Pesquisa da Ufal busca proteger gestações com derivado do azeite e ganha reconhecimento internacional

Cientistas da Fanut desenvolvem expertise estudando a interação mãe-feto, a partir da placenta
Por: Naísia Xavier - jornalista colaboradora (texto e fotos) - 09/09/2019 às 07h20 - Atualizado em 09/09/2019 às 14h14
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Grupo de pesquisa da Ufal se concentra em atenção preventiva a gestantes

Como é possível fazer boa ciência no Brasil? Com os recursos disponíveis, sensibilidade para os problemas das pessoas reais, colaboração interdisciplinar e nível de qualidade internacional.  Pelo menos, esta é a receita que parece estar gerando resultados significativos no Grupo de Pesquisa Saúde da Mulher e da Gestação, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

O biomédico e doutor em biologia celular, Alexandre Borbely, coordena uma equipe de 10 pesquisadores, da iniciação científica ao pós-doutorado, que se dividem em três linhas de investigação, todas elas focadas em problemas que podem acometer a mãe e o feto durante uma gestação. Também participa do grupo a pós-doutoranda Karen Borbely, da Faculdade de Nutrição da Ufal.

Em uma das linhas de pesquisa, eles observam como o uvaol, uma substância derivada do azeite de oliva, poderia prevenir a morte de células da placenta causadas pela bactéria Streptococcus agalactiae, um tipo de estreptococo do grupo B, que são normalmente encontradas na vagina de 30% das mulheres, tanto em países em desenvolvimento quanto nos países desenvolvidos. Cerca de um em cada 2 mil bebês recém-nascidos sofrerá com uma infecção neonatal causada por elas.

Mas, e durante a gravidez? O professor Alexandre explica que a bactéria pode subir pelo canal vaginal: “Essa infecção pode passar pela placenta e membranas fetais, chegando no bebê, e causar algumas alterações nas mucosas ocular e auditiva, e alguns danos de sistema neurológico”.   

A inflamação das membranas do feto é característica de uma doença chamada corioamnionite, que é relativamente comum e está ligada à maioria dos casos de prematuridade e abortamento.

“Acaba sendo algo que impacta muito tanto na mulher, porque ela pode perder o bebê durante esse processo, mas também acaba impactando muito o SUS”, explica o cientista. “O bebê pode nascer com menos peso, com um tamanho menor, e isso vai requerer mais cuidados”.

Desafio

Ainda não há métodos diagnósticos eficazes para se lidar com isso. Às vezes, a mulher não apresenta sintomas da infecção durante sua gravidez e muitos casos acabam passando despercebidos pelas analises de rotina de um pré-natal. O que pode ser feito é coleta do material vaginal, porém, em caso positivo, o único tratamento disponível ainda são medicamentos antibióticos.

Isso pode alterar toda a flora microbiótica que está sendo construída no bebê, causando efeitos negativos que vão se estender para além da gestação. “Nunca é bom usar antibióticos numa gravidez; isso só vai acontecer em casos de infecção muito grave”, comenta Borbely.

Estratégia

A ideia de aplicar o uvaol à corioamnionite surgiu a partir da interação com bons resultados de outro trabalho produzido no Laboratório de Biologia Celular, no bloco de pesquisa multidisciplinar da Ufal, no qual o professor Emiliano Barreto, doutor em biologia, observou efeitos antinflamatórios e antiarlérgicos da substância em animais com asma.  

“Porque não utilizar o uvaol durante a gestação, para prevenir os efeitos ruins que essa bactéria causa? Indo mais nessa questão nutricional, se a mulher consome bastante do azeite de oliva, ou usa desse composto como suplemento, caso a gente consiga levar para o mercado, isso poderia prevenir uma infecção ou um efeito colateral pior. Às vezes, só o fato de a mulher inflamar já é ruim para o bebê. Diminuir essa inflamação nessa região do corpo é muito importante se ela quiser manter a gestação até o fim”, comenta o biomédico.

Prêmios e Colaborações

Ainda em andamento, a pesquisa já está rendendo premiações. Duas bolsistas de iniciação científica do projeto ganharam um prêmio antecipado da International Federation of Placenta Associations (Federação Internacional das Associações [de pesquisa sobre] Placenta, IFPA), uma entidade responsável por coordenar encontros científicos internacionais que reúnem o que há de mais relevante em sobre pesquisas sobre placenta em curso no mundo inteiro.

Lays Xavier, graduanda em biologia, e Rayane Martins, graduanda em enfermagem, ganharam o prêmio YW Loke New Investigator Award, para pesquisadores iniciantes, se destacando com a qualidade científica dos respectivos resumos do trabalho de cada uma. Desta forma, elas vão poder apresentar seus artigos no encontro internacional da Federação isentas da inscrição, no valor de 500 dólares, cada.

