Compartilhamento de artigos científicos no Twitter é foco de estudo científico da Ufal

Pesquisa busca analisar dados referentes à formação de redes de comunidades de atenção
Por Janyelle Vieira - estagiária de Jornalismo
30/06/2020 15h07 - Atualizado em 30/06/2020 às 16h16
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O Twitter é configurado, diversas vezes, como uma rede social mobilizadora e que hospeda variadas ações de conscientização. Entre essas, têm sido comum a disseminação de artigos científicos como medida de informação e engajamento.

Neste contexto, abre-se caminho para perguntas como: quem compartilha artigos científicos nessa mídia social? Para quem são recomendados? Quem reproduz mensagens com este tipo de compartilhamento? Qual o contexto dessas mensagens, recomendações e reproduções? A partir de tais questionamentos, o professor do curso de Biblioteconomia Ronaldo Ferreira Araújo se propôs a investigar e analisar a formação de redes de comunidades de atenção mapeando a circulação de artigos científicos no Twitter.

A partir de um estudo de caso, foi investigada a repercussão do artigo ‘Tratamento farmacológico da obesidade’ da revista "Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia" (indexada na SciELO) por ser o mais disseminado no Twitter no período investigado. O pesquisador propôs uma análise qualitativa para compreensão do perfil dos usuários que compartilhavam o artigo, o perfil dos usuários para quem o artigo era recomendado e o contexto de sua disseminação.

“Pesquisas desenvolvidas com esse tipo de abordagem são cada vez mais necessárias pois sinalizam a preocupação de estudiosos do campo da altmetria (área que analisa a disseminação de resultados de pesquisa nas redes sociais) em contribuir com a análise e investigação de onde e como os artigos são usados e referenciados através de várias medidas de práticas informativas e de engajamento nas fontes da web social” explica Ronaldo.

O artigo Tratamento farmacológico da obesidade se apresenta como um estudo de revisão sobre os critérios de avaliação de eficácia de tratamentos antiobesidade e sobre agentes farmacológicos derivados.

De acordo com os resultados da pesquisa, foram identificados 736 tweets sobre o artigo enviado por 134 usuários do Twitter. Quanto ao perfil dos usuários, 96% são membros do público, não tendo participação de profissionais da saúde na sua circulação e discussão.

“Os usuários que compartilharam o artigo e os usuários para quem o artigo foi recomendado apresentaram perfis bastantes distintos. No primeiro caso a incidência é de perfis individuais com auto-apresentação centrada em questões pessoais. No segundo caso, os termos frequentes indicam perfis profissionais e institucionais com atuação política e descrições objetivas de sua área de atuação” explica o pesquisador.

Baseado em dados do compartilhamento ao longo do tempo analisado, o pesquisador constatou que o artigo tem sua visibilidade e atenção online mantida por seu uso estratégico como recurso de ativismo online e instrumento de digital advocacy, o que é sugerido quando mídias sociais como o Twitter são utilizadas para mobilização de partes interessadas para ações de conscientização e apoio.

“A análise da linha do tempo da atenção on-line recebida, embora espaça, corrobora com isso e é exemplificada em três momentos distintos: nos primeiros tweets (postados em 2013) os usuários se valem do artigo para dar credibilidade e conscientizar sobre a eficácia dos medicamentos e ressaltar o posicionamento de associações/sociedades especializadas a respeito da pauta; nos intermediários (em 2014) os usuários fazem “pressão popular” junto aos parlamentares pedindo apoio e voto favorável à aprovação do então Projeto de Lei nº 2431/2011 (que proibia a Agência Nacional de Vigilância Sanitária de vetar a produção e comercialização dos anorexígenos) junto a outros links externos com audiências públicas e decisões do poder judiciário contrárias ao posto no PL; nos últimos (em 2017) os usuários mencionam a Lei Ordinária nº 13454/2017 resultante do PL” relata Ronaldo Araujo.

A pesquisa foi publicada em uma das principais revistas da Ciência da Informação no mundo, a Scientometrics, que é editada pela Springer e tem índice H = 106. A publicação pode ser conferida por meio do link.

Segundo o professor Ronaldo Araújo, a pesquisa fortalece a abordagem qualitativa dos estudos altmétricos. “O campo dos estudos métricos costuma receber críticas por privilegiar abordagens quantitativas em seus estudos. Produzir conhecimento em uma área assim, sobretudo em uma disciplina nova como a altmetria, e fazê-lo por meio de uma proposta de abordagem qualitativa nos dá a sensação de contribuição com a consolidação e fortalecimento do campo. E conseguir abertura em uma das principais revistas do mundo que cobre essa temática para discutir a questão aumenta mais ainda essa sensação de realização do nosso trabalho” aponta o pesquisador.