Projeção mostra que ainda não dá para pessoas circularem normalmente

Estudo da Ufal revela que se medidas de contenção forem 'relaxadas', em pouco mais de 30 dias, Alagoas vai precisar de mais de 5.000 leitos para internar pacientes com covid-19
Por Thâmara Gonzaga - jornalista
17/04/2020 16h19 - Atualizado em 17/04/2020 às 20h28
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Pesquisadores da Ufal afirmam que se deve “descartar a hipótese de relaxar a circulação de pessoas irrestritamente durante as próximas semanas”. Photo by Ava Sol on Unsplash

Cerca de 92 mil pessoas com covid-19 necessitando de um leito hospitalar e 17 mil mortes. Uma previsão assustadora, mas que poderia se tornar realidade caso o estado de Alagoas não tivesse adotado nenhuma medida de distanciamento social, a exemplo da recomendação das pessoas ficarem em casa e do fechamento de lugares com aglomeração.

A projeção foi realizada pelo Dashboard COVID19, um grupo de pesquisadores da Ufal das áreas de Computação, Física e Matemática, que utilizou modelagem epidemiológica para estudar os aspectos da doença de maneira sistemática no Estado. Os relatórios do grupo podem ser acessados neste link.

Para chegar a esses números, considerando o dia 10 de abril como início da implementação ou não das medidas de contenção seguidas por um período de 120 dias, os pesquisadores utilizaram os modelos e as previsões do Imperial College para o Brasil (tabela 1) e adaptou as proporções brasileiras à população alagoana (tabela 2).

O estudo do grupo inglês, que serviu de base para avaliar a realidade local, foi fundamental para convencer os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido a tomarem as medidas para conter o surto do novo coronavírus em seus territórios e também pode auxiliar os gestores estaduais a se planejarem para combater a doença.

“Modelos que descrevem bem a evolução do novo vírus são uma arma importantíssima nesta batalha. Através deles, é possível compreender os riscos reais que a pandemia nos traz e traçar estratégias efetivas baseadas em dados científicos”, ressalta o professor Sérgio Lira, do Instituto de Física da Ufal, e um dos autores do estudo. Ele destaca que aqui, e no Brasil como um todo, os cientistas estão levando recursos aos governantes para que sejam utilizados nas salas de combate à covid-19.

Número de infectados versus leitos hospitalares

Uma das grandes preocupações dos profissionais e gestores da área de saúde é a rapidez da evolução do quadro clínico da doença e a demora na recuperação dos pacientes em estado grave. No estudo, os pesquisadores da Ufal projetam que um paciente pode ocupar um leito por uma média de 16 dias (esquema 1), mas há casos que exigem ainda mais tempo de internação.

Diante dessa realidade, o foco do estudo foi estimar o número de infectados e apresentar projeções de demanda de leitos normais e de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ao longo da pandemia em Alagoas.

Para fazer as simulações, eles consideraram três tipos de estratégias para combater a doença: sem mitigação (nenhuma medida é implementada), com mitigação (realiza ações para minimizar os efeitos) e supressão ou lockdown (foi aplicada em Wuhan, cidade chinesa onde teve início a pandemia), avaliando a duração e a efetividade delas na redução da sobrecarga do sistema de saúde. Também utilizaram a pirâmide etária da população alagoana para calcular as taxas de hospitalização e leitos de UTI.

Apesar da incerteza em relação ao número real de casos de covid-19 no Estado, os pesquisadores asseguram que os resultados alcançados são capazes de fornecer estimativas coerentes, uma vez que aqui já se encontra na fase de contágio comunitário.

Precisamos acreditar nas previsões dos especialistas e munir os governos com ferramentas de inteligência para derrotar a epidemia. Somente através da ciência poderemos traçar as estratégias necessárias para sair com segurança do isolamento social. Precisamos da colaboração de todos para superar este gigantesco desafio”, defende o pesquisador.

Ações de mitigação são necessárias

Em Alagoas, as primeiras medidas preventivas e de enfrentamento do novo coronavírus foram estabelecidas pelo governo estadual no dia 16 de março. Desde então, foram suspensas várias atividades, eventos e fechados os locais que pudessem aglomerar pessoas. No dia 6 deste mês, o decreto foi prorrogado.

