Ufal e Sociedade entrevista nutricionista Leiko Assakura

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23/09/2019 às 11h00 - Atualizado em 23/09/2019 às 12h16
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Lenilda Luna entrevistou a professora Leiko Assakura. Foto: Izadora Garcia

Alimentação saudável e o desafio de produzir alimentos sem agrotóxicos são os temas desta edição do programa Ufal e Sociedade, com uma entrevista da professora de Nutrição, Leiko Assakura.  

Lenilda Luna: Estamos iniciando mais uma edição do programa Ufal e Sociedade e, nesta segunda-feira, recebemos a professora Leiko Assakura que é professora e pesquisadora de Nutrição, é integrante do laboratório de Nutrição e Saúde Pública (Lanusp) da Ufal e também coordena o projeto de extensão Cultivando a Saúde e praticando Lazer na Horta. A Faculdade de Nutrição respira extensão, não é, professora? São vários projetos que vocês têm e que levam conhecimentos e orientações para a sociedade alagoana. Bom dia! 

Leiko Assakura: bom dia, lenilda. Bom dia a comunidade da Ufal. É um prazer estar aqui, obrigada pelo convite e pela oportunidade de divulgar as atividades que a Faculdade de Nutrição desenvolve e presta à sociedade para além da comunidade da Ufal, para a sociedade. Então o Laboratório de Nutrição em Saúde Pública (Lanusp) desenvolve várias atividades de pesquisa e de extensão, e de ensino, obviamente.  Em relação às atividades de extensão, a gente tem o projeto, como você falou, Cultivando a Saúde e Praticando Lazer na Horta que eu coordeno e, também tem um outro projeto de extensão que é o Colhendo Bons Frutos que se desenvolve e que envolve também uma comunidade de assentados de Branquinha aqui na feira que ocorre toda quarta, é a feira de produtos orgânicos e que também se estendeu para a feira na Praça Centenário que ocorre aos domingos. Em relação a esse projeto de extensão Cultivando a Saúde, Praticando Lazer na Horta, a gente começou em 2014 a partir de um projeto de pesquisa desenvolvido pelo Lanusp, esse projeto de pesquisa apontou que as crianças de 2 a 4 anos já consumiam precocemente alimentos ultraprocessados no ambiente domiciliar e aí, como uma resposta a esse resultado negativo, a gente desenvolveu esse projeto de extensão em um Centro Municipal de Educação Infantil que a gente conhece como creche, para aproximar as crianças de uma alimentação saudável e então, a gente desenvolveu uma horta, a gente implantou uma horta nesse Centro Municipal, nessa creche, a creche Kira aqui na Maria de Barros Paes, que fica no Clima Bom, aqui no sexto distrito. Então, as crianças plantam essas mudas de hortaliças que são produzidas no Ceca, a gente tem alunos do curso de Agroecologia envolvidos nesse projeto e são esses alunos que cuidam dessas mudas. Quando as mudas estão prontas para serem colocadas na creche, então, a gente vai até a creche e com as crianças e as educadoras da creche a gente planta essas mudas e durante a semana, as crianças e as educadoras cuidam da horta limpando as mudas. Quando as mudas já estão prontas para serem tiradas, colhidas, então a gente volta lá e com as crianças, a gente colhe essas hortaliças, entrega para as cozinheiras escolares, que nesse mesmo dia preparam essas hortaliças como salada ou junto aos outros alimentos e aí, as crianças consomem. Então, as crianças se aproximam desses alimentos saudáveis, a partir do plantio, do cuidado, da colheita e do consumo. 

Lenilda Luna: Nessa narrativa que a senhora fez, a gente percebe várias características bem interessantes: esse aspecto interdisciplinar, são vários conhecimentos que se relacionam no projeto e também quantos ganhos para comunidade, do ponto de vista da educação, da alimentação saudável. Na questão econômica também, para as escolas, porque produzem os próprios alimentos e já colaboram com a merenda, quer dizer, são ganhos imensos para comunidade e para o desenvolvimento também das ações da Ufal. 

