Confiança da mulher contribui para maior tempo de amamentação

Pesquisa da Ufal traz resultados sobre a influência da autoeficácia em amamentar, nos três primeiros meses pós-parto, para diminuir o desmame antes dos seis meses de vida do bebê
Por: Blenda Machado - estagiária de Jornalismo - 02/08/2019 às 14h28 - Atualizado em 02/08/2019 às 17h32
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Semana Mundial do Aleitamento Materno é comemorada de 1º a 7 de agosto. Foto: Elianeide Araújo

Já é difundido que a amamentação é fundamental para o crescimento e desenvolvimento infantil. A Organização Mundial da Saúde recomenda que seja realizada, de forma exclusiva, durante os primeiros seis meses de vida da criança e, até os dois anos de idade ou mais, como forma complementar. Motivada pelo assunto, a nutricionista Samya Brito mergulhou em sua pesquisa de mestrado pelo Programa de Pós-graduação em Nutrição da Ufal (PPGNUT) para discutir as diversas formas sobre o ato de amamentar. 

A iniciativa do projeto investigou, no município de Rio Largo, a autoeficácia materna e sua relação com a duração do aleitamento ao longo do primeiro ano pós-parto. O trabalho teve orientação da professora Giovana Longo-Silva e co-orientação do professor Jonas Silveira, da Faculdade de Nutrição (Fanut/Ufal). 

Segundo Samya Brito, a autoeficácia em amamentar refere-se à percepção e expectativas maternas sobre sua capacidade de amamentar, que podem influenciar na decisão de iniciar e continuar a amamentação, como também na superação dos eventuais obstáculos a serem enfrentados durante esse período. ‘‘As mulheres precisam ter confiança e acreditarem que são capazes de amamentar para que, assim, se motivem a realizar essa prática com sucesso’’, disse. 

A pesquisa e os resultados 

Para analisar os resultados a pesquisadora utilizou a Escala de Autoeficácia da Amamentação, forma curta, traduzida e validada no Brasil da versão originalmente em inglês Breastfeeding Self-Efficacy Scale-Short Form (BSES-SF). Entende-se que a autoeficácia é constituída por quatro fatores que a explicam, sendo eles: a experiência pessoal (vivências anteriores positivas em amamentar da mãe); a experiência vicária (observar outras mães amamentarem, ou participar de ações educativas em que possam visualizar o ato de amamentar, por meio de vídeos sobre amamentação, por exemplo); a persuasão verbal (apoio e incentivo recebido pela família, companheiro); e o estado emocional e fisiológico (reações físicas e mentais durante a amamentação, como sensações de dor, ansiedade e fadiga).

Os dados da pesquisa foram coletados entre fevereiro de 2017 e agosto de 2018, quando a última criança completava um ano de idade. Durante o primeiro ano de vida das crianças foram realizados quatro cortes no tempo: Nos primeiros seis meses o acompanhamento foi feito na maternidade do Hospital Geral Dr. Ib Gatto Falcão de Rio largo (AL) e, posteriormente, por meio de visitas domiciliares ao terceiro, sexto e décimo segundo mês pós-parto. 

O resultado identificou que as mulheres que apresentaram pontuações elevadas de autoeficácia na amamentação, aos três meses, conseguiram continuar amamentando seus bebês aos seis meses de vida, quando comparadas com aquelas de menor autoeficácia. 

De acordo com a pesquisadora, essa mesma relação também foi percebida no intervalo dos seis aos 12 meses. Ou seja, quanto maior a confiança da mulher em amamentar nos primeiros três meses pós-parto, maior a duração da amamentação para os filhos.

“Apesar da autoeficácia materna em amamentar alta ter diminuído ao longo do primeiro ano observou-se a associação de quanto maior a confiança, maior a duração do aleitamento materno. Isso porque ter essa característica no início da amamentação fortalece as mulheres para que prossigam com o ato’’, afirma Samya.  

