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Ufal abre as portas para a inclusão de pessoas surdas na educação

Projetos, cursos e um grande reconhecimento são as marcas alcançadas na busca pela acessibilidade a um ensino superior e de qualidade
Por: Thamires Ribeiro - estagiária de Jornalismo - 26/09/2018 às 11h54 - Atualizado em 08/10/2018 às 19h19
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Data comemora o Dia Nacional do Surdo

Inclusão. Este é o objetivo que a Universidade Federal de Alagoas vem buscando alcançar para membros da comunidade que possuem algum tipo de deficiência. E em alusão ao Dia Nacional do Surdo, comemorado nesta quarta-feira (26), a Ufal destaca as principais ações desenvolvidas para proporcionar oportunidades e acessibilidade à essas pessoas.

Dia após dia a maior universidade pública de Alagoas vem buscando meios para se tornar um ambiente o mais inclusivo possível para as pessoas que possuem surdez. Dentre as ações realizadas para difundir a Língua Brasileira de Sinais (Libras), principal língua utilizada por pessoas surdas, destaca-se a oferta do curso de Libras para toda a comunidade acadêmica e externa através dos programas Casa de Cultura no Campus (CCC) e Casa de Cultura de Expressão Visuogestual (CCEV); capacitação de servidores por meio da Pró-reitoria de Gestão de Pessoas e do Trabalho (Progep); e curso de português como a segunda língua para surdos.

Além disso, dois grandes marcos fazem parte dessas ações: a resolução, aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni), que permite que os Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) possam ser feitos e armazenados em Libras; e a disponibilização do vestibular de Letras-Libras em Libras, desde 2014, para que as pessoas surdas tenham acesso ao conteúdo com mais facilidade.  

Grandes conquistas

Marcos de Moraes Santos é o nome do primeiro aluno surdo a defender uma dissertação de mestrado na Universidade Federal de Alagoas. Ele faz parte do Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística (PPGLL) da Faculdade de Letras (Fale). Segundo Marcos, fazer um mestrado na área de linguística foi um desafio que o transformou em uma “outra pessoa”. 

“Professores, disciplinas e novas informações, tudo isso me cativou e me fez ser um pesquisador. Eu fui aprendendo aqui muitas coisas, mas sempre pensando no objetivo final que é o desenvolvimento em prol da comunidade surda, o desenvolvimento da ciência, da reflexão linguística, então, fazer essa pesquisa, uma análise sobre a pessoa surda, foi muito importante para mim”, afirmou Marcos. 

De acordo com Jair Barbosa, coordenador do curso de Letras-Libras orientador de Marcos, atualmente 11 surdos fazem parte do PPGLL, dos quais três são alunos de doutorado e oito de mestrado. Nove deles são professores de instituições federais. Para Barbosa, isso mostra que a política de inclusão da Ufal vem trazendo resultados positivos.

“Foi um prazer enorme orientá-lo, a gente nesse processo aprende muito mais do que ensina qualquer coisa, então isso é bastante satisfatório. A gente tem que pensar nisso como sendo uma política de inclusão e que isso não fique restrito ao PPGLL, mas que possa ser uma realidade, inclusive em outros programas, em termos de graduação e pós [graduação]. Hoje na graduação nós só temos alunos surdos no [curso] Letras-Libras e parece-me que agora passou uma aluna no curso de Administração, é bom que essas coisas positivas se expandam dentro da Universidade”, ressaltou Barbosa. 

A defesa da dissertação, em julho deste ano, foi feita por meio de Libras e traduzida pelo intérprete Thiago Bruno Sousa. A banca examinadora contou ainda com a presença dos professores Aldir Santos de Paula, da Ufal, e Janine Soares de Oliveira, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

“A Ufal tem se tornado uma referência no Nordeste. Particularmente essa pesquisa desenvolvida pelo Marcos é muito relevante e vai entrar com força no cenário nacional como referência de pesquisa”, ressaltou Janine.

