Pesquisa avalia uso de plantas medicinais no tratamento das leishmanioses

Dados obtidos podem servir de base para o desenvolvimento de novas opções terapêuticas
Por: Thâmara Gonzaga – jornalista - 16/07/2019 às 13h27 - Atualizado em 16/07/2019 às 16h16
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Lilyana Waleska Nunes Albuquerque participou do estudo na Ufal. Foto: Pedro Ivon

Doenças em muitos casos negligenciadas, tratadas com medicamentos que causam fortes reações ao paciente, motivaram a pesquisa dos estudantes do curso de Farmácia da Ufal, Alisson Alcantara Alves e Lilyana Waleska Nunes Albuquerque. Bolsistas de iniciação científica do Laboratório de Farmacologia e Imunidade (Lafi), em 2017, após acompanhamento bibliográfico da leishmaniose, eles começaram a avaliar plantas de uso popular que poderiam combater a atividade dessa doença infecciosa.

Alisson Alves explica que “o objetivo do trabalho foi estudar o efeito leishmanicida de plantas medicinais e fitoterápicas que são de interesse do Sistema Único de Saúde [SUS]”. O estudante relata que, “inicialmente, foi feito o ensaio de citotoxicidade que avalia se os produtos naturais são prejudiciais às células que hospedam a Leishmania, os macrófagos”. Na etapa seguinte do estudo, continua o pesquisador, “foi observado a taxa de infecção e a multiplicação dos parasitos no interior dos seus hospedeiros, os macrófagos quando expostos aos extratos naturais, além de identificar se o possível efeito dos produtos naturais era seletivo apenas para os parasitos, sem que houvesse dano aos macrófagos”. Por último, continua, “foi realizado um ensaio para identificar se os produtos naturais conseguiam induzir a produção de óxido nítrico em culturas de macrófagos infectados com Leishmania. O óxido nítrico é uma molécula determinante na atuação dos macrófagos na defesa contra a doença, apresentando, assim, atividade antiparasitária”.

Quebra-pedra, hortelã-pimenta, camomila, espinheira-santa, jamelão, aroeira-vermelha, amoreira-branca, assa peixe, alcachofra, maracujá doce, barbatimão e cavalinha foram as plantas medicinais avaliadas pelos bolsistas de iniciação científica, sob orientação das docentes Aline Cavalcanti de Queiroz, doutora em Biotecnologia, e Magna Suzana Alexandre Moreira, doutora em Ciências - Microbiologia. “As plantas estão em estudos por já apresentarem outras atividades, como a antibacteriana, antifúngica, entre outras. Elas não são recomendadas pelo SUS para o tratamento das leishmanioses, mas estão disponíveis na lista Renisus [Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao Sistema Único de Saúde] com a finalidade de orientar e incentivar pesquisas e estudos”, esclarece Alisson.

Ao apontar os resultados, a dupla de pesquisadores afirma que “as plantas estudadas não apresentaram efeitos tóxicos aos macrófagos, preservando, assim, a célula de defesa do nosso corpo”. Ainda de acordo com os bolsistas, “a cavalinha e o barbatimão apresentaram um efeito significante na diminuição da taxa de infecção e multiplicação dos parasitos. E, além disso, quebra-pedra, hortelã, camomila e espinheira-santa induziram o aumento de óxido nítrico nas culturas de macrófagos infectados com os parasitos”.

Para embasar a análise feita e os dados obtidos em laboratório, Alisson esclarece que “a célula humana, chamada de macrófago, é a hospedeira do parasito Leishmania. No ciclo do parasito, no nosso corpo, o macrófago capta a Leshimania e esse parasito se multiplica. Com o aumento da quantidade de Leishmania, a célula de defesa explode, infectando as outras e diminuindo a função de proteção. O aumento do óxido nítrico ajuda a própria célula a eliminar o parasito, combatendo a doença”, diz.

