Umas Poucas Palavras: O movimento negro em Alagoas

21/03/2011 às 12h17 - Atualizado em 11/08/2014 às 11h05

Por Sávio de Almeida, matéria publicada em O Jornal no dia 27 de fevereiro

Já é tempo de se ter traçada a história do movimento negro em Alagoas. Espaço, vez em quando, o visita, traz alguma coisinha, mas é necessário, desde logo, começar a docu­mentar com segurança, coletar informações e alguém se interessar por estudá-lo em pro­fundidade, indo desde a vida do povo a ins­tituições como o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab) da Ufal. No caminho desse movimento há a presença de Zezito de Araújo. Ele vem militando desde o tempo em que o Neab se estruturou e tem uma vasta experiência no campo, indo das atividades mais propriamente acadêmicas às políticas e, sem dúvida, tem muito o que dizer. Basta recordar que foi coordenador do Neab da Ufal de 1983 a 2001, tendo, inclusive, uma grande participação no tombamento da Serra da Barriga e nos projetos que se desenvolveram com relação à montagem do Parque Memorial Quilombo dos Palmares.

Este depoimento foi prestado por Zezito ao Grupo Agenda e é necessariamente polêmico em alguns de seus pontos. É extremamente importante que seja discutido, especialmente no que concerne ao Parque Memorial. Eu, pelo menos, sempre achei que a serra deveria ser reflorestada e deixada intocável; seria a melhor forma de honrar a memória de Zumbi. Outros acham que não, e é necessário que o universo da discussão seja aberto, como seria bonito e importante que se partisse para discutir a história do próprio Neab.

Bom, o que Zezito fala está aí: é conferir, discutir. É claro que se pode concordar ou não com ele, mas não se pode negar a impor­tância de sua presença na vida negra de Alagoas.

O que faz Zezito

Professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Coordenador do curso de História do Cesmac-Centro Universitário, mem­bro do Grupo de Estudo sobre a temática Afro-brasileira no curso de História da Fecom/Cesmac e membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Direito, Sociedade e Violência da mesma institu­ição.

Uma conversa com Zezito de Araújo: o movimento negro (I)

Um pesado começo de vida

Nasci em Cabeça de Porco, distrito de São Luiz do Quitunde. Meus pais eram lavradores. Mamãe sabe ler e escrever. Meu pai era analfabeto, medidor de conta. Nasci lá. Saí em função da separação de meus pais. Fui o primeiro da família a conseguir o 3º grau. Com a separação, mi­nha mãe veio para Maceió dis­tribuir os filhos. Éramos seis ir­mãos; cada tio ficou com um. Depois minha mãe me chamou novamente pra São Luiz do Quitunde. Voltei para Maceió. Fui interno no colégio do Padre Pi­nho. Passei lá dez anos. As primeiras letras, eu aprendi lá.

Fui pintor, carpinteiro. A construção de Juvenópolis, a parte nova foi feita por mim. Sou tam­bém padeiro.

Ao sair de lá, fui para o Exército. Passei seis anos e meio. Fui recruta, soldado antigo, cabo, fiz curso de sargento e passei. Fiz o vestibular de História, aí fui forcado a fazer a opção: ou seguia a carreira militar ou ia fazer história. Optei pelo curso, porque o capitão que era comandante da minha companhia disse: "Você tem autorização para fazer o vestibular?" Eu disse: "Não". Aí: "Quem mandou você cortar o seu cabelo careca?". Eu disse: "Ninguém". Ele disse: "Pois você não vai mais estudar". Teve al­guém que me protegeu. Na época foi o major Dâmaso. E eu fui transferido para CSM. Só tra­balhava um expediente e con­segui concluir o curso de História justamente na vida militar.

A descoberta da negritude

Eu disse "Eu sou negro" em 1980, quando terminei História. Tive a felicidade de concluir o curso de História em quatro anos, com todo o sacrifício. E o professor Clovis Antunes lecionava duas disciplinas: Antropo­logia do Brasil I e II; do Brasil I, era do índio; do Brasil II, era do negro... Na época, ele teve que se afastar. Eu fui um aluno regular no curso, monitor vários anos. E a professora Reny Gomide perguntou se eu não queria ser professor colabo­rador, já que eu tinha concluí­do o curso e tinha tirado uma boa nota na disciplina. Aí eu disse: "Não, não tem problema, eu vou".

