Mulher, negra e doutora: uma história de superação na Ufal

No Dia Internacional de Combate à Discriminação Racial, conheça a história de Mariana. Uma mulher que lutou contra o próprio preconceito prova que a melhor resposta vem da educação
Por: Thâmara Gonzaga – jornalista - 21/03/2019 às 07h50 - Atualizado em 21/03/2019 às 07h56
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Mariana da Silva Santos, doutora em Ciências da Saúde

Um sistema de ensino que garante a formação educacional da maioria das pessoas é um indicador presente em nações com elevados índices de desenvolvimento humano e de qualidade de vida. No Brasil, embora a educação seja um direito assegurado pela Constituição, conseguir concluir a educação básica, ter uma formação profissional ou fazer um curso superior ainda são realidades muito distantes de grande parcela da população.

Em meio a tantas dificuldades para ter acesso ao conhecimento, há os que agarram as poucas e improváveis oportunidades que aparecem e conseguem mudar a trajetória de vida. Foi assim com Mariana da Silva Santos. Ela, que nunca pensou em cursar o ensino superior, não apenas fez a graduação em Farmácia, como também se tornou mestre e, recentemente, doutora em Ciências da Saúde. Todas as etapas de estudo cumpridas na Universidade Federal de Alagoas. Ela defendeu a tese no início deste mês de março.

Ao relembrar de tudo o que passou, destaca que a educação e as oportunidades encontradas na Ufal mudaram a vida dela. “Depois de todos esses anos estudando, eu comprovei que a educação é a única que pode realizar essa mudança. Por meio dela, tive inúmeras oportunidades, conheci muitas pessoas importantes e hoje eu sou farmacêutica, mestre e doutora em Ciências da Saúde. Logo eu, que pensei que o máximo que aconteceria comigo era trabalhar como empregada doméstica, porque foi isso que aconteceu com a minha vó e a minha mãe”, conta. E aproveita para estimular outros jovens: “Por mais piegas e careta que pareça, sonhem e tenham objetivos maiores do que a sua realidade, porque eu garanto que ela pode ser mudada se você correr atrás, e isso só será possível se você acreditar na educação. Só ela é capaz de fazer essa reviravolta na vida de qualquer pessoa”, diz a recém-doutora.

Filha única de mãe solteira e que trabalhou como empregada doméstica até se aposentar, Mariana é a única da família a ter nível superior. “Morei com minha mãe e meus avós analfabetos a minha vida toda, sou proveniente do bairro da Chã de Bebedouro, periferia de Maceió, e estudei em escola pública da 1ª série do ensino fundamental até o 3º ano do médio. Além disso, sou mulher e negra em uma sociedade machista e racista, só por isso eu já tive muitos problemas, mas nunca liguei porque temos que fazer o melhor que pudermos com aquilo que temos”, reflete.

Ela reconhece o quanto foi importante ter tido chances de melhoria e encontrado quem se dispusesse a ajudá-la. “É necessário deixar claro que tive grandes oportunidades, conheci muitas pessoas que se tornaram grandes amigas e graças a isso eu me formei e consegui tudo o que tenho hoje. Tenho plena certeza que sou fruto da educação que me foi ofertada, diante de todas as dificuldades que me foram impostas”, diz.

A conclusão dos estudos, desde a graduação até o doutorado, afirma Mariana, só foi possível devido aos programas institucionais de bolsa estudantil aos quais ela teve acesso. “Graças a eles, pude concluir o meu curso, pois tive bolsa desde os primeiros três meses que entrei na Ufal até o fim da minha graduação”, diz ao informar que foi bolsista durante dois anos de um programa de extensão e dois anos e meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic).

Com o dinheiro da bolsa, conta ela, “podia comprar os créditos de passagem estudantil para poder ir para a Ufal, tirar minhas cópias, também ajudar em casa e almoçar no RU [Restaurante Universitário], pois o meu curso era diurno. E assim como eu, muitos estudantes dependem deles para garantir a permanência no curso, devido às condições financeiras”.

Com toda formação educacional na rede pública, a recém-doutora destaca a relevância do ensino público e gratuito para a transformação de vida de pessoas que jamais poderiam pagar para ter acesso à educação superior. “A universidade pública é essencial na trajetória de qualquer pessoa que queira mudar de vida. Eu espero que ela nunca acabe, porque 90% de todas as oportunidades que eu tive na vida vieram através dela, assim eu espero que muito mais pessoas possam aproveitar tudo o que ela tem a oferecer”, defende.

Primeiro contato com a Ufal

Mariana conta que estudou o ensino fundamental e médio na Escola Estadual Nossa Senhora do Bom Conselho, em Bebedouro, e que não pensava em fazer faculdade até ter contato com o Pibic Júnior, programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), que proporcionou a ela e a um grupo de colegas o contato com o ambiente universitário.