Os estudantes destacam que com essas informações, “além de dar suporte à pesquisa de produtos naturais ativos contra parasitos de Leishmania, expandindo a busca por novas opções terapêuticas para o tratamento, o estudo possibilita atender as necessidades que cercam a problemática das doenças negligenciadas, que muitas vezes são esquecidas também no ambiente de pesquisa, principalmente, no que diz respeito ao tratamento farmacológico, que para a indústria farmacêutica é considerada pouco rentável”. Alisson afirma que “os resultados iniciais constituem o primeiro passo para um trabalho maior, pois pode viabilizar estudos fitoquímicos e biológicos para o isolamento e identificação de novos esqueletos moleculares que possam servir na concepção de moléculas ativas”.

Os pesquisadores também apontam que “os medicamentos utilizados na prática clínica para leishmaniose possuem altas taxas de toxicidade, e isto leva o paciente a desenvolver reações adversas graves, podendo causar a morte, além disso, são caros e induzem a resistências dos parasitos”. Com isto, continua, “surge a motivação de testar o efeito de plantas medicinais sobre os parasitos da leishmaniose, pois pode constituir um recurso economicamente acessível, servindo de base para o desenvolvimento de novos medicamentos na pesquisa farmacológica. O estudo com plantas medicinais possibilita explorar recursos naturais, que são extremamente abundantes no Brasil devido à sua biodiversidade”, defendem.

Sobre as leishmanioses

Com duas formas de manifestação, a tegumentar ou cutânea e a visceral ou calazar, “as leishmanioses são doenças parasitárias causadas por protozoários do gênero Leishmania, sendo veiculados por ‘mosquitos’, os flebotomíneos, mais conhecidos como mosquito palha”, esclarece Alisson Alves. Segundo o pesquisador, “em sua grande maioria, são negligenciadas e quase dois milhões de novos casos ocorrem em todo o mundo”.

Nas Américas, informa o graduando de Farmácia da Ufal, “a leishmaniose cutânea e mucosa ocorre em 20 países, sendo endêmica em 18 deles, com aproximadamente 46.082 casos de leishmaniose cutânea e mucosa. Desse total, 42% foram reportados no Brasil (19.395), onde a maioria dos casos ocorreram nas regiões Norte-Nordeste”. E alerta: “A doença está muito associada à desnutrição, deslocamento populacional, moradia precária, sistema imunológico fraco e falta de recursos”.

Ele esclarece que “as leishmanioses se apresentam sob diferentes formas clínicas, com sintomas específicos”. Segundo o estudante, “a tegumentar pode acometer a pele e mucosas, na forma de úlceras, com fundo granuloso e bordas em relevo. Já a visceral causa o comprometimento de órgãos internos como fígado, baço e medula óssea, causando os sintomas de febre, fadiga, perda de apetite, perda de peso, palidez cutâneo-mucosa e aumento do tamanho do fígado e do baço, sendo esta a forma mais grave da doença”. 

Reconhecimento acadêmico do estudo 

O trabalho de autoria dos estudantes Alisson Alcantara Alves e Lilyana Waleska Nunes Albuquerque, que tem como título Estudo da atividade leishmanicida de plantas medicinais de interesse ao Sistema Único de Saúde, foi selecionado para ser apresentado na 71ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que ocorrerá no período de 21 a 27 de julho de 2019, na cidade de Campo Grande/MS. 

Eles comemoram esse reconhecimento acadêmico. “Sem dúvidas, é algo muito motivador, principalmente, para quem está começando a dar os primeiros passos na pesquisa como nós estamos. Poder sair de Alagoas e levar o nosso trabalho para Mato Grosso do Sul, para o maior evento científico da América Latina, é muito gratificante e, com certeza, incentiva-nos a querer continuar trabalhando na pesquisa e representar a nossa Ufal”.

Bolsistas de iniciação científica, eles também falam sobre a importância de fazer pesquisa e o espaço que encontrou na Ufal para desempenhar a atividade. “Apesar das dificuldades que muitas vezes nos deparamos, como a falta de recursos, a ciência é algo crucial para o desenvolvimento de uma sociedade. A pesquisa está ao nosso redor, em tudo que tocamos existe uma pesquisa por trás. Poder contribuir, de alguma forma, para a geração de conhecimento científico de uma doença negligenciada e encontrar espaço na Ufal para isso foi bastante positivo, só evidencia ainda mais um dos papéis fundamentais das universidades federais”, reconhece Alisson Alves.