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Pesquisadora defende o legado de Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira

Marinaide Queiroz é docente do Centro de Educação (Cedu) da Ufal
02/05/2018 às 07h10 - Atualizado em 03/05/2018 às 12h39
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Confira entrevista sobre Paulo Freire, Patrono da Educação Brasileira

Lenilda Luna - jornalista 

Neste dia 2 de maio, completam-se 21 anos do falecimento do educador Paulo Freire, reconhecido mundialmente por suas contribuições ao processo de Educação dos trabalhadores, que por questões socioeconômicas não puderam se alfabetizar na infância, defendendo uma prática educativa que dialoga com a realidade do educando. Ele é autor de livros traduzidos em vários idiomas, como a Pedagogia do Oprimido, Educação como prática da liberdade, entre outros. 

Para homenagear a memória do Patrono da Educação Brasileira, título estabelecido pela lei nº 12.612/2012, entrevistamos a professora Marinaide Queiroz, que também tem uma história dedicada à educação de jovens e adultos, seguindo o caminho trilhado por Paulo Freire e por outros teóricos brasileiros e latino-americanos que acreditam na educação como uma ferramenta libertadora. 

Marinaide é pós-doutora na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação na Universidade do Porto (Portugal) e tem doutorado em Linguística pela Universidade Federal de Alagoas. Atualmente é professora associada do Centro de Educação da Ufal e vice-coordenadora do Comitê Científico da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação (Anped), representando o grupo de trabalho sobre Educação de Pessoas Jovens e Adultas. 

Confira a entrevista com a educadora Marinaide Queiroz sobre Paulo Freire: 

Lenilda Luna (LL)- Poderia resumir quem foi Paulo Freire e qual a importância dele para a Educação? 

Marinaide Queiroz (MQ) -  Paulo Reglus Neves Freire, conhecido como Paulo Freire, educador e filósofo brasileiro, pernambucano, conhecido mundialmente, nasceu em 19 de setembro de 1921 e morreu em São Paulo em 2 de maio de 1997. Viveu sempre muito sensível aos oprimidos. Foi alfabetizado pela mãe, que o ensinou a escrever no quintal de casa, utilizando pequenos galhos de árvore, conforme nos narra de forma emocionante no artigo a Importância do ato de ler de 1989, que tem o mesmo nome do livro publicado pela Editora Cortez/Autores Associados, que é a edição que dispomos, e tem três textos que se completam. 

No prefácio do referido livro Antonio Joaquim Severino (p. 7), nos diz que a obra explicita “ a compreensão crítica da alfabetização e do papel de uma biblioteca popular relatando e documentando suas experiências de alfabetização e de educação política que Paulo Freire produz sua obra, pensando e repensando sua própria prática, sua vivência pessoal”, sempre nos mostrando que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, nos conscientizando que precisamos da leitura da palavra para reler o mundo.

Essa forma de alfabetizar-se não o impediu de sempre lutar por escolas com condições dignas para os estudantes, como sempre afirmava, nos poucos momentos que dialogou conosco: “a escola deve ter cara de escola”. Já reconhecia o direito do povo estudar dignamente. 

Damos um recorte na história do educador e dizemos que no ano de 1947 ele atuou no Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social da Indústria (Sesi), o que lhe oportunizou contato com a alfabetização de adultos. Em 1958 liderou um grupo no 2° Congresso Nacional de Educação de Adultos, realizado pelo Ministério da Educação no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Nos encontrávamos no governo de Juscelino Kubitschek. Nesse evento, a comissão do seminário preparatório realizado em Pernambuco, cujo relator foi Paulo Freire, que liderava um grupo, apresentou e defendeu um relatório intitulado A educação de adultos e as populações marginais: o problema dos mocambos, onde defendeu entre outros pontos “uma educação de adultos que estimulasse a colaboração, a decisão, a participação e a responsabilidade social e política’’.

