedade”, afirma Juliana Lima.

Meninas gostando de exatas

A coordenadora declara que as atividades já vêm mudando a percepção das estudantes: “As meninas e as professoras estão mais empoderadas e apaixonadas pelas exatas como nunca. O ganho é totalmente visível. Isso é um orgulho para mim e para as outras professoras que colaboram”, comemora Juliana.

Ao relatar sobre os estímulos proporcionados pelo projeto, mostrando como a matemática faz parte do cotidiano de qualquer pessoa, a docente chama atenção para o que, geralmente, ocorre com meninos e meninas ainda na infância. “A diferença já começa, muitas vezes, dentro da nossa família, quando meninos ganham os mais diversos brinquedos que o incentivam a ser super-heróis, engenheiros, cientistas. Enquanto as meninas ganham brinquedos como bonecas e eletrodomésticos em miniatura”, diz a pesquisadora. Ela faz questão de ressaltar que não há nada de errado com os brinquedos, mas é importante que a menina também seja incentivada a ser uma super-heroína, engenheira e cientista. “Nós não somos apenas esforçadas, temos a mesma capacidade que os meninos têm, nem mais, nem menos. Iguais”, defende.

Para exemplificar, ela conta com orgulho que há alunas participantes, do sexto ano do fundamental, que já aprenderam a fazer ligação elétrica na construção de luminárias em uma das atividades. “Elas compreenderam o que são ligações em série e paralelo, objetos de física estudados, no mínimo, no ensino médio. Elas se saíram espetacularmente bem”, diz. E é justamente isto a que o projeto se propõe, defende a professora: deixar explícita a capacidade delas. “Mostramos que elas podem ser cientistas ou qualquer coisa que sonharem ser”, afirma.

Mulheres inspirando outras mulheres

Na verdade, eu não sei medir nem definir o tamanho da importância de um projeto como esse que o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico], junto com o Ministério da Tecnologia, nos deu como oportunidade de liderar”, diz Juliana Lima. A proposta foi selecionada em primeiro lugar na Chamada Pública CNPq/MCTIC, nº 31/2018, Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e Computação.

A reflexão da pesquisadora é feita diante da realidade de que muitas meninas ainda não têm nem a oportunidade de saber que existe a carreira acadêmica. Por isso, ela afirma a necessidade de mais ações que as incentivem a gostar das áreas de exatas e tecnologias.

A última pesquisa feita pelo Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira], em 2017, mostra que apenas 15% dos jovens que fazem cursos nas áreas de exatas são do gênero feminino”, aponta a pesquisadora. “Ações nesse sentido, ainda hoje, infelizmente, são de fundamental importância para incentivá-las a seguirem carreira nessas profissões, mas crucial também na reconstrução de uma sociedade igualitária e justa para todos os gêneros”, justifica.

Com todas atividades planejadas e executadas por mulheres, a docente destaca a participação das graduandas de iniciação científica da Ufal e a importância do envolvimento delas. São mais de 30 estudantes, de vários cursos, envolvidas com as tarefas. “Sinto-me um pouco mãe de todas elas. São minhas bebês acadêmicas. São elas que tiram o sonho do papel e, com toda responsabilidade, qualidade e doçura que as mulheres têm, vão até as escolas aplicar o trabalho que fazemos juntas na Ufal", diz a professora.

Quando elaborou o projeto, além de buscar estimular o gosto pela área dos cálculos matemáticos, Juliana Lima também pensou na importância de mostrar mulheres inspirando outras mulheres. “Além do machismo que nos deparamos, muitas vezes, desde nossa criação, vivemos numa sociedade que alimenta a doença da competição entre mulheres, como se uma fosse inimiga da outra”, reflete.

A docente relata que trabalha com as estudantes da Ufal e das escolas públicas a definição de sororidade: umas apoiando e torcendo pelo sucesso de outras. “Mulheres de verdade são companheiras, leais e verdadeiras umas com as outras. Não precisamos competir por um homem, por uma profissão, por nada. E quando isso for claro e finalizado entre nós mulheres, o machismo tomará proporções esdrúxulas e juntas vamos erradicá-lo”, acredita.

Pesquisadora na área de Topologia Algébrica, com mestrado, doutorado e três pós-doutorados, todos em Matemática Pura, a docente da Ufal se orgulha do projeto que coordena, mas sonha com o dia em que não seja mais preciso iniciativas semelhantes. “Explicar que a mulher é forte, capaz e brilhante como todos são, pra mim, é explicar o óbvio. Então, vê como é doente uma sociedade que, em pleno século 21, temos que explicar o óbvio? ”, questiona a professora.