Portador de ELA faz mestrado na Ufal e colabora com pesquisas

Médico Hemerson Casado participa de estudos com células tronco no Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde e conta sobre suas motivações
Por Manuella Soares - jornalista
12/06/2020 17h52 - Atualizado em 12/06/2020 às 17h54
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Médico Hemerson Casado, portador da ELA e aluno de mestrado da Ufal

De incentivador a pesquisador. A busca por conhecimentos e informações novas não tem limite para Hemerson Casado, médico, portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e referência de ativismo para pessoas com patologias raras. Agora ele é aluno do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Ufal e se junta aos pesquisadores mais renomados do Estado de Alagoas em busca de encontrar respostas e caminhos para avanços referentes à doença.

“Eu acho muito importante para mim, como profissional médico, poder fazer algo que está diretamente relacionado com a medicina, a ciência e a minha doença. Eu também acho que como um ativista contra as doenças raras, como a ELA, fazer um mestrado, serve de exemplo para todos nós, dentro do Laboratório de Inovação Farmacológica [Laif] do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde [ICBS], para a comunidade científica e médica, para toda a população de pacientes com doenças raras e também os portadores de necessidades especiais, que têm limitações físicas e cognitivas, além da comunidade em geral de Alagoas, do Brasil e, por que não dizer, mundial”, ressaltou Casado.

O médico está envolvido numa pesquisa que tem como objetivo investigar novas estratégias terapêuticas para a ELA, doença degenerativa que afeta o sistema nervoso, utilizando estudos in vitro com células-tronco pluripotente induzidas (iPSCs), do inglês induced pluripotent stem cells. O estudo é o carro-chefe do laboratório inaugurando em outubro do ano passado e que contou com investimentos do Ministério da Saúde, da Fapeal e apoio do Instituto Hemerson Casado Gama.

“Hemerson está muito envolvido com as pesquisas e com a rotina de um laboratório de pesquisa. Ainda mais nos dias de hoje, onde muitas demandas são tratadas remotamente com a ajuda de um computador conectado à internet”, destacou o professor Marcelo Duzzioni, coordenador do Laif, sobre a contribuição do aluno que se comunica por meio de um dispositivo num computador e acionado pelos olhos.

Dificuldades na pandemia e perspectivas

O projeto que trata sobre a ELA, pioneiro no uso de células tronco no Estado, busca fármacos alternativos para o tratamento, uma vez que a doença não tem cura e o medicamento distribuído pelo SUS melhora a expectativa de vida dos pacientes em apenas três a cinco meses. Mesmo canalizando esforços para avançar nos estudos, Casado conta que a pandemia de covid-19 trouxe impactos negativos para a pesquisa.

“Tivemos muita dificuldade, desde a vinda das células tronco, que seriam utilizadas nos testes com os medicamentos, na busca por uma droga que seja efetiva contra a ELA, além dos recursos do Ministério da Saúde, que deveriam ser destinados para a compra de insumos e para o pagamento das bolsas de estudos para os alunos da graduação e da pós graduação”, afirmou.

O médico ativista e aluno da Ufal reforça a importância e o mérito do Laif em focar as pesquisas na ELA, que assim como outras doenças raras, despertam pouco interesse entre os cientistas do Brasil. Segundo ele, um dos motivos é o baixo incentivo com recursos públicos e privados. “No cenário internacional, a situação é muito diferente, pois existem os investimentos governamentais e os privados, além disso, muitos provenientes das entidades filantrópicas”, disse.

Atualmente, o laboratório utiliza células tronco de pacientes com ELA cedidas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mas os pesquisadores adiantam que a proposta é começar a fazer o próprio cultivo dessas células. O Laif também iniciou outras duas pesquisas que focam no diagnóstico precoce da doença e no melhor entendimento da fisiopatologia dela.

“Eu tenho a exata noção da minha responsabilidade ao participar de um projeto tão audacioso e único do Brasil e do mundo, desde os tempos do astrofísico Stephen Hawking, quando fez o seu mestrado e doutorado”, enfatizou Casado, citando o exemplo do cientista que é uma referência para ele.

Exemplo e inspiração

O Programa de Pós-graduação em Saúde da Ufal ganhou mais do que a contribuição intelectual de Hemerson Casado. A história de vida e de superação do médico cardiologista, diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica desde 2012, é capaz de mudar paradigmas.

“Em qualquer programa, ter pessoas com deficiência é um grande desafio, pois muitas vezes não estamos preparados para atender as demandas exigidas. Mas, ao longo dos últimos anos, presenciamos avanços nos direitos das pessoas com deficiência [PCDs], inclusive nas políticas de inclusão no ensino superior e na pós-graduação. Ao tempo que comemoramos os avanços, devemos lutar por mais melhorias. Ter um aluno como o Hemerson em qualquer programa é um privilégio, pois é um exemplo de luta e de esperança. De não ficar na zona de conforto ou aceitar simplesmente os fatos como são. Acredito que isso motiva os colegas”, enalteceu o coordenador Duzzioni, entusiasta da causa.

E é por depoimentos como este que o médico revela ser estimulado a buscar, incessantemente, a esperança nas pesquisas. “É imensa a satisfação o fato de poder ser fonte de inspiração para os meus parentes mais próximos, o meu legado para os meus filhos, para os outros pacientes com ELA e os seus familiares e profissionais da área da saúde, que estão envolvidos com a doença e também a população em geral. Que num futuro próximo, tenhamos mais pesquisadores e docentes para fortalecer o exército de enfrentamento das doenças raras, como a ELA”, relatou Hemerson Casado.

E continua, explicando suas motivações que se baseiam na ciência, mas também na fé: “Tenho que manter o meu ânimo elevado, para continuar firme nos meus projetos. Espero que o meu bom Deus que me dê forças e saúde para seguir em frente, e que o meu exemplo inspire outras pessoas”.