As teses defendidas no citado relatório marcaram não somente novas ideias e novos métodos educativos para adultos, mas também, o início da transformação do pensamento pedagógico brasileiro e a introdução de uma reflexão diferenciada sobre o social na elaboração das ideias pedagógicas para toda Educação.

Na efervescência do contexto histórico da realidade brasileira, houve a implantação de vários movimentos designados de cultura popular, entre os quais destacam-se: o Movimento de Cultura Popular (MCP, Recife, 1960); o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE, 1961), que se expandiu de Pernambuco para vários estados; a Campanha De Pé no Chão se Aprende a Ler (Natal, 1961); a Campanha de Educação Popular da Paraíba (Ceplar, 1962); o Movimento de Educação de Base (MEB), criado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 1961. Sem esquecermos de destacar que o Sistema de Alfabetização Paulo Freire, a partir da experiência de Angicos, em 1963, inovou radicalmente não só o conceito de alfabetização, como consolidou o próprio modo de trabalhar com os adultos na perspectiva da conscientização.

Para Fávero e Freitas, “a melhor metodologia de trabalho foi o Sistema Paulo Freire de Alfabetização, que estava na base de um amplo Sistema de Educação de Adultos, iniciado com a alfabetização e culminando com uma Universidade Popular, numa perspectiva de alargamento da continuidade dos estudos bem mais avançada do que a que encontramos nos dias atuais”.

Com o golpe Civil-Militar de 1964, Freire foi exilado e taxado de subversivo, devido as suas ações e ideias em favor dos oprimidos. Viveu no exílio no Chile e na Suíça, onde continuou a produzir conhecimentos na área de educação e tornou-se conhecido mundialmente, com grande influência, sobretudo, na América Latina.

Enquanto estava no exílio o seu livro Pedagogia do Oprimido (1969), considerada a sua principal obra circulou no Brasil de forma clandestina e nele encontramos a essência, no nosso entendimento, da sua concepção filosófico-metodológica, que já defendia antes do exílio. Seu livro nos mostra, dentre muitos pontos, que o diálogo é o encontro de pessoas mediatizadas pelo mundo, não se esgotando na relação eu-tu.

Ainda citamos que ao voltar ao Brasil, a partir da Lei da Anistia, ele continuou a contribuir para a Educação de um modo geral e assumiu o cargo de secretário municipal de educação da cidade de São Paulo, na época em que Luiza Erundina foi prefeita da capital paulista. Dentre os muitos legados para a Educação, deixou para nós da área de Educação de Jovens, Adultos e Idosos (Ejai) o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOVA).

Em resumo afirmamos que Freire deixou uma contribuição fundamental para todas as áreas do conhecimento e isso é socializado, sobretudo, nos Colóquios sobre Paulo Freire realizados de dois em dois anos na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Encontramos também as contribuições de Freire nas experiências apresentadas nos campos da saúde, das ciências exatas, da extensão rural, da comunicação, além dos outros campos da Educação.

LL - Há pouco tempo, houve uma proposta de revogar a lei de 2012, que institui Paulo Freire como Patrono da Educação Brasileira. A comunidade acadêmica reagiu e o Senado não aprovou a ideia legislativa da senadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra. Como você acompanhou esse processo?

MQ - Acompanhamos com muita indignação e perplexidade, até a derrubada dessa proposta. Na nossa compreensão isso reflete, sobretudo, esse momento que estamos vivendo no Brasil onde se sobressai a crise ética, e um jogo político-econômico nefasto para a maioria da população; aliado ao discurso vazio da Escola “Sem Partido”; à privatização em todos os níveis de educação; aos ataques aos direitos trabalhistas e humanos – de negação de direitos e desrespeito às diversidades, dentre outros pontos que caminham na contramão das ideias defendidas por Freire desde a década de 1950. Muitas pessoas desconhecem as suas contribuições e, nesse contexto, lamentavelmente, encontram-se os jovens.

