Estudante com deficiência visual supera dificuldades e conclui graduação

Paulo Ferreira destacou apoio da família, professora, dos colegas e do Núcleo de Acessibilidade da Ufal para conseguir concluir o curso de Serviço Social
Por: Thâmara Gonzaga – jornalista - 04/10/2019 às 11h10 - Atualizado em 04/10/2019 às 13h30
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Paulo se emociona ao relembrar trajetória na Ufal. Foto: Blenda Machado

Trabalho digitado pela filha, auxílio dos colegas para fazer a prova, dedicação da professora, além de todo o suporte de familiares e amigos. A graduação em Serviço Social de Paulo Ferreira é resultado da união de pessoas que, assim como ele, acreditam que a deficiência física não pode impedir a realização de sonhos. Depois de quase nove anos de estudo e muita superação, na última sexta-feira (27), ele colou grau em cerimônia realizada no auditório da Reitoria. Ao lado da esposa, foi impossível para o mais novo formado pela Ufal conter as lágrimas ao ouvir o tão aguardado “confere o grau”. “Sem a família não teria conseguido. Sem minha filha digitando pra mim, sem milha filha lendo pra mim, sem milha filha pesquisando pra mim, sem uma sobrinha me ajudando a construir o TCC, não teria conseguido”, diz. 

Paulo não enxerga e no início do curso, em 2010, ele conta que “ainda tinha um certo percentual de visão suficiente” que o permitia ir sozinho para as aulas, mas aponta as muitas dificuldades para acompanhar as atividades acadêmicas. “Não conseguia ler nada, só com ajuda estrutural da Ufal. O início foi difícil, graças à proposta da Universidade, o curso foi se ajustando, se adaptando à minha situação. Mas não tinha nada, nenhum recurso de inclusão para o deficiente visual no meu curso”, lembra. 

Para estudar para as provas, ele relata que assistia à aula e gravava. O material, diz, “era um texto normal, daquele que a gente pega no setor de xerox, onde ficam as pastas das professoras com os conteúdos. Aquele texto, eu ‘jogava’ no computador e num aplicativo de digitalização. Depois, ‘entrava’ com outro aplicativo de sintetizador de voz em cima daquele material digitalizado”, conta. “Só que esse processo era muito precário, porque essa conversão vinha com muitos erros e o sintetizador de voz não conseguia ler as palavras de forma compreensível. Era muito difícil”, afirma. “Só em 2016, foi que, efetivamente, se instalou o NAC [Núcleo de Acessibilidade] e aí eles passaram a ter uma estrutura melhor e tirar os erros desse material. Eu passei de 2010 a 2016, numa situação de ‘salve-se quem puder’”, afirma. 

Na hora das avaliações escritas, relata que, no primeiro e segundo períodos, “contava com a caridade de alguns colegas”.  E lembra: “No segundo período de 2011, a Universidade e a coordenação do curso me conseguiram um bolsista. Questionei com a coordenação, que me pediu a documentação, o termo de saúde. Eu apresentei e eles me indicaram um bolsista que me acompanhou de 2011 até o fim do curso”. 

Ao relembrar as situações que enfrentou para concluir a graduação, Paulo argumenta que “as pessoas têm o deficiente como - e quer que ele seja - deficiente. Se questionar, tiver ideais, ponto de vista, às vezes, as pessoas abandonam você, formam uma antipatia e deixam você sozinho e pode ser até marginalizado”. 

Ele ressalta que força de vontade e empenho de sua parte nunca faltaram. “Nunca tranquei um período, nunca relaxei, nunca viajei desde então. Adoeci, pois ficava sentado na frente do computador. Nessa época, ainda enxergava um pouco, usava letras ampliadas na tela do computador e ficava numa posição ‘ralando’ o rosto na tela. Aquilo me deu problema na coluna”, ressalta. E acrescenta: “Cheguei aqui depois de 20 anos fora da sala de aula, achava que não ia estudar mais, mas com as tecnologias inclusivas enfrentei o desafio novamente”. 

Apoio da professora Betânia no estágio e TCC 

O período de estágio e elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) também foram momentos desafiantes para Paulo e que exigiram dele muita determinação. Ele foi estagiário do Núcleo de Saúde Pública (Nusp) da Faculdade de Medicina (Famed) da Ufal. 

