Laboratório da Ufal faz parte do Programa Antártico Brasileiro

Estudos com microrganismos antárticos para saúde humana e agricultura são desenvolvidos no local
Por: Janyelle Vieira - estagiária de Jornalismo - 24/01/2020 às 08h35 - Atualizado em 23/01/2020 às 10h29
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Hasteamento da bandeira da Ufal na Antártica. Foto: Arquivo pessoal

Por meio do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), são realizados diversos estudos por cientistas e pesquisadores que atuam nas áreas de oceanografia, biologia, glaciologia, química e meteorologia na Antártica. O programa, que existe desde 1982, faz parte do tratado internacional que suspende as pretensões territoriais de todos os países no continente e exige a realização de pesquisa científica para permanência. 

Recentemente, a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) recebeu novas instalações e entre os pesquisadores que o Programa Antártico acolhe, está Alysson Duarte, pesquisador e professor do curso de Medicina do Campus Arapiraca da Universidade Federal de Alagoas. 

Alysson Duarte foi aluno de graduação e mestrado da Universidade e desde 2013 participa de expedições ao Continente Antártico. De acordo com o docente, estudar os microrganismos do Polo Sul é bastante interessante. “Podemos conhecer quais são as principais espécies que lá ocorrem e descrever possíveis espécies novas, pois como é um dos ambientes menos conhecidos, há grande possibilidade de encontramos espécies novas que ainda não foram descritas pela ciência”, explica. 

O pesquisador, que desenvolve estudos com microrganismos isolados da Antártica, revela que realizar pesquisa no local tem aspectos limitantes. “É um ambiente muito distante e requer uma logística muito bem planejada para que a etapa que fazemos lá seja muito bem aproveitada. A principal é a coleta das amostras biológicas, que são de vários tipos, como solo, rocha, liquens, macroalgas e todo o processamento de isolamento é realizado após chegarmos ao Brasil. É um ambiente que deve predominar o trabalho coletivo. Por exemplo, nunca devemos sair sozinhos para realizar coleta, pois como as condições do tempo podem mudar muito rápido, não é aconselhável estar sozinho em campo. Um apoio logístico imprescindível é o da Marinha do Brasil, além da Força Aérea Brasileira”, relata. 

Em sua primeira edição, ainda como doutorando, Alysson conheceu o professor Luiz Rosa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um pesquisador referência no estudo de fungos da Antártica. Ele conta que, nessa época, ficou embarcado no navio Polar Almirante Maximiano (H41) e fazia coletas de amostras ambientais em várias ilhas nas Shetland do Sul (península Antártica). 

Já em 2016, como docente da Ufal e com grande interesse em continuar as pesquisas de microbiologia Antártica, submeteu o projeto de pesquisa Liquens do Ambiente Antártico como Fonte de Fungos de Interesse Biotecnológico à Fundação de Amparo à Pesquisa de Alagoas (Fapeal) e foi aprovado. “Este projeto foi fundamental para iniciarmos as pesquisas. Conseguimos então ir à Antártica pela segunda vez, agora em dezembro de 2017, em parceria com o projeto MycoAntar, coordenado pelo professor Luiz Rosa. Nessa expedição, fiquei parte do período embarcado no H41 e a maior parte do tempo na EACF, nos módulos emergenciais”, lembra Alysson. 

Ele conta que durante esta expedição, estava ocorrendo o início da construção da nova estação de pesquisa brasileira, inaugurada neste mês de janeiro de 2020: “Foi uma sensação diferente da primeira vez, agora representando a Ufal e ter presenciado o início da construção dessa nova estação que é referência mundial”. 

Em 2018, mais um projeto foi aprovado, dessa vez, pelo edital Universal do CNPq, intitulado de Antártica e Caatinga: Diversidade Microbiana e Bioprospecção de Enzimas e Pigmentos. Alysson explica que apesar de serem ambientes bem distantes e diferentes, há similaridades entre a Caatinga e a Antártica, como a escassez de água na forma líquida. “A Antártica tem a maior reserva de água doce do planeta, mas está congelada. Por isso é conhecida como um deserto frio e os microrganismos de lá devem sobreviver ao stress hídrico, característica comum aos microrganismos da Caatinga”, ressalta. 

Pesquisas são realizadas em Laboratório no Campus Arapiraca 

Atualmente, a Ufal realiza pesquisa na Antártica por meio da parceria com o projeto MycoAntar e com o professor da Universidade de Brasília (UNB) Paulo Câmara, no Laboratório de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia, do Campus Arapiraca, coordenado pelo professor Alysson e pela professora Aline Cavalcanti de Queiroz. 

Integram o Laboratório discentes dos cursos de Ciências Biológicas, Medicina, Enfermagem e Farmácia; dos programas de mestrados Agricultura e Ambiente, Ciências da Saúde e Ciências Médicas e os docentes Magna Suzana Alexandre Moreira e Carlos Alberto Fraga. 

No Laboratório, são realizados estudos com a chamada microbiologia do bem. “Nós buscamos alguma aplicação benéfica dos microrganismos da Antártica. A maioria da população quando escuta alguém falar de microrganismos acha que eles são apenas causadores de doenças, entretanto, podem ser úteis em vários processos biotecnológicos. Estudamos se os microrganismos produzem enzimas como protease, celulase, pectinase, L-asparaginase”, explica Alysson Duarte. 

De acordo com o docente, a L-asparaginase é uma enzima usada em tratamento de Leucemia Linfoide Aguda (LLA). Atualmente, a enzima disponível para tratamento tem muitos efeitos colaterais e estudos que abordem novas fontes de microrganismos produtores desta enzima devem ser estimulados. Além disso, o laboratório também avalia a produção de pigmentos microbianos. “A Antártica tem alta incidência de radiação UV e os microrganismos para sobreviverem precisam produzir metabólitos para reduzirem o efeito deletério da luz UV e, geralmente, os pigmentos são um desses metabólitos. Há pigmentos de várias cores e tonalidades, como vermelho, amarelo, laranja... Estudamos a atividade antioxidante e antimicrobiana desses pigmentos”, revela. 

Entre os diversos estudos desenvolvidos, as professoras Aline Cavalcanti e Magna Suzana também estudam a atividade leishmanicida desses pigmentos e os de microrganismos da Antártica contra o parasito Leishmania, já que a leishmaniose é uma doença que tem aumentado a ocorrência em Alagoas. 

Além destes, o Laboratório de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia pesquisa sobre a aplicação agrícola dos microrganismos da Antártica. “O interesse pelos microrganismos solubilizadores de fosfato tem aumentado na agricultura nos últimos anos. Tenho orientado no mestrado em Agricultura e Ambiente um estudo com a avaliação dos microrganismos da Antártica para solubilização de fosfato. Nesse sentido, o nosso principal interesse é estudar o potencial biotecnológico dos microrganismos da Antártica para aplicação em vários setores, desde a saúde humana a agricultura”, esclarece o professor Alysson com entusiasmo em projetar o nome da Ufal.