Caiite 2015 reúne pesquisas sobre diferentes expressões da violência

Ações conjuntas propõem compreensões multidisciplinares da temática

10/04/2015 09h43 - Atualizado em 10/04/2015 às 14h31
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Professora Elaine Pimentel vai debater no Eixo “Segurança e Direitos Humanos no Caiite 2015

Jhonathan Pino – jornalista 

Homicídios e ações para reclusos do sistema prisional são alguns dos temas que fazem parte do eixo Segurança e Direitos Humanos, do Congresso Acadêmico Integrado de Inovação e Tecnologia (Caiite 2015). No evento, que acontece entre os dias 15 e 20 de junho, a sociedade estará ali representada por docentes, discentes e população para tentar compreender as diversas problemáticas que rondam esses assuntos. Entre eles, estarão Elaine Pimentel e Ruth Vasconcelos, expondo parte de suas investigações. Juntas, as duas docentes organizarão também 4º Encontro de Estudos sobre a Violência do Núcleo de Estudos sobre a Violência em Alagoas (Nevial). 

É um tema de difícil tratamento, porque as pessoas não se percebem violentas. Quando você aplaude um linchamento, não se comove com a morte de um jovem, porque você o desconhece, em alguma medida, isso é muito violento. A indiferença é violenta. E aí o que a gente tem que começar a perceber é para discutir a fundo essa temática, cada um de nós tem que se perceber que é capaz de produzir a violência nesses níveis de discriminação, do preconceito, do abandono, de perder a capacidade da solidariedade, de não ver o outro como sujeito de direitos”, destaca Ruth. 

Como forma de estudar essas problemáticas, o Nevial aglutina cientistas sociais, psicólogos, juristas e profissionais de demais áreas para discutir a violência, nas suas diversas expressões. Assédio moral, violência na mídia, ou policial, fanatismo de torcidas, perseguição religiosa e da diversidade, exclusão social e os custos da violência já foram pautas de algumas das investigações provenientes de pesquisadores da Ufal e do Centro Universitário Cesmac. “É um grupo que tem se debruçado sobre as várias formas de violência existente na sociedade, com as suas especificidades. Trabalha também com a segurança pública e os direitos humanos”, diz Ruth. 

Para a docente do Instituto de Ciências Sociais da Ufal, a ampliação da violência na cidade de Maceió é consequência da fragilização dos laços sociais e do aumento da desconfiança e do medo, tanto nos bairros centrais, como nas periferias da cidade. “Uma de nossas dissertações abordou o conjunto Selma Bandeira e a questão da exclusão social dos jovens que moram lá, a ausência de perspectiva de vida e profissional, e como isso gera também um ambiente conflituoso, de muitas privações, que desenvolvem nesses garotos e garotas um sentimento de não reconhecimento no espaço social”, acrescenta a professora. 

Trabalho em parceria 

Esses trabalhos são realizados como projetos de iniciação científica, pesquisas de pós-graduação, ou de extensão, como é o caso do Programa Ufal em Defesa da Vida e do Encontro de Estudos sobre a Violência do Nevial, ambos presentes no Caiite. Ruth Vasconcelos revela que eles são sempre feitos em parceria e, de acordo com os interesses de pesquisa dos estudantes, independentemente de suas áreas de investigação. 

Um deles, feito sobre o sistema profissional, foi desenvolvido com o aluno de Ciências Sociais, João Brás, que havia sido preso por dois anos, enquanto graduando. Com ele, Ruth teve uma de suas experiências mais fortes como docente. “Eu acho que eu tinha uma missão ali, como educadora, muito importante. Quando ele queria desacreditar do sistema, eu tentava dizer que ali tinha falhas, mas era a única forma de resgatá-lo”, diz a docente, que apesar de toda a abertura do Nevial, enfatiza a impossibilidade de trabalhar com teorias que defendam a prática da violência. 

Foi a partir dessas parcerias que surgiu a união acadêmica entre Ruth e Elaine Pimentel, da Faculdade de Direito (FDA) da Ufal. Esta foi orientada por Ruth, em sua tese, tematizada nas relações afetivas envolvidas no tráfico de drogas e publicado como livro intitulado As mulheres e a vivência pós-cárcere, pela Edufal. 

Além de participar das atividades do Nevial, Elaine coordena o Núcleo de Estudos e Políticas Penitenciárias (NEPP) e, desde 1996, ainda em sua graduação, a docente vem investigando os aspectos relacionados ao sistema prisional: “questões jurídicas da pena, questões de execução penal em si, educação prisional, direitos humanos e cidadania, arquitetura prisional, medidas de segurança, tudo com foco em questões de gênero”, enumera Pimentel. 

Nesse grupo, estão envolvidos bolsistas e voluntários, no apoio aos projetos de extensão. “O retorno acadêmico é bastante intenso, sobretudo porque há um interesse crescente de estudantes de várias áreas em participar desses grupos e debates. Como a questão da violência e da criminalidade está muito evidente, as inquietações acadêmicas se ampliam e se aprofundam. Assim, o retorno acadêmico está intimamente ligado ao retorno do social”, relata Eliane. 

Além do NEPP e do Nevial, a Ufal sedia o Núcleo da Mulher da Ufal, coordenado pelas professoras Maria Aparecida e Elvira Barretto e o Núcleo de Estudos Afrobrasileiros (Neab), liderado por Clara Suassuna. “Este é um grupo que não discute diretamente a questão da violência, mas esta transversaliza a questão do racismo. Já o primeiro discute a questão do machismo e da homofobia, que são temas cadentes da temática da violência”, destaca Ruth. 

Na Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design (FAU), Suzann Cordeiro investiga a questão da arquitetura prisional. Existe também o Grupo de Estudos, Pesquisas e Projetos Sociojurídicos (Gepsojur), coordenado pela professora Mara Rejane, da Faculdade de Serviço Social (FSSO) da Ufal.