Eu tinha terminado a gra­duação e jamais poderia jogar fora uma oportunidade daque­la. E aí aconteceu um fato que mudou totalmente a minha vida. Uma professora estava voltando do mestrado e disse que eu não poderia lecionar  aquela disciplina, Antropologia do Brasil II porque tratava do negro e eu ia reproduzir o racis­mo na sala de aula. Foi a pri­meira vez na minha vida que essa questão do racismo tocou fundo em mim. Porque eu esta­va impedido de exercer algo por ser negro. Eu já tinha pas­sado por outras experiências, mas quanto a essa, não tinha tanto. Inclusive os alunos, de­pois, vieram conversar isso comigo, eles eram do curso de Serviço Social, que tinha essa disciplina, e também do curso de História. Coincidentemente, em agosto, a universidade foi provocada pelo movimento negro e pelo Projeto Rondon para realizar o Primeiro Encontro Nacional do Parque Histórico do Quilombo de Zumbi dos Palmares. E eu soube que ia acontecer esse evento.

O evento e o movimento

Em Alagoas, não existia movimento negro na concepção que temos hoje. Bom... E lem­bro ter ficado lá atrás, no au­ditório Guedes Miranda, e do Abdias Nascimento provocan­do o João Azevedo: "Professor, como é que a universidade está promovendo este encontro e no seu quadro de professores não há negros?". Foi quando al­guém da mesa disse: "Tem o professor Zezito, que está lá atrás". João Azevedo falou: "Nós temos um professor ne­gro, sim, na universidade. Professor Zezito, venha aqui, por favor, para a mesa". Neste momento, eu me vi como negro pela primeira vez na vida. Eu me lembro o dia. Foi no dia 22 de agosto de 1980.

O encontro foi uma pro­moção da Universidade Federal de Alagoas, do Projeto Rondon. E é bom lembrar que essa dis­cussão da Serra da Barriga já estava em pauta no Projeto Rondon, em 1979. Também es­tavam aqui a Capes, o CNPQ, o Iphan. O governo federal e vários segmentos do governo do Estado participaram desse evento. E foi a partir daí que comecei a despertar para o que era ser negro.

Tivemos duas pessoas fun­damentais no evento: Agnelo, Babalorixá da Casa Branca -tradicional casa de terreiro de Candomblé de Salvador - e a mãe Hilda, do Olê Aiye, a mãe do vovô. Estava aqui Aluísio Magalhães. Ele foi o grande idealizador a nível de governo federal, que puxou a discussão, inclusive financiou projetos. Estava aqui também o profes­sor Formiga, um grande idealizador. O professor Marcos Vi­laça, que hoje, se não me engano, é o presidente da Academia Brasileira de Letras, também esteve presente.

Raízes do Memorial Zumbi

O Neab foi resultado desse encontro. Quem estava à testa era Aluísio Galvão, coordenador de Extensão Cultural da Universidade Federal de Alagoas, que também dirigia o Projeto Rondon. A provocação foi feita pela Ematur. A preocupação era criar uma alternativa de turismo para Alagoas. O pessoal de turismo provocou o Projeto Rondon e, a partir daí, se movimentou o CNPQ, através do João Azevedo. Então, primeiro foi o setor de turismo de Alagoas que tinha interesse na história do Quilombo dos Palmares.

Na época desse encontro, o professor Olympio Serra trabalhava no Iphan e sem­pre foi envolvido com o movimento negro; era da Bahia e irmão do Ordep Serra... Foi quando ele perguntou aos professores Aluísio Magalhães e João Azevedo como era que se discutiria o Quilombo sem a pre­sença dos negros? Foi quando toda a con­cepção do encontro foi modificada. Então, quem ia discutir o Quilombo dos Palmares eram os acadêmicos. O encontro foi real­izado no Centro de Treinamento do Arcebispado.