Leiko Assakura: E além disso, das crianças e das educadoras, a gente envolve também os pais e responsáveis das crianças. A gente desenvolve oficinas para os pais e responsáveis falando sobre a alimentação para os seus filhos para eles também, a gente já abordou a alimentação da primeira infância; das crianças a partir do aleitamento materno, a introdução da alimentação complementar; para os pais responsáveis, a gente já falou sobre a alimentação voltada para as pessoas que têm hipertensão, que têm diabetes; para as mulheres na menopausa e para as educadoras, a gente também já falou sobre alimentação saudável e o papel dos professores e dos educadores no processo de promoção da alimentação saudável dentro do ambiente escolar, ou seja, na creche. Então, a gente envolve as crianças e as educadoras e os pais e responsáveis na promoção da alimentação adequada e saudável. 

Lenilda Luna: E também discute agora, professora, a preocupação de que essa alimentação saudável seja produzida também de forma orgânica, porque as pessoas querem consumir hortaliças, frutas, e não agrotóxicos como a gente tem no momento. 

Leiko Assakura: Lá na creche a horta é muito pequena, não consegue suprir toda a demanda da creche, mas a gente aproxima as crianças de uma alimentação produzida por eles, sem uso de agrotóxico e a gente fala muito sobre isso também com as educadoras e com os pais, que eles também podem produzir uma alimentação saudável, sem uso de agrotóxico para o seu consumo próprio porque a gente também já viu que naquele bairro, no Clima Bom, não há uma oferta de alimentos considerados saudáveis, sem agrotóxicos, porque a região lá é muito pobre, tem indicadores sociais negativos e lá, a gente considera como o deserto alimentar, ou seja, não há oferta de alimentos adequados e saudáveis para aquela comunidade. 

Lenilda Luna: Uma região que tem várias áreas que poderiam ser direcionadas ao plantio e ao cultivo de hortas, mas falta também esse incentivo. 

Leiko Assakura: Falta o incentivo e também falta uma política pública do Estado para isso. Eu já visitei muitas outras creches da Prefeitura que tem esse incentivo mas é um incentivo da própria creche, não é um incentivo, não há um estímulo do Estado para isso. Em relação aos agrotóxicos, hoje saiu uma matéria que 57 novos agrotóxicos foram liberados pelo Conselho Federal para serem comercializados, então, no total desse ano já são 359 agrotóxicos liberados para comercialização e utilização pelos agricultores. 

Lenilda Luna: Absurdo tão grande isso professora? Estamos nos envenenando... 

Leiko Assakura: Exatamente, estamos nos envenenando. As opções que a gente tem ainda são pequenas considerando a demanda e a necessidade, e a segurança alimentar, a gente tem ainda poucas opções, infelizmente. Aqui dentro da Ufal, a gente tem a feira de orgânicos que acontece às quartas e próximo daqui, a gente tem outras feiras da cidade mas precisa ser mais divulgado e o Estado precisa dar mais incentivo a essas feiras, diminuir a taxação desses alimentos considerados saudáveis e aumentar a taxação dos agrotóxicos, a gente precisa fazer o que a gente chama de tributação saudável, quer dizer, diminuir os impostos nos alimentos saudáveis e aumentar os impostos dos alimentos não saudáveis e os impostos dos agrotóxicos. 

Lenilda Luna: Dessa forma, a gente teria opções de comprar de forma mais barata aquilo que nos faz bem, não das grandes produções, que utilizam agrotóxicos e podem vender isso em grande escala. As pequenas produções não, os produtos agrícolas comercializados pelos pequenos agricultores, como aqui na feira, esses que são produzidos em hortas, são produzidos em pequenas escalas, não atendem a essa demanda que a senhora colocou, então, tem que ter mais um incentivo para eles e não para os grandes produtores. É uma inversão que a gente vê

Leiko Assakura: É isso mesmo. Então, um exemplo é a taxação de refrigerantes, o xarope utilizado para a produção dos refrigerantes recebe isenção fiscal, os refrigerantes são um produto ultraprocessado e que recebe isenção fiscal e aí, é muito barato, considerando e comparado aos alimentos e aí, a população tem o maior acesso a esses refrigerantes porque eles são produzidos em larga escala porque eles têm isenção fiscal, enquanto que os alimentos que são produzidos aqui no Estado, para o consumo da população aqui do Estado é taxado, não tem isenção fiscal e aí, as pessoas com poucos recursos financeiros acabam consumindo os alimentos que são mais baratos porque esses alimentos recebem isenção fiscal. 

Lenilda Luna: Então, imagina uma região produtora de laranja, fica mais caro tomar um suco de laranja puro do que tomar um refrigerante. 

Leiko Assakura: Sim, isso mesmo. 

