Pesquisa reflete sobre reforço de estereótipos femininos em campanhas publicitárias

Padrões históricos ainda são considerados e aparecem em marcas direcionadas a mulheres
Por: Janyelle Vieira - estagiária de Jornalismo - 12/03/2020 às 16h36 - Atualizado em 13/03/2020 às 11h18
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Janaina Alves (Foto: Renner Boldrino)

Foi por meio da indagação acerca do discurso publicitário, principalmente aquele que produz sentido e representações sobre a mulher, que a pesquisadora e relações públicas da Assessoria de Comunicação da Ufal, Janaina Alves, se interessou em conhecer as tramas das mensagens da publicidade que vão além do aspecto mercadológico.

Durante seu trabalho no Programa de Pós-graduação em Linguística e Literatura, da Faculdade de Letras (Fale), na linha de pesquisa Análise do Discurso, ela teve a oportunidade de reforçar o protagonismo da classe feminina.

Segundo Janaina, ainda como aluna especial do programa, a partir do conhecimento adquirido em aulas, surgiu o interesse de conhecer a construção dos sentidos e representações sobre a mulher, a família e o casamento no discurso da marca de cosméticos O Boticário, a partir da campanha A Linda Ex. Além disso, a pesquisa teve o intuito de identificar a forma com que os efeitos de sentido procedentes dos deslizes do discurso reforçam as representações vigentes da mulher em sociedade.

Devido as pesquisas, de um modo geral, abordarem o texto publicitário com aspetos ligados a vendas ou à própria comunicação para mercado e nem sempre considerarem questões ideológicas e históricas que compõem o discurso, Janaina pontua que “o interesse foi entender quais fatores estão implicados nessa relação entre a língua, a história e a ideologia em funcionamento no discurso de uma marca que nasceu e se coloca até hoje em suas campanhas como a favor de mulheres.”

O resultado foi uma crítica sobre as demandas que a mulher vem assumindo historicamente e os estereótipos que foram reforçados pela marca na campanha, mesmo que disfarçados. Um desses modelos é a leitura das mulheres enquanto esposas e mães, muitas vezes únicas responsáveis pela criação dos filhos e pelo cuidado com a família. “É um trabalho que no fim das contas veio para dizer que embora a sociedade, por meio da mídia (publicidade), queira nos colocar em "caixinhas" e definir nosso papel, precisamos ser livres para fazermos nossas escolhas. Eu espero que ao conhecer esse trabalho, as mulheres possam se tornar mais capazes de fazer determinados questionamentos”, propôs a relações públicas.

A pesquisadora aponta ainda a necessidade de persistência das mulheres para conquistar novos espaços. Acredito que a universidade e os centros de pesquisa estejam mais abertos à participação feminina. É claro que em algumas áreas isso é mais forte que em outras. É preciso que a gente persista pesquisando e conquistando novos espaços dentro desses ambientes. Todos aqueles que quisermos, na verdade! Pois à mulher não cabe mais se contentar em pesquisar assunto A ou B, temos competência para produzir conhecimento de excelência em qualquer área do conhecimento”, declarou.

A produção científica de outras mulheres faz Janaina Alves acreditar que cada vez que uma mulher produz ciência, ela abre espaço para que outras mulheres possam produzir. “Tive a oportunidade de ler os trabalhos de muitas mulheres, inclusive de pesquisadoras da Ufal, que contribuíram não só para meu trabalho, mas para minha formação enquanto mulher na sociedade. E, de certa forma, me modificaram enquanto pessoa também. Sou muito grata a todas as mulheres que me ajudaram a chegar até aqui”, comentou agradecida.

Ouça a entrevista de Janaina Alves à Rádio Ufal aqui.