Fungo responsável por mortes de anfíbios é encontrado em Murici

Biólogos do Museu de História Natural treinam guardas florestais para evitar que micróbio se propague

21/01/2014 11h15 - Atualizado em 14/08/2014 às 10h29
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Tamí Mott, bióloga e coordenadora da pesquisa

Pedro Barros – estudante de Jornalismo

Pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) encontraram um fungo na Estação Ecológica (Esec) de Murici, que tem sido responsável por alto número de mortes de anfíbios em várias partes do mundo. O Batrachochytrium dendobratidis (Bd) é responsável por gerar uma doença chamada quitridiomicose, que ataca a pele dos anfíbios adultos e pode ser letal para algumas espécies. A presença do micro­organismo em Alagoas foi descoberta em 2012 por biólogos do Setor de Herpetologia do Museu de História Natural da Ufal (MHN), mas só foi publicada em 2013, na revista científica North­Western Journal of Zoology.

Das quatro linhagens genéticas do fungo, a encontrada em Murici, município distante 54 quilômetros de Maceió, é a mais perigosa. Para os especialistas, o dado é alarmante. "Descobrimos algo importantíssimo. Nossa missão é divulgar esse achado para a comunidade científica para que voltem mais atenções para a região Nordeste", explicou a bióloga Tamí Mott, que coordena o estudo.

Para evitar a propagação do fungo, os pesquisadores estão realizando palestras de conscientização para os brigadistas que atuam na estação ecológica do município, ressaltando a importância dos anfíbios para os ecossistemas e quais medidas devem ser tomadas para evitar a propagação do Bd.

O projeto Into the Heart of an Epidemic: a US­Brazil Collaboration for Integrative Studies of Molecular Variation and Population dynamics of the Amphibian Killing Fungus in Brazil (No Coração da Epidemia: uma colaboração EUA­Brasil para estudos integrados de Variação Molecular e Dinâmica populacional dos fungos matadores de anfíbios no Brasil, em tradução livre) é o responsável pelo monitoramento desses fungos na Mata Atlântica brasileira.

Esse monitoramento é resultado de uma parceria entre a Ufal – por meio do MHN e da Pós­graduação em Diversidade Biológica e Conservação nos Trópicos –, a Universidade de Campinas (Unicamp) e as universidades de Michigan, Cornell e Maine, nos Estados Unidos. "A Mata Atlântica é o coração da doença. Tem a maior diversidade de anfíbios e de genótipos do fungo do que qualquer lugar do mundo (os quatro genótipos ocorrem no Brasil)", explicou Tamí Mott. Os estudantes Edgar Gustavo Ruano Fajardo (da Guatemala) e Anyelet Valencia Aguilar (da Colômbia) que estão cursando mestrado na Ufal, também participam da pesquisa.

O fungo

O Batrachochytrium dendobratidis foi encontrado pela primeira vez em 1989 em populações de sapos vivos. Ao fazer uma busca retroativa nas coleções científicas, os biólogos encontraram sapos infectados já na década de 1960. No Brasil, o primeiro registro em anfíbios vivos é de 2006 e o primeiro em coleções vem de 1981, todos da Mata Atlântica. Quarenta e uma espécies (das 913 espécies de anfíbios anuros brasileiros) já mostraram infecção pelo fungo. O maior número de relatos de espécies de anfíbios infectadas por Bd concentra­se no sul e no sudeste da Mata Atlântica, exatamente na região onde mais estudos sobre o assunto são realizados. Já no Nordeste, até a descoberta em Alagoas, só havia um registro, em Jaqueira, Pernambuco.

Segundo Tamí Mott, existe uma hipótese de que o fungo tenha se originado na África e se dispersado para o mundo a partir da década de 1940. "Uma espécie de rã africana (Xenopus) foi exportada para o mundo inteiro porque é sensível a gonadotrofina coriônica humana, hormônio utilizado no teste de gestação”, explicou.

