Pesquisa usa a matemática para avaliar impacto ambiental dos transgênicos

Docente da Ufal construiu um modelo que explica a interação entre transgênicos e organismos naturais convivendo no mesmo espaço
23/05/2017 às 16h13 - Atualizado em 02/06/2017 às 17h38

Lucas Maia - estudante de jornalismo

Os transgênicos, organismos geneticamente modificados (OGMs), estão presentes a relativamente pouco tempo no Brasil. Por aqui, apareceram pela primeira vez, de maneira clandestina, em 1997. No decorrer desse período, muito foi debatido sobre o tema. Leis e normas foram estabelecidas, mas as pesquisas ainda são recentes e não há um consenso científico a respeito da segurança desses organismos para o meio ambiente ou para a saúde.

Novas pesquisas científicas podem contribuir para a melhor compreensão dessa questão. Entre elas está a do professor Rinaldo Vieira. Ligado ao Núcleo de Ciências Exatas da Ufal, o matemático construiu um modelo que explica a interação entre transgênicos e organismos naturais convivendo no mesmo espaço.

Vieira explica que todos os organismos são competidores puros e, no caso de uma competição entre plantas originais e suas variantes transgênicas, as primeiras tenderiam a diminuir tanto a população quanto a produção. De modo simplificado, na guerra por nutrientes e espaço entre plantas naturais e suas variantes de laboratório, as naturais seriam severamente afetadas. Segundo o professor, ainda que para fins matemáticos isso não tenha sido levado em consideração, muito provavelmente ocorreria a exclusão completa da espécie natural.

Utilizando uma técnica conhecida como trofodinâmica analítica, Rinaldo construiu um modelo capaz de transpor para o universo matemático questões complexas como a da interação entre organismos naturais e transgênicos. “A abordagem analítica da trofodinâmica, baseada em mecanismos biológicos, fornece o contexto matemático apropriado para o estudo dos sistemas ecológicos sob a influência de mudanças ambientais, produzidas naturalmente ou não”, diz. De acordo com o professor, no futuro será possível utilizar os dados já consolidados para desenvolver pesquisas ainda mais avançadas. "Após utilizar a trofodinâmica analítica, num próximo estágio esperamos simular em computador o que acontece no mundo real", conclui.

A pesquisa surgiu como tese de doutoramento na Universidade de Campinas (Unicamp). “Eu participava de grupos de pesquisa em Teoria das Equações Diferenciais e uma das aplicações dessas equações são nas áreas da Física e da Biologia”, diz. A pesquisa foi orientada pelos professores Pedro Catuogno e Solange da Fonseca, que propuseram o estudo dos impactos ambientais dos transgênicos com o uso da matemática.

Segundo Rinaldo, o próximo passo é considerar os efeitos dos organismos transgênicos em ambientes naturais como a Mata Atlântica. Para que isso fosse possível, foi firmada uma cooperação entre o matemático e um pesquisador das ciências agronômicas, o professor Marcos Alex. Os dois têm trabalhado juntos no Laboratório de Análise Aplicada do Campus Arapiraca da Ufal. Essa cooperação visa realizar uma pesquisa mais abrangente sobre a questão dos transgênicos, o que em breve pode trazer novas descobertas na área.

De acordo com o coordenador do Laboratório de Ecologia Quantitativa da Ufal, Marcos Vital, a pesquisa de Rinaldo Vieira traz dados muito interessantes. Para ele faz todo sentido as variantes transgênicas competirem com as variantes originais e até mesmo causar a exclusão dessas. Entretanto, adverte que esse talvez não seja o maior problema à biodiversidade já que a maior parte dos organismos transgênicos cultivados no Brasil não pertencem a flora nativa.

Desta forma, a possibilidade de, digamos, um milho transgênico substituir milhos não modificados é um problema ligado a outras esferas, e não à conservação de biodiversidade diretamente”, afirma o professor. “Ainda é um problema, claro: produtores que não querem plantar transgênicos, por exemplo, não deveriam ser afetados por plantações vizinhas. E os próprios consumidores deveriam ter o direito de saber o que estão consumindo, sempre”, esclarece. “Mas perceba que uma plantação de milho, no exemplo, já não é um ambiente natural. Uma plantação na forma de monocultura, por exemplo, é em si um problema para biodiversidade nativa, e não importa tanto, deste ponto de vista, se é uma monocultura de transgênico ou não”, afirma.

Para Vital, a maior preocupação em relação ao problema dos transgênicos na biodiversidade são seus efeitos nas “espécies não alvo”. Ele explica que a maior parte dos organismos são modificados para ser resistentes a algum agente externo. Uma dessas modificações ocorre com a inserção de genes da bactéria Bacillus thuringiensis em plantas. Essa bactéria tem poder inseticida, e quando esses genes são inseridos na soja, por exemplo, ela irá ganhar a mesma capacidade inseticida, protegendo a plantação do ataque de insetos. “Até aí tudo bem. A questão que associa tudo à biodiversidade vem quando você pergunta: e os insetos que não são praga e fazem parte da fauna nativa? O que acontece com eles? Eles podem ser potencialmente afetados mesmo que não seja a intenção original”, questiona. “Neste sentido, o uso de transgênicos pode afetar a biodiversidade de maneira direta: insetos que são polinizadores, para dar apenas um exemplo, podem ser afetados pelo efeito inseticida do transgênico, o que seria um impacto ambiental direto sobre a biodiversidade nativa”, diz.

Teoricamente, o estudo dos impactos sobre insetos não alvo faz parte da avaliação de risco pela qual os transgênicos devam passar antes de ser produzidos. Aí resta a questão do quanto esta avaliação de risco é feita de maneira rigorosa”, conclui Vital.

Novas variedades transgênicas foram liberadas comercialmente

No início de março de 2017, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão ligado ao Governo Federal, aprovou a liberação comercial de seis novas variedades de organismos geneticamente modificados (OGMs). Entre os organismos liberados estão o milho, o algodão e a soja.

Quando o CTNBio aprova a liberação comercial de determinadas variedades geneticamente modificadas, significa que empresas produtoras estão autorizadas a comercializar transgênicos destinados ao cultivo, produção, manipulação, transporte, importação, exportação, armazenamento e também ao consumo animal e humano.

Para o presidente do CTNBio, Edivaldo Velini, os debates da comissão são bastante amadurecidos e a aprovação da liberação comercial desses organismos contribuem para o desenvolvimento agrícola do país, já que eles possibilitam um aumento da produtividade ao mesmo tempo em que a sustentabilidade ambiental é respeitada.

Por outro lado, para organizações de proteção ambiental, os transgênicos oferecem sérios riscos tanto para a biodiversidade quanto para a saúde de agricultores e consumidores. De acordo com o Greenpeace, a simples presença dos transgênicos nas lavouras pode causar redução da biodiversidade, já que eles acabam contaminando as sementes naturais plantadas em regiões próximas. Além disso, o uso massivo de agrotóxicos nas plantações de transgênicos causa danos não só ao meio ambiente, mas também a todas as pessoas envolvidas no processo, afirma a organização.