Tais medidas fazem parte das estratégias de mitigação. Nesse caso, o estudo inglês projeta uma redução de 42% na circulação de pessoas nas cidades. De acordo com o estudo da Ufal, esse segundo cenário é semelhante ao que já se vivencia por aqui, uma vez que medidas de geolocalização indicam que, em 5 de abril, foi reduzido cerca de 49% da circulação normal de pessoas.

Mas ainda é um cenário que preocupa, tanto que o secretário estadual de Saúde, Alexandre Ayres, usou as redes sociais nessa quinta-feira (16) para alertar que “Alagoas tem o menor índice de isolamento social do Nordeste”, com uma média de 49,3%, e pedir que os alagoanos fiquem em casa para evitar a propagação da doença. A informação divulgada pelo secretário tem como base a ferramenta criada pela empresa In Loco, que monitora o movimento de pessoas durante a quarentena no Brasil. Ainda no mesmo dia, o governo estadual decretou o estado de calamidade pública em todo território alagoano.

Pelas projeções do Imperial College, com as ações de mitigação, no caso do Brasil, na situação em que 42% da circulação geral é reduzida, a fração de infectados é de 53,8%, com 1,52% da população precisando de hospitais e 0,36 % de UTI.

Utilizando essas proporções para a realidade alagoana, num prazo de mais de 4 meses, seriam cerca de 50 mil pessoas necessitando de hospitalização, sendo que aproximadamente 12 mil necessitariam de UTI e a quantidade de óbitos poderia chegar a mais de 9 mil. Números ainda muito altos.

Alagoas se apresenta como um dos estados com menor número de mortes por causa da doença. De acordo com o último Boletim Epidemiológico, divulgado pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) nessa quinta-feira (16), são 89 casos confirmados de covid-19, cinco óbitos, com a ocorrência de 291 casos em investigação e 841 descartados. Para conferir o boletim, acesse o link.

Mas pelas projeções, com os números subnotificados e a população não cumprindo com rigor as medidas preventivas, essa realidade pode mudar. Até por que, alertam os autores do estudo, as medidas de mitigação são essenciais para ganhar tempo de mobilização, evitando o contágio massivo e o colapso dos sistemas de saúde público e privado, mas são insuficientes para combater o surto no longo prazo e precisam ser reforçadas.

Mitigação diminui demanda por leitos

Contrariando o relato de médicos e de cientistas, a gravidade da doença ainda é ignorada por muitas pessoas que acabam contestando as medidas de distanciamento social. Diante de um vírus novo, justificam os especialistas, para o qual a população não tem imunidade e que ainda não há um tratamento reconhecidamente efetivo, é imprudente liberar a circulação sem a adoção de medidas preventivas, a exemplo da testagem em massa e do isolamento dos casos positivos.

“As ações de mitigação são o primeiro passo essencial para vencer a guerra contra o vírus. Felizmente em Alagoas, bem como no Brasil em geral, adotamos estas medidas relativamente cedo na evolução da epidemia e já poupamos muitas vidas e leitos de hospital”, afirma Lira. “Mas não podemos relaxar neste momento”, alerta o pesquisador ressaltando que “uma saída precoce do isolamento colocaria a perder todo o nosso avanço”.

E a preocupação do físico é baseada em dados científicos. Segundo o estudo realizado pelos pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas, se as ações de mitigação adotadas pelo Estado fossem relaxadas a partir do dia 10 de abril, em 36 dias poderia haver a necessidade de mais de cinco mil leitos de hospital e mais de 500 leitos de UTI (esquema 2).

Demanda muito além da capacidade dos 500 novos leitos de retaguarda e 270 de UTI para o tratamento da doença que, segundo informações do Gabinete Civil do Estado, divulgadas no dia 9 de abril, serão entregues em breve com a antecipação da inauguração dos três hospitais regionais.

Por outro lado, mantendo as medidas de distanciamento semelhantes às que vem sendo adotadas, e com a colaboração da população, essa demanda cairia, no mesmo período, para 151 leitos de hospital e 31 de UTI (esquema 2).

Para obter essas estatísticas, os professores da Universidade fizeram análises utilizando as taxas de internação hospitalar da China para obter números de Alagoas. Eles utilizaram a pirâmide etária alagoana determinada pela projeção para 2020 do IBGE, com uma população estimada em 3.351.092, como base para cruzar com os dados de hospitalização, internação intensiva e mortes de covid-19 na nação asiática.