A Associação Cultural Zumbi

Aqui em Alagoas, nada estava articulado como movimento. Você tinha as casas de terreiros de candomblé, os templos e as federações, mas grupos culturais não existiam, Foi a partir daí que nós pensamos na criação da Associação Cultural Zumbi. O que vai icontecer com o movimento negro em Alagoas? Os seus militantes tinham vínculo com o Estado. Eles não eram profissionais independentes, eram professores do Estado, da universidade, até porque a população alagoana naquela época, que na sua grande maioria era mais negra do que hoje, vivia ia periferia, na miséria. Não tinha acesso a esses equipamentos, que poderiam ajudar em sua organização, e a miséria era muito nais presente do que o pensar na questão de ser negro. É tanto que, quando nós começamos o movimento aqui, a primeira coisa que a Associação Cultural Zumbi re­alizou foi ir às periferias conversar com o pessoal.

Ela foi fundada em 1981. Eu fui um dos fundadores... Foi Mariano... Fátima Viana, Angela Benedita Bahia de Brito, José Roberto Santos Lima, o Robertinho. Foi o Mariano, o filho daquela grande professora Laura Dantas, o Mariano Marcelino... Então foi um grupo de lideranças jovens negras que tin­ham vínculos com o Estado. Nesse primeiro encontro de negro só tinha eu. Chegou um professor depois, mas ele não se envolveu; era da área de literatura, escrevia muito, fazia os discursos do Divaldo Suruagy. Edson Alcântara. Um grande companheiro nosso, mas ele não se envolveu.

A montagem do Neab

No sentido de montar o Neab, a primeira ação da Ufal foi con­vidar o professor Décio Freitas, que deve ter sido a indicação da Capes. Ao chegar, ele não foi pago pela Ufal. Seu primeiro contrato foi feito pelo CNPq. Contratou pra ele vir. Depois foi contratado como professor. O Décio Freitas foi o primeiro diretor, depois nós tivemos o Rogério Gomes; depois passou para o professor Max Lutermann. Na passagem do pro­fessor Max para a minha direção, ele deixou de ser centro para ser núcleo. Eu vou residir em União dos Palmares, onde há uma doa­ção da documentação do profes­sor Décio Freitas à Ufal.

Quando a gente pega aqui essa programação de 1980, aí você vê: folguedo folclórico, missa de violeiro, solenidade em União dos Palmares, comemoração no Alto da Serra da Barriga e aqui iden­tificava o aproveitamento do po­tencial turístico da Serra da Barriga. A Serra da Barriga, nesse momento, estava sendo vista como coisa de negros ou de bran­cos se aproveitando? E coisa de negro sendo aproveitada pelo branco. Quando eu digo coisa de negro, que era a história dos ne­gros, dos quilombolas, que foi aproveitada pelos brancos.

A Serra da Barriga, inicialmente, foi pensada como um monu­mento turístico, mas infelizmen­te resultou nisso agora, recente­mente. Eu sei que, às vezes, eu chamava o Sávio, e você dizia: "Zezito, não me chame pra isso não, não me chame pra isso não". O nosso pensamento era resgatar a história quilombola e, decor­rente disso, é que haveria uma demanda turística. Os equipa­mentos que foram construídos lá na Serra da Barriga, hoje, não têm nada a ver com a história do negro, com a história dos africa­nos.

Aqui, nesse programa [mos­tra] tem Primeiro Encontro do Parque Histórico Nacional do Zumbi. Que é que era isso? O que é que passava na cabeça quanto ao Parque Histórico Nacional? Foi outra discussão que foi trava­da. Isso não só nesse período, mas também nos anos posterio­res porque qual o sentido do par­que? Por isso criou-se o nome Memorial Zumbi. Porque o Parque, ele restringe muito a ação dos movimentos. O Parque São Bartolomeu, lá em Salvador, é ter­rível. A gestão era muito compli­cada enquanto parque. Esta­ríamos entregando uma história negra para a gestão federal? Por isso que as pessoas discordaram desse nome do parque.

Associação Cultural Zumbi

Associação Cultural Zumbi... Ela marcou realmente a nossa ação. Grande parte de seus militantes eram professores. E foi na época que havia todo um clamor dos movimentos sociais no Brasil de uma forma geral, porque nós está­vamos saindo da época do golpe de 1964. Estava havendo certa libe­ração da sociedade brasileira na década de 80. Os movimentos so­ciais estavam se reorganizando. Então, a Associação Cultural Zumbi também nasceu nesse momento. A Associação dos Professores de Alagoas daquela época foi um grande aliado nosso.

