Sou Ufal: Conheça Bruno Collaço, primeiro taxidermista da Universidade

Angolano, que chegou ao Brasil como refugiado de guerra, hoje monta animais empalhados do Museu de História Natural
01/06/2015 às 14h53 - Atualizado em 05/06/2015 às 13h57
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Bruno Collaço é o primeiro taxidermista da Universidade

Pedro Barros – estudante de Jornalismo

Por trás de boa parte da Exposição Itinerante dos 25 anos do Museu de História Natural (MHN) está o trabalho do primeiro taxidermista contratado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Desde 2012, o biólogo Bruno Collaço é o profissional responsável por, através de diversas técnicas, conservar os corpos de animais ou partes deles. Taxidermia é o termo mais preciso, pois o empalhamento é apenas uma das formas de fazer isso. O trabalho, num aspecto, serve como meio de pesquisa científica, noutro, pode ter fins educativos, além de ser considerado uma arte.

Campo minado

A vida do nosso servidor homenageado começou há pouco mais de 40 anos, em Luanda, capital da Angola. Na década de 70, o país africano iniciava a guerra civil mais longa já registrada pela humanidade, que só veio terminar em 2002. Para chegar vivo até aqui, não é uma simples metáfora dizer que nosso personagem teve de passar por um campo minado: a Angola é o país com o maior número de minas por habitante e tem milhões delas ativas até hoje.

Enfrentando uma série de riscos, sua família conseguiu ir para a África do Sul. De lá partiram para Portugal e então foram acolhidos pelo Brasil, inicialmente no Rio de Janeiro, como refugiados de guerra. A partir daí, começaram a circular pelo País, procurando um novo lar: passaram por São Paulo, Rio Grande do Norte, Sergipe, Alagoas… “Chegamos em Maceió por volta de 1983”, contou.

Biólogo-artista

Ao se estabilizar com a família na capital alagoana, Bruno formou-se em técnico em Química Industrial e cursou Ciências Biológicas na Ufal. Ele conta que foi no meio da graduação que teve sua primeira experiência com a arte de conservar bichos. “Fui monitor da disciplina de Zoologia de Vertebrados e alguns animais precisavam ser preparados para as aulas. Nessa história, comecei a fazer taxidermia e nunca mais parei”, contou.

A formação continuada contribuiu com seu trabalho. “Fiz especialização em Manejo de Fauna, também na Ufal, e mestrado em Psicobiologia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte [UFRN], onde me especializei em Comportamento Animal. Isso me auxilia muito na escolha de como vou fazer a peça, que posição vou colocá-la, o que posso mexer para fazer a peça o mais realista possível”, explicou.

Bruno se empolgou com a coisa e até hoje visita museus de outros estados e de outros países para aprimorar suas técnicas. “Eu normalmente busco uma forma de ir até esses lugares para ver o trabalho de outras pessoas. Muitas vezes, procuro os setores internos para conhecer os taxidermistas de lá. Eles sempre têm sido muito gentis e me levam até os laboratórios para ver o que tem sido feito, quais os equipamentos que utilizam etc.”, contou.

As últimas instituições que visitou foram o Museu de La Plata e o Museu de História Natural de Buenos Aires, na Argentina. “Foi como uma avalanche de ideias novas, são museus muito mais antigos e já estão no cotidiano da sociedade de lá, visitados com uma frequência altíssima”, revelou.

De aprendiz a mestre

O biólogo conta também que passou a fazer algumas peças voluntariamente para o MHN e até já deu aulas sobre o assunto. “As pessoas começaram a gostar do que eu faço. Ministrei um curso de taxidermia pelo museu e mais dois cursos fora”, contou. Segundo ele, a formação nessa área no Brasil ainda é muito incipiente. “Muita gente geralmente vai aprendendo a fazer com o decorrer das experiências, desenvolvendo a função sozinho”, disse ele.

Bruno conta que disseminou seu conhecimento entre 20 e 25 as pessoas, incluindo membros da equipe do Parque Municipal e alguns soldados do Batalhão de Polícia Ambiental. Até que surge a primeira vaga da Ufal para a área e ele tem uma surpresa. “Quando prestei concurso, todos os meus concorrentes – tirando uns três ou quatro que vieram de outros estados – eram ex-alunos meus, quase todos tinham aprendido a fazer taxidermia comigo”, gracejou.

Empalhador” de imagens

Animais não é a única coisa que Bruno sabe conservar. Antes de eternizar o corpo dos bichos, Bruno já tinha o costume de gravar as imagens que via com as lentes de suas câmeras. Imagens da natureza, plantas, animais, pessoas, arquitetura… “Eu tenho 41 anos e fotografo desde os 15. Virei fotógrafo antes de ser biólogo. Ainda sou do tempo de fazer filme com película de 35 milímetros e levar para câmara de revelação, para o quarto escuro, fazer ampliação etc. Passei um tempo longe disso, dedicado aos estudos, e voltei no mundo digital. Aí estou descobrindo novas técnicas, mas a fotografia sempre continuou na minha vida”, expôs.

Bruno, que há 30 anos procurava um lar no Brasil, encontrou em Alagoas sua morada. Mas, continua andarilho, viajando por esta nova terra para fazer suas fotos. “Eu fiz uma exposição no Rio Grande do Norte sobre embarcações de Alagoas, desde o litoral sul até o litoral norte. Eu tenho fotografias de Piaçabuçu a Maragogi. Estou querendo continuar esse trabalho com as embarcações do Rio São Francisco, e de repente preparar uma nova exposição”, declarou.

Assim prossegue a trajetória do nosso personagem: preservando a memória dos bichos, das imagens e deixando sua marca na história da Ufal. Ficou curioso para saber mais sobre o trabalho de Bruno? Confira: Laboratório de Taxidermia empalha animais para exposições e pesquisas científicas.