A mulher como centro  

Segundo a pesquisadora, o motivo das mulheres terem diminuído a amamentação corresponde a vários fatores, como: pessoais, socioeconômicos e culturais, que podem ter influenciado durante esse período para a mãe se sentir menos confiante. Um exemplo importante é a falta de apoio do companheiro, que pode diminuir a pontuação na BSES-SF, deixando as mães menos confiantes sobre sua capacidade de amamentar. “Deve ser entendido que ter a autoeficácia em amamentar alta não é apenas responsabilidade da mulher, pois existe todo um contexto social que influencia fortemente na sua decisão de amamentar”, ressalta Samya. 

O professor Jonas, fala sobre a importância da pesquisa para a comunidade. “A principal contribuição desta pesquisa para a sociedade diz respeito a importância de oferecer um sistema de suporte para as mulheres antes e durante o período de lactação, para que elas consigam efetivar o aleitamento materno. Esta pesquisa tem muita aderência às políticas públicas de saúde na esfera materno-infantil, tendo aplicabilidade direta nas ações da atenção primária à saúde no contexto da Rede Cegonha”, disse. 

Ele conta que o diferencial da pesquisa “está em colocar a mulher no centro das atenções e não a criança, superando a ideia da mulher como simplesmente uma fonte de alimento para a criança, e discutindo sobre as diferentes dimensões sobre o ato de amamentar”. 

Dessa forma, Samya Brito relata que “medidas de intervenção sobre amamentação baseadas nesses fatores são propensas em garantir a maior confiança em amamentar. Assim, verifica-se que a autoeficácia da amamentação é uma característica modificável que contribui para a maior duração do aleitamento materno, através do empoderamento feminino quanto à capacidade de amamentar”. 

Incentivo à amamentação 

A importância de amamentar como forma de praticar o amor e o afeto torna-se uma responsabilidade diária. A Semana Mundial do Aleitamento Materno é comemorada ente os dias 1º e 7 de agosto, oficialmente estabelecida em 1992 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Fundação das Nações Unidas para Infância (Unicef). O objetivo da data é promover a defesa dos direitos das crianças, ajudar a dar resposta às suas necessidades e contribuir para o seu desenvolvimento. 

Samya Brito destaca que o leite materno “visa a proteção da saúde da criança, prevenindo doenças respiratórias e diarreicas comuns à primeira infância, auxiliando no desenvolvimento e crescimento infantil”. Ela também acrescenta que a amamentação tem benefícios à saúde materna, ‘‘protegendo contra doenças crônicas não transmissíveis, como câncer de mama e de ovário, involução uterina mais rápida, repercutindo na diminuição do sangramento pós-parto, na ampliação do espaçamento entre as gestações e partos, na formação do vínculo afetivo entre mãe e criança e no favorecimento do retorno ao peso pré-gestacional”. 

O professor Jonas também ressalta: “Embora seja um ato natural amamentar, a forma que a sociedade se organiza hoje, influenciada de maneira muito expressiva pelas ações mercadológicas da indústria de alimentos [especificamente, as fórmulas infantis], distanciou as mulheres da principal forma de vínculo, afeto e cuidado que a criança poderia receber e perceber após sua chegada ao mundo extra uterino”, destaca. 

Saiba mais sobre a pesquisa Sand 

Essa pesquisa faz parte de um projeto maior intitulado Saúde, Alimentação, Nutrição e Desenvolvimento Infantil (Sand): um estudo de corte, coordenado pelos professores Giovana Longo-Siva, Jonas Silveira e Rísia Menezes. O objetivo é avaliar esses aspectos no primeiro ano de vida, sendo a primeira estatística do gênero feita com nascimentos do estado de Alagoas. O local escolhido para aplicar o trabalho foi o município de Rio Largo. 

A pesquisa contou com o apoio de mestrandos PPGNUT e de alunos do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica da Ufal (Pibic) para a fase de coleta de dados.