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Pesquisador da Ufal descobre ação da peçonha dos peixes sapo e escorpião

Animais marinhos têm atividade de intoxicação oposta ao dos terrestres, o que explica a dificuldade em se buscar tratamentos
19/07/2016 às 12h29 - Atualizado em 29/08/2016 às 14h37
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Professor Hugo Pereira, do IQB

O peixe-sapo, mais conhecido como niquim, é facilmente encontrado nas lagoas, um dos principais ecossistemas do estado alagoano. Já o peixe-escorpião, também chamado de beatriz, vive escondido em recifes de coral, como os que podem ser encontrados nas praias de Maceió e também nas do interior de Alagoas. O comum entre os dois é o raro e até então desconhecido mecanismo de toxicidade, ou seja, o modo de atuação da peçonha (popularmente, chamada de veneno) quando inoculado no ser humano.

A descoberta é do grupo de pesquisa de Bioquímica e Biologia Molecular, do Laboratório de Metabolismo e Proteômica (Lamp), vinculado ao Instituto de Química e Biotecnologia (IQB) da Ufal, e surpreendeu o meio científico pelo fato desses animais marinhos apresentarem uma atividade de intoxicação totalmente oposta ao que é encontrado nos animais terrestres peçonhentos.

“Em cascavéis, jararacas, aranhas e escorpiões, geralmente, o mecanismo de toxicidade é inibir uma atividade enzimática específica, chamada enzima conversora. Ocorre que nós encontramos a própria enzima nas peçonhas dos peixes sapo e escorpião, ou seja, são animais que usam a enzima e não a inibição dela. É algo totalmente diferente de tudo o que é visto nas espécies terrestres”, explica o doutor em Bioquímica e coordenador da pesquisa, professor Hugo Pereira.

Ele explica também que as peçonhas dos animais terrestres são mais líquidas, diferente da dos animais marinhos pesquisados, que são quase gelatinosas, viscosas e demoram mais tempo a dissolver.

Diante desse importante achado científico, o desafio agora é explicar como essas enzimas funcionam nas peçonhas. “Temos que entender como podem ser tão tóxicas, se nos animais terrestres você tem a inibição delas como parte da toxicidade. Isso explica a ineficácia em se buscar tratamentos, porque, em todas as espécies terrestres, você encontra a inibição dessa enzima como parte do mecanismo da toxicidade e isso não ocorre com os peixes sapo e escorpião”, esclarece.

Os estudos sobre o assunto são poucos e recentes, o que dificulta a descoberta, em curto prazo, de um medicamento para tratar os que são feridos pelos peixes niquim e beatriz. O grupo da Ufal, um dos principais do Brasil, tem apenas quatro anos de existência e atualmente vive o seu melhor momento.

Como os animais terrestres peçonhentos têm mais chances de ser encontrados, os estudos sobre eles são bem mais amplos. “Na lagoa ou no mar, tem chance se der ferido quem pratica esporte aquático ou trabalha. Por isso, cerca de 98% dos acidentes com animais marinhos peçonhentos são sofridos por profissionais”, diz Pereira.

Preocupação maior com o peixe-sapo

Além da importância acadêmica, a continuidade da pesquisa tem relevância por causa de seu impacto social, principalmente, em Alagoas. Embora não seja um caso de notificação obrigatória pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), é alta a incidência de pessoas feridas pelo niquim e com consequências sociais graves, uma vez que não há antídoto que neutralize a ação da peçonha produzida pelo animal.

Os principais atingidos são pescadores, sobretudo, os que trabalham na pesca do sururu. Ao mergulhar na lagoa e remexer a lama para retirar o molusco, o trabalhador entra no ambiente do peixe-sapo que, para se defender, recorre ao mecanismo de defesa o qual é formado pelo sistema inoculador.

“É fatal quando esse encontro ocorre, não tem como evitar, infelizmente. O hábito do peixe é viver na lama, ficar de repouso no leito da lagoa, justamente onde fica o sururu. Não tem como evitar”, esclarece o pesquisador.

A substância tóxica do niquim não é letal, mas pode deixar sequelas incapacitantes, como a perda total do membro ou da sua função motora. O professor Hugo Pereira entrevistou vários pesquisadores e se surpreendeu ao ver quantos deles não apresentam a capacidade integral para o trabalho. “É difícil encontrar um com todos os dedos funcionando. Eles [pescadores] dizem 'esse não mexe’, ‘perdi esse em um acidente’, ‘já tive vários acidentes'”, conta. Mas o pesquisador alerta que nem todos os feridos pelo peixe perderão os movimentos, pois depende da idade e do quadro físico de cada pessoa.

As principais queixas daqueles que se acidentam são dor intensa e febre. “ ‘Dói o osso, professor’, é o que eles dizem. E esse ‘empeçonhamento’ é muito triste, pois tem um lado social. Ele fica impedido de trabalhar por semanas, porque é a mão ou o pé que perde movimento, às vezes, é preciso até amputar”, lamenta o pesquisador. 

