Estudo inédito busca fazer controle de praga de mosca que ataca frutas

Laboratório de Ecologia Química apresenta pesquisas inéditas no controle de pragas

13/11/2013 14h55 - Atualizado em 14/08/2014 às 10h29
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À esquerda, professora Ruth Rufino, Alana Mendonça, Nathaly e Rita

Lenilda Luna - jornalista

Criado há mais de 20 anos, no Instituto de Química e Biotecnologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), sob a coordenação do professor Antonio Euzébio Goulart de Sant'Ana, o grupo de pesquisa em Ecologia Química tem trabalho consolidado e reconhecido pela comunidade científica, principalmente pelas importantes contribuições às pesquisas para o controle natural de pragas que atacam a fruticultura e a produção de cana-de-açúcar.

A professora Ruth Rufino do Nascimento começou a participar destas pesquisas quando ainda era aluna da graduação. "Nosso problema inicial foi a Cerconota Anonella, que são pequenas mariposas, consideradas a principal praga das anonáceas da região tropical. Eu me afastei para fazer doutorado e depois voltei para montar o laboratório de Ecologia Química. Nós temos centros trabalhavam com a síntese, mas nós começamos a trabalhar desde a criação até a síntese", relatou.

As pesquisas realizadas no laboratório da Ufal envolvem desde alunos de iniciação científica a pesquisadores da pós-graduação, que trabalham de forma colaborativa. "Um orientador de visão investe muito nos alunos de graduação, para que eles desenvolvam o gosto pela pesquisa e cheguem à pós-graduação. É preciso formar os futuros pesquisadores de uma instituição de ensino ou centro de pesquisa. A ideia é transferir conhecimentos para as novas gerações, para que as pesquisas possam se perpetuar", ressaltou Ruth Rufino.

Prêmios

Recentemente, durante a Jornada Brasileira de Iniciação Científica, realizada no 53º Congresso Brasileiro de Química, no Rio de Janeiro, a aluna Nathaly Costa de Aquino foi premiada em primeiro lugar pelo artigo Identificação de compostos eletrofisiologicamente ativos na mistura feromonal de machos de [i]Anastrepha fraterculus[i] (diptera:Tephritiidade).

Segundo a estudante, essa praga é uma mosca, conhecida pela capacidade de adaptação. O fruto hospedeiro preferencial da Anastrepha é a goiaba. O macho e a fêmea se comunicam por meio de feromônio. "Nós identificamos quais são esses feromônios e testamos quais são os compostos que são ativos como atrativos para a fêmea. O objetivo é o controle natural de pragas, trabalhando com o próprio feromônio do inseto", explicou Nathaly.

A pesquisa é bastante relevante pela aplicabilidade na produção de frutas no Brasil. "Essa é a principal praga de goiabas na Região Nordeste. Mas também causa prejuízos no sul do país, onde ataca as maçãs, uvas, pêssegos e ameixas. Cerca de 5% da produção brasileira de maçãs fica comprometida em função dos danos causados por essa praga. A fêmea se alimenta da polpa e se torna um competidor nosso em relação ao consumo da fruta", complementou a professora.

Para analisar essa espécie de mosca, a pesquisadora contou com o apoio fundamental da Cooperativa Pindorama, que cultiva frutas para a produção de sucos e compotas, no município de Coruripe, litoral sul de Alagoas. "Eles permitiram a coleta de frutos infestados, o que foi fundamental para nossas análises do inseto e para entender como eles se comunicam e o que existe no fruto para que a fêmea se sinta atraída por ele", destacou Nathaly.

O trabalho de Nathaly Aquino que foi premiado este ano é uma complementação da pesquisa que também obteve o primeiro lugar na jornada do ano passado. "No trabalho anterior, ela estudou os componentes atraentes à fêmea nos frutos, e agora ela fez os compostos que existem no feromônio do macho para se comunicar com a fêmea. Como esse é um trabalho vinculado ao Pibiti (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação), é importante que tenha essa relação da aplicabilidade", ressaltou Ruth Rufino.

O trabalho deve estar disponível na revista eletrônica científica da Jornada Brasileira de Iniciação Científica daqui a três meses. "Esse trabalho é inédito no mundo com esse enfoque. Existem outros trabalhos que visem a identificação dos compostos produzidos pelo macho, mas não existia um trabalho que mostrasse quais os compostos da mistura do macho servem como atrativos para a fêmea. Essa é a primeira evidência registrada", destacou Ruth Rufino, ressaltando a parceria com o grupo de Ecologia Química da Universidade Federal de Pernambuco.