O evento acontece em Buenos Aires, na Argentina, de 10 a 13 de setembro, em consonância com o 8º Simpósio Latino Americano de Interação Materno-Fetal e Placenta (SLIMP). Com o apoio da Fapeal, também viajam para o mesmo evento o professor Alexandre Borbely e a doutoranda Eloiza Tanabe, que foram selecionados através do Edital de Apoio à Participação em Eventos Científicos (AORC).

O grupo de pesquisa já faz parte de uma rede internacional de colaboração chamada Rivatrem (Rede Ibero-Americana de Alterações Vasculares em Problemas da Gestação), que reúne pesquisadores da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador e México, além de colaborar de perto com um laboratório canadense. 

Lembrando que a produção científica de nível internacional responde igualmente a necessidades específicas do estado, o professor Fábio Guedes, diretor-presidente da Fapeal, comenta:

“Esta é uma excelente notícia para Alagoas. Ao mesmo tempo em que o Governo Renan filho constrói e equipa um hospital que será dedicado à mulher, com atenção especial às gestantes, os pesquisadores da nossa universidade federal estão desenvolvendo esse tipo de expertise”, avalia o gestor.

Inovação e Resultados

“Poucas pessoas no mundo pesquisam formas de se prevenir algo na gestação”, aponta o professor Alexandre Borbely.  “Porque se acontece algum problema, dificilmente existe algum tratamento ou algum remédio que pode ser usado nessa fase. A gestante fica muito exposta, acaba sendo um grupo de extremo risco”, avalia o cientista, contando inclusive com o olhar sensibilizado de quem se tornou pai recentemente.

Ele comenta a pertinência de pesquisar algo que pode ser usado como preventivo: “Ainda mais um produto natural que pode ser adquirido até pela alimentação, ou como um suplemento alimentar”, observa o cientista, comentando que, à exceção do ácido fólico (vitamina B9), usado há muitos anos, durante a gestação, para prevenir alterações no sistema nervoso dos bebês, quase nada mais foi comprovado na área de suplementação para as futuras mamães.

No entanto, além da boa ideia, os pesquisadores estão fortalecendo sua abordagem através da inovação técnica, principalmente com a colaboração interdisciplinar.

Nesta caso, a parceria é com a Física, através dos professores Samuel de Souza e Eduardo Jorge da Fonseca, que compõem o Grupo de Óptica e Nanoscopia no Instituto de Física, da Ufal, que possui um microscópio de força atômica, do qual há poucos exemplares no Brasil, e um instrumento de espectroscopia Raman, uma técnica de alta resolução que utiliza ótica e luz, proporcionando, em poucos segundos, informação química e estrutural de quase qualquer material, orgânico ou inorgânico, permitindo assim sua identificação. 

Alexandre Borbely diz que, dessa forma, é possível integrar equipamentos de ultima geração na pesquisa em saúde, conseguindo resultados que “conversam” mais entre si, e aumentando a sensibilidade para observar eventos que passariam despercebidos de outra forma.

Essa integração, no trabalho de Lays Xavier, rendeu o prêmio de melhor pôster num congresso da Sociedade Brasileira de Biofísica, em Recife, já este ano.

“É muito importante ter a noção de que a gente está contribuindo para a ciência de uma forma mais efetiva e acho que nosso trabalho é de extrema relevância, porque traz uma inovação que pode ser viável, e há uma escassez disso nesse ramo na ciência”, observa Lays.

Já trabalho de Rayane Martins, ganhou honras em 2017, no tradicional Congresso (internacional) da Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental. 

“Para mim, que sou da enfermagem, pessoalmente é muito interessante sair da aérea clínica e entrar um pouco na pesquisa, vendo como ajudar a mulher de outras formas também, buscando uma forma acessível para prevenir problemas com a mãe e o feto”, comenta Rayane.   

Trabalhos orientados pelo professor Alexandre Borbely ganharam nove prêmios em três anos, de 2017 até agora, sendo maioria deles sobre placenta.

Recentemente, o Grupo de Pesquisa Saúde da Mulher e da Gestação publicou seu primeiro artigo, numa revista científica internacional, considerada pelo Ministério da Educação como sendo da melhor qualidade (de acordo com o indicador Qualis A, da agência federal Capes), e de alta relevância, de acordo com a métrica mundial do fator de impacto, que neste caso, encontra-se em 3,68.O texto vai assinado por 16 pesquisadores, sendo 13 da Ufal e três do Canadá (universidades McGill e Sherbrooke).