LL - Em Alagoas, qual a influência de Paulo Freire na área educacional nos ensinos superior e fundamental?

MQ -  Não temos dados exatos nesse sentido, mas podemos dizer que, localmente, no ensino superior, considero que a influência das contribuições desse educador poderia ser bem maior. Já não se vivencia a Educação Popular como nas décadas de 1950 e 1960, antes do golpe Civil-Militar de 1964. Existiram algumas retomadas, sobretudo, dos Movimentos Sociais, a partir do período da redemocratização brasileira. O que existe atualmente são atuações localizadas.

Em pesquisa denominada A educação de jovens e adultos em Alagoas - incursões na história das políticas - ações e concepções em âmbito governamental (1960-1980), financiada pela Anped/Secad, publicada em 2007, e coordenada pela professora Emérita da Ufal Tania Moura, não encontramos em Alagoas experiências com base nos contributos de Freire, a exemplo do que aconteceu em Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. Mas, seria injusto não citar o MEB e a Fase, quando atuavam em Alagoas. Em 1987 tentamos vivenciar as contribuições de Freire em uma experiência de alfabetização, no Estado de Alagoas, mas não avançou devido à ausência de condições objetivas para a sua continuidade. A partir de 1993, o então Departamento de Educação de Jovens e Adultos (Deja) da Secretaria Municipal de Educação de Maceió (Semed) implantou a Educação de Jovens e Adultos (EJA) em suas escolas e havia os princípios freireanos como base; e o Deja, mesmo entre avanços e recuos nunca abandonou essa perspectiva. É tanto que a atual Coordenadoria Geral de Educação de Jovens, Adultos e Idosos (CGEJAI) consolidou em 2017 as suas orientações curriculares para a Ejai, com base em Rede Temática, cujos pressupostos teóricos são fundados na Pedagogia do Oprimido e é fruto de um trabalho ainda da década de 1990.

Tal construção curricular é baseada no diálogo com o povo, diálogo esse que começa na busca do conteúdo programático oriundo da experiência concreta, do dia a dia dos sujeitos em sua labuta cotidiana. Portanto, a CGEJAI da Semed de Maceió tem se constituído em um campo de insistência e resistência no vivenciar as contribuições de Freire, que permanecem atuais, e destacamos também as ações do Fórum Alagoano de Educação de Jovens e Adultos (Faeja), que se constitui em outro campo de resistência.

Nossa convivência com Freire ocorreu predominantemente por meio de leituras dos seus livros e também pelo fato de conhecer in loco, Brasil afora, nos finais dos anos 1980 e início de 1990, as principais experiências educacionais com base nas contribuições desse educador, a exemplo, as acontecidas nas cidades do ABC paulista, Embu, Porto Alegre, Olinda, dentre outras. Destacamos, enfim, nesse caminhar dois momentos de convivências rápidas e marcantes que tivemos pessoalmente com Paulo Freire: uma vez em Maceió, quando participamos de um grupo de alfabetização, a qual já nos referimos, para ouvirmos os conselhos dele sobre como atuar melhor no campo da Educação Popular nas escolas públicas estaduais. Naquele encontro, ao atender nosso pedido, ele nos indicou a sua prima de Pernambuco, Adozinda Freire, para continuar conosco os diálogos educacionais no projeto, ao longo de mais dois anos, tempo de duração da experiência em Alagoas.

E o segundo momento ocorreu no Núcleo dos Excluídos, na PUC-SP, encontro esse proporcionado ao nosso grupo do então Deja da Semed Maceió pela professora Tania Moura, que à época realizava seu doutorado naquela Universidade e integrava o citado Núcleo. Nosso diálogo com Freire naquele encontro fora sobre a nossa experiência de atuação com jovens e adultos em Maceió e as experiências vivenciadas por ele, Paulo Freire, quando Secretário de Educação da Cidade de São Paulo.