Nathaly destaca a importância das pesquisas de controle natural de pragas para melhorar a qualidade do consumo de frutas no País. "O Brasil, nesses últimos três anos, tornou-se o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e gasta cerca de 7,3 bilhões de reais a mais que outros países para o controle de pragas. Hoje, um terço da nossa alimentação está contaminada por causa dos agrotóxicos, daí a necessidade de desenvolver o controle biológico", informou a pesquisadora.

Destaque para o Nordeste

A Jornada Brasileira de Iniciação Científica deste ano teve 112 trabalhos aceitos, de instituições de ensino superior de todo o país. Destes, dez foram selecionados para apresentação oral durante o evento. Entre os dez apresentados, dois foram da Ufal, um do Instituto Federal de Murici e ainda teve um da UFPE. "Ou seja, entre dez trabalhos selecionados, quatro foram de universidades do Nordeste. Nós tivemos um primeiro lugar e uma menção honrosa, o que revela a qualidade da pesquisa realizada na Ufal, que não difere do trabalho científico de outros centros do país, como USP e UFRJ", afirmou a professora Ruth Rufino.

Outro trabalho do Laboratório de Ecologia Química da Ufal apresentado na Jornada, que recebeu menção honrosa, foi o da aluna Rita de Cássia Correia Silva, intitulado Extração e identificação dos componentes do feromônio sexual da cerconota anonella (sepp.) (lepidoptera: Oecophoridae). Esse trabalho é continuidade das pesquisas realizadas desde o início da trajetória do grupo.

A cerconota é a mariposa que ataca cerca de 250 espécies da família das Annonaceae, incluindo neste grupo as pinhas e graviolas do nordeste e as atemoias, que são frutas híbridas cultivadas no sul. Essa mariposa é uma praga que tira o sono de agricultores de toda a América Latina. "Eu fiz a extração do feromônio da fêmea da cerconota, a identificação e os testes em tubos de ensaio, para ver quais eram os compostos que tinham maior atividade frente ao inseto. Esse trabalho foi meu TCC (trabalho de Conclusão de Curso) e foi objeto de estudo da tese de doutorado da pesquisadora Edjane Vieira Pires.

Parcerias, oportunidades e resultados

A parceria é a chave para o sucesso dos trabalhos realizados no laboratório. Os alunos de graduação coletam dados importantes, que também são compartilhados por pesquisadores em nível de mestrado e doutorado. "Os dados desse estudo recente da Cerconota foram divulgados com exclusividade nos TCCs da Rita e de outra aluna de graduação, porque Edjane Pires já tinha muito material para a tese de doutorado. São informações inéditas, porque há pouca referência a essa praga na literatura científica. E assim, essa troca de informações fortalece a pesquisa de forma coletiva", destacou Ruth Rufino.

As alunas de graduação destacam como é fundamental para a formação acadêmica delas a possibilidade de participar de pesquisas de relevância. "A professora Ruth trabalha com pesquisas de qualidade e nos dá uma grande oportunidade para aprender e tirar dúvidas. Isso nos abre as portas na comunidade científica. Temos que aproveitar essa experiência para crescer", agradeceu Nathaly.

A professora devolve os elogios e destaca que as alunas demonstram um perfil de pessoas que aceitam desafios, o que é uma qualidade básica para pesquisadores. "Precisamos superar deficiências na estrutura dos laboratórios e muitas vezes escassez de recursos para a pesquisa, mas queremos produzir trabalhos de qualidade, portanto, no Brasil, a Ciência precisa de pessoas que se comprometam com o projeto e estejam dispostas a aprender. Essas estudantes têm essas características", orgulhou-se a professora.

O trabalho de identificação do feromônio, iniciado há mais de 20 anos, está para colher os primeiros resultados. "A pesquisa está sendo completada com a tese de doutorado da Edjane Vieira Pires. Esse é um marco para o nosso laboratório. Esse trabalho vai gerar uma patente. O relatório já está sendo analisado pela Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação. Em função desses resultados promissores, aprovamos um projeto no CNPq para dar continuidade ao trabalho, porque o enfoque é encontrar substâncias que possam controlar essa praga", concluiu Ruth Rufino.

Para mais consultas:

Trabalho - http://www.abq.org.br/cbq/2012/trabalhos/13/975-13627.html

Revista - http://www.abq.org.br/rqi/Edicao-737.html