Ribeirinhos contam histórias para inventário sobre o São Francisco

Iniciativa quer “dar vazão às falas dessas populações” em um filme
Por: Thâmara Gonzaga – jornalista - 10/01/2019 às 09h22 - Atualizado em 10/01/2019 às 09h25
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Equipe durante atividades do projeto. Foto: Arquivo pessoal

Momentos marcantes e lembranças sobre o rio São Francisco. Tudo contado pelos próprios moradores ribeirinhos. Registrar essas histórias, e posteriormente transformá-las em filme, é o objetivo do projeto de extensão O meio ambiente como patrimônio cultural: um inventário dos usos das águas do Rio São Francisco nas cidades de Piranhas e Penedo.

Coordenado pelo docente Rafael Rodrigues, da unidade educacional de Santana do Ipanema, Campus do Sertão da Ufal, “a iniciativa busca identificar elementos da memória, da cultura e da paisagem ligadas ao rio, através do olhar dos habitantes das cidades”, explica o coordenador. “A proposta é realizar um inventário do patrimônio cultural, histórico e natural”, acrescenta. O projeto conta com a participação de estudantes dos cursos de Ciências Contábeis, Ciências Econômicas, da unidade Santana do Ipanema, e da pós-graduação em Antropologia Social da Ufal.

Ao explicar o porquê da realização dessa ação, Rodrigues argumenta que “desde que iniciou as atividades de pesquisa com Patrimônio Cultural, um dos elementos que sempre aparece na fala da população é a ‘queixa’”. Ele explica que “há uma tensão materializada em uma série de reclamações dos moradores das cidades patrimonializadas sobre o modo como as políticas de patrimônio e turismo incidem em suas vidas cotidianas. Com Piranhas e Penedo não é diferente”, afirma.

De acordo com o coordenador do projeto, que é doutor em Antropologia, “dar vazão às falas destas populações, através de um filme, poderá eventualmente contribuir para que o poder público destas duas cidades desenvolva políticas mais inclusivas quando da identificação, seleção e salvaguarda do patrimônio cultural nas cidades”, destaca.

O professor informa que alunos e professores das escolas públicas das referidas cidades, além de personagens locais, a exemplo de artistas, agentes culturais, profissionais de museus e pequenos comerciantes ligados ao turismo, são o público envolvido com as atividades do projeto. “Estamos tentando despertar o interesse de participação de uma comunidade de pescadores de Piranhas. A ideia é conectar pessoas que tenham suas trajetórias ligadas, em alguma medida, ao Rio São Francisco”, ressalta. “A ideia é identificar, nas falas dos moradores dessas duas cidades, a partir de suas narrativas, as transformações pelas quais o rio tem passado, tendo como fio condutor, especialmente, o ritmo acelerado de sua degradação”, conta.

Fases do projeto

Segundo o docente, o projeto é dividido em quatro fases. “Já fizemos a primeira etapa, realizada pelos estudantes da Ufal, que consistiu na leitura prévia do Manual do Inventário Nacional de Referências Culturais [INRC], produzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional [Iphan], e elaboração de oficinas sobre a importância das nossas referências culturais”, cita.

Conforme o planejamento, informa Rodrigues, a execução de oficinas nas escolas, em conjunto com os professores das cidades de Penedo e Piranhas, visando à formação de agentes que possam identificar elementos culturais importantes para as cidades ligadas ao Rio São Francisco, compõe a segunda fase do projeto. Já a terceira, será a identificação dos personagens locais e culturais. Na sequência, serão realizadas as atividades voltadas para a coleta e tratamento das falas dos personagens identificados pelos alunos e professores. De acordo com Edital 4, de 7 de fevereiro de 2018, as propostas selecionadas pelo Programa Círculos Comunitários de Atividades Extensionistas (ProCCAExt) devem ser executadas até o dia 30 de setembro de 2019.

“O primeiro passo é construir uma rede de compartilhamento de conhecimento entre alunos e professores da Universidade, das escolas municipais e estaduais das duas cidades. O segundo é, a partir desta rede, identificarmos demandas locais relacionadas ao rio. Por fim, transformar estas demandas num filme etnográfico sobre a importância do São Francisco para as dinâmicas culturais dos moradores”, conclui.