Lenilda Luna: A gente pensando do ponto de vista do consumidor, é tão absurdo , que não dá para entender qual é a política econômica que está por trás disso, a não ser a de favorecer as grandes indústrias. 

Leiko Assakura: Sim, isso mesmo, favorecer as grandes indústrias com a isenção fiscal, aí aumenta imposto dos alimentos que são saudáveis e que não recebem isenção fiscal. 

Lenilda Luna: Aaí a gente vê também, professora, como é importante que a pesquisa e a extensão na universidade sejam autônomas, porque quando se fala que para superar essas dificuldades de financiamento das Universidades tem que ser através de uma parceria com as indústrias. Mas aí amarraria também os resultados. Essa possibilidade de criticar o que apenas tem aspectos econômicos e não sociais e não saudáveis ficaria mais dificil dentro da universidade. É preciso que se tenha essa autonomia. 

Leiko Assakura: Sim, essa autonomia e a clareza dos conflitos de interesse né, Lenilda, porque se a indústria entra na universidade para financiar as pesquisas, os estudos claramente, dependendo do que a indústria quer, ela tende a encaminhar os seus resultados de forma que beneficie a indústria né, então, claramente, a gente tem que se isentar disso e fazer as pesquisas livre dos conflitos de interesse para que os seus resultados sejam voltados para benefício da sociedade e não das indústrias. E uma questão muito importante que a gente tem discutido agora é acidemia (?)  global, ou seja, a sinergia de pandemias que ocorrem atualmente, como por exemplo, as mudanças climáticas, a obesidade e a desnutrição, são problemas de saúde pública, são pandemias, ou seja, extrapolam aquele país, aquela aquela região e a gente vê que no mundo inteiro, no planeta Terra mesmo, é só um problema de saúde pública, as mudanças climáticas, a obesidade e a desnutrição, essas três pandemias compartilham de fatores comuns. As mudanças climáticas que resultam de desastres naturais, aliás, desastres naturais não, que são desastres provocados pelo homem na verdade, as enchentes e secas, as queimadas, que alteram o solo, alteram a forma de produção dos alimentos que geram a desnutrição e a obesidade porque as pessoas que vivem nessas áreas afetadas acabam consumindo os alimentos que são produzidos pela indústria, que são alimentos mais baratos, entretanto, são alimentos de baixo valor nutricional e as pessoas que consomem esses alimentos ultraprocessados acabam desenvolvendo obesidade porque são alimentos ricos em gordura, ricos em calorias, mas também desenvolvem a má nutrição porque desenvolvem anemia e outras doenças com deficiência de micronutrientes, e aí, assim, são problemas comuns, são problemas que têm fatores comuns, que são as mudanças climáticas que geram uma alteração do solo e alteração na forma de produção desses alimentos que não são alimentos saudáveis. 

Lenilda Luna: É uma cadeia de problemas difícil de quebrar e por isso, defender a alimentação saudável e seguir esse trabalho todo é uma forma de resistência também. 

Leiko Assakura: Sim, uma forma de resistência e a gente tem que resistir a esse massacre que a indústria de alimentos promove, altera a cultura alimentar das populações, das comunidades e força as pessoas a consumir esses alimentos que são mais baratos e que entretanto, são alimentos de baixo valor nutricional. O Ministério da Saúde, em 2014, publicou a 2ª edição do guia alimentar para a população brasileira e este guia norteia as ações das comunidades, das pessoas, dos trabalhadores da área da saúde e da educação para a promoção da alimentação adequada e saudável independente do local onde a pessoa viva porque o guia diz que as pessoas devem ter o seu hábito e a sua cultura alimentar respeitada e cada região  tem a sua cultura alimentar e que ela deve ser praticada, deve ser respeitada e que as pessoas que promovam a alimentação adequada e saudável devem ter isso em mente e também promover a comensalidade, ou seja, dizer que as pessoas devem se alimentar com a sua família, no seu ambiente propício para isso e devem consumir os seus alimentos produzidos no seu local. 

Lenilda Luna: Então, isso seria, por exemplo, comer menos fora, comer menos correndo, como tem sido a nossa rotina. 

