Pesquisas da Ufal estudam sistema prisional brasileiro

Trabalhos são interdisciplinares e resultaram em livro da professora Suzann Cordeiro
Por: Pedro Ivon – estagiário de Jornalismo - 14/11/2019 às 10h22
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Foto: Jorge Santos

O meio acadêmico também é ambiente para pesquisas sociais. Algumas dessas, desenvolvidas na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), são voltadas para a temática do sistema prisional brasileiro, principalmente no que corresponde à sua arquitetura. A professora Suzann Cordeiro, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), é uma das docentes que trabalham com esse tema.

“Pesquiso sobre arquitetura prisional desde a época de graduação”, disse a professora, explicando sobre os vários estudos de sistemas construtivos, história da arquitetura prisional, a humanização dos espaços e os parâmetros relacionados aos direitos humanos para os espaços de encarceramento. 

Trabalhos à todo vapor 

De acordo com a docente, recentemente foi feita uma pesquisa, em conjunto com professores da Faculdade de Direito de Alagoas (FDA), para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Na pesquisa foi comparado o sistema prisional da gestão pública e o da gestão privada, com o objetivo de verificar qual a mais eficiente. Foram coletados dados de oito estados com gestão privada nos presídios, além de pesquisas de campo no Complexo de Ribeirão das Neves, em Minas Gerais e na cogestão do presídio de Craíbas.

Durante o trabalho, presos, agentes penitenciários e a equipe técnica foram entrevistados. Os resultados estão contidos em um relatório que será publicado pelo Ipea, através do projeto Pensando o Direito.

Além desse, existem outras duas pesquisas em andamento, ambas com foco no sistema penitenciário: A Identificação de atributos espaciais de tecnologia social em unidades penais de gestão e operação privada, pertencente ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic); e Identificação de atributos espaciais em empresas com políticas de tecnologia social: estudo comparativo de projetos arquitetônicos para a contratação de parceria público-privada ou cogestão na construção e administração de estabelecimentos penitenciários, que vem do edital Universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A professora Suzann também trabalhou com foco nos espaços penitenciários em seu doutorado. De acordo com a docente, a pesquisa pretendeu “conhecer não só os comportamentos do indivíduo frente ao espaço construído, mas, sobretudo, como se apropria do espaço, modifica-o e se constrói enquanto sujeito, inserido num processo dinâmico de transformações mútuas no espaço e no sujeito, aspecto não contemplado pela Psicologia Ambiental”.

Segundo a professora da FAU, foram 45 dias dentro de unidades penais masculinas, videografando a rotina dos presos e agentes penitenciários. O resultado foi 18h de vídeos avaliados para pesquisa., “A relação espaço penitenciário-sujeito preso, permitiu conhecer aspectos estruturais do sistema penitenciário, no intuito de permitir que novas propostas se apresentem para o mesmo”, contou Cordeiro sobre o resultado obtido para contribuição com a sociedade, integrada às áreas de Direito e Psicologia.

A tese de doutorado resultou no livro De Perto e de Dentro, que já está em revisão e ampliação para a 2ª edição, pela Editora da Ufal (Edufal). Suzann também foi indicada para compor o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), além de coordenar a elaboração da Resolução 9/2011, Diretrizes para arquitetura penal, que serviu como uma aliança entre a corte interamericana de Direitos Humanos e o Brasil. Em 2018, entretanto, a resolução foi revogada, gerando diversas manifestações de organizações de defesa dos Direitos Humanos, como a Cruz Vermelha e o Conectas, o Mecanismo Nacional de Direitos Humanos. 

Das pesquisas para as matérias jornalísticas 

As pesquisas realizadas na Ufal e a tese de doutorado de Suzann tiveram um recente reconhecimento. É que o jornal O Globo produziu a série de reportagens Violência Encarcerada, que tratou o tema da crise do sistema carcerário e entrevistou a docente, sobre as pesquisas desenvolvidas na FAU e as experiências vividas durante o doutorado.

“A jornalista da série entrou em contato comigo e concedi a entrevista por Skype. Foi uma surpresa para mim ser contactada”, declarou a professora, que teve sua participação publicada no terceiro e no sexto episódios da série de seis capítulos.

O material foi ao ar no dia 22 de setembro e tem todos os seus episódios disponíveis no Youtube, no canal d’O Globo.