“No ano de 2006, tive meu primeiro contato com a Ufal. Meu professor de física, Adriano Aubert, inscreveu 11 alunos da escola para fazer a prova de seleção. Nenhum de nós sabia ao certo o que iria fazer, mas ele garantiu que teríamos contato com professores universitários e isso mudaria as nossas vidas. Ele estava certo”, relembra. “Dos 11 alunos, dez passaram na seleção e acho que, se não todos, uma grande parte fez ensino superior”, informa.

Ao passar na seleção, ela conta que assistiu a um mês de palestra, sempre aos sábados, com professores da Ufal e depois fez a escolha do projeto que participaria. “Não sabia muito bem o que me esperava, mas estava aberta a novas situações. Procurei a professora Magna Suzana, logo em seguida, pois ela era a coordenadora do projeto que tinha escolhido. Depois desse dia, tive a certeza que minha vida tinha mudado”, lembra.

Sobre a professora Magna Suzana, sua orientadora desde o primeiro contato com a Ufal, Mariana é só agradecimento: “Costumo dizer que ela mudou a minha vida. É um exemplo de profissional, batalhadora, e eu me inspirei nela e em todos os professores e alunos que tive a oportunidade de conhecer e conviver ao longo desses 13 anos e oito meses de estudo”.

Desse primeiro contato com o ambiente universitário, surgiu o interesse para cursar uma graduação e de aproveitar as demais oportunidades que apareceriam.  “Esse contato com a Ufal representou a mudança da minha vida, a oportunidade de poder escolher o que eu queria ser, independente do tamanho do meu sonho”, revela.

Acesso aos programas e bolsas de auxílio ao estudante

A recém-doutora formada pela Ufal começou o curso de Farmácia no ano de 2008. Mas, antes de ser aprovada, também estudou no curso Conexões de Saberes, iniciativa promovida pela Pró-reitoria de Extensão (Proex) da Ufal e que prepara alunos de escolas públicas para ingressar no ensino superior.

“Fiz vestibular no ano de 2006, quando terminei meu ensino médio, mas não passei. Então uma grande amiga minha, Thays de Lima, começou a me dar aulas de biologia e química junto com o marido dela e descobriu o cursinho. Eu me inscrevi, passei e estudei por um ano no Conexões”, diz.

Na época, lembra Mariana, um polo do programa funcionava na ONG Mulungu, no bairro do Bom Parto. “Só que eu não tinha dinheiro nem para a passagem, foi aí que comecei a receber ajuda de custo do laboratório da Ufal [de Farmacologia e Imunidade, no ICBS], para continuar estudando e foi no vestibular de 2007 que passei no curso de Farmácia”, conta. “Graças às aulas ministradas no Conexões, consegui superar muitas dificuldades basais de conhecimento, pois na época que fiz ensino médio teve greve e também faltavam alguns professores. O que dificultou muito o meu aprendizado”, afirma.

Mariana ingressou na Ufal por meio da política pública de cotas para a população negra oriunda exclusiva e integralmente de escolas de ensino públicas. Ela foi aprovada em primeiro lugar.  “Para mim, a política de cotas foi extremamente importante, por saber que eu teria uma oportunidade de entrar, tendo em vista que o ensino básico público ainda carece de qualidade e existe muito preconceito racial encrustado na sociedade”, defende. “Ao ser aprovada, descobri que eu poderia ser o que eu quisesse porque a educação tinha mudado a minha vida”, complementa.

Ela argumenta que, “independente de sexo, religião, política e condições financeiras, lá dentro [na universidade] todo mundo é igual e vai ser avaliado pelo potencial de conhecimento, nada além disso. Todas as diferenças ficam à parte porque todo mundo que estuda lá passou por uma seleção e está no mesmo ambiente com as mesmas condições de ensino”, enfatiza.

O interesse pela continuidade dos estudos acadêmicos, diz ela, surgiu ainda durante a graduação. “Vi quase todos os meus amigos de laboratório fazendo mestrado e doutorado e eu queria aquilo para mim também. Eu me apaixonei pela pesquisa desde os 16 anos, quando ingressei no Pibic Jr”, conta.

Assim que terminou o curso de farmácia, emendou num mestrado: “Fiz seleção antes de me formar e, assim que concluí, com uma semana depois da colação, fiz a matrícula. O mesmo aconteceu no doutorado”, recorda. “Fui bolsista Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], tanto no mestrado como no doutorado, pois fiquei em 1º lugar na seleção de mestrado e 2º na de doutorado”, destaca.

Atualmente, a mulher negra que nem pensava em fazer faculdade, leciona conhecimento e também motivação em uma faculdade particular de Maceió. Mariana ainda frequenta o Laboratório de Farmacologia e Imunidade do ICBS da Ufal, pois desenvolve alguns projetos com a professora Magna Suzana. “O Lafi é minha segunda casa”, afirma. Para o futuro, continuar sonhando: “Meu objetivo é fazer concurso para docente na Ufal. Já fiz um e fiquei em 4º lugar, pretendo continuar tentando até conseguir”.