Leiko Assakura: É, comer com seus familiares ou com seus amigos mesmo que seja no ambiente de trabalho. Aqui na Ufal, por exemplo, que as pessoas comam juntas e tenham os seus horários de refeição respeitados e tenham o seu local adequado para fazer as suas refeições, tanto para os servidores quanto para os estudantes. O Restaurante Universitário é um local adequado, propício e é o local onde os estudantes e os servidores devem se alimentar, ao invés de comer diante do computador, correndo porque tem que fazer isso, fazer esse trabalho ou aquele outro, tem que ir para o Restaurante Universitário, vai fazer a refeição lá ou então, ter a sua copa na sua unidade acadêmica mas tem que respeitar este momento para fazer a sua alimentação adequada e saudável porque isso, a alimentação saudável, é direito de toda a pessoa, está garantido na Constituição e ele deve ser respeitado e o Estado deve prover isso para todas as pessoas. 

Lenilda Luna: Esse guia alimentar foi elaborado com a contribuição de nutricionistas do País inteiro, inclusive aqui do laboratório de nutrição da Ufal... 

Leiko Assakura: Exatamente, em 2012, quando o Ministério da Saúde abriu para as contribuições públicas, os professores daqui da Faculdade de Nutrição e especialmente, aqui do Lanusp, a gente contribuiu para a elaboração desse guia, muitos estudantes também entre 2012/2013 também contribuíram para a criação e reformulação deste guia alimentar. 

Lenilda Luna: Também neste aspecto político da Nutrição, os nutricionistas se mobilizaram para defender o Conselho de Segurança Alimentar (Consea). Como é que está essa luta? Porque é importante esse conselho, essa sociedade civil organizada garantindo a continuidade de todas essas políticas. 

Leiko Assakura: Pois é, para uma uma surpresa negativa, o primeiro ato do governo federal foi extinguir o Consea pela medida provisória 870/2019. Extinguiu o Consea e toda sociedade civil organizada e que tem como bandeira a segurança alimentar e nutricional da população brasileira se mobilizou e no final de Fevereiro, dia 27 de fevereiro aqui em Maceió, a gente fez um banquetaço e foi um movimento Nacional em favor da permanência do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional para a permanência do Conselho. Atualmente o Consea segue extinto, ele deveria ter ido para o Ministério da Cidadania mas no momento em que ia, o Governo Federal vetou novamente a ida e a locação do conselho do Ministério da Cidadania, então, atualmente o Consea não tem nenhum vínculo, não tem nenhuma dotação orçamentária nem legal dentro da estrutura dos Ministérios e a gente tem no momento os estados, os estados têm os seus conselhos estaduais e a gente está se mobilizando para que tenha uma conferência popular do Consea em novembro mas a gente não tem, assim, nenhuma grande expectativa em relação à retomada do Consea na estrutura dos Ministérios. 

Lenilda Luna: Mas o Consea vai existir nem que seja sustentado pela sociedade civil pela importância dele... 

Leiko Assakura: Pela importância dele sim, tanto é que a conferência agora, ela vai ser chamada conferência popular e não a conferência nacional porque não tem mais nenhum aporte e nenhum nenhum vínculo do Governo Federal, mas as pessoas estão mobilizadas, os Conseas dos Estados estão organizados para que essa conferência popular aconteça em novembro. 

Lenilda Luna: Então vamos enfrentar os desafios do momento para garantir saúde para toda sociedade, para toda população. 

Leiko Assakura: Sim, porque é um direito da população. 

Lenilda Luna: Nós não podemos abrir mão dos nossos direitos que foram tão duramente conquistados, com esse aporte também do conhecimento que é necessário porque o conhecimento é uma ferramenta para a mobilização social. Quando as pessoas conhecem esse aspecto da saúde alimentar que a senhora colocou, claro que se mobilizam mais para entender melhor, para saber como produzir dentro da sua comunidade, para saber como alimentar melhor seus filhos, a sua família, isso é uma necessidade básica de qualquer comunidade. 

Leiko Assakura: Sim, isso mesmo e a gente não pode negar a importância da nutrição como uma ciência e como um caminho de desenvolvimento da sociedade, a sociedade se desenvolve, se ela tem saúde, e a alimentação é um dos fatores determinantes da condição de saúde da população que a gente não pode negar isso, não pode deixar que isso se extinga né, assim, a gente não pode deixar que isso seja colocado em segundo plano na agenda política do Estado. 

Lenilda Luna: Professora, muito obrigada por sua participação hoje no programa Ufal e Sociedade e que esse debate relevante continue aqui dentro da Universidade, na sociedade e no Consea popular.

Leiko Assakura: Muito obrigada pela oportunidade. 

Ouça a entrevista aqui