Ufal concede título de Doutora Honoris Causa à fundadora do curso de Arquitetura

Zélia Maia Nobre recebeu o título em cerimônia realizada nessa quinta-feira (10)
Por: Thâmara Gonzaga - jornalista Fotos: Thiago Prado - 11/10/2019 às 17h50 - Atualizado em 17/10/2019 às 15h04
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Zélia Maia Nobre com o diploma de Doutora Honoris Causa

A arquiteta Zélia Maia Nobre, fundadora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e autora de vários projetos premiados, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Ufal, em cerimônia realizada nessa quinta-feira (10) no auditório da Reitoria. O título é o maior concedido pelas universidades e quem o recebe apresenta eminente contribuição para o progresso da Universidade, da Região ou do País.

Conhecida como “dama do traço elegante”, Zélia trouxe para Alagoas uma arquitetura moderna e seus projetos foram marcados pela inovação. O Iate Clube Alagoas, construído em 1963 na praia de Ponta Verde e que durante anos foi cartão-postal de Maceió, a Residência Universitária Alagoana da Ufal, projetada na década de 70, e o Centro Psiquiátrico Judiciário Pedro Marinho Suruagy, de 1978, premiado pela ONU pela humanização do espaço manicomial, são alguns dos exemplos das obras projetadas pela arquiteta. Para saber mais sobre a trajetória, acesse o link

A cerimônia foi marcada pela emoção, prestigiada por familiares, autoridades públicas, representantes de conselhos de profissionais, ex-alunos e comunidade acadêmica. Em sua fala, a arquiteta agradeceu às pessoas responsáveis pela iniciativa da concessão do título e falou dos “laços de amor”, sendo bastante aplaudida. Pernambucana, ela se disse grata a Alagoas, estado que a acolheu. Estou muito feliz de estar aqui e hoje estou grata por tudo isso. Obrigada, Alagoas, mais uma vez. Obrigada, Ufal, pelo título”. Ela também fez uma retrospectiva de vida e destacou: “Sempre fui de olhar para frente. Foi muito difícil [criar a FAU], mas consegui com muito esforço”.

“A mais nova doutora, o meu apreço e que seja bem-vinda como Doutora Honoris Causa a esta casa, a 23ª pessoa a receber o título”, saudou a reitora Valéria Correia, que também parabenizou à FAU pela mobilização. “Destaco o empenho da Cecília Rossé e Adriana Capretz pela dedicação na preparação com muito carinho, junto com o cerimonial da Ufal, para coroar esse momento”, disse a reitora.

Em sua fala, a reitora ainda afirmou que todos esses dias estivemos juntos, como Conselho, para defesa da Universidade. E hoje é um dia de alegria. Entre os 22 títulos, nos 58 anos da Ufal, a senhora é a terceira mulher a receber”, afirmou ao ressaltar a obra arquitetônica, os belos traços, a contribuição dela em duas obras da Ufal. A gestora ainda relembrou que, em 1998, o arquiteto Oscar Niemeyer também foi agraciado com a honraria concedida pela Ufal. “Zélia é a nossa doutora da beleza. É uma honra para esta casa tê-la de volta com esse grandioso título”.

Ao destacar a importância do momento, o vice-reitor José Vieira ressaltou que é “uma justa homenagem”. Para ele, “é importante que a Universidade, como grande centro de saber e agente cultural, reconheça pessoas pelo seu legado, pela sua contribuição nos campos acadêmico, científico, da inovação e também do gênero, já que a professora Zélia é uma das primeiras arquitetas que se destacam e que tem um conjunto de obras de muito relevo, que contribuíram para uma arquitetura moderna em Alagoas”, afirmou. “Para nós, esse é um momento de festa, de algo que é muito importante para os historiadores: reconhecer. Um dos atos mais nobres do ser humano. E o reconhecimento institucional é uma prova inconteste do legado da professora Zélia. Seus pares da FAU a identificaram como uma grande figura para arquitetura no Brasil e agora fazem isso reconhecendo institucionalmente pela Ufal”, ressaltou.

