Estudo realizado na Ufal padroniza genes responsáveis pela epilepsia

A pesquisa comprova que existem horários de mais ocorrência das crises e de maior resistência dos pacientes
Por: Tárcila Cabral - Ascom Fapeal - 21/08/2019 às 11h41 - Atualizado em 21/08/2019 às 11h41
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Pesquisadores investigam o papel de genes responsáveis pelos ritmos biológicos no processo epileptogênico. Imagem: Pixabay

A epilepsia é uma condição que atinge cerca de 1% da população mundial e é caracterizada pela presença de crises espontâneas e recorrentes. Aproximadamente 30% dos pacientes não respondem ao tratamento medicamentoso, segundo um artigo publicado no jornal de neurologia Brain Development, estudo intitulado Hippocampal sclerosis revisited. Apesar de não existir uma forma de detectar quando o paciente vai apresentar uma crise, estudos apontam que há horários do dia preferenciais para ocorrência dessas crises de acordo com o tipo de epilepsia.

Explorando esta condição durante seu doutorado em Ciências da Saúde, a pesquisadora da Ufal Heloísa Matos dedicou-se a investigar o comportamento dos genes para definir padrões nas crises epilépticas. A análise demonstrou alto impacto na área científica e social, e integrou uma série de apoios concedidos pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal).

Para melhor compreender este padrão temporal, a estudiosa e seu orientador investigam o papel de genes responsáveis pelos ritmos biológicos (genes osciladores) no processo epileptogênico — modo em que um indivíduo normal se torna portador de epilepsia. Recentemente, a dupla observou que genes importantes do relógio molecular apresentam um funcionamento alterado no cérebro de ratos epilépticos.

“Esses achados possibilitaram a formulação de modelos explicativos para a ocorrência temporal das crises epilépticas e de abordagens terapêuticas baseadas na manipulação dos ritmos biológicos cerebrais”, explicou a pesquisadora.

Neste contexto, foi proposto que intervenções controladas com sincronizadores de ritmos — fármacos, dietas, exercícios físicos, luz ou estímulos cognitivos, possibilitassem o alinhamento dos ritmos em diferentes regiões do cérebro de um paciente, permitindo ser testados para o tratamento das crises.

Compreendendo o padrão das crises epilépticas

Estudos têm mostrado que há horários do dia preferenciais para ocorrência dessas crises de acordo com o tipo de epilepsia. Mas também, há períodos em que os pacientes apresentam uma maior resistência às crises. Em um trabalho recente que a equipe desenvolveu em colaboração com a Texas A&M University, foi utilizada a técnica de vídeo Eletroencefalografia (EEG), para monitorar 24h por dia num ciclo de dois meses. O perfil de ocorrência observado em modelo animal de epilepsia do lobo temporal, o tipo mais frequente na população, foi de 1,870 crises epilépticas.

Os acadêmicos observaram que o pico de crises ocorre entre 14h e 17h, e que no intervalo da madrugada, das 4h às 5h, os animais quase não apresentaram crises. Este achado aceito para publicação no periódico Aging & Disease despertou a curiosidade de Heloísa Matos e dos pesquisadores do PPG de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) para se aprofundarem no estudo das oscilações moleculares que ocorrem ao longo do dia no cérebro e sua relação com a epilepsia.

A acadêmica ressalta que, apesar do grande avanço tecnológico compreender como funciona um cérebro de um epilético e o de um indivíduo sem o distúrbio é um grande desafio. A ciência ainda carece de informações fundamentais sobre a fisiologia e homeostase cerebral. “Podemos dizer que o cérebro epiléptico apresenta uma predisposição contínua a apresentar uma atividade neuronal excessiva ou sincrônica que, por conseguinte, se manifesta através das alterações comportamentais denominadas de crises epilépticas”, esclarece Heloísa.

Em um conjunto pequeno das epilepsias, esse desequilíbrio eletrofisiológico é causado por mutações em diferentes genes que atuam na fisiologia neuronal, tais como canais iônicos, receptores e neurotransmissores. Entretanto, na grande maioria das epilepsias, o cérebro se torna epiléptico a partir da exposição a diferentes tipos de insultos externos, incluindo tumor, hemorragia, traumas, entre outros. Contudo, apenas uma pequena parcela dos indivíduos expostos a esses insultos se tornará portador de epilepsia.

O porquê disto e de que forma esses insultos induzem a conversão de um cérebro normal em um cérebro epiléptico são questões que os cientistas ainda devem desvendar.

Estudo propõe melhorar as condições dos pacientes epiléticos

A estudiosa defendeu a sua tese de doutorado na Ufal no último mês de julho, e quando questionada acerca da função social de sua pesquisa ela citou que, uns dos objetivos é proporcionar um melhor tratamento aos pacientes e, consequentemente, elevar a sua qualidade de vida. O seu grupo de pesquisa acredita que intervenções controladas com o uso de fármacos, dieta, exercícios físicos, luz ou estímulos cognitivos, possam promover o alinhamento dos ritmos em diferentes regiões do cérebro de um paciente e isso pode ser utilizado para o tratamento das crises epilépticas.

Como muitos pacientes não respondem ao tratamento medicamentoso e as cirurgias para a diminuição das crises que podem causar diversas consequências, a busca por novos tratamentos é de extrema importância. O estudo, mesmo na área básica, abre um leque de ideias para que novos projetos surjam com o objetivo de melhorar as condições dos pacientes portadores de epilepsia.

A bióloga cita, ainda, que sem o investimento dos órgãos de fomento não seria possível prosseguir com a pesquisa, tanto pelo investimento com bolsas para os estudantes, quanto pelos projetos. Este estudo, bem como outros desenvolvidos pelo grupo, também foi financiado pela Fapeal, o que permitiu a compra dos insumos e equipamentos para a realização do trabalho.

A repercussão da pesquisa foi tão relevante que, em 2018, os dados obtidos a partir do seu projeto de doutorado foram publicados na revista Frontiers in Neurology. Além disso, em abril deste ano, a Science Trend divulgou um artigo do coordenador do Grupo de Pesquisa em Epilepsia Clínica e Experimental (Gpece), Daniel Gitaí, publicado na revista Neuroscience & Biobehavioral Reviews. Essas publicações aumentam a visibilidade internacional dos trabalhos realizados na Ufal, reafirmando a potencialidade alagoana na pesquisa mundial.