Marcos relata com orgulho a conquista alcançada. “Eu entendo que isso é uma referência aqui em Alagoas para os demais surdos, uma prova de que eles também são capazes de entrar na academia, de superar seus limites, de fazer pós-graduação, porque a Libras é uma língua como qualquer outra e ela dá ao ser humano essa possibilidade. Mais uma vez a gente vê o valor da Libras sendo atestado através desse processo, então, eu estou muito satisfeito, muito feliz com a Universidade pela acessibilidade que ela me deu, por ter me aceitado aqui, por ter aberto as portas para a gente entrar, eu estou muito agradecido à Ufal. Estou muito orgulho de ter estudado e me formado aqui”, destacou.  

Reconhecimento do MEC

Recentemente, o curso de Letras-Libras foi avaliado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação (MEC), e, como esperado, recebeu conceito 5, nota máxima. Na avaliação, foram verificadas as condições de oferta de cada curso, considerando a organização didático-pedagógica, corpo docente e instalações físicas.

“Somos um curso novo, fizemos em 22 de setembro quatro anos, e, de ‘presente’, recebemos a nota 5. Poucos são os cursos da Ufal com essa nota máxima na escala de avaliação do Inep/MEC.  Claro que ficamos felizes com a nota, a qual foi possível por meio de muito trabalho em equipe. Alunos, docentes e técnicos contribuíram de forma efetiva para esse resultado. Essa avaliação positiva é motivo de muito orgulho. Ela nos servirá para, por exemplo, batalharmos para que as escolas públicas do Estado e do município implantem Libras nas escolas”, externou o coordenador Jair Barbosa.

Atualmente, o curso destina 50% de suas vagas para pessoas surdas e  possui 86 alunos matriculados, dos quais 26 são surdos. Um deles é Ewerton Douglas de Albuquerque, que está no 8° período de Libras. "Eu acho que esse sistema de reserva de vagas para surdos serve de incentivo para para a participação do certame. Eu ingressei na Ufal me inscrevendo na reserva de vagas destinadas para os surdos. O processo se deu por meio de uma prova em Libras que foi projetada em vídeo para os candidatos", ressaltou..

Cada dia um novo desafio 

Os desafios em torno da inclusão são muitos e a Ufal está sempre de olho. Na última quinta-feira (20), uma discussão proposta pelo Núcleo de Estudo em Educação e Diversidade (Needi) debateu a atualização da Política Nacional de Educação Especial (PNEE) no auditório do Centro de Educação (Cedu). A política orienta os sistemas sobre a educação especial, descrevendo princípios, diretrizes, serviços, profissionais e o público elegível para os serviços da educação especial. 

O debate foi mediado pela professora e coordenadora do Núcleo de Acessibilidade (NAC), Neiza Fumes, que ressaltou a importância da participação da sociedade, principalmente das pessoas com deficiências e os que lidam diariamente com elas, na elaboração desse tipo de documento. 

“Apesar do pouco conhecimento que a gente tem, a gente precisa participar, a gente precisa dar voz nesse processo, na esperança de intervir minimamente no documento final, se a gente vai conseguir, não sei, mas se a gente não participar certamente não seremos ouvidos”, destacou Fumes. 

Jerlan Batista é mestrando em Teoria e Análise Linguística no Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística (PPGLL) e concorda que há muitas barreiras a serem enfrentadas para que o Brasil seja realmente inclusivo. Para ele, que ele fala por meio de Libras desde os 10 anos de idade, o principal desafio encontrado durante a sua educação e em todo o contexto social sempre foi a comunicação.

“Para melhorar a inclusão devem-se ser obedecidas as políticas públicas diante da legislação, ou seja, a LBI [Lei Brasileira de Inclusão]. Os funcionários com todo o corpo docente devem aprender língua de sinais e a lei ser aplicada, de fato, de forma clara e objetiva”, concluiu o estudante.