Sabedoria popular e racismo em pauta no campus Arapiraca

Discussões da manhã de terça-feira (24) na SBPC Afro e indígena trouxeram os temas para o âmbito acadêmico
Por: Renata Menezes - jornalista colaboradora - 24/07/2018 às 16h55 - Atualizado em 24/07/2018 às 16h56
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Dona Maria de Fátima dividiu com o público suas experiências como mestra de saúde popular

A manhã do último dia de realização da SBPC Afro e Indígena teve como destaque as discussões em torno da sabedoria popular e do racismo. Dessa forma, o evento trouxe para o espaço acadêmico temas que ainda são pouco explorados e discutidos pelos pesquisadores. As atividades do evento tiveram continuidade durante a tarde, com a professora colombiana Liliana Parra, numa mesa-redonda sobre as práticas intelectuais afro-indígenas na América Latina.

A sabedoria popular no tratamento de saúde

Na oficina Roda de cuidados das mulheres mestres populares em saúde da comunidade de Pau D’Arco, dona Maria de Fátima apresentou ao público suas vivências enquanto mestre de saúde popular, que fabrica remédios a partir de plantas para curar as mais diversas patologias.

Segundo dona Fátima, o saber sobre as propriedades das ervas e raízes curativas é transmitido oralmente entre as moradoras da comunidade do Pau D’Arco, que trocam suas experiências em conversas corriqueiras durante o dia a dia.

Questionada sobre o valor de seu trabalho, dona Fátima garante que o maior deles é a caridade. “Eu sou uma pessoa humilde, mas meu coração é enorme. Se alguém chega até mim sofrendo e não pode pagar, eu vou atender do mesmo jeito e a recompensa vai chegar depois”, explica.

Apesar de se tratar de um conhecimento que não é registrado em documentos, dona Maria de Fátima garante que ele permanecerá nas próximas gerações. “O nosso saber morre com a gente, mas renasce em outras pessoas que aprenderam com os seus antepassados”, conclui.

Relações afetivas e questões étnico-raciais

Comandado por Larissa Virgínia (UPE), Fátima Vieira (Ufal) e Raul Santos (Creas), o minicurso sobre afetividade negra promoveu a troca de experiências entre a mesa e a plateia, que teve a oportunidade de falar sobre suas próprias vivências.

Os integrantes da mesa tocaram em assuntos fundamentais, como o racismo estrutural que perpassa as interações sociais, a homoafetividade de negros e negras, as relações familiares e a necessidade de auto-aceitação. Assim, o campus Arapiraca foi palco de um debate acalorado que estimulou a participação da plateia.

Para Larissa, todos os temas que compuseram o minicurso devem ser pauta não somente no âmbito acadêmico, mas também no dia a dia. “O corpo e os afetos são posicionamentos políticos, por isso não devemos abrir mão deles em momento algum”, comentou.

Para o professor Antônio César (Ufal), que assistiu à atividade, abordar essa problemática dentro da Universidade é essencial. “O debate é importante para compreender de que forma a afetividade se relaciona com o racismo, gênero e diversidade sexual, compreender como ela é construída socialmente”, destacou.