Oficina de prevenção ao suicídio marca início do Setembro Amarelo na Ufal

Evento reuniu técnicos, docentes e estudantes no auditório da Reitoria
Por: Izadora Garcia - relações públicas - 19/09/2019 às 09h11 - Atualizado em 19/09/2019 às 09h13
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Rafael Belo, Everton Calado e Charles Lange realizaram a oficina. Fotos: Izadora García

Na manhã desta quarta-feira (18), as atividades do Setembro Amarelo tiveram início na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Com o lema “Da escuta à rede”, a campanha promoveu seu primeiro evento: o Seminário de Prevenção ao Suicídio, ministrado pelos professores Rafael Belo, do Campus Arapiraca, e Charles Lang, do Instituto de Psicologia (IP).

O principal objetivo da ação foi orientar servidores e técnicos a identificar possíveis sinais de alerta no comportamento de estudantes, colegas de trabalho e até mesmo de familiares ou amigos, fora do ambiente da Universidade. Durante a abertura do evento, o psicólogo da Pró-reitoria Estudantil (Proest), Everton Calado, falou sobre a importância de sensibilizar as pessoas a olhar pelo outro e orientá-las sobre como agir, caso suspeitem que algo está errado.

“O mote da nossa campanha do Setembro Amarelo na Universidade é ‘Da escuta à rede’. Embora os psicólogos e psiquiatras precisem ser acionados para atender uma pessoa com ideação suicida, a escuta não é restrita aos profissionais da área. Esse acolhimento pode ser realizado por todos e pode ser o primeiro passo para que a pessoa em sofrimento receba a ajuda que precisa”, explicou Everton.

Rafael Belo, psicólogo e professor do Campus Arapiraca, iniciou a palestra com estatísticas sobre o suicídio no Brasil e apresentou os sinais de comportamento que podem identificar a necessidade de ajuda. “Precisamos quebrar o tabu de falar sobre suicídio porque o silêncio torna mais difícil de acessar essas pessoas”, avaliou.

De acordo com os dados apresentados, o Brasil é o 8º país com mais casos no mundo. E que só em Alagoas, este ano, 584 pessoas cometeram suicídio. O mais alarmante é que as tentativas não são contabilizadas.

“90% dos casos podem ser prevenidos com uma rede de apoio em torno da vítima. E essa taxa alta faz a gente pensar que vale, sim, a pena tentar ajudar alguém, olhar para o outro com mais cuidado”.

Charles Lang, do Instituto de Psicologia, fez um recorte denso sobre o sofrimento mental generalizado experimentado na atualidade. De acordo com o professor, a falta de perspectivas e o estado de cinismo encontrado nas relações interpessoais têm interferência nos altos índices de suicídio, principalmente entre os mais jovens.

“Um dado alarmante é o público que está sendo consumido pelo suicídio. São jovens entre 15 e 21 anos de idade. É basicamente o público dessa instituição. Nos deparamos com uma realidade em que não há mais utopia. Anteriormente, nós ansiávamos pelo futuro: ‘o que virá depois? Como será o mundo em 2020?’. Hoje, o futuro e o presente são distopias. Em vez de nos perguntarmos o que haverá de tecnologia, o que de bom está por vir, nos perguntamos se haverá água potável”, disse.

“Precisamos de estratégias de conexão com esses jovens que estão em sofrimento. Quantos estudantes aqui passam o semestre sem aparecer e não vamos atrás saber o que está acontecendo? Se existem alunos que confiam em você, que têm você como referencial, que gostam de você, é desses alunos que vocês devem estar perto, acompanhar, notar sinais”, explicou.

Ao final das apresentações, o público pôde participar. Além de tirar dúvidas sobre como agir, alguns dos presentes se sentiram a vontade para compartilhar experiências pessoais com o suicídio.

Foi o caso de Rosilene Florêncio, estudante. Emocionada, ela relatou sua experiência com o filho de 20 anos, que tentou suicídio no ano passado. “É difícil, mas precisamos falar sobre o assunto para que menos mães passem pelo que eu passei. E é preciso falar muito também sobre a dor de quem fica. Meu filho sobreviveu, mas a experiência mudou a minha vida completamente e de uma maneira dolorosa demais. Imagine a dor de uma mãe que, de fato, perde um filho para a depressão?”, alertou.

A aluna ainda compartilhou um poema que fez  sobre o momento. “O suicídio é contradição, é contra a adição de sentimentos. Um salto no vazio. Não há o pensamento de que asas se abrirão. Não, não há. É o salto pra morte. É uma despedida da vida, sofrida, despir-se da ida. A dor de quem fica também vai e a dor de quem vai também fica”, recitou, emocionando os presentes.

Hoje Raul está completamente recuperado das sequelas causadas pela tentativa de suicídio e segue em acompanhamento para a depressão.

“Apenas em um auditório, tantas pessoas relataram ter vivenciado tentativas ou ideações suicidas. Isso mostra a importância de falar sobre o assunto. Todo mundo tem uma experiência próxima, alguém que conhece que precisa de ajuda ou é a própria pessoa que precisa ser ajudada. E esses espaços de fala que estamos tentando proporcionar podem ser importantes para quem precisa”, concluiu Valéria Coelho, idealizadora do evento.

Ao final da oficina, foi realizado o lançamento do vídeo elaborado pela Assessoria de Comunicação para a campanha. Encerrado com a frase “Se a vida pesar, busque ajuda”, ele mostra os serviços de acompanhamento psicológico e psiquiátrico para estudantes e servidores da Universidade.

A programação da Ufal para o Setembro Amarelo continua após o retorno das aulas.