“[O estágio] foi uma experiência muito árdua, muito difícil, porque lá não tinha uma estrutura mínima que tivesse uma certa cumplicidade com a minha deficiência. Todos os conteúdos eram postos e eu não desenvolvia, não rendia, porque tanto o NAC ainda não tinha uma resposta boa para o deficiente visual em termo de conteúdo, como o Nusp não tinha a estrutura, e a coordenação do meu curso também não. Estava tudo em processo de construção”, conta. “E aí sofri muito, repeti duas vezes, foi pedido para que eu não ficasse mais naquele setor, pois não acompanhava. Entendi que estava prejudicando o Núcleo, mas persisti em ficar ali, porque fui sorteado para aquele campo. E eu rezava, torcia, para que ficasse em um local que tivesse um mínimo de estrutura”, lembra. “Indicaram para que eu fosse fazer o meu estágio em um bairro comum, visualizei que ia me envolver em um processo mais dificultoso ainda, recorri na coordenação e conseguiram me deixar no Núcleo”, afirma. 

Segundo Paulo, a situação no estágio começou a melhorar com a chegada da docente Maria Betânia Buarque Lins Costa, que foi a supervisora acadêmica de estágio e orientadora do TCC. “Entrou uma professora maravilhosa na minha vida, Betânia Buarque, essa professora foi a diferença fundamental para eu tivesse concluído esse curso”, diz ele emocionado. “Ela foi como uma irmã mais madura que me deu o ombro, o braço, persistiu, me encorajou, me incentivou, me orientou, teve muita paciência com meus erros e minhas dificuldades, sem ela não teria conseguido concluir esse trabalho”, ressalta. 

“Tive duas professoras-orientadoras de campo e de estágio, mas não consegui concluir, não consegui avançar em nada, porque o material não era adaptado”, justifica. “Disse uma vez para a minha orientadora de relatório de conclusão de estágio: Olha, eu não sou burro, sou programador de computador, tenho capacidade cognitiva, não tenho nenhum problema de saúde nesse sentido, então o que está havendo é questão estrutural, falta de estrutura”, relembra. “Não consegui avançar com essas duas coordenadoras de estágio, finalmente, a professora Betânia entrou e fez a diferença. Com ela, consegui concluir o relatório de estágio, um relatório denso de mais de 60 páginas, e consegui concluir o TCC. Ela foi muito paciente, orientou com muita dedicação”, reconhece. 

Suporte e TCC sobre o NAC 

Diante de tantas dificuldades para conseguir acompanhar as aulas e o conteúdo, Paulo lembra de  um constrangimento que passou por não saber pronunciar nem escrever o nome do principal teórico do curso. “Você ouve, mas não está vendo a escrita. Pede para o computador lê, mas é aquela leitura mecânica. Eu suspeitava de que estava errado”. Essa situação, ele afirma que com “o NAC começou a melhorar”. 

“O NAC se efetivou na Ufal desde 2013, mas, estruturalmente, veio dar uma melhorada a partir de 2016. Então, até 2016, eu vinha lutando com essas dificuldades de conteúdo adaptado. O processo de estudo do deficiente visual tem muita base na escuta do conteúdo”, argumenta. Segundo Paulo, por meio do Núcleo, ele conseguiu “acompanhante que lia as provas, escrevia minhas respostas, fazia uma mediação junto à professora e apoiava também na locomoção”. 

Usuário dos serviços do Núcleo de Acessibilidade e consciente de sua importância, Paulo abordou o tema em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). O trabalho, explica, teve o “objetivo de trazer o NAC para a comunidade como um instrumento que viabiliza o processo acadêmico dos alunos”. De acordo com o mais novo assistente social, o espaço “era sempre em um local meio escondido, e no meu TCC defendo que ele seja tipo um cartão-postal da Ufal, pois universidade sem inclusão fica a desejar”. E destaca: “Seria importante que os alunos tivessem um convívio com esse núcleo para começar o processo de assimilação da deficiência a partir da universidade e, consequentemente, termos uma sociedade melhor, mais inclusiva, mais humanizada”.