Para saber o número de pessoas acidentadas aqui no Estado, o pesquisador da Ufal teve que analisar os dados globais referentes a animais peçonhentos, fornecidos pela Sesau, e desmembrar entre terrestres e marinhos. 

Ao analisar os prontuários, foram encontradas 76 subnotificações (informações de prontuário) de acidentes com o niquim no período de três anos. “É um índice sete vezes maior que o do Ceará. Enquanto a secretaria de Saúde do estado cearense relata 21 casos em 10 anos, a Sesau de Alagoas apresenta 76 em três anos de coleta. E essa prevalência pode ser ainda maior, uma vez que aqui há muito mais lagoas e não há notificação de acidentes com animais marinhos peçonhentos”, diz o pesquisador, num comparativo com o estado de Ceará, onde há uma central exclusiva para comunicação de acidentes com quaisquer animais marinhos peçonhentos.

Outro fator para subnotificação dos casos é a baixa procura por atendimento médico. Muitos pescadores não procuram os postos de saúde e há muita falta de informação sobre o assunto. Não é difícil encontrar na lagoa Mundaú trabalhadores com histórico de 14 ou até mais acidentes.  “São casos que acontecem todos os dias. Eles são feridos várias vezes e acabam achando normal parar de mexer o dedo, perder o membro, ficar duas semanas sem trabalhar. Nem contam mais e as morbidades vão se acumulando, pois não existe tratamento”, afirma Hugo Pereira.

E encontrar um tratamento eficiente é um dos principais desafios do grupo de pesquisa da Ufal. Hoje, ao ser picado por uma cobra, por exemplo, a pessoa vai ao posto de saúde e tem chances de receber um medicamento específico. No caso do peixe-sapo, e também do escorpião, isso não é possível, pois não há tratamento pela soroterapia, tal como é feito com os animais terrestres, nem paliativo. O principal procedimento adotado é a analgesia. “Todos os anti-inflamatórios não respondem bem, pois o principal quadro é de inflamação, com um grande inchamento do membro, às vezes com infecção secundária, que pode evoluir para uma gangrena, tendo possibilidade de perder o membro”, explica o pesquisador.

Busca pelo antídoto

Há muitos estudos do Instituto Butantã na tentativa de encontrar um soro para a peçonha do peixe-sapo. Segundo o pesquisador da Ufal, os profissionais do instituto coletam, com frequência, cerca de 40 a 50 animais nas lagoas Mundaú ou Manguaba e levam para São Paulo na tentativa de neutralizar a ação tóxica da substância produzida pelo animal.

Nada foi encontrado ainda. “Como profissionais imunologistas, o interesse deles é voltado para uma aplicabilidade imediata, ou seja, neutralizar, fazer um soro. O que ainda não foi eficaz em dez anos de tentativa”, explica.

De acordo com o professor, pouco se tem feito para estudar e entender a peçonha desses animais marinhos, o que dificulta os avanços sobre assunto. “É próprio da bioquímica fracionar e entender, separadamente, as substâncias e moléculas dos seres vivos. E é exatamente isso que o nosso grupo de pesquisa na Ufal vem fazendo. Quem sabe, ao estudar melhor essa enzima, consigamos inibi-la e assim ter uma melhoria no quadro dessas pessoas”, conclui.

Publicação da pesquisa em revistas e livro

A descoberta do pesquisador da Ufal, Hugo Pereira, já resultou na publicação de livro e de três artigos em revistas científicas de circulação internacional. Com o título Atividades vasopeptidasícas da peçonha e do muco tegumentar, da editora Novas Edições Acadêmicas, o livro é um relato detalhado sobre como foi a descoberta do inusitado mecanismo de toxicidade dos peixes sapo e escorpião.

“São animais que nunca foram estudados e até esperávamos encontrar coisas muito diferentes, mas não opostas. É um tópico extremamente estimulante do ponto de vista cientifico, mas também há uma motivação social de entender e, uma vez entendido, interferir. E essa descoberta é destrinchada na obra”, assinala o autor. O livro foi bem recebido pela comunidade acadêmica e está sendo traduzido para o inglês. A obra será lançada pela editora polonesa Intech e distribuído na União Europeia. 

Já os artigos, publicados em periódicos internacionais, abordam a descrição e o isolamento da atividade tóxica apresentada pelos animais marinhos. Dois deles foram publicados na revista Toxicon, do grupo Elsevier, um no mês de maio de 2015 e o outro em setembro.

O terceiro foi publicado no International Journal of Biological Macromolecules, também pertencente ao grupo Elsevier. Nessa publicação, o pesquisador explica que foi um estudo mais refinado, apresentando pela primeira vez o isolamento da enzima, chamada conversora de angiotensina, responsável pela atividade tóxica, caracterizando-a estruturalmente.

“Foi um artigo cientificamente mais desafiador, mas estamos nos motivando cada vez mais. Vamos continuar os estudos para compreender a ação dessa peçonha que se mostra tão diferente da dos terrestres. Há o desafio cientifico e também prático, pois estamos em Alagoas e é compromisso nosso poder melhorar a qualidade de vida das pessoas. E acreditamos que compreendendo esses componentes a gente consiga, sim, melhorar”, ressalta o professor.