A Alba Correia era presidente, quando tomou as rédeas... Naquela época a Associação de Professores era muita... Ela retomou as rédeas e, coincidentemente, nós éramos associados também à Associação dos Professores... Então, isso nos ajudou muito para que a gente começasse a discutir a questão negra no conteúdo educacional, nas propostas curriculares. E tanto que temos um documento que nós apresentamos em um congresso. A Associação Cultural Zumbi apre­sentou no Terceiro Congresso Estadual dos Professores de Alagoas. Foi em 1985.

Em 1984, tivemos o Segundo Encontro de Negro do Norte-Nordeste, cuja pauta foi "O negro e a educação", e o resultado dessa pauta eu também tenho. Nós leva­mos isso para a Secretaria de Educação do Estado, pois, nessa época, a gente não tinha nenhum contato com o município. Nada avançou.

Casa Jorge de Lima

A Casa Jorge de Lima, em União dos Palmares... Lá instalamos o Centro de Estudos Afro-Brasileiro. Eu entrei na universidade no dia 3 de março de 1980, como professor colaborador. No dia 10 de agosto, aliás, em maio, eu fiz o concurso para professor. Fui aprovado e, em agosto, fui contratado. Em 1981, o professor João Azevedo me chamou e disse: "Olha, Zezito, eu tenho uma missão para você. Quero que você vá trabalhar em União dos Palmares para implantar o Centro de Estudos Afro-Brasileiro lá".

Aí eu disse: "Professor, eu não tenho a mínima condição de fazer esse trabalho". Ele disse: "Vou

aumentar sua carga horária, e você vai morar lá". E eu fui. Não tinha o que comer, nem tinha onde dor­mir... Imagine como era União naquela época. E eu não conhecia ninguém. Não tinha nenhuma expe­riência. Era o objetivo da Casa Jorge de Lima... Para o professor João Azevedo, era instalar o Centro de Estudos Afro-Brasileiro... E aconte­ceu realmente. Não na gestão do João Azevedo, mas na do professor Gama. Funcionou. Morei em União em 82, 83 e 84. Todo o trabalho que o governo federal solicitou para o tombamento da Serra da Barriga foi feito pela universidade nesse centro.

Memorial Zumbi e Divaldo Suruagy

Em 1985, o Divaldo Suruagy con­stituiu o Memorial Zumbi. E aí re­solveu montar um grupo de trabalho para tratar do memorial: Noaldo Moreira Dantas, Edmilson, Ismar Gato, Manoel Gomes de Barros, Rosiber, Maria Maria de Castro... Só tinha eu de negro. E olha, veja a data, em 1985. Porque era para dar sustentabilidade ao Memorial Zumbi.

Eu era o representante do Memorial Zumbi aqui. O que isso re­sultou? Em nada. Não resultou em nada. Porque havia, na época, confli­tos de interesses entre a prefeitura e o Memorial Zumbi. O Memorial Zumbi deu uma dimensão a Serra da Barriga nunca vista até hoje. Realmente, tudo o que aconteceu em União dos Palmares, nós tivemos que reconhecer que foi um trabalho do Memorial Zumbi, que estava à frente. No primeiro momento, o Olympio e de­pois o professor Abdias Nascimento estiveram responsáveis.

Mas não nos reunimos nunca. Quem tentou nos reunir, e tem que se reconhecer, foi o Noaldo Dantas, que tentou algumas vezes fazer alguma coisa juntamente com a diretoria do Memorial Zumbi. O Noaldo Dantas era secretário de Cultura na época.

O pastoril na serra

Todas as celebrações que foram realizadas na Serra da Barriga foram feitas pelo Memorial Zumbi. Começou com a grande professora Carrascosa... Nós não tínhamos, em Alagoas, qualquer atividade cultural negra. Então, a gente levava pra lá as baianas, a taieira, o maculelê... Quem fazia isso era, inclusive, a Maria Carrascosa, vinculada diretamente à universidade, ao que era a Pró-Reitoria de Extensão.

Tinha o pastoril... Era isso que a gente celebrava lá em União dos Palmares. De certa forma pegava o que eles chamavam de folclore e levava para lá. Isso, talvez, duran­te os quatro primeiros anos foi, mas depois... Evidentemente que vinha da Bahia, o Ilê Aiyê vinha para completar, o Olodum vinha, o Muzenza vinha... Mas, aqui de Alagoas, nós não tínhamos nada, nada mesmo.