Um dos filhos de Zélia Maia, Manoel Maia Nobre, é docente do Igdema. Ele falou da alegria de presenciar a mãe sendo reconhecida com o título. “É um prazer, uma satisfação, por estar aqui vivo com ela nesse momento. Primeiro, o sentimento é de gratidão à vida. A mamãe foi sempre esse esteio forte da família. Uma pessoa que realmente sempre simbolizou o servir. E hoje, está recebendo essa honraria, para mim, é uma espécie de confirmação de que é bom servir. A Universidade está homenageando uma pessoa que fez realmente pela Ufal com o coração”.

Já o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de Alagoas (Crea – AL), Fernando Dacal, defendeu a importância de participar desse momento de reconhecimento. “É um resgate da história da arquitetura e da engenharia alagoana que a gente tem que reverenciar. Quero parabenizar a universidade pela iniciativa, pelo respeito a uma pessoa que participou da formação da maioria dos profissionais da engenharia e da arquitetura de Alagoas”, disse.

Reconhecimento da comunidade acadêmica da FAU

A proposta para concessão do título de Doutor Honoris Causa à Zélia Maia Nobre foi uma iniciativa de estudantes, professores e técnicos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). A comissão elaborou um dossiê contando a trajetória da arquiteta, a partir de coletas de dados do Grupo de Pesquisa sobre Representações do Lugar (Relu). Também foi entregue um abaixo-assinado composto de 1.091 assinaturas da comunidade concordando com o pedido. A indicação foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Superior (Consuni) da Ufal.

Foi uma causa coletiva de alunos e professores da FAU encabeçada pelas professoras Adriana Capretz e Josemary Ferrare e por mim”, explica a estudante Cecília Rossé. “Foram 10 meses de trabalho intenso e contínuo para resgatar a obra de Zélia Maia Nobre, a fundadora da FAU. Eu me sinto extremamente feliz como representante dos alunos, porque procurei, através da arte, trazer as obras da professora à tona, muitas delas hoje são puras ruínas, infelizmente”, afirmou. “Mas, o trabalho dela permanece, porque cada aluno da FAU que se forma é um fruto da professora Zélia, nossa fundadora, por isso minha alegria, a luta também constante para conseguir o título que foi aprovado por unanimidade, olha que coisa linda! Tem muito ser celebrado”, comemorou.

Aluna da primeira turma do curso de Arquitetura da Ufal, a professora Josemary Ferrare, falou que o momento é um coroamento” para a FAU. “A ação dela de criar o curso, para nós, que fizemos o primeiro vestibular em 1974, foi a conquista de um sonho. Muitas pessoas faziam engenharia pois não tinha arquitetura. Quando chegou esse curso foi uma realização. Essa primeira turma se somou a esse ideal dela e juntamos os esforços, fomos construindo juntos, enfrentando as dificuldades do começo e tivemos uma aproximação muito grande. A primeira turma está muito alegre com esse momento”, festejou.

Autora do discurso em homenagem à Zélia, a professora Adriana Capretz destacou que ela foi uma mulher que sempre esteve à frente de seu tempo. Não fui sua aluna, mas sou grata por fazer parte desse dia histórico. Não há nenhuma arquiteta que tenha recebido esse título no Brasil, ela é a primeira a receber. Devo a ela minha existência nessa área”, afirmou. Capretz ainda relatou que foi Zélia que trouxe para Maceió a modernidade da Arquitetura, autora de expressivo número de projetos, muitos deles com premiações, além de executar as primeiras obras de restauro de Alagoas”. E destacou: “Gracas a sua coragem, estamos aqui hoje. Foram sementes plantadas em terreno fértil. Zélia sempre será semente, sempre dará frutos”.

Para a diretora da FAU, Morgana Cavalcante, a concessão do título é “mais do que justo, um fundamental resgate do reconhecimento da fundadora do curso e de uma grande personalidade na arquitetura moderna em Alagoas e também no país”. E comemorou: “Honra-nos bastante, pois nos traz uma satisfação de reconhecimento por todo o trabalho que ela teve, todo empenho em trazer para Alagoas esse curso. E o resultado disso é o que temos hoje: uma série de profissionais nas empresas, nas prefeituras, nos estados, além de professores da área”.