De acordo com os dados atualizados à realidade local, o estudo da Federal alagoana faz a estimativa de que 96,8% dos contaminados apresentarão casos leves ou assintomáticos (não necessitarão de hospitalização), 2,4% serão casos graves (hospitalização em leito comum) e 0,8% casos críticos (internação em UTI) (esquema 1). E são essas porcentagens que poderão sobrecarregar o sistema de saúde caso as medidas de distanciamento sejam relaxadas.

Ainda segundo o estudo, em Alagoas, a taxa de hospitalizados, pacientes em UTI e número de mortes se apresenta menor, quando comparado a outros locais, porque a pirâmide etária tem uma distribuição diminuída de idosos: cerca de 21 % da população tem mais de 50 anos, de acordo com as estimativas do IBGE.

O cenário descrito é uma projeção e guarda as devidas proporções, mas ajuda a prever situações que podem auxiliar os gestores a tomarem decisões que mais atendam à população local. Ainda de acordo com os pesquisadores, os resultados não são definitivos e podem mudar diante das ações de políticas públicas, utilização de novos ingredientes nos modelos, realização de mais testes de diagnóstico ou mais informações sobre a evolução clínica da doença.

Ainda não é o momento para voltar ao normal

Completando um mês das medidas de contenção e de distanciamento social em Alagoas, com base nos números apresentados pelo levantamento, os pesquisadores da Ufal afirmam que se deve “descartar a hipótese de relaxar a circulação de pessoas irrestritamente durante as próximas semanas”.

Eles defendem que é preciso ampliar as medidas para reduzir o número de pessoas nas ruas até que o estado esteja pronto para monitorar e atender às vítimas de covid-19. O argumento é de que não é prudente “retornar ao estado de circulação normal”, enquanto boa parte da população ainda é suscetível ao novo vírus.

Os resultados mostram que as medidas de mitigação reduzem bastante o número de infectados e hospitalizados nos próximos meses, quando comparadas com o caso não mitigado, tal como foi descrito no início da matéria. Além disso, ao achatar a curva epidemiológica e adiar o pico de infecção, obtém-se tempo para agir e reforçar o sistema de saúde para que não seja sobrecarregado.

Sobre o estudo

O grupo de pesquisa Dashboard Covid-19, responsável pelo estudo que atualiza as projeções para Alagoas com base nos modelos do Imperial College, reúne dez pesquisadores, sendo nove da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), vinculados aos institutos de Computação, Física e Matemática, e um da Federal da Grande Dourados.

Para realizar as previsões, eles utilizaram a modelagem SEIR que prevê com boa precisão valores para a taxa de infectados em escalas de tempo curtas, na média de uma semana. Para escalas de tempo maiores, as imprecisões aumentam mas ainda são qualitativamente válidas. Nesse modelo, a população de uma região é dividida nas seguintes categorias de indivíduos: Suscetíveis [S] (ainda não foram infectados nem possuem resistência ao vírus); Expostos [E] (foram contaminados, mas estão em período de incubação e ainda não são contagiosos); Infecciosos [I] (fase em que o indivíduo se torna contagioso, portanto, é transmissor do vírus, e em que há aparecimento dos primeiros sintomas nos sintomáticos); e Removidos [R] (indivíduos curados, isolados, hospitalizados ou mortos).

O grupo publica os números em forma de boletins. O primeiro publicado levantou o conjunto de modelos e técnicas computacionais que poderiam ser utilizadas para prever a epidemia em Alagoas e em Maceió.

No segundo boletim, divulgado no dia 10 de abril, foram levados em consideração distribuição etária da população de Alagoas, aspecto da evolução da doença e modelos reportados pelo time de resposta à covid-19 do Imperial College em Londres, conforme descrito no relatório The Global Impact of Covid-19 and Strategies for Mitigation and Suppreassion, Imperial College COVID19 Response Team, de 26 de março de 2020.

Segundo os pesquisadores, o objetivo é fornecer dados seguros para o planejamento e a administração de medidas durante o estado de emergência, além de preparar os gestores para que possam planejar ações e evitar danos maiores à população.

Já estamos nos juntando a outros pesquisadores com iniciativa semelhante através do Comitê Científico de Combate à Covid-19 do Consórcio Nordeste, do qual faço parte através do subcomitê 9 - Epidemiologia, modelos matemáticos e medidas de enfrentamento. Uma das perspectivas do subcomitê é fornecer previsões matemáticas para todos os governadores da região”, destaca Sérgio Lira.

Para saber mais sobre o comitê, acesse o site.