Especialistas avaliam as causas das enchentes em Maceió

A grave situação que vive a cidade de Maceió em período de chuvas tem como principal causa a ação do homem sem planejamento, o que leva ao uso e ocupação desordenados do solo urbano, provocando crescente degradação ambiental. Essa realidade, que tem resultado em transtornos tais como enchentes, quedas de barreiras, alagamentos de vias públicas e desabamentos de casas, entre outros, produz, a cada chuva intensa, um verdadeiro caos urbano e deixa a população totalmente insegura.

03/06/2011 10h02 - Atualizado em 13/08/2014 às 11h07
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Descarga clandestina de esgoto doméstico no Riacho Salgadinho

Diana Monteiro – jornalista

É muito comum ouvir das pessoas que “Maceió não aguenta um dia de chuva”, o que é verdade. Com inserção na sociedade e comprovando ser vetor de desenvolvimento no Estado, a Universidade Federal de Alagoas, através do curso de Engenharia Ambiental, tem contribuído com o conhecimento científico, apontado soluções para a problemática e desenvolvendo pesquisas nas quatro bacias hidrográficas que contornam o relevo da capital: Bacia do Rio Jacarecica, Bacia do Rio Reginaldo, conhecido como “Salgadinho”, Bacia do Pratagy e Bacia do Mundaú.

Engenheiro civil, mestre e doutor em Hidráulica e Saneamento, o professor Márcio Gomes Barboza, do Centro de Tecnologia, informa que as pesquisas envolvem a comunidade acadêmica do curso de Engenharia Ambiental e do Mestrado em  Recursos Hídricos e Saneamento, um forte aliado na formação de recursos humanos nessa área. O mestrado está em pleno funcionamento desde 2005.

“A situação de poluição nas quatro bacias hidrográficas de Maceió é bastante problemática, porque não há sistema de saneamento básico eficiente como coleta e tratamento de esgoto, coleta de resíduos sólidos, controle da poluição atmosférica, fiscalização pelo poder público e um programa permanente de educação ambiental envolvendo a sociedade em geral”, afirma Márcio Barboza. Ele destaca que o problema tem solução e os estudos científicos realizados por pesquisadores da Ufal apontam caminhos a ser seguidos. “Basta haver vontade política e implementação de programas, porque tecnologia já temos para tratar com essas situações ambientais. Nossas pesquisas vêm sendo apresentadas em eventos locais, nacionais e até internacionais”, enfatiza Márcio.

Conhecendo um pouco nossas bacias

A Bacia do Rio Jacarecica nasce nas proximidades do Benedito Bentes, localizado no bairro do Tabuleiro dos Martins, é dotada de 25,65 km² e de 13 km de extensão.  Até desembocar no mar corta a Al 101 norte nas imediações do bairro Jacarecica.  A poluição por esgotos domésticos já é visível na parte do rio próximo ao mar. A degradação ambiental do rio tem ocasionado ultimamente enchentes e mobilizado a comunidade em protestos contra a falta de providência para a solução do problema por parte do poder público. A manifestação dos moradores tem causado transtornos na AL-101 Norte, via de acesso à Maceió e a parte alta da cidade pelo Litoral Norte do Estado.

 O pesquisador Márcio Barboza explica que as enchentes na Bacia do rio Jacarecica têm como causas o desmatamento de matas ciliares, a impermeabilização das áreas com construções desordenadas e ocupação de encostas, ausência de redes coletoras de esgoto e a ineficiência da coleta de resíduos sólidos. “Já existem técnicas apropriadas para dar condições de infiltração das águas de chuva no solo contribuindo assim, com o pico da vazão na calha do rio. As matas ciliares amortecem o pico de vazão e reduzem o transporte de solo prevenindo o assoreamento da calha dos rios”, explica Márcio, falando o quanto é fundamental a preservação da natureza para evitar degradação ambiental.

A bacia com maior complexidade de poluição é a do Reginaldo, conhecido como “Salgadinho”,  por ser toda inserida nas zonas urbanas, áreas totalmente desprovidas de sistema de coleta e tratamento de esgoto. Essa bacia nasce nas imediações do Aeroclube, no Tabuleiro dos Martins, tem 25,65 km² de área, 13 quilômetros de extensão e é delimitada pelas avenidas Fernandes Lima, Durval de Góis Monteiro e Via Expressa. “As águas nessas áreas são drenadas para o Riacho Reginaldo e se somam as dos riachos do Sapo, do Gulandim, localizados no bairro do Poço, e as do Pau D ‘Arco, que fica entre os bairros do Jacintinho e Feitosa, e chegam até a praia da Avenida, centro da cidade. Esses riachos pertencem  a essa bacia. Todos os esgotos entre a Fernandes Lima e a Via Expressa  caem na bacia do Reginaldo de forma direta e indireta”, afirma Márcio.

A professora Rosângela Sampaio Reis, do Curso de Engenharia Ambiental, coordena a pesquisa nas áreas de Saneamento e Recursos Hídricos na Bacia do Reginaldo.  No que se refere à qualidade da água, o estudo científico teve como responsável a professora Ivete Vasconcelos Lopes. Segundo a pesquisa, ficou constatado que a qualidade das águas do conhecido rio “Salgadinho” pode ser comparada em época de estio, a esgoto in natura.

A outra bacia problemática é a do Mundaú, dotada de 4.126 km² de área e 141 km de extensão e abastecida pelo Rio Mundaú que nasce no município pernambucano de Garanhuns e passa pelos municípios alagoanos de São José da Laje, Santana do Mundaú, Branquinha, Rio Largo, Satuba até desembocar na Lagoa Mundaú, em Maceió. “Essa foi a mais afetada pelas chuvas do ano passado, provocando enchentes e destruindo esses municípios de Alagoas que até hoje se encontram em processo de reconstrução”, frisa Márcio Barboza.

O pesquisador informa que dentre as quatro bacias hidrográficas de Maceió a que apresenta melhor condição qualitativa no que se refere aos parâmetros ambientais é a do Pratagy, porque ainda não é densamente povoada e há áreas de preservação de matas ciliares.  A Bacia do Pratagy  nasce nas proximidades do município de Messias, passa pela região do Benedito Bentes e deságua na conhecida praia do Mirante da Sereia. Essa bacia tem 133,69 km² de área e 31, 2 km de extensão, e o sistema Pratagy abastece a Estação de Tratamento de Água de Maceió.