A rã touro americana (Lithobates catesbianus), muito exportada por seu valor culinário, pode ser outra espécie responsável pela dispersão, por carregar o fungo, mas não desenvolver a doença. “Não sabemos, porém, se as condições climáticas aumentaram a virulência do Bd ou se é um patógeno novo que apareceu recentemente e só estamos sabendo agora", completou a bióloga.

Infecção

O Bd ataca exclusivamente anfíbios, comendo a queratina, uma proteína abundante na pele dos adultos e na boca de suas larvas. Os animais podem estar infectados pelo fungo, mas não desenvolver a doença. "Em Murici, encontramos indivíduos de girinos infectados, a sorte que os adultos não estavam doentes, pois quando a doença se estabelece ela pode provocar a morte maciça dos animais. Num dia os animais estão saudáveis, no seguinte todos estão mortos. Ao menos, foi o que ocorreu em alguns locais nos Estados Unidos, na Austrália e no Panamá, por exemplo", explicou a bióloga, acrescentando que durante sua palestra no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), dois brigadistas relataram ter visto mortes maciças de sapos lá em Murici: “No entanto, não conseguimos associar essas mortes à presença do fungo, por isso precisamos monitorar os anfíbios”.

Em Alagoas, o fungo foi encontrado em girinos das espécies de perereca Aplastodiscus sibilatus e Hypsiboas freicanecae. Na fase larval (girino), o fungo não chega a matar, mas pode prejudicar a alimentação e o desenvolvimento; no adulto, o Bd pode infectar toda a pele. "Ele desestrutura a pele, impede que o sapo respire (sapos respiram pela pele!) e por isso pode ser letal. No adulto, a região pélvica, onde o sapo mais absorve água, é a mais infectada", esclareceu Tamí Mott.

A bióloga explica que, geralmente, os fungos têm duas fases. Numa ele se reproduz, na outra ele se dispersa. Para reprodução, ele depende necessariamente do anfíbio: ele cria um cisto (zoosporângio) no animal, do qual saem vários "filhotes" (os zoósporos). Estes são liberados na água e podem sobreviver por algum tempo. "Se você irrigar um local com água que contenha zoósporos, você pode contaminar os anfíbios dali, que por sua vez podem ser usado para o fungo se reproduzir", explicou.

Ações

Em novembro de 2013, os pesquisadores do MHN orientaram os brigadistas da Esec de Murici sobre como evitar a propagação do fungo. São cuidados necessários, por exemplo, lavar e desinfetar com cloro os sapatos e os pneus dos carros sempre que passar por um corpo d'água ou solo molhado. Anfíbios mortos ou doentes devem ser necessariamente recolhidos do ambiente. "Anfíbio devagar é raro. Se você tenta pegar uma perereca, ela sai pulando; se ela não reagir, é preferível retirá-la da natureza, para verificarmos se ela tem ou não o fungo", explicou a bióloga.

Embora o Bd tenha se mostrado perigoso só para anfíbios, os brigadistas foram orientados a manuseá-los sempre com luvas ou sacos plásticos. "Vírus, fungos e bactérias têm uma taxa de mutação muito mais rápida do que os outros organismos. Não se sabe se uma mutação pode gerar uma linhagem adaptada ao ser humano. Essa medida de precaução é importante, sim", completou.

Também não se deve transferir um anfíbio, girino ou adulto, de um local para outro, nem liberá-lo num corpo d'água. "Crianças gostam muito de ver girino metamorfosear, levam para casa para ver a transformação e depois levam de volta para o ambiente. Por causa da presença do Bd, não se recomenda fazer essa soltura", exemplificou. Nesse caso, o controle da venda e da remoção ilegal de anfíbios é ainda mais necessário.

Tamí Mott orienta que quem encontrar um anfíbio morto na natureza ou com sinal de infecção deve informar o quanto antes ao órgão ambiental da sua região: o ICMBio ou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O Museu de História Natural pode ser contatado pelo telefone 3214­1629 e a pesquisadora Tamí Mott também recebe informações, pelo e­mail: tamimott@yahoo.com.

Leia mais no blog do MHN e veja no anexo mais informações sobre a contaminação com o Bd.